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A ESSÊNCIA DO

EVANGELHO
DE PAULO

Marcos Granconato
Copyright © 2013 Marcos Granconato
All rights reserved.
ISBN: 1494293145
ISBN-13: 978-1494293147

Dedico este livro aos pastores Thomas Tronco do Santos e


Marcos Samuel Pereira do Santos, homens que, na tarefa de
pregação da fé, têm mostrado ao povo de Deus o real sentido
da liberdade cristã.

“Senhor Deus único, Deus Trindade, o que disse nestes


livros, de teu, reconheçam-no os teus; o que neles disse de
meu, perdoa-me Senhor, e perdoem-me os teus. Amém.”
(Agostinho de Hipona. De Trinitate)

PREFÁCIO

Quando comecei a estudar teologia, quatro décadas atrás,


um livro foi muito importante para mim. Tratava-se do
comentário de Merrill C. Tenney sobre a carta de Paulo aos
Gálatas. Além de trazer uma significativa contribuição à
defesa da suficiência e exclusividade da graça, Tenney
ensinava seus leitores, mesmo os mais inexperientes e
desavisados, como eu, a ler a Bíblia com método e
objetividade.
Quarenta anos depois, percebo que a Igreja não aproveitou
o suficiente daquela histórica publicação. Legalismos de
diversos matizes e matrizes ameaçam roubar à igreja
brasileira a singeleza de sua fé, oferecendo outros (e falsos)
evangelhos, apelando à mesma insensatez que atacou os
gálatas de outrora.
Tenho, em tal situação, a alegria e a honra de apresentar à
Igreja brasileira um novo comentário sobre a carta aos
Gálatas. O que me influenciou, trazia a marca de alguém que
fez da cátedra um púlpito; o que apresento, A Essência do
Evangelho de Paulo, traz a marca de alguém que faz do
púlpito uma cátedra — que, como eu, ainda acredita que uma
igreja forte tem um púlpito onde o ensino da Palavra filtra e
corrige as cosmovisões oferecidas à igreja pela mídia
secular e, infelizmente, por alguns que “mercadejam a
Palavra de Deus” por todos os meios que a (pós-)
modernidade oferece.
Marcos Granconato refuta tais ideias de maneira
persuasiva e simples, sem deixar de lado a erudição.
Professores e pastores usarão com proveito esse livro, tanto
em seu preparo para a aula quanto para o sermão. Opiniões
divergentes terão de lidar com os argumentos apresentados
nesse livro, sob pena de ignorarem evidência relevante e
parecerem, assim, preconceituosos.
A Essência do Evangelho de Paulo desafia o leitor a
desfrutar da aventura da graça — aventura que, embora não
isenta de perigos, oferece eterna segurança com base
exclusiva e suficiente nos méritos de Jesus Cristo, nosso
grande Deus e Salvador, cuja vinda é a bendita esperança da
Igreja.
Carlos Osvaldo Cardoso Pinto
Professor, autor e teólogo

ASPECTOS INTRODUTÓRIOS

AUTORIA, DATA E DESTINATÁRIOS

A epístola aos Gálatas foi escrita pelo apóstolo Paulo.


Ainda que um pequeno grupo de críticos tenha levantado
objeções contra a origem paulina, as evidências internas
apontam claramente para Paulo como o autor dessa carta (Cf.
1.1). Na verdade, o calor e a autoridade com que a epístola
trata do problema dos falsos mestres, considerando-os uma
terrível ameaça contra o evangelho e contra a própria igreja,
são características próprias de um missionário e líder
zeloso, que se vê no dever de cuidar daqueles que são fruto
de seu trabalho, o que reforça o argumento em prol de Paulo.
Frise-se ainda que uma porção proporcionalmente grande da
carta é autobiográfica (1.13 – 2. 13), o que logicamente
esvazia de propósito a autoria de outra pessoa qualquer.
Paulo escreveu aos Gálatas no ano 48 d.C., um pouco
antes do Concílio de Jerusalém, ocorrido no mesmo ano (At
15). A falta de menção das decisões do concílio, decisões
essas que seriam tão úteis aos propósitos da epístola, é
prova cabal em favor da data mencionada, ainda que haja
quem situe a composição em 57 ou 58 d.C, entendendo que
em 2.1-10, Paulo faz alusão às conclusões conciliares de
Atos 15.[1]
A data mais antiga, se aceita, coloca a composição da
carta, num período após o fim da primeira viagem
missionária de Paulo (At 13-14), depois dele e Barnabé
terem visitado pela segunda vez o sul da Galácia (At 14.21-
23).[2] O local em que Paulo escreveu é difícil, senão
impossível, de precisar.
Quanto aos destinatários, muita tinta tem sido gasta na
defesa de duas opiniões distintas. A primeira entende que
Paulo escreveu aos gálatas étnicos que viviam no norte da
província. Porém, parece certo que o apóstolo jamais visitou
essa região. A segundo opinião, aparentemente melhor
fundamentada, entende que os destinatários eram pessoas de
várias raças que ocupavam a região sul da Galácia, visitada
por Paulo em sua primeira viagem missionária (At 13-14).
[3]
Paulo, portanto, teria escrito sua carta aos crentes de
Antioquia da Pisídia (próxima à fronteira da Galácia),
Listra, Icônio e Derbe. As igrejas dessas cidades, conforme
veremos, estavam sofrendo influência de mestres judaizantes
(6.12-13) que, para obterem sucesso em seus objetivos,
tentavam desacreditar o Apóstolo Paulo (4.17). Conforme se
depreende da epístola, os galateus se tornaram vulneráveis a
esses ataques (3.1), revelando forte atração por um sistema
religioso cuja essência não ultrapassava o dever de
cumprimento de meras exigências externas (4.10-11; 5.2).

OCASIÃO E PROPÓSITO

O que foi dito acima acerca dos destinatários fornece os


elementos do cenário que motivou Paulo a escrever sua
epístola. De fato, fica claro em toda a carta que os crentes da
Galácia estavam acolhendo os ensinos de mestres
judaizantes que afirmavam a necessidade dos cristãos se
submeterem à lei judaica. Mesmo sendo provavelmente em
sua maioria gentios (Cf. At 13.46-52), aqueles crentes viram
certo atrativo na mensagem dos mestres legalistas.
Quem eram, afinal, aqueles mestres? Tudo indica que
eram cristãos judeus com uma compreensão defeituosa do
evangelho, confundindo-o com um judaísmo alterado por
certos acréscimos. Pelo modo como Paulo se refere a eles,
parece que não pertenciam às igrejas destinatárias, sendo
procedentes de fora (Veja 1.7, 9; 4.17; 5.10). Talvez viessem
da Judéia, onde encontramos judeus cristãos com uma
compreensão do evangelho que parece idêntica à dos falsos
mestres sobre quem Paulo escreve (At 11.1-3; 15.5). Em
Atos 15.1 vemos que alguns desses cristãos judeus eram
propagadores ativos do evangelho legalista, visitando
crentes gentios de outras cidades a fim de convencê-los a se
submeter à lei mosaica (Veja tb. At 15.23-24). Parece certo,
portanto, que Paulo se refere a essas pessoas quando escreve
aos Gálatas.
Os discursos dos mestres judaizantes, conforme se
depreende da epístola, abrangiam ataques contra a
autoridade apostólica de Paulo, levando-o a defender-se
(1.1, 11-12; 2.6-9, 11). Esses ataques também eram dirigidos
contra a mensagem paulina, acusando-a de incentivadora de
uma vida desregrada. Aliás, é possível que alguns crentes
galateus tenham de fato visto a mensagem do evangelho da
graça como uma licença para a libertinagem (5.13, 19-21;
6.8). Ademais, os mestres judaizantes acusavam Paulo de
apresentar uma mensagem vacilante que pregava a
circuncisão quando isso era conveniente (1.10; 5.11).
Também em seus discursos os mestres do evangelho
legalista insistiam na necessidade da circuncisão (5.2-6;
6.12-13), bem como na guarda da lei mosaica (4.10, 21).
Segundo eles, a justificação não seria possível caso, além da
fé em Cristo, os preceitos mosaicos não fossem rigidamente
observados (5.4). Para Paulo, tudo isso descaracterizava o
evangelho a tal ponto que seu produto não podia, de modo
algum, ser chamado de evangelho (1.6-7). Para ele, segundo
parece, os proponentes dessa soteriologia legalista, sequer
deveriam ser considerados crentes, posto que eram dignos
de ser amaldiçoados (1.8-9).
A partir da observação do contexto que subjaz e dá
motivo à composição da carta, fica fácil concluir que o
propósito de Paulo nessa epístola é protestar contra a
distorção do evangelho em seu ponto essencial, a saber, a
justificação unicamente pela fé, defendendo assim a
mensagem e a liberdade cristãs diante dos ataques do
legalismo.
Não se pode, porém, dizer que esse propósito era a meta
final e única que o Apóstolo tinha em mente ao escrever sua
primeira epístola. Na verdade, a meta teológica supra
mencionada era também um instrumento para a consecução
de um alvo vivencial. De fato, Paulo afirma a liberdade do
crente em relação à Lei não somente para realçar a
justificação unicamente pela fé, mas também, e talvez
principalmente, para ensinar que a maturidade cristã
autêntica não pode ser construída através da obediência
mecânica a um conjunto de regras (Gl 3.3). Antes, é
alcançada por meio da obra do Espírito Santo na vida de
quem foi redimido pela fé. Sob a esfera, influência e
controle do Espírito, o homem justificado é capacitado a
viver aquela real santidade que o simples esforço pessoal,
ainda que sincero, jamais será capaz de produzir (Gl 5.16-
18, 22-26). Assim, um segundo propósito igualmente
importante em Gálatas é desmascarar a falso conceito que
reduz a vida cristã à mera obediência estéril de normas
exteriores, demonstrando que o aperfeiçoamento do caráter
do crente só ocorre por obra do Espírito Santo na vida
daqueles que, salvos pela fé, se submetem ao seu domínio.

CONTRIBUIÇÃO PARA A DOUTRINA CRISTÃ

Gálatas resume a essência do evangelho pregado por


Paulo aos gentios, mostrando que o homem, por seu esforço
pessoal, não pode jamais resolver o problema da culpa que
lhe foi imposta e que o separa de Deus, restando-lhe apenas
a fé em Cristo como meio de justificação (2.16).
Além disso, Gálatas mostra que essa fé que justifica, não
apenas leva o crente a desfrutar de um novo status diante de
Deus, mas também o livra da viver vazio e corrupto próprio
dos homens deste mundo (1.4) e o capacita a andar sob a
influência e controle do Senhor que agora nele habita (2.20).
Assim, a ética cristã também recebe forte contribuição da
Carta aos Gálatas. Nela aprendemos que a liberdade do
crente não é liberdade sem fronteiras, mas sim, uma
liberdade limitada pelo amor (5.13) e pela influência do
Espírito Santo (5.16-26).
Finalmente, não se pode deixar passar em branco a
contribuição de 3.13 para a compreensão dos limites da
morte substitutiva de Cristo. Ele nos substituiu até o ponto de
fazer-se “maldição em nosso lugar”, o que aponta para o
estado deplorável em que nos encontrávamos antes de
conhecer a salvação, além de mostrar a profundidade do
abismo a que Cristo desceu para nos buscar.

Capítulo 1

O EVANGELHO VERDADEIRO E SUA


SINGULARIDADE

Após se apresentar como apóstolo de Cristo, Paulo repudia


vigorosamente qualquer evangelho que não se harmonize
com o que tem pregado, realçando que o aprendera do
próprio Cristo, sem mediação de ninguém, nem mesmo dos
apóstolos de Jerusalém.

SAUDAÇÕES INICIAIS
GÁLATAS 1.1-5

1. Paulo, apóstolo enviado, não da parte de homens


nem por meio de pessoa alguma, mas por Jesus Cristo e
por Deus Pai, que o ressuscitou dos mortos,
2. e todos os irmãos que estão comigo, às igrejas da
Galácia:
3. A vocês, graça e paz da parte de Deus nosso Pai e do
Senhor Jesus Cristo,
4. que se entregou a si mesmo por nossos pecados a fim
de nos resgatar desta presente era perversa, segundo a
vontade de nosso Deus e Pai,
5. a quem seja a glória para todo o sempre. Amém.

O autor da carta, Paulo, apresenta-se logo no início como


“apóstolo enviado, não da parte de homens nem por meio de
pessoa alguma, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai...” (1).
Conforme visto no estudo sobre os aspectos introdutórios,
Paulo vinha sofrendo ataques de falsos mestres que, atuando
entre as igrejas da Galácia, diziam que ele não tinha a
mesma posição e autoridade dos apóstolos de Jerusalém. Por
isso, a fim de que sua epístola não fosse recebida como uma
carta qualquer, vazia de credibilidade e poder e, assim,
fosse de pronto desprezada, Paulo, de antemão, enfatiza aos
seus leitores que o que têm em mãos são ensinos procedentes
de um apóstolo verdadeiro; alguém que recebeu essa função
do Filho de Deus e do próprio Pai. Nisto, entre outras
coisas, ele se diferenciava daqueles que, já em seu tempo, se
autodenominavam apóstolos, movidos apenas pelo desejo de
se destacar entre os crentes comuns e, assim, enganá-los
(2Co 11.13; Ap 2.2).
No v. 1, Deus Pai é mencionado como aquele que
ressuscitou Jesus dentre os mortos. A menção da
ressurreição de Cristo é importante aqui porque foi o Cristo
ressurreto quem diretamente investiu Paulo no ofício
apostólico (Rm 1.5). Ademais, a ênfase na ressurreição era
sempre conveniente numa época em que os homens estavam
tão familiarizados com o pensamento grego que, em algumas
de suas manifestações, considerava a matéria má, a ponto de
mais tarde, dentro de uma roupagem cristã, negar a
encarnação do Filho (1Jo 4.2; Hb 2.14) e a ressurreição
física (1Co 15.12; 2Tm 2.18).
Ao escrever a Carta aos Gálatas, Paulo estava na
companhia de um grupo de irmãos. Não sabemos onde o
Apóstolo estava quando escreveu essa epístola e, portanto,
nem de que cidade eram os irmãos que tinha em sua
companhia. Seja como for, Paulo faz alusão a eles como se
fossem participantes da composição da carta (2), sem dúvida
com o objetivo de sensibilizar os destinatários ao mostrar-
lhes que os apelos dali constantes não eram fruto das
preocupações de uma mente isolada, mas que essas mesmas
preocupações eram compartilhadas por irmãos na fé sinceros
que se uniam a Paulo em suas exortações, fazendo com ele
um coro.
Eis aqui uma forma produtiva como a igreja deve
demonstrar unidade: aliando-se aos ministros em seus apelos
e exortações, dando assim maior força às suas mensagens e
mostrando aos que estão no erro a reprovação unânime do
povo de Deus. De fato, nada encoraja mais os rebeldes do
que a consciência de que há crentes que não concordam com
as reprovações que lhes são dirigidas.
Como é seu costume, Paulo deseja que seus destinatários
desfrutem da graça e da paz que vem de Deus Pai e do
Senhor Jesus Cristo (3). A graça é o favor de Deus
ministrado aos homens quando estes nada fizeram para
merecê-lo. A paz é a ausência de intrigas nas relações entre
as pessoas e também a serenidade interior experimentada
por quem desfruta de saúde e do suprimento das
necessidades em geral. A fonte de tudo isso, para Paulo, é
Deus.
Se, por um lado, o Pai foi descrito como quem ressuscitou
Jesus dentre os mortos (1), no v. 4, ao mencionar novamente
as duas Pessoas, Paulo focaliza Cristo, apontando-o como
aquele que “se entregou a si mesmo por nossos pecados”. A
morte voluntária de Cristo é afirmada aqui (Jo 10.17-18),
bem como o seu sentido teológico, ou seja, o fato de sua
morte ser a satisfação pelos nossos pecados (1Jo 2.2; 4.10).
Para os galateus, fascinados com a idéia de que a
observância da lei mosaica poderia salvá-los, era crucial
que Paulo frisasse que somente a morte de Cristo pôde
satisfazer as exigências de Deus. Buscar satisfazer a justiça
divina através de obras humanas seria o mesmo que afirmar
a insuficiência da cruz (Gl 2.21).
Ao sofrer a morte que era a punição pelos nossos
pecados, Cristo não somente teve como alvo nos substituir
no castigo a nós devido. Ao tirar-nos dentre os condenados à
morte, ele conseqüentemente nos resgatou “desta presente
era perversa” (4). O verbo traduzido como “resgatar”
é ἐ ξαιρέω e também significa livrar ou libertar do poder de
outra pessoa. Há aqui um breve lampejo do tema “liberdade
cristã”, presente em toda epístola. A “presente era” da qual
Cristo nos resgatou é o atual sistema cultural com seus
valores, crenças e apelos. Trata-se de um sistema que rejeita
Deus e, por isso é perverso e merecedor de justo castigo.
Cristo sofreu a nossa condenação e, assim, nos libertou
deste mundo condenado. Não somos mais participantes do
seu destino e também não devemos mais ser participantes de
suas práticas e modo de pensar. Fomos tirados de uma
Sodoma que em breve conhecerá o fogo do juízo e, não
sendo mais seus cidadãos, não devermos adotar seu estilo de
vida (Rm 12.1-2).
Paulo conclui dizendo que todo esse livramento foi pela
vontade do Pai (Ef 1.5; Tg 1.18). A origem da salvação está
sempre em Deus. É ele quem parte em busca do homem (Gn
3.9; Os 11.1-2; Lc 19.10). O contrário nunca acontece (Jo
5.40; Rm 3.11). Por isso, é natural que a seção termine com
o Apóstolo atribuindo e ele “a glória para todo o sempre.
Amém.” (5).

A AMEAÇA DE UM OUTRO EVANGELHO


GÁLATAS 1.6-10

6. Admiro-me de que vocês estejam abandonando tão


rapidamente aquele que os chamou pela graça de
Cristo, para seguirem outro evangelho
7. que, na realidade, não é o evangelho. O que ocorre é
que algumas pessoas os estão perturbando, querendo
perverter o evangelho de Cristo.
8. Mas ainda que nós ou um anjo dos céus pregue um
evangelho diferente daquele que lhes pregamos, que
seja amaldiçoado!
9. Como já dissemos, agora repito: Se alguém lhes
anuncia um evangelho diferente daquele que já
receberam, que seja amaldiçoado!
10. Acaso busco eu agora a aprovação dos homens ou a
de Deus? Ou estou tentando agradar a homens? Se eu
ainda estivesse procurando agradar a homens, não
seria servo de Cristo.

Depois das palavras iniciais de saudação, Paulo entra


diretamente no assunto principal que o motivou a escrever a
epístola: o desvio dos galateus para as sendas do
“evangelho” legalista, isto é, a crença de que para ser salvo
e prosseguir na vida como um cristão modelo, é necessário
ser um bom prosélito do Judaísmo, guardando a Lei Mosaica
em todos os seus aspectos.
Paulo demonstra-se admirado com o desvio tão rápido
dos crentes da Galácia (6). De fato, como já vimos, a carta
em análise foi escrita entre o fim da Primeira Viagem
Missionária, quando Paulo visitou a Galácia (At 13-14) e o
Concílio de Jerusalém (At 15). Assim, os galateus
começaram a abandonar o verdadeiro Evangelho tão logo
Paulo os deixou! Isso causava espanto no Apóstolo.
Lembremos que o problema na Galácia não dizia respeito ao
desvio relativamente comum de alguns novos convertidos
que com certa freqüência retornam para o mundo (Mt 13.1-
23). Paulo trata aqui da apostasia de, pelo menos, quatro
igrejas, ocorrido quando mal ele virara as costas.
No v. 6 o Apóstolo mostra que abandonar o Evangelho
equivale a abandonar o próprio Deus. Isso se torna ainda
mais grave quando lembramos que Deus é “aquele que os
chamou pela graça de Cristo”. Mais uma vez a origem da
salvação é colocada em Deus (Veja v. 4). Nota-se aqui que é
ele quem chama (tb. v.15), sendo essa uma convocação cujo
atendimento implica ser resgatado (Rm 8.30; 1Ts 2.12; 2Ts
2.13-14; 1Pe 2.9). Esse chamamento é viabilizado pela graça
de Cristo (2Tm 1.9-10a). Deus chama o pecador porque,
pela graça de Cristo dada a nós desde os tempos eternos e
revelada em sua manifestação, é possível agora ter acesso ao
Pai (2Co 5.18-19; Ef 2.17-18; 3.11-12; Hb 10.19-20). Os
galateus, ao abandonarem o Evangelho, estavam dando as
costas para o Deus que havia realizado tudo isso em seu
favor.
Esse abandono de Deus se expressava na disposição para
seguir “outro evangelho que, na realidade, não é o
evangelho” (vv.6-7). Na busca de agradar a Deus por meio
da Lei os crentes da Galácia tinham, na verdade, abandonado
a Deus, seguindo uma mensagem que não era dele, um
evangelho tão desfigurado que não podia, de modo algum,
ser chamado de evangelho. Daqui se depreende duas
preciosas lições. Primeira: quem quer aproximar-se de Deus
à parte do único Evangelho acaba por distanciar-se ainda
mais dele. Segunda: qualquer acréscimo à mensagem de
salvação que esvazia a obra de Cristo de suficiência,
perverte o Evangelho verdadeiro e deve ser de pronto
rejeitado por nós como ímpio e profano.
Paulo aponta para a causa daquele desvio tão rápido. Diz
ele: “O que ocorre é que algumas pessoas os estão
perturbando, querendo perverter o evangelho de Cristo.” (7).
É evidente que Paulo está se referindo aos mestres legalistas
que, possivelmente vindos de Jerusalém (Veja “Aspectos
Introdutórios”), anunciavam que para ser justificado diante
de Deus era necessário que o cristão fosse circuncidado
(5.2-6; 6.12-13) e guardasse toda a Lei (2.16; 3.11; 4.10,
21). Tal era, de fato, o conteúdo dominante do “outro
evangelho” combatido por Paulo na Carta aos Gálatas.
Essa perversão do Evangelho trazia perturbação às
igrejas. “Perturbar” aqui significa agitar, promover
distúrbios, tumultuar ou criar confusão. Em Atos 15.24, onde
o mesmo verbo tarásso aparece, aprendemos que essa
perturbação consistia especificamente em transtornar ou
confundir a mente dos crentes com discursos heréticos. Esse
efeito da mentira é útil aos falsos mestres porque a mente
confusa é vacilante e, aos poucos, pela insistente
proclamação do erro, termina por ceder aos apelos da
heresia. A mente dos novos crentes onde a Sã Doutrina, pelo
pouco decurso do tempo, ainda não foi digerida, assimilada
e firmemente incorporada, é alvo fácil dessa estratégia. Os
falsos mestres sabiam disso e usaram com maestria o
repugnante artifício na Galácia, onde as igrejas haviam
acabado de nascer.
Por outro lado, que essa mesma mente vacilante seja
encontrada em crentes antigos é inadmissível, pois neles se
espera que a verdade esteja claramente delineada e
solidamente fixada, ao ponto de não poderem mais ficar
confusos ou perturbados, cheios de questões e dúvidas,
quando doutrinas estranhas lhes são propostas (Cl 4.12; 2Pe
1.12).
O pronunciamento de Paulo em face da atuação dos
mestres judaizantes se constitui num dos mais impetuosos de
todo o Novo Testamento. Ele afirma com rigor: “Mas ainda
que nós ou um anjo dos céus pregue um evangelho diferente
daquele que lhes pregamos, que seja amaldiçoado!” (8).
Com o pronome “nós”, o Apóstolo se refere a si próprio.
Dessa forma ele pretende levar a hipótese ao absurdo a fim
de mostrar com que grau de firmeza o crente deve
comprometer-se com o evangelho genuíno. Por outro lado,
ainda que a hipótese do próprio Paulo pregar um falso
evangelho fosse praticamente impossível, havia a real
possibilidade de alguém ensinar mentiras através de cartas e
assiná-las fraudulentamente com o nome do apóstolo. Parece
que falsificações desse tipo aconteceram nessa época no
ministério de Paulo (2Ts 2.1-2). Tanto que para frustrá-las,
ele assinava suas epístolas de próprio punho (2Ts 3.17).[4]
O que Paulo diz no v.8, portanto, serviria, inclusive, para
prevenir os crentes contra heresias ensinadas em seu nome.
Ainda no v. 8, o leitor se vê diante de uma hipótese ainda
mais incrível. Desta vez é um anjo celeste que Paulo
apresenta como eventual proponente de um evangelho
diferente daquele que fora pregado aos galateus. A
possibilidade de um ser angelical maligno apresentar-se
como um mensageiro de Deus e, assim, enganar os homens é
vislumbrada em 2Coríntios 11.14, onde Paulo diz que o
próprio Satanás se disfarça de anjo de luz.[5] Dificilmente,
contudo, Paulo estava receoso disso realmente acontecer
com os crentes da Galácia. Sua intenção era apenas
expressar quão fortemente os crentes devem se opor a
qualquer pessoa que se aproxima deles com uma mensagem
que tira da cruz de Cristo a sua suficiência.
Diante das duas hipóteses levantadas por Paulo no v.8, a
reação do crente deve ser uma só: considerar o tal
mensageiro, seja ele quem for, maldito. Na prática isso não
significa que o crente tenha que pronunciar maldições contra
o falso mestre. O que Paulo ensina é que o cristão deve
considerar quem anuncia um evangelho falso como estando
debaixo da ira de Deus (Cf. Rm 9.3 e 1Co 16.22, onde esse é
claramente o sentido em que a palavra “amaldiçoado” deve
ser entendida). Essa orientação tem que sempre estar
presente na mente dos crentes de todas as épocas, uma vez
que mensageiros mentirosos existem desde os primórdios da
igreja (Rm 16.17-18; 2Co 11.3-4) e podem ser encontrados
em qualquer lugar. Se essa postura rígida fosse adotada
pelos cristãos modernos, há muito veríamos nossas igrejas
livres do estranho evangelho que é pregado em nossos dias.
[6]
O v.9 repete o que foi dito no 8 com ligeiras
modificações. Aqui ele não fala de “nós ou um anjo vindo
dos céus”. Antes usa a palavra “alguém”, um termo amplo
que lógica e propositalmente inclui os falsos mestres que
perturbavam os galateus. Além disso, Paulo substitui a
expressão “evangelho... que lhes pregamos” por
“evangelho... que já receberam”. Com a primeira fórmula
Paulo evoca a fonte da mensagem pregada inicialmente na
Galácia, ou seja, um apóstolo enviado pelo próprio Deus
(1.11-12). Com a segunda Paulo traz à lembrança dos seus
leitores o compromisso que assumiram com essa mesma
mensagem. Nos dois casos ele quer estimular as igrejas da
Galácia a reafirmar sua fidelidade ao evangelho puro.
A força do texto em análise, contudo, não está em suas
pequenas variações. É a repetição que naturalmente dá
ênfase ao que é dito. Através da repetição Paulo realça e
assume plenamente o que afirma, mostrando coragem,
convicção e clareza, ao anular qualquer possibilidade de que
às suas palavras seja dada uma interpretação mais branda.
De fato, ele afirma e repete que o proponente de um outro
evangelho deve ser considerado maldito!
O v. 10 parece a princípio apresentar uma rápida
digressão. Nele Paulo rejeita terminantemente a idéia de ser
um ministro que no exercício de suas funções se preocupa
em agradar a homens. O que ocorre aqui, contudo, não é
propriamente um desvio do assunto. Na verdade, o que o
Apóstolo diz nos vv. 8-9 são uma prova clara de que não tem
receio de desagradar quem quer que seja. Ademais, é
possível que na Galácia fermentassem comentários maldosos
(estimulados pelos mestres judaizantes) de que ele pregava a
necessidade da guarda da Lei quando isso lhe era
conveniente (Veja-se 5.11). A sensibilidade de Paulo aos
escrúpulos dos judeus incrédulos, demonstrada muitas vezes
na sua prática evangelística, pode ter servido de base para
essas falsas acusações (1Co 9.20-21). Paulo agora destaca a
falsidade delas. Segundo ele, seria impossível ser servo de
Cristo e ao mesmo tempo buscar o aplauso humano. Parece
que para Paulo uma coisa exclui a outra e esse fato deveria
ser levado em conta por todos quantos se dizem chamados
para o ministério. A tentativa de esvaziar o trabalho de
Cristo dessa dimensão incômoda tem levado muitos pastores
a abandonar o ensino escriturístico para pregar e fazer o que
agrada as mentes carnais.

A ORIGEM DIVINA DO EVANGELHO


GÁLATAS 1.11-24

11. Irmãos, quero que saibam que o evangelho por mim


anunciado não é de origem humana.
12. Não o recebi de pessoa alguma nem me foi ele
ensinado; ao contrário, eu o recebi de Jesus Cristo por
revelação.
13. Vocês ouviram qual foi o meu procedimento no
judaísmo, como perseguia com violência a igreja de
Deus, procurando destruí-la.
14. No judaísmo, eu superava a maioria dos judeus da
minha idade, e era extremamente zeloso das tradições
dos meus antepassados.
15. Mas Deus me separou desde o ventre materno e me
chamou por sua graça. Quando lhe agradou
16. revelar o seu Filho em mim para que eu o
anunciasse entre os gentios, não consultei pessoa
alguma.
17. Tampouco subi a Jerusalém para ver os que já eram
apóstolos antes de mim, mas de imediato parti para a
Arábia, e voltei outra vez a Damasco.
18. Depois de três anos, subi a Jerusalém para conhecer
Pedro pessoalmente, e estive com ele quinze dias.
19. Não vi nenhum dos outros apóstolos, a não ser
Tiago, irmão do Senhor.
20. Quanto ao que lhes escrevo, afirmo diante de Deus
que não minto.
21. A seguir, fui para as regiões da Síria e da Cilícia.
22. Eu não era pessoalmente conhecido pelas igrejas da
Judéia que estão em Cristo.
23. Apenas ouviam dizer: “Aquele que antes nos
perseguia, agora está anunciando a fé que outrora
procurava destruir”.
24. E glorificavam a Deus por minha causa.

O texto que se passa agora a analisar compõe uma grande


seção autobiográfica em que Paulo narra parte de sua
trajetória tanto dentro do judaísmo como do cristianismo.
Seu propósito é claramente oferecer elementos históricos
que comprovem a sua autoridade apostólica que, como se
sabe, estava sendo atacada pelos falsos mestres que atuavam
dentro das igrejas da Galácia.
Paulo inicia esclarecendo que o evangelho que pregava
não era de origem humana (11). É evidente que sua intenção
ao alertar os galateus acerca disso era criar em suas mentes
uma idéia de contraste entre o que lhes anunciara no
princípio e o que eles estavam agora ouvindo dos mestres
judaizantes. Há, portanto, aqui a acusação implícita de que a
mensagem dos legalistas não passava de algo criado por eles
mesmos.
Do que foi dito acima, facilmente se depreende uma
característica típica das falsas religiões: suas crenças,
ensinos, rituais e práticas são apenas produto da fértil
imaginação de seus fundadores e líderes. Em contrapartida,
o seguinte fato sobre a verdadeira religião deve enraizar-se
fortemente em nosso coração: a religião genuína é dada, não
construída. É Deus quem a revela; não é o homem que a
inventa. Esse é o motivo pelo qual não podemos fazer
alterações no cristianismo. Não fomos nós que o criamos e,
portanto, não temos o direito de alterá-lo. Se quisermos
recebê-lo, temos que aceitá-lo como ele é.[7]
No v. 12, Paulo desenvolve ainda mais o ensino de que o
evangelho que pregava não se originou em homens.
Primeiramente afirma que não o recebeu de ninguém e que
nenhuma pessoa o ensinou. Nessas palavras pode-se
vislumbrar um dos traços do verdadeiro apostolado que
Paulo reivindicava de modo tão veemente: o apóstolo de
Cristo não aprendia a mensagem que pregava com outros
homens. Essa mensagem lhe era dada diretamente pelo
Cristo ressurreto (1.1; 1Co 11.23ss). Esse é um dos
principais pontos de distinção entre os apóstolos de Cristo e
os crentes comuns, já que estes recebem ou aprendem o
evangelho de um outro cristão que se dispõe a pregar (1Co
15.1,3). Essa também é uma das razões pelas quais podemos
afirmar que não existem mais apóstolos hoje, uma vez que
ninguém mais pode alegar com sã consciência que aprendeu
o evangelho sem a mediação humana.
Paulo completa o v.12 com a declaração aberta de que
recebeu o evangelho do próprio Jesus Cristo “por
revelação”. Enquanto os galateus tinham recebido o
evangelho pela pregação (3.1-2; 4.13), Paulo o recebera
através de uma manifestação especial de Deus, uma
revelação (Ef 3.2-4). Assim foi com os demais apóstolos e
profetas do período neotestamentário (Ef 3.5) e Paulo
realçava essa experiência a fim de defender a sua autoridade
apostólica (1.15-16; 1Co 2.9-13).
O Apóstolo passa agora a narrar a mudança dramática que
se operou em sua vida após ter conhecido a Cristo. Ele quer
demonstrar com a exposição desses fatos o grande impacto
que o evangelho que pregava causou em sua própria história.
É evidente que uma transformação tão profunda não podia
ser procedente de uma mensagem que o próprio apóstolo
houvesse dolosamente inventado. Para Paulo, ele mesmo era
a prova viva da origem sobrenatural da mensagem que
anunciava. De fato, só uma mensagem oriunda de fontes
celestes poderia transformar o mais cruel dos inimigos da
igreja no apóstolo dos gentios, talvez o maior cristão que já
pisou neste mundo.
No v. 13, Paulo afirma que os galateus ouviram acerca do
seu procedimento no judaísmo, “como perseguia com
violência a igreja de Deus, procurando destruí-la”. Algumas
informações sobre a ferocidade com que Saulo de Tarso
investia contra os crentes podem ser deduzidas de Atos 8.1-
3; 9.1-2, 13-14; 22.4-5; 26.9-11; 1Coríntios 15.9; e
1Timóteo 1.13-16.
Esses textos, associados ao versículo em análise, mostram
que o alvo maior dos inimigos da fé, entre os quais Paulo um
dia foi contado, é nitidamente destruir a igreja. Essa verdade
deve preocupar os crentes. Não por nutrirem medo de que a
igreja um dia seja aniquilada. É sabido, e a própria história
comprova, que isso é impossível (Mt 16.18; 1Pe 5.8-11).
Contudo, o anseio de destruir a igreja, típico dos inimigos de
Cristo, deve preocupar o crente no sentido de evitar agir
também nessa direção. Na verdade, todas as ações dos
cristãos devem ser avaliadas à luz do tipo de impacto que
elas porventura causarão sobre a igreja de Deus. Qualquer
ação ou omissão que a enfraqueça deve causar-nos pavor,
uma vez que nos torna cooperadores dos adversários da
família de Deus.
Se de um lado Paulo era severo na perseguição do
cristianismo, de outro era também severo no cuidado pelo
judaísmo (14). Na verdade, Saulo de Tarso juntamente com
as autoridades judaicas e romanas, não via o cristianismo
como uma religião autônoma.[8] Para eles, o cristianismo
era apenas o judaísmo “corrompido” pela idéia de que Jesus
era o Messias prometido nas páginas do AT. A perseguição
promovida por Saulo, portanto, tinha como alvo purgar a
religião de seus antepassados dos “desvios” anunciados
pelos cristãos. Assim, sua perseguição era fruto de zelo
religioso extremado (Fp 3.6). De fato, Saulo amava o
judaísmo e queria livrá-lo de supostas contaminações (1Tm
1.13).
A menção desse zelo anterior de Paulo pelo judaísmo é
extremamente útil para os seus propósitos na Carta aos
Gálatas. Isso porque, como se sabe, os falsos mestres que
atuavam na Galácia se apresentavam como grandes
observadores da lei mosaica[9], exigindo que os crentes se
submetessem ao jugo judaico e acusando Paulo de ter uma
mente apegada ao desregramento. A fim de expor a loucura
que tudo isso representava, o Apóstolo mostra que ele sim
havia sido um real observador da Lei, não do tipo que
tentava ser amigo dos cristãos (como os falsos mestres), mas
como alguém indisposto a tolerar qualquer sombra que
nublasse o centro de suas convicções religiosas. Paulo
afirma que foi um observador da Lei sem igual entre os
judeus de sua idade, zelando extremamente pelas tradições
de seus antepassados.[10]
O apóstolo quer com isso, indiretamente dizer: “Eu já
percorri com todo o empenho o caminho no qual vocês e
esses tais mestres estão agora engatinhando e sei que é um
caminho inútil, incapaz de salvar. Toda a minha trajetória
mostra o quanto fui zeloso dessas coisas que hoje atraem
tanto vocês. Fui autoridade nisso tudo e agora, como
Apóstolo, sou autoridade no caminho novo do Evangelho de
Cristo. Por isso, creiam-me: não há relação alguma entre o
Evangelho de Cristo e o legalismo judaico. Conheço muito
bem o primeiro e conheci muito bem o último. Sei que
aquele é poderoso para salvar e que o último só
escraviza”.Uma linha semelhante de pensamento pode ser
vislumbrada em Filipenses 3.4-9.
No v. 15, Paulo contrasta a vida que tinha no judaísmo
com uma nova e gloriosa etapa; uma etapa de serviço a
Cristo, serviço esse marcado por prontidão em obedecê-lo
(16) e independência dos líderes de Jerusalém (17). Ao
iniciar esse assunto, o Apóstolo cita apenas de passagem a
causa primária que o lançou nesse ministério. Segundo ele, o
próprio Deus o separou desde o ventre materno e o chamou
por sua graça.
A menção desses mistérios é muito propícia neste ponto.
Evidentemente a meta de Paulo ao mencioná-los é
demonstrar a origem sobrenatural de seu chamado e assim
neutralizar os ataques que os falsos mestres faziam contra a
autenticidade de seu apostolado. De fato, ao dizer que Deus
o separou desde o ventre materno, além de ensinar num
breve lampejo a predeterminação divina, também eleva seu
ministério ao nível dos mais eminentes servos de Deus do
Antigo Testamento (Is 49.1; Jr 1.4-5), o que deveria inspirar
temor e honra nos galateus que estavam vacilantes quanto à
sua opinião acerca de seu pai espiritual (Ver tb. Rm 1.1).
Ademais, ao dizer que Deus o chamou por sua graça,
golpeia o ensino dos falsos mestres no próprio coração, pois
está com isso dizendo que seu zelo pela Lei e tradições
judaicas, em nada influiu na obtenção do favor com que foi
aquinhoado pelo Senhor. Na verdade, foi unicamente pela
graça de Deus que alcançou o privilégio de ser contado entre
os ministros do Evangelho. Resumindo, Deus chamou Paulo
por sua graça, não em virtude de seu zelo pregresso na
prática do judaísmo.
Assim, com uma linha apenas, Paulo destrói as duas
principais mentiras que emanavam da boca dos judaizantes:
a de que Paulo era um falso apóstolo e a de que a prática da
Lei era fundamental para a obtenção do favor divino.
O v. 16 termina o pensamento que a má divisão dos
versículos deixou incompleto no verso anterior. Houve um
momento que o Deus que separou Paulo antes dele nascer e o
chamou por sua graça, também lhe revelou seu Filho.[11] Tal
revelação, conforme se depreende do texto, foi
especialmente feita com o propósito de habilitar Paulo como
pregador aos gentios.
É pouco provável, portanto, que o apóstolo esteja se
referindo aqui à sua experiência no caminho de Damasco.
Certamente alude a outra ocasião em que o Senhor revelou-
se a ele de forma visível e gloriosa, provavelmente nas
regiões da Arábia mencionada no v. 17, desvendando-lhe os
mistérios que deveria anunciar e escrever (Ver vv. 11-12;
2Co 12.1,7; Ef 3.2-3) e incumbindo-o da pregação aos povos
de todo o mundo (Rm 1.5, 14).[12]
Aqui vemos, pois, um importante processo: O Deus que
separa e chama é também o Deus que capacita para a obra.
Dele é o plano ao escolher; dele é a voz ao chamar, e dele
são os recursos ao tornar seu servo pronto para o serviço.
Aliás, essa verdade deve ser gravada de forma indelével na
mente de todo o que trabalha em prol do Reino de Cristo,
pois o resultado de sua assimilação será gratidão por ser
contado entre aqueles que o Senhor preparou, prontidão por
saber que é o próprio Deus quem chama, e coragem advinda
da certeza de que é o Chefe Onipotente quem nos capacita.
Tais foram as disposições presentes no Apóstolo. Tanto
que, ao ver-se encarregado dos grandes mistérios e deveres
dados por Deus, não consultou “pessoa alguma”!
Paulo prossegue afirmando, no v. 17, que ao tempo do seu
chamado não subiu a Jerusalém para ver os que já eram
apóstolos antes dele. Sua intenção aqui é reforçar ainda mais
a alegação de que não aprendeu a mensagem que pregava
com homem algum (cf. vv. 11-12). Nem mesmo os apóstolos
de Jerusalém lhe haviam transmitido essa mensagem. Nem
tampouco acrescentaram algo a ela ou tiveram que corrigi-la
em algum ponto. Paulo insiste em sua defesa contra os falsos
mestres alegando que é um apóstolo genuíno, ou seja, alguém
que recebeu sua mensagem diretamente do Cristo ressurreto,
sem qualquer mediação humana.
Diz ainda o Apóstolo que, quando da sua vocação, em vez
de consultar os líderes de Jerusalém, partiu para a Arábia e
depois voltou outra vez para Damasco. A Arábia era o reino
de Aretas (2Co 11.32) que abrangia as regiões a leste de
Damasco, estendendo-se em direção ao sul sobre a
Transjordânia e abarcando toda a Península do Sinai (4.25)
até Suez. Paulo foi para algum lugar dentro desses limites e
depois voltou para Damasco. Certamente se isolou naquelas
regiões a fim de refletir sobre tudo o que lhe acontecera e
também para receber capacitação de Deus para a pregação.
Essa ida de Paulo para as regiões da Arábia não é
mencionada no livro de Atos, mas é provável que se situe
entre os versículos 19 e 20 de Atos 9, o que, se for aceito,
coloca a ida à Arábia antes do início de seu ministério como
pregador.
No v.18 o apóstolo diz que foi a Jerusalém somente três
anos depois dos eventos narrados. Talvez ele tenha passado
todo esse tempo pregando em Damasco (Veja em At 9.23 a
expressão “decorridos muitos dias”). Então, como não
pudesse mais permanecer ali sem correr grave perigo, fugiu
(At 9.23-25; 2Co 11.32-33) e aproveitou a oportunidade
para seguir até a Palestina, onde poderia finalmente conhecer
Pedro.
Com a ajuda de Barnabé (At 9.26-27), Paulo chegou a
Pedro e permaneceu com ele apenas quinze dias, o que seria
insuficiente se tivesse ido ali para receber qualquer
treinamento nas funções que desempenhava. Ademais,
acrescenta sob juramento (20) que não viu nenhum dos
outros apóstolos, exceto Tiago, irmão do Senhor.[13] Assim,
mais uma vez Paulo destaca que não era um apóstolo de
“segunda categoria” como diziam seus oponentes. Antes,
como ocorrera com os seus colegas de Jerusalém, havia
recebido o múnus apostólico diretamente de Jesus Cristo
ressurreto (1Co 9.1-2).
Depois de ter estado em Jerusalém, Paulo foi para a Síria
e Cilícia (21). A descrição desses fatos encaixa-se na
narrativa de Atos 9.29-30. Nesse texto aprendemos que em
Jerusalém Paulo corria perigo e, por isso, foi enviado para a
Cilícia (sudeste da atual Turquia), mais especificamente para
Tarso, sua cidade natal (At 21.39; 22.3). Foi nessa cidade
que, mais tarde, Barnabé, saindo à sua procura, o encontrou.
Ele então o levou até a recém formada igreja de Antioquia
que, finalmente, enviou ambos para a Primeira Viagem
Missionária (At 11.22-26; 13.1-2).
O que Paulo diz nos vv. 22-24 mostra que ele não visitou
as igrejas da Judéia. Seu objetivo é dar provas ainda mais
fortes de que seu contato com a área de influência dos
apóstolos de Jerusalém foi praticamente inexistente, sendo
certo que sua “formação” apostólica não dependeu de Pedro
ou de qualquer outro líder influente de Jerusalém.
Ao afirmar isso, refere-se às igrejas da Judéia como
estando “em Cristo”, o que significa estar sob a autoridade e
sob a esfera de influência do Senhor ressurreto. Aqui é
importante destacar que não são todas as igrejas da
atualidade que podem ser qualificadas desse modo.
Qualquer grupo que se apresente como igreja de Cristo, para
que honre esse título deve curvar-se ao senhorio de Jesus,
ser sensível à sua mensagem proclamada na Escritura, e
buscar a sua presença atuante em seu meio. É somente com
esses traços que uma igreja pode dizer que está em Cristo.
Paulo destaca que, mesmo não tendo visitado aquelas
igrejas, sua fama corria entre elas, de modo que, perplexas,
diziam: “Aquele que antes nos perseguia, agora está
anunciando a fé que outrora procurava destruir” (23); e
louvavam a Deus por causa dele. Assim, o grande Apóstolo
mostra como ele que inspirava terror passou a inspirar
louvor; como ele que arrancava gemidos de angústia passou
a estimular orações de gratidão. Com isso Paulo quer
mostrar que mesmo igrejas que não o conheciam
pessoalmente, ao menos reconheciam sua conversão e
trabalho e com isso se alegravam. Quanto mais não deveriam
os galateus também honrá-lo, já que o conheciam de perto e
eram fruto do seu próprio empenho!
Capítulo 2

O EVANGELHO VERDADEIRO E SUA


INDEPENDÊNCIA

A mensagem pregada por Paulo, a qual não impunha a


circuncisão aos crentes gentios, não estava em conflito com a
mensagem dos demais apóstolos. Aliás, Paulo repreendera
Pedro por haver tratado os crentes gentios com desprezo em
Antioquia a fim de agradar os defensores da circuncisão
vindos da igreja de Jerusalém.

A UNIDADE APOSTÓLICA
GÁLATAS 2.1-10

1. Catorze anos depois, subi novamente a Jerusalém,


dessa vez com Barnabé, levando também Tito comigo.
2. Fui para lá por causa de uma revelação e expus
diante deles o evangelho que prego entre os gentios,
fazendo-o, porém, em particular aos que pareciam mais
influentes, para não correr ou ter corrido inutilmente.
3. Mas nem mesmo Tito, que estava comigo, foi
obrigado a circuncidar-se, apesar de ser grego.
4. Essa questão foi levantada porque alguns falsos
irmãos infiltraram-se em nosso meio para espionar a
liberdade que temos em Cristo Jesus e nos reduzir à
escravidão.
5. Não nos submetemos a eles nem por um instante,
para que a verdade do evangelho permanecesse com
vocês.
6. Quanto aos que pareciam influentes o que eram
então não faz diferença para mim; Deus não julga pela
aparência tais homens influentes não me
acrescentaram nada.
7. Ao contrário, reconheceram que a mim havia sido
confiada a pregação do evangelho aos incircuncisos,
assim como a Pedro, aos circuncisos.
8. Pois Deus, que operou por meio de Pedro como
apóstolo aos circuncisos, também operou por meu
intermédio para com os gentios.
9. Reconhecendo a graça que me fora concedida,
Tiago, Pedro e João, tidos como colunas, estenderam a
mão direita a mim e a Barnabé em sinal de comunhão.
Eles concordaram em que devíamos nos dirigir aos
gentios, e eles, aos circuncisos.
10. Somente pediram que nos lembrássemos dos
pobres, o que me esforcei por fazer.

No capítulo 2, Paulo continua a narrativa, sempre com o


propósito de defender sua autoridade apostólica e a
liberdade cristã. O capítulo começa com a afirmação que,
passados quatorze anos, ele foi novamente a Jerusalém. É
difícil detectar o ponto de partida para a contagem desses
quatorze anos. Pode-se contá-los tanto a partir de sua
primeira visita àquela cidade (1.18-20), como a partir de sua
conversão, sendo esta última hipótese a mais provável.
No v. 1 Paulo diz que foi a Jerusalém acompanhado de
Barnabé. Sabe-se que ambos por esse tempo eram líderes na
igreja de Antioquia (At 11.25-26; 13.1) e certamente
partiram dali para Jerusalém. Paulo diz que Tito, um gentio
convertido também os acompanhou. O apóstolo prossegue
dizendo que a visita foi motivada por uma revelação e que,
graças a ela, teve a oportunidade de expor o evangelho que
pregava aos homens influentes da principal igreja da Judéia
(v.2).
Esses detalhes se encaixam perfeitamente na narrativa de
Atos. A revelação de que Paulo fala é descrita em Atos
11.27-30 e diz respeito a uma profecia de Ágabo que
predisse uma grande fome que assolaria o mundo romano.
[14] Em virtude dessa revelação, Paulo foi enviado com
Barnabé a Jerusalém a fim de entregar uma oferta levantada
em Antioquia para os crentes da Judéia (Veja tb. At 12.25).
Conforme narrado em Gálatas, nessa ocasião Paulo não só
realizou a entrega da oferta, mas também aproveitou a
oportunidade para expor aos líderes da igreja em Jerusalém
a mensagem que pregava aos gentios.
A fim de manter em mente o lugar que esses episódios
ocupam na cronologia de Atos, é bom lembrar que tudo isso
aconteceu antes da Primeira Viagem Missionária a qual
redundou na implantação das igrejas da Galácia (At 13-14) e
antes do Concílio de Jerusalém (At 15.1-30), ocorrido em 48
d.C.
Paulo realça, ainda no v. 2, que fez a exposição de sua
mensagem “aos que pareciam mais influentes”. Ademais,
deixa claro que agiu assim para não correr inutilmente. Isso
tudo significa que Paulo se preocupava em manter clara a
harmonia entre seus ensinos e os dos demais apóstolos.[15]
Isso faria com que seus esforços não fossem inúteis, ou seja,
evitaria as divisões e até apostasias que as disputas entre
mestres invariavelmente trazem sobre a igreja do Senhor e
que tornam o trabalho de alguns uma corrida vã.
O v. 2 mostra, portanto, quão importante é que quem
trabalha na obra de Cristo nutra a unidade não só com os
crentes comuns, mas principalmente com aqueles que
desempenham na igreja uma função de alta responsabilidade.
Ter a aprovação somente dos que não ocupam lugar de
destaque dado por Deus, com desprezo em relação ao
parecer dos líderes, dos mestres e dos que são realmente
influentes na igreja torna o trabalho uma corrida inútil,
destinada ao fracasso, uma vez que só produzirá divisões e
discórdias. Trabalha, pois, em vão o obreiro que arranca os
aplausos do povo, mas está em desacordo com os homens
que Deus constituiu como colunas na sua igreja. Paulo sabia
disso e, ainda que não estivesse sob a autoridade dos
apóstolos de Jerusalém, buscou cuidadosamente e para o
bem da Causa estar em harmonia com eles.
Nos vv. 3-5, Paulo mostra que os ataques que estava
enfrentando por parte dos falsos mestres da Galácia não lhe
eram novidade. Ele narra que em sua segunda visita a
Jerusalém, Tito[16], apesar de ser grego, não foi obrigado a
circuncidar-se (3). Esse fato tinha especial importância para
o enfraquecimento das acusações dos mestres judaizantes,
pois dava provas de que os apóstolos de Jerusalém, ao
contrário do que aqueles falsos mestres diziam, não exigiam
a circuncisão de convertidos gentios[17]. Paulo, assim,
comprova ainda mais a harmonia entre seu evangelho e o dos
apóstolos da Judéia. Isso corrobora a tese de que é um
verdadeiro apóstolo e destrói a acusação de que pregava um
cristianismo modificado por seus caprichos.
A questão da necessidade da circuncisão de Tito,
conforme Paulo narra, foi levantada na ocasião por falsos
irmãos (4). Aqui Paulo diz abertamente que quem defende a
justificação pela prática da Lei não é crente. É claro que isso
atingia diretamente os mestres judaizantes que estavam
ensinando nas igrejas da Galácia. O alvo claro de Paulo em
toda essa sessão é desmascarar esses homens.
O v. 4 mostra uma das estratégias de Satanás no uso de
seus ministros para destruir a obra de Cristo. Em primeiro
lugar eles se infiltram em nosso meio. Assim, cada crente
deve estar alerta para o fato de que nem todos os que estão
na igreja são irmãos de verdade. É comum incrédulos se
fingirem de crentes para cumprirem os desígnios de Satanás
no meio do povo de Deus. Tais pessoas são, portanto, muito
perigosas (2Co 11.26; Fp 3.2-3) e o crente precisa de
discernimento para detectá-las.
Uma das formas pelas quais podemos detectar essas
pessoas encontra-se ainda no v. 4. Paulo deixa claro que os
falsos irmãos se introduziram na igreja para “espionar” a
liberdade dos crentes. Espionar é atividade própria de
estrangeiros inimigos. O verbo sugere a idéia de espiar um
território. Assim o espião é sempre um inimigo disfarçado
que procura os pontos fracos do seu alvo a fim de cooperar
com sua destruição. Em Jerusalém, os “espiões” procuravam
encontrar dentro da igreja fraquezas na compreensão da
liberdade conquistada por Cristo para os crentes. Fazendo
pressões sobre esses pontos de maior fragilidade eles tinham
como alvo destruir a liberdade cristã e tornar os crentes
escravos da Lei.[18]
Toda essa estratégia usada pelos maus nos ajuda a
detectar os inimigos de Cristo infiltrados entre os irmãos.
Sempre que alguém no meio da igreja milita contra algo que
Cristo conquistou para nós na cruz, certamente tal pessoa é
um servo de Satanás a serviço de seu senhor no meio do
povo de Deus. Exemplos do que Cristo conquistou para nós
no Calvário, além da liberdade, são a alegria (Jo 7.38), a
comunhão pacífica (Ef 2.14-16), o acesso a Deus (Hb 10.19-
20) e o poder para uma vida de consagração (Rm 6.10-11;
2Co 5.15). Sempre que alguém, dentro da igreja, luta contra
essas coisas, tal pessoa deve ser olhada com suspeita como
um falso irmão infiltrado em nosso meio para destruir a obra
do Mestre e, assim, cumprir os planos de Satanás.
O v. 5 deixa implícito que os falsos irmãos, além de tentar
destruir o que Cristo conquistou para o seu povo também
tentam se impor sobre o rebanho. Paulo dá a entender que os
legalistas de Jerusalém queriam que ele e todos os crentes se
sujeitassem às suas idéias (o paralelo com os legalistas que
estavam na Galácia é óbvio, cf. 4.17; 6.12-13). É, de fato,
traço típico dos falsos irmãos tentar ocupar posições de
influência, de onde seus ataques podem ser feitos com maior
eficácia (3Jo 9-10). O Apóstolo, porém, em nenhum
momento se sujeitou a eles. Com isso ele buscava preservar
a verdade do Evangelho. A verdade que o Apóstolo tem em
mente aqui é a consubstanciada em 3.11.
Demonstrar que sua mensagem não lhe fora entregue por
homem algum, mas sim pelo próprio Cristo, era fundamental
para Paulo na defesa de seu apostolado (1.11-12). Por isso
insiste em dizer que em sua segunda visita a Jerusalém, os
apóstolos que ali estavam nada lhe acrescentaram (6). Com a
expressão “quanto aos que pareciam influentes”, Paulo dá a
entender que tem em mente outros líderes, pouco conhecidos
por ele, além dos apóstolos. Ao mencionar tais homens e sua
aparente autoridade, Paulo observa que a grandeza deles
naquela igreja não o impressionava, pois, conforme lembra,
“Deus não julga pela aparência”.
De fato, é comum na igreja vermos pessoas se destacando,
tornando-se conhecidas e influentes, obtendo um lugar de
proeminência no meio da irmandade, dando a todos a
impressão de que são “grandes” e cheios de autoridade entre
os crentes. Alguém assim pode impressionar os homens, mas
não passar de uma figura desprezível aos olhos de Deus,
alguém que até mesmo muito o aborrece com seus ares de
orgulhoso, com sua preocupação em passar uma falsa
imagem de santidade e zelo (Mt 6.16; 2Tm 3.1-5), e com sua
incapacidade de aceitar qualquer autoridade sobre si. Paulo
sabia que muitas vezes as aparências não correspondem aos
fatos. Por isso, não se deixava levar pelo aspecto externo
das coisas, sabendo que o justo Juiz julga de acordo com
critérios que vão além das nossas possibilidades (1Sm 16.6-
7; Is 11.1-4), o que também deveria nos conduzir a um
cuidado maior com o que realmente somos e com o modo
como tratamos as pessoas (Jo 7.24; Tg 2.1-10).
Paulo prossegue dizendo que a liderança da igreja em
Jerusalém reconheceu seu apostolado como estando no
mesmo nível do apostolado de Pedro, o apóstolo de maior
destaque entre os Doze (7). A diferença entre ambos era
apenas no tocante ao alvo de cada ministério. O principal
alvo de Paulo era os gentios; o principal alvo de Pedro era
os judeus. Isso, evidentemente, não significava que Paulo
não deveria pregar aos judeus (At 9.15), ou que Pedro não
deveria evangelizar gentios. Na verdade, os judeus eram os
primeiros que Paulo tentava conduzir à fé nas cidades por
onde passava (At 13.45-48; 14.1; 18.5-6; 28.16-28), e Pedro
foi personagem fundamental no “processo de inclusão” dos
gentios na igreja (At 10; 15.7). Aqui, no entanto, é-nos
ensinado acerca da ênfase do trabalho de cada um (Rm
11.13; 1Tm 2.7).
A despeito de atuarem em esferas diferentes, a igualdade
entre o apostolado de Paulo e o de Pedro estava no fato de
que Deus operara da mesma forma por meio de ambos (8).
Não havia, pois, razão alguma para que Paulo fosse
considerado um falso apóstolo ou um apóstolo de categoria
inferior como pretendiam os mestres legalistas. Paulo ensina
no v.8 que nem mesmo o próprio Deus fazia essa distinção.
A operação de Deus por meio de Pedro e Paulo como
apóstolos, consistiu em manifestar seu Filho a eles depois de
ressurreto (Jo 20.19-20; 1Co 9.1), incumbi-los pessoalmente
da missão de proclamar o Evangelho (Jo 20.21; At 26.15-18;
1Co 9.17), dar-lhes singular intrepidez e sabedoria ao pregar
(Mt 10.17-20; At 4.13; 2Co 10.3-5; 11.23-29), abrir o
coração de incrédulos para a sua mensagem (At 2.37-41;
16.14) revelar-lhes verdades doutrinárias até então
desconhecidas (2Co 12.1,7; Ef 3.2-6; 2Pe 3.1-2), e realizar
milagres jamais vistos como prova de que sua mensagem
vinha de Deus (2Co 12.12; Hb 2.3-4).
Paulo conclui o relato sobre sua segunda visita a
Jerusalém falando que os líderes da igreja ali reconheceram
a legitimidade de seu ministério e estenderam a mão a ele e a
Barnabé, um sinal de harmonia e amizade, estando em
acordo quanto às diferentes esferas de atuação missionária
(9). É bom ressaltar que os líderes aqui, Tiago, Pedro e
João, são chamados de colunas, o que lembra o dever dos
que estão à frente de sustentar a igreja com força e firmeza
inabalável (2Tm 1.7).
O v. 10 revela que os líderes de Jerusalém somente
pediram que Paulo e Barnabé se lembrassem dos pobres.
Isso fazia sentido, considerando que a visita tinha sido
motivada pela profecia de Atos 11.27-30. Tal pedido,
porém, não refletia qualquer autoridade dos apóstolos de
Jerusalém sobre Paulo. Mesmo assim, ele se esforçou para
atendê-lo. De fato, o cuidado com os carentes foi uma marca
presente ao longo de todo o ministério de Paulo (Rm 15.25-
26; 1Co 16.1-4).
A SIMULAÇÃO DE PEDRO
GÁLATAS 2.11-21

11. Quando, porém, Pedro veio a Antioquia, enfrentei-o


face a face, por sua atitude condenável.
12. Pois, antes de chegarem alguns da parte de Tiago,
ele comia com os gentios. Quando, porém, eles
chegaram, afastou-se e separou-se dos gentios,
temendo os que eram da circuncisão.
13. Os demais judeus também se uniram a ele nessa
hipocrisia, de modo que até Barnabé se deixou levar.
14. Quando vi que não estavam andando de acordo com
a verdade do evangelho, declarei a Pedro, diante de
todos: “Você é judeu, mas vive como gentio e não como
judeu. Portanto, como pode obrigar gentios a viverem
como judeus?
15. “Nós, judeus de nascimento e não ‘gentios
pecadores’,
16. sabemos que ninguém é justificado pela prática da
Lei, mas mediante a fé em Jesus Cristo. Assim, nós
também cremos em Cristo Jesus para sermos
justificados pela fé em Cristo, e não pela prática da
Lei, porque pela prática da Lei ninguém será
justificado.
17. “Se, porém, procurando ser justificados em Cristo
descobrimos que nós mesmos somos pecadores, será
Cristo então ministro do pecado? De modo algum!
18. Se reconstruo o que destruí, provo que sou
transgressor.
19. Pois, por meio da Lei eu morri para a Lei, a fim de
viver para Deus.
20. Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu
quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora
vivo no corpo, vivo-a pela fé no filho de Deus, que me
amou e se entregou por mim.
21. Não anulo a graça de Deus; pois, se a justiça vem
pela Lei, Cristo morreu inutilmente!”

A presente etapa da narrativa de Paulo refere-se a uma


severa repreensão que ele dirigiu a Pedro quando este
visitou Antioquia. Com a menção desse episódio, Paulo
pretende alcançar o propósito de mostrar que não era em
nada inferior aos apóstolos de Jerusalém (já que repreendeu
o maior dentre eles), bem como defender a salvação
unicamente pela fé, ao reproduzir as palavras que dirigiu a
Pedro.
A seção se inicia com a menção de uma visita de Pedro a
Antioquia (11). O Livro de Atos não faz nenhuma referência
a esse fato. Presume-se, a partir dos eventos narrados em
Atos12, que, depois de ter sido milagrosamente libertado da
prisão em que Herodes o havia lançado, Pedro foi a
Antioquia. Em Atos é dito apenas que ele se ausentou indo
“para outro lugar” (At 12.17). Depois disso, Pedro só
aparece novamente na narrativa em Atos 15, no Concílio de
Jerusalém (At 15.7). É possível, portanto, situar a visita de
Pedro a Antioquia entre sua extraordinária libertação e o
Concílio de Jerusalém.
Paulo afirma que por aquele tempo teve de enfrentá-lo
“face a face, por sua atitude condenável”. Essa atitude é
descrita no v.12. Nele aprendemos que Pedro comia com os
gentios até a chegada de uma delegação de crentes judeus,
vindos de Jerusalém, enviados por Tiago. Porém, com a
chegada dessa delegação a Antioquia, ele ficou receoso de
ser reprovado pelos legalistas e, para passar-lhes uma boa
impressão, afastou-se dos irmãos gentios.
De fato, antes do concílio mencionado em Atos 15, a
igreja de Jerusalém, predominantemente judaica, tinha em
aberto a questão de como receber os gentios em sua
comunhão. Não faltavam os que viam o Cristianismo como
um simples ramo do Judaísmo e diziam que a fé não era
suficiente para que um gentio fosse aceito como irmão, sendo
necessária também a circuncisão e a guarda da lei mosaica
(At 15.1, 5). Para esse grupo, era inadmissível que um judeu
comesse com um gentio (At 11.1-3).
Não estando esse problema ainda formalmente
solucionado, Pedro, diante dos irmãos judeus, ficou com
medo de ser reprovado em sua associação com crentes
incircuncisos e, assim, rompeu a comunhão com eles. Com
isso ele demonstrou hipocrisia, covardia e desobediência,
uma vez que já havia aprendido do próprio Senhor a não
desprezar os crentes não judeus (At 10.27-28, 34-35; 11.1-
17). Ele também demonstrou desprezo pela sã doutrina,
preocupando-se mais com a aprovação dos homens do que
com a de Deus. Segundo o v. 13, essa conduta vacilante e
reprovável influenciou outros crentes judeus que a imitaram.
Paulo admirou-se do fato de que o próprio Barnabé, exemplo
máximo de piedade (At 4.36-37; 11.22-24), também tivesse
se deixado levar.
Evidentemente, tamanha falta não poderia passar em
branco e Paulo tomou em suas mãos a tarefa de admoestar
Pedro, o principal responsável por toda aquela farsa. Paulo
entendeu que Pedro e os demais judeus não estavam andando
“de acordo com a verdade do evangelho” (14). De fato, a
verdade do evangelho, além de ensinar que a salvação é pela
fé somente (16; Rm 3.28), estabelece também que em Cristo,
não há distinção entre judeus e gentios (At 15.8-9; Gl 3.26-
28); que em sua morte, o Filho de Deus rompeu a barreira de
separação que estava entre os dois e criou de ambos um
novo homem, fazendo a paz (Ef 2.11-19); e que os gentios
são co-participantes da graça de Deus dada em Cristo (Ef
3.5-6). Quando Pedro e seus companheiros se afastaram dos
irmãos gentios era como se negassem todas essas verdades,
passando a andar em desarmonia com elas.
A repreensão de Paulo destacou inicialmente a
incoerência do procedimento de Pedro: “Você é judeu, mas
vive como gentio e não como judeu. Portanto, como pode
obrigar gentios a viverem como judeus?” (14). Com essas
palavras, Paulo toca na ferida do farisaísmo. Nelas vemos
implícitos os dois erros principais cometidos por todos os
que querem viver sob a Lei. Primeiro, sua conduta exterior é
uma farsa. Os legalistas têm uma vida dupla: diante dos
homens apresentam-se como zelosos da Lei, mas longe dos
olhos alheios vivem conforme outros padrões (Mt 23.23-28).
Em segundo lugar, os fariseus legalistas têm o hábito de
impor fardos sobre os outros, mas eles próprios não se
dispõem a carregar esses mesmos fardos (Mt 23.4). É
assustador que Pedro, que viu quão severamente o Senhor,
em seu ministério terreno, reprovou a conduta farisaica (Mt
23.1-3), tenha incorrido em tão grave erro.
A reprodução da repreensão dirigida por Paulo a Pedro
prossegue nos vv. 15-16. Nesses versículos Paulo conta ter
trazido à lembrança de Pedro que mesmo eles, sendo judeus
de nascimento, portadores de privilégios e conhecimentos
espirituais que os colocavam em vantagem em relação a
qualquer pagão ignorante (Rm 9.1-5), já haviam descoberto
“que ninguém é justificado pela prática da Lei, mas mediante
a fé em Jesus Cristo”. Esse princípio tão resistido pelos
homens em todas as eras já havia sido descoberto por judeus
agora convertidos, os quais outrora tinham tentado ser
justificados pela prática da Lei e haviam falhado. Como
então Pedro, alguém que, como um desses judeus, já tinha
experimentado a impotência da Lei, era agora capaz de sutil
e dissimuladamente impor sua observância aos gentios? Se,
com todos os privilégios espirituais que tinham, os judeus
haviam falhado e recorrido à fé, reconhecendo ser esta a
única saída, como poderiam agora impor o fardo da Lei a
povos que jamais tiveram privilégio algum? É, pois, como se
Paulo dissesse: “Nós judeus, com todo o favor que
recebemos, descobrimos ser impossível alguém salvar-se
pela Lei. Como podemos esperar agora que os pobres
gentios consigam essa façanha?”
Assim, Paulo conclui o v. 16 realçando que, mesmo eles,
judeus com vantagens sobre todos os povos, tiveram que crer
em Cristo para ser justificados, já que pela observância da
Lei, a qual exige uma obediência perfeita, ninguém, nem
mesmo o povo da Aliança com todo o seu conhecimento,
direitos e prerrogativas, pode ser considerado justo aos
olhos de Deus.
No v. 17, Paulo sugere que se o homem justificado pela fé
em Cristo, porventura ainda buscar a justificação pela Lei,
isso será o mesmo que, estando em Cristo, considerar-se
ainda preso ao pecado. Seria como se dissesse: “Mesmo
tendo encontrado a justificação pela fé em Cristo, isso não
me é suficiente, pois me considero ainda um pecador não
justificado”. Ora, isso significaria que crer em Cristo nos
manteria ainda sob o pecado. Nesse caso, o ministério do
Senhor, ou seja, seu ensino e obra, não nos livraria, mas sim
manteria nossas almas sob a culpa do pecado que não pôde
remover. Cristo seria assim, um ministro que ainda nos
deixaria no pecado. Para Paulo, essa hipótese é absurda. É,
de fato, repugnante blasfêmia atribuir ainda que só uma parte
da justificação à observância da Lei, já que isso implica
afirmar que Cristo não é suficiente para salvar e que a
simples fé nele ainda nos mantém enredados em culpa e
condenação (veja o v.21).
O procedimento de Pedro em Antioquia trazia em si todas
essas horríveis implicações. Sendo já justificado em Cristo,
ele se apresentara diante dos judeus de Jerusalém como
alguém que buscava a justificação pela prática da Lei e,
agindo assim, blasfemava, já que com essa prática era como
se dissesse que o Senhor não o livrara da culpa, mas como
ministro do pecado, ainda o mantinha em triste escravidão.
De fato, era como se dissesse que ainda estava em busca da
salvação, considerando Cristo como alguém que o
conservara preso aos seus pecados.
Dando seqüência à sua argumentação, Paulo,
provavelmente ainda reproduzindo sua censura a Pedro, faz
uso de uma figura tirada do contexto da construção civil
(18). Ele afirma que “se reconstruo o que destruí, provo que
sou transgressor”. O significado disso é simples: Paulo,
Pedro e os demais crentes judeus, quando creram em Cristo,
haviam como que “destruído” sua antiga confiança nas obras
da Lei. Eles tinham chegado à conclusão de que a Lei não
era capaz de fornecer abrigo contra a culpa do pecado e, por
isso, tinham posto ao chão todas as paredes de confiança que
se alicerçavam sua observância. Então, passaram a viver em
outra casa, a casa da fé em Cristo, única edificação que
oferece real segurança. Agora, porém, Pedro e seus
companheiros estavam agindo como se voltassem a viver
sob o teto da Lei. Era como se estivessem edificando
novamente as paredes de confiança nas obras que eles
próprios haviam destruído quando creram no Senhor. Ora,
isso era o mesmo que reconhecer que erraram quando
deixaram de confiar na Lei. Era o mesmo que afirmar que
cometeram grave transgressão quando depositaram somente
em Cristo a esperança de justificação.
No v. 19, ressaltando o absurdo da hipótese prevista no v.
18, Paulo mostra quão impossível era para ele qualquer
reconstrução da confiança na Lei. Ele havia morrido para
ela, ou seja, havia se libertado totalmente do seu domínio
(Rm 7.4-6). Isso acontecera por meio da própria Lei que lhe
mostrara, quando ainda o tinha sob seu domínio, quão
incapaz era de livrar do pecado, posto que tão somente o
realçava e, dada a nossa malícia, até o estimulava ainda
mais (Rm 7.7-14). Nesse sentido, foi a própria Lei que
encorajou Paulo a abandonar a confiança nela. Morto para os
preceitos legais e, dessa forma, livre de seus fardos, Paulo
passou a “viver para Deus”.
O apóstolo explica o significado da expressão “viver para
Deus” no v.20. Num dos versículos mais tocantes de todo o
NT, Paulo diz que morreu para a Lei ao unir-se a Cristo em
sua crucificação. Essa é uma forma viva de dizer que morreu
para a Lei ao apropriar-se dos benefícios da morte de
Cristo. Assim, estar crucificado com Cristo é prender-se à
cruz pela fé e, assim, morrer para a velha vida com seus
padrões e crenças vãs (6.14). Lembremos que essas palavras
provavelmente ainda compõem a admoestação dirigida a
Pedro que, com seu procedimento, revelara um modelo
diferente de vida.
Paulo prossegue explicando, ainda no v. 20, o sentido da
expressão “viver para Deus” (v.19). Ele diz que, além de
estar morto para o antigo estilo de vida baseado na confiança
na Lei, tem agora seu “eu” totalmente dominado por Cristo.
“Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim”. Aqui
reside o “segredo” de toda a piedade cristã. Esta não
consiste de obediência exterior a regras, como ensinavam os
mestres legalistas da Galácia, mas sim de um deixar-se
dominar totalmente por Cristo, de tal forma que o indivíduo
desapareça, inundado por uma onda de caráter transformado
e santo (5.24).
Essa vida que implica morte para padrões antigos e
inúteis; essa vida que implica a renúncia de si próprio; essa
vida que consiste na construção da viver de Cristo em nós só
é possível “pela fé no Filho de Deus”. Não há espaço nela
para a confiança nas obras pessoais. Aliás, admitir, como
Pedro dera a entender, que a justiça vem pela Lei, seria o
mesmo que anular a graça de Deus e afirmar a inutilidade do
sacrifício de Cristo (21).
Capítulo 3

O EVANGELHO VERDADEIRO E SEU PODER

É mediante a fé que o homem é justificado e é por obra do


Espírito Santo que participa das bênçãos da vida cristã,
sendo a Lei incapaz de realizar qualquer uma dessas coisas,
conforme se vê no relato bíblico acerca de Abraão. De fato,
a Lei não foi dada para salvar, mas para dar limites ao mal e
conduzir o pecador a Cristo, em quem desaparecem as
barreiras entre os homens.

A INUTILIDADE DO ZELO LEGALISTA


GÁLATAS 3.1-5

1. Ó gálatas insensatos! Quem os enfeitiçou? Não foi


diante dos seus olhos que Jesus Cristo foi exposto como
crucificado?
2. Gostaria de saber apenas uma coisa: foi pela prática
da Lei que vocês receberam o Espírito, ou pela fé
naquilo que ouviram?
3. Será que vocês são tão insensatos que, tendo
começado pelo Espírito, querem agora se aperfeiçoar
pelo esforço próprio?
4. Será que foi inútil sofrerem tantas coisas? Se é que
foi inútil!
5. Aquele que lhes dá o seu Espírito e opera milagres
entre vocês realiza essas coisas pela prática da Lei ou
pela fé com a qual receberam a palavra?

No capítulo 3 de Gálatas, Paulo passa a tecer diversos


argumentos em defesa da fé como instrumento de justificação
e ação especial de Deus em detrimento da observância da
Lei.
A seção se inicia com fortes palavras de censura que
expõem a triste condição dos galateus. Com elas, Paulo quer
claramente despertar seus leitores de forma que tornem à
sensatez. “Ó gálatas insensatos! Quem os enfeitiçou?” (1),
escreve o Apóstolo. Daí se depreende em primeiro lugar que
abandonar a confiança exclusiva em Cristo e se estribar
numa justiça própria imaginária que busca a salvação por
meio da obediência externa a regras é a mais absurda
loucura. Também um conceito mais amplo de sabedoria
advém disso: o homem sábio é aquele que reconheceu a
impotência dos seus esforços pessoais e lançou-se pela fé,
sem reservas, nos braços do Salvador. Há, assim, sabedoria
na fé. O homem sábio é, basicamente, o homem que crê. Sua
sabedoria se expressa na fé em Cristo (2Tm 3.15).
A partir do v. 1 também se deduz que o legalismo exerce
um notável fascínio sobre a natureza humana. É como se
enfeitiçasse o homem, nublando sua mente e impedindo-o de
andar à luz das verdades mais elementares do evangelho. O
homem fica fascinado com a idéia de ser capaz de produzir
sua própria justificação; sente-se atraído pela aparência de
piedade que acompanha o zelo pelas tradições e pelas regras
religiosas; busca cegamente a aprovação e admiração dos
homens que se mostram sempre impressionados com a
religiosidade exterior; enfim, fica encantado com o que tem
ares de grandeza e seriedade, mas não tem poder para fazer
o indivíduo andar um centímetro sequer no rumo da
santidade (Cl 2.23). Aqui, portanto, Paulo toca num dos
fatores que fazem do legalismo uma das mais perigosas
armadilhas: o fato dele fascinar as pessoas e, após
entorpecer suas mentes, conduzi-las à apostasia, ao
abandono da fé na suficiência de Cristo (5.4).
A insensatez dos crentes da Galácia ganhava contornos
ainda mais fortes quando se considerava que o evangelho
fora exposto a eles com clareza indescritível. Paulo lhes
apresentara o sacrifício do Senhor e o significado de sua
obra com tamanha vivacidade que era como se eles tivessem
sido testemunhas oculares da crucificação (1Co 1.23; 2.2).
[19] A suficiência da obra de Cristo no Calvário fora
apresentada a eles de forma tão enfática que nenhum espaço
restara para a confiança nas obras da Lei. A despeito disso,
aqueles cristãos deixaram-se levar pelos encantos da
doutrina da justificação pelas obras, sendo seduzidos pelos
contornos de um sistema religioso centrado no esforço
humano, com seu zelo aparentemente piedoso e glórias
transitórias. Isso reforça o fato de que o problema dos
galateus não fora ingenuidade ou ignorância, mas verdadeira
e surpreendente estupidez, o que mostra quão poderosa pode
se tornar a influência de falsos mestres no seio da igreja.
A fim de despertar os crentes da Galácia do sono da
insensatez, Paulo passa, a partir do v.2, a dirigir-lhes
perguntas cujas respostas são fáceis e óbvias. Aliás, tão
óbvias são as respostas que tais perguntas requerem que, por
meio delas, fica ainda mais patente a insensatez dos galateus.
Paulo dirige aos seus leitores, no v.2, a seguinte pergunta:
“foi pela prática da Lei que vocês receberam o Espírito, ou
pela fé naquilo que ouviram?”. Daqui se depreende tanto que
os galateus haviam recebido o Espírito Santo como que
tinham plena consciência disso. Aqui é preciso deixar claro
que essa consciência não era decorrente de nenhuma
evidência sobrenatural externa. De fato, os relatos da
conversão dos crentes da Galácia constantes do Livro de
Atos mostram que tais conversões não foram acompanhadas
de nenhuma manifestação externa de dons espirituais (At
13.43, 48; 14.1, 20-21). Portanto, a consciência de que
tinham o Espírito estava presente nos galateus em virtude de
uma obra interna do próprio Espírito em seus corações, a
qual consistira a princípio de enchê-los com uma alegria
especial num ambiente que lhes era hostil (At 13.52) e agora
se manifestava num testemunho interior que lhes dava a
certeza de que eram filhos de Deus (Rm 8.15-16).
Ora, certos de que tinham o Espírito, aqueles crentes não
eram ignorantes ao ponto de crer que tal dádiva lhes fora
concedida por meio da observância da Lei mosaica.
Ademais, o propósito da própria pergunta do v.2 é realçar
algo óbvio, ou seja, que o Espírito de Deus passara a habitar
neles a partir do momento que creram na mensagem
anunciada por Paulo e não pelo fato de terem cumprido a
Lei, já que, como se sabe, ninguém é capaz de cumpri-la de
fato.
O ensino da habitação do Espírito Santo no crente é parte
integrante do Novo Testamento (Rm 5.5; 1Co 2.12; 3.16;
6.19; 2Co 1.21-22; 5.5), sendo certo que a ausência do
Espírito em alguém, é prova de que tal pessoa não é salva
(Rm 8.9; 1Co 2.14; Jd 19). Que essa dádiva nos advém pela
fé em Cristo é fato que também compõe o ensino bíblico (Jo
7.37-39; Ef 1.13). Paulo, assim, faz uso dessa verdade para,
mais uma vez, mostrar a superioridade da fé em relação à
prática do legalismo. Ele mostra dessa forma que somente a
fé os introduzira no rol dos homens habitados por Deus,
sendo a Lei incapaz de conceder-lhes tal privilégio.
A pergunta que Paulo faz no v. 2 reveste-se de uma
importância singular nos dias modernos. Isso porque na
atualidade existem igrejas evangélicas que incentivam seus
membros a buscar o batismo do Espírito Santo por meio de
certas práticas cultuais ou de zelo religioso. Chegam mesmo
a dizer que só recebe o Espírito o crente que durante um
período indeterminado se dedica a jejuns e orações,
submetendo-se ainda a outras regras impostas pela igreja.
Ora, isso equivale a dizer que o Espírito é dado por meio
das obras e não pela fé. É justamente esse pensamento que o
v. 2 rejeita. Paulo, desde o início, havia ensinado aos
galateus que a justificação é pela fé e não pela prática da Lei
(At 13.39). Agora, ele os faz lembrar que também a
habitação de Deus no homem advém somente da fé em
Cristo, nada restando à Lei que faça dela fonte de benefícios
espirituais.
Paulo prossegue demonstrando a insensatez dos crentes da
Galácia. Agora, no v. 3, ele mostra quão absurda tolice é
terem iniciado a carreira cristã pela atuação do Espírito
Santo e, então, depois de conhecerem a incomparável força
transformadora dele, se voltarem para si mesmos, crendo
que em si encontrarão recursos para serem aperfeiçoados.
Aqui Paulo deixa claro primeiramente que é pela atuação
sobrenatural do Espírito de Cristo que nos tornamos cristãos.
É nele que encontramos o início de toda a nossa carreira
espiritual como filhos de Deus (Jo 16.8; Rm 2.29; 1Co 2.4-5;
6.11; Ef 1.13; 2Ts 2.13; 1Pe 1.2). O papel do Espírito,
porém, na transformação do homem não pára aí. Sua obra no
crente continua (Rm 5.5; 8.13; 2Co 3.18; Ef 3.16; Fp 1.6) e,
sem ela, o cristão que confia meramente em seus esforços
pessoais, não progride um centímetro sequer.
Na Galácia, porém, os crentes não assimilaram essas
verdades indo ainda muito além em seu erro. De fato,
estavam confiando no esforço pessoal legalista não somente
para servir a Deus, mas também para de alguma forma obter
o que criam ser a justificação completa. Eles acreditavam
que pela atuação do Espírito neles, a obra de justificação
havia apenas se iniciado e que agora dependia deles a
conclusão dessa obra. Essa crença é herética porque, além
de reduzir a real amplitude da obra de Deus na salvação
humana, no fim das contas coloca sobre os ombros do
homem a responsabilidade por sua própria salvação, como
se ele tivesse poderes para obtê-la. Portanto, diminuir a obra
de Deus e exaltar a obra do homem é o resultado final desse
desvio doutrinário. Paulo rejeita tudo isso. Em seu ensino, a
consagração a Deus depende da obra do Espírito (Rm 7.6) e,
além disso, nenhuma confiança pode ser depositada no
esforço humano para a obtenção da justiça de Deus (Fp 3.3;
Tt 3.5).
No v. 4, Paulo faz os crentes da Galácia recordarem um
pouco de sua história. Quando eles receberam o evangelho
da salvação pela fé, rompendo muitos deles com o antigo
sistema judaico, essa decisão lhes trouxe inúmeros
dissabores. Aliás, foram precisamente os judeus, homens que
confiavam na justiça de Lei que, vendo suas crenças serem
ameaçadas, se insurgiram contra Paulo na Galácia (At 13.49-
51; 14.2,4-5,19-20). Evidentemente essa perseguição atingiu
também os que creram na pregação de Paulo (At 14.22).
Dessa forma, foi por terem abraçado uma mensagem que
desprezava o legalismo judaico que os crentes galateus
haviam sofrido tanto. Agora, porém, respondendo aos apelos
dos falsos mestres, eles estavam se voltando precisamente
para o legalismo judaico, cuja rejeição lhes havia custado
preço tão alto. Paulo então pergunta: Teria sido
desnecessário todo aquele sofrimento? Que terrível prejuízo
ter sofrido por algo que, conforme pareciam agora crer, não
tinha valor algum! Antes tivessem permanecido na Lei.
Assim receberiam os aplausos daqueles que os perseguiram
e não teriam passado inutilmente por tantas provas. Ao
encerrar o v. 4 com a frase “se é que foi inútil”, Paulo faz
transparecer que duvida da hipótese que levantou. É como se
dissesse: “prefiro, contudo, ainda acreditar que vocês não
consideram inútil tudo pelo que passaram”.
Com o v.5, Paulo termina o parágrafo reforçando o ensino
já exposto (v.2) de que a dádiva do Espírito vem pela fé e
não pela prática da Lei. A isso ele acrescenta, valendo-se
ainda de perguntas inquietantes, que a operação de milagres
entre os galateus era resultado da fé e não do zelo legalista.
Não se sabe de que milagres ele fala aqui. Talvez tenha em
mente os que ele próprio realizou na Galácia (At 14.3, 8-
10), mas é possível que outras manifestações especiais do
Espírito fossem testemunhadas por aqueles cristãos,
considerando que tais operações eram muito comuns nos
dias apostólicos. Seja como for, Paulo quer aqui tão-somente
frisar que a graça operante de Deus é resultado da fé e não
um pagamento pelas obras. Se assim fosse, não poderia mais
ser chamada de graça.

A BÊNÇÃO QUE VEM DA FÉ


GÁLATAS 3.6-9

6. Considerem o exemplo de Abraão: “Ele creu em


Deus, e isso lhe foi creditado como justiça”.
7. Estejam certos, portanto, de que os que são da fé,
estes é que são filhos de Abraão.
8. Prevendo a Escritura que Deus justificaria os gentios
pela fé, anunciou primeiro as boas novas a Abraão:
“Por meio de você todas as nações serão abençoadas”.
9. Assim, os que são da fé são abençoados junto com
Abraão, homem de fé.

Neste novo parágrafo, Paulo deixa de argumentar a partir


da lógica exposta em perguntas retóricas e passa a fazer uso
de argumentos escriturísticos. Inúmeras citações do Antigo
Testamento são feitas a partir do v. 6. Com elas, Paulo repisa
a tese de que a justificação é pela fé, independentemente das
obras da lei mosaica.
É bom destacar que o largo uso de citações bíblicas feito
por Paulo mostra como o Apóstolo tinha em alta conta a
Sagrada Escritura. De fato, quando deseja provar a
veracidade de seu ensino recorre a ela muito mais do que ao
raciocínio lógico, mostrando que a tinha como palavra final
nas questões que estava discutindo. Essa visão da Bíblia
como fonte última de autoridade tem sido abandonada pelos
cristãos modernos,[20] o que redunda em tristes prejuízos
doutrinários e morais. Apelar para o que o texto sagrado diz
na hora de dirimir questões de fé e conduta é prática que
deve ser resgatada pelos crentes de hoje.
No v. 6, portanto, Paulo, citando Gênesis 15.6, introduz o
exemplo de Abraão como prova bíblica de que a justificação
é pela fé.[21] De fato, o texto de Gênesis ensina que foi a fé
que Abraão teve e não a sujeição a regras[22] que o levou a
ser considerado justo diante de Deus. Aliás, esse exemplo de
Abraão foi citado por Paulo com o mesmo objetivo cerca de
nove anos mais tarde, na Epístola aos Romanos. Ali, o
Apóstolo expõe de modo ainda mais completo o fato do
grande patriarca da nação judaica ter sido justificado
somente por ter crido em Deus e ainda antes de ser
circuncidado (Rm 4.1-3, 9-10, 13). Esse fato tinha
relevância especial no combate aos ensinos dos falsos
mestres da Galácia que impunham aos crentes a necessidade
da circuncisão caso quisessem ser salvos (5.2-6; 6.12-13).
Entretanto, esse uso reiterado que Paulo faz de Gênesis
15.6 pode levantar objeções. Isso porque, aparentemente, o
objeto da fé de Abraão não foi idêntico ao objeto da fé
cristã. Abraão, mesmo sendo já velho e não tendo nenhum
filho, creu na promessa de que Deus faria uma grande nação
a partir de um descendente seu (Gn 15.4-6). A fé cristã, por
sua vez, tem um foco distinto. Por ela o crente crê que Jesus
Cristo é o Filho de Deus que morreu e ressuscitou pelos
nossos pecados, depositando nele sua confiança para a vida
eterna. Parecem, portanto, bem distintos os contornos que
caracterizam a fé de Abraão e a fé dos crentes em Cristo.
Como, então, Paulo pôde compará-las?
A resposta a essa questão pode ser obtida observando-se
Romanos 4.18-22. Nesse texto, especialmente nos vv. 20-21,
Paulo deixa claro de que modo a fé de Abraão se identifica
com a dos cristãos. À luz desse texto, o patriarca creu no que
Deus prometeu (Hb 11.11) e os cristãos fazem o mesmo ao
crerem nas promessas que Deus fez em seu Filho (2Tm 1.1;
Hb 9.15; 10.23; 2Pe 3.13; 1Jo 2.25). Além disso, Abraão
creu que Deus era poderoso para cumprir sua promessa. Ora,
também os cristãos, quando crêem na promessa de que em
Cristo receberão o dom da vida eterna não duvidam que
Deus é poderoso para cumprir sua palavra (Fp 3.21). Nesse
aspecto, a fé de Abraão e a dos cristãos se harmonizam
plenamente, sendo sob esse ângulo que Paulo traça um
paralelo entre elas.
O que não se pode perder de vista aqui é o ponto central
que Paulo quer realçar, ou seja, que a justiça só é creditada
ao homem que tem fé. A resposta à velha pergunta do
coração de Jó (Jó 9.1-2), foi dada pela Escritura na história
da Abraão (Gn 15.6) e expandida no Novo Testamento pela
pena do Apóstolo Paulo.
No v. 7, Paulo leva o leitor à implicação do que foi dito
no versículo anterior: se Abraão foi justificado pela fé, os
verdadeiros filhos dele são aqueles que crêem. O ensino de
que os crentes são descendentes de Abraão aparece algumas
vezes, direta ou indiretamente, no Novo Testamento (Rm
2.28-29; 4.11-12; Gl 6.16; Fp 3.3). Esse ensino realça,
basicamente, que os crentes, independentemente se sua
origem racial, quando creram em Cristo passaram a desfrutar
das bênçãos espirituais prometidas a Israel (Rm 15.27; Hb
8.8-12 cp. 9.15).
Aqui é necessário fazer uma ressalva. O fato de Abraão
ter uma descendência espiritual não implica a
desconsideração de sua descendência física. O Israel
“segundo a carne” obviamente ainda existe e ocupa um lugar
no plano de Deus (Rm 3.1-2; 9.1-5; 11.1-2, 11, 25-29). A
igreja não surgiu para substituí-lo, mas sim para entrar na
sua herança (Rm 11.17-18; Ef 2.12-13; 3.5-6). É, portanto,
errado dizer que a igreja agora é o novo Israel (1Co 10.32).
É claro que dentro da igreja, judeus e gentios são um só, não
havendo diferença entre ambos (1Co 12.13; Gl 3.26-28; Ef
2.11-16; Cl 3.11). Mas no aspecto externo, a igreja não se
confunde com Israel, sendo ambos distintos, ocupando
espaços diversos na visão e nos decretos de Deus.
Um dos benefícios oriundos dessa visão se relaciona com
o modo como o crente entende as promessas de bênçãos
materiais feitas a Israel no Velho Testamento. O povo judeu
recebeu de Deus promessas de saúde e prosperidade caso
fosse obediente. Também recebeu promessas de castigo,
caso fosse rebelde (Dt 28). Entendendo erradamente que a
igreja é o “novo Israel de Deus”, muitos intérpretes da
Bíblia tentam aplicar essas promessas aos crentes de hoje.
Nessa tentativa, alguns espiritualizam aquelas promessas,
dizendo que elas são simbólicas e não devem ser entendidas
literalmente.[23] Outro grupo, fugindo da alegorização, cai
na chamada Teologia da Prosperidade, ensinando que os
crentes, sendo o novo Israel, podem desfrutar daquelas
promessas de riqueza e saúde num sentido real e concreto,
devendo também temer maldições que afetem suas finanças e
seu corpo. Essas duas vertentes estão erradas e as
conclusões falhas de ambas, ainda que distintas, apóiam-se
no mesmo falso pressuposto, a saber, que a igreja é o Israel
moderno.
Para que evitemos, portanto, esses erros, mantenhamos
nítida em nossa mente a seguinte verdade: como crentes
procedentes dos gentios somos considerados descendência
de Abraão porque, em Cristo, como herdeiros daquela
patriarca, participamos das promessas feitas a Israel. Isso,
porém, não nos torna substitutos de Israel, que continua
ocupando um lugar de importância nos propósitos do Senhor.
Decididamente, o estranho que participa da herança por
meio de um testamento não anula com isso os direitos dos
herdeiros naturais. Também o cãozinho maroto que bebe o
leite da vaca, não vira bezerro, nem toma o seu lugar.
Conforme se vê, o ensino do v. 7 é que os que crêem em
Cristo adquirem o status de herdeiros de Abraão, mesmo não
descendendo fisicamente dele. Dessa forma, por meio da fé,
pessoas de todo o mundo e das mais diversas famílias,
podem participar das promessas feitas ao velho patriarca e
serem abençoadas com ele. Crendo em Cristo, elas
participam da promessa da herança, feita a Abraão. De fato,
é claramente isso o que o Apóstolo diz nos vv. 8 e 9. Neles
as palavras de Gênesis 12.3, a saber, “por meio de você
todas as nações serão abençoadas”, significam que quem crê
como Abraão, independentemente de sua origem racial,
desfruta junto com Abraão da promessa que lhe foi feita de
ser herdeiro do mundo (Rm 4.13)
A descendência espiritual de Abrão, porém, não exclui do
plano de Deus sua descendência física. A igreja não substitui
Israel. Ela desfruta das bênçãos prometidas à nação judaica,
mas não ocupa seu lugar nem se confunde com ela (Rm
15.27; Ef 2.12-13; 3.5-6). Na verdade a igreja se subroga em
alguns direitos de Israel, mas não se torna Israel. A distinção
essencial entre os dois povos permanece e Deus trata a
ambos de forma distinta, reservando um lugar diferente em
seu plano para cada um deles.

A MALDIÇÃO DA LEI
GÁLATAS 3.10-14

10. Já os que se apóiam na prática da Lei estão debaixo


de maldição, pois está escrito: “Maldito todo aquele
que não persiste em praticar todas as coisas escritas no
livro da Lei”.
11. É evidente que diante de Deus ninguém é justificado
pela Lei, pois “o justo viverá pela fé”.
12. A Lei não é baseada na fé; ao contrário, “quem
praticar estas coisas, por elas viverá”.
13. Cristo nos redimiu da maldição da Lei quando se
tornou maldição em nosso lugar, pois está escrito:
“Maldito todo aquele que for pendurado num madeiro”.
14. Isso para que em Cristo Jesus a bênção de Abraão
chegasse também aos gentios, para que recebêssemos a
promessa do Espírito mediante a fé.

No v. 9, o apóstolo dos gentios ensinou que “os que são


da fé são abençoados junto com Abraão, homem de fé”.
Agora, no v. 10, Paulo aponta para o contraste existente entre
a condição espiritual dos que “são da fé” e a condição
espiritual dos que “se apóiam na prática da Lei”. Se por um
lado, os que são da fé são abençoados (v. 9), os que buscam
sua justificação através da observância dos preceitos da Lei
Mosaica estão debaixo de maldição. Paulo se refere a estes,
literalmente, como “os que são das obras da Lei”. Isso
realça o contraste com “os que são da fé” e, considerando
que o Apóstolo trata aqui do meio pelo qual alguém é liberto
da condenação eterna, a expressão aponta para a atitude de
quem põe a confiança em sua própria justiça para a salvação
da alma.
Para provar a existência de maldição sobre os mestres
legalistas e sobre todos os que buscavam ser justificados
pela prática da Lei, Paulo mais uma vez recorre à Sagrada
Escritura, palavra final em qualquer discussão de ordem
doutrinária. Citando, a princípio, Deuteronômio 27.26,
demonstra que é maldito todo aquele que não pratica a
totalidade dos preceitos legais. Paulo tem em mente aqui um
pressuposto claro: ninguém jamais conseguiu guardar a Lei
(6.13; At 15.10). Logo, todos os que se colocam sob o seu
jugo fatalmente a transgridem e, assim, tornam-se objeto de
sua terrível maldição.
Cabe a esta altura levantar a seguinte questão: em que
consiste, exatamente, a maldição da Lei? À luz do texto
citado por Paulo (Dt 27.26), a maldição consiste em estar
sob a reprovação e ira de Deus, bem como sujeito ao seu
terrível e certo castigo (Dt 28.15ss). No texto usado por
Paulo, a maldição decorrente da transgressão da Lei
apresenta conseqüências marcantemente materiais. Paulo,
porém, não fixa o olhar nesse aspecto do castigo. Antes,
conforme se vê, estende o seu significado para abranger a
punição de Deus sobre os que não crêem, especialmente
aqueles que, procurando estabelecer uma justiça própria,
põem sua confiança nas obras que realizam. Tais pessoas
estão sob a ira de Deus e sujeitas a um castigo futuro que,
como se sabe, ultrapassa os revezes da presente vida (2Ts
1.9).
Em resumo, estar sob a maldição da Lei é estar em
inimizade com Deus, excluído da bênção da justificação pela
fé e aguardando o castigo iminente.[24] Sob essa maldição
toda a humanidade sem Deus se encontra, mas para os que
são da Lei ela é pronunciada por Paulo de forma especial e
aberta, quando ele cita a própria Lei e amplia o seu sentido.
Nos dias modernos, vários grupos evangélicos têm
pregado a existência dos mais diversos tipos de maldição
que, segundo eles, recaem indiscriminadamente sobre
crentes e incrédulos. Tais grupos realizam correntes de
oração, cultos de libertação e outras práticas supersticiosas
para libertar os homens de supostas maldições hereditárias
ou coisas semelhantes. Nada disso, porém, tem amparo
bíblico. A única maldição que paira sobre a humanidade
perdida é a maldição da Lei, ou seja, a maldição de não ser
justificado pela fé e, assim, não ser herdeiro de Deus. Tal
maldição só recai sobre os incrédulos e somente pela fé em
Cristo alguém pode ser colocado fora do seu alcance (vv.
13-14).
O uso do testemunho da Escritura como prova cabal da
veracidade de seus argumentos continua a ser feito por Paulo
no v. 11. Agora ele cita Habacuque 2.4. Esse texto traz a
resposta de Deus a uma questão levantada pelo profeta que
via a Babilônia levantar-se como instrumento do juízo de
Deus para destruir Judá: “Como um Deus santo e justo pode
usar os ímpios como seu instrumento de castigo sem agir
para refreá-los?” (Hc 1.12-13, cf. 1.5-6). A resposta de
Deus é que essa situação não perdurará para sempre, que um
dia o ímpio será castigado (Hc 2.16-17) e que, enquanto isso
não acontece, o justo será preservado por sua fé. Paulo
detectou o princípio presente nas palavras de Habacuque de
que somente a fé pode livrar o homem do castigo, sendo ela
o traço distintivo do justo. Esse princípio é o núcleo da
doutrina da justificação pela fé, tanto que o Apóstolo o
repete em Romanos 1.17 quando novamente quer ensinar
essas verdades.
Uma terceira citação do Velho Testamento é feita por
Paulo no v.12. Trata-se de Levítico 18.5. Aqui o contraste
entre a fé e as obras da Lei é notável. Se de um lado,
conforme mostra o profeta Habacuque, o justo viverá pela fé
(v.11), sob a Lei o homem só viverá se observá-la, sem que
necessariamente tenha fé no coração. Paulo mostra assim a
superioridade do seu evangelho comparado com a mensagem
dos falsos mestres. Esta sequer exigia uma nova disposição
interior para com Deus, baseando-se apenas em expressões
externas e na mecânica observância de regras. A falta de
importância dada à fé no sistema legalista já seria, por si só,
um motivo para rejeitá-lo. Ademais, e aqui reside a questão
principal, se o justo viverá pela fé e a Lei a dispensa, não se
baseando nela, logo os que são da Lei não viverão!
O que Paulo disse nos vv.11-12 tem como alvo reforçar o
ensino de que os que se apóiam na prática da Lei estão sob
maldição (v.10). Resumindo, é como se dissesse: “A Lei traz
maldição sobre quem a desobedece (v.10). O único modo de
se livrar do castigo é pela fé (v.11). A Lei, porém, não se
baseia na fé (v.12). Logo, a maldição sobre os que são da
Lei permanece”. Essa é a situação dos que buscam ser
justificados pela prática dos preceitos mosaicos: a maldição
da Lei é para eles um problema perene cuja solução nem
mesmo a própria Lei oferece.
É pela obra de Cristo na cruz que o homem é redimido da
maldição da Lei (v.13). Cristo nos substituiu, tomando o
nosso lugar como maldito criminoso e sofrendo as
conseqüências daquela maldição. Paulo enxerga esse sentido
da morte de Cristo na forma como ele foi executado.
Olhando para Deuteronômio 21.23, o Apóstolo se recorda da
cruz do Calvário e vê ali o Senhor sendo considerado
transgressor em nosso lugar, colocando-se assim sob a
maldição da Lei.[25]
O v. 14 explica que essa obra substitutiva de Cristo foi
realizada para que, mediante a fé, homens de todas as
famílias da terra se livrassem da maldição da Lei e, em vez
de sofrer seus castigos, passassem a desfrutar da bênção
prometida a Abraão (Gn 12.3; Rm 4.13-16). Assim, Cristo
provou a maldição de Moisés para que os crentes provassem
a bênção de Abraão. E não somente isso. Por meio dessa fé
o homem recebe o Espírito Santo, tornando-se habitação
dele, uma bênção que a prática da Lei jamais poderia obter
(Gl 3.2).[26]

A HARMONIA ENTRE A PROMESSA E A LEI


GÁLATAS 3.15-29

15. Irmãos, humanamente falando, ninguém pode anular


um testamento depois de ratificado, nem acrescentar-
lhe algo.
16. Assim também as promessas foram feitas a Abraão
e ao seu descendente. A Escritura não diz: “E aos seus
descendentes”, como se falando de muitos, mas: “Ao
seu descendente”, dando a entender que se trata de um
só, isto é, Cristo.
17. Quero dizer isto: A Lei, que veio quatrocentos e
trinta anos depois, não anula a aliança previamente
estabelecida por Deus, de modo que venha a invalidar a
promessa.
18. Pois, se a herança depende da Lei, já não depende
de promessa. Deus, porém, concedeu-a gratuitamente a
Abraão mediante promessa.
19. Qual era então o propósito da Lei? Foi
acrescentada por causa das transgressões, até que
viesse o Descendente a quem se referia a promessa, e
foi promulgada por meio de anjos, pela mão de um
mediador.
20. Contudo, o mediador representa mais de um; Deus,
porém, é um.
21. Então, a Lei opõe-se às promessas de Deus? De
maneira nenhuma! Pois, se tivesse sido dada uma lei
que pudesse conceder vida, certamente a justiça viria
da lei.
22. Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado,
a fim de que a promessa, que é pela fé em Jesus Cristo,
fosse dada aos que crêem.
23. Antes que viesse essa fé, estávamos sob a custódia
da Lei, nela encerrados, até que a fé que haveria de vir
fosse revelada.
24. Assim, a Lei foi o nosso tutor até Cristo, para que
fôssemos justificados pela fé.
25. Agora, porém, tendo chegado a fé, já não estamos
mais sob o controle do tutor.
26. Todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em
Cristo Jesus,
27. pois os que em Cristo foram batizados, de Cristo se
revestiram.
28. Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem
nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus.
29. E, se vocês são de Cristo, são descendência de
Abraão e herdeiros segundo a promessa.

No parágrafo anterior, Paulo ressaltou que, mediante a fé


em Cristo, pessoas de todos os grupos étnicos (e não
somente os judeus) podem desfrutar da bênção prometida a
Abraão (14). Tendo agora, portanto, introduzido o tema
relativo à promessa feita a Abraão, Paulo prossegue
enfatizando sua natureza pactual, mostrando que tal promessa
não pode depender de exigências (como as normas da Lei
Mosaica) impostas posteriormente.
Assim, no v.15, o Apóstolo usa a ilustração da aliança
para explicar em que consistiram as promessas feitas a
Abraão. Ele diz, apontando para a figura de um instrumento
jurídico comum também em nossos dias, que um
contrato[27], depois de ratificado, ou seja, uma vez
confirmado e concluído, não pode ser alterado, muito menos
podem ser acrescentadas a ele exigências inexistentes ao
tempo de sua celebração.
Ora, o que é verdade no tocante a acordos feitos
formalmente entre os homens, aplica-se às promessas feitas a
Abraão e ao seu descendente (16), ou seja, Deus não poderia
se comprometer a abençoar Abraão e o seu descendente de
forma incondicional (cf. Rm 4.13) e, depois de algum tempo,
“mudar as regras do jogo”. É fácil concluir aonde Paulo quer
chegar: a Lei não se constitui numa exigência necessária para
que alguém se beneficie da promessa feita a Abraão. Se
assim fosse, Deus teria agido de modo injusto, incluindo
exigências novas num contrato já concluído.[28]
O v.16 apresenta uma breve nota hermenêutica
esclarecedora de um ponto que é essencial para o ensino de
Paulo. O apóstolo se detém sobre um detalhe presente no
texto de Gênesis em que a referência à descendência de
Abraão é feita através de uma palavra no singular, a palavra
“semente” (Gn 12.7; 13.15; 24.7). A princípio, a presença
desse termo no texto hebraico significa apenas que a
promessa de Deus não se limitaria ao tempo de vida de
Abraão, mas se estenderia ao longo das eras, alcançando
inúmeras gerações procedentes do grande patriarca.
Paulo, contudo, vê algo mais aqui. Ele observa que o uso
do singular em Gênesis não é acidental e que o termo
“semente” também não deve ser entendido de modo coletivo.
Para o apóstolo, o uso do singular conduz ao entendimento
de que a “semente” se refere a um descendente só, ou seja,
Cristo. A implicação disso é que as promessas não seriam
restritas aos que descendem fisicamente de Abraão, mas a
todos, tanto judeus como gentios que, pela fé, se encontram
“em Cristo”, ou seja, se revestiram dele e a ele pertencem
(vv.27-29). De fato, estando em Cristo, homens do mundo
inteiro tornam-se beneficiários das promessas feitas a esse
descendente de Abraão e, portanto, juntamente com ele, hão
de herdar o mundo, conforme estabelece o pacto de Deus
com Abraão (Rm 4.13).
Cabe ainda nesta altura ressaltar o modo como Paulo faz
uso do texto bíblico. É notável a atenção que o Apóstolo dá
a detalhes, fixando sua atenção em aspectos gramaticais e
mostrando sua relevância para a construção da Sã Doutrina.
Essa busca de sentido baseada não na imaginação ou na
criatividade do intérprete, mas na gramática e na análise
objetiva deve servir como padrão para todos os intérpretes
da Bíblia na modernidade.[29]
A intenção de Paulo ao usar a ilustração do testamento ou
do contrato (15) é exposta claramente no v. 17. Vê-se ali
que, sendo a promessa feita mediante uma aliança já
ratificada, não haveria como a Lei, dada séculos depois,
invalidá-la. De fato, Deus não poderia se comprometer a dar
gratuitamente uma herança e, depois de selado o
compromisso, impor requisitos para que o homem
desfrutasse dessa mesma herança. Isso faria com que a
dádiva da herança passasse a depender do preenchimento
dos novos requisitos e não mais da promessa gratuita de
Deus (18). A verdade, porém, é que a herança foi concedida
a Abraão e ao seu descendente (Cristo e, conseqüentemente,
os que são dele, cf. vv. 26-29) mediante uma promessa,
independentemente de qualquer exigência prévia ou
posterior como a Lei Mosaica.
Do que Paulo disse até aqui surge naturalmente uma
questão: se a Lei não é um requisito para o desfrute da
promessa, então qual é a sua razão de ser? Para que ela foi
dada? Com que objetivo foi imposta? No v. 19 o apóstolo
explica que as normas estabelecidas no Sinai foram
promulgadas “por causa das transgressões”. O significado
disso pode-se deduzir a partir de Romanos 3.20; 4.15; 5.20;
e 7.5,7. Nesses textos aprendemos que a Lei de Moisés torna
o homem consciente do seu pecado[30], uma vez que ressalta
a sua desobediência. Ademais, por causa dela, todos são
colocados sob a condição de transgressores (vv. 22-23).
Assim, a Lei foi dada para realçar o fato de que somos maus,
demonstrar essa verdade a nós mesmos e encerrar o homem
sob a desobediência. É isso o que Paulo quer dizer quando
afirma que a Lei foi dada “por causa das transgressões”. Ela
veio para realçar o pecado e demonstrar que somos
pecadores.[31]
O propósito da Lei conforme descrito acima vigorou “até
que viesse o Descendente a quem se referia a promessa”
(19), o qual, segundo o v. 16, é Cristo. Isso significa que ao
longo de séculos a Lei Mosaica demonstrou
satisfatoriamente, especialmente na História de Israel, a
pecaminosidade humana (Rm 9.31). Tendo cumprido seu
objetivo, a Lei deixou de vigorar. Isso aconteceu tão logo a
solução para a transgressão do homem demonstrada na Lei,
ou seja, Cristo, se manifestou neste mundo. Ainda que o
Senhor tenha nascido sob a Lei (4.4), sua obra pôs fim ao
império da Lei (4.5; Ef 2.14-15). Esta, tendo atingido seu
propósito de realçar a desobediência, deu lugar à solução
para essa mesma desobediência, a saber, a Cruz (Jo 1.17;
Rm 8.3-4; 2Co 3.7-10; Cl 2.16-17; Hb 7.12; 8.13; 9.10). Na
verdade, conforme será visto adiante, a Lei, expondo a
deplorável condição do ser humano, serviu para conduzi-lo a
Cristo, em quem encontra a solução para sua tão terrível
situação (v. 24. Vd. tb. Rm 10.4).
Prosseguindo em sua apologia da gratuidade da promessa,
Paulo acrescenta que a Lei foi “promulgada por meio de
anjos”. A presença dos anjos na entrega da Lei é vista
também em Deuteronômio 33.2; Atos 7.38,53 e Hebreus 2.2.
Paulo menciona esse detalhe para afastar qualquer acusação
de desprezo pela santidade da Lei, pois ao ensinar que a
mesma não tinha utilidade para justificar o pecador, mui
facilmente seus inimigos poderiam apegar-se a isso,
distorcendo suas palavras e acusando-o de tratar a Lei de
Deus com desprezo inaceitável. Paulo, porém, longe de
desprezar a Lei, tão-somente mostra o objetivo distinto dela
que, como vimos, não é justificar o homem, mas realçar seu
pecado e, por fim, conduzi-lo à busca de socorro em Cristo.
[32]
O v. 19 termina dizendo que a Antiga Aliança veio por
meio de um mediador, ou seja, Moisés. A seguir, no verso
20, há um contraste entre aquela aliança e a feita
anteriormente com Abraão. O pacto da Lei teve um mediador
que representava o povo colocando-se sob as disposições
legais impostas por Deus. No Pacto Abraâmico nenhum
mediador havia, pois nele somente Deus se obrigou, nada
impondo ao homem. Na Aliança Mosaica havia duas partes
entrando numa relação em que ambas tinham deveres, sendo
uma delas (a parte humana) representada por Moisés, o
mediador. Na Aliança Abraâmica também havia duas partes,
Deus e o homem, mas só Deus se comprometeu, sem impor
nada a Abraão que servisse como condição para que ele
cumprisse sua promessa de abençoá-lo juntamente com seu
Descendente. O v. 20, portanto, pode ser entendido da
seguinte maneira: no caso da Lei houve um mediador que
representava a obrigação de muitos; já no caso da promessa
somente Deus figurou como a parte comprometida. Paulo
aponta esse contraste para fortalecer sua tese acerca da
gratuidade da promessa e desmantelar o ensino dos falsos
mestres que teimavam em dizer que a herança de Deus
poderia ser obtida pelo cumprimento de preceitos legais.
Surge, então, uma importante questão: há contradição em
Deus? Como ele pode fazer uma promessa e depois
estabelecer preceitos que em nada cooperam com o
cumprimento dela? Como ele pode prometer uma herança e,
em seguida, estabelecer regras que afastam ainda mais o
homem do gozo dessa herança? Como ele pode prometer que
o homem será bendito e justo e então criar um sistema de
normas que o tornam maldito e culpado? Acaso a Lei não se
opõe às promessas de Deus? (21).
A resposta de Paulo a essa pergunta é um enfático “não”.
O apóstolo ensina que se Moisés tivesse trazido aos judeus
uma lei que pudesse levar à vida eterna, então a justificação
seria oriunda da Lei e os judeus, ao observá-la, se
constituiriam num povo livre da culpa do pecado e pronto
para receber a herança prometida. Dessa forma, a promessa
da herança e a promulgação da Lei estariam em clara
harmonia. Deus, porém, decidiu harmonizá-las de forma
diferente. Seu plano consistiu em fazer da Lei um meio de
colocar todos sob o pecado[33] a fim de conceder pela fé a
herança prometida (22). Dessa forma, a Lei não vai contra a
promessa de Deus. Antes, pondo o homem debaixo do
pecado, deixa unicamente a fé em Jesus Cristo como solução
para a sua culpa e, assim, o estimula a crer. Crendo, então, o
homem torna-se participante da promessa. Portanto, a Lei é
útil para mostrar que a fé em Cristo é o único caminho para
as bênçãos da promessa. É assim que ela não se opõe às
promessas de Deus.
É importante que o certo grau de complexidade de
raciocínio presente no texto não venha nublar a principal e
claríssima lição que o Apóstolo quer incutir nos seus
leitores, a saber, a de que a promessa feita a Abraão é dada
somente aos que crêem em Jesus Cristo. Paulo estende os
efeitos do Pacto Abraâmico até os nossos dias, mostrando
que a salvação é simplesmente a inserção do homem nos
benefícios desse pacto. E para que essa inserção ocorra é
preciso tão-somente que o homem creia em Cristo, o
Descendente de Abraão. O apóstolo quer deixar claro que
abraçar a Lei liga o homem a Moisés e faz dele mais um
transgressor. Já abraçar a fé em Cristo liga o homem a
Abraão e faz dele mais um herdeiro.
Antes que o evangelho fosse revelado, mostrando que é
pela fé em Cristo que alguém pode tornar-se herdeiro da
promessa abraâmica, o homem estava debaixo da Lei
Mosaica (23). A linguagem de Paulo traz a idéia de estar sob
a tutela de um guarda que tem a função de proteger. De fato,
a Lei dada no Sinai se constitui na perfeição da justiça e o
esforço do homem em conformar a sua vida aos seus
preceitos, ainda que seja incapaz de produzir a justificação,
torna a conduta humana virtuosa e protege a sociedade da
degradação total. Por outro lado, estar sob semelhante tutela
implica também redução da liberdade, um preço muito alto
quando se considera que a obediência da Lei não nos faz
merecedores da herança prometida.
Dentro do claustro da Lei, portanto, o homem teve sua
conduta controlada e, como já visto (v. 19), aprendeu da sua
pecaminosidade e miséria. Dessa forma a Lei foi útil,
especialmente porque, em vez de se opor às promessas de
Deus, mostrou que o único caminho para recebê-las é a fé
(vv. 21-22). O exercício dessas funções atribuídas ao código
mosaico, contudo, deveria perdurar somente até o advento
do evangelho de Cristo, já prometido nos escritos proféticos
(Rm 1.1-2). É a esse evangelho que Paulo se refere com a
expressão “a fé que haveria de vir” (23).
A conclusão lógica a que se chega disso tudo é que a Lei
realizou a tarefa de um tutor que nos levou até Cristo (24). A
palavra traduzida no português como “tutor” (NVI) ou “aio”
(ARA) é, na língua grega, o termo usado para designar a
pessoa que cuidava de uma criança (paidagogós. Lit.
“pedagogo”), realizando, entre outras coisas, a tarefa de
escoltá-la na sua ida à escola. Assim, a Lei tomou o homem
pela mão e, enquanto exercia sobre ele alguma influência
moral, também mostrava que a perfeita obediência era
impossível e, dessa forma, o conduzia à fé em Cristo, o
único meio através do qual o homem pode ser justo diante de
Deus. Evidentemente, tendo realizado plenamente sua
função, o tutor torna-se agora uma figura desnecessária (25).
Aproveitando a figura usada por Paulo, pode-se dizer que a
criança está agora com o Mestre. Não é mais preciso a
custódia do tutor.
Paulo realça que a fé à qual fomos conduzidos nos tornou
filhos de Deus (26). A idéia de filiação, obviamente, é
essencial quando se fala em direito de herança. No constante
propósito de desmontar a idéia de que é possível entrar na
posse da herança prometida a Abraão por meio da guarda da
Lei, o Apóstolo demonstra que é a fé em Cristo que nos torna
filhos de Deus, de modo que só por meio dela pode-se
chegar à herança (Rm 8.17).
No v. 27 é-nos dito com mais detalhes no que consiste o
processo pelo qual alguém é inserido na esfera de filiação
mencionada no versículo anterior. Segundo o texto, o homem
batizado em Cristo, reveste-se do Filho de Deus. Ser
batizado em Cristo significa simplesmente unir-se a ele pela
fé. Nos tempos neo-testamentários havia forte conexão entre
crer e ser batizado já que essas duas coisas aconteciam
quase que ao mesmo tempo na prática da igreja primitiva (At
2.41; 8.37-38; 16.33). Por isso, algumas vezes Paulo refere-
se à experiência de conversão usando a figura do batismo
(Rm 6.3-4; Cl 2.12. Pedro faz o mesmo em 1Pe 3.21). È
também fora de dúvida que muitas vezes Paulo usa a palavra
“batismo” não para se referir à ordenança observada com
água, mas à realidade espiritual da inserção do crente no
corpo de Cristo e na sua esfera de atuação e influência
especiais (1Co 12.13). É o chamado batismo do Espírito
Santo. Aliás, é bem provável que esse seja o sentido
pretendido no texto em análise. Que Paulo não via o batismo
com água como necessário à salvação deduz-se facilmente
de 1Coríntios 1.14-17.
Segundo os vv. 26-27, portanto, o homem passa a
desfrutar do status de filho de Deus quando se une ao
Salvador pela fé (Jo 1.12). Dessa forma ele se reveste de
Cristo, ou seja, sua união com o Senhor é tamanha que Deus,
ao olhá-lo, vê antes Cristo nele do que ele próprio. É como
se Cristo fosse um manto que cobrisse e envolvesse o crente
de tal forma que ambos se tornam como um só. Nessa união,
o Filho de Deus como que “contagia” aquele que crê com
sua filiação. Isso prova ser correto dizer que o crente é filho
de Deus “em Cristo Jesus”.
Sob a vestimenta de Cristo todas as distinções entre as
pessoas tornam-se irrelevantes (28). A união com o Senhor
faz de todos um só corpo (1Co 10.17; 12.12-13; Cl 3.15),
anulando as desigualdades e desencorajando qualquer forma
de inimizade e discriminação (Ef 2.14-16; Cl 3.11).
Contudo, o efeito principal da fé é que, recebendo a adoção
decorrente da união com Jesus, o homem se torna um
descendente de Abraão tal como o seu Senhor e,
conseqüentemente, passa a ter direito à herança prometida ao
grande patriarca (29).
Capítulo 4

O EVANGELHO VERDADEIRO E A LIBERDADE

Os crentes da Galácia, tendo sido libertos de todo tipo de


jugo legalista, tornaram-se filhos e herdeiros de Deus, não
devendo, portanto, acolher os falsos mestres e seu ensino
escravizante, mas sim rejeitá-los, da mesma forma como
Sara rejeitou a escrava Hagar e o filho dela.

O FIM DA ESCRAVIDÃO
GÁLATAS 4.1-7

1. Digo, porém, que, enquanto o herdeiro é menor de


idade, em nada difere de um escravo, embora seja dono
de tudo.
2. No entanto, ele está sujeito a guardiões e
administradores até o tempo determinado por seu pai.
3. Assim também nós, quando éramos menores,
estávamos escravizados aos princípios elementares do
mundo.
4. Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus
enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo da
Lei,
5. a fim de redimir os que estavam sob a Lei, para que
recebêssemos a adoção de filhos.
6. E, porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de
seu Filho ao coração de vocês, e ele clama: “Aba, Pai”.
7. Assim, você já não é mais escravo, mas filho; e, por
ser filho, Deus também o tornou herdeiro.

A menção da figura do herdeiro em 3.29 dá ensejo a que


Paulo, no início do capítulo 4, transporte essa figura para a
experiência humana comum, a fim de acrescentar outras
verdades àquelas que já enunciou ao longo da carta até este
ponto. O Apóstolo, no texto agora em análise, fala da
condição prévia de todos os homens, tanto judeus como
gentios, que Deus haveria de salvar. Tais pessoas são
comparadas a filhos menores que aguardam, sob tutela, a
maioridade para que, então, desfrutem plenamente do status
de herdeiro. A figura pretende ilustrar o fato de que aqueles
que Deus haveria de salvar estiveram sujeitos a sistemas
morais e religiosos diversos até o tempo que Cristo se
manifestou. Tendo chegado esse tempo, não há mais porque
submeter-se a tais sistemas.
É já nos vv.1-2 que Paulo apresenta a figura do herdeiro
menor. No afã de realçar sua condição de sujeição, o
Apóstolo diz que, ao longo do período de menoridade, o
herdeiro em nada difere do escravo, estando sob o controle e
as ordens de tutores e curadores[34], estendendo-se essa
situação até o tempo que ao pai aprouver.[35]
Paulo quer mostrar com a figura constante dos vv.1-2 que
o ser humano teve, ao longo da sua história, o seu tempo de
menoridade. Foi o tempo que esteve sujeito de modo servil
aos “rudimentos do mundo” (3). Precisamente nesse ponto,
Paulo deixa de falar somente da Lei Mosaica como fator
opressor. O jugo dessa Lei era sentido apenas pelos judeus.
Paulo tem agora a humanidade inteira em mente (Veja-se v.
8). Segundo ele, não somente quem estava sob o sistema
judaico vivia curvado em sujeição, mas todos os seres
humanos, uma vez que se encontravam debaixo do jugo dos
“rudimentos do mundo”.
A expressão “rudimentos do mundo” (stoicheîa toû
kósmou) aponta aqui para as regras e crenças elementares
que estão presentes nas diversas expressões da religiosidade
humana. Nos vv. 9-10 vemos exemplos desses “rudimentos”,
os quais, segundo o Apóstolo, escravizavam tanto quanto a
Lei de Moisés. Também na Epístola aos Colossenses, onde
Paulo combate especialmente o proto-gnosticismo asceta,
pode-se ter um vislumbre da natureza dessas regras impostas
aos homens, denominadas também ali como “rudimentos do
mundo” (Cl 2.8, 20-23).
O tempo de submissão a tais preceitos, contudo, perdeu
sua razão de ser com o advento de Cristo. Em sua soberania,
Deus determinou que chegasse ao fim a fase da história em
que as pessoas deveriam ser regidas em sua religiosidade
por normas oriundas da Lei Mosaica (no caso dos judeus) ou
da consciência humana (no caso dos gentios). Então ele
enviou seu Filho (4), a fim de livrar da escravidão os que
estavam sob qualquer fardo legal[36] e fazer deles membros
de sua família (5).
Falando especificamente sobre o v. 4, deve-se notar que a
expressão “plenitude do tempo” corresponde ao “tempo
determinado pelo pai” mencionado na ilustração constante
dos vv. 1-2. Plenitude do tempo é, portanto, a fase da
história que Deus em sua soberania julgou por bem enviar
seu Filho ao mundo, pondo fim ao tempo de tutela das leis.
Não nos é revelado na Sagrada Escritura as razões pelas
quais o Senhor não enviou Cristo antes, mantendo os homens
em trevas durante milênios.[37] Somente nos é dito que o
evangelho foi guardado como um mistério, havendo a
possibilidade de certo grau de conhecimento dele por meio
das escrituras proféticas (Rm 16.25-27). Os motivos
específicos, porém, pelos quais a Deus aprouve revelá-lo ao
tempo que o fez estão guardados em sua mente, sendo
impossível conhecê-los.[38]
O que vem a seguir no versículo 4 é de extremo valor
para a cristologia. A frase “Deus enviou seu Filho”, implica
a divindade de Cristo, pois sendo Filho de Deus ele é igual a
Deus (Jo 5.17-18). A frase também implica a pré-existência
de Cristo. Deus antes o enviou para que então nascesse de
mulher. Sua geração no ventre de Maria, portanto, não deu
origem à sua existência. Ele já existia antes da encarnação
(Jo 1.1-3; 8.58; 12.41 [cf. Is 6.1]; 17.5; Cl 1.16-17).
É notável ainda que Paulo se refira a Cristo como
“nascido de mulher”. Isso, acrescido da verdade de que ele é
o Filho de Deus, desemboca na doutrina das duas naturezas
de Cristo. Ele é Deus-homem. É o Filho de Deus e o Filho
do Homem (Jo 5.26-27). Todo o Novo Testamento afirma a
realidade tanto da natureza humana como da natureza divina
em Cristo, ainda que não esclareça o modo como elas se
relacionam (Jo 1.14; At 20.28; Rm 9.5; Hb 2.14). A união
das duas naturezas na pessoa singular e única de Cristo é
chamada tecnicamente de União Hipostática.[39]
O v. 4 termina com a afirmação de que Cristo nasceu “sob
a Lei”, ou seja, Cristo colocou-se debaixo da Lei,
sujeitando-se a ela. Sua humilhação não se manifestou
apenas no fato de fazer-se carne, mas também no fato de
fazer-se servo obediente (Fp 2.5-8). Assim como assumiu
nossa humanidade, porém sem pecado (1Jo 3.5), também
assumiu nossa escravidão, porém sem desobediência (Mt
5.17; Rm 5.19).
Qual foi a intenção do apóstolo ao mencionar esses
aspectos relativos ao advento de Cristo. Por que dizer que
Cristo nasceu de mulher e sob a Lei? O Apóstolo quer, sem
dúvida, mostrar Cristo como o substituto perfeito do homem.
Paulo apresenta Jesus como um homem verdadeiro debaixo
de um jugo verdadeiro. Como tal Cristo pôde participar do
drama humano e substituir perfeitamente o homem ao morrer
sob a Lei, submetendo-se inclusive à maldição que ela
impõe aos que a desobedecem (3.13). Portanto, a plena
substituição é o que Paulo tem em mente aqui. Foi essa
perfeita substituição que tornou possível o resgate dos que
estavam sob a lei (5). A destruição da heresia gálata
dependia da demonstração de que o Filho de Deus, fazendo-
se homem, colocou-se sob a Lei de Moisés até o ponto de
provar o castigo aplicável aos desobedientes. Essa sua obra,
tendo um caráter substitutivo (3.13), libertou o homem do
jugo legal, não havendo mais qualquer razão para que as
igrejas da Galácia novamente o tomassem sobre os ombros.
O Filho de Deus fez-se homem e nasceu sob a Lei a fim de
“resgatar os que estavam sob a lei” (5). Nessa condição
estavam todos os homens, tanto judeus, debaixo da Lei
Mosaica, quanto os gentios, debaixo dos rudimentos do
mundo (vv. 3, 8-9). Paulo afirma que a encarnação e auto-
sujeição de Cristo tiveram por propósito resgatar o ser
humano dessa situação. Resgatar é livrar mediante o
pagamento de um determinado preço. Ora, é sabido que o
preço pago para o livramento do homem foi o sangue do
próprio Filho de Deus (At 20.28; 1Pe 1.18-19; Ap 5.9).
Assim, nos vv. 4-5, o Apóstolo faz alusão à encarnação de
Cristo, ao seu ministério terreno e à sua morte e explica que
o alvo disso tudo foi libertar o homem da escravidão. Que
grande absurdo seria agora os próprios crentes em Cristo se
sujeitarem aos ditames de leis estéreis!
Segundo o v. 5, a obra de resgate não é o estágio final na
salvação do ser humano. Ao contrário, o resgate é o caminho
para a realização de um bem ainda maior: Deus livra o
escravo para adotá-lo como filho! Ele não somente o
desobriga dos deveres da escravidão, não somente tira-lhe
dos ombros o jugo da servidão, mas vai além e o recebe em
sua casa, incluindo-o em sua própria família. Tira-lhe as
correntes, mas não o despede. Antes, abre-lhe as portas,
cobre-o com finas vestes, põe-lhe um anel no dedo e
sandálias nos pés (Lc 15.22).
Por serem filhos de Deus os crentes recebem o Espírito
Santo (6). Paulo mostra aqui que a adoção implica a
habitação (Rm 8.9). No v. 6 o Espírito Santo é chamado
“Espírito do seu Filho” porque o Apóstolo quer realçar a
intensidade da filiação do crente. O cristão é filho de Deus
num sentido tão amplo que a ele é dado o Espírito do
verdadeiro Filho, o Espírito do único Filho que é
consubstancial ao Pai. O efeito disso é que o crente “se
sente” filho. Ele não tem a sensação de ser um estranho na
casa do Pai; não se sente inadequado e sem liberdade para
se achegar a ele e desfrutar de sua intimidade. Em vez disso,
movido pelo Espírito do Filho que nele habita, aproxima-se
do Senhor e clama: “Aba[40], Pai!”, expressão que denota
relacionamento íntimo e afinidade com Deus.
Esse mesmo ensino é encontrado também em Romanos
8.14-16. Nesse texto vemos que a habitação do Espírito,
além de estimular a intimidade com o Senhor, faz com que o
crente viva sob a direção da Terceira Pessoa da Trindade,
livre do domínio da carne e do medo. Ademais, por meio
dessa habitação, o crente recebe o testemunho interno do
Espírito que lhe traz a certeza de ser alguém que pertence à
família de Deus.[41]
O v. 7 encerra o desfecho do pensamento de Paulo nesse
parágrafo: o crente não é mais escravo. Agora é filho! Para
os galateus essa afirmação tinha o propósito assumido de
varrer de suas mentes qualquer forma de doutrina que
refletisse ainda que a menor sombra de escravidão. Abraçar
uma doutrina assim seria andar em desconformidade com a
própria posição a que, pela obra do Filho de Deus, o crente
foi alçado.
Tendo ficado para trás o tempo de escravidão, e
desfrutando agora aquele que crê da posição de filho de
Deus, os benefícios de que desfruta não se limitam à
presente era. Sendo filho ele é herdeiro (7). Pelo próprio
Deus foi elevado a essa condição. Como filho que é, desfruta
agora da liberdade e amanhã se regozijará na herança (Gl
3.29; Rm 8.17).
O PERIGO DE UMA NOVA ESCRAVIDÃO
GÁLATAS 4.8-11

8. Antes, quando vocês não conheciam a Deus, eram


escravos daqueles que, por natureza, não são deuses.
9. Mas agora, conhecendo a Deus, ou melhor, sendo por
ele conhecidos, como é que estão voltando àqueles
mesmos princípios elementares, fracos e sem poder?
Querem ser escravizados por eles outra vez?
10. Vocês estão observando dias especiais, meses,
ocasiões específicas e anos!
11. Temo que os meus esforços por vocês tenham sido
inúteis.

A menção do elevado status atual dos crentes da Galácia,


constante dos vv. 6-7, conduz o pensamento do Apóstolo ao
chocante contraste existente entre essa gloriosa situação e a
condição na qual os galateus viviam anteriormente. De
acordo com Paulo, antes eles “não conheciam a Deus” (8).
O verbo usado aqui (oîda) sugere mais do que o mero
conhecimento de dados sobre alguém. Na verdade, a palavra
admite o sentido de estar ligado a uma pessoa, relacionando-
se com ela. Decorre disso a verdade de que à parte do
evangelho, é impossível que o homem tenha acesso a Deus e
ande com ele, não importa quão religioso seja.
O modo como o desconhecimento de Deus se manifestara
na vida dos crentes da Galácia, ao tempo da sua
incredulidade, foi a idolatria. De fato, os galateus haviam
sido escravos de falsos deuses.[42] No v. 8 há uma forte
ênfase no fato de não serem deuses aqueles que os pagãos
serviam. Paulo desenvolve mais esse ensino em 1Coríntios
8.4-6, onde diz que ainda que muitos tomem para si o nome
de “deuses”, só há um Deus, ou seja, o Pai, e um só Senhor, a
saber, seu Filho, Jesus Cristo. Por outro lado, ainda que os
ídolos não passem de objetos inanimados (1Co 8.4; 12.2),
Paulo adverte que o culto a eles prestado é dirigido a
demônios (1Co 10.19-20)[43], de modo que o crente deve
fugir de qualquer forma de idolatria (1Co 10.14; 1Jo 5.21).
A escravidão aos ídolos, à qual os galateus estiveram
sujeitos, havia acabado. Se o v. 8 descreve o que havia
acontecido outrora, o v. 9 fala do “agora”. Ao receber o
evangelho, os destinatários de Paulo tornaram-se
conhecedores de Deus. Na verdade, a melhor forma de
descrever seu privilégio era afirmando que eles eram
conhecidos de Deus, ou seja, seu relacionamento com o
Senhor não foi o resultado de empenho ou iniciativa
próprios, já que eram escravos absolutamente incapazes de
dar um passo sequer na direção da verdade (Rm 3.11). Foi o
próprio Deus quem se antecipou na busca de um
relacionamento com aqueles irmãos, quando eles ainda se
encontravam na mais mísera condição. Esse fato tornava os
galateus ainda mais culpados. Depois de terem sido objeto
de tão grande graça que os libertou, de quão grave erro não
seriam autores caso voltassem novamente a um viver
curvado sob o jugo da escravidão?
São esses os pensamentos que Paulo quer despertar em
seus leitores ao perguntar “como é que estão voltando
àqueles mesmos princípios elementares, fracos e sem poder?
Querem ser escravizados por eles outra vez?” (9). Já foi
visto o que são os “princípios elementares” (veja o
comentário ao v. 3). Deve-se, no entanto, realçar aqui a
conexão dos tais “princípios” com a escravidão da
idolatria. De fato, depois de afirmar que os seus leitores
haviam se libertado da escravidão dos falsos deuses, Paulo
diz que eles agora estavam voltando novamente ao seu
procedimento anterior. Isso significa que a vida sob a
escravidão dos falsos deuses era caracterizada pela
observância dos princípios elementares, ou seja, aqueles
conjuntos de regras predominantemente religiosas carentes
de qualquer força contra o pecado (Cl 2.20-23).
As perguntas de Paulo no v. 9 evocam o absurdo de um
retorno do cristão à escravidão debaixo de qualquer sistema
legalista. No entanto, por mais incrível que pudesse parecer,
era exatamente esse retorno que os crentes da Galácia
haviam empreendido. Vêem-se assim, no v. 10, exemplos do
modo de agir daqueles cristãos que revelavam sua retomada
do fardo típico de quem adora deuses falsos. Voltando para
o mesmo estilo de vida que caracterizara seus tempos no
paganismo, eles estavam observando “dias especiais, meses,
ocasiões específicas e anos”.
É claro que todas essas observâncias tinham conotações
judaicas, fruto do trabalho dos mestres da Lei Mosaica
infiltrados nas igrejas da Galácia. No entanto, seu efeito
escravizador era o mesmo produzido pelo paganismo em que
antes haviam vivido. Assim, em última análise, observar
preceitos judaicos resultava no mesmo cativeiro em que se
encontravam os adoradores de falsos deuses. O novo
cuidado da Lei judaica conduzia os homens de volta à velha
prisão pagã.[44] Ora, sendo certo que Paulo, ao anunciar o
evangelho aos galateus, os conduzira pelo caminho da
liberdade que há em Cristo, era óbvio que, vendo-os
novamente agrilhoados a normas inúteis, suspeitasse que
todo o seu trabalho entre eles tivesse sido vão (11). De fato,
inútil é o evangelho libertador para aqueles que,
deliberadamente, sobre si mesmos atam fardos pesados,
impossíveis de carregar, assim como também vã é a luz para
aqueles que teimam em ficar de olhos fechados.

APELOS, LEMBRANÇAS E ANSEIOS


GÁLATAS 4.12-20

12. Eu lhes suplico, irmãos, que se tornem como eu, pois


eu me tornei como vocês. Em nada vocês me
ofenderam;
13. como sabem, foi por causa de uma doença que lhes
preguei o evangelho pela primeira vez.
14. Embora a minha doença lhes tenha sido uma
provação, vocês não me trataram com desprezo ou
desdém; ao contrário, receberam-me como se eu fosse
um anjo de Deus, como o próprio Cristo Jesus.
15. Que aconteceu com a alegria de vocês? Tenho
certeza que, se fosse possível, vocês teriam arrancado
os próprios olhos para dá-los a mim.
16. Tornei-me inimigo de vocês por lhes dizer a
verdade?
17. Os que fazem tanto esforço para agradá-los não
agem bem, mas querem isolá-los a fim de que vocês
também mostrem zelo por eles.
18. É bom sempre ser zeloso pelo bem, e não apenas
quando estou presente.
19. Meus filhos, novamente estou sofrendo dores de
parto por sua causa, até que Cristo seja formado em
vocês.
20. Eu gostaria de estar com vocês agora e mudar o
meu tom de voz, pois estou perplexo quanto a vocês.

Depois de expressar seu inconformismo com as práticas


legalistas a que os galateus estavam novamente se
submetendo, o Apóstolo passa agora a dirigir-lhes um apelo
emocionado, lembrando-lhes alguns momentos de amizade e
labor que haviam partilhado juntos e que revelavam o
profundo afeto que um dia os unira. Sua intenção é
claramente despertar novamente aqueles afetos, uma vez que,
à luz do texto, o trabalho dos falsos mestres infiltrados nas
igrejas estava logrando êxito em afastar de Paulo o coração
dos seus queridos filhos na fé (Ver vv. 15-17).
O apelo de Paulo se consubstancia inicialmente nas
palavras “sede qual eu sou; pois também eu sou como vós”
(ARA). Essas palavras significam o seguinte: os crentes da
Galácia nunca haviam ofendido Paulo (v. 12b) e ele se refere
a isso quando diz “também eu sou como vós”. Portanto, ele
se assemelhava aos galateus em seu modo de tratá-los,
jamais os agredindo ou sendo grosseiro, apesar da
dificuldade do momento. Por outro lado, o Apóstolo sentia
que os seus filhos na fé (v. 19) estavam se distanciando dele
mais e mais (vv.16-17), enquanto ele próprio procurava
desesperadamente uma reaproximação. É nesse aspecto que
Paulo suplica humildemente que os crentes da Galácia sejam
como ele. Assim como o Apóstolo os imitava não os
ofendendo, os galateus por sua vez também deviam imitá-lo,
empenhando-se em reconstruir os laços de comunhão
afrouxados pela influência dos inimigos hipócritas (v.17).
Paulo lembra, a partir do v. 13, que essa comunhão ora
abalada tinha nascido num momento tão sublime e atingido
tamanha intensidade que era inaceitável que fosse agora
destruída pelo trabalho de pessoas mal intencionadas e por
expoentes de erros doutrinários tão grosseiros. Segundo ele,
a primeira vez que pregou o evangelho na Galácia foi por
causa de uma doença de que foi acometido. A narrativa de
Atos sobre a visita missionária de Paulo à Galácia (At
13.14-14.21) não faz menção dessa enfermidade[45] e não
há como saber qual foi exatamente o mal físico de que sofreu
o Apóstolo.[46]
Seja como for, não pairam dúvidas sobre os propósitos de
Paulo ao relembrar o tempo que, fragilizado em sua saúde,
esteve entre os irmãos a quem escreve. O Apóstolo quer
trazer-lhes à memória os tempos de união e, assim, despertar
o desejo de revivê-los. De fato, um grande estímulo à
unidade dos crentes no presente é procedente das
recordações das batalhas que juntos travaram no passado.
Portanto, sempre que as armadilhas do mundo e do diabo
fizerem os crentes se distanciar dos seus irmãos, um bom
impulso ao retorno é a memória dos momentos mais
sublimes que marcaram a sua jornada em comum (Hb 10.32-
34). Só os corações terrivelmente endurecidos pelo pecado
são capazes de se manter insensíveis ao se lembrarem dos
momentos mais tocantes de sua própria história.
A enfermidade de Paulo, segundo seu parecer, se
constituiu numa prova para os galateus (14). Isso significa
que receber o missionário doente gerou-lhes um grau
considerável de incômodo, o que seria motivo para que o
Apóstolo fosse tratado com manifestações de impaciência e
desprezo. Contudo, o que aconteceu foi exatamente o
contrário. Nem desprezo e nem aversão os galateus
revelaram naquelas circunstâncias.[47] Antes, Paulo foi
recebido como “um anjo de Deus” e até mesmo “como o
próprio Cristo Jesus”.
Ao descrever nesses termos (e com aprovação) a atitude
que os crentes da Galácia tiveram outrora para com ele,
Paulo ensina indiretamente que é como anjos e como o
próprio Cristo que os ministros do evangelho devem ser
recebidos e tratados pelos cristãos em geral. De fato, a
escritura chama os mestres da verdade de anjos, uma vez que
são mensageiros de Deus (Ml 2.7; Ap 2.1, 8,12, 18; 3.1, 7,
14). Além disso, os proclamadores do evangelho são
embaixadores de Cristo, atuando em seu lugar como porta-
vozes, de forma que desprezá-los corresponde a rejeitar
aquele que eles representam (Mt 10.40; Lc 10.16; 2Co 5.20).
Por outro lado, há aqui também uma forte indicação da
responsabilidade que paira sobre os pastores. Estes têm o
dever de zelar pela mensagem de Deus como se fossem anjos
celestes ou mesmo pequenos cristos a pregar (Tt 1.7-9). A
consciência disso faria com que os púlpitos de nossas
igrejas deixassem de ser palco de fanfarronadas e passassem
a se constituir na maior força transformadora do tempo
presente.
Após lembrar com saudades do amor demonstrado pelos
galateus, Paulo pergunta com tristeza: “Que aconteceu com a
alegria de vocês?” (15. NVI). Mesmo estando Paulo
enfermo, os galateus haviam manifestado intensa alegria em
recebê-lo. Aliás, o prazer deles com a presença de Paulo era
tanto que o Apóstolo tinha plena consciência de que outrora
aqueles irmãos, se possível fora, teriam “arrancado os
próprios olhos” para auxiliá-lo. Essa linguagem,
evidentemente é figurada. É bom também frisar que não há
aqui nenhum sinal de que a doença de Paulo fosse nos olhos,
conforme sugerem alguns intérpretes (vide nota 2). A frase
indica tão somente que, em outros tempos, os galateus não
mediriam esforços para beneficiar aquele que tinha sido um
hóspede tão querido.
A pergunta constante do v. 15 mostra claramente que
aquela alegria que os crentes da Galácia haviam
demonstrado por ter Paulo junto de si havia acabado. Agora
eles não sentiam satisfação alguma, nem mesmo com a
possibilidade de ter o Apóstolo por perto. Que grande
mudança em seus afetos! Era como se a pessoa mais amada
daquelas igrejas, num breve período de tempo e sem
nenhuma justificativa, passasse a ser considerada seu mais
detestável inimigo!
Ainda que perplexo (v. 20), Paulo sabia a causa de
mudança tão radical. Aqueles cristãos estavam aceitando a
mentira dos falsos mestres e, por isso, a verdade dita pelo
Apóstolo lhes causava aversão. Esse fato é apontado através
da pergunta retórica do v. 16. Nesse versículo, vê-se que ao
anunciar o evangelho genuíno e denunciar o desvio dos
mestres enganadores, Paulo havia despertado real antipatia
nas jovens igrejas corrompidas doutrinariamente. Esse fato
que tomou lugar na experiência de igrejas neotestamentárias
deve despertar a atenção das igrejas atuais. Que seja
lembrado que abrir os braços para doutrinas novas e
estranhas faz com que igrejas inteiras desenvolvam rancores
e até construam barreiras contra os verdadeiros expoentes da
Palavra de Deus. Ministros fiéis também devem ter isso em
mente. Muitas vezes a inimizade é o preço pago pela
proclamação da verdade, mesmo quando isso é feito de
modo brando e amoroso.
Com a pergunta do v. 16, Paulo revela seu desejo de
trazer os galateus de volta para junto de si. Ele quer
incomodar suas consciências fazendo-os ver de quão grande
impiedade eram culpados ao abandonar a mais terna
comunhão não porque tivessem sido ofendidos, mas porque
tinham sido instruídos na palavra da verdade. De fato, é
difícil imaginar maior estupidez do que se tornar inimigo de
um irmão precisamente porque ele nos beneficiou.
A estratégia usada pelos falsos mestres para difundir sua
doutrina perversa dentro das igrejas da Galácia transparece
no v. 17. Tal estratégia consistia em demonstrar cuidado,
preocupação e interesse pelos crentes. Os legalistas se
apresentavam como pastores “zelosos”. Paulo, no entanto
alerta seus leitores dizendo que aquele cuidado não era bom,
ou seja, tratava-se de um zelo indigno de aprovação, sem
sinceridade, pois tinha como objetivo isolar os crentes.[48]
Segundo Paulo, os falsos mestres, com sua demonstração
hipócrita de estima, queriam distanciar dele os seus leitores
e reuni-los em torno de si para, então, obter daquelas igrejas
o mesmo cuidado e afeto que antes haviam dispensado ao
Apóstolo (vv. 14-15). Nota-se aqui que os ardis de outrora
são usados ainda hoje pelos falsos pastores. Estes sempre
trabalham em três direções: conquista da simpatia da igreja;
afastamento dos irmãos dos pregadores verdadeiros; e
obtenção do serviço e cuidado dos crentes em seu favor (2Pe
2.3; Jd 16).
No v. 18 Paulo se volta novamente para o cuidado que os
galateus haviam demonstrado por ele no passado. Aqui o
Apóstolo ensina que era lamentável que aquele interesse tão
tocante só existisse quando ele estava por perto. Para Paulo
era preocupante que aquelas igrejas se mantivessem fiéis a
ele e, conseqüentemente, aos seus ensinos tão-somente em
sua presença. Infelizmente, como se sabe, é comum também
as igrejas de hoje se desviarem da verdade quando os
ministros de Deus, movidos por diversas necessidades, são
obrigados a se ausentar delas. O quadro moderno, porém, é
pior, uma vez que na Galácia esse erro era cometido por
igrejas recém formadas, enquanto hoje o desvio se dá na
vida de crentes que conhecem o evangelho há dezenas de
anos. Paulo expressa no v. 18, o singelo ideal da igreja de
Deus ser continuamente zelosa pelo bem, mesmo nos
momentos que se vê, por uma razão ou outra, longe da
benéfica influência dos proponentes da sã doutrina.
O coração de Paulo se enternece ao ver os crentes
naquela situação. Dirigindo-se aos seus leitores de forma
carinhosa, com a alma repleta de afeição, ele os chama de
“filhos” (19) [49] e diz que, por causa deles, novamente
sentia as dores de parto até que Cristo fosse formado em
suas vidas. A metáfora pode ser simplificada da seguinte
maneira: Paulo se apresenta como uma mãe que sofre dores
de parto para dar à luz filhos que tivessem a aparência de
Cristo. O significado óbvio é que em seu ministério o
Apóstolo trabalhava por gerar pequenos cristos (Rm 8.29),
isto é, pessoas que tivessem em si os traços do caráter de
Jesus, um caráter marcado pelo zelo por aquilo que é bom,
tanto na esfera doutrinária quanto moral. Na busca desse
ideal, Paulo sofria com freqüência e intensidade. Ele é um
pai espiritual e aqui aprendemos que na esfera espiritual
tanto pais como mães sofrem dores para dar à luz. Aqui
aprendemos também que o verdadeiro pai espiritual é aquele
que trabalha e sofre na busca incessante de criar em alguém
o caráter de Cristo. Que marcante diferença havia entre esse
alvo de Paulo e as intenções dos mestres legalistas (v.17)! E
quão útil ferramenta o crente tem nesse texto que mostra
indiretamente como identificar o verdadeiro pastor! Este
será simplesmente o homem que não mede esforços no
sentido de fazer com que as pessoas que o Senhor lhe
confiou se tornem mais parecidas com Jesus (Ef 4.11-13).
Sabendo que sua ausência era, em parte, a causa do
desvio dos galateus, Paulo, no v. 20 manifesta o desejo que
tinha de estar com eles naquelas horas. O versículo dá a
entender que essa possibilidade não existia naquele
momento. Mesmo assim, o Apóstolo diz que gostaria de estar
entre eles para poder falar com “outro tom de voz”. De fato,
a Epístola aos Gálatas tem trechos severos (1.6-9; 3.1-5;
4.9-11, 15-16; 5.4, 7-9, 12, etc.). Paulo acreditava que,
estando presente, não precisaria usar daquela severidade,
pois confiava que diante dele os galateus se submeteriam. A
razão que o impulsionava a desejar um contato mais direto
não era apenas o impacto mais forte que uma visita pessoal
teria. Ele também queria vê-los porque cria que isso lhe
traria algum alívio, uma vez que estava “perplexo” quanto
aos crentes da Galácia. O termo usado por Paulo (aporéo)
denota desespero e dúvida. A idéia de estar desnorteado se
encaixa bem aqui. Paulo indica que aquela situação o
deixara um tanto sem rumo, refletindo sobre que medidas
tomar para remediar o problema. Ele acreditava que uma
visita seria útil para clarear suas idéias e mostrar como
proceder de maneira eficaz.

O CONTRASTE ENTRE SARA E HAGAR


GÁLATAS 4.21-31

21. Digam-me vocês, os que querem estar debaixo da


Lei: Acaso vocês não ouvem a Lei?
22. Pois está escrito que Abraão teve dois filhos, um da
escrava e outro da livre.
23. O filho da escrava nasceu de modo natural, mas o
filho da livre nasceu mediante promessa.
24. Isto é usado aqui como uma ilustração; estas
mulheres representam duas alianças. Uma aliança
procede do monte Sinai e gera filhos para a escravidão:
esta é Hagar.
25. Hagar representa o monte Sinai, na Arábia, e
corresponde à atual cidade de Jerusalém, que está
escravizada com os seus filhos.
26. Mas a Jerusalém do alto é livre, e é a nossa mãe.
27. Pois está escrito: “Regozije-se, ó estéril, você que
nunca teve um filho; grite de alegria, você que nunca
esteve em trabalho de parto; porque mais são os filhos
da mulher abandonada do que os daquela que tem
marido”.
28. Vocês, irmãos, são filhos da promessa, como Isaque.
29. Naquele tempo, o filho nascido de modo natural
perseguiu o filho nascido segundo o Espírito. O mesmo
acontece agora.
30. Mas o que diz a Escritura? “Mande embora a
escrava e o seu filho, porque o filho da escrava jamais
será herdeiro com o filho da livre”.
31. Portanto, irmãos, não somos filhos da escrava, mas
da livre.
O método de interpretação da Bíblia usado pelos
evangélicos atuais que seguem na esteira dos reformadores
do século XVI é eventualmente denominado método
histórico-gramatical. Uma das marcas desse modelo
hermenêutico é sua forte ênfase no sentido literal do texto
escriturístico. Para os defensores desse método de
interpretação, as palavras da Bíblia têm apenas um
significado, ou seja, aquele pretendido pelo autor sagrado.
Até mesmo em face das figuras de linguagem, quando
logicamente as palavras adquirem duplo sentido, os
proponentes desse método entendem que a intenção autoral
deve ser preservada como um fator que impõe limites ao
intérprete, impedindo-o de atribuir ao texto significados
oriundos da sua imaginação ou que atendam aos seus
interesses e opiniões pessoais.
Esse método tão defendido nos séculos IV e V pelos
teólogos da Escola de Antioquia e distintivo dos protestantes
ao longo da história está em franca oposição ao chamado
método alegórico, popularizado já na igreja antiga
especialmente por Orígenes de Alexandria (185-253 d.C) e
que consiste, grosso modo, na busca de um significado
oculto por trás da letra. O método alegórico, praticado
largamente pelo catolicismo romano, ainda que não despreze
o sentido literal do texto bíblico, entende que há nele um
sentido espiritual, mais profundo do que aquele que se obtém
a partir de uma leitura natural. A tarefa do exegeta é
descobrir esse sentido que transcende as palavras e até
mesmo a intenção do autor inspirado.[50] É por adotarem
esse método hermenêutico que muitos expositores católicos e
também evangélicos sentem-se à vontade para fazer as
interpretações mais extravagantes e absurdas da Bíblia.
A seção da Carta aos Gálatas colocada agora sob análise
se constitui num grande desafio para os defensores do
método histórico-gramatical. Isso porque o modo como
Paulo interpreta a história de Sara e Hagar (Gn 16.15; 21.1-
10) parece ser marcantemente alegórico, já que se afasta
flagrantemente da intenção autoral e dá ao texto de Gênesis
um sentido a que é impossível chegar pela via da leitura
natural. Seria esse modo como Paulo lê a narrativa um “sinal
verde” para o método alegórico? Pode o intérprete cristão
moderno, seguindo o exemplo do Apóstolo, mergulhar no
texto bíblico à busca de sentidos ocultos, no afã de descobrir
verdades jamais sonhadas sequer pelos seus autores?
Os defensores do método histórico-gramatical têm
explicado o procedimento de Paulo no texto em questão de
três diferentes maneiras. A primeira é a afirmação de que ali
o Apóstolo não estava “alegorizando”, mas sim traçando um
paralelo entre o que aconteceu na história do povo de Israel
e o que acontecia agora na igreja de seus dias. É o caso,
portanto, de tipologia e não de alegoria.[51] Segundo esse
entender, a palavra “alegoria” (allegoroúmena) constante do
v. 24, teria um sentido pouco preciso, não podendo
corroborar o método alegórico de interpretação. De fato, o
argumento de Paulo no texto em análise é marcantemente
comparativo. Diferente dos alegoristas, ele não trabalha com
o texto isolado e, unicamente a partir dele, cria um sentido
que considera adequado. Antes, apresenta duas realidades (o
conflito entre Sara e Hagar e o conflito entre a velha e a
nova aliança) e realça o que ambas têm em comum. Mais do
que inventar sentidos, Paulo compara fatos e, dessa forma,
vê nas duas mulheres tipos ou figuras das duas alianças
agora em franca oposição. Ora, o uso de tipos é comum nas
Escrituras (e.g., o sacerdote Melquisedeque, o cordeiro
pascal, o Tabernáculo), sendo certo que só podem ser
reconhecidos quando a própria Bíblia os aponta. É esse o
caso em Gálatas 4.21-31.
A segunda maneira, também revestida de alto grau de
plausibilidade, pela qual se explica o método hermenêutico
de Paulo nesse texto em particular consiste na afirmação de
que o Apóstolo está fazendo uso momentâneo de um método
muito familiar para grande parte dos judeus que compunham
o número de seus leitores. Com isso ele quer apenas usar
mais um recurso para reforçar sua mensagem e não
demonstrar como Gênesis deve ser lido. Esse entendimento,
mais recente que o primeiro, se constitui realmente numa
excelente hipótese. [52]
Finalmente, há o entendimento de que Paulo, ao associar
Sara e Hagar aos conflitos teológicos de seu tempo, agia
com uma capacitação especial dada pelo Espírito Santo.
Como apóstolo, Paulo foi um instrumento de Deus para
revelação de seus mistérios (1Co 2.1,7; Ef 3.3-9; Cl 1.26-
27), sendo certo que, por meio do processo de inspiração
das Escrituras, ele os registrou em suas cartas que hoje
compõem o Novo Testamento. Foi no exercício desse dom
apostólico que Paulo pôde vislumbrar o liame existente entre
a história das duas mulheres e o conflito entre os “filhos”
das duas alianças. O fim do período apostólico, já no
primeiro século da Era Cristã, implica o fato de que ninguém
mais tem autoridade para interpretar textos bíblicos da
mesma forma como Paulo o fez em Gálatas 4.21-31.[53]
Das três linhas de argumentação acima expostas, todas
são aceitáveis para o estudante honesto da Bíblia. Este deve
tão-somente abster-se a todo custo do malfadado método
alegórico, sob o risco de, ao adotá-lo em suas leituras e
estudos, atribuir sentidos ao texto bíblico jamais pretendidos
pelos escritores sagrados e, dessa forma, passar a seguir e
defender idéias que sejam meros frutos de sua criatividade.
Assim, após lamentar o afeto que tinha perdido por parte
dos galateus e expressar seu desejo de estar perto deles a
fim de corrigi-los de maneira mais eficaz (vv.12-20), Paulo
retoma a estratégia de ataque contra os mestres legalistas. É
a eles e aos simpatizantes de seus ensinos que o Apóstolo se
dirige diretamente agora, referindo-se a essas pessoas como
“os que querem estar debaixo da Lei” (21[NVI]), ou seja, os
que se submetiam à lei mosaica crendo que, com isso,
poderiam obter a justificação (5.4).
Num tom provocativo, Paulo lhes pergunta: “Acaso vocês
não ouvem a Lei?” Há aqui a sugestão de que era de se
esperar que os mestres legalistas, com sua suposta
autoridade espiritual, tivessem uma percepção mais clara da
mensagem que a própria Lei, tão defendida por eles,
transmitia. A pergunta de Paulo deixa claro que
especialmente aqueles mestres, diferentemente dele, eram
incapazes de captar as verdades profundas da Palavra e não
estavam qualificados para apresentar mistérios antes
desconhecidos, como os apóstolos de Cristo tinham
autoridade para fazer (1Co 2.1,7; Ef 3.3-9; Cl 1.26-27).
A partir do v. 22 Paulo expõe o que tem em mente quando
fala sobre a capacidade de ouvir a Lei. Ele menciona
porções da história de Abraão, recordando que o grande
patriarca teve dois filhos: Ismael, que nasceu de Hagar, a
escrava (Gn 16.1-16); e Isaque, que nasceu de Sara, uma
mulher livre (Gn 21.1-7).[54] O contraste na condição das
duas mulheres (uma escrava e outra livre) é fundamental
para o raciocínio que Paulo quer construir. Percebe-se,
desde o início, que o Apóstolo pretende ressaltar a
superioridade daquela que gera filhos livres sobre aquela
que gera filhos escravos.
Prosseguindo, Paulo reforça o contraste entre as duas
mulheres no v. 23, ao chamar a atenção para o fato de que o
filho da escrava nasceu de modo natural (literalmente,
“segundo a carne”), enquanto o filho de Sara nasceu de
forma extraordinária, em cumprimento à promessa de Deus.
Têm-se, então, afinal, duas realidades opostas, impossíveis
de se harmonizar. De um lado, o nascimento de um escravo
que passa a existir a partir de processos humanos comuns; de
outro, o nascimento de um homem livre, só possível graças à
intervenção poderosa de Deus que o traz ao mundo por causa
de uma promessa que fez.
Vê-se desde já onde Paulo pretende chegar. Desses
versículos se depreende de antemão que os mestres
legalistas e seus discípulos galateus eram escravos e
existiam como tais não como resultado da atuação milagrosa
de Deus em suas vidas, mas sim em virtude de esforços
humanos carnais. Por outro lado, os que buscavam a
justificação pela fé em Cristo obtinham liberdade do jugo da
Lei, eram livres e existiam como resultado da obra poderosa
de Deus que fez a promessa de dar a bênção de Abraão, ou
seja, a justificação e a herança, a todos os que têm a fé de
Abraão (Rm 4.11-16).
No v. 24 o Apóstolo esclarece finalmente que aqueles
fatos narrados em Gênesis têm um sentido figurado (Lit.
“essas coisas são uma alegoria”), sendo que Sara e Hagar
representam duas alianças. A escrava é uma figura da
Aliança Mosaica, ou seja, a aliança da lei, estabelecida no
Monte Sinai (Ex 34.29-32; Lv 26.46; Ne 9.13-14). Essa
aliança, tão cara aos mestres legalistas e aos cristãos da
Galácia tinha como marca distintiva a exigência de sujeição
a regras e normas de diversas naturezas, impondo aos
homens um peso que jamais podiam carregar (At 15.10) e
gerando, dessa forma, escravos.
“Hagar é o monte Sinai, na Arábia”, diz Paulo (25),
querendo com isso demonstrar o paralelo entre a serva de
Abraão e o pacto da lei, firmado ao tempo do êxodo de
Israel. Ademais, o Apóstolo esclarece que Hagar também é
uma figura da Jerusalém dos seus dias, cujo povo
permanecia debaixo do jugo da lei mosaica. Paulo menciona
especificamente a cidade de Jerusalém porque nela se
focalizava o culto israelita, sendo também ali o centro do
judaísmo com sua ênfase na guarda da lei em seus mínimos
detalhes.
De fato, Jerusalém era a grande fortaleza em que a lei de
Moisés era protegida com um zelo que chegava às raias do
fanatismo.[55] Ademais, é bem provável que os mestres
judaizantes que estavam atuando de forma tão perniciosa
junto aos cristãos da Galácia fossem procedentes de
Jerusalém (At 15.1, 23-24) e se gloriassem no radicalismo
daquela maravilhosa cidade. Talvez eles até se
aproveitassem do fato de terem vindo de Jerusalém para
afirmar sua autoridade, considerando o destaque que aquela
cidade tinha como reconhecido núcleo religioso. Sendo esse
o caso, pode-se entender porque Paulo mostra a real
condição da metrópole de que tanto se jactavam. Na
verdade, seus filhos, ou seja, seus cidadãos e todos os que
adotavam seus princípios, homens tão meticulosos no tocante
às determinações da antiga aliança, estavam sob escravidão,
oprimidos sob o fardo de uma religiosidade exterior incapaz
de tornar o homem livre e justo diante de Deus (Rm 3.20).
Para Paulo, portanto, o sistema mosaico, em vez de criar
novos israelitas, criava novos ismaelitas!
Em contraste com a Jerusalém terrena que, sendo serva
como Hagar, é mãe de escravos, há a Jerusalém celestial
que, como Sara, é livre (26). Essa Jerusalém também é mãe.
De fato é nossa mãe, ou seja, mãe dos crentes, aqueles que
são livres da Lei mediante a fé em Cristo (v. 31; Rm 7.6).
Paulo se refere à Nova Aliança (1Co 11.25; 2Co 3.6; Hb
9.15) como “a Jerusalém lá de cima” porque seus filhos são
gerados pelo poder do alto e, ainda que se encontrem por um
tempo neste mundo, não têm aqui nenhuma cidade sagrada
em que se concentrem (Hb 13.14). Antes são, na verdade,
cidadãos celestes (Fp 3.20), homens livres cuja liberdade
lhes advém do Pacto da Cruz, no qual Deus se compromete a
dar a vida eterna aos que tão-somente crêem em seu Filho
(Jo 6.40). A pátria deles está, pois, nos céus (Hb 11.10, 16;
12.22; 1Pe 2.11; Ap 21.2), mas a liberdade que têm como
cidadãos do alto já é desfrutada aqui (5.1).
Mantendo viva a comparação entre os filhos da Nova
Aliança e Isaque, o filho de Sara, Paulo recorda mais uma
vez que, além de ambos serem gerados em liberdade,
também ambos nasceram por causa do milagre realizado por
Deus. Citando Isaías 54.1, o Apóstolo aponta para o fato de
que o profeta se refere à Jerusalém restaurada como uma
mulher que tinha sido estéril, mas que, por causa da
promessa e do poder de Deus terá numerosos filhos (27). A
princípio, o texto se refere à restauração da Jerusalém
exilada em Babilônia.[56] Paulo, porém, movido pelo
Espírito Santo, estende seu sentido para ensinar que os filhos
da Jerusalém celeste, ou seja, do Novo Pacto, são obra
sobrenatural do Senhor e também realçar o grande número
de cidadãos dessa pátria gloriosa. De fato, a graça de Deus,
ainda que a cada geração alcance um número
comparativamente reduzido de pessoas (Mt 7.14; 22.14), ao
final se mostrará como tendo sido eficaz na vida de uma
multidão redimida ao longo dos séculos (Ap 5. 9-10; 7. 9).
O v. 28 inicia o desfecho de toda a analogia de Paulo
entre as duas mulheres de Abraão e as duas alianças. Ele
conclui que os crentes são como Isaque por serem também
filhos da promessa. De fato, neles é cumprida a promessa de
que Abraão teria uma grande descendência (Rm 4.16-17;
9.8). É por isso que o Apóstolo os descreve como “filhos da
promessa, como Isaque”.
Ocorre, porém, que da mesma forma como o filho da
escrava perseguia o filho da livre, assim é também agora
(29). A história de Gênesis mostra que o filho de Hagar,
nascido sem qualquer intervenção especial de Deus,
atormentava o menino nascido de forma sobrenatural (Gn
21.8-9) e Paulo vê nisso um paralelo com o que acontecia na
Galácia. Ali, mestres que não haviam nascido de Deus,
filhos naturais da Aliança Mosaica e escravos da Lei,
perseguiam os crentes, filhos livres da Nova Aliança,
nascidos graças à atuação milagrosa de Deus.
É interessante notar que o assédio dos falsos mestres à
igreja, tentando impor sobre ela o fardo das exigências
legais, é tido pelo Apóstolo como verdadeira perseguição.
Assim, não se deve conceber o ataque contra os santos
apenas sob a forma de oposição sangrenta, com prisões,
mortes, e torturas. A perseguição contra o povo santo
também acontece quando pregadores da mentira tentam
seduzi-lo, conduzindo-o pelos caminhos tortuosos de um
evangelho adulterado. Na Galácia os “perseguidores” eram
mestres judaizantes que, com sorrisos e agrados, colocavam
sobre os crentes a carga insuportável da guarda da Lei. Hoje,
esse tipo de perseguição ainda existe. Aliás, sempre que
alguém se aproxima de um crente e o exorta ou ensina a se
submeter a regras, dizendo que é assim que se vive o
cristianismo autêntico, tal pessoa atua como verdadeiro
perseguidor, um escravo ismaelita perturbando os filhos
livres da Jerusalém celeste.[57]
Como terminará a história do embate entre os filhos da
escrava e os filhos da livre? Paulo recorre novamente à
história de Gênesis e sugere o modo como os crentes devem
por um fim à oposição dos legalistas que pervertem o
evangelho genuíno. Ali, Sara diz a Abraão: “Mande embora
a escrava e o seu filho” (30). Parece clara aqui a sugestão de
Paulo de que os galateus deveriam rejeitar não somente o
ensino dos mestres judaizantes, mas também eles próprios. A
citação de Gênesis 21.10 parece indicar que os crentes da
Galácia deveriam mandar embora aqueles que lhes estavam
ensinando a justificação pela guarda da Lei. Como Sara,
aqueles crentes não podiam tolerar os ataques ousados e
maldosos dos escravos contra os filhos da promessa,
devendo adotar uma postura firme contra eles, eliminando
qualquer grau de influência que tivessem e até afastando-os
do seu convívio.[58]
O versículo 30, por outro lado, tem um sentido que
suplanta a orientação dada aos crentes de rejeitar os
legalistas. O sentido dominante no texto aponta para a
certeza de que num dia futuro os que confiam na justiça
própria mediante a guarda de leis serão expulsos do
convívio dos herdeiros de Deus. Aqui Paulo confere às
palavras da esposa de Abraão um sentido profético e é para
realçar a autoridade de tais palavras que o Apóstolo as
atribui à Escritura e não diretamente a Sara.
De Gênesis 21.10, Paulo aduz, portanto, o destino
escatológico dos filhos das diferentes alianças. Aqueles que
insistem na justificação pela guarda da Lei e oprimem os
crentes impondo fardos sobre eles serão um dia afastados
para sempre e os salvos, de posse da herança, se verão
livres de sua presença e perseguição. Do texto citado
depreende-se também facilmente que os legalistas não
receberão a herança devida aos crentes que foram gerados
livres pelo evangelho da graça (Rm 4.14). De fato, o
Apóstolo ensina claramente aqui que os que confiam na
guarda da Lei estão perdidos, não têm parte na herança de
Deus e serão finalmente banidos da congregação dos santos.
A força desse texto esvazia de qualquer esperança aqueles
que buscam ser salvos pela observância dos mandamentos
mosaicos.
O v. 31 tão somente reforça a identidade dos crentes como
filhos livres, conforme Paulo ressaltou em versículos
anteriores (vv. 26, 28).
Capítulo 5

O EVANGELHO VERDADEIRO E AS VIRTUDES


ESPIRITUAIS

A busca da justificação pelo cumprimento da Lei é


condenável, posto que implica afastamento de Cristo em
quem a justiça é obtida pela fé. Contudo, estar livre da Lei
não deve conduzir à vida desregrada, uma vez que a
liberdade cristã é vivida dentro dos limites do amor e sob a
influência do Espírito que produz virtudes no crente.
PREJUÍZOS DO LEGALISMO
GÁLATAS 5.1-6

1. Foi para a liberdade que Cristo nos libertou.


Portanto, permaneçam firmes e não se deixem
submeter novamente a um jugo de escravidão.
2. Ouçam bem o que eu, Paulo, lhes digo: Caso se
deixem circuncidar, Cristo de nada lhes servirá.
3. De novo declaro a todo homem que se deixa
circuncidar, que está obrigado a cumprir toda a Lei.
4. Vocês, que procuram ser justificados pela Lei,
separaram-se de Cristo; caíram da graça.
5. Pois é mediante o Espírito que nós aguardamos pela
fé a justiça, que é a nossa esperança.
6. Porque em Cristo Jesus nem circuncisão nem
incircuncisão têm efeito algum, mas sim a fé que atua
pelo amor.

O capítulo 5 de Gálatas inicia-se com a afirmação de que


Cristo nos libertou para sermos, de fato, livres (1), ou seja,
ao redimir-nos Cristo almejou que realmente desfrutássemos
da liberdade e não a tivéssemos apenas como um conceito
abstrato, sem qualquer reflexo no modo como vivemos.
Antes, sua obra libertadora deveria ser desfrutada pelos
crentes.
Assim, Paulo prossegue ainda no v. 1 advertindo os
galateus a permanecerem firmes. Firmeza aqui implica fixar-
se na verdade pregada por Paulo e usufruir, sem vacilar, da
liberdade que Cristo conquistou. De fato, ao demonstrar
simpatia pelos ensinos legalistas, os crentes da Galácia
revelavam uma fé vacilante e um modo de viver que, como
uma estaca solta, pendia para o lado da escravidão sob a
força do vento de um evangelho falso (1.6-7). O Apóstolo
ordena, portanto que aqueles crentes se apeguem com maior
tenacidade ao evangelho verdadeiro e, conseqüentemente, ao
desfrute da liberdade obtida por Cristo.
Paulo prossegue deixando claro que deixar-se levar pela
mensagem dos judaizantes, como os galateus já estavam
fazendo (4.10-11), representava um retrocesso, ou seja,
significava submeter-se “de novo, a jugo de escravidão”
(ARA). O Apóstolo usa a expressão “de novo” (pálin),
porque ainda que seus leitores, sendo gentios, não tivessem
vivido sob o jugo da Lei Mosaica, tinham sido escravos de
sistemas religiosos pagãos marcados por inúmeras e severas
exigências (4.8-11).
Desse modo, para Paulo, a resposta positiva ao apelo dos
falsos mestres implicava, basicamente, um retorno ao modo
de vida que os galateus tinham experimentado no paganismo.
A partir daí é fácil concluir que “judaizar” a igreja é, na
verdade, uma forma de paganizá-la. Em vista disso, os
crentes modernos devem estar atentos contra os ataques de
alguns pregadores atuais que ensinam a necessidade de
retorno aos deveres da religião mosaica até mesmo em seus
aspectos cerimoniais. Na prática, quem hoje promove a
observância das normas do judaísmo, conduz os homens ao
estilo de vida próprio do paganismo.
No v. 2, Paulo deixa transparecer o aspecto da Lei que os
mestres judaizantes tinham em mais alta conta e, certamente,
aquele que mais insistiam que os galateus observassem: a
circuncisão. Para eles, se os gentios não recebessem essa
marca em sua carne, não poderiam ser salvos (At 15.1,5).
[59] Assim, os falsos mestres da Galácia apontavam um
caminho para a justificação no qual a fé em Cristo não era
suficiente, fazendo-se necessárias as obras da Lei. A
circuncisão seria talvez a principal dessas obras. Por isso,
Paulo vê nessa prática uma declaração de falta de confiança
na suficiência da Cruz; uma afirmação de que ela não tem
nenhum valor à parte do rito legal judaico.
Ademais, a circuncisão era o sinal externo de adesão à
Lei. Ora, Cristo se manifestou especialmente para livrar o
homem do jugo insustentável da Lei Mosaica (Ef 2.14-15; Cl
2.14). Logo, aderir à Lei por meio daquele sinal no corpo
seria o mesmo que tornar sem proveito a obra libertadora
que Cristo completou no Calvário (2.21). De fato, pela
circuncisão os crentes da Galácia estariam assumindo o
compromisso de se colocarem sob a escravidão das normas
esculpidas na pedra, tornando sem valor a liberdade obtida
pelo Deus-Homem fixado no madeiro.
Que Paulo entendia a circuncisão como um sinal de
adesão completa à Lei depreende-se facilmente do v. 3. O
Apóstolo mostra aqui que, sendo aquele rito judaico uma
evidência de submissão plena às normas mosaicas, não seria
coerente circuncidar-se e, então, dedicar-se ao cumprimento
de apenas algumas determinações da Antiga Aliança,
escolhidas ao bel prazer. A circuncisão implicava um
comprometimento integral do homem com as normas do
Sinai. Não poderia alguém submeter-se a meia aliança,
assim como não pode um homem colocar-se debaixo das
responsabilidades de meio casamento.
Eis o perigo a que se expunham os legalistas! Ao
adotarem um “cristianismo judaizado”, punham sobre os
próprios ombros e dos seus discípulos não só alguns pesos
selecionados pela vontade livre, mas um fardo completo que
homem nenhum na história humana jamais pôde suportar (Jo
7.19; At 15.10). Acrescente-se a isso a verdade de que quem
quer viver debaixo da Lei deve antes entendê-la como um
bloco monolítico que não pode ser partido num ponto sem
que tudo o mais se perca (Tg 2.10). A conclusão a que se
chega é que o ensino dos falsos mestres da Galácia
implicava não só a adoção completa da Lei, mas também o
dever de uma obediência perfeita, daquele tipo que só o
Filho de Deus foi capaz de praticar (Jo 8.46; Hb 4.15; 1Jo
3.5).
O comprometimento com a Lei a que os crentes da
Galácia eram impelidos por força da influência dos falsos
mestres era, como se sabe, nada mais que um arranjo
doutrinário no qual predominava a busca de justificação pelo
esforço próprio. Eles queriam somar as obras à fé e obter a
justificação como produto dessa operação. Paulo mostra,
porém, que na busca da salvação é impossível andar de
mãos dadas ao mesmo tempo com a Lei e com Cristo. É
assim que, dirigindo-se especificamente aos falsos mestres e
aos seus mais leais seguidores, ele afirma que, ao buscarem
a justificação pela Lei, não poderiam manter-se unidos a
Cristo (4). De fato, ao agirem daquela forma, de Cristo eles
haviam se “desligado”. O verbo usado por Paulo é katargéo
e significa ser liberto de, romper com alguém.
O ensino de Paulo nessa passagem deixa claro que mesmo
o comprometimento com uma parte ínfima da Lei implica
necessariamente a nulidade do compromisso com o Senhor.
Para o Apóstolo, ou o homem fica absolutamente livre da Lei
pela fé em Cristo ou fica absolutamente livre de Cristo pela
adesão à Lei. Não há como manter liames com ambos. A
mais tênue ligação com um só, para fazer qualquer sentido,
requer o abandono total do outro.
Os legalistas já tinham feito a sua opção! Aderindo à Lei
na busca da justificação, tinham se separado de Cristo e,
assim, caído da graça, ou seja, tinham abandonado a
possibilidade de desfrutar do favor gratuito de Deus
oferecido em seu Filho.
É comum no meio evangélico o entendimento de que as
expressões “desligar-se de Cristo” e “cair da graça”
apontam para a possibilidade da perda da salvação. Esse
entendimento, porém, está equivocado, mesmo porque o
ensino de que a salvação não se perde é amplamente
fundamentado nas páginas do Novo Testamento (Jo 10.27-29;
Rm 8.30-39; 1Ts 5.23-24; 1Pe 1.3-5, etc.). Assim,
considerando o ensino bíblico em geral e os fatores
distintivos que permeiam o texto em análise, conclui-se que
desligar-se de Cristo é buscar inutilmente a salvação nele e
em algo além dele, desprezando a sua suficiência. É manter
uma união parcial com Cristo, dividindo a confiança da
salvação entre ele e algo mais. Para Paulo, esse tipo de
comprometimento com o Salvador é nulo e implica, na
verdade, total separação dele.
Da mesma forma, cair da graça (Lit. “cair para fora”)
significa colocar-se fora da esfera dos benefícios da graça.
[60] É afastar-se do domínio em que o perdão de Deus é
dado independentemente de méritos. É deixar para trás a
possibilidade de ser salvo gratuitamente. A busca da
justificação pelo esforço próprio faz com que o indivíduo
deposite a confiança na força do seu braço e, dessa forma,
vire as costas para a salvação gratuita que Deus oferece em
seu Filho. Assim, tal pessoa não perde a graça que obteve,
mas perde a possibilidade de desfrutar a graça que é
oferecida, uma vez que viaja rumo ao território da lei e das
obras, onde a referida graça não habita. Como se vê, Paulo
dirige as palavras do v. 4 a um grupo de pessoas específico
que havia nas igrejas da Galácia. Tratava-se de legalistas
que nunca tinham realmente se convertido. É notável que,
em 2.4, Paulo chama pessoas assim de “falsos irmãos”.
Os vv. 1-4 apresentam um deslocamento no público alvo a
quem Paulo dirige suas palavras. Observe-se que nos vv. 1-
2, o Apóstolo fala aos crentes que, mesmo vacilantes, ainda
não tinham se submetido aos rigores do legalismo que os
falsos mestres estavam propondo. Já nos vv. 3-4, Paulo se
dirige “a todo homem que se deixa circuncidar”, ou seja,
àqueles que “procuram ser justificados pela Lei”. Estes,
conforme visto acima, não eram crentes. Eram pessoas
separadas de Cristo, vivendo em meio à fantasia de um
relacionamento com ele que, na verdade, era nulo, já que não
o consideravam um salvador suficiente. Ademais, tinham
sido banidos do “território da graça”, descambado para além
das suas fronteiras, uma vez que buscavam a salvação no
reino do esforço próprio.
Após dirigir suas palavras a alvos alternados, Paulo
passa agora a falar de um terceiro grupo no qual ele se
inclui. Esse grupo é o que, firmemente e pela atuação do
Espírito, aguarda a justiça pela fé (5).[61] O Apóstolo inicia
o v. 5 com uma conjunção (gár que significa pois) que
expressa aqui o intento de explicar o que foi dito no v. 4.
Assim, o v. 5 é útil para esclarecer que os que buscavam a
justificação mediante a Lei fracassaram porque seu intento
não tinha qualquer relação com a obra do Espírito Santo. A
segura esperança de ser justificado pela fé advém ao homem
pela atuação do Espírito. A ausência dessa esperança em
alguém e a conseqüente tentativa de ser justificado pelas
obras revelam que esse alguém não foi objeto do salutar
ministério do Consolador. Isso porque, onde o Espírito atua,
não resta espaço para a confiança na carne. Esta só persiste
no coração ainda não tocado pela graça.
O contraste básico que transparece no v. 5 é que a
confiança na Lei é mera intuição da mente carnal, enquanto a
esperança de justificação pela fé é obra sobrenatural de
Deus no coração do homem. Acrescente-se a isso o ensino
de Paulo em 2Coríntios 3.6-9. Ali, realçando ainda mais
fortemente o contraste entre o ministério da Lei e o
ministério do Espírito, o Apóstolo ensina que aquele mata e
traz condenação, enquanto este vivifica e traz justificação.
Ora, os legalistas estavam sob o ministério da letra. Sua
conexão com o Espírito, portanto, não existia. Logo, não
havia como serem justificados. É por isso que as palavras
terríveis do v. 4 se ajustavam tão perfeitamente a eles.
Resumindo: os homens que confiam no mérito pessoal
para serem salvos estão, na realidade, perdidos. Isso porque
essa confiança é mera inclinação da mente degenerada e não
obra do Espírito Santo, já que este, na verdade, leva o
homem a desistir de si mesmo e o conduz à justificação
convencendo-o a confiar unicamente em Cristo. Os legalistas
da Galácia demonstravam, portanto, que não tinham sido
objeto dessa obra do Espírito que opera a justificação pela
fé somente. Faltava-lhes a ministração do Consolador e, sem
ela, viviam na ilusão de que, com sua suposta obediência à
Lei, poderiam forçar as portas do céu.
Nunca é demais ressaltar nos dias atuais tão marcados
pela visão otimista acerca do homem que, à luz do v. 5, é
exclusivamente mediante a atuação do Espírito Santo que
alguém pode nutrir a esperança de ser justificado somente
pela fé. Não se pode esperar que o homem, de si mesmo e
por si mesmo, desenvolva essa esperança. Ela é obra de
Deus, realizada naqueles que, sem mérito algum, são
contemplados por sua graça (Rm 2.29; 1Co 12.3; 2Ts 2.13).
Concluindo o parágrafo, Paulo faz alusão ao fato de que o
homem que creu e foi justificado está em Cristo, ou seja,
dentro de sua esfera de influência e benefícios.
Considerando que tal homem desfruta das bênçãos dessa
posição, sendo a justificação a principal delas, não há para
esse indivíduo utilidade alguma na circuncisão (6). Para o
crente, ser circuncidado ou não é algo absolutamente sem
importância. Submeter-se a esse rito não o fará ganhar nada
e deixar de submeter-se não o fará perder nada (1Co 7.18-
19). O que faz o homem ganhar ou perder no âmbito
espiritual é a fé. Eis o fator que faz toda a diferença! Note-
se, porém, que a fé de que Paulo fala aqui, ou seja, a genuína
fé salvadora que é dádiva de Deus (Ef 2.8) e que tem Cristo
como autor (Hb 12.2), é uma fé que se evidencia no mundo
dos fatos.
Paulo ensina que a forma como a fé salvadora se
movimenta tornando-se perceptível é através de atos de
amor (1Jo 3.10, 14; 4.7-8). A fé tem no amor o seu rosto. A
face da fé é o amor. Não há, portanto, espaço no cristianismo
para uma fé meramente conceitual e abstrata. A fé salvadora
é viva e atuante, sendo nos atos de amor que ela se
corporifica e mostra que é real. Carente dessa dimensão
palpável a fé é morta (Tg 2.14-17), está longe de ser a que
vem de Deus e, por isso, não pode salvar ninguém.[62]

UMA CORRIDA INTERROMPIDA


GÁLATAS 5.7-12

7. Vocês corriam bem. Quem os impediu de continuar


obedecendo à verdade?
8. Tal persuasão não provém daquele que os chama.
9. “Um pouco de fermento leveda toda a massa.”
10. Estou convencido no Senhor de que vocês não
pensarão de nenhum outro modo. Aquele que os
perturba, seja quem for, sofrerá a condenação.
11. Irmãos, se ainda estou pregando a circuncisão, por
que continuo sendo perseguido? Nesse caso, o
escândalo da cruz foi removido.
12. Quanto a esses que os perturbam, quem dera que se
castrassem!

Nos primeiros dias de sua jornada como cristãos, os


galateus tinham demonstrado boa disposição e realizado
notáveis avanços. Paulo os compara no v. 7 a atletas que,
durante uma corrida, apresentam um bom desempenho.[63]
Algo, porém, aconteceu. Adversários os alcançaram e
impediram que avançassem.[64] Fica claro no texto o que
Paulo tem em mente com essa comparação: os crentes da
Galácia, no início, haviam seguido a verdade do evangelho
com força e vontade. Eles permaneceram firmes nessa fé até
que os falsos mestres, com sua doutrina legalista, fizeram-
nos parar e dar ouvidos a uma mensagem que apresentava a
justificação mediante a guarda da Lei Mosaica.
Do v. 7 se depreende que correr bem a carreira cristã não
é só enfrentar as perseguições que geralmente advêm aos
santos, mas também sustentar a fé na verdade, sem deixar-se
levar pelos convites dos pregadores mentirosos que,
especialmente nos dias atuais, se alastram como uma
epidemia. De acordo com a figura de Paulo, todo crente que
abandona a Sã Doutrina e dá ouvidos a tais pregadores é
como um atleta que parou de correr. Estendendo essa figura,
pode-se perguntar: Que utilidade têm tais atletas? Que
prêmio receberão?
A causa da interrupção da corrida na pista da verdade por
parte das igrejas da Galácia era uma “persuasão” (8). O
termo usado pelo Apóstolo (peismoné) sugere o uso de
falácias sedutoras empregadas com o objetivo de convencer
os galateus a abandonar o caminho que estavam seguindo.
Que os judaizantes faziam uso de atrativos para fascinar e
induzir os crentes à desobediência da verdade fica claro em
3.1 e 4.17. Paulo afirma que a origem dessa persuasão não
era o Senhor, querendo dizer com isso que o trabalho e a
mensagem dos falsos mestres infiltrados nas igrejas não
estavam em harmonia com a vontade e os planos de Deus
para o seu povo.
No v. 8, Paulo se refere a Deus como “aquele que os
chama” (NVI). Essa designação é cheia de significado. De
fato, para Paulo o crente é alguém que foi chamado à fé em
Cristo por meio da pregação do evangelho (Gl 1.6; 2Ts 2.13-
14) e respondeu positivamente a essa santa vocação. Note-
se, porém, que o particípio grego usado no texto está no
tempo presente (kaloûntos), apontando para uma ação atual
de Deus. É provável, portanto, que Paulo tenha em mente
aqui um convite de Deus dirigido continuamente aos que já
atenderam ao chamado para a fé.[65] À luz de outras
passagens, esse chamado contínuo consiste num apelo para
que os crentes sejam santos (Rm 1.7) e vivam em paz com
Deus (2Co 5.20). Assim, ao falar de Deus como “aquele que
os chama”, o Apóstolo talvez pretenda despertar a
consciência dos seus leitores para o fato de que o Senhor,
vendo seus filhos se distanciar mais e mais de si em virtude
da persuasão dos falsos mestres (1.6), continuamente os
convoca para que retornem a ele, rejeitando definitivamente
o falso evangelho. Se de um lado os mestres da mentira
convidavam os galateus para que seguissem suas invenções,
de outro o Senhor os chamava docemente para que
retornassem à sobriedade e à fé na verdade.
Por impedirem os galateus de obedecer a verdade,
atendendo assim ao chamado de Deus, os falsos mestres se
constituíam numa influência maligna que, aos poucos e num
tempo breve, poderia corromper completamente as igrejas
da Galácia. Paulo alerta os seus leitores para isso citando o
conhecido brocardo: “Um pouco de fermento leveda toda a
massa” (9). O Apóstolo usaria o mesmo adágio mais tarde,
ao escrever aos coríntios (c. 55 d.C.), para ensinar a
necessidade de expulsar um homem imoral da igreja (1Co
5.6-8). Ali, assim como no texto em análise, o “fermento” é
símbolo da “maldade e da perversidade” (1Co 5.8). A
diferença é que, em Corinto, a maldade e a perversidade
manifestaram-se, entre outras coisas, através de um chocante
desregramento sexual, enquanto na Galácia revelaram-se por
meio do rápido e aberto desvio doutrinário.[66] Da
consideração de ambos os casos pode-se concluir que tanto
a conduta errada quanto o ensino errado, quando admitidos
na igreja, são capazes de, lentamente e de várias maneiras,
afetar todos os seus membros.
Para que continue, portanto, a existir como igreja
verdadeira, a comunidade que se coloca sob esse título não
pode tolerar o erro nem de conduta nem de doutrina,
impondo-se a necessidade de corrigir e, se preciso for, até
expulsar aqueles que se sujeitam a quaisquer desses desvios
(1Co 5.2,13). A figura do fermento mostra que disso depende
a pureza e a saúde de toda a igreja. Por isso, ainda que
medidas severas sejam muitas vezes necessárias para
extirpar a influência má e crescente, deve-se lembrar que
dessas medidas depende a sobrevivência do próprio grupo
eclesiástico. De fato, a experiência mostra que a tolerância
adotada muitas vezes em nome de uma noção errada de amor
ou por causa do medo de ser taxado de “radical” tem, no fim
das contas, um preço alto. Basta observar que igrejas que no
passado deram pouca importância a pequenos desvios
práticos e teológicos, considerando-os inofensivos, hoje se
vêem marcadas por um quase irremediável ambiente
mundano e também por grosseiras heresias instaladas nas
mentes de seus membros. Eis o efeito do fermento! Sua ação
silenciosa e lenta faz com que os danos que produz se
alastrem por sobre tudo e sejam percebidos tarde demais.
Daí a necessidade de lançá-lo fora com urgência (1Co 5.7),
por mais que isso gere dissabores e desgaste emocional.
Paulo sabia que a doutrina dos falsos mestres judaizantes
tinha o potencial de corromper por completo as igrejas da
Galácia. Isso, porém, ainda não tinha acontecido (5.1-2), e o
Apóstolo estava confiante que seu ensino prevaleceria sobre
as falácias dos legalistas (10). Sabendo que escrevia a
crentes genuínos, Paulo acreditava no arrependimento dos
galateus e no seu retorno à Sã Doutrina. Essa sua confiança
era fundamentada “no Senhor”. Isso significa que Paulo cria
que o arrependimento dos seus leitores seria, em última
análise, obra de Deus no coração deles. O Apóstolo tinha
plena certeza em seu íntimo que o Senhor não deixaria seus
filhos vagando pelas sendas da mentira.
Ainda no v. 10, Paulo afirma: ”Aquele que os perturba,
[67] seja quem for, sofrerá a condenação”. O uso do
singular não significa que havia somente um falso mestre
atuando entre as igrejas. Em 1.7, 4.17, 5.12 e 6.12 Paulo
deixa claro que havia um grupo presente ali. Certamente,
portanto, o singular foi usado para referir-se ao líder desse
grupo ou ao mais influente entre os legalistas. Sem dúvida,
esse indivíduo se apresentava como detentor de grande
autoridade doutrinária, um rabino acima da média que, com
seus ares de grande intelectual associados às suas técnicas
de bajulação, havia conquistado uma posição de alto
prestígio entre os irmãos. Paulo mostra, no entanto, que,
independentemente da posição que ocupava, aquele homem
seria castigado. A expressão “seja ele quem for” indica que
sua suposta autoridade não teria valor algum diante do Deus
que o condenaria por desviar as igrejas da verdade.
A palavra traduzida como “condenação” (kríma) tem aqui
o sentido de punição. No versículo sob análise o termo
aparece associado a um verbo cujo significado é “carregar”
(bastázo, também usado em 6.2,17). É possível, portanto,
que Paulo esteja dizendo que Deus lançaria um grande fardo
sobre a vida daquele homem, desconsiderando totalmente a
sua posição de preeminência. Isso porque, para Deus, o bom
ministro não é necessariamente o que se destaca, mas sim o
que é fiel (1Co 4.1-2) e não se pode deixar impune o homem
que, aproveitando-se de sua posição privilegiada, conduziu
o povo santo para longe da verdade, causando prejuízos
incalculáveis para a causa do Reino (1Co 3.17).
Concluindo o parágrafo em análise, Paulo deixa
transparecer uma das acusações que os falsos mestres
dirigiam contra ele, a saber, a de que ele pregava a
circuncisão quando isso era conveniente. Ao que tudo indica,
os judaizantes diziam que a mensagem de Paulo era
oscilante, pendendo para este ou aquele lado, dependendo
das circunstâncias e sempre com o intuito de evitar oposição
e cair no agrado de todos. Paulo já se defendera dessa
acusação em 1.10. Agora ele o faz novamente, desta vez
demonstrando o quanto ela ia contra as mais claras
evidências. Assim, no v. 11 ele diz: Irmãos, se ainda estou
pregando a circuncisão, por que continuo sendo perseguido?
É óbvio que Paulo tem em mente aqui, especificamente, a
perseguição dirigida contra ele pelos adeptos do judaísmo.
Por que estes o perseguiam se sua mensagem se ajustava às
suas convicções? Ora, a perseguição contra Paulo por parte
dos judeus era um fato inegável. Aliás, na própria região da
Galácia, quando as igrejas a quem escreve foram fundadas,
ao tempo da Primeira Viagem Missionária, o Apóstolo
encontrou terríveis obstáculos entre os seus compatriotas
exatamente porque sua pregação contradizia a expectativa
reinante entre eles de que o homem pudesse ser justificado
pelas obras da Lei, e enfatizava unicamente a necessidade da
fé em Cristo (At 13.49-50; 14.1-2). Logo, os próprios
galateus tinham sido testemunhas da perseguição que Paulo
sofrera quando anunciou pela primeira vez o evangelho entre
eles (At 14.19-20) e puderam perceber o quanto sua
mensagem incomodava os adeptos do judaísmo. Como agora
podiam crer que ele era um pregador que mudava o conteúdo
do seu discurso a fim de evitar problemas com os supostos
seguidores de Moisés?
É verdade que Paulo tinha grande disposição em evitar
ferir os escrúpulos dos judeus e, assim, criar barreiras
desnecessárias ao anúncio do evangelho (At 16.1-3).
Contudo, esse modo de agir estava muito longe de ser uma
forma de anunciar a necessidade da circuncisão como os
falsos mestres diziam que Paulo estava fazendo. A
perseguição que o apóstolo sofria era evidência de que não
era esse o caso, pois se sua mensagem incluísse a salvação
pela guarda da Lei, o “escândalo da cruz” cessaria.
“Escândalo” (skándalon) significa, literalmente,
armadilha. É uma palavra usada no NT para fazer referência
ao incitamento ao pecado (Mt 16.23; 18.7; Rm 16.17). A
partir desse significado básico, o sentido se estende a ponto
de abranger qualquer coisa que cause repulsa ou reprovação.
Esse é o sentido adotado no v. 11. “Escândalo da cruz” é,
portanto, a indignação que a mensagem da cruz gera. De fato,
para o judeu, essa mensagem causava repugnância como algo
que induzia os outros ao erro, a tal ponto que incitava sua
oposição (1Co 1.23). Se Paulo pregasse a circuncisão, essa
repulsa deixaria de existir; o escândalo cessaria e com ele a
perseguição. Ora, a constante inimizade dos judeus contra
Paulo era a prova de que isso jamais tinha acontecido.
Naturalmente, acusações tão absurdas contra Paulo
geravam em seu íntimo a mais intensa indignação. Por isso,
com mordaz ironia ele termina o parágrafo insurgindo-se
abertamente contra seus covardes caluniadores (12). O
Apóstolo se refere a eles como pessoas que provocam
tumulto e agitação. Em 1.7 e 5.10 os mestres judaizantes já
foram descritos como pessoas que perturbam. Agora, outro
verbo é usado (anastatóo), cujo sentido é semelhante. De
fato, Paulo sugere que os mestres legalistas eram
instigadores de tumulto. Sendo assim, ironicamente faz votos
de que aqueles homens que eram tão radicalmente
afeiçoados à circuncisão até o ponto de conduzir a igreja à
rebeldia, também fossem radicais na realização do ritual e se
castrassem de uma vez por todas![68] Diziam que ele
pregava a circuncisão. Eis aí, portanto, a circuncisão que
Paulo prega! Que os mentirosos agora façam uso dela.
A reação de Paulo diante da mentira que tentava
corromper o evangelho e também sua própria reputação pode
parecer demasiadamente severa. No entanto, aprendemos na
Escritura que na defesa da verdade, ainda que deva
predominar a mansidão no coração dos seus expoentes (2Tm
2.24-25; 1Pe 3.15-16), há situações que exigem a tomada de
atitudes mais rígidas. Nos escritores do NT essa rigidez
aflora sempre que a paz, a pureza e a sã doutrina são
fortemente ameaçadas, colocando a igreja em constante e
real risco de destruição (1Co 3.1-3; 5.13; Tt 1.10-13; Tg 4.4;
2Pe 2.1ss; 3Jo 9-10).

O AMOR É O CUMPRIMENTO DA LEI


GÁLATAS 5.13-15

13. Irmãos, vocês foram chamados para a liberdade.


Mas não usem a liberdade para dar ocasião à vontade
da carne; ao contrário, sirvam uns aos outros mediante
o amor.
14. Toda a Lei se resume num só mandamento: “Ame o
seu próximo como a si mesmo”.
15. Mas se vocês se mordem e se devoram uns aos
outros, cuidado para não se destruírem mutuamente.

O convite para crer em Cristo é uma vocação para ser


livre não só do mundo, do pecado e da perdição, mas
também do fardo que a Lei Mosaica impõe aos que tentam
viver sob suas determinações (5.1). Essa é a lição que Paulo
repisa em toda a Carta aos Gálatas. Contudo, certamente em
virtude das acusações que lhe estavam sendo dirigidas de
pregar uma mensagem que induzia os crentes ao
desregramento, o Apóstolo vê nesta altura, a necessidade de
apresentar um contrapeso. Assim, passa a ensinar que a
liberdade a que o crente foi chamado não implica uma vida
em que são dadas asas às inclinações naturais (1Pe 2.16).
Antes, essa liberdade deve conduzir a uma forma nova de
escravidão: a escravidão do amor. Paulo ensina, então, que
em vez de usar a liberdade cristã para servir suas próprias
paixões, o crente deve usá-la para servir amorosamente aos
seus irmãos (13. Vd. tb. 1Co 8.9,13).
É preciso, portanto, compreender que a pureza e o amor
são as cercas da liberdade do crente. É somente dentro
desses limites que a liberdade se mantém saudável e
verdadeira, sendo certo que ao ultrapassar tais fronteiras, ela
se desfigura, transformando-se em escravidão ao pecado (Jo
8.34; 2Pe.2.17-19).
A ênfase sobre o amor aos irmãos é notável no parágrafo
em análise. Paulo deixa transparecer com isso o fato de que
os crentes da Galácia não tinham apenas problemas
doutrinários. Eles também tinham sérios problemas de
relacionamento, havendo terríveis atritos entre os crentes.
Fica evidente no texto que na Galácia as igrejas acolhiam
falsos mestres e feriam verdadeiros irmãos! Por isso, Paulo,
além de mostrar que a liberdade que Cristo dá deve conduzir
ao amor que se dispõe ao serviço dos santos, também mostra
que o dever de amar consta da própria Lei como uma ordem
que resume todos os demais mandamentos (14).[69] É óbvio
que a menção da Lei aqui não é despropositada. Paulo está
escrevendo a pessoas que diziam ter os preceitos mosaicos
em alta conta. Na verdade, é como se dissesse: “Vocês
realmente querem cumprir a Lei? Muito bem. Então amem-se
uns outros, pois toda a Lei se resume nesse mandamento e,
curiosamente, ele não tem recebido a atenção devida por
parte de vocês que se apresentam como zelosos cumpridores
das determinações de Moisés!”
No v. 15 percebe-se o grau de atrito que havia entre os
crentes galateus. Ao usar os verbos “morder” (dákno) e
“devorar” (katesthío), o Apóstolo sugere a figura de animais
selvagens brigando ferozmente entre si, cada qual tentando
brutalmente estraçalhar e destruir o outro, em meio à
completa balbúrdia, gritos e confusão. É claro que a figura
sugerida por Paulo tem um toque de exagero com o intuito de
dar maior impacto à admoestação. No entanto, considerando
a lista das “obras da carne” constante de 5.19-21, bem como
a exortação de 5.26, parece certo que nas igrejas da Galácia
existiam chocantes problemas de inimizade.
A partir disso tudo, é fácil concluir que o ministério dos
mestres legalistas, com sua ênfase sobre uma religião
mecânica e cerimonialista, conduzia os homens ao apego a
meras formalidades exteriores. Assim, os crentes não davam
atenção às virtudes espirituais e jamais as cultivavam. O
resultado era a divisão e a discórdia, pois os vícios da alma
de uma pessoa fatalmente são sentidos por aqueles que estão
ao seu redor. Esse fato pode ser verificado em qualquer
grupo social. Aliás, é curioso perceber na atualidade, que,
tal como na Galácia, igrejas apegadas a um sem número de
regras são verdadeiros palcos de intrigas, provocações e
calúnias. A religiosidade puramente externa consome
totalmente o tempo e a atenção, não deixando espaço para o
cuidado da espiritualidade interna. Ora, quando se descuida
do coração, ele passa a produzir espinhos que cedo ferem os
que se aproximam. Paulo alerta que esse estado de coisas,
com as brigas que gera, fatalmente conduz à destruição de
todos, ou seja, a feridas incuráveis em indivíduos a ao fim
da igreja como um núcleo cristão de comunhão e testemunho
(Jo 13.35).

A VIDA SOB O CONTROLE DO ESPÍRITO


GÁLATAS 5.16-26

16. Por isso digo: Vivam pelo Espírito, e de modo


nenhum satisfarão os desejos da carne.
17. Pois a carne deseja o que é contrário ao Espírito; e
o Espírito, o que é contrário à carne. Eles estão em
conflito um com o outro, de modo que vocês não fazem
o que desejam.
18. Mas, se vocês são guiados pelo Espírito, não estão
debaixo da Lei.
19. Ora, as obras da carne são manifestas: imoralidade
sexual, impureza e libertinagem;
20. idolatria e feitiçaria; ódio, discórdia, ciúmes, ira,
egoísmo, dissensões, facções
21. e inveja; embriaguez, orgias e coisas semelhantes.
Eu os advirto, como antes já os adverti: Aqueles que
praticam essas coisas não herdarão o Reino de Deus.
22. Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz,
paciência, amabilidade, bondade, fidelidade,
23. mansidão e domínio próprio. Contra essas coisas
não há lei.
24. Os que pertencem a Cristo Jesus crucificaram a
carne, com as suas paixões e os seus desejos.
25. Se vivemos pelo Espírito, andemos também pelo
Espírito.
26. Não sejamos presunçosos, provocando uns aos
outros e tendo inveja uns dos outros.

O remédio para os graves conflitos interpessoais que


agitavam as igrejas da Galácia é apresentado por Paulo no v.
16. As palavras “por isso digo” (légo dé indicam que o que
está para ser dito é a solução para o problema descrito no v.
15. Assim, segundo Paulo, a única meio de superar aquela
forte inimizade que havia entre os crentes galateus era a
submissão à influência do Espírito Santo.
O Apóstolo descreve essa forma de viver como “andar no
Espírito’ (pneúmati peripateîte). O significado básico dessa
expressão, conforme já sugerido, é um caminhar em que o
indivíduo permite que o Espírito de Deus controle suas
reações e guie a sua vontade (Veja tb. v.18).[70] O homem
que se dispõe a isso diz “não” para suas inclinações
pessoais (Lc 9.23) e “sim” para as orientações do Espírito
de Deus (Rm 8.5).
Frise-se que só os cristãos podem dispor dessa maneira
de viver, uma vez que somente neles o Espírito Santo habita,
apontando-lhes o modo de proceder (Rm 8.9,14). Deve
também ficar claro que andar no Espírito não é uma
experiência mística, em que o crente tem sua personalidade
anulada, vivendo como que num êxtase. Antes, trata-se de um
estilo de vida a que o cristão se submete voluntária e
conscientemente, sabendo que não existe outra maneira pela
qual seja possível viver o cristianismo de modo real e
satisfatório (Rm 8.8).
O que vem em decorrência do andar no Espírito é uma
conduta em que a carne, ou seja, a inclinação pecaminosa do
individuo, não é satisfeita, ou seja, tal tendência é como que
mortificada (Rm 8.13). É claro que o Apóstolo não está
dizendo aqui que o submeter-se ao controle de Deus levará o
crente a uma vida sem pecado. A própria experiência de
Paulo mostra que esse ideal é impossível neste mundo (Rm
7.15-25). Porém, é fora de discussão que o crente que se
sujeita às orientações e influência do Espírito Santo não vive
sob o domínio de suas inclinações naturais. Estas, é claro,
não desaparecem num crente assim, mas também não são
capazes de tomar as rédeas de sua vida e ditar-lhe a conduta.
No cristão que vive pelo Espírito, o pecado mostra-se
presente, perturbando-o, entristecendo-o e contrariando sua
vontade, mas isso nunca até o ponto de estabelecer-se no
centro de sua vida, reinando soberano (Rm 6.12-14).
Dando seguimento ao seu ensino, Paulo destaca que há no
íntimo do cristão uma verdadeira batalha entre sua natureza
pecaminosa e as orientações do Espírito Santo que nele
habita. Conforme o ensino do Apóstolo, de um lado há as
inclinações naturais tentando determinar a conduta do homem
já regenerado, enquanto de outro lado há a atuação do
Espírito que insiste em guiar a vida daqueles que pertencem
a Deus (17). Paulo diz que essa batalha travada no âmbito da
vontade faz com que as decisões morais dos crentes nunca
sejam absolutamente livres. Antes, sempre resultam ou dos
impulsos carnais ou da obra do Espírito de Deus.
Deve ficar claro que, com a frase “... de modo que vocês
não fazem o que desejam” (NVI), Paulo não está dizendo que
o crente não tem vontade própria. Antes, a frase aponta para
o fato de que a vontade moral do cristão sempre sofre
influências determinantes. Com isso o Apóstolo resvala num
tema da teologia cristã que tem sido objeto de calorosos
debates: a vontade livre. Ainda que esse assunto tenha
inúmeras ramificações, à luz do texto em análise parece
certo dizer que, no que diz respeito ao cristão, a vontade
moral sempre reage aos impulsos de uma entre duas forças,
isto é, ou o crente toma decisões induzido por suas paixões
carnais, ou o faz sob a direção do Espírito. Em todo caso,
sua vontade própria sempre se expressa no campo da ética
respondendo a fatores que a contrariam, mas que fatalmente
a conduzem nesta ou naquela direção (Rm 7.19; Fp 2.13).
Assim, parece que a liberdade plena da vontade, nos termos
como é geralmente entendida, não encontra suporte para
sustentação no ensino paulino.
O fato é que, no crente, a vontade é um misto de bem e
mal. Por isso, não importa o rumo que tome, seu querer
sempre será contrariado. Se optar pelo mal, sentir-se-á
frustrado, pois o bem que ele aprova e no qual tem prazer
não será alcançado. Se, por outro lado, optar pelo bem, terá
de fazê-lo dizendo “não” para si mesmo, ou seja, para aquilo
que seu coração naturalmente deseja (Lc 9.23; 1Co 9.27).
Assim, enquanto o pecado estiver em seus membros (Rm
7.23), o cristão jamais poderá dizer que desfruta de plena
liberdade em suas decisões morais.
Paulo sabia que as discórdias existentes nas igrejas da
Galácia (vv. 13-15) eram o resultado indesejado daquela
batalha entre os impulsos da carne a que aqueles crentes
estavam dando vazão, e as orientações do Espírito. Sobre
eles recaía, portanto, o dever de administrar corretamente
essas inclinações, refreando a natureza pecaminosa e
submetendo seus desejos aos ensinos do Espírito.
Isso tudo conduz o Apóstolo a uma implicação óbvia: se
era ao Espírito que os galateus deviam sujeição, isso
significava também que, conforme argumenta em toda a
carta, seu senhor não poderia ser a Lei (18). Nesse ponto, é
como se o Apóstolo estivesse a dizer: “Essas brigas que há
entre vocês são reflexos do domínio da carne em suas vidas
e só poderão desaparecer se houver submissão às
orientações do Espírito Santo. Esse Espírito, de fato, atua em
vocês, opondo-se às suas inclinações carnais. Ora, se o
Espírito de Deus quer controlar sua vida, é óbvio que sua
obediência deve ser a ele e não às normas da Lei Mosaica,
como os mestres judaicos têm lhes ensinado”.
De tudo isso se depreende o seguinte: há três influências
sob as quais é possível que um crente se coloque. Essas três
influências são: a Lei, a carne e o Espírito.[71] Sob as duas
primeiras, o cristão jamais conseguirá agradar a Deus (Rm
7.9; 8.8) e, para desespero de Paulo, era exatamente a essas
duas que os galateus se sujeitavam. Já a terceira influência, a
do Espírito, esta permanece a única sob a qual o crente pode
realmente fazer a vontade do Senhor (v.16). Debaixo dela, a
força da carne é neutralizada e o cristão é capacitado
sobrenaturalmente a cumprir as justas exigências da Lei, da
forma como Deus requer (Rm 7.6; 8.4).
Nos vv. 19-21, o Apóstolo apresenta uma lista da qual
constam quinze “obras da carne” específicas. Paulo pretende
mostrar vividamente o modo como as inclinações na natureza
pecaminosa se manifestam no dia-a-dia das pessoas que se
deixam dominar por ela. Fica claro aqui, antes de tudo, que a
carne induz à realização de certas obras e que essas obras
são facilmente identificáveis. O termo traduzido na NVI
como “manifestas” (fanerá) indica que tais obras são
praticadas sem qualquer discrição, sendo expostas diante de
todos numa chocante demonstração de ausência de
escrúpulos.
A lista de obras da carne pode ser dividida em quatro
grupos distintos de pecados. O primeiro deles abrange os
pecados de natureza sexual. Estes são: imoralidade sexual,
impureza e libertinagem (19). O termo traduzido por
“imoralidade sexual” (porneía) abrange todos os tipos de
relação sexual ilícita, desde a fornicação até a prostituição.
Já a “impureza” (akatharsía) sugere a idéia de podridão no
íntimo, ou seja, as más intenções na área sexual ainda que
também signifique imoralidade de um modo geral. Quanto à
“libertinagem” (asélgeia) a palavra poderia ser traduzida
como “lascívia” (cf. ARA) ou “sensualidade”. Porém, o
termo pode denotar um comportamento realmente ousado,
próprio daquele que se entrega à licenciosidade, assumindo
um modo devasso, impudico e dissoluto de viver.
O segundo grupo de obras da carne mencionado pelo
Apóstolo pode ser classificado como composto de pecados
de natureza religiosa. Paulo menciona, no v. 20, a idolatria
(eidololatría) e a feitiçaria (farmakeía). A primeira é a
adoração de ídolos ou imagens de falsos deuses.[72] Quanto
à feitiçaria, a palavra sugere inicialmente a prática da magia
que faz uso de drogas e poções (a partir do termo grego
temos, em português, a palavra “farmácia”). Porém, num
sentido amplo, “feitiçaria” é qualquer arte de bruxaria,
magia ou encantamentos. A prática popular de “simpatias”
insere-se perfeitamente no conceito que Paulo repugna aqui.
Assim também o uso de drogas no preparo do indivíduo para
exercícios mentais próprios das religiões orientais.
É curioso notar que a natureza pecaminosa também inclina
o homem para a religião falsa e para a superstição. Assim,
os atos cultuais realizados pelos adeptos de qualquer seita
idólatra e as crendices populares não são meros frutos da
ignorância, do costume ou da tradição. Antes, refletem o
caráter reprovado de quem se envolve com elas; um caráter
em que a natureza pecaminosa reina governando a mente e as
ações do indivíduo. Essa é a “psicologia da religião”
ensinada por Paulo!
Como é sabido, a sociedade pagã do primeiro século da
Era Cristã era caracterizada tanto por um baixo nível moral
como pelo desvio religioso e, sem dúvida, os leitores da
epístola estavam familiarizados com as formas de
comportamento referidas pelo Apóstolo. Portanto, não há
dúvida que, nesse ponto, seu ensino assume um caráter
vívido, pois no contexto em que viviam os galateus, não
faltavam exemplos das coisas até aqui mencionadas. Assim,
ao definir toda essa conduta como carnal, Paulo incita seus
leitores a não adotarem o comportamento próprio da
sociedade que os cercava.
Depois de listar os pecados na área da religião, Paulo
prossegue enumerando os pecados de natureza relacional,
isto é, aqueles que normalmente se insinuam no âmbito do
convívio social, destruindo os relacionamentos
interpessoais. Esse grupo concentra o maior número de
pecados (oito, ao todo), certamente porque era exatamente na
esfera da convivência que os galateus tinham mais
problemas (vv. 14-15, 26). São eles ódio, discórdia, ciúmes,
ira, egoísmo, dissensões, facções e inveja (20-21).
O ódio (Lit. “ódios”. Gr. échthrai) não é aqui um mero
sentimento. Trata-se da manutenção de inimizades. O homem
carnal considera-se inimigo de certas pessoas e age como
tal, alimentando suas hostilidades. Na igreja, é o crente que
sempre está “de mal” com alguém; constantemente
construindo barreiras entre si e os outros. Trata-se do homem
que tem uma forte inclinação para arrumar encrencas e
geralmente é bem sucedido nesse propósito.
O vocábulo “discórdia” (éris) denota a rivalidade que
aflora em contendas. Discussões verbais (1Co 1.11; Tt 3.9) e
provocações (Fp 1.15) são manifestações desse tipo de
pecado. Quanto ao ciúme (zêlos. Daí a palavra “zelo”, em
português), seu significado aqui é o sentimento de inveja, o
incômodo que nasce no coração de alguém quando vê o
sucesso, o destaque ou o simples bem estar de outrem (At
5.17). O invejoso não se conforma com as conquistas de
outra pessoa e, cedo ou tarde, esse seu inconformismo se
expressa em maledicência e oposição. É por isso que Tiago
coloca a inveja na raiz de todas as confusões e coisas ruins
que surgem na igreja e em qualquer outro grupo de pessoas
(Tg 3.14-16).
A palavra que vem a seguir é “ira” (Lit. “iras”. Gr.
thymoí). Significa, basicamente, raiva e furor (Lc 4.28-29).
Paulo tem em mente aqui as explosões de cólera, sempre
acompanhadas de gritos, ameaças e ofensas. O homem carnal
reage de modo agressivo bem depressa e por muito pouco.
Ele também se orgulha por ser assim e até se gaba dos
ataques que, cheio de ira, empreendeu contra seus
semelhantes nesta ou naquela ocasião.
O próximo item na lista de Paulo é “egoísmo”, que no
texto também aparece no plural (eritheîa). O vocábulo
denota a ambição egoísta, também mencionada em Tiago
3.14-16 como a causa de tudo o que é ruim nas relações
entre os homens. O indivíduo que pratica esse pecado é
aquele que faz as coisas visando à glória pessoal, em
detrimento dos interesses e bem estar dos outros, chegando
mesmo a desrespeitá-los (v. 26). Para ele o cuidado e a
promoção de si mesmo estão acima de tudo e de todos (Fp
2.3-4).
Quanto às dissensões (dichostasíai), estas são as divisões
e partidos que muitas vezes se insinuam até mesmo dentro
das igrejas (Rm 16.17). Já as facções (hairéseis), referem-se
a conflitos de opinião (1Co 11.19). Da palavra grega que
aparece aqui surgiu o termo “heresia”, usado para descrever
conceitos doutrinários que causam cisma dentro da igreja.
A última palavra pertencente à terceira classe de pecados
alistados por Paulo é traduzida como “inveja” (fthónoi). Seu
significado é, basicamente, o mesmo atribuído a zêlos (Veja
acima).
O quarto e último grupo de obras da carne abrange os
pecados de desregramento que Paulo especifica
mencionando a embriaguez e as orgias (21).
A embriaguez (méthai) é o uso abusivo da bebida
alcoólica. O cristianismo não ensina a abstinência total do
álcool (Jo 2.3-10; 1Tm 5.23)[73], mas reprova a bebedice
(Pv 20.1; Is 5.11-12,22; 1Tm 3.2-3,8; Tt 2.3).
Diferentemente da concepção moderna, a Bíblia se refere à
embriaguez como um pecado que impõe a quem o pratica a
necessidade de arrependimento (Rm 13.13-14) e não como
uma doença pela qual o homem não pode ser
responsabilizado. Assim, Paulo alista a bebedice entre as
obras da carne, mais especificamente entre os pecados de
desregramento, vendo-a como um reflexo da busca egoísta e
irresponsável pelo prazer que, inegavelmente, a bebida traz
tanto ao paladar quanto aos sentimentos (Sl 104.14-15; Pv
31.6-7). O beberrão é reprovado por Deus porque atende
aos impulsos de sua natureza pecaminosa que, na bebida,
busca a todo custo o prazer do corpo e o alívio da mente.
Ademais, invariavelmente, o resultado dessa busca
descontrolada é a escravidão ao vício, a miséria (Pv 21.17)
e a degradação do indivíduo (Is 28.7; Ef 5.18).
A mesma busca desenfreada pelo prazer dos sentidos que
move o escravo da bebida também está presente naqueles
que se entregam às orgias. A palavra usada por Paulo aqui
(kômoi) denota um banquete festivo em que as pessoas se
entregam à glutonaria e a todos os tipos de prazer corporal.
A orgia sexual compõe o quadro que a palavra sugere. No
ambiente pagão do século I, essas festas devassas eram
comuns (1Pe 4.3), fazendo parte, inclusive, dos cultos
devidos aos deuses.[74]
Com a expressão “coisas semelhantes”, Paulo indica que
a lista de obras da carne aqui apresentada não é exaustiva.
Ele também lembra que já havia falado sobre essas coisas
com os galateus numa outra ocasião, provavelmente ao
tempo de sua visita àquela região (At 14.1-23). Naquela
oportunidade, assim como agora, o Apóstolo advertira a
todos que “aqueles que praticam essas coisas não herdarão o
Reino de Deus”. Isso significa que as pessoas que vivem
sob o domínio das obras da carne revelam sua verdadeira
condição espiritual de incrédulos perdidos. Ainda que
muitos se apresentem como cristãos, num discurso que
revela conhecimento das principais doutrinas bíblicas e até
certo envolvimento com a igreja de Deus, o fato é que uma
vida onde o pecado reina jamais experimentou realmente a
redenção que Cristo dá. A verdade é que quem vive no
pecado, mostra que nunca foi liberto do pecado e, ao final,
receberá o galardão do pecado (Ap 22.14-15).
Em contraste com as obras da carne, Paulo apresenta o
“fruto do Espírito” (22). Há quem diga que a palavra fruto
(karpós) aparece no singular porque Paulo queria ensinar
que as virtudes que vêm alistadas a seguir surgem todas
juntas, como uma coisa só, na vida do homem espiritual.
Isso, porém dificilmente estava na mente do Apóstolo,
mesmo porque seria muito improvável que uma lição tão
importante e surpreendente fosse transmitida por ele de
forma meramente implícita. Ademais, a própria experiência
cristã mostra que as virtudes espirituais nem sempre se
desenvolvem simultaneamente na vida do indivíduo.
Assim, Paulo não tinha nenhuma lição oculta no uso do
singular. Ele queria simplesmente afirmar que a obra do
Espírito no crente resulta num produto e que esse produto se
manifesta em virtudes variadas. A lição principal que Paulo
dirige aos galateus com a menção do fruto do Espírito é que
o caráter cristão nasce como resultado da obra sobrenatural
de Deus e não em decorrência de uma rígida disciplina
moral e legalista (Rm 8.4).
A virtude que encabeça a lista de Paulo é o amor (agápe)
termo usado para descrever uma disposição favorável em
relação ao outro, que chega ao ponto do sacrifício, se
preciso for, para beneficiá-lo (2.20; 5.13).[75] O amor é a
forma como a fé verdadeira se expressa (5.6); e os galateus
precisavam crescer nessa virtude, já que o convívio entre
eles era marcado por terríveis discórdias (5.14-15, 26).
Paulo prossegue mencionando a alegria (chará) que é,
basicamente, a doce satisfação que existe em quem tem os
anseios realizados. Desse conceito se depreende que o
invejoso é carente de alegria, posto que se sente frustrado
por não ter o que é do outro. Esse era o caso dos galateus
(5.26).
Na Epístola aos Filipenses, Paulo menciona a alegria
mais do que em qualquer outro lugar. Curiosamente, ele
escreveu essa carta quando estava em prisão domiciliar em
Roma, o que demonstra que a alegria que advém da obra do
Espírito é uma satisfação decorrente da consciência de que
Deus está atuando e que, qualquer que seja o rumo das
coisas, sua bondade boa e santa sempre estará por trás de
tudo (Fp 2.17). A alegria cristã também consiste em ter na
pessoa e obra de Deus a principal fonte de vibração e
entusiasmo (Fp 4.4).
A terceira virtude alistada como fruto do Espírito é a paz
(eiréne), conceito que contrasta com oito obras da carne
mencionadas por Paulo nos vv. 20-21. Paz, considerada em
seu aspecto interior, é serenidade mental (Fp 4.7).
Exteriormente se expressa em harmonia entre as pessoas
(Rm 12.18) e ausência de desordem (1Co 14.33). Deus é um
Deus de paz (Fp 4.9) que nos chamou para vivermos em paz
(1Co 7.15b).
Longanimidade (makrothymía) vem a seguir. Longânimo é
aquele que permanece firme, perseverando mesmo em face
dos mais severos ataques da vida e sendo paciente diante
das provocações dos homens (2Tm 4.2).
O quinto traço do homem que vive no Espírito é a
benignidade (chrestótes), termo usado a princípio para
descrever a pessoa que faz o bem, sendo generosa em seus
atos de benevolência. O termo que vem a seguir, bondade
(agathosyne) é quase um sinônimo de benignidade. Contudo,
é bem provável que o apóstolo concebesse alguma distinção
entre as duas palavras. No afã de manter mais nítida essa
distinção, a NVI traduziu chrestótes como “amabilidade”, ou
seja, a postura de quem trata os outros com docilidade, livre
de qualquer aspereza. De fato, há o consenso de que a
primeira palavra se refere mais à atitude de alguém,
enquanto a segunda denota uma carga maior de ação. Essas
distinções são relevantes, pois pode-se encontrar alguém
amável que não faz o bem; ou ainda alguém que faz o bem,
mas não é amável. Assim, as duas virtudes juntas
descreveriam o homem dócil que também é pródigo em seus
atos de bondade.
A lista de Paulo prossegue e fé (pístis) é a palavra que
vem a seguir. Considerando, porém, que a fé é um elemento
básico nas relações do homem com Deus, constituindo-se no
fator que possibilita o início da vida cristã (Rm 5.1-2; Gl
3.2), dificilmente Paulo, no presente contexto, incluiria a fé
em Deus na lista em pauta. Fé em Deus é raiz, não fruto. Por
isso, parece correto entender o termo usado por Paulo como
“fidelidade”, aliás, uma tradução perfeitamente possível. De
fato, a palavra πίστις é usada para descrever a pessoa
comprometida e leal (Rm 3.3; Tt 2.9-10). Assim, certamente
Paulo quer ensinar que o homem espiritual é alguém
confiável, incapaz de trair a verdade (especialmente a
doutrinária) e fiel nas suas relações com as pessoas. Os
crentes da Galácia não tinham essa virtude (1.6; 4.14-16).
O vocábulo mansidão (praytes) inicia o v. 23. Manso é o
homem brando, aquele que não é dominado pela ira. Não se
trata de alguém que nunca se irrita, mas da pessoa que não
tem o rancor e a agressividade como marcas distintivas.
Cristo, o modelo maior, se apresenta como manso (Mt
11.29), ainda que sejam notórias as suas eventuais
manifestações severas de reprovação (Mt 21.12-13; 23.33).
Andando em mansidão, o crente desestimula a discórdia,
enfraquecendo o império das obras da carne dentro da
igreja.
Pondo fim à sua bela lista, o Apóstolo menciona o
domínio próprio (egkráteia) que é o controle das
inclinações naturais. Literalmente a palavra aponta para o
ato de agarrar ou segurar o eu, o que requer do crente certo
grau de empenho (2Pe 1.5-6). O domínio próprio se constitui
no avesso do modo de vida dos incrédulos. Ensinar essa
virtude produz grandes incômodos nos homens que vivem
dando plena expressão aos seus instintos naturais (At 24.25).
Evocando o zelo das igrejas da Galácia pela Lei, Paulo,
numa branda ironia, recorda que ninguém transgride os
mandamentos ao praticar as virtudes que ele alistou (23 in
fine). Assim, se quisessem viver sem quebrar a Lei, os
galateus tinham que se colocar sob o domínio e influência do
Espírito Santo, crescendo no fruto que esse mesmo Espírito
produz. De fato, em outro lugar, Paulo ensina que o crente
que vive segundo o Espírito tem um procedimento no qual se
percebe o cumprimento substancial das justas exigências da
Lei (Rm 8.4).
O Apóstolo insiste que não é a prática legalista que
santifica o homem. Ele realça que para se livrar do domínio
das inclinações do pecado é preciso, antes de tudo, pertencer
a Cristo (24).[76] Isso não significa que no crente o pecado
está morto, mas sim que, quando passa a pertencer a Cristo,
o homem experimenta a neutralização do poder da carne que,
como um homem crucificado, se vê despojada de sua força.
[77] É claro que aquele que pertence a Cristo ainda comete
pecados (1Jo 1.8-10). Contudo, ao crente são dadas
condições de viver de tal modo que a iniqüidade não ocupe
mais o trono de sua vida (Rm 6.12-14). Essas condições
advêm da habitação do Espírito Santo nele.
Resta ao crente agora ser zeloso e submeter-se ao
controle do Espírito que nele está (v. 16). Já vivemos no
Espírito, ou seja, quando passamos a pertencer a Cristo
fomos inseridos na esfera de atuação do Espírito de Deus.
[78] Isso é fato consumado. Agora, porém, é preciso andar
no Espírito (24), o que não nos advém como num passe de
mágica, mas sim implica o dever de acolher suas orientações
com perseverança e responsabilidade.
Assim, o crente já está no Espírito, devendo agora andar
como ele determina. Numa palavra, o cristão tem o dever de
ajustar sua vida à nova realidade em que agora se encontra.
Tal como o homem que entrou para o casamento deve
conformar sua vida à realidade de alguém casado, assim
também o homem que, pela conversão, entrou para a vida no
Espírito deve andar como alguém controlado por esse
mesmo Espírito.
Na Galácia, essa harmonização entre viver no Espírito e
andar no Espírito ocorreria quando os crentes deixassem de
lado o orgulho, as provocações mútuas e as invejas, o que
reforça o ensino de que para andar no Espírito é necessária
consciente e perseverante sujeição.
Capítulo 6

O EVANGELHO VERDADEIRO E OS DEVERES


CRISTÃOS

A verdadeira prática da vida cristã se manifesta na dócil


disposição de restaurar o irmão que caiu, no cuidado em
face da tentação, na análise honesta de si mesmo, na
submissão ao controle do Espírito e na prática do bem. O
legalismo, ao contrário, busca apenas a aprovação do
mundo, algo que o crente despreza por ter na cruz de Cristo
todo o seu prazer.

CUIDANDO DOS OUTROS E DE SI MESMO


GÁLATAS 6.1-5

1. Irmãos, se alguém for surpreendido em algum


pecado, vocês, que são espirituais, deverão restaurá-lo
com mansidão. Cuide-se, porém, cada um para que
também não seja tentado.
2. Levem os fardos pesados uns dos outros e, assim,
cumpram a lei de Cristo.
3. Se alguém se considera alguma coisa, não sendo
nada, engana-se a si mesmo.
4. Cada um examine os próprios atos, e então poderá
orgulhar-se de si mesmo, sem se comparar com
ninguém,
5. pois cada um deverá levar a própria carga.

A partir da análise do Fruto do Espírito em contraste com


as obras da carne descobre-se que a vida cristã tem uma
dimensão marcantemente relacional. O homem espiritual
apresenta marcas de caráter que se manifestam
especialmente no trato com as pessoas ao seu redor. Assim,
nas orientações constantes do início do capítulo 6, Paulo
ainda mantém o foco nesse aspecto da vida de quem anda no
Espírito, apontando agora a forma correta de lidar com o
irmão que cai no erro.
No versículo 1 Paulo se dirige aos “irmãos”, ou seja,
àqueles que partilhavam com ele da genuína fé cristã. Como
se sabe, nem todos nas igrejas da Galácia podiam ser
classificados desse modo (5.4). Por isso, o Apóstolo aponta
com maior clareza a quem se dirigem as orientações que está
prestes a transmitir.
O parágrafo começa com uma hipótese: “se alguém for
surpreendido em algum pecado” (NVI). É provável que
essas palavras vislumbrem a possibilidade de, na dinâmica
dos relacionamentos entre os crentes, acontecer de um irmão
flagrar outro praticando uma das “obras da carne”. De fato, o
verbo que Paulo usa aqui (prolambáno) traduzido nas
bíblias em português como “surpreender”, aponta fortemente
para o sentido de pegar de surpresa. Há também, contudo, a
possibilidade da hipótese referir-se a alguém que foi pego
de surpresa pelo próprio pecado, caindo repentinamente.[79]
Seja qual for o caso que Paulo tinha em mente, o fato é
que a questão que levanta se refere a alguém que cometeu
uma falta. A palavra que Paulo usa aqui para se referir ao
pecado (paráptoma) significa “passo em falso”. Denota a
situação de quem, numa caminhada, desliza e cai para o
lado. Desse modo, tudo indica que Paulo não está tratando
aqui do pecador contumaz ou do homem obstinado na prática
do mal. Antes, tem os olhos voltados para o crente sincero
que, ao longo da jornada, tropeça em virtude do cansaço, da
sua própria fraqueza ou do peso das circunstâncias.
Diante de um irmão nessas condições, os que são
“espirituais” (pneumatikoí), ou seja, os que vivem no
Espírito e andam no Espírito (5.25), mantendo-se debaixo de
sua influência e controle[80], têm o dever de corrigi-lo
(katartízo), isto é, atuar como restauradores de sua vida
prejudicada por conta da má conduta. De fato, corrigir aqui
tem o sentido de reparar algo quebrado[81], o que mostra
que um dos deveres mais nobres do crente maduro é
recuperar um irmão que, ao dar um passo em falso, caiu e
sofreu graves danos. Evocando ainda as virtudes do Fruto do
Espírito, Paulo ensina que esse trabalho de recuperação
deve ser feito com espírito de brandura, ou seja, com a
mansidão (praytes) que mencionou em 5.23.
Os crentes “espirituais”, ou seja, os responsáveis pela
recuperação de um irmão que pecou, não são pessoas livres
do perigo da queda. Por isso, Paulo se dirige, anda no v.1, a
esses irmãos, orientando-os no sentido de evitar qualquer
tentação que os leve à prática do mal. Segundo Paulo, o
crente deve vigiar (skopéo), ficar atento, observar
cuidadosamente as circunstâncias ao seu redor e, dessa
forma, detectar os momentos, os lugares e as áreas em que a
tentação pode surgir para, então, evitá-la. Aliás, muitas
vidas não teriam se arruinado se tivessem sido mais
cautelosas, detectando as fontes de tentação e fugindo delas.
Assim, os crentes, mesmo os mais maduros (aliás,
lembremos que Paulo se dirige exatamente a esses aqui), não
devem se expor ao perigo. A vigilância é o preço que se
paga pela pureza.
No v. 2 Paulo ensina que na igreja as pessoas devem levar
as cargas umas das outras. Carga (báros) sugere um peso
excessivo, difícil de carregar e capaz de prostrar quem está
sob ele. O contexto aqui aponta para os fardos que um irmão
carrega em decorrência de sua fraqueza moral e do pecado
em que caiu. Os galateus, preocupados em observar aspectos
exteriores da Lei Mosaica, deixavam de lado o cuidado
fraternal (5.15,26). Paulo, então, oferece a eles que tanto
valorizam a Lei, uma outra lei: a Lei de Cristo. De fato, o
Senhor enunciou aos seus discípulos um novo mandamento.
Ele disse: “Um novo mandamento lhes dou: Amem-se uns
aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos
outros.” (Jo 13.34. Veja-se tb. Jo 15.12,17). Para Paulo o
cumprimento dessa ordem transcende o mero sentimento de
simpatia e afeto. Cumpri-la implica fazer algo. Por isso, o
Apóstolo mostra aqui que uma forma de obedecer ao novo
mandamento de Cristo é tomar sobre si uma parte do peso do
irmão que sofre em virtude da falta que cometeu.
Levar essas cargas, porém, requer a atitude humilde de um
servo (5.13) e, infelizmente, muitos crentes pensam de si
mais do que convém, de modo que, movidos por essa ilusão,
negam-se a se humilhar na prática de servir um irmão fraco.
Antes, mostram-se orgulhosos, sentem-se superiores e se
tornam rígidos e cruéis no trato com quem caiu. É a esse
grupo de crentes que Paulo se refere no v. 3, dizendo que o
indivíduo que tem uma visão muito elevada de si mesmo
dentro da igreja, está se enganando, uma vez que não é nada,
ou seja, não está acima de ninguém, posto que todos estamos
sujeitos à queda..
Os falsos mestres tinham a atitude soberba descrita acima,
tanto que instigavam os galateus a se circuncidarem
justamente para que fossem aplaudidos pelo mundo e se
gloriassem no seu sucesso em conquistar prosélitos (6.12-
13). Pessoas com essa postura, jamais se colocam no mesmo
nível do irmão que tropeçou, achando-se maiores do que ele
e pensando pertencer a uma elite espiritual dentro da igreja.
Tratam o que caiu com desprezo e se gloriam por não terem
sido fracos como ele. Ademais, de sua parte não fazem nada
para recuperá-lo, notando-o apenas com o propósito de se
gloriar por não ter agido de forma semelhante. Paulo diz a
essas pessoas no v. 4 que se alguém quiser gloriar-se deve
fazê-lo ao dar provas de seu próprio empenho na vida cristã,
o que, aliás, abrange socorrer os irmãos feridos.
O v. 5 parece entrar em choque com o v. 2. Porém, a
contradição é apenas aparente. No v. 2 Paulo fala sobre o
dever de ajudar o irmão que está curvado sob o peso de
dificuldades excessivas, as quais lhe sobrevieram por causa
de um desvio moral. Já no v. 5 ele lembra aqueles que se
apresentam como superiores e nada fazem que cada um tem
seu fardo, ou seja, seu conjunto de fraquezas pelas quais é
pessoalmente responsável. Em vez de observar as dos outros
e se gloriar nelas, o crente deve cuidar das suas, posto que é
por estas e não por aquelas que há de responder um dia
diante de Deus. Basicamente, portanto, as cargas
mencionadas no v. 2 são os problemas de um irmão
decorrentes do seu tropeço, enquanto que o fardo
mencionado no v. 5 são as fraquezas que cada um tem em sua
vida e com as quais tem o dever intransferível de lutar.
A COLHEITA FUTURA
GÁLATAS 6.6-10

6. O que está sendo instruído na palavra partilhe todas


as coisas boas com aquele que o instrui.
7. Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. Pois
o que o homem semear, isso também colherá.
8. Quem semeia para a sua carne, da carne colherá
destruição; mas quem semeia para o Espírito, do
Espírito colherá a vida eterna.
9. E não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo
próprio colheremos, se não desanimarmos.
10. Portanto, enquanto temos oportunidade, façamos o
bem a todos, especialmente aos da família da fé.

A benignidade dos crentes não deve ser direcionada


unicamente àqueles que são vítimas quebrantadas do seu
próprio pecado. Paulo sabia que a religiosidade mecânica e
exterior do legalismo tinha esfriado não só o afeto dos
crentes nas suas relações entre si, mas também o amor pelo
próprio Apóstolo, seu verdadeiro instrutor espiritual (4.12-
16). Para piorar a situação, os falsos mestres infiltrados
naquelas igrejas trabalhavam intensamente para colocar os
galateus contra Paulo (4.17). Incitado por esses fatos tão
preocupantes, no v. 6 o Apóstolo exorta os crentes acerca do
dever da generosa benevolência em prol dos verdadeiros
mestres da Palavra.
O texto ensina que os que são ensinados na Palavra devem
compartilhar todas as coisas boas com aqueles que os
instruem. Aquilo que é bom a que Paulo se refere aqui tem
um sentido tanto moral como material. Ele quer, portanto,
que os galateus aprendam a oferecer aos mestres da Palavra
sua amizade, hospitalidade e simpatia, bem como recursos
para o sustento físico que possibilitem um envolvimento
maior com o ensino da igreja (1Co 9.7-14; 1Tm 5.17-18).
[82]
Toda a exortação de Paulo referente ao dever de praticar
o bem tanto em face dos irmãos comuns como dos ministros
da Palavra deve ser acolhida porque os atos dos homens se
assemelham a uma semeadura (7). A tendência das pessoas é
acreditar que suas ações são estéreis, que o que fazem não é
capaz de gerar nada mais tarde. Paulo sabia que o coração
humano facilmente se convence de que as coisas que o
homem realiza não terão implicações futuras. Por isso diz:
“Não se deixem enganar!”
De fato, até mesmo a experiência humana mostra em certa
medida que nossos atos são como sementes boas ou más,
sendo tolice pensar que, ao lançá-los ao solo, nada poderão
produzir. Cair nesse engano é zombar de Deus. Isso porque
foi o próprio Senhor quem estabeleceu uma lei moral no
universo, de acordo com a qual a conduta ética é capaz de
gerar resultados bons ou maus para o próprio ser humano
que a adota. Essa “lei” mostra o quanto Deus é justo e o
quanto se inclina a recompensar o bem e punir o erro.[83]
Assim, quando alguém despreza essa verdade, está com
isso dizendo que o modo como Deus diz que administra a
história, na realidade não funciona, ou que essa
administração nem mesmo existe, sendo perfeitamente
possível praticar o mal e viver para sempre desfrutando de
paz e segurança. É essa atitude que Paulo descreve como
zombar de Deus, enfatizando em seguida que o homem
colherá sim o que, ao longo de sua vida, plantou.
Paulo prossegue apontando o perigo que existe para quem
“semeia para a sua carne” (8). Evidentemente, semear para a
carne consiste em cultivar na vida os pecados próprios da
natureza pecaminosa, os quais foram alistados em 5.19-21.
Aqueles que, no dia-a-dia, “plantam” os atos que suas
próprias paixões estimulam, são os que semeiam para a
carne. O Apóstolo adverte no sentido de que a corrupção
será o fruto colhido por essas pessoas. A palavra que usa
aqui (fthorá) significa ruína e destruição e é usada no Novo
Testamento tanto para se referir à vida de decadência que
caminha para a morte em meio à desolação temporal (Rm
8.20-21; 2Pe 2.12), como para descrever a degradação
moral (2Pe 1.4; 2.19). Paulo está dizendo, portanto, que
quem cultiva as obras da carne arruinará sua vida e entrará
em acelerado declínio moral.
Por outro lado, “quem semeia para o Espírito”, ou seja,
quem cultiva as virtudes mencionadas em 5.22-23, as quais
são reconhecidas como obras do Espírito Santo na vida dos
salvos, desse mesmo Espírito “colherá a vida eterna”. Uma
interpretação apressada diria que, à luz desse texto, a
salvação é mediante o cultivo do fruto do Espírito e não
unicamente pela fé. Esse entendimento, porém, iria de
encontro ao ensino principal de Paulo na própria Epístola
aos Gálatas (3.22). Na verdade, é bem possível que o
Apóstolo esteja falando aqui sobre o desfrute presente das
alegrias da eternidade. Se for esse o caso, o texto diz que
quem plantar atos de retidão e bondade colherá, desde já, as
bênçãos da vida feliz que aguarda o crente no céu. Que a
vida eterna pode ser experimentada em certa medida mesmo
agora, depreende-se também de João 4.14; 5.24; 17.3; e
1Timóteo 6.12.
Uma outra possibilidade é considerar o texto em análise
sob a luz de Romanos 6.22, que diz: “Mas agora que vocês
foram libertados do pecado e se tornaram escravos de Deus,
o fruto que colhem leva à santidade, e o seu fim é a vida
eterna.” De acordo com esse texto, a vida santa chegará à
eterna felicidade. Porém, a vida santa não é a causa de se
chegar lá. A causa é a libertação do pecado que, como se
sabe, é pela fé (Rm 5.1). Essa libertação do pecado pela fé,
produzirá santidade e o fim de tudo será o céu. Talvez Paulo
tivesse isso em mente ao escrever o v. 8. Seja como for, não
resta dúvida de que o homem que se preocupa em produzir
em seu dia-a-dia os traços do genuíno caráter cristão
experimentará desde já um vislumbre da alegria celeste e,
sendo esses traços uma prova de que é redimido pela fé,
entrará afinal para o descanso eterno na cidade de Deus.
A certeza de que nossos atos produzirão resultados bons
ou maus para nós mesmos deve estimular o crente a não se
cansar de fazer o bem (9). De fato, a prática da virtude pode
produzir fadiga e desânimo, especialmente quando há
ingratidão, falta de reconhecimento, oposição e poucos
resultados. Paulo, contudo, recorda seus leitores de que a
colheita é inevitável, ainda que não saibamos ao certo o seu
tempo. Ele afirma ainda, com o propósito de encorajar seus
leitores, que ceifaremos se não desfalecermos.
É inegável que a ceifa a que Paulo se refere aqui tem uma
conotação escatológica. Os crentes fatalmente colherão os
resultados dos seus atos no dia futuro, quando estiverem
diante de Deus, e só receberão coisas boas se não
desistirem. Isso mostra que, ainda que a vida eterna seja
dada pela fé, o desfrute dos galardões de Deus depende
daquilo que o crente faz por meio do seu corpo (2Co 5.10).
É por isso que há no v.10 uma nota de urgência: “enquanto
temos oportunidade”. Paulo sabia que o tempo de plantar é
hoje. Diante do tribunal divino não teremos mais como
semear. Lá somente ceifaremos, desde que, neste mundo,
perseveremos na prática do bem.
O v. 10 termina enfatizando que todos devem ser alvo dos
gestos de bondade dos crentes, mas de forma especial os
irmãos na fé. De fato, priorizar os irmãos no socorro dos
necessitados e em outros gestos de amor mostra ao mundo a
nossa unidade e faz com que sejamos conhecidos como
discípulos de Jesus (Jo 13.35).

O QUE REALMENTE IMPORTA


GÁLATAS 6.11-18

11. Vejam com que letras grandes estou lhes


escrevendo de próprio punho!
12. Os que desejam causar boa impressão
exteriormente, tentando obrigá-los a se circuncidarem,
agem desse modo apenas para não serem perseguidos
por causa da cruz de Cristo.
13. Nem mesmo os que são circuncidados cumprem a
Lei; querem, no entanto, que vocês sejam
circuncidados a fim de se gloriarem no corpo de vocês.
14. Quanto a mim, que eu jamais me glorie, a não ser
na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, por meio da qual
o mundo foi crucificado para mim, e eu para o mundo.
15. De nada vale ser circuncidado ou não. O que
importa é ser uma nova criação.
16. Paz e misericórdia estejam sobre todos os que
andam conforme essa regra, e também sobre o Israel
de Deus.
17. Sem mais, que ninguém me perturbe, pois trago em
meu corpo as marcas de Jesus.
18. Irmãos, que a graça de nosso Senhor Jesus Cristo
seja com o espírito de vocês. Amém.

A importância de tudo o que Paulo diz às igrejas da


Galácia se reflete no tamanho das letras que escreve[84] e
no fato de compor a carta de próprio punho, isto é, sem o
auxílio de um secretário que poderia, conscientemente ou
não, alterar em um grau ou outro o que fosse ditado (11). Ele
considera tão sério o problema dos galateus que não quer
correr o risco de transmitir com pouca precisão o que tem
em mente. Por isso, faz uso de uma caligrafia clara e evita
intermediários.
Não é, porém, somente na forma que Paulo compõe sua
carta que ele mostra quão preocupado está com os crentes da
Galácia. Ele também revela seu cuidado chamando a atenção
de seus leitores para o fato de que os falsos mestres eram
pessoas interesseiras, que procuravam obter a aprovação
dos outros através da ostentação de sinais exteriores, mais
especificamente a circuncisão.[85] A real intenção deles ao
induzir os gentios da Galácia a se circuncidarem era receber
o aplauso dos judeus evitando, assim, a perseguição (12).
Sabe-se que ao tempo do surgimento do Cristianismo, os
judeus foram seus primeiros perseguidores. Uma das razões
disso era a pregação liberal dos apóstolos que insistiam em
afirmar que a justificação não depende da observância dos
preceitos mosaicos, mas sim da fé no Cristo crucificado (At
13.38-39). Ora, os mestres judaizantes que atuavam entre os
gálatas não estavam dispostos a sofrer a oposição dos seus
compatriotas que se escandalizavam com a pregação da cruz
(1Co 1.23; Gl 5.11). Estavam, isto sim, interessados em
agradá-los. Segundo Paulo, esses eram os reais motivos
pelos quais defendiam tanto a circuncisão. Na verdade eles
não eram zelosos da Lei, mas sim da sua própria
comodidade.
A maior prova disso era que eles próprios não guardavam
a Lei (13). Aliás, nenhum legalista, nem mesmo o mais
sincero, jamais conseguiu guardá-la (At 15.10). O discurso
dos mestres da Galácia era apenas uma tentativa de obter
prosélitos entre os gentios, circuncidando-os e recebendo
depois o louvor dos israelitas, um louvor decorrente do fato
de terem induzido gentios a se submeterem a práticas
judaicas.
Paulo, por sua vez, tinha essas intenções mui longe de sua
mente (14). Ele não buscava satisfação e alegria na
aprovação dos homens (1.10). Era na cruz de Cristo que
tinha a base da sua exaltação e da sua exultação (Fp 3.3),
pois na cruz há provisão para que o homem seja justificado,
já que nela Cristo se fez maldição em nosso lugar (3.13).
Ademais, graças aos benefícios oriundos da obra de Cristo
na cruz, um rompimento ocorreu. Paulo e o mundo estavam
crucificados um para o outro. De fato, a transformação que
advém da fé em Cristo incluíra mudanças no modo de Paulo
considerar a realidade ao seu redor e relacionar-se com ela
(2.20-21; 5.24). Agora o Apóstolo via o mundo como algo
desprezível e repugnante. O mundo, por sua vez, via Paulo
da mesma forma.
Sendo alguém que pouco se importava com o aplauso do
mundo em geral e dos seus compatriotas em particular, Paulo
não impunha a necessidade da circuncisão aos convertidos
do seu ministério. Ademais, havia o fato de que a
circuncisão não tem qualquer relevância dentro da aliança
do evangelho. Na mensagem dada pelo Espírito, o que
importa é fazer parte da nova criação de Deus (15).
As diferenças entre o Antigo e o Novo Pacto, bem como o
fato da nova criação em Cristo, são mais amplamente
tratados por Paulo em 2Coríntios 3 e 4, onde ele estabelece
um forte contraste entre o Evangelho, (também chamado de
“nova aliança” [2Co 3.6], “ministério do Espírito” [2Co 3.8]
e “ministério da justiça” [2Co 3.9]) e a Lei Mosaica
(também chamada de “letra” [2Co 3.6], “ministério da
morte” [2Co 3.7], “ministério da condenação” [2Co 3.9] e
“antiga aliança” [2Co 3.14]). Segundo Paulo, o pacto
mosaico, outrora glorioso, “já não resplandece” diante da
glória do Novo Pacto (2Co 3.10). Contudo, o brilho do
evangelho não pode ser percebido por todos porque um véu
foi posto no coração dos judeus (2Co 3.14-16) e Satanás
cega os homens em geral (2Co 4.3-4). Para que essa
condição espiritual seja alterada é preciso um ato criador de
Deus. Assim, em 2Coríntios 4.6, Paulo ensina que da mesma
forma como Deus, por sua palavra, fez brilhar a luz ao tempo
da criação do universo, assim também, ao criar agora um
novo homem, ele faz com que sua luz brilhe nas trevas dos
corações humanos, capacitando as pessoas a ver a glória de
Deus que está em Cristo. De fato, tanto para criar como para
salvar, Deus diz “haja luz!” É por causa desse paralelo que o
Apóstolo, em Gálatas 6.15, chama o crente de nova criação
(Veja-se tb. 2Co 5.17).
Dentro da Nova aliança, portanto, a circuncisão é
absolutamente irrelevante (Rm 2.28-29; 1Co 7.19; Gl 5.6).
Só o livramento das trevas, com o conseqüente surgimento
de um novo homem é que importa. Paulo, aliás, expressa o
desejo de que a paz e a misericórdia de Deus estejam sobre
todos os que andarem conforme essa “regra” (16). A
palavra usada aqui (kanón) tem o sentido de “padrão” ou de
“limite”. Desse modo, o Apóstolo deseja paz e misericórdia
às pessoas que adotam como princípio ou padrão de conduta
a verdade de que tudo o que importa é ser nova criação,
gloriando-se nisso e não em rituais exteriores. Refere-se,
assim, àqueles que encontram motivo de exaltação e base
para o comportamento dentro dos limites da verdade de que
são nova criação, e não buscam glórias além dessa fronteira
(Fp 3.3), como faziam os falsos mestres da Galácia.
O desejo de Paulo de que Deus abençoe os homens com
paz e misericórdia não se estende apenas aos que
conheceram a realidade da nova criação. Ele pede as
mesmas bênçãos para todo o Israel de Deus (16 in fine). Se
a igreja precisava de paz e de misericórdia, considerando
suas perturbações internas (5.10,15) e os perigos externos
(6.12), Israel também carecia dessas bênçãos. Paulo via os
judeus em geral como o povo de Deus (Rm 9.3-5; 11.28), um
povo para o qual Deus tem reservado uma herança (Rm
11.25-27; Ef 3.6). Por isso, o fato de rejeitar a circuncisão
como requisito para a justificação não significava desprezo
pela nação israelita. De fato, o apóstolo estava longe de
menosprezar seu próprio povo. Antes, sofria em face da sua
incredulidade (Rm 9.1-3) e orava continuamente, desejando
que ele conhecesse a paz e a misericórdia de Deus que
podem ser provadas pela fé em Cristo, o Messias já vindo.
Concluindo, Paulo expressa o desejo de que deixem de
perturbá-lo (17). O Apóstolo estava sendo incomodado com
questionamentos referentes à sua autoridade apostólica (1.1;
2.8-10), com acusações de mudar sua mensagem de acordo
com as circunstâncias (1.10; 5.11) e com denúncias de
anunciar um evangelho liberal que encorajava a vida
desregrada (5.13,16) e tirava dos adoradores de Deus as
suas obrigações ritualistas, em especial a circuncisão (5.2).
Uma vez que os mestres legalistas da Galácia tanto prezavam
a marca corporal da circuncisão e só deixavam em paz quem
a recebia, Paulo afirma ter marcas no corpo muito
superiores, de modo que deveriam parar de molestá-lo. Ele
tinha as marcas de Cristo: cicatrizes (stígma) adquiridas no
trabalho missionário e que os galateus conheciam muito bem
(At 14.19; 2Tm 3.11). Paulo as chamava de “marcas de
Jesus” porque entendia que o sofrimento dos servos do
Senhor em prol do seu trabalho é uma espécie de
complemento das torturas do próprio Senhor, dada a união
que há entre Cristo e seu povo (Rm 8.17; 2Co 1.5; Fp 3.10;
Cl 1.24).
Ele encerra a epístola suplicando que os galateus
experimentem a graça de Cristo em seu espírito (18). De
fato, era nessa esfera que a graça deveria atuar a fim de
livrar os crentes da mentira, das discórdias e das inclinações
carnais que reinavam entre eles. O fato de chamá-los de
irmãos realça que se sente fraternalmente unido a eles e que
tem consciência de que escreve a pessoas que pertencem à
família da fé. Sem dúvida, com essas breves palavras de
docilidade e simpatia, espera criar nos galateus uma
disposição favorável ao acolhimento das verdades
consubstanciadas nessa magnífica carta.

APÊNDICE

O CURSO POSTERIOR DO LEGALISMO


JUDAICO-CRISTÃO
Se 48 A.D. for a data aceita para a composição da Carta
aos Gálatas, então, ao escrevê-la, a luta de Paulo contra o
legalismo estava apenas começando. De fato, o capítulo 15
de Atos narra como, naquele mesmo ano, reuniu-se um
concílio em Jerusalém para tratar exatamente da relação dos
crentes gentios com a Lei Mosaica, mais especificamente
com a circuncisão. A causa direta da convocação do concílio
foi a visita desautorizada de alguns judeus convertidos de
Jerusalém à igreja de Antioquia da Síria. Eles passaram a
ensinar ali que se os gentios que receberam o evangelho não
recebessem também a circuncisão, não poderiam ser salvos
(At 15.1). Paulo e Barnabé se opuseram a eles e, não sendo
possível resolver a questão, foram até Jerusalém para
discutir o assunto com os apóstolos e presbíteros (At 15.2).
Em meio às manifestações de um forte partido legalista
presente na própria igreja de Jerusalém, a liderança se
reuniu para examinar a questão (At 15.4-6). Ao longo dos
debates foi decisiva a participação de Pedro que narrou sua
experiência como o apóstolo que Deus usou para abrir a
porta do evangelho aos gentios sem obrigá-los a se submeter
a nenhum fardo legal (At 15.7-11).
Os relatos das maravilhas que Deus tinha feito entre os
gentios ao longo da Primeira Viagem Missionária foram
expostos por Paulo e Barnabé à igreja atenta (At 15.12).
Quando terminaram de falar, Tiago, irmão do Senhor,
destacado líder da igreja em Jerusalém, manifestou seu
parecer contrário à visão legalista. Ele sugeriu que uma carta
fosse escrita aos crentes gentios de Antioquia livrando-os de
qualquer obrigação com a Lei Mosaica e orientando-os a
tão-somente evitar certas práticas que, mesmo sendo de
segunda importância, poderiam ferir os escrúpulos dos
judeus não crentes, impedindo-os de receber a genuína fé (At
15.13-21).
O parecer de Tiago foi acolhido por todos (At 15.22). A
carta foi escrita e endereçada aos irmãos de Antioquia, Síria
e Cilícia (At 15.23-29). Uma delegação foi nomeada para
fazê-la chegar às mãos dos crentes gentios que, com alegria a
receberam (At 15.30-31). O legalismo judaico-cristão
recebera seu primeiro golpe.
As decisões do concílio, porém, não puseram fim
definitivo ao ensino de que a observância da Lei Mosaica é
fator essencial à salvação. Quando escreveu 2 Coríntios, em
57 AD, Paulo ainda demonstrava sua preocupação em
afirmar que os crentes estavam livres da Antiga Aliança
(2Co 3.6-11), apesar do legalismo não figurar entre os
terríveis problemas da igreja coríntia. Também em sua Carta
aos Romanos, datada de 58 AD e, dentre todas, a de maior
conteúdo teológico, o Apóstolo se viu obrigado a corrigir
distorções relativas a essa matéria que, à época, ainda eram
correntes e afirmar a desnecessidade da circuncisão e da
guarda da Lei para a justificação do homem perdido (Rm
4.9-15; 7.1-6).
Ao tempo que esteve em prisão domiciliar em Roma (At
28.16), Paulo escreveu, em cerca de 61 AD, as famosas
“Epístolas da Prisão” (Efésios, Filipenses, Colossenses e
Filemom). Na carta à igreja de Éfeso, o Apóstolo toca
apenas superficialmente na questão do livramento da Lei (Ef
2.14-15). Já na Epístola aos Filipenses, Paulo dirige severos
ataques contra o ainda atuante grupo dos judaizantes,
chamando seus partidários de “cães”, “maus obreiros” e
“falsa circuncisão” (Fp 3.2-3) e passando, em seguida, a
dizer que considerava toda a sua trajetória dentro do
judaísmo como repugnante refugo já que a justiça não
procede da Lei (Fp 3.4-9).
Na Carta aos Colossenses, Paulo combate uma forma
embrionária de gnosticismo que reunia elementos da Lei
Mosaica (Cl 2.11,16; 3.11) e outros fatores oriundos da
filosofia grega e do paganismo asceta (Cl 2.8, 18, 20-23). A
resposta do Apóstolo inclui a afirmação de que Cristo
cancelou as ordenanças que nos eram prejudiciais ao morrer
na cruz do Calvário (2.14).
O legalismo judaico-cristão ainda estava vivo na fase
final do ministério de Paulo. Ele o combate nas “Epistolas
Pastorais”, escritas entre 63 e 66 AD. Ensinos distorcidos
acerca da Lei e práticas legalistas que proibiam o casamento
e certos tipos de alimento preocupavam Paulo quando
escreveu sua primeira carta a Timóteo, cujo ministério então
estava centralizado em Éfeso (1Tm 1.5-11; 4.1-5). Tito, por
sua vez, ao longo de seu trabalho em Creta foi relembrado
por Paulo que a salvação independe do esforço humano (Tt
3.5) e recebeu instruções no tocante ao modo como deveria
agir em face de debates inúteis sobre a Lei (Tt 3.9). É
possível que em sua última carta (2Timóteo), escrita em 66
AD, pouco antes do seu martírio, Paulo se refira a questões
acerca da Lei em 2.14, 23.
Nos últimos anos da década de 60 foi escrita a Epístola
aos Hebreus, de autor desconhecido. Tendo que lidar com o
perigo da apostasia que cercava os crentes hebreus que se
viam diante das aparentes grandezas do judaísmo, o escritor
realçou a transitoriedade da Lei Mosaica (Hb 7.11-12,19,28;
8.6-7,13; 10.9, etc.), o que indica que a ameaça da sujeição
aos preceitos judaicos, mesmo em suas expressões
cerimoniais, ainda estava viva dentro da igreja pouco antes
da destruição do templo de Jerusalém, em 70 AD.
Parte da força do legalismo era decorrente da instintiva
supremacia da igreja de Jerusalém sobre as demais. Mestres
judaizantes procedentes da Judéia eram recebidos com
respeito e submissão pelos crentes gentios de todas as
partes, uma vez que pertenciam à singular igreja dos
apóstolos. Isso facilitava a disseminação de suas idéias, pois
era natural que se apresentassem e fossem vistos como
detentores de autoridade, dado o status notável da
comunidade eclesiástica a que pertenciam.
Porém, com o martírio de Tiago, em 62 AD, a igreja de
Jerusalém começou a perder sua hegemonia. O grande líder
que era irmão de Jesus foi apedrejado, sendo seu cargo
ocupado por Simeão, um outro irmão do Senhor que logo
também sofreu o martírio. Os chefes da igreja decidiram
então transportá-la para Pela, uma cidade além dos Jordão,
onde a segurança certamente seria maior. Outra causa da fuga
foi a nítida oposição dos romanos ao crescente sentimento
nacionalista judaico. De fato, os romanos perceberam os
sinais de uma revolta em Jerusalém e, evidentemente, o
movimento cristão, dirigido pelos parentes de um
descendente de Davi que se dizia rei preocupava muito as
autoridades e fazia da igreja um alvo especial de opressão.
Por isso, quando a rebelião judaica estava prestes a eclodir,
os cristãos que, aliás, já tinham sido prevenidos pelo Senhor
acerca desses fatos (Mt 23.37-39; Lc 21.20-24), saíram de
Jerusalém. Pouco tempo depois, no ano 70 AD, tendo
deflagrado a revolta, o general Tito a sufocou, destruindo a
cidade, ateando fogo ao Templo e matando cerca de um
milhão de judeus. Graças à fuga para Pela, provavelmente
nenhum cristão pereceu no massacre.
Esses fatos redundaram num notável recrudescimento do
movimento judaizante cristão e do legalismo que o
caracterizava. A própria destruição do Templo anunciava
que a Antiga Aliança perdera a possibilidade de ser vivida,
considerando que muitas prescrições da Lei deviam ser
realizadas dentro do santuário erguido em Jerusalém. Com a
queda do judaísmo, os escritos de Paulo que ensinavam a
independência do cristão em relação aos preceitos mosaicos
ganharam força e uma crescente “paulinização” da igreja
começou a ocorrer, enquanto as formas nitidamente judaicas
de cristianismo caiam no esquecimento. Ademais, a igreja
judaica refugiada em Pela jamais recuperou o prestígio dos
tempos de Pedro e de Tiago. Antes, entrou na obscuridade,
isolou-se das demais igrejas e, em contato com diferentes
seitas também de origem judaica, desenvolveu costumes e
doutrinas que nunca foram acolhidos pelo cristianismo
oficial, desaparecendo, finalmente, poucos séculos mais
tarde.
Um dos grupos de judeus cristãos que perseverou na
prática dos costumes de seus ancestrais, mesmo depois da
queda de Jerusalém, ficou conhecido como “nazarenos”,
talvez porque esse fosse o nome dado pelos judeus a todos
os seguidores de Jesus de Nazaré. Esse grupo adotava a
observância da Lei Mosaica mesmo em seu aspecto ritual e
também cria em Jesus como o Messias divino. Eles usavam
o Evangelho de Mateus escrito em hebraico, não eram
críticos do Apóstolo Paulo e não condenavam os crentes
gentios por não observarem a Lei. É um exagero dizer que
fossem hereges. Na verdade, era um grupo de cristãos
separatistas de pequena importância.
Bem diferente dos nazarenos eram os ebionitas. Estes
eram muito mais numerosos e foram os verdadeiros
sucessores dos falsos mestres combatidos por Paulo na
Epístola aos Gálatas. Seu nome vem da palavra hebraica
ebion, que significa “pobre”, talvez uma designação a
princípio dada maldosamente a todos os cristãos que, como
se sabe, eram em sua maioria pessoas de baixa condição
social. Há indícios de que os ebionitas surgiram entre os
cristãos que fugiram para Pela ao tempo da invasão de
Jerusalém. Suas marcas características eram a redução do
cristianismo ao nível do judaísmo, a defesa da validade
perpétua e universal da Lei Mosaica, e a intensa antipatia
nutrida contra o Apóstolo Paulo. Ainda que o ebionismo
apresentasse certas variações, seu ramo principal cria que
Jesus era o Messias prometido, mas rejeitava sua divindade
e nascimento virginal. Para eles a circuncisão e a
observância da totalidade da Lei eram indispensáveis para a
salvação de todos os homens. O personagem que mais
odiavam era Paulo que, segundo seu entender, tinha nascido
no paganismo, abraçara o judaísmo por razões escusas e
depois se tornara apóstata e herege, devendo todas as suas
epístolas ser rejeitadas.
Os ebionitas se espalharam pela Palestina e arredores.
Chegaram a Chipre, Ásia Menor e Roma. Em sua maioria
obviamente eram judeus, mas era possível encontrar também
gentios entre eles. Essa seita perdurou até o século IV, não
havendo mais indícios dela no século seguinte.
O fim do ebionismo não fez com que o legalismo cristão
deixasse definitivamente de existir. Sob diferentes formas, a
exaltação da Lei Mosaica sempre se insinuou dentro do
cristianismo ao longo da história. Seja por meio de seitas
como o Adventismo do Sétimo Dia ou através de modelos
teológicos protestantes que defendem a absoluta
irrevogabilidade da Lei, o espírito do legalismo combatido
por Paulo permanece vivo. O velho erro infelizmente
permanece, impondo sobre os homens fardos desnecessários,
impossíveis de serem carregados (At 15.10). Ele ainda grita
suas ordens, negligenciando o precioso ensino de que a
salvação é pela graça somente (Gl 2.16) e de que a Lei se
cumpre não naqueles que vivem sob o seu jugo, mas sim
naqueles que, tendo recebido a Cristo, vivem agora debaixo
da influência santificadora do Espírito Santo (Rm 7.6; 8.4;
2Co 3.3; Gl 5.16-18). Por isso, cabe à igreja ainda hoje
defender a mensagem cristã contra os ataques de dentro e de
fora que põem em risco a compreensão da genuína dinâmica
da salvação. Cabe a ela ensinar que essa salvação não
somente vem pela fé, mas também por meio dela se
desenvolve, não como o resultado da sujeição a preceitos
legais, mas como fruto do Espírito que habita em todo o que
crê.

Soli Deo Gloria

BREVE BIBLIOGRAFIA SUGERIDA


Os títulos abaixo sugeridos auxiliarão o leitor a se
aprofundar mais nas questões introdutórias, históricas e
hermenêuticas tratadas neste livro.
AGOSTINHO DE HIPONA. A cidade de Deus. 2 Volumes.
Petrópolis: Vozes, 1990
CAIRNS, Earle E. O cristianismo através dos séculos . São
Paulo: Vida Nova, 1984.
CALVINO, João. Gálatas. São Paulo: Parácletos, 1998.
CARSON. D. A., MOO, Douglas, MORRIS Leon.
Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova,
1997.
FRANGEOTTI, Roque. Padres Apostólicos. Coleção
Patrística. São Paulo: Paulus, 1985.
GUTHRIE, Donald. Gálatas: introdução e comentário. São
Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1984.
KAISER Jr., Walter C. e SILVA, Moisés. Introdução à
hermenêutica bíblica: Como ouvir a Palavra de Deus apesar
dos ruídos de nossa época. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.
LOPES, Augustus Nicodemus. A Bíblia e seus intérpretes:
uma breve história da interpretação. São Paulo: Cultura
Cristã, 2004.
OLSON, Roger. História da Teologia Cristã. São Paulo:
Vida, 2001
TENNEY, Merril C. O Novo Testamento: Sua Origem e
Análise. São Paulo: Vida Nova, 1984.
THAYER, Joseph Henry. Greek-English Lexicon of the New
Testament. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House,
1984.

SOBRE O AUTOR

Marcos Granconato é pastor titular da Igreja Batista


Redenção em São Paulo. Formou-se em Teologia no
Seminário Bíblico Palavra da Vida. É graduado em Direito
pela Universidade São Francisco de Bragança Paulista e
mestre em Teologia Histórica pelo Centro Presbiteriano de
Pós-Graduação Andrew Jumper.

[1] Os que situam a produção da carta em 48 d.C. vêem 2.1-10 como


uma passagem que se refere à visita de Paulo a Jerusalém mencionada
em Atos 11.27-30, e não ao Concílio de Jerusalém que, segundo essa
corrente, estava ainda prestes a acontecer quando a epístola foi escrita.
[2] Na epístola aos Gálatas, Paulo faz alusão ao seu trabalho naquelas
regiões em 4.13-14.
[3] Os destinatários, segundo parece, conheciam Barnabé, o
companheiro de Paulo em sua primeira viagem missionária (Cf.
2.1,9,13). Como já dito, essa viagem abrangeu a região sul da Galácia.
[4] As duas cartas de Paulo aos tessalonicenses foram escritas por
volta do ano 50 AD, ou seja, bem pouco tempo depois que ele escreveu
aos crentes da Galácia (48 AD).
[5] 2Coríntios 11.14 e Gálatas 1.8 geralmente são textos usados
contra o mormonismo cujos adeptos afirmam que sua religião foi
revelada a Joseph Smith por um anjo chamado Moroni. Essas
aplicações são cabíveis, ainda que dificilmente Smith tenha realmente
tido contato com algum espírito. Pelas informações que temos acerca
de sua vida e caráter, com certeza o próprio Smith inventou aquela
história e a levou adiante a fim de atingir propósitos egoístas e
escusos.
[6] Nos dias modernos alguns exemplos de falsos evangelhos são: a
Teologia da Prosperidade cuja salvação proposta consiste apenas no
livramento de doenças e de problemas financeiros; o Catolicismo
Romano que ensina a salvação pelas obras; e o Adventismo que,
exatamente como os falsos mestres da Galácia, crê que o homem é
salvo pela prática da Lei (Gl 2.16; 4.10-11). Todos os mestres desses
movimentos devem ser considerados malditos pelos crentes genuínos.
[7] No Catolicismo Romano encontramos a mais rica fonte de
invenções humanas associadas ao termo “cristianismo”. Doutrinas
como a da imaculada conceição de Maria, da transubstanciação, da
intercessão dos santos, da infalibilidade papal, da adoração da virgem,
da canonização de pessoas mortas, entre inúmeras outras não têm
nenhum amparo na Sagrada Escritura, sendo antes mitos inventados por
mentes corrompidas. Coisas do gênero devem ser rejeitadas com todo
o vigor pelos cristãos genuínos.
[8] Somente a partir da destruição de Jerusalém pelo General Tito, em
70DC, o cristianismo passou a revelar sua autonomia como modelo
religioso independente.
[9] Essa imagem passada pelos mestres judaizantes era flagrantemente
falsa, cf. 6.12-13.
[10] Essas tradições eram comentários e aplicações da Lei de Moisés
à vida diária que, a partir do Exílio Babilônico (605 aC – 535 aC) eram
transmitidos oralmente pelos judeus às gerações que se sucediam.
Jesus censurou severamente a prática de colocá-las acima da Palavra de
Deus (Mt 15.1-6).
[11] A expressão “em mim” transmite a idéia de que a revelação foi
dada a Paulo de modo pessoal e íntimo. Calvino sugere que a tradução
“a mim” é possível (CALVINO, João. Gálatas. São Paulo: Parácletos,
1998. p. 42).
[12] Deve ser admitido, porém, que a incumbência de pregar lhe fora
dada já no caminho de Damasco (At 26.15-18).
[13] Tiago, o meio irmão do Senhor, não era um dos Doze.
Aparentemente ele é incluído aqui entre os apóstolos em virtude de sua
posição de preeminência na igreja de Jerusalém (At 12.17; 15.13ss;
21.17-18; Gl 2.9,12), bem como por sua relação singular de
parentesco com o próprio Senhor, além do fato de ter visto Cristo
ressurreto (1Co 15.7). Ademais, é possível entender o termo
“apóstolo” num sentido não técnico quando aplicado a Tiago, ou seja,
apenas como um “mensageiro de Cristo” (Esse uso é aplicado a
Barnabé em At 14.14). Sabe-se que para ser apóstolo no sentido que
Paulo aplicava o termo a si próprio era preciso não só ver Cristo
ressurreto (1Co 9.1-2), mas também receber diretamente dele a
função de mensageiro (Mt 28.16-20; Lc 6.13; Gl 1.1), as revelações
dos mistérios divinos a serem anunciados (2Co 12.7; Gl 1.11-12; Ef
3.2-6) e o poder de realizar milagres (2Co 12.12).
[14] A fome mencionada em Atos aconteceu, provavelmente, entre 46
e 48 d.C., mas não abrangeu o Império inteiro, sendo a Judéia o seu
cenário. Contudo, aqueles dias foram marcados por fomes freqüentes
que sobrevieram a diferentes regiões de todo o Império.
[15] Isso era especialmente importante porque, como se sabe, os
falsos mestres da Galácia estavam dizendo que o ensino de Paulo era
contrário à doutrina dos apóstolos de Jerusalém.
[16] Tito foi, posteriormente, delegado de Paulo com a missão de
administrar a crise em Corinto (2Co 2.12-13; 7.5-7). Ele também
coordenou as igrejas de Creta (Tt 1.5).
[17] Como se sabe, os judaizantes entendiam que a circuncisão era
fundamental para que o homem fosse justificado. Veja 5.2-4, 6; 6.12-
13, 15.
[18] A atividade e ensino dos judaizantes de Jerusalém num tempo
posterior mas muito próximo da composição da Epístola aos Gálatas
podem ser vistos em Atos 15.1-2,5.
[19] A figura implícita aqui sugere a apresentação do evangelho por
meio de algum recurso visual como uma pintura em um quadro
(CALVINO, João. Gálatas. São Paulo: Paracletos, 1998. p. 82) ou um
cartaz de notícias colocado num lugar público, o que era comum na
antiguidade (GUTHRIE, Donald. Gálatas: introdução e comentário.
São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 1984. p. 114). Paulo não havia
usado esses recursos, mas suas palavras tinham fluído de tal forma que
era como se tivessem desenhado na consciência dos galateus os pontos
centrais da mensagem cristã. É de pregadores assim que a igreja
moderna precisa.
[20] Para o ensino acerca da autoridade da Sagrada Escritura, veja-se
Jo 10.35; 17.17; 1Co 2.13; 2Tm 3.16-17; 2Pe 1.20-21.
[21] Tiago 2.20-24 usa o mesmo exemplo de Abraão para ensinar que
a justificação é pelas obras. Contudo, Tiago pensa na justificação como
comprovação visível da fé. Daí a importância que confere às obras.
Paulo, por sua vez, usa o termo no sentido de “livramento de culpa”, o
qual decorre da fé somente.
[22] Note-se que ao tempo de Abraão a Lei sequer havia sido dada
(Rm 4.9-10; Gl 3.17).
[23] Um dos problemas com esse método de interpretação é que ele
não se harmoniza com o modo como os profetas do VT entenderam as
promessas de bênção e maldição feitas a Israel. Mesmo uma leitura
superficial de seus escritos revelará que os profetas entendiam
literalmente tais promessas (2Rs 18.10-12; Is 24.5-6; Jr 11.6-8; 32.24;
Lm 2.17; Dn 9.11-13; Zc 1.6, etc.). Obviamente, se foi assim que os
homens movidos por Deus interpretaram as palavras da Escritura, é
também assim que devemos entendê-las.
[24] O v. 13, conforme se verá, também contribui para a formulação
do conceito de maldição que Paulo tem em mente. Daquele versículo
se depreende que ser maldito é também ser merecedor da pena de
morte.
[25] A prática prevista em Deuteronômio envolvia a morte do
transgressor e a posterior colocação do seu corpo num madeiro. Era
permitido que o cadáver ficasse pendurado até o fim do dia como um
sinal de que ali estava alguém que havia morrido sob a maldição de
Deus, por transgredir a Lei (Dt 21.22-23).
[26] A habitação do Espírito no crente é uma bênção singular porque
lhe confere segurança de um dia ser plenamente resgatado (Ef 1.13-
14), prova e testifica que ele pertence a Deus (Rm 8.9, 15-16),
capacita-o a viver em santidade (Rm 8.13-14) e enche sua vida de
satisfação (Jo 7.38-39).
[27] A palavra usada por Paulo pode significar “testamento”, isto é, a
declaração de última vontade. Também tem o sentido de contrato ou
aliança. No versículo em análise trata-se de uma declaração da vontade
feita por Deus na qual somente ele se obrigou, sem nada impor ao
homem.
[28] Deve-se lembrar que, à luz do v.17, a Lei só veio 430 anos depois
de estabelecida a aliança com Abraão.
[29] Em Mateus 22.31-32, 41-45 vê-se que nosso Senhor também
dava especial atenção a aspectos gramaticais do texto bíblico.
[30] A consciência de pecado existe mesmo naqueles que jamais
conheceram a Lei de Moisés (Rm 2.14-15). Porém, ela é muito
limitada. Por exemplo: não se sabe através da mera “lei interior” que a
cobiça é pecado (Rm 7.7).
[31] O ensino de que a Lei Mosaica foi dada com o propósito de
refrear as transgressões parece encontrar obstáculos no que Paulo
ensina em Romanos 7.7-14. Ali aprendemos que a Lei, apesar de santa,
justa e boa, estimula o pecado na humanidade carnal. É verdade que,
idealmente, o mandamento seria dado para produzir vida (Rm 7.10).
Seu objetivo real e prático, contudo, foi outro, a saber: dar maior força
ao pecado (Rm 7.12-13; 1Co 15.56).
[32] Outros textos em que Paulo mostra apreço pela Lei são Romanos
3.31; 7.7,12,14; 8.4; 1Tm 1.8.
[33] A frase “a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado” significa
que o Velho Testamento declarou a transgressão de todos (Rm 3.9-19),
demonstrando que a Lei que foi dada a Moisés era incapaz de justificar
e conceder vida.
[34] O tutor, na lei romana, figurava como responsável pela criança até
os 14 anos. O curador respondia pelo jovem até que completasse 25.
Há ainda quem entenda que o tutor cuidava da pessoa, enquanto o
curador administrava seus bens.
[35] A maioridade, na lei romana, era atingida aos 25 anos de idade.
Não estava, portanto, ao arbítrio do pai o tempo de sua duração. Assim,
é possível que Paulo tivesse em mente aqui um outro sistema jurídico
desconhecido de nós, mas familiar aos seus leitores originais. É
também possível (e mais provável) que o apóstolo queria apenas
realçar o papel do pai como aquele que está no controle da situação.
Esse entendimento se harmoniza melhor com as intenções do autor
bíblico ao usar a presente ilustração.
[36] A ausência de artigo antes da palavra “lei” no v. 5, sugere que
Paulo não tinha em mente aqui somente e Lei Mosaica, mas qualquer
conjunto de normas imposto ao homem.
[37] Todos esses milênios compõem o período chamado de “tempos
da ignorância” (At 17.30).
[38] Earle E. Cairns, em O cristianismo através dos séculos (São
Paulo: Vida Nova, 1984. p. 29-36) afirma que a “plenitude dos tempos”
em Gálatas 4.4 diz respeito à preparação do cenário mundial de tal
forma que contribuísse para que a mensagem de Cristo tivesse o maior
impacto possível. De acordo com esse entendimento, Deus, ao longo
dos séculos, foi preparando o ambiente político, intelectual e religioso
para que o advento do Messias ocorresse num contexto que
favorecesse a sua divulgação. O tempo em que tudo estava pronto seria
entendido como a “plenitude dos tempos”. No entanto, apesar de não
haver dúvidas de que Deus usou o ambiente instalado no século I para
favorecer a expansão da fé, é muito difícil que isso se relacione com o
sentido da expressão “plenitude dos tempos” pretendido por Paulo em
Gálatas 4.4. O entendimento mais natural e simples, à luz inclusive do
v. 2, é que a expressão diz respeito apenas ao tempo em que
soberanamente Deus julgou necessário livrar o homem do jugo da lei,
determinando que o período de “tutela” não devia mais se prolongar.
[39] Hipóstase, em grego, significa, essência ou natureza substancial.
Na discussão cristológica, contudo, esse termo é usado
predominantemente com o sentido de “pessoa”. Para conhecer melhor
os contornos dessa matéria é fundamental que sejam estudados os
quatro concílios ecumênicos da igreja antiga e, especialmente, a
Definição de Calcedônia. Uma leitura esclarecedora é OLSON, Roger.
História da Teologia Cristã. São Paulo: Vida, 2001.
[40] Aba é o termo aramaico para Pai.
[41] Outras verdades sobre a habitação do Espírito Santo são as
seguintes: ela é dada aos que crêem (Jo 7.38-39; Gl 3.2); todos os
crentes desfrutam dela (1Co 12.13); ela se constitui numa das bases
para a pureza sexual do cristão (1Co 6.18-19); e ela é a garantia de que
somos “propriedade” de Deus (Ef 1.13-14).
[42] Em 1Tessalonicenses 4.5 Paulo ensina que quem não conhece a
Deus também é escravo de desejos lascivos.
[43] Na Igreja Antiga era pacífico o entendimento de que foram os
demônios que, em tempos remotos, haviam se manifestado aos homens
apresentando-se como deuses e dando origem às múltiplas formas de
adoração pagã.
[44] O proto-gnosticismo, filosofia pagã que ameaçou o cristianismo
nascente, acolhia com prontidão diversos preceitos judaicos (Cl 2.8,
16). Portanto, o retorno à Lei também poderia ser facilmente
interpretado como a adoção de sistemas filosóficos pagãos.
[45] É possível traduzir a palavra próteron (“a primeira vez”) como
“anteriormente”. Se aceitarmos essa tradução, pode-se entender que
Paulo está falando aqui do fim da primeira viagem missionária, quando
voltou para Listra, Icônio e Antioquia fortalecendo as igrejas (At
14.21). Se for este o caso, talvez Paulo tenha empreendido o retorno
de sua Primeira Viagem movido pelas imposições de uma doença da
qual se tem muito pouca informação.
[46] Alguns entendem, à luz de 4.15, que se tratava de uma doença nos
olhos. Esse entendimento também tenta explicar as “grandes letras” a
que Paulo alude em 6.11. Segundo esse ponto de vista, o suposto
problema de visão do apóstolo teve início em sua experiência de
conversão, quando seus olhos foram cobertos por algo semelhante a
escamas (At 9.18). Essa opinião, porém, não é conclusiva. Calvino, por
exemplo, entende que a palavra “enfermidade” significa aqui
simplesmente “vilipêndio”, ou seja, ausência de pompa ou grandeza.
Essa interpretação, por sua vez, mui dificilmente se ajusta com a
restante da passagem que indica claramente que Paulo está a falar de
uma debilidade em sua saúde.
[47] Nesse ponto Paulo usa verbos enfáticos para descrever a atitude
dos seus destinatários. Literalmente, ele diz que os galateus não o
trataram com desdém, nem o “cuspiram fora”. Essa linguagem denota
nojo, o que pode sugerir que a doença de Paulo provocava certa
repugnância.
[48] Veja o contraste entre esse zelo interesseiro e o zelo do
Apóstolo mencionado em 2Coríntios 11.2.
[49] Essa expressão tão comum nos escritos do carinhoso Apóstolo
João (1Jo 2.1, 12, 14, 18, 28, etc.) é usada somente aqui por Paulo.
[50] Para um maior aprofundamento nesse tema, veja-se LOPES,
Augustus Nicodemus. A Bíblia e seus intérpretes: uma breve história
da interpretação. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
[51] Esse é o argumento de Calvino constante de seu comentário a
Gálatas 4.22.
[52] Essa alternativa encontra-se em KAISER Jr., Walter C. e SILVA,
Moisés. Introdução à hermenêutica bíblica: Como ouvir a Palavra de
Deus apesar dos ruídos de nossa época. São Paulo: Cultura Cristã,
2002.
[53] Veja esse argumento em LOPES. Op. Cit., p.120-121.
[54] Ao longo da história tem sido comum os teólogos apresentarem a
Lei de Moisés sob duas grandes divisões: a lei cerimonial (relativa
especialmente aos serviços no templo) e a lei moral (apresentada
especialmente nos Dez Mandamentos). Ainda que seja útil para fins
didáticos, essa divisão às vezes conduz a conclusões erradas como, por
exemplo, a doutrina adventista de que fomos libertos apenas da lei
cerimonial, estando ainda sujeitos aos Dez Mandamentos. Deve,
porém, ficar claro que, para Paulo, a distinção entre lei cerimonial e
moral inexiste. O próprio texto em questão mostra que, em seu
conceito de Lei, o Apóstolo inclui até mesmo o livro de Gênesis e não
apenas disposições cerimoniais constantes do Pentateuco. Ademais,
em outras ocasiões, ao argumentar contra o legalismo, Paulo não cita
leis cerimoniais, mas alude às chamadas normas morais (Rm 7.6-7; Gl
3.10; Ef 2.15) e chega até a ensinar com notável clareza que o crente
está livre do “ministério gravado com letras em pedras”, ou seja, o
Decálogo, dizendo que a glória desse ministério se desvaneceu (2Co
3.7-11. Veja tb. Cl 2.14). Daqui se conclui que os cristãos só devem
obedecer aos Dez Mandamentos na medida em que eles são
“reaproveitados” no ensino do Novo Testamento, o que não acontece,
por exemplo, com a norma referente à guarda do sábado ou de um
outro dia qualquer. Ademais, mesmo aquela obediência deve ser
resultado de uma vida sob o controle do Espírito e não do apego carnal
a regras (Rm 8.3-4).
[55] Veja-se o legalismo de Jerusalém em face do ministério de Jesus
em Mateus 23.1-4; Marcos 7.1-8; João 5.18; 9.16, etc. Para a presença
do legalismo na igreja nascente daquela cidade, veja-se Atos 11.1-3;
15.4-5.

[56] Isaías 54 também evoca as glórias de Jerusalém no Reino


Milenar de Cristo (Lc 1.32-33; Ap 20.4-6)
[57] Essa perseguição branda e, às vezes, até simpática contra os
cristãos é empreendida hoje especialmente pelos adventistas do sétimo
dia que procuram intensamente fazer prosélitos entre os crentes.
Porém, pode-se vê-la também na atuação de indivíduos que, dentro das
igrejas, exigem que os crentes se submetam a regras oriundas de
costumes antigos. Seja qual for o caso, sempre que alguém tenta vergar
os ombros dos cristãos com o peso de normas, esse alguém se torna
um perseguidor da igreja e pode ser identificado como real inimigo
dos santos (Veja-se 2.4).

[58] Veja-se a mesma orientação dada de forma expressa em Romanos


16.17-18 e 2João 9-11.
[59] A forma condicional como Paulo constrói a frase dá a entender
que os galateus ainda não estavam praticando o antigo rito.
[60] O verbo traduzido aqui como “cair” (ekpípto) é usado nos
escritos clássicos para referir-se, inclusive, a pessoas que por razões
políticas ou por outros motivos, foram enviadas para o exílio, longe
dos privilégios de seu país.
[61] A esperança de que fala o v. 5 (elpís) não é mero desejo, mas sim
uma forte certeza. Note-se também que o versículo evoca uma
expectativa futura, ou seja, o dia em que, diante de Deus, o crente será
recebido como justo.
[62] Vejam-se exemplos da fé falsa em Mateus 13.20-21; João 2.23-
25; 12.42-43.
[63] Paulo usa a metáfora da corrida também em 2.2, aplicando-a a si
mesmo. Veja-se também Filipenses 2.16; 2Timóteo 2.5; 4.7.
[64] O verbo usado por Paulo, egkópto, significa impedir, obstruir ou
deter. Trata-se de um termo militar que descreve um exército que
impede o avanço do inimigo destruindo uma estrada e levantando
obstáculos. Usada na figura de uma corrida, como é o caso aqui, a
palavra sugere a ação de um atleta que tenta prejudicar o desempenho
de outro, atrasando-o de alguma forma ou até mesmo tirando-o da
prova.
[65] É preciso, contudo, reconhecer que o uso do particípio conforme
consta do v. 8, implica muitas vezes num sentido indefinido, sendo
também possível que Paulo tenha em mente aqui o chamado de Deus
ocorrido ao tempo da conversão (1Co 1.26; 7.18). Se for esse o caso,
é interessante notar que, em Gálatas, os crentes são apresentados como
pessoas que, ao ouvirem o evangelho, foram chamadas à liberdade
(5.13).
[66] Também no ensino de Jesus a figura do fermento é usada para se
referir a doutrinas e práticas reprováveis (Mt 16.6, 12; Mc 8.15; Lc
12.1). Há uma exceção em Mateus 13.33
[67] Veja o comentário em 1.7 sobre o verbo tarásso (perturbar),
também usado aqui.
[68] No paganismo dos dias de Paulo existiam rituais grotescos cujo
ápice era atingido quando os adoradores se emasculavam. Se o
Apóstolo tinha esses rituais em mente, pode-se concluir que para ele a
circuncisão não tinha mais significado do que as repugnantes práticas
religiosas dos gentios.
[69] O mesmo ensino encontra-se em Romanos 13.9-10. Observe-se
que há aqui um eco do ensino de Jesus que disse que toda a Lei e os
Profetas se sustentam em apenas dois preceitos: amar a Deus e amar
ao próximo (Mt 22.35-40).
[70] Observe o mesmo ensino em Efésios 5.18, onde Paulo exorta os
crentes a que não se deixem dominar pelo vinho, mas sim pelo
Espírito. Com essa rica figura, o Apóstolo realça que, assim como o
homem embriagado é totalmente dominado pela bebida em sua forma
de falar, andar e reagir, da mesma forma o crente cheio do Espírito,
como ébrio de Deus, anda, fala e age da forma como o Senhor
determina.
[71] Vejam-se essas três influências mencionadas explicitamente em
Romanos 7.4-6.
[72] Veja-se o relato de Atos 14.11-13 para uma noção do grau de
idolatria reinante na Galácia.
[73] Por outro lado, num país como o nosso, em que muitos irmãos na
fé se escandalizam quando vêem um crente bebendo qualquer bebida
alcoólica, é melhor que haja abstinência total, conforme ensina Paulo
em Romanos 14.15-21.
[74] Bebedices e orgias eram associadas ao culto de Dionísio,
também conhecido como Baco. Considerado o deus do vinho e da vida
animal e vegetal, seus adoradores se entregavam à bebida e comiam
carne com sangue para participar da vida do deus. Nesses banquetes os
participantes, em meio a danças sagradas, eram levados ao êxtase e à
orgia sexual.
[75] Paulo descreve detalhadamente o amor genuíno em 1Coríntios
13.1-7.
[76] Note-se aqui a conversão descrita como “pertencer a Cristo”. O
convertido é realmente como um escravo adquirido por Cristo. Tendo
agora um novo senhor, não precisa mais viver sob o jugo da Lei.
[77] Paulo tinha experiência própria desse fato (2.20). Note-se ainda
que em sua vida não somente o próprio eu carnal havia sido
crucificado, mas também o mundo com seus atrativos e apelos (6.14).
[78] Veja-se em 3.2,5,14; 4.6; e 5.5 os fenômenos próprios dessa
realidade.
[79] Assim entende CALVINO, op. cit., 175.
[80] O oposto dessa figura é o crente carnal (1Co 3.1-3).
[81] Esse verbo é usado para se referir à correção de ossos
deslocados e ao conserto de redes de pesca. Tem sempre o sentido de
restabelecer algo danificado ao seu estado anterior.
[82] Uma igreja que mais tarde se destacou nesse aspecto foi a de
Filipos, na Macedônia, para a qual Paulo escreveu uma carta cheia de
gratidão, em 61 A.D. (Fl 4.10-19).
[83] O Livro de Provérbios ensina que o sábio é aquele que reconhece
que vivemos num universo regido não somente por leis físicas, mas
também morais, as quais, se violadas, nos trarão prejuízos. Logo, o
sábio é aquele que tem temor do Senhor (Pv 1.7), reconhecendo que
ele próprio fixou na história a norma irrevogável de que quem faz o
mal, cedo ou tarde colhe o mal.
[84] A sugestão de que Paulo escreveu com letras grandes porque,
desde a sua experiência na estrada de Damasco, passou a ter problemas
de visão, é puramente especulativa. O entendimento mais natural é que
Paulo escreveu com letras grandes para dar ênfase ao que dizia.
[85] Em Romanos 2.29 há mais uma indicação de que a circuncisão
promovia o louvor decorrente dos homens, tão caro aos falsos
mestres.