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Universidade Federal do Rio de Janeiro

Instituto de Filosofia e Ciências Sociais

Departamento de História

O jornal Última Hora no governo João


Goulart (1961-1964)

Autor: Fábio Dias Nascimento


Orientador: Renato Lemos

Rio de janeiro

2010
AGRADECIMENTOS

Agradeço a todos que colaboraram direta e indiretamente para a realização desta


monografia. Pelo apoio incondicional agradeço a minha família, que me incentivou em
todas as etapas da minha vida.

Academicamente agradeço ao meu orientador Renato Lemos, sem o qual este projeto
não seria possível. Ainda pelo suporte acadêmico, e pessoal, agradeço a minha amiga
Mariana Cabra Amorim, que muito me ensinou em nossa trajetória universitária.

2
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO............................................................................................................... 1

CAPÍTULO I

IMPRENSA E POLÍTICA............................................................................................. 8

CAPÍTULO II

O POPULISMO BRASILEIRO.................................................................................... 14
FORMAÇÃO DO ESTADO POPULISTA.................................................................. 14
CRISE DO POPULISMO............................................................................................. 22

CAPÍTULO III

AS MENSAGENS......................................................................................................... 28

A CRIAÇÃO DO COMANDO GERAL DOS TRABALHADORES.......................... 28

A REVOLTA DOS SARGENTOS DE 1963................................................................ 34

CONCLUSÃO............................................................................................................... 41

BIBLIOGRAFIA........................................................................................................... 43

3
INTRODUÇÃO

Este estudo busca analisar como o jornal Última Hora (UH) atua no cenário
político em dois episódios: a criação do Comando Geral dos Trabalhadores e a Revolta
dos Sargentos de 1963. Este periódico era diretamente vinculado a ideologia populista
getulista e tinha participação ativa no cenário político nacional. A escolha dos eventos
se justifica pelos significados a eles atribuídos em função da crise do populismo,
durante o governo Goulart (1961-1964).

Para ilustrar como um veículo de mídia pode atuar politicamente, no Capítulo I


me remeto às reflexões de Gramsci sobre os conceitos de “partido” e “hegemonia”.
Recorro, também, a duas dissertações de mestrado que, seguindo estes conceitos,
analisam os periódicos Jornal do Brasil e O semanário, em recortes dentro do governo
Goulart. Desta forma podem-se identificar interesses de linhas políticas contemporâneas
e como a mídia impressa do período atuava em defesa destas, permitindo, assim,
entender como e com quais objetivos o Última Hora agiu.

No Capítulo II, faço uma análise do populismo, recorrendo à pesquisa de René


Armand Dreifuss sobre o processo que levou ao Golpe de 1964, como ideologia e como
prática política, buscando seus mecanismos de funcionamento em suas origens, na
década de 1930, no governo Vargas. O populismo foi uma forma de organização do
governo e de regime. Constituiu-se em uma fórmula nacional de “desenvolvimento” que
tentava estabelecer uma hegemonia burguesa, sintetizando a limitada convergência de
classe no poder, o corporativismo associativo e autoritarismo do Estado Novo. O
populismo era um meio para o Executivo estabelecer um limitado esquema de
mobilização política nacional de massas urbanas. Teve como base uma estrutura
sindical controlada pelo Estado e o apoio de partidos criados através da influência de
Getúlio Vargas.1

No Capítulo III, por fim, analiso cada episódio recortado separadamente, fazendo,
primeiramente, uma breve introdução do evento. Então, para analisar como as notícias eram
interpretadas pela mídia escrita, selecionei três periódicos: o Jornal do Brasil, O Semanário,
analisados no Capítulo I, e o Tribuna da Imprensa, opositor de Jango e representante
1
DREIFUSS, René Armand. 1964: A Conquista do Estado. Ação Política, Poder e Golpe de Classe.
Petrópolis: Vozes, 1981, p. 27.

4
dos setores de direita e conservadores, detalhados no Capítulo II. Enfim, analiso as
mensagens do Última Hora nos dias seguintes aos episódios selecionados. Desta forma
busco entender como, nessas situações de crise, o UH agiu politicamente em defesa dos
interesses do presidente.

As fontes primárias utilizadas serão os jornais Última Hora, Tribuna da Imprensa,


Jornal do Brasil e O semanário, das primeiras edições que narram os dois episódios.
No entanto, para se entender o papel que o Última Hora teve politicamente nos
anos 1960, faz-se necessário levar em consideração, primeiramente, algumas
características do sistema de mídia brasileiro.

Este, desde seu princípio, foi marcado pelo monopólio familiar dos meios de
comunicação, o que limitou o direcionamento ideológico de um jornal, por exemplo, à
defesa dos interesses e valores de um pequeno, e bem específico, grupo de pessoas. A
baixa circulação dos jornais no Brasil, associada ao pequeno número de leitores, teve
como conseqüência, no campo da grande imprensa, um jornalismo orientado
prioritariamente para a elite e permeável à influência externa. Percebe-se, também em
função desta baixa circulação, a dificuldade de um jornal alcançar autonomia financeira,
fazendo-se necessário financiamento de terceiros para a saúde econômica de um
periódico. Em conseqüência desta dependência, a grande imprensa assumiu um
compromisso com interesses de seus financiadores, as elites. Este conjunto de fatores
fez do campo jornalístico brasileiro pouco diversificado politicamente e com um perfil
conservador.2

Foi somente a partir da década de 1930 que os meios de comunicação assumiram


um papel central no cenário nacional, sendo atores importantes em muitos momentos
políticos decisivos. Esta mudança teve inicio durante o Estado Novo (1937-1945),
motivada pelas novas necessidades de influenciar a opinião pública, apresentadas neste
governo por Getúlio Vargas. 3 Em relação à imprensa durante o Estado Novo, Marialva
Barbosa escreve:

2
AZEVEDO, F. A. “Mídia e democracia no Brasil”. In: Opinião pública. Campinas: vol. 12, n. 1,
Abril/Maio, 2006, p. 88-113.
3
BARBOSA, Marialva. “Imprensa e poder no Brasil pós-1930”. In: Em Questão. Porto Alegre: vol. 12,
n. 2, p. 215-234, jun./dez. 2006.

5
Falar (,...,) da imprensa durante os primeiros quinze anos em que
Getúlio Vargas esteve à frente do governo é se referir às complexas relações
de poder que se estabelecem, à questão do Estado, entendido de maneira
ampliada, tal como concebeu Gramsci e, finalmente, compreender a
formação de um pensamento que se construía como dominante e que será
fundamental para a formulação dos ideais estadonovistas. Havia a
preocupação em incluir um novo personagem: o público agora visto como
massa. Havia, ainda, a construção de um ideal de nação, no qual prevalecia a
idéia de direcionamento político e intelectual dos que ocupavam posição
dominante face ao restante da população.4

Foi neste período, por exemplo, que se construiu o mito Vargas, moldando a
imagem do presidente como “pai dos pobres”, “líder das massas urbanas” e “defensor
dos grupos menos favorecidos”. O Estado Novo, no entanto, foi marcado por
contradições no campo midiático. Embora órgãos de imprensa tenham se desenvolvido
e aumentado seu alcance, em 1939 com a criação dos Departamento de Imprensa e
Propaganda (DIP), os jornais tiveram sua liberdade de expressão cerceada pela ação da
censura.5

Com o fim do Estado Novo, e da censura, em 1945, os meios de comunicação


passaram se impor como atores sociais, no sentido gramsciano, conforme o jornalismo
vai se desenvolvendo. Segundo Marialva Barbosa:

O que se procura construir naquele momento é a autonomização do


campo jornalístico em relação ao literário, fundamental para a
autoconstrução da legitimidade da profissão. Assim, as reformas dos jornais
na década de 1950 devem ser lidas como momento de construção, pelos
próprios profissionais, do marco-fundador de um jornalismo que se faz
moderno e permeado por uma neutralidade fundamental para espelhar o
mundo. A mítica da objetividade – imposta pelos padrões redacionais e
editoriais – é fundamental para dar ao campo lugar autônomo e reconhecido,

4
BARBOSA, Marialva. Op. cit, p. 222.
5
Ibid, pp. 219-222.

6
construindo o jornalismo como a única atividade capaz de decifrar o mundo
para o leitor.6

Os jornais, ao priorizarem, a partir daí, um conteúdo enfeixado pela


idéia de imparcialidade contida nos parâmetros de lide e da edição, no qual o
corpo de copy-desk ganha destaque, que ao promoverem a padronização de
linguagem, constroem para a imprensa o espaço da neutralidade absoluta.
Com isso, passam a ter o reconhecimento de público como lugares
emblemáticos para a difusão da informação, ainda que a carga opinativa
nunca tenha sido alijada das publicações.7

Foi dentro deste contexto que, em 1951, nasceu o jornal Última Hora, cuja
história se funde com a de seu fundador, Samuel Wainer. Paulista, filho de imigrantes,
Wainer teve uma origem humilde. Dedicou-se ao jornalismo trabalhando nos Diários
Associados de Assis Chateaubriand. Já possuía alguns artigos de respaldo quando sua
carreira jornalística se destaca ao conseguir uma entrevista com Getúlio Vargas em
1949. Vargas mantinha um mutismo público no cenário nacional desde 1947 e
anunciou, através de uma entrevista concedida a Wainer, que voltaria à política como
“líder de massas, e não de partidos”.8

Vargas lançou sua campanha à presidência para as eleições de 1950 e Wainer


ganhou uma enorme projeção como seu repórter de acesso privilegiado. Getúlio era
objeto de antipatia da grande imprensa que temia sua volta à política, justificada pela
capacidade de manobra das massas populares e pelas práticas ditatoriais implementadas
no Estado Novo, como a censura. Mesmo assim Vargas conseguiu um forte apoio das
camadas populares e foi eleito.

A imprensa reagiu “silenciando” Getúlio. Ele era mencionado apenas em


situações negativas, não tendo apoio da mídia impressa. Este boicote levou Vargas a
buscar Wainer para criar um jornal que o apoiasse. Ele garantiu, através de sua
influência, os financiamentos necessários para o nascimento do jornal, batizado Última
Hora. Segundo Wainer, o objetivo do jornal era romper com a formação oligárquica da

6
BARBOSA, Marialva. Op. cit, p. 223.
7
Ibid, p. 224.
8
WAINER, Samuel. Minha razão de viver. Rio de Janeiro: Record, 1988, p. 22.

7
imprensa brasileira e dar início a um tipo de imprensa popular independente.9 Seu
propósito mais imediato, no entanto, foi quebrar o silêncio do resto da imprensa em
relação a Vargas, no que foi bem sucedido.

O UH apresentava a ambiguidade populista, tentando cooptar tanto as elites


quanto as massas. Continha sessões direcionadas aos dois setores, seguindo uma linha
capitalista e nacionalista. Novas táticas e técnicas fizeram a Última Hora ganhar
projeção conferindo-lhe a condição de voz populista, ou, a voz de Getúlio.

Desde logo, o UH definiu-se como um jornalismo participativo e comunitário,


atuando especialmente no campo do jornalismo opinativo e do jornalismo
interpretativo, para usarmos as categorizações normalmente evocadas pelos estudiosos
do fenômeno jornalístico.
Uma das principais novidades trazidas pelo Última Hora foi a regionalização.
Wainer desdobrou seu periódico em uma série de jornais, começando em São Paulo e se
expandindo, posteriormente, para Belo Horizonte, Recife, Curitiba e, enfim, Porto
Alegre. Todas as filiais, no entanto, recebiam notícias nacionais da sede carioca,
garantindo coesão no discurso do jornal.
Durante todo o governo de Getúlio o Última Hora foi seu porta voz. Ele,
freqüentemente, segundo Wainer, direcionava o posicionamento do jornal sobre alguma
questão específica ou apontava algum fato a ser destacado. Conforme ganhava projeção
o Última Hora era mais atacado pela imprensa, sendo os principais opositores a Tribuna
da Imprensa, de Carlos Lacerda, e os Diários Associados, de Assis Chateaubriand. No
dia de sua morte o jornal teve uma vendagem de oitocentas mil cópias e foi um dos
únicos não atacados por multidões revoltas.

O Última Hora sobreviveu à morte de Getúlio, tornando-se um símbolo do seu


legado, e passou seu apoio à candidatura de Juscelino Kubitschek. Foi o único jornal a
aprovar, sem restrições, a construção de Brasília. Passado os anos do governo Juscelino
Kubitschek (1956-1961), o UH lutou contra Jânio Quadros nas eleições de 1960,
apoiando o Marechal Henrique Teixeira Lott. Apesar da oposição a sua candidatura,
Jânio, quando eleito, buscou o apoio de Wainer. Seu jornal já havia se tornado sólido e
uma grande influência, mesmo não recebendo todo o apoio que tinha quando Vargas era
vivo.

9
WAINER, Samuel. Op. cit., p. 123-30.

8
Criado para ser a voz de Getúlio, o UH continuou a sê-lo após a sua morte. Vargas
ainda existia no imaginário popular, o que garantia o prestígio do jornal frente a uma
massa trabalhista nacionalista. Esta força fez do jornal uma importante instituição
política.

Durante a Crise da Legalidade, em 1961, o Última Hora apoiou a posse de Jango


e condenou articulações golpistas. Com a aprovação do remendo constitucional, que
instaurou o regime parlamentarista, ganhou maior apoio político, devido à proximidade
já existente entre João Goulart e Wainer, e econômico, através de mais acesso aos
empreiteiros.

Podemos perceber, entre a posse de Jango e Golpe Militar de 1964, uma mudança
do discurso ideológico do periódico. A linha política populista ficava cada vez mais
obsoleta em meio a uma tendência de radicalização política, analisada no capítulo 2. Em
suas memórias Wainer afirma que, mesmo discordando de atitudes de Jango que
considerava extremadas, apoiava o presidente:

A força dos grupos radicais no interior do governo tornou-se tão


aguda que passou a influenciar a própria linha da Última Hora,
levando o jornal a defender teses que não eram minhas. Nos bastidores
eu fazia o possível para evitar que Jango fosse longe demais. Mas não
convinha transformar o jornal em porta voz das minhas próprias
idéias, uma vez que ele se incorporara ao esquema de sustentação do
governo. Assim, houve momentos em que a Última Hora pareceu
favorável à execução de reformas perigosamente ousadas, ou até
mesmo à consumação de um golpe de esquerda. Eu não podia atacar o
comportamento de Goulart e seus aliados, ou supostos aliados, no meu
jornal.10

O Última Hora radicalizou conforme Jango o fez. Manteve seu apoio às propostas
de Reformas de Base, às restrições ao capital estrangeiro e no episódio da Revolta dos
Marinheiros de 1964, quando toda a imprensa se voltou contra presidente. No entanto, o
jornal teve um papel particular e fundamental neste cenário político, pois era o órgão
10
WAINER, Samuel. Op. cit., p. 249.

9
responsável pela defesa dos interesses presidenciais na mídia impressa. Como esta
defesa ocorreu é o que esta pesquisa analisa.

10
CAPÍTULO I
IMPRENSA E POLÍTICA

Ao longo do século XX percebeu-se que a imprensa adquire um papel social


fundamental na maioria das sociedades. Ela constantemente aumentou seu alcance,
velocidade de transmissão, capacidade de produção e reprodução da informação,
ampliando, então, sua influência social. É exatamente esta capacidade de influenciar
grandes públicos que fez a imprensa tornar-se, cada vez mais, um instrumento de poder
muito importante para o meio político. Nelson Werneck Sodré apontava, já na década
de 1960, uma estreita ligação entre o desenvolvimento da sociedade capitalista e o
desenvolvimento da imprensa, devido à influência que a “difusão impressa exerce sobre
o comportamento das massas e dos indivíduos”.11
Para entender o papel que o Última Hora desempenha no cenário político
brasileiro, no início dos anos 1960, recorro às reflexões de Antônio Gramsci em relação
a órgãos de imprensa. Segundo ele, a análise de um órgão de imprensa pode ser feita em
sua atuação como “partido”. O autor entende como partido político um organismo que,
na sociedade civil, elabora e reproduz diretrizes políticas e, ainda, apresenta meios para
aplicação das mesmas.

Será necessária a ação política (no sentido estrito) para que se


possa falar de “partido político”? Observa-se que no mundo moderno,
em muitos países, os partidos orgânicos e fundamentais se dividem,
por necessidades de luta ou por qualquer outra razão, em frações que
assumiram o nome de “partido” e, inclusive, de partido independente.
Por isso, muitas vezes o Estado-Maior intelectual do partido orgânico
não pertence a nenhuma das frações, mas opera como se fosse uma
força dirigente superior aos partidos e às vezes reconhecida como tal
pelo público. Esta função pode ser estudada com maior precisão se
parte do ponto de vista que um jornal (ou um grupo de jornais), uma
revista (ou um grupo de revistas), são também eles “partidos”,
“frações de partidos” ou “funções de um determinado partido”.12

11
SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. São Paulo: Martins Fontes, 1983, p. 1.
12
GRAMSCI, Antonio. Maquiavel, a Política e o Estado Moderno. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1984, pp. 22-23.

11
A imprensa passou a realizar seu papel de disseminadora e formadora de opinião
de forma mais rápida, direta e impactante sobre o público quando comparado às
agremiações políticas, tornando-se um instrumento ou parte substancial destas. Um
órgão de imprensa difere de um “partido orgânico”, neste aspecto de formador de
opinião, pois não necessita da iniciativa do receptor da informação. Um partido precisa
que seu público esteja pré-disposto a ouvi-lo e a buscar suas opiniões. A imprensa, no
entanto, se adapta a seu público alvo veiculando e editando a informação para o leitor.
Este papel político que a imprensa adquire é fundamental para a dominação da
sociedade por um grupo, ou determinados grupos. Este tipo de dominação no campo das
idéias é conceituado por Gramsci como hegemonia.13 Este conceito trata de uma
dominação na esfera ideológica necessária para que o restante da sociedade aceite, ou
até exija, as diretrizes propostas. Isto é necessário para que um grupo possa ter certo
controle da sociedade com o mínimo de violência.
Segundo Gramsci este domínio ocorre no nível das superestruturas, que ele
divide, para fins de análise, em “sociedade civil” e “sociedade política”. A “sociedade
política”, ou “o Estado”, consiste nas instituições públicas, que detém o monopólio legal
da violência e exercem a “dominação direta”, como as Forças Armadas por exemplo. A
sociedade civil compreende organismos “privados” e voluntários (partidos,
organizações sociais, meios de comunicação, escolas, igrejas), que elaboram e difundem
ideologias e valores simbólicos que visariam à direção da sociedade.14
Portanto, para um grupo estabelecer as diretrizes de uma determinada sociedade
não basta este buscar o controlar apenas o Estado, mas também os canais ideológicos da
sociedade civil. Esta capacidade de unificar grupos sociais em torno de um ideal
benéfico para o grupo dominante é a hegemonia que Gramsci conceitua e a busca por
esta hegemonia que faz da imprensa um ator politicamente importante.
Seguindo esta linha analítica, Marcio Santos Nascimento, em sua dissertação de
mestrado, pesquisou como o Jornal do Brasil agiu politicamente nos meses que
antecederam o Golpe de 1964.15 Seu objetivo é demonstrar como este periódico
colaborou para a aceitação do Golpe civil-militar pela opinião pública e para isto

13
GRUPPI, Luciano. O conceito de hegemonia em Gramsci. Rio de Janeiro: Graal, 1978.
14
SEMERARO, Giovanni. Gramsci e a sociedade civil. Petrópolis: Vozes, 1999.
15
NASCIMENTO, Marcio S. A participação do Jornal do Brasil no processo de desestabilização e
deposição do presidente João Goulart. Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro: Programa de Pós-
Graduação em História Social, UFRJ, 2010.

12
analisou os editoriais e as notícias da primeira página do jornal desde outubro de 1963
até primeiro de abril de 1964. Em relação à escolha de suas fontes, o autor escreveu:

O estudo dos editoriais se justifica porque por seu intermédio


podemos ter idéia do ponto de vista dos diretores do jornal e, de certa
forma, do público para o qual ele é dirigido. Um jornal reflete sempre,
mesmo que minimamente, a opinião dos seus principais anunciantes e
leitores, em particular numa conjuntura como a dos anos 1960, de
Guerra Fria, aguçamento das lutas sociais, engajamento de amplos
setores sociais na conquista das reformas de base, etc.
A análise das primeiras páginas permite que se possa perceber a
mensagem imediata que o jornal quer passar, para o público leitor. As
chamadas de primeira página, assim como as fotos, não são colocadas
de forma aleatória. São escolhidas para influenciar, para mostrar algo,
para causar algum impacto no leitor, seja esse impacto positivo ou
negativo.16

Nascimento identificou o Jornal do Brasil com um discurso liberal conservador,


pois o periódico, enquanto órgão burguês, sente-se confortável para atacar setores da
esquerda e apela para o uso de meios não democráticos para resolver impasses, embora
alegue defender a democracia.17 Em relação à postura do periódico no governo João
Goulart, o autor escreve:

Apesar das críticas feitas ao governo de João Goulart, o jornal


não se coloca imediatamente pela sua queda, mas contra a inflação;
num segundo momento apela para a manutenção da ordem e da
democracia acima de tudo; depois passa para críticas contra o
comunismo, sempre pregando a legalidade e a justiça social, o temor
de grupos radicais, até chegar ao ponto em que indica ações do
presidente visando um golpe para perpetuar-se no poder, afirmando
que o país estaria no auge da agitação, da guerra civil e da tomada de
poder por elementos radicais, finalmente apelando para a intervenção
armada.18

16
NASCIMENTO, Marcio S. Op. cit., p. 4.
17
Ibid., p. 44.
18
Ibid., pp. 56-57.

13
Nascimento dividiu sua análise das mensagens por temas: “Alinhamento do Brasil
com os EUA”, “Temor ao comunismo”, “República sindicalista”, “Tendências
continuístas e autoritárias de João Goulart”, “Descrença no Governo”, “Proximidade do
caos”, “Chamamento à ordem” e “Apoio a uma ação militar”. Através destes, ele
identificou os assuntos mais relevantes, do ponto de vista político, e que mais se
repetiram dentro do período recortado. Em certos episódios apresentou, também,
reportagens do Última Hora para comparar discursos conflitantes.19
Utilizando as reflexões de Gramsci, Nascimento faz uma análise do Jornal do
Brasil como um partido e conclui que este periódico ajudou a criar um clima de
insegurança tamanho que o Golpe de 1964 é visto com legitimidade, dentro do seu
círculo de influência. Segundo ele, para defender seus ideais e aliados burgueses, o
periódico ataca o presidente, colocando-o como um líder antidemocrático ou uma
marionete dos comunistas. Finalmente, o jornal incentivou atitudes extremas e
antidemocráticas para conter o clima instável e a “ameaça da esquerda”.20
Rafael do Nascimento Souza Brasil também realizou uma reflexão acerca da
trajetória política de um jornal, O Semanário.21 Ele teve como objetivo demonstrar a
participação política de diferentes setores, militares e civis, que visavam um
desenvolvimento autônomo do país. Utilizando os conceitos de Gramsci, ele identificou
o periódico como produtor e veículo de propostas de organização do Estado brasileiro,
tendo como base um ideal nacionalista. Em função deste ideal, grupos distintos da
sociedade, nas décadas de 1950 e 1960, contribuíram para a produção do periódico.

Por ser representativo dessa heterogeneidade do movimento


nacionalista e ser portador dos ideais e propostas de diferentes grupos
sociais, acreditamos ser deveras adequada a utilização do periódico
quanto aos objetivos deste trabalho, que gira em torno da atuação
política de militares nacionalistas articulados com outros grupos
civis.22

19
NASCIMENTO, Marcio S. Op. cit., pp. 54-91.
20
Ibid. pp. 92-99.
21
SOUZA BRASIL, Rafael do Nascimento. Um jornal que vale por um partido – O Semanário.
Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em História Social, UFRJ, 2010.
22
Ibid., p. 10

14
Souza Brasil tem como recorte temporal o período entre o início do governo de
Juscelino Kubitschek (1956-1961) e o golpe civil-militar de 1964. Ele tem foco em dois
temas presentes nas discussões políticas do período: o desenvolvimento econômico
industrial do Brasil e as lutas políticas empreendidas em torno da aprovação das
propostas de Reformas de Base, durante o governo João Goulart.
Primeiramente, ele analisa as discussões travadas nas páginas do jornal,
identificando a formulação e veiculação de projetos nacionalistas para a sociedade.
Apresenta e discute, ainda, o surgimento do periódico e as articulações sociais que se
realizavam em torno deste.23 Depois, ele aponta elementos que dão sentido ao
nacionalismo em cada segmento politicamente ativo, já que esta ideologia era apoiada
por grupos heterogêneos.24 Em seu último capítulo, Souza Brasil busca:

(...) explicitar as estratégias adotadas por civis e militares,


através das páginas de O Semanário, com o fito de ordenar o conjunto
da sociedade em prol de um projeto de desenvolvimento nacionalista.
E, também, situar os interesses sociais em disputa nos momentos de
definição das políticas estatais, identificando, especialmente, os
processos de elaboração de propostas e as articulações sociais
realizadas pelo jornal em foco.25

Os debates protagonizados pelo jornal o fizeram um ator político importante deste


período histórico, servindo de suporte para difusão do ideal nacionalista e ponto de
convergência de diferentes segmentos que tinham este ideal em comum. O Semanário,
segundo Souza Brasil, trouxe ao público debates políticos e idéias nacionalistas,
colocando-se como ator relevante no cenário político brasileiro e servindo de exemplo
às reflexões de Gramsci apresentadas acima.
Diferentemente de Marcio Nascimento, que tinha como objeto de reflexão o
próprio Jornal do Brasil, Souza Brasil analisa a produção e formulação do discurso
nacionalista e o faz através de O Semanário.
Estas pesquisas acima resenhadas tratam, direta ou indiretamente, de perspectivas
de organização social que disputavam a hegemonia do processo político brasileiro e que
se utilizavam da mídia impressa para atingir seus objetivos. De forma semelhante,

23
SOUZA BRASIL, Rafael do Nascimento. Op. cit., p. 12-85
24
Ibid., pp. 86-117
25
Ibid., p. 11

15
analiso o Última Hora como um partido populista, que buscava influenciar de forma
mais eficiente a opinião pública.
O conceito de opinião pública utilizado neste trabalho entende-a como um juízo
de valor de um grupo ou grupos. Tal juízo, no entanto, não tem embasamento científico
ou argumentos sustentáveis a nível acadêmico, podendo ser identificado como senso
comum. Este conceito pressupõe uma sociedade livre e articulada, com centros onde se
formam opiniões não individuais interessadas em controlar a política do Governo.26
Portanto, esta pesquisa busca analisar como o populismo brasileiro se porta na
crise de regime do início da década de 1960. Para isto será utilizado o Última Hora,
interpretado como órgão diretamente associado ao presidente João Goulart. Para esta
análise faço um recorte em dois episódios críticos: a Revolta dos Sargentos de 1963 e a
criação do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), em 1962. A escolha destes
recortes se justifica por serem episódios de ruptura em instituições básicas do regime
vigente.

26
BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola e PASQUINO, Gianfranco (org.). Dicionário de Política.
Brasília: UnB, 1995, 2º vol., 11ª edição, pp 842-845.

16
CAPÍTULO II
O POPULISMO BRASILEIRO

Este capítulo tem como objetivo refletir sobre o populismo no Brasil e


contextualizar o período de crise no início dos anos 1960. Para compreender este
período onde o Estado Populista encontra-se em crise, me remeto à sua implementação
a partir de 1930, buscando quais circunstâncias possibilitaram este sistema e quais
mecanismos ele utiliza para se afirmar e se estabelecer. Procuro refletir por que o
Estado populista obteve sucesso em outros momentos no Brasil, para, então, analisar os
motivos de contestação do regime.
Por Regime político se entende:
(...) o conjunto das instituições que regulam a luta pelo poder e
o seu exercício, bem como a prática dos valores que animam tais
instituições.
As instituições constituem, por um lado, a estrutura orgânica do
poder político, que escolhe a classe dirigente e atribui a cada um dos
indivíduos empenhados na luta política um papel peculiar. Por outro,
são normas e procedimentos que garantem a repetição constante de
determinados comportamentos e tornam assim possível o
desenvolvimento regular e ordenado da luta pelo poder, do exercício
deste e das atividades sociais a ele vinculadas.27

FORMAÇÃO DO ESTADO POPULISTA

A urbanização e o desenvolvimento industrial no início do século XX


desorganizaram a frágil estrutura do Estado oligárquico. Setores com ideologia
burguesa, geralmente urbanos, passaram a exigir uma nova ordem nacional, onde o país
não dependesse somente de exportações agrárias. Esta nova demanda social, no entanto,
não atacou a maioria dos valores tradicionais da elite rural. Setores agrários e industriais
no Brasil estavam intimamente ligados. Grande parte do capital para o surgimento de

27
BOBBIO, Norberto (Org). Op. cit. p. 1081.

17
uma indústria nacional veio dos setores agrários e parte da demanda industrial vinha dos
setores agro-exportadores. Vale, ainda, lembrar que laços familiares ou comerciais,
muitas vezes, uniam estes dois setores. No entanto, os novos interesses ganham
identidade política e respaldo social, principalmente após a crise de 1929, permitindo a
Revolução de 1930.28
Durante o governo de Getúlio Vargas forjou-se o chamado “Estado de
compromisso”29 que se institucionalizou na constituição de 1934. Nele, Vargas colocou-
se como intermediador dos interesses dos vários grupos que atuavam na esfera política.
Esse surgiu da incapacidade dos grupos sociais de assumirem o controle do Estado em
benefício próprio, gerando um equilíbrio instável. Esta instabilidade social perdurou até
o Estado Novo em 1937, o qual, de forma autoritária, conseguiu incentivar o
desenvolvimento industrial frente à nova demanda nacional. Este teve um aumento
significativo devido ao menor interesse internacional na economia brasileira, frente às
crises econômicas e à Segunda Guerra Mundial. A industrialização neste momento teve
um caráter de “substituição de importações”.30
O Estado Novo conseguiu reestruturar os mecanismos políticos do Brasil. Os
interesses agrários, historicamente prioritários no Brasil, perderam sua posição
privilegiada para o setor industrial que cada vez mais se afirma politicamente. Neste
período o Executivo deu prioridade às demandas da Confederação Nacional da Indústria
e da Confederação Nacional do Comércio.31
Vargas estimulou, ainda, um processo “nacional” de formulação de diretrizes
políticas em uma tentativa de subordinar lideranças regionais e introduzir reformas
administrativas, através da modernização do aparelho estatal. Criou o, Departamento
Administrativo do Serviço Público (DASP), que tirava a burocracia estatal do controle
de oligarquias, transferindo a prática do patronato para o Governo central.32 Esta postura
do Estado Novo no processo de industrialização incentivou classes médias e militares a
participarem do aparelho administrativo do Estado.

28
DREIFUSS, René Armand. 1964: A Conquista do Estado. Ação Política, Poder e Golpe de Classe.
Petrópolis: Vozes, 1981, pp. 21-22.
29
LOPES, Juarez Brandão. Desenvolvimento e mudança social: formação da sociedade urbano-
industrial no Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, MEC, 1976.
30
TAVARES, Maria da Conceição. Da substituição de importações ao capitalismo financeiro. Rio de
Janeiro: Zahar, 1975. pp. 67-69.
31
DREIFUSS. Op. cit. pp. 22 -27.
32
SOUZA, Maria do Carmo Campelo de. Estado e Partidos Políticos no Brasil 1930 a 1964. São Paulo:
Ed. Alfa-Omega,1976. pp. 96-98.

18
O Estado Novo interferiu, também, na regulamentação da “força de trabalho” e de
suas representações, o que facilitou a expansão capitalista em diversos aspectos.
Primeiramente estas medidas garantiram a “paz social”, pois, ao assegurar direitos
trabalhistas as massas trabalhadoras ficaram relativamente satisfeitas, e devido à forma
combinada de paternalismo e repressão com que estas foram implementadas o Estado
passou a exercer influência sobre as reivindicações sindicais. Em outro plano, estas
regulamentações permitiam maior precisão nos planos econômicos governamentais. O
salário mínimo, por exemplo, foi uma medida que nivelou o custo da mão-de-obra
garantindo, apenas, a subsistência. Esta medida facilitou a expansão capitalista por
garantir trabalhadores a baixos custos e aumentou o controle do Governo em relação à
receita do país.33
Em meados dos anos 40, no entanto, a “paz social” adquirida no governo Vargas
passou a ser cada vez mais ameaçada. A influência do governo central sobre as massas
trabalhadoras não estava sendo suficiente para conter as crescentes agitações em torno
dos baixos salários e novos sindicatos independentes estavam surgindo. Percebeu-se,
ainda, no Brasil, uma onda antifascista que aumentou com a aliança com os Estados
Unidos na Segunda Guerra Mundial e o Estado Novo passou a ser cada vez mais
atacado pela opinião pública. As elites burguesas estavam incertas em relação ao novo
cenário internacional do Pós-Guerra e temerosas quanto ao ressurgimento da esquerda
de forma organizada no quadro político brasileiro.34
Alguns apontamentos devem ser feitos em relação ao que Dreifuss chama de
“burguesia nacional”. Ele divide este grupo em dois: burguesia nacionalista e burguesia
entreguista. A primeira é considerada aliada de intelectuais nacionalistas e setores
médios e trabalhistas, tendo como projeto um desenvolvimento da indústria nacional de
forma mais independente, ainda que indiretamente aliada ao capital estrangeiro. A
segunda tem como projeto de desenvolvimento o alinhamento direto com os Estados
Unidos e é ligada diretamente ao capital multinacional, buscando a facilidade de entrada
deste no mercado nacional. Suas diferenças são conjunturais e não estruturais, ou seja,
elas têm projetos diferentes, mas os mesmos objetivos fundamentais, pois seguem a
lógica capitalista.35

33
DREIFUSS, René Armand. Op. cit., pp. 22-27.
34
Ibid.
35
Ibid. pp. 25-26.

19
Em 1945, os empresários adotaram demandas populares como slogans políticos,
visando diminuir as agitações sociais e desacreditar Vargas perante as classes
trabalhadoras. Este, percebendo a insustentabilidade do sistema vigente tentou deslocar
sua base sócio-política construindo um sistema político trabalhista de centro-esquerda
através de um discurso nacionalista. Dreifuss escreve sobre este período:

Eleições nacionais foram marcadas para dezembro de 1945,


para as quais Getúlio Vargas estimulou a criação de dois partidos, o
Partido Trabalhista brasileiro – PTB, baseado na máquina sindical de
Marcondes Filho, e o Partido Social Democrático – PSD, que não
possuía coisa alguma em comum com seus homônimos europeus e se
baseava nos interventores estaduais, nos industriais de São Paulo e nos
chefes políticos oligárquicos, os conhecidos coronéis. A oposição de
centro direita criou a União Democrática Nacional – UDN, um
conjunto amplo de posições anticomunistas, antinacionalistas, e anti-
Vargas (mais tarde antipopulistas), cuja base eleitoral encontrava-se
principalmente nas classes médias e que era liderada por profissionais
liberais, empresários e políticos.36

Esta manobra de Vargas alarmou seus opositores e a industriais “entreguistas”.


Embora Vargas não se opusesse à aliança com o capital multinacional, ele priorizava o
desenvolvimento da indústria nacional. Os primeiros sintomas da Guerra Fria já
apareciam e o não alinhamento direto com o bloco capitalista trouxe incertezas.
Vargas apóia a candidatura do general Eurico Gaspar Dutra, seu Ministro da
Guerra desde 1936, para fazer frente ao candidato da UDN, o Brigadeiro Eduardo
Gomes.
Embora tenha sido apoiado por Vargas, o governo Dutra (1946-1951) apresentou
rumos diferentes do governo anterior. Seu governo foi fortemente influenciado por
empresários e seu Ministério contava com figuras de destaque da UDN. Ele logo se
alinhou aos Estados Unidos, reprimiu e diminuiu a participação das classes
trabalhadoras no aparelho governamental e desativou organizações estatais,
retrocedendo o projeto nacionalista e favorecendo a empresa privada associada aos

36
DREIFUSS, René Armand. Op. cit., p. 27.

20
EUA. Estabeleceu a Escola Superior de Guerra – ESG, que cooptou militares anti-
Vargas.
As medidas do governo Dutra, porém, não conseguiram o consentimento das
classes subordinadas. O governo tentou controlar o surgimento de organizações
autônomas entre as classes trabalhadoras criando o Serviço Social da Indústria – SESI.
A tentativa de controle paternalista das massas, no entanto, foi dificultada pela crescente
organização das mesmas. O Partido Comunista do Brasil (PCB) demonstrou mais
organização que o PTB e em 1947, nas eleições estaduais, foi o quarto partido com mais
votos no Brasil, ficando em terceiro no estado de São Paulo, na frente de UDN. 37 No
mesmo ano o partido foi posto na ilegalidade, quatrocentos sindicatos sofreram
intervenção em suas atividades por suspeita de ligação com o PCB e houve expurgos no
funcionalismo público.38
Em 1950 houve eleições e Vargas se candidata pelo PTB. A UDN concorre
novamente com o Brigadeiro Eduardo Gomes e o PSD apresentou um candidato à parte,
Cristiano Machado.

. Vargas, em sua campanha pelo país, assumiu seus principais compromissos com
uma industrialização nacionalista e com os trabalhadores urbanos. Para evitar
confrontos com os grupos que foram favorecidos no governo Dutra, deixou claro que
aceitaria os investimentos estrangeiros.39
Vargas venceu as eleições com grande maioria de votos. O bloco populista
contava com apoio de grupos diversos em todo o território nacional: classes
trabalhadoras urbanas, elite agrária e burguesia nacionalista. Contava, ainda, com os
grupos simpáticos a um desenvolvimento nacionalista, tendo como apoiadores uma
parcela das classes médias, militares e intelectuais.
Como resultado desta tendência apaziguadora dos conflitos sociais e desta rede de
alianças heterogênea, Vargas montou um ministério com cautela. O PTB ganhou
somente a cadeira do Ministério do Trabalho e o PSD, a maioria das restantes, o que
significava diretrizes conservadoras para reduzir os temores das elites em torno da
possível instalação de uma república “sindicalista”, ou seja, de que Vargas utilizasse sua
influência com sindicatos para pressionar toda a sociedade a seguir suas diretrizes

37
BOURNE, Richard. Getúlio Vargas of Brazil 1883-1954. London: Charles Knight & Co. Ltd., 1974,
p. 148.
38
DREIFUSS, René Armand. Op. cit. p. 29-30.
39
Ibid., p. 30.

21
políticas.40 Vargas, nesta segunda administração, se deparou com um cenário político-
social bem diferente, no qual o Congresso havia adquirido mais importância, sendo um
espaço de negociação e alianças entre diversos interesses.
Dreifuss dividiu esta segunda administração de Vargas em três fases:

A primeira fase foi caracterizada por uma forte presença


empresarial, uma política anti-inflacionária e uma procura entusiástica
de ajuda econômica dos Estados Unidos. Essa fase terminou em
meados de 1953 sob a pressão conjunta de sindicatos e diversos
grupos nacionalistas. O governo fracassou em sua tentativa de
controlar a inflação, enquanto os benefícios da ajuda externa não se
concretizavam. Em meados de 1953 o ministério foi reorganizado e
começou a segunda fase. Apesar de manter suas opções abertas tanto
em relação ao bloco oligárquico-industrial quanto aos Estados Unidos,
(...) Getúlio Vargas recorreu intensamente às classes trabalhadoras
como um grupo de pressão. Ele substituiu seu ministro do Trabalho
por João Goulart, um jovem militante do PTB do Rio Grande do Sul,
seu protegido político e que assumiu o seu cargo com um enfoque
muito mais radical. Nesta segunda fase, a crescente polarização
política e ideológica em torno de assuntos nacionalistas e trabalhistas
andou passo a passo com uma crescente oposição do Exército a
Getúlio Vargas e, conseqüentemente, a João Goulart, culminando com
o famoso Memorando dos Coronéis assinado em fevereiro de 1954
por mais de oitenta oficiais influentes, o que levou à demissão de João
Goulart e do ministro da Guerra Estillac Leal, nacionalista getulista. A
terceira fase foi inaugurada sob considerável pressão militar, pressão
esta fortemente apoiada por empresários e pelo governo americano.
Esta fase foi, na verdade, uma longa sucessão de manobras getulistas
defensivas e com propósitos definidos e limitados, manobras que
foram intensamente atacadas no Congresso e na imprensa por
políticos mordazes e agressivos, como Carlos Lacerda, figura de proa
da UDN do Rio de Janeiro; essa fase culminou com um golpe de
Estado e suicídio de Getúlio em 1954. 41

40
DREIFUSS, René Armand. Op. cit. p. 31.
41
Ibid.,. p. 33.

22
O sistema pretendido por Vargas almejou um Estado autossuficiente para apoiar
uma industrialização nacional e limitar os investimentos estrangeiros no país. Ele
buscou, também, assegurar a implementação de um bloco industrial trabalhista com
vínculos com o Estado e a acomodação de interesses agrários. Grupos empresariais
viram com preocupação este projeto, pois diminuiria sua participação nas decisões
administrativas e contrariava os interesses multinacionais, que voltavam a focar, de
forma agressiva, no Brasil, após sua retração durante a Segunda Guerra Mundial.42
Com o suicídio de Vargas tem início o mandato presidencial de João Café Filho,
vice-presidente eleito pelo Partido Social Progressista (PSP), partido populista que tinha
grande influência junto à classe trabalhadora de São Paulo. Neste período a política
econômica do país mudou radicalmente. Corporações internacionais ganharam
incentivos para se estabelecer no Brasil. Para ilustrar estes incentivos cito a Instrução
113, da Superintendência da Moeda e do Crédito – SUMOC, que, excluindo firmas
brasileiras, isentava as corporações multinacionais da “cobertura cambial” necessária à
importação de maquinário permitindo que importassem equipamento por um preço 45%
abaixo das taxas.43 Café Filho foi apoiado por uma aliança informal de centro-direita
composta, principalmente, por políticos da UDN e do PSP.
Nas eleições seguintes a aliança PSD/PTB – coligação herdeira do “getulismo” –
venceu tendo Juscelino Kubitschek e João Goulart, ou Jango, como candidatos. Jango
baseou sua campanha em aspectos estatizantes, nacionalistas e reformistas presentes no
segundo governo Vargas. Kubitschek, no entanto, apresentou um discurso voltado para
aceleração do desenvolvimento com o Plano de Metas.
O governo de Juscelino investiu em políticas desenvolvimentistas que incentivam
a entrada de investimentos estrangeiros. Esperava-se que a entrada de empresas
multinacionais no mercado interno estimulasse o desenvolvimento industrial brasileiro,
ainda muito primitivo.44
Inicialmente o Plano de Metas contava com o apoio do Congresso, porém este foi
se posicionando de forma conservadora frente à política de modernização do
Executivo.45 Visando superar a ineficiência da burocracia estatal frente às necessidades
do Plano de Metas, são criados os Grupos Executivos.

42
BANDEIRA, Moniz. Presença dos Estados Unidos no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1973, pp. 363-65.
43
Ibid., pp. 365-72.
44
Ibid., p. 34.
45
Apud. DREIFUSS, René Armand. Op. cit., p. 35.

23
Eles formavam uma “administração paralela” coexistindo com
o Executivo tradicional e duplicando ou substituindo burocracias
velhas e inúteis. Essa administração paralela, composta de diretores de
empresas privadas e empresários com qualificações profissionais, os
chamados técnicos, e por oficiais militares, permitia que os interesses
multinacionais e associados ignorassem os canais tradicionais de
formulação de diretrizes políticas e os centros de tomada de decisão,
contornando assim as estruturas de representação do regime
populista.46

Este esquema, no entanto, dependia do apoio do Executivo para ser eficiente,


fazendo necessário que os interesses multinacionais e associados conseguissem o
comando do Estado e a ocupação dos cargos burocráticos da administração.
O Plano de Metas fez o Estado se tornar um produtor de bens e serviços
estratégicos para infra-estrutura e controlador indireto de substanciais mecanismos da
política econômica. No entanto, não era o Estado que direcionava o processo de
expansão capitalista, mas o capital transnacional.47 A política de desenvolvimento do
Governo Kubitschek também modificou a divisão social do trabalho no cenário
nacional, pois a classe trabalhadora industrial cresce, assim como a concentração
populacional em centros urbanos.48 Estes fatores dão maior relevância política às classes
operárias, que passam a se organizar cada vez mais. No meio agrário surgiram, em
meados da década de cinqüenta, as ligas camponesas mobilizando trabalhadores rurais.
No fim dessa década, percebem-se tentativas de sindicalização de massas rurais, uma
crescente mobilização política estudantil e divergências políticas dentro das Forças
Armadas. O cenário político brasileiro tensionava-se ameaçando o modelo do Estado
populista que não conseguia mais garantir seu compromisso de convergência de
classes.49
Vale lembrar que em 1959 ocorreu a Revolução Cubana que tensionou os ânimos
políticos em toda América. Este episódio, inserido no ambiente de Guerra Fria, teve um
valor simbólico notável para todo o continente, pois este até então, era considerado o
“quintal” dos Estados Unidos. Com isso os EUA passaram a ter uma postura mais rígida
46
DREIFUSS, René Armand. Op. cit., p. 35.
47
Apud DREIFUSS, René Armand. Op. cit., p. 36.
48
Apud. Ibid., p. 36.
49
Ibid., pp. 35-38

24
de vigilância em relação a movimentos de esquerda na América. O governo brasileiro
foi pressionado, tanto pelas elites nacionais quanto por setores multinacionais, para
alinhar-se de forma mais concreta ao bloco capitalista, liderado pelos Estados Unidos.
Juscelino Kubitschek , no fim de sua administração, percebe o esgotamento de seu
modelo de desenvolvimento e adota uma política de “adiamento de problemas”50,
deixando para o governo sucessor os problemas que estavam se acumulando na
sociedade.

CRISE DO POPULISMO

O governo populista de Juscelino Kubitschek chega ao fim em janeiro de 1961.


Os candidatos à sucessão são Jânio Quadros, apoiado pela UDN, representando uma
tentativa de grupos de direita de compartilhar o Estado com o modelo populista vigente,
e o marechal Henrique Teixeira Lott, que, apoiado pelo PSD e PTB, tentava a
presidência. A coligação PSD e PTB indica, ainda, para vice João Goulart com o apoio
do PCB. Neste período era possível votar em candidatos a presidente e a vice de chapas
diferentes, o que permite a vitória de Jânio e de Goulart, eleito para vice. Este último era
considerado herdeiro político de Getúlio e defendia reformas populares sociais, o que
contrariava os interesses dos grupos que apoiaram Jânio.
Logo após a posse de Quadros já surgem sinais de pressão para que as diretrizes
políticas nacionais se aliem aos interesses do grande capital. Ele recebe um documento
do CONCLAP – Conselho Nacional das Classes Produtoras, Sugestões para uma
política nacional de desenvolvimento.51

O documento exigia a reafirmação do papel da empresa privada e do


capital estrangeiro no planejamento do desenvolvimento, o controle da
mobilização popular e da intervenção estatal na economia, a redefinição das
funções do Estado, medidas contra inflação e uma readequação da
administração pública. (...) As diretrizes políticas sugeridas pelo documento
inspiraram o governo Jânio Quadros e seriam mais tarde princípios básicos
do programa das classes empresariais em sua campanha contra João
Goulart.52

50
Apud. DREIFUSS, René Armand. Op. cit., p. 36.
51
Ibid., pp. 125-126.
52
Ibid., p. 126.

25
Jânio monta um Executivo que favorece os interesses multinacionais e associados,
colocando no governo os grupos que formavam a administração paralela do governo
Kubitschek. Importantes grupos econômicos multinacionais e associados, influentes
associações de classes empresariais, membros da CONSULTEC e o núcleo da ESG
foram incluídos em postos da administração pública, alto comando da hierarquia militar
e em seu ministério.53 Em relação à CONSULTEC, esta consistia no mais influente dos
chamados escritórios técnicos. Estes surgiram da consciência empresarial da
necessidade de planejamento especializado para seu desenvolvimento. Eles realizavam
estudos de viabilidade e davam consultoria legal à empresas. Seus serviços serviam de
referência para empresas estrangeiras que buscavam entrar no mercado brasileiro.54
Após os primeiros meses de governo fica clara a impossibilidade de um
crescimento distributivo esperado pelas camadas populares. A economia estava
enfraquecida. O plano de Kubitschek de promover um crescimento “acelerado” esgotou
os recursos do Estado e sua política de “adiamento de problemas” deixou para Jânio
uma inflação cada vez mais incontrolável, dificuldades na balança de pagamentos,
exaustão do mercado de consumo de bens duráveis e estagnação da economia agrária.55

Quadros não consegue manter a uma base de apoio forte nas camadas de esquerda
e gradualmente os setores de direita, incluindo a UDN, se afastam do presidente.
Enquanto no plano interno desenvolveu uma política considerada conservadora e
alinhada aos interesses multinacionais e associados, em relação à política externa Jânio
seguiu uma linha independente. Ele assumiu uma posição contrária a dos Estados
Unidos em relação a Cuba e aproxima-se de países socialistas do Leste europeu.
Posicionou-se, ainda, contra o colonialismo e a favor da autodeterminação dos povos.
Estas atitudes se opõem aos interesses do capital multinacional e associado. Jânio
começa a sofrer pressões de ambos os lados, da direita e de uma esquerda trabalhista
cada vez mais organizada, e não consegue aprovação para seus projetos.

Em meio a esta situação Jânio Quadros renunciou na esperança de ser


reconduzido ao governo por seus apoiadores e ter mais liberdade de ação no cargo. Ele
se aproveitou da visita de João Goulart à China comunista, em uma missão de boa
vontade e comercial, para usar o medo de um presidente de esquerda a seu favor.
53
DREIFUSS, René Armand. Op. cit. p.126
54
Ibid., pp. 82-83.
55
Ibid., p. 128.

26
Quadros, porém, não recebeu apoio da sociedade para retornar ao cargo e iniciou-se
uma crise política no país em torno da sucessão presidencial.56
Em caso de vacância do cargo de presidente, segundo a Constituição, o vice-
presidente deveria assumir, e na impossibilidade deste, o presidente da Câmara dos
Deputados. Devido à ausência de João Goulart, assume interinamente Pascoal Ranieri
Mazzilli no dia 25 de agosto de 1961.
Apesar da posse de Jango estar prevista na Constituição, setores da sociedade se
opuseram à sua posse, juntamente com os três ministros militares. Estes alegavam que
ela significaria séria ameaça à ordem e às instituições, com base nas posições políticas,
consideradas esquerdistas, defendidas por Goulart. Neste cenário ocorreu uma forte
mobilização pró e contra a posse de Goulart, polarizando a sociedade brasileira.
Em resistência ao veto militar Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul,
e o general José Machado Lopes, comandante do III Exército, sediado no estado,
iniciaram uma campanha nacional pela posse de Goulart. Formou-se a Cadeia da
Legalidade, rede de mais emissoras de rádio incentivando a população a se mobilizar
em defesa da legalidade. No Congresso Nacional, ainda, parlamentares rejeitaram o
pedido de impedimento de Jango e propuseram a adoção de um regime parlamentarista
como uma solução conciliatória.57
A sociedade se polarizou entre defensores da legalidade e os partidários do veto,
chegando a haver reais possibilidades de confronto militar. Este impasse durou vários
dias.

Enquanto ferviam as negociações, Jango, informado do rumo


dos acontecimentos, aproximava-se do território brasileiro. De
Cingapura, seguiu para Paris, e da capital francesa para Nova Iorque,
onde chegou em 30 de agosto. Nessa cidade, concedeu uma entrevista
à imprensa onde declarou que seguiria para a Argentina e chegaria ao
Brasil pelo Rio Grande do Sul. No dia seguinte viajou para Buenos
Aires, onde foi impedido de desembarcar, em virtude de forte
dispositivo militar armado pelo governo argentino. Nesse mesmo dia,
rumou para Montevidéu, onde era esperado pelo embaixador brasileiro

56
DE PAULA, Christiane Jalles. O segundo Mandato e a crise sucessória. Rio de Janeiro: CPDOC.
Disponível em:
http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/Jango/artigos/VicePresidenteJanio/O_segundo_mandato_e_a_crise_
sucessoria. (Acessado em 17/06/2010)
57
Ibid.

27
Valder Sarmanho, cunhado de Getúlio Vargas. Na capital uruguaia,
Goulart decidiu aceitar a fórmula parlamentarista, mesmo contando
com o apoio de importantes setores que rejeitavam essa solução
conciliatória.

A profunda crise instalada no país com a renúncia de Jânio


chegava ao fim, e sem derramamento de sangue. No dia 2 de
setembro, o Congresso Nacional aprovou a emenda parlamentarista e,
finalmente, no dia 7, João Goulart foi empossado na presidência da
República.58

A emenda constitucional implantou o regime parlamentarista com uma vigência


temporária, segundo a qual nove meses antes do término do mandato de Goulart haveria
um plebiscito para decisão de continuidade do parlamentarismo ou retorno ao
presidencialismo. Jango, tendo em vista sua fragilidade política e buscando a
restauração do regime presidencialista, tentou ampliar suas alianças e defendeu um
desenvolvimento nacional-reformista.
Em relação à denominação de “reformas de base” Goulart reuniu as reformas
bancaria, fiscal, urbana, administrativa, agrária e universitária. Devido a sua
popularidade nas camadas mais humildes, buscou ampliar o eleitorado estendendo o
direito de voto aos analfabetos e às patentes subalternas das forças armadas. Tentou,
também, instaurar medidas que permitissem o controle do Estado na economia e nos
investimentos estrangeiros no país, entre elas a de restrição a remessa de lucros pelas
companhias multinacionais às suas matrizes.59
A ascensão de Jango à presidência significou uma vitória dos interesses das
camadas mais populares a partir do momento que estes passaram a compor as diretrizes
do Estado. Com isto, durante o período parlamentarista, houve uma redefinição de
forças sociais e políticas. Isto ficou nítido, por exemplo, nas eleições de 1962, que
alteraram as relações de força dentro do Congresso Nacional. Enquanto o PSD manteve-
se como partido mais votado, a UDN foi superada pelo PTB. Com isto ocorre uma
redefinição de alianças e maior fragmentação no sistema partidário. Setores importantes

58
DE PAULA, Christiane Jalles. Op. cit.
59
FERREIRA, Marieta de Moraes. As reformas de base. CPDOC. Disponível em:
http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/Jango/artigos/NaPresidenciaRepublica/As_reformas_de_base.
(Acessado em 17/06/2010)

28
do PSD, considerado um partido moderado, passam a se alinhar à UDN para barrar
reformas as propostas por Goulart.

A radicalização e a fragmentação atingiam não só os partidos


políticos. À esquerda e à direita surgiam diversas organizações que se
mobilizavam pró ou contra as reformas. Algumas como o Instituto de
Pesquisa e Investigações Sociais (IPES) e o Instituto Brasileiro de
Ação Democrática (IBAD) eram financiadas por setores empresariais
contrários a Goulart. No campo da esquerda, a disputa pela condução
do movimento popular era acirrada. Em 1962, os comunistas se
dividiram em duas organizações: o Partido Comunista Brasileiro
(PCB), ligado à URSS, e o Partido Comunista do Brasil (PC do B),
mais próximo da China. Havia ainda a Política Operária (Polop); a
Ação Popular (AP), ligada à Igreja Católica; as Ligas Camponesas,
dirigidas por Francisco Julião, e o próprio PTB, cuja ala mais radical
era liderada por Brizola.

A Igreja Católica, que também se encontrava dividida entre um


setor mais progressista e um mais conservador, passou a ser um ator
importante no período. Sua ala mais politizada fazia trabalho de
alfabetização através dos Movimentos Eclesiais de Base (MEB),
enquanto sua ala mais conservadora promovia manifestações contra o
governo.60

O plebiscito, antecipado para janeiro de 1963, restaurou o presidencialismo tendo


ampla margem de votos. No entanto, as reformas propostas por Goulart não
conseguiram ser implementadas devido a forte resistência no Congresso. Dentro desde
ambiente político polarizado a proposta conciliatória populista fica limitada frente a
uma crise econômica e uma crise de regime.
Neste cenário de contestação de regime, os órgãos de imprensa travam
verdadeiras batalhas pela conquista da opinião pública. O Última Hora, assumidamente
defensor de Goulart, teve um papel de destaque neste momento de crise do populismo,
enquanto a maior parte da imprensa se colocou, gradativamente, contra a permanência
de Goulart no poder.

60
PANDOLFI, Dulce. O cenário político partidário do periodo. CPDOC. Disponível em:
http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/Jango/artigos/NaPresidenciaRepublica/O_cenario_politico_partidari
o_do_periodo. (Acessado em 17/06/2010)

29
30
CAPÍTULO 3

AS MENSAGENS

Este capítulo se destina à análise das mensagens do Última Hora nos episódios da
criação do Comando Geral dos Trabalhadores e da Revoltas dos Sargentos de 1963. A
partir deste recorte, tenho como objetivos analisar o papel partidário que este exerceu no
cenário de crise de regime que vivia a sociedade brasileira no início dos anos 1960.

Recorro aos editoriais referentes aos temas e, buscando enriquecer a pesquisa,


confronto-os com as notícias de primeira página de outros periódicos. Para tal,
selecionei o Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda, um dos maiores porta-vozes das
ideologias conservadora e direitista no país, representante dos interesses do capital
multinacional e associado, e grande adversário de Getúlio Vargas, e dos movimentos
políticos trabalhista e comunista. Portanto, opositor de Jango e rival declarado do UH.
Durante o governo de Goulart, Lacerda era governador da Guanabara.
Recorro ainda ao Jornal do Brasil, que se colocava como representante de ideais
liberais, e a O Semanário, defensor de um desenvolvimento nacionalista, já comentados
no capítulo 2. Desta forma busco ilustrar como algumas das influências políticas
estavam agindo no Rio de Janeiro, ainda a cidade central do cenário político brasileiro.

A CRIAÇÃO DO COMANDO GERAL DOS TRABALHADORES

No início da década de 1960, principalmente no governo Goulart, as agitações


populares autônomas haviam atingido níveis de atividade e, sobretudo de influência
política, sem paralelo na história brasileira. A mobilização popular passou a pressionar
as estruturas dominantes em função da crise econômica, que reduziu a capacidade de
emprego e o valor relativo do salário-mínimo, em função da alta inflação.

Taxa de Inflação Anual – IGP-DI


1956 1957 1958 1959 1960 1961 1962 1963 1964

24,57% 6,95% 24,38% 39,44% 30,46% 47,79% 51,60% 79,91% 92,12%

Fonte: IPEA
31
As classes trabalhadoras exigiam medidas que seguissem o discurso nacional-
reformista, defendido por Jango durante toda sua carreira política. O clima de tensão
que se instaura faz com que o bloco oligárquico-industrial se afaste cada vez mais de
João Goulart, deixando-o dependente dos trabalhadores mobilizados, pois eram a única
“massa de manobra” política restante ao governo.61
As entidades independentes indicavam uma crise de regime porque significavam
que o aparato jurídico-político de controle dos sindicatos estava deixando de funcionar,
abalando esse importante mecanismo de dominação classista. Goulart teve relações
contraditórias com essas entidades, especialmente o CGT, que, se, por um lado, o
pressionava, por outro lhe dava apoio político.
A crescente independência destas contrariava, ainda, os interesses do capital
multinacional e associado e criava um clima de insegurança nos setores médios da
sociedade. A convergência de classes do compromisso populista já não era possível.
Um episódio que marca este processo de independência do movimento sindical e,
conseqüentemente, de crise de regime é a criação do Comando Geral dos Trabalhadores.
Este era uma organização intersindical de trabalhadores que não era reconhecida pelo
Ministério do Trabalho.62 Criado, em 1962, com o objetivo de orientar e dirigir o
movimento sindical brasileiro:

Entre 17 e 19 de agosto, realizou-se em São Paulo o IV


Encontro Sindical Nacional dos Trabalhadores. Os delegados
presentes em número de 2.566, representando predominantemente os
estados do Rio de Janeiro, Guanabara e São Paulo, comprometeram-se
a trabalhar pela volta do regime presidencial sob a condição de que
Goulart considerasse algumas de suas reivindicações básicas, como a
revogação da Lei de Segurança Nacional, a extensão do direito de
voto a todos os adultos, inclusive analfabetos e soldados, o aumento
de 100% no salário mínimo, a reforma agrária, a reforma bancária, a
promulgação do direito de greve e a limitação do direito à remessa de
lucros para o exterior. Ainda nesse encontro, com a finalidade de

61
DREIFUSS, René Armand. Op. cit. pp. 132-36.
62
KORNIS, Mônica e FLAKSMAN, Dora. “Comando Geral dos Trabalhadores (CGT)”. In: ALVEZ DE
ABREU, A. Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-1930. Rio de Janeiro, Ed. FGV, 2001, p.
842.

32
impulsionar o movimento trabalhista, o Comando Geral de Greve63
transformou-se no Comando Geral dos Trabalhadores.64

A questão sindical brasileira era um tema delicado e as diversas vertentes políticas


o interpretaram de acordo com os interesses que defendiam. Durante o mesmo fim de
semana em que se realizou o IV Encontro em São Paulo, no Rio de Janeiro foi realizado
o II Encontro Interestadual de Trabalhadores Livres. Este último se colocou como um
movimento trabalhista de oposição a Goulart, seguindo a linha lacerdista.
O Tribuna da Imprensa não tratou o Encontro de São Paulo, utilizando-o, apenas,
como exemplo em um discurso de ataque ao presidente.

O GOVERNO CONSPIRA
Não darei um golpe de cima para baixo, não usarei o exército –
diz o Sr. João Goulart. Minha força é do povo. Não posso evitar o
movimento de baixo para cima. É o golpe da República Sindicalista.65

Este periódico, que representava interesses de oposição direta a Goulart, exalta o


encontro trabalhista ocorrido no Rio de Janeiro, que contou com a presença do
governador Carlos Lacerda em sua cerimônia de encerramento. As notícias
apresentavam críticas de trabalhadores ao presidente, que concluíram a incapacidade de
Goulart de governar.
De forma semelhante, o Jornal do Brasil, em sua edição de domingo
(19/08/1962), buscou, desvincular o presidente dos trabalhadores, associando-o a
comunistas e utilizando o “discurso dos trabalhadores”.

Dois mil trabalhadores, representando 1300 sindicatos e


associações de classe, compareceram ao Encontro, que acusou
também o Sr. Leonel Brizola de favorecer a propagação do
comunismo. À sessão de encerramento, hoje, estará presente o
governador Carlos Lacerda.66

63
O Comando Geral da Greve (CGG), que deu origem ao CGT, foi criado em 1962. No mês de junho se
iniciou as negociações para a formação de um novo ministério, em função da renúncia do primeiro-
ministro Tancredo Neves. Neste episódio criou-se o CGG que decretou uma greve geral de 24 horas, no
dia 5 de julho, como forma de pressionar o governo a uma escolha favorável ao movimento sindical.
64
KORNIS, Mônica e FLAKSMAN, Dora. Op. cit., p. 843.
65
Tribuna da Imprensa. Edição 8287, 18/08/62, p. 4.
66
Jornal do Brasil. Edição 193 (Ano LXXII), 19/08/62, p. 11 (1° cad.).

33
ENCONTRO DE TRABALHADORES DEMOCRÁTICOS CULPA
GOVERNO PELA INFILTRAÇÃO COMUNISTA
Na inauguração do Encontro, seu presidente, Sr. Antonio
Pereira Magaldi, que é também presidente da Confederação Nacional
dos Trabalhadores no Comércio, ressaltou a união de todos os
trabalhadores democráticos do país na firme disposição de reagirem
contra a crescente infiltração comunista.67

Em defesa dos interesses nacionalistas, O Semanário interpretou estes eventos


comemorando o IV Encontro Sindical Nacional. A notícia era intitulada “CONGRESSO
DE SÃO PAULO FOI VITÓRIA DOS TRABALHADORES”68. O periódico acusou
Lacerda e seus aliados de tentarem sabotar o evento, no entanto, este teria conseguido
ser um espetáculo de civismo e patriotismo dos trabalhadores brasileiros.
O Última Hora, assim como O Semanário, não menciona a reunião de
trabalhadores do Rio, de base lacerdista. Noticia, apenas, o Encontro ocorrido em São
Paulo.

LIDERES SINDICAIS INICIAM HOJE LUTA POR NOVOS


SALÁRIOS.
“Enquanto não conseguimos que o governo adote medidas
capazes de fazer cessar a alta desenfreada do custo de vida, vemo-nos
obrigados a pleitear, com necessário vigor, a elevação geral dos
salários, notadamente dos atuais níveis do salário-mínimo, que já
estão completamente superados, em todo o País”. Declarou à
[redação] de UH na tarde de ontem, o líder sindical Benedito
Cerqueira, a propósito da sugestão que a delegação carioca
apresentará, em São Paulo, no IV Encontro Sindical Nacional, que se
instala, na noite de hoje.69

O UH deu uma atenção diferencial a criação do CGT. Embora fosse um


organismo independente do Estado, o que ia contra a estrutura que sustentava o

67
Jornal do Brasil. Edição 193 (Ano LXXII), 19/08/62, p. 11 (1° cad.).
68
O Semanário. Edição 295, 23/08/62, p. 1.
69
Última Hora. Edição 929, 17/08/62, p. 9.

34
populismo no Brasil, ambos buscavam manter o mútuo apoio. O CGT apoiou a
antecipação do plebiscito e a aplicação das Reformas de Base, propostas por Goulart.

COMANDO GERAL.
Além da proposta para que seja iniciada, em todo território
nacional, a luta pela revisão imediata dos atuais níveis de salário-
mínimo, a delegação carioca ao IV Encontro Sindical Nacional
apresentará uma outra sugestão, visando a criação do Comando Geral
dos Trabalhadores, organismo destinado a coordenar as lutas de
caráter mais geral do movimento sindical brasileiro. O referido
comando, conforme o pensamento dos líderes sindicais cariocas, seria
composto de dois representantes de cada Confederação, ou Federação
não confederada. No caso de qualquer Confederação escusar-se a
participar do novo organismo, caberia aos seus filiados, federações ou
sindicatos, indicar o representante do setor profissional. A nova
organização surgiria como resultado do importante papel
desempenhado pelo Comando Geral da Greve em 5 de julho,
estabelecido improvisadamente, para fazer face à necessidade de
arregimentar trabalhadores de todas as categorias profissionais para a
luta contra os golpistas e em defesa da legalidade e das liberdades
sindicais e democráticas que se encontravam ameaçadas. O novo
organismo, se aprovado no IV Encontro que se instala, hoje, em São
Paulo, terá funções mais amplas, devendo funcionar como órgão
coordenador da luta pela execução do programa a ser aprovado no
referido conclave.70

O Última Hora exaltou a organização e força do movimento sindical, podendo


legitimar as propostas presidenciais sem que Goulart se expusesse como um radical. Ele
tratou a força dos movimentos trabalhistas como um fator demonstrativo da necessidade
de aplicação dos projetos presidenciais.

IV ENCONTRO SINDICAL NACIONAL DECIDE:


REVISÃO IMEDIATA DE SALÁRIOS
São Paulo, 20 – (UH) – Revisão imediata de salário-mínimo
atual e delegação de poderes “ao comando geral da greve” para que, a

70
Última Hora. Edição 929, 17/08/62, p. 9.

35
qualquer momento deflagre uma parada geral no País, em defesa dos
direitos e reivindicações dos operários, foram as principais resoluções
do “IV Encontro Sindical Nacional” que se encerrou na noite de
ontem com a presença de 3.500 delegados classistas, representando
associações e federações. Estiveram presentes ao encerramento, entre
outras autoridades o ministro do Trabalho, professor Hermes Lima,
representando o presidente da república, o jornalista João Pinheiro
Neto, subsecretário do Trabalho e o Sr. Dante Pellacani, presidente da
CNTI
MANIFESTO – Salientando que “não haverá solução favorável
ao povo, pela forma como procedem as cúpulas partidárias, e o
governo, com conciliações que atendem aos trusts, monopólios e seus
agentes, inimigos da nossa pátria”, os trabalhadores lançaram um
manifesto, aprovado por unanimidade no encontro e do qual se
destacam, além da revisão do salário-mínimo, os seguintes pontos:
1- Defesa das liberdades democráticas e sindicais;
2- Direito de voto aos soldados e analfabetos;
3- Democratização da lei eleitoral e legalização de todos
os partidos;
4- Contra a Lei de Segurança Nacional;
5- Pela ampla liberdade de imprensa;
6- Repudiar o substituto Jefferson de Aguiar e imediata
aprovação do projeto, originário da Câmara federal,
sobre o direito de greve;
7- Medidas reais contra os trusts e monopólio;
8- Reforma agrária radical;
9- Salário família
10- Aumento geral dos salários
11- Veto à tentativa de congelamento dos salários e
vencimentos de civis e militares;
12- Aplicação integral de todas as conquistas das leis
sociais e trabalhistas e da Lei de Organização de
Previdência Social;
13- Lutas pela revisão de jornada de trabalho da mulher,
de 8 para 6 horas;

36
REFORMAS DE BASE
Os debates ocorridos nas sessões do IV Encontro
levaram os líderes sindicais a concluir que o fenômeno
altista é uma conseqüência natural do que
denominaram “estrutura econômica arcaica e viciada
em que vivemos”. Partindo desse princípio,
consideraram que “para se conseguir a estabilização e
posterior barateamento do custo de vida, são
necessárias as reformas de base, pelas quais vem
lutando os trabalhadores, sem que até agora tivessem
sido atendidos pelos que detém o poder”.71

O Última Hora, neste episódio, buscou demonstrar a força e organização do


movimento sindical exaltando, então, o apoio deste ao presidente. Os defensores dos
interesses populistas podiam projetar, de forma conveniente, sua força política para a
opinião pública, sem comprometer, diretamente, a imagem do presidente. Esta força
veio, em grande parte, do apoio dos movimentos sindicais. Por outro lado, a oposição ao
governo interpreta esta ascensão sindical como um mecanismo do presidente para
implementar uma “República sindicalista”, em alguns casos colocando-o como líder
conspirador e, em outros, como uma marionete dos comunistas.

A REVOLTA DOS SARGENTOS DE 1963

A Revolta dos Sargentos foi uma rebelião promovida por cabos, sargentos e
suboficiais da Marinha e Aeronáutica, em Brasília, no dia 12 de setembro de 1963. Este
episódio foi marcante por representar um ataque à hierarquia militar, significando,
então, que a polarização da sociedade já corrompia a disciplina dentro das próprias
Forças Armadas.
Esta questão militar não era inédita no Brasil. O movimento tenentista, que teve
início nos anos 20, por exemplo, já demonstrava uma cisão ideológica nas Forças.
71
Última Hora. Edição 929, 20/08/62, p.2.

37
Com a renúncia de Jânio Quadros, em 25 de agosto de 1961, as Forças Armadas se
dividiram radicalmente, quase entrando em combate, contra e a favor da posse de
Goulart. Esta divisão permaneceu durante todo o governo de Jango.
A Revolta dos Sargentos ocorre em função da decisão do Supremo Tribunal
Federal (STF) de reafirmar a inelegibilidade de sargentos para órgãos do Poder
Legislativo. Esta limitação constava na Constituição de 1946.

A Carta de 1946 proibia, embora de forma pouco explícita, que


os chamados graduados das forças armadas (sargentos, suboficiais e
cabos) exercessem mandato parlamentar em nível municipal, estadual
ou federal. Nesse sentido, o direito à elegibilidade foi o móvel
principal das campanhas da categoria. Durante o mandato de João
Goulart (1961-1964), o movimento dos sargentos foi fortalecido
devido à sua participação, durante agosto e setembro de 1961, na
campanha da legalidade, que garantira a posse de Goulart. Além disso,
o movimento apoiava as reformas de base (agrária, urbana,
educacional, constitucional etc.) preconizadas pelo governo.72

Em 1962, nas eleições de outubro, sargentos dos estados da Guanabara, São Paulo
e Rio Grande do Sul, se candidataram para a Câmara Federal, assembléias legislativas e
para câmaras municipais. No estado da Guanabara, o sargento do Exército Antônio
Garcia Filho, apesar do impedimento constitucional, elegeu-se deputado federal e tomou
posse em 1º de fevereiro de 1963. No entanto, os candidatos do Rio Grande do Sul,
Aimoré Zoch Cavalheiro, e de São Paulo, Edgar Nogueira Borges, foram impedidos de
assumir seus cargos de deputado estadual e vereador, respectivamente.
No Rio de Janeiro, no dia 12 de maio de 1963, aproximadamente mil graduados se
reuniram para discutir este episódio e o subtenente Gelci Rodrigues Correia acusou a
ordem reinante de beneficiar apenas uma pequena parcela da sociedade. Declarou que
sua categoria não defenderia um regime excludente e exigiu do governo as reformas de
base. Em resposta a esta declaração, o ministro da Guerra, general Amauri Kruel
ordenou a prisão de Gelci por 30 dias.

72
LAMARÃO, Sérgio. A Revolta dos Marinheiros. CPDOC. [online] Disponível em:
http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/Jango/artigos/AConjunturaRadicalizacao/A_revolta_dos_marinheiro
s. (Acessado em 20/06/2010)

38
No dia 11 de setembro o STF reafirmou a inelegibilidade dos sargentos,
suboficiais e cabos, levando cerca de seiscentos graduados da Aeronáutica e Marinha a
tomarem o Departamento Federal de Segurança Pública (DFSP), a Estação Central da
Rádio Patrulha, o Ministério da Marinha, a Rádio Nacional e o Departamento de
Telefones Urbanos e Interurbanos, na capital do país, controlando a comunicação de
Brasília. Sob o comando do sargento da Aeronáutica Antônio de Prestes Paula, oficiais
militares foram presos juntamente com o ministro do STF, Vitor Nunes Leal. A revolta
durou cerca de doze horas e aumentou a tensão política nacional.
Este episódio marcou o período por ilustrar que nem as Forças Armadas estavam
imunes à radicalização existente no Brasil. A crise de regime torna-se cada vez mais
clara.
Os jornais tiveram as mais variadas interpretações. Dos periódicos aqui
analisados, o Última Hora foi o único a publicar a notícia ainda no dia 12 de setembro.

REVOLTA DE SARGENTOS EM BRASÍLIA

BRASÍLIA, 12 (UH) – Urgente – Dezenas de sargentos da


Marinha e Aeronáutica levantaram-se, esta madrugada, contra a
decisão do Supremo Tribunal Federal negando o recurso impetrado
pelo Sargento Aimoré Zech Cavaleiro para reformar pronunciamento
da Justiça Eleitoral, que lhe recusou o registro de candidato a
deputado estadual pelo PTB gaúcho.

O levante começou cerca de 1 hora da manhã quando os


primeiros amotinados convocaram a guarnição da FAB, sendo
ordenada a prisão de todo oficial encontrado na cidade. Duas horas
depois estavam ocupados o DTUI, o prédio do DFSP, na Esplanada
dos Ministérios, os pontos de saída para Goiânia e Belo Horizonte,
sendo requisitadas todas as viaturas da Radiopatrulha. ÀS 3 horas,
cercada e ocupada a estação telefônica, sendo interrompidas e
controladas as linhas urbanas e interurbanas.73

73
Última Hora. Edição 4148, 12/09/63, p. 1.

39
Esta pequena nota publicada pelo UH foi apenas informativa, tendo em vista que
os eventos ainda eram muito recentes. Nas edições do dia 13, no entanto, o episódio de
Brasília era a principal notícia. O Tribuna da Imprensa condenou a rebelião, embora
tenha identificado como maior culpado o presidente, acusando-o de praticar
constantemente a violência e a inconstitucionalidade, dando como exemplo a
antecipação do plebiscito, que foi interpretada como inconstitucional pelo periódico. O
jornal exigiu a punição dos sargentos e pediu que se buscassemos “verdadeiros
culpados”, que estimulavam este tipo de indisciplina e violência.

A REVOLTA DOS ANJOS

A rebelião dos sargentos, que convulsionou Brasília e inquietou


o país todo (menos, naturalmente, o Sr. João Goulart), é mais um
episódio, desta vez gravíssimo, da desordem, do descaso, da
incapacidade e da falta de autoridade deste inqualificável governo que
aí está.

(...) Quem semeia ventos, colhe tempestade. Pois o Sr. João


Goulart está colhendo agora o que plantou incansavelmente. A paz de
pântano que tanto estimulou e da qual se fez o mais compenetrado
arauto, explodiu agora nesse movimento sedicioso que inquieta todo o
país, que faz tremer as instituições, e que compromete mais uma vez,
no exterior, o nosso crédito e a nossa reputação.74

O Jornal do Brasil reservou quatro páginas, em sua edição do dia 13 de setembro,


à revolta. Na última destas, a Coluna do Castello, que teve como autores proprietária e
diretores do jornal, foi intitulada: “BASTA”. Nesta os diretores do periódico se
pronunciam sobre o episódio de Brasília e o cenário político do período.

Chegou o momento de inverter a tendência, de mudar o rumo


da corrente que no vai arrastando aos baixos antidemocráticos.
Chegou o momento – agora mais que antes, com a revolta de
sargentos contra a decisão do Supremo Tribunal Federal – de pôr
termo no seio do próprio governo à coexistência de duas políticas:

74
Tribuna da Imprensa. Edição 3148, 13/09/63, p. 1.

40
uma legal, sem eficiência e resultado administrativo democrático, e
outra ilegal, visivelmente subversiva, montada nesse apêndice ilegal
do governo, chamado Comando Geral dos Trabalhadores.75

O JB, assim como o Tribuna da Imprensa, aponta Jango como conivente com a
revolta por não tomar nenhuma atitude drástica. Ambos os periódicos fazem discursos
alarmantes em relação à administração de Goulart.
O Semanário, porém, reconheceu a legitimidade da revolta dos sargentos e
defendeu a anistia para eles, acusados de quebrar a hierarquia militar. Comparou o caso
ao episódio de 1961, quando os militares que conspiraram contra a posse de Goulart
foram anistiados imediatamente. Como se nota, por ser um periódico de diretrizes
nacionalistas, a interpretação do periódico sobre a revolta relaciona esta questão à
manutenção da ordem vigente, a qual, segundo O Semanário, atacava os interesses
nacionais em favor do domínio estrangeiro.

A REVOLTA DOS SARGENTOS

Com essa atitude de intolerância, os reacionários visam é


impedir as reformas que o general Jair [Dantas Ribeiro, ministro da
Guerra] já declarou não poderem ser proteladas por mais tempo,
atraindo para isso o poder civil e as autoridades militares para a órbita
de influência do “gorilismo”76 e do IBAD, e jogando o Exército contra
a classe operária, sufocando em sangue a luta dos trabalhadores por
melhores condições de vida e, como coroamento dessa obra de traição
aos interesses do povo brasileiro, abrindo de par em par as portas de
país à invasão e ao domínio dos monopólios e trustes internacionais.77

75
Jornal do Brasil. Edição 214 (ano LXXIII), 13/09/63, p. 6 (1° cad.).
76
A associação a gorilas passou a ser realizada por grupos de esquerda para satirizar setores
conservadores e militares de direita. O termo “gorila” sintetizava brutalidade e estupidez, e foi apropriado
pela esquerda brasileira para atacar a repressão e práticas consideradas golpistas. Para uma analise mais
específica em torno das origens e usos da figura caricatural do gorila no Brasil, ver MOTTA, Rodrigo P.
S. A figura caricatural do gorila nos discursos da esquerda. Uberlândia: ArtCultura, v. 9, n. 15, p.
195-212, jul.-dez. 2007.
77
O Semanário. Edição 351, 25/09/63 p. 1.

41
O Última Hora, por fim, tem a preocupação de destacar a posição presidencial em
defesa da ordem e da hierarquia militar. O Brasil, em 1963, estava em um momento
crítico da crise política e Goulart busca tranqüilizar a população. Publicou na primeira
página da edição de 13/09/1963:

JANGO EM BRASÍLIA: GOVERNO INFLEXÍVEL NA


ORDEM E NA LEI

Reafirmou o chefe da Nação que “o governo será sempre


inflexível na manutenção da ordem e na preservação das instituições,
respeitando e fazendo respeitar as decisões dos poderes da República”
e que “nesse propósito não tolera a indisciplina e a insubordinação,
venham de onde vierem e qualquer que seja o pretexto que se
inspirem”.

“Somente em um clima de segurança e normalidade


democráticas – concluiu – pode o povo brasileiro concretizar as
reformas estruturais que correspondem as suas aspirações de
progresso e justiça social”. 78

Apesar do discurso, intolerante à rebelião, de Goulart que o UH transcreve com


maior importância, o jornal não culpou os sargentos revoltosos pelo incidente,
interpretando-o sob um olhar estrutural e com um tom de alerta. O UH vai defender que
este episódio é conseqüência das mudanças sofridas pela sociedade brasileira e que
enquanto a estrutura política e social não se adaptasse a esta nova realidade, através das
reformas de base, estes episódios críticos continuariam acontecendo.

A EXPLOSÃO

O levante dos sargentos em Brasília, antes de submetido a


análise mais profunda, acentua a atmosfera explosiva que o país vive
desde a renúncia de Jânio Quadros, da qual não consegue libertar-se

78
Última Hora. Edição 4149, 13/09/63, p. 1.

42
para o retorno ao clima normal das democracias organizadas. É inútil
esconder os fatos. Há um vulcão sobre o país com uma agravante: sua
erupção agora atingiu a base mesma da segurança nacional, as Forças
Armadas.

Êste é o momento de todos aqueles que detêm uma parcela de


responsabilidade na vida brasileira compreenderem que a situação não
admite mais subterfúgios, paliativos ou hesitações. O regime corre um
grande perigo. A paz social tornou-se uma ficção.

As classes dirigentes têm que admitir a realidade: a estrutura


política e social do país está superada. As Reformas de Base, que os
constituintes de 1946 não souberam ou não puderam institucionalizar,
estão na raiz de todas as explosões políticas, sociais, econômicas,
financeiras e militares em que o país vem-se desintegrando desde a
morte de Getúlio Vargas. Só os cegos, os aventureiros e os
reacionários não querem reconhecer esse fato. A advertência recente
de Kennedy de que a América Latina caminha para a reforma ou para
a revolução tem sido a constante advertência do presidente João
Goulart, desde sua acidentada posse em 1961. Advertência que não
admite mais protelação para seu entendimento.

As espadas desembainhadas em Brasília puderam conter


facilmente um levante de sargentos, mas não poderão talvez conter
amanhã a explosão final que ocorrerá, se o Brasil não for ajustado à
sua nova realidade social que só as reformas de base imporão sem
derramamento de sangue. A opção é clara.79

Nas publicações, destes quatro periódicos, em relação a este episódio, pode-se destacar
que todos interpretam a revolta sob um olhar estrutural. Enquanto o Tribuna da imprensa e o JB
denunciaram o presidente como principal culpado pelo “caos instaurado”, o Semanário e o UH
apontaram os projetos presidenciais como a solução para a crise, que, segundo eles, teria como
causa os impedimentos às reformas necessárias, causados por conservadores e elitistas. O
Última Hora tinha como objetivo, ainda, transmitir a voz de João Goulart e sua postura em
relação ao ocorrido, que seria de defensor da ordem e contra radicalismos.

79
Última Hora. Edição 4149, 13/09/63, p. 1.

43
CONCLUSÃO

Neste trabalho procurou-se analisar os traços que compunham o projeto populista,


defendido por diversas parcelas da sociedade, através do periódico Última Hora,
durante o governo Goulart. Os debates propostos pelo jornal cotidianamente fizeram
deste uma ferramenta política influente na sociedade brasileira, que, oficiosamente,
defendeu os interesses presidenciais. Desta forma o UH tornou-se parte integrante e
ativa de linhas político-partidárias, seguindo o conceito de “partido” de Gramsci.

Com o objetivo de facilitar esta percepção dos papéis partidários que os


periódicos exerciam, os episódios selecionados para análise nos ilustram dois momentos
de crise do regime instaurado. A tensão política no Brasil atingiu visibilidade
internacional devido à polarização radical que se instaurava em diversos setores da
sociedade.

Os dois episódios, a criação do Comando Geral dos Trabalhadores e a Revolta dos


Sargentos de 1963, foram selecionados por representarem rupturas na estrutura do
regime instaurado. A criação do CGT, um órgão independente do Estado, ia contra a
estrutura populista que influenciava o movimento sindical brasileiro através de vínculos
entre sindicato e Estado, estabelecidos na Era Vargas. A Revolta dos Sargentos, por sua
vez, representou a quebra da hierarquia militar, sendo interpretada por oposicionistas ao
governo como sinal revolucionário.

A partir das mensagens analisadas, pode-se concluir que o Última Hora, durante o
governo João Goulart, atuou como a “voz” populista na mídia impressa. Através destas,
dois interesses se mostraram em todas as edições: defesa incondicional dos interesses
presidenciais e defesa de interesses populares, trabalhistas e nacionalistas.

Com as notícias dos jornais Tribuna da Imprensa, Jornal do Brasil, O Semanário


e Última Hora pode-se ilustrar, de forma resumida, o cenário da mídia impressa e como
estas quatro linhas políticas, respectivamente “lacerdista”, liberal, nacionalista e
“janguista”, atuavam em defesa de seus interesses. Esta última defendendo o governo de
Jango, que se afastava gradativamente da filosofia populista, ao tomar atitudes radicais
conforme a crise se agrava.

44
O UH, sempre defensor e um símbolo populista na mídia, defendeu e preservou a
imagem de Goulart, mas teve a liberdade de discursar de forma mais agressiva e radical
de forma conveniente aos interesses presidenciais. A respeito do UH, enfim, Antonio
Hohlfeldt, resumidamente, define:

Última Hora, genericamente considerada, deve ser


compreendida como uma publicação popular e populista, na medida
em que deu voz ao segmento popular, pelos valores do salário
mínimo, na defesa da legalidade, no apoio a Cuba, na resistência ao
aumento das passagens do transporte coletivo, contra a inflação, etc. –
reconhecendo, pois, e transformando as camadas populares em
sujeitos da política e da história. Nesta perspectiva, Última Hora foi
um jornal nacionalista, porque defendeu projetos de industrialização
nacional, autônoma e independente – ao menos no discurso – ainda
que sob um enfoque capitalista que se articulava com o capitalismo
internacional.80

Seja em defesa de interesses populistas, nacionalistas, trabalhistas ou pessoais,


como nos governos de Getúlio Vargas ou João Goulart, o Última Hora se consagrou
uma importante ferramenta política no Brasil. Seu prestígio político levou candidatos
populistas a financiarem a instalação de filiais em suas regiões, devido à influência que
um veículo de mídia impressa de grande porte exerce sobre a opinião pública. Durante o
governo Goulart, o UH foi peça fundamental na batalha hegemônica travada no Brasil.

80
HOHLFELDT, Antonio. O projeto político-ideológico de Última Hora. Salvador: INTERCOM,
2002, p.6.

45
BIBLIOGRAFIA

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