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01/09/2016 Sociedade Chesterton Portugal: G.K. Chesterton e F.

 Nietzsche

G.K. Chesterton e F. Nietzsche

“Era Deus quem, nos últimos dias da Criação, se aninhou sob forma de serpente debaixo
da árvore do conhecimento. Então, ele recuperou­se de ser Deus. O diabo é apenas o
descanso de Deus nesse 7º dia.”  Nietzsche

Na reconstituição do diálogo virtual entre Chesterton
e Nietzsche efectuado pela sociedade
chestertoneana americana, assistimos ao confronto
entre o pensamento doentio de um escritor louco,
solitário e contraditório, e o pensamento sóbrio de
um homem são, com família e senso comum.

Friedrich Nietzsche (1844­1900), era uma criança obediente e terna, bondosa, submissa
e  respeitadora,  "o  pastorzinho".  Esse  foi  um  dos  seus  paradoxos.  A  miopia,  que  o
conduziu  à  cegueira,  foi  uma  das  ironias  da  sua  vida.  A  sua  exaltação  dos  fortes  e  o
aniquilamento dos fracos foi, não só um paradoxo, mas uma miopia.

Muitos atribuem à sífilis terciária a loucura de Nietzsche, incluindo Dale Ahlquist. Mas em
Leipzig,  onde  Nietzsche  terá  frequentado  prostitutas  e  bordéis  homossexuais,  ele  já  era
adepto  do  pensamento  de  Schopenhauer.  E  existe  aquele  pequeno  detalhe  de  que  a
sífilis terciária só se manifesta 8 a 30 anos após a primo­infecção. E, claro, existem outros
problemas a considerar: nem toda a neuro­sífilis produz paranóia e nem toda a paranóia
que ela possa causar implica um ódio profundo ao ser humano. Há escritores paranóicos,
como  Franz  Kafka,  que  parecem  sofrer,  mas  têm  empatia,  compaixão  e  um  esforço
construtivo.  Parece  que  o  papel  fundamental  e  determinante  da  personalidade  prévia  e
do  livre­arbítrio,  nunca  são  consideradas  no  caso  de  Nietzsche.  Tal,  só  indica  a
monstruosidade  dos  seus  postulados  e  afirmações,  por  mais  que  a  sua  prosa  seja
embriagadora, poética, metafórica, musical. 
Mas ouçamos o que Nietzsche diz de si próprio:

“Meu pai morreu demasiado cedo­ faltou­me a conduta severa e superior de um intelecto
masculino… Sem dúvida eu era um entendido em sombras.” O Viajante e a sua Sombra,
1879. 

“Convoquei a Roma uma assembleia de príncipes; quero mandar fuzilar o jovem  Kaiser.
Adeus.” Carta a Strindberg, 1888.  Assina Nietzsche­César, Dionísio ou, o Crucificado.

Por várias vezes falou da necessidade de nos mascararmos, como numerosas seriam as
suas máscaras. 
Ficou conhecido pelas suas afirmações de que Deus está morto, de que necessitamos de
outro  homem,  um  super­homem,  de  que  a  moralidade  acabou,  uma  vez  que,  no  seu
conceito, Deus era o guardião da moral. 
Nietzsche iria causar a maior revolução que a Terra tinha conhecido até então, todos os

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meios  justificariam  os  fins,  fazendo  a  apologia  da  vontade  e  da  força:  “vocês  dizem  que
uma  boa  causa  justifica  uma  guerra;  eu  digo  que  uma  boa  guerra  justifica  qualquer
causa”.  Os  fracos  deveriam  ser  eliminados  pelos  fortes  ou,  inclusive,  nem  deveriam
nascer,  os  indesejáveis  deveriam  ser  esterilizados,  o  casamento  só  deveria  ocorrer  sob
supervisão  médica,  muita  gente  deveria  ser  sacrificada,  a  fim  de  que  se  salvasse  a
Humanidade.

Existem  duas  grandes  influências  em  Nietzsche:  Schopenhauer  (1788­1860)  e  Darwin


(1809­1882).

O seu pessimismo inicial vem da influência de Schopenhauer:

Deus  não  existe,  a  matéria  é  má,  vale  mais  não  nascer,  vale  mais  morrer  do  que  viver,
não  existe  qualquer  sentido  para  a  vida.  A  suprema  felicidade  é  apenas  pessoal  e
consegue­se pela anulação da vontade, pela ascese­ como tal, não é possível ser feliz. O
suicídio  só  é  mau  porque  é  um  acto  voluntário.  Existe  predestinação,  não  existe  livre­
arbítrio, nem Bem e Mal; o mundo é uma representação e o homem luta para chegar ao
nada,  à  não  existência,  a  um  estado  onde  se  dissolverá,  sem  individualidade,  numa
espécie  de  éter,  o  nirvana  oriental.  Não  existe  uma  consciência  individual;  cada
consciência  humana  expressa  tons  de  uma  consciência  comum,  a  que  Chesterton
chama,A Alma da Colmeia. 
Sobre  o  pessimismo,  Chesterton  afirma  que  o  Mal  é  tão  grande  que  o  Bem  não  existe,
pois  tudo  o  que  é  material  é  mau.  Por  outro  lado  se  Deus  é  Criador  do  que  é  material,
então o pessimismo transforma Deus num demónio. 

“Parecia­me que Schopenhauer se estava a dirigir a mim, pessoalmente”, Schopenhauer
como educador, Nietzsche, 1874.

De Darwin, numa fase posterior, Nietzsche herda o optimismo:

O  mundo  está  errado  porque  quem  o  controla  são  os  mais  fracos,  uma  classe  de
escravos, que impedem o seu progresso porque utilizam a moralidade, para submeter os
mais fortes. 
O  mundo  pode  e  deve  ser  mudado,  deve  sofrer  uma  revolução  para  se  livrar  da
moralidade  e  de  Deus,  para  que,  tal  como  na  natureza,  apenas  sobrevivam  os  mais
fortes. Os mais fracos devem ser eliminados ou escravizados. 
A vida é a vontade de poder. Os novos valores da humanidade devem radicar no homem
forte, poderoso, nobre e belo. 
O  determinismo  é  marcante:  o  destino  individual  está  no  homem  desde  o  início,  inscrito
num  perene  movimento  da  vida,  circular,  em  que  tudo  o  que  foi,  voltará  a  ser,  o  eterno
retorno 1. 
Chesterton  diria  que  os  optimistas  não  acreditam  num  destino  do  homem  após  a  morte,
mas  aprisionam  o  homem  num  destino  antes  de  nascer!  O  optimismo,  diria  ainda
Chesterton,  tem  a  concepção  de  um  Mal  tão  pequeno  que  nem  existe;  faz  do  diabo,
Deus.

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A  época  de  Nietzsche,  suficientemente  louca,  com  a  emergência  da  Prússia  e  de


Frederico,  O  Grande,  com  o  pensamento  de  Hegel,  Marx,  Göthe  e  Wagner,  não  foi,
contudo, tão louca que tivesse reconhecido a sua obra em vida.
O  reconhecimento  e  identificação  viriam  mais  tarde  com  o  cumprimento  das  suas
profecias.  Os  seus  super­homens  chegaram  ao  poder  na  revolução  russa  bolchevique
em  1917  e,  na  Alemanha,  em  1933.  O  resultado  foi  catastrófico.  Milhões  de  mortos,
judeus  e  cristãos,  quer  na  União  Soviética,  quer  na  Alemanha  nazi.  Os  super­homens
demonstraram o que Nietzsche verdadeiramente dizia: o homem morreu, não Deus.

Diz Chesterton: Nietzsche  sugere­nos  que  pairemos  acima  das  bestas,  abolindo  a  única


coisa que nos coloca a todos acima das bestas: o sentido do pecado.

Dale Ahlquist afirma que Nietzsche queria negar Deus porque queria negar o pecado. E
ainda  hoje  ninguém  quer  falar  de  Deus  porque  ninguém  quer  falar  do  pecado,  que  é  a
verdadeira razão da nossa separação de Deus.

Mas,  mesmo  com  toda  esta  catástrofe,  este  genocídio,  em  nenhuma  época  Nietzsche  é
estudado com tanto entusiasmo e paixão como na nossa época. 
As  nossas  universidades  ensinam  as  doutrinas  de  Nietzsche  às  novas  gerações  de
estudantes,  omitindo  sempre  a  sua  insanidade  e  as  suas  consequências.  Mesmo  este
texto,  no  meu  próprio  país,  seguramente  encontrará  uma  dezena  de  académicos  que
nele  encontrarão  uma  centena  de  reparos.  Curiosamente,  contam­se  pelos  dedos  de
uma mão os académicos que podem apontar as várias incorrecções que cometemos com
Chesterton. E Chesterton previu tudo isto: a ascensão dos nazis ao poder na Alemanha e
o  despotismo,  a  pobreza  e  a  escravatura  socialista  na  Rússia.  Disse  mesmo,  em  1934,
que  a  guerra  se  iniciaria  na  Polónia.  Previu  a  eugenia  do  nosso  tempo  e  a  chegada  ao
poder dos plutocratas.

Todos o esqueceram.

Pelo contrário, a insanidade que ele apontou a Nietzsche, progrediu para o Gramscismo,
o Existencialismo e o Desconstrucionismo.

“Não existem factos, só interpretações.”

“Tu tens o teu caminho; eu o meu. Quanto ao caminho certo, ele não existe.”

“Todas  as  coisas  dependem  da  interpretação;  a  interpretação  que  prevalece  num
determinado tempo é função do poder, não da verdade.”

“O  sentido  da  vida  e  a  moralidade  depende  de  cada  um.  Os  fortes  expandem­se
experimentando  tudo  e  vivendo  de  forma  arriscada.  A  vida  consiste  em  muitas

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possibilidades  e  devemos  experimentá­las  a  todas.  As  religiões  que  ensinam  a


misericórdia, a culpa, a compaixão, o arrependimento, estão erradas. Uma vida boa está
sempre em mudança, desafia, é desprovida de culpa, intensa, criativa e arriscada.”

Se a imortalidade não existe, a vida torna­se insuportável. E porque não há­de a vida ser
insuportável? 2 

A vida de Nietzsche foi. 
Incapaz de constituir família ou de ter uma relação duradoura com uma mulher, excepto a
sua  irmã.  Seriamente  doente  a  partir  de  1870,  aos  26  anos,  até  final  da  sua  vida,  por
mais 30 anos! Onze anos louco, internado num asilo. 
A  Polónia,  de  onde  clamava  ter  as  suas  verdadeiras  origens,  viria  a  ser  uma  das
principais vítimas, de um lado e do outro da fronteira, dos seus super­homens. Morreu em
Weimar,  o  nome  da  república  que  foi  a  antecâmara  da  ascensão  do  partido  nacional
socialista na Alemanha. 

Deus já tinha morrido há muito tempo, antes dele, mas continuava vivo, e, ao que dizem,
à frente da sua Igreja. 
Os  cristãos  encontraram  o  caminho  para  fora  do  túmulo,  porque,  como  diz  Chesterton
emO Homem Eterno, têm um Deus que lhes mostrou o caminho.

Relativamente a este ateu, como alguns dos outros oriundos da negrura das florestas do
Bradenburgo,  como  sublinha  Chesterton, o  seu  ateísmo  escondia  um  paganismo;  o  seu
paganismo escondia a adoração pelo demónio:

“Se  um  demónio  vier  e  te  disser  que  tens  que  voltar  a  viver  esta  vida  uma  e  outra  vez,
vezes  sem  fim,  ficarás  abatido  e  triste  ou  experimentarás  um  momento  de  exaltação
sublime? Na verdade, dir­lhe­às: tu és o meu deus e eu nunca ouvi nada mais divino!” 3

A  “novidade”  do  pensamento  de  Nietzsche  já  tinha  sido  expressa  por  Sófocles  ou  pelos
gnósticos, cátaros e albigenses. A sua “novidade” remonta a Heráclito e a Esparta. A sua
"novidade"  é  pagã,  pré­cristã.  O  seu  pensamento  já  acorrera  a  outros,  como
Shakespeare, que o atribui a loucos como Ricardo III:

"A consciência não passa de uma palavra que os cobardes usam
 Concebida a princípio para amedrontar os fortes.
 Que os nossos fortes braços sejam a nossa consciência, as espadas a nossa lei!"

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O homem comum está com Shakespeare, e considera o cavalheiro alemão um louco.
Só os académicos e as escolas do nosso tempo o consideram lúcido e apelativo.

O  que  aconteceu  à  nossa  época  para  o  considerar  apelativo?  Porque  se  encontra  nos
programas  de  filosofia  das  nossas  universidades  como  um  ícone  estético?  Porque  há
inteiros  sistemas  de  filosofia  e  de  arte  que  defendem  a  eugenia,  a  fealdade,  a  ausência
de moral, de Bem ou de Mal, da verdade, do correcto significado das palavras?

A resposta que ocorre, a mais horrível e inquietante, é que por baixo desta ideologia se
esconde um ódio místico à infância, à maternidade e à Igreja de Deus. A outra resposta,
que  nos  chega  na  calma  pesada  e  soturna  de  um  Outono,  é  de  que  algo  grandioso  e
horrível,  algo  angustiante  e  tenebroso,  se  prepara  no  interlúdio.  E  que  o  crepúsculo  se
vai abater sobre a terra dos homens; não o dos ídolos, mas o dos demónios.

Não foi possível carregar o plug­in.

                                     (legendas em português no canto inferior direito)

António Campos

1 É verdade que aquele tipo de recorrência a que Buda chamava a “Roda da Tristeza”, o

pobre  Nietzsche  lá  conseguiu  arranjar  maneira  de  chamar  Alegre  Sabedoria  ou  Gaia
Ciência. Ocorre­me dizer que, se a sua ideia de alegre sabedoria era esta simples e nua
repetição,  sempre  gostaria  de  saber  qual  seria  a  sua  ideia  sobre  uma  Triste  Sabedoria.
Mas é um facto que, no caso de Nietzsche, esta ideia não pertence ao momento do seu
exórdio,  mas  antes  ao  momento  do  seu  esgotamento.  Ela  apareceu  no  fim  da  sua  vida,
quando  já  estava  perto  do  colapso  mental  e,  na  realidade,  é  algo  de  bem  contrário  às
suas primeiras e melhores inspirações: essas que falavam de uma liberdade selvagem ou
de  uma  inovação  fresca  e  criativa.  Pelo  menos  uma  vez,  ele  tentara  partir  para  novas
ideias, mas só lhe serviu para acabar ele próprio partido­ pela roda. Chesterton em São
Tomás de Aquino, 1925.

2 "O  discurso  de  Nietzsche  é  forte  e  sedutor.  Mas  o  seu  tom  é  sempre  de  desdém.  Ele

tratava  o  homem  com  um  desprezo  profundo,  com  um  sarcasmo  infinito;  ele  escarnecia
mas  não  sorria.  Os  seus  seguidores  têm  as  mesmas  características.  Nunca  ninguém
encontrou  uma  alegria  nietzscheana."  Chesterton  versus  Nietzsche,  reconstituição  de
debate virtual da sociedade chestertoneana americana.

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3  Deverão existir poucos outros exemplos de vida que nos recordem tanto as palavras
de Mt 12, 36­38:

Todo o homem  néscio  prestará contas pelas suas palavras. Porque pelas tuas palavras


serás justificado e pelas tuas palavras serás condenado.

Iosif  Stalin,  o  carniceiro  georgiano,  no  quarto  dia  de  coma  tem  um  instante  de  lucidez.
Aponta  uma  das  muitas  fotografias  ampliadas  que  decoram  as  paredes­  as  que  tirou
com Nadja num Verão feliz: uma menina alimenta um cordeiro com um biberão. É uma
ironia. Em 5 de Março de 1953 a agonia recomeça. Desfigurado, tenta respirar. Ergue o
braço esquerdo. Svetlana, a filha, dirá depois que foi um último gesto de ameaça, como
se quisesse amaldiçoar todos os presentes.

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