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Sutra do Diamante

Prajñaparamita Vajracchedika Sutra

O Sutra do Diamante Lapidador da Sabedoria Transcedental

For free distribution only, as a gift of Dhamma


Translated by A.F.Price and Wong Mou-Lam
Tradução ao Português por Claudio Miklos.
As frases entre colchetes são de autoria de Claudio Miklos, visando quando possível esclarecer
passagens mais obscuras do texto.

Seção I. A Convocação da Assembléia

Assim eu ouvi:
Certa época residia Buddha no Parque de Anathapindika em Shravasti com uma grande
comunidade de bhikshus, cerca de mil duzentos e cinqüenta.
Um dia, na ocasião do desjejum, o Honrado-Pelo-Mundo colocou Seu manto, e levando Sua
tigela tomou seu caminho para a grande cidade de Shravasti, para pedir Seu sustento. No meio da
cidade Ele foi de porta em porta, de acordo com a regra. Isto feito, volveu ao Seu retiro levando
Seu alimento. Quando terminou de alimentar-se, guardou Seu manto e tigela mendicante, lavou
os pés, tomou Seu assento, e acomodou-se.

Seção II. Subhuti Faz um Pedido

Entretanto, no meio da assembléia estava o Venerável Subhuti. Logo ele ergueu-se, descobriu o
ombro direito, ajoelhou-se sobre o joelho direito, e, elevando as mãos respeitosamente de palmas
unidas, dirigiu-se desse modo a Buddha: "Honrado-Pelo-Mundo, se os bons homens e as boas
mulheres buscam a Realização do Incomparável Esclarecimento, sob quais critérios deveriam
eles agir e como deveriam eles corrigir os pensamentos?"
Buddha disse: "Muito bom, Subhuti! Conforme dizeis, o Tathagata está sempre atento para com
todos os Bodhisattvas, protegendo-os e os instruindo bem. Agora escuteis e guardeis minhas
palavras no coração: Eu irei declarar-vos por quais critérios os bons homens e as boas mulheres
que buscam a Realização do Incomparável Esclarecimento devem agir, e como eles devem
corrigir seus pensamentos."
Subhuti disse: "Rezai, façais [dessa forma], Honrado-Pelo-Mundo. Com alegria antecipada nós
desejamos ouvir-Te."

Seção III. O Verdadeiro Ensinamento do Grande Caminho


Buddha disse: "Subhuti, todos os heróis Bodhisattvas deveriam disciplinar seus pensamentos do
seguinte modo: 'Todas as criaturas vivas de qualquer espécie, nascidos de ovos, de úteros, de
umidade, ou através de transformação, sejam com forma ou sem forma, sejam com [possuidores
de] pensamentos ou isentos da necessidade de pensamentos, ou completamente além de todos os
reinos de pensamento - todos estes são levados por Mim a atingir a Ilimitada Liberação do
Nirvana. Todavia por mais vastos, incontáveis e imensuráveis sejam os números de seres que
assim tenham sido liberados, em verdade nenhum ser foi liberado.' Por que assim é, Subhuti? É
assim porque nenhum Bodhisattva que seja um real Bodhisattva aprecia a idéia de uma ego-
entidade, uma personalidade, um ser, ou uma individualidade separada."

Seção IV. Até mesmo as Práticas mais Benéficas são Relativas

"Além disso, Subhuti, na prática da caridade [dons] um Bodhisattva deveria ser desprendido. Isso
significa que ele deveria praticar a caridade sem levar em conta aparências [a idéia de causa]; sem
levar em conta som, odor, toque, sabor ou qualquer qualidade. Subhuti, assim deveria o
Bodhisattva praticar a caridade sem apegos. Por quê motivo [deveria agir assim]? Pois assim
agindo o seu mérito é incalculável.
"Subhuti, o que pensais? Vós podeis medir todo o espaço que se estende daqui para o leste?"
"Não, Honrado-Pelo-Mundo, eu não posso."
"Vós podeis, Subhuti, medir todo o espaço para o sul, para o oeste, em direção ao norte, ou em
qualquer outra direção, inclusive o nadir e o zênite?"
"Não, Honrado-Pelo-Mundo, eu não posso."
"Bem, Subhuti, igualmente incalculável é o mérito do Bodhisattva que pratica a caridade sem
quaisquer apegos à formas. Subhuti, Bodhisattvas deveriam perseverar sem desvios nesta
instrução."

Seção V. Entendendo o Último Princípio da Realidade

"Subhuti, o que pensais? Deve o Tathagata ser reconhecido por alguma característica material?"
"Não, Honrado-Pelo-Mundo; o Tathagata não pode ser reconhecido por qualquer característica
material. Por que motivo? Porque o Tathagata disse que características materiais não são, de fato,
características materiais."
Buddha disse: "Subhuti, quaisquer que sejam as características materiais, há nelas ilusão; mas
aquele que percebe que todas as características não são de fato características, percebe o
Tathagata."

Seção VI. Rara é a Compreensão da Verdade

Subhuti disse a Buddha: "Honrado-Pelo-Mundo, sempre haverão homens que verdadeiramente


compreenderão estes ensinamentos ao buscar ouvi-los?"
Buddha respondeu: "Subhuti, não deveis falar dessa forma! Ao término do último período de
quinhentos anos seguintes ao passamento do Tathagata (1), [com certeza] haverão homens auto-
equilibrados, bem fundados em méritos que, ao buscar ouvir estes ensinamentos, serão
inspirados com convicção. Mas vós deveis perceber que tais homens não fortalecerão seus
méritos sob [os auspícios de] apenas um Buddha, ou dois Buddhas, ou três, ou quatro, ou cinco
Buddhas, mas sob [os auspícios de] Buddhas incontáveis; e seus méritos serão de toda a espécie.
Tais homens, buscando ouvir estes ensinamentos, experimentarão [em si] um imediato surto de
pura compreensão, Subhuti; e o Tathagata os reconhecerá. Sim, Ele perceberá claramente estes
de puro coração, e a magnitude das suas excelências morais. E por que assim será? Porque tais
homens não sucumbirão ao erro de considerar a idéia de uma ego-entidade, uma personalidade,
um ser, ou uma individualidade separada. Eles tampouco sucumbirão ao erro de considerar a
idéia das coisas como tendo qualidades intrínsecas, nem mesmo de coisas como destituídas de
qualidades intrínsecas.
"E por que assim será? Porque se tais homens se permitissem ter suas mentes presas e apegadas
a qualquer coisa, eles estariam considerando a idéia de uma ego-entidade, uma personalidade, um
ser, ou uma individualidade separada; e se eles se vissem presos e apegados à noção das coisas
como tendo qualidades intrínsecas, eles [certamente] estariam considerando idéia de uma ego-
entidade, uma personalidade, um ser, ou uma individualidade separada. Igualmente, se eles se
vissem presos e apegados à noção de coisas como destituídas de qualidades intrínsecas eles
estariam [da mesma forma] considerando a idéia de uma ego-entidade, uma personalidade, um
ser, ou uma individualidade separada. Assim, vós não deveis estar apegado às coisas como sendo
possuídas de, ou destituídas de, qualidades intrínsecas.
"Esta é a razão porque o Tathagata sempre ensina este axioma: 'Meu ensino da Boa Lei deve ser
comparado com uma barca.' [Um homem que já cruzou a correnteza seguramente em uma barca
continua a jornada na outra margem carregando aquela barca sobre sua cabeça?] O ensinamento
do Buddha [quando finalmente compreendido] deve ser abandonado; e mais ainda [devem ser
abandonados] os falsos ensinamentos!"

Seção VII. Os Grandes, Que São Perfeitos Além dos Ensinamentos, Não Enunciam
nenhuma Palavra de Ensino

"Subhuti, o que pensais? O Tathagata atingiu a Realização do Incomparável Esclarecimento?


Tem o Tathagata um ensinamento para enunciar?"
Subhuti respondeu: "Como entendo as palavras de Buddha, não há nenhuma formulação de
Verdade chamada Realização do Incomparável Esclarecimento. Além disso, o Tathagata não tem
nenhum ensinamento elaborado para enunciar. Por quê? Porque o Tathagata disse que a Verdade
é além da compreensão e inexprimível. Ela nem é [existente] nem não é [existente].
"Assim é, portanto, que este Princípio Não-Formulado ver a ser a fundação dos diferentes
sistemas de todos as sábios."

Seção VIII. Os Frutos da Ação Meritória

"Subhuti, o que pensais? Se qualquer um enchesse três mil galáxias de mundos com os sete
tesouros [ouro, prata, lápis-lazúli, cristal, coral, ágata e madrepérola] e os desse em oferta de
esmolas, obteria tal pessoa grande mérito?"
Subhuti disse: "Obteria grande mérito na verdade, Honrado-Pelo-Mundo! Por quê? Porque
acumular méritos é o mesmo que não acumular méritos, e [por isso] o Tathagata caracterizou o
acúmulo de méritos como grande."
Então Buddha disse: "Por outro lado, se qualquer um destacasse e abrigasse [em seu espírito]
apenas quatro linhas deste Dharma [Ensinamento] e o ensinasse e explicasse a outros, os méritos
dessa pessoa seriam ainda maiores.
"Por quê assim seria? Porque, Subhuti, através deste Dharma todos os Buddhas são formados e
os Ensinamentos da Realização do Incomparável Esclarecimento de todos os Buddhas são
forjados.
"Subhuti, o que é chamado 'A Religião dada por Buddha' [o Buddhismo] não é, de fato, a religião
de Buddha."

Seção IX. A Verdadeira Realização é Realização Nenhuma

"Subhuti, o que pensais? Pode um discípulo que entrou na Correnteza da Vida Santa dizer para si
mesmo: 'Eu obtive o fruto daqueles que entram na Correnteza da Vida Santa?"
Subhuti disse: "Não, Honrado-Pelo-Mundo. Por quê? Porque 'Entrar na Correnteza da Vida
Santa' é somente um nome. Não há nenhuma entrada na Correnteza. O discípulo que não presta
nenhuma consideração à forma, som, odor, paladar, toque, ou qualquer outra qualidade, é [na
verdade] aquele que entra na Correnteza."
"Subhuti, o que pensais? Pode um adepto que está sujeito a apenas mais um renascimento dizer
para si mesmo: Eu obtive os frutos de Renascer-Apenas-Mais-Uma-Vez?
Subhuti disse: "Não, Honrado-Pelo-Mundo. Por quê? Porque 'Renascer-Apenas-Mais-Uma-Vez'
é somente um nome. Não há nenhum transcurso [para fora da existência] nem entrada em [nova]
existência. [O Adepto que entende] isto é chamado 'Aquele-Que-Renascerá-Apenas-Mais-Uma-
Vez '."
"Subhuti, o que pensais? Pode um Venerável que nunca mais renascerá como um mortal dizer
para si mesmo: Eu obtive os frutos Daquele-Que-Não-Retornará?"
Subhuti disse: "Não, Honrado-Pelo-Mundo. Por quê? Porque 'Daquele-Que-Não-Retornará' é
somente um nome. Não há nenhum Não-Retorno; por isso [tal Venerável] não retornará."
"Subhuti, o que pensais? Pode um santo dizer para si mesmo: Eu obtive a Perfeita [Completa]
Iluminação?"
Subhuti disse: "Não, Honrado-Pelo-Mundo. Por quê? Porque não há nenhuma condição tal
como a chamada 'Perfeita Iluminação'. Honrado-Pelo-Mundo, se um santo de Perfeita
Iluminação disser a si mesmo 'eu sou Perfeitamente Iluminado', ele necessariamente participaria
da idéia de uma ego-entidade, uma personalidade, um ser, ou uma individualidade separada.
Honrado-Pelo-Mundo, quando o Buddha declara que eu sobressaio entre os homens santos no
Yoga da Perfeita Aquiescência, na atitude recolhida, e na superação das paixões, eu não digo para
mim mesmo: 'Eu sou um santo de Perfeita Iluminação, livre de paixões'. Honrado-Pelo-Mundo,
se eu dissesse para mim mesmo: 'Eu sou um santo de Perfeita Iluminação'; vós não poderias
declarar: 'Subhuti encontrou a Felicidade abrigando-se na Paz, em reclusão no coração da
floresta. É por isso que Subhuti não reside [prende-se] em lugar nenhum: portanto ele é
chamado, 'Subhuti, O-Feliz-Abrigado-na-Paz, Residente-na-Reclusão-da-Floresta'."

Seção X. A Edificação das Terras Puras

Buddha disse: "Subhuti, o que pensais? No remoto passado, quando o Tathagata estava com
Dipankara Buddha, ele obteve qualquer grau de mérito na Boa Lei?"
"Não, Honrado-Pelo-Mundo. Quando o Tathagata estava com Dipankara Buddha ele não
obteve nenhum grau de mérito na Boa Lei."
"Subhuti, o que pensais? Um Bodhisattva edifica alguma grandiosa Terra Búddhica?"
"Não, Honrado-Pelo-Mundo. Por quê? Porque a edificação de uma grandiosa Terra Búddhica
não é uma grandiosa edificação; isto é somente um nome."
[Então Buddha continuou:] "Então, Subhuti, todos os Bodhisattvas, grandes e pequenos,
deveriam desenvolver uma mente pura e lúcida, e não deveriam prender-se a som, sabor, toque,
odor, ou a qualquer qualidade. Um Bodhisattva deveria desenvolver uma mente que não se apega
a nada; e nesta atitude [seu caminho] deve se estabelecer."
"Subhuti, se porventura existisse um homem tão grande quanto o Monte poderoso Sumeru. O
que vós pensais? Tal corpo seria grande?"
"Subhuti respondeu: Grande realmente, Honrado-Pelo-Mundo. Isto é porque o Tathagata
explicou que não há corpo. Portanto [aquele corpo] é chamado um grande corpo."

Seção XI. A Superioridade da Verdade Não Formulada

"Subhuti, se houvesse tantos rios Ganges quanto os grãos de areia existentes no rio Ganges,
seriam os grãos de areia destes rios muito numerosos?"
Subhuti disse: "Muito numerosos realmente, Honrado-Pelo-Mundo! Os próprios rios Ganges
seriam inumeráveis; quanto mais assim não seriam os grãos de areia existentes neles?"
"Subhuti, direi a vós uma verdade. Se um homem bom ou uma boa mulher enchessem três mil
galáxias de mundos com os sete tesouros para cada grão de areia existentes em todos esses rios
de Ganges, e os desse em oferta de esmolas, ele obteria grandes méritos?"
Subhuti respondeu: "Grande realmente, Honrado-Pelo-Mundo!"
Então Buddha declarou: "Não obstante, Subhuti, se um homem bom ou uma boa mulher
estudar tão somente este Dharma [Ensinamento], e guardar e reter apenas quatro linhas,
ensinando-as e as explicando a outrem, os méritos conseqüentes seriam ainda maiores."

Seção XII. Reverência à Verdadeira Doutrina

"Além disso, Subhuti, vós devereis saber que aonde quer que este Dharma seja proclamado,
mesmo que apenas quatro linhas, este lugar deveria ser venerado por todos os reinos dos Suras,
Homens e Asuras como se fosse um Santuário Búddhico. Quanto mais será isto verdadeiro no
caso daquele que receber e reter todo este Ensinamento, lê-lo e recitá-lo até o fim! "Subhuti,
você deveria saber que tal pessoa atinge a mais alta e maravilhosa verdade. Aonde quer que este
Ensinamento sagrado possa ser achado vós deveis se comportar como se estivésseis na presença
de Buddha e de discípulos merecedores de respeito."

Seção XIII. Como este Ensinamento Deve Ser Recebido e Compreendido

Naquele momento Subhuti dirigiu-se ao Buddha e disse: "Honrado-Pelo-Mundo, por que nome
deveria ser conhecido este Ensinamento, e como nós deveríamos recebê-lo e compreendê-lo?"
Buddha respondeu: "Subhuti, este Ensinamento deve ser conhecido como 'O Lapidador de
Diamantes da Perfeição da Sabedoria Transcendental' [Prajñaparamita Vajracchedika] - assim se
vós devereis recebê-lo e compreendê-lo. Subhuti, por que razão assim deve ser?
"De acordo com o ensinamento do Buddha, a Perfeição da Sabedoria Transcendental não é
realmente assim. 'Perfeição de Sabedoria Transcendental' é apenas um nome a isto dado.
Subhuti, o que pensais? Tem o Tathagata um ensino para enunciar?"
Subhuti respondeu ao Buddha: "Honrado-Pelo-Mundo, o Tathagata não tem nada que ensinar."
"Subhuti, o que pensais? Haveria muitas partículas em [na composição de] três mil galáxias de
mundos?"
"Subhuti disse: Muitíssimas realmente, Honrado-Pelo-Mundo!"
"Subhuti, o Tathagata declara que todas estas partículas não são realmente reais; eles são apenas
chamadas 'Partículas'. [Além disso,] o Tathagata declara que um mundo realmente não é um
mundo; é apenas chamado 'mundo'."
"Subhuti, o que pensais? O Tathagata pode ser percebido pelas trinta e duas peculiaridades físicas
[de um sábio excelente]?"
"Não, Honrado-Pelo-Mundo, o Tathagata não pode ser percebido por estes trinta e dois sinais.
Por quê? Porque o Tathagata explicou que os trinta e dois sinais não são reais; eles são apenas
chamados 'trinta e dois sinais."
"Subhuti, se por acaso um bom homem ou uma boa mulher venha a sacrificar tantas vidas [em
renascimentos] quantos os grãos de areia do Ganges por tantos dias quantos os grãos de areia do
Ganges, na verdade se qualquer um deles receber e reter apenas quatro linhas que sejam deste
Dharma, ensiná-las e explicá-las a outrem, os méritos desta atitude serão muito maiores [do que
os da atitude anterior]."

Seção XIV. A Paz Perfeita está na Libertação de Distinções Características

Na ocasião da audição deste Ensinamento Subhuti teve uma percepção interior de seu
significado e foi levado às lágrimas.
Ao que então ele dirigiu-se ao Buddha desta forma: "É a coisa mais preciosa, Honrado-Pelo-
Mundo, que o Tathagata tenha pregado este Dharma supremamente profundo. Jamais eu ouvi
uma tal exposição desde que minha visão de sabedoria abriu-se. Honrado-Pelo-Mundo, se
qualquer um escutar este Dharma com convicção e com uma mente pura e lúcida, ele perceberá
a Verdade Fundamental que [este Ensinamento] abriga. Nós então saberemos que tal pessoa será
dotada da virtude mais admirável. Honrado-Pelo-Mundo, uma idéia de Verdade Fundamental
não é, de fato, uma idéia distintiva; pois o Tathagata ensina que: 'Idéia de Verdade Fundamental'
é somente um nome.
"Honrado-Pelo-Mundo, depois de ter escutado este Dharma, eu o recebo e mantenho com
convicção e entendimento. Isto não é difícil para mim, mas em idades vindouras - nos últimos
quinhentos anos - , se houver homens que, buscando ouvir este Ensinamento forem capazes de
recebê-lo e o abrigar com convicção e entendimento, eles serão pessoas de realização ainda mais
notável. Por quê? Porque eles ficarão libertos da idéia de uma ego-entidade, libertos da idéia de
uma personalidade, libertos da idéia de um ser, e libertos da idéia de uma individualidade
separada. E por que assim deve ser? Porque a distinção de uma ego-entidade é errônea.
Igualmente a distinção de uma personalidade, ou de um ser, ou de uma individualidade separada
é errônea. Por conseguinte, esses que deixaram para trás toda distinção fenomenal são chamados
Buddhas."
Buddha disse a Subhuti: "O que dizeis é correto! Se qualquer um ouvir este Sutra e nã o sentir-se
alarmado nem cheio de temor ou medo, saiba-se que tal pessoa atingiu uma notável realização.
Por quê? Porque, Subhuti, o Tathagata ensina que a Primeira Perfeição [a Perfeição da Caridade]
não é, em verdade, a Primeira Perfeição: isto é somente um nome. Por isso que tal coisa se
chama Primeira Perfeição.
"Subhuti, o Tathagata ensina igualmente que a Perfeição da Paciência não é a Perfeição da
Paciência: isto é somente um nome. Por que assim é? Isso é assim explicado, Subhuti: Quando o
Rajah de Kalinga mutilou meu corpo, eu estava naquele momento livre da idéia de uma ego-
entidade, uma personalidade, um ser, e uma individualidade separada. Por quê? Porque então, se
quando meus membros estavam sendo cortados pedaço por pedaço, eu enveredasse pelas
distinções supracitadas, teriam sido despertados em mim sentimentos de raiva e ódio. Subhuti, eu
lembro que muito tempo atrás, em algum momento durante meus quinhentos renascimentos
mortais passados, era eu um asceta praticante da paciência. Mesmo então eu estava livre dessas
distinções de um Ego separado. Portanto, Subhuti, os Bodhisattvas deveriam deixar para trás
todas as distinções fenomenais e deveriam despertar [em si] o pensamento da Realização do
Incomparável Esclarecimento, [pelo esforço de] não permitir à mente depender de noções
desencadeadas pelo mundo sensório - não permitindo à mente depender de noções
desencadeadas por sons, odores, sabores, contatos, ou qualquer qualidade. A mente deve ser
mantida independente de qualquer pensamento que surge neste sentido. Se a mente apega-se a
qualquer coisa, ela não terá nenhum abrigo seguro. Por isso o Buddha ensina que a mente de um
Bodhisattva não deveria relacionar-se às coisas baseadas em sua forma quando exercitando a
caridade. Subhuti, quando os Bodhisattvas praticarem a caridade pelo bem-estar de todos os
seres viventes, eles deveriam agir dessa maneira. Da mesma maneira que o Tathagata declara que
as características não são características, assim Ele declara que todos os seres viventes não são,
em verdade, seres viventes.
"Subhuti, o Tathagata é Aquele que declara o que é verdadeiro; Ele declara o que é fundamental;
Ele declara o que é definitivo. Ele não declara o que é enganoso, nem o que é terrível. [Isso
porque] Subhuti, a Verdade a qual o Tathagata atingiu não é real nem irreal.
"Subhuti, se um Bodhisattva pratica a caridade com a mente apegada às noções formais, ele é
como um homem que, embora dotado de olhos, procura [inutilmente] no escuro, cego na
obscuridade; mas um Bodhisattva que pratica a caridade com mente desapegada de qualquer
noção formal, é como um homem com olhos abertos na glória radiante da manhã, para quem
todos os tipos de objetos são claramente visíveis.
"Subhuti, se houverem bons homens e as boas mulheres em idades futuras capa zes de receber
[na memória], ler e recitar este Sutra em sua totalidade, o Tathagata perceberá [isso]claramente e
os reconhecerá por meio do Seu conhecimento Búddhico; e cada um deles usufruirá de
imensuráveis e incalculáveis méritos."

Seção XV. O Valor Incomparável deste Ensinamento

"Subhuti, se por um lado, um bom homem ou uma boa mulher executa de manhã tantos atos
caridosos de abnegação como os grãos de areia do Ganges, e faz tais atos novamente ao meio-
dia e ainda mais à noite, continuando a fazer dessa forma ao longo de eras sem conta, e se, por
outro lado, alguém escuta este Dharma com coração convicto e sem contenção, este último seria
o mais abençoado. Mas quão mais abençoado, em comparação, será aquele que escrever, receber,
manter, e explicar este Ensinamento a outros! "Subhuti, nós podemos resumir a questão dizendo
que o valor completo deste Ensinamento não pode ser nem concebido nem calculado, e nem
qualquer limite pode ser a ele dado. O Tathagata pregou este ensinamento para o benefício dos
iniciados no Grande Caminho; Ele pregou este Dharma para o benefício dos iniciados no
Supremo Caminho. Quem quer que venha a receber, manter, estudar, recitar e difundir alhures
este Ensinamento, será claramente percebido e reconhecido pelo Tathagata, e a lcançará uma
perfeição de méritos além das medidas ou cálculos - uma perfeição de mérito ilimitado e
inconcebível. Em todo caso tal pessoa atingirá por si mesma a Realização do Incomparável
Esclarecimento do Tathagata. Por quê assim será? Porque, Subhuti, esses que se perdem em
concepções limitadas que envolvem a idéia de uma ego-entidade, uma personalidade, um ser, ou
uma individualidade separada estão impossibilitados de aceitar, receber, estudar, recitar e
abertamente explicar este Dharma.
"Subhuti, em todo lugar onde este Ensinamento poderá ser achado, os reinos inteiros de Suras,
Homens e Asuras deveriam oferecer adoração; porque vós tendes que saber que tal lugar é tão
sagrado como um santuário, e deveria ser corretamente venerado por todos com cerimonial
observância dando-se voltas da esquerda para a direita, e com oferecimentos de flores e incenso."

Seção XVI. Purificação através de Sacrifícios por Retribuição de Deméritos Passados

"Além disso, Subhuti, se acaso bons homens e boas mulheres que recebem e mantêm este
Ensinamento sofrem humilhações, tais sacrifícios são o resultado inevitável de deméritos
cometidos em renascimentos passados. Mas em virtude destes infortúnios presentes, os efeitos
demeritórios do passado serão assim purificados, e eles estarão em uma posição de atingir a
Realização do Incomparável Esclarecimento.
"Subhuti, lembro-me do passado infinitamente remoto antes de Dipankara Buddha. Haviam
84,000 miríades de milhões de Buddhas e a todos estes Eu fiz oferendas; sim, a todos este s Eu
servi sem o menor rastro de falta. Não obstante, se qualquer um for capaz de receber, manter,
estudar e recitar este Ensinamento ao término do último período [de 500 anos](1), esta pessoa
ganhará tantos méritos, que os méritos que obtive no serviço de todos aqueles Buddhas não
poderão representar uma centésima parte disto, ou nem mesmo uma multiquadrilionésima parte
disto - na verdade, não há nenhuma possibilidade de comparação.
"Subhuti, se Eu detalhadamente explicasse os méritos ganhos pelos bons homens e boas
mulheres que receberem, mantiverem, estudarem e recitarem este Ensinamento no último
período, meus ouvintes ficariam cheios de dúvidas e poderiam ter a mente completamente
desordenada com suspeitas e descrenças. Vós deveríeis saber, Subhuti, que o significado deste
Ensinamento está além da concepção; igualmente os frutos [meritórios] que este Dharma oferece
estão além de concepção."

Seção XVII. Ninguém Alcança o Nirvana

Naquele momento Subhuti dirigiu-se ao Buddha dessa forma: "Honrado-Pelo-Mundo, se bons


homens e boas mulheres buscam a Realização do Incomparável Esclarecimento, por quais
critérios deveriam eles basear-se e como eles deveriam equilibrar os pensamentos?"
Buddha respondeu a Subhuti: "Os bons homens e boas mulheres que buscam a Realização do
Incomparável Esclarecimento precisam desenvolver a seguinte atitude mental: 'Eu devo [me
empenhar para] liberar todos os seres viventes, todavia [mesmo] quando todos tiverem sido
liberados, em verdade nem mesmo um deles estará liberado'. E por quê? Se um Bodhisattva
prende-se à idéia de uma ego-entidade, uma personalidade, um ser, ou uma individualidade
separada [em relação aos seres viventes], ele não será um verdadeiro Bodhisattva, Subhuti. Isto
porque em realidade não há nenhum método que possa levar à Realização do Incomparável
Esclarecimento.
"Subhuti, o que pensais? Quando o Tathagata estava com Dipankara Buddha, existia naquela
ocasião qualquer fórmula para a obtenção da Realização do Incomparável Esclarecimento?"
"Não, Honrado-Pelo-Mundo, de acordo com o meu entendimento das palavras de Buddha, não
existia nenhum método pelo qual o Tathagata atingiria a Realização do Incomparável
Esclarecimento."
Buddha disse: "Vós tendes razão, Subhuti! Em verdade não havia nenhum método através da
qual o Tathagata atingiria a Realização do Incomparável Esclarecimento. Subhuti, houvesse
naquela ocasião tal método, Dipankara Buddha não teria predito o seguinte em relação a mim:
'Em eras futuras vós vireis a ser um Buddha chamado o Shakyamuni'; mas Dipanka ra Buddha
pôde fazer tal predição em relação a mim porque não há nenhum método de fato para a
obtenção da Realização do Incomparável Esclarecimento. A razão disto é que Tathagata é [em si]
uma significação abrangendo todos os métodos; Tathagata é um outro nome para a Verdade
Suprema; Tathagata é um outro nome da cessação de existir; Tathagata é um outro nome para o
não-nascer. Isso porque, Subhuti, o fato de não haver nascimento é a Verdade Suprema.
"No caso de qualquer um afirmar que o Tathagata atingiu a Realização do Incomparável
Esclarecimento, eu verdadeiramente vos digo, Subhuti, que não há nenhum método através do
qual o Buddha atingiu a Verdade Suprema. Subhuti, a base da obtenção pelo Tathagata da
Realização do Incomparável Esclarecimento está completamente além [dessa afirmação]; ela nem
é real nem irreal. Consequentemente eu vos digo que todo o reino de formulações [de métodos]
não são reais, por isso todos eles são chamados: 'Reino de formulações'.
"Subhuti, uma comparação pode ser feita com [a idéia de] um gigantesco corpo de um homem."
Então o Venerável Subhuti disse: "O Honrado-pelo-Mundo declarou que tal homem na verdade
não possui corpo; por isso é chamado 'grande corpo'."
"Subhuti, é o mesmo relativo aos Bodhisattvas. Se um Bodhisattva anuncia: 'Eu liberarei todas as
criaturas viventes', ele não pode ser chamado de Bodhisattva. Por quê? Porque, Subhuti,
realmente não há nenhuma condição como essa chamada de 'Bodhisattva', pois o Buddha ensina
que todas as coisas são destituídas de Seidade, destituídas de individualidade separada. Subhuti,
se um Bodhisattva anuncia: 'Eu edificarei uma magnífica Terra Pura [Búddhica]', não pode ser
chamado de Bodhisattva, porque o Tathagata declarou que aquilo que é chamado de edificação
de uma Terra Pura não existe: tal coisa é apenas chamada 'Edificação de uma Terra Pura'.
"Subhuti, os Bodhisattvas que são completamente destituídos de qualquer concepção de Seidade,
estes são justa e verdadeiramente chamados Bodhisattvas."

Seção XVIII. Todos os Modos Mentais são Realmente Uma Mente

"Subhuti, o que pensais? O Tathagata possui olhos humanos?"


"Sim, Honrado-Pelo-Mundo, Ele os possui."
"Subhuti, o que pensais? O Tathagata possui o Olho Divino?"
"Sim, Honrado-Pelo-Mundo, Ele o possui."
"Subhuti, o que pensais? O Tathagata possui o Olho da Sabedoria?"
"Sim, Honrado-Pelo-Mundo, Ele o possui."
"Subhuti, o que pensais? O Tathagata possui o Olho do Dharma?"
"Sim, Honrado-Pelo-Mundo, Ele o possui."
"Subhuti, o que pensais? O Tathagata possui o Olho Búddhico da Omnisciência?"
"Sim, Honrado-Pelo-Mundo, Ele o possui."
"Subhuti, o que pensais? Relativo aos grãos de areia do Ganges, o Buddha acaso ensinou sobre
eles?"
"Sim, Honrado-Pelo-Mundo, o Tathagata ensinou acerca destes grãos."
"Entretanto, Subhuti, se houvesse tantos rios Ganges quanto os grãos de areia do Ganges e se
houvesse uma Terra Búddhica para cada grão de areia de todos esses rios Ganges, essas Terras
Búddhicas seriam muitas?"
[Subhuti respondeu]: "Seriam realmente muitas, Honrado-Pelo-Mundo!"
Então Buddha disse: "Subhuti, apesar de muitos seres viventes existirem em todas essas terras
búddhicas, e a despeito deles possuírem múltiplos modos mentais, o Tathagata entende -os a
todos. Por quê? Porque o Tathagata ensina que todos estes modos não são a Mente; por isso são
eles chamados de 'modos mentais'.
"Subhuti, a Mente do Passado é impossível reter, a Mente do Presente é impossível sustentar, a
Mente do Futuro é impossível apreender."
Seção XIX. A Realidade absoluta é o Único Fundamento

"Subhuti, o que pensais? Se qualquer um enchesse três mil galáxias de mundos com os sete
tesouros e os desse todos como oferta de esmolas, esta pessoa ganharia grandes méritos?"
"Realmente sim, Honrado-Pelo-Mundo, esta pessoa ganharia grandes méritos!"
"Subhuti, se tais méritos fossem reais, o Tathagata não teria declarado que eles fossem grandes,
mas porque estes méritos não possuem fundamento o Tathagata os caracterizam como 'grandes
méritos'."

Seção XX. A Irrealidade das Distinções Fenomenais

"Subhuti, o que pensais? O Buddha pode ser percebido como aquele que adquiriu um corpo
perfeitamente formado?"
"Não, Honrado-Pelo-Mundo, o Tathagata não pode ser percebido pelo seu corpo perfeitamente
formado, porque o Tathagata ensina que um corpo perfeitamente formado não é perfeitamente
formado; é apenas chamado 'um corpo perfeitamente formado'."
"Subhuti, o que pensais? O Tathagata pode ser percebido por meio de qualquer característica
fenomenal?"
"Não, Honrado-Pelo-Mundo, o Tathagata não pode ser percebido por qualquer característica
fenomenal, isso porque o Tathagata ensina que aquelas características fenomenais não são
realmente características fenomenais; elas somente são chamadas 'características fenomenais'."

Seção XXI. Palavras não podem expressar a Verdade.

"Aquilo que as Palavras expressam não é a Verdade. "Subhuti, não afirmeis que o Tathagata
concebe a idéia: 'Eu indiquei um Ensinamento.' Pois se qualquer um disser que o Tathagata
indicou um Ensinamento esta pessoa realmente calunia o Buddha, e é incapaz de explicar o que
Eu ensino. Para qualquer sistema [que pretende declarar a] Verdade, a Verdade [de fato] não é
declarada; apenas damos a [estes sistemas] o nome de 'uma declaração da Verdade'."
Ao ouvir isso, Subhuti falou estas palavras para o Buddha: "Honrado-Pelo-Mundo, nas idades
futuras haverão homens que, buscando ouvir uma exposição deste Ensinamento, serão
inspirados com convicção?"
Buddha respondeu: "Subhuti, estes homens não são seres viventes nem são seres não-viventes.
Por quê? Porque, Subhuti, estes 'seres viventes' não são realmente seres viventes; eles apenas são
chamados 'seres viventes'."

Seção XXII. Não Pode ser dito que qualquer coisa é atingível

Então Subhuti perguntou ao Buddha: "Honrado-Pelo-Mundo, ao atingir a Realização do


Incomparável Esclarecimento, o Buddha não obteve qualquer tipo de recompensa?"
Buddha respondeu: "Exatamente isso, Subhuti. Pela Realização do Incomparável Esclarecimento
Eu não adquiri nem mesmo a menor coisa; pois de fato dizer que o Buddha 'atingiu a Realização
do Incomparável Esclarecimento' não é possível; por isso [tal fato] é chamado 'Realização do
Incomparável Esclarecimento'."

Seção XXIII. A Prática de Bons Atos Purifica a Mente

"Além disso, Subhuti, este fato é verdadeiro em todos lugares, sem diferenciação ou grau
[discriminatório]; portanto isto é chamado 'Realização do Incomparável Esclarecimento'. É
diretamente atingido liberando-se [da idéia] de uma identidade pessoal separada e cultivando-se
todos os tipos de bondade.
"Subhuti, embora nós falemos de 'bondade', o Tathagata declara que não há nenhuma bondade;
tal palavra é somente um nome."

Seção XXIV. Os Méritos Incomparáveis deste Ensinamento

"Subhuti, se houver uma pessoa que dê em oferta de esmolas os sete tesouros, num volume igual
em extensão a muitos poderosos Montes Sumerus que existissem em três mil galáxias de
mundos, e se houvesse outra pessoa que selecionasse ainda que apenas quatro linhas deste
Ensinamento sobre a Perfeição da Sabedoria Transcendental, recebesse e as mantivesse, e
claramente as explicasse para outros, os méritos desta última pessoa seria tão maior do que os
méritos da pessoa anterior que nenhuma comparação concebível poderia ser feita entre eles."

Seção XXV. A Ilusão do Ego

"Subhuti, o que pensais? Ninguém deve imaginar que o Tathagata aprecia a idéia: 'Eu tenho que
liberar todos os seres viventes'. Não permitais que ninguém tenha tal pensamento, Subhuti. Por
quê? Porque em realidade não há nenhum ser vivente a ser liberado pelo Tathagata. Se
houvessem seres viventes passíveis de serem liberados pelo Tathagata, Ele participaria da idéia de
Seidade, de uma identidade de personalidade, e de individualidade separada.
"Subhuti, embora as pessoas comuns aceitem o egoísmo como real, o Tathagata declara que o
Ego não é diferente do não-Ego. Subhuti, aqueles a quem o Tathagata refere-se como 'pessoas
comuns' não são realmente pessoas comuns; são elas apenas chamadas 'pessoas comuns'."

Seção XXVI. O Corpo da Verdade não tem nenhuma Marca

"Subhuti, o que pensais? O Tathagata pode ser reconhecido pelas trinta e duas marcas [de um
grande homem]?"
Subhuti respondeu: "Não, o Tathagata pode não ser percebido assim."
Então Buddha disse: "Subhuti, se o Tathagata pudesse ser reconhecido por tais sinais, qualquer
grande regente imperial seria igual ao Tathagata."
Subhuti disse então a Buddha: "Honrado-Pelo-Mundo, conforme meu entendimento do
significado das palavras de Buddha, o Tathagata não pode ser reconhecido pelas trinta e duas
marcas."
Então o Honrado-pelo-Mundo recitou este poema:
"Aquele que me vê através da forma,
Aquele que me busca pelo som,
Tem seus passos confundidos na busca do Caminho,
Porque ele [em verdade] não pode perceber o Tathagata."

Seção XXVII. É Errôneo Afirmar que Todas as Coisas são Sempre Passíveis de Extinção

"Subhuti, se vós concebeis a idéia de que o Tathagata atingiu a Realização do Incomparável


Esclarecimento por causa de sua forma corporal perfeita, não deveis manter tais pensamentos. A
realização do Tathagata não ocorreu devido à sua forma corporal perfeita. [Por outro lado]
Subhuti, se vós concebeis a idéia que qualquer um que atingir a Realização do Incomparável
Esclarecimento vai declarar que todos os padrões de referência [das manifestações existenciais]
estão terminadas e extintas, não [mais] sustentais tais pensamentos. Por quê? Porque o homem
em quem a Realização do Incomparável Esclarecimento surge não afirma que qualquer coisa
cessa de existir, que qualquer coisa termina."

Seção XXVIII. Apego às Recompensas pelos Méritos

"Subhuti, se um Bodhisattva dá em caridade os sete tesouros [em montantes] suficientes para


encher tantos mundos quantos os grãos de areia no rio Ganges, e outro, percebendo que todas
as coisas são destituídas de um Eu, atinge a perfeição através do auto-equilíbrio, os méritos deste
último excederão de longe os do anterior. Por que isto assim seria, Subhuti? É porque todos os
[verdadeiros] Bodhisattvas são desapegados às recompensas pelos atos meritórios."
Então Subhuti perguntou a Buddha: "O que quereis dizer, Honrado-Pelo-Mundo, ao declarar
'Bodhisattvas são desapegados às recompensas pelos atos meritórios'?"
[E Buddha respondeu]: "Subhuti, Bodhisattvas que alcançam méritos não deveriam apegar-se ao
desejo de adquirir recompensas. Por isso é dito que as recompensas pelos méritos não são
[realmente] adquiridas."

Seção XXIX. Perfeita Tranqüilidade

"Subhuti, se qualquer um viesse a dizer que o Tathagata vem ou vai ou se senta ou reclina -se, ele
falha em entender meu ensinamento. Por que? Porque o [assim chamado] Tathagata não vai a
parte alguma nem vem de nenhuma parte, por isso é Ele chamado 'o Tathagata'."

Seção XXX. O Princípio Integrativo

"Subhuti, se um bom homem ou uma boa mulher moessem um número infinito de galáxias de
mundos [para que se reduzissem]a um pó de minúsculas partículas, tais pequenas partículas
resultantes seriam muitas?"
Subhuti respondeu: "Muitas realmente, Honrado-Pelo-Mundo! Por quê? Porque se tais coisas
fossem realmente minúsculas partículas, o Buddha não teria falado delas como minúsculas
partículas. Isso porque declarou Buddha que tais partículas não são realmente partículas.
'Minúsculas Partículas' são apenas o nome dado a elas. Da mesma forma, Honrado-Pelo-Mundo,
quando o Tathagata fala de galáxias de mundos, estes não são mundos; para que estas [estruturas]
em realidade pudessem ser chamadas de mundos, este seria um Universo [preso à idéia de]
Individualidade Existencial, e o Tathagata ensina que tal coisa realmente não existe. 'Universo' é
apenas uma palavra.
[Então Buddha disse]: "Subhuti, palavras não podem explicar a real natureza de um Universo.
Somente as pessoas comuns [ignorantes], apegadas ao desejo, fazem uso deste método arbitrário
[de interpretação]."

Seção XXXI. A Verdade Convencional Deveria Ser Cortada

"Subhuti, se qualquer um viesse a dizer que Buddha declara qualquer concepção de Ego-
Identidade, vós considerarias que tal pessoa entendeu meu ensinamento corretamente?"
"Não, Honrado-Pelo-Mundo, tal um homem não teria qualquer capacidade de entendimento do
que o Tathagata está ensinando, porque o Honrado-Pelo-Mundo [na verdade] declara que
noções de Seidade, personalidade, entidade e individualidade separada como realmente existentes
são errôneas - estas condições somente são figuras de linguagem."
[Logo após Buddha disse]: "Subhuti, esses que aspiram à Realização do Incomparável
Esclarecimento deveriam reconhecer e deveriam entender todas as variedades de coisas da
mesma forma, e deveria cortar o surgimento de [concepções interpretativas de simples] aspectos.
Subhuti, no que diz respeito aos aspectos, o Tathagata declara que em realidade eles não são
aspectos. Eles são apenas chamados 'aspectos'."

Seção XXXII. A Ilusão das Aparências

"Subhuti, alguém poderia encher mundos inumeráveis com os sete tesouros e poderia os dar em
oferta de esmolas, mas se qualquer bom homem ou qualquer boa mulher ilumina -se com o
Esclarecimento e toma mesmo que apenas quatro linhas deste Dharma, recitando-as, praticando-
as, recebendo-as, mantendo-as e as divulgando alhures, explicando-as para o benefício de outros,
serão [pessoas] ainda mais meritórias.
"Agora de que maneira poderiam [tais pessoas] explicar [estas linhas] para outros? Por desapego
às formas - abrigando-se na Verdade.
"Portanto eu vos digo:
"Assim, devereis pensar sobre este impermanente mundo [como se ele fosse]:
Uma estrela ao amanhecer, uma bolha d'água em um riacho;
Um clarão de um raio em uma nuvem de verão,
Uma vela piscante, um fantasma, ou um sonho..."
Quando o Buddha terminou este Ensinamento o Venerável Subhuti, junto com o bhikshus,
bhikshunis, os irmãos e irmãs leigos, e os todos os reinos de Deuses, Homens, Asuras e
Gandharvas, ficaram plenos de alegria pelas Suas Palavras, e, abrigando-as sinceramente em seus
corações, eles seguiram seus caminhos.

(1) Segundo a tradição popular, nos primeiros quinhentos anos após a morte de Buddha, o
Dharma por ele pregado seria firmemente ensinado e compreendido por muitos; esse primeiro
período é chamado "Período da Verdadeira Lei". No segundo período - os últimos quinhentos
anos - uma decadência da compreensão do Dharma ocorreria, impedindo a Iluminação; esse
último período é chamado "Período da Imagem da Lei". Seguir-se-ia depois um período de total
obstacularização da compreensão do Dharma, chamado "Período do Fim da Lei".

O Sutra do Diamante
(Vajracchedika Prajna Paramita)
Traduzido do Inglês por Chuan Yuan Shakya

(1) Assim eu ouvi. Uma manhã, quando o Buddha estava perto de Shravasti no bosque de Jet a, Ele
e Sua comunidade de mil duzentos e cinquenta monges foram à cidade para mendigar sua refeição
matinal; e depois que voltaram e terminaram a refeição, deixaram de lado seus robes e tigelas e
lavaram seus pés. Então o Buddha sentou-se e os outros sentaram diante dele.

(2) Do meio da assembléia levantou-se o Venerável Subhuti. Ele descobriu seu ombro direito,
ajoelhou-se sobre a perna direita, e, juntando as palmas das mãos, inclinou-se diante do Buddha.
"Senhor," ele disse, "Tathagata! Honrado-por-todo-o-mundo! Que maravilhoso é que sejamos
protegidos e instruídos pela Sua misericórdia! Senhor, quando homens e mulheres anunciam que
desejam seguir o Caminho do Bodhisattva e nos perguntam como devem proceder, que devemos
dizer-lhes?

(3) Bom Subhuti," respondeu o Buddha, "sempre que alguém anuncia, `Eu quero seguir o Caminho
do Bodhisattva porque quero salvar todos os seres sencientes; e não importa se são criaturas
formadas em um útero ou chocadas em ovos; se seus ciclos de vida são tão observáveis com o os de
minhocas, insetos e borboletas; ou se aparecem miraculosamente como cogumelos ou deuses; ou
se são capazes de pensamentos profundos ou de nenhum pensamento, faço o voto de conduzir
cada um dos seres ao Nirvana!' então, Subhuti, deves lembrar o que tomou os votos que mesmo que
um tal incontável número de seres fosse assim libertado, na verdade nenhum ser seria libertado. Um
Bodhisattva não se apega à ilusão de uma individualidade ou entidade egóica ou a uma identificação
pessoal. Na verdade, não existe qualquer "eu" que liberta e nenhum "eles" que são libertados.

(4) "Além disso, Subhuti, um Bodhisattva deveria ser desapegado de todos os desejos, sejam de ver,
ouvir, cheirar, tocar ou degustar qualquer coisa, ou seja o de levar multidões à iluminação. Um
Bodhisattva não prova da ambição. Seu amor é infinito e não pode ser limitado por apegos ou
ambições pessoais. Quando o amor é infinito seus méritos são incalculáveis.

"Diga, Subhuti, podes medir o céu oriental?"

"Não, Senhor, não posso."

"Podes medir o espaço que fica ao Sul, Oeste, Norte ou mesmo para baixo ou para cima?"

"Não, Senhor, não posso."

"Nem podes medir os méritos de um Bodhisattva que ama, trabalha e dá sem desejo ou ambição."

"Bodhisattvas deveriam prestar atenção particular a esta instrução."

(5) "Subhuti, o que achas? É possível descrever o Tathagata? Pode Ele ser reconhecido por
características materiais?"

"Não, Senhor, não é possível submeter o Tathagata a diferenciações ou comparações." Então o


Senhor disse, "Subhuti, na fraude do Samsara, todas as coisas são vistas como diferentes ou com
diferentes atributos, mas na verdade do Nirvana nenhuma diferenciação é possível. O Tathagata não
pode ser descrito."

"Quem quer que perceba que todas as qualidades não são, na verdade, qualidades determinadas
percebe o Tathagata."

(6) Subhuti perguntou ao Buddha, "Honrado-pelo-mundo, sempre haverá homens que compreendem
este ensinamento?"

"O Senhor respondeu, "Subhuti, não duvides disso! Sempre haverá Bodhisattvas virtuosos e s ábios;
e, em eras por vir, estes Bodhisattvas plantarão suas raízes de mérito sob muitas árvores Bodhi.
Receberão este ensinamento e responderão com serena fé porque sempre haverá Buddhas para
inspirá-los. O Tathagata os verá e os reconhecerá com seu olho-Búddhico porque nestes
Bodhisattvas não haverá obstruções, nem percepção de um eu individual, nenhuma percepção de
um ser separado, nenhuma percepção de uma alma, nem de uma pessoa. E estes Bodhisattvas
também não vão perceber as coisas como tendo qualidades próprias nem como sendo destituídas de
qualidades próprias. Nem vão discriminar entre bem e mal. A discriminação entre boa e má conduta
deve ser usada como se usa um barco. Depois que deixa aquele que cruzou a corrente no outro
lado, deve ser abandonado."

(7) "Diga, Subhuti, O Tathagata conseguiu a Perfeita Iluminação que Transcende Comparações? Se
assim é, há algo sobre ela que o Tathagata pode ensinar?"

"Subhuti respondeu, "Da maneira como entendo o ensinamento ele não pode ser ensinado e não
pode ser atingido ou compreendido e nem pode ser ensinado. Por quê? Porque o Tathagata disse
que a Verdade não é uma coisa que pode ser diferenciada ou contida e então a Verdade não pode
ser compreendida ou expressada. A Verdade nem é e nem não é."

(8) Então o Senhor perguntou, "Se alguém enchesse três mil galáxias com os sete tesouros - ouro,
prata, lápis-lazuli, cristal, ágata, pérolas vermelhas e cornalina - e desse tudo o que possuísse como
esmola ou caridade, ganharia grande mérito?"

Subhuti respondeu, "Senhor, grande mérito, de fato, caberia a ele ainda que, na verdade, ele não
tenha uma existência separada à qual o mérito pudesse ser associado."

Então o Buddha disse, "Suponha que alguém entendesse apenas quatro linhas do nosso Discurso
mas ainda assim resolvesse se dar ao trabalho de explicar estas linhas para alguém mais; então,
Subhuti, seu mérito seria maior que o do doador de esmolas. Por quê? Porque este Discurso pode
produzir Buddhas! Este Discurso revela a Perfeição da Iluminação que Transcende Comparações!

(9) "Diga, Subhuti. Um discípulo que começa a cruzar a corrente diz a si mesmo, `Eu mereço as
honras e recompensas de alguém que começou a cruzar a corrente'?"

"Não, Senhor. Alguém que realmente esteja entrando na corrente não pensa em si mesmo como
uma ego-entidade isolada que possa merecer qualquer coisa. Apenas aquele discípulo que não vê
diferença entre si mesmo e os outros, que não dá importância a nome, forma, som, odor, gosto, tato
ou qualquer qualidade pode ser chamado um daqueles que entraram na corrente."

"Um adepto que esteja sujeito a apenas um renascimento mais diz a si mesmo, `Eu mereço as
honras e recompensas de alguém que só renascerá uma vez mais'?"

"Não, Senhor. `Um que renascerá uma só vez mais' é apenas um nome. Não há falecimento ou volta
à existência. Apenas quem compreende isto pode ser chamado um adepto."

"Um Venerável que nunca mais terá que nascer como um mortal diz a si mesmo, `Eu mereço as
honras e recompensas de alguém que não mais retornará'?"

"Não, Honrado-pelo-mundo. `Alguém que não retornará' é apenas um nome. Não existem o retornar
ou o não-retornar."

"Diga, Subhuti. Um Buddha diz a si mesmo, `Eu atingi a perfeita Iluminação'?"

"Não, Senhor. Não há nada como uma Iluminação Perfeita a se obter. Senhor, se um Buddha
Perfeitamente Iluminado dissesse a si mesmo, `tal sou eu' ele estaria admitindo a existência de uma
identidade individual, um eu e uma personalidade separadas e neste caso não seria um Buddha
Perfeitamente Iluminado.

"Ó, Honrado-pelo-mundo! Havíeis declarado que eu, Subhuti, me distingui entre teus discípulos no
conhecimento da bem-aventurança do samadhi, em viver perfeitamente contente e satisfeito em
reclusão, e em ser livre das paixões. Ainda assim não digo a mim mesmo que o sou pois se
pensasse em mim mesmo como tal então não seria verdade que escapei da ilusão do ego. Sei que
na verdade não há Subhuti e portanto Subhuti não reside em qualquer lugar, que ele não conhece e
nem ignora a bem-aventurança, e que não é livre e nem escravo das paixões.

(10) O Buddha disse, "Subhuti, que pensas? No passado, quando o Tathagata estava com
Dipankara, o Completamente Iluminado, Ele aprendeu algo dele?"

"Não, Senhor. Não há algo como uma doutrina a ser aprendida."

"Subhuti, saibas também que se qualquer Bodhisattva dissesse, `Eu vou criar um paraíso', ele estaria
mentindo. E porquê? Porque um paraíso não pode ser construído nem destruído.

"Saibas então, Subhuti, que todo o Bodhisttva, maior ou menor, deveria experimentar a pura mente
que vem depois da extinção do ego. Tal mente não discrimina e faz julgamento de som, gosto, toque,
odor, ou qualquer qualidade. Um Bodhisattva deveria desenvolver uma mente que não forma
qualquer apego ou aversão a qualquer coisa.

"Suponhas que um homem fosse dotado de um corpo enorme, tão grande que tivesse a presença
pessoal como a de Sumero, o rei das montanhas. Sua existência pessoal seria grande?"

"Sim, Senhor. Seria grande, mas `existência pessoal' é apenas um nome. Na verdade, ele nem
existiria e nem não existiria."

(11) "Subhuti, se houvesse tantos rios Ganges quanto há grãos de areia no rio Ganges, o total de
grãos seria grande?"

"Grande, de fato, Honrado-por-todo-o-mundo. Seria mais fácil contar todos os rios Ganges, do que
contar o total combinado de grãos de areia neles todos!"

"Subhuti, vou te contar uma grande verdade. Se alguém enchesse três mil galáxias com os sete
tesouros para cada grão de areia em todos esses rios Ganges e desse isso tudo como esmola ou
caridade, ganharia muito mérito?"

"Muito mérito, certamente, Senhor."

Então o Buddha declarou, "No entanto, Subhuti, se alguém estudasse nosso Discurso e entende
apenas quatro linhas dele mas então explica essas quatro linhas para alguém mais, o mérito
consequente seria muito maior."

(12) "Além disso, Subhuti, onde quer que aquelas quatro linhas sejam proclamadas, aquele lugar
deveria ser venerado como um Santuário do Buddha. E a veneração seria proporcional ao número
de linhas explicadas!

"Qualquer um que compreenda e explique este Discurso em sua totalidade consegue a mais alta e
mais maravilhosa de todas as verdades. E onde quer que esta explicação é dada, lá, naquele lugar,
deverias te conduzir como se estivesses na presença do Buddha. Em tal lugar deverias te curvar e
oferecer flores e incenso."
(13) Então Subhuti perguntou, "Honrado-por-todo-o-mundo, por que nome deveria este Discurso ser
conhecido?"

O Buddha respondeu, "Este Discurso deveria ser conhecido como o Vajracchedika Prajna Paramita -
o Lapidador da Sabedoria Transcendental - porque é o Ensinamento que é duro e afiado e corta a
concepção errada e a ilusão."

(14) Neste ponto o impacto do Dharma levou Subhuti a derramar lágrimas. Então, enquanto limpava
a face, ele disse, "Senhor, que precioso é que pronunciastes es te profundo Discurso! Já faz muito
tempo que meu olho da sabedoria foi aberto pela primeira vez; mas desde aquele dia até hoje nunca
havia ouvido uma explicação tão maravilhosa da natureza da Realidade Fundamental."

"Senhor, sei que por muitos anos ainda haverá homens e mulheres que, sabendo do nosso Discurso,
o receberão com fé e entendimento. Serão livres da idéia de uma entidade-ego, livres da idéia de
uma alma pessoal, livres da idéia de um ser individual ou existência separada. Que realização
memorável essa liberdade será!"

(16) "Subhuti, apesar de neste mundo ter havido milhões e milhões de Buddhas, e todos tendo muito
mérito, o maior mérito de todos virá àquele homem ou mulher que, quando nossa Época Búddhica
chegar próxima ao seu fim no período dos últimos quinhentos anos, receber este discurso,
considerá-lo, tiver fé nele, e então explicá-lo a alguém mais, resgatando assim nossa Boa Doutrina
do colapso final."

(17) "Senhor, como então deveríamos instruir aqueles que querem tomar o voto do Bodhi sattva?"

"Diga a eles que se quiserem chegar à Perfeita Iluminação que Transcende Comparações eles
devem estar decididos em suas atitudes. Devem estar determinados a libertar cada ser vivente mas
devem entender que na verdade não há seres vivos individuais ou separados."

"Subhuti, para ser chamado um Bodhisattva na verdade, um Bodhisattva deve ser completamente
destituído de quaisquer concepções de um si mesmo."

(18) "Diga, Subhuti, o Tathagata tem o olho humano?"


"Sim, Senhor, Ele tem."
"E o Tathagata tem o olho divino?"
"Sim, Senhor, Ele tem."
"E o Tathagata possui o olho gnóstico?"
"Sim, Honrado-por-t odo-o-mundo."
"E Ele possui o olho da sabedoria transcendental?"
"Sim, Senhor."
"E o Tathagata possui o olho-Búddhico da onisciência?"
"Sim, Senhor, Ele o tem."

"Subhuti, apesar de haver incontáveis Terras Búddhicas e incontáveis seres com diferentes mentes
nessas Terras Búddhicas, o Tathagata compreende a todos com sua Mente que Tudo Abarca.
Quanto às suas mentes, são meramente chamadas de `mente.' Tais mentes não têm existencia real.
Subhuti, é impossível reter a mente do passado, impossível reter a mente do presente, e impossível
apreender a mente do futuro porque em nenhuma de suas atividades a mente tem substância ou
existência."

(32) "E finalmente, Subhuti, novamente saibas que se um homem desse tudo o que tem - tesouros
suficientes para encher incontáveis mundos - e outro homem ou mulher acordasse para o puro
pensamento da Iluminação e tomasse apenas quatro linhas deste discurso, as recitasse,
considerasse, compreendesse e então, para o benefício de outros, as distribuísse e explicasse, o
mérito deste ou desta seria o maior de todos.
"Agora, como deveria ser a maneira de um Bodhisattva explicar estas linhas? Deveria ser
desapegado das coisas fraudulentas do Samsara e deveria permanecer na verdade eterna da
Realidade. Deveria saber que o ego é um fantasma e que tal ilusão não precisa persistir por muito
tempo.

"E assim ele deve ver o mundo impermanente do ego -


Como uma estrela cadente, ou a vaidosa Vênus ofuscada
pela Aurora,
Pequena bolha na água corrente, um sonho,
A chama de uma vela, que tremula e se vai."

Quando o Buddha terminou, o Venerável Subhuti e os outros na assembléia se encheram de alegria


com o ensinamento dEle; e, recebendo-o sinceramente em seus corações, tomaram seus caminhos."

* Uma versão abreviada. As seções 19 a 31 foram omitidas porque repetiam seções anteriores. O
capítulo 17 foi omitido pelo tradutor para o Inglês, Edward C onze, porque, nas suas palav ras: "No
capítulo 17 o Sutra volta ao começo. A questão do capítulo 2 é repetida, do mesmo modo como a
resposta do capítulo 3. 17-a-d sucessivamente considera os estágios da carreira de um Bodhisattva,
exatamente como os capítulos 3 a 5, e novamente o capítulo 10 o fez. C om a ausência de uma real
entidade para sua principal idéia, o capítulo 27 novamente cobre terreno antigo.. O 17a corresponde ao
3; 17b ao 10a; 17d ao 7, 14g ao final do 8; 17e ao 10c, e o 17g ao 10b."