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INTRODUÇÃO À PSICOLOGIA – TEXTO 5

BIOLOGIA E O COMPORTAMENTO HUMANO

Quase todos os textos de Psicologia geral começam com capítulos relacionados à biologia
do comportamento humano, e este também. Isto não se deve somente à convenção ou à
conveniência, mas ao fato de que processos biológicos ou fisiológicos formam a base de todos os
comportamentos. Cada uma das outras subáreas da Psicologia incluídas neste livro repousa sobre
essa base biológica. O ramo da pesquisa psicológica que estuda esses processos é chamado
Psicologia fisiológica, e focaliza a interação de seu cérebro e sistema nervoso, os processos de
receber estimulação e informação do ambiente ao seu redor, através de seus sentidos, e as maneiras
pelas quais seu cérebro organiza todas essas informações para criar suas percepções do mundo.
Os estudos escolhidos para representar este componente básico da pesquisa psicológica
incluem uma ampla gama de pesquisa e estão claramente entre os mais influentes e mais
freqüentemente citados. O primeiro estudo discute um famoso programa de pesquisa sobre a
especialização cérebro-direito / cérebro-esquerdo, que deu forma a muito do nosso conhecimento
atual sobre como o cérebro funciona. A seguir vem um estudo que surpreendeu a comunidade
científica ao demonstrar como uma ''infância'' estimuladora pode produzir um cérebro mais
altamente desenvolvido. O terceiro estudo nos leva a uma cultura distante para revelar como
nossas percepções do mundo ao nosso redor são modeladas por uma vida de estimulação sensorial
específica. E o quarto é a invenção do famoso método do precipício visual (visual "cliff") para
estudar as habilidades do bebê de perceber profundidade. Todos esses estudos, e os dois últimos
em particular, também abordam a questão que subjaz e conecta praticamente todas as áreas da
Psicologia e fornecem elementos para um debate sempre atual e fascinante: a controvérsia inato-
aprendido.

UM CÉREBRO OU DOIS?

Gazzaniga, M.S. (1967). The split brain in man. Scientific American, 217, 24-29.
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Você provavelmente está ciente de que as duas metades de seu cérebro não são a mesma e que elas
desempenham diferentes funções. Por um lado, o lado esquerdo de seu cérebro é responsável pelos
movimentos do lado direito de seu corpo, e vice-versa. Mas além disso, também, os dois
hemisférios cerebrais parecem ter habilidades ainda mais especializadas.
Tem se tornado conhecimento comum que, para a maioria de nós, o cérebro esquerdo
controla a habilidade de usar a linguagem, enquanto o cérebro direito está mais envolvido em
relações espaciais, tais como as requeridas para atividades artísticas. É bem sabido que vítimas de
acidentes vasculares e de acidentes automobilísticos, que sofrem danos do lado esquerdo do
cérebro, geralmente perdem sua habilidade de falar (esta habilidade freqüentemente retorna com
prática e treino). Muitas pessoas acreditam que cada metade ou ''hemisfério'' de seu cérebro pode
ser, de fato, um sistema mental completamente separado, com habilidades próprias para aprender,
lembrar, perceber o mundo, e mesmo, sentir emoções.
Estas idéias têm se tornado extremamente populares, como evidenciado pelos altos índices
de vendagem de livros como Desenhando com o lado direito de seu cérebro. Mas os conceitos
subjacentes a esta crença popular são o resultado de muitos anos de pesquisa científica rigorosa
sobre os efeitos de se separar o cérebro em dois: sobre a especialização hemisférica.
A pesquisa nessa área foi iniciada por R.W.Sperry (1913-1994), aproximadamente 15 anos
antes da publicação do artigo examinado neste capítulo. Em seu trabalho inicial com sujeitos
animais, Sperry fez várias descobertas surpreendentes. Considere, por exemplo, um gato que tenha
sofrido uma cirurgia para separar a conexão entre as duas metades de seu cérebro e alterar seu
nervo ótico, de modo que seu olho esquerdo transmitisse informação somente ao hemisfério
esquerdo e o olho direito somente ao hemisfério direito. Depois da cirurgia o gato parecia se
comportar normalmente e praticamente não exibia sinais de doença. Então, o olho direito do gato
foi coberto e ele aprendeu um novo comportamento, como percorrer um labirinto para encontrar
alimento. Depois que ele se tornou hábil em percorrer o labirinto, o olho coberto passou a ser o
esquerdo. Agora, quando o gato era colocado no labirinto, seu cérebro esquerdo não tinha a menor
idéia sobre onde virar e o animal teve que reaprender todo o labirinto, desde o início.
Sperry conduziu muitos estudos relacionados a esse problema ao longo dos 30 anos
seguintes e recebeu o Prêmio Nobel por seu trabalho sobre as habilidades especializadas das duas
metades do cérebro. Quando esse empreendimento de pesquisa se voltou para seres humanos, no
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início dos anos 60, ele passou a receber a colaboração de Michael Gazzaniga. Embora Sperry seja
considerado o fundador da pesquisa sobre a especialização do cérebro, o artigo de Gazzaniga foi
escolhido aqui porque ele representa um resumo claro e conciso do trabalho inicial de colaboração
com sujeitos humanos e é consistentemente citado em praticamente todos os textos de Psicologia
geral. Sua seleção não pretendeu, de modo algum, desconsiderar a liderança de Sperry no campo,
nem subestimar suas grandes contribuições.
Para compreender a pesquisa sobre separação do cérebro é necessário um certo
conhecimento de Fisiologia. Os dois hemisférios de seu cérebro estão em constante comunicação
entre si por meio do corpo caloso, uma estrutura constituída de aproximadamente 200 milhões de
fibras nervosas. Se seu corpo caloso for seccionado, sua maior linha de comunicação é
interrompida e as duas metades de seu cérebro passam a funcionar independentemente. Assim, se
queremos estudar cada metade de seu cérebro separadamente, tudo o que temos a fazer é separar
cirurgicamente seu corpo caloso.
Mas os cientistas podem separar o cérebro de seres humanos? Isto soa como uma
Psicologia à la Dr. Frankenstein! Obviamente a ética de pesquisa jamais permitiria métodos tão
dramáticos apenas para o propósito de se estudar as habilidades especializadas dos dois hemisférios
cerebrais. Entretanto, no final dos anos 50 o campo da medicina forneceu aos psicólogos uma
oportunidade de ouro. Foi descoberto que em algumas pessoas com casos muito raros e extremos
de epilepsia incontrolável, as convulsões podiam ser praticamente eliminadas pela separação
cirúrgica do corpo caloso. Esta cirurgia era (e ainda é) extremamente bem sucedida como um
último recurso para aqueles pacientes que não podem contar com outro tipo de ajuda. Quando este
artigo foi escrito, em 1966, haviam sido feitas 10 operações deste tipo e quatro dos pacientes
tinham concordado em participar de exames e testes conduzidos por Sperry e Gazzaniga para
determinar como suas habilidades perceptuais e intelectuais foram afetadas como resultado deste
tratamento cirúrgico.

PROPOSIÇÕES TEÓRICAS

Os pesquisadores queriam explorar em que medida as duas metades do cérebro humano são
capazes de funcionar independentemente e se elas têm funções singulares e separadas. Se a
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informação que circula entre as duas metades de seu cérebro é interrompida, o lado direito de seu
corpo se tornaria subitamente incapaz de se coordenar com o esquerdo? Se a linguagem é
coordenada pelo lado esquerdo do cérebro, como sua habilidade de falar e compreender palavras
seria afetada por esta cirurgia? Os processos de pensamento e raciocínio existiriam em ambas as
metades separadamente? Se o cérebro é, na verdade, dois cérebros separados, uma pessoa seria
capaz de funcionar normalmente quando estes dois cérebros não são mais capazes de se comunicar?
Dado que recebemos impulsos sensoriais tanto da esquerda quando da direita, como seriam
afetados os sentidos da visão, audição e tato? Sperry e Gazzaniga tentaram responder estas e
muitas outras questões em seus estudos com indivíduos com cérebros separados.

MÉTODO

Havia três tipos diferentes de testes desenvolvidos para explorar uma ampla gama de habilidades
mentais (cognitivas) dos pacientes. Um deles foi desenvolvido para examinar as habilidades
visuais. Foi elaborada uma técnica que permitia que uma figura de um objeto, uma palavra ou
partes de palavras pudessem ser transmitidas apenas à área visual (chamada de um ''campo'') do
hemisfério cerebral esquerdo ou direito, e não a ambos. Deve-se notar que, normalmente, os seus
dois olhos enviam informação a ambos os lados de
seu cérebro. No entanto, com a localização exata de itens ou palavras em sua frente, e com seus
olhos fixos em um ponto específico, as imagens podem ser projetadas apenas no campo visual
direito ou apenas no campo visual esquerdo de seu cérebro.
Uma outra situação de teste foi planejada para estimulação tátil. Neste caso, um objeto,
uma letra em bloco, ou mesmo uma palavra constituída de blocos poderiam ser sentidas, mas não
vistas. Este aparato consistia, simplesmente, de um anteparo com um espaço sob ele, por onde o
sujeito poderia alcançar e tocar os objetos, mas sem poder vê-los. Os equipamentos para testes
visuais e táteis podiam ser usados simultaneamente de modo que, por exemplo, uma figura de uma
caneta poderia ser projetada de um lado do cérebro e o mesmo objeto poderia ser procurado por
qualquer uma das mãos entre os vários objetos atrás do anteparo (ver Figura 1).
Testar as habilidades auditivas foi, de certo modo, mais complicado. Quando o som entra
em qualquer um de seus ouvidos, as sensações são enviadas a ambos os lados de seu cérebro.
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Assim, não é possível limitar a estimulação auditiva a somente um dos lados do cérebro, mesmo em
pacientes com o cérebro separado. No entanto, é possível limitar a resposta a tal entrada a um dos
hemisférios cerebrais. Veja como isto é feito. Imagine que vários objetos bem conhecidos (uma
colher, uma caneta, uma bolinha de gude) sejam colocados em uma sacola de pano e que você seja
solicitado a encontrar certos itens pelo tato. Você provavelmente não teria problemas em fazer
isso. Se você coloca sua mão esquerda na sacola, ela está sendo controlada pelo lado direito de seu
cérebro e vice-versa. Você pensa que qualquer um dos dois lados de seu cérebro pode realizar esta
tarefa sozinho? Como você verá em um momento, ambas as metades do cérebro não são
igualmente capazes de executar esta tarefa. O que acontecerá se você não for solicitado a encontrar
um objeto específico, mas a enfiar a mão na sacola e identificar objetos pelo tato? Novamente, esta
não seria uma tarefa difícil para você, mas seria muito difícil para um paciente com o cérebro
separado.
Gazzaniga combinou todas essas técnicas de teste para revelar algumas descobertas
fascinantes sobre como o cérebro funciona.

RESULTADOS

É preciso notar, em primeiro lugar, que após esta cirurgia cerebral radical, os pacientes eram as
mesmas pessoas de antes da operação: isto é, seu nível intelectual, personalidade, reações
emocionais típicas, etc, não haviam mudado. Além disso, eles estavam muito felizes e aliviados
porque agora estavam livres das crises. Foi relatado que um paciente, enquanto ainda meio zonzo
da cirurgia, brincou que tinha uma ''dor de cabeça rachada". Quando os testes tiveram início, no
entanto, estes sujeitos demonstraram muitas habilidades incomuns.

Habilidades Visuais

Um dos primeiros testes envolveu simplesmente um painel com um fila horizontal de luzes.
Quando um paciente se sentava na frente desse painel e fixava o olhar em um ponto no meio das
luzes, as lâmpadas piscavam nos dois campos visuais: direito e esquerdo. No entanto, quando se
pedia aos sujeitos que explicassem o que eles haviam visto, eles diziam que somente as luzes do
lado direito no painel é que haviam piscado. Então os pesquisadores piscavam somente as luzes do
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lado esquerdo do campo visual e os pacientes relatavam que nada viram. Uma conclusão lógica
dessas descobertas é a de que o lado direito do cérebro é cego. Mas então aconteceu algo
surpreendente. As luzes foram acesas novamente, mas desta vez os pacientes foram solicitados a
apontar as luzes que piscavam. Embora eles tivessem dito que haviam visto somente as luzes da
direita, eles apontaram todas as luzes, em ambos os campos visuais. Usando este método de
apontar, foi descoberto que ambas as metades do cérebro tinham visto as luzes e eram igualmente
habilidosas em percepção visual. O ponto importante aqui é que quando os pacientes falharam em
dizer que eles haviam visto todas as luzes, isto não ocorreu porque eles não as viam, mas porque o
centro da fala está localizado no hemisfério esquerdo do cérebro. Em outras palavras, para você
dizer que viu alguma coisa, o objeto tem que ter sido visto pelo lado esquerdo de seu cérebro.

Habilidades Táteis

Você pode tentar este teste sozinho. Ponha suas mãos para trás. Então peça a alguém que
coloque objetos familiares (uma colher, uma caneta, um livro, um relógio) em uma de suas mãos, a
esquerda ou a direita, e veja se você pode identificar o objeto. Você não acharia esta tarefa muito
difícil, não é mesmo? Isto é basicamente o que Sperry e Gazzaniga fizeram com os pacientes com
o cérebro separado. Quando um objeto era colocado na mão direita de tal modo que o paciente não
podia vê-lo ou ouvi-lo, as mensagens sobre o objeto viajavam ao hemisfério esquerdo e o paciente
era capaz de nomear o objeto e de descrevê-lo, bem como aos seus usos. Então, quando os mesmos
objetos eram colocados na mão esquerda (conectada ao hemisfério direito), os pacientes não
podiam nomeá-los, nem descrevê-los de modo algum. Mas os pacientes sabiam qual era o objeto?
Para descobrir isto os pesquisadores solicitaram aos sujeitos que emparelhassem o objeto em sua
mão esquerda (sem vê-lo, lembre-se) a um grupo de vários objetos apresentados a eles. Isto eles
podiam fazer tão facilmente quanto você ou eu. Novamente, este fato coloca a habilidade verbal no
hemisfério esquerdo do cérebro. Tenha presente que a razão pela qual você é capaz de dizer o
nome de um objeto que não viu, colocado em sua mão esquerda, é que a informação do lado direito
de seu cérebro é transmitida, via corpo caloso, ao lado esquerdo, onde seu centro da linguagem diz
"isto é uma colher"!

Testes Visuais e Táteis


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A combinação destes dois tipos de testes confirmou as descobertas acima e também


forneceu interessantes resultados adicionais. Se a figura de um objeto era mostrada aos sujeitos
somente no hemisfério direito, eles eram incapazes de nomeá-lo ou descrevê-lo. De fato, poderia
não ocorrer qualquer resposta verbal, ou mesmo, o paciente podia negar que algo tivesse sido
apresentado. Mas se os sujeitos tinham a oportunidade de manipular os objetos sob o anteparo com
sua mão esquerda, eles sempre eram capazes de encontrar aquele que havia sido apresentado
visualmente.
Descobriu-se que o cérebro direito era capaz de pensar sobre os objetos, bem como de
analisá-los. Gazzaniga relatou que mesmo quando era mostrada ao hemisfério direito a figura de
um item tal como um cigarro, os sujeitos poderiam tocar dez objetos atrás do anteparo, que não
incluíam um cigarro, e selecionar um item que fosse mais proximamente relacionado ao item
mostrado - nesse caso, um cinzeiro. Ele explicou:

Estranhamente, no entanto, mesmo depois de sua resposta correta, e enquanto eles estavam
segurando o cinzeiro em sua mão esquerda, eles eram incapazes de dizer seu nome ou de
descrever o objeto ou a figura do cigarro. Evidentemente, o hemisfério esquerdo estava
totalmente divorciado, em percepção e em conhecimento, do hemisfério direito (p.26).

Outros testes foram realizados para esclarecer as habilidades de processar linguagem do


hemisfério direito. Um uso muito famoso, engenhoso e revelador do equipamento para teste visual
ocorreu quando a palavra HEART foi projetada para os pacientes, de modo que "HE" era enviado
ao campo visual direito e "ART" ao campo visual esquerdo. Agora, mantendo em mente (sua
mente conectada) as funções dos dois hemisférios, o que você pensa que os pacientes relataram
verbalmente que estavam vendo? Se você disse "ART", você está correto. Entretanto, e aqui está a
parte reveladora, quando foram apresentados aos sujeitos dois cartões com as palavras "HE" e
"ART" impressas neles, e se solicitou a eles que apontassem com a mão esquerda a palavra que
tinham visto, todos eles apontaram "HE"! Este fato demonstrou que o hemisfério direito é capaz de
compreender a linguagem, embora de uma maneira diferente do hemisfério esquerdo: de maneira
não verbal.
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Os testes auditivos conduzidos com os pacientes produziram resultados semelhantes.


Quando os pacientes eram solicitados a alcançar com sua mão esquerda uma sacola fora do campo
de visão e retirar dela certos objetos específicos (um relógio, uma bolinha de gude, um pente, uma
moeda), eles não tinham dificuldade em fazê-lo. Isto demonstrava claramente que o hemisfério
direito estava compreendendo a linguagem. Era até mesmo possível que o paciente descrevesse
algum aspecto relacionado a um item com a mesma precisão. Um exemplo dado por Gazzaniga foi
o de quando se solicitava aos pacientes que encontrassem em uma sacola cheia de frutas de plástico
"a fruta de que os macacos mais gostam" e eles selecionavam uma banana. Ou quando eles
disseram "As lojas Sunkist vendem muito" e eles retiraram uma laranja da sacola. Entretanto, se
essas mesmas peças de frutas fossem colocadas na mão esquerda dos pacientes, sem que eles as
vissem, eles eram incapazes de dizer qual era a fruta. Em outras palavras, quando uma resposta
verbal era exigida, o hemisfério direito era incapaz de falar.
Um último exemplo dessa diferença surpreendente entre os dois hemisférios envolveu letras
de blocos plásticos sobre a mesa, atrás do anteparo. Quando os pacientes eram solicitados a
soletrar diversas palavras sentindo as letras com a mão esquerda, eles resolveram a tarefa com
muita facilidade. Mesmo se três ou quatro letras que permitiam escrever palavras específicas
fossem colocadas atrás do anteparo, eles eram capazes de, com a mão esquerda, seqüenciá-las
corretamente formando palavras. No entanto, imediatamente depois de terminar esta tarefa, os
sujeitos não eram capazes de dizer a palavra que eles haviam acabado de soletrar.
Assim, o hemisfério esquerdo do cérebro é claramente superior ao direito para a fala (em
algumas pessoas canhotas isto é invertido). Mas em que habilidades o hemisfério direito apresenta
excelência, se é que apresenta? Sperry e Gazzaniga descobriram, neste trabalho inicial, que tarefas
visuais envolvendo relações espaciais e formas eram realizadas com maior eficiência pela mão
esquerda (mesmo que todos estes pacientes fossem destros). Como pode ser visto na Figura 2,
copiar desenhos tridimensionais (usando uma caneta atrás do anteparo) era bem melhor sucedido
com a mão esquerda.
Finalmente, os pesquisadores queriam explorar as reações emocionais dos pacientes com o
cérebro separado. Enquanto eles estavam realizando os experimentos visuais, Sperry e Gazzaniga
subitamente projetavam uma figura de uma mulher nua no hemisfério direito ou no esquerdo. Em
uma ocasião, quando tal figura foi mostrada ao hemisfério esquerdo de uma paciente:
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Ela riu e identificou verbalmente a figura de um nu. Quando mais tarde a figura foi
apresentada ao hemisfério direito, ela disse ... que nada vira, mas quase imediatamente um
sorriso malicioso se espalhou por seu rosto e ela começou a rir. Quando lhe perguntaram
porque estava rindo, ela disse: "Eu não sei... nada... oh! essa máquina engraçada". Embora
o hemisfério direito não pudesse descrever o que tinha sido visto, a visão, contudo, eliciou
uma resposta emocional similar àquela evocada no hemisfério esquerdo (p.29).

DISCUSSÃO

A conclusão geral extraída da pesquisa relatada neste artigo foi a de que há dois cérebros diferentes
dentro do crânio de cada pessoa, cada um com habilidades complexas. Gazzaniga nota a
possibilidade de que se nosso cérebro é constituído, realmente, de dois cérebros, então talvez nós
tenhamos potencial para processar duas vezes mais informação se as duas metades forem
separadas. De fato, há alguma evidência de pesquisa que sugere que pacientes com cérebros
separados têm a habilidade de realizar duas tarefas cognitivas com a mesma rapidez com que uma
pessoa normal pode realizar uma.

SIGNIFICADO DAS DESCOBERTAS

Estas descobertas e a pesquisa subsequente realizada por Sperry e Gazzaniga e outros são
extremamente significativas e de amplo alcance em muitas áreas. Agora há evidências de que as
duas metades de seu cérebro têm muitas habilidades e funções especializadas. Seu cérebro
esquerdo é melhor para falar, escrever, fazer cálculo matemático e ler, e é o principal centro da
linguagem. Seu hemisfério direito, no entanto, possui capacidades superiores para reconhecer
faces, solucionar problemas envolvendo relações espaciais, raciocínio simbólico, e atividades
artísticas.
Nosso maior conhecimento do funcionamento especializado dos dois hemisférios do cérebro
nos permite tratar melhor as vítimas de derrames ou de danos cerebrais. Conhecendo a localização
do dano, podemos predizer que deficiências terão probabilidade de surgir quando o paciente se
recuperar. Por meio desse conhecimento, estratégias apropriadas de reaprendizagem e reabilitação
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podem ser empregadas para ajudar os pacientes a se recuperar tão completa e rapidamente quanto
possível.
Gazzaniga e Sperry, ao longo de anos de trabalho contínuo nessa área, concluíram que cada
hemisfério de seu cérebro é realmente uma mente em si mesma. Em um estudo posterior, pacientes
com cérebros separados foram testados em problemas muito mais complexos do que os que foram
discutidos aqui. Uma pergunta que lhes foi feita era: "Que profissão você escolheria?". Um
paciente do sexo masculino respondeu verbalmente (hemisfério esquerdo) que ele escolheria ser um
desenhista, mas sua mão esquerda (hemisfério direito) soletrou pelo tato, seqüenciando letras em
blocos plásticos, "corredor de automóveis" (Gazzaniga e LeDoux, 1978). De fato, Gazzaniga levou
sua teoria um pouco além. Ele agora
assegura que mesmo em pessoas cujos cérebros são normais e estão intactos, pode não haver uma
comunicação completa entre os dois hemisférios (Gazzaniga, 1985). Por exemplo, se certas
unidades de informação (bits), como as que formam uma emoção, não são armazenadas em formato
de linguagem, o hemisfério esquerdo não pode ter acesso a elas. O resultado disso é que você pode
se sentir triste e não ser capaz de dizer por que. Dado que esta é uma situação cognitiva
desconfortável, o hemisfério esquerdo pode tentar encontrar uma razão verbal para explicar a
tristeza (afinal, a linguagem é a sua principal tarefa). No entanto, uma vez que seu hemisfério
esquerdo não tem acesso a todos os dados necessários, sua explicação pode estar errada!

CRÍTICAS

É claro que as descobertas dos estudos sobre cérebros separados conduzidos ao longo desses anos
por Sperry, Gazzaniga, e outros, têm sido bastante precisas e, raramente, objeto de controvérsia. O
principal corpo de críticas sobre esta pesquisa tem focalizado, pelo contrário, a maneira pela qual a
idéia de especialização cérebro-direito - cérebro-esquerdo tem sido filtrada para a cultura popular e
a mídia.
Agora, há uma ampla crença no mito de que algumas pessoas são mais "cérebro-direito" ou
mais "cérebro-esquerdo", ou que um lado de seu cérebro precisa ser desenvolvido para você
melhorar certas habilidades. Jarre Levy, uma psicobióloga da Universidade de Chicago, tem estado
na liderança dos cientistas que estão tentando dissipar a noção de que temos dois cérebros
funcionando separadamente. Ela argumenta que é precisamente porque cada hemisfério tem
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funções separadas que eles têm que integrar suas habilidades, em vez de separá-las, como se
acredita comumente. Através de tal integração, seu cérebro é capaz de apresentar desempenhos de
maneiras mais amplas e diferentes das habilidades de qualquer uma das partes isoladas.
Quando você lê uma história, por exemplo, seu hemisfério direito está se especializando em
conteúdo emocional (humor, sofrimento), formando figuras e cenas a partir de descrições visuais,
acompanhando a estrutura da história como um todo, e apreciando o estilo artístico do texto (tal
como o uso de metáforas). Enquanto tudo isto está acontecendo, seu hemisfério esquerdo está
compreendendo as palavras escritas, derivando significado de relações complexas entre palavras e
sentenças, e traduzindo palavras em seus sons fonéticos, de modo que eles possam ser
compreendidos como linguagem. A razão pela qual você é capaz de ler, compreender, e apreciar
uma história, é que seu cérebro funciona como uma estrutura única, integrada (Levy, 1985).
Levy explica que, de fato, não há qualquer atividade humana que empregue apenas um lado
do cérebro. "Os mitos populares são interpretações e desejos, não as observações dos cientistas.
Pessoas normais não têm a metade de um cérebro, nem dois cérebros, mas um cérebro
gloriosamente diferenciado, com cada hemisfério contribuindo com suas habilidades
especializadas" (Levy, 1985, p.44).

APLICAÇÕES RECENTES

A influência contínua da pesquisa sobre cérebros separados de Gazzaniga ecoa na citação acima de
Levy. Uma revisão da literatura médica e psicológica recente encontrará inúmeros artigos em
vários campos, referindo-se a este trabalho e a esta metodologia iniciais, bem como a descobertas
recentes de Gazzaniga e de seus colaboradores. Dois destes artigos relevantes, porém diversos, se
concentram sobre a nossa compreensão de como as pessoas lêem e em que medida a pesquisa de
Gazzaniga tem se tornado uma parte da Psicologia da educação. Um estudo publicado em 1992 por
um grupo de pesquisadores que incluía Gazzaniga, descobriu que o hemisfério direito do cérebro
tem participação na leitura, mas tem um papel limitado na compreensão léxica das palavras
(Bauynes, Tramo, & Gazzaniga, 1992). Em outra aplicação interessante da pesquisa sobre cérebro
separado, Morris (1992) desenvolveu um método para demonstrar em sala de aula as habilidades de
um paciente que sofreu a cirurgia. A técnica de Morris envolve dois estudantes que se sentam
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próximos um do outro e “atuam” as funções de cada um dos hemisférios do cérebro de um paciente


com o cérebro separado. Os resultados indicaram que este exercício foi extremamente útil para
auxiliar os estudantes a compreenderem os conceitos, por vezes complexos, discutidos no artigo de
Gazzaniga.

BAYNES, K., TRAMO, M., & GAZZANIGA, M. (1992) Reading with a limited lexicon in
the right hemisphere of a callosotomy patient. Neuropsychologia, 30, 187-200.
GAZZANIGA, M.S. (1985) The social brain. New York: Basic Books.
GAZZANIGA, M.S., & LEDOUX, J.E. (1978) The integrated mind. New York: Plenum.
LEVY, J. (1985) Right brain, left brain: Fact and fiction. Psychology Today, May, 42-44.
MORRIS, E. (1992) Classroom demonstration of behavioral effects of the split-brain
operation. Teaching of Psychology, 18, 226-28.