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Um ano sem Fidel


Para onde
FUGAS | Público N.º 10.075 | Sábado 18 Novembro 2017 caminha Cuba?

Alentejo
Elvas não
esqueceu
os judeus
Sever
do Vouga
As coisas boas
da Costa Má

a72d7fca-c875-4f37-b897-dc86ebbaa053
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2 | FUGAS | Sábado, 18 de Novembro de 2017

Semana de lazer
Mais sugestões em lazer.publico.pt

Dias com palavras,


cânhamo, fotografias,
ilustração, azeite,
aguardente e luzes,
muitas luzes. Cláudia
Alpendre Marques
Para levar à letra À mesa com azeite
Aqui as palavras não são levadas O azeite é o convidado de honra da mostra
pelo vento. São descobertas, gastronómica que decorre até 10 de
celebradas, contadas, cantadas, Dezembro e pretende divulgar e promover
interpretadas. Aos núcleos Teatro Romano, o produto e os benefícios para a saúde
Santo António e Palácio Pimenta do Museu associados ao seu consumo. Este ano,
de Lisboa chegam histórias para todas as são dez os restaurantes que se juntam à
idades. Contos, lendas e lengalengas, Sem filtros iniciativa. Na ementa, há petingas no forno
servidos com música, jogos, dança, com azeite, bacalhau à lagareiro, sopa de
escárnio e muitas curiosidades, e A primeira CannaDouro - Feira couve com feijão e polvo à lagareiro, entre
desfiados por nomes como Mariana Internacional de Cânhamo do Porto chega muitas outras receitas bem regadas com o
Norton, Luiz Caracol, Rodrigo Costa Félix, ao Centro de Congressos da Alfândega ingrediente obrigatório. A tradição conta
Rodolfo Castro, Matia Losego, Ana Martins, da Invicta com o propósito de “promover já com 17 anos, mas a inspiração vem de
Cristina Taquelim ou Patrícia Muller. D’O um debate alargado sobre a utilização longe: vai beber à memória da produção
Soldado Fanfarrão ao Santo António, de cânhamo nas vertentes industriais, e dos lagares locais, cuja importância está
passando pelo imperador Nero, pelo fado, recreativa e medicinal”. Para além da representada por duas oliveiras frutadas no
LISBOA pelas gentes de Lisboa ou por Alexandre mostra de empresas e produtos, está brasão da vila ribatejana.
Museu de Lisboa - Teatro Romano, Herculano. Verdadeiras ou inventadas, em programado um ciclo de conferências
Santo António e Palácio Pimenta lugares escondidos e palcos inusitados. sobre o processo de transformação da VILA NOVA DA BARQUINHA
Até 19 de Novembro. Sábado, a partir das Assim se soletra a primeira edição da Festa planta (da semente ao produto final), Recanto da Barquinha, Ribeirinho,
10h; domingo, a partir das 10h30. das Palavras. a cultura industrial (em áreas como o Soltejo, Tasquinha da Adélia, Trindade,
Bilhetes a 3€ (dia/núcleo) e 5€ (passe vestuário, a alimentação, a cosmética ou Stop (Atalaia), Almourol (Tancos),
geral) a construção ecológica), as aplicações Carroça, Chico e Café Estrela (Praia
Programa completo em medicinais, os tipos de consumo e o do Ribatejo)
www.museudelisboa.pt futuro da cannabis em Portugal e na União Até 10 de Dezembro.
Europeia. Exposições, workshops e as Dope
Sessions com curadoria do músico Bezegol
completam o cartaz da CannaDouro, cujo
nome evoca o passado histórico do rio
como rota de passagem e transformação
do cânhamo em cordas e velas para as
naus e caravelas portuguesas.

PORTO
Centro de Congressos da Alfândega
Dias 18 e 19 de Novembro, das 11h às 20h.
Bilhetes a 5€ (dia), 8€ (passe). A entrada
é reservada a maiores de 18 anos.
Programa completo em
www.cannadouro.pt
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Sábado, 18 de Novembro de 2017 | FUGAS | 3

FUGAS N.º 910 Foto de capa: Ivan Alvarado/Reuters FICHA TÉCNICA Direcção David Dinis Edição Sandra Silva Costa
Edição fotográfica Nelson Garrido Directora de Arte Sónia Matos Designers Daniela Graça, Joana Lima
e José Soares Infografia Cátia Mendonça, Célia Rodrigues, Joaquim Guerreiro, José Alves e Francisco Lopes Secretariado Lucinda
Vasconcelos Fugas Praça Coronel Pacheco, 2, 4050-453 Porto.
Tel.: 226151000. E-mail: fugas@publico.pt. www.publico.pt/fugas

Todos os riscos vão dar Um festival de luzes


a Braga Durante três dias, Loulé tem mais luz. A
Na cidade minhota prossegue a segunda culpa é do festival Luza e das instalações
edição do festival dedicado à arte da espalhadas pela cidade, que convidam os
ilustração. Além das exposições, o visitantes para uma experiência luminosa.
programa do Braga em Risco compreende Produzido pela ByBeau e pela Eventor’s
um colóquio, apresentações de livros, um Lab, em colaboração com a câmara
mercado, visitas guiadas, concertos, peças municipal, o projecto dá uma nova cara a
de teatro, cinema, oficinas e animação ruas e monumentos com recurso a obras
de rua. No mapa de artes e criatividade, em video mapping, criações de areia,
espalhado por vários espaços e com O design e luzes, muitas luzes. Os trabalhos
Outono como tema, traçam-se trabalhos são assinados por artistas portugueses e
Com vista para Macau de artistas como a italiana Anna Forlati, A por talentos vindos de Espanha, Escócia,
o espanhol Marcos Guardiola ou os destilar França, Japão, Polónia, Reino Unido e
O Museu do Oriente propõe uma viagem portugueses Ana Biscaia, Mafalda Milhões, Alemanha. WhiteVoid, Beau McClellan,
pela história do ex-território português Marta Torrão, Sara Feio, Sebastião Tem a honra e a graça de ser “a única Felipe Mejías, Foundry, Grandpa’s Lab,
através da fotografia. Em exposição estão Peixoto, Teresa Cortez, Paulo Galindro Região Demarcada do país exclusivamente Boris Chimp 504, Atsara, Musson +
cerca de 120 imagens, das mais antigas às e Yara Kono. A curadoria é de Pedro dedicada à produção de aguardentes”. Retallick e Plex Noir são alguns dos nomes
mais modernas, captadas por fotógrafos Seromenho. E é para a celebrar que a vila promove a convocados. Um dos pontos altos do
amadores e profissionais, e seleccionadas 6.ª edição da Quinzena Gastronómica evento é a Torch Light Parade (dia 24, às
por Rogério Beltrão Coelho. No conjunto, BRAGA da Aguardente DOC [Denominação de 18h30), onde o público é convidado a fazer
contam a história de Macau ao longo de um Casa dos Crivos, Origem Controlada] da Lourinhã, em parte de uma instalação de duas mil tochas
século, mostrando as tradições, vivências Museu da Imagem, parceria com a Adega Cooperativa da acesas, uma criação interactiva que não
quotidianas e evolução das comunidades, Edifício do Castelo Lourinhã e a Quinta do Rol. A mesa está esquece a vertente solidária: a participação
mas também documentando episódios e Claustros da Rua posta nos 15 restaurantes aderentes, requer um donativo mínimo de 1€, que
marcantes da vida política e social. Entre do Castelo com receitas que vão do tradicional ao reverte para a Casa da Primeira Infância.
estes, é possível espreitar a passagem de Até 25 de moderno. A ideia é dar a conhecer o
nomes como Henrique Galvão, Gomes Novembro. produto da terra nas mais variadas formas LOULÉ
da Costa, Orson Welles ou Clark Gable, e combinações: num cocktail, no peixe Mercado Municipal, Igreja São Francisco,
as comemorações do IV Centenário da marinado, nas gambas flamejadas, em Cerca do Convento do Espírito
Descoberta do Caminho Marítimo para saladas, no spaghetti al nero di gamberi, Santo, Convento de Santo António
a Índia ou as primeiras travessias aéreas no pastelão de batata-doce com bacon e Cine-Teatro Louletano
entre Lisboa e o território que esteve sob aromatizado, na mousse de chocolate, no De 24 a 26 de Novembro. Sexta,
administração portuguesa durante mais de pudim de café, no cheesecake de caramelo das 18h30 às 00h30; sábado, das 10h
400 anos. Macau. 100 Anos de Fotografia e ananás ou no pudim de pêra-rocha. às 00h30; domingo, das 10h às 24h.
conta-nos como foi. Estas são apenas algumas das iguarias que Grátis
prometem deixar água (e aguardente) na
LISBOA boca.
Museu do Oriente
Até 7 de Janeiro. Terça a LOURINHÃ
domingo, das 10h às 18h Areal Beach Bistrot by Chakall,
(sexta até às 22h, com entrada Barracão do Petisco, Chico Neto,
gratuita a partir das 18h). Dia Jardim Cervejaria, Vista Mar by Noiva
24 de Novembro, às 18h30, do Mar, Paraíso do Foz, Pizzaria da
visita guiada por Rogério Praia, Pizza & Companhia, Castelo,
Beltrão Coelho, comissário Dom Lourenço, Os Severianos,
da exposição. Pão de Ló, Pão Saloio, Sports Bar
Bilhetes a 6€ Restaurante e Hamburgueria e 100
Pratus.
Até 26 de Novembro.
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4 | FUGAS | Sábado, 18 de Novembro de 2017

#Diários de Cuba

No rasto
da revolução
insular
Durante 23 dias percorri cerca de dois mil
quilómetros de leste a oeste de Cuba. No embalo
do caminho: um curso de cinema, um diário, uma
mochila, um telemóvel e a revolução insular de um
povo erudito, generoso, dividido entre a nostalgia
de Fidel Castro, que morreu faz dia 25 um ano,
e o anseio por abertura internacional e o fim
do embargo económico. Vanessa Rodrigues
VANESSA RODRIGUES

#Dia 1. Simples ou revueltos?


Vista do céu, a ilha tem mil olhos lu-
minosos e coloridos. São quase nove
e meia da noite e o calor húmido
empapa a pele enquanto se espera
na fila do serviço de estrangeiros no
aeroporto internacional José Martí.
Sixto e o filho Alejandro estão à mi-
nha espera. Marido e filho de Maria,
com quem tratei do alojamento via
e-mail. São já quinze minutos para
as onze e, em 20 minutos de viagem,
dá tempo para falarmos sobre polí-
tica: perguntam-me sobre a troika
e pelo governo. Há trânsito neste
domingo havanero. Quero entrar
nas menos cinco horas de fuso ho-
rário em relação a Portugal, mas o café, pão, ovos, manteiga. Estou Cinco minutos pela Avenida 23 de ra que não tenha “ilusões” sobre temos boa educação e, apesar de
sono começa a apoderar-se do cor- numa sala no rés-do-chão, ao lado Julio e sou iniciada no sistema de o país. “A saúde é gratuita, mas os tudo, hoje já conseguimos ter o nos-
po. Chegamos ao bairro El Vedado, do quarto, e avisto a rua. Uma azá- filas cubano: “Quem é o último?”, hospitais são precários, estão sujos so negócio, porque já temos autori-
onde ficarei hospedada estes dias, fama. Entra um bafo quente pela pergunta-se. Aprendo que, se sou- e degradados. E há um bloqueio em zação para ser cuentapropistas.”
depois de ver o rosto de Che Gue- janela gradeada da porta de madei- ber quem está à minha frente, pos- tudo: desde a consciência social e Por isso, enquanto caminho até
vara e Camilo Cienfuegos na Praça ra. Maria faz-me companhia. “A vi- so sentar-me à sombra. Hoje: 32 ideológica. Há muita desigualda- ao centro da cidade vou vendo as
da Revolução. Maria já só quer sa- da é difícil, sim, mas somos felizes. graus. Tempo de espera: uma hora de e a equidade de Fidel Castro é janelas e as garagens de casas par-
ber como quero os meus ovos pa- Há bloqueio, sim, o que impede o e meia, porque entretanto é hora de apenas uma premissa, não a rea- ticulares a vender de tudo: desde
ra o pequeno-almoço: simples ou acesso a certos bens. Entras num almoço e a Cadeca (loja de câmbios) lidade.” roupas usadas a comida. Sigo pelo
revueltos? supermercado e muitas prateleiras fecha. A fila alonga-se. Beatriz, que Desabafa desalentada. “As pes- Malécon, a marginal marítima. O
estão vazias, mas há sempre uma está à minha frente, desiste. Volta soas vivem o dia-a-dia e não têm mar está sereno, sob nuvens plúm-
#Dia 2. “Bem-vinda a Cuba” mão amiga”, confidencia, referin- minutos depois. O sistema bancário consciência social, falta educação beas. Já se anuncia chuva, velando
do-se a ajudas paralelas. Sobretudo não está a funcionar e só consegue cívica.” As coisas boas? “Não temos o Capitólio ao fundo. Está em obras.
Acordo às nove horas, refeita. Mel, da China e da Rússia. levantar dinheiro aqui. “Bem-vinda terrorismo, não temos drogas, não Tal como a Calle San Lázaro, por
manga, papaia, sumo de manga, Saio tarde para trocar dinheiro. a Cuba”, ironiza. E adverte-me pa- temos violência, não temos armas, onde me aventuro. Casas verdes,
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Sábado, 18 de Novembro de 2017 | FUGAS | 5

ALEXANDRE MENEGHINI/REUTERS

A presença
de Fidel
Castro está
ainda muito
presente por
toda a ilha, mas
os habitantes
de Cuba
preferem
olhar para
o futuro,
que se joga
agora por
Raul Castro;
na página ao
lado, o bairro
El Vedado,
em Havana

sumo de manga natural e café (140


pesos cubanos: menos de 4 euros).
Um achado. Nos dias seguintes se-
rá difícil comer por menos de dez
euros.
Ao fim de dois dias estou ao rit-
mo de Havana. À tarde apanho um
almendrone para o centro da cida-
de. São os táxis colectivos que fa-
zem itinerários fixos por dez pesos
cubanos. Em 15 minutos já estou à
procura da Plaza Vieja. Sigo o meu
instinto. Encontro o bar dandy. Tu-
rístico. Calle Brasil: habaneros, tu-
ristas, galerias de arte e artesanato.
Uma porta entreaberta com as ban-
deiras e os retratos de Che Gueva-
ra e Camilo Cienfuegos atrai-me. A
cor-de-rosa, azuis, brancas. Passo As pingas fortes que descem pelo mitério Cristóbal Cólon, datado do A estação rodoviária da ViaAzul miúda de batom vermelho chama-
a Avenida Reina Sofia e a Igreja Sa- toldo vermelho são a banda sono- século XIX e considerado um dos fica em frente ao Jardim Zoológico. me. É uma escola. São férias. Ela,
grado Coração de Jesus. Arrisco ir ra de um fim de tarde a ver como mais monumentais do mundo. Saio Quando chego há uma fila inacredi- Mariana, é filha de uma professo-
para a zona do Capitólio e instalo- chove em La Habana. dali e perco-me. Gimena salva-me. tável. Uma hora depois, e um rio de ra. Ao fundo, está um professor de
me no pequeno bar-restaurante Aproveito a sombra do seu guarda- transpiração, sou atendida. Conse- Educação Física. No final da visita,
Castillo de Farnés, perto do mítico #Dia 3. “Chega chuva e caminhamos até à rua onde guimos conciliar: Havana-Trinidad- vai oferecer-me uma raridade: a fa-
Floridita, frequentado por Ernest devo seguir. Ela é professora do en- Santa Clara-Cienfuegos-Camaguey- mosa nota de 3 pesos cubanos com
de Che Guevara”
Hemingway. Agora chove torren- sino básico. Estudou português com Havana, mais as viagens para Viña- a imagem de Che Guevara. Assina-
cialmente. As ruas jamais ficarão Acordo às 5h em jet lag. Decido uma professora brasileira, porque les. Tudo: 105 CUC, o equivalente a: “Felipe [Suaréz], Cuba”. “Há um
desertas. Do interior vejo cinema traçar o itinerário das próximas queria ir trabalhar para o Brasil. “Ao a 105 euros. São horas de almoçar exagero do uso da imagem de Che
directo a contrastar com a imagem viagens e tentar encontrar compa- final de um ano ela não pôde mais. e recordo-me do segredo de Maria: Guevara. Está em todo o lado: nas t-
postal da cidade. Troveja. Um ho- tibilidade de horários para tanta Mas tenho mesmo de aprender ou- na Cafetaria Los Primos, um restau- shirts, nos restaurantes, nos carros,
mem fuma o seu charuto no canto ilha. Às oito já estou a sair de casa. tra língua para poder progredir na rante familiar no bairro El Vedado, nas paredes das casas, nas bolsas de
do bar. Camisa branca, dedos del- Vinte minutos depois de terminar carreira. O que ganhamos não che- na Calle H, é mais barato. Almoço turistas, nos posters. Chega!”
gados de pianista, olhos cansados. a Calle 25 atravesso o histórico ce- ga a dez dólares por mês.” bistec de cerdo, arroz com feijão, Mariana faz-me uma visita c
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6 | FUGAS | Sábado, 18 de Novembro de 2017

#Diários de Cuba
PAULO PIMENTA

guiada à escola vazia. Num pe-


queno quadro estão afixadas ac-
tividades juvenis: como fazer nós
de sobrevivência, como fazer um
acampamento, linguagem gestual
para dispersão de massas, ordem e
ordenamento de grupos. Agradeço
e saio para explorar a cidade: Calle
Mercaderes, Plaza de la Catedral,
Callejon del Chorro e o Taller Ex-
perimental de Gráfica, ruas Obispo
e O’ Reilly, Paseo San Martí, a Plaza
Vieja. É linda. Tem edifícios dos sé-
culos XVI, XVII e XVIII. Ao redor,
percebe-se um fôlego de recupera-
ção: a cidade está a ser reabilitada,
ansiando glamour e turistas.

#Dia 4. “Vontade do povo,


consolidando o diálogo”
Alejandro deixa-me na rodoviária
ViaAzul. Conheço uma família co-
lombiana que se queixa dos preços
exorbitantes em Havana. Sou so-
lidária. Ontem consegui comprar
uma água de 1,5l por 1,75 euros. O
mais barato que conseguiria. São ARTUR WIDAK/NURPHOTO VIA GETTY IMAGES
7h15 e as ruas estão atarefadas. Miú- 64 anos, adora ler. Pergunta-me
das de telemóvel na mão e uniforme que livros quero. Feministas? Re-
cor-creme e castanho, mini-saias e volucionários? Novelas? “E Cuba,
lábios pintados. Autocarros cheios. hoje?”, provoco. “Algo tem vindo
Na estrada, mais homens pedem a mudar para nós, mulheres”, re-
boleia, ora mostrando galinhas, ora flecte, “pelo menos já conseguimos
mostrando dinheiro. A viagem pa- ter um trabalho e ser reconhecidas
ra Trinidad, na província de Sancti por isso.” Remata: “Outra coisa que
Spiritus, vai demorar seis horas e mudou é que as lésbicas e os ho-
meia. Vou coleccionando frases de mossexuais são mais respeitados e
cartazes. “Nosso dever, produzir há maior abertura na sociedade.”
para o povo”; “As mulheres con- Compro um livro. Sento-me a fo-
tribuem para um socialismo sus- lheá-lo na praça principal, obser-
tentável”; “Defender a revolução vando várias gerações a navegar na
sempre”; “O homem cresce com o Internet. Ameaça chover. Regresso
trabalho que sai das suas mãos”; a casa com intenções de voltar à
“Por um socialismo próspero e noite. Caio na cama. Só acordo no
sustentável”; “Vontade do povo, dia seguinte.
consolidando o diálogo”; “O parti-
do é hoje a alma da revolução”. E, #Dia 5. “A revolução
claro, um constante: “Hasta siempre
dos pássaros”
comandante”. Na paisagem domi-
nam sempre Che Guevara e Fidel Às 8h30 apresso-me a aproveitar o
Castro. que me resta conhecer da colonial
A chegar a Trinidad, património Trinidad: a Praça Santana, sabore-
mundial desde 1988, as ruas come- ar os sussuros históricos das ruas
çam a estreitar. À minha espera está e vielas. A cidade tem a doce lenti-
Núria. O calor intenso chicoteia o dão cinematográfica e a sedução de
corpo e os sentidos. As casas tér- um amor que cresce. São quase 14h
reas, coloridas e coloniais tornam- e o meu autocarro vai partir para da revolução”; “Unidos pela Revo- nar quando aparece Santiago, mari- dia ele criticou Fidel e a Revolução.
na numa cidade pitoresca, que vive Santa Clara. 120 quilómetros e três lução”; “Com Fidel a Revolução”; do de Lídia. Ela já foi professora de Ela expulsou-o de casa. Mais tarde
sobretudo do turismo. Numa pe- horas de viagem. O caminho: vacas “Fiéis a Fidel”. Química. Há 20 anos percebeu que ficaram amigos.
quena praça, homens tocam e can- magras, mangas rosa, bananeiras, Santa Clara também chora copio- poderia ganhar mais dinheiro com Saio para visitar a Casa da Cultu-
tam salsa e rumbas. Há artesanato, estradas de areia e terra batida. Car- samente quando chego. Lídia não turismo. Fala-me do americano que ra. Mayara instrui-me na revolução.
rendas, camisas alvas. Entro numa tazes: “Para sempre a revolução”; está à minha espera. Luna oferece- viveu lá uns tempos e que ia a Cuba Ali ao lado, fica o parque da Plaza
livraria-alfarrabista. Maria Caridad, “A mulher é uma revolução dentro se para me ajudar. Estamos a telefo- por causa das raparigas novas. Um Mayor e tento descortinar um mis-
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Sábado, 18 de Novembro de 2017 | FUGAS | 7

Na página
ao lado,
Trinidad, na
foto principal,
e uma rua de
Havana; em
baixo, uma
bodega em
Trinidad
VANESSA RODRIGUES

individual que prensa os charutos,


envolvidos de forma manual. So-
raya recebe-nos com um inglês de
difícil compreensão. Peço o espa-
nhol. A informação sai decorada e

Trinidad não há margem para outras pergun-


tas. “São 250 empregados, 54% são

é património mulheres e todos os dias produzem


entre 13 mil a 15 mil charutos. Ca-
da trabalhador produz cerca de 150
mundial charutos. Há de várias qualidades
e cada charuto leva várias camadas
desde 1988 de folhas: para o sabor, para manter
as propriedades, para a qualidade
e destaca-se para arder.” Soraya continua, en-
quanto uma mulher está ao micro-
sobretudo pelo fone a ler as notícias do dia. “Produ-
zimos o Monte Cristo nº2, Cohiba,
seu casario Romeu e Julieta.” As folhas vêm de
diferentes lugares de Cuba. Há pelo
colonial menos 25 fábricas de tabaco para
exportação e dez para consumo
colorido nacional.
Uma hora adiante arrisco enfren-
tar o calor abafado e ir a pé até ao
SEJA RESPONSÁVEL. BEBA COM MODERAÇÃO.
trem blindado. É o memorial à ba-
talha de Santa Clara (1958), quando
tério: milhares de pássaros negros Che Guevara e cerca de 300 homens
chilreiam nestas árvores. Santiago libertaram a cidade, tornando-a
diz-me que de manhã migram e vol- independente. À tarde sigo para
tam ali ao fim do dia. Ninguém sabe o Mausoleu e o Memorial de Che
por que razão. Amanhã cedo quero Guevara. As ruas estão muito su-
vê-las partir. jas. Ao fundo, a estátua gigante de
Che pronuncia-se. No Memorial: ob-
#Dia 6. “Em Cuba não há jectos pessoais de El Comandante
(material médico, diário, máquina
liberdade de expressão”
fotográfica, pistola) e muitas fotos
É a minha primeira vez numa fá- de momentos de vida. Convenço-
brica de tabaco cubano. “Não po- me que já estou informada sobre a
de tirar fotografias.” Seria quase vida do ícone.
proibido falar com os funcionários, Anseio por um mojito. Volto à ci-
dispostos em linha numa máquina dade e conheço Luís, guia turís- c
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8 | FUGAS | Sábado, 18 de Novembro de 2017

#Diários de Cuba

tico, olhos de insónias. “Em Cuba


não há liberdade de expressão. Não
há eleições. É uma ilusão. Tudo é
dos Castro. Se falas mal do governo
arriscas ser preso e a ficar quatro
anos na prisão. Qual a solução? São
os jovens que têm de fazer alguma
coisa. Precisamos de um novo
Che Guevara, mas sem liberdade
de expressão é muito difícil.” Ele
entusiasma-se com a conversa. “As
pessoas ganham mal. Um médico
ganha no máximo 40 CUC. A maio-
ria das pessoas tem mais do que um
trabalho. As farmácias ficam recor-
rentemente sem medicamentos. As
pessoas não vivem, sobrevivem.”

#Dia 7. “A revolução
do paquete semanal”
O autocarro em que viajo de ma-
drugada para Camaguey é muito
desconfortável. Quatro horas e
meia para 278 quilómetros. Atra-
saria uma hora. André está à minha
espera num tuk tuk reservado pela
minha anfitriã, Nina. Está lua cheia.
Corre um vento manso. Na manhã
seguinte, Nina vai mostrar-me a
cidade. Mais à frente, esta mulher
charmosa de cabelos curtos e gri-
salhos, 45 anos, encontra o irmão
do companheiro. Pede-lhe que se
encontre com ela para tratar de ne-
gócios. “Mas sóbrio”, suplica. “É
que o alcoolismo é um problema
social grave em todo o país.”
Reparo que várias igrejas têm a
placa dos Alcoólicos Anónimos.
Entramos num teatro de arena que
ela e Enrique ajudaram a construir.
Passamos pela Iglesia Catedral de
Nuestra Señora de la Candelaria, to tem vindo a mudar no acesso à #Dia 8. “A revolução dio militar. A mensagem: Hasta la
caminhamos pela praça do Parque informação.” Itinerário da tarde: victoria siempre. Caminho mais de
é uma praça”
Ignacio Agromonte. Nina: “Cama- Plaza San Juan de Dios, Parque Jose uma hora a pé até ao centro, pela
guey é uma cidade com muita pro- Martí, Plaza Maceo, Plaza Cristo e Faltam 15 minutos para a uma da Avenida Allende. Leio um cartaz:
gramação cultural: casa da Cultura, União dos escritores. Há música ao manhã. O autocarro parte de re- “Bloqueo, el genocidio más largo de
teatros, Biblioteca Municipal, Asso-
ciação dos Artesãos.” Entramos na São três horas vivo com poesia. Quero perder-me
na cidade.
gresso a Havana. Oito horas de
viagem em vigília, porque é im-
la historia”. Há obras por toda a
parte. Reabilitações, areia, tábuas
rua do cinema, onde as lojas têm
nome de filmes. Barbearia: El mari- de viagem até Encontro o rumo, ao entardecer,
até ao Café da Ciudad, onde paro
possível dormir. Os autocarros são
precários, sujos, vão lotados, o ar
de madeira.
Chego à Plaza Vieja e ouve-se
do de la Peluquera; Multicine: Casa- para escrever e beber um sumo de condicionado deixa de funcionar rumba e salsa. Subo até à torre da
blanca; Loja: Grandes Ilusiones. descansarmos manga. Corre uma brisa doce. À mi- na primeira hora de viagem. Abre- câmara escura para contemplar a
Nina deixa-me no centro videoar- nha espera, para jantar, há cama- se o tejadilho. Paliativo, apenas, cidade num ângulo de 360 graus
te. Converso com a curadora Teresa
Dominguez. “Em Cuba funciona o
os olhos no rões salteados com manteiga pelo
chef Enrique. O acolhimento é ge-
porque entra uma corrente de ar
quente. Chego a tempo de desfrutar
em tempo real. É vívida, vibrante,
destruída, reconstruída, charmosa,
paquete semanal. Há pessoas es-
pecializadas em séries, filmes, de-
exuberante neroso. “As pessoas gostam muito
de receber e Cuba é um país segu-
o fim da manhã na Praça da Revo-
lução. Está cheia de carros antigos,
decadente. Almoço e estou em dú-
vida: ir à Calle Aguiar conhecer as
senhos animados e música. Deixas
uma pen drive e podes ter as últi-
vale de Viñales ro. Fidel deixou um bom legado.
Mas agora estamos numa incerteza,
coloridos, estilo norte-americano.
E há uma enchente de turistas a
barbearias? Museu de Belas Artes?
Museu da Revolução? Opto pelas
mas novidades. É uma revolução”, Raul não tem o mesmo carisma e os fotografar as imagens gigantes de barbearias, passando por casas co-
graceja. “Cuba não está assim tão cubanos estão cansados do embar- Che Guevara e Camilo Cienfue- loniais em ruína. Um homem bem
fechada, pois com a Internet mui- go”, afirma. gos, esculpidas a ferro, num pré- vestido levanta-se no momento em
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Sábado, 18 de Novembro de 2017 | FUGAS | 9

FOTOS: VANESSA RODRIGUES


Vinãles é um lugar
onírico, com um vale
verdejante a perder
de vista; em baixo,
a produção de charutos
na fazenda Figueiroa;
na página seguinte,
uma rua de Santa Clara

ciados pela chuva, que cobrem as


patas do cavalo ao atravessá-los, a
terra barrenta, subidas ora íngre-
mes, ora descidas estreitas e irre-
gulares, seria uma experiência para
duros. Variáveis insignificantes no
paraíso: borboletas brancas e ama-
relas, goiabeiras, córregos entre ve-
getação serrada e montanhas. Olor
a humidade mineral.
Giovani é o meu guia e leva-me
à fazenda de tabaco de Rolando
Figueiroa. Dicson Figueiroa faz as
honras. “Vais ficar a saber tudo so-
bre tabaco: a forma como planta-
mos, curamos, enrolamos, para dar
origem às diferentes marcas cuba-
nas.” Em 1964, Fidel Castro distri-
buiu terras a todos os fazendeiros
que queriam cultivar. “O meu avô
é dono de dois hectares”, salien-
ta Dicson, “mas nós não podemos
vender a outro fazendeiro, apenas
ao governo”. São seis trabalhado-
res. “90% da produção é obriga-
toriamente para o governo, 10%
é para negócio pessoal”, explica.
Na parede, bandeiras: Cuba e Che
Guevara. Um painel com as folhas
do tabaco. Dicson fala por mais de
meia hora. No final oferece um puro
cubano. Corta-o, mergulha a ponta
Nesse sábado, decido ir à Fábri- com mel. “Dizem que Che Guevara
ca de Arte Cubana, uma galeria de filtrava assim. Eu também gosto.”
arte, discoteca, bar, restaurante, E Fidel Castro? “Fidel fumava sem
com lojas hipster. Sinal de uma no- nada. Ele foi um grande líder, faz
va Havana. Regresso de autocarro: falta, Cuba já não é a mesma. Va-
tem música cubana e vai sobrelo- mos vivendo do passado, com a me-
tado. Vamos todos colados uns aos mória de uma revolução.” É fim de
outros. tarde. Galopo pelo vale sossegado,
onírico.
#Dias 14 e 15.
“Cuba campesina” #Dia 16. “Tempo virtuoso”
que passo e começa a acompanhar-
me subtilmente. Diz que quer levar- É quase meio-dia quando chego a A única forma de conhecer um pou-
me ao Buena Vista Social Club. Res- Viñales, na província de Pinar del co mais Viñales em tão curto tempo
pondo que não estou interessada e Rio. Fica na Sierra de los Organos é optar pelo autocarro circular que
que quero caminhar sozinha. Pede- e é património UNESCO. Três ho- pára nos pontos principais. Não
me dinheiro para leite e pão. Mais à ras de viagem até descansarmos os costumo ser fã deste método, mas
frente uma mulher pede-me que lhe olhos no exuberante vale paradisía- regresso ainda hoje a Havana, para
dê a minha t-shirt. Calor-inferno. co, pré-histórico, rodeado de pare- à noite voltar à escola. Pago 5 CUC.
Apanho um almendrone para a dões gigantes rochosos, os mogotes. Conheço, frugalmente, a Cueva del
gelataria Copelia, no bairro El Ve- É Cuba rural com suas plantações Indio, o Mural de la Prehistoria, a
dado. Ao lado fica o cinema Yara de café e tabaco: 70% do tabaco é Cueva de San Miguel, o Mirador
que, aos domingos, tem fila para #Dias 9 a 13. Julio Garcia Espinosa, com o apoio produzido aqui. O centro da cida- sobre o vale. Duas horas de via-
comprar bilhete. Ao redor, deze- de Fidel Castro. Recebe estudantes de, além de uma praça, museu e gem entre a imponência rochosa,
“Música no autocarro”
nas de homens e mulheres, várias de todo o mundo. “Mas o cinema igreja tem alguns restaurantes, e casas coloridas e rurais. Terra de
gerações, estão sentados a olhar o 9h. Começa o taller de dramaturgia em Cuba está sem financiamento e muitas habitações particulares pa- tempo mais lento, longe da azáfa-
telemóvel. É zona de wi-fi. À noite de cine documental que frequenta- é muito difícil produzir”, diz o pro- ra alojamento de turistas. Fico na ma de Havana e das preocupações
regresso aqui para seguir no auto- rei nas próximas duas semanas. A fessor e produtor Mário Suarez, que casa de Tatiana y Yiyi. O clima está políticas.
carro para a Escuela Internacional escola foi fundada em 1986 pelo es- conheço no autocarro de regresso húmido, acabou de chover. O vale Tatiana diz que sentem muito a
de Cine Y Televisión (EICTV) de San critor Gabriel García Marquez, pelo a Havana no sábado seguinte. É fã deve estar pantanoso. Mas arrisco falta de produtos alimentares, va-
Antonio de Los Baños, a 40 quiló- poeta e cineasta argentino Fernan- da literatura de Saramago. Prometo um passeio a cavalo. Nome: Palo- riedade de vestuário, calçado. Falta
metros de Havana. do Birri e pelo realizador cubano enviar livros de Portugal. mo. Raça: Criolo. Com os lagos sa- dinheiro. “O meu filho tem 30 c
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10 | FUGAS | Sábado, 18 de Novembro de 2017

#Diários de Cuba
VANESSA RODRIGUES

Não há voos directos Trinidad Viñales


entre Portugal e Cuba, Hostal Stugan (Casa Nuria) Vila Tatiana y El Yiyi
por isso será necessário Calle Antonio Guiteras, 103 (c/ Calle C, 27 (c/ 1ª e 3ª, Bairro Las
efectuar, pelo menos, uma Anastacio Cardenas y Pedro Delicias)
escala. A Iberia voa directamente Serguera) Tel.: (+53) 048-684380
desde Madrid e, saindo do Porto Tel.: (+53) 041-994239 E-mail: tatiana.lezcano@nauta.cu
ou Lisboa, tem valores entre os facebook.com/Casa-Tatiana-y-
750 e os 900 euros. A Airfrance Os quartos têm camas de El-Yiyi
voa directamente desde Paris, solteiro e o valor é de 25-30 casatatianayelyiyi.wordpress.
com voos a sair deste destino euros, dependendo da época com
entre os 800 e os 900 euros. Há do ano, com pequeno-almoço
outras alternativas, por vezes incluído. Têm casa de banho Quarto com duas camas de
mais económicas (entre os 500 e privada e ar-condicionado. O solteiro e casa de banho privada.
os 700 euros), mas nem sempre ambiente é familiar, tranquilo e Limpo, asseado e bem ventilado,
tão práticas, quer por causa generoso. Situado a 300 metros com ar-condicionado. O local é
anos, vai ser pai agora, mas ainda carros antigos cor-de-rosa, verdes, do número maior de escalas, do coração de Trinidad, esta familiar e sossegado. O valor é
não casou e estão a viver separados azuis, pretos, cor-de-laranja. quer pelo tempo de espera por casa de estilo colonial,tem um entre 25 e 30 euros, dependendo
porque não têm forma de subsistir. Depois de almoçar, apresso-me a conexões. E vale sempre a pena pátio interior onde é servido o da época. O melhor é negociar
Vou construir aqui por cima uma ir ao Museu da Revolução, finalmen- pesquisar na Air Canada, United pequeno-almoço. sempre com antecedência.
área comum para eles poderem te. Outrora foi o Palácio Presidencial Arlines e Virgin Atlantic Airways. Tatiana Lezcano serve refeições
viver.” No final, cobra-me mais e palco de um confronto sangrento, Santa Clara para almoço e jantar, que devem
do que o que tínhamos combina- em 1957, quando um grupo de estu- Cuba tem um clima Hostal La Caridad (Casa Lídia) ser combinadas previamente.
do. Tenho de negociar com ela. dantes foi massacrado, por se ter in- quente e tropical, com Calle San Paulo, 19 (c/Maximo O pequeno-almoço é à parte e
O autocarro sai às duas da tarde. surgido contra o presidente-ditador temperatura média de Gomez y Luis Estevez) custa 5 euros. Inclui sumo de
Passamos as barragens Coronella Fulgencio Batista, o qual tomou o 24ºC. No entanto, nos meses Tel.: (+53) 042-227704 fruta natural, café, várias frutas,
e Niña Bonita, rapazes descalços à poder em 1952. A Revolução Cuba- de Inverno, Janeiro e Fevereiro, E-mail: lacaridad8@gmail.com pão, manteiga, café e ovos
chuva, uma carrinha capotada com na começou nesse ano, num movi- as temperaturas podem cair mexidos
tomates. Cartaz: “Este é um tempo mento clandestino armado e guer- abaixo dos 15ºC. No Verão, entre Os quartos têm entre uma a duas
virtuoso e temos de nos fundir nele, rilheiro, liderado por Fidel Castro, Maio e Outubro, o clima é mais camas de casal e o valor é de Havana
Viva o 26 de Julho.” para derrubar Batista. No Museu, húmido e há maior pluviosidade, 25 euros, com pequeno-almoço Restaurante La Vitrola
que existe desde 2010, conta-se esse mas este não deve ser factor incluído. Com ar-condicionado. É Rua San Ignacio (Esq.
#Dias 17 a 20. “Cinema” percurso através de objectos e docu- de exclusão porque a chuva uma casa antiga, localizada a 10 Muralla – Plaza Vieja)
mentos. São três pisos. Não vai ser nunca fica muito tempo. A época minutos a pé do centro de Santa Tel.: (+ 53) 5 2857111
A minha turma de guião para cine- hoje. Já não me deixam entrar pa- seca, entre Novembro e Abril Clara. Os quartos são simples, Restaurante-bar, com música
ma documentário tem espanholas ra a última visita às 15h. Não quero é, no entanto, o momento que limpos, com televisão e caso de ao vivo e decoração vintage.
(catalãs e madrilenas), dois brasilei- acreditar. Insisto. Em vão. Olho para reúne as condições ideias. Mas banho privada. Tem comida latina, criola e
ros, uma peruana, uma colombiana, o tanque de guerra, cá fora. Ques- ter em conta que nos meses de caribeña. A sande cubana, com
uma portuguesa e o professor é ar- tiono quantos cubanos terão vindo Setembro e Outubro são os mais Camaguey carne assada fatiada, é um
gentino. Aproveito a última semana ao museu saber da revolução, se a vulneráveis à época anual de Residência Pierre (Nina y ex-líbris. O ambiente é muito
para me nutrir de cinema cubano. revolução mora no coração deles furacões. Enrique) animado e junta estrangeiros e
Conducta, de Ernesto Sarana Ser- como parte da História. Callejon del Cuerno, 6 (c/ turistas cubanos. Os preços são
rano, tudo de Belkis Vega, Esteban, Mas a revolução é passado e Cuba Havana Independencia y San Paulo) acessíveis.
de Jonal Cosculluela, Últimos Dias en quer olhar o futuro para saciar as Sixto Y María Tel.: (+53) 032-297873
Habana, de Fernando Pérez. Cuba necessidades imediatas. Da carteira (Apartamentos E-mail: residenciapierre@nauta. Dona Eutimia (Paladar)
tem tanta energia artística e cultural retiro o livro que comprei em Tri- independientes) cu Callejon del Chorro, 60-C (El
que qualquer estadia tem um sabor nidad: Cuba, Cultura y Revolución: Calle F, 609 (entre 25 y 27) Patio - Plaza de la Catedral)
de insaciedade. claves de una identidad, uma colectâ- Tel.: (+53) 7835-4279, (+53) 5297- Os quartos são individuais, têm Tel.: (+53) 7 8013332
nea da Colección Editores. Folheio- 5920 com ar-condicionado e o valor
#Dia 21. “À espera o. Tradução minha: “O mundo sim- e-mail: juliosera@infomed.sld.cu é de 25 euros, por quarto, com O menu é baseado nas receitas
bólico de várias gerações, isto é: a pequeno-almoço incluído. É uma de pratos cubanos da mãe de
da revolução insular”
maioria de nós, é o que criou a Re- Todos os quartos têm cama de casa colonial, a cinco minutos Letícia, a dona do restaurante.
Tanto me falaram de Varadero que volução (…) [mas] em Cuba começa casal e o valor é de 30 euros por a pé do centro da cidade, com Por isso, os destaques vão para
resolvo não ir. É Verão. Estão todos a debater-se o desafio plantado pela quarto, com pequeno-almoço pátio interior, onde vivem Nina e ropa vieja, porco, feijões e arroz,
a ir para lá. Os jornais cubanos pe- cultura das transformações impres- incluído. Tem ar-condicionado. Enrique. Os quartos são simples, entre outros. O ambiente é
dem mais limpeza nas praias. Olho cindíveis na economia, na imensa É um alojamento de família, mas acolhedores, com casa moderno e tradicional ao mesmo
para as dicas da minha amiga Raquel maioria da produção intelectual modalidade típica em Havana, de banho, minifrigorífico e ar- tempo, familiar e bem disposto.
Ribeiro. Ainda não fui ao Museu da de analistas e comunicadores fora com todas as condições para condicionado. Tem esplanada, no pátio comum
Revolução, nem almocei no Los Nar- do país e entre a minúscula contra- receber os turistas. O ambiente e espaço interior.
dos. Antes, sigo para o Calejon de revolução interna organizada, tanto é acolhedor e cuidado, a limpeza
Hammel, uma viela artística. Entro a tradicional como a reformada, pre- esmerada e o atendimento
na Livraria Alma Mater. Muitos li- valece a ideia do fracasso absoluto, profissional e generoso. Fica
vros empoeirados sobre revolução, a perspectiva de não dar a menor localizado no bairro El Vedado,
cultura e desenvolvimento agrícola. chance ao governo de Raul.” Quan- um dos melhores bairros da
Há uma promiscuidade entre vida do, ao levantar voo, vejo os contor- cidade de Havana, com acesso
pública e vida privada. Vemos mu- nos da ilha, entendo: sem Fidel, ao centro da cidade em 15
lheres de camisas de noite à janela, Cuba procura mudança, mas ainda minutos de táxi.
a cozinhar e a ver televisão. Na rua: é cedo para saber qual.
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Sábado, 18 de Novembro de 2017 | FUGAS | 11

Havana OCEANO ATLÂNTICO

San Antonio de Los Baños


Viñales
Santa Clara
Cienfuegos
Pinar del Rio
Trinidad
Camaguey
Mar das Caraíbas
CUBA Camaguey Viñales Matanzas, Girón, Ciego de Ávila,
Restaurante El Carmen 3J Bar de Tapas Holguín, Bayamo, Remedios,
100 km
(Paladar) Calle Salvador Cisneros, n.º 45, Cayo Santa Maria, Playa Larga,
Trinidad Rua Maceo, 6 (entre general Tel.: +53 5 3311658 Bayano, Caibarién e Varadero.
Taberna la Botija Santa Clara Gómez y Plaza Maceo) É um restaurante de tapas que O desafio é conjugar horários
Rua Amargura 71-B Restaurante Sabor e Arte Tel.: (+53) 32 287902 mistura comida cubana com e os trajectos são longos. Para
Tel.: (+53) 5 2830147 Maceo No. 7 | E/ Independencia y Serve comida típica cubana e mediterrânea. Tem preços Varadero há, ainda, a opção
Cespedes os preços são muito acessíveis. médios e serve desde o típico da CubaTour em autocarro
Serve comida típica cubana, Tel.: (+53) 5 2834749 Por 8 euros pode comer o prato arroz à cubana a petiscos privado com ar-condicionado.
tem bom serviço e bom principal, com direito a café, como empanadas. O serviço é Não é aconselhável alugar
ambiente. A carta é variada, os É um “paladar” com preços sobremesa e água. O ambiente atencioso. carro, alertam, pelos trâmites
preços acessíveis, mas o local acessíveis, que serve comida é acolhedor, o serviço é muito burocráticos, sobretudo se
é pequeno, por isso convém ir criola, como o tradicional ajiato atencioso. A única empresa de houver algum problema com
cedo para garantir que consegue campesino (ou Candoza), uma autocarros é a ViaAzul o veículo. Cuba tem, ainda,
lugar, já que o local é muito sopa forte com batata-doce, e tem uma oferta linha ferroviária mas precária e
concorrido. legumes e coentros. O ambiente que liga as principais cidades limitada.
é sossegado e familiar e o cubanas, quer entre elas, quer
serviço é de grande qualidade. a partir de Havana. Trinidad,
Santa Clara, Cienfuegos, Pinar
del Rio, Santiago de Cuba,
Camaguey, Las Terrazas,
Guantánamo, Baracoa,

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Reserva sujeita a disponibilidade.
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12 | FUGAS | Sábado, 18 de Novembro de 2017

Protagonista
FOTOS: RUI GAUDÊNCIO
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Sábado, 18 de Novembro de 2017 | FUGAS | 13

ele lhe pediu para enumerar três porque ela se chama Constança
Alexandra Prado Coelho factos sobre gin. “Eu não sabia
responder.” Mas sabia outra
Raposo Cordeiro e porque, em
família, “tudo o que tinha a ver
?
a “Vou pedir-vos que esqueçam coisa: que o universo das bebidas com raposa, cativava”. O menu
a ideia de cocktail e que pensem a interessava. Tinha já passado vai ser inspirado “nos animais Resposta rápida
só em sabores.” Sorriso aberto, pelo Tivoli em Vilamoura, pelo amigos da raposa, que são
gestos entre o entusiasmo e Ritz Carlton e estava no Penha emblemáticos de Portugal, e que Qual é o equilíbrio certo para
algum nervosismo, Constança Longa, em Sintra. “O Dave disse- podem ser reais ou fictícios”. uma bebida?
Raposo Cordeiro tem 26 anos e me ‘Miúda, vai para Londres’”. Descreve, entusiasmada: “Vai Para o final de boca é sempre a
a energia inquieta de quem sabe E, passados alguns meses, ser um espaço só com música acidez, o amargo, isso de caras.
que tem muito para nos mostrar e Constança embarcava num avião portuguesa, uma ligação muito É preciso o nível certo de açúcar
está impaciente por fazê-lo. para Londres, onde confirmou grande com a natureza na sua para dar volume de boca, a
Foi ela quem preparou as rapidamente que “não sabia forma mais orgânica, a pedra frescura no início, um elemento
bebidas que vão ser servidas nada”. (a mesa será um grande cubo mais neutro no meio, e no fim
com os pratos criados por Mas aproveitou bem todas de mármore), o gelo em bloco, atacar com a acidez e o amargo.
Bernardo Agrela, no Cave 23, em as oportunidades que lhe as flores, as plantas.” Aliás,
Lisboa, num dos vários jantares surgiram. Passou por bares esse trabalho, em torno das Qual foi a bebida mais arriscada
organizados durante a Lisbon diferentes, desde os mais flores, plantas, frutas e outros que fizeste?
Food Week. E tem razão: não tradicionais — “Tínhamos que ingredientes portugueses já Foi inspirada no Ferrero
podemos pensar nos cocktails a saber 300 receitas de cocktails começou e, para já, é só com eles Rocher de foie-gras que o José
que estamos habituados. Aqui clássicos de cor” — até começar a que quer trabalhar. Avillez [chef do Belcanto] faz.
podemos ter, por exemplo, a perceber que o caminho que lhe Desafiou um casal de amigos Redestilei etanol com foie-gras
acompanhar um aveludado de interessava era outro. “Comecei a que admira muito no universo e chocolate, fiz uma infusão de
ostra, uma bebida feita à base de entrar em competições, a querer dos cocktails, Maria Berg e Alex avelã assada com Porto branco,
rainha cláudia fermentada e licor atingir certos sabores, mas sem Kratena, aos quais se juntaram um licor seco de framboesa e
de musgo. um certo tipo de equipamento outros amigos, e está a organizar rum branco.
Ou, com a vieira que vem numa não era possível.” Acabou por seis encontros em Arraiolos, onde
tapioca de caril com crumble encontrar o que procurava (e que vive. “Temos uma masterclass As pessoas ainda são muito
de nougat, telha de mostarda ela própria ainda nem sabia o que com uma produtora de plantas conservadoras em relação
de algas cabelo de velha — era) no bar Peg and Patriot, de para fins medicinais, a Willemijn a cocktails?
uma bebida que “foi a mais Matt Whiley. As colheres de De Jongh, que vive há dez anos Em Portugal menos, parece-me,
desafiante”, confessa Constança, “Destilavam, faziam licores, medidas que em Portugal e conhece tudo. embora ainda não possa falar
porque nos põe “a pensar o que é aquilo para mim era outro Constança usa Estamos quatro horas a apanhar muito. Como não conhecem
um cocktail”: um caldo de cebola, mundo.” Um dia disse a uma para preparar ingredientes e depois vamos para tanto, estão muito mais abertas.
galinha, lúcia lima, sálvia, louro amiga que o seu sonho era os cocktails, a cozinha criar bebidas.” Em Londres, como a maior parte
e gin. Ou ainda, para a bola de trabalhar ali e amiga respondeu- os livros que A partir desse trabalho, que das pessoas conhece bem os
Berlim com recheio de rabo de lhe simplesmente “Make it significam permite aos amigos estrangeiros clássicos e sabe do que gosta,
touro, “um cocktail que puxa à happen”. Ela seguiu o conselho conhecimento conhecerem melhor Portugal, pede sempre isso e dali não sai.
nostalgia” — e aqui a nostalgia e não só conseguiu trabalho lá e constante Constança ficará com uma série Acho que aqui temos um ponto
tem a ver com “hamburgers e como se viu, em pouco tempo, aprendizagem de receitas originais para servir a nosso favor.
litrosas” — com licor de alperce, a chefiar a equipa de bar. “Da e a alcofa para na Toca da Raposa. Mas, garante,
pêssego e tangerina verde, e “a primeira vez que lá fui, vi-os recolher as no seu bar as bebidas nem vão
litrosa”. com uma caixa de plantas, de frutas e ervas ser o mais importante. “O que eu
Em cada caso, as criações verduras, a comer as folhas. que utiliza nas gosto é de criar uma ligação entre
de Constança foram pensadas Disseram-me ‘Prova’, e eu suas bebidas pessoas que não se conheciam
com uma enorme atenção aos cheirava e eles diziam, ‘Não, e, de repente, está um ambiente
sabores do prato. A ideia, explica, come’.” espectacular.” Desde os dias do
não é criar uma bebida que os A pouco e pouco, começou Penha Longa que isso era o que
reproduza em forma líquida, a pensar de outra forma, culturas presentes em cada zona. lhe dava mais prazer.
mas sim que os complemente, libertou-se da ideia da estrutura Mais tarde fizemos outro menu só Isso e que as pessoas percebam
tornando o conjunto muito mais clássica de um cocktail e viu inspirado em chefs.” o que estão a beber. “Vou pedir à
interessante do que a simples abrir-se um mundo novo. “Se São formas de trabalhar que minha avó que leia a descrição do
soma das partes. conseguisse fazer uma coisa com quer trazer para o bar que vai cocktail e pergunto-lhe ‘Consegue
E, no entanto, ainda há quatro complexidade, com princípio, abrir em Lisboa em Março do perceber a que é que isto sabe?’”.
anos Constança não sabia “nada” meio e fim, só com fermentados, próximo ano. Já o tem todo na Se ela disser que sim, é porque
sobre cocktails. Percebeu isso boa!” Outro desafio foi pensar cabeça — e, mais importante que está bem, é porque “é possível
quando, numa conversa com no menu do bar a partir de um isso, já tem o espaço físico. Vai ter uma bebida clean, saborosa,
Dave Palethorpe, o proprietário tema. “Começámos com o mapa ser perto do Largo do Carmo e complexa e com elementos que
do bar Cinco Lounge, em Lisboa, de Londres e estudávamos as vai chamar-se Toca da Raposa, toda a gente conhece.”

Constança Cordeiro
“Quero fazer um cocktail em que a minha avó
reconheça todos os ingredientes”
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14 | FUGAS | Sábado, 18 de Novembro de 2017

Passeio

que Rui transcreve a declaração de


amor de Vidal a “ua dona d’Elvas/
que me trage tolheito”.
Conversamos com Rui enquan-
to nos dirigimos para o edifício do
Açougue Municipal, no centro da
Judiaria Velha, que acaba de ser
inaugurado como espaço dedicado
à história judaica depois de ter sido
identificado (por Rui, a sua colega
Tânia Rico e a já falecida professo-
ra de ambos Carmen Balesteros),
como o local da antiga sinagoga
que há muito tempo procuravam
localizar.
Com o decreto de expulsão dos
judeus de Portugal no final do sé-
culo XV, as perseguições, a fuga de
muitos e a transformação dos que
ficaram em cristãos-novos, os ves-
tígios dessa presença tornaram-se
cada vez mais vagos, quase como se
eles nunca tivessem existido e não
tivessem tido a grande importância
que tiveram para a cidade.
Rui Jesuíno escreve que, apesar
de tudo, “muitas famílias por cá fi-
caram, embora muitos sejam con-
denados a penas duras e outros à
morte na fogueira”. Calcula-se que
“no, século XVII, pelo menos um
quinto dos elvenses fossem cristãos-
novos”, podendo-se encontrar nos
arquivos “mais de 1100 processos
da Inquisição relativos aos judeus
de Elvas”.

Elvas não esqueceu


a Caminhamos pelo centro de É essa injustiça que hoje se tenta
Elvas, a zona chamada da Judia- compensar de alguma forma com
ria Velha, ruas estreitas, onde os a abertura ao público da antiga si-
carros têm dificuldade em passar, nagoga que será também a Casa
e só precisamos de imaginar como da História Judaica de Elvas. Aqui

os seus judeus
seria há alguns séculos. Vamos até vamos reencontrar algumas das
à Idade Média e, de repente, as ru- personagens com as quais nos po-
as animam-se numa azáfama, ho- deríamos ter cruzado nas ruas da
mens, mulheres, crianças, todos Judiaria Velha há muitos séculos.
pertencentes à comunidade judaica Se a maioria se perdeu no ano-
da cidade, às compras, a caminho nimato, há, contudo, nomes que
de casa, alguns dirigindo-se para se destacam, famílias que, pela sua
a sinagoga, outros para o trabalho influência, conseguiram resistir nas
nas oficinas de ourives, no boticário memórias da cidade. Uma delas é
ou noutros comércios. mesmo nome de rua: Botafogo.
Seria assim Elvas provavelmente Vamos até lá, guiados pela histó-
desde o período islâmico, a partir ria que Rui Jesuíno conta numa das
do século X, admite Rui Jesuíno, suas crónicas.

O antigo Açougue Municipal foi, possivelmente, responsável pelo Património e Tu-


rismo na Câmara Municipal, estu-
“Os Botafogo foram uma impor-
tante família de judeus e cristãos-

a sinagoga de Elvas no tempo em que os judeus dioso da história dos judeus elven-
ses e autor do livro Elvas – Histórias
novos elvenses que deu nome à
rua onde viviam, junto à Bibliote-

eram cerca de um quarto da população. Hoje ajuda do Património, que reúne crónicas
sobre a cidade.
ca Municipal: a Rua do Botafogo.
Tinham lá um palácio com um pá-

a recordar algumas das famílias mais poderosas Logo no século XIV ficou famo-
so um judeu, de nome Vidal, pelos
tio, à direita de quem desce, que
se havia de transformar em quar-

e influentes da terra, dos Botafogo aos Gomes da seus poemas, “cantigas que ficaram
célebres e que estão hoje transcri-
tel no século XVII e em cinema e
casas particulares no século XX”,

Mata Coronel. E até o chocolate em barra entra tas, embora incompletas, nos can-
cioneiros da Biblioteca Nacional e
escreve. Antes de ganhar o nome
dos Botafogo, o que aconteceu no

nesta história. Alexandra Prado Coelho (texto) da Vaticana” e que “demonstram


claramente uma mescla da cultu-
final do século XVI, a rua chamava-
se da Guedelha.

e Mário Lopes Pereira ( fotos) ra hebraica com a cultura moçára-


be”, lê-se numa das crónicas, em
Esta família vai ligar a história de
Elvas à do Rio de Janeiro e ao hoje
Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S.A. são pertença do Público.
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Sábado, 18 de Novembro de 2017 | FUGAS | 15

famoso bairro do Botafogo, expli-


ca ainda o historiador. João Perei-
ra de Sousa Botafogo, nascido em
i
1540, perseguido pela Inquisição,
emigrou para o Brasil em 1572, tor- Sinagoga de Elvas
nando-se capitão-mor da capitania Para já, as visitas têm que ser
de São Vicente e mais tarde gover- solicitadas ao posto de turismo.
nador. Foi ele quem deu o nome ao Tel.: 268 622 236
bairro do Botafogo, na zona onde se
instalou em 1590. Sabe-se ainda que
casou duas vezes, teve onze filhos Lisboa), tinha sofrido muitas altera-
e morreu em 1627. ções, com a construção de peque-
Calcula-se que na época medie- nas “capelas” laterais usadas para
val, os judeus de Elvas constituís- os vários comércios no “açougue”
sem um quarto da população da (que, na verdade, significa pequeno
cidade. Dado o seu número eleva- mercado, onde se vendia carne mas
do, existiam duas judiarias, a Ve- também outros alimentos). A insta-
lha (Praça da República e ruas em lação no lugar da sinagoga de um
redor) e a Nova (a Oeste da zona sítio onde se vendia carne de porco
da Alcáçova). O que Rui Jesuíno e se deixava correr o sangue era, c
constata é que se a Velha já era as-
sim chamada no século XIV, isso PUBLICIDADE

significa que a presença dos judeus


teria começado bastante antes, pos-
sivelmente no século X, no período
islâmico.
Entramos no edifício do antigo
Açougue Municipal, na Rua dos
Açougues, onde se crê que terá
sido a sinagoga da Judiaria Velha.
Rui Jesuíno sublinha que não foi
encontrada a pedra da fundação,
por isso a prudência leva a que seja
apresentada como “possível sina-
goga”, embora integre já a Rede de
SEMANA DA GASTRONOMIA ITALIANA NO MUNDO
Judiarias de Portugal.
Foi em 2015 que, com financia- 20 A 26 DE NOVEMBRO DE 2017
mento dos EEA Grants, começaram
as escavações no local (que estava a #ItalianTaste
funcionar como espaço de reservas
do Museu de Arte Contemporânea
de Elvas) e, graças a elas, surgiram
Qualidade, sustentabilidade, territórios, identidade e biodiversidade na culinária do “Bel Paese”
à vista mais seis colunas, que se so-
maram às seis que já eram visíveis. 17 a 19 de Novembro
“As doze colunas correspondem às
doze tribos de Israel”, explica, “e é Mercato Italia na Praça da Figueira Feira de produtos típicos #mercatoitalia
evidente que estes três arcos góti-
cos são monumentais de mais para
um açougue”. Feitas as medições, 20 a 26 de Novembro
os investigadores concluíram que
esta é “a maior sinagoga medieval”
SEMANA DA GASTRONOMIA ITALIANA EM PORTUGAL
do país. Conferências, workshops, exposições, teatro, degustações e muita alegria.
Outro facto que veio ajudar à Inauguração no Instituto Italiano de Cultura de Lisboa, segunda-feira 20 de Novembro às 18h30.
convicção do que era o local foi a
presença de água, essencial para o
culto, no que resta de uma cisterna Programa completo em www.amblisbona.esteri.it
localizada num pátio particular ao https://www.facebook.com/iic.lisbona
lado da sinagoga. Esta, julga-se, terá
sido maior, provavelmente o dobro, https://www.facebook.com/CameraDiCommercioItalianaPerIlPortogallo
mas não é possível alargar as esca- https://www.facebook.com/ASCIPDA.CCI
vações porque de ambos os lados
existem casas particulares. Foi pos- Uma iniciativa realizada em Portugal pela Embaixada de Itália em Lisboa, Instituto Italiano de Cultura, Câmara de
sível, contudo, deixar à vista no in-
terior aquele que é o único pedaço Comércio Italiana para Portugal e ASCIP Dante Alighieri Porto.
sobrevivente do chão original.
Tudo isto só ficou evidente de-
pois das escavações porque o es-
paço, adaptado no século XVI pe-
lo arquitecto Francisco de Arruda
AMBASCIATA D’ITALIA
(o mesmo da Torre de Belém, em LISBONA
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16 | FUGAS | Sábado, 18 de Novembro de 2017

Passeio

Os frescos
aliás, uma forma de dessacralizar o início do século XVII, o chocolate Debaixo
do branco,
espaço, numa mensagem clara para era bebido, depois foi introduzido
os cristãos-novos. o açúcar e em meados do século XVII
começa a desenvolver-se em Baiona,

Elvas é
A descoberta do chocolate no país basco francês, o chocolate
em barra.”
em barra
O que Rui descobriu foi que “os
Voltemos então à história das famí- apelidos são de famílias judias de
lias judaicas de Elvas. “A mais rica
é a dos Gomes da Mata Coronel.”
Rica e muito poderosa, dado que
Elvas”. Entrou em contacto com in-
vestigadores em Baiona e eles confir-
maram que foram judeus portugue-
colorida
Abraham Senior (o nome que tinha ses que se instalaram no bairro de
antes de ter sido forçado a tornar-se Saint-Esprit e começaram a vender
cristão-novo) era, em Segovia, “um o chocolate em barra, embora não a Quando começaram a trabalhar
intelectual e político que trabalhava pudessem confirmar qual a sua ori- nas paredes do antigo Açougue
directamente com os Reis Católicos gem exacta em Portugal. Municipal, hoje identificado como
como o maior arrecadador de impos- Mas não são apenas as colunas, sendo muito provavelmente a anti-
tos de toda a Espanha”. Uma posição agora novamente visíveis, da antiga ga sinagoga de Elvas, os técnicos da
que, segundo alguns historiadores, sinagoga que nos recordam a história Câmara descobriram os frescos nas
fazia dele o homem mais rico da Pe- dos judeus de Elvas. Em vários edi- paredes, que usam a técnica do mar-
nínsula Ibérica no final do século fícios da cidade — e a Câmara dispo- moreado, muito popular sobretudo
XV, tendo sido financiador dos Reis nibiliza um mapa para quem estiver nos séculos XVIII e XIX, explica Rui
Católicos nas guerras para a expul- interessado em fazer esse percurso — Jesuíno, responsável do Município
são dos mouros da Península e “até vêem-se marcas de cruzes que identi- para o Património e Turismo.
da viagem de Cristovão Colombo à ficam as casas dos cristãos-novos. O mesmo tem acontecido noutros
América”. “Faziam-se cruzes nas ombreiras edifícios da cidade à medida que vão
Depois da morte de Abraham (que das portas para cristianizar a casa. sendo intervencionados. “Mesmo
adoptou como nome cristão o de Temos mais de 20 dessas cruzes”, em casas simples encontram-se
Fernão Peres Coronel), a família dis- uma delas, muito discreta, na casa estes marmoreados, tanto no inte-
persa-se e alguns vêm para Portugal, do irmão do médico judeu Garcia da rior como nas fachadas. Ou então,
tendo o seu neto Tristão Peres Coro- Horta, situada na Praça da República. na parte de baixo, era usado o már-
nel vindo instalar-se em Elvas, onde E essa foi uma prática que se prolon- more e mais para cima, onde já não
a família se tornou muito influente. O gou no tempo. “Na Real Fábrica de era tão visível, o marmoreado. Havia
bisneto de Abraham, Luís Gomes de Chapéus criada por Jácome Ratton e pessoas que tinham dinheiro para
Elvas Coronel, acabaria por mudar vendida por ele a outro francês, que usar mármore, mas os que não ti-
o nome para Luís Gomes da Mata, era judeu, há também um crucifor- nham recorriam a esta técnica.”
comprou o ofício de correio-mor do
Reino e “passou a administrar todos
me, feito já no século XVIII, quando
os cristãos-novos já não eram assim
A generalização do uso da cal
branca acontece com o Estado No- Graça
os correios de Portugal”, tendo cons- denominados.” vo, que “quis higienizar os centros
truído o Palácio do Correio-Mor em
Loures e a Quinta do Correio-Mor
em Elvas. “Ainda hoje”, escreve Rui
E, num edifício apalaçado da Rua
dos Falcatos, existe mesmo uma mi-
kveh, os banhos usados pelos judeus
históricos”. Antes disso, afirma Rui
Jesuíno, as pessoas misturavam co-
rantes na cal e a cidade tinha um O forte
inexpugnável
Jesuíno, “descendentes desta família para o ritual da purificação — que, aspecto muito mais colorido, que
estão entre os mais ricos dos Estados não se sabe como, sobreviveram a hoje se começa a recuperar num ou
Unidos da América, agora com o ape- todos os esforços para fazer desapa- noutro edifício. “A cor mais usada
lido Colonel”. recer para sempre as marcas da exis- era o ocre militar, mas também ha-
Curiosamente, segundo as investi- tência dos judeus de Elvas. Tal como via bastantes edifícios em bordeaux,
gações do historiador, os judeus de a velha sinagoga, esquecida durante que é o óxido de ferro, e alguns em
Elvas estão também ligados à histó- 500 anos e hoje redescoberta para azul, embora menos, porque o azul a Visto do ar parece uma estrela chamou Vasco da Gama — nome que
ria do chocolate em barra. “Foi algo contar uma história que a cidade já era o corante mais caro.” de quatro pontas colocada sobre passaria para o neto deste, o futuro
que descobri recentemente. Até ao não quer apagar. No próximo ano deverá abrir em um quadrado, pousado sobre outra famoso navegador.
Elvas uma escola de Artes e Ofícios, estrutura e, finalmente, uma última A igreja desapareceu quando foi
fruto de uma parceria da Câmara que serve de base a todo o conjunto. tomada a decisão de construir o for-
Municipal com a Associação In-Ci- O Forte da Graça, em Elvas, constru- te. Não havia dúvidas de que a mon-
dade, que se destina a criar mão-de- ído numa colina elevada, um ponto tanha constituía uma ameaça para
obra especializada na recuperação estratégico que, se capturado por os habitantes — foi, aliás, nela que
do património e de muitas destas inimigos, se tornaria uma ameaça se instalaram as tropas espanholas
técnicas. perigosíssima para a cidade, tinha durante o cerco na Batalha das Li-
que ser inexpugnável. E foi assim nhas de Elvas, com duas bocas de
que foi planeado. fogo viradas para a cidade.
Antes da construção do forte, que A ordem de construção do forte
aconteceu entre 1763 e 1792, existiu partiu do britânico Conde de Lippe,
naquela montanha a Ermida de ao qual o Marquês de Pombal con-
Nossa Senhora da Graça, mandada fiara a reorganização profunda do
erguer pela bisavó de Vasco da Ga- Exército português. Rui Jesuíno con-
ma. Conta Rui Jesuíno no livro Elvas ta no seu livro: “Considerado, por
– Histórias do Património que Catari- muitos, um génio na arte militar”,
na Mendes, mulher de Estêvão Vaz chega a Portugal em 1762 e “encontra
da Gama, ficou viúva com 18 anos um cenário desolador: um exército
e com um filho ainda bebé, a que impreparado, feito de gente pobre,
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Sábado, 18 de Novembro de 2017 | FUGAS | 17

i
Forte da Graça
Horário: de terça a domingo das 10h às 17h;
encerra à segunda-feira.
Preços: 5€, visita guiada 8€. Visita guiada
especial com inscrição prévia (acesso à cisterna
e contraminas aberto quatro vezes por ano) 15€.

homens e muito armamento (com jecto defensivo, feito de fossos e de


grande construção subterrânea, muros altos, de frestas e parapeitos,
dado encontrar-se no topo de uma guaritas, canhoeiras e casamatas. E
montanha, o que limita o espaço), de longos corredores que rasgam o
para além de uma enorme cisterna forte de um lado ao outro, cruzando-
que garantia o abastecimento de se e abrindo outras passagens, como
água durante seis meses. se estivéssemos num labirinto.
O chamado reduto central, a área Temos por momentos a sensação
mais protegida do forte, tem uma ca- de ter sido transportados para o ro-
pela, um piso intermédio que cor- mance de Dino Buzzati, O Deserto dos
responde ao antigo Hospital Militar Tártaros, em que uma guarnição mi-
e, no topo, a encantadora Casa do litar particularmente bem prepara-
Governador, pintada de amarelo e da e seguindo rituais com a precisão
com três pisos redondos e uma vista de um relógio suíço garante a defesa
privilegiada sobre tudo à volta. de um forte frente ao deserto e pe-
Trabalharam na obra seis mil ho- rante um inimigo que nunca chega
mens e, conta Rui Jesuíno, muitos a aparecer.
deles morreram — de tal maneira Aqui o inimigo existia e Forte da
que, em 1770, “o médico do Hospi- Graça terá tido, efectivamente, um
tal Militar de Elvas pediu aumento papel dissuasor. Mas com o passar
de salário porque no seu hospital, do tempo a sua função mudou e foi
para além de ter que assistir aos mi- transformado numa prisão. A gale-
litares enfermos da cidade de Elvas ria de tiro com mais de 1700 metros
[…], tinha agora também que acu- de comprimento passou a ser usada
dir aos operários da obra e, desta para celas a partir da guerra civil de
forma, diariamente assistia a mais 1828 a 1834. “Os principais implica-
de 300 pessoas, o que era incom- dos nos golpes que se seguiram até
portável”. 1851 eram presos neste forte de El-
muitos descalços, oficiais ignorantes dem para a construção do forte, cujo Era preciso garantir que o forte não Continuamos hoje — depois de o vas”, escreve Rui Jesuíno. E, no início
nas artes militares e salários constan- projecto é confiado primeiro ao ar- seria conquistado pelo inimigo — forte ter sido aberto ao público, após do século XX, com a implantação da
temente em atraso.” quitecto francês Étienne e posterior- se isso acontecesse seria fatal para obras de recuperação iniciadas em República, o Forte da Graça passa a
Quando vai avaliar as fortificações mente ao seu compatriota Guillaume Elvas. Mas para que fosse realmen- 2014 e que puseram fim a décadas de ser uma prisão política, mantendo-
portuguesas, percebe a fragilidade Louis Antoine de Valleré. te inexpugnável, precisava de ter total abandono — a espantar-nos com se como tal durante toda a ditadura,
da montanha junto a Elvas e dá or- A obra estava longe de ser fácil. capacidade para albergar muitos a gigantesca estrutura e todo o pro- até 1975.
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18 | FUGAS | Sábado, 18 de Novembro de 2017

Moleiro da Costa Má

As coisas boas
da Costa Má

As casas e os quartos do Moleiro


da Costa Má ficam num recanto
silencioso de Sever de Vouga,
junto ao rio Mau. Ali vai desligar
do mundo, experimentar
produtos biológicos e, se tiver
tempo, mergulhar num banho
retemperador com ervas
aromáticas, no meio da natureza.
Patrícia Carvalho (texto)
e Nelson Garrido ( fotos)
a Quando se instalar no Moleiro da tudo o que tinha sido distribuído pela quartos. “O que eu queria mesmo era Má fica com uma garantia. “É um E isso consegue-se de várias for-
Costa Má não se esqueça que está a família e fazer da quinta um espaço ter aqui um centro de investigação local de ruptura com o dia-a-dia. mas. Desde logo, não há televisões
entrar na memória de António Olivei- uno outra vez. de arte e design”, confessa. E a ideia Pretendo que seja um espaço criati- nos quartos — se quiser ligar-se ao
ra e no sonho de futuro de António Hoje, naquele local de silêncio on- não está posta de lado. “Estamos a vo e de reflexão, com uma vertente mundo por esse modo, terá que ir
Oliveira. Tudo no mesmo espaço. E de apenas se ouve o rio Mau a saltar começar a organizar algumas activi- ecológica e pedagógica muito forte, até à sala comum. O espaço tem wi-fi,
é importante que não se esqueça, no pequeno açude junto aos quartos, dades, vamos ver.” mas tem também essa componente que funciona muito bem nas zonas
porque cada recanto deste espaço António diz que sente cada vez me- Por enquanto, quem escolher pas- de relaxamento, de desligar”, des- comuns, mas nem tanto nos quar-
de agro-turismo é o reflexo do que nos saudades da agitação das cida- sar alguns dias no Moleiro da Costa creve António. tos. Há sempre chá à disposição, com
acabou de ler. des. E ele já andou por várias. Tirou a
Estes são os espaços da sua infân- licenciatura em Coimbra, o mestrado
cia, quando o avô ainda era o pro- em Lisboa e fez o doutoramento em
prietário da quinta de 10 hectares Manchester, na Inglaterra, onde tam-
que comprara ao moleiro local. On- bém deu aulas. Agora, admite que é
de se erguem hoje os sete quartos preciso sair daquele recanto escon-
duplos e as áreas comuns é onde fun- dido do mundo de vez em quando,
cionavam os moinhos de água, que mas não por muito tempo. “Assim
as pessoas das redondezas utilizavam que me apanho numa fila de trânsi-
amiúde, para moer os cereais que to começo a pensar o que estou ali a
cultivavam. “Depois, apareceram os fazer”, sorri.
moinhos eléctricos e as pessoas dei- A quinta está a crescer, mas ainda
xaram de vir”, lembra agora António não atingiu todo o potencial que o
Oliveira. A quinta ficou, por isso, ao proprietário sonhou para ela. Come-
abandono, e, quando o avô morreu, çou pela produção de mirtilos e de
o espaço foi retalhado entre os vários ervas aromáticas. Somou-lhe, há três
herdeiros. Coube ao neto, arquitecto anos, a abertura das três casas turís-
e hoje com 44 anos, voltar a comprar ticas e, em Junho deste ano, dos sete
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Sábado, 18 de Novembro de 2017 | FUGAS | 19

pode pedir e que serão levados até Podíamos recomendar-


à porta do seu alojamento. lhe alguns restaurantes
Mas — e ele também deixa o avi- em Sever do Vouga,
so — não espere um local “perfeito”. mas não vale a pena. Fazer as
A paisagem não é perfeita (aquelas refeições no Moleiro da Costa
manchas de eucalipto ficam, pelo Má é uma experiência que não
menos, escondidas pelos carvalhos, vai querer perder, mas não se
amieiros e salgueiros junto ao rio), a esqueça que precisa de avisar
comida vem em tachos para a mesa e com antecedência. A dona
os sofás em que se vai sentar não são Natália, mãe de António, tratará
novos a estrear. António diz que quis das refeições e depois é sentar-
construir ali um ambiente o mais ca- se à mesa, como se estivesse em
seiro possível, familiar, e que só se sua casa. A comida chega nos
não tiver outra possibilidade é que tachos e é só deliciar-se. Calhou-
adquire algum mobiliário novo. Tudo nos caldo verde, bacalhau e
o resto são coisas usadas que vai en- vitela assada. Estava tudo muito
contrando e adquirindo aos poucos. bom. Tão bom que não sabemos
E por isso é que na sala, por baixo da escolher do que gostámos mais.
televisão, há um maravilhoso móvel Todos os quartos estão também
em madeira que esconde um gira- equipados com uma pequena
discos e um rádio com um som que Moleiro da Costa Má área de cozinha com o essencial
parece mais quente do que os actuais Costa Má para tratar das suas próprias
— tudo com mais de 40 anos e ainda 3740-323, Silva Escura, refeições, se preferir. Nas
a funcionar. Sever do Vouga casas, a cozinha cresce e está
Tel.: +351 917 073 465 apetrechada com mais temperos
Auto-suficiente e biológico Email: moleirodacostama@ do que aqueles que alguns de
gmail.com nós têm em casa.
Esta vontade de reutilização das coi- www.moleirodacostama.com
sas, do recurso ao biológico e natural, Pode optar por não fazer
tem muito a ver com toda a filosofia O Moleiro da Costa Má tem três seja o que for e isso já
que António quis transpor para o Mo- casas e sete quartos disponíveis será uma boa opção.
leiro da Costa Má e que é visível tam- para quem quiser passar lá Mas não é obrigatório que fique
bém no revestimento exterior do nú- algum tempo. O custo de cada de olhos fechados a pensar
cleo dos quartos, feito em cortiça. “É quarto duplo, com pequeno- em nada. Os hóspedes podem
100% nacional, natural e um excelen- almoço, é de 50 euros, mas participar nas actividades da
te isolador térmico e acústico. Além pense bem no tempo que lá quinta — dependerá sempre da
disso, é óptimo para explorar a parte pretende passar, porque pode época do ano em que lá vai —,
criativa”, diz o arquitecto, imaginan- interessar-lhe optar antes por o que pode passar pela apanha
do já aquelas paredes perfuradas por uma das casas. Aquela que dá das ervas aromáticas, da uva,
bilhetes, desenhos ou brochuras a para duas pessoas ficar-lhe-á do mirtilo ou das tangerinas e
desvendar actividades para fazer. por 40 euros por noite e as duas limões das árvores de fruto. Em
ervas e misturas de ervas colhidas ali ao lado para a mesa e o mesmo se Auto-suficiente e totalmente bioló- que albergam quatro pessoas, redor há trilhos para percorrer
na quinta. A manhã começa com pode dizer de praticamente tudo o gica. É esse o caminho que a quinta por 50 euros por noite. O truque, e, espalhados pela paisagem,
sumo de produtos dali (calhou-nos que a dona Natália ou a Tânia, pela do Moleiro da Costa Má está a traçar, para estes preços baixos quando há vários pontos de repouso:
mirtilo e estava tão bom) e ainda há manhã, lhe porão à frente. Só o peixe sob o olhar plácido e a voz calma de comparados com os dos quartos, redes penduradas nas árvores,
um moinho que funciona quando é e a carne é que vêm de fora e, neste António Oliveira. Que, nos tempos é que as casas não podem ser espreguiçadeiras ou bancos de
preciso cozer pão. Laranjas, tangeri- último caso, nem sempre. livres, ainda escreve contos. E rece- alugadas por apenas uma noite, madeira. O rio, no tempo quente,
nas, maçãs ou framboesas (quando é Saindo do núcleo de casas, onde be amigos que lhe deixam pequenas há a obrigatoriedade de passar é uma tentação e, é claro, tem
época) também saltam dos terrenos se chega por uma estrada estreita e obras (serigrafias, desenhos) espalha- ali pelo menos duas noites. Se sempre a possibilidade de
sinuosa mas recentemente alcatroa- das pelas paredes da casa. A lareira for esta a sua opção, fica desde mergulhar no banho de ervas
da, há trilhos para explorar e redes em pedra ainda não estava acesa e já informado que receberá aromáticas ou temperar o dia
presas a árvores para se estender estava demasiado frio para experi- de oferta um banho de ervas com a sauna que fica ali ao pé.
quando entender. Se quiser, pode mentar a piscina exterior, alimenta- aromáticas, na banheira que a Também é possível encomendar
participar nas actividades da quinta da por água de uma nascente e sem casa de agro-turismo instalou tratamentos do corpo e rosto
ou ir experimentar a sauna que está qualquer tratamento químico. Mas no meio do verde, mesmo junto e, para saber o resto, fale com
paredes-meias com o pequeno moi- ficar simplesmente ali, entre os ta- ao rio. Tenha em conta que os António Oliveira, porque ele
nho funcional coberto de hera. chos da dona Natália, o silêncio da únicos produtos de higiene está sempre a pensar em novas
Já agora, aquela banheira com o noite coberta de estrelas e a frescura disponíveis nos alojamentos actividades para a quinta.
interior manchado de castanho, que de um sumo de mirtilo pela manhã, são uma barra de sabão natural
parece uma instalação artística no já teve a bênção de um longo suspiro, produzido na própria quinta,
meio da natureza, é o que António antes de se voltar à realidade. E de pelo que é aconselhável não se
chama “os banhos”. “A cor é dos certeza que Antónioficaria contente esquecer de tudo o resto que
banhos que preparamos, que são, por saber que foi esse o efeito que o possa precisar, como champô.
literalmente, chás em que as pessoas seu Moleiro teve em nós.
mergulham.” E, se tudo isto não lhe
chega, ainda há massagens e outros A Fugas esteve alojada a convite
tratamentos de rosto e corpo que do Moleiro da Costa Má
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20 | FUGAS | Sábado, 18 de Novembro de 2017

Tecnologia

FOTOS: DR
Uma app portuguesa
que liga compradores e viajantes
+
soa, em qualquer parte do mundo. quer comprar um produto qual- viaja para Portugal ou — melhor
Victor Ferreira “Estávamos num café, no Restelo quer, seja gadget, comida, tabaco ou ainda — pode encontrar logo al-
[em Lisboa], num belo fim de tarde roupa. Em vez de o comprar numa guém que anuncia ter aquele pro-
a Costuma aproveitar as viagens de quando o Pedro me disse: ‘Lembras- loja da sua cidade, onde vai pagar duto desejado nas suas mãos e que o
amigos ou familiares para lhes pedir te daquela tua ideia? É possível fa- mais caro devido às elevadas taxas vende a um determinado preço. Há
que comprem aquele produto que zer uma app e lançar um negócio’”. alfandegárias aplicadas pelo fisco Pixel Buds, auriculares uma aplicação concorrente desta,
não consegue comprar localmente Começaram então a pensar seria- brasileiro sobre produtos importa- que traduzem a Garbr, menos versátil porque não
ou que, noutras paragens, sai mais mente no assunto. Londres tinha fi- dos, o potencial comprador pode permite a compra imediata — mas
barato? Agora pode fazer o mesmo cado para trás, Pedro Vilela “estava colocar uma encomenda na app. De- vale a pena experimentar as duas
com desconhecidos, através de uma entre projectos” e Pedro Almeida, pois, basta que algum turista ou via- Uma das novidades recentes e comparar.
aplicação para smartphone criada também de 34 anos e formado em jante que tenha como destino o Rio lançadas pelo Google pode Por razões de segurança, todas as
por dois portugueses. engenharia electrotécnica, não an- de Janeiro aceite essa encomenda, ser um pequeno apoio para os transacções são feitas por cartão de
Chama-se Hand2Hand e foi lan- dava muito satisfeito com o que fa- compre o produto no seu ponto de viajantes com menos destreza crédito e as verbas envolvidas só são
çada, para Android e iOS, há preci- zia. Com programadores na Ucrânia origem e acerte o preço, data e local linguística. No início de Outubro, desbloqueadas quando o compra-
samente dois meses. Através desta e o apoio norte-americano para um de entrega com o comprador. a empresa introduziu os Pixel dor confirmar que recebeu o pro-
app, pode ligar-se a qualquer utiliza- plano de negócios, lançaram a Han- Outro cenário possível é estar in- Buds, que se distinguem pela duto encomendado nas condições
dor que viaje para um destino onde d2Hand que, nestes dois meses de teressado num produto estrangeiro capacidade de traduzirem, no correctas.
pode adquirir o produto pretendido vida, ganha 175 novos utilizadores que é muito caro em Portugal ou que momento, tudo o que nos estão Para quem viaja, é uma forma de
e entregá-lo no dia e no local com- por dia, em média. não está à venda por a dizer — ou o que nós queremos ganhar uns euros, para quem com-
binado. A app é gratuita mas cá — aquele vinho comunicar. Ideais para levar em pra é uma forma de poupar — ou
A ideia nasceu quando Pedro Vi- a empresa dos dois Pe- da Argentina, os viagem — a qualidade do som pelo menos de obter aquele produto
lela, um dos criadores da app, vivia dros cobra 10% de co- charutos cuba- é uma aposta clara —, servem que não estava à venda por perto
em Londres, mas só mais tarde se missão (e leia até ao fim nos, o último mo- por isso como uma espécie — e para quem quiser experimen-
tornou uma realidade. “Os meus co- que a Fugas abre- delo de sa- de tradutor pessoal, capaz de tar depois deste texto, a Fugas tem
legas estavam sempre a pedir-me pa- lhe a porta a um patilhas ajudar em 40 idiomas diferentes. uma pequena oferta: se introduzir o
ra que na próxima viagem a Portu- desconto). da sua Neste momento, o produto só código fugaspublico na app, estará
gal lhes comprasse vinho português, Um exem- marca se encontra disponível nas lojas isento da comissão de 10% na sua
que em Inglaterra é mais caro e di- plo, para preferi- Google norte-americanas (EUA primeira venda (e já agora descre-
fícil de comprar, e outros produtos demonstrar da. Pode e Canadá) e a entreganão é va-nos a experiência para fugas@
que em Portugal são mais baratos, como tudo entrar na possível para Madeira ou Açores. publico.pt). Fora isso, convém ter
como tabaco”, conta este lisboeta funciona, as aplicação Custam 159 dólares. V.F. alguns cuidados básicos: não aceite
de 34 anos, formado em gestão e vantagens e e deixar (nem faça) encomendas de produtos
em marketing. os riscos — que uma en- ilegais no país de destino; não exce-
Regressado a Portugal, foi outro também os comen- da as quantidades permitidas para
Pedro — Pedro Almeida — quem deu há. Imagine da para não correr riscos na alfândega; teste
o impulso que faltava para transfor- um cidadão algum sempre (como comprador) o produ-
mar uma necessidade de alguns num do Rio de utiliza- to encomendado antes de confirmar
negócio disponível a qualquer pes- Janeiro que dor que a recepção.
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Sábado, 18 de Novembro de 2017 | FUGAS | 21

Fugas dos leitores


Os textos, acompanhados preferencialmente por uma foto, devem ser enviados para
fugas@publico.pt. Os relatos devem ter cerca de 2500 caracteres e as dicas de viagem
cerca de 1000. A Fugas reserva-se o direito de seleccionar e eventualmente reduzir os
textos, bem como adaptá-los às suas regras estilísticas. Os melhores textos, publica-
dos nesta página, são premiados com um dos produtos vendidos juntamente com o
PÚBLICO. Mais informações em www.publico.pt/fugas

#fugadoviajante
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Especulação toponímica
@maggie.pi “Se há lugares únicos este é um deles. Amager
Strandpark é um lugar calmo e ideal para passear, relaxar e
a Intromissão rochosa do o mar amassava, num esmoer para a linha do mar. contemplar a paisagem. Foi um extenso passeio ao longo do parque
Alentejo litoral, o cabo Sardão cartilagens. Atento às vagas azuis, um idoso e do mar, mas fez-me sentir relaxada e feliz. Senti-me fascinada
contempla o Atlântico do alto dos No momento que antecedeu o estava de pé; aceitou ler a minha pela atmosfera deste lugar. Fez-me perder a noção do tempo.
seus penhascos, mas sem nunca se chuto derradeiro (e desconhece- história, e depois respondeu: Fez-me viajar.”
mostrar presunçoso. Indiferente se que acaso etológico enviou - Na verdade, havia um homem
aos tumultos da ondulação que o animal até àquele ponto do filho destas terras que era louco.
lentamente lhe morde os calços, espaço), um sardão trepou para Não de nascença — e ninguém
conserva uma postura sábia, os hexágonos do esférico, e aí nunca lhe quis senão bem —
de ruralidade à beira-mar: é se coseu de medo até que se mas endoidecera depois de ter
sem dúvida um dos mais belos despenhou nas águas. Só havia vindo da guerra. Todas as noites
miradouros portugueses, e lugar uma embarcação no mar, nessa passeava-se por estes espinhaços,
de visita demorada. noite, muito para lá da costa cantando canções sem sentido.
Numa altura, enquanto olhava o convoluta, e um barco pescava Na guerra fora cabo, e o apelido
campo de futebol de terra batida nesse adormecimento líquido. era Sardão. Apareceu morto
que se estende ao lado do edifício As redes puxaram a faina para numa arriba certa manhã, e como
do farol, perguntaram-me (ou o casco: no emaranhado veio homenagem o nome do cabo foi
imaginei que alguém me fizesse a o réptil e a bola. O pescador dado ao cabo.
pergunta, talvez um dos miúdos agarrou-os, e ao ver o lagarto Regressei para junto do carro,
que aí jogavam) por que motivo enfiar-se entre tábuas, olhou atravessando o campo de futebol:
assim se chamava o cabo. Então demoradamente para terra, apesar de tudo, o lugar mantinha
sentei-me na cadeira ferrugenta enquanto no farol giravam as a sua beleza, pedia para ser
que fazia de banco de suplentes e hélices da luz. revisitado, e agora, ao ter-lhe
propus-me uma resposta. Em chegando a casa, mostrou à metido uma história, tornava-
“Numa tarde, no tempo esposa o animal que aprisionara se ainda mais meu. As crianças
em que havia paus a servir de numa garrafa vazia, e um estavam junto de um poste, mas
balizas, duas crianças jogavam convencimento esclareceu-lhe de electricidade, tombado e
à bola. Suspensas num planalto, as dúvidas, comovendo-o de sem cabos. Aproximando-me,
desafiavam-se em remates, e importância: o cabo era Sardão, perguntei-lhes se sabiam por que
o tempo não fazia sentido. A porque o bicho dali se atirava é que ao cabo chamavam Sardão?
certa altura, um pontapé mais para a morte (a bola, essa, não E uma disse, esticando o braço:
forte fez a bola extravasar as interessava para o caso).” – Porque sardão é o nome de um
alturas do olhar, e um gancho A reconstrução deste topónimo arbusto e dantes, se calhar, havia @mr.quina “Aproveitando o bom tempo que se fez sentir durante
de vento catapultou-a para além em termos históricos, sobretudo muitos nas redondezas. o mês de Outubro, decidi ir fazer um dos vários trilhos pedestres
do precipício: a espuma das à luz da realidade presente, E a outra acrescentou, mas nada que a serra de Montejunto, a pouco mais de 60km de Lisboa,
ondas dissolveu-lhe o rasto, e as lembrava-me, no entanto, um tendo que ver com o caso: oferece. Já no caminho para casa, pouco antes do pôr-do-sol, dei
crianças — barriga espalmada exercício de escola primária – Com o cabo da vassoura que o de caras com esta imagem. As torres eólicas espalhadas um pouco
no chão, cotovelos raspados, — quis assim averiguar o grau meu pai tem na mala da carrinha por todo o concelho de Sobral de Monte Agraço e arredores. Foi
faces postas na boca da arriba — de verosimilhança da minha tiramos a bola debaixo do carro. talvez a última fotografia que tirei nesse dia, mas talvez tenha sido
nada viam senão os calhaus que descrição, e dirigi-me de novo André Paiva a melhor.”
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22 | FUGAS | Sábado, 18 de Novembro de 2017

Gastronomia

Estrelas Michelin
já chegaram
a 45 restaurantes
em Portugal

Depois da emoção da última edição, não são


esperadas grandes novidades na apresentação
do guia para o próximo ano. É já na próxima
quarta-feira e todos os actuais 21 restaurantes
com estrelas deverão manter a distinção.
José Augusto Moreira (texto) e Nelson Garrido ( fotos)
a É uma história que teve início em para que pouco ou nada possa me- passar por “dois novos restaurantes
1900, com a Exposição Universal de xer. Depois da emoção de há um ano, com três estrelas, cinco novos du-
Paris a ser palco da apresentação da- com seis novos restaurantes portu- as estrelas e 19 primeiras estrelas”.
quele que viria a tornar-se no mais re- gueses a entrarem na lista de estre- Não estando excluída, parece con-
conhecido guia gastronómico. Nessa lados — para um total de 21, nunca tudo remota possibilidade de que
primeira edição era apenas a França, antes alcançado — e passar de três entre estes eventuais 19 estreantes
mas aquele caderninho com indica- para cinco o conjunto de casas com possa haver algum restaurante por-
ção dos melhores hotéis e restauran- duas estrelas, a boa notícia parece ser tuguês, até porque parece não ter
tes acabou por converter-se numa re- mesmo a ausência de novidades. havido convites a novos chefs para
ferência mundial e tem hoje edições Significa que se deverão manter a cerimónia, o que tem sido o mais
específicas para os quatro cantos do todas as 26 estrelas atribuídas no seguro indicador de novidade. A sur-
globo. É o famoso guia vermelho da guia deste ano, que, como é sabido, gir, a surpresa poderá recair sobre
Michelin, literalmente venerado no é conjunto para Portugal e Espanha. os algarvios Vista, do chef João Oli-
meio da culinária e restauração, e que A apresentação do guia para 2018 te- veira, na Praia da Rocha, ou o Gus-
até começou por ter capas amarelas rá lugar na próxima quarta-feira, dia to, no Hotel Conrad Algarve, que já
nas primeiras décadas do século XX. 22 de Novembro, em Tenerife, uma eram tidos favoritos no ano passado.
No que toca a Portugal, a história cerimónia que se chegou a pensar
começa um pouco mais tarde, em poder acontecer em Lisboa. Mas ain- Quatro estrelados em 1974
1929, mas foi depois interrompida da não foi desta.
a partir de 1936, para só ser reata- Em declarações recentes, a direc- A par dos actuais 21 restaurantes
da após 1973. É a partir daqui que se tora comercial do Guia Michelin para portugueses com estrela Michelin
torna verdadeiramente consistente, a Península Ibérica, Mayte Carreño, — cinco deles com duas estrelas — é e Jessica Carreira, à gastronomia por- Quase a completar 90 anos,
se bem que resiste ainda em funcio- deixou entender que se trata basica- justo mencionar também mais dois tuguesa. Entre todos os estrelados, o Escondidinho mantém
namento um dos restaurantes distin- mente de uma competição de finan- em território americano. O Aldea, o Adega é aquele que mais próximo o ambiente requintado
guidos naqueles anos iniciais. O Es- ciamento, em cuja fase final estive- em Nova Iorque, do chef George Men- se apresenta da cozinha tradicional e cozinha tradicional
condidinho, na Baixa do Porto, que ram também envolvidas as cidades des, com alguns pratos associados à portuguesa, o que também atesta a
teve duas estrelas em 1936 e mantém de Lisboa e Santander. cozinha portuguesa, mas sobretudo diferença nos critérios de avaliações
ainda praticamente intactos o espa- No que toca às estrelas, a mesma o Adega, em San José, na Califórnia. dos inspectores da Michelin nas di- diferença entre hotéis e restauran-
ço, o tipo de serviço e cozinha que responsável deixou claro que só ha- Um fenómeno de popularidade que versas edições do guia. tes e as estrelas iam de uma a cinco.
lhe valeram aquele reconhecimento verá perda de estrelas decorrente do acaba de renovar a distinção da Mi- Por cá, foi no guia de 1929 que Ambos no Minho e com uma estre-
(ver texto ao lado). encerramento de negócios, que “para chelin recebida menos de um ano apareceram a primeiras referências la, o Hotel Santa Luzia, em Viana do
Em relação às novidades para a Portugal a nova edição será de conso- após a abertura. Isto graças ao apego para estabelecimentos portugueses. Castelo, e o Hotel Mesquita, em Vila
edição do próximo ano, tudo aponta lidação”, e que as novidades poderão do casal de jovens chefs, David Costa Numa altura em que não havia ainda Nova de Famalicão, bem podiam ser
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Sábado, 18 de Novembro de 2017 | FUGAS | 23

i Escondidinho
Restaurantes
com estrelas
Duas estrelas
2*
Vila Joya Albufeira
no Porto em 1936
Ocean Armação de Pêra
Belcanto Lisboa
Il Gallo d’Oro Funchal a Quase a completar 90 anos, o na qual, como nos interiores, se re-
The Yeatman VN Gaia restaurante do Porto mantém o velam trabalhos valiosos da Fábrica
ambiente burguês e requintado e Constância, dirigida então por Leo-
1* também a cozinha tradicional da poldo Battistini.”
Willie’s Quarteira época. Também a “primorosa a cozinha
São Gabriel Almancil Está no coração da Baixa do Por- do Escondidinho, sem dúvida a me-
Henrique Leis Almancil to, a poucos metros do Coliseu e do lhor que se pôde encontrar no Porto
Largo do Paço Amarante igualmente exclusivo Cafá Majestic, sob todos os pontos de vista”, man-
Fortaleza do Guincho Cascais mas o Escondidinho procura recriar tém ainda hoje a essência da época.
Eleven Lisboa o estilo das grandes casas solarengas Carta avantajada onde se alinham
Feitoria Lisboa do Norte de Portugal. Sinónimo do entradas, sopas, saladas, peixes,
L’And Vineyards luxo e conforto que era apanágio da carnes, legumes, omeletas e sobre-
Montemor-o-Novo burguesia daquele debutar da déca- mesas com dezenas de opções.
Pedro Lemos Porto da de trinta do século XX. Presunto de Chaves com ou sem
Bon Bon Carvoeiro Inaugurado em 1931, o restaurante melão, amêijoas premium à Bulhão
Antiqvvm Porto mantém ainda todos os traços ar- Pato, camarão no espeto ou lagosta
William Funchal quitectónicos iniciais, o mobiliário gratinada são algumas opções para
Casa de Chá da Boa Nova e decoração requintada, com gran- entradas. Pescada au Meunier, fi-
Matosinhos des candeeiros em ferro, cadeirões letes de linguado com alcaparras,
Loco Lisboa forrados a couro, jarrões, louças e os bacalhaus (gratinado, à Brás ou
Lab by Sergi Arola Sintra peças de estanho como elementos à Escondidinho) e cataplanas dão
Alma Lisboa decorativos. Um ambiente impeca- testemunho dessa cozinha primo-
velmente cuidado, onde não falta a rosa, enquanto nas carnes desfilam
Restaurantes lareira e, do lado da rua, o peque- o chateaubriand, tornedós, escalo-
que tiveram estrelas no portão em ferro que antecede a pes de vitela com molho de vinho
Tavares Lisboa (2010/2012) porta de entrada e os janelões late- do Porto ou o entrecôte laminado,
Amadeus Almancil (2007/2011) rais, a compor o ar de casarão de não faltando, claro, as tripas à moda
Arcadas da Capela Coimbra província. do Porto.
(2005/2012) Eis a descrição que agora aparece Os pratos andam por volta dos
Ermitage Almancil (1996/2000 no sítio da Internet do restaurante: 20€, mas a carta inclui agora um
os espaços de hotel e restauração. A - 2003) “A sala de jantar, reproduz, na sua “menu gastronómico” por 35€ que
estreia para Portugal surge na edição Tia Alice Fátima (1993/1996) traça, o aconchegado conforto das inclui entrada (caldo verde ou pata-
1936-1938, com a atribuição de estre- A Bolota Elvas (1992/1993) residências do século XVIII, a que niscas de bacalhau), prato (bacalhau
las a cinco restaurantes. Com duas Ramalhão Montemor-o-Velho não falta, sob os tetos apainelados, ou posta à Escondidinho), doçaria
estrelas, o Escondidinho, no Porto, (1991/2001) a pujança ornamental das antigas tradicional, café e vinho da casa.
e Pettermann, Chave d’Ouro e Ave- La Réserve Faro (1990/1995) faianças nacionais e os vistosos lam- Os inspectores da Michelin não
nida, em Lisboa, e Clube Naval, em Conventual Lisboa (1987/1998) bris cerâmicos, imitando a escola hesitaram em atribuir-lhe duas es-
Setúbal, os quatro com uma estrela. Porto de Santa Maria Cascais de Delft, cujos azulejos sobressaem trelas logo à primeira, mas o guia
Com o eclodir da Guerra Civil em (1984/2008) pela extraordinária beleza. O projec- deixou de se publicar nas décadas
Espanha e a II Guerra Mundial que se Casa da Comida Lisboa to de Amoroso Lopes, habilmente seguintes. A cozinha mantém-se e o
lhe seguiu, a publicação do guia para (1983/1985) executado pelos Grandes Armazéns contexto também, mas evoluíram,
Espanha e Portugal foi interrompida Tágide Lisboa (1981/1992) Nascimento, é de notável concepção e muito, os critérios e os conceitos
e só regressou em 1973. Nesse ano Garrafão Matosinhos artística, destacando-se a fachada dos avaliadores.
não foram atribuídas estrelas para (1978/1980)
o nosso país, mas viriam no ano se- Michel Lisboa
guinte para os restaurantes Aviz e (1974/1976 – 1978/1984)
Michel, ambos em Lisboa, O Pipas, Portucale Porto (1974/1980)
em Cascais, e Portucale, no Porto, os O Pipas Cascais (1974/1978)
quatro com uma estrela. Aviz Lisboa (1974/1976)
Desde então, a presença de res- Escondidinho (2*) Porto
taurantes portugueses estrelados (1936/38)
uma extensão das indicações forne- tem sido uma constante. As primei- Pettermann Lisboa (1936/38)
cidas pelo Real Clube Automóvel de ras duas estrelas desta nova época Chave d’Ouro Lisboa (1936/38)
Espanha (que então fornecia as in- pós-guerra surgiram só no limite do Avenida Lisboa (1936/38)
dicações para o guia) sobre os esta- milénio, em 1999, para o Vila Joya, Clube Naval Setúbal (1936/38)
belecimentos da Galiza, já que eram às quais se juntam agora outros qua- Hotel Mesquita VN Famalicão
das únicas referentes a Portugal. tro restaurantes: Ocean, desde 2012, (1929/1935)
Tudo muda, no entanto, a partir Belcanto, desde 2015, e Yeatman e Hotel St.ª Luzia Viana
de 1933, quando o guia passa a ter Il Gallo d’Oro, desde este ano. Foi do Castelo (1929/1935)
inspectores anónimos próprios e também em 2017 que pela primeira
adopta a nomenclatura de uma a vez a lista de restaurantes estrelados
três estrelas com o formato actual e ultrapassou a barreira da dezena e
passa a haver uma separação entre meia e superou a vintena.
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24 | FUGAS | Sábado, 18 de Novembro de 2017

Gastronomia

À volta i
A Mesa Lá de Casa

da mesa
Rua Teixeira de Sousa, 18
Vila Real
Tel.: 960 164 144

Horário: das 12h às 22h

acontecem
(sextas e sábados até às 23h
e domingos até às 18h). Encerra
à segunda-feira

coisas

mudar e sinal disso é a nova dinâ-


Chama-se A Mesa Lá de Casa, fica mica, de que A Mesa Lá de Casa faz
parte, no centro histórico. Depois de
em Vila Real e junta quatro irmãos, anos em que ameaçava mergulhar
no adormecimento, o centro está a
uma prima e a cumplicidade de renascer, com a proibição do trân-
sito automóvel em certas zonas e a
amigos. A comida é importante, abertura de lojas e de restaurantes
(vários na rua do Mesa, a Teixeira
claro, mas há também conversas de Sousa).
Ainda puseram a hipótese de abrir
e livros. Alexandra Prado Coelho perto da universidade mas rapida-
mente concluíram que esta era a
(texto) e Nelson Garrido (fotos) zona certa para o público-alvo que
procuram, pessoas de classe média,
a O nome ocorreu-lhes logo: o res- é servido. Enquanto a nossa mesa ao fundo da sala, com livros trazidos cial com Anabela e os irmãos) está com cultura e um pouco mais de po-
taurante que os quatro irmãos que- se vai enchendo — sopa de cenou- por Anabela, estão lá para que as agora ampliado na parede por trás der de compra que os estudantes.
riam abrir chamar-se-ia A Mesa Lá de ra e laranja, uma tábua de queijos pessoas, se quiserem, possam passar do bar. Outra cúmplice foi Maria Uma das coisas que Anabela notou
Casa. A partir daí foi definir o concei- Flor Transmontana, salada de atum algum tempo a ler enquanto comem João Pinto Coelho, do projecto Adi- nos últimos anos foi que muito mais
to, procurar o local, fazer obras, es- braseado com espinafres frescos e — e isso tem acontecido, sobretudo vinha Quem Vem Jantar, que ajudou gente começou a viajar e a conhecer
colher os produtos, desenhar a carta molho de mostarda e mel, pregos com as crianças, que, garante Mag- a criar a ementa e a formar a equipa outros países, tudo por causa das low
e desde o início de Setembro que A em bolo do caco de uns suculentos da, vão sempre buscar um livro. da cozinha, agora chefiada por Pe- cost a partir do Porto. Isso deixou as
Mesa Lá de Casa é uma realidade, no secretos de porco preto, uma tartine E é um projecto de família, mas dro Alves. pessoas mais abertas a um espaço
centro histórico de Vila Real. de Queijo da Serra com presunto e também de amizades e cumplici- Há uns anos, um projecto com es- como este em que podem sentar-
Os quatro irmãos são a jornalista figos — Anabela explica que a ideia é dades, que incluiu, por exemplo, o tas características teria poucas hipó- se ao lado de desconhecidos numa
Anabela Mota Ribeiro, o irmão Pau- trazer alguns desses produtores da arquitecto Emanuel Bessa Monteiro, teses de sucesso numa cidade con- mesa comprida (a jornalista conta
lo, as irmãs Sofia e Carolina e ainda a região para conversas à volta da me- cujo desenho do espaço (o primeiro servadora como é Vila Real, acredita que no início havia quem dissesse
prima, Magda Lourenço Ribeiro, que sa, uma vez por mês, ao sábado. esboço, feito durante a conversa ini- Anabela. Mas as coisas têm vindo a que isso não iria resultar) ou ir co-
se juntou a eles. O espaço é amplo, Pode ser uma aula para ensinar a mer um brunch ao fim-de-semana
com mesas junto às paredes e uma fazer cupcakes, como foi o primeiro (existem duas ofertas, o simples, a
mesa grande ao centro. É aí que nos sábado temático, ou um workshop 8 euros, e o A Mesa Lá de Casa, mais
sentamos para ouvir Anabela expli- sobre chás com o projecto Gramas completo, com ovo benedict, scones,
car como tudo nasceu e por que é de Chá (cujos chás podem ser bebi- etc., a 12 euros).
que decidiram fazer, em Vila Real, dos e comprados no restaurante), ou E se a oferta à carta é mais descon-
a terra onde nasceram, um projecto sobre o barro preto de Bisalhães, pa- traída e criativa, com diferentes ti-
que em muitas coisas pretende ser trimónio da UNESCO e material de pos de prego, do pojadouro ao atum,
diferente. alguns dos candeeiros d’A Mesa Lá passando pelo vegetariano, e se há
“Desde o início que pensámos que de Casa. Pode haver uma conversa tartines de espargos verdes salteados
queríamos ter uma relação com a com as senhoras que fazem os linhos em manteiga de amendoim e ovos
terra e com os produtos da região de Agarez ou com Graça Saraiva, das escalfados, por exemplo, há também
em que acreditamos e que têm quali- Ervas Finas, ou um workshop em tor- propostas mais tradicionais, com
dade”, diz. “Faz todo o sentido que o no dos deliciosos Doces da Puri, fei- um prato do dia diário (6 euros) e,
pão, as regueifas, o pão de mistura e tos com a fruta de uma quinta em à noite, um prato tradicional trans-
a broa de milho, seja de um produtor Carrazeda de Ansiães. montano (entre os 9 e os 15 euros).
local [a histórica pastelaria Gomes, Tudo isto mostra que A Mesa Lá de Para a despedida, é difícil resistir à
fundada em 1925], o azeite também, Casa quer ser mais do que um local tarte de requeijão feita por Carolina,
os vinhos são todos do Douro.” onde se serve boa comida — quer ser a irmã mais nova desta família que
Esta relação não se esgota no que um espaço de encontro. As estantes, quis partilhar a mesa lá de casa.
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Sábado, 18 de Novembro de 2017 | FUGAS | 25

A cozinha da mãe
por trás de um menu de autor
À frente de um restaurante com estrela Michelin, Tiago Bonito não esquece as suas
origens e transporta-as para o menu a que chamou Identidade. Alexandra Prado Coelho
FOTOS: DR
a Quando Tiago Bonito era peque- pinambor, espuma de champanhe ra trazer um bocadinho a região” —
no, a mãe trazia para casa o leite tira- (a lembrar a tal espuma do mar) e com ostra, agrião e fitoplâncton. Se
do das cabras, acendia a lareira para molho do assado. é verdade que o foie-gras que serve
fazer os seus cozinhados e pousava o A sapateira aparece no prato pa- noutra entrada não é um produto
tacho com o leite ao lado do fogo pa- ra lembrar a alimentação do robalo português, Tiago justifica a presença
ra ele ir coalhando. Era esse queijo, (que é sobretudo caranguejo de cas- na carta pelo facto de ser servido
com um cheiro a fumado, que deli- ca mole, mas esse “não tinha carne com um creme de pistáchios, gel
ciava Tiago ao pequeno-almoço. E suficiente”) e o molho do assado, de pêra e um molho de especiarias
são estas memórias, profundamente sublinha o chef, é feito da forma tra- e cacau. Aqui não se trata de uma
enraizadas, que transporta hoje pa- dicional, com uma redução (durante memória, mas de uma homenagem
ra o seu Menu Identidade, que serve 48 horas) de um assado da cabeça do aos Descobrimentos portugueses e
no restaurante Largo do Paço, na peixe e de legumes caramelizados — aos produtos que nos chegaram
Casa da Calçada, em Amarante (uma “para trazer a comida de conforto, através deles.
estrela Michelin). de casa, aos nossos clientes”. Já no prato de lavagante azul, o
Desenhou o menu a partir preci- Antes do robalo, Tiago já tinha homenageado é o arroz carolino
samente dessa palavra — Identidade. servido (quase literalmente) o mar português trabalhado numa tinta
Com cada letra a corresponder a um à mesa, com uma entrada de vieiras de choco para lhe dar cremosidade
conceito que é importante para ele: com percebes, um tártaro de cara- e evitar a manteiga, com renda de
Criatividade, Produto, Evolução, bineiro e um consomé de lavagante, açafrão, espuma de citrinos, gel de
Inspiração, Conhecimento, Memó- que veio acompanhado por um bú- funcho e caviar.
rias, Dedicação, Sabor, Tradição, zio no qual ouvíamos o som do mar Nos pratos de carne, surge um pa-
Experiência. “Queria uma palavra e das gaivotas — uma ideia que lhe to de Landes com ngocchi de batata,
que identificasse a gastronomia por- surgiu quando “andava a apanhar trufa, beterraba e geleia real. Ape-
tuguesa, o Largo do Paço, mas tam- funcho do mar em Vila do Conde, sar de não ser um pato português,
bém o produto e o chef”, explica. a sentir o cheiro do sargaço e a ou- Tiago fala da tradição portuguesa
Numa conversa com a Fugas de- vir as gaivotas”. “Quis que o prato de comer arroz de pato, e explica
pois da apresentação do seu menu trouxesse essa recordação. Hoje a que, como já servira arroz com o
de estreia na Casa da Calçada (onde cozinha tem que conseguir criar lavagante, optou aqui pela batata.
sucede a André Silva e, se recuar- memórias e despertar memórias Como a mãe, quando cozinhava pa-
mos um pouco mais, a Vítor Matos) antigas.” to, o pincelava com mel, ele usa a
regressa muitas vezes a essas memó- Há também uma entrada de en- geleia real.
rias, transportando-nos para a sua guia fumada — “um peixe do rio, pa- Por fim, antes das sobremesas,
casa de infância e para os cheiros vem o bovino maturado (um animal
e sabores do que a mãe cozinhava com cerca de 10 anos, maturado 35
— como os do arroz doce que, com dias), que enquanto é grelhado é
a ajuda do filho, fazia pela noite Tiago Bonito pincelado com a sua própria gordu-
dentro em tachos de cobre para os e o algodão ra, com chanterelles, alcachofras e
pratinhos usados como convites de doce. Em molho bordalês. “Cheiro a terra —
casamento. A memória do queijo fu- baixo, gelado foi o que anotei no bloco de notas”,
mado, por exemplo, surge no menu de cabra com recorda. Anda sempre com ele e tira
numa das sobremesas, sob a forma beterraba fotos e escreve todas as ideias que
de gelado de leite de cabra fumado, e robalo com lhe passam pela cabeça para traba-
caldo de beterraba, laranja, noz em sapateira lhar mais tarde. Serve aqui um puré
ganache de chocolate e gelatina de de aipo fumado, feito com o aipo
abóbora e cardamomo. deixado em cima das brasas até tor-
Para se dizer que se conhece bem rar por fora. “Cozinha nos seus pró-
o produto não basta receber as en- prios açúcares e depois fazemos um
comendas que chegam à cozinha. puré com o interior, que fica muito
Tiago é pescador e sabe qual o peixe macio e com um sabor a fumo.”
que está melhor nas diferentes al- Voltámos assim ao fumo da larei-
turas. “No mar de Inverno há mais ra da casa de infância de Tiago, an-
ondulação e espuma, por isso o ro- tes de nos despedirmos com uma
balo encosta-se mais a terra, vem sobremesa inspirada nas uvas e no
atrás dos caranguejos, é um peixe vinho do Porto e do Douro, na qual
mais gordo.” Daí que neste menu en- as folhas do Outono, nas suas várias
contremos robalo selvagem acom- cores, parecem ter caído das árvores
panhado por sapateira, puré de tu- para vir pousar no nosso prato.
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26 | FUGAS | Sábado, 18 de Novembro de 2017

Vinhos

Por que Portugal ainda não é um


país de grandes vinhos brancos

NELSON GARRIDO
elemento chave na definição de os vinhos brancos por que razão
Elogio do Vinho um grande branco. Para se ser não são classificados? É como
“grande” é preciso vencer a prova se Montrachet fornecesse uvas
do tempo. Pintores, escritores e a produtores conceituados de
cientistas, por exemplo, chegam a Beaujolais e os vinhos fossem
precisar de séculos para atingir o classificados com a designação
reconhecimento e a fama e serem genérica de vinho da Borgonha.
considerados “grandes”. Nos E depois temos as castas. As
vinhos acontece o mesmo. Não é grandes regiões de vinhos brancos
ao fim de cinco, dez anos ou até fundaram o seu prestígio em torno
Pedro Garcias 20 anos que um produtor pode de castas específicas: Chardonay
aspirar a ter um vinho reconhecido na Borgonha, Sauvignon Blanc no
a No último Elogio do vinho como “grande”, por muito bom Loire (Sancerre e Pouilly-Fumé),
escrevi que Portugal ainda não é que ele seja. Esse estatuto só se Riesling no Mosel e na Alsácia, etc,
um país de grandes vinhos brancos alcança ao fim de muitas décadas, etc. Em Portugal, tirando Bucelas
e que dificilmente algum dia o quando a soma de inúmeras (Arinto), Colares (Malvasia Fina),
será. “Dificilmente” não é nunca, colheitas não deixa dúvidas sobre Dão (Encruzado), Vinhos Verdes
mas, sendo uma visão pessimista, a qualidade e a singularidade do (Alvarinho e Loureiro, sobretudo)
justifico-a, sobretudo, com a vinho. e Douro, ainda andamos a
natureza do nosso clima. Os vinhos Ora, se virmos bem, a experimentar. Na Bairrada, depois
brancos gostam de frio — daí haver esmagadora maioria dos bons de algumas tentativas de afrancesar
tão bons brancos na França, na vinhos brancos portugueses ainda a região, só agora é que a Bical, a
Alemanha, na Áustria e até na tem uma história demasiado curta. Maria Gomes e a Cerceal começam
Suíça, por exemplo — e o clima de Em boa verdade, de marcas que a ganhar solidez. No Alentejo, as
Portugal é tudo menos frio. continuam no mercado, só os castas principais, a Antão Vaz e a
Esta tese não é pacífica. Ainda brancos do Bussaco (feitos com Roupeiro, estão a perder terreno
bem. Nas redes sociais, houve uvas do Dão e da Bairrada) e os para outras variedades nacionais
quem reagisse assim: “Acho que Porta dos Cavaleiros e Frei João, e estrangeiras. Em Lisboa, região
os [nossos] brancos nunca foram das Caves de São João, já venceram com grande potencial para
tão bons. (…) Se em 20 anos já a prova do tempo. Destes, ainda brancos, ainda é pior. Como a
atingimos este nível, imaginem podemos encontrar garrafas região é “nova”, podia fazer tudo
onde poderemos chegar com extraordinárias com 40, 50 ou bem feito — mas “bem feito” parece
algumas centenas de anos de produzimos mais tinto é porque clima é claramente mediterrânica. mais anos. Quando queremos ser introduzir castas francesas,
desenvolvimento?” (Paulo os nossos solos e o nosso clima Não é por acaso que os Vinhos surpreender alguém, é nestes quando seria possível construir
Pimenta). Ou: “Há quem esteja são mais favoráveis aos tintos. Verdes e algumas bolsas da zona de vinhos velhos que pensamos. uma identidade e um perfil em
numa situação pior e infelizmente Os nossos hábitos de consumo Lisboa mais influenciadas pelo mar Vinhos com história e com um torno de castas já com história na
trata-se da minha Itália. Eu acho são sempre determinados pela são as regiões de maior tradição perfil bem definido. região, como a Vital, por exemplo.
que Portugal tem mais potencial geografia. em vinhos brancos. Em França, há muitos brancos Um dos melhores vinhos brancos
nos brancos do que nos tintos” Claro que dizer de forma taxativa No entanto, hoje temos assim, com uma reputação de Lisboa, o António, do Casal
(Giorgetti FW Giorgetti). Ou: que Portugal tem um clima quente belíssimos vinhos brancos em construída ao longo de décadas Figueira, é feito com esta casta.
“Não se confunda clima com pode ser exagerado. Mas, tirando qualquer região do país. Só no e até de séculos e baseada no Exemplo flagrante da falta de
meteorologia. Habitamos numa a faixa litoral, a natureza do nosso Alentejo e no Douro, podíamos conceito de terroir, no estudo organização e rumo no vinho
latitude temperada. Tal como desfiar um rol imenso. Com aprofundado dos solos e na português é o arquipélago dos
o Professor Orlando Ribeiro tecnologia e água na vinha será supremacia da vinha face à adega. Açores, onde há quem esteja
escreveu, somos um país atlântico sempre possível fazer vinho Os lugares e as castas são o selo de a fazer vinho de Chardonnay
com influência mediterrânica branco. Até no deserto. Mas os garantia dos vinhos. Cada vinha e Sauvignon Blanc, quando
evidente” (Afonso Fernandes grandes vinhos brancos serão está devidamente estudada e há nas ilhas três castas locais
Marques). Ou: “E há quantos anos sempre excepções em regiões classificada em função do subsolo, extraordinárias: Verdelho, Arinto
(ou gerações) andam eles [os
franceses] nisto? (…) Por cá, como Em Portugal como o Douro ou o Alentejo e
estarão confinadas às suas zonas
solo, altitude, exposição, influência
dos ventos, etc. Em Portugal,
e Terrantez. Mas o exemplo
ainda mais eloquente do nosso
sabemos, fora no Douro e no vinho
do Porto, há poucas famílias que nunca mais altas frescas.
Podemos tentar contrariar
pouco ou nada está estudado e vale
quase tudo. Há umas delimitações
“problema” está nos Vinhos
Verdes, onde se fazem alguns
tenham tradições antigas no vinho. a natureza, mas esta acabará gerais e dentro delas cada um faz o dos melhores e dos piores vinhos
E já não falo em seculares, como houve uma sempre por vencer. A vida de um que quer. No Douro, por exemplo, brancos do país. Quais são as
os Hugel da Alsácia, por exemplo” vinho encarrega-se de colocar os melhores vinhos brancos são grandes marcas das duas maiores
( João Paulo Martins).
Juntos, estes quatro comentários
verdadeira isso em evidência. Em condições
normais, um branco muito bom
feitos por produtores instalados
à beira do rio que vão comprar
empresas da região, a Sogrape
e a Aveleda? O Gazela e o Casal
dizem quase tudo. Em Portugal,
nunca houve uma verdadeira
cultura de de uma região quente vai durar
menos tempo do que um branco
uvas nas terras mais altas, como
Murça ou Carrazeda de Ansiães.
Garcia. Isto diz tudo. É assim
que queremos ser reconhecidos
cultura de vinho branco. Por
alguma razão. Se consumimos e
vinho branco de qualidade semelhante de uma
região fria. Ora, “tempo” é o
Não há nada de mal, mas se esses
são os melhores terrenos para
com um país de grandes vinhos
brancos?
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Sábado, 18 de Novembro de 2017 | FUGAS | 27

Os vinhos aqui apresentados são, na sua maioria, novidades que chegaram recentemente
ao mercado. A Fugas recebeu amostras dos produtores e provou-as de acordo com os
seus critérios editoriais. As amostras podem ser enviadas para a seguinte morada:
Fugas - Vinhos em Prova, Praça Coronel Pacheco, n.º 2, 3.º 4050-453 Porto

55 a 70 71 a 85 86 a 94 95 a 100

89 Um tinto 88 87
Zafirah Tinto 2016
Monção
de Monção Olho de Mocho Reserva
Branco 2016
Frei João Branco 2016
Caves S. João
Castas: Alvarelhão, Pedral,
Vinhão e Borraçal
à moda de Herdade do Rocim
Vidigueira
Anadia
Castas: Maria Gomes, Arinto e
Graduação: 10,5% vol
Região: sub-região Monção e antigamente Castas: Antão Vaz
Graduação: 13% vol
Chardonay
Graduação: 12,5% vol
Melgaço Região: Alentejo Região: Bairrada
Preço: 8€ Preço: 12€ Preço: 3,80€

a Quem gosta de vinhos diferen- Branco com fruta madura Um rótulo que é um ícone
tes, alternativos, vinhos ditos com (cítrica e de polpa branca) e dos vinhos nacionais e surge
arestas, pouco limpos até, vinhos discreto toque fumado. Tem agora renovado, com toques
“sãozinhos” como a vinha os deu, uma textura sedosa e a fruta de modernidade mas sem
minguados de álcool e fresquíssi- é muito saborosa. A barrica concessões ao estilo clássico
mos, para beber sem contenção, parece ter sido usada como e austero de sempre. Uma
tem que conhecer este Zafirah. É o um apontamento ligeiro só metáfora, afinal, quase perfeita
primeiro tinto produzido por Cons- com o objectivo de complexar para o que encontramos dentro
tantino Ramos, enólogo que trabalha um pouco o vinho. A meio da da garrafa. Um vinho que, sendo
com Anselmo Mendes. boca, parece algo estreito, leve, fresco e aromático, nos
Lote de Alvarelhão, Pedral, Vinhão mas termina bem, com sabor enche também a boca com
e Borraçal, tem origem numa vinha pronunciado e acidez bem equilíbrio, sabor, persistência e,
de latada já velha, igual a tantas ou- proporcionada. Um branco até, alguma intensidade. Grande
tras que ainda subsistem nos cam- muito agradável e harmonioso. amplitude à mesa, prazer
pos húmidos do Minho. É um vinho P.G. garantido e quase imbatível na
que tenta emular os antigos tintos de relação entre preço e qualidade.
Monção, já descritos no foral atribu- J.A.M.
ído a esta vila por Afonso III em 1261.
Os primeiros a interessarem-se por
estes vinhos abertos de cor foram os
Proposta ingleses, ainda antes de se perderem
da semana de amores pelos vinhos do Douro.
De perfil antigo, são, no entanto,
vinhos muito modernos e com ca- 84 89
da vez mais apreciadores em todo o
mundo, em especial nos mercados
mais evoluídos. Na Galiza, este re- Selecção de Enófilos Aventura Branco 2016
gresso aos vinhos de antigamente, Branco 2016 Vinho Regional Alentejano
feitos com castas que foram fican- Quinta da Alorna (engarrafado Susana Esteban
do esquecidas e mal-amadas, está para o Intermarché) Mora
na moda e já envolve uma grande Almeirim Graduação: 12,5% vol
número de produtores. Nos Vinhos Castas: Fernão Pires e Moscatel Região: Alentejo
Verdes, o fenómeno ainda é muito Graúdo Preço: 9€
recente. Graduação: 12,5% vol
É uma nova forma de encarar o Região: Alentejo Lote de apenas 6000 garrafas
vinho tinto numa região dominada Preço: 1,99€ a partir de uvas de vinha velha
pelo vinho branco. Provámos este na serra de São Mamede, que
Zafirah pela primeira vez num almo- Não há muitos segredos neste destacam o carácter mineral
ço de rojões à moda do Minho com vinho. Ou melhor: o seu segredo e a complexidade do vinho.
arroz de cabidela, no restaurante Bo- está no aroma, de grande Há aromas da serra, sabores
cados, em Ponte de Lima (magnífico, exuberância, com muitas notas concentrados de fruta amarela
por sinal), e foi uma bela surpresa. florais e de fruta tropical, e madura, mas domina a frescura
Como é fresquíssimo e seivoso, ca- numa prova muito crispy. Até quase ácida e um final seco e
sou bem com a comida. No aroma, parece ter um ligeiro gás, tal tenso que cativa como principal
cheio de fruta vermelha muito viva, é a sua vivacidade. Sendo um virtude. É, por isso, um vinho
tem parecenças com o tradicional vi- vinho de uma grande cadeia de gastronómico, com alma, corpo
nho “morangueiro”, mas na boca a supermercados, percebe-se o e o carácter rude do lugar que o
sensação do morango desaparece e estilo. Continua a haver muitos fez, que é servido com apelativa
o que prevalece é o sabor primordial consumidores para este tipo de envolvência aromática com a
do vinho pouco maduro mas — e isso vinho. P.G. marca do trabalho de enologia
é que impressiona — sem a rusticida- de Susana Esteban. J.A.M.
de dos vinhos tintos minhotos feitos
à base de Vinhão. Uma graciosidade
(que será o significado de Zafirah).
Pedro Garcias
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28 | FUGAS | Sábado, 18 de Novembro de 2017

Motores

+
FOTOS: DR

O McLaren 720S
foi escolhido
como o Carro
de Sonho 31 modelos na corrida
pelo título de Carro
do Ano em Portugal
Há 31 modelos a disputar o
Essilor Carro do Ano / Troféu
Volante de Cristal 2018, número
que confirma o “bom momento”
vivido pelo sector.
Depois de uma travessia
no deserto, com a indústria
automóvel a refectir a crise, o
número de carros matriculados
ao longo de 2016 animou o
sector e, este ano, tudo indica
que o cenário positivo se repita:
até Outubro de 2017, foram
matriculados 187.450 veículos
ligeiros de passageiros, o que
representa um crescimento de
7,8% face ao período homólogo
de 2016. Perante estes números,
torna-se mais fácil perceber o
crescimento de inscritos para
Carro do Ano, que duplicou
desde o ano passado.
O Essilor Carro do Ano 2018/
Troféu Volante de Cristal tem
como objectivo escolher
os melhores automóveis do
mercado português, apoiando-
se nas avaliações de um painel
composto por jornalistas
automóveis em representação
de quase uma vintena de

E os óscares das jornalistas órgãos de comunicação


social, PÚBLICO incluído. Em
análise, parâmetros como

de automóveis vão para...


estética, performances,
segurança, fiabilidade, preço e
sustentabilidade ambiental.
Além do galardão Carro do Ano,
há prémios a atribuir entre seis
classes: Citadino (Kia Picanto,
e necessidades femininos que, de tendo em conta os veículos novos Nissan Micra, Seat Ibiza, Suzuki
Carla B. Ribeiro acordo com estudos da indústria, conduzidos entre Outubro e Setem- Swift, Volkswagen Polo),
“diferem daquilo que um homem bro anteriores que se comercializem Desportivo (Audi RS3, Honda
a “Seguro, confiável, amigo do am- procura num carro”. em pelo menos dez mercados. Este Civic Type R , Hyundai i30 N,
biente e extremamente feminino.” Além de ter recebido o troféu de ano, a lista de nomeados chegou aos Kia Stinger, Mazda MX-5 RF,
O Hyundai Ioniq, cuja gama inclui Carro do Ano, o Ioniq conquistou a 420 modelos, tendo ficado reduzida Volkswagen Golf GTI), Ecológico
versões elétrica (EV), híbrida (Hy- categoria de Carro Verde, em que a 60 finalistas. A partir daí, o painel (Hyundai Ioniq Electric, Hyundai
brid) e plug-in (PHEV), foi conside- concorriam pesos-pesados como o pontuou os cinco carros preferidos Ioniq Plug-In , Kia Niro PHEV),
rado o melhor entre os melhores Toyota Prius e Kia Niro. Outros ven- em cada categoria. Executivo (Audi A5, BMW 520
nos Women’s World Car of the Year cedores foram o Mazda CX5 (Fami- A votação é secreta e gerida pela D, Opel Insignia, Volkswagen
(WWCoty), prémio mundial em que liar), Ford Fiesta (Económico), Peu- empresa de auditoria Grant Thorn- Arteon), Familiar (Hyundai
os veículos são avaliados exclusiva- geot 3008 (SUV/Crossover), BMW ton (GT) em Auckland, Nova Zelân- i30 SW, Honda Civic) e SUV/
mente por mulheres especializadas Série 5 (Luxo) e Honda Civic Type dia. De acordo com o sócio sénior Crossover (Audi Q5, Citroën
em jornalismo automóvel. R (Performance). da GT, Paul Kane, os resultados nem C3 Aircross, Hyundai Kauai,
“Uma mulher escolhe um carro, Numa votação paralela, em que sempre são previsíveis. “É sempre Kia Stonic, Mazda CX 5, Opel
primeiro de tudo, pela segurança foi pedido às juradas que indicassem uma luta muito renhida. No entanto, Crossland X, Peugeot 5008,
e, a seguir, pela relação qualidade/ o carro dos seus sonhos, o potente este ano, houve dois carros que se Seat Arona, Škoda Kodiaq,
preço; (...) só depois vem a concre-
tização de uma fantasia”, explica
McLaren 720S, cujos 720 cv permi-
tem uma aceleração dos 0 aos 100
i destacaram nas suas classes, não dei-
xando qualquer margem para dúvi-
Volkswagen T-Roc, Volvo XC60).
O período de testes dinâmicos
a jornalista neozelandesa Sandy km/h em 2,9 segundos, destacou- das: o Ford Fiesta e o BMW Série 5.” desta iniciativa, promovida pelo
Myhre, fundadora dos WWCoty e se entre uma listagem que incluía Hyundai Ioniq Ainda em destaque esteve a Mazda semanário Expresso e pelo canal
que preside, desde 2008, ao painel portentos como Aston Martin Ra- O carro sul-coreano, pelo facto de “ter conseguido três televisivo SIC/SIC Notícias,
que reúne hoje 25 jornalistas de 20 pide S, Maserati Levante e Ferrari proposto em versões carros nomeados [e um, o CX5, em estende-se até 15 de Janeiro.
países, Portugal incluído. Por essa Portofino. elétrica, híbrida e plug-in, duas classes] e ter obtido uma ele- Os sete finalistas deverão ser
razão, os critérios de avaliação dos Os WWCoty arrancam a partir das conquistou os prémios vada pontuação com qualquer um conhecidos ainda durante o
WWCoty têm em conta os gostos indicações de cada uma das juradas, Supremo e Verde deles”, adiantou Myhre. primeiro mês do ano. C.B.R.
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Portas da Luz
Tinto 2016

Produtor
Casa Santos Lima

Prémios
• Medalha de Ouro
• Melhor Vinho Português
Citadelles du Vin
Concurso francês

Tipo
Vinho Tinto

Colheita
2016

Região

+8,50€
Algarve

Castas
Touriga Nacional

HOJE e Syrah

COM O PÚBLICO
Teor alcoólico
14 %

Acompanha bem com


tábua de queijos,
carnes vermelhas MELHOR VINHO
PORTUGUÊS
ou carnes de caça

Em Banca: Beyra Reserva Tinto 2015 . 7,49€ | Morgado de Sta. Catherina Branco 2015 . 8,99€ | 18 Nov Portas da Luz Tinto 2016 . 8,50€
25 Nov Herdade de São Miguel Alicante Bouschet 2015 . 10€ | 02 Dez Maquia Tinto 2014 . 12€ | 09 Dez Tyto alba Touriga Nacional 2014 . 10,90€
16 Dez Herdade Grande Tinto Gerações 2013 . 12€ | 23 Dez Caçada Real Branco 2016 . 6€
Colecção de 8 vinhos. PVP unit.: variável. Preço total da colecção: 75,88€. Periodicidade semanal ao Sábado. De 4 de Novembro a 23 de Dezembro de 2017. Limitado ao stock existente. É proibida a venda de álcool a menores de 16 anos. Seja responsável, beba com moderação.
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30 | FUGAS | Sábado, 18 de Novembro de 2017

The Couch Sports Bar

+
FOTOS: NUNO FERREIRA SANTOS
panha, onde buscaram a inspiração
para criar “uma coisa à portuguesa”.
Naquela tarde de domingo, dois
sportinguistas equipados a rigor de-
nunciavam que era dia de jogo. Mas Aqui não é só o futebol que
só mais tarde se saberia que acabaria é rei. Há espaço para todos os
por não correr assim tão bem (empate desportos, do boxe ao xadrez
a duas bolas com o Braga). Mas, ainda


que a conversa passe sempre pelo fu-
tebol, cabem lá todas as modalidades,
garante Francisco Moura Guedes. Por
exemplo, o mais-que-esperado com-
bate, que, em Agosto, opôs os boxeurs O barulho e a quantidade de
Conor McGregor e Floyd Mayweather, ecrãs ligados ao mesmo tempo
encheu-lhes a casa que tinham aber- podem ser desorientadores
to há pouco mais de uma semana.
“Eram 5h da manhã e tínhamos fila.
Foi uma loucura”, recorda. aconteceu, conta Francisco, com um
“Conseguimos conciliar o melhor combate de kickboxing de um atleta
de dois mundos: o sports bar típico do ginásio Kolmachine, de Lisboa,
americano, com televisões que nun- que ia combater na Holanda, e que
ca mais acabam, com aquilo que é a reuniu cerca de 60 pessoas na sala
realidade portuguesa. Faz sentido ter- Grant’s do The Couch, que pode ser
mos um espaço cheio de néones em reservada para grupos. O mesmo nu-
que só vendemos hambúrgueres?”, ma despedida de solteiro que reuniu,
questiona. Não, responde. Por isso, no bar, 18 ingleses que queriam ver
mantiveram-se as portas em madeira um jogo da segunda divisão da liga
que foram aproveitadas da antiga loja inglesa. E viram.
de discos Trem Azul e acrescentaram- “Pode vir aqui sozinho ou pode vir

Quem dá o apito inicial se bancos altos em madeira, outros


em couro, o balcão de mármore e as
paredes escuras.
um grupo de vinte pessoas”, diz Fran-
cisco. Para almoçar, beber um copo
ou jantar fora de horas.

são os treinadores de sofá


Quiseram inovar com “ecrãs à séria, A carta, da autoria do chef Tiago
ecrãs de dois metros e meio”. Destes, Catalão, vai desde os petiscos típi-
têm dois que são quase do tamanho cos como as chicken wings (asinhas
da parede. Para quem consegue es- de frango) com maionese picante (6
tar sentado, há quase 100 lugares. E euros) ou as ribs (costelas a 14 euros)
quem quiser estar concentrado em — a América tinha que lá estar — até ao
Cristiana Faria Moreira determinada partida, pode fazê-lo tradicional pica-pau (11 euros). Nas en-
através da rede de wi-fi, com os he- tradas, há ainda ovos rotos com quei-
a São três da tarde de domingo quan- adphones e o telemóvel, e ouvir o jo, salame, cebola, maionese e ervas
do entramos no The Couch Bar. Bem canal que quiser, sem ter que levar frescas (8 euros) e croquetes (2,50
composto àquela hora da tarde, per- com o burburinho de tantas paixões euros). Isto se falarmos em comida
demo-nos entre ecrãs que passam, a revelar-se em simultâneo. para partilhar. Depois há sanduíches
maioritariamente, futebol de diferen- Entre os clientes, Francisco Moura de barriga de porco desfiada (10,50
tes ligas. Mas, ali, no recente bar do Guedes diz que a posse de bola está euros) ou salmão com guacamole e
Cais do Sodré, em Lisboa, a táctica é 50-50 entre portugueses e estrangei- ovo escalfado (8,50 euros). Para so-
passar o que o cliente quiser. Afinal, ros. “Os portugueses não gostam tan- bremesa há, por exemplo, uma fatia
há 32 ecrãs, mais de 3000 canais. A to de desporto; gostam do seu clube”, de cheesecake (6 euros).
partir daqui, é só escolher. Quem o diz nota. Explica que as pessoas podem A bebida está a cargo de Nuno Fer-
é Francisco Moura Guedes que, com simplesmente ligar e escolher entre a reira (que já passou pelo pub The Ge-
Tomás Crespo, José Nuno Gaspar e lista dos canais de que o The Couch orge), que criou uma carta de doze
Francisco Alves de Sá querem fazer dispõe, mesmo que seja um pay-per- cocktails, todos inspirados em gran-
daqueles 300 metros quadrados no view (em que é preciso pagar para des atletas. O antigo tenista norte-
21 da Rua do Alecrim a meca do des- assistir a determinados eventos). Já americano Joe McEnroe dá nome a
porto na cidade. um cocktail de whisky fumado com
A ideia de Tomás Crespo, o geren- pêssegos macerados (8 euros). Babe
te, surgiu há cinco anos. Culpa da
burocracia, necessária para abrir o
i Ruth, o histórico jogador de basebol,
baptiza uma bebida que mistura o
espaço que entrou em obras há ano e Mezcal com a canela (8 euros). Já a
meio, só conseguiram abrir portas em The Couch Sports Bar “lenda” do futebol brasileiro Pelé é
Agosto. Metade é do Benfica, metade Rua do Alecrim, 21A, Lisboa um “detox” à base de sumo de be-
é do Sporting. Têm “grandes discus- Tel.: +351 218 068 854/+351 939 terraba (8 euros). O vencedor deste
sões” no que toca aos clubes, mas em 319 283 campeonato, diz Francisco, é o The
relação ao The Couch não houve di- E-mail:info@thecouch.pt Couch Mojito (7 euros). Depois há cer-
ferendos que não fossem resolvidos. www.thecouch.pt veja, claro, entre os 2 e os 5,50 euros.
Não é um pub nem uma cervejaria, www.facebook.com/ Para já, têm pedidos de reserva
mas há cerveja. Não é um café, mas há thecouchsportsbar/ para assistir à Super Bowl, o jogo do
petiscos. É um sports bar, como quem campeonato da National Football Lea-
diz, um bar dedicado ao desporto. Horário: Aberto todos os dias. gue, a principal liga de futebol ameri-
“Faltava um espaço assim” na cida- De segunda a quinta, das 12h às cano dos Estados Unidos, que decide
de, diz Francisco, depois de os quatro 2h. Sexta, das 12h às 3h. Sábado o campeão da temporada. Que se re-
sócios terem viajado por Inglaterra, das 11h às 3h. Domingo, das 11h aliza apenas em … Fevereiro. Até lá,
Estados Unidos, América do Sul e Es- às 2h. bons shots. Seja lá de quais forem.
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Sábado, 18 de Novembro de 2017 | FUGAS | 31

O gato das botas

Ressuscite-se imediatamente o prazer primordial


da sanduíche de pão com manteiga
— e mais nada

sanduíche é que seja deliciosa O pão é estaladiço e fofo, a maioria que se encontra até
sem pesar no estômago. É por manteiga é grossa e salgadinha: em pastelarias decentes é
isso que impera a regra do pão que mais se pode pedir? Outra um pão de forma adulterado,
com manteiga. Esta diz que se o arte portuguesa é saber calcar a cheio de açúcar, óleo vegetal e
pão for muito bom e a manteiga carcaça até ficar no ponto certo conservantes. É muito bonito e
for muito boa então a sanduíche
não precisa de mais nada.
de dentição. Quando era criança
gostava de me sentar em cima Para as faz umas torradas grossas que
ensopam manteiga mas, para

Miguel Esteves Cardoso


Em Portugal este princípio
também se aplica. Ainda hoje,
do papo seco, para aumentar-
lhe o tamanho, numa espécie de sanduíches fazer sanduíches fininhas, é um
desastre.
em qualquer pastelaria, a prenúncio da pizza fria. É nas padarias que fazem boas
a Quando estou mal disposto merenda mais barata é o pão com Para as sanduíches do lanche do lanche, carcaças que encontrará um bom
vou ler The Importance of Being manteiga. Quando eu era criança é esta a condição principal: a pão de forma, de preferência
Earnest e é uma questão de
minutos antes de Oscar Wilde me
só excepcionalmente é que se
acrescentava queijo ou fiambre.
bondade do pão e de manteiga.
Dito isto, o pão que mais se
o melhor em forma de paralelipípedo.
O melhor pão de forma que
devolver à soalheirice.
Uma das coisas que me faz
Experimente-se uma boa
carcaça, cozida em forno de
presta é o nosso formidável pão
de forma. O pior é que é difícil de
pão é o nosso conheço é vendido no Estoril, na
Pastelaria Garrett. Custa à volta
rir é a saga das sanduíches de
pepino, seguida da odisseia
lenha, com uma boa manteiga,
aplicada exactamente conforme o
encontrar um bom pão de forma
que só contenha farinha, sal,
formidável de 4 euros mas é enorme, guarda-
se bem (fora do frigorífico, num
das sanduíches de pão com
manteiga, bread and butter.
gosto pessoal, com a mão mais ou
menos pesada.
fermento e água.
Infelizmente, a grande
pão de forma saco de pano) e permite um
corte fininho. Se for para fazer
Ambas desaparecem nada NELSON GARRIDO
torradas, peça que o fatiem na
misteriosamente, por força de cozinha: é o tamanho ideal, que
serem irresistíveis. a própria Garrett serve nas suas
É preciso regressar à sanduíche salas.
de pão com manteiga para Felizmente há em Portugal
perceber a lógica sanduicheira uma grande escolha de boas (e
do afternoon tea. O Outono tardio baratas) manteigas, a começar
é uma excelente altura para pelas várias francesas e a passar
recuperar este delicioso vício. pela irlandesa, dinamarquesa e
A primeira coisa a lembrar alemã. É raro encontrar uma má
é que as sanduíches do lanche manteiga mas as portuguesas
não se destinam a encher a são injustamente preteridas,
mula. Pelo contrário, devem ser com a excepção das maravilhas
suficientemente leves para não açorianas, amarelas-profundas e
estragar o apetite para o jantar. cremosas.
Aqui, como em todas as Uma manteiga
discussões britânicas, há uma consistentemente subtil e
questão de classe social que saborosa é a Primor, sobretudo
ainda não foi convincentemente a meio sal. Existe desde os
superada. anos 1940 e já foi a manteiga
A classe ociosa privilegiada mais cobiçada do país. Apesar
que é retratada por Wilde não é, de eu não saber de onde vem
por definição, tão faminta como a manteiga (será holandesa
os dois personagens masculinos. ou talvez dinamarquesa?), ela
às quatro da tarde já se fez a é sempre muito boa, com um
digestão do almoço mas não se gosto delicado que deixa brilhar
tem propriamente fome. Daí o pão e, eventualmente, outros
que as sanduíches se queiram ingredientes.
fininhas, ligeiras e muito pouco Estes devem acrescentar-
alimentícias. se com siso, para não estragar
Isto, claro está, é para a harmonia do pão com a
contrastar com os pobres manteiga: pepino, ovo cozido,
trabalhadores que, por causa fiambre com mostarda, peito de
da extenuante labuta a que não galinha, agrião, salmão cozido
podem ser poupados, requerem (ou fumado) ou rosbife.
uma alimentação fortemente Se desaparecer a magia do
calórica, para que não lhes falte pão com manteiga tire o recheio
a energia para providenciar e coma-o mais tarde noutro
constantemente o conforto das contexto: como sandes, por
classes indolentes. exemplo, feita para segurar com
Aquilo que se quer numa as duas mãos.
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