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Título original: Saremo giudicati dall'amore

© Edizioni San Paolo - Cinisello (MI) - Italy


© 2016 da tradução by Armando Braio

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A547e Amorth, Gabriele


O exorcista explica o mal e suas armadilhas / Gabriele Amorth ; tradução Armando
Braio ; colaboração Stefano Stimamiglio . _ 3 ed. – Rio de Janeiro: Petra, 2016.

Tradução de: Saremo giudicati dall’amore


ISBN 9788582780893
1. Catolicismo. 2. Igreja Católica. 3. Cristianismo I. Stefano Stimamiglio. II. Título.

16-36506 CDD: 282.09


CDU: 282
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

CAPÍTULO 1
A vitória de Cristo sobre o pecado e a morte

CAPÍTULO 2
Satanás e os anjos caídos

CAPÍTULO 3
O culto a Satanás e suas manifestações

CAPÍTULO 4
A ação extraordinária de Satanás: possessão, vexação, obsessão e infestação

CAPÍTULO 5
Corpo a corpo com Satanás: o exorcismo

CAPÍTULO 6
Os outros meios de luta contra os demônios

CAPÍTULO 7
Princípios de escatologia cristã: morte, juízo, Paraíso, Purgatório, Inferno
INTRODUÇÃO

“No ocaso da vida, seremos julgados pelo amor.” Com esta fulgurante expressão, São
João da Cruz, grande místico carmelita do século XVI, quis exprimir teologicamente
a mesma realidade misteriosa que Jesus, pouco antes de oferecer a sua vida pela
redenção dos homens, expôs aos seus discípulos. Ao fazê-lo, traçou um
extraordinário e apocalíptico quadro do último juízo de Deus no que diz respeito à
história e à existência individuais, tal como está “retratado”, de forma grandiosa, pelo
apóstolo Mateus, no capítulo 25 de seu Evangelho: “Em verdade, eu vos declaro:
todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim
mesmo que o fizestes” (v. 40).
É o amor, portanto, o fundamento da sentença que se pronunciará sobre a nossa
vida. Mais ainda, quando comparecermos perante Deus, será o que a nós caberá
exprimir, diante da verdade nua e crua de nossa realidade. Eis o cerne da vida cristã:
caridade, misericórdia, acolhimento. No declínio de nossa vida, só permanecerá o
acréscimo de amor que tivermos sabido imprimir a cada coisa que fizemos.
Há também o reverso da medalha: além de sermos julgados quanto ao amor,
seremos julgados pelo Amor, isto é, por Deus. Ao anunciar o Jubileu Extraordinário
da Misericórdia, o Papa Francisco procurou exprimir à Igreja inteira, e mais
propriamente a todo o mundo, esta assombrosa verdade, jamais enunciada por
inteiro: o julgamento que nos aguarda é um julgamento de misericórdia. “A
misericórdia será sempre maior do que qualquer pecado, e ninguém pode colocar um
limite ao amor de Deus que perdoa.”1 A todos os homens é comunicada a esperança,
segundo a qual não existe pecado nem condição de vida tão deplorável ou falha
humana tão irremediável que não possam ser encobertos plenamente pelo amor de
Deus. Há uma condição exclusiva para isso: que se manifeste o arrependimento no
pecador e o desejo de perdão.
Por ocasião do feliz evento do Ano Jubilar, também desejo fazer minha essa
mensagem repassada de confiante espera, propondo-a novamente, sob a ótica dos que
(como eu) exercem na Igreja o ministério de exorcista, isto é, da batalha face a face
com o Diabo, para erradicar a ação extraordinária deste na vida dos homens. O
inimigo da raça humana, que se rebelou contra Deus e almeja levar todo ser criado à
perdição e à destruição, deseja com volúpia extrema que todos percam a esperança de
amar e de regozijar-se — agora e em cada momento da nossa vida, inclusive no
instante final — com a misericórdia do Deus-Amor, que se encarnou em Cristo Jesus
e que, mediante sua morte e ressurreição, readmitiu-nos no caminho da salvação,
mesmo após o pecado original haver provocado a total ruptura de nossa comunhão
com o Criador. Por meio da ação ordinária de Satanás, que é a tentação, e por meio
da ação extraordinária, que constitui o objeto especifico deste livro, o Diabo tenta
destruir a confiança, depositada em cada homem e mulher, de amar e ser amado.
Este texto, que redigi com a colaboração do Pe. Stefano Stimamiglio, subchefe de
redação do semanário Credere e meu confrade na Pia Sociedade de São Paulo, onde
hoje exerce a função de secretário-geral, teve origem no desejo de preencher o vazio
dos corações com a esperança que encontra fundamento na rocha da Palavra de Deus,
que nem as piores tempestades ou o transbordamento dos rios, nem o violento furor
dos ventos (cada qual imagine a figura que lhe aprouver, por mais terrível e
dramática que seja) conseguem derrubar (cf. Mateus 7,25). Isso põe em relevo um
assunto muito tratado nos últimos anos — já era mais do que tempo, diga-se de
passagem! — pelos jornalistas: possessão, vexação, obsessão e infestação diabólica.
O material colhido por ocasião de nossos encontros — como fruto de várias
entrevistas que propiciaram que inaugurássemos a sessão Diálogos sobre a outra vida,
da Credere, que se manteve de abril de 2013 até agosto de 2014, ano em que encerrou
as atividades — é inequivocamente mais amplo e guarnece esse tema com outros
aspectos de nossa doutrina, o que permite situá-lo numa perspectiva bem ajustada. De
fato, o encadeamento lógico desse material, na sucessão de números do supracitado
semanário da revista, foi realizado com o objetivo de apresentar, numa linguagem
simples, mas sem simplismos, as noções básicas sobre o obscuro conjunto de
fenômenos ligados a Satanás. Tudo para que o leitor pudesse dispor das coordenadas
gerais sobre o tema, e conhecer também os respectivos remédios espirituais,
permitindo que esse estudo se insira na perspectiva necessária do juízo final de Deus
sobre os homens e sobre a história, iluminada pela obra salvadora de Cristo. Nisso
reside a sua originalidade, isto é, no intento de proporcionar um compêndio essencial
sobre a matéria, tornando-a acessível ao grande público.
Tomando como ponto de partida os ensinamentos centrais a respeito da vitória
de Cristo sobre o pecado, pretendo discorrer a seguir sobre a doutrina católica com
relação aos anjos caídos, passando depois a analisar os fundamentos do satanismo,
bem como as inumeráveis manifestações de culto demoníaco. Também analiso as
consequências espirituais que podem proceder daí, assim como, em contraposição, os
remédios adequados contra o mal. Por fim, pretendo expor algumas noções básicas da
escatologia cristã. Trata-se de um percurso que, tendo início no sacrifício de Cristo,
percorre as vias tenebrosas da atuação de Satanás, retomando, em seguida, a solução
salvadora — motivos de grande esperança para todos, especialmente para os que
sofrem as graves consequências dos males de feitiçaria, pessoas que sinto serem meus
amigos e companheiros de trajetória.
Nota

1 Cf. Misericordiae vultus (bula de proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia), n° 3.


CAPÍTULO 1
A VITÓRIA DE CRISTO SOBRE O PECADO E A MORTE

Encarnação e Ressurreição: a Vida destrói a morte


Antes de entrar no assunto principal do livro, desejaria esclarecer algumas verdades
fundamentais que dizem respeito à nossa fé e que servem de “bagagem” indispensável
para enfrentar o exaustivo itinerário, em meio ao complexo (e nunca suficientemente
esclarecido) tema dos males da feitiçaria. Antes de discorrer sobre tais males e sobre o
seu autor, o Diabo, e também para desinflar desde logo a tentação do
sensacionalismo, é importante estabelecer duas premissas fundamentais, que
concernem à pessoa de Jesus Cristo, Mestre, Salvador, Libertador.
A primeira consideração que proponho diz respeito ao sentido profundo da
Encarnação do Filho de Deus. Para cada homem e cada mulher de nosso tempo, qual
o significado do nascimento de Jesus Cristo, o Salvador, da Virgem Maria, por obra
do Espírito Santo, acontecimento que se desenrolou numa noite, há mais de dois mil
anos, em Belém, minúsculo e desconhecido lugarejo, não muito distante de
Jerusalém? Trata-se de um evento específico da história da humanidade, e que nos
enche de esperança. Cumpre-nos dirigir o nosso olhar para esse Menino, sabendo que
é o Filho de Deus que nasce no meio dos homens para extirpar-lhes o pecado, o
egoísmo, a morte, o poder do Diabo. Somente com os olhos da fé saberemos ver
quem é que está deitado naquela pobre manjedoura: o Profeta esperado pelos gentios,
o Messias que, ensinando nos caminhos da Palestina, curando os doentes, consolando
os aflitos, pregando a Boa-nova do Reino de Deus e expulsando os demônios, de
forma perfeita e completa, revelará a face misericordiosa do Pai.
Entretanto, o nascimento de Jesus ainda não reúne tudo, se fizermos abstração do
segundo momento fundamental da história do Filho do Homem: a sua morte e
Ressurreição, que é o que celebramos a cada ano por ocasião da Páscoa. A
Ressurreição de Cristo é causa de salvação eterna para as almas que estavam mortas
antes de sua vinda, assim como para todos os que viviam naquela época e também
para os que viriam depois. A Ressurreição de Cristo abre-nos as portas do Paraíso.
Com uma condição, porém: que essa salvação seja aceita livremente por cada homem.
Deus não obriga ninguém a aceitar a salvação, mas, em qualquer momento, está
sempre pronto a acolher-nos.
No início do Evangelho de São Marcos encontram-se quatro frases que sintetizam
toda a obra do Senhor, conferindo substância e sentido à nossa existência: “Cumpriu-
se o tempo”, “o Reino de Deus está próximo”, “convertei-vos” e “crede no
evangelho” (Marcos 1,15). Mediante essa análise, assimilaremos melhor o sentido da
Encarnação e da Ressurreição de Jesus.
A primeira frase significa que o tempo de espera está concluído: a partir do
momento em que nasce, Jesus torna-se, também no tempo, o centro de toda a história
da humanidade.
Eis, por sua vez, o sentido da segunda: a porta de entrada no Céu, que havia sido
fechada pelo pecado, a partir de agora, em virtude da glorificação de Cristo em sua
Ressurreição, encontra-se aberta. O seu Reino, de justiça e de paz, para sempre
chegou até nós.
É oportuno recordar que, na acepção do Antigo Testamento, aos mortos era
reservado um destino especial: o sheol,2 espécie de “cova comum” para a qual os
judeus supunham que iriam as almas dos indivíduos depois da morte. Concebia-se o
sheol como um lugar triste, sombrio, uma espécie de sobrevivência diminuída após a
morte, que, entretanto, não era capaz de libertar o homem dos mais nefastos efeitos
desta, além de tal ideia ser contrária à ordem da Criação: a exclusão da comunhão
perfeita com Deus e com os homens. Precisamente é o contrário que se dá: graças ao
Advento de Cristo e à sua Ressurreição, completou-se a Revelação: as portas do
Paraíso abriram-se de par em par e a luz fulgurante de Cristo Ressuscitado adentrou a
morada de cada um dos redimidos.
A terceira frase, por sua vez, revela-nos que, para termos o gozo da bem-
aventurança eterna, devemos mudar de forma radical nosso modo de pensar e
também a nossa vida. Somos chamados a uma constante metanoia, a uma
“conversão”, reformulação das prioridades da vida, para que essa realidade possa
cumprir-se plenamente ainda em nossa existência.
Por fim, a quarta explica-nos como deve ser realizada concretamente tal
conversão: viver o evangelho. Nele encontramos tudo quanto nos é necessário. Sim,
no evangelho, que pode ser resumido naquilo que Jesus ordena a seus discípulos:
“Assim como eu vos amei, vos ameis também uns aos outros” (João 13,34).
Que atitude deve enraizar-se em nós, com vistas a tomarmos seriamente essa
resolução como responsabilidade de cada um? Respondo com o simples relato de um
episódio pessoal.
Durante 26 anos, de 1942 a 1968, recebi a incumbência de me encontrar
regularmente, em San Giovanni Rotondo, com São Pio de Pietrelcina. Os frades
cultivam o hábito de afixar em suas celas um letreiro com escritos tirados da Bíblia.
No tocante ao Padre Pio, eis a máxima que escolheu: “A grandeza humana vem
sempre associada à tristeza.” Para mim está claro o sentido: devemos ter humildade,
muita humildade, assim como Cristo a teve em sua vida. É como São Paulo a define,
sem meias palavras: “esvaziamento” (cf. Filipenses 2,7). Corresponde ao Seu fazer-se
homem — a Ele, Jesus Cristo, que era Deus — e ao Seu morrer na cruz, rejeitado
pelos homens.
Após esse anúncio ter sido roubado de sua cela, afixou outro: “Maria é toda a
razão da minha esperança.” Se Maria, que é a Mãe de Jesus, é a nossa esperança,
qualquer pessoa — desde que esteja sofrendo, que esteja sozinha, que se ache triste e
no extremo de suas forças — pode dirigir o olhar em direção ao Natal do Senhor e à
Sua Páscoa da Ressurreição com um coração repleto de esperança.
A morte de Cristo projeta uma forte luz sobre a nossa morte. Ao fazer-se homem,
o Filho de Deus quis aceitar na sua totalidade a condição dos seres humanos. Segundo
narra o livro dos Gênesis, Deus criou o homem numa condição de imortalidade. No
paraíso terrestre, o homem fora sujeito apenas à proibição de comer da árvore do bem
e do mal. Obviamente, para que pudesse ser mais bem compreendido, o autor bíblico
usa uma linguagem metafórica: com efeito, esse relato não deve ser interpretado em
seu sentido literal.
A mensagem deve ser entendida na profundidade de sua acepção teológica:
tratava-se, para o homem, de uma prova de obediência e de reconhecimento do poder
de Deus e do senhorio divino sobre toda a obra da Criação. Assim como faz conosco,
também com Adão e Eva Satanás utilizou dois artifícios para desviá-los do seu
caminho.
Inicialmente, levou-os a renegar o que Deus lhes impusera. Para isso, a serpente
disse a Eva: “Vós de nenhum modo morrereis!” (cf. Gênesis 3,4). Do mesmo modo
age conosco, induzindo-nos a duvidar da existência do pecado, do Inferno, do
Paraíso e da vida eterna. É o que acontece, por exemplo, para falarmos dos dias de
hoje, quando promove a ideia de que o aborto e a eutanásia seriam sinais de progresso
da humanidade.
O segundo artifício é o de fazer o mal tomar a aparência de bem, isto é,
apresentá-lo como um proveito, uma vantagem de que a pessoa não se deve privar.
Com efeito, a serpente prossegue: “Mas Deus sabe que, em qualquer dia que
comerdes dele, se abrirão os vossos olhos, e sereis como deuses, conhecendo o bem e
o mal” (Gênesis 3,5). Em resumo, o Diabo fez com que o mal se mostrasse simpático,
atraente, agradável aos sentidos.
À luz dessa situação, Jesus aceita, ao se encarnar, as consequências extremas dessa
culpa original, cujo efeito último é a morte: “Mas não comas da árvore da ciência do
bem e do mal; porque, em qualquer dia que comeres dela morrerás indubitavelmente”
(Gênesis 2,17). Foi essa a advertência de Deus quando colocou o homem no jardim
do Éden. O Filho do Homem, encarnando-Se, aceitou — enquanto homem, e
somente enquanto homem, uma vez que a sua natureza divina não estava sujeita a tais
limitações — a condição de mortalidade e todos os limites próprios da natureza
humana: fome, sede, sono, sensibilidade à dor. Para salvar-nos, Ele aceitou as
consequências extremas da morte, a fim de destruí-la com Sua Ressurreição. Foi essa
realidade que levou São Paulo a exclamar, questionando: “Onde está, ó morte, a tua
vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1 Coríntios 15,55). A morte foi
derrotada por Jesus! Pela salvação eterna, por essa grande consolação dada a todos os
homens, Deus lhes enxugará todas as lágrimas (cf. Apocalipse 21,4), e é certo que
disso não estarão excluídos — bem ao contrário! — os que sofrem de males
espirituais. Esta é a Boa-nova para os nossos caros irmãos que muito padecem.

As consequências da vitória de Cristo


Aprofundemos e desdobremos o que foi enunciado, baseando-nos agora no mistério
da Paixão, morte e Ressurreição do Senhor. Esta nos obtém três vitórias contra as três
formas de condenação sofridas por Adão e Eva, após o pecado original. A primeira é
a condenação à morte; a segunda diz respeito ao nosso corpo, que se desfará (“porque
és pó e em pó te hás de tornar” [Gênesis 3,19]); a terceira configura-se no fechamento
das portas do Paraíso.
Acima de tudo, Jesus obtém-nos a vitória sobre a morte, porque o nosso corpo,
imediatamente após haver fechado os olhos para este mundo, ao invés de se
encaminhar para a atmosfera sombria do sheol, é destinado à ressurreição. É inegável
que podemos ressurgir para a vida ou para a morte, isto é, para o Paraíso —
certamente com uma “passagem” pelo Purgatório — ou para o Inferno. A esse
respeito, é claríssima a afirmação de Jesus, do alto da cruz, ao Bom Ladrão: “Em
verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso” (Lucas 23,43). Isso demonstra que
não devemos ter medo da morte, porque esta é somente um patamar rumo ao Além
de paz, concórdia e amor, que nos espera, para que nos seja concedida uma vida sem
fim.
De fato, eis a vitória sobre a segunda condenação. Constituído de alma e corpo, o
homem não pode viver somente com a alma separada do corpo. Corpo e alma são
destinados a recompor-se no final dos tempos, isto é, no momento do Juízo Final.
Santo Tomás de Aquino — a meu ver, o maior dentre os teólogos cristãos — afirma
que não é apenas pela fé que cremos na unidade entre corpo e alma, pois, ainda que
baseados apenas na razão natural (ou seja, pelo mero raciocínio lógico) é impossível
conceber corpo e alma separados um do outro.
Quando nos reportamos aos santos — que já desfrutam da felicidade no Paraíso,
embora os respectivos corpos ainda não estejam unidos às almas, visto que isso
somente acontecerá no fim dos tempos — podemos ter certeza de que, mesmo sem os
corpos, já gozam da bem-aventurança, embora somente venham a alcançar a suma
beatitude quando ambos, corpo e alma, estiverem unidos. Pode-se afirmar o mesmo
em relação a cada um de nós, quando, pela misericórdia de Deus, chegarmos ao
Paraíso. Em poucas palavras, somente quando a completa união entre corpo e alma
for reconstituída, acabando o ciclo do tempo, existirá realmente a plenitude de vida.
Por enquanto (para nos exprimirmos em termos bem acessíveis), os santos desfrutam
do grau de felicidade que cada alma é capaz de “conter”. Em relação aos condenados,
pode-se fazer a mesma afirmação, evidentemente, no sentido oposto.
Por fim, no que concerne à terceira condenação, podemos sustentar que Jesus,
graças à Sua Ressurreição, reabriu as portas do Paraíso que estavam cerradas e
lacradas, em consequência do pecado original. Eis a mensagem fundamental da
Páscoa, verdade, por assim dizer, que nos faz exultar pela nossa fé: nossa vida não é
destinada ao vazio, mas à glória e à felicidade eternas, em companhia de Maria, dos
santos e da Santíssima Trindade.

Dar sentido ao sofrimento


Entretanto, cada pessoa, nesta vida, defronta-se com a experiência da dor e da
angústia. Como, então, deve encarar a vida eterna aquele que sofre no corpo e no
espírito? Deus criou a todos para o amor e a felicidade, mas também determinou que
seja cumprida essa meta por meio de um caminho de liberdade, sem coação. Para cada
um, Deus estabeleceu uma prova.
Também os anjos, criaturas como nós, foram submetidos a esse teste.
Conhecemos o resultado: uma parte revoltou-se contra Deus e não quis reconhecer a
autoridade divina, ou seja, submeter-se unicamente a Ele. Tais anjos caíram, isto é,
foram condenados definitivamente. Outra parte preferiu obedecer a Deus,
escolhendo o Paraíso.
Também o homem sobre a terra está sujeito à prova da fidelidade às leis de Deus.
Isso ocorre de forma eminente durante a época do sofrimento, que, como bem
sabemos, não poupa a ninguém: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo,
e tome a sua cruz todos os dias, e siga-me”, disse Jesus (Lucas 9,23). Recorda-nos o
Magistério da Igreja que “a vitória messiânica sobre a doença (aliás, como sobre
todos os demais sofrimentos humanos) não se realiza unicamente pela supressão
[dela], graças a curas milagrosas, mas também com o sofrimento voluntário e
inocente de Cristo na Sua Paixão, e dando a cada homem a possibilidade de se
associar à mesma”.3 Esse é um ponto central: unido ao sofrimento de Cristo, o
sofrimento humano torna-se fonte de salvação. “Realizando a Redenção mediante o
sofrimento, Cristo elevou ao mesmo tempo o sofrimento humano ao nível de
Redenção. Por isso, todos os homens, com o seu sofrimento, podem se tornar
também participantes do sofrimento redentor de Cristo.”4
A dor, sobretudo a de um inocente, é um mistério que supera a nossa capacidade
de compreensão. O que sofre (seja padecendo em razão de doenças, seja em razão de
males espirituais, tais como a possessão diabólica), quando unido a Cristo, eleva-se a
um nível superior, o que o torna capaz, pela fé, de cultivar a esperança. No entanto,
há mais: as provações dos que sofrem são uma verdadeira e específica “vocação”, um
chamado “para participar do crescimento do Reino de Deus numa nova modalidade,
ainda mais preciosa. As palavras do apóstolo Paulo podem tornar-se o programa de
cada um dos que sofrem, sendo, desde logo, lampejos que fazem resplandecer, aos
olhos de cada um, o significado da graça que se manifesta nessas diversas situações:
“Eu que agora me alegro nos sofrimentos por vós, e que completo na minha carne o
que falta ao sofrimento de Cristo pelo seu corpo que é a Igreja” (Colossenses 1,24).5
Reportar-se à vontade de Deus no sofrimento é a única via a ser percorrida. É um
mistério que verifico todos os dias em meu ministério de cura das enfermidades
espirituais e físicas de muitos irmãos e irmãs, os quais oferecem seus sofrimentos pela
salvação do mundo.
Procurando exprimir esses conceitos teológicos em linguagem corrente, devo
afirmar que, sem sofrimento, ninguém consegue nada. Impõe-se, de certo modo, no
que diz respeito ao Paraíso, saber “conquistá-lo”. Entendamos bem: tudo é graça, o
Paraíso nunca poderá ser conquistado “por nossos méritos”. Somente Cristo é quem
pode “conquistá-lo” para cada um de nós, por meio da via estreita da sua morte na
cruz, que se conclui na alegria da Ressurreição. O que nos compete, então, fazer?
Aceitá-lo, por meio da prova da existência. E isso é válido para todos. Por exemplo,
ao ler a vida dos santos, comprovamos que alguns passaram por sofrimentos
extraordinários. É bom que o afirmemos desde já: não é isso que o Senhor espera,
necessariamente, de cada um. No entanto, todos enfrentamos as nossas tribulações,
fadigas comuns e extraordinárias. Ser provado no corpo e no espírito, entregando-se
totalmente a Deus, essa é uma verdadeira e indiscutível prova de fé, pois, em tais
casos, o amor e a fidelidade ao Senhor são gratuitos, não nos proporcionando
nenhuma vantagem pessoal. Em suma, o amor por Deus não tem outra razão de ser...
senão o próprio amor! Por ventura, também não ocorre o mesmo com o amor
humano?
Bernardo de Claraval exprimiu um comentário luminoso sobre isso: “O amor
subsiste por si mesmo, agrada por si mesmo e por causa de si mesmo. Ele próprio é
para si mesmo o mérito e o prêmio. O amor não busca outro motivo nem outro fruto
fora de si; o seu fruto consiste na sua prática. Amo porque amo; amo para amar.”6
Por conseguinte, somos chamados a amar a Deus e a nele crer em meio às fadigas
da vida, sobretudo se reconhecermos que as coisas temporais nos proporcionam força
e auxílio para visar ao mais alto, um dia após o outro. Menciono o exemplo de São
Paulo quando fala de um “espinho na carne” (cf. 2 Coríntios 12,7). Não sabemos
exatamente a que sofrimento se referia; faz alusão a um “anjo de Satanás” que o
perseguia. Podemos deduzir que se tratava de um sofrimento físico provocado pela
ação demoníaca, e não dizia respeito a causas naturais. “Em três ocasiões pedi ao
Senhor que o afastasse de mim”, afirma, às raias do desespero. Entretanto, Deus não
o livra: “A ti basta minha graça”, responde-lhe o Senhor. São Paulo morreu com
aquele “espinho da carne”, uma vez que a virtude se manifesta e se aprofunda
exatamente por meio do sofrimento, mediante o qual comprovamos a virtude e a
aperfeiçoamos. A experiência do apóstolo atesta-nos que, por intermédio do
sofrimento, aprendemos a amar a Deus, a nos aperfeiçoar no amor. O sofrimento, é o
caso de reiterar, quando oferecido pela salvação das almas, pela conversão dos
pecadores, a título de reparação, torna-se, desta maneira, um instrumento de
verdadeira colaboração com a ação divina para a redenção de toda a humanidade.

Os sinais do amor de Deus


De que modo, então, a misericórdia divina se manifesta para os que sofrem — em
particular para os que sofrem vexações demoníacas? Eis a resposta: por meio da
comunhão íntima com Jesus, que experimentamos de modo particular na oração e, no
mais alto grau, ao recebermos os sacramentos, que são os sinais sensíveis do amor de
Deus para conosco.
A pessoa que enfrenta perturbações espirituais padece de uma forma muito
especial de sofrimento. No caso das enfermidades de ordem física, podemos fazer
análises clínicas, descobrir as causas, obter um diagnóstico e, muitas vezes, encontrar
os remédios que se fazem necessários, ainda que por meio de sucessivas tentativas.
No caso dos transtornos que atormentam o corpo, as explicações médicas podem
ajudar a pessoa a enfrentar melhor o sofrimento, propiciando-lhes acompanhar
diretamente o tratamento, tanto nos casos de melhora como nos de agravamento da
situação.
No caso dos sofrimentos causados pelos demônios, nenhuma explicação humana,
ou cientificamente comprovada, existe. Adentramos no terreno do invisível: nunca
deparamos com dois casos idênticos, tendo cada qual a sua história, o que torna
difícil, para não dizer impossível, saber como se desenrolarão as coisas. O que é certo
é que o sofrimento interior é sempre muito grande, não poucas vezes
incompreensível, ao menos para aqueles que se acham ao redor da pessoa atingida, de
parentes ou de amigos. Por isso, com frequência, essa situação provoca uma grande
frustração e sentimento de solidão naquele que sofre. Nos casos de tormentos
causados pelo ataque demoníaco — é importante enfatizar —, encontramo-nos
diante de um desígnio misterioso de sofrimento: só podemos encará-lo por meio do
total abandono à vontade de Deus. É indispensável recorrer a Ele, sabendo que não
existe nenhum meio humano para a cura, apenas os meios sobrenaturais, e tomando
conhecimento, pela fé, de que a própria vida, mesmo numa situação paradoxal como
esta, está “escondida com Cristo em Deus” (Colossenses 3,3).
Os “remédios de Deus”, autênticos instrumentos da graça, tornam-se, desse
modo, sinais tangíveis que alimentam a fé e a esperança, mesmo em face das situações
aparentemente mais inexplicáveis. Muitas pessoas que, ao longo de muitos anos,
sofrem de males espirituais confirmam, a cada dia, a observação acima.
Notas

2 Cf., p. ex., Jó 3,17-19; 10,21; 17,13-16.

3 Cf. Congregação para a Doutrina da Fé, Instrução sobre as orações para alcançar de Deus a cura, n°
1.
4 Cf. João Paulo II, Carta Apostólica Salvifici doloris, n° 19.

5 Cf. Instrução sobre as orações para alcançar de Deus a cura, cit., n° 1.


6 Cf. São Bernardo, Discurso sobre o Cântico dos Cânticos (Disc. 83, 4-6).
CAPÍTULO 2
SATANÁS E OS ANJOS CAÍDOS

O orgulho de Lúcifer e de seus seguidores


Entramos agora na análise dos males espirituais, dedicando este capítulo à identidade
de Satanás e de seus ajudantes, os demônios. Procedamos de forma ordenada. Em seu
infinito poder, Deus criou miríades e miríades de anjos, um número espantoso,
incalculável. O Salmo 146 afirma que Deus conhece os nomes das estrelas, e chama
cada uma nominalmente. O mesmo pode ser dito a respeito dos anjos: Deus conhece
o nome de cada um.
Certo dia, durante um exorcismo, o Pe. Candido Amantini — sacerdote da
congregação dos passionistas e meu grande mestre, que exerceu o ministério do
exorcismo na Escada Santa, em Roma, de 1961 a 1992, e cujo processo de beatificação
foi aberto a 13 de julho de 2012 — interpelou um demônio: “Quantos são?” O
demônio respondeu: “Somos tantos que, se nos tornássemos visíveis, encobriríamos o
sol.” Nessa oportunidade, o demônio forneceu uma indicação que, sendo
corroborada pela Bíblia, nada justifica que a ponhamos em dúvida.
Deus criou os anjos predestinando-os ao Paraíso, à bem-aventurança eterna. São
seres inteligentíssimos, com conhecimentos imensamente superiores aos do homem.
Em consequência, o Paraíso não é a contemplação passiva e estática de Deus. O
próprio Deus criou tudo em movimento, tanto em relação às coisas visíveis (basta
pensar no exemplo dos astros) quanto às invisíveis. Mesmo os anjos, criados para
louvar a Deus, estão em incessante movimento.
Um grande número dentre eles caiu por ter se rebelado contra Deus. Como
aconteceu isso? Para que pudesse admitir os anjos no Paraíso, Deus sujeitou-os a uma
prova de obediência e humildade, da qual só conhecemos a forma, mas não o
conteúdo. O pecado dos anjos caídos foi um pecado de orgulho e desobediência. O
mais formoso dentre todos os anjos, Satanás, tendo consciência de ser extremamente
inteligente, rebelou-se ante a ideia de se sujeitar a qualquer criatura. Esqueceu-se,
porém, de que também ele era uma criatura de Deus. Muitos outros anjos
acompanharam-no nessa insensatez de onipotência, insurgindo-se contra a ideia de
depender do Criador, julgando-se orgulhosamente mais fortes e belos do que Ele
próprio. Por presunção e soberba — isto é, querendo ser como Deus! —, quiseram
ser independentes. Ou melhor, mais do que Ele. E com isso sentiram orgulho, a tal
ponto que jamais voltaram atrás nessa escolha.
Faço notar, de passagem, que o mesmo acontece com o homem, particularmente
numa época como a nossa, na qual muitíssimos parecem ter se esquecido de Deus. O
delírio de onipotência, que frequentemente atinge os homens de nossa época, parece-
me estar contido nessa perspectiva dramática de autonomia, de completa
autorreferencialidade, ou seja, cada indivíduo como sendo referencial exclusivo para
tudo.
Retomando o raciocínio de nossa exposição, assevero que a culpa original dos
anjos caídos é a mesma de quem adere implícita ou explicitamente ao satanismo.
Anjos e seguidores de Satanás tomam como base de sua existência três princípios ou
regras da vida prática, que estão no fundamento de sua existência insensata: fazer
tudo o que quiser, isto é, não se sujeitar às leis de Deus; não obedecer a ninguém; ser
cada um o deus de si mesmo. Dissertaremos sobre isso adiante.

Os anjos e sua escolha por Deus


Ao contrário dos demônios, as criaturas angélicas conservaram-se humildes. Uma
escolha que nelas descerrou a visão beatífica, jubilosa e eterna do Deus Criador.
Escolheram continuar fiéis à natureza e ao objetivo da própria existência — que é a
de louvar eternamente a Deus —, realizando uma tarefa simples e ao mesmo tempo
difícil: manterem-se humildes e, portanto, livres do orgulho e da soberba. Aceitaram
manter-se na submissão a Deus, exercendo a respectiva escolha na justa perspectiva
da fidelidade ao Criador e a seu projeto. Dessa forma, os anjos ficaram plenamente
inseridos no que é característico de sua natureza e de seu fim. Isso representou um
sinal de fidelidade para com a verdade: foram criados, assim como também nós, para
amar a Deus por toda a eternidade. Essa atitude, propriamente falando, não lhes é
causa de nenhum rebaixamento, porque não comportaria tal, jamais podendo
corresponder a uma forma de “falta” de algo, pois, ao contrário, vivem numa
“plenitude”. Os anjos continuaram fiéis à própria natureza, o que os põe em relação
direta com Deus, ou seja, com Aquele que, na obra da Criação, deixou inscritas as
melhores leis para todos, concebidas para o bem de cada um.
Qual a atividade dos anjos? Louvar eternamente a Deus obedecendo às Suas
ordens. Por isso, sempre aconselho a cada um, principalmente aos meus “pacientes”
particulares, que invoquem muitas vezes o próprio anjo da guarda, que nos protege
dos perigos, comunicando-nos a inspiração certa para cada momento, embora eles
mesmos não possam impedir que sejamos assaltados pelas tentações, nem que
eventualmente venhamos a cair em pecado.
Daí se depreende o sentido do que está escrito no capítulo 12 do Apocalipse:
estamos diante de uma guerra colossal entre os anjos que permaneceram fiéis a Deus
e os que se rebelaram contra Ele. Em suma, trata-se de um formidável embate contra
os demônios. Nessa passagem, a Bíblia narra que os anjos achavam-se sob o comando
do arcanjo Miguel, e que os anjos rebeldes, dirigidos pelo dragão, ao final, foram
derrotados. Em consequência (faço a citação de memória), “foram expulsos do céu”
(12,8).
Sobrevém aqui um ponto que as Sagradas Escrituras só referem de passagem,
mas a respeito de cuja veracidade não encontro razão para duvidar. Consiste no
seguinte: foram os demônios, por assim dizer, que criaram o Inferno, ou seja,
colocaram-se numa situação, num estado de vida contrário a Deus, condenando-se
eternamente. Por causa dessa escolha, eles próprios decidiram o seu destino.
Essa nova condição, relatada pela Bíblia como “inferno”, implica que os
demônios foram para sempre excluídos do Paraíso, da visão de Deus, da felicidade
eterna, que eram originariamente o único fim a que estavam destinados. Portanto, é
uma verdade de fé que os demônios estão condenados para sempre: para eles não
existe nem a mais remota possibilidade de salvação, pois a escolha que fizeram é
caracteristicamente imutável. Por quê? Porque a inteligência dos anjos — muitíssimo
superior à nossa, visto que são puros espíritos, assim como pelo fato de que,
diversamente do que ocorre conosco, já podem gozar da plena visão de Deus —
impõe que a opção feita tenha sido plenamente consciente, definitiva, irreformável.
Ademais, em nenhuma hipótese, os demônios poderiam voltar atrás. Embora, em
sentido oposto, cabe dizer o mesmo em relação aos anjos que escolheram a Deus, bem
como em relação aos santos, que já possuem a visão eterna Dele. Por fim, igualmente
a nós, que somos chamados a corresponder a cada dia ao convite para a santidade.

O Diabo pode ler nossos pensamentos?


Tratemos agora da ação específica de Satanás, formulando, inicialmente, uma
primeira pergunta: o Diabo é capaz de conhecer nossos pensamentos, a bem dizer,
pode saber no que pensamos num dado momento de nossa vida? A resposta é
simples: de modo algum. Os teólogos são unânimes a respeito. Somente Deus — que
é onisciente, conhecendo interiormente os segredos da realidade criada, isto é,
homens e anjos, bem como os da realidade não criada, isto é, de sua própria essência
divina — pode ter conhecimento profundo do pensamento de cada homem. Mesmo
sendo criatura espiritual, o Diabo não pode captar o que se passa em nossa mente, em
nosso coração, a não ser por dedução, ou seja, observando o nosso comportamento.
Sendo dotado de uma inteligência agudíssima, essa operação não lhe é trabalhosa. Se
um jovem faz uso de maconha, por exemplo, podemos deduzir que, no futuro,
facilmente, poderá fazer uso de drogas mais pesadas. Resumindo: em relação ao que
lemos, vemos, dizemos, sentimos, em relação às companhias que temos, em relação a
nossos olhares, naturalmente... diante de cada um desses pontos e desse conjunto de
indícios, os demônios podem intuir qual é a direção para onde “aponta” a nossa vida,
ou para onde nos encaminhamos num momento especifico de nossa existência; e, com
base nisso, tentar-nos.
Isso nos faz recordar uma passagem da primeira carta de Pedro: “Irmãos, sede
temperantes, vigiai. O vosso inimigo, o Diabo, está como um leão rugindo em torno,
procurando a quem devorar. Resisti-lhe firmes na fé” (1 Pedro 5,8-9). A minha
releitura deste trecho, com a qual vários exegetas bíblicos estão de acordo, apresenta-
se assim: “Irmãos; vigiai sempre. O Diabo se move em torno de cada um de vós,
procurando onde devorar.” Este onde é importante: Satanás procura em cada pessoa
exatamente esse ponto fraco, e trabalha nisso, criando para cada um de nós situações
próximas ao pecado, e, para isso, já nos encontra predispostos. Por isso, é a própria
pessoa, fazendo uso de sua liberdade, que comete pecado, bem “trabalhada” antes, é
claro, pela tentação de Satanás.
Os pontos mais fracos no homem, desde que o mundo é mundo, sempre foram os
mesmos: soberba, dinheiro, luxúria. E, compete acentuar, não existem limites de
idade para pecar. Quando ouço penitentes em confissão, muitas vezes faço uma leve
ironia, que não deixa de ter um fundo de verdade: afirmo que só deixaremos de ser
objeto de tentação cinco minutos depois de termos dado o último suspiro...
Logo, não tenhamos a presunção de imaginar ou pretender que, chegando a uma
idade avançada, estaremos isentos do pecado. Se, ao longo da juventude, cultivamos
um vício, não imaginemos que, por causa da idade, tal vício deixará de nos perseguir.
Pensemos na luxúria: não raro, atendo em confissões a pessoas idosas que veem
filmes pornográficos com maior frequência do que os jovens. Na luta contra o
pecado, devemos aplicar toda a força de nossa vontade até o fim de nossos dias.

O Diabo pode ter medo do homem?


Passemos agora ao segundo ponto: a quem compete ter medo, a nós ou ao Diabo? A
carta de São Tiago diz: “Submetei-vos, pois, a Deus, resisti ao Diabo, e ele fugirá
para longe de vós” (Tiago 4,7). Satanás fica ao largo de quem nutre a fé, recebe os
sacramentos, deseja viver santamente. Por quê? Tudo isso tem “odor” de Deus e de
santidade. Se nos detivermos para pensar um pouco, é impossível não nos
lembrarmos dos períodos de nossa existência nos quais a nossa vida interior era mais
intensa: não é certo que, nesses períodos, tínhamos mais forças para resistir à
tentação? De outro lado, impõe-se não sucumbir à soberba, tendo sempre em mente
que o Diabo nunca cessará de nos tentar até o fim de nossos dias.
Análogo comentário cabe ser feito em relação aos pontos de referência sagrados,
de modo especial em tudo quando diz respeito a uma sólida devoção mariana. Diante
disso, Satanás manifesta fortíssima aversão a: Loreto, Lourdes, Fátima, Medjugorje,
para mencionar somente os mais conhecidos. Muitas libertações da ação demoníaca
verificaram-se em tais lugares.
Devo acrescentar que o Diabo pode perturbar de modo extraordinário uma
pessoa de fé bem fundamentada, mas, neste caso, ele o faz contra a vontade, como que
“obrigado” pelo poder do malefício. Ele prefere largamente tentar quem vive longe
de Deus, junto aos quais goza de maior liberdade de atuação. Satanás teme os filhos
de Deus, ou seja, os que vivem procurando ter uma existência semelhante à de Jesus:
“Fui crucificado com Cristo, e não sou eu mais quem vive, mas Cristo que vive em
mim” (Gálatas 2,19-20). O Diabo tem conhecimento de que é mais forte e inteligente
do que nós; sabe, porém, igualmente, que não estamos sós na luta contra ele. Um só
exemplo é suficiente: São João Bosco, um dos maiores santos do século XIX, pelo
simples fato de entrar na capela com os paramentos sagrados para celebrar a Missa,
libertou uma moça possessa. O Diabo tem horror aos santos e à santidade.
Muitas vezes as pessoas me perguntam se, no caminho dessa libertação, pode ser
útil fazer a oração de renúncia a Satanás. A resposta é afirmativa. Não só útil, mas é
indispensável recitá-la. É o que nos ensina a nossa liturgia: a referida expressão “eu
renuncio a Satanás”, assim como os pedidos que constam nos artigos do Credo, são
previstos exatamente para o rito do Batismo, sacramento pelo qual nascemos para a
vida cristã. Renovamos essa fórmula na Vigília Pascal, enquanto confirmação de
nossa fé. É importante renunciar a Satanás e às suas obras; contudo, ainda mais
importante é recitar com frequência e com fé a fórmula do Credo, conforme fazemos
nas Missas dominicais e nas festas dos dias santos de guarda. Cada vez mais a
experiência me faz ver que a renúncia a Satanás e a profissão de nossa fé são
indispensáveis para quem teve parte com o ocultismo, servindo para romper todo
vínculo com o Maligno.

Em que parte do corpo o Maligno fica instalado?


Outra interrogação recorrente é se os demônios fixam a sua morada numa parte
específica do corpo humano. A resposta é inequivocamente negativa. Fazendo uso de
uma construção que facilitará a compreensão do assunto, direi que ele exerce
influência sobre o corpo todo ou sobre parte deste, mas sem localizar-se
especificamente num órgão ou num membro. Quando a pessoa possuída entra em
transe, o espírito Maligno em certa medida assume o “comando”, induzindo-a a ter
movimentos desconexos ou levando-a a blasfemar. É como se o Maligno envolvesse
por inteiro o corpo do possuído, que perde o controle sobre si. Tem-se, por vezes, a
impressão de que fixou morada na garganta, no estômago, no intestino ou na cabeça,
locais onde se manifestam dores ou espasmos. Na realidade, porém, não está presente
ali, apenas atua, num certo momento, sobre este ou aquele órgão.
Fixados tais pontos, pergunta-se: a possessão diabólica e outros males espirituais
excluem a presença do Espírito Santo? Em relação aos espíritos, não podemos
raciocinar em termos puramente humanos. Assim, a “superfície” tomada por um
corpo humano não pode ser “preenchida” nos mesmos moldes em que enchemos um
copo de água. De um lado, na questão dos espíritos, entram em cena o Diabo e o
Espírito Santo, duas realidades rivais que podem coexistir — obviamente, em conflito
— numa mesma pessoa. De outro, é digno de nota que diversos santos tenham sido
assediados pelos maus espíritos, ainda que, evidentemente, estivessem cheios do
Espírito Santo. Nesse ponto, uma objeção aflora: como explicar isso, uma vez
admitido que os demônios não “ocupam” nenhum espaço físico? Sem dúvida, embora
o Espírito Santo possa expulsá-lo, é respeitada a nossa capacidade de escolha.
Está dito no Evangelho de São Marcos que “há certas espécies de demônios que
não se consegue expulsar de qualquer modo, a não ser com oração” (9,29). O
demônio busca sempre camuflar-se, esconder-se, pois não ignora que, apresentando-
se por inteiro com seus sinais inconfundíveis, poderia estar caminhando para a
própria ruína. Realmente, ante uma situação dessa natureza, a pessoa poderia
entregar-se à oração com mais intensidade, submeter-se aos exorcismos e às preces de
libertação, intensificando a sua participação na Missa, etc. Um demônio não pode
resistir ao poder da oração e do jejum. Isso é evidentemente apenas uma indicação de
princípios: por vezes, ele está profundamente enraizado, sendo difícil extirpá-lo da
pessoa, provavelmente devido a uma eficácia excepcional dos ritos satânicos e por
uma misteriosa permissão divina. Às vezes, os exorcismos duram anos e anos.
Afinal, quem deve rezar e jejuar? Todos — tanto a pessoa atingida pelo mal
espiritual como as que estão próximas a ela. Em relação ao primeiro, trata-se de uma
forma de atestar sobremaneira a fé, dada como resposta a um chamado muito especial
para santidade. Em relação aos demais, um convite para manifestar concretamente a
caridade cristã. Com efeito, muito eficazes são as orações dos familiares bem
próximos, pois essa colaboração pode concorrer fundamentalmente para uma
atmosfera favorável no recinto do lar. Ao rol dessas pessoas acrescento o exorcista, o
pároco, os amigos e quaisquer outros que estejam empenhados na libertação do
possesso.

Qual a aparência do Diabo?


Entre as perguntas mais frequentes, não pode estar ausente a mais sugestiva de todas:
qual a aparência de Satanás? Sendo puro espírito, não possui substância corpórea e,
portanto, não pode assumir uma forma inteiramente clara para nós. Guardadas as
devidas proporções, isso se aplica também aos anjos: estes só podem tornar-se visíveis
aos homens se assumirem características que seríamos capazes de reconhecer. A
Bíblia está repleta de relatos de aparições de anjos que se deixaram ser vistos pelos
homens. No livro de Tobias, por exemplo, o arcanjo Rafael, sob a aparência de um
rapaz, acompanha o jovem Tobias em sua missão. No Evangelho de São Lucas,
avulta uma situação entre todas: a Anunciação do arcanjo Gabriel a Maria (Lucas
1,26-38).
Sobre a fisionomia do Diabo, deve-se afirmar que é muito mais feia do que tudo
aquilo que seríamos capazes de imaginar. Esse aspecto horrendo é consequência
direta do afastamento de Deus, da explícita e irrevogável escolha que fizera da
rebelião. Isso pode ser compreendido mediante uma argumentação lógica: sendo
Deus beleza infinita, quem resolve afastar-se Dele inevitavelmente só pode ser o
extremo oposto dessa mesma beleza. Naturalmente, trata-se aqui de argumentos de
ordem teológica, fundados na Revelação, aos quais damos o nosso assentimento
quando recorremos à razão iluminada pela fé. Seria possível, a título de ilustração,
evocar uma ideia aproximativa?
Antes, porém, é necessário excluir as imagens derivadas da iconografia
tradicional do Diabo, que o apresentam com chifres, cauda, asas de morcego, tridente
e olhos injetados. Tratando-se de puro espírito, obviamente não pode “assumir” essas
características. De fato, se essa representação concorrer para incutir em nós o temor,
no que diz respeito à ação exercida por ele — não sabemos bem como —, que seja
bem-vinda. Contudo, há sempre o risco — em se tratando dos homens de nosso
tempo, secularizados e “bem-apessoados” — de transformar o Diabo num ícone
medieval, peça de museu dos tempos passados, fantasia para “convencer” palermas.
O que é um grande risco, além de um grande serviço prestado a ele!
Cumpre, sem dúvida, admitir que, em sua liberdade maculada, os demônios
podem aparecer sob a forma de um animal monstruoso ou de uma pessoa com feição
infernal. Acabo de pensar, entretanto, nas representações de seres horripilantes que
vemos reproduzidas nas camisetas dos jovens, as quais se encontram à venda por toda
parte, e aconselho a todos que não se embaralhem com isso. De fato, sendo muito
astuto, Satanás pode adotar também formas inócuas na aparência. Nesse particular, o
caso de São Pio de Pietrelcina é típico. Aparecia-lhe, às vezes, como um cão feroz;
noutras ocasiões, revestido com a fisionomia de Jesus ou de Nossa Senhora; ou,
ainda, com a aparência externa do seu confessor ou do reitor de seu convento, quando
lhe ordenavam fazer isso ou aquilo. Ao verificar depois com o superior a ordem
recebida, percebia que tivera uma visão do Diabo. E também podia ocorrer que o
Maligno lhe aparecesse como uma bela moça despida...
Enfim, demônios podem manifestar-se mediante odores desagradáveis, como
cheiro de enxofre ou de esterco de animal (já aconteceu isso enquanto eu estava
benzendo uma casa), ou também, diante de pessoas particularmente sensíveis, por via
de barulhos repulsivos, rajadas de vento muito perceptíveis, sensações táteis
desconfortáveis.

Almas penadas: o que diz a Igreja sobre isso?


Encaremos agora outra questão. Alguns afirmam serem capazes de ver ou perceber
tais “presenças”. Trata-se apenas de sugestões? Serão almas “vagando” pelo espaço?
Será isso manifestação demonícaca? A esse respeito convém ter muita prudência e
discernimento. Tais “presenças”, na literatura específica e na prática do exorcismo,
fazem-se notar por uma extensa casuística. Existem pessoas, por exemplo, que
declaram ter sentido a proximidade, às vezes até física, de um antepassado ou de
pessoas desconhecidas — tais “almas penadas”, são entendidas como almas de
defuntos, as quais estariam aguardando ser introduzidas na ordem da vida eterna.
Outras vezes, há quem fale em “almas-guias”, as quais aconselhariam certas pessoas a
tomar as decisões mais acertadas. O que dizer? Preliminarmente, falemos algumas
verdades de fé.
A primeira é que só temos uma vida; portanto, o que está em jogo nesta existência
é que, ao final, seremos julgados, seja para ressurgirmos para a vida em Deus, seja
para o afastamento eterno Dele. Logo, é inteiramente impossível que existam almas
vagando à espera de uma reencarnação, conforme defendem algumas correntes do
espiritismo. Isso corresponde a uma ideia absolutamente incompatível com a
Revelação e com a crença na ressurreição do corpo.
A segunda é que existe, sim, uma forma de comunicação entre os mortos e nós:
trata-se do princípio do Corpo Místico, ou seja, dos membros da Igreja enquanto se
acham em comunhão. De um lado, entre as almas dos mortos do Paraíso e do
Purgatório, e nós, que ainda peregrinamos nesta terra, existe uma troca de bens
espirituais, fundamentada na caridade de Cristo, a qual se manifesta pela intercessão.
Em particular, as almas do Purgatório, sofrendo para purificar-se, gozam de uma
capacidade de oferecimento e de reparação extraordinária em nosso favor, e, ao
mesmo tempo, gozam dos benefícios que, em favor dessas almas, podemos obter
pelas nossas orações. Dessa realidade estão excluídas as almas dos condenados, já
que, no Inferno, não gozam (nem quereriam gozar) dos benefícios de nossa oração.
Analisando a questão das almas penadas, penso o seguinte: sabendo que,
imediatamente após a morte, iremos ao Paraíso, Inferno ou Purgatório, não é
possível acreditar que existam almas livres vagando pelo mundo. No velho rito dos
exorcismos, havia a ressalva contra o risco de que se interpretassem presumíveis
possessões ou perturbações espirituais como tendo sido causadas por um falecido
condenado. Parece-me uma posição razoável. Com efeito, são demônios que assim se
camuflam. Já me ocorreu, por exemplo, que, durante um exorcismo, um espírito
afirmasse ser uma dessas almas penadas. Quando, porém, fiz uma verificação mais
profunda, revelou-se ser um demônio. Existem outros exorcistas que pensam o
contrário. Segundo eles, a presença dessas almas que vagam pelo mundo seria um fato
real. Voltaremos a tratar deste assunto quando falarmos do espiritismo (cf. p. 60ss).
Trata-se de um assunto ainda aberto à discussão, cabendo aos teólogos estudá-lo,
aprofundando os dados das Escrituras, do Magistério da Igreja e da experiência dos
místicos e dos videntes.
CAPÍTULO 3
O CULTO A SATANÁS E SUAS MANIFESTAÇÕES

O ocultismo
A Enciclopédia Treccani define o ocultismo como “conjunto de doutrinas fundadas
numa concepção religiosa, metafísica e física do universo, que pressupõe a existência,
para além da realidade, de forças dinâmicas, pessoais ou impessoais, físicas ou
psíquicas, não acessíveis pelos instrumentos da lógica ou das ciências matemáticas ou
experimentais (desse ponto de vista, mantêm-se ‘ocultas’), mas com as quais podemos
estabelecer correlações, mediante instrumentos cognitivos ou técnicas de natureza
prática, cujo conhecimento é reservado a poucos sábios”. Em outros termos, o
ocultismo é um grande “guarda-chuva”, sob o qual se abrigam todas as sequelas da
adoração a Satanás, tendo como objetivo conquistar benefícios. As mais significativas
formas de ocultismo são: magia, astrologia, cartomancia e espiritismo. Na base do
ocultismo há a crença na existência de entidades espirituais que não podem ser
alcançadas mediante os sentidos, senão por meio de algumas técnicas (por isso se fala
paralelamente de esoterismo) devidamente exercitadas, com as quais se pode exercer
domínio sobre a realidade. Segundo veremos, tais seres ou entidades são os espíritos
imundos, mais comumente conhecidos como “demônios”.
Contudo, importa acrescentar, a realidade é mais complexa do que isso. Em
última análise, para que os ocultistas possam desfrutar de seus poderes, acabam por
ficar na dependência dos superiores hierárquicos: o chefe das seitas nas quais entram e
que, em suma, é o próprio Diabo, sendo que este exige um preço bem alto em troca
dos serviços que presta. Evidentemente, os ocultistas recusam-se a admitir isso e, ao
mesmo tempo, odeiam o cristianismo, embora os seres a que recorrem e aos quais
estão vinculados, que são os demônios, não procedam de Deus, mas do inimigo do
Criador, isto é, de Satanás.

O satanismo
O satanismo é a prática do culto a Satanás. Contudo, será que os satanistas e o
satanismo realmente existem, ou somente povoam a imaginação dos diretores de
cinema particularmente fantasiosos? É indubitável que existem! Para sermos mais
exatos, satanista é o indivíduo que explicitamente resolve entregar-se ao Diabo, isto
é, a ele consagrar-se, mediante a prática de um rito, entrando numa seita. Trata-se de
casos efetivamente muito raros: por isso, fazemos menção a milhares, não a milhões
de pessoas... São proporcionalmente poucos, mas extremamente prejudiciais às almas.
Trata-se dos que, levando uma vida de pecado e exclusivamente voltados para si,
seguem ao pé da letra os ensinamentos do príncipe das trevas.
Geralmente, podemos distinguir entre duas correntes: satanismo pessoal (ou
ocultista) e satanismo impessoal (ou racionalista). O primeiro caso admite a natureza
pessoal de Satanás, que é invocado pelos seguidores e adorado e honrado como um
deus. O segundo caso não crê na natureza pessoal — isto é, individual, na acepção
metafísica — de Satanás; entretanto, identificam-no mais propriamente como uma
energia cósmica, a qual estaria subjacente a cada um de nós e ao mundo inteiro, que
irromperia mediante a execução das perversões mais absurdas e horripilantes, que
devem sempre vir associadas a ritos esotéricos.
O que pretendem os satanistas? Promover o crescimento dessa espécie ou gênero
de devoção difundindo a teoria e a prática dos três princípios que são a base do
satanismo: “você pode fazer tudo que desejar”, “ninguém tem direito de obrigá-lo a
fazer nada”, “você é o deus de si mesmo”. O primeiro princípio tem como finalidade
proporcionar inteira liberdade ao adepto em relação a tudo o que deseja fazer; é a
filosofia do viver uma liberdade sem freios, sem limites. O segundo princípio
desvincula o homem do conceito de autoridade; graças a isso, a pessoa se acha no
direito de não mais obedecer a ninguém, tanto no que se refere aos pais, à Igreja, ao
Estado ou a qualquer outro detentor de autoridade, recusando-se a admitir a noção de
bem comum, em qualquer esfera da vida. O terceiro princípio renega todas as
verdades que provém diretamente de Deus: o Paraíso, o Inferno, o Purgatório, o
Juízo, os Dez Mandamentos, os preceitos da Igreja, Maria Santíssima...
Trata-se de princípios que, à primeira vista, têm um ar sedutor, sobretudo para os
mais jovens. Com efeito, são estes mais propensos a crer na ilusão de que a vida seria
apenas um belo passeio num país dos sonhos, onde tudo é permitido, sem contenção
de qualquer natureza, onde o “eu” de cada um, na busca de uma fruição ilimitada,
desconhece quaisquer barreiras. Por isso, à maneira de conselho penoso que indico
aos pais, estou convencido de que, para evitar que os filhos se deixem fascinar por
essa perspectiva teórica e prática de vida tão destrutiva, é indispensável que os
genitores saibam educá-los desde cedo, orientando-os para a vida de fé, mediante a
oração, a Missa, a participação em algum grupo de oração ou movimento católico.
Importa sobremaneira levá-los a adquirir um senso de Deus e a ter consciência da
existência do pecado e do Diabo, um espírito tentador que deseja conduzir-nos ao
afastamento de Deus e, portanto, à morte. Agindo assim, quando os filhos crescerem,
provavelmente terão criado mecanismos de autodefesa que os impeça de serem
fisgados pelas seitas e práticas satânicas. Estou certo de que se trata de uma forma de
educação trabalhosa; todavia, procuro sempre frisar que, nos dias atuais, os jovens
estão mais expostos a esses perigos pela ausência quase completa dos ideais bons e
belos. Quando a fé desaparece, as pessoas entregam-se em massa às superstições e ao
ocultismo.
Retomemos o assunto dos satanistas. Quando fazemos referência aos cristãos
batizados, comumente utilizamos a expressão “filho de Deus”. Em face disso, cabe
perguntar: podemos denominar os satanistas de “filhos de Satanás”? No tocante a
estes, não é concebível tal epíteto. De fato, Satanás não deseja filhos, nem mesmo
irmãos ou amigos. Quer apenas escravos, cuja fidelidade arrebanha, prometendo-lhes
um prazer ilimitado — e nisso reside a grande mentira — graças a uma liberdade
desregrada, base do próprio satanismo.

A consagração a Satanás
Como uma pessoa se torna satanista? Por meio de um ritual de consagração a
Satanás, mediante o qual o indivíduo a ele se entrega de corpo e alma, solicitando ser
acolhido em suas fileiras e, concretamente, entrando em uma seita. Habitualmente
esse pacto é escrito com sangue, mais ou menos nos seguintes termos: “Satanás, de
agora em diante a ti pertenço, na vida e na morte e depois desta. Recebe-me como teu
servidor. Ofereço-te meu corpo e minha alma. Farei tudo o que desejares e mandares.
Em troca, dá-me prazeres, êxito, prazer sexual, riqueza.” Comumente, a consagração
é realizada durante um rito coletivo, muitas vezes durante uma missa negra, quando a
pessoa é iniciada na seita e nas práticas do satanismo.
O pacto de sangue pode ser feito individualmente. Não é diferente do que se faz
em relação aos votos religiosos: existem os votos públicos, votos oficiais formulados
diante do povo de Deus, que comumente se realizam durante uma celebração
comunitária; e os votos particulares ou privados, que cada qual pode fazer
individualmente, e em segredo, diante de Deus.
No tocante ao satanismo, em um ou outro caso, trata-se de uma verdadeira e
própria entrega da alma a Satanás o qual mantém a trágica promessa, embora jamais
conceda a felicidade prometida. Em troca desse pacto, recebem-se apenas
inumeráveis sofrimentos. Em uma palavra, a quem se consagra ao Diabo, o que este
assegura ao infeliz é um verdadeiro inferno nessa vida e um inferno eterno na outra.
A minha experiência pessoal dá conta de que tais pessoas jamais comunicam
serenidade, e deixam por onde passam um sulco de dor, solidão e morte.
A difusão do satanismo não se faz apenas de indivíduo a indivíduo. Entre os
jovens circulam muitos livros, opúsculos ou, ainda mais comumente, os sites da
internet que ensinam fórmulas de consagração ao príncipe das trevas. Trata-se de
uma prática perigosíssima — feita seriamente ou por brincadeira, sozinho ou em
grupo —, porque pode trazer consequências muito graves. Isso pode acontecer bem
mais tarde, estando, por exemplo, a pessoa casada e vivendo ao lado da esposa ou do
marido e dos filhos, com um bom trabalho, quando vê-se às voltas com uma pesada
possessão diabólica a enfrentar. Por isso, convém refletir sobre as consequências de
tal escolha — em muitos casos irreversível, ou, pelo menos, sendo muito difícil
retomar o caminho de volta. Com efeito, conheço várias pessoas que se
desvencilharam, mas, à custa de um imenso esforço, frequentemente sob a ameaça
dos adeptos do satanismo, seja como for, com muitas sequelas na mente e no corpo,
carregando muitas vezes graves possessões diabólicas e tendo de submeter-se,
durante anos, a exorcismos para ficarem livres. Péssimo negócio, em última análise.
Recentemente, vieram a lume diversos casos bombásticos de homicídio, em cujos
crimes claramente se denotava influência particular de Satanás, talvez até em
consequência de algum pacto contraído com o Maligno. Refiro-me, como exemplo,
ao caso dos três rapazes de Chiavenna que, em junho do ano 2000, assassinaram a
Irmã Maria Laura Mainetti. Baseando-me no que pude ler a respeito, não posso
afirmar que estivessem possuídos por demônios, mas que provavelmente teriam agido
sob uma possante inspiração satânica: o cinismo, a ferocidade, a ausência de freios
inibitórios na violação perpetrada contra a religiosa, tudo isso leva a inferir estarmos
em presença de uma mesma “marca de fábrica”. Imediatamente após o crime, dentre
os assassinos, dois dirigiram-se a uma casa de shows, enquanto o terceiro retomou o
caminho de casa, para limpar a lâmina da faca com a qual assassinaram a freira,
recolocando-a depois no faqueiro. Uma história inacreditável que comprova o risco
no qual incorrem os jovens de hoje.
Quantas são as seitas satânicas existentes hoje em dia na Itália? Relacionam-se
algumas centenas, geralmente constituídas por poucos membros. É difícil fazer um
mapeamento exato, pois agem sempre na sombra.
Concluirei com uma observação importante: para que alguém venha servir ao
Diabo, tornando-se seu seguidor, não é preciso, forçosamente, que tenha aderido ao
satanismo. Muitos há que, mesmo sem se consagrar oficialmente a Satanás, escolhem
como norma de vida os princípios fundamentais do satanismo. E, igualmente, em tais
casos, essas almas correm grande risco.

Os poderes que provêm de Satanás


Quais são os poderes que, juntamente com os indizíveis sofrimentos, Satanás confere
a seus devotos? Existe uma lista interminável. Alguns são claramente de origem
diabólica; outros requerem discernimento.
Uma primeira caracterização dos poderes está na razão direta da “negociação da
venda” da própria alma ao Diabo e da nova identidade assumida pelo satanista, como
resultado da consagração feita: riqueza, prazer sexual ilimitado, poderes que vão além
das forças naturais. De início tudo parece simples e fácil, como se a pessoa tivesse
feito um bom negócio. Trata-se, porém, de uma falsidade enganosa: aos poucos a
pessoa é levada a passar por sofrimentos invisíveis, sinal claro de que o Diabo “lhe
causou prejuízo”, porque o único motivo do negócio feito por ele consiste em tornar
o homem seu escravo e de arruinar-lhe a vida. Dou testemunho dessa dramática
realidade ao relatar, no livro L’ultimo esorcista [O último exorcista], escrito em
conjunto com o jornalista Paolo Rodari,7 o caso da jovem Simona. Ela aceitou a
proposta de consagrar-se ao Diabo em troca de uma brilhante carreira profissional.
Muito depressa a jovem galgou posições em seu trabalho, conquistando dinheiro e
prestígio na escala social — o Diabo manteve a sua promessa. Em contrapartida,
verdadeiramente requisitou a sua alma: a moça passou a cultivar em várias ocasiões
um ódio imenso contra algumas pessoas, de forma tão forte e repentina que, em cada
acesso, trancava-se no banheiro batendo com toda força os punhos e a cabeça contra a
parede, urrando de dor. Arrependeu-se amargamente do pacto feito, e foi preciso que
eu trilhasse com ela um longo percurso para restituir-lhe definitivamente a liberdade.
Contudo, saiu-lhe caro: precisou devolver as “dádivas” que Satanás lhe conseguira;
teve de renunciar à carreira, pedir dispensa do trabalho, recomeçando tudo do zero. A
partir de então, ficou inteiramente livre.
O que dizer desses poderes que os adeptos do satanismo chamam “dádivas”?
Podem estar relacionados com a consagração feita a Satanás, como também a rituais
de magia (malefícios, “amarrações”, sortilégios, encantamentos etc.), feitos pela
própria pessoa ou por terceiros. A título de exemplos, eis alguns: premonição (isto é,
capacidade de prever acontecimentos futuros), clarividência (possibilidade de ver
coisas e pessoas que já morreram, visões e aparições), fenômenos de escrita
espontânea (situação típica de quem se vê “inspirado” a escrever mensagens ditadas
por seres externos), levitação, bilocação, “poltergeist” (movimentação repentina e
inexplicável de objetos). Em outras circunstâncias, a pessoa pode ouvir “vozes” que
sugerem preces ou maldições, ter visões ou ainda sentir-se violentada ou tocada por
entidades espirituais. Alguns desses fenômenos podem ser tidos como de origem
sobrenatural, isto é, proveniente da esfera divina. Até que se prove o contrário, são
bastante suspeitos, por isso, sou levado a incluir esses fenômenos — salvo prova
contrária convincente — no terreno do sobrenatural, isto é, no campo diabólico.
Entretanto, compete sempre à Igreja, com base em critérios de discernimento que
passaram pelo crivo de análise dos séculos, pronunciar-se sobre a eventual
procedência divina de tais fenômenos.
Nesses casos, em primeiro lugar, tenho como hábito recomendar que não se dê
importância a essas vozes, visões, inspirações interiores, bem como renunciar
expressamente a tais poderes, invocando sempre a Virgem como amparo espiritual.
Igualmente aconselho a pessoa a submeter-se ao criterioso discernimento de um
conhecedor da matéria. Em caso de persistência dos fenômenos, pode recorrer aos
exorcismos e às orações de libertação, a fim de verificar se esses “poderes” não
estariam associados, como ocorre amiúde, a um mal de feitiçaria: possessão, vexação,
obsessão, infestação. Digo mais: nunca se imaginar ser um privilegiado, capaz de
fazer uso desses poderes. Isso seria como dizer “sim” a Satanás.
A missa negra, paródia da celebração da Eucaristia
Antigamente falava-se da missa negra, durante a qual era habitual haver a
consagração a Satanás. A missa negra, uma cerimônia litúrgica na qual se adora e se
exalta a Satanás, é uma paródia da Missa católica. Costumava ser celebrada à noite,
porque sob o abrigo das trevas era maior a discrição, e também porque nos horários
noturnos é menor o número de pessoas rezando, circunstância que prejudicaria o
desenrolar do ritual. Durante a celebração, utilizavam-se — mas sempre ao revés,
para manifestar oposição a Deus — as palavras tiradas da liturgia eucarística, assim
como os sinais externos dessa mesma liturgia. Havia sempre um “sacerdote” de
Satanás, oficiante da cerimônia e que trajava uma indumentária blasfema; sobre o
altar expunha-se uma mulher nua, possivelmente virgem, sobre cujo corpo se faziam
gravíssimos atos de profanação da Eucaristia, com hóstias roubadas de alguma igreja,
crucifixos de ponta-cabeça, ao passo que as palavras da consagração eram
pronunciadas ao contrário.
Os participantes costumavam ser membros de uma seita satânica, obrigados ao
segredo por juramento. Jamais se admitiam pessoas estranhas, exceto nos casos em
que se poderia prever que certos indivíduos, seduzidos pelas perversões e poderes
ilusórios que imaginavam obter, fatalmente ingressariam na seita. De modo geral, as
missas eram “celebradas” por pequenos grupos de dez, no máximo 15 “fiéis”. Essa
mulher despida, que exercia suas funções no altar, após a conclusão do rito sacrílego,
era violentada sucessivamente por todos os participantes: em primeiro lugar, por
aquele que exercia a função de “sacerdote”, depois pelos demais. Tal mulher, que
poderia ser aceita livremente ou levada a fazer esse papel contra a sua vontade, além
da violência física a que se submetia, também podia ligar-se a consequências terríveis,
e não raro também à possessão.
Assim como se dá com a Igreja, igualmente, para realizar os rituais satânicos,
existem rubricas “programadas”, que se vinculam a “solenidades” específicas. A mais
importante é o Halloween, que cai na Vigília de Todos os Santos, isto é, de 31 de
outubro ao dia 1° de novembro de cada ano: é considerado o Primeiro Dia do ano
mágico. Importa, neste ponto, realçar o grande perigo que correm os nossos jovens
ao participarem das “festas de Haloween”, realizadas nessa data! A segunda data
escolhida pelos satanistas é a que precede a da celebração do mistério católico da
Apresentação de Jesus no Templo, a 2 de fevereiro. Com efeito, a noite anterior é a
noite de início da Primavera mágica. O verão mágico, a terceira “solenidade”
satânica, é na madrugada de 30 de abril a 1° de maio. Frequentemente, durante o ano,
são escolhidas as noites de lua nova, por serem de uma escuridão bastante densa.
Quem oficia estes ritos é habitualmente uma pessoa consagrada a Satanás. Não é
estabelecido que, necessariamente, deve ser um possesso. Certo, porém, é que
durante estes rituais, conforme foi referido acima, profanam-se hóstias consagradas,
furtadas dos tabernáculos ou escondidas por algum fiel satânico que as recebeu na
Missa católica e não as consumiu.
Aconteceu-me certa vez de exorcizar uma pessoa que furtara às escondidas uma
hóstia consagrada que seria usada numa missa negra. Essa pessoa sempre que podia
furtava hóstias em toda parte, embora já estivesse a caminho de um corajoso processo
de libertação. Muitas vezes, com base no que me dizia, eu verificava que estava
tomada por uma situação de completa inconsciência, achando-se sob o efeito de um
transe típico de alguém possuído.

A magia, grave pecado contra a fé


Chegamos agora ao ponto central de nossa exposição, que é a magia. Não faria
sentido discorrer sobre satanismo e missas negras sem analisar de frente esse assunto.
O Catecismo da Igreja Católica fornece a melhor definição a respeito. No número
2117, podemos ler: “Todas as práticas de magia ou de feitiçaria, pelas quais se
pretende domesticar os poderes ocultos para os pôr ao seu serviço e obter um poder
sobrenatural sobre o próximo — ainda que seja para lhe obter a saúde — são
gravemente contrárias à virtude de religião.” A Igreja condena tais práticas com base
na Revelação e na certeza de que, tanto no espiritismo como no ocultismo, é o Diabo
quem age, embora nunca se mencione nada oficialmente sobre a sua eficácia. Sem
sombra de dúvida, são sempre os exorcistas que o atestam.
A definição de magia nos diz duas coisas. Inicialmente, encontramos a ambição
— por intermédio de malefícios, “trabalhos”, encantamentos, filtros mágicos, rituais,
formas de invocação, alimentos e bebidas enfeitiçadas para que a vítima ingira, esferas
de cristal etc. — de modificar ou prever o curso dos acontecimentos humanos e
naturais, recorrendo a poderes sobrenaturais, isto é, demoníacos. Assim, por
exemplo, conseguir uma namorada (ou namorado) para alguém, conseguir a cura de
uma doença, provocar a morte de alguém, fazer com que um indivíduo adoeça, ou
que seja demitido do trabalho, provocar fenômenos atmosféricos etc. Dito em outros
termos, magia é uma prática utilizada por meio do Diabo para fazer o mal ou para
exercer influência sobre pessoas ou sobre elementos da realidade criada.
Estejamos atentos: tanto os ritos praticados com base naquilo que vulgarmente se
chama de “magia branca”, tida como “inocente” — no sentido de que estaria voltada,
aparentemente, para fins não condenáveis, como no caso da busca de um emprego,
por exemplo —, quanto na denominada “magia vermelha” — que se insere no
âmbito da sexualidade e exerce influência na esfera dos sentimentos —, dirigem-se
aos mesmos entes sobrenaturais utilizados na “magia negra”. Com efeito, em ambos
os casos, o feiticeiro se reporta às forças do Maligno para lograr o resultado desejado.
Não há, portanto, nenhuma diferença entre magia “negra”, “branca” ou “vermelha”.
Basta ver os efeitos: conheci uma moça que procurou um feiticeiro para que
desmanchasse o noivado de um rapaz por quem estava apaixonada, a fim de que este
se casasse com ela. Tudo correu como queria: de fato, o rapaz primeiramente
abandonou a namorada; em seguida, casou-se com a moça que encomendara o
malefício. O casamento, porém, revelou-se um verdadeiro calvário.
O segundo aspecto que decorre da definição do Catecismo consiste em que a
magia é gravemente contrária ao primeiro Mandamento: “Não terás nenhum outro
deus à minha frente” (Êxodo 20,3). Quem recorre a feiticeiros, cartomantes,
ocultistas, milagreiros ou similares, pratica grave pecado de superstição, o que é
contrário à fé. Contudo, que é superstição?
O termo superstição deriva do latim superstitio, o que indica alguma coisa que se
sobrepõe à outra, invertendo o sentido original. Chama-se alguém de supersticioso
quando essa pessoa crê que qualquer coisa pode ser causa de infortúnio (o gato preto
que cruza o nosso caminho, o sal que deixamos derramar, o espelho que se quebra) ou
de sorte (a pata do coelho, a ferradura do cavalo, cruzar os dedos). Em suma, quando
atribuímos a determinados objetos ou gestos um poder baseado numa suposta força
inerente a essas coisas.
Também podem ser consideradas superstições certas formas de oração quando,
embora se refiram a um elemento religioso, sobrepõem uma falsa religião à
verdadeira piedade, atribuindo-se poderes mágicos a objetos ou formas de culto com
aparência exterior cristã. Isso acontece quando se executam práticas e rituais, ou se
pronunciam fórmulas da nossa fé, condicionando a eficácia das mesmas a uma estrita
observância das modalidades, formas e tempos pré-estabelecidos por alguém, para
efeito da eficácia do referido ato. Exemplifiquemos: acreditar que repetindo certo
número de orações, num dia pré-estabelecido (por exemplo, no Dia de Finados, 2 de
novembro), consegue-se a libertação de certo número de almas do Purgatório.
Aqui se acha evidente uma mentalidade mágica, que distorce a piedade
verdadeira, mediante a qual sabemos que somente à misericórdia de Deus devemos
reportar a salvação destas almas, visto que é a Deus que verdadeiramente nos
dirigimos. O conceito de intercessão, que é sempre oportuno, de certo modo fica
esvaziado por essa mentalidade, uma vez que esta, agindo dissimuladamente, concebe
a oração como uma técnica apta para a obtenção de resultados, como que
“obrigando” Deus a conceder o que pedimos. Ao contrário, a piedade verdadeira
reside em apresentar nossa súplica a Deus, em razão de uma necessidade, entregando
tudo às mãos divinas, ciente de que Ele, em Seu livre poder soberano, nos atenderá,
ou, de alguma maneira, nos favorecerá, assim como às pessoas pelas quais rezamos.
A mentalidade à qual me refiro — infelizmente bastante presente hoje em muitas
comunidades cristãs, onde se mesclam, com extrema facilidade, o trato das coisas
sagradas e o das coisas profanas (por exemplo, tocar em uma imagem de Nossa
Senhora com ferradura, para atrair sorte) — é supersticiosa, favorecendo o recurso às
adivinhações, à magia, à bruxaria. Em suma, quem assim age, como diz mais uma vez
o Catecismo no número 2117, pretende “domesticar os poderes ocultos para os pôr ao
seu serviço e obter um poder sobrenatural sobre o próximo — ainda que seja para lhe
obter a saúde”. Além disso, obviamente, para causar dano, prejuízo.
De fato, é grande o número de pessoas que se reportam aos feiticeiros. O nosso
modo ocidental de viver, cheio de fartura e ultratecnocrático, nada fica a dever aos
povos primitivos — que bem conheciam os poderes sobrenaturais —, nem, mais
tarde, às culturas da Idade Média. Muitos indivíduos ainda hoje têm seu foco voltado
para círculos de feitiçaria e para seus praticantes, os feiticeiros.
Cecilia Gatto Trochi, consagrada especialista e querida amiga minha, falecida em
2005, chegou a calcular a existência na Itália de 13 milhões de pessoas que
procurariam feiticeiros com frequência! Um verdadeiro tsunami, em face da diminuta
parcela de exorcistas existentes no país... Dou um só conselho a todos: que caiam em
si, confessem-se, ainda que o episódio tenha ocorrido há muito tempo, e tenham o
firme propósito de não repetir esses desatinos.
Neste ponto, poderia surgir a seguinte pergunta: uma pessoa que viva na graça de
Deus estará automaticamente preservada das consequências dos rituais mágicos?
Embora certamente mais difícil de ser atingida, não é de todo impossível que uma
pessoa sob a graça divina possa ser vítima de um malefício. Tudo depende da livre
disposição divina; logo, Deus pode permitir que um mal transmitido por meio de
bruxaria possa causar prejuízo, mesmo a quem viva em comunhão com Ele.

O exemplo mais comum de feitiço: os malefícios


Malefício é um termo genérico que abrange todas as formas mediante as quais se
prejudica alguém, por intermédio da ação oculta dos demônios, fazendo uso, para tal
efeito, dos mais diversos ritos: feitiços, “amarrações”, pragas, maus-olhados,
macumba, vodu, ritos satânicos, para citar apenas os mais comuns. O objetivo é fazer
o que está descrito acima: dividir, matar, incitar paixão, provocar doença, destruir,
induzir ao suicídio, separar casais, noivos, amigos.
Para a realização de um malefício existem três elementos fundamentais: um
feiticeiro, uma pessoa que o encomenda, e o objeto pelo o qual se executa o rito.
Assim como no caso dos sacramentos, há um sinal visível — por exemplo, o pão e o
vinho na Eucaristia —, e as palavras do sacerdote que in persona Christi, ou seja, em
nome do próprio Cristo, consagra as sagradas espécies, assim também nos malefícios
existem objetos — roupas, fotos, objetos pessoais, alimentos, bebidas — que são
enfeitiçados pelo mago com fórmulas e rituais pronunciados sobre eles, a fim de
produzir efeitos espirituais negativos, os quais são “descarregados” sobre a pessoa
que se objetiva atingir. Os sacramentos, que agem ex opere operato, isto é, pelo
simples fato de serem postos em prática, não produzem os efeitos benéficos da graça
caso o fiel não esteja nas disposições de fé e de acolhimento necessários para obter os
frutos devidos. No tocante à magia, ocorre o contrário: o bruxo deve “conquistar” a
atuação do espírito maligno, convencendo-o ou obrigando-o a prestar esse serviço
com invocações e orações, mas o efeito que se exerce sobre a pessoa (que é alvo do
malefício) independe da disposição concreta desta, embora importe frisar que uma
pessoa que viva na graça de Deus é menos vulnerável. Mencionemos alguns exemplos
concretos.
Há muito tempo atrás realizei o exorcismo num jovem que, muito tempo antes,
após seis anos de noivado, abandonara a pretendente. Algum tempo depois dessa
ruptura, o rapaz reportou dores físicas inesperadas. A esse fato se acrescentou a
dificuldade, que se estendeu por um longo período, de encontrar outra pretendente e
um trabalho. Durante a oração do exorcismo, descobriu-se que a futura sogra não se
conformara com a desfeita do noivado e encomendara um feitiço. Quando o jovem se
deu conta e veio até mim, após alguns exorcismos as dores físicas quase
desapareceram completamente, ainda que não tenha conseguido encontrar uma
namorada e um trabalho.
Outro caso diz respeito a um homem que, na praça central de uma cidadezinha de
província, inaugurara uma loja. Os negócios caminhavam bem; contudo, na mesma
praça, um belo dia, sem que ninguém esperasse, apareceu um concorrente.
Subitamente, ninguém mais pôs os pés em sua loja, mesmo os antigos fregueses.
Nesse caso, comprovei tratar-se de uma espécie de infestação local. Celebrei algumas
Missas em sua loja, e executei pessoalmente bênçãos e exorcismos no local. Aos
poucos, os fregueses voltaram. Como pude perceber que alguma coisa estava errada?
Foi em razão da clara e súbita mudança, estranha demais para ser normal. Numa
situação desse gênero — onde não há causas que possam ser explicadas pela
experiência comum ou pela ciência —, convém desconfiar. E, conforme o caso, para
maior segurança, intervir com uma bênção mais que oportuna.
Já o mau-olhado é um caso à parte, menos frequente, não obstante mais difícil de
caracterizar. Trata-se de lançar um feitiço por meio da força do olhar, tendo como
objetivo “fazer passar” a influência negativa dessa maneira. Sem dúvida, não se trata
do caso, comum nas tradições populares, de uma pessoa que atrai azar, ou de alguém
que, como se diz, tem “olho gordo”. De fato, trata-se de um verdadeiro e
característico ritual, embora seja tão difícil identificar essa ocorrência; efetivamente,
jamais me deparei com uma situação indiscutivelmente vinculada a essa prática
específica.
Como alguém pode perceber que foi vítima de um feitiço? Mesmo sendo difícil
admitir essa hipótese, não é de excluir, em princípio, que uma pessoa possa ser
atingida por um feitiço ao longo da vida sem jamais se ter dado conta. É importante
assinalar, em primeiro lugar, que os feitiços nem sempre alcançam seus objetivos,
quer porque a pessoa está bem protegida pela graça na vida, quer porque Deus não o
permite, quer por imperícia do feiticeiro, quer ainda porque o Diabo, pai da mentira,
é capaz de enganar seus próprios seguidores.
Em alguns casos, porém, é perceptível por meio de sinais. Tais resultados que se
manifestam serão objeto de análise quando discorrermos sobre os males espirituais
específicos: possessão diabólica, vexações físicas e psicológicas, obsessões diabólicas,
infestações localizadas. Isso pode ocorrer após um longo espaço de tempo. Eis alguns
exemplos.
Presenciei casos de pessoas que ignoravam terem sido vítimas de feitiços e que,
em razão de circunstâncias, por assim dizer, fortuitas, participaram de uma oração de
libertação e cura com um grupo da Renovação Carismática Católica. Em tal ocasião,
inesperadamente, começaram a sentir-se mal, passaram a gritar, praguejar.
Comportamentos absurdos, impensáveis nesse contexto. Foi-lhes proveitoso terem
descoberto o feitiço, uma vez que começaram de imediato a promover uma mudança
de vida; deram início a uma séria caminhada nas vias da fé — o que é sempre
imprescindível nestes casos —, tomando parte nos encontros de oração e procurando
fazer com que se rezassem exorcismos por elas.
Outra questão de interesse consiste na tentativa de descobrir quando se operou o
feitiço. É uma pergunta pertinente, mas que nem sempre permite uma resposta
objetiva. Pode ter sido no seio materno, antes mesmo de a vítima nascer; outras vezes
durante a infância; ou no decorrer da juventude.
A esse propósito, relembro o feitiço feito a uma moça bem jovem. “Você não se
casará”, era essa a sentença. Tratava-se de uma formosa moça, boa pessoa, gozando
de excelente saúde, muito apresentável. Num certo momento, quando já não era tão
nova, seu namoro foi desmanchado pelos motivos mais estranhos.
Outro caso de feitiço que acompanhei longamente é o de uma moça que foi
abandonada pelo futuro cônjuge no próprio dia do casamento. Tudo já estava
providenciado: a casa onde morar, a igreja onde se realizaria o casamento, as alianças,
convidados, local do bufê... Justamente no fatídico dia, ele não compareceu. Havia
sido feito um feitiço contra aquela união conjugal. Entretanto, há casos em que os
rituais surtem efeito mais tarde, na idade madura ou quando a vítima já está idosa.
É importante lembrar que um feitiço pode ser ativado, por desejo da pessoa que o
fez ou de quem encomenda o trabalho, para ter eficácia numa fase posterior, por
exemplo, na ocasião do Batismo ou do Matrimônio. Numa situação dessa natureza, o
distúrbio — não raro, uma possessão diabólica — passa a ser “inerente” a partir
desse dia. No caso do Batismo de uma criança, é difícil fixar com segurança o
momento exato, uma vez que ela não está em condições de descrever os distúrbios
que a acometem. De modo geral, os pais é que os percebem, mais tarde, quando a
criança já está em condições de descrever e relatar o seu mal-estar.
É sempre importante discernir quando e onde teve início o mal, e procurar
conhecer as pessoas que possam ter encomendado o feitiço. Trata-se, às vezes, de um
relato, ainda que distante no tempo, caracterizado pela perfídia, ódio, antipatia para
com a vítima. Convém igualmente saber que os feitiços, muitas vezes, originam-se da
preparação de comidas e bebidas enfeitiçadas, que em seguida são consumidas pela
vítima. Obviamente, é muito difícil evitar semelhante método de “envenenamento”
espiritual.
O bruxo ou a bruxa, isto é, quem faz o feitiço, será sempre, forçosamente, um
possesso? Acredito que sim, ainda que essa pessoa nunca venha a perceber, talvez
porque nem mesmo acredite. Bruxos e feiticeiros são pessoas que se dão conta de
possuir poderes especiais — o que lhes proporciona imenso prazer —, e disso se
utilizam para causar sofrimento ao próximo, deleitando-se nisso. Na maior parte das
vezes, para tirar alguma vantagem: quase nunca agem de forma desinteressada.
Muitas vezes, quem tem esses poderes será alvo também de feitiços. Sendo assim, ao
praticarem a magia, nada mais fazem senão agravar o próprio estado.
Em contrapartida, a oração pode exercer um efeito contrário ao feitiço. Quando
feita com fé e amor, atinge o objetivo, isto é, o coração de Deus. Tenhamos em mente
que será Deus quem disporá as coisas segundo um projeto — do qual, com
frequência, procuramos escapar, já que pode exigir um percurso de sofrimento —
cujo fim sempre levará a um bem maior, ou seja, à vida eterna. Toda oração feita com
essa intenção é eficaz. Por sua vez, o Senhor, na Sua infinita bondade, concede-nos
colaborar com essa graça, a qual só pode ser fruto da oração.

Magos, cartomantes e bruxos


Não se pode falar de magia sem falar dos magos. Eles são habilíssimos para criar um
elo com as pessoas que a eles se dirigem, seja por causa de um estado de frustração,
seja por uma vicissitude pessoal, aproveitando-se da atitude supersticiosa de muitas
delas, das quais há pouco falamos. Recebem os clientes em “consultórios” à meia-luz
adaptados para a ocasião, com várias imagens de Nossa Senhora, santos, velas,
incenso, e tudo o mais que induz a criar uma atmosfera mágico-esotérica, apropriada
para sugestionar os ingênuos aventureiros.
Não resta dúvida de que muitos são charlatães, falsos adivinhos e falsos
feiticeiros. Talvez, a bem da verdade, constituam a maior parte. Fazem propaganda
na TV, revistas e, sobretudo hoje, na internet. São trapaceiros, e costumam arrecadar
dinheiro dos espíritos crédulos que a eles se dirigem, buscando a solução de
problemas. Os falsos feiticeiros executam os seus rituais, sem obter, contudo, nenhum
resultado evidente. Pode ocorrer, por exemplo, que forneçam um talismã (a alto
custo, obviamente) para “proteger” o cliente de algo e como que para obrigá-lo a
voltar meses depois para “recarregar” as energias, escamoteando-o sem muita
dificuldade, conseguindo, desse modo, fidelizá-los. Talvez entreguem um saquinho
com terra e areia colhidos num cemitério, “temperados” com ossos de mortos e
sangue oriundo de menstruação, e por aí afora, sem resolver coisa nenhuma.
Todavia, ao lado destes, existem verdadeiros feiticeiros, verdadeiros bruxos,
também travestidos de “videntes” que, como autêntica e própria escolha de vida,
praticam o ocultismo, o espiritismo e o satanismo. Forçosamente uma minoria, mas
extremamente eficaz. Tais pessoas, mediante o exercício de seus ritos, alcançam
verdadeiramente aquilo que desejam, isto é, que a ação de Satanás prejudique as
infelizes vítimas: doenças, demissão do trabalho, rompimento do casamento ou do
noivado (ou casamento e noivado forçados), fracasso nos negócios, mal-estar físico e
psicológico etc. Certo é que recorrem a forças ocultas, utilizando-as a seu serviço.
São idólatras, adoradores de falsos deuses, no intuito de granjear vantagem pessoal.
São apóstatas, pois favorecem a ação demoníaca. Este, já derrotado pela Ressurreição
de Cristo, cujos efeitos estão presentes na Igreja, continua operante no mundo, em
razão da pérfida ação dos que executam esses serviços.
O crescimento do número de pessoas possuídas, assim como dos distúrbios
espirituais e mentais, tudo isso me faz crer que a maldade e a superstição de quem
procura essas pessoas — bem como, de quem, sozinho ou em grupo, talvez por
divertimento, entrega-se ao ocultismo, tais como os que realizam as atrativas práticas
espíritas —, em linhas gerais, encontra-se na proporção do esmorecimento
generalizado da fé, junto à disseminação de uma cultura favorável à magia. A meu
ver, séries televisivas e filmes de magia produzem efeito devastador ao incutirem, na
mente dos jovens e até dos muito jovens, uma mentalidade de índole mágica. Com
efeito, que outras consequências poderíamos esperar de uma propaganda que divulga
o conceito de que, com um golpe de varinha mágica, é possível modificar a realidade?
Acerca disso, cumpre acrescentar: para tornar-se feiticeiro, existe uma espécie de
“iniciação”, ou seja, autênticos e específicos cursos que introduzem o aprendiz nessa
obscura especialidade. Não é de um momento para outro que se aprende a recitar
fórmulas, executar ritos ou utilizar instrumentos de “cura” ou de “previsão”, tais
como movimento do pêndulo, leitura da palma da mão, radiestesia e tarô. Considero
que as etapas de iniciação variam muito entre si e, já que nos ocupamos de ocultistas,
nem sempre todos os fatos aparecem à luz do dia. Fala-se do “livro do comando”,
texto de magia negra de extrema antiguidade, acessível a poucos eleitos, transmitido
de geração em geração por alguns escolhidos, que comunicam essas fórmulas mágicas
de imenso poder.
Os feiticeiros trabalham, sobretudo, à noite. Após haver oferecido autênticos e
específicos rituais de adoração a Satanás, atuam sobre fotografias, bonecos de cera ou
peças de roupa, bem como sobre quaisquer outros objetos pertencentes à pessoa que
se deseja atingir, e transferem para ela, em carne e osso, os efeitos espiritualmente
negativos alcançados pela prática ritual feita sobre tais objetos.
Convém esclarecer que as consequências do oculto — possessões, obsessões,
maus-olhados, poderes “estranhos” e coisas similares —, uma vez que são causados
pela influência de Satanás e postos em ação pelos feiticeiros, não poderão,
obviamente, ser destruídos pelos mesmos feiticeiros. Ao contrário, a intervenção
deles somente agrava as coisas. Esses se orgulham, não raro, de também serem
exorcistas, contudo, o que denominamos “poderes” de libertação dos males de
feitiçaria são apenas desdobramentos da ação de Satanás. Ao fim, encontramo-nos
sempre em situação pior do que antes com o acréscimo do vínculo pessoal e espiritual
com o feiticeiro. É preciso desconfiar sempre quando um feiticeiro vangloria-se de
tais poderes. Não se expulsa demônios com demônios, mas somente com oração. E
muita oração. Nestes casos, é necessário recorrer a um sacerdote ou a um exorcista ou
a um grupo de oração.
Por fim, a última pergunta que frequentemente me fazem: os feiticeiros podem
converter-se? Estes — a par com os exorcistas, embora, é claro, numa vertente
diametralmente oposta — tocam com a ponta dos dedos no mundo do invisível.
Quando um autêntico feiticeiro “vende-se” a Satanás, já não raciocina de um modo
independente deste, nem habitualmente tem a força de libertar-se do mesmo. Por esse
motivo, creio ser difícil que se convertam a Deus, ainda que, teoricamente falando,
não seja impossível. Certo é que Deus também procurará redimi-los, assim como faz
com todos os seus filhos, até no leito de morte.
Um exorcista relatou-me o caso de uma feiticeira que, estando internada, em
agonia por muitas horas, não conseguia alívio, em meio a grandes dores e
sofrimentos. Por sua vez, o exorcista, que por acaso se achava no hospital onde a
mulher era atendida, fez um exorcismo sobre ela, ao final do qual ela expirou.
Esperamos que tenha morrido reconciliada com Deus.

O espiritismo
O espiritismo ou necromancia (do grego necrós, morto e manzia, adivinhação) —
atividade comumente praticada pelas culturas ditas tradicionais, sobretudo africanas e
sul-americanas e muito difundidas no Ocidente, a partir de meados do século XIX —
é a invocação dos mortos por meio de um médium. Este, por sua vez, é uma espécie
de “sacerdote” do espiritismo. Atua como um “canal” que se comunica com o mundo
dos espíritos, a fim de captar coisas desconhecidas ou fazer conhecer o destino dos
“entes queridos” já mortos. Há muitos que, realmente, tendo falecido um ente
querido, ou movidos pelo desejo desenfreado de conhecer o futuro, quiçá tomados
pela desesperança e certamente não iluminados pela fé cristã, voltam-se para os
sensitivos (outro nome pelo qual se denominam os médiuns), trazendo consequências
frequentemente nocivas sobre as respectivas existências.
Como se opera a invocação dos mortos? Mediante várias técnicas que, embora
provenientes de tradições muito antigas — aliás, não diversamente do que se refere à
magia —, foram desenvolvidas e aperfeiçoadas pelos movimentos espíritas, estudadas
e praticadas a fundo desde meados do ano 1800, considerando-as como a base de uma
religião universal que, conduzida pelos espíritos, inauguraria a era da superação das
religiões tradicionais, fazendo convergir a humanidade para uma nova época de
confraternização.8 Um projeto cultural e político que se assemelha ou praticamente
coincide com o da maçonaria, a cujas fileiras, digamos superficialmente, muitos
membros do espiritismo filiavam-se. Dado que, em sua maior parte, são de fácil
assimilação, tais técnicas constituem uma isca ideal para os curiosos que por aí
queiram aventurar-se.
A mais corrente é a das mesinhas em volta das quais se sentam as pessoas, dando-
se as mãos ou apoiando-se sobre a superfície da mesa, de tal modo que os dedos
mínimos toquem na madeira, a fim de manter um contato físico “em cadeia”. Quando
a invocação do espírito é bem-sucedida, a mesinha começa a dar sinais de movimento,
emitindo sons de batidas que obedecem a um código convencional (por exemplo, uma
só batida significa “sim” e duas, “não”). O espírito invocado pode falar por meio do
médium, o qual, estando em transe, “empresta” a sua voz a ele.
Há outros meios: o teste do pêndulo, a escrita automática (mediante a qual o
médium, sob o influxo do transe, escreve o que lhe é ditado pelo espírito) e o
tabuleiro ouija. Sobre este, um pires ou uma moeda se movem, passando de uma letra
a outra do alfabeto para formar palavras e, desse modo, exprimir conceitos que os
espíritos pretendem “revelar”.
Naturalmente, assim como no caso da magia, há muitos charlatões que esperam
lucrar financeiramente espoliando os que sofrem. Entretanto, existem médiuns que
“funcionam”, isto é, que estão realmente em condições de pôr-se em contato com tais
entes espirituais. Não é incomum que, por meio destes, as supostas “almas dos
mortos” revelem coisas desconhecidas ao próprio médium; percebendo isso, uma vez
convencido da credibilidade da “voz”, o cliente facilmente tende a crer em todas as
outras “revelações” nas sessões consecutivas.
Frequentemente, as vozes comunicam coisas boas, mensagens edificantes, sendo
difícil não dar atenção. Em suma, o espiritismo, num caso assim, parece funcionar!
Por essa razão é que atrai muitos. Com efeito, a circunstância de que se possa obter
informações acerca de fatos efetivamente ocorridos e ignorados pelo médium induz a
imputar a tais comunicações uma causa racional extrínseca, isto é, relacionada aos
espíritos.
Entretanto, cabe perguntar: qual o ponto específico que analisamos aqui?
Conforme uma corrente importante do espiritismo, que é a de Allan Kardec, essas
seriam almas que, achando-se num estado passageiro entre uma reencarnação e outra,
com vistas a uma progressiva elevação espiritual (por aí se vê a natureza sincrética de
tais formas religiosas, inteiramente opostas à doutrina cristã), estariam “vagando”
pelo espaço, porque desencarnadas e, portanto, aptas a falar. Distinguem-se, nessa
ordem de ideias, espíritos bons de outros menos positivos, mas isso dependeria do
respectivo grau de aperfeiçoamento.
Outra corrente, por exemplo, como os cultos tradicionais afro-americanos (dos
quais o candomblé brasileiro é o mais conhecido), afirma que esses supostos espíritos
“vagantes” fariam parte da divindade da natureza, a qual, durante os rituais,
dominaria o médium que, sob o influxo da possessão, voltado em direção a este ou
àquele, pronunciaria os oráculos ou as denominadas bênçãos ou maldições.
No Ocidente espalhou-se também o denominado channeling, forma de
espiritismo que se insere na nebulosa da Nova Era e que pretende fazer com que
entremos em contato por meio de um “canal” — que pode ser qualquer pessoa,
enquanto componente da Única Mente universal — com as entidades invisíveis da
natureza: anjos, gnomos, duendes, elfos, fadas, espíritos da natureza, espíritos do
fogo e da água, o grande espírito da Terra. Fenômeno claro do neopaganismo, a
Nova Era vem conquistando espaços sempre mais vastos em muitas almas
desorientadas ultimamente.
Esboçamos aqui um simples quadro panorâmico desse amplo fenômeno,
delineado somente em algumas formas particulares, no que concerne à
parapsicologia, às projeções do inconsciente e a outros fenômenos de caráter
psicológico, sem uma correspondência efetiva com a realidade. Outra é a minha
concepção: tais espíritos invocados, a não ser que se trate de grosseira fraude, não
passam de demônios.
Primeiramente, vejamos o que diz a Igreja a respeito. Tomando como base
muitas passagens do Antigo Testamento — quando se proibia aos israelitas a
necromancia, ou seja, a invocação dos mortos, as adivinhações e os sortilégios (cf., p.
ex., Deuteronômio 18,10-12; Levítico 19,31; 20,6) enquanto práticas supersticiosas
que afastam o coração da fé em Javé, Deus que tudo provê —, o Catecismo (e,
igualmente, muitos pronunciamentos do Magistério, ao longo dos séculos), no
número 2116, diz: “Todas as formas de adivinhação devem ser rejeitadas: recurso a
Satanás ou aos demônios, evocação dos mortos ou outras práticas supostamente
‘reveladoras’ do futuro. A consulta dos horóscopos, a astrologia, a quiromancia, a
interpretação de presságios e de sortes, os fenômenos de vidência, o recurso aos
‘médiuns’, tudo isso encerra uma vontade de dominar o tempo, a história e,
finalmente, os homens, ao mesmo tempo que é um desejo de conluio com os poderes
ocultos. Todas essas práticas estão em contradição com a honra e o respeito,
penetrados de temor amoroso, que devemos a Deus e só a Ele.”
À luz do exposto, e de minha longa atividade como exorcista, afirmo como
inteiramente certo que as supostas almas dos mortos invocadas (as que acima
denominei “vagantes”), na realidade são espíritos imundos despertados, chamados,
ainda que “forçados” pelas invocações, a se manifestar. Considero que promover ou
simplesmente presenciar tais práticas, ainda que só ocasionalmente, além de ser
pecado mortal, pode provocar prejuízos concretos e graves ao espírito. A minha
agenda de trabalho está repleta de apontamentos colhidos junto a pessoas que se
dirigiram aos médiuns. Contam-me estes que, após tais experiências, mesmo que
muito tempo depois, passaram por um recrudescer de mal-estar: da dificuldade de
dormir devido à percepção de “presenças” estranhas nos ambientes em que vivem; da
dificuldade de se concentrar nos estudos a um desejo crescente de suicidar-se; de a um
ódio inexplicável em relação a outros a pensamentos obsessivos repentinos. A lista
seria bem longa, abrangendo, além do risco de contrair uma grave enfermidade
espiritual, a possessão diabólica. Parecem-me tão frequentes as correlações entre a
causa e os diagnósticos, que seria muito difícil deixar de concluir que o espiritismo
tem vinculação com o Diabo. Também o testemunho de muitos colegas exorcistas
leva-me a confirmar o que já asseverei, ou seja, que esses males somente podem ser
curados por intermédio da “medicina da alma” — portanto, recorrendo-se a
exorcismos, bênçãos, orações, sacramentos.
Há muitos casos de jovens — reporto-me aqui propriamente ao índice de 25%
dos jovens que, pelas estatísticas, ao menos uma vez na vida envolvem-se nessas
práticas — que, seja por diversão, seja por distração, expõem-se às seduções do
espiritismo.
É interessante assinalar o fato de que, numa época secularizada e cientificista
como a nossa, na qual só se admite acreditar no que é provado experimentalmente,
haja muitos indivíduos mergulhados nesse gênero de experiências, que tão fortemente
tangem o mundo do invisível. Numa primeira análise, a resposta é simples: onde é
silenciada a fé em Deus, cresce a idolatria, a irracionalidade. De um ou de outro
modo, o homem deve encontrar respostas a suas indagações sobre o sentido das
coisas. Contudo, há outra resposta que me parece ir mais a fundo: uma sociedade
altamente tecnológica acostuma os indivíduos a obter tudo quanto queiram por meio
de um clique no computador, isto é, servindo-se da técnica. Ora, isso vem a calhar no
sentido de fornecer respostas a perguntas mais intrincadas: basta ter o domínio de
uma técnica apropriada e, pronto: o espírito se materializa...
Para maior clareza, acrescento uma palavra quanto aos “sensitivos” e aos
“videntes”. Como observei há pouco, podem ser charlatães, ou pior ainda, feiticeiros.
Entretanto, existem outros que, inspirados pelo bem, “sentem” ou “veem” a realidade
espiritual. Supondo que ajam de boa fé, não busquem glórias nem vantagens e que,
uma vez postos à prova, mereçam ser tomados em consideração, podem ser muito
úteis. Dentre estes, conheço vários, aos quais, em caso de necessidade, recorro.
Analisando a foto de uma pessoa, o conteúdo de uma carta ou um objeto de qualquer
natureza, conseguem remontar com certa precisão a existência do feitiço e a origem
deste, permitindo assim caracterizar e destruir a causa material em questão — isto é,
o objeto que se prestou para a prática do feitiço ou para a técnica utilizada. Desse
modo, permitem identificar com maior facilidade o “remédio” espiritual mais
apropriado a cada caso. Não poucas vezes, graças a tais indicações, pude identificar a
parte do corpo que deveria ungir, porque afetada diretamente pelo feitiço, ou ainda
descobrir há quanto tempo a pessoa sofria as consequências do ritual praticado.
O rock satânico, exaltação coletiva que destrói a alma
Uma das formas mais difundidas para veicular os princípios do satanismo é, sem
sombra de dúvida, o rock satânico. Esse gênero reaviva o satanismo por meio da
música, que, de si, é uma forma corriqueira e louvável de entretenimento. De fato,
esses sons malignos representam grande e real perigo, sobretudo para os jovens que
em grande número são atraídos por tais espetáculos, sendo, em certo sentido, os mais
sujeitos a isso. Nas mensagens transmitidas por meio dos sons, encontra-se uma
combinação das três regras do satanismo — “faça tudo que quiser”, “ninguém tem o
direito de lhe dar ordens”, “você é seu próprio deus” —, em associação com o
espetáculo e o frenesi coletivo, concebidos de caso pensado para um estádio, uma sala
de exibições ou discoteca. Trata-se de uma espécie de ambientação cultural que hoje
em dia entra muito em consonância com as aspirações dos jovens.
O rock satânico é uma música contagiosa, pois comunica um falso sentido de
alegria, plena posse de si, inteira e ilimitada liberdade em relação aos pais,
professores, educadores. Se, de um lado, é verdade que seria um exagero ver o Diabo
“até debaixo da cama”, e que, para alguns, essa música constitui somente uma paixão
(embora doentia), não creio ser menos verdade que, na maioria dos casos, os adeptos
mais convictos desse gênero musical pertençam às seitas satânicas. A todos, pois,
recomendo, de todos os modos, não permitir que o seu espírito fique intoxicado por
esses sons.
Correrá o risco de possessão diabólica quem ouve essa música? Nunca me foi
dado atestar com absoluta segurança que tenha havido algum caso de possessão
diabólica causada diretamente pelo rock satânico. Entretanto, parecem-me
relacionados com isso outros distúrbios — aliás, não menos consternadores —, tais
como as vexações e obsessões diabólicas que suscitam propensão obsessiva ao
suicídio ou homicídio. Quanto a este último, com efeito, é importante recordar que o
rock satânico transmite mensagens — retiradas dos manuais de missa negra, do
ocultismo — em que estão presentes a invocação de Satanás. Certos trechos dessas
músicas contêm verdadeiras formas de apologias e de adoração ao príncipe das trevas,
talvez expressas em poucas palavras, por vezes pronunciadas ao contrário ou
mediante flashes (projeções instantâneas feitas numa tela) que induzem, de modo
subliminar, a seguir os conselhos dos que apregoam a violência, o suicídio, as
perversões sexuais, a revolta contra o Estado, contra a ordem estabelecida, contra a
Igreja, contra Deus.
Trata-se de um condicionamento que vai além dos sentidos externos — visão e
audição — e atinge diretamente o subconsciente, elidindo, durante esse meio tempo,
os freios inibitórios. A repetição obsessiva dessas mensagens altera literalmente o
modo de pensar e conceber a vida, contaminando a alma e o espírito. E provoca a
ruína da vida.

A blasfêmia, caso de “contaminação ambiental”


Em determinados ambientes e regiões da Itália — isso é comumente conhecido —, as
pessoas, com frequência jovens e até mesmo crianças, costumam blasfemar.
Entretanto, pergunta-se: tais expressões que, na maioria das vezes, parecem mais
interjeições do que reais ofensas a Deus e a Nossa Senhora, podem causar alguns
“danos colaterais”, em termos de males de feitiçaria? Digamos logo que o
blasfemador não está sozinho: também os endemoninhados blasfemam... Muitas
pessoas, talvez a maioria, sequer têm verdadeira consciência das monstruosidades que
proferem ao blasfemar, ofendendo Aquele que os criou, insultando a Mãe daquele que
nos salvou. Constitui isso tudo enorme falta de educação, hábito condenável. Seja
como for, não deixa de ser pecado grave, do qual nós devemos sempre acusar-nos na
confissão.
Sem dúvida, ao Diabo a blasfêmia não causa o menor desagrado. Pessoalmente
me deparei com evidências imediatas de relação causa e efeito entre blasfêmia e
possessão diabólica. Noutros termos, mostrou-se evidente o fato de que pessoas
contraíram uma possessão diabólica ou outra forma de malefício por causa da
blasfêmia. Acredito mesmo, embora não possa afirmar com toda certeza, que a
blasfêmia origina um clima propício para esses fenômenos. Claramente, para além de
tudo, a blasfêmia leva à ruína o clima da casa, do local onde se vive. Tudo o que
fazemos ou dizemos modifica a atmosfera de um ambiente e, de certo modo, serve
para avaliar o nosso modo de agir no que se refere aos vínculos entre as pessoas.
Que devemos então fazer quando ouvimos alguém blasfemar? Recomendo — no
intuito de proteger o local ou a família — rezar mentalmente uma jaculatória; por
exemplo, “Jesus, eu te amo”, ou “Jesus, eu te bendigo”. Trata-se de uma forma de
reparação de um pecado e de um eficaz meio de “rebater” o Diabo, que só tem a
ganhar em face de uma blasfêmia.

Filmes de terror, piercings e tatuagens


Que tipo de influência exercem os livros e, sobretudo, filmes de terror sobre a vida
espiritual? Também aqui a resposta é simples: negativa. Quando lemos as
reportagens de uma crônica policial na imprensa, não é fácil perceber onde acaba a
realidade e começa a fantasia. Não excluo que às vezes possa existir um nexo entre
ambas, isto é, uma influência recíproca entre o que acontece na vida e o que a mente
de escritores e cinegrafistas dão à luz. Quem inspira a quem?
No tocante a ver esses filmes, sou inteiramente contrário, e desaconselho os
jovens de assisti-los. Dado que a missão de Satanás é tentar o homem, a visão desse
gênero de filmes — que tendem a banalizar o terror, apresentando como normais
crimes pavorosos e sanguinários ou situações nas quais se infringem tormentos e
grandes pânicos às vitimas, ou ainda quando o protagonista é o próprio Diabo —
pode ter uma influência muito grande sobre o espírito dos mais frágeis, suscitando até
desejos de emulação sádica em alguns. Por que se submeter voluntariamente à
tentação do mal? Sou propenso a dizer o mesmo no que diz respeito a desenhos
animados, histórias em quadrinhos, ou figurinhas para jovens ou crianças com
conteúdo similar.
Até onde me é dado saber, excluo a possibilidade de que assistir a tais filmes possa
ser causa direta de males espirituais extraordinários. Não obstante, de modo indireto,
pode induzir alguns a consagrar-se ao ocultismo. Seja como for, aqueles que
concorrem para realizar e difundir tais filmes prestam grande desserviço à sociedade.
E as tatuagens? E o piercing? Como é sabido, essas práticas estéticas são muito
difundidas entre os jovens, mas não somente entre estes. Estritamente como se dá no
caso do rock satânico, a tatuagem e o piercing podem não ter necessariamente um
objetivo censurável, não cabendo, pois, demonizá-los a priori. Desde que o mundo é
mundo o homem ornamenta o próprio corpo. Sem dúvida, fazê-lo com imagens
indeléveis na pele — assim penso — não é algo que desfigura o corpo, o qual, sendo
criação de Deus, já é belo em si mesmo? Por isso, como sempre, compete verificar
quais as intenções. Com efeito, a simbologia empregada para fazer o desenho no
corpo pode reportar-se, explicita ou implicitamente, a monstros ou a demônios, à
maneira de uma invocação. Por vezes, pode-se recorrer a essa forma de expressão
como sinal de pertença ao Diabo: neste caso, aparece associada a ritos satânicos e a
formas de iniciação. Em outras vezes, mais simplesmente, alguém pode fazê-lo para
chamar a atenção dos amigos. Ainda, em outros casos, a pessoa pode assim agir em
desprezo para com o próprio corpo ou para veicular explícita referência sexual. Sejam
quais forem os motivos, eles jamais favorecem a alma. Em poucos casos, representam
imagens sagradas — nestes casos, são lícitos.

Os objetos pagãos
Cabe dizer uma palavra sobre os denominados objetos pagãos: artesanatos de culturas
pagãs, tais como máscaras ou outros objetos que facilmente se compram em qualquer
esquina. Podem “ocultar” algum influxo maligno? Trata-se de um tema que requer
atenção, mas para o qual não temos resposta a dar. Existe o risco, sim, desde que a
pessoa esteja ciente de que sobre determinado objeto possa ter sido praticado um
ritual mágico, com o objetivo de prejudicar a um futuro possuidor do mesmo. Numa
primeira análise, aconselho a não dramatizar as coisas, sobretudo se a pessoa que o
presenteou com certo objeto procurou fazê-lo com espírito sincero e reto. Contudo,
um pouco de vigilância não faz mal a ninguém.
A essa altura, desejo fazer uma complementação sobre o que foi dito acima a
respeito da magia. Recordando o que já comentei, tem origem antiquíssima,
marcando presença em todas as culturas. A magia consiste em valer-se de forças
sobrenaturais, isto é, demoníacas, para influir sobre os acontecimentos humanos, quer
em detrimento, quer em benefício de outro. Quem, pois, adere a essa prática — do
feiticeiro ao “cliente” — deposita sua confiança no Diabo; por isso é pecado grave.
Há dois gêneros de magia: por “imitação” ou por “contágio”.
A primeira baseia-se na semelhança da forma do objeto sobre o qual se executa o
ritual mágico. É o que ocorre, por exemplo, quando se enfia uma agulha num boneco
com o fim de prejudicar a pessoa ali representada. Neste caso, verifica-se uma espécie
de transferência do objeto para a pessoa.
A segunda — magia de espécie “contagiosa” ou “infectante” — é exercida por
via de contato. Neste caso, o ritual se realiza sobre parte do corpo da pessoa que
desejamos prejudicar — por exemplo, cabelo, unhas ou dentes —, ou então, fazendo-
a ingerir alimentos enfeitiçados. Também pode ser sobre objetos que pertencem ou
pertenceram a essa pessoa: peças do vestuário, roupas brancas, tais como meias,
calças, camisetas ou agasalhos; sobre a mobília da casa, objetos étnicos, por exemplo,
como já mencionamos. Tais objetos, uma vez enfeitiçados, transferem o respectivo
potencial negativo para a pessoa em questão.
Voltemos a tratar dos objetos propriamente ditos. Podem ocultar um efeito
prejudicial? A resposta: sim, “podem”, mas “não necessariamente”. É por conta e
risco de quem aceita comprá-los. Quanto a mim, é certo que não desejo ter esses
pertences comigo, no local onde vivo. Como é possível perceber quando esses objetos
estão enfeitiçados? Eis alguns sinais: súbita aversão às coisas sagradas, distúrbios
localizados, certas “presenças” enigmáticas, odores nauseabundos, barulhos não
naturais, persistência de sintomas físicos desfavoráveis sobre a pessoa, vínculos de
trabalho ou de vida afetiva que inesperada e inexplicavelmente começam a se
deteriorar. No caso dos problemas claramente apresentados, é preciso livrar-se
imediatamente do objeto, providenciando, quando possível, que sejam queimados, ou
jogados na água corrente (mar, rio ou canal).

Os atos dos antepassados exercem influência em nossa vida?


Outro tema que se ouve, por vezes, comentar, sobretudo no âmbito carismático, é o
assunto ligado à chamada “árvore genealógica”. Trata-se de uma questão
controversa. Na opinião de alguns, propagam-se de geração em geração as
consequências da mediunidade da respectiva árvore genealógica; principalmente, dos
graves delitos de ordem moral — por exemplo, homicídios, abortos, suicídios,
práticas de magia — praticados pelos respectivos ascendentes. Idêntico raciocínio
valeria para as boas atitudes, tais como grandes atos de coragem e generosidade de
que deram mostra os ancestrais.
Tenhamos cautela nesta matéria. No que tange aos pecados, não se trata de
nenhuma forma de responsabilidade moral, pois esta é sempre e exclusivamente de
cada pessoa, cabendo a cada um responder diretamente perante Deus; fala-se aqui,
isto sim, das consequências do pecado, isto é, da propensão ou inclinação inata a
reproduzir os mesmos atos pecaminosos de nossos ancestrais. Em síntese, à maneira
de uma cadeia de transmissão por via das gerações que, além dos elementos somáticos
(genéticos) e os caracteres típicos, incluiria também, como nota característica, uma
sensibilidade particular vinculada a pecados particularmente graves ou a vícios
arraigados nos antepassados. Isso constituiria uma espécie de elo condutor de pai para
filho. Em resumo, corresponderia a uma espécie de “mancha” espiritual, e se
transmitiria aos filhos, netos e demais descendentes na sequência da mesma árvore
genealógica. Para libertar-se dessa tendência à transmissão aos descendentes, caberia
a estes renunciar expressamente às faltas morais dos antepassados com um estilo de
vida cristão, associado às orações de libertação que “cortam” tais ligações. Mediante
um caminho de purificação, consegue-se — após ter sido “individualizada” a
tendência pecaminosa, que revelaria, conforme o caso, tendência a uma forma de
comportamento compulsivo — a emenda, isto é, fazer cessar a presença do mal
hereditário. Isso resolveria, em certo sentido, a transmissão de tais “heranças” aos
descendentes.
Essa sugestiva tese foi propagada na Itália pelo livro do psiquiatra inglês Kenneth
McAll, intitulado Fino alle radici [Até as raízes]. Ele sustenta, com bases em casos que
chegaram ao seu conhecimento, que a causa dos males de feitiçaria pode estar
relacionada a questões referentes à hereditariedade. Acerca desse tema, menciona-se a
“Missa de Cura” da árvore genealógica. Esta teria como meta interceder pelos
mortos, que, por causa de seus pecados, ainda se acham privados da visão de Deus,
no Purgatório. No livro de McAll mencionam-se episódios em que, após essas Missas
carismáticas, teriam desaparecido os efeitos negativos sobre os vivos.
À margem do que cada um for levado a pensar sobre o assunto, é sempre
recomendável encomendar Missas para os nossos entes queridos que já faleceram,
mesmo em favor daqueles que jamais conhecemos e que talvez tenham vivido há
séculos. Entretanto, pergunta-se: o que pensam os exorcistas sobre a árvore
genealógica? Não existe uma posição única, cada qual é livre para ter a opinião que
julgar mais adequada com o amadurecimento da própria experiência. De minha parte,
conheci alguns casos em que as pessoas que sofriam de possessão demoníaca tiveram
ascendentes que praticavam magia e bruxaria. Além disso, verifiquei que uma
maldição pode ser transmitida, particularmente quando é o pai ou a mãe que a lança
contra o filho, contra o casamento ou contra os filhos gerados destes.
Por exemplo, acompanhei longamente o caso de um jovem que fora amaldiçoado
pelo pai quando ainda estava no ventre materno. O pai não queria que ele nascesse. E,
depois de crescido, o pai continuou a lançar maldições contra o menino, a tal ponto
que o infeliz passou por muitas desventuras. Por fim, recebeu benefícios espirituais
das bênçãos que eu lhe dei, assim como outros exorcistas, mas tudo isso teve um
alcance restrito. Um caso, ainda mais clamoroso, é de um pai que, conjuntamente
com a esposa, mostrava-se contrário ao casamento da filha com o rapaz que esta
escolhera. No próprio dia do casamento, o genitor amaldiçoou a moça, desejando-
lhes as piores coisas, e estas meticulosamente se realizaram. Somente após anos de
oração, é que a jovem família teve suas dores e sofrimentos mitigados.
As maldições que constituem vaticínios do mal, ou maus presságios, são muito
poderosas. Principalmente quando pronunciadas com verdadeira perfídia e por
aqueles com grau de parentesco mais íntimo com a vítima. No entanto, podem ser
vencidas com as bênçãos: “Bendizei aqueles que vos maldizem, rezai por aqueles que
vos maltratam” (Lucas 6,28), diz Jesus.
Em meu modo de ver, não creio que tais fatos demonstrem essa tese. Até o meu
professor, o Pe. Candido Amantini, demonstra forte ceticismo quanto à
eventualidade de que tendências pecaminosas possam ser propagadas de geração em
geração. Além disso, se, em rigor de análise, admitirmos essa hipótese, não
equivaleria a eximir de responsabilidade a pessoa em relação à própria vida? Na
dúvida, aconselho sempre a fazer alguma forma de “renúncia”, conforme mencionei
há pouco, para romper com qualquer influxo maléfico.
Notas

7 Cf. Gabriele Amorth; Paolo Rodari. L’ultimo esorcista, Piemme, Milano 2012.

8 François-Marie Dermine fala disso de maneira difusa em seu livro Carismatici, sensitivi e medium. I
confini della mentalità magica [Carismáticos, sensitivos e médiuns: os confins da mentalidade mágica],
ESD, Bologna 2010, pp. 56ss. O texto fornece uma ótima base para aprofundar o tema do espiritismo e,
de modo geral, o dos fenômenos paranormais, e também cristãos.
CAPÍTULO 4
A AÇÃO EXTRAORDINÁRIA DE SATANÁS: POSSESSÃO, VEXAÇÃO,
OBSESSÃO E INFESTAÇÃO

A via ordinária da ação diabólica: tentação e pecado


A missão de Satanás é explicada claramente pelo apóstolo São Pedro: “O vosso
inimigo, o Diabo, é como um leão rugindo em torno, procurando a quem devorar” (1
Pedro 5,8). Podemos interpretar a palavra “devorar” como “causar dano”, “levar à
perdição”. Sua missão no mundo consiste em seduzir as almas, conduzir cada homem
e cada mulher pelos péssimos caminhos do pecado. Nessa trágica missão, a via mestra
é o percurso ordinário da tentação. Contra as tentações que visam nos levar ao
pecado, cada um deve combater até o último dia. De fato, o pecado conduz à morte.
Não deve surpreender a minha afirmação de que a via ordinária faz mais vítimas
do que a via extraordinária, sobre a qual falaremos adiante. Por meio da primeira,
todos somos vítimas; por meio da via extraordinária, somente algumas pessoas, além
disso, muitas vezes sem culpa própria e, portanto, sem responsabilidade moral. A
tentação nos assalta todo santo dia. Até Jesus aceitou sujeitar-se a ela durante os
quarenta dias que passou no deserto, após ter sido batizado no Jordão (cf. Mateus
4,1ss), e também depois disso. Tenta-nos Satanás agindo em nossa esfera natural, isto
é, ora levando em conta nossas feridas interiores e a fraquezas de cada um, ora por
meio das ocasiões próximas de pecado que se apresentam a todos.
A tentação é perigosa porque nem sempre é fácil de ser descoberta nos recantos
de nossos pensamentos, palavras, obras e omissões. É preciso ter discernimento, um
olhar e uma inteligência espiritual adestrada para reconhecer o guiso do tentador e
recusar aquilo que nos conduz diretamente ao pecado, aceitando, ao invés, as boas
aspirações que provêm de Deus. Para isso é necessário guardar o nosso coração e
nossos sentidos externos dos espetáculos indecentes. Cada um de nós se torna tudo o
que vê, o que ouve, além do que lê. Discernimento, pois! E escolha de boas amizades.
É preciso também ter uma consciência bem formada, isto é, reta, o que pressupõe
que não exaltemos a nós mesmos, ou, ainda pior, a cultura dominante de livre escolha
entre o bem e o mal, mas que conformemos a nossa vontade à de Deus Criador, a
seus ensinamentos, que foram dados para a nossa felicidade e salvação, e estão
contidos, no mais alto grau, nos Mandamentos.
A perda de sentido do pecado, que caracteriza a nossa época, ajuda Satanás a agir
praticamente sem obstáculos pela via ordinária, uma vez que, induzindo o homem ao
pecado, afasta-o progressivamente do amor de Deus. “Tudo é permitido”, “Que é
que tem?”, “Todo mundo faz...”. Eis as terríveis sugestões para enfraquecer a
consciência dos homens e conduzi-los a uma vida de egoísmo, de falta de perdão, de
fazer tudo por dinheiro, poder e sexo; tudo para seduzir as almas, fazendo-as escravas
do álcool, da droga, da imoralidade que se espraia, a fim de matá-las.
A ação tentadora ordinária do Maligno é exercida, sobretudo, no campo da
inteligência. Tenhamos em mente os tamanhos erros teóricos disseminados nas
consciências para dissolver os princípios da fé, fazendo soar como “modernidade”
novos estilos de vida contrários à moral: coabitação extraconjugal, separação de
casais, divórcio, traições, aborto, casamento gay, eutanásia. Isso sem falar da
corrupção, das guerras, do egoísmo sob as mais variadas formas. A lista é
verdadeiramente longa.
Qual a causa desta situação? Principalmente, a diminuta consciência dos cristãos
na luta contra o poder das trevas. É São Paulo quem nos adverte: “A nossa batalha
não é, de fato, contra a carne e o sangue, mas contra os Principados e as Dominações,
contra os dominadores deste mundo de trevas, contra os espíritos malignos que
andam pelos ares” (Efésios 6,12). O Concílio Vaticano II, por sua vez, descreve a
situação: “Perturbada a ordem de valores e misturado o bem com o mal, os homens e
os grupos consideram apenas o que é seu, esquecendo o dos outros [...] toda a história
humana; começou no princípio do mundo e, segundo a palavra do Senhor, durará até
o último dia. Inserido nesta luta, o homem deve combater constantemente, se quer ser
fiel ao bem; e só com grandes esforços e a ajuda da graça de Deus conseguirá realizar
a sua própria unidade.”9
O martírio de tantos cristãos no Extremo Oriente e no Oriente Médio nos faz
recordar essa dramática realidade.

A ação extraordinária do Diabo

1) A possessão diabólica
Distingue-se a ação diabólica ordinária da extraordinária. Acerca desta, a forma mais
visível e grave, sem dúvida, é a possessão. Em que consiste? É a influência invencível
de um demônio sobre uma pessoa, da qual “toma posse”, no sentido de que dirá e fará
aquilo que quiser. Deve-se observar desde logo que nunca o demônio pode tomar
posse da alma de um homem (a menos que expressamente consinta nisso, porém aqui
tratamos mais propriamente da “venda” da alma ao Diabo), mas somente do corpo.
Além disso, desejo esclarecer que são raros os casos de verdadeira e inequívoca
possessão. Mais frequentes são os casos de vexação, obsessão e infestação, que
analisarei em seguida.
Quando se manifesta a possessão, o possesso entra em transe e perde a
consciência, cedendo lugar à ação do espírito do mal, que faz uso do corpo dessa
pessoa para falar, mover-se, blasfemar, vomitar imprecações, pregos, vidros ou
outros objetos, vez por outra também para manifestar uma força hercúlea. A este
propósito, o Pe. Candido relatou-me o caso de uma moça muito magra e de aparência
franzina, endemoninhada, e que, durante os exorcismos, conseguiu resistir à ação de
quatro homens muito fortes que a amarraram com cintos de couro. Mesmo amarrada,
conseguiu rasgar o cinto, dando muito trabalho até o término do ritual. Também a
mim coube presenciar, há dez anos, o caso de uma mocinha muito frágil — não devia
ter mais de 13 anos —, que estava acompanhada da mãe e de uma amiga desta.
Durante as sessões de exorcismo, o demônio dera-lhe uma força inacreditável.
Empenhamo-nos todos, e necessário se fez recorrer aos meus sete “anjos da guarda”,
que estavam presentes na sessão de exorcismo, para procurar contê-la.
Durante a crise, a manifestação dos fenômenos anormais opera-se de forma
intermitente. A pessoa perde a consciência de forma imprevista. Há momentos do dia
em que parece inteiramente normal. É muito difícil que a possessão se manifeste sem
interrupção. O mais comum é que as crises sejam provocadas por motivos
extrínsecos, por exemplo, durante um contexto de “estresse espiritual”, como é o caso
específico do exorcismo, da Missa, de uma bênção, da oração, ou simplesmente pelo
fato de entrar num lugar sagrado. Em outras ocasiões, desencadeia-se sem nenhuma
causa aparente. O demônio age quando, como e onde quer: durante o dia, à noite, ou
até num logradouro público, quando a pessoa se acha na presença de amigos, para
que todos possam ver. Nesses casos, opera a vontade demoníaca de agir, em razão da
força espiritual de sua natureza angélica. Na prática, nenhuma dessas situações pode
ser imputada ao possesso, isto é, à vítima da possessão.
No caso de uma pessoa possessa que, em tempos passados, tenha ingerido
alimentos enfeitiçados — a isso remonta o seu mal —, durante o exorcismo ou a
Missa pode ocorrer que seja acometida de espasmos de tosse, ou que comece a salivar
abundantemente. Nessas circunstâncias, a ingestão de água, sal e óleo bentos ou
exorcizados pode auxiliar. Compete-me observar que cada possessão — isso se aplica
a outras formas de influência extraordinária do Diabo — é um caso único. Presenciei
libertações que ocorreram em poucas sessões, ao passo que outras somente depois de
anos de exorcismo; dentre estas, manifestações evidentes e grosseiras, além de uma na
qual a pessoa não pronunciava nenhuma palavra. Casos como estes são os mais
difíceis de tratar.
A quem atinge a possessão? Ninguém pode julgar-se excluído: jovens e velhos,
homens de fé e ateus, cristãos e membros de outras religiões, até mesmo os religiosos.
Menciono o caso da irmã Angela, vítima da obsessão da blasfêmia que ressoava
constantemente em sua mente. Quem se acha distante da fé certamente é mais
vulnerável a esse risco; contudo, isso é apenas uma indicação de princípio, a fim de
explicar que o demônio atua com mais desembaraço quando não se depara com
oração, jejum, prática eucarística ou sacramental, por parte das pessoas que “gozam”
de sua particular atenção.
Em anos recentes, ocorreram casos de pessoas muçulmanas com graves
problemas de possessão diabólica. Satanás não faz acepção de pessoas. Acrescento
ainda que os demônios preferem exercer uma ação, em longo prazo, por meio das
tentações, a pôr em execução a sua ação extraordinária. Neste caso, as manifestações
externas claramente desmascaram a sua existência. Já no caso da ação ordinária,
ocultando-se por detrás da ignorância e da pouca fé, os demônios colhem maior êxito,
agindo sem maiores obstáculos. O Diabo fica contente quando não cremos em sua
existência, ou a consideramos uma reminiscência medieval. Dessa maneira pode atuar
com mais tranquilidade!
As tentações são vencidas pela vigilância, quando fugimos das ocasiões próximas
de pecado, e rezamos, pois, sem o auxílio de Deus, não somos capazes de vencer a
enorme sedução da iniquidade. Disso ninguém está isento, pois até alguns santos
tiveram tentações tremendas no leito de morte. Pelos testemunhos de vida que deles
recolhemos, deduzimos que, enquanto estivermos respirando e com vida, nunca
ficaremos livres.
É útil saber que também existem possessões múltiplas, as quais consistem na
atuação de vários espíritos de forma concomitante na mesma pessoa. Tal foi o caso de
Giovanna, senhora casada havia trinta anos e com filhos. Desmaiava com frequência
e sentia fortes dores de cabeça, sem causa natural aparente. Após vários encontros,
certificou-se que estava possuída por três demônios, que nela entraram com três
feitiços diversos, um dos quais fizera uma mulher que cobiçava o seu futuro marido,
ao tempo em que ainda não eram casados. Os dois primeiros feitiços logo foram
desfeitos; o terceiro, porém, com mais dificuldade. Finalmente, também este último
foi vencido. Era uma família de fé, por isso creio ter sido relativamente fácil libertá-la.
Trata-se de casos muito frequentes, conforme atesta o próprio Evangelho de São
Marcos, quando Jesus se depara com um endemoninhado possuído verdadeiramente
por uma legião de demônios (cf. Marcos 5,1-20). Esses termos, tipicamente da
organização militar romana, sugerem uma realidade com a qual nós exorcistas muitas
vezes nos confrontamos: quando a possessão é múltipla, enfrentamos espíritos
organizados hierarquicamente, à maneira de um corpo militar. Imagino não provocar
surpresa quando afirmo que os demônios possuem uma organização interna
semelhante à de uma legião militar: existem os chefes, os subchefes e os “simples
soldados”. Cada um é dotado de um poder específico. Assim que iniciamos o
procedimento dos exorcismos, abandonam a luta primeiramente os espíritos com
menos poder, os menos fortes. A vitória, isto é, a libertação, só é completa após
havermos conseguido dominar o chefe supremo da legião, o mais poderoso e
opressivo, o último a deixar o navio, aquele pelo qual os outros demônios sentem
verdadeiro e particular terror.
Como se descobre se alguém está sob o efeito de uma possessão? Há pessoas que
descobrem estar sob esse efeito ao entrar num local sagrado, como um santuário
mariano, ou quando participam de retiros, procissões, grupos de oração ou adorações
eucarísticas. Também pode ser o caso de a pessoa estar passando por um transtorno,
para o qual não dá muita importância, embora seja nessas ocasiões que a possessão se
manifeste de modo mais claro e inequívoco. É sinal de que o demônio está escondido
(ele pode esconder-se durante muito tempo, dissimulando a sua presença), até que,
diante do poder de Deus, se veja compelido a revelar-se. Contrariamente ao que se
possa imaginar, um fato assim deve ser entendido como uma graça, porque somente
conhecendo a doença é que se pode intervir. O mesmo vale no que diz respeito a
outros distúrbios extraordinários, dos quais trataremos em breve.
Em outros casos, como me referi no caso de Giovanna, tratam-se de incômodos
de ordem física, para os quais os médicos não conseguem encontrar explicação: isso
faz soar o mecanismo de alarme. Tal se deu com Marcella, moça de 19 anos, que
sofria de mal-estar estomacal, perturbação que se manifestava em casa e no trabalho,
e que não conseguira vencer. Assim que alguém lhe tocava a pálpebra, os seus olhos
ficavam totalmente brancos e as pupilas convergiam para baixo. Mal tive tempo de
avaliar isso, e a moça, com uma risada debochada, exclamou: “Sou Satanás!”
Conseguimos libertá-la em dois anos, mas é preciso dizer que ela se empenhou muito
pela oração.
Destaco que nenhuma das formas de males de feitiçaria — portanto, não apenas a
possessão — é contagiosa. Ou, em outros termos, não se corre o risco de ser atingido
pelo “contato” visível, auditivo ou tátil com a pessoa endemoninhada. Do mesmo
modo, um endemoninhado pode casar-se ou ter filhos sem perigo de “infectar” a
prole. Digo isso de modo especial para tranquilizar parentes e amigos, que, quando
empenhados também nessa luta, ficam ao lado das pessoas que sofrem, pela oração e
por uma atitude de compreensão, ditada pela caridade. Às vezes, o convívio com tais
pessoas endemoninhadas é verdadeiramente difícil e nos põe diretamente à prova. O
que digo aplica-se, principalmente, aos sacerdotes. Já fizemos ver isso: quanto maior
o nosso medo do Diabo, mais ele se volta contra nós. O contrário, porém, não é
verdadeiro. Isso porque, se deixamos o Diabo em paz, será ele, por sua vez, que,
comprovada nossa fraqueza, nos arrebatará a paz.
Dito isso, é igualmente verdade que as pessoas que passaram por uma experiência
de possessão, em seguida adquirem, o mais das vezes, grande sensibilidade quanto a
situações nas quais a presença satânica é evidente.

2) A vexação diabólica
O segundo gênero de agressão espiritual extraordinária do Diabo recebe o nome de
“vexação” diabólica. São de longe os casos mais numerosos, causados por
imprudências pessoais (consultar bruxos, atração pelo espiritismo, reincidência e
insistência nos pecados graves), ou por feitiços dirigidos a estas ou àquelas pessoas.
De fato, o Diabo pode atuar, mesmo sem que haja uma influência predominante e
decisiva sobre a mente da vítima, como ocorre no caso da possessão. Não obstante,
são casos de agressão verdadeira e efetiva, de ataques físicos ou psíquicos que o
demônio desfere contra uma pessoa. Daí, por vezes, derivam arranhaduras,
queimaduras, contusões ou, em casos mais graves, até fraturas ósseas. Em outros
casos, pedras e outros objetos são arremessados. Casos característicos de
perturbações são certas enfermidades nos órgãos internos ou nas articulações, mesmo
na ausência de uma patologia clínica que revele que a pessoa esteja sentindo dores, e
também sem a presença de sinais visíveis em presença de uma análise mais
aprofundada. Tais casos podem dizer respeito à esfera da saúde, das relações afetivas,
ou do trabalho.
Não é raro que a vexação venha conjugada com algum mal de feitiçaria
extraordinário, no sentido de que a pessoa possuída ou perturbada pode apresentar
também incômodos de ordem física e psíquica. Já me aconteceu libertar uma pessoa
endemoninhada, a qual, simultaneamente, ficara curada de um grande tumor.
Claramente, neste caso, o feitiço produziu um dano que, no infeliz, acarretara duplo
efeito, espiritual e físico. O mesmo Evangelho atesta casos de cura física ligados à
cura espiritual de um mal de feitiçaria; por exemplo, quando Jesus cura o mudo
endemoninhado (cf. Mateus 9,32-42) e o cego-mudo igualmente endemoninhado (cf.
Mateus 12,22-24).
As vexações podem ocorrer numa dimensão onírica: enquanto dormimos,
formam-se pesadelos terríveis, mediante os quais temos sonhos com blasfêmias,
praguejando contra Deus, tornando-nos perversos e malvados. Nestes casos, estamos
nos confins de uma obsessão diabólica.
No que diz respeito à vida dos santos, também podemos dar exemplos. São Pio
de Pietrelcina era surrado pelo Diabo. Por sua vez, Satanás frequentemente
derrubava o Cura d’Ars da cama. Em tais casos, afirmo que se trata de verdadeira e
efetiva vexação diabólica, não de possessão.
Conforme disse, nem sempre as vexações se manifestam num patamar físico.
Algumas podem atingir a pessoa nos laços afetivos. Pode ocorrer, por exemplo, que
dois noivos ou dois cônjuges se separem ou, ao contrário, que fiquem noivos, apesar
de terem gênios incompatíveis. Outras formas de perturbação manifestam-se no
trabalho. Assim, pode ocorrer que não seja localizada a pessoa que se procura, ou que
desapareça a pessoa junto da qual estamos; também, que se criem grandes
dificuldades com os colegas de trabalho ou com o chefe. Por vezes, o demônio pode
agir a fim de destruir amizades e isolar uma pessoa. É impossível elencar
completamente os casos.
Como discernir se estamos em presença de doença física ou vexação diabólica?
Como sempre, devemos ser muito criteriosos na avaliação dos sintomas. Pode
acontecer que pessoas facilmente impressionáveis fiquem inquietas sem fundamento.
De fato, muitas vezes a doença ou o mal-estar psicológico é de raiz natural e,
identificável pelos sintomas patológicos, seja facilmente caracterizado pelo
especialista médico ou psiquiatra, aos quais, conforme indicamos acima, é sempre
conveniente dirigir-se. O discernimento espiritual pode ser efetuado quando se nota a
presença de fenômenos vexatórios associados a uma inexplicável aversão pelas coisas
sagradas, por Deus e pela oração. O fato de haver frequentado anteriormente locais
de práticas ocultas ou de magia, médiuns, cartomantes ou personagens do gênero,
ainda que de boa-fé, ou a certeza de ter sido alvo de feitiço, tudo isso pode ser indício
significativo para um bom discernimento.

3) A obsessão diabólica
A obsessão diabólica é uma forma de agressão espiritual que leva o demônio a
comunicar pensamentos ou alucinações fortíssimas, muitas vezes invencíveis, à mente
da vítima. Em tais casos, a pessoa já não tem domínio sobre os próprios pensamentos.
O indivíduo fica sujeito a uma poderosa força mental, que lhe introduz pensamentos
repetitivos, obsessivos, superiores à sua capacidade de resistir. Tais pensamentos e
representações da realidade, por mais estranhas que sejam ao seu modo de pensar,
fixam-se profundamente na sua psiquê. Os objetos das alucinações podem ser visões,
vozes ou murmúrios de personalidades obscuras, de figuras monstruosas, animais
horripilantes ou de demônios. Em outros casos, pode manifestar-se o impulso para
fazer mal aos outros, ou procurar o suicídio, ou cometer profanação. Em outros casos
ainda, sobretudo em indivíduos mais jovens, pode ocorrer confusão mental sobre a
própria identidade de gênero. A casuística é muito extensa, sendo impossível fazer o
rol de todas as formas existentes de obsessão diabólica.
Habitualmente, isso não subtrai por inteiro a capacidade de a pessoa pensar ou
querer, permanecendo o indivíduo consciente e vigilante. Todavia, a sua mente fica
fortemente controlada em sua relação com o mundo. Tais fenômenos podem dar-se
indistintamente à noite ou durante o dia, e podem tornar a vida impossível, levando,
em casos extremos, ao desespero e até ao suicídio. Por razões óbvias, essas situações
provocam, na pessoa atingida, tristeza e desesperança.
Também a vida dos santos não está isenta disso. É o caso, por exemplo, do já
citado São Pio de Pietrelcina, quando o Diabo lhe aparecia sob a forma de um cão
feroz arremessando-o ao solo, ou tomava a aparência de seu diretor espiritual ou
superior de sua ordem, transmitindo-lhe uma diretriz errada.
Para evitar um possível equívoco, importa esclarecer que os distúrbios obsessivos
são muito semelhantes às patologias mentais. Por isso, é preciso sempre fazer uso de
um sadio discernimento para o fim de compreender, com o auxilio de um psiquiatra,
se não seria mais propriamente o caso de uma doença natural. Em razão da
dificuldade de discernir com clareza, nesse elenco de casos, também a conversa com
um diretor espiritual pode ajudar muito. De fato, não raramente acontece que os
efeitos de ordem clínica de uma patologia demoníaca possam ser facilmente
confundidos com problemas psiquiátricos. Nesse caso, deve-se proceder no mesmo
ritmo, conjugando a cura médica com a espiritual. Sobre isso discorreremos mais
adiante.
4) Infestação diabólica
Chegamos à última tipologia de distúrbios do gênero espiritual: as infestações
diabólicas. Aqui se trata de distúrbios que, ao invés de influir sobre os homens, atuam
sobre a casa, objetos ou animais. Isso não quer dizer, é claro, que a pessoa destinatária
do mal não sofra também, visto que é a vítima última da ação satânica. De forma
particular, a infestação da casa provoca grandes sofrimentos, e às vezes também
prejuízos desmedidos aos que passam por isso. Em tais casos, podem quebrar-se
aparelhos elétricos, automóveis, fornos.
Mais alguns exemplos? Portas e janelas que, noite e dia, se abrem e fecham,
batendo inesperadamente e sem causas aparentes; luzes, lâmpadas, televisão ou
computador que ligam ou desligam sem nenhuma intervenção humana; explosão de
bombinhas, sons de passos, vibrações no solo como de um terremoto, vozes
misteriosas ou gritos, batidas na parede (às vezes, fortíssimas), sendo que todas essas
manifestações, como se intui de imediato, podem tornar difícil a vida de quem mora
no local. Em alguns casos, faz-se necessário até pedir intervenção da polícia, alertada
previamente por chamadas telefônicas. Os policiais, num desses casos, foram
obrigados a comprovar a presença de fortes batidas na parede, embora sem identificar
o “culpado”. Também pedras jogadas contra a janela, sem que os vidros se quebrem,
além de intensos odores desagradáveis. Invasão de insetos, como gafanhotos ou
formigas que, em poucos dias, são capazes de roer a madeira da janela. Também aqui,
os exemplos são muitos.
É preciso, neste caso, examinar se o fenômeno concretamente pode ser atribuído
a uma causa natural e circunscrita, ou não. Diante de uma resposta negativa, é útil
saber — embora muitas vezes seja difícil fazê-lo concretamente — se, nessa mesma
casa, em épocas passadas, foram realizadas sessões espíritas, rituais de magia, reuniões
de seita satânica ou maçônica ou coisas similares. Também, neste caso, são úteis a
bênção da casa e a bênção dos objetos, e os exorcismos localizados, ainda que
geralmente sejam muito longos, difíceis e complicados de realizar. Nos casos mais
graves, cabe-me aconselhar às pessoas envolvidas que se mudem da casa. Às vezes,
nas novas moradias nenhum destes fenômenos se manifesta. Em outros casos, porém,
as vexações continuam. Reporto o caso de uma pessoa que, ao se deitar, sentia a cama
sacudir-se violentamente. Perguntei-lhe se quando dormia fora de casa o mesmo
distúrbio se manifestava. Respondeu-me que, em outros lugares, o fenômeno
persistia. Aqui era o caso evidentemente de uma vexação pessoal. Outras vezes, ao
contrário, o distúrbio cessava. É importante, pois, fazer a seguinte verificação: se,
mudando de cama ou casa, o distúrbio desaparece. Em tal caso, isso significa que o
mal está vinculado à cama, à moradia, ao quarto ou à parede. Quando uma pessoa
apresenta sempre os mesmos incômodos, significa que o problema reside nela e que é
sobre ela que se deve agir. O receituário é sempre o mesmo: exorcismos, oração, vida
sacramental.

Por que existe o mal? O risco da liberdade


Falamos sobre males de feitiçaria: possessão, vexação, obsessão, infestação. Nesse
ponto, a pergunta emerge: por que Deus permite o mal? A primeira coisa que
compete esclarecer é que, sendo Deus amor infinito, Ele não quer o mal.
Simplesmente Deus o permite, porque criou os homens e os anjos como criaturas
livres. Que significa isso? Simplesmente que somos livres para escolher se queremos
viver a favor de Deus ou contra Ele. E, pois, no último dia, se a nossa opção foi pelo
Paraíso ou pelo Inferno. Significa reconhecer que tudo foi criado por Ele para nos
fazer felizes, e que nos compete, consequentemente, obedecer às leis por Ele
estabelecidas; ou, se escolhermos o contrário, rejeitar essa verdade. Essa é a grande
prova a que todos estamos sujeitos.
Conforme já mencionamos,10 primeiramente, antes de nós, os anjos tiveram de
escolher; no caso dos demônios, escolheram tentar os homens para atraí-los a si. Em
segundo lugar, na escala do tempo, a escolha coube também a nós, homens, dizendo
respeito a cada um, enquanto individuo. No Evangelho de São João está escrito, com
referência a Cristo: “Tudo foi feito por meio dele e para ele” (João 1,3). Poderia
Deus atribuir um objetivo maior à realidade criada, que não fosse Ele mesmo — isto
é, a possibilidade de gozar de sua visão, motivo de felicidade eterna? De fato,
vivemos para Ele e não podemos conceber um objetivo mais excelente do que esse.
Portanto, a rebelião dos anjos e a sucessiva desobediência dos homens nos revelam
que o mal é uma possibilidade concreta que Deus permitiu para nos tornar livres. Isso
comprova que, como dizia Santo Tomás, a caridade sem a humildade não se sustenta.
Eis o grande segredo do caminho cristão: a humildade!
Estamos diante de um grande mistério, que consiste na liberdade que a criatura
tem de escolher o mal ao invés do bem. Tal foi o caso de Giuseppe, jovem de 28 anos,
viciado no fumo, na droga e na blasfêmia. Ele me procurou para atender ao desejo da
mãe e da irmã que o acompanhavam. O demônio manifestou-se repentinamente,
assim que comecei a rezar. Quando, após o exorcismo, o rapaz voltou a si, disse que
já sabia estar endemoninhado e que se achava bem agora. Nunca mais o revi.
Esse ponto — conceder ao homem o livre-arbítrio — foi o maior risco que Deus
correu com as criaturas, anjos e homens. E o fez por um motivo específico: porque
sem o livre-arbítrio, sem a possibilidade de escolher entre o bem e o mal, seríamos
autômatos e não propriamente criaturas livres. A liberdade — que em Deus é infinita
— é o sinal da nossa grandeza e da nossa filiação em Cristo Jesus. Sem isso, não
poderíamos ser chamados “filhos”, mas “escravos”. Deus concedeu-nos tudo, a nós
compete apenas reconhecê-Lo, adorá-Lo e deixar-nos conduzir por Ele.
É inevitável, contudo, o seguinte: quando não nos entregamos a Deus,
entregamo-nos necessariamente aos ídolos. “Quem não está comigo, está contra
mim” (Mateus 12,30). Não existe terceira posição. Ou somos de Cristo ou de Satanás.
Às vezes, desejamos uma via intermediária, como se pudéssemos, ao mesmo tempo,
servir e não servir a Cristo. Entretanto, essa via intermediária não existe. Também a
nós se aplica o método ardiloso que o Diabo utilizou com Adão e Eva: induzir-nos a
crer que o mal e o pecado não existem; que praticar o pecado, afastar-se de Deus,
sentir o gosto de qualquer coisa pelo prazer de “experimentar” é sempre uma
vantagem. Algo assim: “Afinal de contas, que mal há nisso?”
Às vezes, para consolar os meus “clientes” particulares, há muitos anos sob o
jugo da possessão, faço-os recordar que, se encontraram a fé, começando a viver uma
existência cristã verdadeira, isso se tornou possível porque tiveram de iniciar uma
dura batalha contra os males que os afligiam. Por isso, em relação a eles, o Diabo já
estava derrotado desde o começo.
Outra verdade ligada à anterior deve ser posta em relevo. Trata-se do seguinte:
sem dúvida, Deus permite que atuem o mal e os males de feitiçaria, mas só até certo
ponto — que não nos é dado saber, mas que existe —, fixando um limite para a ação
de Satanás contra o homem. Um exemplo disso se acha no início do livro de Jó.
Satanás obtém de Deus a permissão de oprimi-lo, mas Deus o proíbe “de levá-lo à
morte” (Jó 1,12). A última palavra é sempre Deus quem dá.
Permito-me exprimir uma última palavra de alento a quem padece de males de
feitiçaria. E, de modo especial, aos que os contraem sem culpa. O padre fundador da
minha ordem, Beato Tiago Alberione, frisou bastante a dimensão da reparação dos
pecados obtida por meio do sofrimento pessoal. Oferecer os próprios padecimentos
pela salvação dos pecados e pela paz do mundo, além de conferir um sentido
profundo à dor, desfazendo eventuais pensamentos tortuosos, é obra altamente
meritória diante de Deus.

Como se contraem os males espirituais?


Como se contraem os males espirituais, sumariamente descritos acima? De dois
modos: de um modo culposo ou um modo não culposo.
Encaremos desde logo o primeiro, o que denominamos “culposo”, porque tem
raiz na culpa da pessoa que sofre o mal. Muitos casos de possessão se manifestam —
com frequência, muito tempo depois — quando a pessoa, no intuito de resolver um
problema pessoal, profissional ou afetivo, volta-se para os feiticeiros, ou quando
pratica diretamente uma forma de ocultismo, dentre a variada gama existente.
Também quando, talvez por ser jovem e por causa de um espírito brincalhão, procura
entreter-se com jogos relacionados a contato com espíritos. Quando aludimos à
magia, segundo o explicado, nós a entendemos como sendo a utilização de forças
espirituais negativas para exercer domínio sobre a realidade física e psicológica.
Trata-se da instrumentalização dos poderes sobrenaturais para a obtenção de fins
desejados pela pessoa. Correspondem a ações e atitudes condenadas sem meio-termo
pela Bíblia, nas mesmas passagens nas quais também se condenam os encantamentos,
as adivinhações, a necromancia ou o espiritismo, a bruxaria, os sortilégios (cf.
Gênesis 30,27; Êxodo 7,11; Levítico 19,31; 1 Samuel 28; 2 Crônicas 33,6; Salmo 58,6;
Isaías 8,19; Jeremias 27,9; Ezequiel 13,17-23; Gálatas 5,20).
Outro modo “culposo” de contrariar males espirituais, em alguns casos
particularmente graves, pode consistir na obstinação em certo pecado ou vício, isto é,
na circunstância de viver com convicção e de modo persistente uma vida contrária ao
amor.
Pode-se afirmar que uma pessoa que pratique o ocultismo e viva em pecado
grave, inevitavelmente virá a ser vítima dos males de feitiçaria? Evidentemente, a
resposta é negativa. Não operamos no campo das ciências médicas, as quais, em larga
medida, podem ser “mensuradas”. Em ambos os casos (culposo e não culposo) não
estamos em presença de mecanismos automáticos. Pretendo afirmar apenas que um
mal de feitiçaria não atinge necessariamente a quem se volta para a magia, ocultismo
ou necromancia, ou a quem vive habitualmente entregue a um vício. Limito-me a
dizer que valer-se dessas práticas deixa a pessoa muito exposta ao mal.
Nesse sentido, existirão vícios mais perigosos do que outros? Nenhum deve ser
excluído, embora pela minha experiência pessoal deva afirmar que está mais presente
naqueles que se entregam à busca desenfreada do prazer sexual. Como exemplo, cito
um caso: o de um jovem que se entregou durante muito tempo às perversões sexuais.
E que, por esse motivo, fora atingido por uma grave possessão. Durante anos
sucessivos, com muitos exorcismos, esforcei-me para libertá-lo. Entretanto, existem
também outros vícios, hoje cada vez mais comuns, que designarei pelo termo de
vícios “selvagens”, propalados pelos filmes de terror dos quais falamos acima, e que
agora são vistos sem restrição na televisão ou no cinema.
Essa forma de “publicidade do mal” exibe — como se fizesse parte da
normalidade da vida ou como algo digno de aceitação — todo tipo de crueldade,
mesmo as maiores e mais desumanas. Nisso muitos se inspiram, quando não na forma
de agir, ao menos na de pensar. Reitero, porém, que não me limitarei a tratar desses
vícios. Também incluo, neste caso, o uso imoderado do álcool e o uso de drogas,
ambos muito difundidos entre os jovens.
Existem as causas que denominei “não culposas”, que serão tratadas a seguir, as
quais, efetivamente, correspondem à maior parte dos casos. Considero que, em pelo
menos 90% dos casos de possessão e de outros casos de males de feitiçaria, as pessoas
atingidas não podem ser responsabilizadas diretamente, visto que foram vítimas de
alguém que se voltou contra elas, escolhendo-as “a dedo” como alvos de algum
feitiço ou “amarração”, pelos mais variados motivos: ressentimento, ódio, vingança.
De fato, pode ferir a nossa sensibilidade saber que um recém-nascido ou uma
criança de pouca idade esteja possuída; entretanto, essa é a pura (e terrível) realidade,
com a qual nós, exorcistas, nos deparamos constantemente. Numa situação desse
gênero, com toda evidência, estamos diante de uma causa não culposa. Pode,
realmente, ocorrer que alguém tenha feito um feitiço para ser nocivo ao feto de uma
mulher grávida, decorrendo daí, como eventual consequência, o nascimento de uma
criança com problemas espirituais, ainda que, muito provavelmente, o mal somente
chegue a se manifestar, de forma consciente, quando a criança atingir a idade da
razão. Também pode suceder que uma criança seja consagrada a Satanás logo nos
primeiros anos, e conduzida a participar de rituais satânicos ou de uma missa negra.
Ocorre-me, neste particular, o caso de Francesco Vaiasuso, cujo relato foi
publicado numa excelente obra11. Este homem, hoje com mais de quarenta anos,
quando tinha apenas quatro — portanto, tão novo era que se lhe apagou da memória
a mais remota lembrança disso — foi objeto de um feitiço. Tratou-se do seguinte: ele
foi induzido por uma pretensa amiga da família, que de fato só queria fazer-lhe o mal,
a ingerir sangue, durante uma missa negra, para a qual ele foi levado sem que sua mãe
soubesse disso. Tal circunstância dramática só acabou descoberta muitos anos depois,
quando uma fortíssima possessão nele se revelou. Somente após muitos anos,
Francisco conseguiu ficar livre das 27 legiões de demônios que o possuíam! Graças a
anos de exorcismos, a uma excelente esposa, a uma vida de oração e a muitas orações
de libertação, por fim, teve êxito, transformando-se hoje num testemunho vivo dessa
horrível realidade que pode atingir o homem. Que culpa ele tinha para sofrer
semelhante desgraça?
Também me deparei com o caso de dois amigos que, durante certo tempo,
prepararam-se em conjunto para um concurso. Um deles sabia que o outro estava
mais bem preparado, sendo, pois, mais plausível que fosse aprovado. O que estava
menos preparado — claramente movido pela inveja — dirigiu-se a um feiticeiro que
preparou um feitiço para que o amigo, contra toda expectativa, fosse reprovado. O
feiticeiro assegurou-lhe que isso ocorreria. Foi como as coisas efetivamente se
passaram. Contra toda expectativa, de fato, foi aprovado no concurso o que estava
menos preparado, ao passo que o outro, além de reprovado, foi alvo de uma tremenda
possessão. “Além do ridículo, a vergonha”, seria o caso de dizer. Entretanto, trata-se
de uma circunstância que está longe de ser rara.
Outros casos dizem respeito ao âmbito dos sentimentos, como já tive
oportunidade de mencionar. Por exemplo, ruptura dos vínculos matrimoniais,
mediante uma “amarração”, a fim de “confiscar” um homem ou uma mulher do
cônjuge legítimo; ou também, numa hipótese contrária, forjar vínculos sentimentais
com poções mágicas, com o intuito de terminar num casamento. Nesses casos,
cumpre assinalar que a vítima jamais fica sabendo ter sido objeto de um feitiço, sendo
que, algumas vezes, o esposo fica submisso à esposa (ou vice-versa), que pode chegar
a romper o vínculo com o lar de origem. Neste caso, o Matrimônio evidentemente é
nulo, visto que foi realizado mediante artifício, mesmo que seja difícil comprová-lo.
O que fazer para reparar um dano dessa magnitude? Importa que a pessoa abra os
olhos diante da ocorrência de algum fato clamoroso no seio da vida familiar, podendo
para isso recorrer ao auxílio de amigos e sacerdotes. Contudo, só a partir daí pode ter
início um caminho de libertação, tendo sempre como ponto de partida a oração
pessoal.
Quanto a sexo e faixa etária, como situar a respectiva porcentagem dos que
recorrem aos exorcistas? É essa outra questão. Com base na minha experiência, posso
afirmar que, em sua maioria, são mulheres e jovens. No que respeita a estes, a
resposta é clara: a curiosidade própria dessa fase da vida costuma impelir os jovens
que ultrapassem os limites da prudência, arrastando-os aos mil tentáculos do
ocultismo. No que se refere às mulheres, a resposta afigura-se mais complexa. Entre
as causas, salientarei que há, nas mulheres, uma tendência mais definida de recorrer à
Igreja em caso de necessidade. Podemos afirmar, de forma segura, que o Diabo não
desconhece serem propriamente as mulheres o veio preferido de sua atuação, uma vez
que, conquistada a mulher, muitas vezes a família inteira lhe cai nas mãos. Não foi o
que a serpente antiga fez com Eva?

O dia a dia da pessoa possuída por demônios


Como conduz a existência diária uma pessoa endemoninhada? Há muita diversidade
de casos. Segundo já foi dito, habitualmente o estado de possessão — isto é, a
condição de crise exteriorizada por uma forma de comportamento inusitado, que
pode abranger desde a mudança do tom de voz e a clara ojeriza pelas coisas sagradas,
até o fato de praguejar e proferir blasfêmias — não se mantém sempre constante, ao
longo de um dia inteiro.
Por vezes, os endemoninhados externam um comportamento normal; muitos
executam uma atividade profissional sem que nenhum dos colegas de trabalho
suspeite da ocorrência. Vez ou outra, contudo, tais pessoas, mesmo quando não caem
num estado de possessão manifesta, enfrentam assédios interiores do Maligno, que só
à custa de esforço conseguem controlar. Refiro-me às pernas que ficam duras ou
trêmulas, dores abdominais, dores de cabeça, mudanças repentinas de humor e
diversas outras formas de mal-estar.
Essas pessoas possuem também estratégias de comportamento que as auxiliam a
superar as crises, sem dar muito na vista — como, por exemplo, ir ao banheiro, dele
saindo apenas ao perceberem que a sua conduta está normalizada. Todavia, existem
casos mais graves, que impossibilitam por completo que a pessoa tenha vida social ou
profissional; isso dá margem a uma tristeza profunda, que se acresce à desgraça
espiritual e aos graves problemas no âmbito das relações familiares.
Quando se dá o desencadeamento de uma crise? Na maior parte das vezes, essas
crises são causadas pela aversão ao sagrado; por exemplo, podem manifestar-se até
quando a pessoa se aproxima visualmente da Eucaristia; incluem também a oração do
exorcismo e o fato de entrar numa igreja ou santuário. Nem todos os casos, porém,
são capazes de revelar um fator facilmente determinável. Pode-se arriscar a seguinte
hipótese: quando o mal de feitiçaria teve origem em comportamentos culposos, por
parte da pessoa atingida, as crises mostram-se de forma mais aguda. Frequentemente,
pois, essas pessoas carregam consigo efeitos colaterais para toda a vida, mesmo depois
de efetuada a libertação. Por isso, importa formular uma séria advertência aos jovens
— sem, é claro, descuidar dos de idade mais avançada — sobre os riscos inerentes à
prática do ocultismo. Originam-se daí consequências muito graves, conforme
comprovo a cada dia.
As pessoas atingidas por males espirituais não se acham, por isso, impedidas de ir
à Missa ou de rezar. A situação varia de caso para caso. Alguns participam da
Eucaristia sem maiores problemas. Já outros manifestam claros sinais de mal-estar,
até chegarem ao estado de possessão. Nada há de novo quando afirmo que há muitos
sacerdotes que sofrem de males espirituais, e, não obstante, celebram diariamente
(mesmo à custa de sofrimentos), o Sacrifício Eucarístico. Quanto a isso, não devemos
nos surpreender.
Acompanho casos de jovens sacerdotes que, tão logo entraram no seminário,
foram vítimas de ritos satânicos, contra eles dirigidos por pessoas que se opunham à
sua vocação — talvez algum parente, ou, num caso mais específico, uma antiga
noiva, cujas esperanças matrimoniais foram frustradas. No caso dos jovens
sacerdotes, houve alguns que renunciaram à vocação. Quem se manteve firme no
exercício de sua missão teve de se esforçar para exercer o sacerdócio com grande
dificuldade, mas, por fim, o empenho foi coroado de muito êxito. Em casos assim,
não se trata propriamente de possessão, na força do termo, mas de vexação e
obsessão.

A vida depois da libertação


Graças a Deus, não são raros os casos de pessoas libertadas do demônio. O novo
Ritual dos Exorcismos assim os aconselha: “Convém que o fiel liberto da opressão
diabólica dê graças a Deus pela paz recuperada, quer individualmente quer
juntamente com os seus familiares. Além disso, seja aconselhado a perseverar na
oração, sobretudo inspirada na Sagrada Escritura, a frequentar os sacramentos da
Penitência e da Eucaristia, e a fortalecer a sua vida cristã com obras de caridade e
amor fraterno para com todos.” O ministério da libertação não se exaure mesmo após
livrar a pessoa dos laços de Satanás. Importa que a comunidade cristã, com discrição
adequada, faça o acompanhamento do irmão ou da irmã libertados, a fim de encorajá-
los a prosseguir na caminhada cristã, com uma vida de santidade, animada pela
caridade. E, de sua parte, a pessoa libertada é convidada a empreender tal caminho.
Com base em minha experiência, posso afirmar que, após haver reconquistado a
liberdade — talvez depois de anos de exorcismos e orações, e não poucos momentos
de desconforto —, essas pessoas, em geral, não conservam, na vida diária,
reminiscências do que ocorreu no passado. Com efeito, verifica-se normalmente a
retomada da vida secular, assim como das relações afetivas e profissionais.
Frequentemente dão-se conta de que a volta da situação normal é um verdadeiro e
efetivo dom de Deus, implorado com insistência e por fim obtido.
Nessas pessoas assim curadas, desenvolve-se um sentido de gratidão para com
Jesus, Nossa Senhora e os santos. A fé torna-se mais forte do que antes. Não raro, tais
pessoas empenham-se em ajudar os que vivem ainda imersos nas consequências
nefastas das investidas demoníacas. Tornam-se, assim, apóstolos, no verdadeiro
sentido da palavra, desdobrando-se para dar testemunho do que viram em grupos de
oração, na vida paroquial ou em quaisquer outros locais de vida católica de que
eventualmente tenham feito parte. O caso mais significativo que conheço é ainda o de
Francesco Vaiasuso. Hoje, além da atividade comercial que exerce no local onde vive,
isto é, na Sicília, percorre a Itália para dar seu testemunho, exercendo o ministério da
libertação e fazendo concorridas conferências.

A quem se dirigir em caso de dúvida?


Quando se manifestam sinais que podem remeter à ideia de um mal de feitiçaria,
costumo aconselhar a pessoa a que procure inicialmente um psiquiatra. Quando não
estamos bem, compete-nos suspeitar, em primeiro lugar, que haja uma causa natural
para isso, cabendo-nos, pois, buscar o tratamento por via da medicina tradicional.
Acontece raramente que os males sejam de origem diabólica. Como norma, deve-se
recorrer ao exorcista somente numa segunda etapa. Faço essa afirmação para ajudar
pessoas facilmente impressionáveis. Efetivamente, não recebo a ninguém — salvo
casos especiais — sem que me apresente um diagnóstico específico de um psiquiatra.
Que entendo por “casos evidentes”? Eu o compreendi graças a um exemplo ocorrido
comigo há muito tempo.
Veio ao meu encontro o pai de uma família muito religiosa e praticante. Um belo
dia, o filho de 18 anos, tendo voltado para a casa, diante do espanto geral, pôs-se a
dizer blasfêmias e a destruir todas as imagens sagradas que encontrava pela frente.
Não ousava entrar na Igreja e, no momento da oração antes das refeições, o jovem a
interrompia bruscamente com uma violência verbal impressionante. Todos ficavam
desconcertados diante de tamanha mudança. A aversão ao sagrado é um dos sinais
mais sintomáticos do mal de feitiçaria, não havendo necessidade, em tal caso, de um
parecer médico preventivo para dar início ao “tratamento”.
Voltando ao estudo das normas habituais, devo afirmar que, depois de a pessoa
ter procurado o psiquiatra, caso o tratamento se tenha revelado ineficaz e os médicos
incapazes de formular um diagnóstico claro, após estarem convencidos de encararem
uma doença tida como “desconhecida” — de fato, dentre os médicos, muitos há que
sequer imaginam que possam existir males espirituais de origem demoníaca —,
recomenda-se buscar um sacerdote, o qual poderá ministrar um bom conselho.
Nesse sentido, tenho em mente o caso de Marco, rapaz a quem exorcizei durante
longo tempo, e que padecia de uma obsessão muitíssimo forte. O histórico do
pobrezinho estava sobrecarregado de tratamentos psiquiátricos, entre os quais choque
elétrico e tratamento para insônia (não dormia nunca). Certa vez, durante uma
semana inteira deram-lhe soníferos, mas, mesmo assim, não conseguira fechar os
olhos. Foi somente após esse longo tratamento espiritual que se viu livre do
problema.
Um caso em sentido oposto desenrolou-se com uma senhora, que me foi
encaminhada para receber uma bênção. Sofria de uma patologia que era tratada por
neurologistas (e também por alguns exorcistas), mas sem conseguir nenhum alívio.
Meu procedimento consistiu em dar-lhe uma bênção, após fazer as perguntas usuais.
De súbito, teve uma forte reação, caiu por terra e perdeu a consciência. Percebi logo
que eram apenas problemas de natureza psiquiátrica, embora ela insistisse em dizer
que queria um “verdadeiro” exorcismo, isto é, o que começa com as palavras “eu te
exorcizo” (evidentemente já ouvira isso durante um exorcismo feito nela). Só depois
se acalmou, reclamando do fato de que, ao tocá-la, eu machucara os seus olhos. Tais
atitudes não são características dos possuídos, como, aliás, corroborou o Pe. Candido,
para quem eu a encaminhei diversas vezes. Depois de ter imposto a mão sobre a
cabeça dessa senhora, ele notou que não havia presença de nenhuma força demoníaca:
tratava-se de um caso exclusivamente psiquiátrico.
A qual sacerdote devemos nos dirigir em caso de suspeita de possessão?
Obviamente, em primeiro lugar, ao próprio pároco ou a um religioso, desde que
tenha sensibilidade mínima para esse aspecto da vida real. De fato, ocorre, às vezes,
que uma pessoa seja tratada com pouca caridade e considerada louca. Não obstante, a
pessoa pode estar padecendo do mal de feitiçaria. Muito mais simples seria, da parte
dos sacerdotes, rezar imediatamente uma oração ou dar uma boa bênção, para ver o
que acontece em seguida. Ocorrerá, talvez, que, após esse procedimento, a pessoa
revele, de forma súbita, sinais de mal-estar. Essas razões devem ser suficientes para
sugerir que a pessoa procure imediatamente um exorcista.
Existem também casos duvidosos, quando não sabemos claramente a natureza do
mal. Numa situação assim, convém que psiquiatras e exorcistas trabalhem juntos. Um
aspecto importante a ser frisado: não é obrigatório que o psiquiatra seja homem de fé
para promover essa cooperação; basta que admita, ao menos em teoria, que nem
sempre a ciência pode tudo. Podem nascer daí colaborações bastante interessantes,
ainda raras na prática, que ajudem quem sofre.
Segue uma derradeira verificação, a fim de distinguir doença psiquiátrica de
influência demoníaca extraordinária, e que nos põe diante de uma interrogação
aflitiva perante tantos irmãos que sofrem de aparentes doenças mentais. São Pio de
Pietrelcina achava-se convencido de que muitos indivíduos recolhidos em hospitais,
algumas vezes por toda a vida, estavam na realidade possuídos por demônios,
bastando alguns exorcismos para curá-los. A confirmação provém da vida de um
grande apóstolo dos males psiquiátricos, o carmelita espanhol Francisco Palau, que
exorcizava todos os doentes do hospital onde trabalhava. Isso faz vir à tona um ponto
relevante: sintomas psiquiátricos e sintomas diabólicos podem assumir formas muito
parecidas. Portanto, saber discernir com clareza a verdadeira natureza do mal é de
importância decisiva para resolver o problema.

A decisiva contribuição da pessoa possuída


Às vezes me perguntam se uma pessoa sem fé pode ser libertada do demônio somente
com a oração de outro. Seguramente uma comunidade cristã e familiar pode
pavimentar o caminho para a cura, impetrando de Deus a graça da conversão de uma
determinada pessoa. A libertação, porém, jamais ocorre contra a vontade da pessoa
possessa, sem a contribuição efetiva desta, sustentada pelos sacramentos e pela
oração.
Como pode uma pessoa sem fé invocar o Altíssimo, pedindo que a liberte dos
influxos do Diabo? Deus não obriga ninguém a aceitar os Seus dons. Para se libertar,
importa viver na graça de Deus, não Lhe opor obstáculos, perdoar quem nos fez mal,
extirpar os vícios, romper todo vínculo humano que favoreça uma aproximação com
o Maligno. Isso tudo pressupõe um grande esforço, estou certo disso, mas é
absolutamente necessário: os exorcismos, assim como as orações de libertação, não
exercem nenhum efeito sobre uma pessoa que não vive na graça de Deus. Estou
convencido de que é muito mais eficaz uma boa confissão, que é um poderosíssimo
sacramento, do que um exorcismo, que, conforme veremos, é apenas um sacramental.
Acrescento que uma oração muito eficaz para romper os vínculos com Satanás é o
exorcismo, isto é, a oração da Igreja pronunciada sobre a própria pessoa afetada pelos
males de feitiçaria. Para esse fim, pode ser utilizado — mas sempre sobre si e nunca
sobre outro, pois neste deve ser pronunciado por um exorcista autorizado — também
o exorcismo do Papa Leão XIII.
Igualmente pode ocorrer que uma pessoa não queira ser exorcizada ou receber
uma oração em seu benefício. Seja dito, obviamente, que não se pode obrigar
mediante violência. Cabe lembrar que, em muitos casos, é o espírito maligno que
sugere essa recusa e, às vezes, de forma irredutível. Por outro lado, compreendo que
a pessoa compareça às sessões de exorcismo acompanhada de parentes ou do pároco,
e que o espírito maligno a faça cair em transe logo no início da oração, talvez
simplesmente à vista do texto da oração que será feita, ou já no vestíbulo da minha
sala de atendimento. Num caso assim, com bondosa firmeza, deverá ser encaminhada
para se submeter ao exorcismo, uma vez que, quando estava consciente, concordava
em recebê-lo.
Muitas vezes, ao término do ritual, demonstra estar “desanuviada”, voltando a
entrar na posse de suas faculdades volitivas. Trata-se da confirmação de que a oração
surtiu os efeitos; contudo, poderão ser estes apenas de cunho momentâneo, visto que
a libertação definitiva ainda não foi concluída e que, transcorrido certo tempo, a
pessoa pode reincidir no estado de apatia ou de aversão ao sagrado. De qualquer
modo, esse “desanuviar” da alma é comumente um bom sinal: a pessoa caiu em si,
percebeu que o caminho está livre e que lhe compete apenas perfazer o percurso.
À luz do exposto acima, posso entrever outro grande risco para quem sofre dos
males de feitiçaria: vontade de ficar só, isolado, sem apoio. A pessoa que sofre a ação
demoníaca extraordinária, na maioria das vezes, vê-se na contingência de
experimentar o isolamento e o estigma (peculiar a essa situação) justamente da parte
dos mais achegados e comumente mais receptivos, isto é, parentes, conhecidos, e não
poucas vezes (conforme já referi), também da parte dos ministros de Cristo.
O doente espiritual encontra-se, pois, numa condição de afastamento e
marginalização muito semelhante ao que sofreram os leprosos citados na Bíblia.
Contudo, em presença do leproso que, de joelhos, implora por ser purificado, Jesus
lhe estende a mão, nele toca sem medo de ser contaminado: “Eu quero, seja
purificado” (Mateus 8,2-3). Não é diverso do que se dá com a lepra: só que as chagas,
em lugar de se mostrarem no corpo, manifestam-se evidentes num plano
psicoespiritual.
Conforme assinalamos, em tais situações, a pessoa costuma ser invadida por
pensamentos obsessivos: visões, ruídos, dores; conforme o caso, aversão pelo
sagrado, recusando-se, por exemplo, a estar presente à Missa ou a ter uma atitude
digna no momento da oração. Por conseguinte, o verdadeiro doente espiritual muitas
vezes se convence de estar louco, sendo este pensamento compartilhado por
muitíssimos familiares, conhecidos e sacerdotes. Em casos extremos, o doente vive
cada vez mais afastado do patamar da normalidade, numa permanente situação
excepcional, com uma existência entrecortada de exorcismos, orações de libertação,
apelos dirigidos aos carismáticos... Essa “superexposição espiritual”, porém, é de
grande periculosidade, porque leva a pessoa a fechar-se como num gueto, isolando-
se.
O maior desafio, então, consiste em “fazer entrar na normalidade o que é
anormal” e transformar em “ordinário o que é extraordinário”. Como fazê-lo? É
preciso adotar a forma de agir que Jesus teve com o leproso: cheia de atenção,
compaixão, acolhimento e iniciativa. Assim se formarão leigos e sacerdotes
capacitados para uma escuta competente e empática, apta a se “com-padecer”
(padecer junto) da pessoa atribulada. A seguir, é indispensável propiciar aos
necessitados locais e ocasiões de acolhimento e de agregação; nessas circunstâncias,
deve rezar, mas também ser brincalhão; ensinar, mas também compartilhar; padecer,
mas também regozijar-se. Enfim, é imprescindível ajudar quem sofre a tomar a
iniciativa de uma atitude firme diante do mal e do Maligno, de modo que jamais caiba
a este a palavra final.
Nesse sentido, uma realidade surgida recentemente, e que me parece muito
promissora, é a associação Famiglia della Luce con Camilla12, que promove
caminhadas de sensibilização e conscientização sobre essa temática para leigos e
sacerdotes, bem como de acolhimento para as pessoas que enfrentam males
espirituais. Muitas pessoas têm encontrado nesse movimento um precioso auxílio.

Quando a família é objeto da ação demoníaca


Concluamos essa parte consagrada ao estudo da ação extraordinária de Satanás
orientando nossa atenção para as famílias que são, hoje em dia, os alvos principais da
ação ordinária de Satanás, promovendo, no seio do lar, divisões, esfriamento das
relações e traições. Nada disso, é claro, encontra-se inteiramente à margem da ação
extraordinária do Diabo.
De fato, ainda que comumente só um membro da família venha a ser alvo dos
males de feitiçaria, às vezes acontece que mais de uma vítima possa ser atingida. Em
tais casos, o feitiço se reproduz ou, a bem dizer, propaga os seus efeitos a outras
pessoas. Numa situação dessa espécie, provavelmente, o ódio de quem encomendou o
feitiço esteve voltado para todos os membros do núcleo familiar, embora com o
objetivo de ferir de forma mais violenta a um, especificamente.
Nesta situação, é ainda mais importante que cada um dos familiares, mesmo entre
os que parecem menos atingidos, com todo empenho se esforcem na oração e na
frequência aos sacramentos. É recomendável receber bênçãos, ora dirigidas à pessoa,
ora aos locais onde habita. Outra norma é fazer bom uso dos sacramentais; por
exemplo, fazer o sinal da cruz com água benta, antes de se deitar, ou ao se levantar,
além de trazer consigo ou afixar na parede quadros de imagens sagradas. Tudo isso
faz parte das boas normas.
O que geralmente designamos pelo nome de “santinhos” — imagens que
representam Jesus, Maria ou santos — exercem o papel de incitar à imitação das
virtudes que praticaram, levando-nos a pedir nas orações que protejam a cada um de
nós. Dá bom resultado, também, mandar celebrar algumas Missas nas casas e,
sobretudo, receber exorcismos e orações de libertação no local. Nos casos mais
graves, indubitavelmente, é preciso buscar um exorcista. Considero, por outro lado,
que, em razão da particular eficácia que deriva do sacramento do Matrimônio, o
respectivo cônjuge pode efetuar diversas vezes oração de libertação sobre o outro e
sobre os filhos.
Não deve faltar nunca — por mais difícil que seja — o desejo de perdoar a quem
agiu de forma iníqua contra nós. A esse propósito, lembro do caso de uma família
com a qual tudo andou errado. Eis o relato: pelos mais inexplicáveis motivos, o pai,
comerciante, perdeu tudo o que tinha; a filha do comerciante, casada, fora
abandonada com os filhos pelo marido; a outra filha, por sua vez, às vésperas do
casamento, também fora abandonada pelo noivo. Na casa ouviam-se ruídos
misteriosos. Após uma Missa e um exorcismo feito na casa, além de uma bênção aos
membros dessa família, tais anormalidades desapareceram.
Todavia, um dos casos mais manifestos e complexos que tive ocasião de conhecer
é o de Lucia e Francesco, casal do norte da Itália que veio ao meu encontro. Durante
a conversa, por uma circunstância totalmente fortuita, descobrimos que o marido
estava possuído. Conseguimos libertá-lo em pouco tempo, mas logo depois,
igualmente, uma filha demonstrou ter problemas, embora de gravidade menor. Em
seguida, também Lucia e o segundo filho. Contudo, como lutaram e tiveram coragem
de contar a experiência num livro (cuja leitura recomendo a todos)13, me parece um
caso emblemático de como enfrentar uma batalha espiritual contra o maligno, apesar
de todas as dificuldades. E, para eles, foram (e continuam sendo) realmente muitas.
Antes de concluir, quero transmitir dois breves conselhos aos jovens casais. O
primeiro: acostumem-se desde o início a rezar juntos. O segundo: ensinem esse bom
hábito aos filhos desde cedo. Estes, quando crescerem, não se lamentarão — e
tampouco os pais.
Notas

9 Cf. Constituição Pastoral Gaudium et Spes, n° 37.

10 Cf. capítulo 2.
11 Cf. Francesco Vaiasuso; Paolo Rodari. La mia possessione. Come mi sono liberato da 27 legioni di
demoni [A minha possessão. Como fui libertado de 27 legiões de demônios, Piemme, Milano 2013.

12 www.famigliadellaluce.it.
13 Cf. Lucia e Francesco, A tu per tu con il diavolo. Una famiglia perseguitata dal Maligno [Face a
face com o Diabo: uma família perseguida pelo Maligno], San Paolo, Cinisello B. (MI) 2009.
CAPÍTULO 5
CORPO A CORPO COM SATANÁS: O EXORCISMO

O primeiro passo: acolher as pessoas hesitantes


Perante as manifestações extraordinárias de Satanás, quem estaria em condições de
apontar com segurança a natureza dos males de feitiçaria: quando se trata de
possessão, vexação, obsessão ou infestação? É preciso ser muito prudente no esforço
de discernir qual é a espécie de mal com que nos deparamos. Conforme já fizemos
notar, uma vez concluído que não se trata (apenas) de uma patologia de natureza
psiquiátrica, é recomendável dirigir-se a um sacerdote, tanto quanto possível
capacitado nesta matéria. Também os grupos de Renovação Carismática Católica
podem ser de grande apoio nessa primeira fase de avaliação. Tais grupos, desde que
conduzidos por pessoas dotadas de percepção e devidamente preparadas, podem
contribuir para a busca desse discernimento, mediante a oração carismática
comunitária.
Creio ser importante, para esse efeito, estabelecer uma premissa em favor de
meus confrades presbíteros. Que atitude deve tomar um sacerdote, em presença de
uma pessoa que afirma estar sofrendo de um mal espiritual? O ministério ordinário,
por sua natureza, pressupõe o ministério do acolhimento, da escuta e da consolação.
Estes elementos, por sua vez, fazem parte da essência do sacramento da Ordem.
Trata-se, com efeito, de uma experiência muito íntima e pessoal de que é portador
todo candidato ao sacerdócio, antes de ser ordenado presbítero: consiste em ser
levado a descobrir a própria vocação, o “toque” de Deus na própria vida, o que
convoca à missão do anúncio do Reino de Deus.
Por meio do discernimento espiritual, cada seminarista é conduzido ao ministério
ordenado em direção a outras pessoas que o acompanham durante vários anos —
diretor espiritual, confessor, reitor do seminário ou, no caso dos religiosos, mestres
de formação —, os quais, em suas respectivas épocas, também foram “tocados” pela
experiência íntima de Jesus. Propriamente, essa experiência torna-se basilar na vida
do sacerdote que, em virtude do sacramento da Ordem, recebe o chamado de
conduzir pelas vias de Deus as pessoas que encontra pelo caminho. De fato, todos
necessitam ser protegidos por Jesus.
Quando pensamos nas pessoas que o Senhor encontrava ao longo do caminho,
verificamos ser isso o que muitos pediam: precisamente, ser acolhidos, escutados e
curados. Pensamos no cego curado em Betsaida, que encontramos no Evangelho de
São Marcos (cf. 8,22-22). Jesus o toma pela mão, faz com que sinta sua proximidade,
o seu amor, e o cura. O mesmo procedimento adota com os endemoninhados: ao
encontrar essas pessoas sofredoras, liberta-as, precisamente no ponto que as faz
sofrer, dando um sinal concreto de que o Reino de Deus, que destrona Satanás,
anunciado por Cristo no Evangelho de São Marcos (cf. 1,15), chegou com sua obra. É
a experiência paterna de Deus que toca cada homem e cada mulher. Eis o que é
chamado a fazer todo sacerdote: acolher a todos, escutar e consolar. A busca da
proximidade é a primeira chamada ao sacerdócio.
Aconselhar os indecisos — e, entre esses, as pessoas que acreditamos terem sido
objeto da possessão diabólica e de outros males espirituais — é propriamente uma
obra de misericórdia espiritual, para a qual todo cristão é convocado. O desejo de ser
“tocado” por Deus, principalmente quando se sofre, esconde o desejo de ser
“visitado” por Ele. Em última análise, o desejo que demonstramos em relação a Deus
é a expressão da necessidade de entrar em relação com Aquele que, consolando-nos e
protegendo-nos, revela o sentido de nosso existir, que é viver com Deus e para Deus,
mistério que será revelado em sua plenitude somente no Juízo final. De nós,
sacerdotes, sem dúvida, o que se requer é que nos dediquemos à oração e à pregação,
à escuta e à consolação. Também para nós será revelado, ao fim de nossos dias, todo
o bem de que nossas mãos, olhos e boca puderam ser instrumentos.
Sem dúvida, isso se aplica ao exorcista, que na Igreja exerce o ofício de acolher e
curar os irmãos afetados por males espirituais. Os exorcistas devem ser homens
acolhedores, conselheiros sábios sempre dispostos a escutar os que enfrentam os mais
inusitados casos. Ocorre com frequência, de fato, que as pessoas, ao buscarem
exorcista, encontrem-se num estado de grande sofrimento, não mais sabendo em que
porta bater, muitas vezes no mais completo desespero. Em cada caso, verificar com
acerto e prudência e tranquilizar é, portanto, o seu primeiro dever. Somente após
haver exercido o seu ministério de acolhimento e consolação é que poderá certificar-
se sobre a eventualidade da presença do mal, e, conforme o caso, proceder o
exorcismo.
Não é raro que me aconteça de encontrar pessoas que na prática “desejam” que
eu formule um diagnóstico de possessão, como que para libertá-las de uma incerteza
que as constrange, iniciando assim prontamente o processo de tratamento. Tais
pessoas, ainda que persuadidas de estarem endemoninhadas, frequentemente não o
estão. Em presença dessas pessoas e de outras, que geralmente não conheço, refiro-
me mais propriamente a “bênçãos” que a “exorcismos”, mais a “forças negativas”
que à possessão, a fim de não dar margem a sugestões enganosas. Exatamente como
está dito neste relato, deve-se começar pela oração, antes de introduzir a prece do
exorcismo propriamente dita, indicada no Ritual, ou as bênçãos, reservadas para os
doentes. Somente a partir daí considero que se deve dar um passo à frente, rumo ao
exorcismo especificamente.

O exorcismo e a sua origem


Após a certificação de que possivelmente se trata de um mal de feitiçaria, a Igreja
dispõe de um instrumento apropriado para combatê-lo. Eis como o Catecismo
descreve o exorcismo no número 1673: “O exorcismo tem por fim expulsar os
demônios ou libertar do poder diabólico, e isto em virtude da autoridade espiritual
que Jesus confiou à Sua Igreja.” Por isso, num exorcismo, a Igreja pede
publicamente, com a autoridade que lhe advém de Cristo, que uma pessoa ou objeto
sejam libertados da influência do Diabo. Na prática, é uma peculiar e concreta oração
de libertação, reservada aos bispos e aos sacerdotes, sendo que estes recebem
daqueles a delegação de poder para efeito dessa missão específica, que é executada
segundo um ritual pré-estabelecido — o Ritual dos Exorcismos e Orações para
circunstâncias particulares14 — praticado para libertar uma pessoa ou objeto de uma
influência maléfica. Nesse sentido, o ritual fala de “grande exorcismo”. Durante o
Ritual é ordenado ao demônio, em nome de Jesus Cristo, que faça cessar a influência,
então exercida sobre o corpo da pessoa. No caso de exorcismo local, ou seja, feito
sobre ambientes, a ordem se dirige ao espírito maligno para fazer cessar todo o
influxo maléfico sobre tais locais. É sempre o Espírito Santo que age para efeito da
libertação.
Desde logo seja dito que o exorcismo pertence ao elenco dos sacramentais, que,
conforme ensina o mesmo Catecismo, “são sinais sagrados por meio dos quais,
imitando de algum modo os sacramentos, se significam e se obtêm, pela oração da
Igreja, efeitos principalmente de ordem espiritual”15. Por esse meio, a pessoa
consegue um auxílio — quando está com boas disposições de alma — para receber o
efeito principal dos sacramentos, isto é, a graça, e para que sejam santificadas as
várias vicissitudes da própria existência. Em síntese, constituem “prolongamentos”
dos sacramentos, ajudas espirituais — menos eficazes, mas similares aos sete
sacramentos. Entre os muitíssimos sacramentais existentes, além do exorcismo,
incluem-se a bênção, a oração, a água, o sal e óleo bentos, o sinal da cruz, as imagens
sagradas, todos os objetos bentos e muitos outros.
Retomando o tema do exorcismo, compete assinalar que o exorcista é quem está
autorizado a fazê-lo, ou seja, o sacerdote designado pelo bispo local. Este (convém
recordar), por mandato divino, é dotado do poder de expulsar os demônios, sendo,
portanto, o primeiro exorcista de sua diocese. O exorcista designado, segundo o novo
Ritual, deve ser “um sacerdote que por sua piedade, ciência, prudência, integridade
de vida, seja considerado pelo Ordinário, isto é, pelo bispo, dotado de idoneidade
para tal ministério que, expressamente, fica autorizado a exercer”. A essa altura é
conveniente, para maior clareza da exposição, acrescentar algumas notas de caráter
histórico.
É interessante fazer notar, com efeito, que, desde sempre, as diversas culturas
humanas acreditaram na existência de um deus do bem e um deus do mal, e que há
forças malignas que preparam armadilhas para o homem, havendo casos extremos em
que este chega a ser dominado por tais forças. Logo, a possessão não é um fenômeno
conhecido exclusivamente no âmago da experiência cristã, mas é um fenômeno
observado praticamente em todas as civilizações antigas. Para obter as boas graças
desse deus, os homens ofereciam-lhe sacrifícios de animais e, eventualmente, até a
imolação de seres humanos.
Existem verdadeiros e específicos rituais codificados de proteção contra o mal;
em sentido lato, podem, pois, ser tido como precursores da oração do exorcismo,
embora naturalmente não ainda iluminados pela verdade de Cristo. De qualquer
modo, são as primeiras grandes práticas de exorcismo, mediante as quais os bruxos
— instruídos por uma longa tradição oral de ritos transmitidos pelos ancestrais —–
procuravam resguardar-se das forças negativas.
Um salto de qualidade verificou-se com o povo hebreu, quando ficou claro, pela
Revelação divina, que existe um único Deus: Javé. Os Atos dos Apóstolos (cf. 19,13-
14), por exemplo, mencionam alguns exorcistas ambulantes, filhos do sumo sacerdote
Ceva (tratava-se de judeus, portanto) que, tendo percebido que o nome de Jesus era
mais eficaz do que as formas tradicionais para fazer exorcismos, a esse nome
recorriam.
O fato inegável de que naquele ambiente houve exorcistas é também comprovado
por Jesus quando, após ter sido acusado por alguns judeus de que expulsava os
demônios em nome de Belzebu, interpelou-os, dizendo: “Ora, se é por virtude de
Belzebu que eu lanço fora os demônios, vossos filhos por virtude de quem os
expelem? Por isso eles serão os vossos juízes” (Lucas 11,29). Tais “filhos” eram
evidentemente exorcistas judeus. Contudo, Jesus não faz uso dos rituais tradicionais
do seu povo, mas expulsa demônios baseando-se somente no poder de sua palavra. É
ele, de fato, o grande Exorcista da história humana.
Jesus, o Filho de Deus, diante de quem os demônios não resistem, conferiu aos
Doze apóstolos (cf. Mateus 10,1) — e, pois, aos setenta discípulos (cf. Lucas 10,1-20),
a nós e a todos que Nele creem (cf. Marcos 16,17) — o poder de expulsar os
demônios pela força de Seu nome. Na Igreja dos primeiros três séculos, registram-se
numerosos testemunhos dos Padres da Igreja, que, referindo-se aos discípulos do
Senhor, dizem que estes expulsavam os demônios, impondo as mãos sobre os
endemoninhados, sem necessidade de autorização específica do bispo.
Essa missão revestia-se de claro valor apologético, na medida em que aproximava
os pagãos da Igreja. Entre os exorcistas mais citados, encontram-se os monges que,
graças à sua vida ascética e de santidade, gozavam de grande poder para expulsar o
Diabo. O ministério do exorcismo na instituição eclesiástica (tratamos do Ocidente,
porque a Igreja oriental sempre o considerou um carisma de ordem pessoal que,
afinal, podia ser exercido por todo padre que assim desejasse) foi instituído somente
mais tarde, aproximadamente a partir do século IV. Desde o início, foi colocado sob a
autoridade dos bispos e sacerdotes designados pela autoridade episcopal.
Aos poucos, desdobrando-se a vida sacramental — livros litúrgicos oficiais da
Igreja —, começaram a aparecer as primeiras fórmulas de exorcismo. Na Idade
Média, época na qual se incrementa a sensibilidade acerca dessa matéria, os ritos de
exorcismo multiplicam-se e desenvolvem-se bastante, se bem que nem sempre bem
coordenados entre si, dependendo muito do modo de ver próprio de cada escola.
Após o ano 1200, a Igreja passa por uma espécie de contradição: de um lado,
desenvolvimento teológico extraordinário (Santo Tomás de Aquino é dessa época);
de outro, têm início a queima das bruxas em fogueiras. Eram estas mulheres de
espírito fraco que se julgavam a encarnação do Diabo, mas que, no máximo,
poderiam (ao menos na imensa maioria dos casos) estar possuídas por ele; por isso,
em vez de serem mandadas para a fogueira, precisavam mesmo era de exorcismos...
O rito, que acabara assumindo uma forma chamativa demais, foi a seguir revisto
e simplificado pelo Rituale Romanum, de Paulo V de 1614. Bastante conciso, continua
em vigor até a promulgação, em 1998, do Ritual dos Exorcismos e Orações para
circunstâncias particulares. Conforme já adverti16, fazia mais de três séculos que,
efetivamente, não se praticavam exorcismos. Originam-se daí graves prejuízos para
os que padeciam de males espirituais, e nem mesmo nos seminários a matéria era
estudada em profundidade.
O motivo disso reside na recusa — sob o impacto da mentalidade racionalista que
aos poucos se instalou em toda parte — da furiosa caça às bruxas feita nos séculos
passados, seguida pela violenta perseguição aos hereges e também pelas guerras
religiosas. De fato, jogaram fora o bebê junto com a água do banho... Somente nos
últimos anos, por várias razões — entre as quais a expansão jornalística e o
crescimento da sensibilidade em relação à matéria —, as coisas tomaram um rumo
pouco diverso. Ainda não o bastante, porém.
A derradeira composição — o já citado Ritual dos Exorcismos e Orações para
circunstâncias particulares — é que está atualmente em uso litúrgico, e foi o último
livro sobre esse ritual a ser revisto depois do Concilio Vaticano II. Quando foi
publicado, eu o critiquei abertamente. De modo particular, objetei contra o fato de
que impõe como requisito, no tocante a proceder ao exorcismo sob a forma
imperativa, que tenham sido averiguados previamente claros sinais de possessão
diabólica na pessoa em questão.
Ora, é bem nesse ponto que reside o problema: para efeito de diagnosticar, com
certa margem de segurança, se verdadeiramente estamos em presença de uma
possessão, o instrumento mais adequado é precisamente o exorcismo... Em resumo,
sem praticar o exorcismo é difícil certificar-se se há ou não verdadeira necessidade. É
o que diz a minha experiência de vários anos, razão pela qual sempre sustentei essa
tese. Por esse motivo, continuei usando o Titulo XII do antigo Rituale Romanum de
1614, inspirado em boa medida nas orações redigidas no século VIII pelo teólogo
Alcuíno, e que é intitulado De exorcizandis obsessis a demonio.
Esse manual autoriza a utilização do exorcismo também para efeito de formular o
diagnóstico. Obviamente, eu o fiz com autorização do bispo. Entretanto, após a
publicação do Motu Proprio Summorum Pontificum, que concedeu a todo sacerdote o
direito de se valer livremente das orações e bênçãos do antigo Rituale Romanum,
qualquer exorcista pode dispensar o uso do novo Ritual, conservando o uso do
Manual de 1614. A escolha, claro, fica a critério de cada um. De qualquer modo, em
seguimento ao meu protesto, o novo Ritual foi corrigido.
Como se procede em matéria de exorcismo nas demais confissões cristãs? Junto
aos ortodoxos não é difícil encontrar um exorcista. Na Romênia, por exemplo, cada
monastério possui o seu. Basta localizar e pedir, mais ou menos como se dá entre nós
com a confissão. Dito em outros termos, o ministério do exorcismo é naturalmente
incorporado ao sacramento da Ordem.

A minha experiência
Quando a pessoa não consegue encontrar exorcistas, aconselho que procure um
grupo da Renovação Carismática Católica, para que se façam sobre a pessoa orações
de libertação. Nem sempre é fácil encontrar um grupo desse gênero nas proximidades
de nossa casa. Em casos assim, na tentativa de compreender melhor os sintomas,
costumo conversar inicialmente com os respectivos parentes.
Exijo às vezes — repito aqui o que afirmei acima — que a pessoa seja
primeiramente conduzida à presença do psiquiatra, a fim de averiguar se não é um
caso de doença mental. Faço essa afirmação, mesmo reconhecendo por experiência
própria que os sintomas são parecidos em ambas as situações — doença espiritual e
doença psiquiátrica —, que por vezes se interpenetram e misturam, não sendo fácil
perceber com perfeita clareza qual a verdadeira natureza do mal. Aqui entra em cena
um princípio elementar: quando o tratamento traz bons resultados, que haja
continuidade, intensificando-se o procedimento; caso contrário, será oportuno fugir
da armadilha, pensando noutra solução.
Em 1993, defrontei-me com isso na presença de quarenta psiquiatras.
Formularam-nos a seguinte questão: “Como distinguir um mal psiquiátrico de um
espiritual?” Recordo-me de haver dito, em tal oportunidade, o seguinte: a diferença
se mostra mais clara quando o nosso intento é aplicar a cada paciente o melhor
tratamento. O mal psíquico é tratado com remédios, com meios naturais e
procedimentos de cunho psicológico. Ao contrário, quando o mal-estar é de origem
maligna, se não recorrermos aos meios sobrenaturais — orações, vida sacramental,
exorcismos, bênção, etc. —, dificilmente será possível livrar efetivamente dessa
doença. Algumas vezes será conveniente combinar as duas terapias.
Outro aspecto merece destaque especial. Por vezes, ao mal espiritual se
acrescenta, como consequência indireta, um distúrbio físico: tumores, dor de cabeça,
dores lancinantes nas articulações, no estômago, etc. Conforme já foi exposto acima,
ao tratarmos das vexações, pode ocorrer que, após serem feitos os exames clínicos,
contrariamente ao que seria de presumir, os resultados sejam negativos, sem
nenhuma evidência fisiológica de anormalidade. Então, os males podem cessar por
meio do procedimento dos exorcismos. Trata-se, nestes casos, de vexações diabólicas,
às vezes até muitos fortes, provavelmente causadas por um feitiço. Nem sempre,
porém, o discernimento é fácil. Deve-se analisar caso por caso, com muita oração.
A priori é impossível dizer a frequência com que descubro uma pessoa assim, pois
isso é muito variável, depende da situação de cada um. Habitualmente, deparo-me a
cada mês com um caso semelhante. Nas situações mais críticas, quando o tempo e as
minhas condições de saúde permitem, identifico mais alguns. Perguntará alguém: e se
o diagnóstico falhar e os problemas não forem de natureza espiritual? Respondo que
o exorcismo nunca faz mal.
Por vezes, perguntam-me acerca da maior ou menor eficácia de minha oração, se
tenho alguma ideia sobre isso. A minha resposta é negativa. Somente Deus age por
meio da oração. O exorcista, isto é, o que faz uma oração de libertação, normalmente
não se dá conta desde logo se a pessoa foi libertada ou se recebeu o benefício da
oração. É a própria pessoa exorcizada que me dá ciência disso — às vezes, muito
tempo depois de nosso último encontro.

O que acontece durante o exorcismo?


O que acontece durante o exorcismo às pessoas atingidas pela possessão? De início, é
bom dizer que normalmente uma pessoa atingida pela possessão deseja ser libertada
da influência demoníaca e, por isso, é ela quem costuma manifestar o desejo de ser
exorcizada. Conforme já fiz notar, pode surgir uma dificuldade na iminência da
prática do ritual, ou seja, quando a pessoa entra na sala de atendimento onde atua o
exorcista. Acontece, às vezes, que a pessoa começa a sentir mais intensamente a
influência do mal, manifestando estar nervosa e incomodada. Nessas situações mais
delicadas, entra logo em estado de transe, devendo ser contida. Por essa razão,
segundo já observei, é sempre útil, em casos do gênero, ter ao lado amigos ou
parentes, ou se possível, o pároco. Ao término do rito, quando a pessoa volta a si,
frequentemente mostra-se desanuviada, retomando o controle inteiro de si e chega até
a fazer tranquilamente uma oração e a trocar palavras comigo.
Durante o ritual, ordeno ao espírito imundo que diga seu nome — cada espírito
tem o seu — e quando sairá daquele corpo. Sem dúvida, como o príncipe da mentira,
procura sempre não responder ou fazê-lo de modo vago, quando não mente por
completo. Sendo obrigado a revelar o nome, não pode mentir, porque Deus impõe
que seja assim, à maneira de um sinal antecipado da libertação. Com efeito, o fato de
revelar o próprio nome debilita muito a sua força e é um indício encorajador para nós.
O mesmo pode ser dito quanto ao fato de saber quando sairá do corpo. Mas, também
quanto a isso, importa ser muito prudente: é raro que, no dia mencionado,
efetivamente se cumpra o que foi anunciado pelo espírito.
Alguns me perguntaram se a possessão se configura propriamente na forma
extrema como aparece no famoso filme O exorcista. A minha resposta é esta: somente
em parte. Trata-se de um filme feito com muita seriedade, mas não isento de
sensacionalismo. Os casos que os exorcistas enfrentam, na maioria das vezes, não são
tão graves. Dito isto, acrescento que realmente não faltam situações extremamente
violentas ou com a presença de manifestações verdadeiramente muito sugestivas. Por
vezes, nos casos mais violentos (que nem por isso são os mais difíceis de tratar),
entende-se que a pessoa deve ser imobilizada durante a prática do ritual, para impedir
que faça mal a si ou a outros. Igualmente por esse motivo, é de bom princípio ter ao
lado algumas pessoas que, presenciando a oração, estejam prontas a intervir,
segurando com força o possuído. Durante os exorcismos podem ocorrer fenômenos
muito particulares, tais como a glossolalia — isto é, o falar em línguas desconhecidas
ou estranhas —, os olhos que parecem girar fora das órbitas, a levitação. Com relação
a este ponto, relembro dois casos.
O primeiro diz respeito a um jovem mecânico, que trabalhava não muito longe da
minha comunidade em Roma. Ele começou a levitar antes mesmo de ser iniciado o
exorcismo, tão logo encostei a minha estola em seu ombro. Cinco pessoas não
conseguiram contê-lo.
O segundo caso me foi relatado pelo Pe. Candido. Ele exorcizou uma jovem
camponesa de 17 anos, mais acostumada a usar o dialeto local do que o italiano. Ao
recitar a fórmula em latim, um dos sacerdotes que acompanhava a moça começou a
interpelar o Pe. Candido. Esgotado, o exorcista disse-lhe em grego e em italiano
(certamente estava bem cansado): “Cala-te, submete-te.” De repente, a moça voltou-
se para ele, interrogando-o com ar satânico: “Por que me manda ficar calado? Diga
isso àquele que lhe faz perguntas sem cessar!”
Pode acontecer, em outras ocasiões, que o possesso cuspa pregos, vidros ou
cabelo. Tais objetos não são provenientes do esôfago, nem ferem os órgãos internos,
pois se materializam no momento em que são vomitados pela boca. Em consequência,
pode ser que as pessoas interessadas nos fenômenos do oculto, às vezes encontrem,
nas almofadas ou no colchão, ferro retorcido, arame farpado, cordões amarrados ou
objetos similares. Em outros casos, consegue-se até descobrir — depois de o demônio
ser interpelado durante a oração — o feitiço do qual se serviu o bruxo para
concretizar o ritual. Em cada um desses casos, os objetos devem ser queimados, para
que os vínculos sejam rompidos. Tenhamos, porém, cautela: é importante fazê-lo
sempre enquanto rezamos invocando o sangue de Jesus, sobretudo quando se está
agindo sob a indicação do demônio. Caso contrário, como aconteceu certa vez com o
Pe. Candido (quando era ainda marinheiro de primeira viagem), a pessoa incorre no
risco de um mal-estar, absorvendo os efeitos negativos do feitiço.
Por si sós, os fenômenos acima descritos não bastam para atestar uma possessão
diabólica, embora constituam indícios característicos. Com efeito, é possível que, ao
invés de possessões, sejam vexações diabólicas. Nessas circunstâncias, cabe a
prudente avaliação do exorcista, a fim de se chegar a um diagnóstico plausível.
Outra questão está relacionada com o tempo de duração do ritual. Neste quesito,
obviamente há variação de caso para caso. No enfrentamento com Satanás são muitas
e diversas as modalidades de desdobramento, não se podendo prever com
antecedência o que acontecerá. Digamos que o ritual, nos casos em que o possesso
não manifesta reações violentas, possui duração mínima de meia hora; já nos casos
mais graves, de horas.
Onde praticar o exorcismo? O Ritual em uso diz textualmente: “O exorcismo, se
for possível, celebre-se num oratório ou noutro lugar apropriado, separado da
multidão, onde esteja patente a imagem de Jesus crucificado. Também deve haver
nesse lugar uma imagem da Bem-aventurada Virgem Maria.” No que me concerne
— isto é, refiro-me à Pia Sociedade de São Paulo —, devo dizer que em algumas
ocasiões foram colocados à minha disposição lugares situados em pontos discretos de
nosso convento. Contudo, compete-me confessar que, ao longo de trinta anos, estive
em apenas dois ou três locais diferentes. O exorcista é tido como “pessoa incômoda”;
por isso, não é habitual que se esforcem para reservar-lhe um local recolhido e
adequado.
Também se comenta a respeito da posição que deve tomar o exorcista durante o
ritual. Nessa matéria, o Ritual não estabelece nada de específico, ou seja, é indiferente
estar à direita, à esquerda, de pé ou sentado. Estipula apenas que de começo ao fim,
ao serem pronunciadas as palavras “Eis a cruz do Senhor”, deve-se tocar com a ponta
da estola no pescoço do paciente e pôr a mão direita na testa do suposto
endemoninhado.
Por fim, uma pergunta, para qual é difícil dar a resposta: para onde vai o espírito
do mal assim que deixa o corpo da pessoa? Não podemos saber. Quanto a mim, em
Nome de Jesus, ordeno que retorne ao Inferno eterno, ou que se vá debaixo da cruz
de Jesus, único juiz que determinará para onde deve ir esse espírito.

Quanto tempo é necessário para haver a libertação?


Quantos exorcismos são necessários para libertar uma pessoa endemoninhada? Não
existe resposta para essa indagação. Nunca podemos antecipadamente saber após
quanto tempo o demônio sairá. Cada caso é único e não há previsão certa. Recordo-
me de casos em que o espírito maligno partiu depois de poucos encontros, assim
como de outros casos em que demorou anos para que isso acontecesse. Dado que
estamos no campo das potências invisíveis, não podemos formular prognósticos
exatos. É preciso situar-se sob a ótica da “permissão divina”. Deus permite que o
demônio se enfureça contra alguém durante muito tempo. É um mistério insondável:
por que Deus permite o mal e às vezes por longo tempo? Para promover uma
purificação? Para um bem maior daquela alma? Em reparação dos pecados, talvez
cometidos por outros? A resposta escapa de nosso poder de apreensão; para a
aceitação desse mistério, concorrem apenas muitas orações e muita fé.
Será que uma pessoa percebe qual o momento exato em que está sendo libertada?
O momento em que a libertação ocorre é determinado por Deus. Por essa razão, não
é previsível. Em certos casos, a pessoa simplesmente percebe que passaram as
perturbações que apresentava. Em outros episódios — e aqui me refiro aos casos mais
graves — a cura completa é muitas vezes precedida de um agravamento das situações
extraordinárias (a que estava sujeita a pessoa) e de uma intensificação dos
sofrimentos, com períodos de duração incertos. É o começo do fim do sofrimento.
Necessário conservar uma fé sólida e esperar. Também neste ponto o livro de
Francesco Vaiauso é esclarecedor: o período final foi para ele um verdadeiro
pesadelo, compensado ao término pela libertação completa. Algumas vezes, percebe-
se uma melhora: tanto a duração quanto a intensidade das crises progressivamente
diminui. Nesta fase, a questão está em “habituar-se” à cura.

Em que medida tem peso a fé do exorcista?


Em que medida a fé do exorcista tem peso para o exercício do seu ministério?
Muitíssimo. Há um episódio do Evangelho muito significativo a esse respeito. No
Evangelho de São Mateus (cf. 17,14-21), os apóstolos procuram expulsar o demônio
de um rapaz, mas sem êxito. Intervindo em favor dos apóstolos, a pedido do pai do
jovem, Jesus liberta-o prontamente. Diante de uma pergunta dos discípulos sobre a
ineficácia do exorcismo por eles feito, Jesus responde: “Por causa da incredulidade.
Porque na verdade vos digo que, se tiveres fé, como um grão de mostarda, direis a
este monte: passa daqui para acolá, e ele passará, e nada vos será impossível”. E no
Evangelho de São Marcos (9,29), segundo já vimos, acrescenta-se: “Esta casta de
demônios não se pode fazer sair, senão mediante oração e jejum.”
À luz dessas passagens do Evangelho, podemos assegurar que, se não cultivar
adequadamente sua vida de fé, um sacerdote que recebeu da Igreja o encargo de
exorcista, de fato, reduz a eficácia da sua ação de cura e libertação. Também no novo
Ritual aconselha-se ao exorcista a prática da oração e do jejum. É, pois, à vida de uma
particular santidade que, em razão mesmo de seu ministério, está chamado.
Comumente, em sua misericórdia, o Senhor leva em conta o esforço e o empenho da
pessoa. Se esta procura levar uma vida de santidade, creio ser suficiente. É igualmente
importante que rezem por si e pelas pessoas que acompanham. Religiosos e religiosas,
em grande número, dedicam-se a fazê-lo.
Também é de grande importância, sobretudo antes de dar início ao ministério do
exorcismo, invocar os santos, e entre eles, o patrono dos exorcistas, São Bento,
fundador do monaquismo ocidental. Bento era um monge leigo (não sacerdote,
portanto) e, graças à sua extraordinária fé, tinha grande capacidade de libertar os
possessos. Outro fator fundamental é a experiência adquirida diretamente e, mediante
a prática, fazer um paralelo com os colegas, além de fazer estudos sobre a matéria.
A tudo isso importa acrescentar que não é unicamente da boa vontade do
exorcista que dependem a eficácia da oração e da libertação. O Pe. Candido
Amantini, durante sete anos, exorcizou sem êxito Angelo Battisti — um dos mais
próximos colaboradores do cardeal Agostino Casaroli —, vítima de uma grave
possessão que se manifestara no mesmo dia em que se aposentou. Foi outro sacerdote
da Toscana, de menos projeção, que ao cabo de um mês conseguiu libertá-lo.
Depreende-se daí que tinha havido falta de santidade do Pe. Candido? Está longe de
ser o que penso! Pode haver alguma dúvida a respeito da vida de santidade do Pe.
Candido? Aí entram em conta outros fatores, que são igualmente decisivos e de difícil
avaliação: os planos de Deus, as disposições espirituais dos possuídos, o período de
tempo que transcorreu para que o espírito maligno se agarrasse muito mais à pessoa...
Acerca do caso citado, o Pe. Candido dizia-me que o que se semeia é o que se colhe,
conforme dispõe o Senhor.
Outra questão a ser levantada consiste em perguntar se o exorcista é vítima de
vexações diabólica por causa de seu ministério. O Diabo vinga-se dele? No que me
toca, a resposta é negativa. O bom Deus sempre foi indulgente para comigo, e espero
que continue a sê-lo no futuro. Percebo, porém, que alguns de meus colegas passaram
por distúrbios, como por exemplo, a perda do sono. Isso pode ser caracterizado como
vexações provocadas pelo Diabo, como uma espécie de vingança.
No ofício da libertação, será que um leigo pode ser mais eficaz do que um padre
exorcista? Sem dúvida, essa possibilidade existe. Na época de Santa Catarina de
Siena, no século XIV, quando não se conseguia libertar um endemoninhado,
costumava-se enviá-lo à santa que, em virtude de sua fé comprovadíssima,
frequentemente obtinha o que os outros exorcistas não conseguiam. Conforme disse,
o que conta é a fé.
Por outro lado, mesmo que difícil, teoricamente não é impossível que uma pessoa
promova a “própria libertação” dos males de feitiçaria. Jesus disse aos seus
discípulos: “Em meu nome expulsarão os demônios” (Marcos 16,17). Isso não se
aplica apenas à libertação dos outros, mas também de si próprio. O requisito prévio,
obviamente, está em viver na graça de Deus, recorrendo ao sacramento, invocando o
auxílio de Maria e dos santos, rezando com fé. É importante, contudo, dizer que a
pessoa espiritualmente transtornada não consegue viver plenamente esse desejo por
causa da repulsa ao sagrado, induzida pelo Diabo. Neste caso, a pessoa deve receber a
ajuda dos exorcismos.
Ao final, outro ponto a ser tratado concerne à eventualidade de que o exorcista
possa se enganar sobre a natureza do diagnóstico, especialmente quando tenta
diferençar males espirituais de males psiquiátricos. Nesse sentido, é sempre possível
recorrer a uma segunda opinião, solicitando um parecer de outro exorcista.
Entretanto, sem nunca exagerar: o consagrado provérbio “cada cabeça, uma
sentença” também se aplica aos graus de percepção e análise do exorcista.

Os ajudantes do exorcista
Já fiz alusão anteriormente ao fato de que o exorcista pode ser assistido por algumas
pessoas durante o ritual. Em meu caso, dificilmente dispensaria essa ajuda, embora
cada qual seja livre para agir como melhor lhe pareça. A presença de pessoas
qualificadas, isto é, comprovadas e preparadas para enfrentar tudo quanto possa
ocorrer durante o exorcismo, é muito importante por dois motivos. Primeiramente,
porque, graças às suas orações e presença, encarnam a presença viva da Igreja, a qual
ama e acolhe seus filhos, por estes intercedendo, sobretudo em favor dos que mais
sofrem. Em segundo lugar, para efeito de uma assistência material às pessoas que
estão sendo exorcizadas, visto que estas podem manifestar transtornos, tais como
provocar vômito ou movimentos bruscos e violentos, que possam machucar a si
mesmo e a outros. Prestar ajuda, no sentido de administrar fisicamente a situação, eis
o que entra na esfera de ação própria dos ajudantes.
Seja como for, eis o que o Ritual em uso diz a tal propósito: “Quando não há
nenhum grupo de fiéis presente, nem sequer um grupo pequeno — que é uma
situação também recomendada pela prudência e a sabedoria fundada na fé —, recorde
o exorcista que em si mesmo e no fiel atormentado já está a Igreja, e lembre isso ao
próprio fiel atormentado. Se algumas pessoas escolhidas forem admitidas à celebração
do exorcismo, sejam exortadas a orar instantemente pelo irmão atormentado, quer
privadamente quer do modo indicado no rito.”
Os assistentes dos exorcistas devem ser escolhidos com critério: importa que
tenham uma intensa vida espiritual, nervos em ordem, não sejam impressionáveis em
excesso, sejam capazes de guardar o segredo sobre a identidade das pessoas possuídas
e sobre as particularidades ouvidas durante a prática do ritual. Em que sentido?
Ocorre, por vezes, que durante o exorcismo o espírito maligno venha a falar.
Naturalmente, em se tratando de um demônio, na maior parte das vezes, contará
mentiras ou lançará insultos e blasfêmias. Seja como for, a respeito de tudo que diz, é
conveniente manter respeitoso sigilo. Isso também é válido, claro, para o exorcista.
Referindo-se aos assistentes, complementa o Ritual: “Esses [assistentes],
entretanto, devem abster-se de toda fórmula de exorcismo, seja por meio de oração,
seja por meio de ordem imperativa, pois essa função é reservada ao exorcista
exclusivamente.” Solicita-se, portanto, que jamais alguém se dirija ao espírito
maligno, direta ou indiretamente. Limitem-se, pois, a rezar.
O exorcismo local
Nas infestações locais (que analisamos, ao examinar a ação extraordinária de
Satanás), já foi comentado que esse gênero de atuação do Maligno atinge locais de
habitação e objetos de uso comum. Dispõe a esse respeito o Ritual de 1998: “A
presença do Diabo e de outros demônios manifesta-se ou concretiza-se não somente
nos casos de pessoas tentadas ou possuídas, mas também em relação a coisas e locais
que, desse ou daquele modo, são objetos da ação diabólica.”
Algumas vezes apresentam-se sinais evidentes de que certos ambientes e objetos
de uso doméstico estão infestados por Satanás. O elenco de exemplos é tão grande
que seria impossível fazer uma enumeração completa: aparelhos eletrônicos que
deixam de funcionar (fogão, televisão, computador); luz que, sozinha, acende e
apaga; estalos inesperados; gritos, pancadas na parede, tremores no chão ou na cama;
manchas de líquidos no lençol ou no travesseiro; invasão de insetos. Num caso assim,
inicialmente, pode-se pedir a um sacerdote que benza a casa, iniciativa que em
qualquer casa será recomendável. Após a bênção e ação de um sacerdote, também os
habitantes da casa poderão aspergir água benta e sal bento nos locais.
Para males extremos, grandes remédios: o exorcismo local. Como é feito o
exorcismo local? O Ritual prescreve um procedimento similar ao exorcismo dirigido
a uma pessoa, desde que a oração seja feita de forma imperativa. Cada exorcista
procura adaptar a oração a uma situação específica. No que diz respeito a mim, após
haver rezado com os anfitriões um Pai-nosso, uma Ave-maria e uma Glória ao Pai,
adapto a fórmula do Ritual de 1614, rogando a Deus que liberte a casa das infestações.
Em seguida, percorrendo cada recinto, rezo mais de uma vez a primeira parte do
exorcismo tradicional. Segue-se a aspersão do ambiente com água benta. Por fim,
faço o mesmo com incenso exorcizado, isto é, incenso bento com a fórmula oficial da
Igreja, mediante a qual se invoca a intercessão do arcanjo Miguel. Faço uso também
do sal, igualmente bento e exorcizado, borrifando-o nos quatro ângulos do cômodo,
especialmente naqueles em que os sinais da manifestação diabólica são mais visíveis.
Exorcismos por telefone?
A oração de exorcismo é sempre feita presencialmente; eis, porém, uma pergunta que
formulam com frequência: é possível fazer exorcismo a distancia — isto é, por
telefone ou por outro meio de comunicação, fazendo comunicarem-se, por meio de
áudio ou vídeo, o exorcista e a pessoa possuída? Respondo afirmativamente, mas não
para os casos da via ordinária. De fato, a regra básica consiste sempre em encontrar-
se pessoalmente, como prescreve o Ritual. O contato físico é sempre preferível: não
fosse por outra razão, bastaria lembrar que, no caso do exorcismo, derramam-se sobre
a pessoa os sacramentais do óleo e da água benta, e se efetua a insuflação. Feito a
distância, obviamente, revela-se impossível fazê-lo. Além do mais, durante o
exorcismo irrompe todo o poder da oração e frequentemente acontece que alguém
precise conter o possesso, a situação mais difícil de ser imaginada a distância.
Dito isso — levando em consideração que muitos dos meus “pacientes” vêm de
longe, a caminho de Roma, onde moro —, recorro por vezes aos exorcismos
telefônicos. Obviamente, somente o faço se a pessoa já é conhecida, e quando estou
assegurado de que se trata de uma possessão diabólica ou de outro transtorno
espiritual. Sem dúvida, não me disponho a exorcizar o primeiro que me telefona.
Que resultados se obtêm com isso? Em relação aos que recebo em meu domicílio,
quando procedo ao ritual diante das pessoas, praticamente o mesmo. Acontece
também que, quando o indivíduo cai em transe e o demônio começa a falar, eu o
interrogo e exijo, em nome de Jesus, que deixe o corpo do infeliz. Exatamente como
se dá pessoalmente. Todavia, quando estou a distância, para o caso eventual de a
pessoa vir a perder a consciência, exijo que se poste alguém ao lado da mesma,
segurando-a firme e impedindo-a de fazer mal a si mesma.
A Igreja autoriza o exorcismo por telefone? O exorcismo é um sacramental, e não
um sacramento. Este, evidentemente, não pode ser administrado a distância: não pode
haver confissão por telefone, nem casamento... No caso do exorcismo, digamos que
não é de uso corrente: é o dever pastoral de assistir essas pessoas, que muitas vezes
não conseguem encontrar um exorcista nas proximidades do respectivo domicílio,
que me compele, excepcionalmente, a fazê-lo. Se todos os bispos cumprissem o seu
dever e nomeassem, como é de obrigação, pelo menos um exorcista em cada diocese,
jamais se teria tal problema.

À procura do exorcista
Qual o meio de localizar o exorcista encarregado pelo bispo da própria diocese a fazer
o acompanhamento dos casos de possessão? A primeira coisa é recorrer aos ofícios da
cúria e pedir informações. Lá devem constar os nomes dos sacerdotes aos quais foi
conferido esse encargo. Algumas vezes, porém — conforme me dizem muitas pessoas
que acompanho —, há o risco de não encontrar resposta concreta, sobretudo se as
pessoas às quais nos dirigimos não forem exorcistas. Nesse caso, é preciso procurar
alguém de fora da diocese. E, então, começa uma longa peregrinação, talvez de
centenas de quilômetros. E, talvez, sejamos obrigados a fazê-lo, anos a fio, até a
libertação. Com cansaço e despesas consideráveis.
A esse propósito recordo que é dever estrito de todo bispo nomear um exorcista
ou, não havendo, a ele mesmo cabe fazer essa oração na Igreja, da qual é o titular por
excelência. De fato, quando não é providenciado pelo bispo, não há outro que possa
preencher essa lacuna. A consequência é que — realidade que eu e meus colegas
exorcistas comprovamos diariamente — as pessoas que sofrem de males espirituais se
veem na necessidade de empreender não sei quantas “viagens de peregrinação
forçadas”, à procura dos exorcistas. Quanto a estes, por sua vez, sendo pouco
numerosos, ficam onerados de trabalho, uma vez que acolhem pessoas de fora da
diocese. Fico angustiado quando penso que há nações inteiras nas quais os exorcistas
sequer dão o ar de sua presença.
Note-se, pois, que, da parte dos escritórios da Cúria, podemos receber respostas
evasivas. Neste caso é uma procura meio às escuras sobre o nome dos exorcistas e os
lugares em que atendem. Em meio a muitos impostores e falsos libertadores que estão
em circulação, aconselho que, delicadamente, procurem ter certeza de que se trata
mesmo de um sacerdote encarregado pelo bispo. Com efeito, não é raro o caso de
que, na ausência de exorcistas, pessoas sem escrúpulos e com muita ânsia de lucros —
obviamente mediante polpudas contribuições — prometam destruir malefícios ou
feitiços com “ritos em direção contrária”. E, por esse modo, acaba-se agregando
feitiçaria a feitiçaria, o que só leva a piorar a situação.
O que fazer quando não se encontrar nenhum exorcista? O último recurso é
endereçar-se aos grupos da Renovação Carismática Católica que atuam na região.
Embora seja verdade que nem todos gozam de igual confiabilidade — o que depende
principalmente de quem os dirige —, mesmo assim são lugares nos quais,
geralmente, por meio da oração, podem ser obtidos benefícios concretos e imediatos.

A Associação Internacional dos Exorcistas


A Congregação para o Clero, no dia 13 de junho de 2014, aprovou os estatutos da
Associação Internacional de Exorcistas (AIE), da qual fui fundador e que presidi de
1994 a 2000. Alegrei-me muito por presenciar ainda na terra, antes do Céu, a
aprovação dessa associação, que com toda minha alma sempre desejei, juntamente
com outros colegas exorcistas. Pelos fins da década de 1980, paralelamente à
diminuição da fé em nosso país e em toda Europa, dei-me conta de que havia
aumentando exponencialmente o número de pessoas que se dedicavam à prática do
ocultismo e que procuravam feiticeiros. Por outro lado, os exorcistas expunham-se ao
risco de agir por conta própria, sem compartilhar as próprias experiências. Contudo,
percebem agora que o confronto e a atualização teológica são indispensáveis.
No começo da década de 1990, reuni um primeiro grupo e assim dei início à
Associação Italiana dos Exorcistas, que se desenvolveu muito nos anos seguintes. A
seguir, juntamente com o exorcista francês René Chenessau e com o teólogo René
Laurentin, organizamos o primeiro congresso internacional, em Ariccia. Nessa
ocasião decidimos fazer encontros bienais e esboçamos um primeiro estatuto.
O objetivo da associação é promover a primeira formação de base e a formação
permanente dos exorcistas; propiciar encontros de compartilhamento de experiências
entre os mesmos, tornando conhecido na Igreja o significado do ministério do
exorcismo, mediante a promoção de estudos dogmáticos, bíblicos, litúrgicos,
históricos, pastorais e espirituais sobre o exorcismo, bem como colaborar com
especialistas nos ramos da medicina e da psiquiatria, pesquisando mais a fundo as
relações entre males espirituais e desordens psíquicas.
Alegro-me pelo fato de que esse importante reconhecimento possa constituir um
estímulo, no sentido de fazer crescer a sensibilidade da parcela da Igreja que,
frequentemente isolada e abandonada, sofre na própria pele o drama de um mal de
feitiçaria. Almejo que, graças a essa aprovação, um número crescente de bispos
nomeie exorcistas para as respectivas dioceses, realidade que, entretanto, ainda está
longe de concretizar-se.
Hoje em dia fazem parte da AIE cerca de 250 membros em trinta países. A
maioria constituída de italianos.

Três pedidos ao Papa Francisco


Como contornar a endêmica falta de exorcistas? Certa vez um bispo comentou
comigo que não nomeava exorcistas porque tinha medo do Diabo. Outros confrades
não acreditam na existência do Diabo. Em outras situações, verifica-se que os
próprios bispos — que certamente desejariam nomear alguém — não encontram
sacerdotes disponíveis para o exercício desse ministério. Ou, quando encontram, os
candidatos não se aplicam seriamente aos estudos dessa matéria; em vez disso,
orientam os interessados a buscar o psiquiatra, ou, no máximo, dão uma rápida
bênção para libertá-los do tédio. Qual o resultado? Existem poucos exorcistas, e
todos sobrecarregados de trabalho.
Por que acontece isso? Creio que a razão principal esteja na falta de fé. Há
exorcistas nomeados pelos respectivos bispos que não creem na existência do Diabo.
Em outros casos, creem, mas sentem medo: é aí que se enganam gravemente,
imaginando que, sem fazer nada, os que sofrem espiritualmente se curarão por si. É
precisamente o contrário, como já apontei: quanto mais combatemos os demônios,
mais para longe vão!
Como remediar essa situação complexa que leva, muitas vezes, a esmorecer os
ânimos dos fiéis atingidos pelos males da feitiçaria? Se a Providencia me
proporcionar uma ocasião, procurarei o Papa Francisco a fim de fazer três pedidos.
Primeiro: reiterar a necessidade de que cada diocese tenha obrigatoriamente pelo
menos um exorcista. Segundo: que nos seminários seja retomado o estudo de
angelologia e demonologia, como se fazia outrora, e que os candidatos ao sacerdócio,
em vésperas da ordenação, assistam a, pelo menos, um exorcismo. De fato, muitos
desempenham o seu ministério pastoral sem ter ideia dessa realidade espiritual,
decorrendo o risco de deixar ao abandono essa porção do povo de Deus que padece
de males espirituais e que, mais do que ninguém, goza do direito de ver atendidas as
suas necessidades. Terceiro: que se estenda o ministério do exorcismo a todos os
padres, sem que haja necessidade de autorização especial, deixando a cada um a
liberdade de exercer esse ministério. De fato, desde o final da Antiguidade, o
ministério do exorcismo foi reservado aos bispos, o que me parece exagerado. Que
sentido há em fixar restrições para o exercício desse sacramental aos sacerdotes,
quando sabemos que estes, em virtude do sacramento da Ordem, dispõem do poder
de realizar incomparavelmente mais: especificamente, absolver os pecados e celebrar
o Sacrifício Eucarístico, sacramento que conforme diz a Lumen Gentium, é “fonte e
ápice de toda vida cristã”17? Por que não conceder a liberdade a todos os padres para
exercer esse ministério, desde que o desejem verdadeiramente?
Notas

14 O título da editio typica, promulgada pelo decreto da Congregação para o Culto Divino e para a
Disciplina dos Sacramentos, 22 de novembro de 1998, é De exorcismis et supplicationibus quibusdam.

15 Cf. Catecismo da Igreja Católica, n° 1667.


16 Cf. p. ex., Esorcisti e psichiatri [Exorcistas e psiquiatras], EDB, Bologna 2000, p. 10.

17 Cf. Constituição Dogmática Lumen Gentium, n° 11.


CAPÍTULO 6
OS OUTROS MEIOS DE LUTA CONTRA OS DEMÔNIOS

As orações de libertação e cura


Depois do exorcismo, são de grande alcance na luta contra os demônios as orações de
libertação e cura. Em que consistem? Em primeiro lugar, pode-se dizer que estas e o
exorcismo guardam certas semelhanças entre si. Ambas, com efeito, são orações
pronunciadas sobre a pessoa afetada por um mal espiritual, com a intenção de debelar
o influxo satânico sobre a mesma. Duas são as diferenças.
Primeiramente, enquanto o exorcismo, para efeito de libertar da influência do
Maligno, é a prece pública e oficial da Igreja, implicando, portanto, a autoridade
desta, transmitida por mandato episcopal, a prece de oração e cura, pelo contrário, é
uma prece de natureza privada, que se realiza na pessoa afetada pelos males de
feitiçaria, mas sem que a autoridade específica da Igreja esteja engajada, pois é de
exclusiva responsabilidade do sacerdócio ministerial do padre, que faz a oração, ou,
no caso de ser um leigo, do sacerdócio universal dos fiéis (conferido pelo Batismo).
Em segundo lugar, o exorcismo é exercido por uma só pessoa, isto é, o exorcista
(oficialmente designado pelo bispo), ao passo que a oração de libertação tende a ser
um ministério exercido de forma comunitária.
Espero não causar surpresa quando faço menção aos “leigos”. No Evangelho de
São Marcos, antes de subir aos Céus, diz Jesus: “E eis os milagres que acompanharão
os que crerem: expulsarão os demônios em meu nome; falarão novas línguas,
manusearão serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará mal”
(16,17). Jesus concedeu esse poder aos Doze apóstolos e, em seguida, aos 72
discípulos. Esse fato indica que Ele quis estender a cada um que crê Nele este poder.
Este é o fundamento das Escrituras para o exercício do ministério da libertação e cura.
É indiferente que seja homem ou mulher, podendo ser, em alguns casos, até uma
criança. A fé é o que importa. O poder de expulsar os demônios provém diretamente
de Jesus. Ninguém o pode tolher ou negar.
As orações de libertação, redescobertas no âmbito católico somente num passado
recente, são muito importantes porque libertam dos males de feitiçaria, e exercem a
função de um diagnóstico: permitem que se descubra se estamos ou não diante de um
caso de influência extraordinária demoníaca. Essas práticas normalmente são
exercidas por grupos de fiéis, tais como os da Renovação Carismática Católica,
movimento estabelecido nas últimas décadas na Itália e derivado dos pentecostais,
que inicialmente se desenvolveram nos Estados Unidos. A redescoberta dos carismas
— como, por exemplo, falar em línguas, curas, profecias e muitos outros — vem
sempre associada à libertação. Especificamente, a libertação de demônios, conforme
já disse acima, e como já tive oportunidade de escrever18, é condição prévia para cura
de algumas doenças físicas, as quais têm “ligação” com o Diabo. Uma vez efetuada a
libertação espiritual, manifesta-se também, imediatamente, a cura física.
Assim como ocorre durante o exorcismo, no momento da invocação do Espírito
Santo e da pessoa de Jesus, os indivíduos atingidos pelos males espirituais começam a
vivenciar situações de sofrimento, que se tornam evidentes de variadas formas. Em
certas ocasiões, os grupos mais organizados constituem pequenos núcleos que atuam
sobre essas pessoas, rezando e invocando a poderosa ação libertadora de Deus. Para
que essa oração tenha eficácia, é preciso haver muita fé, muito jejum. Esses são, sem
sombra de dúvida, os meios mais eficazes para derrotar Satanás.
Algumas vezes ouve-se críticas em relação a tais grupos. Encaro-os com muita
confiança. Quando se fala de orações de cura e de libertação não se pode ignorar os
efeitos positivos que hoje, como na Igreja apostólica de dois mil anos atrás, daí
tiveram origem. Conforme atestam os Atos dos Apóstolos, já nas primeiras
comunidades cristãs, entre as obras dos primeiros evangelizadores, constam
numerosas curas prodigiosas e libertação de possessos, confirmando a força do
anúncio evangélico da Ressurreição. “O Novo Testamento diz que Jesus conferiu aos
Apóstolos e aos outros primeiros evangelizadores um verdadeiro poder de cura das
enfermidades. [...] Esse poder foi comunicado no interior de um contexto
missionário, não para exaltar as respectivas pessoas, mas para confirmar-lhes a
missão19”, explica o Magistério da Igreja. Por mandato divino, a sua missão é, sem
dúvida, a de demonstrar o advento dos tempos messiânicos também por meio do
ministério da cura e da libertação.
Tratei pouco dos carismas. Para entrar nas minúcias, é importante dizer que a
Igreja ensina que “o significado do carisma, de si bastante amplo, é o do ‘dom
generoso’”20. O carisma é, pois, um dom do Espírito Santo, de que goza uma pessoa
em benefício da comunidade, e sem méritos particulares. Possuir um carisma não é
um mérito, e sim, mais propriamente, um dever, um serviço.
Quanto ao “carisma da cura”, São Paulo considera que isso não é uma
exclusividade de certa classe de fiéis (cf. 1 Coríntios 12): o critério é sempre e apenas
a liberdade do Espírito, que distribui esse dom “a cada um como quer” (v. 11). Por
isso, o Magistério afirma que “nas reuniões de orações organizadas com o objetivo de
obter curas, seria de todo arbitrário atribuir um ‘carisma de cura’ a uma categoria de
participantes, por exemplo, aos dirigentes do grupo; basta confiar-se à liberalíssima
vontade do Espírito Santo, que dá a cada um o carisma especial de cura para
manifestar a força da graça do Ressuscitado”.21 É preciso instruir os fiéis a não
“idolatrar” quem atua neste ministério, mas, por detrás das pessoas que se prestam a
esse serviço, reconhecer sempre e apenas o Espírito Santo.
Por fim, uma pergunta: quais são as preces de libertação? Em primeiro lugar, o
Pai-Nosso, quando dizemos “livrai-nos do Maligno”, que é a tradução exata, segundo
afirma o Catecismo da Igreja Católica. A diferença em relação ao “livrai-nos do mal”
é importante: o demônio tem natureza pessoal, individual. Outras orações podem ser
ditas, usando expressões do gênero: “Protegei-me das tentações”, ou “Em nome de
Jesus, eu te ordeno, Satanás: sai!”. O rito dos exorcismos, na sua parte final, contém
algumas formulações que podem ser úteis, de acordo com as necessidades.

Maria, Mediadora de todas as graças


“Por fim, meu Imaculado Coração triunfará.” Diante do pecado que extravasa e do
homem que abandonou a Deus, considerando-o apenas uma aparência enganosa para
frear sua descomedida liberdade, a profecia de Maria, em Fátima, assegura-nos que as
tribulações da Igreja terão um fim. E o fim será bom: Deus dará a última palavra na
história. O corpo a corpo com os demônios, isto é, o exorcismo, antecipação terrena
da luta escatológica entre a Mãe de Deus e o antigo dragão (cf. Apocalipse 12), não
pode, portanto, prescindir da Virgem. Por isso, durante o ritual do exorcismo, Maria
é invocada sempre, ainda que, a bem da verdade, o velho Ritual não prescreva
expressamente uma invocação a ela. Na experiência prática que adquiri junto ao Pe.
Candido, contudo, sempre acrescentava o nome dela nas três fórmulas do exorcismo.
É necessário fazê-lo: o Ritual em vigor corrigiu essa lacuna. Durante a oração, o
sacerdote invoca várias vezes sua poderosa intercessão. Lutar contra Satanás e não
invocar a Maria são duas coisas que mutuamente se excluem. Quem liberta do influxo
maligno é Deus — nunca é demais deixar isso claro —, mas Ele tem sempre o ouvido
atento à mediação de Maria, Mãe de seu Filho.
Qual o papel da Virgem na libertação dos possessos? Conforme diz a oração da
Ave-maria, ela é “cheia de graça”. É a Mediadora da graça junto a Deus, em favor de
todos os homens, particularmente dos que mais sofrem. E, por ventura, as pessoas
que mais sofrem não são certamente as que padecem de males espirituais? Além do
mais, a missão de Maria é condizente com a de Mediadora universal de todas as
graças. A inimizade entre Maria e Satanás — proclamada solenemente no livro de
Gênesis (cf. Gênesis 3,15) e manifestada na luta escatológica com o dragão — faz
com que ela seja a inimiga número um de Satanás. Caberá a ela, ao final dos tempos,
esmagar a cabeça deste.
Todavia, o auxílio da Virgem vai além das situações excepcionais dos
endemoninhados. Em todas as formas de luta do homem contra Satanás e contra o
pecado, é sempre ela que representa a ajuda extraordinária e insubstituível. O Diabo a
teme; para ser mais claro, menciono um episódio que tive ocasião de presenciar, faz
muitos anos. Durante um exorcismo, o Pe. Candido interpelou o Diabo nestes
termos: “Por que você demonstra ter mais medo quando invoco Maria do que
quando rogo ao próprio Deus?” Teve como resposta: “Porque ser vencido por uma
simples criatura é algo que me humilha mais do que ser vencido pelo próprio Deus.”
Maria é uma criatura como nós; entretanto, elevada à condição de Mãe de Deus,
possui um poder extraordinário. Por isso espero que as pessoas que assistem ao meu
exorcismo também rezem o rosário, que é a prece mais aconselhável nesse contexto, e
pode ser feita tanto em voz alta e comunitariamente, como acontece na igreja antes da
Missa, como também individualmente, para não perturbar a boa execução do
exorcismo. Direi mais: sendo o rosário a prece mais grata a Nossa Senhora, é uma
potentíssima arma contra o Diabo, razão pela qual eu o aconselho a quem sofre de
males espirituais. Essa oração contém, de fato, um grande poder de proteção e
libertação do mal. Certo dia, a irmã Lúcia, uma das três crianças de Fátima, revelou
que Deus concedeu um poder tão grande ao rosário que não existe mal de nenhuma
espécie — seja particular, familiar ou social — que não possa ser vencido pela sua
recitação, feita com fé.
Que podemos pedir, então, a Maria no rosário? Em Medjugorje, na Bulgária,
outra coisa não se faz senão repetir, há trinta anos, que essa oração é fundamental
para a paz. Não há outra coisa a pedir que não seja o dom da paz. Para o mundo, sem
dúvida, mas também para cada um de nós; pela serenidade de nosso coração, para que
alcancemos a graça de aceitar nossas cruzes, para que saibamos reconhecer os dons
que, a cada dia, recebemos do bom Deus, e agradecer-Lhe por isso. É igualmente
importante rezarmos o rosário em família, todos juntos, para invocar a concórdia em
nossas casas e em nossas comunidades paroquiais, nos lugares de trabalhos, nas
nações e no mundo. A divisão das almas e a guerra são sinais inequívocos da presença
do Diabo, cujo significado etimológico, em grego — não por acaso — é “aquele que
divide”.
Recordo que no dia 25 março de 1984, São João Paulo II consagrou o mundo a
Maria. Representou um gesto muito importante numa época em que o comunismo
representava uma ameaça explícita ao cristianismo. Durante um exorcismo, quando
perguntei a um espírito imundo que perseguia uma pessoa qual o motivo pelo qual
tinha tanto ódio do papa, respondeu-me assim: “Ele destruiu os nossos planos.”
Suponho que se referisse à derrocada do comunismo. Em Fátima, por outro lado, a
Virgem afirmou: “Meu Imaculado Coração triunfará.”
Que significado extrair daí senão que se deve confiar no Senhor e na ajuda
materna de Maria, e fazê-lo sempre? Sobretudo, em face do risco de desânimo, que
arma ciladas a todos, mas que, no caso dos males espirituais, pode tornar-se um
perigo, porque frequentemente os resultados tardam a se manifestar. Significa que,
com a ajuda de Maria, devemos esforçar-nos para deixar que Deus nos converta a Ele;
para que saibamos fazer a Sua vontade, que está sempre na ordem do perdão e do
amor. Igualmente, para que saibamos fazer de cada acontecimento uma ocasião de
santificação e de realização do plano de Deus a respeito de cada um de nós. Maria
leva-nos a Jesus, pois foi a primeira que se deixou tocar intimamente pelo Espírito
Santo, gerando Jesus no tempo.

A intercessão dos santos


Os santos no Céu intercedem por nós com grande poder e eficácia. Devemos rezar
muitas vezes a eles. Assim como professamos no Credo, juntamente com eles e com
as almas do Purgatório, constituímos o que se denomina de “Comunhão dos Santos”.
Vale a pena ler com atenção o que transmitiu a esse respeito o Concílio Vaticano II:
“Deste modo, enquanto o Senhor não vier na Sua majestade e todos os Seus anjos
com Ele e, vencida a morte, tudo Lhe for submetido, dos Seus discípulos uns
peregrinam sobre a terra, outros, passada esta vida, são purificados, outros,
finalmente, são glorificados e contemplam ‘claramente Deus trino e uno, como Ele é’;
todos, porém, comungamos, embora em modo e grau diversos, no mesmo amor de
Deus e do próximo, e todos entoamos ao nosso Deus o mesmo hino de louvor. Com
efeito, todos os que são de Cristo e têm o Seu Espírito, estão unidos numa só Igreja e
ligados uns aos outros Nele.”22
Eis um motivo importante que nos leva a esperar a vitória na luta contra o Diabo,
e também na superação da angústia e do sofrimento que nos martiriza às vezes. Com
os que já gozam da visão de Deus no Paraíso, há um intenso intercâmbio de bens
espirituais: “Porque os bem-aventurados, estando mais intimamente unidos com
Cristo, consolidam mais firmemente a Igreja na santidade, enobrecem o culto que ela
presta a Deus na terra, e contribuem de muitas maneiras para a sua mais ampla
edificação em Cristo [...] A nossa fraqueza é assim grandemente ajudada pela sua
solicitude de irmãos.”23
Para quem se vê oprimido ou possuído, a invocação dos santos durante o ritual
do exorcismo manifesta essa forma de confiança da Igreja na presença desses bem-
aventurados. À margem disso, na oração pessoal, é aconselhável recitar
frequentemente a ladainha dos santos, escolhendo os próprios patronos ou aqueles
pelos quais temos especial devoção. A presença dos santos também se opera por meio
do culto e do uso das relíquias, que embaraçam fortemente a ação demoníaca, como
me referi há pouco. Por outro lado, não devemos esquecer que também as almas do
Purgatório podem interceder por nós e que justamente são invocadas para a
libertação das influências demoníacas. Oferecer os próprios sofrimentos espirituais
para que se abrevie o tempo de purificação dessas almas, eis outra obra sem dúvida
digna de mérito.
Quais santos mais especialmente invocar, nos casos dos que foram atingidos pelos
males de feitiçaria? Aconselho a invocação dos santos que sofreram as mesmas
moléstias. Assim, por exemplo, a Beata Eustóquia, cujo nome era Lucrezia Bellini,
freira beneditina de Padova que viveu no século XV. Falecida aos 25 anos, já aos
quatro anos estava possuída. Também durante a sua vida de religiosa, que começou
aos 18 anos, esteve gravemente sujeita a essa possessão, a qual suportou santamente
com o objetivo de expiar a culpa dos que desde o nascimento padeciam, sem culpa,
dessas mesmas tribulações. As demais freiras maltratavam-na muito em razão do
distúrbio que a distanciava da vida comunitária do monastério. Somente uns dias
antes de sua morte souberam ter vivido ao lado de uma santa. Ainda hoje muitas
pessoas costumam rezar diante da sepultura dessa santa na Igreja de São Pedro,
implorando a graça da libertação.
Quanto a mim, quando pratico os exorcismos, noto muito a forte presença de são
Pedro de Pietrelcina, de Santa Catarina de Bologna e de São João Paulo II. Com
refêrencia a este, sei, de fonte segura, que, em sua capela privada no Vaticano,
praticou pessoalmente três exorcismos. Quando pronuncio esse nome, os demônios
se enfurecem.
Uma questão final: o demônio pode pronunciar o nome dos santos?
Normalmente, não. Pode suceder que alguns demônios façam referência a Deus, à
Virgem e a alguns santos. Quando o fazem, no entanto, em relação a cada um, sentem
verdadeiro terror. Jamais sucede que se refiram diretamente aos nomes de uns e de
outros; quando são obrigados a mencioná-los, fazem uso só de perífrases. Assim, por
exemplo, quando se dirigem ao sacerdote que está praticando o exorcismo, dizem,
para se referir a Jesus: “o teu chefe”, o “teu superior”; sobre Nossa Senhora, “aquela”
ou “a rapinadora das almas”; aos santos, por sua vez, de “assassinos”. Por quê?
Porque, graças às preces que os exorcistas fazem, arrancam as almas das garras dos
demônios. Constitui evidente confirmação de tudo quanto já dissemos.

A ajuda dos anjos


E os anjos, qual o papel que têm nisso? No terceiro capítulo, já discorremos sobre a
escolha feita por eles, pró ou contra Deus. A palavra “anjo” deriva do grego angelos,
que significa “enviado”, “mensageiro”. Os anjos são criaturas espirituais, isentas de
matéria. São formas puras, de natureza diversa da nossa, que temos uma porção
material e outra espiritual unidas. Os anjos se subdividem em hierarquias, segundo a
missão que lhes foi confiada por Deus. Não podem reproduzir-se, nem morrer.
Foram criados diretamente por Deus. Desde o momento em que nascemos, a
Providência divina designa um anjo da guarda para cada um de nós, com a missão
específica de proteger-nos, assistir-nos e interceder para que, ao fim de nossa vida,
possamos alcançar nossa destinação última, isto é, o Paraíso.
Conforme também foi visto, sabemos que muitos anjos, legiões inteiras,
escolheram a trágica via de rebelião contra Deus, recusando-se a obedecê-Lo e a
adorá-Lo, pretendendo, de fato, ocupar o lugar Dele. Em consequência dessa escolha,
os demônios alteraram radicalmente a sua missão; a partir daí, passaram a fazer uso de
sua privilegiadíssima inteligência com o único fim de destruir os homens e destes
fazer seus companheiros de infortúnio. Essa guerra dantesca, travada nos céus entre
anjos e demônios, como vem narrada no Apocalipse, de fato, também tem seu campo
de operação na terra: nossas existências, nossos corações.
De tudo isso, podemos afirmar, a respeito dos anjos que continuaram fiéis a
Deus, que possuem certo poder contra as tentações ordinárias e também os próprios
males extraordinários. Por quê? Porque são da mesma natureza dos demônios,
fazendo uso, no combate, das mesmas armas espirituais. Os anjos intercedem junto a
Deus em favor de quem está tentado; por isso, nós, exorcistas, sempre os invocamos
por ocasião das orações feitas sobre os possessos. Entre os anjos, conferimos
precedência aos três arcanjos, e, em grau máximo a São Miguel, poderosíssimo na luta
contra o demônio. Em consequência, alinhamo-nos com aqueles que deploram o fato
de que, após o Concílio Vaticano II, tenha sido suprimida a oração de São Miguel
Arcanjo, que era rezada imediatamente depois da Missa. Parece-me ter sido isso um
grande empobrecimento. De qualquer modo, cada um de nós podemos livremente
rezá-la, em qualquer momento.
Antes de concluir, convém invocar o arcanjo São Miguel com frequência, para
além dos males espirituais extraordinários. Recomendo também que se peça sempre a
proteção de nosso anjo da guarda, o qual possui um poder especial de intercessão
junto a Deus, que está sempre na origem de toda libertação. Os anjos ajudam,
intercedem, mas, de si, não gozam do poder de libertar dos efeitos nefastos do
demônio.

Objetos sagrados e bentos


No embate contra Satanás podemos fazer uso de objetos bentos. Essa prática é sempre
aconselhável para todos, independentemente dos específicos problemas espirituais. É
sempre desejável conservar em casa imagens sagradas, figuras ou oratórios bentos,
objetos sagrados, como sinais de nossa fidelidade e pertença a Deus. Isso constitui
uma forma de proteção contra o Maligno, porque aviva em nós a lembrança contínua
da nossa consagração que, no Batismo, fizemos à Santíssima Trindade. São
igualmente importantes porque constituem uma forma de testemunho visível para os
que moram conosco e para os que visitam a nossa casa.
É seguramente boa iniciativa trazer consigo no bolso ou no corpo objetos bentos.
Me vem à mente a medalha de São Bento, que costuma vir presa ao crucifixo.
Recordo, ainda, a Medalha Milagrosa onde Maria está representada com estes dizeres:
“Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós, que recorremos a vós”. Foi assim
que, em 1830, a Virgem apareceu em Paris, na Rua du Bac, a Catarina Labouré. Na
outra face da medalha há um grande “M”, cujo significado é também “Maria”, e dois
corações, o de Jesus e o de Maria: tudo para deixar claro — conforme foi revelado em
1917, em Fátima — que devemos rezar conjuntamente para a Mãe e para o Filho.
Podemos citar ainda outros objetos: escapulários, imagens de santos, relíquias.
Nada disso — convém esclarecer — deve ser entendido como uma forma de
condescendência com a superstição. Tais objetos só têm verdadeiro significado
quando baseados numa fé concreta, feita de caridade e operosidade. Se forem
carregados como talismãs e amuletos, estaremos tomando uma atitude irracional,
gravemente contrária à fé. O Papa Francisco corrobora isso na exortação Evangelii
Gaudium. O título desse documento, cuja tradução significa “a alegria do evangelho”
exorta cada um a “renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou,
pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de O procurar dia a dia
sem cessar”.24 Assim, essa é a fé, o encontro pessoal com Jesus. O único caminho que
verdadeiramente muda a vida, liberando-nos de nosso egoísmo.
Voltemos a tratar dos objetos bentos. Há uma passagem da Bíblia que comprova
como são importantes: “E Deus fazia milagres não vulgares por mão de Paulo; de tal
modo que até sendo aplicados aos enfermos, os lenços e aventais que tinham tocados
no seu corpo, não só saiam deles as doenças, mas também os espíritos malignos se
retiravam” (Atos 19,11-12). A minha experiência de exorcista comprova que o
demônio sente natural repulsa por todos os objetos sagrados, assim como por todos
os instrumentos da vida cotidiana que tenham sido benzidos — automóveis,
utensílios, etc. —, pois, desse modo ficam diminuídos, ao todo ou em parte, ao poder
maligno. Também por isso é de boa lei benzê-los.
É comum quem tiver sido atingido por algum mal de feitiçaria perceber
imediatamente quando está em presença de um objeto bento. A esse respeito,
chamou-me a atenção o caso de uma mãe que sofria muito em razão das atitudes
violentas e, às vezes até enfurecidas (chegando por vezes a blasfemar) de seu filho,
jovem mecânico de profissão. Formas de conduta que apareceram de repente na vida
do rapaz. Ele crescera tranquilamente numa família sadia e jamais demonstrara
inquietações particulares, nem propensão à violência. Certo dia, no entanto, a mãe
mandou benzer as roupas do rapaz. Quando ele voltou do trabalho, ao sair do banho,
vestiu essas roupas. Poucos segundos depois, tirou tudo às pressas, quase rasgando
nas costas, e recolocou em seguida o traje de trabalho. Pois bem, jamais voltou a usar
as roupas que haviam sido benzidas, deixando-as no guarda-roupa bem à parte,
separadas das outras que não o estavam. Visivelmente, esse jovem precisava de
exorcismos.
Esses objetos devem ser benzidos preventivamente? Certamente. Eu o afirmo
tendo consciência de que o significado da benção não é o de conferir ao objeto uma
proteção mágica, quase à maneira de um “superpoder”. Assim como diz muito bem a
oração da bênção, pronunciada pelo sacerdote, trata-se de pedir a Deus a graça de
incrementar a virtude em nossa vida cotidiana e de obter a proteção e intercessão de
Deus, por meio da pessoa que está representada ou invocada no objeto. Causa-me
espanto quando — em automóveis, locais públicos e casas particulares — deparo
com uma imagem sagrada ao lado de búzios contra a má sorte ou de ferradura de
cavalo. Que relação há entre uma coisa e outra? A esse propósito, lembro-me de um
caso particular, que relatei muitos anos atrás na Rádio Maria. Chamaram-me para
benzer uma casa, porque as pessoas que lá moravam percebiam presenças “estranhas”
no local. Assim que entrei, não vi nenhuma imagem sagrada na parede. O que foi que
encontrei, assim que me abriram a porta de entrada? Um imenso búzio vermelho...
Isso me irritou muito e repreendi as pessoas que me haviam convidado. Disse:
“Como vocês podem querer resguardar-se do mal, pendurando na porta tais
amuletos? Não percebem que, como símbolos de superstição, são objetos maléficos?”
Em conclusão, levar objetos e pessoas ao padre para receberem uma bênção, isso
é iniciativa oportuna, mas sem cair na superstição. Por isso convido os meus colegas
sacerdotes a benzer sempre quando pedem os objetos dos fiéis.

Sal, água e óleo bentos: aliados na luta contra o Maligno


Sal, óleo e água bentos ou exorcizados, segundo as disposições do Ritual das Bênçãos,
são sacramentais. Trata-se de instrumentos louváveis e úteis, desde que a sua ação
tenha fundamento na fé. Nem mesmo os exorcistas, muitas vezes, medem a
importância disso. A água benta, aliás, em substituição ao ato penitencial, pode ser
usada na Celebração Eucarística para aspergir no povo.
Quem pode benzer e exorcizar esses elementos? Qualquer sacerdote, recitando a
oração fixada no Ritual das Bênçãos para exorcizar e benzer a água, o sal e o óleo. Na
oração da bênção, pede-se a Deus que, mediante a aspersão com água benta, sejam
obtidos o perdão dos pecados, proteção contra o Maligno e o dom do amparo divino.
Quando feita sobre a água, a oração do exorcismo consegue fazer com que o poder
dos demônios fuja, sendo assim erradicado, expulso. De fato, como poderiam
“demônio” e “água santificada” ficarem lado a lado?
O óleo bento, quando aplicado a uma pessoa, tem o mesmo efeito de proteção.
Utilizo esse óleo — que considero muito eficaz — nas pessoas endemoninhadas ou
espiritualmente transtornadas, que foram objeto de algum sortilégio, mediante a
ingestão de alimentos ou bebidas enfeitiçadas. Tais pessoas, muitas vezes, manifestam
sinais externos, tais como dores de estômago, soluços, estertores, ao passarem por
uma situação de “estresse espiritual”, ou seja, durante o exorcismo, a Missa, uma
oração qualquer, etc. A cura, nestes casos, configura-se com a expulsão dos objetos
ou substâncias orgânicas aos quais haviam sido “incorporados” os feitiços. A unção
com óleo bento e a ingestão de água benta são muito úteis nessa delicada ocorrência.
O sal bento serve, sobretudo, para proteger locais da influência do Maligno.
Habitualmente, conforme já tive ocasião de explicar, deve ser jogado na entrada da
casa e nos cantos dos vários quartos que consideramos infestados.
Notas

18 Cf., p. ex., Esorcisti e psichiatri [Exorcistas e psiquiatras], cit., pp. 144-5.

19 Cf. Instrução sobre as orações para alcançar de Deus a cura, cit., n° 1.


20 Ibidem, n° 3.

21 Ibidem, n° 5.
22 Cf. Lumen Gentium n°. 49.

23 Ibidem.

24 Cf. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, n° 3.


CAPÍTULO 7
PRINCÍPIOS DE ESCATOLOGIA CRISTÃ: MORTE, JUÍZO, PARAÍSO,
PURGATÓRIO, INFERNO

Paraíso, reino do amor


A título de conclusão deste livro, desejo fornecer algumas noções basilares de
escatologia cristã, que devem proporcionar ocasião de grande esperança a todos —
de modo particular, aos que sofrem de males de feitiçaria —, em razão da
Ressurreição de Cristo. A nossa vida, isto é, a nossa peregrinação terrena, não
constitui fruto de uma cega casualidade, mas se ordena para o bem maior da amizade
definitiva com Deus.
Comecemos, então, propriamente do Paraíso, meta a qual fomos criados. “Os
que morrerem na graça e na amizade de Deus e estiverem perfeitamente purificados,
viverão para sempre com Cristo. Serão para sempre semelhantes a Deus, porque o
verão ‘tal como ele é’ (1 João 3,2), ‘face a face’(1 Coríntios 13, 12)”25. A nossa fé
assegura que no Paraíso gozaremos da “visão” de Deus; ou seja, nós nos tornaremos
partícipes desta mesma felicidade de que gozam as pessoas divinas entre si: felicidade
imensa, impossível de ser medida, consignada no viver “em”, “com” e “pelo”
Senhor, objetivo último de toda criatura. “Pela Sua morte e Ressurreição, Jesus
Cristo ‘abriu-nos’ o Céu. A vida dos bem-aventurados consiste na plena posse dos
frutos da redenção operada por Cristo, que associa à sua glorificação celeste aqueles
que Nele acreditaram e permaneceram fiéis à Sua vontade. O Céu é a comunidade
bem-aventurada de todos os que estão perfeitamente incorporados Nele”26.
Seremos modificados? Seremos sempre nós mesmos? Que será feito de nossa
identidade? Os eleitos — isto é, os que ascenderem ao Paraíso — viverão em Deus,
conservando sempre, porém (aliás, precisamente nesse ponto encontrando a
plenitude), a verdadeira e própria identidade de cada um, ou seja, especificamente o
nome que corresponde a cada pessoa.27 O mesmo Catecismo esclarece que o Paraíso
vai além de toda nossa capacidade de entendimento, indicando ademais que a Bíblia o
descreve por meio de algumas imagens, intuitivas e simples: “vida”, “luz”, “paz”,
“banquete de núpcias”, “Jerusalém celeste”28. São meras experiências humanas que se
usam por analogia; entretanto, dão apenas uma pálida imagem do que será a vida
eterna. Quando nos referimos a isso, de fato, mal conseguimos balbuciar alguma
coisa.
No que concerne à condição dos beatos, pois, não temos muitas afirmações a
fazer: conforme foi mencionado, a Revelação se exprime por alusões, metáforas.
Reportemo-nos a São Pedro e à sua experiência no episódio da Transfiguração (cf.
Mateus 17,1-8; Marcos 9,2-8 e Lucas 9,28-36), que, aliás, jamais menciona em suas
cartas; ou também de São Paulo, quando relata ter sido “arrebatado até ao terceiro
céu” (2 Coríntios 12,2), mas sem entrar em pormenores, deixando apenas
subentendido tratar-se de um estado de plena beatitude (2 Coríntios 12,4: “E ouviu
palavras inefáveis que não é lícito a um homem proferi-las”). O que sabemos é que
nossos caros entes falecidos, os quais doravante vivem em Deus, no mais alto do Céu,
a nós veem, acompanham e amam; estão sempre ao nosso lado, intercedendo a nosso
favor. Assim, quando, por misericórdia divina, estivermos reunidos a eles, na outra
vida, sem dúvida teremos como os reconhecer, embora as nossas relações lá passem a
ser diferentes, porque isso ocorrerá em Deus, na plenitude total de seu amor.
Uma pergunta aparece naturalmente: uma vez que a Santíssima Trindade é
perfeita e absolutamente suficiente por si só, que necessidade teria de plasmar também
as criaturas, homens e anjos? De fato, nenhuma, pois nada se Lhe acrescenta. Se o faz,
é somente por amor, gratuito e incondicionalidade para conosco. Quanto a
benefícios, isso só se aplica a nós: a obtenção do Paraíso, isto é, a meta final de toda a
criação, que é a contemplação de Deus, a qual nos será descoberta para sempre. Na
eternidade de Deus, todos se amam imensamente. Paraíso: amor, alegria e paz, dos
quais todos tomam parte...
Como podemos teoricamente imaginar o Paraíso? Um pouco à maneira de
“degraus”, como uma escada. Aliás, também assim é o Inferno, “construído” do
mesmo modo. Explico-me melhor: existem graus diversos de participação na alegria e
no amor de Deus. Tais graus estão relacionados, no que se refere aos homens, com o
estado de santidade, maior ou menor, alcançado nesta vida. Assim, por exemplo,
distintas serão as formas de alegria de São Francisco de Assis e do Bom Ladrão. Em
conformidade com as diferenças entre os homens nessa terra, assim serão também no
Paraíso. Mais ou menos como o que acontece com as estrelas do céu: existem as que
brilham mais e as que brilham menos. Do mesmo modo é o que sucederá com os
homens na Ressurreição gloriosa, quando todos serão gloriosos, mas em medidas
diversas. Cada um terá o máximo de esplendor e felicidade de que pessoalmente for
capaz, com base no modo como viveu. Existirão os que têm uma capacidade maior e
o que têm uma capacidade menor, sem que haja inveja ou ciúme de uns em relação
aos outros. Assim, reinará plena alegria de um pelo outro, pela glória que cada qual
particularmente possui. A esse respeito, me vem ao espírito um trecho de Dante, na
Divina Comédia: “Em sua vontade está a nossa paz”. No Paraíso não há ciúmes, pois
cada um percebe que está em harmonia com a vontade de Deus, e nisso se encontra a
paz. Paz eterna e definitiva, da qual estarão apagadas todas as lágrimas, dores e
invejas.

As almas no Purgatório
O Purgatório é o lugar, ou melhor, o estado onde se encontram as almas que não
foram admitidas imediatamente à contemplação da face de Deus, mas que necessitam
antes de uma purificação. Por que há necessidade de uma purificação? Para chegar à
santidade, condição indispensável para o Céu. O número 1030 do Catecismo
menciona as almas que estão sendo purgadas como “os que morrem na graça e na
amizade de Deus, mas não de todo purificados, embora seguros da sua salvação
eterna, sofrem depois da morte uma purificação, a fim de obterem a santidade
necessária para entrar na alegria do Céu”. Podemos considerar que há graus ou
estados diversos no Purgatório, conforme a situação de cada alma quando ali chega.
Há estados inferiores, tremendos e dolorosos porque mais próximos do Inferno; e
também estados mais elevados, muito próximos à felicidade do Paraíso. Os vários
graus de purificação estão ligados ao diversos estados de alma.
No Purgatório, as almas encontram-se, de modo geral, numa condição de
enorme sofrimento. Nossa Senhora, em Medjugorje, numa mensagem para a qual
julgo devermos ter a atenção voltada, pediu que rezássemos muito por essas almas.
Com efeito, sabemos que podem interceder por nós e obter-nos muitas graças, ao
passo que, para si mesmas, não podem mais obter nenhum merecimento. Com a
morte, o tempo para granjear méritos na terra acaba. Contudo, as almas que estão no
Purgatório podem receber o nosso auxílio para abreviar o respectivo período de
purificação. Isso ocorre de modo superlativo por meio de nossas orações, com a
oferta de nossos sacrifícios, Missas por essa intenção, assim como se faz mais
especificamente nos funerais e nas Missas gregorianas, que consistem na celebração
de trinta Missas diárias e consecutivas por um falecido. Essa prática foi introduzida
por São Gregório Magno, no século VI, com fundamento numa visão que teve de um
confrade que morreu sem confissão. Este, tendo ido ao Purgatório, apareceu
solicitando que celebrassem Missas em seu favor. O papa celebrou por muitos dias
consecutivos, até atingir o total de trinta. Nesse ponto, o falecido apareceu de novo,
feliz por ter sido admitido no Paraíso. Bem analisado, daí não se depreende que
“funcione” como um “botão mágico”: pensar assim seria uma atitude de ritualismo
mágico, inaceitável e errônea no que se refere ao sacramento. De fato, tudo sempre se
acha nas mãos da misericórdia divina.
A propósito das Missas, é preciso dizer ainda que podem ser aplicadas a todos os
mortos, mas, em última análise, é Deus que as destina aos que realmente necessitam.
Quanto a mim, por exemplo, celebro frequentemente por meus pais, a respeito dos
quais, em consciência, acredito já estarem no Paraíso. Somente a Deus, em sua
misericórdia, compete, porém, atribuir os benefícios das minhas Missas aos que estão
mais necessitados, conforme critérios de justiça, bondade e — por que não? —
também de virtudes, tendo como base os méritos de cada um, em consonância com o
respectivo grau de fé, esperança e caridade que granjearam em vida.
De tudo quanto foi exposto, surge um afetuoso conselho: mais vale expiar nessa
vida, sofrendo, procurando santificar-se, do que, de um modo simplista, aspirar ao
Purgatório, onde os sofrimentos são longos e penosos.

As penas do Inferno
O livro do Apocalipse afirma textualmente que “foi precipitado aquele grande
dragão, aquela antiga serpente, que se chama o Diabo Satanás, que seduz todo o
mundo; e foi precipitado na terra e foram precipitados com eles os seus anjos”
(Apocalipse 12,9). Por que foram precipitados na terra? Porque a finalidade a que se
consagraram foi a de perseguir os homens, procurando conduzi-los à perdição eterna,
transformando-os em infelizes companheiros por toda uma eternidade carregada de
sofrimentos e penas. Como se pode admitir que esse enredo, que abarca a todos,
esteja nos planos de Deus? Conforme já foi observado, a razão de ordem imediata
reside na liberdade concedida por Deus a cada criatura. Sem dúvida, ninguém ignora
que a missão de Satanás e de seus seguidores consiste em desgraçar o homem,
seduzindo-o e fazendo-o pecar, isto é, levá-lo à infelicidade, longe da plena
participação da vida para a qual fomos chamados — ou seja, o Paraíso.
O Inferno, pois, é o estado na qual os demônios e os homens condenados, por sua
explícita e irrevogável escolha de se rebelar contra Deus, ficam distantes do Criador,
dos anjos e dos santos, numa condição permanente e eterna de condenação, isto é, de
tribulação. O Inferno é uma exclusão voluntária da comunhão com Deus, conforme
diz o Catecismo no número 1033: “Não podemos estar em união com Deus se não
escolhermos livremente amá-lo.” E como fazer para amá-lo? “Mas não podemos
amar a Deus se pecamos gravemente contra Ele, contra o nosso próximo ou contra
nós mesmos.” Ao Inferno, portanto, vai o que morre em pecado mortal sem estar
arrependido; o que, de forma impenitente, não amou. Não é Deus quem predestina
uma alma ao Inferno, mas a própria alma que o escolhe pela vida que levou.
Acerca do Inferno, conhecemos alguns relatos que — tratando-se de revelações
ou experiências privadas, enquanto tais, a fé não nos obriga a crer — considero
merecedores de grande crédito. Em diversas ocasiões, em meus livros e entrevistas,
tenho feito alusão à experiência de Santa Faustina Kowalska, que, em seu diário, faz
um relato das “viagens” que fez ao Inferno.
“É um lugar de grandes tormentos, tendo em vista toda a sua extensão
pavorosamente grande. São diversos tormentos que eu vi: o primeiro tormento, o que
constitui o Inferno, é a perda de Deus; o segundo, os contínuos remorsos da
consciência; o terceiro, a certeza de que aquele destino não mudará nunca; o quarto, o
fogo que penetra na alma sem a destruir. Este é um tormento terrível: é um fogo
puramente espiritual, que é alimentado pela ira de Deus. O quinto tormento é a
escuridão contínua, um horrível e sufocante cheiro nauseabundo, em meio ao qual,
apesar das trevas, podem-se ver o Demônio e as almas condenadas, umas em face das
outras, e igualmente todos os males dos demais e os nossos próprios. O sexto
tormento: a companhia contínua de Satanás; o sétimo tormento é um tremendo
desespero; o ódio a Deus, as imprecações, maldições, blasfêmias. Esses são os
tormentos que todos os condenados sofrem juntos, mas essa não é a finalidade das
punições. Há formas de tormentos especiais para diversas almas, e são os tormentos
dos sentidos. Cada alma é afligida de maneira terrível e indescritível pelo pecado que
praticou. Há horríveis cavernas, precipícios e tormentos, sendo cada suplício
diferente do outro [...]. O pecador sabe que será punido pelo sentido que o levou a
pecar [...]. O que relatei é uma pálida imagem do que vi. Observei que a maior parte
das almas que lá se encontram são almas que não acreditavam que pudessem cair no
Inferno. Quando recobrei os sentidos, não consegui reerguer-me do pavor em face do
pensamento das almas que ali sofrem tão horrivelmente; por isso, rezo com maior
fervor pela conversão dos pecadores, e invoco incessantemente a misericórdia de
Deus em favor deles.”
É de assombrar.
Também desejo recordar, de forma resumida, o testemunho de Gloria Polo,
dentista colombiana que viveu uma experiência extraordinária, a qual pôs de ponta-
cabeça a sua vida.
No dia 5 de maio de 1995, essa senhora foi atingida por um raio, que quase
carbonizou o seu corpo. Gloria era uma católica “fria”, de espírito crítico em relação
a Igreja, favorável à eutanásia, muito preocupada com o próprio corpo e voltada para
a Nova Era. Era afeita a frequentar bruxos e cartomantes que prediziam o futuro.
Depois de ser atingida pelo raio, o seu corpo ficou por vários minutos sem vida por
causa de uma parada cardíaca. Durante esse tempo, Gloria passou por uma
experiência de quase morte. Encontrou-se num túnel, em cuja extremidade havia uma
forte luz. Nesta luz identificou os pais falecidos: era o Paraíso. Em contrapartida,
experimentava sempre sentimentos cada vez mais fortes de culpa pela fraca fé que
tivera em vida, o que a impedira de permanecer naquela luz. De repente, foi
precipitada no abismo mais profundo. Muitos demônios começaram a persegui-la,
tentando arrebatá-la. Ela relata ter percorrido muitos túneis que existiam mais abaixo,
organizados em forma de colmeias e habitados por muitos homens, jovens, velhos e
crianças que choravam e rangiam os dentes, com rugidos espantosos. Alguns destes
eram suicidas. Gloria está persuadida de que estava num lugar de morte espiritual, de
condenação eterna, sem retorno, sem esperança. Era o Inferno. Somente a
intervenção de São Miguel Arcanjo, que a segurou pelos pés trazendo-a para junto de
si, impediu que se precipitasse definitivamente. Eis como ela conta: “Foi um
momento terrível e verdadeiramente doloroso, quando cheguei àquele ponto, a luz
que ainda restava em meu espírito aborrecia aos demônios; esses horripilantes seres
imundos, que lá se achavam, prenderam-se a mim imediatamente [...]. Quanta coisa
queimava! Irmãos, são trevas vivas, é um ódio que arde e nos devora, que nos põe a
nu. Não há palavras para descrever aquele horror!”29
As visões e relatos aqui contidos, embora de forma bem sintética, devem fazer-
nos refletir. Por isso, em Fátima, a Virgem disse às crianças: “Rezai e fazei sacrifícios,
muitas almas vão para o Inferno, porque não há ninguém que reze e faça sacrifícios
por elas.”
Por sua vez, em Medjugorje, Nossa Senhora disse três coisas interessantes que
confirmam o que ensina o Catecismo, e que sumariamente já relatei: o Inferno é
eterno; impossível que alguém se converta no Inferno, porque, de nenhum modo,
ninguém desejaria fazê-lo; no Inferno, tornamo-nos partícipes da própria essência do
Inferno, isto é, a pessoa torna-se, por assim dizer, um “fragmento do Inferno”.
Como se deve entender, de modo mais exato, a afirmação acima? Sendo o reino
do ódio, as almas ali condenadas são submetidas ao tormento dos demônios e aos
sofrimentos que reciprocamente se infligem uma às outras. O Inferno é um lugar da
blasfêmia (onde se investe contra Deus e contra os santos) e do medo. No decorrer de
meus exorcismos, conforme fiz menção há pouco, certifiquei-me de que existe uma
hierarquia entre os demônios, assim como a que existe entre os anjos. Já abordei essa
realidade. Mais de uma vez, deparei com demônios que possuíam uma pessoa e que
manifestaram verdadeiro terror para com os respectivos chefes. Certo dia, após haver
feito vários exorcismos numa infeliz senhora, indaguei ao demônio “menor” que a
possuía: “Por que não vai embora?” Como única resposta, ouvi isto: “Porque se for,
Satanás, que é meu chefe, me castigará.” No inferno existe uma sujeição imposta pelo
terror e pelo ódio. Essa é a diferença abissal com o Paraíso, que é um local onde todos
se amam; lugar no qual quando uma alma encontra outra mais santa, sente imenso
gozo, porque da felicidade alheia também deriva, para ela, o mesmo benefício.
Alguns dizem que o Inferno estaria vazio. A resposta para essa afirmação está
contida no capítulo 25 do Evangelho de São Mateus, onde se fala do Juízo Final:
alguns são “benditos” e se aproximam eternamente de Deus; outros são “malditos” e
vão para o fogo eterno. Certamente desejaríamos que o Inferno estivesse vazio,
sabendo que Deus não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (cf.
Ezequiel 33,11). Para esse efeito, a todos proporciona sua misericórdia e os meios da
graça necessários para se salvarem. Disse Jesus, no Evangelho de São João: “Àqueles
a quem perdoardes os pecados, e a quem não perdoardes, ser-lhes-ão retidos” (20,23),
insistindo em nossa conversão contínua, com o apoio da graça que vem dos
sacramentos.
Retomando a pergunta a respeito do Inferno, que consiste em saber se está mais
ou menos “vazio”, cabe-me afirmar que temo cairem ali muitas almas, precisamente
as que se obstinam até o fim na escolha do afastamento de Deus. Meditemos
frequentemente nisso! Bem dizia Pascal: “A meditação no Inferno encheu de santos o
Paraíso.”

O julgamento da vida
No número 1021, o Catecismo fala sobre o “juízo particular”. Que significa? Ali está
dito: “O Novo Testamento fala do julgamento, principalmente na perspectiva do
encontro final com Cristo na sua segunda vinda. Mas também afirma, reiteradamente,
a retribuição imediata depois da morte de cada qual, em função das suas obras e da
sua fé.” E, mais adiante no número 1022, acrescenta: “Ao morrer, cada homem recebe
na sua alma imortal a retribuição eterna, num julgamento particular que põe a sua
vida em referência a Cristo, quer através duma purificação, quer para entrar
imediatamente na felicidade do Céu, quer para se condenar imediatamente para
sempre.” Logo depois, diz o critério mediante o qual haverá esse julgamento,
desenvolvido nos escritos de São João da Cruz: “No ocaso da vida, seremos julgados
pelo amor.”
A primeira coisa a destacar é propriamente este último ponto: um derradeiro
critério do nosso julgamento será o amor que tivermos em vida por Deus e pelos
irmãos. Como se dará, então, o julgamento particular? Encontramos algumas vezes
pessoas convencidas de que, imediatamente após a morte, encontrarão Jesus em
pessoa, e lhe exprimirão o desejo de “falar com franqueza” sobre as vicissitudes
dolorosas que enfrentaram nesta terra. Não acredito positivamente que as coisas se
passem assim. Mais propriamente, acredito que, de imediato após a morte, cada qual
comparecerá diante de Jesus. Entretanto, não será o próprio Jesus quem passará em
revista a nossa vida, para efeito de avaliar o tanto de bem e de mal que praticamos em
vida. Falando com inteira objetividade e honestidade, seremos nós que o faremos.
Cada qual terá diante de si a visão completa da sua vida, conhecendo imediatamente o
verdadeiro estado espiritual de sua alma, e irá para onde a situação da sua alma
naturalmente deverá conduzi-lo. Será um momento solene de verdade sobre nós
mesmos, um momento tremendo e sem volta, assim como será sem volta o local que
perceberemos ser indicado para cada um. Consideremos, por exemplo, o caso de uma
pessoa que vá para o Purgatório. Quão grande será a dor por não conseguir subir
diretamente ao Céu, ao verificar que a purificação na terra não foi completa e
percebendo, por si só, a necessidade impreterível de se purificar! Contudo, o desejo
de ter acesso à visão de Deus será tão forte que, para essa alma, mais estimulante será
ainda o desejo de libertar-se do peso dos castigos acumulados durante a vida terrena...

O Juízo Final: será o amor que nos julgará


Termino com o Juízo Final: “O Juízo Final terá lugar quando acontecer a vinda
gloriosa de Cristo. Só o Pai sabe o dia e a hora, só ele decide sobre a Sua vinda. Pelo
Seu Filho Jesus Cristo. Ele pronunciará então a Sua palavra definitiva sobre toda a
história. Nós ficaremos a saber o sentido último de toda a obra da Criação e de toda a
economia da Salvação, e compreenderemos os caminhos admiráveis pelos quais a sua
Providência tudo terá conduzido para o seu fim último”30. Trata-se de uma realidade
mais difícil de ser compreendida e concebida pela nossa mente. O Juízo Final
coincidirá com o retorno de Cristo, cuja data exata não se conhece. Será precedido
imediatamente da ressurreição dos mortos. Nesse momento preciso é que se
cumprirá, definitiva e integralmente, a história do mundo. Logo de início, o
Catecismo especifica: “É perante Cristo, que é a Verdade, que será definitivamente
posta a descoberto a verdade da relação de cada homem com Deus.”31
A pergunta essencial é esta: concretamente falando, que relação tem cada homem
com Deus? Assim como foi dito a respeito do Inferno, encontra-se aqui a resposta,
descrita, de forma grandiosa, no Evangelho de São Mateus. A diferença entre os que
forem salvos e os que forem condenados estará na capacidade de terem sabido ver a
Cristo, dentre os mais necessitados, doentes, famintos, pobre etc (cf. Mateus 25,31-
46). Dois são os elementos essenciais que emergem daí. O primeiro é uma separação,
uma cisão entre os que estão destinados ao Paraíso e os que estão destinados ao
Inferno; entre os que estão salvos e os que se condenaram. O segundo diz respeito à
matéria sobre a qual se cumprirá este julgamento: o amor. Os mandamentos de Deus
e todos os outros preceitos, de fato, resumem-se num só: “Isto vos mando: que vos
ameis uns aos outros” (João 15,17).
Podemos entender facilmente que essa ordem se dirige a toda consciência
humana, em todos os tempos, e que, portanto, também aos tempos anteriores a Cristo
e aos dias de hoje; aos tempos atuais como aos séculos passados, ainda que não
tenham ouvido falar do Filho do Homem. É igualmente belo o ponto final deste
estupendo trecho de Mateus: “Na verdade vos digo que todas as vezes que vós
fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos a mim o fizestes” (Mateus
25,40).
Todo homem, portanto – independentemente de sua religião, de sua cultura, de
sua época e de quaisquer outras circunstâncias —, se tiver amado ao seu próximo,
terá amado ao Senhor Jesus em pessoa. Quaisquer que sejam as nossas relações com
nossos irmãos, em todos os lugares, em todas as idades, em todas as situações de vida,
isso será, em última análise, um contato com Cristo Jesus em pessoa. Não existe
nenhuma criatura humana que, ao se relacionar com seus irmãos, não se relacione
diretamente com Deus. Por isso, o preceito fundamental da vida é o amor ao próximo
e a Deus. Assim nos faz entender o Evangelista João, ao afirmar que não podemos
amar a Deus, a quem não vemos, se não amarmos ao irmão que vemos (cf. 1 João
4,20). O amor pelo qual seremos julgados será avaliado precisamente na medida do
amor que tivermos praticado em relação aos demais, ou seja, o mesmo amor que
viveu Jesus na sua experiência terrena e que nos ensinou nos Evangelhos, o mesmo
amor para qual fomos habilitados por meio dos sacramentos, pela oração, pela vida de
fé. O auxílio para amar, que provém dos meios da graça, sabemos serem limitados
para os que não conhecem a Cristo, sendo ainda mais reduzidos para os que o
conhecem, mas não seguem; escolha que configura uma grave culpa. De fato, disse
Jesus: “O que crer e for batizado será salvo; o que, porém, não crer será condenado”
(Marcos 16,16).
Entretanto, por outro lado, o Papa Francisco, introduzindo o Jubileu
Extraordinário da Misericórdia, quis recordar-nos — foi o que resumimos na
introdução — o outro aspecto fundamental da questão, sem cujo concurso a
exposição ficaria falha, incompleta: o amor pelo qual seremos julgados será o mesmo
Amor que nos julgará segundo a medida da misericórdia. “Misericórdia: é o ato
último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro”32. Essa misericórdia,
afirma um pouco depois o Papa Francisco, “abre o coração à esperança de sermos
amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado”. Esse olhar de Deus,
assim impregnado de compaixão e desejo de viver em total comunhão conosco, abre
o coração à esperança de que todo o pecado, toda a dor, todo o desfalecimento, toda a
aparente derrota, desencadeada contra o homem pelo seu grande inimigo, Satanás,
será olhada por Deus com os olhos de um pai amoroso e acolhedor.
Vivamos, portanto, cheios de esperança, porque sabemos que, apesar de toda a
fadiga, é esse o nosso percurso de vida, e que, apesar de feridos muitas vezes, e desta
forma agravados pelos males feitos e recebidos, um dia Deus enxugará todas as
lágrimas de nossos olhos. Nesse dia “não haverá mais morte, nem luto, nem clamor,
nem mais dor, porque as primeiras coisas passaram” (Apocalipse 21,4).
Notas

25 Cf. Catecismo da Igreja Católica, n° 1023.

26 Ibidem, n° 1026.
27 Veja-se o que diz a esse respeito o Catecismo da Igreja Católica, sempre no n°1026.

28 Cf. Ibidem, n°. 1027.


29 Para conhecer mais a fundo a história, veja-se o livro de Irene Corona, Gloria Polo. Da sostenitrice
dell’eutanasia a paladina della vita [Gloria Pole: de defensora da eutanásia a militante da vida],
Edizioni Segno, Feletto Umberto (UD) 2012.

30 Cf. Catecismo da Igreja Católica, n° 1040.


31 Cf. Ibidem n° 1039.

32 Cf. Misericordiae vultus, n° 2.


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DIREÇÃO EDITORIAL
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EDITOR RESPONSÁVEL
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Daniel Borges do Nascimento

REVISÃO DE TRADUÇÃO
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REVISÃO
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