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LETRAS CLÁSSICAS, n. 12, p. 283-288, 2008.

de Odisseu, até que pai e filho se reencon-


Homero. Odisseia. Edição bilíngue. Tra-
trem em sua terra natal.
dução, posfácio e notas de Trajano Vieira.
São Paulo: Editora 34, 2011. 816 p. ISBN Um poema de temas atemporais, mol-
978-85-7326-468-5 dado numa estrutura tão bem construída
quanto a de um romance ou de um filme
contemporâneo, sem dúvida, a Odisseia tem
As viagens de Odisseu têm encantado muito a nos dizer e sempre terá enquanto
o mundo, geração após geração, por quase houver alguém para lê-la ou para cantá-la.
três mil anos. Seus temas e motivos são mo- No entanto, a nossa Odisseia não é a mesma
delares, universais. A estrutura do mito de que a dos gregos antigos, nem será a mesma
Odisseu, desde sua partida de Ítaca até seu que se lerá amanhã ou depois.
retorno, representa um dos exemplos mais A Odisseia dos gregos, como se sabe pe-
clássicos do monomito, da Jornada do Herói los estudos de Parry e Lord, foi fruto de uma
segundo a acepção de Joseph Campbell. longa tradição oral, em que uma sucessão
Deixando casa, mulher e filho recém- de aedos trabalhou para o aprimoramento
nascido a contragosto, Odisseu passa por e para a expansão do poema, até que atin-
inúmeras provações, tanto em terra quanto gisse uma forma mais ou menos como a que
em mar. Entre monstros incivilizados e mu- temos hoje por escrito. A nossa Odisseia,
lheres tentadoras, o herói experimenta uma por sua vez, é fruto não só dessa antiga tra-
espécie de morte simbólica ao descer para dição, mas também de quase três mil anos
o Hades em busca de guiamento. Recebe de leitura e de interpretação, de mudanças
auxílio sobrenatural de diversas entidades e sociais, políticas e religiosas, de guerras e de
principalmente de Atena. Chega à terra pa- eventos que se associaram, em nosso ima-
radisíaca dos Feácios e, enfim, consegue re- ginário, aos próprios eventos da história de
tornar para Ítaca, onde restabelece a ordem Odisseu. Em meio a isso tudo, no entanto, a
cívica por meio da matança dos pretenden- nossa Odisseia é também o produto de uma
tes e da reconquista de seu posto régio. tradição de tradutores.
Partida, morte, ressurreição e retorno. Aqui cabe a resposta a uma pergunta
A estrutura geral do mito é tão bem cons- que talvez se faça ao receber a notícia de
truída quanto suas partes individuais e to- mais uma tradução da Odisseia: era necessá-
dos os pequenos detalhes narrativos que o rio traduzi-la novamente?
fazem uma das histórias preferidas do oci- Talvez não fosse necessário, num sen-
dente há tantos séculos. A narrativa in me- tido simplista, mas, sem sombra de dúvida,
dias res, em que Odisseu discorre acerca dos foi algo muito bem-vindo. Cada nova tra-
eventos anteriores à sua chegada na terra dução da Odisseia é, em primeiro lugar, uma
dos Feácios, tornando-se o próprio narra- oportunidade renovada de reler a épica de
dor de grande parte do poema, é de uma Homero sob uma perspectiva diferente. As-
genialidade impressionante para um texto sim como o monomito é recontado conti-
tão antigo. O mesmo se pode dizer da dupla nuamente, sob caracteres distintos, em cada
ótica da narrativa, que se alterna, cuidado- uma das histórias que seguem o padrão da
samente, entre a aventura de Telêmaco e a Jornada do Herói, também os textos antigos

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são renovados a cada nova tradução. A de dos de sua tradução ou de uma explicação
Trajano Vieira tem o mérito de compreen- dentro do próprio texto do poema:
der perfeitamente essa missão e inserir-se
sem temer a vingança, nêmesis dos homens
numa tradição bem-definida, a que perten-
(xxii.40)
cem, entre outros, Odorico Mendes, Carlos
Alberto Nunes e Haroldo de Campos, cujas vagueava, a fúria de Ate na mente demente
(xxi.302)
traduções, somadas à de Vieira, começam a
configurar um tesouro nacional: uma tradi- ... E aguentaste até que a métis
ção de traduções de Homero. – solércia do pensar – te retirou da furna
(xx.21)
Trabalhando com grande liberdade,
...Aurora
Vieira utiliza tanto o léxico já existente em
rododáctilos, dedirrósea ...
língua portuguesa quanto termos novos que (xiii.17-8).
ele cunha a partir da semelhança morfoló-
gica com os vocábulos gregos. Essa liber- Essa estratégia de Vieira não é um mero
dade de trabalho reflete uma característica ornamento, como talvez se possa pensar.
existente na própria poesia de Homero, que Com efeito, a presença desses termos gregos
empregava uma linguagem artificial, onde colabora para dar maior enfoque e vida a
palavras novas e antigas coexistiam em prol conceitos importantes do poema, que nem
da criação do poema. Nela, portanto, a lin- sempre são chamativos o bastante para um
guagem contemporânea (à época) se mistu- leitor contemporâneo. Quando os gregos
rava a arcaísmos e às inovações linguísticas antigos ouviam um termo como kléos, ele
dos poetas que trabalhavam no poema. não era uma glória descontextualizada, como
Vocábulos não só podiam ser criados pela a nossa talvez seja. A palavra tinha um eco
junção de radicais e afixos [1], mas também profundo em toda a tradição heróica que
decompostos em partes isoladas, resultando tratava do tema, bem como na própria ex-
na tmese [2] que Vieira também emprega periência de vida do indivíduo, num mundo
em sua tradução de modo inovador: onde a glória era um fator mais presente do
que no nosso. Dessa forma, ao apresentar o
... Com macrolança [1], o herói feria, próximo, termo em Grego, Vieira nos alerta ao fato
o Damastóride, e o filho enterra a seta
de que ali reside um conceito importante,
no ventre de Leócrito Evenoride:
per(bronze)passa-o [2] ... (xxii.294-7). alheio à nossa realidade, e que merece uma
atenção dobrada. Com isso, ele nos ensina
O empenho de Trajano Vieira, assim Homero a partir do próprio Homero, dispen-
como foi o de Odorico Mendes e de Ha- sando uma nota de rodapé para tanto.
roldo de Campos, é definitivamente o de A complexidade lexical do texto de
adaptar o Português para conter o Grego, e Vieira, no entanto, não compromete a sin-
não mudar o Grego para se encaixar no Por- taxe do poema, que é geralmente simples,
tuguês. Suas inovações não são apenas lexi- assim como a do texto grego. Para alcançar
cais e sintáticas, como as vistas acima, mas essa sintaxe simples num verso de menor ex-
chegam também até o empréstimo direto de tensão que a do original, no entanto, Vieira
termos-chave do texto grego, acompanha- muitas vezes é obrigado a ser bastante sinté-

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tico, ou mesmo deixar de traduzir algumas entre os demais, falou-lhe Atena de olhos blaus
das fórmulas mais repetitivas. O verso for- (vii.47).
mular abaixo, por exemplo, o qual introduz
falas de Palas Atena, recebe duas traduções Contudo, Vieira parece alterar os epíte-
bastante sucintas no primeiro canto: tos não só por necessidades métricas. Isso se
evidencia pelo tratamento de um dos prin-
τὸν δ’ αὖτε προσέειπε θεὰ γλαυκῶπις Ἀθήνη· cipais epítetos de Odisseu, polýmetis, que
Atena, olhos azuis... (i.177) aparece na tradução de Vieira, por exemplo,
Atena... (i.221).
como “pluriastuto” (i.174), “multiarguto”
(iv.763), “pluriarguto” (v.214), “plurienge-
O tamanho da perda que se tem com isso nhoso” (vii.207) e “multissolerte” (vii.240).
depende, sem dúvida, do quanto se lê a par- Em alguns desses casos, como de “blaus” e
tir de um epíteto. No mínimo, no entanto, ”glaucos”, Vieira poderia ter se atido a uma
é possível dizer que se trata de um afasta- única tradução. No entanto, ele toma uma
mento da mentalidade do texto original. Da licença poética da qual Homero também
mesma forma, pode-se argumentar que ter gozava, de variar os epítetos de deuses e he-
apenas um nome introduzindo uma fala é róis de acordo com o que lhe parece mais
algo que quebra um pouco a poeticidade e adequado, seja pela sonoridade, pela mé-
o calmo ritmo narrativo do texto homérico. trica, ou simplesmente pela possibilidade de
No entanto, ao traduzir, é sempre preciso existir uma variedade de epítetos semelhan-
fazer escolhas e cortes, e Vieira certamente tes. Essa possibilidade é tanto maior no do-
os faz de forma consciente, orientado pelas decassílabo empregado, que permite o aco-
mesmas diretrizes durante o texto inteiro, lhimento a uma grande variedade de termos
com um propósito bem-definido. A perda de diferentes acentuações. Se Vieira tivesse
que se tem de um lado, decerto resultante se limitado a repetir a mesma solução para
do uso de um verso menos extenso que o uma fórmula ou epíteto durante o texto in-
original, é compensada pela própria natu- teiro, teria deixado de usar todo o potencial
reza do dodecassílabo, o qual suporta uma do verso que emprega. Por conta disso, a va-
variedade maior de acentos e de variações riedade em seu texto parece ser uma carac-
internas do que, por exemplo, o hexâmetro terística positiva, que compensa as possíveis
dactílico de que Carlos Alberto Nunes fez perdas mencionadas anteriormente.
uso com bastante primor. As influências mais diretas de Vieira em
Pode-se imaginar (talvez erronea- língua portuguesa, como ele próprio aponta
mente) que, também pela extensão do em seu livro, são Odorico Mendes e Ha-
verso, Vieira não se atenha a uma mesma roldo de Campos. De fato, o tradutor ado-
tradução para os epítetos. Em sua tradu- tou o mesmo verso dodecassílabo de Cam-
ção, os olhos de Atena são “azuis” (i.177), pos e, como ele, faz uso de um vocabulário
“glaucos” (i.314) e “blaus” (vii.47), ainda invejável e de diversas inovações lexicais,
que neste último caso o tradutor pudesse como fazia também Odorico Mendes.
ter empregado “glaucos” sem modificar o É possível, de fato, sentir a influência
número de sílabas poéticas do verso: de Haroldo de Campos em algumas das

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soluções adotadas por Trajano Vieira. Por parecer inicialmente um pleonasmo, traz
exemplo, o uso de “priâmea urbe” (v.108, para nossa língua uma imagem diferente
xxi.532) parece ecoar um dos versos da Ilí- e inexplicável para a vastidão do mar. Re-
ada de Haroldo de Campos: cuperando essa construção empregada por
Haroldo Campos nos fragmentos que tradu-
que a vós os deuses dêem, habitantes do Olimpo,
ziu da Odisseia,1 Trajano Vieira demonstra
derruída a priâmea urbe, um bom retorno à casa
(I.18-9). sua sensibilidade ao perceber, nessa ousadia
tradutória, uma centelha de gênio que me-
O próprio “derruída” do verso acima rece ser imitada:
também aparece num contexto semelhante
Haroldo de Campos:
na tradução de Trajano Vieira, onde a in-
da guerra e do talásseo mar... (i.13)
fluência de Haroldo de Campos se mostra
talvez ainda mais evidente: Trajano Vieira:
terríveis do infecundo mar talássio imerge
derruída a priâmea cidadela alcantilada
(v.51).
(xiii.316).
A influência de Haroldo de Campos é,
Aliás, o termo “priâmea”, empregado
realmente, bastante notável no trabalho de
por Trajano Vieira e Haroldo de Campos,
Trajano Vieira. Contudo, o tradutor não se
já era usado por Odorico Mendes, como se
limita, de forma alguma, a apenas copiar seu
pode ver no verso abaixo, de sua tradução
mentor. Ainda que adote várias das solu-
da Ilíada:
ções de Haroldo de Campos, Trajano Vieira
A Priâmea cidade e as naus atenta (XIII.11). executa seu trabalho a seu próprio modo.
A característica mais marcante disso, que
Entre outros casos, percebe-se ainda, pode mesmo passar despercebida devido à
na Odisseia de Trajano Vieira, a influência sua própria naturalidade, é a mestria com
de Odorico Mendes (I.417) pelo uso de “de- que o tradutor emprega o dodecassílabo.
dirrósea”, como se viu em um dos exemplos
Com efeito, Vieira demonstra uma
citados anteriormente, bem como pelo em-
consciência rítmica extremamente apu-
prego de “alcáçar”/”alcácer” para designar a
rada. Ainda que tenha adotado um verso
morada de Zeus:
de métrica diferente da do original, o tra-
Odorico Mendes: dutor foi capaz de ser fiel à característica
... e estavam já no alcáçar rítmica principal do texto grego, que é a
Do Olimpo os habitantes, em concílio (i.22-3)
fluência constante dos dáctilos e dos espon-
Trajano Vieira: deus (que numa recitação em Grego tinham
reuniam-se no alcácer do Cronida olímpio uma equivalência temporal, mantendo um
(i.27).
1
Cito a edição feita pela Olavobrás, que reúne alguns
Entre outros exemplos da influência fragmentos publicados anteriormente e outros iné-
desses tradutores sobre Vieira, um dos mais ditos: CAMPOS, Haroldo de. Odisséia de Homero:
fragmentos. Organização: Ivan de Campos e Marcelo
marcantes é o uso comum, entre Campos Tápia. Apresentação: Trajano Vieira. São Paulo: Ola-
e Vieira, de “talásseo mar”, que, apesar de vobrás, 2006.

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mesmo ritmo). Vieira, em sua tradução, re- em / seu / so / lar, / a / sal / vo /


produz essa fluência em versos majoritaria-   do / mar / cin / za e / guer / ra,
ti / ran / do o / nos / so, / que ar / de /
mente jâmbicos, alguns de beleza extrema-
  pe / la es / po / sa e / vol / ta.
mente marcante, como os seguintes:
Quando Vieira varia a construção de
O vento enfuna a vela e a ôndula de espuma
Rebenta urlando à quilha do navio que avança seu dodecassílabo, ele o faz munido de um
(ii.427-8) cuidado com o ritmo e com a eufonia que
não se vê nos versos de Campos citados
agora, mêmores do mar que vos estafa,
acima:
o trauma do sofrer atroz impede o riso
(x.464-5). O ho / mem / mul / ti / ver / sá / til, /
  Mu / sa, / can / ta, as / mui / tas (i.1)
Essa fluência rítmica é alcançada, em
Fil / ha / de / Zeus, / co / me / ça o /
grande parte, devido às boas escolhas que
  can / to / de al / gum / pon / to! (i.10)
Vieira faz ao selecionar as palavras para seu
texto, evitando hiatos e encaixando as pa- me / nos / Po / sêi / don, / ran / co / ro / so /
  de O / dis / seu (i.20)
lavras umas nas outras com naturalidade,
evitando junções cacofônicas ou que pare- tou / ros / e o /vel / has / cre / pi / tan / do em /
çam forçadas. Em termos rítmicos, de fato,   seu / lou / vor (i.25).
parece justo dizer que a tradução de Vieira
é mesmo superior à de Campos, que, por No entanto, apesar de ter superado seu
vezes focado na imagem e no conteúdo do sênior nesse aspecto, Vieira não deixa de
poema, parecia usar o metro apenas como prestar-lhe homenagem onde ela lhe é de-
uma extensão de sílabas a serem preenchi- vida, empregando as mesmas soluções de
das, e não como uma estrutura rítmica bem- Campos em partes de sua tradução, como
definida. Não que Campos também não foi apontado anteriormente.
tivesse versos de ritmo extremamente bem- Para finalizar, é necessário mencionar
trabalhado, mas ele parecia se preocupar que a presente edição vem acompanhada
menos com deslizes rítmicos e de cacofonia do texto grego original, confrontado pela
do que Vieira, que é praticamente impecá- tradução de Vieira. Traz ainda mapas da
vel nesse quesito. Isso se pode perceber em Grécia homérica, índice onomástico, re-
parte nos trechos comparados abaixo: sumo dos cantos, um posfácio do tradutor,
um ensaio de Ítalo Calvino e excertos da
Haroldo de Campos (i.11-3):
fortuna crítica homérica. Juntos, esses ins-
To / dos / os / que es / ca / pa / ram /
  da / ruí / na ex / tre / ma, es / ses trumentos certamente auxiliarão o leitor
a / go / ra es / tão / nos / la / res, / leigo a aproveitar melhor o texto e a se si-
  to / dos / e / les, / sal / vos tuar nas discussões a respeito da épica ho-
da / guer / ra e / do / ta / lás / seo / mar. / mérica e da Odisseia em particular.
  A O / dis / seu, / só a e / le,
Uma ressalva que se pode fazer, no en-
Trajano Vieira (i.11-3):
tanto, é que a tradução de Vieira não é fácil
Não / há / um / só / he / rói / que / de se ler. Ela requer um compromisso com
  não / se en / con / tre a / go / ra o texto: um abandono do uso corrente das

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palavras em prol de sua sonoridade, bem No entanto, um leitor leigo certamente


como um estado de espírito receptivo às também terá prazer em lê-la pela poetici-
inovações lexicais do tradutor. Fora isso, é dade do texto de Vieira.
possível dizer que sua tradução talvez seja
mais proveitosa àqueles que já têm alguma
noção de Grego e entenderão as nuances Resenha de
com que o tradutor trabalha, as quais acen- LEONARDO ANTUNES
tuam as próprias características do original. Universidade de São Paulo

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