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REVISÃO DE LITERATURA

CRISE NO SISTEMA PENITENCIÁRIO


BRASILEIRO
•capitalismo, desigualdade social e prisão•

Ueliton Santos de Andrade*, Fábio Félix Ferreira**

Autor correspondente: Ueliton Santos de Andrade. E-mail: ueliton.psicologo@gmail.com


* Psicólogo. Faculdade de Tecnologia e Ciências-Itabuna. Pós-Graduando em Psicologia Jurídica. Unigrad-Vitória da
Conquista.
** Graduado em Direito. UESC. Mestre em Des. Reg. e Meio Ambiente/Direito Ambiental. UESC. Doutor em Ciências
Criminais. UPO.

Resumo

O esgotamento do modelo prisional é uma questão recorrente em muitos sistemas prisionais. Há vá-
rias dificuldades e deficiências evidenciadas no cumprimento das penas de prisão, como a superlota-
ção carcerária, ou ociosidade obrigada do preso, o ambiente favorável à agressão, o grande consumo
de drogas e o alto índice de reincidência. Para discussão do assunto foi utilizada pesquisa qualitativa,
exploratória, descritiva, dedutivo e bibliográfico com base em livros e artigos científicos de áreas afins.
As soluções e alternativas para a problemática, bem como para a incredulidade quanto à busca da
reintegração social do presidiário como mais uma função da pena, parte primeiramente da sociedade,
a qual ainda admite as gravidades e mazelas das prisões e, não muda o pensamento quanto ao preso
e sua perspectiva da reinserção social, tratando-o como eterno excluído. Assim sendo, o presente
constructo teve por finalidade analisar e discutir a crise no sistema prisional brasileiro, nitidamente
um ambiente de rebeliões, corrupção, violência e de presos vivendo em condições sub-humanas,
sendo estes alguns dos muitos problemas que a população atemorizada enfrenta. Esse viés é mais
bem compreendido fazendo-se um paralelo entre o capitalismo e a desigualdade social como pano de
fundo da atual crise, pois se entende que a prisão reflete aquilo que está posto socialmente.
Palavras-chave: Capitalismo; Desigualdade; Sistema prisional.

Abstract
The exhaustion of the prison model is a recurring issue in many prison systems. There are many
difficulties and shortcomings highlighted in the fulfillment of imprisonment, such as overcrowding,
prison or forced idleness of the favorable environment to aggression, the large consumption of
drugs and the high rate of recurrence. For discussion of the subject was used qualitative, exploratory,
descriptive, deductive and literature based on books and scientific articles related areas. And alternative
solutions to the problem, as well as the disbelief in the pursuit of social reintegration of presidiario as
more a function of the sentence, first part of society, which still admits severities and pains prison and
does not change the thinking about the arrested and their perspective of social rehabilitation, treating
it as eternal deleted. Thus, this construct aimed to analyze and discuss the crisis in the Brazilian prison
• Artigo submetido para avaliação em 05/03/2015 e aceito para publicação em 07/07/2015 •
DOI: http://dx.doi.org/10.17267/2317-3394rpds.v4i1.537
system, clearly an atmosphere of rebellion, corruption, violence and prisoners living in sub-human conditions,
these being some of the many problems that people face frightened. This bias is best understood by drawing
a parallel between capitalism and social inequality as the backdrop of the current crisis, it is understood that
the arrest reflects what is socially station.
Keywords: Capitalism; Inequality; Prison system.

INTRODUÇÃO

Para fundamentar essa reflexão, buscar-se-á rea- de ressocialização, por ser um ambiente distin-
lizar uma análise crítica e realística das unidades to de punição onde ficam reclusos todos aqueles
prisionais do Estado Brasileiro, cujo colapso já que estão em conflito com a lei. Discute-se, ainda,
vem sendo aceito em virtude de tantas barbáries e que ao mesmo tempo em que sob alguns aspectos
mazelas ainda existentes no cárcere. O panorama mantém-se fiel a muitos valores morais e éticos do
atual da crise no sistema carcerário fica evidente início do período industrial, onde eram presos to-
quando acrescidos de outros fatores, a saber, o dos aqueles que se negavam a vender sua mão de
capitalismo e a desigualdade social, o que faz do obra, faz transparecer uma gama de mudanças de-
cárcere uma via de mão única. correntes das novas configurações da pós-moder-
O capitalismo é uma balança que nunca se equi- nidade, mostrando-se como um modelo ineficien-
librará, onde poucos possuem muito, alguns pos- te de contensão de condutas ou comportamentos
suem a outra metade e, a maioria não possui nada. inadequados socialmente.
Desta metáfora pode se entender que os bolsões O sistema prisional do Brasil tem apresentado
sociais daqueles que nada possui sempre fora uma um grande desgaste com o passar dos anos e nos
crescente em todo o mundo, e o Brasil não ficou dias atuais chegou a um ponto precário com núme-
de fora; entende-se que a ausência de educação, ro de presos muito maior do que o de vagas, não
saúde, lazer, gera desequilíbrio social, faz crescer a existindo no país nenhuma unidade prisional, sob
violência, o tráfico e assaltos. Disto, questiona-se: os cuidados do Estado, que apresentasse em suas
quem são os sujeitos que estão encarcerados aos dependências um número de presos inferior ao de
bocados nos presídios senão os filhos da exclusão vagas e nem sequer um cárcere onde o número de
social? A prisão foi pensada e construída pela elite presos fosse igual ao de vagas: todas as instala-
para pobres e não para ricos, uma vez que nossa ções superlotadas. O sistema não tem conseguido
cultura barroca de fachada, com base na conquista, alcançar sua meta que é o de recuperar e reintegrar
exclui índios, camponeses no campo e, na cidade, o detento à sociedade, os índices de reincidência
migrantes, favelados, encortiçados, sem teto, em estão entre os maiores do mundo. Acontece que
uma fenomenologia bastante conhecida, a feno- há ainda uma ampla despreocupação e intolerân-
menologia dos desafiliados. cia, tanto do Estado como da sociedade em âmbito
É notório a muitos que o sistema penitenciário global, quanto ao problema carcerário e à incum-
brasileiro tem, nos últimos anos, sido debatido e bência de fazer valer a reintegração social do preso
vem ganhado notoriedade no meio acadêmico. como função da pena. A falha estatal em concreti-
Tem se discutido a sua importância enquanto base zar as leis contidas na sua Constituição Federal, na

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LEP e em respeitáveis tratados internacionais que De acordo com Ministério da Justiça,(1) atual-
o país é signatário, acrescido ao fato da indiferença mente, são mais de 574 mil pessoas reclusas nos
predominante na população, se demonstram, as- cárceres do Brasil, sendo hoje a quarta população
sim, como fatores igualmente cruciais para a gra- carcerária do mundo, perdendo apenas dos EUA,
vidade da crise. (2,2 milhões), da China (1,6 milhões) e Rússia (740
Diante do exposto, o presente constructo pre- mil). Esses números tendem a ser crescente quan-
tende analisar e discutir sobre a problemática que to maior for a desigualdade social. Diante desses
envolve o sistema penitenciário brasileiro, nitida- dados, questiona-se sobre quais as prioridades de
mente um ambiente de rebeliões, corrupção, vio- um sistema que segrega tantas pessoas. Se for ver-
lência e de presos vivendo em condições sub-hu- dade que a paz social depende de tirar da socie-
manas, sendo estes alguns dos muitos problemas dade todas as pessoas que cometem crimes, en-
que a sociedade atemorizada enfrenta. Entretanto, tão ou já se teria alcançado o objetivo ou já estaria
far-se-á um paralelo entre o capitalismo e a desi- bem perto disso. No discurso penitenciário diz-se
gualdade social como pano de fundo da atual cri- que se deve punir, intimidar e regenerar, discurso
se. Por fim, apontar-se-ão alternativas e soluções e prática sustentada pela Lei de Execuções Penais.
frente a esta conjuntura. Para discussão do assun-
(2)
Vê-se claramente que é da ordem do impossível
to foi utilizada quanto à natureza, pesquisa qualita- compatibilizar essas três metas, a conta não fecha
tiva; quanto aos objetivos, exploratória e descritiva e, por consequência, a população carcerária con-
e, quanto ao método, dedutivo; quanto ao tipo, bi- tinua a crescer. Nesse sentido, Zaffaroni(3) afirma
bliográfica com base em livros e artigos científicos que “colocar uma pessoa numa prisão e esperar
de áreas afins. que ela aprenda a viver em sociedade, é como ensi-
nar alguém a jogar futebol dentro de um elevador”.
Logo, os conceitos de ressocialização e reintegra-
SITUAÇÃO ATUAL DOS ção social tem se mostrado como falácias.

PRESÍDIOS NO BRASIL De acordo com a ONG Desigualdade Social,(4)


as desigualdades sociais são também um grande
O sistema prisional não está passando por uma combustível no aumento da criminalidade. Neste
crise, ele é uma crise, porque permanentemente é sentido, questiona-se se o Governo Federal tem
uma crise, e não se fala apenas do caso brasilei- procurado integrar um estudo da criminalida-
ro, pois o sistema penitenciário tem se mostrado de com investimentos na área social, se há uma
como ineficiente no mundo inteiro, uma vez que a preocupação, uma interatividade e integração com
pena prisional não faz sentido, é ilógica, desequi- outras áreas. Faz-se necessário que o Conselho
librada, contraditória, não pode por consequência Nacional de Política Criminal Penitenciária reflita
serem atendidas as finalidades, os objetivos que sobre esse assunto, pois ao comparar os indicado-
se pregam não podem ser alcançados pela pena res internacionais sobre o problema penitenciário,
prisional. Este argumento pode ser melhor com- percebe-se que este fenômeno de encarceramento
preendido se o leitor aceitar o sistema prisional em massa tem sido um reflexo do que acontece na
como um apêndice do sistema econômico então sociedade.
vigente. Ou seja, se a economia do país vai bem, se Apesar de ser um país rico em recursos naturais
há pouca desigualdade social, os cárceres tendem e com um PIB  (Produto Interno Bruto) figurando
sempre entre os 10 maiores do mundo, o Brasil é
a ter menos pessoas presas; o contrário também
um país extremamente injusto no que diz respei-
é verdadeiro, quanto mais desigual é uma socie- to à distribuição de seus recursos entre a popula-
dade maior o número de excluídos e de pessoas ção. Um país rico; porém, com muitas pessoas po-
bres, devido ao fenômeno da desigualdade social
encarceradas.
que é elevado. Pesquisadores da área social e eco-
nômica atribuem essa elevada desigualdade social

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no Brasil a um contexto histórico, que culminou agrícolas e industriais (73), casas de albergado (65),
numa crescente evolução do quadro no país.  Mes-
cadeias públicas (826), hospitais de custódia e tra-
mo sendo uma nação de dimensões continentais e
riquíssima em recursos naturais, o Brasil despon- tamento psiquiátrico (32) e patronato (16). Desses,
ta uma triste contradição, de estar sempre entre os 537.70 encontram-se submetidos ao Sistema Peni-
dez países do mundo com o PIB mais alto e, por ou-
tenciário e 36.237 estão encarcerados nas Delega-
tro lado, estar sempre entre os 10 países com maio-
res índices de disparidade social.(4) cias de Polícia. No país, temos um total de 317.733
vagas nas Secretarias de Administração Peniten-
Segundo dados do Infopen(5) a população carce- ciária registrando, portanto, um déficit de 256.294
rária brasileira gira em torno de mais de 574.027 vagas. Percebe-se um aumento de 4,66% (24.292
presos abrigados em 1.482 estabelecimentos ca- presos) na população carcerária brasileira, já que
dastrados entre penitenciarias (470), colônias e em dezembro de 2012 havia registro de 549.735.(6)

Figura 1 – Evolução Pop. Carcerária

Em poucos momentos na história da humanida- so.(5) Pesquisas mostram que 65% deles são, so-
de se viveu a internação de tantas pessoas juntas, bretudo, jovens, negros e de baixa renda. Esses
o que pode ser comparado ao momento da Grande seres humanos são vistos pela sociedade como
Internação, descrito por Foucault.(7) Ou seja, pou- sub-humanos, porque em geral eles já eram alvo
cas vezes as instituições se tornaram depósitos de de preconceito de classe, de cor e, quando comete
gente. Amontoados de pessoas sem direitos; o in- um crime a justiça os define como criminosos re-
divíduo encarcerado no Brasil virou uma espécie cebendo, portanto, o último selo, o último estigma
de não-cidadão, não tendo preservados direitos do criminoso, aquele que se associa aos demais. O
fundamentais garantidos desde 1988 pela Consti- sistema carcerário brasileiro se configurou desde a
tuição da República Federativa do Brasil. sua gênese como uma espécie de apartheid social,
Esse sujeito que é isolado da sociedade já está onde se conhece os senhorzinhos, os algozes e os
vulnerável muitas vezes antes mesmo de ser pre- flagelados.

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Violência e criminalidade são fenômenos que cos- suas obrigações relativas a eles, o que pode ser fei-
tumam precederem-se entre si e que, na maioria
to simplesmente aplicando a Lei.(8)
dos casos, pode ser explicado como consequência
da desigualdade social. Pessoas sem acesso a uma Humberto Verona escrevendo na apresentação
boa educação, até mesmo por parte dos pais, e que do livro “A atuação do psicólogo no sistema pri-
sofrem omissão do estado, não tendo condições
básicas de subsistência, acabam se influenciando, sional” (9) diz que a gravidade da crise vivida no
ora por tendência natural da psique humana, ou âmbito penitenciário e o fato de o Brasil possuir a
por influência do meio social onde vivem, a praticar quarta maior população carcerária do planeta exi-
atos delituosos e violentos, como forma, em suas
próprias concepções de adquirir meios financeiros, gem mais do que a contribuição da sociedade civil
ou mesmo de luta contra a desigualdade imposta. organizada na construção de atribuições, compe-
Como resultado, observam-se, em países e regiões tências e possibilidades de práticas direcionadas
que sofrem com a desigualdade social, altos índices
de homicídios e delitos praticados pelos indivíduos para a integração social. Exige-se do Estado maior
em geral, mais carentes de recursos e tendenciosos ampliação do diálogo com movimentos sociais e
a atos desse tipo. Vale ressaltar que esses fenôme- construção de parcerias nessa tarefa de refletir o
nos não ocorrem como regra da consequência de
desigualdades sociais, haja vista que a maioria da fim possível das prisões, compreendendo que o
população que é afetada pela desigualdade, não re- motivo de privação de liberdade não faz progredir
corre a meios violentos ou ilícitos para driblar essa a cidadania, agrava os vínculos sociais e causa ex-
realidade, sendo esses fenômenos explicados, nes-
ses casos, por traços de personalidades individuais. clusão. Não se sabe dizer qual o pior problema do
(4)
sistema carcerário brasileiro, porque são tantos os
problemas que fica até complicado eleger um que
Para  o Conselho Nacional do Ministério Públi-
seja o pior. Há problemas de superpopulação car-
co (CNMP),(8) as prisões no Brasil são sujas, apre-
cerária, de faltas de vagas, problemas estruturais
sentam falta de luz, ventilação, alimentação inade-
de unidade prisional que não tem condições mí-
quadas, noites mal dormidas por falta de espaço e
nimas de manter uma pessoa reclusa, problemas
maus tratos. O mesmo país que avançou em todos
relacionados à questão de gestão do sistema carce-
os indicadores sociais, diminuindo as desigual-
rário, presos provisórios em percentual muito su-
dades, ampliando oferta de trabalho, reduzindo a
perior àquilo que seria o razoável.
mortalidade infantil e, aumentando a expectativa
de vida, também é o país que mantem os chama- É inegável que o alto número de condenados, às
vezes maior que o dobro da capacidade do presí-
dos seres desviantes no limbo. A Lei de Execuções dio, se traduz como o pior problema existente no
Penais (LEP) que data 1984 defende e preserva a sistema penitenciário – em especial o brasileiro –,
integridade desse ser humano, mas não parece ser eis que acarreta ainda outros problemas a ele in-
timamente ligados, tais como a falta de higiene, a
aplicada a contento. A LEP não tem sido cumprida alimentação precária e a violência física e sexual.
no Brasil e, por isso, vem apresentando superpo- Todos esses problemas, além da frágil estrutura fí-
pulação carcerária, insalubridades, taxas absurdas sica dos espaços carcerários e da disseminação das
drogas e dos aparelhos celulares, são realidades fa-
de tuberculose, doenças pulmonares, DSTs, e to- cilmente perceptíveis nos presídios das grandes ci-
dos os corolários desses males. Cada preso, no dades brasileiras, sem mencionar a caótica situação
Brasil, custa cerca de R$ 2.000,00 por mês. Mas das Delegacias de Polícia. A difusão da tuberculose
e do vírus da Síndrome da Imunodeficiência Huma-
afinal, quanto custa sustentar esse sistema onde na Adquirida (AIDS) também é constante nas pe-
faltam equipes de saúde, profissionais dispostos e nitenciárias, não havendo sérios trabalhos de con-
reconhecidos? É um sistema muito caro para re- trole ou prevenção de tais doenças entre os presos.
As condições de vida e de higiene costumam ser
sultados tão irrisórios. As pessoas privadas de li- extremamente precárias, com alimentação e forne-
berdade são cidadãos que estão pagando as suas cimento de água para o consumo de péssima qua-
penas, suas sentenças, não deixando, por isso, de lidade, falta de espaço, ar e de luz, além de sujeiras
nas celas. (p. 7)(10)
serem seres humanos, cabendo ao Estado cumprir

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Um levantamento feito pelo CNMP(8) entre mar- da porque só quem está preso é “colarinho preto”,
ço de 2012 e fevereiro de 2013 dão conta que de entende-se esta expressão como pessoas oriundas
1.598 prisões inspecionadas no Brasil nesse perío- das classes marginalizadas, pessoas que tiveram
do, houve 121 rebeliões, 729 mortes e 20.310 fugas. seus direitos sonegados pelo Estado quando esta-
Constatou-se que não há separação entre presos vam fora do sistema. Percebe-se, desta forma, se
provisórios de definitivos; presos primários de pre- já se violava os direitos destes cidadãos anterior-
sos reincidentes e também a separação conforme mente, quando estavam soltos, dentro do sistema
a natureza do crime ou periculosidade.(8) Em ou- carcerário que não serão ressarcidos.
tro estudo Brandão (2014) citando dados do Mi- Já sobre a seletividade penal, argumenta Nilo Batis-
nistério da Justiça (MJ) revela o ritmo crescente da ta e Zaffaroni que ela é fundada em preconceitos,
população carcerária no Brasil. Em menos de 20 mitos e bodes expiatórios, sendo que a realidade
do exercício do poder punitivo “recai sempre sobre
anos, enquanto a população cresceu 36% o núme- pessoas selecionadas segundo certos estereótipos
ro de pessoas presas aumentou 403,5%, o que cor- historicamente condicionados, conforme sua di-
robora com célebre frase de Nelson Mandela “Se nâmica substancialmente discriminatória”. Conti-
nuam os autores discorrendo que o poder punitivo
quiseres conhecer a situação socioeconômica do se vale dos tipos penais justamente para realizar a
país, visite os porões de seus presídios”. Consta- seletividade, segundo as características estereoti-
tar-se-á ali a grande desigualdade e exclusão social. padas (vulnerabilidade) da pessoa criminalizada.
Dessa forma, quanto maior for o número de tipos
Os dados sobre a população carcerária brasileira penais de um ordenamento jurídico (inchaço legis-
comprovam haver forte correlação entre pobreza, lativo criminal), maior será o espectro populacional
baixa escolaridade e encarceramento. A maioria exposto aos riscos da seletividade (criminalização
dos presos brasileiros, entre os quais predominam secundária). (p. 10)(10)
homens entre 18 e 30 anos, é originária dos seg-
mentos sociais de menor renda. Cerca de 95% dos Existem algumas Leis aprovadas no Congresso
presos brasileiros são oriundos de famílias pobres
Federal que se fossem implementadas resolveria
ou muito pobres e 75% não conseguiram concluir a
educação básica, sendo de aproximadamente 12% uma parcela substancial dos problemas dos presí-
o percentual de analfabetos (UNESCO, 2008). Não dios no Brasil, a saber: a Lei de Medidas Cautela-
há dados atualizados disponíveis sobre analfabetos
res, que dá opção ao Juiz de não só colocar a pes-
funcionais nas prisões brasileiras, mas tendo em
vista a situação da população em geral, acredita-se soa na cadeia, mas também a Lei de Remissão de
que este número deva ser muito elevado, com efei- Pena pelo Trabalho e pelo Estudo, a qual se o re-
tos negativos diretos sobre a escolarização efetiva
cluso trabalhar três dias diminui um dia de pena,
dos detentos, sua posterior inserção no mercado de
trabalho e não retorno ao crime. Tal situação tem se estudar três dias diminui um dia de pena, ou
provocado, mesmo em universos políticos conser- seja, se fizesse as duas coisas, trabalho e estudo,
vadores, maior interesse pela educação prisional.
teria dois dias a menos na sua condenação; esses
(p. 3)(11)
dois quesitos diminuiria a superlotação, garantiria
Os fatos noticiados pela mídia vêm a confirmar renda para o preso, oportunidade para quando sair
que a questão deixou de ser algo apenas relacio- não voltar para o cárcere; e a Lei de Monitoramento
nado ao sistema carcerário, mas que envolve toda Eletrônico. Mas como se sabe, nada dessa legisla-
a sociedade. É preciso que as autoridades, bem ção é executada. Isso deixa evidente que o sistema
como toda a Sociedade Civil estejam atentas à ne- penal brasileiro é executado não com a finalidade
cessidade de mudanças significativas, sob pena de da reintegração social, mas de punição da pessoa
chegarmos a um problema muito mais sério como reclusa ao cárcere. De acordo com CNMP,(8) a CPI
já vem acontecendo em alguns locais. Desta for- do Cárcere constatou que 82% dos presos no Brasil
ma, compreende-se que o problema do sistema nem trabalhavam nem estudavam, e os outros 18%
carcerário não é falta de leis, mas falta de Estado e que trabalhavam de graça para o Estado, o faziam
da sociedade como um todo, pois ambos possuem apenas pela Remissão da Pena costurando bola ou
um visão distorcida sobre o encarcerado. Distorci- criando artesanato – vale destacar que não têm ex-

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pressão econômica –, ações que nem sempre qua- quartejam para poderem escandalizar o Brasil e o
lifica a mão de obra. mundo. Portanto, o problema carcerário não passa
O ócio ou a inatividade forçada entre os con- certamente pela falta de Leis, pois como se sabe o
denados é também problemática grave e cor- país possui uma Constituição, uma Lei de Execu-
riqueira na execução da pena privativa de li- ção Penal excelente, Tratados Internacionais que o
berdade nas penitenciárias brasileiras, fato
considerado ainda mais grave ao se visualizar Brasil é signatário. Indaga-se o porquê do descum-
a legislação executiva penal do Brasil e ratifi- primento destas. Primeiro, porque só há pobres
car que o trabalho deveria ser proporcionado presos? Segundo, porque não se pune o gestor, a
ao preso como meio educador e produtivo e
de condição de dignidade humana. Por outro saber: o Juiz de Execução Penal que não cumpre o
lado, quando se constata que existe trabalho, seu papel; o Promotor que não faz a sua diligência
este então é desenvolvido sob condições defi- e só quer prender; o Governador que não liga para
cientes, ou é apenas posto à disposição a pou-
quíssimos indivíduos. (p. 8)(10) situação dos presídios?
E essa crise, com todas as deficiências existentes
Segundo Machado(10) em meio às literaturas es- nas penitenciárias e na execução das penas priva-
pecializadas na matéria, são verificadas as seguin- tivas de liberdade, acaba afrontando importantes
princípios expressos na legislação interna e nos tra-
tes deficiências e problemas mais acentuados do
tados internacionais em que o Brasil e outros tan-
sistema penitenciário atual: tos países fazem parte, em especial ao respeito à in-
a) Superlotação carcerária; tegridade física e moral do preso. Assim, a questão
da afronta a outros direitos que não corresponden-
b) Elevado índice de reincidência; tes àqueles retirados pela sentença condenatória é
mais um absurdo que se presencia no cotidiano vi-
c) Ociosidade ou inatividade forçada; venciado nos presídios superlotados e de precárias
condições. (p. 4)(10)
d) Condições de vida precárias;
Há diversas saídas para o caos do sistema carce-
e) Higiene dos presos precária;
rário. No entanto, é necessário que haja um grande
f) Grande consumo de drogas; conserto entre quem faz a Lei que é o Legislativo, o
g) Negação de acesso à assistência jurídica e de judiciário que condena e o Governador que cuida.
atendimento médico, dentário e psicológico Percebe-se que não tem existido essa conversa. Se
aos reclusos; por um lado, na hora que o juiz, podendo manter o
preso solto, prefere colocá-lo na cadeia ele não per-
h) Ambiente propício à violência física e sexual;
gunta para o Governador se há vaga no presídio, se
i) Efeitos sociológicos e psicológicos negativos tem orçamento. Nesse sentido, enquanto não hou-
produzidos pela prisão. ver esse diálogo vai continuar havendo esse desen-
Dito isto, indaga-se se o problema é de Lei ou contro. Por outro lado, existe uma visão cultural da
falta de dever do Estado. Por quais motivos estas sociedade de que basta aprisionar as pessoas pre-
pessoas não trabalham uma vez que há obras do sas que é como se afastasse o problema de quem
PAC em todo o país e terras férteis nos arredores está do lado de fora. Além do mais, falta a visão
dos presídios? Vê-se que há uma engrenagem do de que este é um problema que volta. Diante des-
Estado para deixar a situação do jeito que está. tes fatos, questiona-se: o que fazer então para que
Estes mesmos presos só são lembrados nas tra- a sociedade brasileira consiga perceber que esse é
gédias como as do Carandiru e de Pedrinhas no um problema que tem que ser resolvido não só pe-
Maranhão ou quando alguns “colarinhos bran- los os que estão presos e suas famílias, mas tam-
cos” são presos; os grã-finos reclamam da situa- bém pelos que estão do lado de fora?
ção e ganha prisão domiciliar, já os desafortuna- É necessário que o administrador público se
dos que compreendem 99% da massa carcerária sensibilize de que a pessoa que foi remetida ao cár-
para serem vistos matam, esfolam, degolam e es- cere está privada apenas da liberdade e nada mais.

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A dignidade desta pessoa tem que ser preservada, ALTERNATIVAS E SOLUÇÕES
a assistência religiosa e familiar também. Contudo, POSSÍVEIS FRENTE À CRISE DO
o que tem se constatado é que a pessoa remetida
SISTEMA PENITENCIÁRIO
ao cárcere simplesmente tem todos os outros di-
reitos, toda a sua condição humana jogada no lixo No Brasil, a prisão é o principal recurso para se tra-
e, nesse vácuo do Estado as facções criminosas co- tar o crime e, na verdade, o objetivo da prisão seria
meçam a atuar, aproveitando dessa lacuna acabam dissuadir, neutralizar as pessoas na prática do cri-
providenciando o auxilio para a família que está do me enquanto elas estão reclusas. Entretanto, esse
lado fora, os pagamentos de algumas contas, advo- objetivo não tem sido alcançado; se os grupos es-
gados. O problema ganha maior dimensão quando tão se organizando dentro das prisões e praticando
essas facções cobram a contraprestação dessa pes- crime é porque essas políticas de encarceramento
soa presa e da sua família. Por exemplo, a imposi- não estão atingindo seus objetivos. Existe aí uma
ção de que passem a ser soldados do crime, tendo série de fatores que vão contribuir para gerar esse
que cumprir as ordens sob pena de morte daquele resultado, a saber, a corrupção, a falta de adminis-
que está preso. Argumenta Brandão(12) que: “den- tração, a falta de investimentos na estrutura física
tro dos presídios [...] as condições em que estão os e de pessoal capacitado.(8)
presos são precárias, como falta de espaço e de hi-
Existem muitos estudos internacionais que de-
giene, o que leva a uma série de doenças, além de
monstram que a prisão nem sempre alcança o
poucos profissionais de saúde para tratá-los”. Ou
principal objetivo que é controlar o crime e resso-
seja, a violência é, principalmente, um dos grandes
cializar as pessoas, contudo, há poucos estudos no
desafios dos gestores do setor prisional. Há infor-
país sobre o impacto da prisão no controle do cri-
mações que para muitos presos para se sentirem
me. Sabe-se, entretanto, que a partir do momento
mais seguros dentro sistema prisional acaba por
em que existe uma prisão onde se retira a liberda-
se associarem as facções do crime organizado. E
de do cidadão e não se respeita os demais direitos
isso transformou as facções, hoje, em verdadeiras
universais, de imediato se está trabalhando de for-
anomalias no país.
ma antagônica para recuperar esta pessoa. Diante
A sociedade, por outro lado, tem tido um olhar de todas as questões supracitadas atuais nos pre-
esquisito e equivocado sobre o sistema carcerá- sídios brasileiros, os quais não são exclusivos ape-
rio, como se o preso fosse cumprir prisão perpé- nas do Brasil, mas também dos cárceres de muitos
tua; a sociedade precisa entender que todo preso outros países, se entende que a procura de alterna-
tem que voltar, a menos que morra no cárcere. As- tivas para extirpar, ou pelo menos diminuir o caos
sim sendo, compreende-se que é muito mais bara- instalado, vem se tornando a grande missão do Es-
to para Estado, nesse caso, devolver esse cidadão tado e daqueles preocupados na matéria. O caos
“curado” do que devolver como fera humana. To- nas penitenciárias brasileiras é uma dificuldade
dos os anos são feitos vários mutirões carcerários, antiga, e que vem sendo discutido há pouco tem-
onde se libera um número significativo de homens po, muitos questionamentos tem sido levantados,
e mulheres como soldados das organizações crimi- prós e contras são chamados a discutirem a temá-
nosas sem nenhum tipo de recuperação, o que se tica, mas poucas são as soluções alcançadas.(13)
caracteriza com uma irresponsabilidade do Estado.
Apesar de todos os estudos e conhecimento do
Dentro dessa lógica, tendo uma política adequada
poder público, existe uma inabilidade em resolver
de garantir a dignidade do preso de voltar ao seio
essa situação que é uma realidade brasileira. Sabe-
da sociedade, infere-se que não se precisa nem
-se que existem experiências internacionais que se
pensar no preso, basta pensar no bem estar social
aplicadas no Brasil ajudaria a resolver uma série de
que por consequência esses seriam beneficiados.
problemas; entre as melhores soluções e alternati-

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vas bem sucedidas apontadas, prevenção por meio terapia, separar os indivíduos de pequena pericu-
do investimento em educação parece ser a melhor. losidade dos de grande periculosidade, os presos
É notório o caos instalado no sistema prisional, as provisórios dos já condenados, o que se entende
prisões não tem qualidade, os direitos dos presos por individualização da pena. Dito isto, por todas
não são respeitados. Pode-se inferir desse resulta- essas questões existentes nas prisões brasileiras,
do que a probabilidade de reincidência desses in- que é uma realidade encontrada nos cárceres de
divíduos é muito alta; acrescido ainda da falta de outros países, prontamente se pensa que a procu-
conhecimento por parte dos administradores a res- ra de saídas para extirpar, ou pelo menos diminuir
peito do perfil carcerário. Há poucos estudos sobre a desordem instalada, vem se tornando a incum-
a temática, é por isso que muitos presos permane- bência do Estado e daqueles que zelam por essa
cem por tempo demasiado na prisão, sendo que já problemática.
tem direito de se livrarem soltos.(8) Assim sendo, o Depen\Ministério da Justiça ela-
Diante disso, observa-se que não existe trans- borou o Plano Diretor do Sistema Penitenciário, vi-
parência nos dados dessa população. É da ordem sando diagnosticar os principais problemas encon-
do impossível os legisladores, o judiciário, toma- trados nos cárceres da federação, planejar ações
rem uma decisão justa se não conhecem a realida- frente às várias alternativas e primar pela busca
de dessa população que dia após dia tem crescido dos resultados, a saber, colaborar para a concre-
assustadoramente. Isso é um grande problema por tização dos direitos das pessoas privadas de liber-
que como que se fórmula políticas públicas para dade, assim como para a atualização qualitativa
serem eficientes, para atingirem o objetivo que da gestão prisional do Brasil, o Depen, a partir do
realmente se pretende se o Estado não tem um Plano Diretor de Melhorias para o Sistema Prisio-
diagnóstico claro dessa problemática? Sabe-se que nal, estimula os estados da federação a elaborarem
muitos presos têm uma reincidência muito maior projetos estratégicos de ações, por meio dos múl-
no crime devido a uma série de fatores, entre os tiplos âmbitos responsáveis dos órgãos de gestão
quais está a “falta de justiça” para com eles, pois prisional, o que pode ser possível por meio da sub-
muitos já cumpriram suas penas e sequer seus al- divisão do Plano em temas estratégicos, a saber:
varás de soltura foram emitidos. É até compreensí- sistema de justiça, modernização da gestão e rein-
vel a revolta quando deflagram uma rebelião, não tegração social.
se pretende com isso fazer apologia ao presidiário, O país precisa adequar sua realidade às ba-
mas, sim, analisar os dois lados da moeda. Muitos ses legais constantes na Constituição Federal,
deles se sentem abandonados, como jogados em Lei de Execução Penal, Resoluções do Conse-
lho Nacional de Política Criminal e Peniten-
depósito humano. ciária e outros dispositivos legais. A Diretoria
A maioria dos crimes é inafiançável, ou seja, o de Políticas Penitenciárias instituiu a Comis-
são do Plano Diretor, composta por integran-
sujeito é preso imediatamente. E a sociedade pen-
tes das seguintes áreas finalísticas do Depen:
sa que as pessoas reclusas não fazem a leitura de ouvidoria, assistência à saúde, assistência
que os “colarinhos brancos” que cometem crimes educacional, engenharia, assistência jurídica,
patronato, alternativas penais, escola de admi-
da mesma forma e conseguem uma prisão domici-
nistração prisional, Infopen, aparelhamento e
liar, no semiaberto, podem trabalhar, etc. Destarte, reaparelhamento, mulheres presas e egressas.
esquece-se que os fatores que mais geram violên- Dentre as atribuições da equipe técnica do De-
pen/MJ está o incentivo, o monitoramento, o
cia é a desigualdade social e a injustiça, o que re-
acompanhamento e a avaliação de ações no
volta as pessoas que passam pelo cárcere. Quan- sistema prisional brasileiro, a serem desenvol-
do o sujeito sai da prisão, sai marcado, manchado vidas/ planejadas pelos órgãos estaduais de
administração prisional. Tendo como um de
pela vida, pelas injustiças; poderia ter sido recupe-
seus objetivos prioritários a reestruturação do
rado se realmente houvesse um sistema de labor- atual padrão prisional brasileiro, por um sis-
tema mais humano, seguro e que atenda tan-

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to à legalidade quanto ao tratamento básico 5. Diminuição do déficit carcerário - O cresci-
ao preso; o Plano Diretor de Melhorias para o mento da população carcerária brasileira e a
Sistema Prisional permite a realização de um
levantamento quantitativo e qualitativo, iden- falta de investimentos no setor prisional fa-
tificando as principais necessidades de cada zem com que o déficit carcerário aumente
região do Brasil, o que possibilita ao Depen/ gradativamente. Visando a diminuição do
MJ a definição de ações que visam solucionar
/ minimizar tais dificuldades, bem como aper- déficit de vagas em unidades prisionais, os
feiçoar a utilização e repasse de recursos fede- estados e Distrito Federal devem adotar prá-
rais. (p. 5)(5) ticas planejadas de construção e ampliação
De acordo com o Plano Diretor do Sistema Peni- dos estabelecimentos.
tenciário,(5) o Governo Federal elegeu 16 assuntos 6. Aparelhamento e Reaparelhamento - A mo-
estratégicos como objetivos primordiais na busca dernização dos estabelecimentos prisionais é
pelo aprimoramento do sistema prisional do Bra- efetivada, também, através do aparelhamen-
sil, a serem monitorados e avaliados pelo Departa- to e do reaparelhamento, com a aquisição de
mento Penitenciário Nacional. São eles: equipamentos, veículos e outros.
1. Assistência jurídica - Os presos provisórios, 7. Ouvidoria - A ouvidoria do sistema prisional
condenados e internados que comprovem a atua direta e indiretamente nos estabeleci-
insuficiência de recursos para constituir ad- mentos penais, e representa o canal de co-
vogado têm direito à assistência jurídica, que municação entre a sociedade e os órgãos es-
deve ser ampliada e efetivada para atender taduais responsáveis pela administração do
à Constituição Federal e a Lei de Execução sistema.
Penal.
8. Escola de administração prisional - As escolas
2. Alternativas penais - As penas restritivas de de administração prisional devem ter como
direitos são conhecidas como penas e medi- objetivo geral fornecer elementos teóricos e
das alternativas, cuja sanção penal é de cur- práticos que permitam a formação integral,
ta duração (0 a 4 anos de condenação), para a capacitação profissional e a construção de
crimes praticados sem violência, nem grave uma identidade específica do profissional do
ameaça. sistema prisional, possibilitando a valoriza-
3. Comissão técnica de classificação - As co- ção e o pleno desenvolvimento da sua fun-
missões técnicas de classificação deverão ser ção social e institucional e contribuam para
criadas em cada estabelecimento prisional, a segurança e reinserção social das pessoas
em atendimento ao inciso VI da Resolução nº presas, de acordo com o disposto na Lei de
1/2008 – CNPCP e têm como função o aten- Execução Penal e com pleno respeito aos di-
dimento ao princípio da individualização da reitos humanos.
pena, disposto no texto constitucional, em 9. Infopen - Os órgãos estaduais de administra-
seu art. 5º, inciso XLVI. ção prisional devem efetivar a integração do
4. Conselhos da comunidade - O Conselho da sistema de gestão prisional local com a base
Comunidade é um dos órgãos da execução nacional e fornecer dados estatísticos ao De-
penal, previsto no artigo 61 da LEP, e repre- partamento Penitenciário Nacional, com o
senta a sociedade ao acompanhar o cumpri- objetivo de interligar todos os estabelecimen-
mento da pena desde o ingresso do preso no tos prisionais (estaduais e federais) ao De-
estabelecimento prisional até o seu retorno pen e obter um panorama atualizado sobre a
ao convívio social. situação prisional e processual dos presos e
internados no território brasileiro.

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10. Profissionais do sistema prisional - Os órgãos 16. Mulher presa e egressa - Todas as unidades
estaduais de administração prisional devem da federação, por meio do órgão estadual
criar e instituir carreiras próprias para os pro- responsável pela administração prisional, de-
fissionais que atuam no sistema, bem como vem elaborar e efetivar a execução de uma
fomentar a realização de concursos públicos, política estadual de garantia dos direitos das
visando ampliar o quantitativo de recursos mulheres presas e egressas do sistema pri-
humanos a serviço do sistema prisional e evi- sional, no que tange à melhoria da situação
tar ou minimizar a atuação de funcionários do sistema criminal e penitenciário feminino
sem vínculo com o governo. nas áreas da saúde, educação, profissionali-
zação, atendimento diferenciado à gestante,
11. Patronatos - As unidades da federação devem
à parturiente, à criança e outros.
criar, implantar e acompanhar as ações e ati-
vidades desenvolvidas pelos patronatos ou
órgãos equivalentes, com vistas ao apoio ao Vê-se que há uma intenção do Governo em so-
egresso do sistema penal. lucionar os problemas dos cárceres brasileiros. No
12. Saúde no sistema prisional - É responsabili- entanto, se analisado por outra ótica, fica nítido
dade dos órgãos estaduais de administração que o problema começa fora da prisão. Ou seja,
prisional, em parceria com secretaria esta- a desigualdade social fomenta violência, analfabe-
dual, o oferecimento de assistência à saúde tismo, desemprego, drogas, roubos, assassinatos
do preso e do internado, em conformidade e seus correlatos que, por fim, leva à prisão. Des-
com a Política Nacional de Saúde no Sistema tarte, se o Brasil tivesse por base os exemplos de
Prisional. alguns países da Europa, como a Finlândia, Suécia,
Dinamarca e Holanda que viram a população car-
13. Educação no sistema prisional - O ofereci-
cerária ser diminuída substancialmente a partir do
mento da educação nos estabelecimentos
momento em que começaram a ver a questão por
prisionais é dever do Estado, com vistas à
uma ótica social e, passaram a investir em educa-
prevenção do crime e orientação do preso ao
ção, saúde, lazer, descriminalização de uma série
retorno à convivência em sociedade. A educa-
de crimes de menor poder ofensivo, dá ênfase em
ção nas prisões tem como objetivo aumentar
penas alternativas, sistema penitenciário equipado
o índice de alfabetização e ampliar a escolari-
e qualificado para trabalharem a reintegração so-
zação dos presos.
cial do preso, o Brasil também conseguiria dimi-
14. Assistência laboral e profissionalização - Os nuir seus índices de criminalidade que, vale frisar,
direitos sociais, de acordo com o art. 6º da é oriunda da desigualdade social.
Constituição Federal são: a educação, a saú- O Brasil não pode andar na contramão do de-
de, a alimentação, o trabalho, a moradia, o la- senvolvimento social. Nenhum país no mundo
zer, a segurança, a previdência social, a prote- conseguirá progredir mantendo 4,66% da sua po-
ção à maternidade e à infância e a assistência pulação trancafiada nos cárceres, construir mais
aos desamparados. penitenciárias que escolas, investir mais em se-
15. Assistência à família do preso - Os órgãos gurança do que em saúde, educação, etc. Ainda,
estaduais de administração prisional devem no que diz respeito ao perfil carcerário, observa-se
ofertar assistência social às famílias dos pre- serem eles jovens e adultos (idade entre 18 e 29
sos, com vistas à orientação e amparo, quan- anos), numa fase altamente produtiva do ser hu-
do necessário, conforme art. 23, VII da Lei de mano; terem baixa escolaridade, (cerca de 60%
Execução Penal. dos presos possuem apenas o fundamental com-
pleto ou incompleto); serem provenientes de clas-

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ses desfavoráveis economicamente e serem de cor de mulheres. Tendo por base apenas a população
parda ou negra. A maioria das pessoas foi presa carcerária de homens, o gráfico abaixo(5) exemplifi-
por envolvimento com o tráfico de entorpecentes e ca que o problema dos presídios brasileiros vem de
roubo ao patrimônio.(5) A população carcerária bra- além-muro, de questões de ordem social.
sileira é constituída de 93,4% de homens e 6,6%

Figura 2 – Grau de instrução - homem

0%
1%
4% 6%

13%
18%

58%

Analfabeto Alfabeto Ensino fundamental Ensino fundamental


Ensino superior Ensino acima do superior Não informado

Muitos críticos associam o atual cenário das pri- A prevenção primária é aquela que vai à raiz do
sões do Brasil aos navios negreiros do início da problema, atingindo todos os cidadãos, quando o
colonização, onde havia toda espécie de exclusão Estado promove educação, trabalho, renda, mora-
social, imundícies, mulheres, crianças, jovens e dia, saúde etc., enfim, investimentos sociais. Acon-
idosas em condições insalubres e inumanas. tece que, atuam a médio e longo prazo. Já a se-
Os navios negreiros que chegam ao Brasil apre-
cundária é aquela que atua de forma intermediária,
sentam um retrato terrível das misérias humanas. atingindo parcela dos cidadãos quando, por exem-
O convés é abarrotado por criaturas, apertadas plo, criam-se dificuldades pontuais para a prática
umas às outras tanto quanto possível. Suas faces
melancólicas e seus corpos nus e esquálidos são
delituosa (blitz policiais, pacificação de determi-
o suficiente para encher de horror qualquer pessoa nadas comunidades etc.). Aqui, os resultados são
não habituada a esse tipo de cena. Muitos deles, observados a curto e médio prazo. Por fim, a pre-
enquanto caminham dos navios até os depósitos
onde ficarão expostos para venda, mais se parecem
venção terciária atua de forma específica na pes-
com esqueletos ambulantes, em especial as crian- soa do condenado. Assim, evita-se que aquele que
ças. A pele, que de tão frágil parece ser incapaz de já cometeu o crime venha a cometer novos delitos
manter os ossos juntos, é coberta por uma doença
repulsiva, que os portugueses chamam de sarna.(14)
quando sair da prisão, ou seja, busca a ressociali-
zação e a reeducação do condenado.
De acordo com Oliveira,(14) do ponto de vista cri-
Para se encontrar uma saída para essa crise faz-
minológico a prevenção e repressão da criminali-
-se necessário ir além do cenário atual, do que está
dade deveriam seguir três vertentes: prevenção pri-
posto. Se não existem meios eficientes no país, que
mária, prevenção secundária e prevenção terciária.

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se aprenda com aqueles que já conseguiram alter- CONSIDERAÇÕES FINAIS
nativas eficazes de prevenir a criminalidade e, por
conseguinte, desembaraçar o sistema penitenciá- É sabido que o sistema prisional ainda não conse-
rio; um olhar macro permitiria ao Brasil sair des- guiu o objetivo para o qual foi pensada a prisão, a
ta lista de país mais desigual e injusto do mundo. saber, ressocializar e reintegrar o preso, uma vez
Em um relatório da Organização das Nações Uni- que o mesmo adentra ao cárcere como um infrator
das (ONU),  que foi veiculado em julho de 2010, o da lei. Entretanto, a ideia daqueles responsáveis
Brasil surge com o terceiro pior índice de desigual- por fazer cumprir a lei que pensam que o detento
dade no planeta e, em se abordando da diferença deve ser punido severamente pelo que cometeu,
e distanciamento entre ricos e pobres, fica atrás no está até aí coerente, mas excluí-lo, apartá-lo e tratá-
ranking apenas de países muito menores e menos -lo como um desigual, retirando do sujeito todos
ricos. A ONU apresenta ainda, nesse estudo, como os outros direitos é uma coisa totalmente diferen-
questões basilares de tanta desproporcionalidade te, estaria o Estado agindo contra o que preconiza a
social, a falta de acesso à educação de qualidade, Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.
uma política fiscal injusta, baixos salários e dificul- Muitos presos ao receberem o alvará de soltu-
dade da população em desfrutar de serviços bási- ra, voltam à sociedade convencidos pelo sistema
cos oferecidos pelo Estado, como saúde, transpor- que são de fatos sujeitos perigosos, e que estarão
te público e saneamento básico.(4)  dali em diante sendo vigiados e monitorados pelo
Para Gauer,(15) pessoas e instituições que estão Estado. Entretanto, os mesmos retornarão para as
à frente de iniciativas que visam diminuir, e quem mesmas condições sociais de outrora, mas agora
sabe, acabar com o problema da desigualdade no “imponderado” com a marca de criminoso; a gran-
Brasil, apontam uma difícil fórmula que deve aliar de maioria tende a reincidir no crime e, por conse-
democracia com eficiência econômica e justiça so- guinte, retornarão ao cárcere, criando-se um ciclo
cial como uma solução viável para o problema. vicioso. A crise no sistema prisional tem dado si-
Mesmo com a Constituição Federal e diversos có- nais evidentes de colapso, tamanho a problemáti-
digos e estatutos, assegurando o acesso à educa- ca da superlotação, do número de desmandos que
ção, moradia, saúde, segurança pública, além de vem acontecendo dentro e fora dos cárceres.
autonomias econômicas e ideológicas, o fato que Vale a metáfora de que “foi jogada tanta sujeira
se vê ainda é distante do que se reza nos direitos para debaixo do tapete que este não está supor-
do cidadão brasileiro no que concerne à erradica- tando mais”, o problema tende a voltar para aque-
ção da desigualdade social neste país, em cons- les que a suscitaram. O capitalismo e a corrupção
tante crescimento econômico e político. Entende- geraram as mazelas sociais da desigualdade, pro-
-se, desta forma, que a problemática que envolve duziu uma sociedade de excluídos, marginalizados
a crise no sistema prisional brasileiro poderia ser “tornados” marginais. Diante desse cenário desfa-
solucionada quando a sociedade e os governantes vorável, é gritante a necessidade de uma reforma
começarem a perceber que se faz necessário solu- política e social no país. Pois se assim não for rea-
cionar por primeiro as questões de cunho social, lizado, os cárceres continuarão a refletir a situação
o que diminuiria o substancialmente o índice da de abandono em que passa a maior parte da popu-
desigualdade social e, por conseguinte, o índice da lação tornada pobre. Combater a violência, como
criminalidade. Destarte, menos pessoas adentra- assaltos, tráficos de drogas, roubos e seus corre-
riam ao cárcere, fazendo com que o sistema seja latos apenas construindo mais presídios sem se
mais fácil de ser administrado. atentar para as causas destas questões, que vale
frisar é de cunho social, frutos da má distribuição

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