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EPISTEMOLOGIA DA PSICOLOGIA

Uma epistemologia psicológica poderá entender-se em diversos


sentidos. E à partida, apresentam-se pelo menos duas interpretações
aparentemente bem diferentes.
Num primeiro sentido, a epistemologia psicológica será a eluci­
dação do fundamento epistemológico da psicologia como ciência,
quer dizer, uma reflexão sobre o conhecimento que um sujeito, o psi­
cólogo P, adquire do objecto próprio da sua pesquisa. Problema banal,
se não simples. Mas que se vai complicar ainda mais se se quiser que
esse objecto próprio seja precisamente ele mesmo um sujeito S. Dever-
-se-á, para o destinar aos métodos da ciência, constituir S em objecto,
e arriscar a omitir desde logo a sua especificidade de sujeito? Será
preciso, para atingir esta especificidade, um outro modo de abordagem
que não o das ciências «da natureza»? Ou dever-se-á conceber, de
uma maneira não optativa, que o conhecimento ou compreensão do
sujeito S como tal se constitui validamente pela própria tentativa objec­
tiva? É esta terceira resposta que nós tentaremos defender.
Mas por outro lado o sujeito S — quer seja matemático ou bebé,
«homem da rua» ou rato de laboratório — é sobretudo ele próprio um
sujeito conhecedor. Ele apercebe, compreende, assimila ao seu reper­
tório de acções ou de ideias, os objectos O que podem ser coisas, signos
ou conceitos. Ele ajusta-lhes as suas respostas, as suas decisões, as suas
opiniões. E o estudo desses processos faz naturalmente parte do pro­
grama da psicologia. Donde um segundo sentido da epistemologia
psicológica: uma análise da representação que o psicólogo P nos pro­
põe dos actos cognitivos pelos quais o sujeito concreto S apreende o
mundo dos objectos O. «Epistemologia psicológica» significaria então
«psicologia do conhecimento em geral».
Mas poderá essa psicologia do conhecimento fazer-se valida­
mente, e em que condições? Dois exemplos mostrarão que a questão

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não é trivial, e que não basta, para a resolver, agarrar-se a factos bem
estabelecidos.
Apresentemos a um sujeito, um a seguir ao outro, objectos variados,
alguns dos quais, possuindo em comum uma ou várias caracterís­
ticas (a, foram convencionalmente baptizados X pelo experi­
mentador. O sujeito deve, para cada objecto, adivinhar se ele é X ou
não-A", e apenas é informado imediatamente da exactidão das suas
previsões. Ao fim dum certo tempo, o sujeito reconhece sem erro os X ,
e, se fala, pode sem dificuldade enumerar as propriedades caracterís­
ticas (a, 6. . J dos X. Esta experiência muito clássica informa-nos
sobre a aprendizagem discriminativa de estímulos repartidos em classes
de equivalência, e pode-se estudar em detalhe as leis desse processo,
em função do nível do sujeito, da natureza e do número dos descri­
tores (a, 6, . J , etc. Mas sabe-se que tais provas são correntemente
designadas pelo nome de conceito formação, e o problema consiste
justamente em saber se são verdadeiramente conceitos que se apren­
dem aí, e se essa aprendizagem codificada simula validamente os pro­
cessos cognitivos reais pelos quais os conceitos se formam. Hull, que
apresentou em 1920 a experiência-piloto desse tipo (experiência dita
dos «radicais chineses», segundo um plano muito mais requintado que
o esquema aqui dado), não duvidava um instante do facto: «uma
criança», escreve ele, «encontra-se colocada perante uma certa situação...
e [ouve pronunciar a palavra] cão. Depois de um intervalo de tempo
indeterminado, encontra-se numa situação um pouco diferente e
ouvem-na chamar cão... Ao fim de um certo tempo, a criança possui
uma «significação» para a palavra cão» ( Quantitative Aspects o f the
Evolution o f ConceptSy «Psychological Monographs», 123, p. 5). A expe­
riência e o alcance que lhe é conferido assentam pois inteiramente na
ideia de que a conceptualização consiste em «abstrair» os caracteres
comuns, que essa «abstracção» se estabelece directamente a partir da
percepção das diferenças e das analogias (Smoke, desde 1932, define
as analogias em termos de relações, mas sem modificar o pressuposto
empirista inicial; ver «Psychological Monographs», 42), e por fim que
a «significação» (meaning) não é mais do que uma etiquetagem (labe-
ling). E é a estas asserções que o epistemólogo £ pode recusar o seu
acordo, mesmo se o psicólogo P se contenta com elas, porque fixam
operacionalmente a definição de termos ambíguos. Dito de outro modo,
inatacáveis do ponto de vista metodológico uma vez admitidas as
definições técnicas prévias, as experiências de Hull, como as de Kuo,
Smoke, Heidbreder e até de Reed (que utiliza «paradigmas» varia­
dos de aprendizagem, quer dizer, estruturas conceptuais diferentes,
mas que correspondem todas a categorias verbais unívocas e usuais),
não demonstram que o repertório conceptual do sujeito S se forma
empiricamente, a partir de uma leitura empírica das semelhanças e
diferenças entre objectos, e por um jogo de associações, reforços, etc.
— uma vez que tudo isso está fixado apriori no dispositivo experimental.

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O que essas experiências mostram é que S é capaz de aprender a lógica
do construtor P, que determinou primeiro o mundo (a sua colecção
de objectos) mediante categorias não equívocas, munidas de descritores
fixos (a9 6...), e etiquetadas de modo preciso. Hull não demonstra
Aristóteles nem Locke, e a estátua de Condillac realizou-se apenas num
simulacro. Um simulacro de modo algum inútil, claro, porque Hull
é capaz de enunciar leis exactas e com poder de previsão (prédictives).
Mas que leis? As leis pelas quais um sujeito, primeiro inocente (tabula
rasa, em matéria de radicais chineses),aprende... a lógica das classes
de Hull. É precisa uma cega fé empirista prévia para publicar um estudo,
metodologicamente inatacável, sobre o modo como um rato branco
aprende a saltar sistematicamente para um alvo designado por um
triângulo (do qual se faz variar o tamanho, a cor, a posição, etc.) e não
para um outro designado por exemplo por um quadrado, sob o título:
o Desenvolvimento do conceito de triangularidade no rato branco (Fields,
«Comparative Psychological Monographs», 1932, 9, n.° 2). Disputa de
palavras? Vejamos um segundo exemplo.
Numa experiência muito célebre de N. R. F. Maier (Reasoning
in White Rats* «Comparative Psychological Monographs», 1929, 6,
n.° 29), treina-se um rato branco a atingir, de uma plataforma de par­
tida £>, um ponto B, quando ele tem fome, e, quando tem sede, indife­
rentemente um ponto A ou um ponto C. Faz-se-lhe, por outro lado,
aprender um trajecto que conduz de A a B. Depois, é colocado esfo­
meado em D, sendo-lhe proibido o acesso directo para B que ele conhece
bem: restam abertos os caminhos equivalentes que conduzem a A e a C.
Então, vê-se geralmente o rato desprezar o trajecto para C, meter-se
resolutamente para A, e de A chegar a B, onde encontra com efeito o
alimento. Em termos de factos, eis uma «reunião» imediata de «segmen­
tos de comportamentos» distintamente adquiridos. Em termos de
processos mentais, é, para Maier, uma «inferência» e tudo se passa
como se, escreve o autor, o rato dissesse para si mesmo: «Fui outrora
de A ate B e encontrei lá de comer; nunca fui de C para B; portanto,
uma vez que agora tenho fome, vou primeiro para A e daí para B,
onde encontrarei comida » Evidentemente, Maier não imagina que o
rato faça um tal discurso para si mesmo. Mas ele dirá ou (a) que o
comportamento observado é «o equivalente a um raciocínio implí­
cito», ou (b) que o rato «emprega um processo implícito» equivalente
a uma inferência, ou (c) que, colocado em D, o rato «representa para
si mesmo, de uma forma oú de outra, o trajecto completo para B ,
via A», Pode então considerar-se que estas três expressões são equiva­
lentes, enquanto se trata de descrever o facto, e que o «tudo se passa
como se» é um modo cómodo de contá-lo. Mas o epistemólogo E que
se interesse mais pelo «pensamento» do rato do que pelo do sujeito
Maier declarará o «como se» inaceitável e verá nas formulações (a ) 9
(b) 9 (c) três interpretações muito diferentes: (a) por exemplo, equi­
vale em última análise a dizer que a motricidade (ou a aprendizagem?)

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pode organizar-se segundo estruturas isomorfas às estruturas lógicas
da transitividade das relações (ou das implicações?); (c), para empre­
gar uma linguagem tolmaniana, significa que a aprendizagem assenta,
não em sinais ou trajectos isolados, mas no «mapa do mundo»; (b),
enfim, pode levar a supor, à escala animal, um processo mental iso­
morfo à inferência lógica— hipótese bastante diferente de (a). Sabe-se
por outro lado que Hull (The Mechanism o f the Assembly o f the Behavior
Segments..., «Psychological Review», 1935, 42), sem refazer a experiên­
cia, reinterpretou os protocolos de Maier na linguagem da sua própria
teoria, que não requer nenhuma hipótese quanto aos processos mentais
do rato, mas utiliza leis que dizem respeito aos mecanismos da «res­
posta fraccionada antecipadora», do «reforço» e da «elicitação» das
respostas, do «curto-circuito», etc. O psicólogo P preferirá, sem dúvida,
a versão hulliana, porque ela é mais geral, permite uma avaliação
quantitativa bastante precisa (sobre a probabilidade dos sucessos e a
velocidade dos percursos em função do número de reforços, por exem­
plo), porque é mais mecanista, por fim, e não nos faz correr o risco
dum antropomorfismo fácil. Mas o epistemólogo E não deixará de
perguntar a si próprio o que representa essa interpretação, a que corres­
pondem — para além da sua realização operacional no dispositivo
experimental — o «reforço», o «curto-circuito», etc., se o processo de
«reunião» constitui também uma descrição correcta das inferências
lógicas verbalizadas num adulto, se, por fim, o discurso hulliano, excep­
tuando a elegância e a precisão, não é, em definitivo, tão analógico
como o «como se» de Maier. Posta entre parêntesis, de uma vez por
todas, a ontologia, nenhuma deontologia científica obriga P (nem E,
a fortiori) ao convencionalismo ou ao pragmatismo.
Vê-se bem que a epistemologia psicológica, no segundo sentido
atrás definido, não se reduz ao estudo experimental dos comportamentos
e ao enunciado das respectivas leis. Vemos também que a sua questão
fundamental converge então naturalmente para a que se põe a episte­
mologia psicológica no primeiro sentido do termo. Não basta descrever
ou produzir factos; não se poderá evitar a tarefa que consiste em ela-
borar-lhes o sentido. E será precisamente esse problema do sentido que
nos servirá de fio condutor para este estudo. Mas podemos ainda enun-
ciá-lo de formas diversas, abordá-lo de ângulos bastantes diferentes.
Por outro lado, a que nível convém situar este problema episte-
mológico? Desde já, as opiniões estão divididas. Alguns queriam que
ele fosse tratado antes de serem definidos os métodos, por só se poder
avaliar o valor destes em função da sua pertinência em relação
ao conceito-finalidade da pesquisa. Assim fizeram os filósofos de que
nos ocuparemos primeiro: Auguste Comte ou Bergson, cada um a seu
modo, contestaram antecipadamente uma psicologia experimental
— digamos: empírica — o primeiro porque a sua concepção da ciência
impedia qualquer acesso ao sujeito, o segundo porque a sua concepção
do sujeitoaImpedia qualquer referência experimental; e Husserl queria

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que unia «eidética» constituísse primeiro as formas que garantem aos
extractos empíricos as suas significação e validade. Outros, «operacio-
nalistas» declarados ou simplesmente investigadores activos, recusam
embaraçar-se com esses problemas. É P quem fará a ciência de 5, ou
pelo menos de um objecto que é suposto representá-lo, uma vez que
é este o preço da ciência; e é um terceiro hom em ,E , quem poderá inter­
rogar-se, em seguida, sobre o valor dessa representação— será razoá­
vel discutir o valor da ciência antes de a ciência estar feita? — o que
equivale a desenvolver uma epistemologia em terceiro grau, uma vez
que se tratará do conhecimento que o sujeito E adquire do conheci­
mento que o sujeito P adquiriu do conhecimento do sujeito empírico S .
Solução falsamente sábia, na verdade, e por duas razões essenciais:
primeiro, porque destina ao «filósofo das ciências» o exame dum tipo
de problemas que a história m ostra que, doravante, as ciências podem
e devem inscrever no seu programa e assumir no seu próprio terreno;
em seguida, porque o método, se visa um pouco mais do que os empirical
data o f fa cts, um pouco mais do que a exclusão de Pan do catálogo
baconiano, tem o dever de construir objectos novos: léxico de cono­
tação, já, e logo depois intervening variables não observáveis e
hypothetical constructs (este vocabuláíio é o que os psicólogos ameri­
canos impuseram a si próprios, para analisar e discutir, por exemplo,
as teorias da aprendizagem, e de modo nenhum para daí destacar a
filosofia implícita). É pois, pensamos nós, ao nível dos próprios métodos
que a questão epistemológica deve ser posta — e se põe de facto.
O psicólogo nunca está dispensado de elucidar a sua própria proble­
mática. Tentaremos mostrá-lo por duas vezes: na segunda parte deste
trabalho, ao analisarmos o conceito de «comportamento», e na ter­
ceira, mais sinteticamente consagrada ao problema do método e da
explicação.

A PSICOLOGIA EM QUESTÃO

O VETO DO PO SITIVISM O
O programa positivista de 1826-1830 exclui categoricamente, como
se sabe, a psicologia da ordem das ciências. Nenhum projecto foi então
esboçado, nenhum método foi proposto por Auguste Comte para assegu­
rar aos «factos psíquicos» um estatuto positivo comparável ao que ele
pretendeu dar aos factos sociais, cuja originalidade e irredutibilidade
aos factos biológicos ele justamente sublinhou. N a «física orgânica»,
nenhum lugar está previsto para um conhecimento específico da orga­
nização mental, entre as ciências que se ocupam da organização social

19 — Lógica c Conhecimento Cientifico


e política e as que se ocupam já da organização fisiológica. Mesmo
no contexto do Curso de filosofia positiva, este ostracismo pode
surpreender.
É um facto que a psicologia desse tempo — a de um Royer-
-Collard, a de um Victor Cousin que desfrutava das melhores cauções
universitárias — podia legitimamente ser vista como uma «pretensa
ciência», uma tentativa desesperada dos filósofos «entregues ao estudo
da nossa inteligência» para «atrasar a decadência» do espírito metafí­
sico. Na distinção kantiana do fenómeno e do númeno Victor Cousin,
esquecendo a crítica epistemológica radical, viu apenas dois planos
hierarquizados de verdade, e o eclectismo não teve dificuldade em recon­
ciliar, pelas necessidades da causa, o empirismo de Locke e de Hume
e o idealismo de Platão. A psicologia não é mais, pois, do que uma
aproximação empírica da alma-substância, cuja unidade essencial se
exprime no diverso quotidiano — a «experiência» — e que é laicizada,
a esse nível, com o nome de «consciência», como é laicizada com o nome
de «introspecção» a forma mais modesta do pensamento especulativo
de si mesmo.
Mas porque é que o positivismo nascente não tentou reatar uma
tradição bastante recente, a de La Mettrie, de Charles Bonnet, de Caba­
nis, que tinham, pelo menos, aberto caminho para um estudo positivo
«avant la lettre», para uma «história natural» da consciência, das facul­
dades mentais e dos comportamentos, em relação com o sistema ner­
voso? Poiique é que, uma vez que um século antes Chr. Wolff já distin­
guia entré a psychologia rationalis e a psychologia empirica, Auguste
Comte não imaginou a construção de uma psicologia empírica positiva
sobre as ruínas da psicologia metafísica? Kant, é um facto, tinha já
respondido recusando Wolff nos dois pontos seguintes: a psicologia
racional é rejeitada pela Crítica da razão pura porque assenta num con­
ceito sem intuição; quanto à psicologia empírica, ela não é possível
porque não se poderá medir um facto psíquico como tal, nem fazê-lo
variar sistematicamente, e a simples observação directa altera-o.
Auguste Comte retomará à letra estes argumentos.
No entanto, por volta de 1820, o sucessor de Kant em Königsberg,
Herbart, ensina as bases de uma nova «psicologia como ciência».
Se o fundamento metafísico é explicitamente conservado, o fundamento
empírico (Erfahrung) é precisado: à falta de uma experimentação pro­
priamente dita como a do físico, Herbart preconiza um método compa­
rativo; a observação de indivíduos de raças diferentes, de doenças
orgânicas ou mentais, etc., pode constituir essa espécie de «experi­
mentação natural» que Th. Ribot recomendava ainda cinquenta anos
mais tarde. Por fim, Herbart reivindicava um terceiro fundamento:
a. matemática, não sob a forma das técnicas de medida, mas, como
se diria hoje, sob formas de modelos — e num duplo sentido: modelos
para a inferência, e modelos analógicos para figurar o conjunto da
vida mental; as representações podem ser assimiladas a forças, as suas

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relações a analogias definidas, e encontrar-se-á em Herbart muitas
expressões que evocam por antecipação as teorias do campo, o fisica-
lismo em geral, até os primeiros projectos de Freud, embora se trate
aqui de uma psicologia toda intelectualista. Assim, ressalvando a
referência metafísica que, de resto, em nada lesa o esquema, Auguste
Comte teria podido encontrar em Herbart a ideia de uma «física men­
tal», como tinha encontrado em Montesquieu ou Condorcet a ideia
de uma «física social».
Talvez não tivesse lido, no entanto, essa Psychologie ais Wissens-
chaft neu gegründet... aparecida em 1824-1825. Mas, em 1828, lê e
comenta favoravelmente, no «Journal de Paris», o Mémoire de Broussais
sur Virritation et la folie que goza os «psicologistas» tão severamente
como o próprio Comte, examina como Cabanis «as relações do físico
e do moral estabelecidas sobre as bases da medicina fisiológica», e desen­
volve a ideia de um paralelismo psico-fisiológico geral, das reacções
instintivas e da irritação (sensibilidade) elementares até às funções
mentais superiores. Uma psicologia positiva é inteiramente definida por
Broussais, com o seu objecto próprio, as suas categorias fundamentais,
os seus diversos métodos: observação, experimentação fisiológica,
patologia comparada, e mesmo o método genético directo, uma vez
que Broussais vai observar no recém-nascido o aparecimento das «sen­
sações» sucessivas, que Condillac se tinha limitado a imaginar sobre
uma estátua fictícia.
Em 1854, Auguste Comte publica a sua Introdução fundamental...
Entretanto, Weber enunciou a célebre «lei psicofísica» (1829); depois
vêm os primeiros trabalhos de von Helmholtz (sobre o influxo nervoso,
em 1850), assim como as pesquisas de «psicologia médica» de Lotze
(1852) que reconsideram o problema do espaço táctil e visual. Comte
faz, desde então, o voto de que o estudo das funções mentais e «morais»
se torne um estudo de factos, experimental e racional. Esboça mesmo
uma teoria (completamente abstracta) das «três funções da alma»:
o coração e as suas «inclinações», que desencadeia a actividade mental;
o espírito, que compara e raciocina; o «carácter», por fim, que comanda
a execução. O vocabulário e o estilo mudaram, e dir-se-á, de bom
grado, que «seguramente, não valia a pena...». Mas de psicologia
é que continua a não se tratar.
Não procuremos mais a razão desta teimosia: fidelidade dogmá­
tica ao esquema inicial, ou receio das ressonâncias metafísicas (embora
os termos «alma» ou «espírito» façam parte do léxico comtiano).
Perguntemo-nos, de preferência, o que visa essa exclusão, e o que signi­
fica exactamente. No plano metodológico, a objecção é mais do que
conhecida; ela recusa no seu princípio a introspecção sob todas as for­
mas : «essa pretensa contemplação directa do espírito por si próprio é
uma pura ilusão». No plano epistemológico, o argumento permanece
implícito, e, por outro lado, mais grave, em nossa opinião: a observação
externa como única válida, o estudo experimental dos comporta-

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mentos, etc .7 tudo isso- releva d a biologia e não define nenhuma ciência
original. Fisiologia e sociologia constituem exaustivamente a ciência
positiva do homem.^O que Auguste Comte rejeita não é, pois, tanto a
«ciência da alma», que poderá fazer-se tão positivamente como se faz
uma «ciência da vida»; é a «ciência do sujeito». Ter-se-ia podido fazê-lo
concordar, com rigor, que a «organização mental» é de um nível de
complexidade mais elevado do que a organização biológica, mas não
que ela possa ser diferente, nem irredutível a esta, desde o momento em
quo se Impõe o mesmo método e o mesmo princípio de objectividade.
Tal 6 pois o dilema comtiano: ou a psicologia pretende manter a
sua especificidade epistemológica, e oscila desde então na metafísica
ou no pouco-mais-ou-menos — digamos: a análise literária; ou submete
o seu objecto à metodologia positiva, e toma-se ciência da natureza
e já não ciência do sujeito. O ostracismo de Auguste Comte é, em defi­
nitivo, a consequência lógica de uma assimilação, deliberada talvez,
entre o método e o conceito.
Eis porque consagrámos algumas páginas a esses debates, que
podem parecer pré-históricos em 1966, quando existe uma «psicologia
científica» mais ou menos reconhecida. Mas, de facto, é-o de verdade?
«A psicologia, dizia cruamente Poíitzer (Crítica dos fundamentos da
psicologia, 1928), é científica como os selvagens evangelizados são
cristãos». Será que só experimenta sobre reacções, glandulares ou
motoras, e se limita portanto ao biológico — ou sobre discursos do
sujeito, portanto sobre o introspectivo, provocado mais ou menos
artificialmente? A ciência do sujeito, enquanto tal, far-se-á nesses labo­
ratórios onde correm os ratos, os chimpanzés e as pombas, através das
técnicas que «fazem variar todos os factores excepto um» para atingir
ligações causais — portanto biológicas? Ou antes sobre o divã do
analista onde o paciente, a bem ou a mal, entrega o que ignora de si
próprio ao mesmo tempo que o que sabe ou julga saber, através da
clarividência do «sujeito-que-sabe» (porque já viu outros) e o código
conhecido dos mecanismos da transferência? O debate não está, sem
dúvida, fechado, nem dissipada a confusão que atribuímos a Auguste
Comte. E a maior parte das controvérsias — quer sejam contra a psi­
cologia experimental, ou, no próprio terreno desta, em volta dos pro­
cessos pelos quais se organizará e se lerá o sentido dos factos positiva­
mente recolhidos — continuam a ordenar-se aí. É a infelicidade do
psicólogo: nunca há a certeza de que ele «faça ciência». Se a faz, nunca
há a certeza de que seja psicologia.

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A CRÍTICA BERGSONIANA
E O PROBLEMA DO SENTIDO

A primeira réplica ao veto do positivismo vem naturalmente dos


filósofos. Consiste em afirmar; de diversas maneiras, que existem dois,
e não apenas um, modos de conhecimento, irredutíveis um ao outro e
igualmente próprios para constituir um saber «objectivo». Se as ciências
da natureza (precisemos mesmo: da matéria) consideram um objecto
que, por essência, é independente do observador e pode pois ser, efec­
tivamente, captado do exterior, o sujeito — ou o espírito — é justa­
mente o único «objecto» que se pode captar a si próprio, e pode-se
estabelecer a ciência dele por outras vias que não as que consistiriam
em parodiar a física. Não será o psíquico «o que é imediatamente dado
a um só»? Não será o privilégio do pensamento o poder voltar-se refle­
xivamente sobre si próprio?
Contra o positivismo, o espiritualismo renasce com mais força.
Desde 1838, a tese de Ravaisson ( Do hábito) segue largamente a opinião
biraniana, e anuncia Matéria e memória (1896): porque, bem entendido,
será Bergson quem dará a estes temas a arquitectura de um sistema
completo, e, sobretudo, o apoio de uma crítica minuciosa dos métodos
ou dos resultados da psicopatologia mecanista e da psicologia de labo­
ratório, sobre as quais não tinha deixado de se informar directamente.
Bergson, como se sabe, não nega que essas pesquisas experimentais
possam esclarecer o nosso saber. Mas sublinha constantemente que lhes
falta (e estão definitivamente votadas a essa falta) o essencial, quer dizer,
a própria unidade e a originalidade do espírito. É um «laisser-aller da
inteligência», escreve ele em La Pensée et le mouvant (1922, p. 1312 na
edição do centenário das Oeuvres complètes, 1959, à qual referimos, aqui,
todas as citações), o abordar o estudo do orgânico pelos métodos que
servem para estudar o inorgânico (eis porque a biologia também não
pode decalcar os seus métodos das ciências físico-químicas). O próprio
Auguste Comte, mostra Bergson na sua Notice sur Ravaisson (1904,
p. 1466), não conseguiu sustentar a sua aposta até ao fim. Atribuir a
consciência ao corpo, a memória ao hábito, o pensamento ao cérebro
— ou, diríamos hoje, o psíquico ao comportamento — é ser vítima de
uma dupla ilusão: filosófica, evidentemente, uma vez que se confunde
assim o pensamento e a extensão, e metodológica: não se faz uma
árvore com scrrim. O «paralelismo psico-fisiológico» sob todas as
suas formas: epifenomenismo doutrinal ou hipótese de trabalho, é um
paralogismo (1904, pp. 959-974). E Bergson desenvolve nessa ocasião,
contra o realismo ingénuo c o «idealismo pitoresco», muitos argumentos
que nenhum psicólogo ou psicofisiólogo recusaria nos nossos dias.
Então, que fazer? «Reatinjamo-nos», «desçamos a nós pró­
prios», não para atormentar sistematicamente as nossas consciên­
cias, como esse pobre Victor Cousin que julgava assim enfeitar-se

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com as penas do sábio, mas para nos entregarmos a um «acto simples»,
que «procede de uma faculdade completamente diferente da análise»
(Introduction à la métapliysique, 1903, p. 1431). Tão simples é a intuição
bergsoniana, e tão natural ao espírito, que o filósofo deve renunciar a
deíini-la ou a descrevê-la na linguagem da inteligência. A psicologia
— desde então identificada com a metafísica — não tem sequer que
atribuir-se um método, no sentido de uma tecnologia operatória estru­
turada. A intuição é inefável. Prometem-nos que, por ela, «o retesado
se distende, o adormecido desperta, o morto ressuscita, na nossa per­
cepção galvanizada» (L Intuition philosophique, 1911, p. 1365). Este
estado de graça está, parece, ao alcance de qualquer um. Senão expe­
rimente.
O autor do presente estudo, cujas actividades normais raramente
o expõem a distender o retesado, achou que não devia entregar-se a
isso, no interesse do leitor. Mas duas coisas o tocaram, na releitura de
Bergson. A primeira é que, numa linguagem sem dúvioa diferente e
com conclusões evidentemente diversas, faria com prazer seus, hoje,
os três principais temas da crítica bergsoniana contra uma certa psicolo­
gia «experimental». A segunda é a persistência, até no vocabulário,
dessa intuição indescritível da qual é fácil escarnecer mas que vamos
encontrar em grande número de autores, de inspirações diferentes, e que
por nada do mundo se reconheceriam como bergsonianos.
Bergson, definitivamente, concorda com Auguste Comte em que
uma ciência do sujeito como tal só pode ser metafísica. Mas o estudo
experimental dos comportamentos, que Comte anexava, sem mais, à
biologia, é, desta vez rejeitado como «paralógico», em nome de uma crí­
tica dos métodos, que Bergson identifica com a crítica das noções. Nem
Comte nem Bergson puderam com efeito conceber outro método expe­
rimental que não o da físico-química analítica, e foi como consequência
disso que tomaram as suas decisões. Ambos tropeçaram no problema
do finalismo e mostraram-se prontos a todos os sacrifícios, este para o
manter, aquele para o exorcizar. A crítica bergsoniana da psicologia
científica, uma vez destacada da sua crítica mais geral da ciência e da
inteligência* visa, com efeito, o reducionismo e o atomismo associacio-
nista, e defende uma inteligibilidade própria do vivido, do sujeito.
Aí estão três preocupações permanentes, inelutáveis, da epistemologia
psicológica, e a única questão consiste então em saber se essas críticas
conduzem a liquidar antecipadamente a psicologia (em proveito da
metafísica, da biologia propriamente dita, ou, como veremos dentro
em breve, de um «behaviorismo»), ou se, pelo contrário, uma psicologia
que explicite o seu método é capaz de assumi-las na sua própria pro­
blemática. É verdade que, sobre as localizações cerebrais, por exemplo,
sobre a afasia, sobre o paralelismo biunívoco, muitas reservas que levan­
tavam os Données immédiates em 1889,- Matière et mémoire em 1896,
foram confirmadas pelos progressos da patologia mental e a da neuro *
fisiologia. Mas talvez não seja justo concluir daí que «a observação

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interior pode levar a melhor sobre métodos que se julga mais eficazes»
(U Am e et le corps, 1912,p. 853): porque foram justamente esses métodos
que forneceram desde então contra Broca argumentos mais «efica­
zes» do que aqueles de que Bergson podia dispor. Paralelamente,
é a própria psicologia científica que fará justiça, se tiver ocasião,
ao associacionismo e ao reducionismo.
Resta o tema da «evidência do vivido», que traduz, com certeza,
uma exigência importante do psicólogo, mas sobre o qual parece não
se ter progredido muito desde Bergson. Nem a «psicologia clínica»,
nem a fenomenologia, nem a moderna «análise existencial» ( Daseinsa-
nalyse) de um Binswanger ou a «psicossomática» alargada de um Medard
Boss, a despeito de exposições muitas vezes brilhantes e patéticas, pude­
ram dar, parece, à intuição ou à «simpatia» um estatuto melhor (quer
dizer, ao mesmo tempo mais operacional e intrinsecamente válido)
do que o do «acto simples» bergsoniano. Merleau-Ponty apela também
para o psicólogo, no sentido de uma apreensão directa da «intenciona­
lidade fundamental da consciência», «uma vez quebrados os fios inten­
cionais que nos ligam ao mundo». Sartre, negando que um engrama de
vestígios fisiológicos possa dar conta do Imaginário (1940), que uma
soma de secreções e de contracções nos explique as nossas emoções
(1941), recusa-se, como Bergson, a fazer a árvore com serrim e... con­
vida-nos a que nos coloquemos logo à partida (?) no coração da
árvore. Um autor tão pouco suspeito de afinidades bergsonianas como
Politzer não pode fazer melhor: mete a ridículo essa.alquimia de «repre­
sentações» pelas quais os psicólogos (quem? Taine? Herbart? Binet?)
querem explicar o comportamento do homem, e muda subitamente de
caminho para acabar nessa «inteligibilidade ideal» de que falam
Nietzsche e os humanistas pós-hegelianos: será a «eterna história»,
indeterminável evidência do homem ao homem, que, depois das etapas
variadas duma análise documental prévia (que Bergson também tinha
recomendado) permitirá reconstituir de uma só vez a significação com­
pleta e original do «drama» (Crítica dos fundamentos da psicologia,
1928). Uma via media, ou, para melhor dizer, uma «moção de síntese»,
foi preparada pelo psiquiatra filósofo Karl Jaspers (Psicopatologia
geral, 1913; tradução francesa, 1934): conhece-se a distinção, corrente
já no pensamento alemão do fim do século xix, entre as ciências da natu­
reza, que explicam, e as ciências do espírito e da cultura, que podem
«compreender» sem explicar causalmente. Jaspers mostra que os
dois métodos não são incompatíveis, que podem por vezes convergir
e sustentar-se mutuamente (ver o seu artigo sobre a demência precoce,
in Zeitschrift fur die gesamte Neurologie und Psychiatrie, 1913, 14).
D. Lagache retomou, e ilustrou brilhantemente, esse propósito no seu
pequeno ensaio sobre A Unidade da psicologia (1949). Mas talvez o
epistemólogo não encontre o que pretendia nesta solução, nem pelo que
èla distingue, nem pelo que concilia. Será demasiado pedir à psicologia,
exigir que ela forneça uma «explicação» na sua própria linguagem, ou

295
estabeleça para a , «compreensão» um estatuto de inteligibilidade?
Lagache, prudentemente, tenta fazer jogo igual. Tratando, por exem­
plo, de A Psicanálise (1955), escreve que «as regras de interpretação são
extraídas do saber psicológico que o psicanalista tirou da sua expe­
riência da yida e da sua cultura, da sua própria análise...», etc. Mas
explicita também «critérios de validade» para a interpretação: riqueza
da informação, coerência interna das hipóteses, economia, sem esque­
cer, para o caso particular da interpretação analítica, um critério prag­
mático essencial: «uma interpretação radicalmente falsa... deixa o
paciente indiferente». Vamos ver, 110 entanto, que a própria psicanálise
reclama muito mais do que isto.

SITUAÇÃO DA PSICANÁLISE

A psicanálise feudiana tomou, neste debate, um lugar privile­


giado. Não (ou: não apenas) por prometer intuições mais «profundas»
do que as da consciência ordinária — e por, em princípio, ensinar um
método para lá chegar — mas por ter atribuído a si própria, a arquitec­
tura de um sistema, no interior do qual podemos esperar ler uma solu­
ção coerente para o problema do sentido. Mas não é fácil tratar dela
esquematicamente: ela é ao mesmo tempo praxis, modelo, explicação
e «visão do mundo», e a virtude da doutrina para uns, a sua fraqueza
segundo outros, estaria precisamente no facto de esses planos diferen­
tes não poderem ser claramente distinguidos.
Historicamente falando, a revolução coperniciana da psicanálise
fez-se contra o «naturalismo», e Freud renegou muito expressamente o
«grande projecto» que expusera a Fliess em 1895, e onde, na mais estrita
tradição do fisicalismo empirista, imaginava uma espécie de dinâmica
geral das leis do espírito, fundada nos mecanismos e conexões neuró-
nicas, e utilizando os princípios de energia, de tensão, de descarga, etc.
que Brücke ou von Helmholtz tinham transposto da «física matemá­
tica» para a biologia. Sabe-se, no entanto, que Freud nunca renunciou
a esse vocabulário, nem a esse modo de explicação, e que náo perde
uma ocasião para se reclamar do grande Helmholtz, ou de Fechner.
Desde 1894, todavia, a libido é apresentada como uma forma especifi­
camente psicológica de energia, que se tentará tratar segundo o mesmo
modelo que as energias físico-químicas, mas gue permanece essencial­
mente irredutível a estas. Ora, é já dizer demasiado, ou então demasiado
pouco. Porque este problema é epistemologicamente bem distinto do
de uma lógica dos símbolos, ao qual justamente Freud, ao mesmo tempo,
se prende.

296
Consideremos, com efeito, a tese do inconsciente, que ninguém
contestará que seja fundamental no sistema. O estatuto epistemo-
lógico que se lhe atribui, é, pelo menos, ambíguo. Podemos dizer,
por exemplo, que o inconsciente desempenha na teoria o papel de
uma hipótese-quadro, e Kurt Lewin sublinhou insistentemente que se
trata de um construct, cuja função operacional pode ser definida com
precisão. Freud não se limita com efeito a mostrar que existem «peque­
nas percepções» ou recordações esquecidas que podem, em certos casos,
ressurgir ou influenciar os nossos comportamentos. Ele declara catego­
ricamente que a consciência está mistificada, que os seus dados imedia­
tos são mais frequentemente disfarces ou formações reaccionais do que
evidências sobre o autêntico, e que tanto a organização dinâmica real
como a significação dos móbeis de acção escapam, no essencial, ao
sujeito como ao observador superficial. A afirmação revolucionária,
nomeadamente em relação aos filósofos do espírito, consiste pois
em sustentar ao mesmo tempo ( 1 ) que existe uma unidade da
pessoa, que tudo tem um sentido, que o lapso, o sonho ou o delírio
não são menos estritamente determinados do que o comporta­
mento consciente — e (2) que o próprio princípio dessa unidade coe­
rente e dessas determinações não pertence ao sujeito fenomenal, mas a
um Outro, que se lhe assemelha como um (falso) irmão. Assim, ainda
que Freud tenha sido, constantemente, o seu próprio sujeito, e ainda
que, de J. Ralph (1924) a D. Anzieu (1959) passando por Farrow,
K. Horney, Carstens, se tenha podido dar um estatuto à auto-análise,
é de facto uma dualidade do sujeito e do objecto que é a pedra de
toque da cpistemologia psicanalítica. Eu sou aquele que sou (S),
mas é o analista P que sabe quem é.
O epistemólogo E vai perguntar então como é que ele o sabe.
E, já aqui, as vias divergem. W. Reich, bem como o próprio Freud à
medida que desenvolve o sistema, pensa com efeito que tanto o sentido
como a estratégia curativa devem poder ser inferidos na lógica da teoria
(Znr Technik der Deutung..., «Internationale Zeitschrift fíir Psychana-
lyse», 1927, XIII). Outros lembram, pelo contrário, que o analista tem
também um inconsciente, e que compreende identificando-se ao doente:
é uma «terceira orelha» que escuta (Th. Reik, Listening with the third
Ear, 1949, edição americana; a edição inglesa traz um título diferente).
Mas a tendência actual é para rejeitar este debate como não conforme
com a situação psicanalítica concreta (Kris, 1950). Não poderá haver
«clarificação» do sentido segundo as regras de objectividade controláveis
como tais, uma vez que, em primeiro lugar, mesmo não intervindo
expressamente, o analista P transforma S (permite-lhe a catarse, mas
também entram em jogo transferts e contra-transferts) e depois o sen­
tido é, por natureza, um contínuo histórico em perpétua evolução.
Mas então, a psicanálise é praxis, action-research como se diz, e não se
pode fazer a respectiva epistemologia nocional. Ela prova o movi­
mento andando. Mas não o explica. É normal que o clínico se contente

297
com isso, mas a reflexão do psicanalista não pode ficar por aí. Vemo-lo
bem, por exemplo, através das obras de J. Lacan. Se a questão é a de
tratar, de comentar um caso ou então um texto, não se recua perante
a evocação — ousaremos dizer: encantatória — que assegura uma
«presentificação» do sentido no e pelo «dito psicanalítico»; o sentido é
veiculado pelo discurso, e Lacan sublinhou com insistência que a
acção psicanalítica nada mais é, em si mesma, do que uma troca dis­
cursiva : eu falo e «Isso» fala, e P não fala menos, constituindo o próprio
silêncio uma parte do discurso. Mas Lacan, por outro lado, não deixa
de construir ou descrever «estruturas», e para mais formalizadas (ver
por exemplo o «Séminaire sur la lettre volée», «La Psychanalyse»,
1956,2). Porque o discurso tem as suas regras, e é por isso que a pesquisa
de Lacan se orientou sobretudo para as ciências da linguagem. Se os
significantes de S são só metáforas, metonímias..., P só pode aceder aos
significados apoiando-se numa teoria não metafórica da metáfora.
E dever-se-á conceptualizar metáfora e metonímia, por exemplo refe-
rindo-se aos trabalhos linguísticos de Roman Jakobson («L’instance de
la lettre»..., ibid., 1957, 3). No piano da praxis, Lacan mostra a deca­
dência de uma psicanálise que se contenta com a magia empirico-
-metaforia: «Não há limite para os desgastes da técnica pela sua des-
conceptualização» («A direcção da cura...», ibid., 1961, 6).
Mas o epistemólogo pode também abordar a psicanálise por um
outro prisma. Com efeito, o freudismo fornece uma teoria genética
da afectividade e, se necessário, do comportamento em geral, da
qual se pode até dizer que justifica ou que «explica» a possibili­
dade de uma lógica do sentido. Estamos no plano das causas, ou, para
falar mais prudentemente, no plano do modelo da causalidade. A hipó­
tese do inconsciente é, neste plano, inseparável dum princípio de con­
servação da libido (o «princípio de constância» extraído por Freud de
Fechner) e de uma teoria muito menos clara dos estádios (através dos
quais se cumpre, normalmente, a aventura da libido) e dos mecanismos
que explicam essa aventura e as suas decepções ocasionais. Muito
menos clara, dizemos».porque esses estádios têm, ora o estatuto de
etapas, biologicamente determinadas (e, se necessário, nas perspectivas
«neo-freudianas», sobredeterminadas pelo contexto socio-cultural),
que indicam as regiões ou os objectos sobre os quais os investimentos
libidinais devem fazer-se — ora o estatuto de estruturas, uma vez que
a cada estádio corresponde uma organização típica da personalidade
(ou que, em autores como Anna Freud ou Hartmann, um sistema rela­
tivamente independente do Isso, o do Eu e dos mecanismos de defesa
gerais ou próprios de cada estado, «estrutura» as pulsões). Neste segundo
caso, a teoria deveria ser capaz de descrever tanto essas estruturas como
os respectivos laços de filiação interna, quer dizer, de construir um
modelo estrutural: e ei-la desde então encarando os problemas do
«construtivismo», os mesmos de que falamos mais adiante para a psi­
cologia experimental e para a explicação. No primeiro caso, ou se reme­

298
tem as explicações causais para a biologia, e eis-nos em cheio no redu-
cionismo que a psicanálise recusa em princípio; ou se tenta dar, dessa
dinâmica propriamente psicológica, uma representação que não meta­
fórica («o exército em marcha» de Freud, o «objecto substitutivo», etc.)
o que equivale a definir leis de transformação: e eis-nos reconduzidos*
uma vez mais à estrutura (o conjunto dessas leis) e ao construtivismo
(a elaboração do modelo que assegura a coerência e a inteligibilidade
delas). Tal é, por exemplo, a direcção dos trabalhos de D. Rapaport
que faz uma crítica cerrada da energética freudiana («International Jour­
nal of Psychoanalysis», 1953, 34) e se orienta para uma interpreta­
ção, senão cognitivista, pelo menos paralela, para não dizer isomorfa,
aos modelos de uma psicologia cognitiva (The Theory o f Attention
Cathexis, 1960). De resto, autores como Sears, O. H. Mowrer, etc.,
já tentaram aproximações entre os conceitos psicanalíticos e os das
teorias do comportamento sobre a base de controlos experimentais
(R. R. Sears, Survey o f Objective Stuclies o f Psychoanalytical Concepts,
1943; Mowrer, Learning Theory and Personality Dynamics, 1950).
Dever-se-á dizer que, a proceder desta forma, se desconhece
forçosamente o que há de mais original na psicanálise? Não temos
qualidade para o julgar. As reflexões anteriores não tem a ambição
de terem captado o conjunto dos problemas epistemológicos da psica­
nálise. Somente se quis sugerir que, teoria do sentido ou teoria do com­
portamento e das motivações, a psicanálise não podia iludir o pro­
blema da estrutura, no sentido bastpnte preciso que gostaríamos de
ver atribuir a essa palavra.

O PROBLEMA EIDÉTICO
E A FENOMENOLOGIA

Contemporânea do bergsonismo, a fenomenologia leva, também


ela, a recusar a psicologia empírica, para instaurar os direitos da intui­
ção. Mas o projecto inicial de Husserl, tanto pela sua problemática
como pelo seu método, difere profundamente do projecto bergsoniano.
Pãra este, é a unidade transcendente do espírito que é preciso salva­
guardar; para Husserl, trata-se de elucidar previamente o fundamento
transcendental da verdade, e sabemos, pelo menos desde Kant, que
distância separa essas duas interrogações... e esses dois adjectivos.
Assim, a intuição fenomenológica, se visa essências para lá do múl­
tiplo onde os fenómenos se inscrevem, reclama-se da intuição cartesiana.
Husserl, antes do mais, nada tem de um psicólogo. Sem dúvida
que seguiu os cursos de «psicologia empírica» de Brentano, e daí reteve a
ideia de que todo o acto mental se refere a um objecto que ele visa «inten­

299
cionalmente». Antes de falar das coisas, o pensamento deve poder
explicar-se sobre esta «intenção» que lhes constitui o sentido. Trata-se,
por outras palavras, de assegurar „as condições do conhecimento verí­
dico antes de construir a ciência. E portanto a um problema de episte-
mologia geral que Husserl se consagra, numa época em que justamente
todas as ciências, da lógica à psicologia e da sociologia à aritmética, pro­
curam novas vias e atravessam uma crise de fundamentos por não terem
encontrado, no plano dos conteúdos e da «facticidade pura», a coesão
e a evidência que lhes tinha prometido, cinquenta anos antes, o Discurso
sobre o espírito positivo. E é nesta óptica teorética que Husserl se atira
de entrada, não à psicologia, mas ao psicologismo, quer dizer, à pre­
tensão que explicitavam Stuart Mill, ou Spencer, ou Sigwart, de fundar
a lógica e a ;teoria do conhecimento sobre os factos, sobre as leis empí­
ricas do pensamento. Com efeito, contra Auguste Comte, Stuart Mill
tinha defendido em 1843, diante da «Ethnological Society» de Londres,
que a psicologia podia sef uma ciência independente e mesmo a ciência
fundamental, já que, ensinando-nos como pensamos, pode prescrever-
-nos como convém pensar (e agir) de forma óptima. Ora aí está para
Husserl uin paralogismo m anifesto: não se poderá tirar uma norma de
um facto, e as leis causais do pensamento não podem constituir leis ideais
ou cânones metodológicos para atingir a Verdade uma vèz que o seu
estabelecimento pressupõe justamente cânones de verdade.
A este respeito, a crítica husserliana interessa-nos directamente,
uma vez que ela nega ao psicólogo qualquer direito de se pronunciar
sobre as regras e sobre a estrutura do conhecimento. Mas é claro que
Husserl confundiu, antes do mais, a psicologia como disciplina empí­
rica, e o empirismo como doutrina teorética. Ora, este não é, nem a
consequência inevitável, nem a condição necessária daquela. Podia haver
enganos, é verdade, ao ler Stuart Mill ou as gnosiologias rapidamente
desenvolvidas à volta dos primeiros resultados duma psicologia expe­
rimental debutante: quem media as sensações nem sempre tinha a pru­
dência de Wundt ou o génio de Helmholtz, e reinventava-se facilmente,
na época, certa estátua outrora célebre por só se ter conhecido, à partida,
o odor de uma rosa. As coisas mudaram um pouco desde então, mas os
fenomenólogos obedientes nem sempre parecem ter-se apercebido
disso. Pior. Pode ver-se, por exemplo, um filósofo tão prudente como
Merleau-Ponty reclamar-se do anti-psicologismo husserliano, e pro­
curar, no entanto, na percepção, as origens do conhecimento científico,
enquanto uma enorme quantidade de factos m ostra que, mesmo no
sujeito «ingénuo», não são de modo nenhum os mecanismos perceptivos
que constituem as normas da objectividade. Parece, todavia, que essa
análise da percepção responde a uma visão «eidética», que a purifica
de qualquer pecado de «empiricidade».
Mas o que é precisamente a eidética? Deve ser, segundo Husserl,
uma reflexão prévia a qualquer diligência empírica, cuja finalidade é
elaborar a significação das coisas, antes de ir às próprias coisas. Usando

300
um vocabulário parcialmente retomado de Brentano, Husserl prescreve
que a consciência deve, primeiro, «pôr entre parêntesis» os seus próprios
conteúdos, de modo a apreender a sua intencionalidade fundamental,
quer dizer, a elucidar a mira do sujeito, pela qual os objectos ou os
factos tomam um sentido: tal é a «redução fenomenológica». Mas
enquanto Brentano fazia do acto intencional um objecto da psicologia
empírica, Husserl recusa que a eidética possa ser alguma vez constituída
pela ou na experimentação, uma vez que ela define, justamente, os
quadros transcendentais de qualquer experiência possível. Reencon­
tramos, assim, o tema kantiano, alargado desta vez ao domínio das
significações em geral: a eidética não é um conhecimento do sujeito
empírico intra-mundano, mas uma ciência do Ego transcendental,
sujeito abstracto de qualquer conhecimento. A lição vale, então, para
qualquer disciplina empírica, e para a psicologia em particular. Husserl
apenas negou que a psicologia, a pretexto de se ocupar do sujeito, pudesse
assumir, ipso facto, mantendo-se no único plano dos dados empí­
ricos (a que o filósofo de hoje chama de bom grado, como por troca­
dilho, o plano da «facticidade») a função epistemologicamente consti­
tuinte do eidético, ou julgar-se dispensada no que respeita à sua própria
investigação. Uma ciência que escolhe para objecto o sujeito da expe­
riência deveria mesmo, mais do que qualquer outra, dedicar-se, antes
do mais* à elucidação das relações entre o sujeito observador e o sujeito
observado.
Seria incorrecto desconhecer a importância destas observações,
alegando, por exemplo, que elas relevam de uma especulação meta-
-científica e não dizem respeito à pesquisa no seu trabalho actual.
Acontece além disso que a fenomenologia exerceu, directamente ou
não, sobre a psicologia propriamente dita, uma influência inegável.
Mas as suas lições puderam ser entendidas em sentidos bem diferentes.
E sem dúvida a escola (ou a tendência) que, sobretudo em França,
reservou para si o nome de «psicologia fenomenológica» não é a única
a ter colhido daí benefícios, nem, pensamos, a mais apta a responder
ao problema fundamental levantado por Husserl.
A Gestalttheorie sob a sua forma original — a da «escola de Ber­
lim» por volta de 1920 — é conhecida como teoria da percepção (per­
cebemos, logo à primeira, conjuntos estruturados, e não elementos
que um processo distinto de associação ou de síntese organizaria em
seguida) e como teoria da inteligência (o acto propriamente intelectual
pelo qual o sujeito «resolve um problema» — quer se trate, para o pen­
samento discursivo de concluir um silogismo, ou para o chimpanzé,
empilhando caixas ou engatando paus, de atingir uma banana colocada
demasiado alto — consiste em reorganizar os dados do campo percep­
cionado segundo leis estruturais exactamente isomorfas às da percepção).
A este duplo título, a Gestalttheorie releva da psicologia experimental,
e é no plano da experiência que convém criticar os factos, discutíveis
em mais de um aspecto, que ela produziu: carácter inato das estrutura­

301
ções percèptivas e das constância^ (criticado por Beyrl desde 1925,
bem como^por Brunswik, Cruikshank, Lambercier e Piaget, etc.),
negação do/papel 1 da experiência (discutida pelos mesmos, e muito
recentemente ainda por R. Francês, que, com um material semelhante
ao de Gottschaldt chega a resultados muito diferentes), insights e trans­
posições de comportamentos aprendidos (discutidos experimentalmente
e teoricamente pela maior parte dos teóricos da aprendizagem, e sobre­
tudo por Spence desde 1942 nomeadamente), etc. Nem sempre se cá
conta, em troca, que a Gestalttheorie é também, e talvez sobretudo, uma
teoria epistemológica da estrutura, e que a este respeito representa a
primeira tentativa séria para resolver, cm bases experimentais, o pro­
blema posto por Husserl, de quem os Gestaltistas foram discípulos ou
auditores, embora Köhler tenha recusado a sua influência. «Gestalt»,
em grego, diz-se eidos.
Para melhor se compreender o alcance desta tentativa, é preciso,
sem dúvida, remontar a Brentano e à psicologia experimental alemã do
início do século xx. Sabe-se que as ideias de Brentano orientaram as
pesquisas de Oswald Kiilpe quando, depois de ter trabalhado doze anos
com Wundt, se instala em Würzburg (1894) e se encarrega de estudar
experimentalmente as formas superiores do pensamento. Ora, Külpe
e os seus colaboradores (Watt, Messer, K. Bühler, Orth, etc.) descobrem
ao mesmo tempo que Binet, e pelos mesmos métodos de introspecção
controlada, a existência de um pensamento sem imagens. O espírito
não é o polipeiro de Taine; o pensamento não se limita, dirá Binet, a
«contemplar o Épinal». No simples plano da descrição empírica, con­
vém pois distinguir bem o conteúdo do pensamento, e os factores
estruturantes, conscientes e inconscientes, a que Külpe chama «funções»,
e que os seus alunos tentam inventariar com nomes diversos: «disposi­
ções de consciência» (Bewussteinlagen), atitudes (Aufgaben), inten­
ções, ou, um pouco mais tarde em O. Selz (Zur Psychologie des produk­
tiven Denkens und des Irrtums, 1924): esquemas antecipadores cuja
função dinâmica consiste em completar uma configuração de relações,
de noções, etc. (Komplexerganzung). Mas em relação à natureza e à
origem desses esquemas, nunca a Denkpsychologie foi muito bem
assente. Marbe, em 1901 (Experimentelle Untersuchungen über das
Urteil), não sabendo explicar o juízo através de um estado de cons­
ciência que lhe esteja constantemente associado, não conseguiu fazer
melhor do que invocar as leis da lógica, como se elas constituíssem um
a priori do pensamento. Selz não logrará ir mais longe, a despeito de ter
imaginado uma espécie de paralelismo lógico-psicológico, em que a
organização do pensamento natural reflecte a organização racional
dos sistemas do lógico. Deve portanto considerar-se a este respeito que a
Denkpsychologie termina num fracasso: a análise experimental do
pensamento detém-se definitivamente perante um resíduo ou perante
uma forma" de organização que ela própria não consegue explicar.
Podemos então desconfiar que o psicólogo tenha sido vítima da arma-

302
diiha que Husserl denunciava: quer sejam descritos em termos opera­
cionais como «efeitos das ordens», quer sejam apresentados como
universais, quer se veja apenas neles uma imagem ao espelho das
regras lógicas, os factores estruturantes do pensamento têm enormes
probabilidades de representar a organização mental do observador
(o próprio sujeito enquanto realiza a sua introspecção, ou o psicólogo
que projectou essa organização no problema submetido aos sujeitos),
em vez da do sujeito observado. A eidética da Denkpsychologie não passa
provavelmente de üm artifício de método.
É esta aporia que os Gestaltistas tentaram ultrapassar graças à
teoria do isomorfismo, que afirma uma correspondência estrutural
completa entre a organização dos comportamentos intelectuais, o
campo perceptivo, o campo nervoso polissináptico e os próprios campos
físicos. Rege-os um único princípio de equilíbrio (veja-se o principio
geral de Le Châtelier): em cada plano, podemos encontrar estádios de
equilíbrio estável ou processos estacionários, que são por definição
«boas formas» — e estádios instáveis, processos quase estacionários, etc.,
correspondendo a «formas fracas» de diferentes graus (veja-se W.
Köhler: Die physischen Gestalten in Ruhe und im stationären Zustand,
Braunschweig, 1920). Assim as normas ou «formas» do pensamento
ou da percepção impõem-se do interior, mas o seu fundamento encon­
tra-se numa lei geral da natureza. A inteligibilidade desse fundamento
já não depende portanto do pensamento que acompanha ou descreve
a experiência. Vai-se mesmo além daquilo que Husserl previu. No
entanto, considerou-se por vezes que os Gestaltistas, uma vez reconhe­
cidas as «boas formas» perceptivas e descritas as suas categorias figu­
rais (simetria, regularidade, simplicidade, proximidade, acabamento...)
procuraram (1) encontrar essas características nas condutas intelectuais,
descrevendo as situações-problema como campos perceptivos (é em
particular a crítica de K. Bühler à interpretação gestaltista do insight,
súbita descoberta da solução, que ele próprio tinha descrito sob o
nome de Aha-Erlebnis e considerado como uma intuiçã.o propriamente
intelectual), e (2) explicar as estruturas cognitivas através das estruturas
nervosas, depois físicas, de carácter peífeitamente hipotético. Desse
modo teriam «figuralizado» a inteligência e hipostasiado as Gestalt
cometendo, de uma vez por todas, o duplo erro que criticavam nos
associacionistas: o erro reducionista e o erro realista. E de facto não
faltam textos gestaltistas (nomeadamente em Wertheimer, aluno de
Ktilpe, que não despreza o recurso ao testemunho introspectivo)
que dão o fíanco a críticas deste género. Mas se lermos com atenção
as obras de Köhler, compreenderemos melhor, apesar de afirmações
por vezes dogmáticas, o alcance e os limites reais da teoria, na medida
em que ela propõe um quadro metodológico para a investigação. Nota-se
com efeito que a teoria da Forma é uma tentativa epistemológica para
evitar o duplo obstáculo do mentalismo e do empirismo associacionista,
que aliás viveram em boa harmonia. Decompondo os factos psicológicos

303
em elementos simples; sob o pretexto de que se trata de um passo natural
da ciência, não só não conseguimos descrevê-los correctamente como
também não os explicamos melhor. Quando Thorndike (que Köhler
criticou vivamente) analisa o comportamento animal em termos de
tentativas e erros e de «conexões» entre respostas e estímulos isolados,
limita-se a descrever a formação de hábitos em situações bastante insó­
litas para que o sujeito as possa «aprender» de outro modo que não por
tentativas consecutivas; o método tom a desde logo impossível dar conta
das ligações internas do comportamento. E o associacionismo conduz
quer a desprezar esse problema essencial da organização, quer a invocar
um princípio de organização distinto do próprio comportamento:
faculdade de síntese, finalidade subsumida num princípio biológico
de adaptação funcional ou num princípio espiritual. Propondo a noção
de forma, e a hipótese do isomorfismo, a Gestalttheorie não se limita a
baptizar as condutas organizadas e a explicá-las por um recurso a uma
enteléquia aristotélica. Ela mostra pelo contrário que se pode justificar
as normas que asseguram a unidade da vida mental (e a organização do
comportamento em geral) sem deixar o terreno da explicação científica.
Não é verdade que Köhler «explique» as estruturas mentais através de
formas físicas, nem que ele impute ao sistema nervoso o poder estru-
turante que se recusa a atribuir ao espírito. N ão há dúvida de que as
hipóteses avançadas por volta de 1920 acerca do campo nervoso polissi-
náptico são gratuitas; mas Köhler entendia desse modo abrir o caminho
a uma neurofisiologia ou electrofisiologia estrutural, de que vimos a
partir de então alguns exemplos, e à quaJ consagra hoje (nomead&mente
com Wallach) as suas investigações, paralelamente ao estudo dos after-
-effects perceptivos. À lei fundamental da Gestalt, que por exemplo
Wertheimer enuncia assim: «A form a é tão boa quanto possível nas
actuais condições», e a expressões efectivamente ambíguas tais como
«a percepção tende a substituir formas fracas por formas mais fortes»,
«a inteligência tende a reestruturar os dados do campo perceptivo»,
a todas, dizíamos, foi frequentemente censurado o carácter finalista.
Mas a finalidade que a Gestalttheorie postula não necessita justamente
de qualquer teleologia exterior ao domínio estudado. É ela que Kant
define como «uma ordem na qual a existência e as propriedades do todo
determinam a existência e as propriedades das partes», e cujo isomor­
fismo procura provar, precisamente, que ela não passa de uma
ordem estritamente determinada. Assim em cada plano psicológico,
neurológico ou físico, a teoria das estruturas reforça-se necessariamente
com uma teoria (explicativa) do equilíbrio. A primeira satisfaz as exi­
gências da eidética, a segunda responde às necessidades da explicação
científica, e, nesse sentido, podemos considerar a crítica fenomenológica
como ultrapassada. No entanto a teoria gestaltista está singularmente
limitada pelo facto de apenas reconhecer um só tipo de «boa forma»,
um único modelo de equilíbrio, e de nunca ter tentado diferenciar,
no interior do quadro conceptual e metodológico que a si mesma se

304
fixou, as estruturas próprias do sistema nervoso, da percepção, da inteli­
gência, etc. É nessa medida que se pode apodá-la de «reducionismo fisi-
calista» (Piaget, 1963) e tomá-la suspeita de reconduzir definitivamente
a necessidade lógica à causalidade física. Será necessário aguardar até
que o estudo genético imponha essas diferenciações para encontrar,
com a ajuda da obra de Jean Piaget, por exemplo, uma solução geral,
simultaneamente psicológica e epistemológica, p?ra estes problemas
que Husserl formulou tão categoricamente. Mais adiante voltaremos ao
assunto. Pode parecer paradoxal que nós unamos deste modo Piaget
à fenomenologia, contra a qual ele desferiu efectivamente tantos ataques:
mas há pelo menos dois fenomenólogos de boa obediência, Aron
Gurwitsch em Nova Iorque e E. Paci em Milão que, com as reservas
habituais, certamente concordariam com a nossa opinião.
Mas o que acontece à «psicologia fenomenológica» propriamente
dita? Na verdade, parece que a literatura que se autoclassifica com essa
etiqueta, apesar de um vocabulário husserliano comum e de uma igual
insistência sobre a «autenticidade do vivido», é bem diversa quanto aos
passos e quanto às fontes de inspiração. É verdade que há pelo menos
dois momentos, bastante diferentes, no pensamento husserliano: o pri­
meiro, o das Ideen de 1913, o único que considerámos até ao momento,
que não encararia ainda qualquer «psicologia» fenomenolcgica, mas
apenas um preliminar eidético a toda a psicologia— e o do «último Hus­
serl», que se pode encontrar principalmente nos escritos cuja publicação
está em curso (veja-se Die Welt der lebendigen Gegenwart..., em «Philo­
sophical and Phenomenological Review», 1945-1946), que anunciava já
o estudo sobre a consciência do tempo publicado em 1928 por Heidegger
(Vorlesungen zur Phanomenologie d es inneren Zeitbewusstseins, em
«Jahrbuch für philosophische and phanomenologische Forschung»)
e que será brevemente completado pela edição de manuscritos sobre a
fenomenologia genética. A verdade é que a posteridade fenomenológica
empenhou-se aparentemente menos em precisar o estatuto metodológico
e epistemológico da eidética do que em «constituir o sentido», identifi­
cado com a essência, da experiência vivida. Mas o percurso que leva a
definir a Wesenschau ou a Sinngenesis, as próprias categorias em que
elas se exprimem, estão no mínimo feridas de ambiguidade. Merleau-
-Ponty, por exemplo, (Les Sciences de Vhomtne et la phénoménologie,
1953) considera uma «leitura das estruturas invariantes da nossa expe­
riência»; mas relembra que Husserl desaprovou a psicologia da Forma,
e ele próprio censura a ortodoxia gestaltista por definir a estrutura
como «uma coisa, e não uma consciência», e de atribuir à «ordem das
causas..., do acontecimento», desprezando «a originalidade radical da
consciência». Nega-se veementemente a regressar à introspecção que
separa a noese do noema, ou ao bergsonismo que (a expressão é de
Politzer) visa apenas «o concreto em geral»; mas o «método» das varia­
ções imaginárias supõe «cortados os fios intencionais que nos ligam ao
mundo», «é tomando consciência de mim tal como sou que posso

20 — Lógica e Conhecimento Cientifico


distinguir essências», e essas essências, se as diferenciarmos cuidadosa­
mente das Ideias intemporais platónicas, são apesar disso «omnitem-
porais». Tal como Husserl ou Kurt Lewin, critica o método de indução
empírica daspsicologia experimental ou fisiológica, e relembra que a
Sinngenesis não é um resumo empírico da história, mas sim uma «génese
ideal»: no entanto recusa-se a constituir modelos ou constructs como
Lewin, e opõe até a descrição, que a psicologia fenomenológica impõe a
si mesma, à dedução axiomática ou á «geometrização» do Lebenswelt, etc.
Dir-se-á que reavivamos aqui uma triste querela, lamentando a ausência
de uma «tematização científica», que a psicologia fenomenológica pre­
tende exactamente evitar fornecer. Mas das duas uma: ou já não se
trata de uma psicologia, no sentido de um saber factual, mas sim de
uma antropologia ou filosofia do espírito que já não tem que ver com
o nosso assunto; ou então temos que admitir que a psicologia fenome­
nológica renuncia a desenvolver por sua própria conta a epistemologia
em nome da qual fustiga — e com que perspicácia — as ilusões do
realismo, do empirismo ou do positivismo às quais a «psicologia objec­
tiva», por ingenuidade cientista, se abandonou de facto demasiado
facilmente. Em poucas palavras, a crítica epistemológica não conduz,
como por exemplo com Lewin, a uma conceptualização que elabora o
facto. O «sentido» não é organizado no interior de uma construção
metódica — cuja consistência e cuja concordância com as verificações
experimentais possam ser controladas. A preocupação do concreto,
segundo parece, faz degenerar (outros dirão : alastrar) a eidética consti­
tuinte em antropologia constituída. O exemplo de Sartre é convincente:
a distinção da consciência e do corpo, proposta no Esquisse d'une théorie
des émotions (1939) em nome de uma crítica eidética, conduz em VEtre
e t le Néant (1943) à oposição metafísica do em-si e do para-si. O de
Merleau-Ponty não é menos significativo: a reflexão eidética, no pri­
meiro sentido, parece-lhe conduzir a análises verbais; as referências
ao construtivismo e ao estruturalismo são numerosas, mas pensa-se
evitar tanto o formalismo como o «realismo» dos berlinenses; lança-se
mão também do behaviorismo, mas somente na medida em que ele
pretende descrever sem recorrer ao sistema nervoso. E para acabar?
Desembocamos numa «filosofia da ambiguidade» (De Waelhens,
Lovaina, 1951), que por vezes evoca a ideia cartesiana de uma categoria
«confusa» destinada à «união da alma e do corpo», mas que no total
talvez seja simplesmente o preço do método. É surpreendente ver
uma obra erudita que se intitula la Structure du comportement (P. U. F.,
1942) não estar em condições de descrever qualquer estrutura no sentido
preciso da palavra, nem como «retrato do real», nem como hipótese
explicativa, nem tampouco como modelo directivo para uma leitura
dos factos futuros. Correndo-se atrás do autêntico, só se agarra o con­
fuso. Contra os equívocos do naturalismo e da «explicação», a psi­
cologia fenomenológica não quis sujar as mãos. Mas terá ela mãos?

306
O CONCEITO DE COMPORTAMENTO
E OS PROBLEMAS EPISTEMOLÓGICOS
DE UMA PSICOLOGIA EXPERIMENTAL

Os debates que até agora evocámos parecerão no entanto dema­


siado vagos aos que sabem que, pelo menos desde há meio século
a esta parte, se desenvolveu uma psicologia com as garantias do método
experimental e sem se ver portanto forçada a constituir a sua objec­
tividade através de um subtil desvio epistemológico. Efectivamente,
não é certo que o processo mais directo e mais seguro para levantar o
veto positivista consiste na aceitação do respectivo princípio, e na
consequente definição de um campo de aplicação legítima para métodos
científicos reconhecidos?
Com a lição inaugural de Piéron na École des Hautes Études
(VÉvolution du psychisme, publicada em Março de 1908 na «Revue du
mois») com o manifesto de J. B. Watson (Psychology, as the Behaviourist
Views itj «The Psychological Review», 1913, 20), inicia-se uma nova
psicologia, tão nova que até pensa em mudar de nome: será uma
ciência do comportamento, uma «reflexologia» para os Russos (para
quem, mesmo antes de Pavlov, a palavra «reflexo» tem o mesmo sentido
alargado que actualmente atribuímos a «resposta»); nos Estados Unidos,
W. S. Hunter propõe sem sucesso «antroponomia» em vez de «behavio-
rismo», cuja terminação tem uma ressonância doutrinal, mas que o
hábito consagrou.
No entanto, para fundar uma psicologia positiva, não bastava
renunciar à alma-substância e à introspecção, ter em m ira apenas
«os fenómenos, as suas íeis e as suas causas imediatas» e exigir que as
afirmações do psicólogo sejam regidas pelo raciocínio experimental.
Esse era o programa de Ribot, desde o célebre Prefácio da sua Psycho-
logie anglaise contemporaine (1870), em que os argumentos de Auguste
Comte são explicitamente retomados e desenvolvidos. Mas justamente
Ribot nunca procedeu a experiências, limitou-se a observações tiradas
da patologia mental, que ele considerava, sem dúvida um pouco apressa­
damente, como «uma experimentação do tipo mais subtil, instituída pela
própria natureza em circunstâncias bem determinadas» (art. «Psycho-
logie», em: De la méthode dans les sciences, 1909) e Bergson pode facil­
mente criticar a sua concepção das faculdades mentais — memória,
atenção e vontade — porque Ribot, apesar dos seus princípios, do seu
m étodo e da sua doutrina epifenomenista, não deixou de estudar o
espírito. De resto, o artigo citado de 1909 põe sérias reservas ao para­
lelismo psico-fisiológico, e restabelece a introspecção a dois títulos:
como meio complementar de informação, que podemos controlar expe­
rimentalmente, e sobretudo como condição indispensável de inter­
pretação dos fenómenos, ou seja, em resumo, como constitutiva do
sentido. A despeito das aparências, Ribot, tal como Wundt ou Alfred

307
Binet,nãq transformou a epistemologia psicológica ao defender o método
experimental. Diferente é o caso da epistemologia behaviorista: o con­
ceito de comportamento está estritamente definido; «consciência» ou
«significação» estão excluídas ou reduzidas ao observável, de forma
a que o método experimental apareça não apenas como necessário, mas
também como suficiente para constituir exaustivamente uma «psicolo­
gia», nem que esta tenha outro nome, ou seja, uma ciência autónoma,
em qualquer caso bem distinta da fisiologia. O problema, a partir desse
momento, não é o de saber se essa ciência é capaz de esgotar o conhe­
cimento do homem (será que alguém chegou a ter essa ideia?), mas sim
se o seu programa é consistente e se é sustentável até ao fim. Ora é exac­
tamente disso que a psicologia experimental parece ter quase sempre
duvidado.i
Piéron é categórico. O comportamento é «a actividade dos seres
e as suas relações sensorio-motoras com o meio». E especifica:
«Enquanto a fisiologia se aplica a determinar os mecanismos das fun­
ções de relação tomadas isoladamente, a psicologia deve estudar o jogo
complexo dessas funções...; sendo os sexos diferenciados, por exemplo,
a procura da fêmea, a aceitação do macho, são precursores indispensá­
veis da função reprodutora, e no entanto a fisiologia ignora-os.» (art.
cit.) Mas Watson pretende ser ainda mais categórico, e sob dois aspec­
tos. Em primeiro lugar, assinala o comportamento naquilo a que se vem
chamando desde então o «esquema S — R» : «dado o estímuJo, a psi­
cologia deve prever a resposta: ou inversamente, dada a resposta, a psi­
cologia deve especificar a natureza do estímulo»; por outro lado, é claro
para Watson que uma resposta é uma reacção muscular ou secretória,
e que um estímulo é um excitante externo, descritível em termos físicos,
ou uma resposta anterior do organismo. Em segundo lugar, se no início
aceitara a existência de factos de consciência ou de uma vida mental de
que a ciência não se deveria^ ocupar, não tarda a reduzir todo o psi­
quismo ao comportamento. É conhecido o «slogan» «Mind is behaviour
and nothing else», e a definição watsoniana do pensamento como uma
fala interior, que pode ser integralmente analisada em termos de movi­
mentos da musculatura glosso-faríngica. Aqui temos nós dois temas
que podemos perfeitamente discutir sem por nada deste mundo termos
de voltar a Bergson ou ao «mentalismo».
A definição do comportamento por W atson não chega para distin­
guir a psicologia da fisiologia. Tal como Piéron, opõe sem dúvida à
fisiologia «molecular» o behaviorismo que considera o comporta­
mento as a whole: mas todas as suas análises consistem em decompor
as condutas totais em elos elementares, em «reflexos simples», como
tinha feito por seu lado o psiquiatra russo Bechterev (por volta de 1900-
- 1927; cf. la Psychologie objective, 1910: tradução francesa, 1913).
Pode «fazer-se um estudo totalmente completo e exacto» do comporta­
mento, tal como W atson escreveu em 1919 a propósito das emoções
«sem se saber absolutamente nada acerca do sistema nervoso» (Psycho-

308
logyfrom the Standpoint o f a Behaviorist, p. 195), pode tomar-se o reflexo
e o seu condicionamento por unidades comportamentais sem remontar,
ao contrário de Pavlov, até à própria actividade nervosa. No entanto,
nada disto pode conferir à psicologia mais do que uma autonomia
provisória ou ilusória: todos conhecem a célebre polémica de Pavlov
contra Lashley, discípulo de Watson, sobre este assunto. Mais cedo ou
mais tarde, devemos preparar-nos para ver a fisiologia assumir o encargo
desse estudo macroscópico das reacções, se nenhuma diferença
específica puder ser-lhe precisamente assinalada. De resto, Watson
declarava-se intimamente convencido «da natureza inteiramente físico-
-química de todas as respostas» (Behavior, 1914), e Piéron no seu artigo
de 1908 também não hesita em encarar o dia em que, graças aos pro­
gressos da fisiologia, «a psicologia científica perderá a sua individuali­
dade». Teria então sido Auguste Comte um bom profeta, ao não reservar
nenhum lugar distinto para a psicologia? Sem nos metermos em conjec­
turas sobre o futuro da ciência, é forçoso constatar que a psicologia,
sem renegar as exigências da experimentação (tomadas, é verdade, num
sentido mais ou menos estrito), se encarregou de fornecer algumas
razões sérias para se duvidar disso, e cedo recusou as duas formas do
reducionismo watsoniano. Mas essas razões são de natureza bem diversa:
umas consistem, por exemplo, em rejeitar o objectivismo behaviorista,
em definir de outro modo o objecto próprio da psicologia e finalmente
em reintroduzir o que W atson pretendeu excluir — mas aqui já os
caminhos abertos são bastante diferentes; as outras, pelo contrário,
não põem em causa o conceito de comportamento, mas ao complicar
a sua fórmula põem às claras exigências metodológicas ou nocionais
que ultrapassam muito a epistemologia positivista propriamente dita;
finalmente os próprios progressos da fisiologia não parecem evoluir
no sentido de uma redução dos comportamentos complexos a meca­
nismos supostamente mais «simples», e de qualquer modo nunca no
sentido de uma análise atomística como a encaravam Titchener,
Bechterev ou Watson (e por vezes até o genial Pavlov, cuja obra na tota­
lidade testemunha o contrário, mas que se viu obrigado a polemizar
intensamente contra o «mentalismo»). Sem nos obrigarmos a seguir
uma ordem histórica precisa, ou a distinguir com exactidão as interferên­
cias entre as diversas correntes de pensamento, analisaremos esquema­
ticamente aqui esses três tipos de razões.
I. — Antes mesmo da «revolução» watsoniana, a psicologia tinha
encontrado uma escapatória à alternativa de Comte e ao reducionismo
atomístico. Foi Titchener — fiel a Wundt e à introspecção, mas parti­
dário resoluto de um associacionismo analítico a que então se^chamou
o «estruturalismo» — o primeiro alvo desta reivindicação. E conhe­
cida a célebre polémica que, de 1895 a 1898, opôs a Titchener
primeiro J. M. Baldwin, depois John Dewey, sobre o simples
problema do arco-reflexo a partir de um estudo de Angell e Moore

309
sobre o tempo de reacção. Dewey, e sobretudo J. R. Angell, que conti­
nuou em Chicago as investigações de laboratório enquanto Dewey
preferia voltar-se para as construções doutrinais e a pedagogia, opõem
ao «estruturalismo» de Titchener um «funcionalismo» que se propõe
estudar «o organismo total, espírito e corpo» e que se define como
uma psicologia «das operações mentais» e da «utilidade da consciên­
cia» na medida em que esta assegura uma função de «mediação entre
o meio e as necessidades do organismo» (veja-se Angell, The Province o f
Functional Psychology, «Psychological Review», 1907, 14, 61-91).
Continuamos na geração de William James. Em França, Binei desaprova
o associacionismo que, via Taine, tinha inspirado o seu primeiro livro
sobre la Psychologie du raisonnement (1886) e pede às suas duas filhas
que submetam ao controle paterno os produtos da sua introspecção
(Étude expérimentale de Vintelligence, 1903), escrevendo: «A esta con­
cepção de uma psicologia estrutural, opomos a sua contrapartida, a que
dá a acção como objectivo ao pensamento, e que procura a própria
essência do pensamento num sistema de acção» (em «L'Année psycho­
logique», 1908, p. 145). Mas o que é ao certo a acção, em oposição ao
comportamento definido na mesma época pelo béhaviorisme nascente?
Exceptuando a referência explícita à consciência, as elaborações teóricas
de Dewey ou de Binet não esclarecem nada. Parece que se privilegia
nelas a ideia de uma organização, mas esta ideia, em vez de conduzir a
determinar estruturas — no sentido que o termo tomou a partir dos
Gestaltistas e que já analisámos — pode aparecer então como um fina**
lismo bastante vago e mais ou menos confesso. Os que hoje se dizem
funcionalistas, por exemplo o prudente R. S. Woodworth, nào perdem
tempo aí: insistem apenas na importância da motivação, e defendem
uma «psicologia dinâmica», ecléctica em certos aspectos, mas que se
subordina à rigorosa disciplina do laboratório (veja-se o segundo capí­
tulo do livro de Woodworth: Contemporary Schooís ofPsychology, 1948).
Uma expressão mais precisa do funcionalismo é dada por Egon Bruns-
wik, que desejava que a psicologia se inspirasse mais na biologia do
que na fisiologia pura; mas aqui o contexto nocional e o processo epis-
temológico são bastante particulares: trata-se com efeito para Bruns-
wik de renunciar a estabelecer ligações causais fragmentárias ou locais,
e de fornecer do comportamento uma representação global segundo
modelos probabilistas; mais abaixo, voltaremos ao assunto a propósito
da explicação.
Num plano mais geral, pertence a Pierre Janet o mérito de se ter
distanciado da forma mais explícita em relação ao behaviorismo (de
direito) e à experimentação num sentido restrito (de facto). Resumindo
pouco antes da sua morte as suas ideias mestras numa Autobiographie
(«Les Études philosophiques», 1946), Janet distingue cuidadosamente
a psicologia animal, a quem o conceito de comportamento pode em
rigor bastar, e a psicologia humana cujo objecto é a conduta, que
convém definir de forma totalmente diferente. (Aliás, foi Janet quem

310
impôs este termo, cuja adopção está hoje bastante generalizada,
embora com diversas variantes). Para o estudo do homem, Janet
especifica que «é necessário não só criar um lugar para a consciência,
mas mais do que isso, considerá-la como uma complicação do acto,
que se acrescenta às condutas elementares»; acentua, por outro lado,
que não se deve «esquecer, na descrição dessas condutas, as suas formas
superiores, tais como a crença» (loc. cit., pp. 85-86). Mas a partir destas
recomendações, pode ser deduzida em vários sentidos uma psicologia
da conduta.
Uma primeira interpretação consiste não somente em reintroduzir
a consciência e os processos simbólicos, mas em acentuar particularmente
estes últimos na medida em que não se reduzem justamente a comporta­
mentos. A conduta toma-se então «o comportamento enquanto signi­
fica», e é a significação que constitui o objecto específico da investigação
psicológica. D. Lagache defendeu com frequência, no seu ensino, esta
interpretação, reclamando-se tanto de Janet como de Freud ou Jaspers.
Ele definiria esta psicologia «na segunda pessoa» que pretende conside­
rar «o conjunto das relações do organismo e do meio, ou,em estilo
humanista, da pessoa e do mundo», e para a qual os factos psicológicos
não são nem os estados de consciência do «eu», nem os comporta­
mentos objectivos, mas as condutas e a consciência do Outro (VUnité
de la psychologie, 1949). Para uma concepção desse género, parecia
orientar-se também Georges Politzer: fazendo um balanço crítico do
behaviorismo, da Gestalttheorie e da psicanálise, ele colocava-os lado
a lado, neles denunciando simultaneamente «o realismo, o formalismo
e a abstracção»; opunha-lhes então uma psicologia concreta, «verdadeira
síntese da psicologia subjectiva e da psicologia objectiva», para a qual
«o facto psicológico é o comportamento que tem um sentido humano»
( Critique des fondements de la psychologie, 1928, pp. 254-255). Reencon­
tramos assim o tema da significação, acerca do qual já discutimos.
Uma segunda interpretação estaria mais próxima daquilo que o
próprio Janet realizou. A lista das condutas não é limitativa, mas do
behaviorismo retém-se a ideia de que, mesmo conhecendo-as de outra
forma, se deve exprimi-las «na linguagem dos factos exteriores» (Janet,
«Bulletin de la Société française de philosophie», 1929, p. 78); por outro
lado. urna tarefa importante do psicólogo é a de, longe de desejar reduzir
o superior ao inferior, distinguir com cuidado os níveis hierarquizados
da conduta. Aqui, o Janet clínico converge para a linha de Ribot e de
G. Dumas, que em certo sentido será também a de Henri Wallon. Sob
o ponto de vista metodológico, a observação ultrapassa a experimenta­
ção, e muito mais do que examinar sistematicamente as co-variações
das situações e das condutas, recorrer-se-á às comparações que podem
ser apoiadas pela psicopatologia e os estudos genéticos. Os trabalhos
de^ Janet sobre les Stades de révolution psychologique (1926), sobre
VÉvolution de la mémoire (1928) ou la Personnalité (1929), ou ainda sobre
les Débuts de Vintelligence (1935-36), fornecem brilhantes exemplos de

311
tal psicologia. Infelizmente, o seu valor reside, sem dúvida, mais na saga­
cidade do autor do que nas virtudes de um método preciso. A hierarquia
onto- ou filo-genética das tendências já não se apoia em dados directos
respeitantes ao desenvolvimento mental, mas muito mais em factos
etnológicos ou antropológicos estabelecidos. Quanto às referências bio-
-fisiológicas — a noção de hierarquia funcional obtida de J. Hughlings
Jackson, a teoria geral das tensões e da força psicológica — elas são na
verdade de carácter mais metafórico do que operacional ou explicativo.
Reteremos todavia o tema de uma análise genética, capaz de fornecer
informações de outra espécie que não as fornecidas pela análise experi­
mental propriamente dita.
Uma terceira interpretação da conduta leva a alargar consideravel­
mente a noção e o esquema do comportamento, conservando ao mesmo
tempo integralmente a metodologia esperimental que o behaviorismo
não tinha evidentemente instituído, mas explicitava de maneira rigorosa
e coerente. O behaviorismo molar, o funcionalismo tal como o encon­
tramos em Woodworth ou em O. H. Mowrer, e de forma mais geral
toda a psicologia experimental moderna entenderam-no assim. Podemos
encontrar um belo exemplo disso na5 exposições calorosas e precisas
em que P. Fraisse defende o método experimental e mostra, com uma
judiciosa escolha de exemplos a apoiá-lo, que o seu campo de aplicação
em psicologia não tem limites: «Se em todos os casos o homem é conhe­
cido por partir da observação das suas condutas, a abordagem expe­
rimental que incide necessariamente sobre as condutas de outrem é legi­
timada, incluindo essas condutas também a expressão das reacções inte­
riores e a interpretação pelo sujeito dos seus próprios actos.» (Traité...,
I, p. 73). P. Fraisse dedica-se, por outro lado, a alargar o esquema S — R,
escrevendo a equação fundamental da conduta: R = / (S ^ ± P ),
«indicando a dupla seta que a conduta (i?) depende da interacção entre
a situação (5) e a personalidade (P) do sujeito» (ibid., I, p. 75), £ define
então três modos de abordagem: o primeiro consiste em correlacionar
as variações de R e de S para P constante («estudo funcionai»); o ter­
ceiro consiste em manter S constante; e em estudar as variações de
diversos P através das variações correspondentes dos R («estudo dife­
rencial»). Quanto ao segundo mode de abordagem, aquele a que Fraisse
chama o «estudo estrutural», parece menos bem definido: procedendo
segundo o mesmo esquema que o primeiro, consistiria em estabelecer
as relações internas entre diversos R «que são reveladoras da estrutura
da personalidade» (mas o autor menciona então apenas o exemplo das
análises factoriais). Apresentando as coisas assim, demonstra-se com
certeza o carácter completamente lícito do método experimental,
e não é isso que pretendemos discutir aqui, pois não há nada a acres­
centar aos argumentos e às ilustrações que o próprio P. Fraisse apre­
senta. Mas permanece um problema metodológico de maiores dimen­
sões: o de saber que operações, a partir de um S e de um R observáveis,
permitirão reconstruir as variáveis latentes do termo P intercalado no

312
esquema. Abordamos aqui o problema, fundamental, na nossa opinião,
da função das teorias, que brevemente retomaremos a propósito da
explicação. Ilustrá-lo-emos agora através de três exemplos, recolhidos
intencionalmente em teorias do comportamento que se afirmam todas
behavioristas, e veremos assim a segunda série de razões anunciadas
atrás, para ultrapassar o reducionismo watsoniano.
II. — Um primeiro tipo de resposta ao problema metodológico
que acabamos de levantar é o de B. F. Skinner. Consiste ela, em nome do
estrito positivismo e de um behaviorismo que se pretende «puramente
descritivo», em recusar tomar em consideração essas variáveis latentes
não observáveis. Por isso proíbe-se — e bem expressamente — qualquer
direito a «explicar». A explicação, caso fosse possível, seria da alçada
da fisiologia, e mesmo assim... Qualquer investigação de causas cai na
metafísica. A psicologia do comportamento limita-se a destacar as leis
entre observáveis, e deve tratar de «pôr à luz do dia» o que está escon­
dido, em vez de o postular ou de o imaginar. Mas será que a oposição
entre explicar e descrever tem algum fundamento? O facto em bruto é
opaco, o facto experimental é escolhido, provocado. Voltaremos
ao assunto.
Uma segunda resposta é a de Tolman, que parece ter sido o pri­
meiro a empregar o termo, que se tornou corrente, de intervening varia-
blesy a propósito de um estudo sobre as determinantes dos compor­
tamentos dc escolha («Psychological Review», 1938, 45, 1-41). Desde
es seus primeiros trabalhos, E. C. Tolman tinha com efeito recusado o
behaviorismo «molecular» de Watson (A new Formula for Behoviourism,
«Psychological Review», 1922, 29, pp. 44-53), e cedo propôs uma equa­
ção do comportamento aliás mais complexa que o esquema S — R.
Entre a situação objectiva (que de resto não se reduz a uma colecção
de estímulos físicos mas constitui já uma sign-gestalt) e a resposta obser­
vável, intercalam-se tendências, intenções, esperas antecipadoras...
e «significações» diversas {manipulando, discriminando, utilitanda),
cujos nomes foram frequentemente criticados, bem como as suas cono­
tações «mentalistas», mas que Tolman entendeu definir segundo crité­
rios operacionais precisos (Purposive Behaviour..., 1932, reed. 1949).
Voltando mais explicitamente ao problema das variáveis intermediárias,
Tolman, a partir de 1938 (nrt. cit.) está convencido de que se trata de
construções. Mas elas intervêm apenas com o único fim de justificar as
leis empíricas e, sobretudo, cada uma deve poder ser definida de modo
estritamente operacional, como função dos observáveis, e se possível
como função das variáveis independentes que se fará variar uma de cada
vez, mantendo todos os outros factores constantes.
Foi neste ponto que Tolman começou por opor o seu método ao de
Hullj, que traz para o nosso problema uma terceira solução (em formula­
ções ulteriores, parece que as concepções de Hull e de Tolman se apro­
ximaram). Hull consagra assim nò seu sistema um lugar importante às

313
variáveis intermediárias. Mas mantém a opinião de que «a determinação
da relação funcional entre um facto não observável e qualquer outra
coisa não pode ser realizada pelo simples ajustamento directo de equa­
ções de dados empíricos» (The Problem o f Intervening Variables...,
«Psychological Review», 1943, 50, p. 282). O método consiste então em
proceder a uma construção racional, satisfazendo critérios logico-
-matemáticos internos, e permitindo a dedução a priori de hipóteses que
a experiência evidentemente tem por função verificar. K. McCorquo-
dale e P. E. Meehl, em 1948, («Psychological Review», 55, pp. 95-107)
propuseram distinguir entre intervening variables no sentido de Tolrnan,
e hypothetical constructs9 consistindo estas últimas, como em Hull,
em postular processos ou em elaborar formalmente as ligações empirica­
mente bem definidas. O processo experimental mudou pois de aspecto
— e de estrutura. Continua a partir-se dos factos, evidentemente, e
continua a ser aos factos que se volta em último recurso. Mas a leitura
dos factos já não se limita a uma constatação, que serve de base às infe­
rências indutivas. Ela exige esse desvio capital pela instância dos
modelos, que são não apenas intermediários heurísticos, mas a via de
acesso às estruturas do real. Fraisse não faz qualquer menção a esses
processos na sua tão minuciosa análise do método experimental ( Traité,
vol. I, cap. II, pp. 114-119). Parece que se ligaria de muito melhor von­
tade ao método de Tolman, que desconfia (no que não deixa de ter razão)
das construções do espírito, e que, para ele, os passos hipotético-dedu-
tivos estão suficientemente representados no mais modesto «raciocínio
experimental», tal como o definiu Claude Bernard, mas sob as formas
tecnicamente mais apuradas que os métodos estatísticos hoje permitem
(veja-se Dèfense de la méthode expérimentale, 1956, pp. 17-18). Mas
podemos também considerar que as construções teóricas assim defi­
nidas renovam a epistemologia psicológica e o problema da explicação,
a propósito do qual voltaremos a abordar a função dos modelos e a
teoria «matemático-dedutiva» de Hull. O behaviorismo moderno, em
qualquer caso, não foi o único a ter tentado esta segunda «revolução»,
mais importante — na nossa opinião— que a primeira. Kurt Lewin,
inicialmente formado na escola gestaltista de Berlim mas que se foi
interessando progressivamente pelos problemas de decisão e de afectivi­
dade, opõe, num artigo universalmente conhecido de 1931 («Journal of
General Psychology», 5, pp. 141-177), um modo de pensamento «galilaico»
ao modo «aristotélico» disfarçado sob as quantificações estatísticas dos
que proçuram leis no plano puramente fenomenal. A «teoria do campo»
desenvolvida nomeadamente nos Principies o f Topological Psychology
(1936) apresenta-se então como uma construção racional que, em vez
de classificar e de coordenar os factos a posteriori, permite ter acesso
a eles graças a um sistema nocional definido, e fornece «um método de
análise das relações causais e um método de construção dos conceitos
científicos» (Field Theory in Social Science, recolha, 1951, p. 45).
Infelizmente os modelos de Lewin nunca foram claramente axiomati-

314
zados, e, apesar do seu nome, a psicologia «topológica» só muito de
longe se parece com a topologia propriamente dita, apesar de Lewin
ter constantemente manifestado o seu desejo de dar à psicologia os
instrumentos da matemática qualitativa. Sobre a questão dos modelos
abstractos, os psicólogos encontram-se ainda hoje profundamente
divididos. Uns vêem neles apenas, sob o manto de um discurso rigoroso,
uma reencamação perigosa do formalismo e do nominalismo meta­
físicos; outros pensam pelo contrário que a psicologia pode ter acesso
desse modo a esse «novo espírito científico» que Gaston Bachelard,
falando da relatividade, caracterizava com a bela fórmula: «O real
demonstra-se, não se mostra». Apresentando sob o nome dé «método
a priori» um modelo para justificar curvas empíricas de opinião, J. Stoet-
zel comentava assim esse procedimento: «Deixaremos ...de pedir à
experiência que revele espontaneamente (a) forma [das distribuições].
Reintegraremos a inteligência no seu direito, que é o de procurar uma
maneira racional de assimilar a experiência» (Étude expérimentale des
opinions, 1943, p. 46). Estamos longe do célebre preceito «Direito aos
factos», mas, ao fim e ao cabo, não era Auguste Comte quem afirmava
que «qualquer ciência tende a substituir a experiência pela dedução»?
III. — Estas considerações permitem-nos finalmente abordar de
um outro ângulo o problema inicial do reducionismo propriamente
dito e das fronteiras entre a fisiologia e a psicologia. Longe de o desen­
volvimento da investigação ter progressivamente confiado ao fisiólogo
questões ainda há pouco devolvidas à douta ignorância do psicólogo,
a evolução parece ter-se feito no sentido de uma diferenciação dos pro­
blemas próprios de cada uma das ciências, e de uma coordenação cada
vez mais profunda, não por assimilação recíproca, mas através da ela­
boração paralela de instrumentos conceptuais ou de princípios expli­
cativos comuns. Se com efeito não nos detivermos nas profissões de fé
doutrinais, que conjecturam acerca da natureza do corpo ou do espírito,
torna-se claro que o discurso actual do fisiólogo não é o discurso do
psicólogo, mesmo se eles tendem a exprimir-se ambos numa linguagem
análoga, ou mais exactamente numa sintaxe comum. Ao estudar de
perto o condicionamento, por exemplo, o fisiólogo não se habilitou a
reconduzir as condutas superiores ou complexas a um agregado de
reflexos linearmente associados: porque este «agregado» aparece de
imediato como uma estrutura complexa, bastante próxima daquelas
de que o psicólogo se serve para analisar as formas superiores da con­
duta e do pensamento. Tal como o átomo que, longe de constituir o mais
pequeno elemento indivisível de que o universo é formado, é ele próprio
representado por uma estrutura planetária, o «elemento de comporta­
mento» faz intervir as grandes estruturas anatomo-funcionais,e à escala
dos neurônios a análise já necessita do emprego de modelos sofisticados.
É verdade que os fisiólogos estão, em relação aos dois modelos, quase
tão divididos como os psicólogos. Mas no plano epistemológico parece

315
existirem dois pontos assentes: antes do mais, que a relação da parte
com o todo não representa uma relação do simples com o complexo,
nem em fisiologia nem em psicologia; depois, que a fisiologia não
constitui, enquanto tal, a ordem explicativa dos factos de comporta­
mento que a psicologia se limitaria a descrever, uma vez que ela exige
no seu próprio campo os mesmos instrumentos de descrição e de expli­
cação que esta. Mais adiante veremos o estatuto que Piaget deu a este
«paralelismo» e com que argumentos. Pelo menos citaremos uma decla­
ração de Hebb comentando a revolução behaviorista na sua comuni­
cação presidencial à «American Psychological Association», em 1960:
«Não é possível substituir conceitos psicológicos por conceitos neuro-
fisiológicos, nem hoje nem nunca, mas é possível manter uma reiação
( traductibility o f terms).., entre os dois universos do discurso» (segundo
Fraisse, Traité, I, p. 50).

A EXPLICAÇÃO EM PSICOLOGIA

Temos agora que abordar de frente o problema central da episte-


mologia psicológica, que é o da explicação. A discussão organiza-se aqui
em dois debates que podem ser enunciados grosseiramente como
«explicar ou descrever» e «procura das causas ou estabelecimento das
leis». Sabemos que o positivismo rejeitou como «metafísica» a procura
das causas. Sabemos também que neste ponto ele não foi de forma
alguma acompanhado pelo pensamento científico, e que este faz uso
constante de uma causalidade racional, que nada tem de mágico ou de
metafórico. Será que a psicologia pode ter uma pretensão semelhante?
Ou será que a natureza do séu objecto, a insuficiência actual dos nossos
conhecimentos lhe proíbem, provisoriamente ou para sempre, o acesso
à explicação causal? Dever-se-á notar, por outro lado, que o conceito
de explicação é ambíguo: para alguns o enunciado de leis gerais cons­
titui uma explicação que se basta a si mesma, pelo menos se essas leis
são controladas com precisão e apresentam o carácter de previsão que
é legítimo esperar de uma lei; para outros, pelo contrário, o enunciado
das leis mantém a ciência num nível descritivo, e a explicação envia-nos
de novo para a procura das causas, julgada «metafísica» ou não segundo
o caso. Mas a questão é que existem sem dúvida vários tipos de íeis, várias
maneiras de as estabelecer ou de as enunciar, e pode mostrar-se facil­
mente que o trabalho científico, em psicologia como noutra ciência,
é uma «passagem contínua da procura das leis às hipóteses explicativas»
(veja-se Piaget, rExplication en psychologie, in Fraisse e Piaget, Traité,
1963,1,pp. 123 eseg.).
^IMOs psicólogos que reivindicam para a sua disciplina um estatuto
puramente descritivo e que excluem a explicação propriamente dita são

316
de dois tipos. Uns, como B. F. Skinner, são positivistas estritos que
receiam que, sob pretextos explicativos, se reintroduza na psicologia o
«homem interior». Outros, que podem reclamar-se de Jaspers, Husserl
ou Freud, parecem ter pelo contrário um respeito tão grande por este
homem interior que deixam à pobre fisiologia o cuidado de nos explicar
o corpo, e reservam-se o monopólio da compreensão da originalidade
da consciência e da significação dos seus conteúdos. Para estes últimos,
o caso é claro: não se explica o vivido com uma conceptualização
determinista; podemos pelo menos tentar compreendê-lo: intuição,
simpatia, etc. Pode-se perguntar então porque é que ainda existem
psicólogos. Quem nos pode fazer «compreender» melhor o com­
plexo de Édipo do que Benjamin Constant, a paixão melhor que Sten-
dhal, o ciúme amoroso melhor que o autor do Otelo ? Responder-se-á
que o psicólogo não se prende com a sua experiência pessoal ou com
casos particulares, mesmo se lhes atribui uma grande importância;
que ele formula também leis de carácter geral, exprimindo uma inteli­
gibilidade «ideal», como a chamada lei de Nietzsche, segundo a qual a
frustração encaminha para a agressão ou para uma religião da salvação;
finalmente, que ele nos ensina coisas que o romancista não sabe: Balzac
concerteza não fazia ideia que o pai Grandet tinha talvez tido, por
volta dos seus dois anos, alguns problemas relacionados com a apren­
dizagem esfincteriana. Mas nessas condições, o psicólogo já se não limita
a descrever, nem mesmo a interpretar. Éle elabora legalmente encadea­
mentos que lhe parecem suficientemente regulares; ele destaca perfeita­
mente causas, mesmo que não se compreenda muito bem como é que
elas provocam os seus efeitos. De resto a psicanálise é um mau exem­
plo, porque ela criou precisamente uma teoria, que se pretende coerente,
para explicar essa causalidade. No fim de contas o que estas psicologias
rejeitam é a explicação organicista, seja porque a ignoram (não invocava
Freud frequentemente «razões biológicas mal conhecidas» para explicar
as metamorfoses da libido? Não nos lançam as investigações sobre as
ligações cortico-viscerais na via de uma explicação para certas influências
psico-somáticas bastante misteriosas?), seja porque a julgam inade­
quada para o seu fim. E nisso são capazes de ter razão. Mas o que a
ciência não poderia admitir é que se possa explicar por metáfora (o ais ob
de Jaspers vai frequentemente mais longe do que o raciocínio por analo­
gia ; Freud, para fazer compreender os mecanismos da fixação e da regres­
são, não conseguiu fazer melhor do que representar a libido como «um
exército em marcha, que tem de conquistar posições novas...», etc.)
— ou que uma intuição, por mais apurada que seja em Montaigne ou
Sartre, tenha algum dia o valor de uma explicação.
O organicismo inquieta igualmente Skinner, mas por outras
razões. O innev man ao qual recusa o mais pequeno lugar numa psicolo­
gia do comportamento é tanto o Homo physiologicus como o Homo
psychologicus dos mentalistas, e é em nome de um positivismo ascético
e declarado que Skinner entende construir um sistema «puramente

317
descritivo», excluindo qualquer teoria e recusando-se a colocar qualquer
«questão explicativa». No prefácio do seu livro The Behaviour o f Orga-
nisms$an Experimental Analysis (1938, pp. 44-45), e*e apresenta o seu
método deste modo : «Os conceitos são definidos em termos de obser­
vação imediata, e não lhes são atribuídas propriedades locais ou fisio­
lógicas Um reflexo não é um arco, uma tendência (drive) não é o
estado de um centro... Os termos deste género são puramente utili­
zados para reunir grupos de observações, para enunciar uniformidades
e para exprimir propriedades do comportamento que transcendem os
casos isolados. Não há hipóteses no sentido de coisas a provar ou a
invalidar, mas somente representações adequadas de coisas totalmente
conhecidas. «Um facto é um facto», acrescenta, e o perigo das hipó­
teses é que elas conduzem a dar preferência a um facto em relação a
outro. Em 1950, num artigo intitulado Are Theories o f Learning Neces-
sary? («Psychological Review», 57, pp. 193-216), precisa que se deve
rejeitar como teoria «qualquer explicação de um facto observado,
que lance mão de factos que se passam noutra parte [que não no compor­
tamento observável], situados a um outro nível de observação, des­
critos em termos diferentes e medidos, no caso de o serem, em dimen­
sões diferentes» (p. 193). A teoria parece-lhe inútil e prejudicial, na
medida em que ela desvia o investigador do aperfeiçoamento dos seus
dispositivos para definir as variáveis do comportamento em termos de
observáveis. Recentemente, ainda, Skinner protestava contra the
flight from laboratory (1961) contra as construções hipotético-dedutivas
e os modelos abstractos. Podemos então perguntar se essa posição, que
Skinner reconhece constituir uma «grande audácia» (1950, art. cit.,
p. 216) é sustentável, se o próprio Skinner a sustentava e se a recusa da
teoria não constitui já uma tomada de posição teórica. Com efeito, sem
fazer jogos de palavras, é claro que a explicação ccmeça a partir da
conotação dos factos sob conceitos comuns, e em qualquer caso a partir
da preocupação de descrever factos minimamente gerais numa linguagem
minimamente coerente. Confiar ao «senso comum» o cuidado de escolher
no início as variáveis é um alibi discutível, e os trabalhos de Skinner
mostram suficientemente que o sistema depressa construiu, mesmo na
experimentação, a sua própria sintaxe ao mesmo tempo que a sua semân­
tica. Desse modo, e sem abusar das palavras, pode falar-se de uma teoria
de Skinner, analisá-la como tal, e nela reconhecer mais do que uma
construção hipotética, até mesmo ambiguidades polissémicas: um
conceito tão trivial como o de estímulo, por exemplo, toma em Skinner
pelo menos quatro sentidos diferentes (veja-se W. S. Verplanck, in
Estes e a l.: Modem Learning Theory, 1954, pp. 267-316). Nem de direito
nem de facto Skinner consegue provar que a descrição «ingénua» seja
suficiente, e esteja limpa de qualquer hipótese. Mas temos que reter
uma dupla recusa: a de um recurso explicativo a entidades ou processos
fisiológicos, e a de construções abstractas que pretendessem assegurar,
por exemplo, a dedutibilidade das leis estabelecidas.

318
Poder-se-ia pensar, com efeito, que o estabelecimento de simples
legaiidades é o produto de um procedimento indutivo do pensamento,
em que a dedução intervém apenas ao nível do raciocínio experimental,
e que há ainda uma diferença bastante clara entre esta forma de «expli­
citação legal» e as explicações propriamente ditas, causais ou não, que
tendem a justificar a lei. Mas cedo veremos que não existe solução de
continuidade entre estes diversos procedimentos. Tomaremos aqui
como exemplo o trabalho de um positivista tão rigoroso como Skinner,
H. Woodrow, que tal como ele recusa as explicações que consistem em
imaginar acontecimentos internos e crê «ser possível examinar directa­
mente as relações empiricamente estabelecidas entre as reacções psicoló­
gicas e os caracteres variáveis do meio» (The Problem of General Quanti-
tative Laws in Psychology, «Psychological Bulletin», 1942, 39, pp. 1-27).
Woodrow considera efectivamente os resultados «empíricos» de catorze
experiências completamente diferentes, indo desde uma medida dos
tempos de reacção ao desenvolvimento intelectual, passando por varia­
ções do limiar diferencial e pelas aprendizagens de materiais variados.
Mostra então que, mediante a atribuição de valores apropriados para
especificar em cada caso cinco parâmetros, uma mesma lei aplica-se aos
catorze gráficos considerados. A demonstração é brilhante: o ajusta­
mento da lei aos diversos resultados é obtido por uma indução pura, as
variáveis escolhidas são operacionalmente definidas, os parâmetros não
supõem qualquer hipótese latente sobre os eventuais factores comuns,
e não se consegue ver que classe comum de processos poderia incluir os
catorze resultados fenomenais assim tratados. Temos pois um magnífico
exemplo de lei geral — que não explica coisa alguma. Mas não será isso
precisamente o que se deve deplorar? Será uma preocupação «metafí­
sica» esperar de uma lei geral que nos informe acerca da natureza das
coisas, em vez de nos apresentar simplesmente a constância de relações
matemáticas abstractas? Poder-se-ia objectar também, como faz
M. Reuchlin (Méthodes quantitaíives..., 1962, p. 331) que a «generali­
dade da lei proposta tem como contrapartida uma indeterminação
bastante grande», uma vez que Woodrow se atribui «a liberdade de
fazer variar cinco parâmetros». Em conclusão, ou a generalidade da
lei é um puro artifício de formalização, ou então temos ainda que nos
interrogar sobre a representatividade dessa lei geral, naturalmente sobre
a significação dos parâmetros que permitem a sua especificação. Jamais
ciência alguma procedeu de outra forma. Levando isto até às últimas
consequências, não haveria leis descritivas puras senão tópicas, o que é
contrário à própria ideia de lei. O catálogo da ciência não pode passar
a ser uma colecção de anedotas nem uma lista de leis independentes.
Uma vez admitido portanto o carácter relativo destas distinções,
convém considerar duas direcções possíveis do processo explicativo
propriamente dito. A primeira, a que poderíamos chamar explicação
formal, e que existe em germe desde que haja um mínimo de generaliza­
ção, consiste em construir um sistema em princípio axiomatizável,

319
assegurando á coordenação das diversas leis de tal maneira que elas
possaimser deduzidas a partir de um número de proposições o mais
pequeno.possível. Os modelos assim construídos têm então uma dupla
funçãoriüma função heurística, sem dúvida a mais importante, que é a
de criaivdedutivamente novas hipóteses e procurar factos novos para as
verificar — a tarefa da ciência não é contemplar mas sim interrogar o
real; e uma função explicativa, pela própria coesão que o sistema esta­
belece, e que requer evidentemente o controle permanente da verifi­
cação experimental, de modo que as duas funções do modelo não são
de facto assim tão distintas como a análise epistemológica podia deixar
supor. Mas a verificação de um modelo, a qualquer nível que se situe,
apenas fornece ao pensamento um nihil obstai. E é uma etapa superior a
que pretende atingir o segundo processo de explicação, a que agora
podemos chamar explicação causal, e que se distingue do anterior
por comportar um certo número de juízos de existência e coordenar já
não leis formuladas, mas antes planos ou domínios da realidade. Vê-se
bem a diferença entre a causalidade «metafísica» ou verbal, que se limita
a explicar o real pelo conceito que o descreve (assim, no exemplo célebre
de «pensamento aristotélico» dado por K. Lewin: o negativismo para
explicar as reacções de oposição na criança de três anos) — e a causali­
dade racional que consiste em projectar, segundo a fórmula cartesiana,
uma ligação lógica como ligação real. Afirma-se assim um isomorfismo,
senão mesmo uma identidade, entre o pensamento e a realidade: bem
^entendido, não podemos impedir ninguém de considerar como «mêtãT
física» esta «projecção», keja como for, esta epistemologia, nolfim de
contas Danai, da causalidade, vai pôr ao psicólogo problemas dra­
máticos, que no fundo têm que ver com o mesmo dilema fundamen­
tal: uma psicologia «causal» será ainda uma psicologia? A originalidade
do facto psicológico (e por consequência a autonomia da psicologia)
exigirá que se renuncie a essa causalidade?
Um bom exemplo do primeiro tipo de explicação é fornecido pela
obra de C. L. Hull. Até 1938, tinha-se contentado em proceder pela via
indutiva: instituía experiências bem definidas que conduziam a resul­
tados quantitativos extremamente precisos, atribuía um estatuto opera­
cional sem equívoco aos observáveis, enunciava leis estritas coorde­
nadas por um discurso coerente, mas «ingénuo» no sentido em que os
lógicos falam de «dedução ingénua» para um sistema não formalizado.
Notaremos no entanto que, a partir desta época, a explicação para
Hull consistia em reconstruir o comportamento com a ajuda de leis
bem estabelecidas, e que por outro lado ele não receava, como outros
teóricos behavioristas, assegurar a coerência do sistema pela intro­
dução de variáveis latentes ou «intermediárias» (intervening variales),
mesmo como variáveis hipotéticas que não podem ser medidas nem
manipuladas directamente. (Ele explica-se detalhadamente acerca deste
assunto num artigo ulterior, publicado na «Psychological Review»,
50, pp. 273-291, em 1943). As discussões levantadas pela sua exposição

320
de síntese no Congresso internacional de 1938, em Paris, levaram-no
depois a explicitar, com a ajuda de lógicos como Woodger ou F. B.
Fitch, e de psicólogos como C. L Hovland, a estrutura formal do sistema.
Em 1940, Hull e os seus colaboradores publicam um livro polémico
sobre a aprendizagem associativa (ou melhor a aprendizagem «de cor»:
Mathernaticodcductive Theory ob Rote Learning que, a partir de um
pequeno número de termos não definidos («sujeito, reacção, potencial
de excitação,...») constrói um jogo de definições estritas («aprendi­
zagem distribuída, reacção de perseverança»). Introduz-se então um
certo número de «postulados» que têm o estatuto lógico de axiomas
(formam um sistema consistente, saturado, etc.) apesar de serem natural­
mente concebidos a partir de factos adquiridos, e não determinados
por decreto arbitrário. Desses postulados deduzem-se então, vi formae,
uma série de «teoremas» e «corolários», sendo cada um verificado
«realmente» por uma experiência. O método de Hull, a despeito das
vivas reticências que inspirou em psicólogos de laboratório, mais não
faz aqui do que levar até às suas últimas consequências a lógica que, por
mais modestamente que seja, subjaz a todo o raciocínio experimental.
É evidente que uma construção deste género está sujeita a revisão, sem­
pre que aparece um facto novo ou um desmentido mesmo que parcial
da experiência. E de resto, até à sua morte, em 1952, Hull nunca deixou
de precisar ou de modificar os seus postulados em função dos resultados
entretanto obtidos: três obras, aparecidas em 1943, 1951 e 1952 marcam
as etapas desse progresso. Não nos cabe julgar aqui os resultados de
Hull nem da sua teoria em si mesma, mas sim apenas compreender a
sua função epistemológica. Do ponto de vista heurístico, é claro que
um tal sistema tem a vantagem de explicitar um conjunto de ligações
que, na descrição pura ou no discurso ingénuo, podem ficar implícitos
ou aproximativos, e que assim proporciona simultaneamente ao inves­
tigador um plano de trabalho e instrumentos rigorosos para decisão.
Mas do ponto de vista explicativo, ou fica aquém da explicação causal
ou pensa à partida que a ordem do real é isomorfa da ordem da dedu­
ção. Compreende-se sem dúvida a desconfiança de Skinner, quando ele
nota que muitas vezes é mais fácil complicar um pouco a teoria do que
Tfrelhorar as condições da experiência. Mas podemos não partilhar a sua
convicção de que o comportamento, mesmo reduzido às dimensões sob
as quais temos de considerá-lo, possa ser exaustivamente dominado
através da manipulação experimental e tomar-se um dia susceptível
de leitura a «olho nu» de um espírito positivo que se proíbe a si mesmo
qualquer construção. Permanece contudo uma questão assustadora:
a lógica que assegura a construção de uma teoria da aprendizagem é a
lógica da aprendizagem, ou a lógica do sujeito Clark L. Hull que faz a
teoria ? E fazer esta pergunta não é, pensamos nós, levantar uma questão
metafísica.
Para compreender melhor o sentido desta interrogação iremos
buscar a M. Reuchlin (op. cit., pp. 362-363) a citação seguinte:

21 — I.ógica e Conhecimento Científico


«...é difícil imaginar uma descoberta que decida de uma forma segura
entre as variáveis intermédias de Hull e as de Tolman. E uma matriz
de coeficientes de saturação «explicando» uma certa tabela de corre­
lações observadas será sempre transformável, através do próprio
processo que a fornece, numa infinidade de outras que gozam exacta­
mente do mesmo processo explicativo». O exemplo da análise factorial
é aliás o mais característico a este respeito. Spearman, em 1904 («The
American Journal of Psychology», 15, pp. 201-292). podia acreditar
que ele tinha «objectivamente determinado e medido a inteligência geral»
(é o título do seu artigo) e no seu livro sobre les Aptitudes de rhcmme
(1927, tradução francesa 1936) fala perfeitamente da natureza destas
aptidões propondo uma interpretação psicológica do «factor g».
Depois apareceram Thurstone e outros que não viram no factor g senão
um artifício de método. Hoje, o factorialista dispõe de uma lista impres­
sionante de factores e não é por isso que mede com menos precisão a
vontade do que a fluidez verbal, o sentido espacial do que a aptidão para
a música. Mas quanto a saber se estes «factores» representam uma reali­
dade, é um outro assunto, e o debate sobre isso tomou a forma de uma
discussão escolástica, tendo-se os próprios adversários designado a si
mesmos «realistas» e «nominalistas». A análise factorial é pré-explica-
tiva, e um autor tão prudente e tão positivista como P. Oléron diz
possivelmente demasiado sobre o assunto quando intitula um livro
que faz o balanço das pesquisas factoriais: Les Composcintes de Vintelii-
gence (1957). ^
Pode parecer então que nós chegamos assim a conclusões contra­
ditórias ou pelo menos decepcionantes. Nós admitimos primeiramente
que a explicação começava pela coordenação dos factos e das leis num
discurso coerente e se possível formalizado (é neste sentido que nós fala­
mos de «modelos», ficando entendido que um modelo abstracto pode ser
«realizado» numa máquina cibernética por exemplo) e devemos agora
reconhecer que um modelo tem necessidade de ser também ele interpre­
tado: pode-se julgar acerca da sua sintaxe (validade formal, «ele­
gância», etc.), do seu valor pragmático (número de resultados que ele
integra ou permite prever), mas o problema da sua validade semântica
permanece. Será necessário considerar que o modelo, qualquer que seja
o seu apuramento, nos mantém no plano da descrição e que a explicação
aparece num segundo tempo bem distinto, o da interpretação do modelo ?
Talvez; mas estas questões terminológicas importam menos que uma
elucidação um pouco mais avançada do processo da interpretação.
Em todo o caso devemos reter, tal como já assinalámos atrás, que se
um modelo constitui uma simulação da realidade, toda a experiência e
toda a descrição já em língua vernácula também não deixam de ser
ao seu nível «simulações». Talvez seja superficial, do ponto de vista onto­
lógico, não nos interrogarmos mais sobre as coisas em si; mas a episte-
mologia tem apenas que considerar a maneira pela qual a ciência
constitui (digamos: reconstitui, se se tem medo de um idealismo latente)

322
a realidade nas suas operações e no seu discurso. Poder-se-ia então per­
guntar ao psicólogo quais as razões que o levam a preferir este modelo
àquele outro, e se se trata apenas de uma questão de modo ou de como­
didade. É duvidoso que ele concorde — mas é mais difícil ainda que se
explique claramente acerca disso e que ele integre na sua própria ciência
a epistemologia que lhe diz respeito: «o monstro vingador» do relati-
vismo assusta quem fez profissão de se inclinar sobre a empiricidade e o
psicólogo de 1966 pode recear ainda a excomunhão máxima por «menta-
lismo», se nos explicar como pensa.
O exemplo dos modelos probabilistas far-nos-á compreender
melhor a significação de tais problemas. Sabe-se que em 1955 R. R. Bush
e F. Mosteller propuseram modelos estocásticos de aprendizagem (apre­
sentados a partir de 1951) e que existem muitos outros sobre o mesmo
assunto (por exemplo Estes, 1954, 1955, 1957...; Jonckheere, 1956-1959;
Audley, 1957, etc.). Cada um destes modelos aceita à partida uma hipó­
tese (nem que seja arbitrariamente escolhida) sobre a «natureza das
coisas»: o modelo de Estes é «contiguista» (simples associações entre
estímulos e respostas como na teoria de Guthrie), o de Bush e Mosteller
faz intervir o esforço (como na teoria de H ull); e cada um deles se atribui
da mesma maneira operações próprias para a sua construção: o modelo
de Jonckheere é comutativo (a ordem dos acontecimentos não influi
sobre a probabilidade das respostas) mas «histórico» (dois estados dife­
rentes da sequência de aprendizagem são caracterizados por probabili­
dades de respostas diferentes), enquanto o modelo de Bush e Mosteller é
«não histórico» (faz intervir, apesar do que se disse por vezes, o con­
junto dos reforços passados, mas a dois estados distintos podem corres­
ponder probabilidades iguais) mas utiliza uma álgebra não comutativa
para os operadores, etc. Supondo, como é muitas vezes o caso, que tais
modelos tenham aproximadamente o mesmo valor preditivo, que eles
«consigam» mais ou menos igualmente dar conta dos mesmos factos,
podemos ou lastimar que construções tão sábias tenham este carácter
de gratuitidade empírica (serão os modelos matemáticos apenas a forma
up to date das especulações abstractas dos filósofos do passado?) ou
pelo contrário interrogarmo-nos sobre as razões comuns do seu êxito—e
também das suas limitações. Ora o erro seria imaginar que tudo o que
figura no modelo corresponde termo a termo a um elemento ou a um
domínio da realidade. É conhecido o exemplo clássico: se eu construir
com hastes, bolas e engrenagens um sistema que gira como parecem
girar os planetas ou os iões, de nada serve interrogarmo-nos ponto por
ponto o que representam as engrenagens e as hastes no sistema solar
ou no átomo. E já vemos que é a estrutura do modelo que é necessário
«interpretar», em vez de «realizar» cada um dos seus elementos
figurativos, materiais ou abstractos. Interpretar um modelo é pois, em
psicologia como noutro domínio, elucidar as suas condições de con­
gruência, ou seja, explicar as condições que tornam o modelo adequado
(ainda que apenas parcialmente) aos fenómenos observados — e

323
não «projectai» como ligações reais cada uma das ligações ideais (ou
simbólicas) do modelo. Vemos pois, se aceitarem seguir-nos até aí, que
a fecundidade heurística de um modelo, mesmo imperfeito, é certa,
não só devido., às razões já mencionadas (dedução de novas hipóteses,
procurauoricntada de factos novos para fins de verificação), não só
porque pode fornecer critérios precisos de decisão, mas também porque
habflitaúó investigador a pronunciar-se com mais validade pró ou
contra oLmodelo, de resto — sobre a estrutura da realidade corres­
pondente (foi acerca disso que nos felicitámos, mais acima, na Gestalt-
theories lamentando no entanto que ela não tenha levado mais longe não
só o controle experimental mas sobretudo o desenvolvimento intrínseco
dos seus modelos próprios). Por outro lado, vemos, para o objecto actual,
que a função do modelo não é pré- nem meta-explicativa m as— quase
que se pode dizer «*—métaxu-explicativa, exprimindo esta esquisita pala­
vra a ideia de que o modelo constitui uma mediação indispensável entre
a elaboração da lei e a compreensão do sentido da lei, ou, se quisermos,
entre a lei e a sua ratio essendi. Será que o psicólogo de laboratório, que
não hesita muito em tratar os seus números e as suas observações
através de «métodos estatísticos», para quem o cálculo de uma média
e de um índice de significação coloca apenas um problema técnico e
nãó um caso de consciência, se interroga suficientemente sobre o que
significa a aplicação da inferência probabilista aos factos do comporta­
mento? Ora é sem dúvida a propósito do probabilismo que melhor
se pode ver a conexão e a diferença das diversas instâncias da explicação.
Quando Bush e Mosteller constroem um modelo probabilista de aprendi­
zagem, eles escolhem sem dúvida uma tal linguagem matemática porque
os psicólogos mediram largamente probabilidades de respostas e porque
os preconceitos ou os instrumentos de medida dos experimentalistas
levaram a descrever estocasticamente a realidade: mas Bush e Mosteller
não têm qualquer necessidade de definir um substrato real para as suas
construções. Em compensação, quando Egon Brunswik defende uma
teoria a que chama «funcionalismo probabilista» (veja-se os seus artigos
da «Psychological Review» em 1943, 50, pp. 255-272, e sobretudo
em 1955, 62, pp. 193-217) e quando ele recomenda ao experimentador
«planos representativos» (por exemplo: uma amostra de estímulos
complexos, em vez de «planos sistemáticos» em que os estímulos são
claramente enunciados, definidos e manipulados), ele pronuncia-se
sobre a realidade. Ele defende com efeito que o organismo tem por
«tarefa» adaptar-se a um meio de que recebe sinais ambíguos, e que
toda a conduta é uma aposta. Então a linguagem probabilista deixará
de ser apenas o instrumento de expressão de um psicólogo que não sabe
tudo sobre a realidade, ou que situou o seu nível de observação dema­
siado alto para atingir o estrito determinismo das leis naturais: essa
linguagem exprimirá muito bem a estrutura do comportamento. Quer
se aceite ou não a teoria de E. Brunswik, em qualquer caso não podemos
deixar de ver nela uma explicação e — finalmente chegámos lá — uma

324
explicação causal. Só que não é mais a causalidade do mecanismo,
nem a das variações concomitantes de Stuart Mill, nem — e isto deve
dizer-se sem que haja a intenção de derrubar os ídolos — a que certos
psicólogos, pensando que a sua ciência era demasiado jovem para se
permitirem tais virtuosismos, vão paciente e humildemente reclamar
ao sacrossanto método de Claude Bernard, que é o pai de todos nós.
No entanto gostaríamos que o leitor não interpretasse estas declarações
como uma tomada de posição contra o determinismo, nem a fortiori
contra a metodologia da experimentação. É a título de exemplo, e por
comodidade, que escolhemos o caso dos modelos probabilistas.
Mas o exemplo que melhor pode ilustrar esta articulação das
instâncias explicativas é sem dúvida fornecido pela obra de Piaget,
que, inacabada sem dúvida e chamada, sc bem compreendemos, a
grandes desenvolvimentos, apresenta desde já um esquema muito com­
pleto deste problema, e sobretudo, contém a sua própria explicitação
epistemológica. Psicólogo da inteligência, Piaget começou efectivamente
por representar cada um dos sucessivos níveis do pensamento da criança
por estruturas lógicas, «ingenuamente» descritas no plano empírico
(por exemplo: De la logique de Venfant à la logique de Vadolescent, 1955,
em que se mostra que uma estrutura do tipo «grupo de Klein» — o
grupo I. N. R. C. — permite dar conta de condutas contemporâneas e
bastante diversas no adolescente: proporções, indução sistemática, rela­
tividade dos movimentos, etc.) e formalizadas por outro lado por ele
próprio (Traité de logique, 1950; Es sai sur les transforma tions des opé-
rations logiques, 1952), ou pelos seus colaboradores (J. B. Grize, 1960,
1963). Foi então acusado de colocar no sujeito a lógica pela qual o
sujeito Jean Piaget compreendia os comportamentos da criança. Mas (I)
era necessário reparar bem no facto de que a criança-sujeito deduz;
que a um dado nível, por exemplo, a relação A < C parece impor-se
necessariamente a partir das relações A < B e B < C — e como
aperceber-se desta necessidade expressa pela própria criança sem ser
invocando urna estrutura que garante a dedução interna? — e (2) o
sujeito-lógico Jean Piaget teve que inventar estruturas inéditas,
«mal construídas», que desagradam bastante a um bom número de
lógicos e que de facto são talvez um pouco aborrecidas para o raciocí­
nio adulto, mas que têm por função representar os sistemas inferenciais,
«mal construídos», mas não quaisquer uns, que exprimem os raciocínios
e as condutas cognitivas diversas (classificações, seriações, etc.) da
criança dos sete aos onze anos. Com razão ou sem ela, a lógica de
Piaget pretende pois não ser a lógica do sistema, mas sim representar
realmente o pensamento do sujeito. Ela não justifica as causas que
provocam este pensamento ou que determinam o seu funcionamento.
Mas ela faz-nos compreender, em compensação, de que modo as infe­
rências se podem encadear no pensamento do sujeito. Nesse sentido, ela
explica aquilo que nenhum esquema causal pode demonstrar: o carácter
normativo de que se reveste o pensamento expresso, ou, para usar uma

325
linguagem mais psicológica, o sentimento de evidência, a consciência
de necessidade que acompanha no sujeito o encadeamento correcto ou
não das'-inferências. (Repare-se que, para «explicar» assim aquilo que
a palavi*a «forçosamente» que o sujeito utiliza raciocinando traduz,
abstivemo-nos de lhe pedir uma narrativa introspectiva daquilo que se
passa na sua cabeça ou no seu coração quando pronuncia essa palavra).
A este nível de análise, as estruturas são pois estruturas operatórias,
elas representam as estruturas mentais do sujeito.
Posto isto, o psciólogo Piaget pode abandonar a sala de experiências
e retirar-se para o Aventino da especulação, ou deixar ao lógico Grize (que
não se esconde) o cuidado de proceder a construções abstractas. Procura­
remos por exemplo deduzir as estruturas booleanas, tidas como represen­
tando o pensamento do adolescente, das estruturas de «agrupamento»
tidas como representando o pensamento da criança dos sete aos onze
anos; interrogar-nos-emos sobre quais os axiomas de limitação que é
necessário suprimir dos «agrupamentos de vicariâncias» para obter uma
combinatória completa, etc. E evidentemente, após este flighí from labo-
ratory voltaremos às escolas públicas para ver, junto das crianças que
pensam, se não lhes atribuímos poderes imaginários e se não nos conce­
demos a nós próprios demasiadas liberdades — ou verdades muito pouco
plausíveis — ao trabalharmos no papel. Mas tudo isso não passa da rotina
(essencial) da investigação, e há mais. Isto porque, uma vez cons­
truído (e verificado o máximo de vezes possível nas suas consequências)
esse esquema abstracto de filiação, resta-nos interrogarmo-nos acerca
daquilo que, na realidade genética, corresponde às deduções ideais do
lógico. Por outras palavras, trata-se de «projectar» como explicação
causal aquilo que, na arquitectura do modelo, é representado através de
um jogo de implicações formais. E desta vez não seria razoável fingir
ou ter esperança que a natureza e o desenvolvimento estejam determi­
nados, por harmonia pré-estabelecida, a proceder como os senhores
Piaget e Grize no silêncio do seu gabinete.
Para estes problemas difíceis, um terceiro Piaget, o epistemóiogo,
propôs uma solução «ideológica», enquanto os outros dois procuravam,
pelo seu lado, uma resposta mais «real». A solução ideológica consiste
em distinguir o plano da causalidade orgânica e o plano das conexões
entre significações na conduta (ou na consciência). «Nem o laço entre
significações [valores de verdade, significações efectivas], nem a relação
de significante a significado decorrem da causalidade» escreve Piaget,
que fala neste caso de «implicações no sentido lato» (de que a implica­
ção inferencial manejada pelos sujeitos é um caso particular; cf. Fraisse
e Piaget, Traité, I, p. 150). Por outro lado, ele denuncia as pseudoexpli-
cações interaccionistas que, longe de nos mostrar clara nente as ligações
reais entre a consciência e o corpo, consistem normalmente em imputar
de forma puramente verbal propriedades simbólicas a este, e dimensões
físicas ou orgânicas àquela (loc. c i t I, p. 146-147). Ele apoia-se nesses
argumentos para defender, ou antes para renovar* a solução do parale­

326
lismo psicoÍTsiológico. Mas o paralelismo de Piaget não considera
a consciência ou a implicação das significações um epifenómeno das
acções causais que teriam lugar no organismo. Também não considera,
desnecessário será dizer, o corpo um «órgão de pantomima», paro­
diando, segundo a expressão de Bergson, a ordem do espírito. Pelo
contrário, ele postula, e é isso o essencial, um isomorfismo completo
entre as duas séries de conexões. Esse isomorfismo é ilustrado pela com­
paração clássica do calculador (matemático) que raciocina «em virtude
da validade das suas implicações» e da calculadora (electrónica) que,
mesmo sendo capaz de correcções reguladoras e de «invenção», «fabrica
causalmente» a verdade «com o mesmo desprendimento de um calhau
que assume a forma de um belo cristal se as condições dadas a isso o
obrigarem» (loc. cit., I, p. 151). Mas o argumento que melhor justifica
esse isomorfismo é que para «explicar» hoje as causalidades orgânicas,
o neurofisiólogo utiliza os mesmos instrumentos «abstractos» (modelo
probabilístico do condicionamento em Féssard e Gastaut, redes boolea-
nas de McCulloch e Pitts) que o psicólogo. E n\todo o caso, o parale­
lismo não representa uma solução ontológica. É uma posição metodo­
lógica e, mais amplamente, uma hipótese epistemológica. Aliás, em
Piaget, a epistemologia geral não é um luxo metapsicológico. Ela é
também constituinte e estabelece a base para a investigação empírica
(ver Psychologie et épistémologie génétiques, obra colectiva, pp. 51-65).
Mas, dir-se-á, tudo isto nos esclarece acerca da autonomia da
investigação psicológica até mesmo sobre as relações entre a alma
e o corpo, mas de forma alguma sobre o problema da explicação causal
em psicologia. Ou deveremos daí concluir que a explicação causal
pertence ao domínio da fisiologia, reservando-se a psicologia o privilégio
das «explicações ideais» ao mostrar-nos more logico as «implicações»
do comportamento? É evidente que não, pois a fisiologia não faz menos
uso dessas explicações «ideais». Falta no entanto dar um último passo,
e é curioso que Piaget não insista mais nisso no texto que citamos, onde
classifica metodicamente os diversos tipos de explicações psicológicas
(ele não retoma na sua conclusão o tema que menciona, p. 1-142).
Tínhamos ficado antes deste parêntesis sobre o paralelismo no modelo
das filiações lógicas entre estruturas, que se procurava «interpretar»
no sentido acima definido. Ora, no sistema de Piaget, essa interpretação
consistiu em sugerir um modelo probabilístico parcial (Logique et équi-
libre, 1957), que pode exprimir-se na linguagem da teoria dos jogos,
mas também, sem dúvida, doutra forma. O desenvolvimento intelectual
não poderá depender de um factor causal único (maturação, meio físico,
influência social difusa ou transmissão cultural propriamente dita) tanto
mais que esses factores se condicionam mutuamente. Seria pois em vão
que procuraríamos ao preço de muitos artifícios ou muitos esforços
isolá-los experimentalmente, bem como esperar os «selvagens do Avey-
ron» periódicos que a história propõe às nossas curiosidades. Se, pelo
menos, a bastante ampla variabilidade desses diversos componentes

327
leva apesar de tudo a uma certa ordem dos níveis de desenvolvimento,
é preferível procurar tratar esses níveis como patamares de equilíbrio
(o que não obriga a nada) a tentar então explicar o processo «causal»
da equilibração, o que obriga a muito mais: e o ciclo recomeça, com os
modelos, com os garantes empíricos das interpretações do modelo, etc.
Para já, este programa mal foi encetado, e a legião dos arquitectos a
ele se entrega activamente em diferentes direcções: modelos algébricos
(Apostei, 1957, 1959, 1963), cibernéticos (o «genetrão» de S. Papert,
1963, que se equilibraria por construção progressiva cm patamares
sucessivos, diferentemente dos homeostratos habituais), ou revisão por
D. E. Berlyne (1960) dos esquemas de Hull, nos quais este brilhante
experimentador introduz modelos extraídos da teoria da informação,
da teoria dos grafos e da álgebra dos grupos transitivos. Mesmo que
os consideremos imperfeitos, arbitrários ou inquietantes (ao apresentar
alguns destes trabalhos em 1963, Piaget não deixou de formular diversas
reservas acerca da sua interpretação literal imediata), esses modelos
perfeitamente abstractos deveriam conduzir-nos mais cedo ou mais
tarde ao coração da realidade: é um facto que o psicólogo não reconhece
neles a sua criação; mas quem reconhece no discurso do físico a matéria
«que eu vejo e eu toco»? Já é talvez tempo de o psicólogo, em vez de
se amarrar, por razões de humildade ou soberba, a um concreto que
nada mais é do que a anedota, estar em condições de pensar a reali­
dade concreta — e a sua rede de causas — racionalmente.

CONCLUSÕES

O conjunto das reflexões que aqui fizemos envolve, como se deve


ter notado, uma opção. Gostaríamos de salientar, à guisa de conclusão,
as suas grandes linhas, e sobretudo fazer aparecer essa opção não como
uma escolha pessoal ou como uma adesão de escola, mas como uma
orientação e um projecto de investigações capazes ae responder às
exigências da epistemologia psicológica, tais como as apresentávamos
no início.
E primeiro que tudo, no que respeita ao método no sentido técnico
do termo, que fique bem claro que não voltaremos a pôr em causa o
método experimental. É evidente que nenhuma ciência de factos pode
garantir os seus decretos fora de um campo de factos, nem dispensar
a explicitação do procedimento que assegura o seu controle ou repro­
dução. Um facto não prova nada, evidentemente, e mil factos não
passam de uma crónica; mas um facto pode desmentir, e qualquer
asserção que não possa vir a ser infirmada pelos factos não é uma asser­
ção científica. Em contrapartida, o que nós contestamos é que o método

328
experimental se reduza à tecnologia do laboratório e à epistemologia
dos cânones da indução; por outro lado, contestamos que ela baste,
na qualidade de meio de abordagem e de manipulação do facto, para
constituir os conceitos — e, a Jortiori, o conceito — da psicologia.
Aceitar a jurisdição da experiência obriga em si apenas a uma episte­
mologia mínima — diríamos: a uma epistemologia de grau zero. Mas é
necessário não confundir esta com a epistemologia latente das decisões
operacionais. Ao escolhermos o estudo experimental da memória, por
exemplo, não nos comprometemos muito. Comprometemo-nos mais
se decidirmos estudá-la através da aprendizagem de listas de sílabas
sem significação. Ebbinghaus e Bergon, Husserl e Auguste Comte
enganaram-se, cada um à sua maneira, por não terem estabelecido essa
distinção primordial.
Uma opção ulterior orientou-nos para o estruturalismo. Que não
haja enganos quanto a esta palavra: ela não obriga ninguém, aqui, a
uma escolha doutrinal. É um facto, no entanto, que nos afastamos assim
das epistemologias empiristas clássicas. Mas, para nós, a opção estru-
turalista não passa de uma exigência epistémica. Isto não se deve somente
ao facto de a psicologia pretender descrever «totalidades organizadas»,
dar conta da «unidade da pessoa», mas ao facto de o programa da ciência
não se deter no catálogo das leis. Que as estruturas sejam ou não à
imagem do real é outra questão; pelo menos, elas representam o pensa­
mento científico na sua reivindicação de inteligibilidade. Não será pois
por acaso, sem dúvida, ou por artifício, que colocamos primeiro que
tudo a estrutura no desembocar do inquérito eidético e que, efectiva­
mente., a reencontramos tanto no quadro das teorias do comportamento
elaboradas como na preocupação da psicanálise de fundamentar
a lógica do sentido ou a dinâmica das pulsões. O que era necessário
tentar demonstrar é o facto de a epistemologia estrutural não ser um
preconceito pré-experimental nem uma teoria acrescentada posterior­
mente ao inventário dos factos para disfarçar as suas lacunas através
de construções arbitrárias. E que, além disso, ela não é uma elegância
de apresentação. Ela actua na própria experimentação e aquilo que
esperamos dela é, retomando uma expressão de K. Lewin, «um método
de análise nas relações causais e um método de construção dos con­
ceitos científicos» (Field Theory in Social Science, recolha póstuma, 1951)
Mas continua a existir o risco de formular um juízo de existência
acerca de tais estruturas e de imputar simplesmente a S, o objecto-
-sujeito que está na origem de todas as nossas desgraças, a lógica das
operações através das quais fingimos tê-lo compreendido: projecção
realista (ai de nós!) contra-transfert ou assignação voluntária, sem
outra forma de processo. Ora, existe justamente outra fórmula de
«processo» psicológico, e daí pensarmos que a opção estrutural beneficia
ao garantir-se com uma opção genética, que pelo menos evitará assimi­
lações demasiado fáceis. Ninguém jamais saberá se o rato de Maier,
citado no início, «infere»v ou se o adulto que raciocina conscientemente

329
em proposições não passa de facto do palco de um curto-circuito de
respostas. Assim formulado, o problema não faz sem dúvida muito
sentido. Em contrapartida, se verificarmos que para se apropriar de um
objecto que se acaba de esconder perante ele debaixo de écrans sucessivos
um bebé de 18 meses se tom a capaz de compor praticamente relações
assimétricas transitivas («o objecto .v está colocado debaixo de A ...» etc.),
não poderíamos simplesmente atribuir-lhe uma inteligência discursiva
das relações, pois 5 anos mais tarde ele não é ainda capaz de seriar siste­
maticamente tábuas ou pesos, e menos ainda de inferir A < C a partir
de enunciados verbais tais como «B > A e B < C». Em troca, não
seremos muito tentados a assimilar simplesmente a inferência deste
último nível a uma junção de segmentos de comportamento; nem,
finalmente, a supor que a razão é dada ao homem por não se sabe muito
bem que «génio da espécie», mesmo emergindo apenas bastante tarde
como emergiriam, por exemplo, os sinais somáticos da puberdade.
Em resumo, a perspectiva genética, porque estuda por definição a
transformação das estruturas através das continuidades funcionais,
pode pelo menos garantir o psicólogo contra o duplo escolho do redu-
cionismo e do mentalismo.
Mas há mais. Evocámos frequentemente o problema do sentido,
e constatámos que este não era deforma alguma apanágio das psicologias
«compreensivas» que aliás o escamoteavam de facto por desejarem aí
chegar por via demasiado recta — pela intuição. Vimos também que
iludindo-o no plano da investigação, a psicologia «objectiva» não deixa
de o reencontrar no plano da epistemologia. Mas então nesse plano,
a tão célebre distinção de Jaspers (quando muito metodologicamente
aceitável) já não pode ser aceite: se P «compreende» verdadeiramente S,
pode explicá-lo — explicar-se, se preferirmos; se P explica verdadeira­
mente S 9«compreende-o» e faz-nos compreendê-lo de uma certa maneira.
O sofisma estaria em confundir a questão da significação com a da
interioridade. Ora, o que é objectivamente o sentido (subjectivamente
pode ser tudo)? Tanto para S como para P, tanto para o behaviorismo
como para a psicanálise, é, por um lado, uma rede de relações inteli­
gíveis e, por outro, um sistema de determinações: por outras palavras,
uma estrutura e uma causalidade — ou, se preferirmos, uma forma actual
e uma história. E por isso, para a psicologia, o recurso genético surge-
-nos não mais como uma simples precaução, mas como uma necessidade
explicativa. Aliás, como todos os caminhos levam à estrutura, e3es levam
igualmente à génese. Essencial à psicanálise, a génese também não está
ausente do behaviorismo e por algum motivo as «teorias do comporta­
mento» são, sem excepção, teorias do learning. Se, não satisfeito em
revelá-los, o método experimental considera dever produzir os factos,
ele impõe ipso facto a si mesmo a temporalidade causai. Mas atenção
para não confundir a «génese actual» e o desenvolvimento, a história
verdadeira e as suas simulações experimentais. O perigo não reside
tanto na infidelidade dessas simulações, mas antes, como já o repetimos

330
amiúde, no facto de elas simularem para o sujeito a epistemologia do
construtor. Ser-se-ia provavelmente menos empirista, na psicologia
anglo-saxónica por exempJo, se não se tivesse previamente identificado
o «learning» do laboratório e a«formação» genética.
Considerado na sua globalidade, não será talvez uma infelicidade
tão grande para o psicólogo ter tomado como objecto um sujeito que
de certo modo se lhe assemelha. O físico não é obrigado a uma opção
metafísica mesmo quando é forçado a admitir que existe uma razão
para as coisas. Porque não existiria uma razão do sujeito? Se seguirmos
de perto o sujeito nas suas opções actuais, no seu discurso, na sua
história, acabaremos por tornar conformes às suas as operações através
das quais o explicamos a nós próprios. O psicólogo receia sempre
reconstruir o sujeito à sua imagem; mas o sujeito paga-lhe na mesma
m oeda.
PlERRE GRÉCO.

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