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XIII SIMPEP - Bauru, SP, Brasil, 6 a 8 de Novembro de 2006

Análise de custo/volume/lucro em uma pequena empresa: estudo de


caso na panificação

Rodrigo Knackfuss Rodrigues (UFRN) rodrigok22@hotmail.com


Hygu Vinicius Gomes (UFRN) hygu01@hotmail.com

Resumo: A gestão de custos possui como uma de suas ferramentas a análise de


Custo/Volume/Lucro, utilizando-a para gerar informações úteis à tomada de decisão, e
propiciando ao empresário um conhecimento maior a respeito do próprio negócio. O
presente estudo objetivou realizar a análise CVL em uma pequena empresa, no caso uma
panificadora localizada em Natal-RN. Dentre as considerações feitas com relação ao ponto
de equilíbrio foi obtido o resultado de 31,57% das vendas normais para que o PE seja
atingido, e a partir deste observa-se uma margem de segurança correspondendo a 68,43%.
Evidenciou-se a baixa alavancagem da maioria dos produtos na panificação, dando-se
destaque ao pão francês que possui o maior valor, 0,85, ratificando sua maior importância
econômica com relação aos demais produtos. Levando-se em conta os dados levantados,
pode-se concluir que uma correta interpretação dos mesmos promove um melhor controle
gerencial para qualquer empresa. E através deste estudo pode ser tomada alguma postura
decisória para o futuro da empresa a fim de melhores resultados.
Palavras-chave: Pequena Empresa; Análise CVL; Panificadora.

1. Introdução
Apesar da grande evidência da importância da gestão de custos nas empresas, muitos
ainda persistem em desagregar valor ao mesmo em relação ao bom gerenciamento da
empresa. Isto tem ocorrido muito nas micro e pequenas empresas em que os empresários
persistem em aplicar um gerenciamento de custos de forma intuitiva e/ou muitas vezes de
maneira equivocada, o que muitas vezes gera decisões controversas a respeito da produção.
Uma das ferramentas da gestão de custos é a Análise de Custo/Volume/Lucro,
utilizando-a para gerar informações úteis à tomada de decisão e propiciando ao empresário
um conhecimento maior a respeito do próprio negócio. A empresa e os consumidores são
diretamente afetados pela conseqüência de tal fato, uma vez que conclusões mais coerentes
são feitas e decisões mais corretas são tomadas a respeito da produção.
Segundo dados do PROPAN (2006), com 52 mil empresas em todo o país, faturando
cerca de 25 bilhões de reais e estando entre os seis maiores segmentos industriais do país, a
panificação não apresenta situação diferente da anteriormente exposta. Esse estado se torna
mais crítico quando é relacionado à entrada de setores mais agressivos do varejo, como por
exemplo “fast food’s” e lojas de conveniência, o que faz com que as panificadoras necessitem
atingir uma alta eficácia na gestão, um dos fatores que determinará a capacidade da empresa
em conseguir espaço nesse competitivo mercado.
O presente estudo justifica-se pelo fato de proporcionar ao empresário um melhor
controle gerencial de todo seu processo, permitindo-lhe tomar decisões referentes à redução
de custos e melhor aproveitamento de seus recursos, ao mesmo tempo em que minimiza a
falta de parâmetros na área subsidiando estudos que possam utilizá-los como medida
avaliativa e comparativa de seus resultados.

1.2 Objetivo
Realizar a análise de custo/volume/lucro em um pequena empresa, no caso uma

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panificadora, elaborando um relatório útil para fins gerenciais.

2. Metodologia
O presente estudo possui cunho descritivo do tipo estudo de caso, uma vez que esta
natureza de pesquisa caracteriza-se por descrever e analisar um sistema através de um
contexto local e real (JUNG, 2004). O universo de pesquisa foi uma panificadora loclizada em
Natal-RN estabelecida há 12 anos, gerenciada atualmente pelo segundo proprietário,
constituindo seu mercado consumidor basicamente pelos moradores da região onde
predominantemente é observada uma população das classes B e C. Seus produtos são
panificados básicos em virtude de seu mercado, seus insumos de produção são caracterizados
por produtos de classe “B”. A empresa mantém em sua folha de pagamento 9 funcionários,
assim distribuídos: 3 no processo produtivo (1 padeiro, 1 ajudantes, 1 forneiro), 3 no setor de
vendas, 2 no caixa e 1 na gerência de produção. Inicialmente foram realizadas visitas técnicas
com o intuito de compreensão e mensuração dos custos na empresa. Foram realizados
também o acompanhamento de vendas e histórico contábil da empresa a fim de levantar os
dados necessários para a elaboração da presente pesquisa.

3. Análise de Custo/Volume/Lucro
Em uma empresa, quando um planejamento é elaborado, observa-se que o resultado é
conseqüência de uma combinação de variáveis cuja análise CVL trata. Essa análise
corresponde a compreensão das relações entre preço de venda, volumes de venda e de
produção, custos, despesas e lucros nos diferentes níveis operacionais da empresa (BERBEL,
2003).
Na análise CVL há uma clara utilização da distinção entre custos fixos e variáveis, o
que remete à utilização do custeio variável. Esse método de custeio considera apenas os
custos variáveis, quer sejam diretos ou indiretos. No custeio variável, os custos fixos são
considerados como despesas e são apenas levados em conta ao final do período nos resultados
(MARTINS, 2003; LEONE, 2000). Diversas vantagens são oferecidas por esse tipo de
custeio, por exemplo, o lucro de um período não é afetado por mudanças na absorção dos
custos fixos resultantes das variações do volume de produção. Porém, o fator mais relevante
com relação a este método para a análise CVL é que o custeio variável é usado atrelado ao
conceito de margem de contribuição, o que facilita a gerência na tomada de decisões, em que
é possível analisar o impacto de cada produto para a empresa (MOTTA, 2000). A margem de
contribuição é definida como a dedução dos custos variáveis na receita das vendas e fornece
algumas vantagens a mais para esse tipo de custeio, como por exemplo, as análises do ponto
de equilíbrio (MARTINS, 2003). O ponto de equilíbrio evidencia o volume que a empresa
precisa vender, para que consiga pagar os custos e despesas fixas a partir da margem de
contribuição unitária. A partir deste ponto a empresa passa a ter lucros. A informação do
ponto de equilíbrio da empresa é importante porque identifica o nível mínimo de vendas em
que a empresa deve funcionar. O excendente ao ponto de equilíbrio pode ser relacionado a
margem de segurança que representa o nível em que as vendas podem cair não
correspondendo em prejuízo (MARTINS, 2003; BERBEL,2003).
Outra variável analisada na análise de CVL é a alavancagem operacional. Esta
representa a relação entre o acréscimo no lucro total pelo aumento da quantidade vendida. É
dependente da margem de contribuição e dos valores dos custos e despesas fixas, os quais
determinarão a margem de segurança anteriormente citada. Quanto maior a margem de
segurança, obtêm-se menores alavacangens operacionais (MARTINS, 2003; BERBEL, 2002).

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4. Resultados
4.1 Custeio Variável e Margem de Contribuição
Ao iniciar o trabalho, foi constatado que a empresa não possuía nenhum tipo de
controle em relação à venda e à produção de panificados. Assim como foi observado que a
orientação do quanto seria produzido era determinada através da intuição dos funcionários do
setor de vendas que informavam ao padeiro a quantidade de pães a serem produzidos. O
padeiro, por sua vez, ficava responsável pela determinação da quantidade de cada insumo que
seria consumido no processo. Salientando-se que tais projeções não se mostravam muito
precisas e que em alguns momentos culminavam em erros grosseiros. Não havendo nenhum
tipo de registro, a primeira medida tomada foi o controle de vendas, que consistia na
contagem do número de pães no momento da abertura da panificadora, bem como a contagem
de todas as unidades recebidas e no final do dia. Através das variações eram determinadas as
quantidades vendidas. Tal procedimento foi realizado durante três meses consecutivos de
produção, chegando-se ao resultado demonstrado na tabela 1. As quantidades apresentadas
com números não inteiros referem-se aos produtos vendidos por peso.
Tabela 1 – Média de vendas
Produto Qtde Valor Produto Qtde Valor
Amarelo 445 R$ 89,00 Pão de leite 99 R$ 29,70
Biscoito palito 22,00 R$ 55,00 Pão de queijo 19,79 R$ 158,33
Bol. Copinha 64 R$ 166,40 Pão de q. recheado 15,5 R$ 155,02
Bol. Regalia 215 R$ 430,00 Pão doce Rainha 15,99 R$ 94,73
Carrapicho 1693 R$ 338,60 Pão Francês 55493 R$ 11.098,60
Carteira 4222 R$ 844,40 Pão integral 251 R$ 489,45
Doce c/ coco 3527 R$ 705,40 Pizza Rainha 98,67 R$ 592,00
Doce s/ coco 1703 R$ 340,60 Queijada 202 R$ 202,00
Far. de rosca B 13,90 R$ 55,62 redondo 3881 R$ 776,20
Far. de rosca F 53,33 R$ 138,67 Salg. De queijo 37,15 R$ 371,50
Gravatinha 18,69 R$ 186,86 Sanduba 265 R$ 265,00
Língua de sogra 13,97 R$ 87,34 Seda 6163 R$ 1.232,60
Pão Amanteigado 647 R$ 194,10 Sonho 170 R$ 136,00
Pão c. quente 72 R$ 288,00 Torrada 26,01 R$ 104,06
Pão de forma 63,44 R$ 317,52 Torta Salgada 29,53 R$ 284,99
Total R$ 20.227,68

Para a apuração e mensuração dos custos de produção, foi feito um acompanhamento


contínuo da produção durante duas semanas para quantificar a mão-de-obra direta e a
quantidade de matéria-prima usada na produção. Vale destacar que apesar de existirem
receitas para cada tipo de pão as mesmas não são necessariamente as únicas formas para fazer
o produto, temos como exemplo a produção do pão francês que podemos encontrar com a
adição de manteiga ou não, o mesmo valendo para as quantidades de insumos usados, tais
variáveis sendo definidas pelo próprio perfil de consumidores e pela mão-de-obra
responsável, o padeiro.
A quantificação da energia elétrica foi feita baseada em cálculos teóricos relacionando
a potência das máquinas usadas e o tempo de uso das mesmas. Destaca-se também que para
fins práticos o custo com gás GLP foi classificado como custo fixo, tendo em vista que o
forno necessita manter-se aquecido, logo o gás permanece ligado mesmo que não se esteja
produzindo nada naquele instante. Assim, quantificar todo esse tempo em que funciona
mesmo ocioso, seria um tanto que complicado, logo foi utilizado em nossos custos fixos uma
média do gasto com gás durante 3 meses. Salientamos que no caso da mão de obra direta, esta
foi considerada custo variável, enquanto o tempo de mão-de-obra ocioso foi considerado

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como um acréscimo aos custos fixos. Segue a tabela 2 com a relação de custo variável e
margem de contribuição.

Tabela 2 – Custo Variável e Margem de Contribuição


Produto Custo unit. Preço de venda M. De contrib %M. contrib.
Amarelo R$ 0,07 R$ 0,20 R$ 0,13 65,00%
Biscoito palito R$ 1,36 R$ 2,50 R$ 1,14 45,60%
Bol. Copinha R$ 1,12 R$ 2,60 R$ 1,48 56,92%
Bol. Regalia R$ 1,24 R$ 2,00 R$ 0,76 38,00%
Carrapicho R$ 0,09 R$ 0,20 R$ 0,11 55,00%
Carteira R$ 0,07 R$ 0,20 R$ 0,13 65,00%
Doce c/ coco R$ 0,11 R$ 0,20 R$ 0,09 45,00%
Doce s/ coco R$ 0,10 R$ 0,20 R$ 0,10 50,00%
Far. De rosca B R$ 1,80 R$ 4,00 R$ 2,20 55,00%
Far. De rosca F R$ 2,07 R$ 2,60 R$ 0,53 20,38%
Gravatinha R$ 3,32 R$ 10,00 R$ 6,68 66,80%
Língua de sogra R$ 3,12 R$ 6,25 R$ 3,13 50,08%
Pão Amanteigado R$ 0,18 R$ 0,30 R$ 0,12 40,00%
Pão c. quente R$ 1,41 R$ 4,00 R$ 2,59 64,75%
Pão de forma R$ 2,09 R$ 5,00 R$ 2,91 58,20%
Pão de leite R$ 0,16 R$ 0,30 R$ 0,14 46,67%
Pão de queijo R$ 2,78 R$ 8,00 R$ 5,22 65,25%
Pão de q. recheado R$ 4,53 R$ 10,00 R$ 5,47 54,70%
Pão doce Rainha R$ 3,14 R$ 9,75 R$ 6,61 67,79%
Pão Francês R$ 0,07 R$ 0,20 R$ 0,13 65,00%
Pão integral R$ 0,83 R$ 1,95 R$ 1,12 57,44%
Pizza Rainha R$ 2,86 R$ 6,00 R$ 3,14 52,33%
Queijada R$ 0,40 R$ 1,00 R$ 0,60 60,00%
redondo R$ 0,07 R$ 0,20 R$ 0,13 65,00%
Salg. De queijo R$ 3,07 R$ 10,00 R$ 6,93 69,30%
Sanduba R$ 0,79 R$ 1,00 R$ 0,21 21,00%
Seda R$ 0,07 R$ 0,20 R$ 0,13 65,00%
Sonho R$ 0,30 R$ 0,80 R$ 0,50 62,50%
Torrada R$ 2,18 R$ 4,00 R$ 1,82 45,50%
Torta Salgada R$ 3,23 R$ 9,65 R$ 6,77 70,16%

Analisando os dados apresentados percebemos que os mesmos são importantes


quantificações para posteriores comparações entre os processos produtivos em diferentes
panificadoras. Chegamos a uma margem de contribuição média de aproximadamente 55,41%.
A análise principal a ser feita é referente ao relacionamento entre as tabelas.

Tabela 3 – Margem de Contribuição


Produto Receita Custo V.Total M.C. Total MC %
Amarelo R$ 89,00 R$ 31,15 R$ 57,85 65,00%
Biscoito palito R$ 55,00 R$ 29,92 R$ 25,08 45,60%
Bol. Copinha R$ 166,40 R$ 71,68 R$ 94,72 56,92%
Bol. Regalia R$ 430,00 R$ 266,60 R$ 163,40 38,00%
Carrapicho R$ 338,60 R$ 152,37 R$ 186,23 55,00%
Carteira R$ 844,40 R$ 295,54 R$ 548,86 65,00%
Doce c/ coco R$ 705,40 R$ 387,97 R$ 317,43 45,00%
Doce s/ coco R$ 340,60 R$ 170,30 R$ 170,30 50,00%
Far. De rosca B R$ 55,62 R$ 25,03 R$ 30,59 55,00%
Far. De rosca E R$ 138,67 R$ 110,40 R$ 28,27 20,38%

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Gravatinha R$ 186,86 R$ 62,05 R$ 124,81 66,79%


Lingua de sogra R$ 87,34 R$ 43,59 R$ 43,75 50,10%
Pão Amanteigado R$ 194,10 R$ 116,46 R$ 77,64 40,00%
Pão c. quente R$ 288,00 R$ 101,52 R$ 186,48 64,75%
Pão de forma R$ 317,52 R$ 132,58 R$ 184,94 58,24%
Pão de leite R$ 29,70 R$ 15,84 R$ 13,86 46,67%
Pão de queijo R$ 158,33 R$ 55,02 R$ 103,31 65,25%
Pão de q. recheado R$ 155,02 R$ 70,22 R$ 84,81 54,71%
Pão doce Rainha R$ 94,73 R$ 50,21 R$ 44,52 47,00%
Pão Francês R$ 11.098,60 R$ 3.884,51 R$ 7.214,09 65,00%
Pão integral R$ 489,45 R$ 208,33 R$ 281,12 57,44%
Pizza Rainha R$ 592,00 R$ 282,20 R$ 309,80 52,33%
Queijada R$ 202,00 R$ 80,80 R$ 121,20 60,00%
Redondo R$ 776,20 R$ 271,67 R$ 504,53 65,00%
Salg. De queijo R$ 371,50 R$ 114,05 R$ 257,45 69,30%
Sanduba R$ 265,00 R$ 209,35 R$ 55,65 21,00%
Seda R$ 1.232,60 R$ 431,41 R$ 801,19 65,00%
Sonho R$ 136,00 R$ 51,00 R$ 85,00 62,50%
Torrada R$ 104,06 R$ 56,71 R$ 47,35 45,50%
Torta Salgada R$ 284,99 R$ 95,38 R$ 189,61 66,53%
Total R$ 20.227,68 R$ 7.873,85 R$ 12.353,83 61,07%

Evidencia-se que a panificadora possui uma margem de contribuição total igual a


R$12.448,26 equivalente, a 61,24% sobre o faturamento.
Dando prosseguimento ao trabalho, foram estabelecidos os custos fixos e as despesas
da panificadora, sendo levantados dados históricos e calculando a média. Das despesas
referentes à conta de energia elétrica e água foram abatidos os custos, já mensurados, relativos
à produção. Os custos relativos à manutenção e à limpeza foram estabelecidos através de uma
média de consumo estabelecida pelo próprio proprietário.
Tabela 4 – Custos e despesas fixos
Gás R$ 725,00
Transporte R$ 290,00
Alimentação R$ 149,40
Depreciação R$ 41,66
Manutenção R$ 100,00
Material de limpeza R$ 280,15
Salários R$ 2.055,96
Outros R$ 257,35
Total R$ 3.899,52

Partindo dos dados de mensuração dos custos variáveis, margem de contribuição,


custos fixos, chega-se a tabela 5, que apresenta um simples demonstrativo de resultado.

Tabela 5 - Resultados
Receita R$ 20.227,68 %
(-)Custos variáveis R$ 7.873,85 38,93%
(=) Margem de Contribuição R$ 12.353,83 61,07%
(-)Custos Fixos R$ 3.899,52 19,28%
(=)Resultado R$ 8.454,31 41,80%

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4.2 Ponto de Equilíbrio


Através dos dados já apresentados na tabela 5, pode-se. agora, realizar-se a análise do
ponto de equilíbrio que, como dito anteriormente, se refere ao nível de atividades de uma
empresa no qual não existe lucro ou prejuízo, isto é, em que os custos e despesas são iguais às
receitas (BERBEL, 2003; MARTINS, 2003). Neste caso existe uma dificuldade principal, que
é a quantificação da quantidade de pães na análise, tendo em vista a disparidade de margens
de contribuição unitária e a forma de venda dos produtos. Para a solução desse problema
podem ser estabelecidos três opções de cálculo. A primeira, utilizando-se da análise da média
ponderada, tomando como pesos as médias de vendas mensais. Apesar de ser uma ferramenta
válida, as considerações feitas a respeito da média ponderada faz com que seja de difícil
abstração a interpretação com relação aos diversos produtos, uma vez que alguns são
vendidos no peso. Logo, para essa análise ocorreu a exclusão destes produtos. O resultado
obtido para o ponto de equilibrio foi de 27103 pães para uma margem de contribuição unitária
igual a R$0,14, podendo ser visto no gráfico 1.
Outra alternativa é a qualificação das vendas médias, tomando como referência um
produto, e através das proporções de venda estabelecer um determinado produto “P” que
corresponda a soma das margens de contribuição proporcionais, encontrando o ponto de
equilíbrio para o produto “P”. A priori seu resultado não expressa um resultado elucidado,
porém através desse recurso pode-se determinar as quantidades individuais a serem atingidas.
O resultado obtido foi de 140,46 para uma margem de contribuição unitária igual a R$27,76.
A terceira alternativa, que será a utilizada no decorrer do trabalho, corresponde a
quantificação de vendas dentro de um nível de 0% a 100%, determinado assim a porcentagem
das vendas normais que devem ser atingidas para a obtenção do ponto de equilíbrio. Assim,
como a alternativa anterior, através desse recurso pode-se determinar as quantidades
individuais a serem atingidas, que podemos indicar como metas dos produtos. A margem de
contribuição unitária foi considerada como sendo a relativa às somas individuais da margem
de contribuição de cada produto a 1% das vendas normais, o que corresponde a R$ 123,54,
sendo possível a obtenção do resultado de 31,57% das vendas normais da panificadora para
atingir o ponto de equilíbrio. Esse resultado e o da alternativa anterior são representados no
gráfico 2.

Gráfico 1 – Ponto de equilíbrio 1

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Gráfico 2 – Ponto de equilíbrio 2 e 3

A normalização feita através da consideração de um nível de vendas de 0% a 100%,


apesar de apresentar resultados iniciais diferentes, equivale as mesmas quantificações de
vendas, alterando apenas o modelo usado para inferir as conclusões da segunda alternativa. O
resultado de ambos está exposto na tabela 6, estabelecendo, hipotéticamente, a quantidade de
cada produto que deve ser vendida para que o ponto de equilíbrio seja atingido.

Tabela 6 – Vendas para o ponto de equilíbrio


Produto Qtde M.C. Produto Qtde Valor
1 - Amarelo 140 R$ 18,26 16 - Pão de leite 31 R$ 4,37
2 - Biscoito palito 7 R$ 7,92 17 - Pão de queijo 6,25 R$ 32,61
3 - Bol. Copinha 20 R$ 29,90 18 - Pão de q. recheado 4,89 R$ 26,76
4 - Bol. Regalia 68 R$ 51,58 19 - Pão doce Rainha Kg 5,05 R$ 14,44
5 - Carrapicho 534 R$ 58,78 20 - Pão Francês 17517 R$ 2.277,15
6 - Carteira 1333 R$ 173,25 21 - Pão integral 79 R$ 88,74
7 - Doce c/ coco 1113 R$ 100,20 22 - Pizza Rainha 31 R$ 97,80
8 - Doce s/ coco 538 R$ 53,76 23 - Queijada 64 R$ 38,26
9 - Far. de rosca B 4,39 R$ 9,66 24 - Redondo 1225 R$ 159,26
10 - Far. de rosca F 16,83 R$ 8,92 25 - Salg. De queijo 11,73 R$ 81,26
11 - Gravatinha Kg 5,90 R$ 39,41 26 - Sanduba 84 R$ 17,57
12 - Língua de sogra Kg 4,41 R$ 13,80 27 - Seda 1945 R$ 252,90
13 - Pão Amanteigado 204 R$ 24,51 28 - Sonho 54 R$ 26,83
14 - Pão c. quente 23 R$ 58,86 29 - Torrada 8 R$ 14,95
15 - Pão de forma 20 R$ 58,27 30 - Torta Salgada 9 R$ 59,84
Total R$ 3.899,79

O resultado acima difere, ligeiramente, do encontrado nos custos fixos, que é de R$


3.899,52, fato este relacionado aos arredondamentos realizados nos produtos vendidos em
unidades e não a peso.
É interessante notar que o resultado exposto na tabela 6 representa a meta a ser obtida
por cada produto, tendo em vista o ponto de equilíbrio. Através desses resultados podemos
analisar os meses de abril, maio e junho, através da comparação dos resultados obtidos nestes
e suas metas individuais. Essa comparação pode ser visualizada no gráfico 2, 3 e 4 (legenda

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utilizada na tabela 6). Vale ressaltar que os dados nos gráficos 3, 4 e 5 estão normalizados em
escalas, sendo errônea a comparação visual entre produtos diferentes.

Gráfico 3 – Vendas abril Gráfico 4 – Vendas maio

Gráfico 5 – Vendas junho


Através dessa visualização percebe-se que nenhum dos produtos, durante os três meses
de atividade considerados, deixou de atingir sua meta individual, fazendo com que o ponto de
equilíbrio fosse atingido. Pode-se ainda comparar os três meses, como é apresentado no
gráfico 6 (legenda utilizada na tabela 6).

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Gráfico 6 – Comparativo de vendas de abril, maio e junho

4.3 Margem de segurança


A margem de segurança representa o nível ao qual as vendas podem cair e a empresa
não obter prejuízo (MARTINS, 2003; BERBEL, 2003). Tendo como referência a
padronização dos níveis de vendas média como de 0% a 100%, temos que a margem de
segurança para a panificadora corresponde a 68,43%, devido as considerações realizadas à
respeito do ponto de equilíbrio. Na tabela 7, pode-se visualizar os aumentos e decaimentos
das vendas nos períodos considerados no estudo com relação as vendas médias.

Tabela 7 – Variações de vendas


Produto Abril% Maio% Junho%
1 - Amarelo -31,46% -18% 48,99%
2 - Biscoito palito 13,64% -18% 0,00%
3 - Bol. Copinha -14,06% -9% 21,88%
4 - Bol. Regalia -1,86% 3% -0,93%
5 - Carrapicho -11,05% 28% -16,83%
6 - Carteira -14,40% 4% 10,37%
7 – Doce c/ coco -4,51% 4% 0,20%
8 – Doce s/ coco -4,58% 9% -3,99%
9 - Far. de rosca B -20,24% 9% 11,22%
10 - Far. de rosca F 19,99% -40% 19,99%
11 - Gravatinha -26,43% 2% 24,83%
12 - Língua de sogra 39,73% -21% -18,97%
13 – Pão Amanteigado -10,36% -1% 11,44%
14 – Pão c. quente -4,15% 7% -3,31%
15 – Pão de forma -5,70% 9% -3,17%
16 – Pão de leite 9,09% 13% -21,21%
17 – Pão de queijo -4,15% -11% 15,00%
18 – Pão de q. recheado 49,61% -17% -32,19%
19 – Pão doce Rainha 21,08% -7% -14,20%
20 – Pão Francês -4,94% 7% -2,08%
21 – Pão integral -2,79% 0% 3,19%
22 - Pizza Rainha 8,44% -3% -5,75%
23 - Queijada -1,98% 0% 2,48%
24 - Redondo -7,11% 3% 4,15%
25 - Salg. De queijo -4,23% -4% 7,85%

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26 - Sanduba 10,19% 6% -16,23%


27 - Seda -8,40% 5% 3,33%
28 - Sonho -5,29% 15% -10,59%
29 - Torrada 5,55% -13% 7,11%
30 - Torta Salgada 39,86% -17% -22,59%

Este comportamento pode ser visualizado no gráfico 7, o qual compara o desempenho


dos meses com relação ao ponto de equilíbrio. Ressalta-se que, diferentemente dos graficos de
ponto de equilíbrio, a comparação entre diferentes produtos é fidedigna, uma vez que os
valores apresentados são percentuais.

Gráfico 7 – Variação das vendas

No gráfico 7 poderia também estar exposta a linha que corresponde ao nível do ponto
de equilíbrio, porém este apenas serviria para ratificar o que já fora constatado nas análises
referentes ao PE, uma vez que anteriormente se constatou que nenhum dos produtos durante
os três meses considerados não havia atingido o ponto de equilíbrio.

4.4 Alavancagem operacional


A alavancagem operacional pode determinar os produtos que possuem maior peso
dentro da empresa. Para o estudo deste ponto foi considerado um aumento de 15% nas vendas
médias constatando-se o resultado exposto na tabela 8.

Tabela 8 - Alavancagem
Aumento
Produto Qtde Valor %/Resultado Alavancagem
1 - Amarelo 67 R$ 8,71 0,103% 0,007
2 - Biscoito palito 3 R$ 3,42 0,040% 0,003
3 - Bol. Copinha 10 R$ 14,80 0,175% 0,012
4 - Bol. Regalia 32 R$ 24,32 0,288% 0,019
5 - Carrapicho 254 R$ 27,94 0,330% 0,022
6 - Carteira 633 R$ 82,29 0,973% 0,065
7 – Doce c/ coco 529 R$ 47,61 0,563% 0,038
8 – Doce s/ coco 255 R$ 25,50 0,302% 0,020
9 - Far. de rosca B 2,086 R$ 4,59 0,054% 0,004
10 - Far. de rosca F 10 R$ 5,30 0,063% 0,004

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11 - Gravatinha 2,804 R$ 18,73 0,222% 0,015


12 - Língua de sogra 2,096 R$ 6,56 0,078% 0,005
13 – Pão Amanteigado 97 R$ 11,64 0,138% 0,009
14 – Pão c. quente 11 R$ 28,49 0,337% 0,022
15 – Pão de forma 10 R$ 29,10 0,344% 0,023
16 – Pão de leite 15 R$ 2,10 0,025% 0,002
17 – Pão de queijo 3 R$ 15,66 0,185% 0,012
18 – Pão de q. recheado 2 R$ 10,94 0,129% 0,009
19 – Pão doce Rainha 2,399 R$ 6,86 0,081% 0,005
20 – Pão Francês 8324 R$ 1.082,12 12,80% 0,853
21 – Pão integral 38 R$ 42,56 0,503% 0,034
22 - Pizza Rainha 15 R$ 47,10 0,557% 0,037
23 - Queijada 30 R$ 18,00 0,213% 0,014
24 - Redondo 582 R$ 75,66 0,895% 0,060
25 - Salg. De queijo 5,573 R$ 38,62 0,457% 0,030
26 - Sanduba 40 R$ 8,40 0,099% 0,007
27 - Seda 924 R$ 120,12 1,421% 0,095
28 - Sonho 26 R$ 13,00 0,154% 0,010
29 - Torrada 4 R$ 7,28 0,086% 0,006
30 - Torta Salgada 4 R$ 25,68 0,304% 0,020

Observa-se que os panificados possuem um baixo poder de alavancagem operacional


relacionado. Na tabela acima dá-se destaque ao pão de leite, que possui o menor poder de
alavancagem (0,002) e ao pão francês, que possui o maior (0,853).

5. Considerações finais
Foi possível constatar durante o trabalho a importância da gestão de custos em uma
empresa, assim como sua dificuldade de implementação, principalmente no que condiz à
correta classificação e interpretação dos dados. Os resultados apresentados são extremamente
relevantes, podendo assim chegar a inferências importantes para uma análise decisória.
Percebe-se que os custos variáveis são, aproximadamente, duas vezes maiores do que
os custos fixos, obtendo assim uma maior significância no resultado final dos custos.
Alterações nos custos variáveis representam reduções mais significativas no processo
produtivo.
Chegou-se a uma margem de contribuição unitária média igual a 55,41%. Apesar de
ser um resultado bom, devido ao baixo custo dos produtos, a maior significância reside na
margem de contribuição total que é igual a 61,07% (R$ 12.353,83), o que representa um
importante resultado e que possui grande valor comparativo. Outro dado importante para
comparativos financeiros é a margem de lucro sobre o faturamento que foi de 41,8% (R$
8.454,31). Ainda, através da análise do ponto de equilíbrio foi possível determinar a relação,
sendo constatado que a empresa, após atingir 31,57% de suas vendas médias de pães, passa a
obter lucro. Foram encontradas as metas individuais para cada produto e durante o período
considerado não ocorreu de algum produto não atingir sua meta mensal. A partir dos dados
do PE, a margem de segurança encontrada para a empresa foi de 68,43% e através das
observações do comportamentos das vendas foi obsevado que nenhum dos produtos durante o
período considerado ultrapassou a margem, o que apenas ratifica o resultado encontrado com
relaçao ao ponto de equilíbrio. O valor encontrado representa um bom resultado, uma vez que
apenas uma drástica redução nas vendas pode afetar o equilíbrio da empresa.
Foi observado também que no presente caso os produtos da empresa possuíam baixo
poder de alavancagem, dando-se destaque ao pão francês cuja alavancagem encontrada
corresponde à 0,85, ainda assim a maioria dos produtos se situava em margens bem inferiores,
exemplificando com o pão de leite, cuja alavancagem corresponde a 0,002. Essa grande

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discrepância é atribuída a parcela da margem de contribuição elevada cujo pão francês


responde, sendo de aproximadamente 60%. Sendo assim esses valores confirmam a grande
importância do pão francês para a panificadora.
Levando-se em conta os dados levantados, podemos concluir que uma correta
interpretação dos mesmos promove um melhor controle gerencial para qualquer empresa. E
através deste estudo pode ser tomada alguma postura decisória para o futuro da empresa a fim
de melhores resultados.
Sugere-se que a ferramenta de análise CVL na empresa seja contínua para que sempre
seja possível a renovação de dados e avaliações das repercussões das decisões tomadas.
Novos estudos devem ser realizados para que passem a existir mais parâmetros dentro da
indústria, proporcionando assim uma avaliação da produção em relação ao que se encontra na
empresa e o que o mercado espera.

6. Referência Bibliográficas
BERBEL, José Divanil Spósito. Introdução à contabilidade e análise de custos. São Paulo: STS, 2003.
JUNG, Carlos Fernando. Metodologia para Pesquisa e Desenvolvimento Aplicada a Novas Tecnologias,
Produtos e Processos. Rio de Janeiro: Axcel Books do Brasil, 2004.
LEONE, George S. Guerra. Curso de Contabilidade de custos. São Paulo: Atlas, 2000.
MARTINS, Eliseu. Contabilidade de Custos. 9ª ed.. São Paulo: Atlas, 2003.
MOTTA, Fátima Gutierez. Fatores condicionantes para a adoção de métodos de custeio em pequenas
empresas: estudo multicasos em empresas do setor metal-mecânico em São Carlos-SP. PPGEP/USP. São
Carlos, 2000.
PROPAN - Programa de apoio a Panificação. Perfil da Panificação. Disponível on-line em:
http://www.propan.com.br/perfilpanificacao.asp. Acesso em: 02 de julho de 2006.

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