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GRANDESSO, M.

A (2000) Sobre a reconstrução do Significado: uma análise


epistemológica e hermenêutica da prática clínica. São Paulo: Casa do
Psicólogo. p. 115- 142 (Cap. II Um referencial sistêmico para a prática clínica.)

O pensamento sistêmico, aplicado à prática clínica, representou dois


mandes saltos conceituais. Um deles pode ser compreendido dentro do campo
das psicoterapias, em geral pela mudança do foco das teorias clínicas, do
indivíduo para os sistemas humanos, portanto do intrapsíquico para o inter-
relacional. Sem dúvida, esta apresentou uma mudança paradigmática à medida
que passou a configurar um outro sistema de pressupostos, ou seja, uma outra
lente, para informar a concepção dos problemas humanos e da prática da
terapia. A grande virada, ao se enfatizar os problemas como sistêmicos, foi a
ênfase nos contextos e na postulação de uma causalidade circular para os
fenômenos, favorecendo a abertura do campo da psicoterapia para uma
espécie de interdisciplinaridade, ampliando as fronteiras para a compreensão
da pessoa humana para além do psicológico. O grupo de Bateson, um dos
pioneiros do campo da terapia familiar sistêmica, representa, a meu ver, a
metáfora viva dessa interdisciplinaridade.
A segunda grande mudança, também podendo ser considerada
Paradigmática, deu-se interna ao próprio modelo, paralela e interdependente à
evolução da cibernética. Se, a princípio, as terapias sistêmicas, informadas
pela Cibernética de Primeira Ordem, situavam-se dentro do modelo de
pensamento da modernidade, quando um do desenvolvimento da Cibernética
de Segunda Ordem, observou-se um afinamento com os pressupostos
pós-modernos, representados na terapia sistêmica pelas epistemologias
construtivistas e construcionistas sociais.
Este capítulo está estruturado em torno desses dois grandes eixos: o
sistêmico e o cibernético. Começa por situar o contexto histórico no qual a
terapia abraçou o pensamento sistêmico e segue o curso de sua evolução
interna da prática sistêmica, até que sua ênfase recaia nos sistemas humanos
como sistemas lingüísticos.

1. O contexto histórico
Considere-se o campo da psicoterapia do final da década de 40.
Psicanaliticamente orientada, a prática terapêutica definia-se como uma
relação diádica, em que o analista, voltado para um paciente, no que tange ao
seu desenvolvimento histórico único e à sua trajetória enquanto organismo
psíquico, caminhava, por meio do conteúdo da sua linguagem manifesta, para
o conteúdo latente de seu inconsciente. Caracterizada como um modelo
intrapsíquico, a psicoterapia psicanalítica dirigia-se a um sujeito individual,
cujos problemas e manifestações de sintomas decorriam de conteúdos
reprimidos, mantidos inconscientes e, portanto, localizados no seu aparato
psíquico. A escuta do analista orientava-se para a busca do conteúdo da
história passada, portanto centrada na própria experiência do paciente.
Condizente com a epistemologia da época, a teoria psicanalítica via o
comportamento humano regido pelas forças intrapsíquicas, que, como na
física, obedeciam às leis de conservação e transformação da energia.
Historicamente falando, contudo, no final da primeira metade do século,
a psicanálise começou a deixar os institutos, sendo introduzida nas escolas
médicas. Por outro lado, a psiquiatria despontou como uma especialidade
promissora (Guerin, 1978). O continente americano vivia as conseqüências da
Segunda Grande Guerra, do conflito na Coréia e os estragos da bomba
atômica, o que resultou em um aumento da coesão entre os membros das
famílias, dizimadas pelas separações devido à guerra (Guerin, 1978; Hoffman,
1981).
Tudo isso, aliado a uma posição crítica revisionista contra as teorias
psicodinâmicas e a terapia psicanalítica, criou um contexto propício para a
busca de novas alternativas de compreensão e tratamento dos dilemas
humanos. A principal objeção ao modelo psicanalítico dizia respeito ao seu
enfoque voltado para a história passada, mergulhado na experiência interna
expressa em seqüências intrapsíquicas. Assumir tal postura implicava construir
modelos que desconsideravam as condições do ambiente como contexto.
Tentativas de alargar as perspectivas do modelo psicanalítico para a
antropologia cultural, lingüística e teoria de campo surgiam dos próprios
psicanalistas como Sullivan, Horney, Thompson e Fromm-Reichmann
(conforme os dizeres de Don Bloch, prefaciando o livro de Hoffman, 1981). Por
outro lado, e principalmente, havia uma insatisfação com os nada animadores
resultados dos tratamentos psicoterápicos com populações menos favorecidas,
como os pacientes esquizofrênicos e os delinqüentes. Todos esses fatores
configuraram as condições de possibilidade para uma prática clínica
sistemicamente orientada (Guerin. 1978; Hoffman, 1981; Anderson, 1997). O
advento da teoria sistêmica, em cuja formulação von Bertalanffy se envolveu
desde 1930, e da cibernética, proposta como uma nova ciência por Norbert
Wiener, na década de 40, configurou um sistema de inteligibilidade para uma
nova prática psicoterápica que atendia às demandas do momento histórico.
O trabalho inicial centrado na família começou como pesquisa e, na sua
grande maioria, tendo como foco famílias com pacientes esquizofrênicos e
famílias com filhos delinqüentes, que já tinham tido problemas com a lei. Essas
duas populações tinham em comum o fato de ambas não estarem se
beneficiando dos tratamentos convencionais. Entre os que se dedicaram ao
trabalho com famílias com pacientes esquizofrênicos, tiveram especial
participação, nos primórdios da terapia familiar sistêmica, Gregory Bateson.
Don Jackson, Weakland, Haley, Bowen, Lidz, Whitaker, Malone, Scheffen e
Birdwhistle. Muito desse trabalho encontra-se descrito no livro organizado por
Bateson — "Interación familiar" (Bateson et al., 1980). Quanto ao trabalho
inicial com famílias com filhos delinqüentes, o marco inicial pode ser
considerado como o grande projeto Wiltwick, desenvolvido por Minuchin, no
início da década de 60. Minuchin selecionava para seu trabalho famílias com
pelo menos dois filhos considerados delinqüentes, em que ambos já tinham
sido envolvidos em problemas com a lei. Com o trabalho desses dois grupos
pioneiros, nesses dois desafiadores contextos de dificuldades, o foco da prática
terapêutica mudou, assim, do indivíduo para a família, com ênfase nas
interações entre seus membros.
Esse contexto em que surgiu a terapia familiar sistêmica foi bem descrito
por Anderson (1994):
..."circunstâncias clínicas e experiências, combinadas com a
inefetividade das teorias e técnicas prevalecentes para se transferirem de
forma bem-sucedida para essas circunstâncias e experiências, compeliram
para uma busca por novas explicações... Um problema e uma procura por
compreendê-lo e solucioná-lo foram o imã e o catalisador unificante que uniram
os que viriam a ser chamados terapeutas familiares e estabeleceram a arena
para a colaboração" (p. 147-148).
Diferentemente do que aconteceu na psicanálise, cujo contexto
fundacional remete a uma mesma pessoa — Freud — como um teórico e um
clínico, a teoria e a prática sistêmicas remetem a grupos distintos. O
pensamento sistêmico proposto por von Bertalanffy (1975, orig. 1968), casado
com a cibernética, originária das ideias de Wiener do final da década de 40,
derivou-se de campos distantes da psicoterapia e até mesmo da psicologia.
Sua aplicação à prática da psicoterapia deve seus tributos, principalmente, a
Gregory Bateson, que, partindo do campo da pesquisa, ofereceu um contexto
de coerência para a aplicação das formulações dessas duas teorias à prática
clínica.
O advento da terapia familiar foi marcado, portanto, pela
interdisciplinaridade, o que, pode ser dito, favoreceu um diálogo a partir de
múltiplas perspectivas. Em uma das perspectivas centrais estava o olhar do
antropólogo, Gregory Bateson, já nos primórdios da década de 50. Ao dizer
que o observado traz a marca de quem observa, Bateson (1972) antecipou os
futuros desenvolvimentos que o próprio campo da terapia familiar viria a
conhecer no decorrer de sua evolução para um pensamento pós-moderno.
Vindas do contexto da psicoterapia, podiam-se ouvir as vozes do psiquiatra
Don Jackson e da assistente social, Virgínia Salir. De fora desse contexto,
distintos discursos vieram em coro, da antropologia — por meio de Bateson, da
química — por meio de Weakland e da comunicação — com Jay Haley. Assim
constituído, esse grupo variado permitiu que a terapia familiar se iniciasse
como uma polifonia, tentando descrever e explicar os dilemas humanos, dentro
do contexto interacional das relações familiares.
Embora a teoria geral dos sistemas, em parceria com a cibernética,
tenha configurado os limites paradigmáticos para uma teoria da clínica, na
prática, diferentes sistemas de crenças resultaram em distintos modelos de
terapia familiar, caracterizando diversos sistemas de inteligibilidade que,
praticamente, coexistiram (Uma mais exaustiva apresentação desses
diferentes modelos foge ao alcance deste trabalho. Contudo, recomendo,
nesse sentido, a excelente publicação de Lynn Hoffman (1981) como unia
referência fundamental para os interessados na história da terapia familiar e no
desenvolvimento de seus distintos modelos.), (Convém ressaltar também que,
para efeito deste trabalho, optei por considerar apenas a teoria geral dos
sistemas de von Bertalanffy e a cibernética de Norbert Wiener. Contudo, não
posso deixar de destacar a extrema relevância para o desenvolvimento da
terapia familiar e, principalmente, para os primeiros modelos da teoria dos
jogos de von Neumann e Morgenstern e da teoria da informação de Shannon e
Weaver.) Assim sendo, as descrições, interpretações e compreensões
propostas pelas distintas escolas e seus modelos de terapia familiar puderam
divergir, embora estivessem sob o mesmo guarda-chuva paradigmático.
Anderson (1997) ressalta que, na busca de compreensão, alguns retornaram
para os conceitos psicodinâmicos e a prática psicanalítica aplicada, então, a
essa diferente configuração social, caracterizada pela família. Outros, continua
a autora, voltaram-se para conceitos explicativos de fora do campo da saúde
mental, como as ciências sociais, biologia, física, engenharia e filosofia.

2. As práticas sistêmicas na terapia


Na coexistência de diferentes modelos, desde o primeiro momento de
sua evolução, até a década de 70 (Comunicacional — Bateson, Haley, Satir e
Jackson (Os interessados nos fundamentos da abordagem comunicacional
encontram uma excelente amostra na publicação de Sluzki & Ransom (1976).);
Interacional ou da Terapia Estratégica Breve — desenvolvido no Mental
Research Institute, em Paio Alto; Estrutural — Minuchin; Estratégico — Haley e
Madanes; Experiencial Simbólico — Whitaker; Intergeracional — Bowen e
Borzomeny-Nagy; e Sistémico de Milão — Selvini-Palazzoli, Prata, Cecchin e
Boscolo), com suas distintas maneiras de definir o que vem a ser o problema, a
consequente teoria da mudança e a prática psicoterapêutica, podemos
considerar que as terapias sistêmicas se definem como um conjunto de
práticas não-uniformes, em contínua evolução e "um conjunto de noções
(fundamentalmente cibernéticas) que retroalimentam e são retroalimentadas
por essas práticas" (Pakman, 1994, p. 34). Essa prática foi tão profundamente
configurada, tanto pela teoria geral dos sistemas como pela cibernética, que
pode ser convenientemente chamada de sistêmico-cibernética (Pakman, 1994;
Fried Schnitman & Fuks, 1994). Estudiosos do campo da terapia familiar, no
entanto, preocupados com a precisão conceituai, consideram que as práticas
da terapia familiar são sistêmicas e a epistemologia, cibernética (Esteves de
Vasconcelos, 1995). Esta também representa a minha posição, principalmente
por considerar as evoluções dentro do campo da cibernética, a partir do
momento em que tomou a si mesma como objeto de estudo. No meu entender,
a cibernética oferece as bases epistemológicas pelas quais se podem pensar
as diferentes práticas sistêmicas.
Enquanto a teoria geral dos sistemas propunha-se a estudar as
correspondências ou isomorfismos entre os sistemas de todo o tipo (von
Bertalanffy, 1975, orig. 1968), a cibernética, originalmente, ocupava-se dos
processos de comunicação e controle tanto nos sistemas naturais como nos
artificiais (Wiener, 1961, orig. 1948) (Estou adotando aqui a definição proposta
pó Norbert Wiener, considerado o fundador dessa nova ciência. Outras
definições, bem como um desenvolvimento paralelo e independente da
cibernética no campo neurológico, são citadas por outros autores. Para os
interessados em aprofundar especificamente isso, recomendo a leitura de
Esteves de Vasconcelos , 1995) e Rapizo (1996).). O casamento desses dois
ramos de conhecimento e de seus respectivos conceitos, na prática de uma
terapia familiar, deve sua existência, conforme já mencionei, à
interdisciplinaridade dos trabalhos que marcaram seu início.

2.1. As raízes sistêmicas


Embora um aprofundamento tanto nos conceitos sistêmicos como nos
cibernéticos esteja fora dos objetivos deste trabalho, a terapia sistêmica da
família organizou-se em torno de alguns conceitos básicos, definidores dos
sistemas:
• Globalidade
Todo e qualquer sistema se comporta como um todo coeso. Assim, uma
mudança em uma parte do sistema provoca mudança em todas as outras
partes e no sistema como um todo.
• Não-somatividade
Um sistema não pode ser considerado como a soma de suas partes.
Esse princípio definidor implica que se considere o todo, na sua complexidade
e organização, em detrimento de suas partes. A complexidade sistêmica não
pode ser explicada a partir da soma de seus elementos. Contudo, qualquer
mudança nas relações entre as partes constituintes de um sistema implica uma
mudança no funcionamento do todo.
• Homeostase
Define-se como um processo de auto-regulação que mantém a
estabilidade do sistema, protegendo-o das mudanças que pudessem destruir
sua organização, de modo que preserve o seu funcionamento.
• Morfogenese
Consiste na característica dos sistemas abertos, de absorver inputs do
meio e mudar sua organização. Portanto, morfogênese opõe-se à homeostase.
• Circularidade
A interação entre os componentes de um sistema manifesta-se como
uma seqüência circular, de modo que a relação entre quaisquer de seus
elementos é bilateral. Enquanto o pensamento linear postulava uma
causalidade do tipo de uma implicação lógica — se A, então B (A → B) —, o
pensamento sistêmico resultou em uma bi-direcionalidade do tipo — se A,
então B e se B, então A (A ↔ B). Dentro desse pressuposto de causalidade
circular, a ordem dos fatores não altera o produto.
• Retroalimentação ou feedback
Esta é a característica dos sistemas que garante o seu funcionamento
circular. Os mecanismos de feedback garantem a circulação da informação
entre os componentes do sistema. Enquanto os feedbacks negativos
funcionam para manter a homeostase sistêmica, os feedbacks positivos
respondem pela mudança sistêmica ou morfogênese.
• Eqüifinalidade
Um sistema aberto apresenta uma organização definida que garante os
resultados de seu funcionamento, independentemente de qual tenha sido o
ponto de partida. Enquanto nos sistemas fechados o estado de equilíbrio do
sistema é dado pelas condições iniciais, no sistema aberto o estado de
equilíbrio é determinado pelos parâmetros do sistema, independentemente do
tempo e das condições iniciais. Decorre daí que diferentes condições iniciais
geram o mesmo resultado, da mesma forma que diferentes resultados podem
ser gerados pela mesma "causa" (Watzlawick et al., 1967).
Estruturada em torno destes conceitos, a terapia familiar sistêmica
considerava a família como um sistema aberto, mantendo uma
interdependência entre seus membros (globalidade) e com o meio, no que dizia
respeito às trocas de informação, usando de recursos de retroalimentação para
manutenção da sua estabilidade (organização). Do ponto de vista sistêmico,
pode-se falar, portanto, em uma homeostase familiar, (obJa – palavra não
identificada) por meio de regras que governam as transações da família.
Assim concebido, nessa nova terapia, o sintoma de um indivíduo — o
paciente identificado — era considerado um porta-voz da disfunção da família,
funcionando como um mecanismo homeostático para restabelecer o equilíbrio
do sistema perturbado. Jackson (1980, orig. 1954) propôs esse conceito de
homeostase familiar a partir de suas observações clínicas, pois de acordo com
estas, quando um de seus pacientes psiquiátricos melhorava de seus sintomas,
outro membro da família piorava (apresentando depressão ou distúrbios
psicossomáticos, por exemplo). De acordo com esse modelo, portanto, uma
família era definida pelos seus padrões de interação e não pelas características
individuais de seus membros (de acordo com o princípio da não-somatividade).

2.2. As raízes cibernéticas


Quanto à cibernética, penso ser conveniente destacar que distintos
períodos marcaram seu desenvolvimento, o que contribuiu para que a terapia
familiar, enquanto uma prática, seguisse mudanças conceituais paralelas. Da
mesma forma que mencionei para a teoria geral dos sistemas, foge também do
alcance deste trabalho uma apresentação completa da cibernética, enquanto
um campo de estudos. Contudo, entendo ser conveniente demarcar as
mudanças conceituais pelas quais passou na sua evolução, uma vez que
implicaram novas organizações das práticas sistêmicas
A cibernética, como uma possibilidade de referência conceituai para a
terapia familiar sistêmica, mostrou-se tão heurística que alguns autores (Sluzki,
1987; Pakman, 1991; Esteves de Vasconcelos, 1995) entendem que a balança
da terapia familiar tende mais para a cibernética do que para a teoria geral dos
sistemas. Enquanto Sluzki argumenta nesse sentido, considerando a
importância dos novos desenvolvimentos epistemológicos do campo, Pakman
entende que essa primazia se deve ao fato de a cibernética ter se desenvolvido
com grande fertilidade no campo das ciências sociais, enquanto a teoria geral
dos sistemas ficou limitada à engenharia dos sistemas artificiais.
Muitos autores têm se dedicado a desvendar os conceitos cibernéticos e
a caracterizar as práticas sistêmico-cibernéticas que os tomaram como
referência. Entre as muitas publicações sobre os desenvolvimentos da
cibernética (Keeney, 1991, orig. 1987; Pakman, 1991; Esteves de Vasconcelos,
1995), é de extrema relevância para um aprofundamento nos seus conceitos,
sua evolução histórica e sua aplicabilidade ao campo da terapia familiar o
trabalho de von Foerster.
Pakman (1991) selecionou e comentou as obras escolhidas de von
Foerster, fornecendo uma excelente porta de entrada para os interessados em
acompanhar o desenvolvimento do pensamento cibernético e considerá-lo
como contexto para organização das práticas de terapia sistêmico-cibernéticas.
Nos dizeres do próprio von Foerster, ao prefaciar a edição de suas 11
conferências selecionadas, que representam quase meio século de trabalho, e,
por assim dizer, quase que a história da cibernética, Pakman tornou acessíveis
aos iniciantes e contextualizou para os que já transitavam pelos seus conceitos
isso tudo que ele bem entendeu chamar "As sementes da cibernética". Von
Foerster ressalta que todos os artigos apresentados trazem implícita a noção
de circularidade como princípio subjacente à cibernética, seja como argumento,
seja como causalidade circular, ou como auto-referência. Partindo da definição
da cibernética, conforme proposta por Norbert Wiener (1961, orig. 1948), como
a ciência do controle e da comunicação no animal e na máquina, Pakman traça
o caminho seguido pela cibernética, paralelo e a partir do trabalho de von
Foerster, até constituir-se como uma epistemologia voltada para as perguntas
sobre o conhecimento, seus limites e suas possibilidades. Cumpre esclarecer
que a cibernética não nasceu como uma epistemologia, vindo a constituir-se
como tal a partir de sua própria evolução.
O que segue aqui é um sucinto recorte que, a meu ver, se mostra
relevante para a caracterização da prática sistêmica como uma prática
cibernética. Essa nova ciência trouxe para o campo da terapia familiar uma
mudança do foco, de até então, sobre a matéria e energia, para a informação e
organização. Na época, essa nova ênfase, decorrente da busca de princípios
de organização, tanto para as máquinas artificiais como para os organismos
vivos e fenômenos sociais, propôs a informação como a unidade básica de
organização de todos esses sistemas. Nesse sentido, a cibernética permitiu o
aparecimento de uma nova epistemologia, baseada em urna concepção
ecológica dos processos de comunicação, uma vez que enfatizava uma
continuidade entre os sistemas humanos e naturais.
Podemos distinguir, no campo da cibernética, dois grandes momentos.
Um primeiro, desde o seu aparecimento na engenharia da comunicação e nas
ciências da automação e computação, a que se convencionou chamar de
Cibernética de Primeira Ordem; e um segundo período, a partir da década de
70, em que a Cibernética tomou a si mesma como objeto de estudo, chamado,
a princípio, por Margareth Mead, de Cibernética da Cibernética e, depois, de
Cibernética de Segunda Ordem, por von Foerster.

2.2.1. A Cibernética de Primeira Ordem


O primeiro período da cibernética como disciplina, o que mais tarde se
convencionou chamar de primeira cibernética, ocupava-se dos mecanismos e
processos pelos quais os sistemas, em geral, funcionavam com o intuito de
manter a sua organização. O sistema, de acordo com essa concepção,
operava de acordo com um propósito ou meta, cujo alcance era garantido por
mecanismos de regulação e controle. Mecanismos de enlaces circulares entre
os componentes do sistema garantiam que se veiculasse a informação sobre
quaisquer desvios do padrão de funcionamento esperado para o alcance da
meta (o equivalente a um erro), de modo que desencadeasse mecanismos de
mudanças corretivas desses desvios e a conseqüente volta ao funcionamento
habitual do sistema. Assim, sempre que o operar de um sistema se afastasse
de sua meta, a retroalimentação negativa forneceria a informação desse
desvio, de modo tal que, ao neutralizá-lo, o sistema fosse capaz de manter o
seu propósito enquanto organização homeostática.
O funcionamento de qualquer sistema obedecia, portanto, a duas linhas
de causalidade: uma externa, a partir das perturbações vindas de fora do
sistema; e uma de dentro, a partir do que o sistema tinha como propósito e da
história do seu operar passado (Pakman, 1991, p. 20-21). É evidente, dentro
dessa concepção, a importância das noções de informação; do conceito básico
de circularidade ou recursividade, como o mecanismo causal necessário para
garantir a estabilidade do sistema e dos conceitos de retroalimentação, meta e
regulação.
Embora essa nova disciplina tenha se, inicialmente, dirigido para os
sistemas em geral, conforme a própria etimologia da palavra sugere (A palavra
cibernética deriva da palavra grega kybernetes, que significa "piloto", da qual
se derivam Kibemetiké e Kybernetiké, que, por sua vez, significam "a arte de
pilotar navios" e "a arte de governar os homens" (Esteves de Vasconcelos,
1995; Freedman & Combs, 1996).), cibernética implica a noção de regulação e
controle. Regulação, enquanto um mecanismo, visa manter a sobrevivência do
sistema à medida que controla os distúrbios que o atingem, impedindo-os de
evoluírem para uma mudança, além de um nível-limite, que possa quebrar a
sua organização. Assim caracterizado, o sistema mostrava-se equivalente a um
servomecanismo que, conhecidas as regras de conexão entre os seus
elementos, poderia ser operado a partir de fora. Nesse sentido, o sistema
cibernético era compreendido como equivalente a uma máquina trivial, fosse
ele uma máquina, um organismo biológico, ou um sistema social, que, tendo
uma organização e um propósito, operava na correção dos desvios, de modo
que se mantivesse estável e sobrevivesse, apesar das constantes mudanças
do ambiente. A esse processo ativado pelo erro — conhecido como
retroalimentação negativa —, por meio do qual um sistema vivo sobrevive
mantendo a sua constância apesar das mudanças do meio, convencionou-se
chamar de morfoestase (Maruyama, 1968).
Contudo, Magoroh Maruyama (Apud Hoffman, 1981) ressaltou que a
sobrevivência dos sistemas vivos não dependia apenas de sua capacidade de
morfoestase. Além de conseguir manter sua estabilidade, um sistema vivo
necessitava, também, de ser capaz de modificar sua estrutura básica, paia
adaptar-se às situações de mudanças do meio. Esse processo, chamado de
morfogênese, não poderia ser explicado por uma retroalimentação negativa,
mas, sim, por uma retroalimentação positiva, consistindo de seqüência que
amplificavam o desvio de modo que o organismo, adaptando-se às condições
do contexto, conseguisse sobreviver. Esses processos de amplificação do
desvio, por meio da retroalimentação positiva, e os processos sistêmicos de
mudança, daí decorrentes, foram descritos por Maruyama (1968) como
segunda cibernética, constituindo-se assim no segundo período da Cibernética
de Primeira Ordem.
Até então, os teóricos dos sistemas costumavam ver a retroalimentação
positiva como indesejável, associando-a à destruição do sistema (Hoffman,
1981). Diferentemente da primeira cibernética, que se constituía como uma
visão homeoSTÁTICA dos processos sistêmicos, a segunda cibernética
caracterizou-se por uma visão homeoDINÂMICA (Sluzki, 1987), termos cuja
grafia assim cunhada por Sluzki salientam a dialética estabilidade-mudança.
Assim, enquanto a retroalimentação negativa pode ser dita conservadora,
conforme promove a manutenção do status quo, a retroalimentação positiva
destaca-se por favorecer a novidade e ocupar-se da evolução dos sistemas.
Dito de outra maneira, a primeira cibernética apoiou-se nos avanços
conceituais decorrentes da segunda lei da termodinâmica, mais
especificamente nos processos negentrópicos destinados a reverter a
tendência inevitável à desordem, ao caos e à destruição dos sistemas deixados
ao léu (entropia); diferentemente, a segunda cibernética apoiou-se nas
contribuições de Prigogine sobre sistemas afastados do equilíbrio, e no
conceito de "ordem por meio da flutuação" (Prigogine & Stengers, 1984).
Prigogine chamou a atenção para o fato de que, quando os sistemas de
redução de desvio, por alguma razão, deixam de funcionar como
neutralizadores, ou, quando por questões evolutivas ou contextuais, os desvios
adquirem e mantêm intensidade, se apresenta uma bifurcação para o sistema,
configurando um salto qualitativo para uma nova etapa evolutiva e uma nova
linha de base para os processos de neutralização dos desvios em relação ao
modo de operar do sistema. Prigogine refere-se às perturbações que afastam o
sistema do equilíbrio, como ampliações de flutuações, próprias do sistema,
para estruturas dissipativas que mantêm uma coerência interna com o sistema.
A organização do sistema, em um outro nível de funcionamento, a partir da
bifurcação que se lhe apresenta, leva-o, portanto, para além de seu limiar de
estabilidade. Assim, os sistemas acham-se em uma constante batalha entre
estasia e gênese, a convivência com a ordem e a desordem, o redundante e o
aleatório.
Com esses novos conceitos, tornou-se possível explicar as mudanças
descontínuas, resultantes das escaladas de ampliação do desvio e
conseqüente reorganização do sistema. Enquanto as correções de desvio que
resultam em mudanças reversíveis, mantendo o padrão de organização do
sistema, foram chamadas de mudanças de primeira ordem, as mudanças de
natureza irreversível que, pela sua descontinuidade, resultam em um salto
qualitativo do sistema para um outro nível de organização foram consideradas
como mudanças de segunda ordem. Para essas mudanças qualitativas dos
sistemas afastados do equilíbrio, as suas histórias singulares são fundamentais
na seleção das novas formas de organização. Portanto, o acaso, como
contexto gerador das perturbações para além do equilíbrio, e a história, como
um conjunto das singularidades do sistema, determinam as novas ordens da
sua organização, em um processo recorrente a que Prigogine chamou de
retroalimentação evolutiva (Prigogine & Stengers, 1984). Com esse conceito,
Prigogine estava se referindo ao fato de que a evolução de um sistema pode
seguir para situações menos prováveis. Nesse sentido, um simples movimento
do sistema, em um determinado momento, poderia resultar em uma mera
flutuação e, em outro, em uma nova disposição organizacional (Hoffman, 1981)
(Para um aprofundamento sobre o conceito de retroalimentação evolutiva, no
âmbito da terapia familiar, sugiro a leitura do Capítulo IX de Hoffman (1981) e o
artigo de Dell & Goolishian (1981).)
A Cibernética de Primeira Ordem, seja no seu primeiro momento
(primeira cibernética) ou no seu segundo (segunda cibernética), define uma
epistemologia que se caracteriza pelo postulado de independência entre o
observador do sistema e o sistema observado. Um sistema, pensado a partir
da Cibernética de Primeira Ordem, pode ser operado de fora, seja por meio de
estratégias para correção dos desvios e manutenção da estabilidade sistêmica
nas mudanças de primeira ordem, seja por meio de recursos de ampliação dos
desvios e mudanças de segunda ordem, resultando em uma nova organização
sistêmica. Justamente por tal pressuposto da objetividade da observação
independentemente da realidade sistêmica, a Cibernética de Primeira Ordem
veio também a ser conhecida como cibernética dos sistemas observados (von
Foerster, 1974).
No campo específico da terapia de família, esta epistemologia, no seu primeiro
momento, deu origem aos modelos comunicacionais, interacionais e de terapia
breve, cuja ênfase negentrópica na correção de desvios organizava a prática
terapêutica em torno de conceitos de regras familiares (Jackson & Weakland,
1959, 1961), mitos familiares (Selvini-Palazzoli et ai., 1982) e padrões
interacionais (Haley, 1971,1979,1991; Watzlawick, Weakland & Fisch, 1977,
orig. 1973.). Este é o caso do trabalho que era desenvolvido na década de 60
no Mental Research Instituto, em Paio Alto.
No seu segundo momento, a epistemologia dos sistemas observados,
combinada com a função geradora das mudanças de segunda ordem por meio
das amplificações dos desvios, resultou nos modelos de terapia familiar cuja
mudança era procurada por meio de técnicas geradoras de crise,
desequilíbradoras do sistema e técnicas provocativas. Este foi o caso do
modelo estrutural de Salvador Minuchin (Minuchin, 1982; Minuchin & Fischman,
1990; Umbarger, 1987) e da terapia experiencial simbólica de Whitaker
(Witacker & Bumberry, 1990), por exemplo.

2.2.2. A Cibernética de Segunda Ordem


Conforme apresentei anteriormente, a cibernética evoluiu, de acordo
com sua própria história, a partir de uma ampliação de seu território para incluir
processos que, embora pudessem ser pensados ciberneticamente, não
poderiam ser explicados como decorrentes de correções de desvios e circuitos
homeostáticos. O operar com a primeira cibernética, apoiada nas retroações
negativas, dentro de processos morfoestáticos, deixou em evidência que esses
conceitos não explicavam pelos processos morfogenéticos, pelos quais o
sistema passava por transformações na sua organização, a partir de uma
função construtiva da ampliação dos desvios. Assim, a cibernética transformou-
se para incluir um segundo momento, que, não invalidando o primeiro, resultou
na ampliação de seu campo conceituai (o que também representou uma
ampliação de desvio), configurando, pela integração dessas duas vertentes —
a primeira e a segunda cibernéticas —, o que se convencionou chamar de
Cibernética de Primeira Ordem.
Os avanços subseqüentes do campo da cibernética decorreram de sua
aplicabilidade a vários domínios de estudos, tais como a antropologia, a
neurofisiologia, a sociologia e a psiquiatria, o que acabou resultando na
consideração das idiossincrasias do que poderia ser pensado como máquinas
não triviais (Diferentemente das máquinas triviais, que são predizíveis e
independentes da história, as não triviais são dependentes da história,
analiticamente indetermináveis e imprevisíveis (von Foerster, 1984).) e
sistemas auto-organizadores. Considerar a não-trivialidade implicou conviver
com o imprevisível e a incerteza, e, além disso, o estender do pensamento
cibernético aos sistemas auto-organizadores, do qual fazem parte os humanos
e os sociais, resultou em considerar os sistemas autônomos, regidos por suas
próprias leis.
Esse salto qualitativo que a cibernética conheceu implicou uma diferença
de tal magnitude que acabou definindo uma nova cibernética — Cibernética de
Segunda Ordem. Essa evolução foi possível, conforme mencionei, devido aos
avanços e às transformações em outras áreas de conhecimento. Do campo da
física quântica, Heisenberg, ao enunciar o princípio da incerteza, colocou em
cheque a possibilidade de se falar em uma observação objetiva de uma
realidade independente, livre das influências do observador. Heisenberg em
1958 já expunha a questão da auto-referência, ao dizer que:
"O comportamento do homem não é independente das teorias de
comportamento que adota" (in Feixas & Villegas, 1993, p. 32).
Ainda no campo da física, desenvolvimentos posteriores vieram a endossar os
princípios de Heisenberg, como é o caso de Zukav:
"De acordo com a mecânica quântica não existe a objetividade. Não
podemos eliminar a nós mesmos da cena. Somos parte da natureza e quando
a estudamos não se trata de outra coisa que a natureza estudando a si mesma.
A Física chegou a ser um ramo da Psicologia, ou talvez o contrário" (in Feixas
& Villegas, 1993, p. 36).
Fica evidente nessa afirmação a questão da auto-referência de qualquer
observação. Quando se fala em auto-referência, está sendo assumido que
qualquer observador inclui a si mesmo nas observações que faz. No campo da
cibernética, a noção de auto-referência foi incorporada quando a cibernética foi
usada recursivamente para pensar a si própria como objeto de estudo e pela
constatação de que o próprio processo de observação constituía um sistema
autônomo, o qual incluía o observador como parte integrante e interatuante
com os demais elementos do sistema. Assim, tudo que um observador
pudesse dizer sobre um sistema estaria, inevitavelmente, relacionado com
suas propriedades enquanto observador, em um processo auto-referencial.
Um outro contexto para o desenvolvimento da Cibernética de Segunda
Ordem decorreu das contribuições vindas do campo da neurobiologia, por meio
de Humberto Maturana e Francisco Varela. Uma das principais contribuições
desses autores foi a de definirem os seres vivos como tendo uma organização
autopoiética. A palavra autopoiese deriva dos vocábulos gregos auto — si
mesmo — e poiesis — criação, produção. Portanto, significando criar a si
mesmo, o uso desse conceito descreve a organização dos sistemas vivos que
criam os componentes necessários para manterem a sua própria organização
(Ao considerarem os sistemas vivos como autopoiéticos, Maturana & Varela
(1987) diferencíaram-nos dos sistemas alopoiéticos ou heterônomos, como as
máquinas triviais que, por serem construídas pelo homem, podem ser operadas
a partir de fora.)
Os seres vivos, segundo Maturana & Varela (1987), como entidades
autopoiéticas, são sistemas fechados do ponto de vista informacional. Isso dá
aos seres humanos uma característica de autonomia. O operar desses
sistemas só pode se dar a partir do modo como estão constituídos. Daí decorre
que qualquer mudança que possa ocorrer em um sistema vivo responde a um
determinismo estrutural. Quando um organismo interage com qualquer aspecto
de seu ambiente, o que vai determinar a sua resposta é sua estrutura, sendo
que o ambiente se configura apenas como ocasião ou contexto instigador,
capaz de perturbar o sistema. A resposta do sistema depende, assim, da sua
organização e estrutura.
Decorre do determinismo estrutural a impossibilidade da interação
instrutiva entre dois organismos — ou seja, não se pode outorgar algo, tal
como conselho ou conhecimento, de um indivíduo para outro indivíduo. O que
é possível é um acoplamento estrutural, ou seja, um encaixe íntimo ou ajuste
recíproco entre as ações estruturalmente determinadas de um indivíduo e as
do outro caracterizando uma perturbação recíproca entre ambos. Além disso, o
trabalho desses autores e outros específicos de Maturana (1997c, 1997e) dão
especial destaque à importância da linguagem na constituição do humano.
Segundo os autores, os indivíduos constroem o significado da sua experiência
dialogicamente. O diálogo caracteriza-se para esses autores como um
intercâmbio de idéias entre duas ou mais pessoas em conversação.
De acordo com a teoria da autopoiese, os sistemas auto-organizadores
adquirem sua ordem selecionando elementos úteis para sua estrutura, a partir
da desordem ambiental (von Foerster, 1960). Nesse sentido, diferentemente do
que se buscava a partir da Cibernética de Primeira Ordem, a Cibernética de
Segunda Ordem não indaga pelo que se vai introduzir em um sistema para
obter determinada organização, mas pergunta sobre o que é que a estrutura do
sistema lhe permite selecionar. Isso implica uma mudança de ênfase para o
sistema que utiliza a informação, em vez da informação em si. Pensando um
sistema terapêutico ciberneticamente, como auto-organizador, podemos
entender que cada elemento do sistema seleciona do contexto terapêutico
aqueles elementos que lhe permitem incrementar sua ordem e gerar novos
padrões (Pakman, 1991).
Quanto à denominação, oficialmente, a expressão Cibernética da
Cibernética foi publicamente cunhada por Margareth Mead, em 1972, vindo a
ser posteriormente chamada de C2 — Cibernética à Segunda Potência e,
depois, Cibernética de Segunda Ordem, ou Cibernética dos Sistemas
Observantes, por von Foerster. Ao incluir o observador como parte dos
sistemas que o serva, a cibernética transformou-se em uma epistemologia,
ocupando-se com os limites e as possibilidades do conhecimento. Nesse
sentido, Pakman (1991) afirma que o ciberneticista, em vez de se perguntar
sobre os enlaces circulares de um sistema, passou a perguntar-se como
geramos o sistema a partir da noção de circularidade.
Sem dúvida, a compreensão dos sistemas vivos como a organizadores,
conforme proposta por Maturana & Varela, veiodar uma consistência para o
que se apresentava como pensamento cibernético. Nossa estrutura enquanto
observadores, desde a nossa corporeidade até a nossa linguagem e a nossa
cultura, impõe restrições ao tipo de observações que podemos fazer (Pakman,
1991). Essa nova cibernética implicou uma teoria sobre o observador, a crença
na impossibilidade de separar o observador do sistema observado e, portanto,
o questionamento da possibilidade de conhecimento objetivo, de previsão e
controle. Sluzki (1987) chama a nossa atenção, a partir desses
desenvolvimentos, para o fato de que um discurso científico passa a ser
entendido não apenas como um discurso sobre um referente, mas também
como um discurso sobre os limites da linguagem e dos processos mentais de
quem o produz.
A incorporação dessa nova epistemologia às práticas sistêmicas
implicou mudanças fundamentais no papel do terapeuta e na própria
concepção da terapia. Antes de ser um interventor que opera sobre um sistema
(família, casal, indivíduo, por exemplo) para mudá-lo em uma dada direção,
previamente definida como "mais funcional‖ para o sistema, o terapeuta passa
a ser visto como mais um no sistema. No lugar de intervir, o terapeuta
co-participa do sistema terapêutico, atuando para uma transformação
co-evolucionária que conta com a surpresa e o imprevisível à medida que os
sistemas produzem sua própria mudança. Da mesma forma que a Cibernética
de Segunda Ordem, enquanto uma epistemologia, se define como
construtivista, as terapias, segundo este modelo, também passam a ser
chamadas de terapias de segunda ordem ou de terapias sistêmicas
construtivistas (Hoffman, 1985; Sluzki, 1983,1985).

3. Contribuições de uma epistemologia sistêmico-cibemética para a


prática da psicoterapia
Ainda no inicio de 1980, HOFFMAN (1981) referia-se à terapia familiar
como sendo ―uma maravilhosa Torre de Babel‖ (p.20) em que as pessoas
seguiam falando muitas línguas. O referencial era o mesmo,
sistêmico-cibernético, mas os modelos de terapia eram bem diferentes na
prática que propunham em torno se seus principais representantes.
A mudança paradigmática imprimida pelo pensamento
sistêmico-cibernético à terapia familiar, desde os seus primórdios, introduziu
uma orientação para o presente nas práticas de terapia sistêmica, enfatizando
a importância do contexto para a compreensão dos dilemas humanos e
considerando o indivíduo como um ser em interação com os outros. Nesse
sentido, a terapia sistêmica, na sua explicação do comportamento sintomático,
diferia, radicalmente, tanto do modelo médico como do modelo psicodinâmico.
Em ambos esses modelos, o locus do sintoma era o indivíduo, seja pelo seu
funcionamento bioquímico ou por sua genética, seja pelo seu desenvolvimento
intrapsíquico (Hoffman, 1981).
Assim, esse novo enfoque para compreender o comportamento humano,
problemático ou não, propunha que se considerasse o indivíduo, o paciente
identificado, dentro de um contexto interacional ou interpessoal, de modo que
seus sintomas fossem vistos como produtos de suas inter-relações dentro do
sistema do qual fazia parte. Para isso, tinha-se de atentar para as
comunicações e comportamentos de todos os membros familiares presentes,
nos seus elos circulares de recursividade entre todos os membros, um dos
quais era o paciente identificado. Isso significou uma mudança epistemológica,
organizada em torno do conceito de causalidade circular, que trouxe consigo
outros dois conceitos — o de informação e o de relação. Bateson (1986, orig.
1979) descreve a diferença entre uma epistemologia linear, unidirecional, que
para ele bem se aplica ao mundo físico, semelhante a um modelo de bola de
bilhar, e uma epistemologia circular, pela qual os seres vivos organizam seu
comportamento, dentro das tramas relacionais.
O mundo dos seres vivos não poderia ser descrito, segundo essa nova
epistemologia, como se uma parte pudesse exercer uma influência causal
linear, do tipo de uma implicação lógica, sobre outra parte. Descrições só têm
sentido, dentro dessa epistemologia, a partir da recursividade das relações
entre os elementos envolvidos na interação. Portanto, tais descrições não são
centradas nos atributos e nas características inerentes a um membro isolado
do sistema, mas nos enlaces circulares de seus padrões de interação. Aplicada
ao campo terapêutico, não se poderia excluir o terapeuta desse tipo de
circularidade, na sua atuação em busca da mudança terapêutica. Isso porque o
terapeuta e a família constituem, também, um sistema — o sistema terapêutico
—, de modo que as ações de uns em relação aos outros são recursivas, uns
afetando os comportamentos dos outros, em uma maneira circular. Na prática,
isso resultou em estratégias terapêuticas específicas, como, por exemplo, as
do Grupo de Milão, que procurava compreender o jogo que a família jogava,
para poder montar o contrajogo, capaz de construir a mudança desejada
(Selvini-Palazzolietal, 1982, orig. 1978).
Com a terapia familiar sistêmica confígurou-se, portanto, uma nova
prática discursiva na maneira de descrever, explicar, localizar e tratar os
problemas. A organização da prática sistêmica em uma rede de trocas entre
diferentes terapeutas de família teve também uma proeminente importância na
desmistificação da prática da terapia. Se, antes, a psicoterapia era vista como
uma prática quase que sagrada, estruturada como uma relação diádica,
realizada dentro dos institutos (Guerin, 1978), a observação, supervisão ao vivo
e discussão da prática terapêutica, resultou em uma cadeia infindável de
transformações teóricas e clínicas (Anderson, 1997), refletindo-se não só na
teoria e na prática, mas também na pesquisa e formação dos terapeutas.
Contudo, com o desenvolvimento da Cibernética de Segunda Ordem,
condizente com uma concepção construtivista, configuraram-se as condições
de possibilidades para se passar das metáforas cibernéticas às metáforas
hermenêuticas, no campo da terapia familiar. Partindo-se da noção de
auto-referência de todo conhecimento, da decorrente impossibilidade em se ter
acesso a uma realidade objetiva, o sistema terapêutico passou a ser
caracterizado como um sistema observante (von Foerster, 1974) e, portanto,
um sistema singular, cuja co-evolução decorre das possibilidades e limitações
de seus participantes. O papel do terapeuta, dismistificado como expert,
assume a característica de um facilitador, cujo conhecimento, como qualquer
outro conhecimento, livre de um status privilegiado, é auto-referencial.
Assim sendo, o pensamento sistêmico, aliado à Cibernética de Segunda
Ordem, a partir da década de 80, evoluiu para uma direção tal que os modelos
de terapia sistêmico-cibernéticos ampliaram suas fronteiras para incluir "a
transversalidade da significação, a semiose social e a generatividade
comunicacional na construção de marcos de sentido e práticas..." (Fried
Schnitman & Fuks, 1994, p. 378). Naturalmente, uma tal evolução, ainda em
um contexto de interdisciplinaridade, além da cibernética dos sistemas
observantes, decorreu também do encontro dessas perspectivas sistêmicas
com os enfoques construtivista e construcionista social, a hermenêutica e a
crítica literária, entre outras influências.
A terapia familiar de segunda ordem, pela inclusão do terapeuta-
observador como parte do sistema que descreve, revolucionou o campo das
chamadas terapias sistêmicas, começando por questionar o próprio conceito de
família como um sistema terapêutico a priori. Se é o observador quem faz os
recortes no mundo da experiência, co-gerando os sistemas que descreve,
pode-se questionar o conceito de sistema, definido a partir de sua organização
sociocultural em torno de sua estrutura e papel social. Anderson & Goolishian
(1988a) fazem referência a Talcott Parsons para criticar a aplicação dos
conceitos cibernéticos aos sistemas sociais, em uma tentativa de compreender
o que se passou com a maioria das teorias terapêuticas, informadas pela
Cibernética de Primeira Ordem.
Os sistemas sociais, segundo esse modelo parsoniano, caracterizado
como uma "teoria da cebola'''' por Anderson & Goolishian (1988a), são
definidos como tendo uma organização estratificada e hierárquica, em que
cada estrato funciona a serviço da manutenção da ordem e estabilidade do
sistema como um todo. Dentro dessa organização, cada estrato encontra-se
subordinado à camada imediatamente superior. Assim, temos o indivíduo
subordinado à família, a família subordinada à comunidade, e esta a um
sistema maior, até o ecossistema. Dentro dessa concepção, um problema em
um estrato, por exemplo, com o indivíduo, representa inadequações no
funcionamento, no que tange à estrutura e ao papel, da camada imediatamente
supra-ordenada — no caso, a família. O terapeuta, assim orientado, funciona
como um reparador dos defeitos sociais que constituem os problemas. Os
familiarizados com o campo da terapia familiar podem bem identificar os
conceitos gerados por tal leitura cibernética dos sistemas. Conceitos como
hierarquias inadequadas e fronteiras disfuncionais são alguns deles. Toda essa
concepção sistêmica é abandonada pelos terapeutas informados,
principalmente por um enfoque construcionista social, que vêm propor uma
compreensão dos sistemas humanos como sistemas lingüísticos (Anderson &
Goolishian, 1988a).
Nesse sentido, dentro dessa nova concepção, o sistema terapêutico
passa a ser definido por aqueles que estão envolvidos em conversação em
torno de um problema. Esses sistemas não são determinados por sua estrutura
ou papel social, mas por uma dinâmica relacional organizada em torno de
significados compartilhados, nos quais residem os problemas pelos quais as
pessoas buscam a terapia. Uma tal concepção coloca uma intensa ênfase
sobre a linguagem e a pessoa do terapeuta, além de estender o território da
terapia sistêmica, originalmente uma terapia da família como um sistema, para
além dessas fronteiras, ao incluir o indivíduo, as comunidades e outras
organizações sociais, envolvidas em uma trama significativa. Tantas foram as
mudanças na definição do sistema terapêutico e nos contextos da prática que,
nesse sentido, me parece mais coerente falar em práticas sistêmicas, em vez
de terapia sistêmica. É inegável que o campo da psicoterapia teve um salto
qualitativo ao passar da concepção centrada na dinâmica individual para a
relacional. Contudo, os primeiros anos da terapia familiar, embora assentados
na teoria sistêmica, conservaram seu suposto de causalidade linear, mudando
apenas o locus causal, antes centrado no indivíduo, para colocá-lo no sistema,
visto como a origem dos problemas humanos. Portanto, com a Cibernética de
Segunda Ordem, iniciou-se não só um novo período no campo das práticas
sistêmicas, mas também uma mudança, a meu ver, paradigmática,
caracterizando a terapia dentro dos parâmetros da pós-modernidade, trazendo,
portanto, uma redefinição do próprio conceito de terapia.
Da mesma forma, se, nessa nova evolução, não podemos mais falar em
estrutura disfuncional, o próprio conceito de problema passa a ter uma
definição lingüística, no campo dos significados em que o sistema constrói a
sua realidade. Se não se postula uma interação instrutiva, se se considera os
sistemas como autônomos e autopoiéticos, então não pode ser pretendida uma
intervenção direcionada para um determinado alvo de mudança, previamente
definido, por um terapeuta, colocado como um observador privilegiado, fora do
sistema.
Como se estruturou, então, o campo da terapia familiar e das práticas
sistêmicas dentro dos marcos paradigmáticos da pós-modernidade? Apoiado
em torno dos princípios de imprevisibilidade e incerteza, da impossibilidade de
um conhecimento objetivo, da auto-referência, da linguagem e autopoiese, o
campo da terapia sistêmica organizou-se nas chamadas terapias sistêmicas
construtivistas, construcionistas sociais, desenvolvidas nos modelos
conhecidos como conversacionais, dialógicos ou narrativos. Em comum,
pode-se destacar que todas questionam os modelos diagnósticos tradicionais,
as teorias clínicas e teorias da mudança, tradicionalmente centradas nos
modelos apriorísticos de disfuncional idades e patologias, ou de funcionamento
saudável. Tudo isso, em parte já abordado no capítulo anterior, será mais bem
desenvolvido no decorrer deste trabalho, especialmente no Capítulo V. O que
faço a seguir representa um outro olhar para os desenvolvimentos das práticas
sistêmicas, agora à luz de sua linguagem teórica.

3.1. Metáforas sistêmicas: da cibernética a hermenêutica


A metáfora é uma figura da linguagem em que as palavras ou frases
comumente aplicadas a um determinado objeto ou idéia são atribuídas a
outros, não usuais, sugerindo uma semelhança ou analogia entre eles
(Rosenblatt, 1994). Nas suas raízes latinas e gregas, a palavra "metáfora"
refere-se à transferência. A transferência de significado por meio de uma
metáfora dá-se de forma implícita, de modo constitutivo do sentido, à medida
que o significado que uma palavra ou frase metafórica transfere para alguma
outra coisa não estava associado a ela, antes de seu uso. É exatamente por
essa condição, a de ser um processo implícito, que se acaba correndo o risco
de reificação do conceito no novo domínio.
Se assumimos uma concepção não objetivista, podemos entender que
nossas teorias, antes de representações objetivas da realidade, são lentes
temporais mediante as quais construímos a realidade (Anderson & Goolishian,
1988a), e, nesse sentido, podem ser consideradas metafóricas. A análise das
metáforas teóricas de um campo permite uma compreensão de como os seus
estudiosos organizam a experiência nesse campo de estudo, o que consideram
como um evento, bem como as relações entre os eventos e as práticas
decorrentes a eles associadas.
Especificamente sobre o campo da terapia familiar, Rosenblatt (1994)
discute as diferentes metáforas que perpassaram os diversos modelos da
terapia familiar, mostrando o que é enfatizado e o que é obscurecido quando
usamos cada uma delas, como orientadoras de nossos pensamentos e nossa
prática. As metáforas teóricas que um terapeuta usa, nesse sentido,
contextualizam, refletem e criam suas realidades terapêuticas, limitando sua
compreensão dos discursos de seus clientes e do que vêm a ser os seus
problemas, bem como definem suas práticas.
Parto do pressuposto de que toda a nossa compreensão é estruturada
pelas metáforas que usamos (Grandesso, 1996) (O trecho que vem a seguir é
reprodução parcial, com poucas alterações, do artigo citado. O artigo refere-se
a uma palestra apresentada na mesa redonda — "Dialogando sobre teoria" —
no II Congresso Brasileiro de Terapia Familiar em Gramado, em agosto de
1996. A preparação desse artigo representava, na época, parte do pensamento
que eu vinha desenvolvendo, para efeito deste trabalho de tese, razão pela
qual resolvi incluí-lo, ou — por que não? — resolvi apresentá-lo lá.)
Compreender envolve comparar o desconhecido com o conhecido, o
não-familiar com o familiar, usar as categorias de compreensão de um
determinado domínio da experiência como o padrão a partir do qual analisamos
a experiência de outro domínio. É assim que compreendo as metáforas
sistêmicas e as cibernéticas.
Pare (1995), a propósito da representação da família como um sistema,
considera que esta metáfora — sistema — não reflete a "realidade" da família,
da mesma forma que um espelho reflete a luz, devendo ser vista como uma
construção social, que determina uma maneira de olhai-, ao considerarmos
famílias ou outros agrupamentos. Nesse sentido, não podemos pensar uma
família como uma entidade física delimitada, mas como uma organização
especial definida pela cultura e costumes (Rosenblatt, 1994). Sluzki (1984)
deve ter se referido a isso quando disse que "uma família não é um sistema;
uma família é o que uma família é, podendo ser pensada como um sistema".
Parece que, além do óbvio, Sluzki ilustra aqui o risco que se incorre de
reificarmos nossas metáforas, passando a tratá-las não como o resultado de
um ato de criação, que a metáfora representa, mas como uma representação
da realidade. A qualidade metafórica é, justamente, conforme mencionei
anteriormente, uma qualidade de transportar o significado de um contexto para
outro contexto, caracterizando, portanto, um como se, mas de forma implícita.
Esquecer disso significa tratar a figura — a metáfora — como uma expressão
literal (Pare, 1995).
As metáforas teóricas — família como sistema, família como uma
cultura, sistema humano como sistema lingüístico — estabelecem uma moldura
não só para a nossa conceitualização, como também para o que procuramos
quando trabalhamos com as famílias, trabalhamos como formadores de
terapeutas e abordamos a prática clínica.
Pare (op. cit.) ressalta que, se vemos as famílias como sistemas, seus
membros são vistos como seus componentes, e, provavelmente, construiremos
os seus conflitos ou problemas referentes como questões de equilíbrio
sistêmico (conforme mencionei anteriormente ao referir-me aos sistemas
definidos por estrutura e papel social). Se, contudo, vemos as famílias por meio
da metáfora cultural, tendemos a ver suas ações e afirmações não como
respostas aos feedbacks sistêmicos, mas como artefatos culturais, emergindo
de contextos múltiplos, com ênfase nas suas histórias e símbolos, cerimônias.
Considerando o contexto espaço-temporal em que surgiu a terapia
familiar, podemos compreender o uso de metáforas mecanicistas da
Cibernética de Primeira Ordem e da teoria geral dos sistemas, referendadas
pelas teorias empiristas de construção do conhecimento e uma prática
decorrente, voltado para resultados e metas. Durante as quase três décadas
iniciais, a terapia sistêmica, organizada em torno da metáfora da família como
um sistema, análogo a uma máquina cibernética que mantém seu estado
homeostático, configurou possibilidades de terapia extremamente convincentes
para as interações recorrentes observadas nas famílias com membros
sintomáticos ou não (Hoffman, 1981).
Se as famílias eram vistas corno máquinas homeostáticas, o terapeuta
era tido como um reparador do sistema em disfunção e, para tanto, deveria
saber o que não estava bem com a família (ter um diagnóstico) e o que e como
deveria ser mudado (a meta e o procedimento para mudança). Assim, essa
terapia era dirigida para metas específicas e apoiada em técnicas de
intervenções apropriadas para as mudanças a serem alcançadas. Do ponto de
vista da prática clínica e do sistema de inteligibilidade organizado pelas
metáforas sistêmicas, em torno dos conceitos de homeostase e equilíbrio,
pode-se dizer que houve urna utilidade tanto na possibilidade de compreensão
como na de atuação prática. Contudo, tais metáforas não mostraram uma
abrangência suficiente para incluir as conseqüências para o pensamento sobre
os sistemas, decorrentes principalmente do trabalho de Prigogine. Metáforas
em torno de sistemas homeostáticos não serviam para essa nova concepção
de sistemas afastados do equilíbrio. Dell (1982) e Elkaim (1987,1990),
rejeitando as metáforas dos circuitos recursivos dos sistemas homeostáticos,
organizaram seu pensamento sobre sistemas afastados do equilíbrio a partir
das noções de acaso, instabilidade, irreversibilidade e singularidade dos
sistemas, condizentes com uma retroalimentação evolutiva.
É evidente que as mudanças nas metáforas teóricas refletem uma
mudança epistemológica. As metáforas que sustentaram as práticas sistêmicas
durante o período informado pela Cibernética de Primeira Ordem refletiam o
modelo de pensamento positivista, edificado em torno da visão de
conhecimento como representação icônica de fatos e eventos do mundo, e de
uma epistemologia objetivista, que, entre outras coisas, separa observador e
observado. Conforme essa epistemologia foi sendo questionada, outras
metáforas mostraram-se mais úteis para o pensamento e as práticas
sistêmicas. Nesse sentido, Keeney (1991) propõe uma epistemologia
ecossistêmica, pela qual o terapeuta já é postulado como parte do ecossistema
terapêutico. Da mesma forma, Dell (1982) diz que não há como sustentar esse
dualismo que postula uma realidade independente. Dell salienta que não só a
realidade muda enquanto a observamos, mas também muda pela nossa
observação. Metáforas em torno do conceito de homeostase são, então,
substituídas pelas organizadas em torno de metáforas ecológicas que
transportam um sentido de co-evolução, co-criação e co-participação
(Freedman & Combs, 1996).
A história do Grupo de Milão (Selvini-Palazzoli, Boscolo, Cecchin &
Prata, 1982, orig. 1978), como um outro exemplo, é um testemu¬nho vivo da
mudança no uso de metáforas teóricas no campo da terapia familiar. Em um
primeiro momento, no trabalho desse grupo, como em outros, tratou-se da
substituição das metáforas de energia da psicanálise dos problemas individuais
pelas metáforas comunicacionais, organizadas em torno dos axiomas da
comunicação e das metáforas dos jogos.
Cecchin (1992) relata nas suas histórias vividas como a sedução pela
idéia de descobrir qual era o jogo que a família estava jogando levava algumas
vezes os terapeutas a verem tremendas competições quando tudo estava
quieto e tranqüilo na família, o que para eles era um simples e aparente
equilíbrio, ou uma trégua estratégica, em uma situação de permanente batalha.
As metáforas usadas nesse contexto eram provenientes da linguagem
bélica — ciladas, armadilhas, manobras, ataque, contramanobra, entre outras.
Não só essas metáforas teóricas construíam um campo de sentido, mas
também dirigiam para o que se olhar na família e a forma como se proceder na
terapia. Tendo a intervenção paradoxal como uma espécie de arma, a relação
terapêutica era basicamente de confrontação.
Cecchin descreve como a retomada dos escritos de Bateson levou o
Grupo de Milão a construir seu trabalho em torno das idéias sobre poder, o que
resultou em um abandono das metáforas de jogo, com progressiva ênfase na
ação do terapeuta. Não tardou paia que a equipe concluísse que os terapeutas
não descobriam "jogos reais", mas construíam-nos na sua relação com a
família.
Esses desdobramentos passaram a configurar o discurso terapêutico do
grupo em torno de outras metáforas teóricas, que, passando pela pessoa do
terapeuta e o seu engajamento em um processo auto-reflexivo, conduziram as
narrativas teóricas, então organizadas em torno das metáforas da descoberta,
para as da co-construção fundamentadas no conceito de auto-referência e no
foco sobre as múltiplas perspectivas trazidas pelo questionamento circular
(Selvini-Palazzoli, Boscolo, Cecchin & Prata, 1980; Cecchin, 1987).
Qual a repercussão dessa mudança do discurso do terapeuta sistêmico?
Em vez de divergências de interpretação configurarem um território para
debates monológicos e competições em torno de idéias, a polifonia das vozes,
coerentemente com os parâmetros do pensamento pós-moderno, constituiu um
contexto de recursos para novas conexões entre pessoas, idéias e
relacionamentos, validando, de forma respeitosa, as múltiplas vozes.
O que sucedeu no campo da terapia familiar, condizente com um
enfoque pós-moderno, foi uma mudança dos modelos de terapia informados
pela Cibernética de Primeira Ordem, com sua ênfase nos padrões de interação
e nas estruturas familiares, para os condizentes com uma Cibernética de
Segunda Ordem, com ênfase na construção dos significados e, daí, para os
modelos dialógicos e as metáforas narrativas.
Assim, as metáforas teóricas centrais, constitutivas desse tipo de terapia
dialógica, passaram a ser metáforas hermenêuticas, tendo como
palavras-chave: sistemas lingüísticos, narrativa, conversação, diálogo,
histórias, significado e cultura. Sem dúvida, metáforas desse tipo são temporais
e fluidas, e não estáticas e espaciais como as organizadas em torno do
conceito de homeostase. Hoffman (1990), nesse sentido, considera que as
metáforas do futuro serão mais auditivas, organizadas em torno de diferentes
"vozes" e, portanto, menos visuais. O enfoque paradigmático passou a se
configurar no que se convencionou chamar de pós-moderno e a concepção
epistemológica construtivista e construcionista social.
As teorias, dentro desse enfoque pós-moderno, funcionam como marcos
de construção de significado que estruturam a conversação terapêutica. Como
não se trabalha na elaboração de diagnósticos essencialistas e intervenções
corretivas (Macedo, 1998), as teorias do terapeuta são úteis à medida que
permitem que a conversação se abra para novos significados mais libertadores.
Ter uma teoria, nesse sentido, não quer dizer obedecer a uma teoria particular,
mas valer-se de referenciais significativos que ofereçam uma conexão com a
experiência da família. Teorias assim usadas são pré-concepções, oriundas da
prática clínica, do treinamento do terapeuta, da cultura, da bagagem
existencial.
É nesse sentido que compreendo o espirituoso artigo de Sluzki (1992)
sobre as transformações da narrativa nas conversações terapêuticas. Sluzki
enfatiza que diferentes terapeutas tenderiam a estruturar o diálogo em torno da
construção dos problemas, segundo a teoria do autor de seu livro de cabeceira
da época. Sluzki referia-se, no artigo, a temas suficientemente universais para
poderem ser o centro em torno do qual a conversação terapêutica possa se
organizar: ciclo vital, gênero, etnia, cultura, perdas e luto, família de origem,
entre outros.
Contudo, está implícito no seu texto que nenhuma conversação seria
mais verdadeira que a outra, que diferentes conversações poderiam ser
geradoras de mudanças terapêuticas e que a construção do problema que a
família traz, bem como a construção de uma teoria da mudança, é uma
produção colaborativa entre terapeuta e clientes, em um espaço intersubjetivo
do diálogo. Entendo que é no contexto do que foi colocado acima que
Anderson & Goolíshian (1988a) ressaltaram que os problemas psicológicos
surgem, mudam de forma e desaparecem, conforme mudam o vocabulário e as
descrições dos terapeutas.
Muitos têm sido os vocabulários, as metáforas teóricas e as descrições
no campo da terapia sistêmica, desde sua origem na década de 50 até os dias
de hoje. As teorias da mudança, caracterizando os dilemas que as famílias
vivem como problemas e as práticas clínicas decorrentes, passaram ao longo
desses anos por diferentes enfoques compreensivos. Assim, os problemas
foram definidos de maneira variada pelos diferentes modelos de terapia
familiar. Destaco os seguintes:
• Os problemas de comunicação constituem o problema.
• As tentativas de solução constituem o problema.
• As estruturas familiares mal-adaptadas constituem o problema.
• As organizações disfuncionais de poder constituem o problema.
• Os problemas são tentativas de solução para problemas maiores.
• As histórias dominantes saturadas de problema constituem o problema.
• Os problemas residem na linguagem, constituindo significados em torno dos
quais se organizam os comportamentos sintomáticos.
O que dizer dessa diversidade teórica e metafórica? É evidente que não
teria qualquer sentido perguntarmos por seu valor verdade. Antes de falarmos
em teorias verdadeiras ou falsas, buscamos pela sua utilidade e viabilidade,
enquanto organizadores de nosso sistema de compreensão e orientadores de
nossas práticas. Viáveis para a organização da conversação terapêutica sobre
as experiências vividas pelos clientes, para a reorganização dessas histórias
de forma mais libertadora e para gerar um contexto propício para a mudança
terapêutica. Parafraseando von Glasersfeld (1994, orig. 1981), arrisco dizer,
não é a chave, mas uma chave que serve para abrir a fechadura.
A mudança conceitual dentro desse enfoque pós-moderno, no meu
entender, organiza suas teorias e deriva suas práticas em um interjogo
recursivo em que os problemas são vistos não como "coisas" a serem
eliminadas, mas como dilemas resultantes da participação dos indivíduos nas
práticas interativas e discursivas de seus contextos sociais. Assim, da mesma
forma que McNamee (1992), entendo que, adotando uma perspectiva
pós-moderna, não podemos ter como parâmetro que uma boa teoria e um bom
método de terapia são aqueles que descobrem as raízes do "verdadeiro"
problema e, então, o resolvem. Em vez disso, nessa perspectiva, colocamos
nossa ênfase nas práticas discursivas usadas pelos teóricos, pesquisadores e
clínicos, em interação com seus clientes dentro de um determinado domínio
cultural e ideológico, na construção do que vem a ser um problema e o que nos
é viável como uma hermenêutica dos fenômenos humanos.