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Homo deletabilis

Corpo, percepção, esquecimento


do século xix ao xxi
Conselho Editorial

Bertha K. Becker
Candido Mendes
Cristovam Buarque
Ignacy Sachs
Jurandir Freire Costa
Ladislau Dowbor
Pierre Salama
Maria Cristina Franco Ferraz

Homo deletabilis
Corpo, percepção, esquecimento
do século xix ao xxi
Copyright © 2010, Maria Cristina Franco Ferraz

Direitos cedidos para esta edição à


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Revisão
Carmem Cacciacarro

Editoração Eletrônica
Estúdio Garamond / Luiz Oliveira

Capa
Estúdio Garamond / Anderson Leal

M681v

Mizrahi, Beatriz Gang


A vida criativa em Winnicott : um contraponto ao biopoder e ao desamparo no
contexto contemporâneo / Beatriz Gang Mizrahi. - Rio de Janeiro : Garamond,
2010.
212p. 14x21cm
Inclui bibliografia
ISBN 978-85-7617-184-3
1. Winnicott, D. W. (Donald Woods), 1896-1971. 2. Psicanálise. 3. Psicologia
clínica. I. Título.

10-1649. CDD: 616.8917


CDU: 159.964.2

Todos os direitos reservados. A reprodução não-autorizada desta publicação, por qual-


quer meio, seja total ou parcial, constitui violação da Lei nº 9.610/98.
Sumário

Esquecer na era da tecla save......................................................... 11


Percepção e imagem:
do século xvii ao século xix........................................................... 21
Percepção moderna e ondulações da
subjetividade: rumo ao farol, de Virginia Woolf .......................... 51
Memória, tempo, virtualidade........................................................ 65
Corpos em trânsito: da ilusão de
movimento ao movimento total..................................................... 85
A atividade plástica do esquecimento:
perspectiva nietzschiana............................................................... 107
Homo deletabilis: cérebro, memória
e subjetividade............................................................................. 125
Sexualidade e subjetividade:
investigação genealógica............................................................. 153
Mulher, verdade e cosmética em Nietzsche................................. 173
Referências bibliográficas............................................................ 189
Para meus pais,
Pedro, ouro de Minas
Lulu, margens da alegria
“Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos.”
João Guimarães Rosa

“O rio do tempo é um rio que arrasta as margens consigo.”


Robert Musil
ESQUECER NA ERA DA TECLA SAVE

Nosso tempo parece cada vez mais assombrado por um temor


amplo e difuso às sombras do esquecimento. Em uma era destituída
de transcendência, em que perspectivas de longo prazo tendem a
se esvaziar, o medo de envelhecer se associa à sensação inquie-
tante de perda progressiva da memória, cada vez mais remetida
a um funcionamento deficiente das redes neuronais do cérebro.
Em livros de vulgarização que, em geral, alcançam a mídia, neu-
rologistas divulgam notícias alarmantes, como, por exemplo, que
os seres humanos começam a perder neurônios entre os nove e
os quatorze meses de idade. Após conquistar sua maior façanha,
aprendendo a andar, são integrados a uma nova versão de envelhe-
cimento e morte: a “morte neuronal gradativa” (Izquierdo, 2002,
p. 32). Envelhecer e esquecer tornam-se problemas precoces, a
serem mitigados por novos fármacos e por toda sorte de fitness
cerebral.
A disponibilidade requerida àqueles que têm acesso a um fluxo
frenético de informações, nas atividades mais cotidianas – quando,
por exemplo, somos obrigados a nos recordar de variadas senhas
para acessar múltiplos serviços –, também contribui para a cor-
rosão paulatina da capacidade de lembrar. Notícias que chegam
pelos mais variados meios, em tempo real, na velocidade com que
se sucedem e se apagam ou neutralizam mutuamente, solapam a
consistência dos eventos, colaborando para produzir evidentes
efeitos de esquecimento. Esse fenômeno também se expressa nas

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descrições de novas doenças catalogadas, tais como síndrome do
pânico, mal de Alzheimer, burnout, formas variadas de estresse
e depressão.
Síndrome menos popularmente conhecida, burnout, por exem-
plo, vincula-se ao estresse ocupacional e profissional. Seu nome
provém do verbo inglês to burn out, que significa queimar por
completo, consumir-se integralmente. Essa síndrome, tão expressi-
va da violência com que os corpos contemporâneos são anexados
(quando o são) a regimes de trabalho sob intensa pressão, sujeitos
a instabilidades e ameaças constantes, foi introduzida no início
dos anos 70 pelo psicanalista nova-iorquino Herbert J. No arti-
go “Esgotamento total”, o médico Ulrich Kraft, colaborador da
publicação Gehirn & Geist (Cérebro e Espírito), explica que um
dos traços característicos da enfermidade é a “memória afetada”.
E acrescenta:
Especialistas concordam que, por si só, uma jornada de 60 horas
semanais não causa doença, contanto que se encontre o equilíbrio
entre tensão e relaxamento. Pacientes afetados pela síndrome,
entretanto, ultrapassaram muito a “fronteira da adaptabilidade às
demandas”. Os sistemas internos de processamento do estresse
dessas pessoas sofrem de sobrecarga crônica.1

A pressão por produtividade e a lógica da descartabilidade,


tanto nas relações de trabalho quanto nas ligações pessoais, ter-
minam por curtocircuitar o sentimento de continuidade do vivido
e a produzir couraças que impedem a livre circulação dos afetos
do corpo, abrindo vastos espaços brancos na memória. Esse sen-
timento de fragmentação, de descontinuação e esgarçamento das
lembranças se encontra significativamente presente no cinema da
primeira década do século XXI. A título ilustrativo, basta mencio-
nar os seguintes filmes, dentre os mais expressivos: Amnésia, de

1 Disponível em: www2.uol.com.br/vivermente/estatica/indice_164.pdf. Tradução minha.

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Cristopher Nolan (2001), Spider, de David Cronenberg (2002),
O homem sem passado, de Aki Kaurismäki (2002), Violação de
privacidade, de Omar Naim (2004), O pagamento, de John Woo
(2004), e Brilho eterno de uma mente sem lembranças (2004), de
Michel Gondry.
Este último põe em cena uma empresa que deleta lembranças
dolorosas e remete a uma problemática contemporânea parado-
xal. Por um lado, imersos em uma lógica de curto (ou melhor,
curtíssimo) prazo, solicitados a nos adequarmos à rapidez turbi-
nada dos fluxos, à dissolução de perspectivas de continuidade,
ao imediatismo produtivista também expresso na imediatez da
produção e circulação de informação, tendemos a ser cada vez
mais tragados pelo esquecimento. Mas nem por isso nos livra-
mos dos véus sombrios de uma doença apontada por Nietzsche,
desde o final do século XIX, como característica da civilização
ocidental: o ressentimento com relação ao caráter irreversível do
tempo, ante a impossibilidade de se voltar atrás para mudar fatos
e atos, bastante comum quando retrocedemos imaginariamente
no tempo, evitando (também imaginariamente) um acidente ou
uma perda afetiva.
A abordagem dessa densa problemática contemporânea se
enriquece com a retomada do pensamento de dois filósofos que
propuseram instigantes conceitos de memória e de esquecimento
nas últimas décadas do século XIX: Henri Bergson e Friedrich
Nietzsche. As vigorosas visadas filosóficas de Bergson e Nietzsche
fornecem de fato ricas pistas para tematizarmos certas inquietações
do nosso presente: eis a aposta maior deste livro.
Em sua obra-prima Matéria e memória (1896), coetânea à
invenção do cinema, Bergson redimensiona as relações entre
percepção, matéria e memória, contrariando perspectivas cien-
tíficas e filosóficas caras à época e, especialmente, a redução do
complexo fenômeno da memória à materialidade do cérebro. Em

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nosso século, a disseminação midiática de verdades provenientes
do vasto (e nem sempre homogêneo) campo das pesquisas em
neurociências vai consolidando novas crenças. A principal delas
reside, exatamente, na redução do amplo espectro da experiência
vivida ao cérebro e à esfera bioquímica do corpo. Mais uma razão
para se reler hoje Matéria e memória, tecendo um delicado e sutil
contraponto com o presente.
Não pretendemos com isso sugerir que as pesquisas atuais
estejam equivocadas ou que devamos combater em bloco o esfor-
ço de naturalização que procura contribuir para a ultrapassagem
da velha dicotomia corpo/alma, corpo/espírito ou, para empregar
um vocabulário menos anacrônico, corpo/mente. Tampouco que-
remos sugerir que Bergson e Nietzsche sejam detentores de uma
suposta verdade definitiva sobre o tema, o que equivaleria a um
completo mal-entendido acerca de suas filosofias profundamente
antidogmáticas.
Cabe-nos, antes, entrever e discutir as noções de memória e de
corpo que estão em jogo nas perspectivas atualmente dominantes
e tematizar algumas das implicações éticas, políticas e existenciais
que nelas conseguimos vislumbrar. Não com o intuito de chegar
a qualquer verdade última acerca da memória e do esquecimento,
mas para discernir e avaliar os valores embutidos em novas cren-
ças que vão sendo inadvertidamente incorporadas. O que aqui está
em jogo é uma tentativa de contribuir para a reflexão e discussão
acerca do que estamos nos tornando.
Nesse sentido, este trabalho se inspira no método genealógico
criado por Nietzsche e, na esteira de Nietzsche, desenvolvido por
Foucault na segunda metade do século XX. Em ambas as pers-
pectivas filosóficas, não se trata de substituir o erro pela verdade,
mas de avaliar as implicações dos sentidos e valores produzidos
em distintas formações históricas. Esse gesto tem ainda o interesse
de favorecer a montagem de uma espécie de barreira crítica face à

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incorporação irrefletida de novos efeitos de verdade provenientes
do campo de pesquisas científicas atuais, insistentemente disse-
minados pela mídia. Em suma: não se pretende pleitear qualquer
suposta verdade última sobre a memória, mas identificar de que
modo esse fenômeno complexo, fundamental, tematizado por
pensadores seminais do final do século XIX, tem recebido novos
tratamentos na cultura contemporânea.
A instigante e singular valorização do esquecimento propos-
ta por Nietzsche soa hoje mais do que oportuna. Por um lado,
esquecer passa a ser atualmente encarado sobretudo como falha,
ameaça e fatalidade a serem contornadas ou minimizadas. Nesse
sentido, a valorização nietzschiana, com tudo o que ela permite
pensar, não poderia deixar de ser bem-vinda. Por outro lado, a visão
positiva do esquecimento proposta por Nietzsche pode se prestar
a apropriações apressadas, pouco afeitas à prática da leitura como
ruminação. Essa apropriação pode passar a servir tanto a um perni-
cioso apagamento da história quanto à lógica da descartabilidade
e obsolescência imediata de tudo o que nos cerca, de dispositivos
eletrônicos (que já provocam um grande problema de excedente
de lixo) a relações interpessoais. Mais uma razão para rediscutir
esse instigante tema nietzschiano.
Nietzsche ousou valorizar o esquecimento em pleno século
XIX, em uma época marcada por um forte impulso historicizan-
te, por um evidente apego à memória, tratada (como ele mesmo
criticou) em geral como monumento ou antiquário. De modo
totalmente extemporâneo, o filósofo celebrou a força plástica
do esquecimento, considerando-a como a mais alta atividade do
espírito. Essa extemporaneidade, entendida como estranhamento
e suspeição ante verdades correntes e acreditadas, persiste hoje,
com todo o seu frescor.
Para Nietzsche, por exemplo, a atividade espiritual do esqueci-
mento remete ao processo de digestão, a uma concepção de corpo

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que engoliu, literalmente, o que se tomava como próprio ao âmbito
do espírito. Como digestão, esquecer corresponde a um processo
sem o qual não nos livramos do ressentimento com relação a todo
tipo de infortúnio ou mau encontro, e também com relação ao
incessante escoar do tempo, à sua irrefreabilidade. Segundo Nietzs-
che, sem essa atividade plástica e salutar do esquecimento/digestão
não podemos nos instalar no novo nem sermos felizes.
Ora, o que sucede atualmente, em que o esquecimento não
parece se dar no sentido nietzschiano da digestão? A invenção de
novas máquinas de memória, inumanas, não mais analógicas à
fisiologia humana, parece ter intensificado contemporaneamente
certa sensação de impotência ante as mais diversas estimulações e
solicitações externas. O aspecto difuso do medo caracteriza, aliás,
a síndrome do pânico, que tem como uma de suas marcas justa-
mente a ausência de contornos nítidos do inimigo ou da ameaça,
uma generalização do pânico, que se desconecta dos mecanismos
de sobrevivência para se espraiar de modo indeterminado por todos
os lugares e situações, em uma curiosa semelhança com a lógica
(viral) do terrorismo e do contraterrorismo.
Essa sensação de entrave da potência transformadora e plástica
do esquecimento se expressa significativamente por uma crescen-
te demanda de espiritualidade, em conexão com os novos meios
tecnológicos, conforme ressaltou o sociólogo português Hermínio
Martins. É como se uma progressiva desespiritualização dos corpos
refluísse sobre uma demanda por uma espiritualidade reconfigu-
rada, adequada ao mercado de consumo. Por exemplo, o mercado
florescente de produtos e serviços de autoajuda.
Em alguns ensaios, Hermínio Martins desenvolveu o tema do
que chamou de “gnosticismo tecnológico” (Martins, 1996; Fer-
raz, 2000; Sibilia, 2003). Essa tendência aparece frequentemente
associada a especialistas em software e computação. O gnosti-
cismo tecnológico exprime um desejo de ascese com relação à

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viscosidade do orgânico, fadado a todo tipo de disfunção e falha,
bem como a inevitáveis degradações do corpo e da mente. Nes-
se sentido, vincula-se a um horror aos limites da vida humana, a
um anseio por ultrapassar a própria finitude da vida humana, que
implicam inevitavelmente (talvez por ora) envelhecimento e mor-
te. Parece igualmente comparecer no fascínio exercido pela textura
lisa e purificada do digital, que nossos corpos são cada vez mais
levados a admirar e a querer emular (Sibilia, 2008).
Esse horror ao orgânico, sua negação está longe de favorecer
o esquecimento nietzschiano, remetido justamente à equivalência
entre o espírito e o estômago e, portanto, aliado à dimensão tempo-
ral da vida humana. Em tempos de padrões de beleza fit, purificados
de insistentes dobras, rugas, adiposidades, a atividade da digestão
parece se complicar ainda mais. Além disso, a velocidade crescente
dos fluxos em que o homem contemporâneo é tragado (e de que
é sobretudo descartado) corrói estômagos abarrotados (e parado-
xalmente vazios), gerando ao mesmo tempo desconforto, angústia
e fechamento para uma ação transformadora de mundo.
Na medida em que a memória é crescentemente equacionada
como processamento de informação e o corpo elidido em favor
do cérebro (entendido, em geral, pelo modelo computacional),
podemos prever que as sombras do esquecimento não deixarão
de se espraiar ameaçadoramente pela cultura contemporânea,
pouco afeita à duração requerida pelo esquecimento/digestão.
Evidencia-se, assim, de que modo a intensa problematização atual
do risco de esquecimento diz respeito a uma relação igualmen-
te problemática com a temporalidade: no compasso frenético a
que os corpos contemporâneos têm de se adequar, como ativar
a potência salutar do esquecimento, como inventar e habitar a
espessura temporal necessária à digestão?
Digerir leva tempo. Um tempo que – como enfatizou Bergson
– escoa continuamente, mas que adquire para nós a consistência da

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duração. Um tempo não mais pensado como caminho irreversível (e
cada vez mais precoce) para a morte, mas acolhido e intensificado
em favor de novas e imprevisíveis maneiras de agir e de viver.
****

À guisa de roteiro
Para dimensionar a radicalidade do pensamento de Bergson e
introduzir o conceito de memória a partir de Matéria e memória,
dedico o primeiro capítulo à discussão do estatuto da imagem e
da percepção no século XIX, em ruptura com os regimes ópticos
e perceptivos predominantes nos saberes e práticas dos séculos
XVII e XVIII. Para essa análise, recorro sobretudo a algumas
teses propostas pelo historiador da arte Jonathan Crary. A seguir,
retomo os conceitos de imagem e de percepção elaborados no capí-
tulo inicial de Matéria e memória, bem como a ênfase no tema da
atenção, caro ao final do século XIX. Passo a explorar, a seguir, o
romance de Virginia Woolf intitulado Rumo ao farol, sintomático
dos novos regimes de atenção e das novas formas de experienciar
a subjetividade produzidos no âmbito da modernidade.
Com base nesse estudo preliminar, dedico o capítulo seguinte ao
conceito de memória produzido por Bergson, que vai na contramão
da tendência atualmente disseminada de se reduzir o fenômeno
da memória à materialidade do cérebro. O tema da memória em
Bergson é explorado em seus vínculos com a percepção, o corpo,
o cérebro e a virtualidade. Desdobrando a potência do conceito
bergsoniano de virtualidade em sua relação com o movimento e
a inteligência própria ao corpo, desenvolvo na sequência o tema
dos vínculos entre corpo e movimento, retomando as reflexões do
filósofo português José Gil acerca do movimento total nas expe-
rimentações da dança contemporânea.
Reatando o principal eixo condutor do livro, segue-se a essa
abordagem a investigação do tema nietzschiano do esqueci-

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mento. A discussão da memória e do esquecimento em suas
abordagens atualmente prevalecentes, em contraponto com os
conceitos elaborados por Bergson e Nietzsche, se vale a seguir
de uma análise do filme Brilho eterno de uma mente sem lem-
branças. O livro Sábado, do escritor contemporâneo inglês Ian
McEwan, contribuirá igualmente para a discussão. Ao longo
de todo o livro, sempre que oportuno, serão traçados paralelos
críticos entre as perspectivas filosóficas privilegiadas e crenças
atualmente dominantes.
Desdobrando a discussão acerca das transformações da visão
e da vivência do corpo na contemporaneidade, o capítulo seguinte
será dedicado a certas transformações que estão afetando a rela-
ção com a sexualidade, em especial no que concerne à criança e à
mulher. O ponto de partida dessa exploração será uma releitura do
primeiro volume da História da sexualidade de Michel Foucault
(1976). Observaremos então de que modo a ênfase crescente no
papel dos hormônios para o entendimento do que se é, especial-
mente no caso das mulheres, se encontra estreitamente ligada ao
atual privilégio concedido ao cérebro para a compreensão de toda
a experiência humana.
Por fim, como contraponto à recente equação mulher/hormô-
nio, será discutido o estatuto conferido à mulher por Nietzsche,
no âmbito da discussão da vontade de verdade que caracteriza
a tradição ocidental. Iniciando e fechando o livro, a releitura de
perspectivas filosóficas produzidas no âmbito do século XIX con-
vocam nossa reflexão acerca de problemas contemporâneos, no
que diz respeito à memória, ao esquecimento, bem como a algu-
mas transformações por que passam o corpo e a subjetividade em
nosso século. Nesse sentido, este livro está ele mesmo impregnado
pela memória e pela força plástica do esquecimento, na medida
em que efetua leituras seletivas de certos livros e de determinados
pensadores, reavivando-os junto ao calor do presente.

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Cada um dos capítulos deste livro teve versões preliminares
publicadas em revistas acadêmicas e livros, referidos em nota na
abertura de cada capítulo. Agradeço ao CNPq e ao programa de
cooperação Capes/Daad pelos apoios concedidos, que me permi-
tiram realizar no Rio de Janeiro e em Berlim as pesquisas em que
se baseia o livro. Agradeço ainda ao programa Erasmus Mundus
“Crossways in European Humanities” pela bolsa de ensino e pes-
quisa obtida em 2005, que tornou possível o desenvolvimento
deste projeto igualmente nas universidades de Perpignan, Nova
de Lisboa e Saint Andrews, e, por fim, à Faperj pelo apoio a esta
publicação.

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