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Argélia
As mulheres
de branco
de Ghardaia
FUGAS | Público N.º 10.061 | Sábado 4 Novembro 2017 Geofood
Arouca, a Freita e um
piquenique às costas
Dormir
Puralã, um hotel
no aconchego
da serra da Estrela

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2 | FUGAS | Sábado, 4 de Novembro de 2017

Semana de lazer
Mais sugestões em lazer.publico.pt

Livros e imagens.
Tapete estendido a
provas e balões. Palco
às escuras. E artistas
a meter o nariz.
Sílvia Pereira
Uma narrativa, Cabeças no ar
muitas mãos Trinta equipas de sete países chegam ao
José Fanha passa o testemunho a Cristina norte do Alentejo prontas a colorir os céus
Carvalho no Books&Movies - Festival Literário com dezenas de balões. Fazem o check-in
e de Cinema de Alcobaça. É ela a escritora a 5 de Novembro e, no dia seguinte, abrem
em residência na quarta edição, e por isso os cestos à população, que é “convidada a
encarregada de continuar a narrativa sobre viver a inesquecível experiência de voar”.
a história e cultura de Alcobaça que os seus O acesso faz-se através de vouchers de
antecessores começaram. Outra figura voo distribuídos pelas entidades que o
em destaque é Ana Zanatti, a actriz que é 21.º Festival Internacional de Balões de Ar
também letrista (escreveu, por exemplo, Quente apoia — a Associação Spina Bífida
Telepatia) e autora de vários livros (o mais e Hidrocefalia de Portugal e as corporações
recente, O Sexo Inútil, de 2016). Mas o festival
Das empadas aos bordados de bombeiros locais — ou por ordem de
extravasa as categorias que lhe dão nome. Arraiolos é mais do que capital da chegada. Com garantia de confiança:
Além de lançamentos de livros, conversas e tapeçaria. Que o digam os frequentadores “Todos os pilotos são profissionais com
projecções de filmes, inclui peças de teatro, da Mostra Gastronómica e do Festival da créditos firmados no balonismo, pelo que
concertos, exposições, ateliers, sessões de Empada, que vão na 18.ª e 10.ª edição, a organização [da Publibalão e do clube
contos, um mercado e uma secção dedicada respectivamente. Domingo é o último dia de balonismo Alentejo sem Fronteiras]
à gastronomia (Books&Cooking). Os dez dias para saborear o património gastronómico garante que é totalmente seguro voar com
começam hoje com a apresentação de De da região — sopas, migas, açordas — e uma qualquer uma das equipas”. É só subir.
Mosul a Alfeizerão em 6000 Palavras – ou a marca local em particular: as tradicionais
história de um refugiado em fuga do Daesh –, empadas de galinha aromatizadas com
com uma mesa-redonda em torno de Preto e salsa e manjerona. Vinhos, queijos,
Branco, filme de José Carlos Oliveira, e com doces e mel complementam a ementa,
um concerto de Rui Massena, entre muitas que serve também animação musical.
outras iniciativas. O programa completo E não é preciso ir muito longe para
está em www.cm-alcobaca.pt. trazer o tal outro produto por que a vila
alentejana é tão conhecida: está aberta,
ALCOBAÇA simultaneamente, a Feira do Tapete de
Vários locais Arraiolos.
De 4 a 14 de Novembro.
Grátis (excepto concerto de ARRAIOLOS
Ricardo Araújo, dia 5, 8€) Pavilhão Multiusos
Até 5 de Novembro, das 12h às 24h ALTER DO CHÃO, FRONTEIRA,
(até às 22h no domingo). MONFORTE E PONTE DE SOR
Grátis De 6 a 12 de Novembro. Voos todos
os dias, excepto domingo, às 7h30
(encontro às 6h45) e 15h30 (encontro às
14h45).
Grátis
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Sábado, 4 de Novembro de 2017 | FUGAS | 3

FUGAS N.º 908 Foto de capa: @kitato FICHA TÉCNICA Direcção David Dinis Edição Sandra Silva Costa
Edição fotográfica Nelson Garrido Directora de Arte Sónia Matos Designers Daniela a Graça, Joana Lima
e José Soares Infografia Cátia Mendonça, Célia Rodrigues, Joaquim Guerreiro, José Alvess e Francisco Lopes
Secretariado Lucinda Vasconcelos Fugas Praça Coronel Pacheco, 2, 4050-453 Porto.
Tel.: 226151000. E-mail: fugas@publico.pt.
pt. fugas.publico.pt

Negócio escuro Do mundo para o Porto A cerveja da aldeia


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Se a imagem que acompanha esta Steve McCurry é um dos mais famosos Diz a lenda que uma galega chamada Alda
sugestão fosse um rectângulo preto, não e premiados fotógrafos do globo. É ele servia, na sua taberna do cais, uma cerveja
estaria muito longe do que se vai passar o autor do icónico retrato de Sharbat ímpar. De tão famosa, baptizou a zona:
n’O Negócio, no âmbito do festival Temps Gula, a rapariga afegã de olhar profundo Aldeia Galega — assim era antigamente
d’Images. David Marques (bailarino e e interpelador, captada num campo de designado o Montijo. É também a origem
coreógrafo) e Tiago Cadete (encenador, refugiados, que fez capa da National do nome de um nova cerveja artesanal.
coreógrafo e artista visual) inspiraram-se na Geographic em 1985. A imagem está A Aldeana foi criada por Miguel Cáceres,
ideia pioneira — hoje tão usual que pouco entre as mais de 200, em grande formato, jovem montijense que foi à Bélgica, país
a questionamos — que Wagner pôs em que são exibidas em The World of Steve dos mil e um sabores de cerveja, e trouxe
prática no século XIX: escurecer a plateia McCurry, uma antologia do trabalho do de lá a vontade de criar a primeira na sua
para concentrar toda a atenção na acção O remédio do riso norte-americano. Se Índia, a sua primeira terra. Já pôs duas no mercado (leia-se:
artística. Levaram mais longe a intenção individual em Portugal (que vimos nos pouco mais de 40 estabelecimentos da
do compositor e “apagaram” também o Há 15 anos que a Operação Nariz últimos dois anos), se focava num dos cidade e arredores), a Original e a Blonde.
palco. É um espectáculo negro, sem luz, Vermelho leva sorrisos às alas pediátricas países mais captados pela sua lente, esta Prepara-se para lançar uma nova variedade
que se vislumbra neste Apagão. A estreia dos hospitais. Agora, os “consultórios” exposição traz-nos o seu olhar pelo mundo durante a Rota da Cerveja Aldeana. A
em Lisboa acontece antes da participação, dos doutores-palhaços enchem-se inteiro. Tem curadoria de Biba Giacchetti e primeira edição vem propor degustações e
a 23 de Novembro, no 39.º Citemor, em de artistas. E o “corpo clínico” sai à cenografia do arquitecto Peter Bottazzi. workshops, enquanto desafia restaurantes
Montemor-o-Velho, onde a dupla de rua. Debaixo do Seu Nariz é o título da do concelho a criar pratos para harmonizar
criadores esteve em residência no Verão. colectiva de arte contemporânea que PORTO com estes sabores. E com outra lenda, mas
celebra o aniversário da organização. Edifício da Alfândega da estação: o São Martinho.
LISBOA Com curadoria de Luiza Teixeira de Freitas Até 31 de Dezembro. Todos os dias,
O Negócio e João Fernandes, mostra em Alcântara das 10h às 18h (até às 19h aos sábados, MONTIJO
De 7 a 9 de Novembro, às 21h30. diferentes abordagens ao sorriso, de domingos e feriados) De 10 a 12 de Novembro.
Bilhetes a 7,50€ nomes como Ana Jotta, Christopher Bilhetes a 12€ Mais informações em www.aldeana.pt
Makos, Francisco Tropa, Julião Sarmento,
Lawrence Weiner, Lygia Clark, Pierre
Huyghe ou Rosângela Rennó. O humor e
a figura do palhaço dão tema às obras. A
exposição é acompanhada por palestras,
filmes, oficinas, visitas-jogos, contos e até
um F.L.O.P. (Festival Louco Organizado
por Palhaços), entre outras actividades.
A maior parte concentra-se nos fins-de-
semana e é orientada para as crianças, as
verdadeiras estrelas desta companhia.

LISBOA
Gare Marítima da Rocha do Conde de
Óbidos (Doca de Alcântara)
Até 19 de Novembro. Quarta a domingo,
das 14h às 19h (a partir das 11h aos fins-
-de-semana).
Bilhetes de 3€.
3€ Grátis para crianças até
cinco anos
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4 | FUGAS | Sábado, 4 de Novembro de 2017

Argélia

Viagem
milenar ao
misterioso
mundo
ibadita

Estamos num universo com


mil anos. É um surpreendente
mergulho numa sociedade presa
aos seus costumes. A comunidade
decide a vida do indivíduo. E as
mulheres vivem, literalmente,
sob um manto branco, ligadas
ao mundo por apenas um olho.
Ghardaia é o ex-líbris do vale do
Mzab. O improvável exemplo de
como do nada pode nascer tudo.
Rui Barbosa Batista (texto)
e @kitato ( fotos)
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Sábado, 4 de Novembro de 2017 | FUGAS | 5

a Um olho. Um dos dois. E apenas algumas regras. E a grande lição: fo- de negócio. Pelo menos é assim que É possível gens do islamismo. E só lamento não
um. É tudo o que podemos apreciar tografar uma mulher ibadita — jovem nos parece. Agradecemos, dizemos fotografar as ter a oportunidade de falar com mu-
numa mulher ibadita — e é através ou casada — é um momento sober- que preferimos explorar sozinhos e mulheres de lheres. Entender se sonham com ou-
dele que ela pode contemplar o mun- bamente fotogénico, mas interdito, avançamos. O desconhecimento da branco de tra realidade ou se são, elas mesmas,
do. Tapada por um virginal manto reprovado e altamente censurado. rigidez das regras leva-nos a fazer Ghardaia, mas orgulhosas defensoras desta secular
branco, nada pode estar visível para Como se uma imagem dilacerasse analogias com o que acontece em sempre com tradição.
os outros. Nem as mãos. Esse secre- mil anos de uma conduta social que vários países do Magreb, em que os “luz verde” de Na nossa deslumbrada exploração,
tismo ilustra muito bem o singular pouco ou nada mudou. improvisados guias não nos mostram um guia local também encontramos crianças, jo-
universo Mzabita (vale do M’zab). o que queremos, condicionam a nos- vens e adultos. E bastantes idosos.
“Esta é a sua garantia de pureza”, Prevaricar sem saber sa experiência e, muitas vezes, se tor- Curiosamente, ninguém nos aborda.
explica-nos, pacientemente, Hassis- nam uma verdadeira chatice — até Sabem que não devemos estar ali,
sane. “E também a de que ninguém a Esta explicação ajuda-nos a entender que um punhado de notas os satis- sozinhos, mas não há quem nos faça
aborda indignamente. Não sabendo que já tínhamos violado uma regra faz e os faz desaparecer. Aqui não é sentir que estamos onde não deve-
quem está por detrás, não há quem fundamental. No vale do M’Zab, é im- nada disso. Mas não estávamos sufi- mos. A atmosfera serena que aqui se
arrisque. Já se imaginou mandar pedida a visita ao centro histórico de cientemente documentados para o respira dita o nosso respeito: somos
um piropo a alguém que pode ser a qualquer uma das cinco cidades de que iríamos encontrar. Esta viagem mesmo muito comedidos na hora de
sua irmã ou a sua mãe? Impensável. Ghardaia (nome do povoado prin- pela fantástica Argélia foi decidida tentar registos fotográficos. Mesmo
Esta opção ajuda a manter a estru- cipal, mas também da aglomeração — e planeada — em cima do joelho. sem sabermos o quanto, sentimos
tura familiar como um pilar sólido das cinco que ocupam uns compac- Estimulante aventura ao ritmo do que somos um corpo efectivamen-
da nossa sociedade.” O nosso guia tos 75 quilómetros quadrados) sem improviso. Seja como for, fica a in- te estranho nesta tela. Que cativa.
em El-Atteuf é um homem pleno de estarmos devidamente acompanha- dicação: a “orientação turística” de Inebria. Deambulamos numa outra
certezas. Desta vez temos um guia. dos por um guia local. Ghardaia não só é obrigatória, mas época da existência humana. Somos
Aprendemos a lição. É vivido, inteli- Há uma rudimentar oficina de tu- igualmente muito útil para entender- alienígenas figurantes neste filme e
gente e revela sentido de humor, que rismo — Associação de Orientação mos esta peculiar existência. temos a feliz noção disso. Poucas
desaparece quando o tema central é Turística de Ghardaia — que nos pro- Deambulando pelas estreitas e vezes uma experiência errante em
o feminino mzabita. põe uma visita guiada, mas o nosso labirínticas ruelas, nas quais rapi- lugar estranho é tão rica, instrutiva,
O haik é a peça dominante na pai- interlocutor não é assertivo a indicar damente perdemos o Norte, vamo- balsâmica.
sagem humana de Ghardaia. Impossí- a obrigatoriedade de o fazermos com nos cruzando, invariavelmente, por
vel passar despercebido. São brancos alguém da comunidade, que nos ex- mulheres que à nossa vista se redu- Códigos sociais imutáveis
anónimos que vão deslizando num plique os valores e as regras ibaditas. zem a um olho: umas mudam o seu
palco surreal. O casamento é o mo- No fundo, que nos situe nesta realida- caminho, algumas baixam a cabeça, Aprendida a primeira lição, é hora
mento da verdade para as jovens. de tão diferente (depois do incidente, outras quantas olham para a parede, de sabermos um pouco mais sobre
Antes deste passo, geralmente deci- voltaremos a este modesto escritório, ajustam o manto ou aceleram o passo. os ibaditas. Afinal, não tomámos o
dido pelo conselho de 12 sábios que em atitude mais consciente). Sentimo-nos como que anestesia- nosso descontrolado interlocutor por
governa cada um dos cinco povoados Antes de o fazermos, e quando dos. Tento imaginar-me por detrás louco. Uma rápida pesquisa diz-nos
que compõem Ghardaia, as meninas procuramos dirigir-nos ao coração deste castrador branco, mas não que serão o único sub-ramo sobrevi-
exibem os seus rostos dóceis, de fei- de Ghardaia, ao alto onde, invaria- consigo. Poderia procurar entender vente dos carijitas, o primeiro ramo
ções infantis. Não se atrevem a falar velmente, fica a mesquita, há quem uma vida nesta penumbra, como é a formar-se no Islão durante o cisma
com estranhos. Consumado o acto nos pergunte pelo guia. Está senta- possível viver nesta prisão, não me de 655-661 entre Ali Abi Ibne (xiita)
matrimonial, fecha-se a cortina: per- do numas escadas e fá-lo como se fosse esse pensamento demasiado e Moáuis ibne Abi Sufiane (sunita),
dem boa parte da já parca liberdade fôssemos para si uma oportunidade absurdo. Aqui vive-se como nas ori- cunhado e escriba do profeta. c
e principia a existência atrás de um
incompleto e fugidio meio olhar.
Quando a nossa curiosidade se fixa
numa mulher ibadita, não é raro que
esta ajuste o manto, fechando ainda
mais o já de si pequeno buraco. Al-
gumas, contudo, persistem nos ges-
tos do passado: viram o rosto para a
parede sempre que passam por um
forasteiro. Ficam imóveis nas som-
bras. As outras é certo que desviarão
o olhar.
Este mundo mais rígido é-nos ser-
vido de forma tão inesperada quanto
intempestiva. Quando, em despreo-
cupada deambulação por Ghardaia,
as nossas objectivas descobrem um
grupo de imaculadas jovens que
abandona a escola, há alguém que
perde a cabeça e nos aborda em des-
controlado tom ríspido. Atravessa-se
à nossa frente e, em incomodativa
sofreguidão, interroga-nos, berran-
do. Que é proibido, que não o deve-
mos fazer. Que Alá não ficará nada
satisfeito.
Surpresos, escudamo-nos na nossa
ignorância, mas os músculos do seu
rosto não relaxam. Desculpamo-nos
repetidamente. Indiferente aos nos-
sos argumentos, genuínos, mantém
a postura alterada durante mais um
longo par de minutos. Aprenderemos
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6 | FUGAS | Sábado, 4 de Novembro de 2017

Argélia

A construção encavalitada
de Ghardaia esconde
muitos segredos de uma
cultura milenar que até hoje
atribui papéis distintos a
homens e mulheres

Inicialmente partidários de Ali, opu- nenhum membro de outro ramo do


seram-me mais tarde às pretensões Islão — xiita ou sunita, por exemplo —
deste, bem como às do seu rival. Aca- é admitido numa sua mesquita.
baram por dividir-se em vários sub- Seguem exactamente os princípios
ramos, um deles o dos ibaditas. do bem comunitário e preservam-
Actualmente, são a maioria em no acerrimamente. Com igual fervor
Omã, mas no resto do planeta limi- ao que usam nas negociações, o que
tam-se a resistir em pequenos núcle- os faz dominar o sector financeiro,
os no oásis de M’Zab na Argélia, onde bancário e economia grossista. Têm
estamos, e nas ilhas tunisina de Djer- mesquitas, cemitérios, actividades
ba e tanzaniana de Zanzibar. de recreação e desportivas próprios.
O indivíduo é apenas um grão na Têm igualmente um sistema patriar-
sociedade, que define boa parte do cal de herança social.
que é a sua existência. O que estuda, O código de moral é profundamen-
em que trabalha, com quem se casa, te estrito e o nível de pureza religiosa
onde vive — são criados grupos de é extremadamente alto. Por isso, nin-
voluntários (touiza) para construírem guém pode ter um casamento fora da
as casas dos noivos — e como vive são comunidade, um dos motivos que
algumas das situações decididas pela justifica o facto de os ibaditas serem
assembleia de 12 estudiosos (alqah) muito parecidos, um povo de feições
que administra cada um dos cinco deveras homogéneas. Normalmen-
burgos que compõem Ghardaia. Um te baixos e entroncados. E face pe-
conselho que orienta — ou cuida — a quena e larga. As mulheres jamais
vida social e garante que os princí- deixam a comunidade, enquanto os
pios milenares do Corão são fielmen- homens podem ser encontrados um
te seguidos, imunes à evolução dos pouco por todo o país. Vestem cati-
tempos. vantes sarouel el loubia, umas calças
Os ibaditas são extremamente ri- em balão com folhos. Identicamen-
gorosos, igualitários e… separatistas: te se distinguem pelo seu peculiar
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Sábado, 4 de Novembro de 2017 | FUGAS | 7

chéchia, chapéu tradicional. inóspita que conseguiram encontrar,


Não se encontram pedintes nas também por motivos defensivos.
ruas nem há registos de roubos. Os Quando chegámos a Ghardaia, a lua
ibaditas assumiram o seu destino. já acompanhava o nosso longo trajec-
Talvez também por acreditarem que to desde Argel. Em todas as entradas/
o mundo muçulmano não precisa de saídas das povoações há uma ou mais
um líder global. Defendem que as co- barreiras policiais. Aqui perdemos-
munidades se podem autorregular. E lhes a conta. Os agentes da autorida-
são o exemplo disso. Completamente de e militares estão por todo o lado.
opostos às crenças xiitas e sunitas. Uma presença bem mais intensa do
Visitar Ghardaia é experienciar um que o normal.
autêntico “país” em si, com códigos Num parque, encontramos imen-
SEJA RESPONSÁVEL. BEBA COM MODERAÇÃO.
sociais antigos, rígidos e imutáveis. sas carrinhas do corpo de interven-
ção. Conheceremos o soldado que
Ibaditas… mzabitas as vigia. Apenas fala árabe. Deseja
tirar uma foto connosco, mas logo
Esclarecido o lado religioso, o cogno- nos pede, com gestos, para não a
me mzabitas explica-se pela região mostrarmos a ninguém. Não quer
habitada, o vale do M’Zab. Estes iba- sarilhos.
ditas são originários do Norte do Ma- Este dispositivo de segurança
greb. Diz-se que fugiram de um fogo deve-se à determinação do governo
devastador, provocado por quezília em extirpar, de vez, a violência sec-
religiosa com facção xiita, que des- tária com base étnica e religiosa que
truiu tudo o que possuíam. eclodiu em 2014. Os confrontos opu-
Rumaram então a Sul e refugiram- seram a população berbere ibadita,
se nesta região há mais de mil anos, que se organizou para proteger as su-
no século X. Chegaram a este vale um as casas, famílias e lojas a grupos su-
século depois, quando, por motivos nitas islâmicos árabes, que reclamam
de defesa, se realojaram na zona mais mais habitação e empregos. c
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8 | FUGAS | Sábado, 4 de Novembro de 2017

Argélia

Gangues delinquentes fomentaram


o conflito de identidade e aprovei-
taram o caos para saquear e outros
actos criminosos. Houve violência,
lojas incendiadas e vítimas mortais.
As autoridades de Argel enviaram
unidades de reforço para a seguran-
ça local. Tudo mais calmo. Vivemos
outros tempos. Com tanta vigilân-
cia, não sentimos qualquer tensão
ou perigo.

As cidades
fortificadas do M’Zab
M’Zab é um vale-oásis — dos maio-
res do Sara — profundo e estreito uns
600 quilómetros a sul de Argel, e que
abrange as cinco terras amuralhadas,
conhecidas por pentapolis, compri-
midas numa fictícia linha que não
ultrapassa os 10 quilómetros e esta-
belecidas pelos ibaditas berberes.
Ghardaia, Melika, Beni Isguen, Bou
Noura e El-Atteuf. Juntas, costumam
ser designadas Ghardaia. O cresci-
mento, protagonizado por uns 100
mil habitantes, tem-nas aproxima-
do, embora mantenham identidades
bem distintas.
Todas vivem envoltas em atraen-
te secretismo. E merecem o nosso
profundo apreço: não é fácil terem
preservado a sua cultura original e a
coesão entre as comunidades ao lon-
go de mil anos, incorruptíveis pelo O rio (que não
mundo exterior. Foi também isso que é um rio) é a
a UNESCO valorizou em 1982. principal via de
Ghardaia é o principal assenta- ligação entre as
mento no M’Zab, enquanto a El- aldeias do vale,
Ateuf é o mais antigo. Beni Isguene é o parque de
o mais enigmático. A cidade sagrada estacionamento
da liga mzabita excluía, até há pou- e um gigante
co, todos os não membros dacomu- parque infantil
nidade de algumas partes do burgo.
E proibia os estranhos de pernoitar
dentro de suas paredes. É famoso o
seu mercado diário de leilões. Me-
lika é povoada essencialmente por
negros africanos, albergando gran-
des cemitérios. Bou Nouara, erigido
sobre uma rocha que se sobrepõe ao
leito do rio, é o mais pobre.
Cada uma das cinco povoações foi
planeada sobre uma colina na qual
pontificam edifícios cúbicos em tons
pastel. Uma tela que se expande em
círculos concêntricos ao redor de
uma mesquita central, no alto, que
pode ser avistada de todos os lados.
No seu livro de 1963 (um ano após a
libertação da Argélia do jugo francês),
A Força das Coisas, a filósofa existen-
cialista gaulesa Simone de Beauvoir
descreveu Ghardaia como “uma pin-
tura cubista lindamente construída”.
Nos centros históricos, desta-
cam-se mesquitas com minarete
em estilo pirâmide (funcionavam
como torre de vigia) e uma pra-
ça com arcadas. E distintas casas
brancas, cor-de-rosa e vermelhas,
feitas de areia, argila e gesso, que
se erguem em terraços e arcadas.
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Sábado, 4 de Novembro de 2017 | FUGAS | 9

A mesquita é concebida como uma sa desfigurar a beleza da natureza, Apreciamos a azáfama e pregões
inviolável fortaleza, pois é o último adornada pelo azul do céu e pelo solo que se espraiam também pelas rue-
bastião da resistência no caso de um avermelhado do deserto. las que desaguam na praça ou que
cerco. Aqui se guardam armas e um Cada aldeia foi fortificada de tal for- desta se espalham. Há comerciantes
celeiro capaz de alimentar os derra- ma que eram inacessíveis aos grupos de rua, alfaiates, bordadores e quem
deiros heróis. nómadas. E as residências são orien- se dedique a vender especiarias, sal,
As habitações foram pensadas e tadas de tal modo que todas recebem trigo, lã e até gado… No passado, as
projectadas para uma existência em luz solar. “Os habitantes de uma casa diferentes áreas comerciais estavam
comunidade, em ambiente defen- onde entra o sol nunca verão um mé- mais segmentadas, agora tudo está
sivo, privilegiando uma estrutura dico”, diz um provérbio. mais disperso.
social grandemente igualitária que No Verão, os mzabitas mudam-se Em 1997, o mercado foi reabilitado
respeita ao limite a privacidade da para improvisada cidadela fora das al- pela primeira vez, com os cuidados
família. Os edifícios parecem empa- deias fortificadas, em ambiente mais de quem preza um dos principais lo-
cotados numa organizada pratelei- informal no extenso palmeiral, onde cais para trocas e convívio. Antiga-
ra, que respira através das estreitas também têm cemitério — as campas, mente, tinha uma área mais elevada
vielas. Não há porta de frente para igualitárias, não se distinguem entre para as orações e no meio tinha uma
outra porta. E as chaminés nunca si — e uma mesquita. houita, umas pedras em semicírculo,
questionam o conforto do vizinho. de uns cinco metros, onde se senta-
Em todas as habitações há forma vam os membros da assembleia dos
O coração de Ghardaia
de ver para a rua, já o contrário é notáveis para discutir os assuntos da
impossível. De olhos cerrados é como melhor comunidade. A intervenção corrigiu
A maioria das casas nas colinas sinto o forte pulsar em meu redor. boa parte dos defeitos estruturais e
têm dois andares e cada uma tem o Há gente, barulho, lojas e comercian- lavou a face dos materiais desgasta-
seu próprio pátio, terraço e cerca. tes nómadas oriundos de terras dis- dos pelo tempo…
Há a preocupação de juntar a intimi- tantes. Estou no Azghar Ougharme, A antiga mesquita de Ghardaia
dade ao bem-estar da luz solar. que significa fora da cidade, o emble- remonta ao século X, nos primór-
Por fora, prevalece o estilo auste- mático mercado (souk) de Ghardaia. dios da fundação. De estilo mouris-
ro. Igualitário. Por dentro, autênticas Situa-se na periferia sudoeste do ksar. co, com torre simples e elegante,
surpresas. O luxo pode ser extremo. Dizem que esta praça, rendilhada em com uma abertura para ventilação.
Só entrando — ousámos e penetrá- toda a sua periferia por arcada co- A decoração das mesquitas é prati-
mos numa casa a ser remodelada, mercial, foi fundada em 1884. camente inexistente: não precisam
com vários tipos de ostentação bem Este histórico bulício é milenar. de sinais exteriores de riqueza. Ge-
vincados — podemos perceber os Aqui encontramos um pouco de ralmente, a sala de oração é sóbria
segredos. tudo, mas destacam-se os tapetes e e banhada por luz suave. Goza de
As ruas e os edifícios parecem tecidos famosos na região, bem co- uma frieza agradável. “Assim como
harmoniosas obras esculpidas na mo especiarias e saudáveis legumes. a natureza nunca faz duas árvores
encosta, misturando-se na paisagem. Cerâmica, roupa e quinquilharias. iguais, o ventre da mesquita é com-
Ghardaia é um paradigma perfeito de Este cenário é imutável há demasia- posto de arcos irregulares e diferen-
como o engenho humano não preci- do tempo. tes”, justificam-nos. c
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10 | FUGAS | Sábado, 4 de Novembro de 2017

Argélia

Arquitectura que inspira


Vários arquitectos do século XX
vieram aprender ao M’Zab. Le Cor-
busier inspirou-se na mesquita Sidi
Brahim, de El Atteuf, para criar a Ca-
pela Ronchamp, em França. Simples,
prática e perfeitamente adaptada ao A Air Argélia voa de
ambiente, a arquitectura do M’Zab Lisboa e, sazonalmente,
atrai urbanistas e ganha prémios in- desde o Porto para
ternacionais. Argel. A TAP também liga as
Ksar Tafilelt é um modelo, à es- capitais. Desde Argel, que
cala global, de como 1000 anos bem justifica uns dias de visita,
de luta com a natureza podem para Ghardaia é voltar a usar
derivar em projectos inteligen- a companhia nacional do país
tes que antecipam o futuro. Uma africano. Ou a Tassili Airlines,
experiência humana profunda- com duas conexões por semana.
mente especial, pelas suas aborda- De Lisboa são duas horas de
gens social, urbanista e ecológica. viagem até Argel. Daqui a
Nos arredores de Ghardaia este Ghardaia mais uma. Em termos
projecto visa restaurar alguns cos- totais, chegar ao vale do M’Zab
tumes ancestrais baseados na fé e pode custar à volta de 300-350
na auto-suficiência que permitem euros.
que oásis sobrevivam a meios hostis.
Desta arquitectura milenar resulta O turismo em Ghardaia
agora em desenvolvimento sustentá- está, felizmente, longe
vel, assente nas práticas e valores de de atingir os padrões
coesão e assistência social mútua, ocidentais, sobretudo na oferta
em ideias da abordagem ecológica e sua divulgação. No centro
ou nos conceitos sustentáveis de ar- São oito quilómetros de palmeiral inóspita também nos brinda com histórico podemos encontrar,
quitectura. Igualmente em padrões — umas 60000 árvores — alimentado tempestades de areia, entre Março presencialmente, várias opções,
e requisitos do conforto da habita- por poços cujas roldanas em funcio- a Maio. geralmente bastantes modestas
ção contemporânea e trabalho de namento criam a chamada Canção Todas as Primaveras, decorre em e sem referências na Internet.
pesquisa sobre arquitectura biocli- do M’Zab, fazendo inveja a Moufdi Metlili-Chaamba, a uns 30 quilóme- Sugerimos a Residence des Deux
mática. Falamos de um complexo Zakaria, poeta mzabita de Beni-Isgen tros de Ghardaia, o Day Mehr: gente Tours e a Maison d’hôte Gite
de 870 vivendas. que compôs o hino nacional argeli- de todo o país junta-se para célebre Tarist, ambos no vasto palmeiral.
no. Progressivamente, outra música corrida de camelos. Em Março e em Proporcionam uma experiência
A arte de tornar se impõe, pautada por bombas a mo- Abril há um importante festival de mais local, sendo que o primeiro
tor. Fruta, cereais e vegetais crescem tapetes. dispõe de piscina exterior.
o deserto fértil
sob as palmeiras. Antropólogos, arquitectos, inves- Mais central, o El Djanoub já
Em Ghardaia não passa desperce- Nos arredores, gravuras diversas tigadores e historiadores sucedem- foi (há algumas décadas) uma
bido o rio eternamente seco. Rara- mostram a presença de antigas tribos. se neste fantástico M’Zab. Ávidos da bela opção. Se privilegiar a
mente recupera leito. Uma dádiva Aqui, todo o cenário é inspirador. sua riqueza cultural, antropológica experiência vintage ao conforto,
dos céus que aqui pode ser um de- e arquitectura singular. Ler este ar- não hesite.
sastre, já que o curso serve actual- Explorar o Sara tigo é como contemplar a encanta- Residence des Deus Tours
mente como estrada, parque de esta- dora Ghardaia através de um único Beni Isguen
cionamento e até já alberga distintas Dos mais emblemáticos do planeta, olho. Por que não fazer ( já) a mala Tel.: +213 799 53 98 09
estruturas. Uma confiança cega de o deserto do Sara está a mudar. Não e experienciá-la com ambos?
que jamais virá bonança em forma precisamos de nos afastar demasia- Maison d’hôte Gite Tarist
de chuva regular. do para encontrarmos, no meio de Tel.: +213 5 51919100
Estes conhecedores do deserto total aridez, projectos agrícolas em tarist.sahara@gmail.com
percebem, como ninguém, a pre- formas de gigantes círculos verdes eo
M a r M editerrân
ciosidade da água, pelo que desen- que são vistos desde o espaço. Hotel El Djanoub
volveram um sistema hidráulico Explorando o Sara uns 270 qui- Argel Ghardaia
TUN Í S I A

exclusivo de túneis subterrâneos lómetros para sul, El Menia alber- 2328


Tel.: +213 29 28 16 24
para aproveitar a chuva e desviá-la ga uma igreja católica em terra de
para os oásis. Planearam uma dis- ninguém. Mais do que o edifício, a C OS Restaurant Palmier
tribuição equitativa desse recurso impressionante história e viagens O Restaurante tradicional,
R Ghardaia
R com arte e artesanato
natural e mantêm medidas de pro- de um missionário numa época em MA
tecção contra enchentes. A seiva de que os perigos eram bem maiores e exibidos nas paredes. Cozinha
toda a vida no vale chega através de a mobilidade uma romântica ilusão. local e europeia. Vantagem: é
mais de 4000 poços, perfurados a Nos arredores, há paisagens impo- dos poucos lugares de Ghardaia
LÍBIA
uma profundidade entre os 100 e nentes capazes de apaixonar qual- ARGÉLIA onde pode beber álcool. O nosso
os 150 metros. quer experiente fotógrafo. Há um preferido? Couscous verde com
IA

Juntamente com aperfeiçoados mé- lago e abruptas dunas sem fim. E um tâmaras, experienciado no Gite
N

todos de cultivo, permitiram criar um nómada e dois camelos a cruzarem, Tarist.



RI

extenso palmeiral que sustenta, em lentamente, o horizonte. Contem-


U

termos de trabalho, boa parte da po- plamos. E registamos. A


M
pulação entre Maio e Dezembro. Este Nesta Argélia do sul os Verões MALI
palmeiral, que domina a paisagem, são excessivamente quentes, com R
GE
é resultado de conhecimentos mile- as temperaturas a poderem chegar NÍ
nares que têm trazido muita gente a aos 45º, enquanto os Invernos são 300km
Ghardaia para estudar a lendária lu- serenos, embora os termómetros
xúria dos jardins do desértico M’Zab. possam baixar aos 5.º. Esta terra
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A colheita deste ano já terminou e os cestos da vindima estão arrumados.


O Público traz até si o que de melhor se produz em Portugal ao longo de oito
semanas, com uma selecção de alguns dos melhores produtores vitivinícolas AOS SÁBADOS
nacionais, do Douro ao Algarve, passando pela Beira, Lisboa, A PARTIR DE 4 NOV
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Tejo e Alentejo. Brinde os seus momentos com vinhos especiais.
Colecção de 8 vinhos. PVP unit.: variável. Preço total da colecção: 75,88€. Periodicidade semanal ao Sábado. De 4 de Novembro a 23 de Dezembro de 2017.

COM O PÚBLICO
Limitado ao stock existente. É proibida a venda de álcool a menores de 16 anos. Seja responsável, beba com moderação.

04 Nov Beyra Reserva Tinto 2015 . 7,49€ | 11 Nov Morgado de Sta. Catherina Branco 2015 . 8,99€ | 18 Nov Portas da Luz Tinto 2016 . 8,50€
25 Nov Herdade de São Miguel Alicante Bouschet 2015 . 10€ | 02 Dez Maquia Tinto 2015 . 12€ | 09 Dez Tyto alba Touriga Nacional 2014 . 10,90€
16 Dez Herdade Grande Tinto Gerações 2013 . 12€ | 23 Dez Caçada Real Branco 2016 . 6€
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Sábado, 4 de Novembro de 2017 | FUGAS | 13

Protagonista

A Cisjordânia é apenas uma na ressaca dos atentados às Torres Objectos que Paulina leva
André Vieira dessas casas temporárias que Gémeas e do início do conflito no sempre em viagem: t-shirt Star
habitou e este é apenas um dos Afeganistão, faz um contacto com a Wars oferecida por um amigo,
a Há um carro com matrícula muitos episódios que a marcaram RAWA – Associação de Mulheres do uma agulha para ligar e um
palestiniana que é mandado parar das vezes em que esteve em zonas Afeganistão e parte à aventura para pente para desembaraçar
por militares da IDF (Forças de do globo em conflito. “Não foi o o Médio Oriente, para leccionar
Defesa de Israel) num checkpoint mais trágico”, mas conta-o para Teatro e Dança no Afeganistão e
entre a Cisjordânia e Israel. Lá ilustrar os choques civilizacionais no Paquistão, onde encenou vários
dentro está a curadora, instrutora que existem com base em eventos espectáculos.
e performer portuguesa Paulina que tiveram lugar gerações antes “Tinha 22 anos. Não fazia ideia
Almeida com um grupo de jovens das que estão agora a sofrer as da realidade que ia encontrar”,
com idades entre os 17 e 18 anos,
nascidos naquele território da
consequências. Um dos episódios
mais trágicos aconteceu quando
recorda. Lá, encontrou um
mundo muito diferente do
?
Palestina. É 25 de Dezembro de o líder do Freedom Theater, que conhecia. Ainda no Porto
2010, tarde de Natal, e o plano é Juliano Mer-Khamis, com quem tinha um projecto direccionado Resposta rápida
oferecer àquele grupo com quem estava a trabalhar na Palestina, para mulheres. O trabalho que De que forma é que estas
trabalhou durante os meses que lá foi assassinado. “Dias antes de desenvolveu com aquele grupo experiências a transformaram
passou um presente: levá-los até à acontecer, tinha-me dito que fê-la perceber que há lutas muito enquanto pessoa?
praia para poderem ver o mar. pressentia que um dia isso podia diferentes intrinsecamente ligadas Ajudaram-me a quebrar uma
O mar está “do outro lado”, acontecer”, recorda. à geografia. “Não é fácil explicar série de muros e de ideias pré-
em Israel. Os militares pedem os Paulina Almeida nasceu em a alguém que não conhece outra concebidas. Fazem parte de
passaportes. Paulina Almeida, Guimarães no Verão de 1978. Viveu realidade que podem escolher um processo de aprendizagem
com passaporte europeu, tinha a 13 anos na cidade berço, 13 no o homem com quem querem que contribuíram para a minha
via aberta para passar. O mesmo Porto e outros 13 em Berlim. É na casar”, afirma. O contributo que capacidade de adaptação e de
não acontece com os outros transição para a Alemanha que dá tinha para dar era apresentar-lhes flexibilidade. É o reconhecimento
passageiros. “Qual é a garantia início a uma série de viagens por “possibilidades e perspectivas da existência de realidades
que têm de que não posso estar vários países de diferentes conti- diferentes” através das artes do infinitas que me ensinou a
eu mais próxima de ser uma nentes. Na cidade onde nasceu, espectáculo. Quando lá esteve posicionar-me nas várias
terrorista e eles não?”, pergunta ainda aos seis anos, desperta para numa base regular tinha que perspectivas que existem.
aos responsáveis por controlar o ballet e para a dança. Já no Porto, mudar de casa para preservar o
o checkpoint. A resposta foi um inscreve-se no curso de joalheria anonimato da RAWA. Conta que São as pessoas assim tão
acenar para o “outro lado”, da Escola Secundária Soares dos no dia seguinte após ter dado uma diferentes umas das outras?
incentivado pelo próprio grupo Reis, onde foi conhecendo outros entrevista a um jornal paquistanês, Na sua essência o ser humano
que não passava por essa situação alunos ligados a diferentes áreas o sítio onde vivia na altura, não é assim tão diferente. Quanto
pela primeira vez. artísticas. Entre 1996 e 1999, logo um hospital, foi atacado a tiro. mais contacto tenho mais me
Não conformada, tenta outra via após concluir o diploma, frequen- “Não me parece que tenha sido apercebo dessa semelhança. Há
e consegue furar até Israel. Chegam ta o TUP - Teatro Universitário do coincidência”, diz. um factor que nos une a todos. O
à praia e saltam para a areia, Porto e a ESMAE – Escola Superior Quando voltou a Berlim não era que muda é a aprendizagem e o
onde não conseguem estar muito de Música e Artes do Espectáculo. a mesma pessoa. “Numa praça de percurso de vida de cada um. Se
tempo. Há uns soldados que se Nos três anos seguintes, até 2001, Berlim havia uma manifestação limparmos tudo isso que está à
aproximam e que pedem para que especializa-se em Teatro de Rua na contra a guerra. Não quero volta daquilo que é o ser humano,
saiam dali. O grupo de jovens não ACE – Academia do Espectáculo desvalorizar o acontecimento, mas essa essência torna-se mais clara.
está confortável com a situação e do Porto. Nessa altura já existia a senti que queria estar no centro de
percebe que poderá estar em maus Companhia Kabong Teatro de Rua, acção dos conflitos”, afirma. Como é regressar à
lençóis. Paulina Almeida pede aos que fundou em 1998. A partir daí esteve em várias “normalidade” depois de uma
rapazes para pegarem nuns sacos Na Porto 2001 Capital Europeia zonas do Magreb, no Senegal, passagem por zonas com uma
plásticos que tinha guardado no da Cultura integra a companhia na China, nos Estados Unidos, realidade tão complexa e muito
carro e monta um personagem e oficial de Artes de Rua, ano em Canadá, México e em muitos diferente daquela que cá existe?
uma manobra de diversão. Com que também trabalha com as outros países. Leva as artes de Há uns tempos, sentia uma
o plástico todo nas mãos, pede companhias La Fura Dels Baus rua a vários zonas de conflito que frustração muito grande. Dantes,
explicações à IDF sobre o estado (Espanha), Compagnie Kumulus “nem sempre passam por cenários sempre que regressava pensava:
de poluição da praia. “Somos do (França) Natural Theater Company de guerra”. Os resultados práticos “O que estou aqui a fazer quando
Green Peace, acham que uma (Reino Unido), entre outros. das intervenções artísticas que há tanta coisa para fazer noutros
praia pode estar assim tão suja?”, Um ano depois, estava a leva a cabo, para a performer, não sítios?”. No entanto, à medida
interrogou. Os dotes de performer leccionar a cadeira de teatro são fáceis de descrever. Recorda que fui tornando os meus
e actriz serviram para distrair e na Faculdade de Letras da as palavras de um líder de uma projectos mais complexos, fui
para poderem voltar em segurança Universidade do Porto, quando é tribo afegã que um dia lhe disse: também puxando toda essa
à casa temporária da artista, convidada a integrar a companhia “Paulina, tu estás a alimentar a experiência acumulada para
também activista, que desde 1997 alemã Grotest Maru. É aí que se alma”. “Talvez seja isso que este esta realidade dita normal. Num
usa o espaço público como palco. muda para Berlim. Na Alemanha, tipo de intervenções faz”, afirma. cenário de conflito há uma acção
mais directa. É mais fácil de

Paulina Almeida
identificar o que se está lá a fazer.
No entanto, cá, onde existe essa
tal normalidade, haverá muita
coisa que poderá ser ainda mais
perversa e por isso é também

Viajar por um mundo em conflito


necessário intervir.

para alimentar a alma dos outros


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14 | FUGAS | Sábado, 4 de Novembro de 2017

Espanha

A Galiza em três dias


e três paragens
O Verão quente português que deixamos para trás
em pleno Outubro seguiu-nos até Norte, à Galiza.
Nos três dias que nos esperam, no meio da natureza
virgem e sempre com o mar a espreitar ao fundo, é
de braços abertos que o recebemos. Renata Monteiro
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Sábado, 4 de Novembro de 2017 | FUGAS | 15

CEDIDA POR TURISMO DE GALICIA ADRIANO MIRANDA


a No meio das dunas, no Parque
Natural de Corrubedo e Lagoas de
Carregal e Vixán, na província da Co-
ruña, quase não corre uma brisa.
“Estamos num dos seis espaços na-
turais galegos que, devido aos seus
valores paisagísticos e ecológicos, é
necessário preservar”, começa por
dizer o guia, de binóculos ao peito
pronto a apanhar na mira os corvos
marinhos, garças-reais, cisnes e pa-
tos (para quem é novo na observação
de aves, a app Birding Galicia pode
ajudar a encontrá-los). Nestes quase
mil hectares no município de Ribei-
ra, “há tudo quanto possam imagi-
nar”, vai dizendo o biólogo durante
o trilho calcorreado sempre em pas-
sadiço, para preservar as espécies
endémicas dunares que só existem
ali e no Norte de Portugal. “Lagoas,
uma de água doce e outra salgada,
rios de água cristalina, cascatas ma-
jestosas escondidas nas profundida-
des dos bosques e oceanos repletos
de vida” é a promessa da marca que
quer afirmar o turismo de natureza
na região.
O parque de Corrubedo pode ser
conhecido todo o ano, de terça a
domingo, gratuitamente, e através
de seis rotas à escolha. Escolhemos
percorrer o “Caminho da Praia”, 1,5
quilómetros de baixa intensidade
a começar na recepção do espaço Em Corrubedo é sempre casa. A partir daí vinham cá passar Santiago de gentes da Galiza são como nós: riem-
que todos os anos recebe mais de a areia, o vento e o mar todos os fins-de-semana.” Faziam Compostela se muito, a hospitalidade aqui tam-
100 mil visitantes. Por este itinerário cerca de 50 quilómetros desde a (em cima) bém é caso sério.
circular é possível ver quase todos Em vez de nos distanciarmos, opta- capital galega, perto de uma hora dispensa No porto de Aguiño, apanha-se o
os valores naturais e patrimoniais mos por nos aproximar do mar que de caminho. Ainda hoje, enquanto apresentações; barco para a ilha de Sálvora, uma
do parque, fortemente ligados ao hoje bate manso na areia do Porto nos fala com ar sonhador, não des- ao lado, a ilha das quatro do Parque Nacional Ma-
mar. Ainda assim, não é o percur- de Corrubedo. A Galiza, devido à gruda os olhos da janela para o mar. de Sálvora; rítimo Terrestre das Ilhas Atlânticas
so mais escolhido. Diz quem sabe costa muito recortada, é a região “Isto é lindo assim, mas ainda gosto em baixo, o da Galiza, candidato a património
que o melhor caminho é o “do Rio espanhola com mais quilómetros mais no Inverno, é mais acolhedor, Parque Natural mundial. Entre Cortegada, Ons e
do Mar”, um trilho mais longo, de de litoral. Custa a acreditar que es- vemos a maré brava quase a galgar das Dunas de Cíes, Sálvora é a mais agreste. A ilha
3,5 quilómetros, que vai desaguar ta parte seja uma das mais perigosas o terraço” diz, com as mãos a imitar Corrubedo foi privada até 2007 e só há pouco
na airosa praia do Vilar. Se tiver ha- do litoral galego, com ondas gigan- o frenesim tempestuoso que acaba tempo é que recebe turistas, sem-
bilidade para isso, aconselhamos a tes e fortes correntes marítimas a de dedo apontado à nossa última pre acompanhados por guia. Não
levar a prancha, deixar o carro no desafiarem o trabalho dos pescado- paragem em Corrubedo, no meio há barcos públicos e para lá che-
parque de estacionamento cheio de res. À hora do almoço (ou do xantar, da boca da ria de Arousa. É com um gar é preciso recorrer a empresas
autocaravanas e dar um mergulho como lá dizem), vemos os barcos de abraço que nos despedimos, que as privadas (existem mais de 15 c
nas águas límpidas (e geladas) do pesca muito próximos, a repousar, CEDIDA POR TURISMO DE GALICIA
Atlântico, pontuadas por dezenas quase sem balançar à mercê da água
de surfistas. transparente, do terraço da Casa dos
Outro dos caminhos, o do Vento, Casqueiros.
oferece uma vista privilegiada para a Esta casa de alojamento local com
grande duna móvel, a “montanha de cinco quartos (85€ por noite, duas
areia” que se eleva por 20 metros e é pessoas) que são janelas e clarabóias
um dos grandes sistemas a proteger abertas de par em par para o oceano
deste complexo. “Também a podem já pertenceu a homens e mulheres
ver bem do miradouro Pedra da Ra, do mar. Foi reabilitada por dois ad-
em Aguiño”, no monte Castro, diz o vogados e desde Agosto do ano pas-
guia, em jeito de despedida. Como é sado que Lucía Plaza não tem mãos
que o encontramos? “Ora, é mesmo a medir. “Já estamos completamente
uma rã em pedra”, ri-se. Não será cheios para o próximo Verão”, diz,
exactamente isso, claro, mas sim enquanto mostra todas as divisões
uma janela para o Atlântico, para a que misturam a estrutura tradicio-
vila de Pobra do Caramiñal, o farol de nal em pedra, material resistente
Corrubedo e as Illas de Sálvora, com às ondas, com pitorescos quadros
uma grande rocha em forma do anfí- de temas náuticos e decoração em
bio no centro. Se seguir um caminho tons de branco e azul. Tudo come-
de terra à direita, encontra outro mi- çou com os pais da advogada. “Eram
radouro, plantado 210 metros acima de Santiago e chegaram aqui há 40
da linha da água e com vista para o anos, de moto Vespa. Enamoraram-
castro da cidade. se pelo sítio e construíram aqui uma
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16 | FUGAS | Sábado, 4 de Novembro de 2017

Espanha

que realizam esta travessia), que Não sabemos se eles se banhavam


normalmente contratam um guia e nas termas romanas, mas se não o
organizam a visita. A entrada é fei- faziam fogem à regra de costumes da
ta junto ao castelo e, mais próximo população de Ourense e arredores,
da terra de firme de A do que do que aproveita o fim-de-semana para
mar, começa a ver-se uma estátua se estender pelas várias piscinas de
de uma sereia a indicar a chegada água quente que a segunda maior ci-
ao destino. dade termal europeia, só ultrapassa-
O arquipélago, constituído pela da por Budapeste, oferece. À tarde,
ilha principal e por várias ilhotas, os mergulhos são nas termas japo-
tem 190 hectares de área e foi casa nesas de Outariz (5,50 euros) — tam-
de oito famílias até aos anos 1970. Da bém há as da Chavasqueira, com a
aldeia só sobram as casas de pedra, mesma inspiração —, onde a palavra
em risco de derrocada, algumas com de ordem é “relaxar” e “tranquilizar
placas a indicar nomes de “heróis o ruído da cidade”. As instalações
e heroínas” que foram para o mar são constituídas por dois circuitos,
durante o naufrágio de Santa Isabel, quase em cima do rio e rodeados por
em 1921. O desastre, popularmente verde a virar laranja e amarelo por
conhecido como “o Titanic galego”, esta altura. O Zen, com seis termas
provocou a morte de 213 pessoas, a em madeira e pedra, e o Celta, com
apenas 200 metros da costa da ilha. piscinas e cascatas a imitar os castros
Os faroleiros, ouvindo os gritos, cor- e dólmenes das populações antigas.
reram a chamar a população, que Além do circuito termal, há ainda
desafiou as ondas gigantes em três um spa com massagens (9€ - 41€),
embarcações: uma para pedir ajuda banhos aromáticos (13€), tratamen-
à população de Ribeira e outras duas tos faciais, corporais e outros que
para resgatar os membros da tripu- variam em cada estação.
lação. Salvaram 55 pessoas.
A caminhar pela rota da aldeia
Todos os caminhos
(cerca de uma hora), sozinhos na
ilha, dizem-nos que podemos en- vão dar a Santiago
contrar cavalos selvagens, veados e
coelhos no meio do silêncio que se É costume dizer que o caminho
espera de uma ilha deserta. Com o se faz caminhando — e devem ser
sol baixo, quase a ser engolido pelo poucas as cidades que levam o dito
mar, deixamos para trás o mar de popular tão a sério quanto Santia-
vento e areia numa lancha rápida, a go de Compostela (embora também
última do dia a fazer a travessia. se aceitem as opções do cavalo e da
bicicleta). Da última vez que Silvia
A cidade que nasceu aos pés Cantera lá esteve, a “catedral ainda
estava inteira”, havia muita fila para
da água quente
entrar e ela não “entendia porquê”.
Só começamos verdadeiramente a Voltou agora, a fachada tapada pe-
acordar, no dia seguinte, já a bor- las obras que terminam em 2021, o
do de um dos comboios turísticos próximo ano santo, e depois de mais
da Galiza. O “Tren Ourense Termal de 300 quilómetros de caminho a
de Compras” parte de Santiago da pé, com a mochila gigante que atirou
Compostela e dirige-se à cidade das ao chão mal chegou à praça, já en-
oito pontes e da água quente que tende a fila. “É engraçado como em
brota, a 65 graus, aos nossos pés. O Santiago só se vê gente nesta praça
rio Minho guia o caminho até Ouren- e naquela rua maior, a de Franco.”
se, a “província espanhola que mais Senta-se a descansar, pernas a amo-
quilómetros de fronteira tem com lecer. “Depois disso é a tranquilidade
Portugal”, diz-nos o seu autarca. “É absoluta”, sorri. Tem razão, quanto
o que vos digo, minhotos e galegos mais nos afastamos menos se ouvem
é a mesma raça”, comenta baixinho as vozes dos peregrinos, os flashes e
Xosé Merelles, os vendedores de rua. O barulho da
Vamos pelas termas, que existem cidade volta a notar-se no mercado
por todo o lado, e onde é possível de abastos, o segundo lugar mais vi-
banharmo-nos gratuitamente, mas sitado, principalmente ao sábado.
a cidade, ora medieval, ora a vibrar Nas bancas apertam-se moluscos,
entre copos de vinho, polbo á feira e carnes, queijos e vegetais que pode
pinchos, também merece uma visita. comprar e pedir para cozinhar ali
A pé entre lojas de marcas de luxo, mesmo, “sem frigorífico”, no Maris-
igrejas e praças inclinadas que são co Mania. É a tendência que acaba
das mais bem conservadas da Galiza, em guerra dos mercados munici-
entramos na catedral (5€), onde os pais: os frescos em simbiose com
olhos se prendem no gigante Pórtico marcas gourmet e esplanadas. Não
do Paraíso. Poucas ruas à frente, o sa- era bem assim quando Maria Tere-
grado dá lugar à tentação. As ruas Pa- sa, das Patatas Gomez, ali começou.
seo, Paz e Santo Domingo são autên- “Mudou muito, para melhor, desde
ticos centros comerciais ao ar livre, que entrei de empregada e fiquei de
não fosse a cidade a casa de Adolfo dona”, diz, enquanto pesa um saco
Dominguez e de Roberto Verino. de tomates. “Te garanto que aqui
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Sábado, 4 de Novembro de 2017 | FUGAS | 17

CEDIDA POR TURISMO DE GALICIA CEDIDA POR TURISMO DE GALICIA

restaurante galego, o Tomatiño, este


com poucas semanas, e em Nova
Iorque, onde é chef-executiva.
Com um sorriso rasgado, puxa
uma cadeira há muito desejada,
sopra o teimoso fio de cabelo loiro
que teima a cair do puxo que usa Eurostars Gran
na cozinha e senta-se para falar Hotel Santiago
connosco no final do longo menu Avenida Maestro Mateo,
de degustação que serviu. A jovem 27, Santiago de Compostela
cozinheira faz parte do Grupo Nove, Tel.: (+351)707500224
uma associação de cozinheiros ga- www.eurostarshotels.com.pt/
legos que se juntaram para divulgar eurostars-gran-hotel-santiago.
a filosofia de “cozinha galega van- html
guardista”. Quarto duplo: 50 euros
“É gente jovem que também se
dedicou à agricultura, todos muito Casa dos Casqueiros
pequenos, mas apoiamo-nos uns nos Rúa do Porto, 47, 15969
outros. É gente com ideias sustentá- Corrubedo
veis, que valorizam os produtos tra- Tel.: +34 609 82 68 56
dicionais e fazem as coisas bem num www.casadoscasqueiros.com
sítio em que nunca valorizamos o que Quarto duplo: 85 euros,
é nosso”, conta. “Esta nova vaga pe- apartamento 150 euros
ga nos produtos e dá protagonismo
também às mãos de quem cozinha, A Tafona
CEDIDA POR TURISMO DE GALICIA de quem faz a louça (na Tafona é a Rúa da Virxe da Cerca, 7
O Farol de Pordamsa), o azeite, aos pequenos Santiago de Compostela
Corrubedo é produtores locais”, explica. Tel.: (34) 981 562 314
uma marca Ao apresentar um bonito prato www.restauranteatafona.com
distintiva na (15€) onde salta o bonito (atum), info@restauranteatafona.com
paisagem; em o tomate e o figo declara, braços Preço médio por pessoa: 60 €
cima, a cidade estendidos e mãos abertas, que é
de Ourense; a sua horta num prato. “Na Tafo- O Dezaséis
ao lado, as na fazemos uma cozinha de mer- Rua de San Pedro, 16, 15703
termas de cado e de temporada, baseada na Santiago de Compostela
Outariz nossa horta”, diz, acrescentando Tel.: +34 981 56 48 80
que gosta que “as pessoas saibam http://dezaseis.com/
o que estão a comer”. O que não Aberto de segunda a sábado
pode faltar numa cozinha tradicio- entre as 14h e as 24h
nal galega é “tudo o que se refere Prato de carne ou peixe: 15€
ao mar”, o “pimento”, o “loureiro”, Tapas: dos 6€ (empanadas) aos
as empanadas, as vieiras, a salada 16€ (navallas à grella)
de tomate, a pescada, o bacalhau
com couve flor tradicional. Ela faz Pingallo
tudo isto com um “toque de criativi- Rua de San Miguel, 4, 32005
compras um tomate a saber a toma- chef d’A Tafona, palavra galega para dade”. E, para o bem e para o mal, Ourense
te. E a melhor preço!”. Já conhece “fábrica de pão”. Com este nome, este toque muda tudo. Tel.: +34 988 68 69 05
todos os clientes, tira a pinta aos tu- só podia ser o pão a dar as boas- www.restaurantepingallo.com/
ristas ao longe e já sabe que não vão vindas a quem entra no restaurante, A Fugas viajou a convite do
parar na banca que tem há 30 anos. com uma estrela Michelin, escon- Turismo da Galiza no âmbito de Marisqueira Carretas
“Os portugueses gostam mais da- dido entre duas ruas apertadas de um intercâmbio com o Turismo Tel.: +34 981 56 31 11
quela parte”, ri-se, queixo empina- Santiago da Compostela. do Porto e Norte de Portugal www.restaurantecarretas.com/
do em direcção à muito mais recente Há broa (“Sim, também fazemos Fechado ao domingo à noite e à
Viñoteca do Mercado, uma taberna muito em Portugal”, respondem- TICO segunda-feira
moderna com cerca de cem marcas lhe), pão de água salgada, pão de TLÂN
A
de pequenos produtores galegos. Ja- cea (da vila de San Cristovo de Cea), NO
EA
cobo Garcia, atrás do balcão, traz de milho, cebola e azeitonas pretas C
O

para a mesa uma travessa de quejo com um pouco de cerveja ou pão de Corunha
tetilla (que os clientes compraram castanha para molhar sem medo de GALIZA
Região
umas bancas à frente) e pega numa sujar as mãos em azeite isbilya ou na
garrafa de vinho galego, a especiali- manteiga de cogumelos. “O pão ga- Santiago de
dade da casa. “Abrimos aqui há seis lego tem muita fama” e este vem da Compostela
ho

anos porque é um local de reunião Padaria Divina, com banca no mer- ESPANHA
in

Leão
Rio M

dos compostelanos e dos visitan- cado principal da cidade, quase sem-


tes, com história, como os nossos pre vazia de tão rápido que vende.
vinhos. É uma combinação e tanto”. Quando se tem “bom produto” Corrubedo
Salta a rolha: “Sin palabras”, ri-se, a como o “pescado acabado de sair Ourense
apontar para o rótulo. do mar” e vegetais biológicos arran- 2124
cados a uma terra não muito longe
Estes jovens chefs galegos do restaurante onde nos sentamos,
na quinta biológica da chef, não “é
querem é “bom produto”
preciso inventar muito”. Que o diga
“Isto aqui é broa, não sei se têm em Lúcia, 35 anos, mãe há pouco tem- PORTUGAL
32km
Portugal”, saúda-nos Lúcia Freitas, po de uma menina e de um outro
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18 | FUGAS | Sábado, 4 de Novembro de 2017

Passeio

Conhecer Arouca e a “Freita Encantada”,


com um piquenique às costas
O projecto municipal GeoFood quer unir território e gastronomia, numa experiência
que atravessa o concelho de Arouca e mostra mais do que a reconhecida carne
arouquesa e os Passadiços do Paiva. Comer o que é local e da época, com consciência
ambiental, é o objectivo. Ana Maria Henriques (texto) e Adriano Miranda ( fotos)
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Sábado, 4 de Novembro de 2017 | FUGAS | 19

a Está escondida num edifício recen- estilo de vida saudável, é o objectivo vários elementos do projecto, que “Freita estas entradas saíram das estufas de
te, mas parece uma mercearia das do projecto GeoFood, uma parceria junta 70 produtores arouquenses, Encantada” é Manuel Bouça, produtor há já três
antigas: chão de mosaico hidráulico, entre a autarquia e o Geoparque de integrados no Arouca Agrícola, e seis o nome de um anos que viu as encomendas cres-
armários de madeira com portas de Arouca, a piscar o olho ao turismo restaurantes com ementas dedica- dos itinerários cerem com a preocupação de sus-
vidro recortado, fruta disposta em sustentável que pôs a vila no mapa. das. Um deles é o do Hotel S. Pedro, criados pelo tentabilidade alimentar e territorial.
caixas de madeira, um balcão alto e “Historicamente, este território a paragem que se segue. Geoparque de Por semana, o agricultor de 45 anos
imponente. Não há arcas para con- foi-se desenvolvendo em torno da Assim que chegamos ao hotel, a Arouca, que colhe entre 30 a 40 quilogramas de
gelados nem alimentos processados agricultura”, começa por dizer Ana mesa para o jantar está posta. Há um inclui onze shiitake, que também transforma em
industrialmente, são poucos os ingre- Helena Pinto, nutricionista respon- pequeno menu impresso com o ca- geossítios doces, patés, broas — que havemos
dientes sintéticos nas receitas e as eti- sável pelo GeoFood. Mas a tradição rimbo GeoFood e a garantia de que de provar — e até chocolates rechea-
quetas apresentam um código-postal perde-se com o passar dos anos e “al- apenas vamos provar produtos da dos. A vitela arouquesa, prato prin-
local — e isso é bom. Bem-vindos ao guns produtores de pequena escala terra. É um menu 100% arouquense, cipal do jantar, é servida com legu-
Mercado Local de Arouca, onde os precisam deste apoio para conse- este que está à nossa espera, e a lousa mes da época e batata-doce em vez
produtos deste concelho do distrito guirem desenvolver a sua activida- com as entradas já vem a caminho: da tradicional. É que a batata-doce
de Aveiro (mas parte da Área Metro- de”. Unir os produtores locais aos broa de milho caseira, enchidos lo- dá-se muito bem em solo arouquen-
politana do Porto) têm uma montra restaurantes locais e, a partir destes, cais, cogumelos shiitake salteados se, continua Ana Helena Pinto. E nas
para a comunidade, local e não só. a quem visita o concelho “é a valori- e paté de cogumelos. Eis um caso receitas regionais — que tiveram de
Aqui começa uma viagem pelo ter- zação económica que faltava”, defen- exemplar do impacto que o GeoFood ser adaptadas à sazonalidade dos ali-
ritório através da gastronomia. Co- de. O Mercado Local, de portas aber- pode ter na economia local. Os co- mentos — também.
mer o que é local e da época, num tas diariamente, faz a ponte entre os gumelos de época escolhidos para No início de Outubro, o GeoFood
foi distinguido com a segunda men-
ção honrosa dos Food & Nutrition
Awards 2017. A “visão global de
um sistema alimentar”, como Ana
Helena Pinto descreve, actua des-
de o início do processo produtivo,
passando pela distribuição e termi-
nando no consumo. “É um produto
turístico promotor de bem-estar e
saúde, com responsabilidade social
e ambiental globais.” Foi com esta
ideia em mente que o Hotel S. Pedro
criou a Experiência GeoFood 360º,
um pacote que inclui refeições 100%
arouquenses, uma noite e um pas-
seio pela serra da Freita com direito
a piqueniques. Vamos a isso?

Na rota dos miradouros


À medida que subimos a serra, a
temperatura vai descendo. Ultra-
passamos, em altitude, o nevoeiro
que conseguíamos adivinhar da va-
randa do quarto de hotel e conta-
mos pelos dedos de uma só mão os
carros com os quais nos cruzamos.
Afinal, a manhã ainda mal começou,
apenas o gado arouquês se passeia,
livremente, pelas estradas da “Freita
Encantada”. É este o nome de um
dos itinerários pré-definidos, cria-
dos pelo Geoparque de Arouca, que
inclui onze geossítios (sítios com in-
teresse geológico), alguns deles com
i miradouros “encantados”.
O marco geodésico de São Pedro
Velho assinala os 1077 metros de alti-
Hotel S. Pedro tude e, empoleirada em cima de um
Av. Reinaldo Noronha, 34 domo rochoso de granito da Freita,
Tel.: 256 944 580 uma estrutura circular de ferro e
4540-105 Arouca madeira forma uma plataforma com
info@hotelspedro.com uma panorâmica de 360 graus. Da-
www.hotelspedro.com/ niela Rocha, a geóloga que guia esta
Preços: Experiência GeoFood visita, vai explicando a “dança dos
360º a partir de 65 euros/ continentes” que, há milhões de
pessoa (quarto duplo). anos, levou à formação das rochas
mais abundantes do Geoparque de
Arouca, alternando curiosidades
científicas com informações turís-
ticas e tradições da região. Ergue a
mão para apontar os destinos que se
seguem neste passeio, enquanto o
nevoeiro baixo se move em tor- c
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20 | FUGAS | Sábado, 4 de Novembro de 2017

Passeio

i
Experiência
GeoFood 360º
Disponível desde o início do mês
de Outubro, esta experiência
do Hotel S. Pedro inclui jantar
com menu GeoFood, uma noite
em quarto duplo com pequeno-
almoço, passeio pela rota dos
miradouros da serra da Freita
e dois piqueniques (reforço
matinal e almoço). O passeio
pelo Geoparque da Arouca e o
menu podem ser personalizados:
o primeiro pode incluir outros
geossítios e os Passadiços do
Paiva e o segundo pode ser
adaptado, seguindo preferências
ou regimes alimentares. Os
menus 100% arouquenses estão,
também, disponíveis na carta do
restaurante do hotel.

no do miradouro, ora ocultando ora reza atrai cada vez mais pessoas ao
revelando as aldeias do planalto, as concelho de Arouca, onde a oferta
linhas de água, os trilhos marcados. neste campo tem crescido desde a
Naqueles dias em que as nuvens são criação do Geoparque. Inaugurado
totalmente inexistentes, sublinha Da- há quase dez anos, em Dezembro de
niela, é possível vislumbrar os braços 2007, integra a Rede Europeia de Ge-
da ria de Aveiro e uma franja de mar. oparques sob a tutela da UNESCO —
Uma das aldeias que o nevoeiro Organização das Nações Unidas para
esconde é Merujal, aonde é possível a Educação, a Ciência e a Cultura e
chegar percorrendo um percurso pe- envolve uma área de 327 quilómetros
destre com cerca de dois quilóme- quadrados.
tros. Além da pedra — que é a imagem A zona de merendas adjacente ao
de marca deste território —, o trilho Parque de Campismo de Merujal é a
está rodeado por pinheiros bravos escolhida para o primeiro piqueni-
e cedros e o chão coberto de arbus- que do dia, em jeito de reforço ma-
tos, flores e outras plantas comestí- tinal. Do saco de papel pardo, pensa-
veis. É o caso da carqueja, da urze do para caber numa mochila, saem
e do tojo, que Ana Helena Pinto vai produtos locais: fruta da época — no
cheirando e apanhando ao longo do caso, maçãs pequenas, imperfeitas e
caminho. É também destes passeios saborosas —; fatias de enchidos e de
pela serra que a jovem nutricionista broa de milho caseira; minibroas do-
colhe inspiração para a introdução ces de cogumelos; e “marmelices”,
de novos ingredientes nas ementas pequenos cubos de marmelada ca-
que ajuda a desenvolver. A descida seira, embalados individualmente.
de Saõ Pedro Velho é íngreme, mas “É para prevenir possíveis quebras
isso não demove os corredores com de tensão”, justifica Ana Helena Pin-
os quais nos vamos cruzando e os to. Restabelecida a energia à sombra
grupos organizados de caminhan- dos pinheiros bravos, é tempo para
tes. O turismo desportivo e de natu- continuar a visita. Ao contrário dos
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Sábado, 4 de Novembro de 2017 | FUGAS | 21

Ana Helena de Interpretação, e num campo


Pinto é a delimitado do outro lado da rua,
nutricionista vizinho de terrenos de cultivo dos
responsável habitantes da aldeia, para quem as
pelo Geofood; pedras parideiras não são novida-
em baixo, de. Assim que Alexandra Sá, grávi-
Manuel Bouça, da de Matilde, atravessa a rua, uma
produtor de voz chama-a. “É a D. Maria”, diz a
cogumelos geóloga, que se fez família das mu-
lheres e dos homens da Castanhei-
ra quando o centro foi inaugurado,
em 2012. Pronta para ir “apanhar
erva” para os animais, mesmo ali
ao lado das pedras que projectam
outras pedras, D. Maria quer saber
da menina que há-de nascer, de bra-
ço dado com Alexandra. Histórias
antigas contam que uma pedra pa-
rideira debaixo da almofada de um
casal aumentava a fertilidade; “Ou-
tros tempos”, brinca D. Maria.
É Alexandra quem nos guia até
ao penúltimo miradouro do dia, no
décimo andar do Radar Meteoroló-
gico de Arouca. No piso panorâmico
deste radar — instalado, em 2015, a
1046 metros de altitude e gerido pelo
Geoparque —, paredes envidraçadas
mostram os locais por onde andamos
e muitos mais, muito mais longín-
quos. Desde a serra de Montemuro
à serra da Estrela, assinaladas com
caneta branca nos vidros da torre,
até à área urbana do Porto, é possível
ter uma vista superior a 100 quiló-
metros. “Chega a conseguir ver-se
Matosinhos”, garante Alexandra.
Com o fim da manhã aproxima-se
o momento do segundo piquenique
do dia, no último miradouro do cir-
cuito, a pouco mais de dez minutos
de viagem de carro desde o Radar.
De vidros abertos, o silêncio da serra
é substituído pelo ruído das pás dos
aerogeradores, 16 no total. Próximo
muitos campistas que abandonam com a imponente queda de água. construção arquitectónica moderna de um deles está o local escolhido
as tendas a meio da manhã para se Muitas das casas da aldeia da Miza- destaca-se dos demais edifícios: é o para o almoço, o Detrelo da Malha-
fazerem ao caminho, de mochila às rela apresentam um miradouro par- Centro de Interpretação da Casa das da: uma plataforma circular — de
costas e vários quilómetros pela fren- ticular — sob a forma de varandas e Pedras Parideiras, um dos geossítios ferro e madeira, como a de São Pe-
te, seguimos de carro. terraços — sobre o vale do Caima e o mais emblemáticos do Geoparque dro Velho — pendura-se na vertente
No encalço de um dos ex-líbris da
Freita — as pedras parideiras —, Da-
planalto da Freita, voltadas para o
sol e ao abrigo dos ventos agrestes Da cozinha de Arouca, com características úni-
cas em todo o mundo. Estas “pedras
norte da Freita, voltada para o vale
de Arouca. Da cozinha do Hotel S.
niela conduz-nos até um dos pontos
de observação da mais alta cascata de
que baixam as temperaturas. É assim
nas outras aldeias serranas da região, do Hotel S. que parem pedras” estendem-se por
uma área de perto de um quilómetro
Pedro saíram a salada de feijão fra-
de com espinafres e maçã e as san-
Portugal Continental. Sabemos que onde os habitantes — que se contam quadrado e são visitadas por milha- duíches de vitela arouquesa em pão
chegamos à Frecha da Mizarela pela às poucas dezenas — se dedicam, por Pedro saíram res de pessoas por ano. Mas porquê rústico, as broas doces de cogumelos
presença de carros e motos na berma norma, à agricultura e ao pastoreio. parideiras? Alexandra Paz, geóloga regressam para terminar a refeição.
da estrada e pela movimentação de
pessoas com material específico para
Os animais com os quais nos cruza-
mos ao longo de todo o percurso são
a salada de do Centro de Interpretação, explica,
ainda antes de vermos do que se tra-
Ana Helena aguça a vista e enumera
as aldeias que se vêem do Detrelo
a prática de canyoning. Aqui, o rio
Caima dá um salto de mais de 60 me-
a prova disso mesmo: este é um terri-
tório conhecido pela carne de bovino
feijão frade ta: o granito de tons claros apresenta
uma invulgar quantidade de nódulos
da Malhada e aquilo que cada uma
produz: o mel do pequeno-almoço
tros, proporcionando uma cascata
perfeita para quem procura a adrena-
e o gado tem prioridade. com espinafres negros (biotíticos), que se libertam
por acção da erosão. No granito da
é de Adaufe, as maçãs são de Mol-
des, a broa de milho da Várzea e a
lina de desportos radicais. Um Verão
e um início de Outono extremamente
Há mais Arouca e maçã e as Castanheira restam, assim, cavidades
mais escuras, resultantes dos nódu-
de abóbora de Urrô. Sabe-se o que
se come, de onde vem e quem o faz,
para lá dos passadiços
secos, contudo, encolheram o caudal
do Caima, que rompe o granito e os Na aldeia que se segue, a da Cas-
sanduíches los que dele se soltaram.
As datações mais recentes, eluci-
de pernas estendidas na terra dura,
o olhar para lá do vale do Paiva, ca-
micaxistos ladeado por “vegetação
primitiva” da serra, como rododen-
tanheira, o pastoreio é o motor da
economia familiar e rural. Apenas
de vitela da o filme 3D que a Casa das Pedras
Parideiras mostra a todos os visitan-
sa dos passadiços mais conhecidos
de Portugal. Há Arouca para lá dos
dros, carvalhos-alvarinho e carva-
lhos-negral. As explicações estão a
nove habitantes ocupam aqui as suas
casas e são às centenas as cabeças de arouquesa em tes, apontam para que este geossítio
tenha entre 320 e 310 milhões de
passadiços, prova-o uma manhã pas-
sada na “Freita Encantada”.
cargo da geóloga, cujo colete identi-
ficativo do Geoparque atrai a atenção
gado que pertencem à Castanheira,
de condições climáticas adversas e pão rústico anos. O “tesouro geológico” destas
pedras pode ser admirado numa A Fugas esteve em Arouca a
de um grupo de turistas intrigados solos pobres. Na rua principal, uma zona coberta, contígua ao Centro convite do Hotel S. Pedro
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22 | FUGAS | Sábado, 4 de Novembro de 2017

Puralã – Wool Valley Hotel & Spa

O antigo Hotel Turismo da Covilhã foi


totalmente renovado e renasce com novo nome
e conceito. O Puralã conta agora a história da
cidade, da serra e da tradição dos lanifícios. Para
ficar no aconchego das meadas ou sair num dos
roteiros criados para explorar a região. Mara
Gonçalves (texto) e Ricardo Lopes ( fotos)

Um aconchego
de lã e história para
ver o Outono chegar
à serra da Estrela
a Sobre a marquesa estão à nossa em regime de soft opening, o Puralã rios do grupo hoteleiro, donos de
espera uma manta dobrada e dois – Wool Valley Hotel & Spa foi reinau- uma fábrica têxtil de lanifícios e das
pompons feitos de finos fios de lã. gurado oficialmente em Junho des- lojas de novelos e meadas Tricots
Chegámos atrasados ao Puralã – te ano. A estrutura arquitectónica Brancal.
Wool Valley Hotel & Spa, situado à mantém-se, mas tudo o resto está Todo o hotel é, por isso, uma
entrada da Covilhã, e por isso salta- diferente. Antes podia estar locali- “homenagem à lã”. À entrada, a
mos o programa directamente para zado em qualquer parte do mundo. fachada representa um tear: os
o Ritual da Lã, um tratamento ex- Agora conta “uma história” que só novelos sobem a parede para pas-
clusivo do spa do hotel. Primeiro, o aqui fazia sentido ser narrada: a sar pela estrutura de madeira, já
corpo é coberto por uma pasta de da cidade que galga a encosta da no exterior, e emaranharem-se
chá verde de Idanha, com alecrim e serra da Estrela e da indústria dos numa malha de rectângulos entre
esteva da região, que vai ajudar “a lanifícios que a ela sempre esteve as janelas dos quartos. Na ala que
desintoxicação do organismo”, ex- ligada. reúne bar, restaurante e salas de es-
plica a terapeuta Cláudia. Ficamos “Os hotéis têm de espelhar a ci- tar, um mural assinado por Fátima
assim durante 15 minutos, envoltos dade em que se encontram”, de- Pereira Nina retrata o impacto da
em lençóis de plástico cobertos pe- fende Vasco Pinho, designer e de- indústria têxtil na Covilhã, durante
la manta quente feita de lã. Depois, corador de interiores responsável séculos principal motor económi-
segue-se uma massagem de corpo pela transformação. Para o filho da co, social e cultural da cidade. “Se
inteiro, em que o óleo quente à base terra, que já tinha colaborado an- os filhos de Adão pecaram, os da
de azeite virgem extra da Beira Bai- teriormente com o grupo Natura Covilhã sempre cardaram”, lê-se Em vez de cartões com os horários
xa e extractos naturais de essência
de três lavandas, que “crescem em
IMB Hotels (proprietário do Puralã
e de outros cinco hotéis na região),
num dos painéis. Em cada recanto,
há abat-jours ou almofadas feitas de i de entrada e de saída de cada fun-
cionário, a estante é agora preen-
diferentes altitudes aqui na zona”, o passado foi sendo “desvaloriza- malha. Nos quartos, um tronco de chida com folhetos de sugestões
são espalhados pelo corpo com os do” ao longo dos anos e “não havia madeira derrama fios de lã sobre Puralã – Wool Valley de eventos, actividades e locais a
pompons de lã. Nenhum pormenor nada que homenageasse a verda- a cama. Aqui e ali, objectos resga- Hotel & Spa visitar na região.
foi deixado ao acaso e todos eles deira tradição” da Covilhã no ramo tados às antigas fábricas da cidade Rua Alameda Pêro da Covilhã O objectivo é “entrosar o passa-
acrescentam um fio à meada com hoteleiro da cidade. Era esse o ca- transportam-nos para a época áu- 6201-909 Covilhã do da Covilhã” com a actualida-
que se cose o novo hotel. minho. E a lã o fio ideal para tecer rea dos lanifícios. “No restaurante, Tel.: 275 330 400 de, destacando os “pontos fortes
No ano passado, o antigo Hotel o novo capítulo de uma unidade por exemplo, estão móveis de ar- geral@naturaimbhotels.com da cidade” e da sua história “sem
Turismo da Covilhã foi completa- hoteleira com mais de vinte anos. quivo recuperados”, aponta Vasco www.puralahotel.com.pt transformar o hotel num museu”,
mente renovado, num investimento Além de estar associada à ideia de Pinho. “Junto à recepção temos um Preços: quarto duplo a partir refere Vasco Pinho. O ambiente
que rondou um milhão e meio de “conforto” e intimamente ligada à antigo [aparelho de] picar o ponto”, de 60€, de domingo a sexta, e quer-se requintado mas informal
euros, para renascer com novo no- história da cidade, é matéria-prima acrescenta Luís Veiga, administra- desde 85€ ao sábado. e moderno. O mobiliário contem-
me e conceito. Depois de seis meses do negócio familiar dos proprietá- dor executivo do grupo hoteleiro. porâneo e minimalista, em tons
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Sábado, 4 de Novembro de 2017 | FUGAS | 23

+ —
Produtos regionais Distância
A primazia dada aos O hotel fica a cerca de três
ingredientes da região é quilómetros do centro histórico
notável e transversal: dos da Covilhã — e o caminho até
óleos utilizados no spa aos à cidade faz-se sempre a subir
produtos vendidos na loja do pela encosta.
lobby, passando pelas cartas do
bar (especialidade: tábuas de
queijos e enchidos da região)
e do restaurante (receitas
serranas reinterpretadas
e com um empratamento
contemporâneo),
acompanhadas por uma
selecção de vinhos da região

serra da Estrela, uma “porta para ra alguns se repitam entre roteiros).


tudo” o que há de melhor na cidade
e a na região, ambicionam os res-
i “O objectivo é evidenciar a cidade:
o que foi e o que é actualmente”,
ponsáveis. Para tal, foram criados referem. Além dos guias turísticos,
quatro roteiros turísticos da Covi- Restaurante o hotel começou a organizar um
lhã, com os principais pontos de com nova carta “fim-de-semana lifestyle” por mês,
interesse na cidade para quem pas- A nova carta de Outono/Inverno com um programa focado na tríade
seie sozinho, a dois, em família ou entrou em vigor no final de “cultura, enogastronomia e moda”
goste particularmente de fotografia, Outubro. Os ingredientes da região, em que se incluem visitas
“especialmente de selfies”. No site, principais mantêm-se, desde guiadas, desfiles de moda, degusta-
está já divulgado o próximo guia a o pastel de molho tradicional ções e mercadinhos. O primeiro de-
ser impresso, dedicado à street art da Covilhã ao cabrito ou ao correu no final de Outubro, o próxi-
espalhada pelos edifícios do centro bacalhau, mas acompanhados mo está agendado para 17, 18 e 19 de
histórico. “Há pessoas que vêm de por ingredientes da época, Novembro. No final do ano, deverá
propósito por causa da arte urba- como os míscaros e a castanha, chegar mais uma novidade do gru-
na”, afirma Luís Veiga. Segundo o conta o chef Hélder Bernardino, po hoteleiro: o antigo Hotel Covilhã
responsável, são 36 as obras a co- sem levantar muito o véu. Parque, do outro lado da cidade, vai
nhecer na cidade, entre pequenas transformar-se em Sport Hotel, de-
intervenções não oficiais e os gran- dicado aos desportos de montanha.
crus, castanhos e cinzentos, serve lifestyle”, definem os responsáveis. des murais criados para o festival Ao pequeno-almoço, entre garfa-
de palco a uma ode às Beiras e à ser- No final de Setembro, tornou-se a de arte urbana Woolfest (contam-se das de pão com requeijão regional
ra da Estrela através de pequenos única unidade de alojamento portu- obras de Vihls, Bordalo II, Pantónio e compota, voltamos a folhear os
apontamentos, como a utilização guesa a integrar a rede internacio- ou Tamara Alves, entre outros). roteiros para espreitar as sugestões,
de materiais tradicionais da região nal da Boutique & Lifestyle Lodging A arte urbana é, por isso, também imaginando os passeios possíveis
(a lã, mas também o xisto e as ma- Association. um dos principais eixos dos roteiros pela cidade. Desta vez, não temos
deiras) e de uma relação constante “Queremos que os hóspedes já publicados, assim como o “patri- oportunidade de pôr pernas ao ca-
com artistas, artesãos e produtores sintam a atmosfera do hotel e que mónio industrial recuperado”, os minho e explorar a Covilhã de ma-
da terra (seja na venda de artigos saiam para visitar a cidade e a re- monumentos e os edifícios históricos pas na mão. Há quem já nos espere
na loja do lobby, na utilização de gião mas que depois tenham von- imprescindíveis, os miradouros, as do outro lado da serra. Resta-nos
ingredientes regionais no spa e no tade de voltar e de desfrutar do ho- lojas, os museus, as ruelas típicas, os uma coisa. Voltar. Com tempo.
restaurante ou nos eventos e rotei- tel”, conta Luís Veiga. O Puralã não projectos mais inovadores e as tascas
ros programados). Para atender à quer ser apenas um quarto onde tradicionais. A diversidade é trans- A Fugas esteve alojada
“alteração do perfil dos hóspedes”, passar a noite. Antes pelo contrário. versal aos quatro mapas mas cada a convite do Puralã – Wool Valley
o hotel tem agora um “conceito de Quer tornar-se um “hub do destino” um destaca locais diferentes (embo- Hotel & Spa
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24 | FUGAS | Sábado, 4 de Novembro de 2017

Livros

Viajar pelas memórias que +


o país deixou ao abandono O que não
se sabia do Porto...
Já sabíamos que se chama
“Invicta” à cidade do Porto
depois do célebre cerco, e que
cerca de cem anos, grande parte da do Porto é a francesinha. Mas
Tiago Ramalho população”. Às memórias (muitas sabíamos que, onde agora
delas tristes) falta juntar um ingre- está o Palácio da Bolsa, se
a Aviso prévio: a autora deste livro diente marcante da obra já publica- erguia antes um convento? Ou
vive entre lendas, mistérios e lugares da da autora: a lenda e o mistério. Porto D’ Honra que foi uma máquina de café
nos quais, à partida, não entrávamos E não, Banzeres não se escapa às Manuel de italiana do Piolho que deu o
facilmente. Lugares Abandonados de ‘histórias do arco da velha’, com Sousa nome ao cimbalino? Estas e
Portugal reúne em livro muitos dos portas que se abrem e fecham para Esfera dos outras questões encontram
lugares pelos quais passamos e nem proteger os seus. Mas, como escre- Livros respostas no livro Porto D’
ligamos. Parece ser contra esse des- ve Vanessa Fidalgo: “Enfim, lendas 18,90€ Honra, de Manuel de Sousa.
conhecimento face às histórias que de um povo com alma de poeta!”. A obra é um passaporte para
ficaram por contar que Vanessa Fi- O livro constrói-se em torno de várias épocas do Porto. Da
dalgo batalha ao longo do livro. São memórias, mas também da ausên- origem do morro da Sé ao
46 viagens entre casas, palácios, es- cia, quer de movimento, quer dos início da comercialização
tações de comboios e até conventos sons que marcavam as paisagens do vinho na cidade, também
que se perderam no tempo ou escon- que a escritora visitou. “A culpa há espaço para a vida social
dem memórias menos recordadas. foi do progresso. Parece uma frase nos primeiros botequins
Vanessa Fidalgo, jornalista do típica dos ‘velhos do Restelo’, mas e cafés portuenses. Este
Correio da Manhã desde 1997, pu- neste caso é a realidade das dezenas não é o primeiro trabalho
blica o seu quinto livro, mas há de estações de caminhos-de-ferro do autor sobre o passado
uma mudança em relação aos an- abandonadas que hoje se encon- do Porto: em 2013, Manuel
teriores. Dispensou-se o oculto, as
assombrações e a magia, para se
i tram dispersas pelo país. Por ali, a
espera tornou-se eterna”, lê-se entre
foi reconhecido com uma
Medalha Municipal de Mérito
dar lugar a um maior destaque a as mais de duzentas páginas que se pela página do Facebook
estas pequenas histórias que vivem Lugares Abandonados enchem também da solidão a que “Porto Desaparecido”. O autor
no passado, entre locais míticos, de Portugal se confinaram espaços que já foram não promete a continuação de
como o forte de Santo António da Vanessa Fidalgo locais vividos e cheios de vida. Porto D’ Honra, mas adianta
O livro Barra, onde Salazar caiu da cadeira, A Esfera dos Livros A autora portuguesa não deixou ter “material recolhido
constrói-se e maldições, como a que Dona Chica 16,50€ de lado o mistério e as lendas nes- suficiente para mais dois ou
em torno de lançou sobre o seu próprio palácio. te novo livro, oferecendo-lhe, no três livros”.
memórias, O Palácio de Dona Chica, na fre- entanto, uma espécie de guia pa-
mas também guesia bracarense de Palmeira, dora do que nos espera. Guiando- ra descobridores insaciáveis, que ...e as sombras
da ausência, desenha a capa dos Lugares Aban- nos até Trás-os-Montes, a chegada à procuram contos de solidão, amor misteriosas de Lisboa
quer de donados de Portugal, um livro que aldeia de Banzeres indica “um lugar e desamor, ou simplesmente memó-
movimento, pega em quase cinquenta espa- triste e só”, mas que tem a sua pró- rias destes lugares abandonados. Múmias conservadas em
quer dos sons ços esquecidos de Norte a Sul do pria história. E a primeira forma de Esta é uma boa oportunidade para criptas, cidades sepultadas,
que marcavam país, com a proposta de desven- explicar porque se fala desta aldeia entrar numa casa abandonada, afi- freiras que viveram como
as paisagens dar as histórias que só se contam transmontana é relembrar como se nal nestas páginas não há o risco de princesas, museus esquecidos
que a escritora entre quem conhece estes sítios. tirou a vida a este lugar: “Uma epi- ser amaldiçoado. Texto editado por no tempo, estátuas que
visitou A abertura do livro é bem indica- demia desconhecida dizimou, há Sandra Silva Costa não ficam quietas, um
Lisboa enigmático castelo. É
Desconhecida verdade, estamos a falar
e Insólita de Lisboa, a mesma cidade
Anísio Franco banhada por uma luz mágica
Porto Editora e invulgar. Todos conhecem
18,80€ a cidade luminosa. Poucos
conhecerão as sombras
misteriosas que essa luz
projecta. Lisboa Desconhecida
e Insólita - Histórias que
(provavelmente) nunca
ouviu são acontecimentos
históricos, insólitos e também
as memórias de Anísio Franco,
licenciado em História da
Arte e conservador no Museu
Nacional de Arte Antiga.
Pedreiras que esconderam
tesouros, fontes cobiçadas,
capelas que são tesouros,
museus esquecidos, casas que
parecem colmeias...
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Sábado, 4 de Novembro de 2017 | FUGAS | 25

Fugas dos leitores


Os textos, acompanhados preferencialmente por uma foto, devem ser enviados para
fugas@publico.pt. Os relatos devem ter cerca de 2500 caracteres e as dicas de viagem
cerca de 1000. A Fugas reserva-se o direito de seleccionar e eventualmente reduzir os
textos, bem como adaptá-los às suas regras estilísticas. Os melhores textos, publica-
dos nesta página, são premiados com um dos produtos vendidos juntamente com o
PÚBLICO. Mais informações em fugas.publico.pt

Sri Lanka, a pérola da Ásia


a Lanka Ashok Leyland, dizia o #fugadoviajante
autocarro público que nos levou Esta tag diz-lhe alguma coisa? A Fugas (@fugaspublico) está à procura
desde o aeroporto a Colombo. das melhores fotos de viagem. Siga a conta e partilhe os melhores
A viagem começou quando instantâneos das suas férias com a #fugadoviajante
dele desci numa caótica praça
onde dezenas de autocarros
iam e vinham e comerciantes
com bancas de fruta tentavam
a sua sorte. O cheiro intenso
a Ásia, impossível de narrar, e
uma explosão de cores e sons
atingiu-me logo ali. O bafo quente
que se perpetuava no ar e o
barulho constante das buzinas
entranharam-se em mim, os meus
sentidos fervilhavam: estava
pronta para ir explorar esta selva
de cimento ainda na sua fase de
desenvolvimento.
No templo budista de
Gangaramaya, as mulheres
vestidas de branco ofereciam
água, flores, orações e incenso à
árvore Bodhi. Dentro do caos da
cidade, encontrei a paz. Olhavam
para nós curiosas, sorriam-nos
calorosamente e metiam conversa.
Aqui, ir ao templo é um momento
de lazer. É quando se encontra
amigos e família, um momento
para cantar e falar, para se divertir
também, sem nunca esquecer a @leodomingox: “Àquela hora mágica tinha chegado à ponta de
razão de ali estar: a forte fé, que Sagres e, bem acima da praia de Beliche, famosa pelas suas ondas,
parece estar presente em todos os avistei alguém a sair de uma carrinha e a aproximar-se da berma
cingaleses. do penhasco. Num instante de perfeita oportunidade consegui
Depois de alguns dias na retratar este momento, enquanto alguém contemplava um vasto e
pequeníssima cidade de Dambulla, imponente oceano.”
no centro-este da ilha, a fazer
actividades mais turísticas como
subir ao Sigiriya, pusemo-nos a Seguimos Passamos por fim os últimos
dias em regiões de praia, como
caminho de Kandy, na província
central. O mercado da cidade agora caminho Hikkaduwa, onde ainda se sente
o peso do tsunami de 2004; e
cultural alberga centenas de Bentota, onde dezenas de locais
bancas recheadas de frutas para Ella, na tomavam banho na praia ao lado,
coloridas e saborosas, legumes com roupa de dia-a-dia.
frescos, todo o tipo de especiarias
e óleos, peixe e roupa. Tudo o que
clássica viagem O ponto forte da viagem foi, sem
sombra de dúvida, a gastronomia.
precisamos está aí, nessa azáfama
que provoca os sentidos.
de comboio A comida reflecte um povo. A
comida do Sri Lanka é quase toda à
Seguimos agora caminho
para Ella, na clássica viagem de
dentro do lado base de coco, tão doce, tal como os
habitantes da sua ilha; misturada
comboio dentro do lado mais
intocado do Sri Lanka, passando
mais intocado com um especiarias intensas
e malaguetas incrivelmente
por centenas de plantações de
chás, aldeias rurais e crianças
do Sri Lanka picantes: são gente cheia de garra,
profunda, berrante.
que se reuniam apenas para Dezoito dias ao sabor do clássico
dizer olá aos passageiros que arroz com caril e ao som exótico
olhavam pela janela, acenando- e animado que caracterizam a
lhes freneticamente num estado e mulheres, velhos e crianças música cingalesa, rodeados por
de alegria quase inconcebível para observavam atentamente o ritual, pessoas simples que, apesar da
quem está a ver o comboio passar. encantados e mergulhados na sua pobreza material, desfrutam
A caminho da selva crença. As crianças esperavam ao máximo do que a vida lhes
encontrámos um pequeno ansiosamente a sua vez de entrar oferece, um povo com uma cultura
templo hindu. Ali, junto ao lago, e abençoar-se no lago, sentindo rica, tão marcante, com uma alma @vitoralmeida: “Esta imagem regista o momento mágico que
ofereciam comida à estátua de um tremendo orgulho quando calorosa, para combinar com o acontece com o pôr do sol entre os montes de vinhas do Douro. E
Ganesh enquanto o veneravam .A saíam, rindo com os restantes. clima. O Sri Lanka é, realmente, a por trás dela estavam olhos arregalados. Respirações suspensas. A
comunidade, cerca de 50 pessoas, No fim, ofereceram-nos comida e pérola da Ásia. magia da natureza a fascinar aqueles que a conseguem observar e,
assistia a esta celebração: homens abençoaram-nos. Matilde Alvim neste caso, registar para que a memória fique ilustrada.”
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26 | FUGAS | Sábado, 4 de Novembro de 2017

Gastronomia

Boi ou vaca?
O que conta
é o sabor das
carnes maduras
do gado velho

Animais de trabalho e vida em


comunhão com a natureza, são
ambos maravilhosos e podem ser
saboreados durante as V Jornadas
Gastronómicas do Boi Velho de
Trás-os-Montes. Enquanto houver.
José Augusto Moreira
a A carne tem que saber a carne Iñaki quer pôr em evidência é, pre- todo o mundo, conta que este ano por Imanol já em zonas mais baixas
e, por isso, nada de temperos.” É cisamente, essa característica natu- fez já mais de 150 viagens à procu- do Minho, numa pequena aldeia do
com a autoridade que lhe conferem ral e intensidade de sabor das carnes ra destes animais com identidade e concelho de Barcelos onde ainda re-
as décadas que já leva a lidar com dos animais com idade e uma vida história de vida própria. Gado velho, sistem bolsas de uma vida rural em
carnes grelhadas que Iñaki Viñaspre de comunhão com a natureza. Uma que concluiu o ciclo de vida útil de extinção. Animais com cerca de 500
afasta a ideia de qualquer mistura
com os sabores naturais do coste-
tradição que faz parte da cultura gas-
tronómica do seu País Basco natal,
trabalho, mas cujas carnes estão no
ponto óptimo de consumo.
quilos e carnes apenas com matura-
ção natural após o abate. Os animais são
letão de boi velho. Um corte com
quase dois quilos, três dedos de es-
mas que cada vez mais se alimenta
de animais das zonas montanhosas
Imanol é também consultor do
Grupo Sagardi, de Iñaki Viñaspre,
E a verdade é que, mesmo não
sendo profundas, notam-se algumas bem tratados,
pessura e um rebordo vigoroso de do Minho, Trás-os-Montes e Galiza. que gere restaurantes em Barcelona, características de diferenciação en-
gordura amarela. Raros redutos que resistem ainda Londres, Buenos Aires e México. E tre as carnes. Mesmo na observação cuidados e até
Antes, tinha aconselhado a friccio- aos tractores e aos cultivos intensi- também o Vinum, nas Caves Graha- à vista, sendo mais evidentes as li-
ná-la com os dedos para lhe tomar
o sabor. O unto que se agarra ao in-
vos, onde a vida se faz numa lógica
de subsistência, equilíbrio e respei-
ms, em Gaia, onde nestes últimos
anos fizeram das Jornadas do Boi
nhas de textura muscular na carne
do boi, tanto antes como depois de
exibidos em
dicador quase dava para barrar o
pão. Gordura densa, o aroma quase
to pelos ciclos da natureza. O gado
é também companheiro, está na
Velho um evento com destaque no
calendário gastronómico.
cozinhada. Também o sabor parece
mais intenso e afirmativo, enquanto
momentos de
lácteo de uma manteiga artesanal,
sabor intenso, fresco e picante, a
base dos trabalhos agrícolas e tem
um papel central na actividade das
Desta vez, o desafio inclui um due-
lo de sabores. O confronto entre as
na vaca é mais harmonioso, a textu-
ra mais macia e o corte de aspecto
solenidade
evocar ervas húmidas e um suave
toque salgado. É o rasto do pasto,
comunidades. Os animais são bem
tratados, cuidados e até exibidos em
carnes de boi e de vaca, para aferir
de diferenças ou semelhanças na de-
mais marmoreado.
Qual é melhor? São ambas mara-
e festa e são
dos campos de ervas frescas e dos
fenos que dão conta da história de
momentos de solenidade e festa e
são chamados pelo nome, como se
gustação das carnes do gado velho
que é uma velha tradição do Norte
vilhosas! Para lá de naturalmente
subjectiva, a resposta será também
chamados pelo
vida do animal. Uma alimentação
natural, sem complementos ou adi-
fizessem parte da família.
É em busca destes redutos que
de Portugal e da Galiza. O boi tem,
por tradição, maior cotação e é tam-
a nosso ver inconclusiva. É que se
às primeiras impressões a intensi-
nome, como se
tivos químicos.
No restaurante Vinum, em Vila No-
Imanol Jaca passa os dias. Respon-
sável há 28 anos pela Txogitxu,
bém mais raro, mas será que essa é
uma diferença que se nota na boca?
dade de sabor da peça do boi causa
maior impacto, já na fase posterior fizessem parte
va de Gaia, as Jornadas Gastronómi-
cas do Boi Velho de Trás-os-Montes
uma empresa basca especializada
em carnes de elevada qualidade e
A vaca veio de uma pequena al-
deia de montanha no interior da Ga-
de degustação é mais cativante a
harmonia e equilíbrio do sabor da da família
vão já na quinta edição e aquilo que um dos maiores fornecedores em liza, enquanto o boi foi identificado carne da vaca.
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Sábado, 4 de Novembro de 2017 | FUGAS | 27

FOTOS: DR

Vinum
Um menu especial
para o costeletão
a O costeletão de vaca velha faz feijão branco, uma surpreendente
parte da oferta regular do restau- combinação de sabores com fundo
rante Vinum e pode ser apreciado caldoso que resulta deveras interes-
durante todo o ano, mas já o de boi sante. Intensa e saborosa, com notas
E acima de tudo são diferenças durecimento da carne”, num am- corresponde apenas às carnes do salgadas (do bacalhau) e picantes
que se notam nestes dois animais biente controlado, em câmaras de animal seleccionado para as Jorna- (de malagueta) ao despique mas
concretos, mas que de forma algu- frio e com ventilação e humidade das Gastronómicas do Boi Velho de sempre afinadas e sem destoar.
ma permitem estabelecer um pa- a 70%, durante pouco mais de 20 Trás-os-Montes. O programa, que O costeletão é laminado e servido
drão entre o boi e a vaca. Iñaki é dias. “O que se pretende é encon- arrancou a 24 de Outubro, dura três numa recomposição da sua estrutu-
de opinião que a diferença pode trar o autêntico, o sabor e textura semanas mas nada garante que as ra inicial. As carnes são separadas
até resultar mais da história de vi- que contem a história de vida do carnes do macho durem o tempo to- do osso, mas há que esquecer ele-
da de cada um destes animais que animal. A partir daí, começam a do. Boi enquanto houver, portanto. gâncias e recorrer ao estilo primi-
da condição de macho ou fêmea. surgir alterações do sabor e aroma Para acompanhar a degustação tivo para pegar no osso e saborear
“Não é como a Coca-Cola. O pro- e até bactérias que podem ser tóxi- dos imponentes costeletões grelha- as carnes mais saborosas que lhe

+
duto não é constante e depende da cas”, adverte. dos em brasas de carvão, o Vinum estão juntas.
natureza e do contexto de vida do Muito importantes também para preparou um menu especial, que O Stilton, servido com marmela-
animal”, diz. preservar as características do ani- inclui um interessante guisado com da de citrinos e doce de maçã, vem
Importante mesmo é que o co- mal são o corte e a forma como é bacalhau e um queijo Stilton único, de Nothinghamshire, onde é criado
zinheiro escolha bem o produto cozinhado o costeletão. A medida Vinum de confecção artesanal. pelas mãos de Billy Kevan, e parece
e respeite as suas características, do corte é feita pelo osso, devendo Restaurante e Wine Bar Único e irresistível é também o ter sido feito na exacta medida para
sublinha ainda o especialista bas- ter sempre um mínimo de quatro Rua do Agro 141 (Caves pão de fabrico próprio e num esti- o Porto Vintage Graham’s 1970 que
co, mostrando estar “radicalmente centímetros e repousar umas horas Graham’s) lo artesanal com farinhas moídas à é sugerido em casamento.
contra a moda das maturações”. à temperatura ambiente. Carvão de 4400-281 Vila Nova de Gaia moda antiga, em mó de pedra. Tam- Sem vinhos, o preço do menu di-
E para respeitar as características qualidade (aromas suaves), já sem www.vinumatgrahams.com bém merece prova atenta o azeite verge consoante o costeletão é de
basta que a carne seja naturalmente chama, e calor potente de forma a Tel. 220930417 virgem extra Quinta do Ataíde, uma boi (125€) ou de vaca velha (85€),
maturada após o abate. Significa isto selar a carne rapidamente e concen- Aberto todos os dias das propriedades do Grupo Syming- uma discrepância que é justifica-
que deve “repousar no frio para que trar no seu interior todos os sucos. O Estacionamento próprio ton, ao qual pertence também o res- da pela disparidade de preço dos
os músculos do animal relaxem, as sal é colocado apenas sobre a parte taurante. animais, que tem por base funda-
gorduras superficiais e infiltradas se já selada, que impede a penetração De entrada, é servida uma es- mentalmente a raridade das reses
envolvam com a carne e os proces- e consequente desidratação. timulante combinação agridoce masculinas. O suplemento de vinhos
sos químicos naturais comecem a com alheira de Mirandela e maçã sugeridos (32€) inclui os dois tintos
desenvolver-se”. A Fugas esteve na abertura das caramelizada. Segue-se o guisado 2014 da Quinta do Ataíde e o já re-
A isto Iñaki Viñaspre chama “ama- jornadas a convite do Vinum com lascas de bacalhau, amêijoas e ferido Porto Vintage 1970.
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28 | FUGAS | Sábado, 4 de Novembro de 2017

Vinhos

Ainda não somos um país


de grandes vinhos brancos

num produto alimentar como são aqueles que vencem o desafio de Vouvray; ou o Sauvignon
Elogio do vinho o vinho não é pouco, é muito. do tempo e apuram com ele. Blanc Les Monts Damnés, de
Basta para destruir um jantar O jantar que Marcos Lagoa François Cotat, de Sancerre; ou,
e causar grandes prejuízos na organizou no passado domingo continuando no Loire, o Sílex, de
imagem de um vinho. Não por ter mostrou isso mesmo. Mostrou Pouilly Fumé, do lendário Didier
TCA, porque pode acontecer a também que já andámos muito Dagueneau, morto em 2008 num
qualquer um, mas porque o vinho nos brancos. Partimos quase acidente com um ultraleve; ou o
atingido perde o seu momento, do zero e em menos de duas magnífico Corton Charlemagne
e o vinho é o momento, ainda décadas já alcançámos um nível Grand Cru de Pierre Ives Colin
mais, como foi o caso, quando assinalável. As pontuações Morey, um dos grandes brancos
Pedro Garcias em confronto estão vinhos de das revistas da especialidade de Chardonnay produzidos
classe mundial. Ora, é também confirmam-no. Há cada vez mais na montanha de calcário de
a Marcos Lagoa, presidente da nestes confrontos que se forja a vinhos brancos com notas acima Corton, na Borgonha; ou, ainda,
Resiquímica, empresa portuguesa reputação de um vinho. Como dos 90 pontos em 100 possíveis, o excepcional e mítico Coche-
que produz e comercializa não havia uma segunda garrafa algo que até há poucos anos era Dury, de Mersault, Borgonha, um
polímeros destinados às de Gouvyas, este branco perdeu o só reservado aos tintos. dos melhores vinhos brancos do
indústrias de tintas e vernizes, é seu momento. É verdade que estamos a assistir mundo. Cito estes, porque foram
um enófilo militante e generoso. Já aqui escrevemos que, apesar a uma inflação das pontuações os que mais impressionaram
Possui uma grande colecção dos muitos investimentos e nos vinhos. A tendência é mundial no jantar. Mas houve mais.
de vinhos e gosta de fazer avanços que foram feitos pela e também já chegou a Portugal. Houve E. Guigal e J.L.Chave,
jantares com provas às cegas. Os indústria das rolhas de cortiça Atribuir 19 pontos em 20 a um dois monstros de Hermitage, no
convidados só têm a certeza de natural, o problema do TCA vinho tinto português com apenas vale do Ródano, ambos feitos
que vão provar grandes vinhos, nos vinhos continua a ser uma dois anos, por exemplo, era quase de Marsanne e Roussanne;
mas desconhecem os nomes e as tragédia. Algumas empresas já uma impossibilidade, mas a nova Réserve de Caveau, um Savagnin
regiões de origem. possuem tecnologia de despiste revista Vinho-Grandes Escolhas, de Arbois, Jura, de Lucien
Há uns anos, Marcos Lagoa do TCA, só que ainda não o fazem criada pela antiga redacção da Aviet & Fils; Schoenenbourg
provou o branco Gouvyas 2007, a uma escala industrial. Quando Revista de Vinhos, acaba de fazê-lo Grand Cru, de Marcel Deiss, da
do Douro, e gostou tanto do vinho se julgava que o problema a dois vinhos do Douro de 2015, Alsácia; Wehlener Sonnenuhr,
que decidiu naquele instante era cada vez mais residual, a o Poeira 44 Barricas e o Quinta um Auslese da Joh.Jos.Prum, do
programar para 2017 um jantar experiência do dia-a-dia tem- da Leda. Os vinhos podem ser Mosel; Schloss Lieser Riesling
só com grandes brancos dessa nos vindo a mostrar que não muito bons, mas que margem de Beerenauslese, também do
colheita. Vinhos com dez anos, é bem assim. Por mais que os pontuação fica para os vinhos Mosel; e os champanhes Bollinger
portanto. A prova, memorável empresários do sector insistam realmente excepcionais? Não La Grand Anné, Larmendier-
e harmonizada com belíssimos em traçar um quadro cor-de- estaremos a ir longe e depressa Bernier Vieille Vigne de Cramant,
pratos criados pelo chef João Sá, rosa, a contaminação dos vinhos de mais? Benoit Marguet Sapience, de
aconteceu no passado domingo devido a problemas nas rolhas Apesar desta súbita Ambonnay (uma das melhores
à noite em Oeiras e juntou duas continua a ser um problema generosidade da crítica, que comunas para casta Pinot
dezenas de amigos e convidados. sério em Portugal. E o mais abrange tanto tintos como Noir), e Agrapart & Fils Minéral
Os vinhos foram servidos em grave é que o problema incide, brancos, ainda não somos um Extra Brut, de Avize, o nosso
pequenas séries de dois e de especialmente, sobre as rolhas país de grandes vinhos brancos preferido. Mas aqui tenho que
três copos. Em 22 vinhos, só um mais caras, porque estas, ao — e dificilmente o seremos, revelar uma franqueza: sou um
deles estava contaminado com contrário do que acontece com porque os grandes vinhos fã de Agrapart, apesar deste
TCA (abreviação da substância as mais baratas, não podem ser brancos têm origem em terras vigneron não ser uma figura
química 2,4,6- Tricloroanisole,
que provoca o chamado cheiro
sujeitas a tratamentos de choque,
sob pena de se deformarem. Se os frias e Portugal é um país de
clima quente. Quantos vinhos
particularmente simpática. Mas
quantos franceses do mundo do
e gosto a rolha, semelhante a
mofo), por triste ironia, o vinho
Por isso, temos mesmo que
invocar todos os santinhos industriais brancos de topo há no Alentejo?
E No Douro? Na Bairrada e no
vinho o são? Nisso, em simpatia,
somos mesmo os melhores do
que havia inspirado o jantar, o
Gouvyas, produzido desde 1996
quando vamos abrir uma garrafa
especial. É um momento de fé das rolhas Dão já encontramos alguns.
Mas precisamos de puxar pela
mundo.

por João Roseira e Luís Soares que devemos habituar-nos a cabeça para dar num minuto
Duarte. É nestas alturas que introduzir na liturgia do vinho. soubessem a uma lista de dez vinhos brancos
A FUGAS ERROU
vinha a calhar ter alguém da Não para a enriquecer, mas portugueses de nível mundial.
indústria das rolhas por perto
para podermos despejar toda a
como um sacrifício que somos
obrigados a fazer. Porque, mesmo
quantidade Três deles foram servidos no
jantar de domingo: o Bussaco, o Por lapso, no último Elogio do
nossa ira. Imaginem se era uma
garrafa de Romanée-Conti?
com todos os problemas, a rolha
de cortiça continua a ser o melhor
de desgostos Redoma e o Soalheiro Reserva.
Todos já com dez anos e todos
vinho é dito que Sarah Ahmed
escreve para Jancis Robinson.
Se os industriais das rolhas
soubessem a quantidade de
vedante para vinhos. Em especial,
para os vinhos com uma longa
que provocam ainda muito bons, em especial
o Bussaco. Muito bons mas não
Quem escreve é Julia Harding.

desgostos que provocam todos


os dias, fugiam de vergonha.
vida pela frente, aqueles que
podem aspirar a ser considerados
todos os dias, tão bons quanto os William Fevre
Grand Cru Bougrois, de Chablis,
Na última edição, o vinho LL
Grande Reserva de 2015 saiu com
Uma rolha com TCA em 22
vinhos nem parece ser nada
“grandes”. Um vinho que nasça
perfeito e se desvaneça ao fim de
fugiam de ou o Montée de Tonnerre 1er Cru,
de François Raveneau, também
o preço errado. Em vez de 15€,
o vinho custa 10€. Aos visados
de extraordinário: é “só” cerca
de 5%. Mas 5% de problemas
dois ou três anos nunca poderá
ser um grande vinho. Os melhores
vergonha de Chablis; ou o Domaine Huet
Clos du Bourg, un Chenin Blanc
e aos leitores, apresentamos as
nossas desculpas.
Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S.A. são pertença do Público.
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Sábado, 4 de Novembro de 2017 | FUGAS | 29

Os vinhos aqui apresentados são, na sua maioria, novidades que chegaram recentemente
ao mercado. A Fugas recebeu amostras dos produtores e provou-as de acordo com os
seus critérios editoriais. As amostras podem ser enviadas para a seguinte morada:
Fugas - Vinhos em Prova, Praça Coronel Pacheco, n.º 2, 3.º 4050-453 Porto

55 a 70 71 a 85 86 a 94 95 a 100

91 Um 84 90
Quinta dos Carvalhais
Alfrocheiro 2015
Alfrocheiro Discórdia Tinto 2013
Edual- Sociedade Agrícola do
Quinta do Cardo
Vinha do Castelo Tinta
Quinta dos Carvalhais
Sogrape
para beber Guadiana - Mértola
Castas: Syrah, Touriga Nacional,
Roriz 2014
Companhia das Quintas
Castas: Alfrocheiro
Graduação: 14% vol e guardar Alicante Bouschet e Touriga
Franca
Figueira de Castelo Rodrigo
Castas: Tinta Roriz
Região: Dão Graduação: 15% vol Graduação: 14% vol
Preço: 16,95€ Região: Alentejo Região: Beira Interior
a A Touriga Nacional é a grande Preço: 6,5€ Preço: 17,95€
casta do Dão. É a pedra angular,
a força motriz, o elemento que Correndo o risco de ser motivo Tinto potente e concentrado,
determina o perfil da região. Mas de “discórdia”, este é um tinto com longo estágio em barrica
os grandes vinhos do Dão não são franco, porque expressa bem o e taninos bem afinados e nada
feitos apenas de Touriga Nacio- lugar (as encostas de Mértola, secos, o que é bom. Um exemplo
nal. Mesmo no seu berço natural, junto ao rio Guadiana). Ou seja, mais a comprovar a tese de que
a grande casta tinta portuguesa é quente. Os seus 15% de álcool a Tinta Roriz é essencialmente
melhora com companhia. Fica não enganam. Mas como não é uma casta de altitude. Em zonas
melhor se contar com a leveza e a muito denso e concentrado, até mais baixas, como no Douro ou
jovialidade da Jaen, os taninos da se bebe bem, desde que seja no Alentejo, a Roriz dá vinhos
Tinta Roriz e a frescura e o vigor ligeiramente refrescado. Tem demasiado maduros e tânicos e
do Alfrocheiro, só para citarmos boa fruta e é macio. P.G. com baixa acidez. Este também
Proposta as suas acompanhantes mais usu- tem um aroma demasiado
da semana ais. No limite, pode até dispensar maduro, com algumas notas
a Roriz e a Jaen, mas perde muito licoradas pouco interessantes.
se abdicar da Alfrocheiro. O azar Mas na boca já mostra outros
da Alfrocheiro é existir a Touriga atributos: além de grandes
Nacional. É por existir a Touriga taninos, também sabores mais
Nacional que o Alfrocheiro não complexos e um delicioso frescor
brilha tanto e não tem mais noto- balsâmico. P.G.
riedade.
Também, diga-se, não é uma
casta fácil. Por ser muito fértil,
nem sempre amadurece bem e tem
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tendência para apodrecer. Mas, se
for contida em verde, para dimi- Grainha Reserva Dona Matilde
nuir a produção e acelerar a sua Branco 2016 Branco 2016
maturação e, com isso, permitir Quinta Nova de Nª Sª do Carmo Quinta D. Matilde
fugir à época das chuvas, dá vinhos Castas: Gouveio, Viosinho, Castas: Rabigato, Gouveio,
com uma garra tânica e uma fres- Rabigato, Fernão Pires Viosinho e Arinto
cura admiráveis. Vinhos de longa Graduação: 13,5% vol Graduação: 13,5% vol
guarda que, em novos, são muito Região: Douro Região: Douro
suculentos e apimentados, com Preço: 12,50€ Preço:8,90€
notas vegetais deliciosas, como
este Quinta dos Carvalhais. O final tenso e persistente, bom Surpreende pela acidez
Ao contrário de outros, é um volume de boca e aroma bem citrina e aromas de fruta,
Alfrocheiro já sem arestas, com balanceado ente as notas frescas igualmente cítricos, com uma
taninos bem polidos mas consis- e tropicais fazem deste Reserva expressividade e harmonia fora
tentes. Ressuma a flores e a fru- 2016 o branco mais afinado dos padrões a que a região
tos silvestres maduros (amoras, das últimas colheitas na Quinta nos habituou. Ainda por cima,
sobretudo) e é muito balsâmico Nova. Num ano genericamente proveniente de vinhas em cota
e especiado. Esta sensação mais mais fresco a elegância e baixa, a mostrar que também
apimentada nota-se acima de tudo acidez compõem um equilíbrio pode haver frescura no Douro e
na boca, onde o vinho revela um que ampara gordura, fruta e que a região não é toda igual.
grande fulgor e uma refrescante estrutura numa textura sedosa Às virtudes da diferença, associa
frescura. e sedutora. A colheita ajudou, ainda o final saboroso e com
Está prontíssimo a beber, mas, mas a harmonia parece vir em alguma persistência que, além
até pela forma como outros tintos crescendo como tributo de dos peixes, lhe permitem fazer
de Alfrocheiro da Quinta dos Car- um apurado trabalho de vinha, boa figura com cozinhados de
valhais têm vindo a evoluir, é um conjugando características pouca intensidade, como frango
vinho que promete durar muitos de parcelas e castas de forma ou massas. E até alguns queijos.
anos. Mesmo sendo bem madu- eficiente. Esa é a evoluçºao das Boa compra. J.A.M.
ro, possui uma estrutura tânica últimas colheitas e também
e uma acidez muito boas. Pedro a promessa de vinhos mais
Garcias afinados. J.A.M.
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30 | FUGAS | Sábado, 4 de Novembro de 2017

Chá das Cinco


FOTOS: NELSON GARRIDO

A nova vida da i
Chá das Cinco
Praça da Alegria Praça da Alegria, 63 Porto
Tel.: 916 419 826
Horário: De quarta a sexta das
9h30 às 19h; sábados, domingos
e feriados das 10h às 17h. Fecha
à segunda e terça-feira.
Preços: Pão de banana a 1,25€;
Chunky Monkey a 4€; expresso
blend Chá das Cinco a 1,20€;
brunch a 14€. Com opções
vegan.
https://www.facebook.com/
ChadasCinco.Confeitaria/

que vai apontando três tostas/torra-


Luís Octávio Costa das de “maior sustento” servidas com
rúcula: de abacate (com sementes de
a Há 15 anos que a senhora Teresa sésamo e piripíri); Margherita (com
tem um cantinho na praça triangular. mozzarella, tomate e manjericão);
O seu pedaço de calçada portuguesa de mel e nozes (com queijo de cabra,
está coberto por legumes reluzentes, mel e nozes).
fruta bonita e feia, nabos e molhos de Sofia quer encher a sua parte do
ervas — e uma balança de ferro fun- balcão — e uma parte da outra — de
dido. É a única hortaliceira da Pra- referências que trouxe dos EUA,
ça da Alegria. “Éramos nove... dez onde viveu quando tinha 16 anos.
com a das batas”, recorda à Fugas. “Passei um ano em Dumas, a nor-
“Desapareceu tudo daqui”, lamenta. te de Amarillo, um sítio perdido no
Apareceu o Chá das Cinco. “Dá muita meio do nada com uma família ame-
vida à praça.” ricana. À filme. As pessoas criam as
A antiga papelaria do número 63 vacas em casa, andam de botas e de
estava “mesmo abandonada de to- chapéu de cowboy. Foi a verdadeira
do”, um pouco à imagem da praça experiência americana, com cheer-
entre São Lázaro e as Fontainhas que leaders e tudo”, recorda Sofia, que
já teve “pessoas como formigas” e já acompanhara o pai, funcionário
que nos últimos anos praticamente de mimam o café de especialidade, da TAP, noutras viagens aos Estados
só vê desfilar promessas à velocida- os chás finos e a pastelaria artesanal), Unidos, onde ambos se viciaram no
de das arruadas. Foram-se as ban- “a manteiga é mesmo manteiga, o cheese cake americano com “montes
cas de frutas e de legumes. Foi-se a chocolate é mesmo chocolate, o café de queijo e cozinhado no forno ao
Vandoma. Ficou a senhora Teresa, é mesmo café” — e sem açúcar. Há contrário do nosso cheese fake”, nas
hortaliceira que chegou à praça “às bolos lá dentro, bolos para fora, bo- “panquecas a sério, altas como nos
seis menos um quarto” e que sorri los à fatia e ainda uma tosta “super- filmes” e nos cinnamon rolls. “Trouxe
quando se fala dos vizinhos novos. gulosa” (chama-se Chunky Monkey e um bocadinho disso”, diz a pastelei-
Sofia e Hugo passam aqui os seus leva manteiga de amendoim, banana ra. “Os portugueses gostam muito
dias. “Tinha que ser confortável, ti- e pepitas de chocolate). de comer, mas os americanos... ou-
nha que ter a nossa cara”, apresenta à Ela é lisboeta — ia em família à Ca- trageous. Tudo é over the top com
Fugas a pasteleira e doceira rodeada sa de Chá de Santa Isabel, as antigas imensos extras. Para eles é normal
de scones, bolachas com pepitas de “Vicentinas” — e fez mestrado na comer coisas gigantes de segunda a
chocolate (cobrem a palma de qual- Faculdade de Belas Artes, no Porto. sexta. Podem beber um batido logo
quer mão), donuts feitos no forno, Ele nasceu em Matosinhos, foi criado de manhã, e estamos a falar de um
cupcakes red velvet e pão de banana em São Mamede de Infesta e mudou- batido que não é o nosso batido de
(a experimentar ligeiramente torra- se para o Porto há cerca de 15 anos leite e fruta, é um batido com gelado
do). Com o blogue Chá das Cinco a numa altura em que “só gente louca com chantilly e coisas por cima. É
completar três anos, Sofia Lemos da se mudava para o Porto”. Vivem nu- outro mundo. Vivi dentro de um fil-
Costa queria ter “uma cozinha como ma casa com vista de rio. E queriam me.” Brevemente num Chá das Cinco
deve ser para explorar ao máximo”, trabalhar na sua zona de conforto, creio da Escola Básica da Alegria. “A loja de chá”, a Companhia Portugue- perto de si — assim como uma tarte
um espaço onde pudesse “fazer ex- seguindo os ensinamentos do “gu- vida desta praça é um pouco triste”, za do Chá, agora responsável pelos de abóbora americana e uma versão
periências” e “brincar à vontade”. ru” Danny Meyer, segundo o qual constata Hugo. “Há 15 anos estava chás da lista) ou o tempo certo por do pumpkin spice latte.
“Queria um balcão enorme só para proximidade significa qualidade de cheia de gente e agora é só uma se- um blend Chá das Cinco torrado pela O Chá das Cinco abriu no dia 18 de
mim”, diz. Partilha-o — divisão quase vida. “Percebemos que era preferível nhora que vende fruta e legumes.” Luso Coffee Roasters (100% arábica Agosto e trata todas as pessoas por
salomónica — com os chás e os cafés estarmos perto de nossa casa e abdi- No passeio de uma das arestas do com cafés de especialidade da Eti- tu — na lista também. “Vê na nossa
(e as maquinetas) de Hugo Ferraz, ba- carmos de algum turismo”, justifica triângulo já há uma pequena espla- ópia, Colômbia e Nicarágua numa montra o que temos hoje!”. “Já não
rista certificado pela SCA (Speciality Hugo, que deu uma volta ao mundo nada do atelier (também tratam o combinação com aromas a jasmim, consegues mais? Leva para casa!”
Coffee Association). “Não sabia que até voltar a bater à porta da primei- espaço por atelier) onde as pessoas amêndoa, limão e caramelo). “Num O Chá das Cinco fecha à segunda e
havia todo um outro mundo”, assu- ra loja que os atraíra, paredes meias não se importam de esperar seis mi- sítio mais movimentado as pessoas terça. E fecha durante todo o pró-
me Hugo, referindo-se à sua ponta do com o Barbas Shop, o outro objecto nutos por uma infusão (numa certa não iam perceber a espera. Quere- ximo mês de Janeiro. Está a chegar
balcão. Nesta cafetaria-confeitaria (é voador não identificado desta praça, noite de Natal ficaram com o nariz mos que as pessoas percebam que é mais uma vida à Praça. Já tem nome.
assim que apresentam o espaço, on- que ganha mais vida nas horas de re- colado ao vidro de uma “maravilhosa para estar e para ficar”, diz o barista, Benjamim.
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VIAJA COM
VALÉRIAN
ATÉ À PARIS
DOS NOSSOS
DIAS.
Valérian, o agente espaciotemporal, leva-te à Paris dos dias de hoje.
Para embarcares nesta viagem no espaço (mas, infelizmente,
não no tempo), só tens de apresentar prova de compra de 5 volumes
da colecção Valérian (pode ser uma fotografia) e escrever uma frase
onde constem as palavras: Valérian, Laureline, viagem, universo, ASA
e Público. Envia a frase e a fotografia para passatempo@publico.pt,
entre 9 de Outubro e 9 de Novembro. A avaliação das frases concorrentes
será feita por um júri constituído por elementos do Público e da ASA.
O vencedor do passatempo ganha uma viagem a Paris para 2 pessoas
com estadia incluída de 2 noites; aos restantes 9 classificados, será
atribuído um livro da colecção assinado pelo autor.

Participa e parte numa viagem com Valérian.


Consulta o regulamento em www.publico.pt/passatempo/valerian
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