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entrevistadores: ARI LIMA, PEDRO JAIME
colaborador: PROF. DR. KABENGELE MUNANGA

Nos últimos 10 anos, o acirrado debate sobre a bem seu caráter e temperamento ousado, inquie-
justeza da implantação de políticas de ação afir- to e o desejo de estabelecer coerência entre justas
mativa, sobretudo no que se refere às cotas para ideias e justas ações. Nesta entrevista, ele nos fala
inclusão de negros e índios nas universidades pú- sobre o significado das cotas no ensino superior e
blicas estaduais e federais, evidenciou ainda mais sobre a negação das mesmas entre segmentos mi-
o nome e as ideias do professor José Jorge de Car- noritários, porém empoderados, da sociedade bra-
valho em sua comunidade acadêmica de filiação, sileira e entre seus próprios colegas de disciplina.
a Antropologia, mas também entre várias outras Trata também das relações entre a Antropologia
comunidades acadêmicas e no conjunto da socie- e os estudos culturais, o paradigma pós-colonial e
dade. A propósito disto, em março de 2010, ele foi os subaltern studies, bem como dos desafios que
indicado pela Reitoria da UnB para representá-la enxerga para a Antropologia praticada no Brasil
na Audiência Pública sobre as ações afirmativas no contexto de um mundo cada vez mais trans-
nas universidades públicas, convocada pelo Su- nacional. Revela-se, sobretudo, um antropólogo
premo Tribunal Federal. Antes disso, no ano de comprometido com a disciplina e, talvez por isso
2005, o professor José Jorge de Carvalho publi- mesmo, um crítico feroz dos limites da mesma.
cou Inclusão étnica e racial no Brasil: a questão
das cotas no ensino superior, obra que reúne CC: A sua formação universitária inclui uma
diversos artigos nos quais reflete sobre o sistema Graduação em Composição e Regência na UnB,
de cotas, mas também sobre o lugar da raça e as um Mestrado em Etnomusicologia e um Doutora-
implicações do racismo na sociedade brasileira e do em Antropologia na The Queen’s University of
na dinâmica da produção de conhecimento e ocu- Belfast. Gostaríamos de começar solicitando que o
pação de postos e poderes na universidade pública. senhor falasse um pouco sobre sua trajetória pro-
Atualmente, é docente do Departamento de An- fissional e sua passagem para a antropologia.
tropologia (DAN) da UnB e coordena o Instituto JJC: Minha trajetória profissional começou
Nacional de Ciência e Tecnologia e Inclusão no com uma mudança radical de área de estudos:
Ensino Superior e na Pesquisa, do Ministério de fiz o vestibular da UnB para Física e desde o
Ciência e Tecnologia e do CNPq. O mais bre- início do primeiro semestre já me aproxima-
ve levantamento sobre a produção intelectual do va do Departamento de Música, que naquele
professor José Jorge de Carvalho revela uma inusi- momento se constituía como um dos poucos
tada variedade de temas de estudo, uma reflexão grupos de música de vanguarda no Brasil. As
sempre orientada pela crítica aos pressupostos mo- linhas estéticas eram todas pós-serialistas, cen-
rais, estéticos e teóricos quando estes acomodam e tradas em John Cage, Karlheinz Stockhausen,
bloqueiam a livre expressão do pensamento, assim Pierre Boulez, Luciano Berio, etc. A Música
como a predominância de trabalhos sobre questões refletia bem o clima da UnB daqueles tempos:
relacionadas ao negro. Esta produção evidencia vibrante, experimental e (como todas as univer-

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sidades brasileiras até hoje) obsessivamente eu- Pude montar uma grade do jeito que me in-
rocêntrica. Ainda que fascinante e desafiador, teressava: Artes, Música, Semiótica, Clássicos,
o vanguardismo não era aberto devido ao seu Poesia, Filosofia, Mitologia, Física, Geologia,
extremo sectarismo: era tudo completamente Lógica. Acredito que hoje a nenhum estudante
deslocado de qualquer raiz musical brasileira, da UnB é permitida tal flexibilidade curricular
fosse indígena, afro-brasileira, camponesa, ou e em muitos casos essa diversidade de interes-
mesmo do nacionalismo erudito. Meus interes- ses é abertamente desestimulada, quando não
ses (intelectuais) eram muito amplos e difusos proibida, pelos coordenadores de graduação.
(como o são até hoje) e nos anos de graduação
frequentei cursos na Comunicação (que ofere- CC: Após a graduação em Música, quando e
ceu um dos primeiros cursos de análise de His- como o senhor fez a passagem para a Antropologia?
tória em Quadrinhos no mundo), na Filosofia JJC: Concluí a graduação em 1973; neste
(onde mantive contato com Eudoro de Sousa mesmo ano fiz uma especialização em Etno-
e seu discípulo, Ordep Serra, que naquele mo- musicologia no Instituto Interamericano de
mento traduzia a versão sumeriana da Epopeia Etnomusicología y Folklore (INIDEF) de Ca-
de Gilgamés), frequentei o Centro de Estudos racas, Venezuela, onde estudei com Isabel Aretz
Clássicos e, ainda depois que passei para a Mú- e com ela absorvi a perspectiva apaixonada e o
sica (o que implicou fazer as matérias das Artes) compromisso com as Músicas Tradicionais e as
participei durante três anos dos Seminários de Culturas Populares (paixão e compromisso que
Lógica Simbólica conduzidos pelo saudoso ma- carrego até hoje). Isabel Aretz era uma difusio-
temático Fausto Alvim Júnior, um dos maiores nista e uma historiadora dos cruzamentos entre
amigos que tive em Brasília e a quem inclusive a cultura de elite e a cultura popular (e também
dediquei meu livro Mutus Liber, o clássico da o foram os grandes autores da fase clássica da
Alquimia. Morei muito tempo exclusivamente disciplina do Folclore, como Câmara Cascudo,
com colegas da Medicina e eu os acompanhava Renato Almeida, Carlos Vega, e até mesmo
em uma matéria de Introdução à Antropologia Béla Bartók).
que fazia parte da sua grade. Comecei a absor- No INIDEF fiz um curso de Antropologia
ver a perspectiva antropológica com bases nas com Miguel Acosta Saignes, que me introdu-
aulas em que o professor discutia Ruth Bene- ziu nas culturas afro-americanas. Acosta era de
dict, Margareth Mead e Raymond Firth, além Barlovento, a maior região afro-venezuelana,
de etnografias dos índios amazônicos. Nesses com suas tradições rituais ligadas à famosa Fes-
anos, traduzi os Analectos de Confúcio (tra- ta de São João e os ritmos eletrizantes dos tam-
dução ainda inédita), estimulado pela figura, bores redondo e mina.
para mim fascinante, de um padre sinólogo, já Em 1974 fui pesquisador do Instituto de
velho, que trabalhava discretamente na Biblio- Antropologia e História (IAH) da Universida-
teca Central da UnB e que sempre me contava de Central da Venezuela. Já me via então como
histórias de seus anos vividos na China. Infe- etnomusicólogo, folclorista e antropólogo. No
lizmente, não tenho condições neste momento IAH tive o privilégio de assistir a um ciclo sis-
de recuperar o seu nome, registrado em meus temático de aulas de Antropologia ministrado
cadernos e diários da época, e esse lapso me por Bartolomé Meliá, decano da Antropologia
constrange. paraguaia. A perspectiva de Meliá já era, naque-
Tudo isso para dizer que eu estudei em uma le momento, uma perspectiva descolonizadora,
UnB inteiramente aberta, que não existe mais. mesmo sem utilizar esse rótulo. Guardo ainda

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as anotações daquelas aulas, que se fossem da- Paralelamente, li também os grandes mestres
das de novo hoje, não perderiam atualidade. do budismo (Nagarjuna, Vasubhandu, Bo-
ddhidharma, Milarepa – além dos sutras e do
CC: Quem foram os antropólogos que dire- Dhammapada), do hinduismo (Sankaracharya,
ta ou indiretamente marcaram sua formação e Ramanuja, além dos Upanishads, do Bhagavad
nos quais buscou inspiração para construir sua Gita, dos Vedas), do daoismo, do confucionis-
maneira de praticar a antropologia? Que outros mo, do sufismo. É importante para mim men-
autores, de diferentes campos do saber, o senhor cionar os nomes dos textos e mestres orientais
reconhece como importantes no desenvolvimento porque eu me construí intelectualmente man-
da sua postura antropológica? tendo um diálogo constante (ou essa gnose,
JJC: Os antropólogos que mais me marca- talvez) com o Oriente, ainda que nem sempre
ram foram, em primeiro lugar, Lévi-Strauss; tenha encontrado vazão para falar disso na aca-
logo, Melville Herskovits, que pesquisou as demia. Em síntese: Marx, Lévi-Strauss, John
tradições africanas no Novo Mundo em três Blacking, de um lado; Nagarjuna, Rumi, Do-
países onde também pesquisei (Brasil, Trinidad gen, de outro; este é o antropólogo que sou.
e Tobago e Suriname); John Blacking; Max Devo dedicar um espaço para John Bla-
Gluckman; Victor Turner e Stanley Diamond. cking. Cruzei o Atlântico para estudar com
Minha postura epistêmica e antropológi- ele na então distante Belfast, visto que ele era
ca deve muito também aos assim-chamados naquele momento provavelmente o etnomusi-
filósofos, ocidentais e orientais. Li Heidegger, cólogo mais respeitado em todo o mundo. A
Wittgenstein, Nietzsche, Merleau-Ponty, entre influência de John em mim foi profunda, tam-
outros, incessantemente. Fui também mui- bém devido a sua multiplicidade de interesses.
to influenciado pelos teóricos críticos, como E não deixa de ser insólito (no sentido que
Karl Marx, Walter Benjamin, Mikhail Bakhtin Freud atribuiu ao termo alemão Unheimliche)
(esses três, meus preferidos), Marcuse, Bau- certa coincidência em nossos destinos como
drillard, Derrida, Foucault e Fredric Jameson. professores universitários ligados ao mundo
Ultimamente mergulhei também na impres- africano e afro-brasileiro respectivamente. John
sionante obra de Cheik Anta Diop, que tem Blacking era chefe do Departamento de An-
inspirado meus ensaios sobre o racismo feno- tropologia da Universidade de Witwatersrand
típico; e considero Amadou Hampaté Bâ um em Johannesburgo, na África do Sul, e era um
grande modelo, por transitar entre a oralidade e militante contra o apartheid. Foi devido a essa
a escrita e mais radicalmente ainda por unir ri- militância, que implicava abrir as portas do
gor intelectual interdisciplinar com experiência Departamento para intelectuais e ativistas ne-
espiritual plena. Fui também leitor assíduo de gros, que ele sofreu um trauma político e pes-
Mircea Eliade, dos representantes da chamada soal profundo em seu meio acadêmico, tendo
tradição ou da filosofia perene: René Guenon, sido banido da África do Sul no início dos anos
Frithjof Schuon, Coomaraswami, Fulcanelli, e setenta para não voltar nunca mais. Guardadas
mesmo Blavatsky. Meu interesse pelo esoteris- as devidas proporções, também vivi como pro-
mo ocidental me levou a preparar uma edição fessor um trauma político extremamente do-
comentada de um clássico da Alquimia, o Mu- loroso, resultante também das tensões raciais
tus Liber. Li intensamente Carl Jung e os textos geradas no nosso meio acadêmico.
orientais com que ele dialogou: o I Ching e o Quando iniciei minha carreira docente na
Bardo Thödol (Livro Tibetano dos Mortos). UnB, procurava espelhar-me apenas nos ensi-

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namentos antropológicos e etnomusicólogos balho de campo apareceu como um exercício


de John, e nunca em seus conflitos vividos de reencantamento do mundo (ocidental, fri-
pelo engajamento na luta anti-racista. Somente semos). Neste sentido, a atitude antropológica
anos depois, após sofrer as consequências do prometeu humanizar o pesquisador ao propi-
conflito do famoso “Caso Ari”, quando me en- ciar-lhe oportunidades de experiências intensas
volvi, contra a maioria dos colegas, em defesa e ricas em várias dimensões: experiências espe-
do nosso primeiro aluno negro do Doutorado cificamente de convívio comunitário, estéticas,
de Antropologia da UnB, pude refletir um dia, espirituais, de contato com a natureza, etc. Fi-
perplexo, sobre uma identificação concreta, cou, então, na profissão de antropólogo, tanto
não programada, mas possível, com a traje- para dentro como para fora, essa promessa de
tória política do meu mestre – obviamente, humanização.
sem querer em momento algum equiparar a O problema com a nossa disciplina, tal
intensidade política e histórica dos fatos ocor- como procurei equacionar nos ensaios citados,
ridos nos Departamentos de Antropologia de é que o trabalho de campo vem se convertendo
Johannesburgo e de Brasília (não somos nós cada vez mais em um mero hiato na vida aca-
que escrevemos a nossa própria história), ou as dêmica, permeada de um racionalismo e um
dimensões subjetivas intransferíveis dos efeitos pragmatismo cada vez mais extremos, e cada
dos dois conflitos nas vidas dos envolvidos. Os vez mais longe da almejada humanização plena
dois traumas são uma coincidência histórica, romantizada e às vezes mesmo experimentada
porém trato-a agora como significativa no sen- por alguns pesquisadores de campo. A promes-
tido junguiano do termo. sa do encontro etnográfico tem sido inúmeras
vezes descumprida, pois muitas experiências
CC: Em um artigo publicado nos anos 19901 que tivemos e observações que realizamos, e
o senhor levanta uma discussão sobre as relações que poderiam atestar os saberes extraordinários
entre o conhecimento antropológico e a experiên- de muitos de nossos “nativos”, tiveram que ser
cia iniciática. Essa discussão é retomada nos anos negadas ou censuradas. A prática acadêmica
2000 no texto “Uma visão antropológica do eso- acaba reduzindo nossos horizontes, ao enfa-
terismo e uma visão esotérica da antropologia”2. tizar uma postura egocêntrica, produtivista,
Uma matéria (perfil) publicada no jornal Cor- competitiva e confinada do ponto de vista ét-
reio Braziliense3 aponta o seu trabalho de campo nico, racial, de classe, de corporação e – o que
em uma comunidade de descendentes de negros para mim é cada vez mais crítico e que deve ser
escravizados no Suriname e sua experiência et- revisado profundamente – cada vez mais de-
nográfica com as religiões afro-brasileiras como sespiritualizada. O grave do momento presente
momentos importantes do seu itinerário antro- é que parece que já demos a volta ao círculo:
pológico. Em sua opinião, como alguém se torna foi a consciência da desumanização do nosso
antropólogo? modo de vida enquanto membros da “civiliza-
JJC: Acredito, em primeiro lugar, que che- ção” ocidental que levou os antropólogos a ou-
gamos a ser antropólogos por um certo fascínio tras sociedades ainda humanizadas. Contudo,
que cultivamos em relação a modos de vida e o mundo acadêmico acabou a tal ponto sendo
a práticas culturais muito distintas das nossas. engolido pelo que Guenon chamava de “rei-
A Antropologia de padrão ocidental que pra- no da quantidade” que estamos agora fazendo
ticamos surgiu em sociedades devastadas pelo uma tradição desumanizada de modos de vida
furacão desencantador da modernidade e o tra- que nem sequer são os nossos mais.

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Tornamo-nos uma categoria social mui- (diversidade de formação dos docentes, diver-
to homogênea que não reflete a diversidade sidade racial, étnica, de origem) nenhum dos
de formas de vida que ensinamos em aula e nossos Programas de Antropologia do Brasil
sobre a qual teorizamos. Temos pouco culti- teria alta excelência. Entre esse bloqueio da di-
vo nas artes, na literatura, nas práticas espi- versidade, a questão racial aparece como a mais
rituais – enfim, na vida alternativa ao padrão problemática de todas. Kabengele Munanga é
pequeno-burguês do acadêmico que se espelha o único antropólogo negro da USP já há 30
nos acadêmicos dos países centrais. Para mim, anos. O Museu Nacional precisou de quase
neste momento, importa acompanhar quem 40 anos para contratar sua primeira antropó-
de nós se interessa por questionar essa esqui- loga negra e o DAN reproduz seu colegiado
zofrenia desumanizadora da vida dos antro- inteiramente branco há 35 anos. Quando falo
pólogos, em vez de apenas tentar encaixar-se de professores brancos refiro-me, obviamen-
nesse padrão desencantado, desespiritualizado te, ao modo como os docentes se assumem e
e desestetizado. Adianto também que não con- se colocam na sociedade racista em que vive-
sidero esta afirmação conservadora, mas uma mos. Existem casos em que pessoas fenotipica-
afirmação crítica. mente negras querem distanciar-se desse fato
e continuar sendo acadêmicos, antropólogos
CC: A partir do ano de 1985, o senhor co- “universais”, supostamente “sem cor” – isto é,
meçou a atuar como professor do Departamento socialmente brancos. De qualquer modo, re-
de Antropologia (DAN) da UnB. Embora hoje o flitamos que uma exclusão racial tão extrema
DAN tenha em seu quadro de professores antropó- não pode ser aleatória. Ela reflete um desejo de
logos inicialmente formados em outras instituições identificação com um padrão branco eurocên-
e que trabalham com variadas temáticas, ainda se trico de academia que nem sequer é real mais:
caracteriza como um departamento fortemente en- há mais antropólogos não brancos nos países
dógeno, em que a etnologia indígena, área de con- brancos do primeiro mundo do que no Brasil,
centração dos fundadores do DAN, continua a ter onde os negros são 48% da população.
um espaço privilegiado. No seu caso, sua formação Mencionei em uma Mesa Redonda da
em antropologia ocorreu fora do Brasil e desde os RAM (Reunião dos Antropólogos do Merco-
anos 1980 é um dos raros professores do DAN de- sul) de 2008 um fato que é ainda mais preocu-
dicados ao estudo das relações raciais. A que atribui pante: a esmagadora maioria dos pesquisadores
esta situação quase de inércia em relação ao número negros que terminou seus doutorados em Pro-
de especialistas em relações raciais no DAN, tendo gramas de Antropologia de maior prestígio
em vista a centralidade dessa temática na formação não entrou em Departamentos de Antropo-
da sociedade e das ciências sociais no Brasil? logia. Por exemplo, Nilma Gomes, doutora
JJC: Acredito que quase todos os Depar- pela USP, leciona na Faculdade de Educação
tamentos de Antropologia de maior prestígio da UFMG; José Carlos dos Anjos, doutor pela
do Brasil são altamente endógenos – o DAN, UFRGS, leciona no Departamento de Sociolo-
a USP e o Museu Nacional são endógenos em gia e não de Antropologia da sua universidade;
uma medida em que nenhum programa im- Alecsandro Ratts, doutor pela USP, leciona no
portante de Antropologia dos Estados Unidos, Departamento de Geografia da UFG; Elielma
da França ou da Inglaterra jamais aceitaria ser. Machado, doutora pelo IFCS da UFRJ, lecio-
Se colocássemos a diversidade como um na na Faculdade de Educação da UERJ; Maria
quesito importante de avaliação da excelência Alice Rezende, Mestra pela UFRJ, Pós-doutora

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pelo Museu Nacional e Pró-Cientista da UERJ gica da nossa condição ex-escravista e racista,
na área de Antropologia, também não faz par- nossos colegas propuseram uma abordagem
te da Pós em Antropologia da UERJ. O pró- culturalista da tradição afro-brasileira.
prio Ari Lima, doutor pela UnB, é professor Finalmente, é provável que em um mundo
de um Departamento de Educação da UNEB tão endogâmico como o nosso, o fato de que
e não ingressou no colegiado de Antropologia tive uma formação fora das Ciências Sociais na
da UFBA (colegiado majoritariamente branco, graduação e fora do país na pós-graduação te-
apesar de estar em Salvador, cidade com 80% nha me facilitado exercitar um estranhamento
de negros!). A porta do colegiado de Antropo- dessa situação de confinamento racial da nossa
logia da UFBA também se fechou para Maria comunidade antropológica que até aqui tem
de Lourdes Siqueira, que concluiu o mestrado desenvolvido estratégias discursivas sutis para
em Ciências Sociais (Antropologia) pela PUC- silenciar o assunto. Primeiro, não fui sociali-
-SP em 1986 e o doutorado em Etnologia e zado profissionalmente nessa rede; segundo,
Antropologia pela EHESS em 1992, sob a tive a experiência acadêmica da Universidade
orientação de Maurice Godelier, um dos mais Central da Venezuela, ambiente muito menos
respeitados antropólogos franceses. Ela, que é segregado racialmente que o nosso; e terceiro,
especialista e engajada com as religiões afro- fiz a pós-graduação em Queen’s convivendo o
-brasileiras, foi absorvida então pela Escola de tempo todo com colegas africanos que compu-
Administração da mesma universidade. Ana nham, tanto no mestrado quanto no doutora-
Lúcia Valente, doutora pela USP e especialis- do, a metade das turmas.
ta em relações raciais, transferiu-se da UFMT
para a UnB; porém, o colegiado do Departa- CC: Nos últimos anos o senhor tem refletido
mento de Antropologia deliberou por não ab- sobre a interface entre a antropologia e os estu-
sorvê-la alegando que não aceitava professores dos culturais, o paradigma pós-colonial, os subal-
redistribuídos. E ela seria mais uma professo- tern studies. Nos artigos “O olhar etnográfico e
ra para reforçar a graduação e o programa de a voz subalterna” 4 e “Poder e silenciamento na
pós. Paradoxalmente, terminou ingressando na representação etnográfica” 5 critica a ausência das
Faculdade de Agronomia e Veterinária. Uma contribuições desses campos do saber nos cursos de
pena, porque teria sido a(o) primeira(o) do- história e teoria da antropologia ministrados no
cente assumidamente negra(o) da história do Brasil. Existe uma resistência da comunidade an-
Departamento de Antropologia da UnB. tropológica brasileira em incorporar esses debates?
Por outro lado, não acredito que as relações Quais fatores explicariam essa resistência?
raciais tenham sido importantes na formação JJC: De fato, a resistência é grande e po-
das Ciências Sociais do Brasil. Essa afirmação deríamos pensar em alguns dos fatores que
valeria, parece-me, especificamente para a So- influenciam essa falta de abertura disciplinar.
ciologia, principalmente para a chamada escola Ressalto, nos meus textos, duas dimensões des-
paulista (Florestan Fernandes, Roger Bastide, sa resistência, que apontam para temas repri-
Octavio Ianni, Fernando Henrique Cardoso). midos na formação da antropologia acadêmica
Eu chegaria a propor inclusive a hipótese opos- brasileira. Um deles é a teoria marxista. A base
ta: para a antropologia consolidar-se como área dos estudos subalternos é uma revisão da his-
acadêmica autônoma no Brasil, o que ela fez toriografia indiana justamente incorporando a
foi afastar-se do estudo das relações raciais. Ao perspectiva marxista que havia sido censurada
invés de enfrentar uma abordagem antropoló- pela historiografia britânica de corte colonialis-

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ta. Por outro lado, lembremos que a antropo- termo “nativo”, que remete a uma alteridade
logia acadêmica brasileira foi formada nos anos abstrata, pelo menos em termos das relações de
60 recusando o diálogo com o marxismo e, ao poder. Podemos falar dos nativos sem falar de
fazê-lo, reproduziu a mesma exclusão do mar- estrutura de opressão que englobam as classes,
xismo que operou nas três grandes tradições o Estado e correlatos, mas ao falar de subal-
teóricas da antropologia dos países centrais do ternos e de colonialidade não temos como não
Ocidente: o estrutural-funcionalismo britâni- falar de escravidão, racismo, genocídios dos
co, o estruturalismo francês e o culturalismo povos originários e tradicionais, etc.
norte-americano. No caso dos estudos culturais, a animosida-
A segunda dimensão é a dolorosa questão, de dos antropólogos é ainda muito maior que
já tocada na resposta anterior, da profunda ex- a que manifestam diante das teorias pós-colo-
clusão étnica e racial que caracteriza a nossa co- niais e da subalternidade. Os estudos culturais
munidade antropológica. Esse nosso mundo de propõem uma abordagem interdisciplinar para
brancos ocidentalizados falando sobre negros os problemas da cultura e, desde a sua consti-
e indígenas de um modo unilateral é rapida- tuição nos anos 60, têm se caracterizado pelo
mente questionado pelos estudos subalternos e livre trânsito entre teorias e métodos de várias
também pela teoria pós-colonial, movimentos disciplinas, como a sociologia, a história, a li-
que foram criados por uma rede multiétnica e teratura, a comunicação, dialogando sempre
multirracial de pesquisadores. Infelizmente, a com o marxismo, a psicanálise, a semiologia,
repressão que nossa comunidade de antropó- as teorias do discurso e da cultura visual, entre
logos exerce sobre seus membros para que não outras. A antropologia sempre se sentiu ame-
se discuta a dinâmica de reprodução da sua açada pelos estudos culturais, colocando-se
realidade de exclusão racial acaba favorecendo reativamente diante deles, como se os antro-
não apenas a “má vontade” antropológica, mas pólogos tivessem um monopólio dos estudos
verdadeiras imposturas, em que qualquer an- da cultura. Essa reação conservadora estimu-
tropólogo possa se apresentar livremente como lou inclusive um fechamento fundamentalista
anti-racista, independentemente do que tenha de tipo disciplinar que reforça e mitifica uma
ou não tenha feito. Assim, tem havido casos herança teórica da disciplina antropológica
de antropólogos que jamais participaram da contra a postura interdisciplinar dos estudos
nossa luta pelas cotas para negros e indígenas culturais. Essa defesa de um mercado teórico
(e alguns que mesmo reforçaram ou se aliaram exclusivamente antropológico é algo anacrôni-
ao grupo dos anti-cotas) e que agora dão cur- co a estas alturas, diante de uma crise paradig-
sos sobre modernidade/colonialidade e teoria mática geral das disciplinas das humanidades e
pós-colonial (aproveitando que esses temas já das ciências sociais. Na UnB, nos últimos dois
aparecem como uma nova moda acadêmica), anos, quando apresentei a proposta de criação
despolitizando um debate histórico e o senti- de um Instituto Interdisciplinar de Estudos
do transformador original dessa teoria ao não da Cultura, ao qual estaria ligada uma Pós-
dialogar com os movimentos anti-racistas e de -Graduação em Estudos Culturais, a principal
afirmação dos povos originários e tradicionais. reação ao projeto veio justamente do meu de-
Lembremos ainda que a própria categoria partamento, a tal ponto que a nossa proposta
de “subalterno” aponta mais diretamente para teve que ser retirada temporariamente do Con-
as relações de poder, opressão e desigualdade, selho Universitário na espera de um momento
enquanto o jargão antropológico optou pelo menos beligerante por parte dos antropólogos

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para que possa ser reapresentada com melhores ceberam que em algum momento terão de di-
chances de aprovação. vidir seu poder com os negros. E eles resistirão
até onde puderem a essa partilha de poder.
CC: As suas publicações mais recentes abor- No caso das ciências sociais, o processo de
dam a questão das políticas de ação afirmativa recusa está mais próximo de uma política de
e da inclusão étnica e racial no ensino superior. censura ou recalque, mesmo. Não esqueçamos
A sociedade brasileira de maneira geral e a co- que a esmagadora maioria dos colegas que fre-
munidade antropológica em particular se encon- quentam as reuniões da Anpocs, da ABA e da
tram divididas com relação a esse debate. Como SBS tem viajado desde os anos 80 para os Es-
o senhor analisa essa discussão no conjunto da tados Unidos e vivenciaram o cotidiano de um
sociedade e no campo das ciências sociais? Como mundo acadêmico que absorveu plenamente as
avalia a cobertura que a grande imprensa brasi- políticas de ações afirmativas. Ou seja, nossos
leira (televisiva e impressa) tem dado ao tema? cientistas sociais conviveram, ainda que breve-
JJC: Várias pesquisas divulgadas na impren- mente, com negros e indígenas como colegas e
sa desde 2006 indicam que mais de 60% dos como estudantes. O que deve ser questionado é
cidadãos brasileiros concordam com a necessi- o silêncio que eles têm guardado até hoje sobre
dade das ações afirmativas. A sociedade pare- esse convívio multiétnico e multirracial quan-
ce dividida porque os meios de comunicação do regressaram para o nosso mundo acadêmi-
dominantes dão muito mais espaço para as co absurdamente excludente, ou melhor, para
posições contrárias do que para as posições fa- o nosso mundo sem negros e sem indígenas.
voráveis às cotas. Matérias hostis às cotas são Na medida em que não podem alegar desco-
produzidas constantemente pela TV Globo, nhecimento do processo, a explicação para o
pela TV Bandeirantes, pelos jornais O Globo, silenciamento do tema poderá vir de outro lu-
Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, pela gar. Sucede que foram justamente os cientistas
Revista Época e ainda mais furiosamente pela sociais que legitimaram ideologicamente essa
revista Veja. Não é fácil furar esse bloqueio exclusão ao longo de décadas: reenergizaram
midiático, mas ele é muito mais um fenôme- constantemente o mito freyreano da democra-
no da captura e controle da representação da cia racial e insistiram em defender uma suposta
vontade nacional por parte da elite, análogo singularidade positiva do convívio interracial
ao que ocorria nos dias da ditadura, quando no Brasil.
os meios de comunicação não refletiam os an- Vale a pena enfatizar que a luta pelas ações
seios populares e distorciam deliberadamente afirmativas no Brasil nunca teve boa acolhida
acontecimentos e percepções coletivas. As cotas no conjunto das nossas ciências sociais. Con-
ameaçam a elite racista que controla os meios cretamente, nenhuma das três associações aci-
de comunicação; entre outros motivos para ma mencionadas jamais defendeu abertamente
esse sentimento de ameaça está o fato de que já as cotas. Mais ainda, as nossas ciências sociais
começamos a exigir cotas para negros na publi- conseguem ser mais conservadoras que o su-
cidade e nos próprios meios de comunicação. postamente conservador sindicato nacional dos
Essa elite já sabe que algum dia, após as cotas docentes universitários (o Andes), que recente-
para estudantes negros, virão as cotas para jor- mente tirou uma posição favorável às políticas
nalistas negros, atores negros, apresentadores de ação afirmativa para o ensino superior. A
negros, etc. Falando abertamente, o que está Fasubra (Associação Nacional dos Servidores
em jogo é que os meios de comunicação já per- Universitários) igualmente retirou uma posição

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favorável às cotas. Finalmente, a recente Con- e por manter-se no programa foi a inspiração e
ferência Nacional de Educação (Conae), reu- intuição para que Rita Segato e eu formulásse-
nida em Brasília no início de abril, tirou uma mos, em novembro de 1999, uma proposta de
posição favorável às ações afirmativas nos mol- cotas para negros na UnB.
des da lei em tramitação no Congresso (50% Certamente a minha visão das relações ra-
de cotas para a escola pública, reservando desse ciais no mundo acadêmico brasileiro mudou
contingente a porcentagem de negros de cada drasticamente após o “Caso Ari”. Percebi que
estado da União). Enquanto isso a ABA, com o pacto corporativo é tão profundo entre os
a sua Comissão de Relações Étnicas e Raciais professores que, para manter a unidade de um
(Crer) funcionando desde 2004, ainda não tem colegiado, os antropólogos (brancos todos, não
posição própria sobre as cotas no Brasil! esqueçamos) estavam dispostos a destruir o so-
nho de doutorado de um estudante negro, mes-
CC: Juntamente com Rita Segato, o senhor mo sabendo que o que estava em jogo não era a
foi um dos responsáveis pelo projeto original de sua falta de mérito; e sabendo também que essa
implantação do sistema de cotas na UnB. O que reprovação inibiria fortemente quaisquer ou-
lhes motivou a iniciar esse movimento? Houve tros aspirantes negros a fazer o doutorado em
uma alteração na sua compreensão da raça e das antropologia na UnB. Se a hostilidade a Ari foi
relações raciais no Brasil a partir do engajamen- enorme porque ele não aceitou a reprovação, a
to nesse projeto? Quais eram as grandes linhas da hostilidade a Rita Segato e a mim não foi me-
proposta inicial, como transcorreram as disputas nor porque não aceitamos calar o assunto entre
para a implantação dessa política na Universida- os professores. No nosso caso, fomos vítimas
de de Brasília e como ela se encontra hoje? de um voto de censura por parte do Colegiado
JJC: A proposta de cotas que formulamos de Antropologia em 1999. Quanto a Ari, sua
para a UnB em 1999 foi uma resposta políti- luta pela revisão da nota durou dois sofridos
ca ao trauma provocado pelo chamado “Caso anos até que finalmente o Cepe (o máximo
Ari”, episódio que já começa a fazer parte da Conselho acadêmico da UnB) lhe deu ganho
história da antropologia brasileira. Como um de causa e forçou oficialmente o departamento
“Caso Dreyfus” da academia, o “Caso Ari” re- a mudar a sua menção em Organização Social
velou algo que havia sido naturalizado desde e Parentesco e aprová-lo; e assim ele pôde reto-
a fundação da antropologia no Brasil: que a mar o doutorado e concluir seus estudos.
nossa comunidade de antropólogos é uma das Menciono esse tema tão doloroso não por
mais segregadas racialmente do mundo e que ressentimento ou por desejo de retaliação (afi-
fomos sempre coniventes com essa segregação, nal, o nosso colegiado já se transformou con-
pois esse “segredo de família” nunca havia sido sideravelmente de 2005 para cá), mas porque
exposto até a eclosão daquele conflito na UnB. julgo o “Caso Ari” como absolutamente em-
Resumindo o que o próprio entrevistador blemático do nosso racismo acadêmico que
Ari Lima pode fazer muito melhor que eu, Ari precisa ser enfrentando urgentemente. E como
foi o primeiro aluno negro do nosso Douto- os casos da África do Sul, Peru, Chile, Argenti-
rado após vinte anos do programa e foi logo na e tantos outros países demonstram, é preciso
reprovado em uma disciplina obrigatória no enfrentar a verdade para chegar à reconciliação
primeiro semestre. A questão é que, em vinte (e em algum momento do futuro, acredito eu,
anos, ninguém havia sido reprovado naquela alcançar a cura das relações raciais doentias e
disciplina. A luta de Ari por revisar a sua nota violentas).

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A proposta inicial se manteve de 20% para na Constituição e à inadequação da implemen-


negros. Contudo, ao primeiro debate que ti- tação, pelo Estado, de uma política pública com
vemos, organizado pelos alunos em dezembro base na imposição aos indivíduos de identidades
de 1999, compareceram dois indígenas, Rita predeterminadas e assentadas em um conceito
Xavante e David Terena, e ambos firmaram cientificamente ultrapassado, a raça. Como o se-
posição que os indígenas também queriam nhor avalia essas críticas?
participar do processo. Aí incorporamos nas JJC: A quebra do princípio da igualdade já
versões subsequentes da proposta as vagas para é constitutiva da nossa Constituição, que ad-
indígenas além da porcentagem para negros. mite cotas para mulheres nos partidos políti-
A proposta se sustentou ao longo de quase 4 cos, cotas para pessoas com deficiência, menos
anos pelo apoio quase exclusivo dos estudantes. anos de contribuição para aposentadoria para
Pouquíssimos foram os professores da UnB que mulheres, entre outros casos. A única propos-
se manifestaram publicamente a favor das co- ta que causa reação à quebra da igualdade é a
tas. Acredito que somente foi possível aprovar proposta de cotas para negros. Existe uma difi-
as cotas porque ampliamos a discussão e o nos- culdade real, que é uma manifestação indireta
so arco de alianças para fora da universidade. de racismo, por parte de setores da nossa elite,
Assim fazendo, pressionamos a universidade de com relação às cotas para negros nas universi-
dentro para fora (por exemplo, denunciando a dades.
sua segregação racial evidente para os meios de Quanto ao conceito de raça, são os contrá-
comunicação) e de fora para dentro (trazendo rios às cotas que colocam um falso problema.
o movimento social negro e os organismos do Nós, propositores das cotas, jamais defende-
governo para os debates no interior dos cole- mos a existência de raças no sentido biológi-
giados superiores da universidade). co do termo. Tanto que aprovamos cotas para
Existem ainda problemas com a implanta- negros, e não para uma suposta raça negra. Os
ção do sistema de cotas na UnB e falo obvia- contrários às cotas procuram sensibilizar nossa
mente da perspectiva dos dois proponentes que população acusando-nos de defender a existên-
não foram convidados a integrar a comissão de cia de raças e a partir daí construir cenários ca-
implantação. O nosso Plano de Metas, por tastróficos de conflitos raciais.
exemplo, que foi votado no Cepe (Conselho É preciso frisar também que não foi o Esta-
Acadêmico), ainda não foi implementado na do que implementou as cotas, mas as universi-
íntegra. Sucede que o tema do racismo é mui- dades, a partir de sua autonomia. A identidade
to pouco compreendido ou mesmo aceito na de negro cotista não foi imposta, portanto, de
UnB. Contudo, vendo o lado positivo do pro- uma forma totalizante como eles querem pas-
cesso, a política se enraíza cada vez mais, não sar. Fixe-se bem que os estudantes negros são
por causa da administração, que continua clau- cotistas apenas enquanto transitam no campus,
dicando na compreensão do tema, mas devido pelo que tem ocorrido até agora, não se dá ne-
à consolidação crescente do coletivo estudantil nhuma generalização dessa identificação – de
em defesa das cotas. negros que estudam pelas cotas – para os de-
mais âmbitos da sua vida social. Em suma, os
CC: Duas das principais críticas feitas à im- negros são interpelados negativamente como
plantação do sistema de cotas no ensino superior tais, sejam ou não cotistas, no cotidiano da
no Brasil dizem respeito à suposta quebra do prin- nossa sociedade racista. Não são as cotas que
cípio da igualdade de todos os cidadãos prevista estão racializando a sociedade brasileira; ela já

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é racializada desde séculos atrás, e essa raciali- são e uma loteria, na verdade. Ademais, não se
zação se intensificou ainda mais após a Repú- pode falar de vestibular no Brasil sem falar da
blica, com a consolidação do branqueamento perversa indústria dos cursinhos: passa no ves-
como política de Estado. As relações raciais tibular quem pode pagar mais para se preparar
nos campi, que é o que nos importa mais di- mais, pois não esqueçamos que os cursinhos
retamente, pois se trata do contexto social sob enviam seus representantes nas comissões de
o qual estamos mais preparados para atuar, se preparação das questões do vestibular, o que é
não estão melhores que antes, pelo menos não um escândalo e um procedimento proibido em
pioraram sensivelmente desde que as cotas fo- muitos países do mundo. Sem querer ser irôni-
ram implementadas. co, mas apenas para sair um pouco desse nosso
isolamento mental crônico como se fôssemos
CC: A adoção de políticas de ação afirmati- uma nação única no mundo, acredito que a
va em geral, e do sistema de cotas para acesso ao meritocracia era mais consistente nos exames
ensino superior em particular, trazem um debate de mandarinato nas dinastias Tang, Sung e
de natureza filosófica: a discussão sobre justiça, o Ming da China do que nossos atuais exames
que seria ou não justo. Um dos contornos que essa de ingresso. Sempre fazemos críticas severas ao
indagação filosófica ganha ao extrapolar para o vestibular, mas pensemos nas seleções para a
conjunto da sociedade diz respeito à questão do pós-graduação e encaremos o fato de que elas
mérito, que estaria presente, por exemplo, no con- estão permeadas de clientelismos, cartas marca-
curso para ingresso na universidade, o vestibular. das, preferências teóricas ou ideológicas, endo-
Como o senhor enxerga essa questão? gamia acadêmica, além de preconceitos raciais,
JJC: A questão do mérito é uma questão de gênero, sexualidade e região, entre outros.
importantíssima e dediquei uma seção inteira Temos que enfrentar a questão do mérito, po-
do meu livro “Inclusão étnica e racial no Bra- rém sem deixar de fora nenhum dos questiona-
sil” a uma crítica minuciosa da ideologia do mentos que levantei acima.
vestibular como sistema meritocrático. Existe
uma grande diferença entre mérito de chegada CC: Neste mesmo livro6 o senhor argumenta
e mérito de percurso; mérito de adequação a que esta inclusão não deve se restringir à gradu-
um formato preestabelecido de prova e mérito ação. Defende a ampliação da política de acesso
de potencial de inteligência; mérito de infor- preferencial de negros e índios à universidade aos
mação e mérito de formação. Os formatos de domínios da extensão, da pós-graduação, do ensi-
vestibulares mudam de uma universidade para no e da pesquisa. Ressalta que um movimento des-
outra; mudam de um ano para outro na mesma sa natureza poderia levar a uma reestruturação
universidade; as escolas de segundo grau são di- dos programas de formação nas ciências sociais em
ferentes entre si, até as que são de uma mesma nosso país, fortemente marcados por uma perspec-
cidade. Um estudante reprovado na UFMG é tiva eurocêntrica. Em sua opinião, quais são as
aprovado na UnB, enquanto um estudante re- marcas desse eurocentrismo e como ele poderia ser
provado na UnB e na UFMG é aprovado na superado?
Ufscar; por acaso os dois têm o mesmo mérito? JJC: Sem querer carregar na hipérbole, os
Os vestibulares estão eivados de questões er- estudos comparativos que tenho feito sobre as
radas, questões confusas, questões irrelevantes, universidades dos cinco continentes do mundo
pegadinhas, leituras ideológicas de contextos apontam para a realidade de que as universi-
históricos, políticos e literários – uma confu- dades mais eurocêntricas fora do Ocidente

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são as africanas e as latino-americanas. O caso os colegiados dos países centrais. Obviamen-


brasileiro é particularmente grave porque nós te, trata-se de uma fantasia construída há mais
não participamos da condição pós-colonial que de um século, desde que nossa elite assumiu
marca as nações africanas; além disso, nosso definitivamente o branqueamento como a en-
sistema acadêmico é um dos mais formidáveis carnação racista do ideal político-científico do
do sul do mundo, comparado ao da Índia e da euro-exclusivismo.
Austrália. Contudo, as universidades brasilei- Assim, uma das marcas do nosso euroex-
ras foram formadas dentro de um critério de clusivismo acadêmico foi reproduzir acriti-
absoluta tabula rasa: nenhum saber de origem camente a branquitude fenotípica dos nossos
africana, nenhum saber de origem indígena, colegiados de antropologia. É claro que exis-
nenhum saber popular, nenhum saber das ci- te um automatismo, uma reação inconsciente
vilizações asiáticas – apenas o conhecimento de aprovação e de acolhimento, por parte dos
gerado ou legitimado pelos países da Europa e nossos colegiados (de antropologia e de ou-
dos Estados Unidos. Essa destituição de tantas tros), quando aparece um(a) jovem doutor(a)
tradições de conhecimento conduziu a um em- branco(a) que acaba de fazer seu doutorado na
pobrecimento da imaginação, tanto dos profes- Europa ou nos Estados Unidos, por exemplo;
sores como dos alunos. e algum tipo de barreira ou dificuldade, quase
Tal como o concebo, o problema maior sempre não formulada e às vezes nem sequer
não é nem tanto o eurocentrismo, mas o eu- racionalizada adequadamente, para absorver
roexclusivismo. Eu posso ser eurocêntrico para um(a) jovem doutor(a) negro(a). Não estou
apoiar-me nas grandes tradições de saberes ge- colocando essa correlação como uma lei ou ele-
rados na Europa; posso ser afrocêntrico para mento estruturante, mas defendo que se trata
responder a outras indagações que podem ser de uma prática recorrente e generalizada em
mais bem respondidas se eu lançar mão de tra- todos os programas de antropologia do país –
dições de saberes gerados nas nações africanas; que é a área que nos interessa equacionar neste
posso ser indigenocêntrico quando incorporo momento. Sabemos, por outro lado, que não
as tradições de saberes das nações indígenas existe nenhuma área disciplinar e nenhum de-
brasileiras; e posso ser ainda asiacêntrico para partamento de nenhuma universidade pública
responder ou complementar as respostas às in- do Brasil – e não é pouca coisa sustentar uma
dagações que formulei com base nos padrões afirmação dessa magnitude – que sejam inte-
anteriores, tomados juntos ou cada um sepa- grados étnica e racialmente de acordo com as
radamente. porcentagens do censo brasileiro.
O euro-exclusivismo reduz a imaginação na Estamos acostumados a pensar a coloniza-
medida em que nosso espaço mental fica to- ção como algo que opera primeiramente na
mado pela ansiedade incessante por absorver mente dos colonizados e que os seus corpos
as teorias dos acadêmicos europeus e ter que seriam apenas o suporte desse processo de con-
demonstrar para eles que somos capazes de mi- trole sobre o nosso imaginário. Na verdade, a
metizá-las. Esse desejo de existir para ser olhado colonização das nossas universidades foi insta-
e aprovado pelos europeus e norte-americanos lada no Brasil também como um controle (não
assume uma concretude através do imaginário confesso, mas concreto) sobre o fenótipo dos
racista da ciência; é como se quanto mais bran- nossos acadêmicos. Isso não foi específico para
co fosse um dos nossos colegiados, mais ele se a antropologia, mas nem de longe nós somos
parecesse, intelectual ou cientificamente, com contra-exemplo a essa regra.

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E aqui vem o papel transformador das políti- serva de vagas não meritocrático do qual ele
cas de inclusão na pós-graduação e na docência: se beneficiou.
vamos romper essa fantasia racista fenotípica e Em segundo lugar está a maneira rasa com
fazer com que um colegiado acadêmico de pon- que se fala normalmente das ações afirmativas
ta no Brasil comece a se parecer com a compo- nos Estados Unidos. Ao contrário do que apa-
sição racial da nossa sociedade como um todo. rece em muitos textos dos contrários às cotas,
Ocorrerá, certamente, um paralelo intelectual o modelo norte-americano não utiliza cotas de
dessa revolução fenotípica e os pesquisadores e um modo generalizado. E não somente elas não
docentes negros começarão também a sugerir e são o modelo: elas não são mais permitidas, por-
demandar mudanças e ampliações nas teorias e que são concebidas (sobretudo através do voto
nos temas de pesquisa vigentes nos nossos pro- da juíza O’Connor, da Suprema Corte) como
gramas e que até agora muito pouca atenção teto. Essa concepção de cota como teto é exata-
têm dado aos estudos africanos, afro-brasileiros mente oposta à que defendemos; a saber, as cotas
e às relações raciais no Brasil. são um piso de 20% que deverá acrescentar-se à
porcentagem (até agora pequena) de estudantes
CC: De que maneira um olhar comparativo negros que conseguiram atravessar a barreira
sobre a implantação de políticas de ação afirmati- (difícil e quase absurda) do nosso vestibular.
va, sobretudo o sistema de cotas, em outros países Comparar com os Estados Unidos, então,
como EUA, África do Sul e Índia, nos ajuda a é também uma oportunidade para defender e
pensar sobre o caso brasileiro e latino-americano? divulgar a originalidade da nossa formulação
JJC: O olhar comparativo é essencial para das cotas. Todavia, o mais importante desse
retirar-nos desse nosso ambiente fechado e olhar comparativo é corrigir essa noção errô-
eurocêntrico, cuja referência principal, nas nea e ainda amplamente disseminada de que as
últimas três décadas, tem sido a antropologia ações afirmativas foram inventadas nos Estados
praticada nos Estados Unidos. Curiosamen- Unidos. A verdade histórica é que o primeiro
te, como os antropólogos norte-americanos país no mundo a implementar ações afirmati-
famosos nunca tocaram na questão das ações vas como política pública foi a Índia. As cotas
afirmativas, sua influência avassaladora apenas para os dalits (os intocáveis) foram introduzi-
agravou esse nosso fechamento sobre o tema. das na constituição indiana em 1949 por B.
O primeiro dado relevante que devemos R. Ambedkar, ele mesmo um dalit. Ambedkar
circular sobre as ações afirmativas nos Estados lutou durante mais de 20 anos pelos direitos do
Unidos é que o famoso Clifford Geertz ingres- seu grupo até tornar-se o relator da constitui-
sou na Universidade de Columbia beneficiado ção da recém-criada nação indiana e conseguir
pelas cotas para ex-combatentes da Segunda a aprovação das cotas. Provavelmente o maior
Guerra Mundial. É parte dessa reação às co- revolucionário das constituições do pós-guerra,
tas no meio antropológico brasileiro que um Ambedkar enfrentou Gandhi, que era veemen-
fato tão relevante não tenha circulado. Não temente contrário às cotas. O modelo indiano
fosse pelas cotas, provavelmente ele não teria inspirou o modelo norte-americano, pois Mar-
estudado na universidade de maior prestígio tin Luther King visitou a Índia a convite de
de seu país, o que lhe abriu inúmeras opor- Nehru em 1958 e conheceu a implementação
tunidades de florescer academicamente. Não das cotas. Ao regressar aos Estados Unidos, di-
podemos pensar na trajetória exitosa de Ge- vulgou a política indiana das ações afirmativas
ertz, portanto, sem falar de um sistema de re- em seu país.

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Comparar o Brasil com a África do Sul e delo econômico dependeria primordialmente


com os Estados Unidos também é importante da escravização dos africanos. As sociedades in-
porque nos coloca um parâmetro e um hori- dígenas, após um século de convívio negativo
zonte de referência: enquanto estamos limita- com os portugueses, formularam imagens dos
dos a discutir se devemos ou não abrir cotas brancos nas suas narrativas como um modo de
para negros e negras na graduação, nesses dois enquadrar negativamente, no plano mítico,
países as ações afirmativas se estendem à pós- esses seres que utilizavam a tortura e o geno-
-graduação, à docência e aos postos do mer- cídio em uma escala sem precedentes segundo
cado de trabalho em todos os níveis, tanto nas as práticas de guerra das nações que viviam até
funções do Estado como na iniciativa privada. 1500 nesse espaço que hoje chamamos de Bra-
Além do sistema acadêmico, portanto, são sil. As narrativas mítico-históricas indígenas
também reservadas vagas para os negros para têm a eficácia de salvar sua própria humanida-
a formação de uma classe de funcionários, pro- de, desumanizando os seus opressores brancos
fissionais e executivos negros. e também seus aliados negros, sem se importar
Comparando-nos então com esses três paí- com a opressão (para eles irrelevante) dos bran-
ses que contam uma trajetória muito mais lon- cos sobre os negros.
ga, podemos conscientizar-nos de que nosso A pressão sobre os dois grupos foi eviden-
incipiente sistema de ações afirmativas é mais temente enorme: indígenas participaram das
atrasado historicamente e bem mais tímido e investidas contra os quilombos de escravos li-
mais limitado do que os outros. bertos; e paralelamente, negros participaram,
como soldados inclusive, da violência dos
CC: Ainda a propósito do livro “Inclusão ét- brancos contra as nações indígenas, seja para
nica e racial no Brasil...”. Nele o senhor afirma, escravizá-las, seja para expulsá-las e apoderar-se
por um lado, que as narrativas míticas indígenas de seus territórios. Contudo, o próprio núme-
possuem uma força que possibilita que os índios ro de escravos negros foi colocando as popula-
elaborem/reelaborem uma auto-imagem positiva, ções indígenas em uma situação cada vez mais
de resistência e diferencial em relação aos brancos, acuada em seus territórios e, desde sua perspec-
sendo também eficaz no processo de produção de tiva, os negros não se distinguiam dos brancos.
um discurso de reivindicação de direitos. Por ou- Daí a existência, até hoje, de uma desconfiança
tro lado, aponta que as metáforas de recorte mí- que os indígenas alimentam tanto dos brancos
tico acionadas pelos negros seriam mais frágeis no como dos negros indistintamente.
que diz respeito à construção discursiva e ao con- Já no caso dos negros, que foram força-
vencimento do Estado quanto à justeza de uma dos a conviver no mesmo espaço dos brancos,
política de reparação. Quais são as razões que ex- suas narrativas tiveram que englobá-los de um
plicam essa diferença e quais suas consequências? modo muito mais positivo (uma exceção a
JJC: As razões para esta diferença no plano essa regra foram os quilombos, que afirmaram
discursivo mais abstrato entre narrativas in- mais intensamente um pertencimento territo-
dígenas e narrativas negras estão na formação rial e uma diferença sua mais radical em face
mesma da nossa sociedade a partir sobretudo dos brancos). Esse universalismo das narrati-
do séc. XVII. Após um século inteiro de explo- vas afro-brasileiras é forte e frágil simultanea-
ração de nossos recursos baseada na submissão mente: é forte, na medida em que transcende
à força e na escravização das nações indígenas, o sectarismo e o racismo reativo (racismo re-
o poder branco no Brasil definiu que o mo- ativo ainda existente entre os negros norte-

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-americanos que os faz odiar os brancos quase disso coloca alguns asiáticos (como japoneses)
indistintamente); e é frágil porque dificulta a junto com os brancos e não com os negros ou
construção de uma narrativa de enfrentamen- os coloreds (o que faria sentido se primassem
to político radical diante dos brancos – e esse pela consistência do uso da classificação feno-
tipo de narrativa foi fundamental na luta anti- típica). O sistema francês utiliza vários graus
-segregacionista nos Estados Unidos e na luta de diferença fenotípica no documento nacional
anti-apartheid na África do Sul. Os indígenas de identificação. Pensemos agora nas ambigui-
brasileiros já construíram essa narrativa de en- dades de outros países do Novo Mundo que,
frentamento e é também por isso que, acredito, como o Brasil, se auto-representam como mes-
são mais articulados nacionalmente. tiços, ou como cadinho de raças. Na Colôm-
bia, o censo utiliza categorias heteróclitas como
CC: Uma discussão recorrente nos estudos de “palenqueros” (quilombolas), “raizales” (os que
relações raciais no Brasil reaparece no atual de- são nativos da Ilha de San Andrés e Providence)
bate sobre cotas no ensino superior. Trata-se da e gerais como “afro-colombianos” e “negros” –
ambiguidade que caracteriza o sistema de clas- misturando critérios de origem com aparência
sificação racial brasileiro. Em virtude dessa am- fenotípica. Na República Dominicana, du-
biguidade, haveria uma dificuldade de se definir rante décadas a categoria negro foi retirada do
quem seria o público de uma política dessa na- censo oficial do Estado e todas as pessoas de
tureza. Essa discussão diz respeito especialmente fenotípico geral africano subsaariano tinham
à categoria pardos e foi objeto de uma polêmica que se identificar como “índios”. Como se tra-
envolvendo irmãos gêmeos na UnB. Em “Inclusão tou de um procedimento de censura racial, a
étnica e racial no Brasil...” o senhor problemati- prática dessa censura ao significante negro tem
za a categoria pardos, afirmando a existência no seus efeitos até hoje. Já em Puerto Rico, outra
Brasil de pardos-negros e pardos-brancos. Poderia sociedade da mestiçagem muito similar à brasi-
nos falar um pouco sobre sua reflexão a esse respei- leira e à dominicana, o censo de 2001 registrou
to e como o caso dos gêmeos foi encaminhado na 81% de brancos, pelo fato de que as opções
Universidade de Brasília? eram apenas duas (brancos e negros), e numa
JJC: Afirmo sempre que o pensamento sociedade marcada (como a brasileira) pelo
sobre as cotas é um pensamento complexo. E branqueamento, todos os “trigueños” (aqueles
defender as cotas não significa ser sectário: os que chamamos pardos) se identificam com os
inimigos das cotas também podem levantar brancos.
questões relevantes e é nossa tarefa enfrentá- Tudo isso para dizer que não é novidade ne-
-las. Sim, o sistema racial brasileiro conta com nhuma que sociedades racistas sejam também
ambiguidades, mas não somente ele. Existe sociedades eivadas de ambiguidades de iden-
ambiguidade nos sistemas de classificação ra- tidades raciais hetero e auto-atribuídas – e as
cial de inúmeras nações e darei alguns exem- políticas públicas são discutidas e implementa-
plos. Nos Estados Unidos, que permitem agora das no interior desses climas específicos de am-
que os cidadãos se reconheçam oficialmente biguidades. Afinal, ambiguidade é uma coisa;
em mais de uma categoria do censo; e que ad- paralisia de atuação e conivência com a repro-
mitem também que uma pessoa se apresente dução de práticas consuetudinárias de racismo
como “misturada” (o que certamente dá mar- é outra bem diferente.
gem a todo tipo de ambiguidade). Na África do Enfatizo sempre que as cotas são um pen-
Sul, que separa “africans” de “colored” e além samento complexo e parte dessa complexidade

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é justamente o lugar dos pardos, que não deve os fizessem parte desse contingente, restariam
ser concebido linearmente. Com certeza exis- 398 negros cotistas. Na verdade, mesmo que
te um contingente de pardos que aceitam essa o erro fosse de 10% do total de beneficiados
identidade porque não se identificam nem com (uma margem altíssima de erro, convenhamos,
a condição de pretos nem com a de brancos. e que não é o caso em nenhum vestibular pelas
Neste sentido, a colocação de alguns adversá- cotas até agora), ainda assim a política seria jus-
rios das cotas que questionam o tratamento de tificável: se a UnB oferece agora 1000 vagas de
pardos junto com os pretos, subsumindo am- cotas por ano, por acaso deixaria de beneficiar
bos na categoria de negros, merece uma refle- 900 estudantes negros porque 100 candidatos
xão e uma resposta consistente. Mas sabemos brancos estariam dispostos a fraudar o sistema?
também que uma grande parte dos pardos é Se isso ocorresse, o justo seria combater a ação
formada por pessoas que são vistas socialmen- desses 100 brancos fraudadores e o injusto seria
te como negros e como tal são discriminadas fechar as portas da universidade para os 900
– seriam estes os pardos-negros, que recusam negros que merecem a oportunidade oferecida
a categoria de negro para fugir do racismo. pela política de cotas.
Finalmente, existem muitos brancos também Se fosse assim, teríamos que parar com a
que se refugiam na categoria de pardos ainda política de bolsa-família, porque são muitos os
sem sofrerem discriminação racial. Estes são os casos denunciados de fraude comprovada na
pardos-brancos. sua implementação. E se abrirmos cotas para
O pensamento sobre identidades raciais nos estudantes de escola pública ou de baixa renda,
países da ideologia da mestiçagem não pode se igualmente nos depararemos com ambiguida-
basear apenas na lógica aristotélica do terceiro des, erros e má fé. Resumindo: qualquer polí-
excluído. Se bem é certo que as identidades ra- tica pública de grande escala está sujeita a uma
ciais no Brasil são pelo menos três – brancos, margem de erro, seja provocada pelo gestor da
pretos e pardos – é igualmente certo que em política, seja pela má fé dos cidadãos; contudo,
outro nível elas são apenas duas – brancos e ne- a existência de uma pequena porcentagem de
gros (não brancos). Nosso sistema de inscrição erro não deve ser motivo para negar a justiça
de identidades raciais de realidade social vivida ou a necessidade urgente de implementar uma
pelas pessoas é assim simultaneamente dual e determinada política.
multipolar.
O caso dos gêmeos que se inscreveram pelas CC: O antropólogo Peter Fry, em uma entre-
cotas na UnB ilustra, por um lado, essa ambi- vista também concedida a esta revista7, afirma
guidade da heteroatribuição em uma sociedade que as palavras da antropologia “entraram defi-
com grande variedade fenotípica. Por outro nitivamente para o cenário político. A questão da
lado, não faz sentido, pensando em termos relatividade cultural virou assunto, assim como
práticos de política pública, o grande destaque a ideia da alteridade, mas não uma alteridade
negativo que a imprensa deu a esse fato: afinal, como constatação analítica, e sim como um va-
foram duas pessoas apenas em um contingen- lor”. Como antropólogo, de que modo o senhor vê
te de mais de 3 mil candidatos. Nenhum dos a relação entre “constatação analítica” e “valor”
contrários às cotas que se aproveitaram desse no debate sobre a desigualdade étnica e racial e as
erro da Comissão disse uma única palavra acer- cotas nas universidades públicas?
ca dos 400 estudantes negros que efetivamente JJC: Consigo identificar essas duas dimen-
entraram pelas cotas; mesmo que os dois gême- sões da alteridade apontadas por Peter Fry

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quando analiso a desigualdade racial no Brasil e a segregação racial em que vivemos e não es-
quando teorizo as cotas. A constatação analítica tranhavam o cânone colonial de alteridade. A
existe quando nos deparamos, não apenas com partir de agora, vamos ter que aprender a de-
a desigualdade, mas com a diferença racial. A senvolver um convívio multirracial deveras
experiência de ser negro no Brasil é muito dife- verdadeiro e pacífico, em que o outro (negro)
rente da experiência de ser branco e a alteridade não voltará para sua comunidade, mas viverá
adquire, inevitavelmente, uma concretude. Na conosco. Enfim, o valor da alteridade passará
verdade, a minha experiência pessoal, ao longo de uma antropologia branca para uma antropo-
desses dez anos de luta pelas cotas, de uma con- logia multirracial. A questão a partir de agora
vivência contínua, intensa e extensa a todo o não é apenas desenvolver discussões acadêmicas
país, com a comunidade estudantil e acadêmica sobre multiculturalismo, interculturalidade, di-
negra, tem sido de uma crescente consciência versidade, etc, mas construir a nossa comuni-
da grande diferença do que significa ser negro dade de antropólogos como uma comunidade
e ser branco na nossa sociedade. Acredito que multiétnica e multirracial. A multirracialidade
pelo menos um pouco aprendi a ver o mundo tem que ser então uma prática, para reequilibrar
através dos olhos dos colegas, dos militantes e um histórico negativo de exclusão racial entre
dos alunos negros. Acredito, portanto, que o praticantes da disciplina antropológica.
que motiva a luta pelas cotas é a constatação
analítica da diferença e da desigualdade racial CC: Nos cursos de métodos e projetos de pes-
(que se traduziu, na nossa sociedade, em racis- quisa em antropologia ouvimos por vezes o ar-
mo contra os negros); a meta das cotas, por ou- gumento de que o antropólogo deve controlar
tro lado, está conectada também com o valor da as suas filiações políticas e eventuais posturas de
alteridade. É justo reservar espaço nas universi- militância como condição de construção do co-
dades para os negros porque todos nós, negros nhecimento. Nos artigos “O olhar etnográfico e
e brancos, diferentes como somos em experiên- a voz subalterna” e “Poder e silenciamento na
cia, temos exatamente os mesmos potenciais de representação etnográfica”8 e também nas discus-
realização e a nossa sociedade deve desenvolver- sões que tem empreendido sobre racismo e ações
-se até se converter em um coletivo multirracial, afirmativas, fica evidente que a sua maneira de
igualitário e digno. praticar a antropologia tem sido marcada por
Acredito que nossa experiência de antro- uma participação intensa e posicionada em deba-
pólogos brasileiros que lutamos pelas cotas no tes políticos que atravessam a sociedade brasileira.
interior de uma sociedade racista nos coloca Em um texto recente9, por exemplo, afirma que
a necessidade de refazer a noção de alteridade “[a] partir de agora, ninguém poderá pretender
com que operávamos até recentemente. Nosso falar por ‘nós’, brasileiros, sobre a situação racial
cânone de alteridade foi importado da antropo- do país sem se colocar como parte de um campo
logia colonial, que pressupunha um encontro marcado racialmente”. Como o senhor pensa o
temporário e controlado com o outro – o an- lugar de enunciação e a relação entre pesquisa e
tropólogo retornava à sua sociedade após esse engajamento tanto na produção do conhecimento
encontro e o pacto de convivência se dava na na antropologia quanto na prática antropológica
comunidade do outro, apenas; por esse moti- de maneira mais ampla?
vo, a alteridade podia se restringir à dimensão JJC: O engajamento político sempre está
de um valor. Assim, antes da era das cotas, os presente na abordagem teórico-metodológica
antropólogos brasileiros haviam naturalizado dos antropólogos. A diferença se coloca de fato

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entre o engajamento implícito e o engajamento porando a diferença racial. O primeiro passo,


explícito. Pensemos. O Brasil formou-se como a meu ver, é implodir esse confinamento racial
a maior nação escravista da história e a popu- de meio século de antropologia acadêmica no
lação negra já é metade da população nacional. Brasil. Coloquemos um mínimo de três an-
Foram 350 anos de escravidão de norte a sul do tropólogos negros em cada um dos principais
país e uma história específica das comunidades programas de pós-graduação em antropologia
negras que sustentam variadíssimas e inúmeras do país e começaremos a por em cheque as ba-
tradições culturais. Ainda assim, quase nunca ses epistemológicas de negação da história ne-
tivemos uma antropologia afro-brasileira como gra que haviam sido geradas no interior desse
temos uma antropologia indígena, uma antro- universo acadêmico confinado. A partir daí, o
pologia do campesinato, etc. Com toda essa lugar de enunciação terá que ser, por um bom
dimensão da presença negra na sociedade e na tempo pelo menos, racializado para todos, para
cultura brasileira, Roberto Cardoso de Olivei- negros e para brancos.
ra, por exemplo, ao postular as suas matrizes
da antropologia brasileira, não distinguiu a CC: O senhor tem assumido uma postura crí-
antropologia afro-brasileira, mas subsumiu-a tica também com relação ao sistema de avaliação
na categoria de sociedade nacional. As socie- da produção científica que vem sendo adotado
dades indígenas apareceram como uma marca no Brasil pelas agências reguladoras. Entre as
da diferença para a teoria antropológica por ele ressalvas que dirige a esse sistema, afirma que o
desenvolvida, mas não assim as comunidades mesmo privilegia a articulação de parcerias com
negras. Essa escolha de não afirmar uma histó- os chamados países do Norte, em detrimento do
ria, com seus dilemas próprios dos negros bra- diálogo com outros países do Sul, que possuem
sileiros, é uma escolha política – ela reflete um uma rica produção antropológica. Na matéria
tipo de engajamento político. Menciono Ro- publicada no Correio Braziliense a que fizemos
berto Cardoso não para criticá-lo isoladamen- referência, afirma: “O Brasil está muito desligado
te, mas por reconhecer a grande influência que da América Latina. É um lugar muito provincia-
exerceu na antropologia brasileira, tendo sido, no. Eu experimento a incomunicabilidade de ser
neste sentido, emblemático de uma postura brasileiro”. Como o senhor pensa a presença da
generalizada nos nossos cursos e programas de antropologia brasileira nas redes transnacionais
pós-graduação, qual seja, a de negar estatuto de de produção do conhecimento? Considera que ela
centralidade aos estudos afro-brasileiros. ocupa uma posição subalterna? Em caso afirma-
A mutação epistêmica de que falo no meu tivo, quais seriam as possibilidades de uma par-
texto sobre o confinamento racial surge com o ticipação menos assimétrica, menos subalterna,
conceito que desenvolvi, inspirado em Bakhtin, nessas redes?
de exotopia racial. Da mesma maneira que a JJC: A pergunta aponta para duas ques-
ginocrítica e a postura feminista leram a con- tões interligadas e exige portanto uma reposta
trapelo as etnografias-padrão escritas por an- igualmente dividida. O sistema de avaliação da
tropólogos do sexo masculino, assim também produção científica no Brasil reflete um grau
os antropólogos negros começaram a identifi- de colonização e baixa auto-estima por parte
car os pontos de engajamento implícito racia- da nossa comunidade científica que é quase
lizado na produção antropológica brasileira. inacreditável. Vejamos alguns fatos básicos.
Não será fácil repactuar as bases de produção Somos um país de 190 milhões de pessoas, es-
de conhecimento na nossa antropologia incor- sencialmente monolingue sob o ponto de vista

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da nossa inserção no mundo e somos os líderes mestres hegemônicos franceses e ingleses. Fa-
da comunidade de países de língua portugue- lando de uma forma franca, sem eufemismos:
sa. Nosso idioma é muito mais falado, e em os antropólogos brasileiros se vêem obrigados a
uma escala global ainda maior do que a maioria escrever em inglês e em francês, não pelo con-
dos idiomas europeus – superior, inclusive, em teúdo, primeiramente, dos artigos, mas porque
alcance e em falantes, ao alemão, ao holandês precisam dos pontos, para os seus currículos
e ao italiano. Contudo, a Capes decidiu que Lattes, derivados das publicações em francês e
nossa produção científica vale mais pontos, inglês. Engordar o próprio Lattes tornou-se um
dentro do quadro geral de avaliação dos pro- fim em si mesmo.
gramas de pós-graduação em antropologia, se Na medida em que os professores ficam
publicarmos em inglês, em francês ou em es- submetidos a esse terror de ter que publicar em
panhol do que se publicarmos em português. inglês, seu espaço mental fica absorvido pelos
Essa hierarquização linguística da produção temas, debates e teorias que são formulados em
científica é totalmente descabida, insultante e inglês pelos colegas anglófonos. Na ânsia de se
mesmo perversa. encaixar nesse mundo distante para serem ava-
Em primeiro lugar, essa hierarquização ex- liados aqui perto, distanciam-se do circuito an-
pressa, com todas as letras, uma superioridade tropológico sul-americano, centro-americano e
supostamente intrínseca, reificada e naturaliza- caribenho, com os quais mantemos ainda pou-
da do inglês e do francês diante do português. ca troca e poucas oportunidades de circulação.
Se quisermos utilizar as categorias de subalter- E aqui surge a segunda pergunta.
nidade e neocolonialidade, aqui elas se aplicam Essa disjunção profunda entre o conteúdo
inteiramente. E esse lugar subalterno é confir- do Lattes e a promessa de uma produção cien-
mado ainda em outras dimensões da mesma tífica que fizesse sentido para a sociedade em
injunção da Capes sobre os professores. Os que vive o cientista assume consequências des-
programas de pós-graduação, pressionados pela trutivas no plano acadêmico, político e mesmo
Capes, transferem essa pressão de um modo psíquico. Muitos artigos podem ser publicados
ampliado para os professores (e ultimamente e confinados ao circuito de produção acadêmi-
também para os alunos). Exigem que eles pu- ca do primeiro mundo, ausentes, portanto, da
bliquem em inglês, o que significa que deverão mínima inserção social nos dilemas da socieda-
competir com centenas de colegas norte-ame- de brasileira. O que a Capes parece querer – e
ricanos e britânicos para encaixar seus artigos que o Lattes registra – é que os antropólogos
daqui nas revistas de lá, revistas que em sua brasileiros publiquem artigos em inglês em re-
maioria seguem critérios editoriais afins com vistas consideradas boas – o conteúdo dos ar-
o estilo de vida acadêmica norte-americano e tigos e sua influência nos rumos da disciplina,
britânico, e não com o nosso. Chega a ser uma como tais, são completamente irrelevantes para
caricatura da relação colônia-metrópole típica a pontuação.
de épocas passadas na África, na Índia e no Ca- A esta altura, a ideia de que a antropologia
ribe: uma elite local, falando seus idiomas pró- brasileira tem sido apoiada pelo Estado (ao lado
prios e com suas tradições intelectuais próprias da economia, da sociologia e afins) para ajudar
é forçada a se apresentar diante da academia a equacionar ou resolver os problemas nacionais
metropolitana escrevendo em inglês e francês perde quase todo o sentido. Aqui podemos recu-
para ser aprovada, não pelos seus conterrâne- perar um antropólogo que, com todos os proble-
os, necessariamente, mas forçosamente pelos mas de sua atitude machista e às vezes beirando

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o racismo, pelo menos não era um colonizado: CC: Gostaríamos de concluir indagando a sua
Darcy Ribeiro. Ele escrevia em português e em opinião sobre o lugar da antropologia nesse século
espanhol, com uma preocupação constante com XXI. Quais os grandes desafios que se colocam à
o nosso continente como um espaço geopolítico disciplina em seu constante processo de reinven-
próprio. Não estou justificando sua incapacida- ção, em um contexto cada vez mais transnacional?
de e desinteresse por dialogar com os colegas de JJC: Sobre o lugar da Antropologia no sé-
língua inglesa, mas apenas enfatizando a com- culo XXI, começo por colocar uma nota mais
plexidade e a diversidade de situações possíveis e modesta: não da antropologia como se tivésse-
dos modos de relação que podemos estabelecer mos a pretensão de globalizar nossas realidades
com o primeiro mundo e com a América Lati- locais, mas da antropologia praticada sob as
na. Ao invés de ampliarmos o leque de posições circunstâncias em que vivemos. A antropologia
oferecidas por Darcy, o que a nossa antropologia foi constituída e consolidada em um contex-
acadêmica fez foi tentar apagar a sua memória, e to geopolítico específico, típico do quadro das
o resultado dessa negação é um enfraquecimen- ciências no final do século XIX: no Norte do
to do horizonte histórico específico da disciplina mundo, nos países centrais e em uma perspecti-
no Brasil. Algo assim como se fosse preciso er- va basicamente colonial. Quando se instalaram
radicar Boas para se construir a antropologia de os programas de pós-graduação em antropolo-
corte interpretativista nos Estados Unidos. gia no Brasil no final dos anos sessenta (no Mu-
A quantificação da produção, a necessidade seu Nacional, na USP e na UnB), a excelência
de exibir o ISBN do livro em que se publica, acadêmica era medida tendo como referência
a hierarquização das revistas através do Qualis o padrão teórico-metodológico da antropo-
mostram um espaço mental coletivo tão inter- logia dos países centrais. Isso significou, em
pelado pela quantificação e com tanto temor de uma boa medida, uma colonização do espaço
refletir criticamente sobre sua própria prática acadêmico brasileiro por essa antropologia eu-
que nos remete, de um modo surpreendente, às rocêntrica; todavia, tratou-se de uma coloniza-
análises do fechamento do discurso na socieda- ção não imposta, não violenta, e sim, de um
de capitalista propostos por Marcuse e à crítica querer ser colonizado por parte dos nossos an-
da consciência reificada feita por Adorno. Note- tropólogos que consolidaram esses programas
-se que estamos falando de autores que escreve- e esses departamentos. Afinal, lembremos que
ram há mais de meio século, centrados, em suas nossa antropologia se formou paralelamente ao
críticas, nas sociedades industriais avançadas grande processo de descolonização dos países
que já haviam perdido suas reservas utópicas. africanos, com reflexos teóricos importantes,
E nós absorvemos acriticamente essa reificação iniciado nos anos 50. Infelizmente, essa pers-
do saber e ao mesmo tempo queremos passar pectiva descolonizadora não foi incorporada
para o primeiro mundo a imagem de que so- no currículo definido para a formação da nossa
mos algum tipo de alternativa humanizadora primeira geração de antropólogos com pós-
ou comunitária à desumanização e à fragmen- -graduação.
tação individualista extrema em que “eles” Resta-nos agora, pelo menos, refundar
(norte-americanos, ingleses, franceses, alemães) a nossa antropologia refazendo a leitura do
supostamente vivem, diferentes de “nós” – vi- nosso contexto geopolítico: se a antropologia
tais, cordiais, carnavalizados, antropofágicos, foi gerada em um contexto colonial, a antro-
mestiços, flexíveis, livres... Haja auto-engano. pologia deve construir-se em uma perspectiva
descolonizadora, o que implica revisar, recons-

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truir e refazer o cânone teórico-metodológico Ortiz (que dialogava com Malinowski), C.L.R.
da disciplina. E não nos esqueçamos de que James (um gigante intelectual caribenho), Eric
já está em curso uma verdadeira mutação dos Williams (um dos formuladores da correlação
paradigmas disciplinares construídos no final entre escravidão e capitalismo), Aimé Césaire,
do século XIX – a sociologia, a antropologia, Frantz Fanon, e até mesmo os ensaístas notá-
a psicologia, a história (e finalmente a ciência veis, como Octavio Paz, José Lezama Lima e
política no século XX) vivem crises epistêmicas José Carlos Mariátegui. Em seguida, recuperar
profundas. No caso específico da antropologia, a tradição intelectual africana negada – Nkru-
sua pretensão por autonomizar a dimensão do mah, Cheik Anta Diop, Amadou Hampatê Bá,
simbólico na cultura praticamente cancelou o Kizerbo, Senghor, etc –, que deveria ter sido
diálogo com a biologia nas últimas décadas. E fundante desde os anos sessenta do século pas-
agora nós antropólogos temos uma defasagem sado. Talvez assim sejamos capazes de recuperar
na nossa capacidade de incorporar os fatores mais rapidamente horizontes intelectuais repri-
biológicos na dimensão simbólica. midos ou olvidados (como os casos dos inte-
Outro desafio, parece-me, é o reposiciona- lectuais negros e de Darcy Ribeiro) e expandir
mento da categoria de alteridade. Até algumas nossos interesses e espaços de diálogo com os
décadas atrás, a antropologia se apresentava vizinhos, com a África e com o Sul do mundo,
como a ciência que se especializava na compre- de modo a revitalizar o nosso lugar e o nosso
ensão da alteridade, e se colocava, então, como estar no mundo.
mais apta, na análise do outro, que a filosofia
ou a psicologia, tidas como disciplinas mais
etnocêntricas. Sucede que neste momento são Notas
várias as abordagens ao problema da alterida-
de e temos que ver a antropologia como uma 1. CARVALHO, José Jorge. Antropologia: saber acadê-
das disciplinas dedicadas ao entendimento da mico e experiência iniciática. In: Anuário Antropoló-
gico 90. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1993.
construção da alteridade nas sociedades huma-
2. CARVALHO, José Jorge. Uma visão antropológica
nas e na cultura. do esoterismo e uma visão esotérica da antropologia.
Finalmente, gostaria de propor que nossa In: Série Antropologia, n. 406. Brasília: UnB, 2006.
antropologia se constituísse, a partir de agora, 3. Um homem visceral – perfil. In: Correio Braziliense,
como uma disciplina bilíngue: nosso espaço p. 18-19, 11 de maio de 2003.
linguístico geopolítico deve constituir-se entre 4. CARVALHO, José Jorge. O olhar etnográfico e a voz
subalterna. In: Horizontes Antropológicos 7(15). Porto
o português e o espanhol. Deveríamos expan-
Alegre: IFCH-UFRGS, 2001.
dir nosso cânone teórico, desde o primeiro se- 5. CARVALHO, José Jorge. Poder e silenciamento na
mestre da graduação, para a formação de um representação etnográfica. In: Série Antropologia, n.
espaço multiepistêmico, de modo a estudar, 316. Brasília: UnB, 2002.
junto com os europeus e os brasileiros brancos, 6. CARVALHO, José Jorge. Inclusão étnica e racial no
os cientistas sociais negros (Abdias do Nasci- Brasil: a questão das cotas no ensino superior. São Pau-
lo: Attar Editorial, 2005.
mento, Guerreiro Ramos, Lélia Gonzalez, Bea-
7. Entrevista veiculada no número 13 de Cadernos de
triz Nascimento, entre outros) e os intelectuais Campo, publicado em 2005.
indígenas. Logo, incorporar os cientistas so- 8. Ver referências nas notas número 2 e 3.
ciais e intelectuais dos demais países da Amé- 9. CARVALHO, José Jorge. O confinamento racial do
rica Latina e do Caribe: Orlando Fals Borda, mundo acadêmico brasileiro. In: Revista Usp: racismo
Aníbal Quijano, Rigoberta Menchú, Fernando 1, n. 68. São Paulo: USP, 2005-2006.

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