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Que Falem os

Primeiros Cristãos
Uma análise da Igreja moderna sob a luz do
cristianismo primitivo

David W. Bercot

Primeira Edição

www.LMSdobrasil.com.br
São Paulo – SP
LMS
2013
QUE F ALEM OS P RIMEIROS CRIS TÃOS
Uma análise da Igreja moderna sob a luz do cristianismo primitivo
David W. Bercot
Traduzido com permissão expressa da Scroll Publishing Co. Todos os
direitos reservados. O copyright© da edição original em inglês é
mantido pela Scroll Publishing Co., 22012 Indian Spring Tr.,
Amberson, PA 17210 USA. Fone: 717 340 7033 –
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A não ser que se indique o contrário, todas as citações bíblicas foram
tiradas da versão Corrigida Fiel de João Ferreira de Almeida. Usado
com permissão da Sociedade Bíblica Trinitariana.

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Tradução: Bravo Translations


Revisores: Charles e Faith Becker
Capa: Wilson Costa
Arte: Christian Martyrs’ last prayer por Jean-Leon Gerome
ISBN: 978-85-64737-10-5
Copyright © 2012 Literatura Monte Sião do Brasil

RESERVADOS TODOS OS DIREITOS


Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada ou reproduzida em
qualquer meio ou forma — seja mecânico, eletrônico ou mediante
fotocópia, gravação, etc. — nem apropriada ou estocada em sistema de
banco de dados, sem a expressa autorização da Literatura Monte Sião
do Brasil.
À minha querida esposa, Deborah
Nota do Autor
Apesar de já haverem se passado vinte anos desde que este livro foi
publicado pela primeira vez, eu diria que, se tivesse que escrevê-lo
novamente, mudaria muito pouco em relação à edição atual. Assim,
exceto por umas pequenas correções, esta nova edição em português
(Que Falem os Primeiros Cristãos) é praticamente a mesma edição do
livro original, no entanto, decidi adicionar o capítulo 17, no qual
descrevo os diferentes movimentos que surgiram através da história
para tentar restaurar o cristianismo primitivo.
—David W. Bercot.
Prefácio
1. O prisioneiro
2. Quem foram os cristãos primitivos?
3. Cidadãos de outro reino
4. Certo e errado: apenas uma questão
cultural?
5. Por que eles foram bem-sucedidos
onde geralmente fracassamos?
6. O que eles criam quanto à salvação
7. Crença sobre predestinação e livre
arbítrio
8. O significado do batismo para os
cristãos primitivos
9. Prosperidade: bênção ou maldição?
10. O moralismo do Antigo Testamento
ainda é válido?
11. Quem entende melhor os apóstolos?
12. Os ensinos dos apóstolos foram
propositadamente alterados?
13. Como o cristianismo primitivo foi
corrompido
14. Os últimos muros caem
15. O cristão mais influente de todos os
tempos
16. A reforma foi uma volta ao
cristianismo primitivo?
17. A busca pela restauração do
cristianismo primitivo
18. O fogo anabatista
19. Mas o que tudo isso significa para
nós?
Dicionário biográfico
Notas
“As Escrituras Sagradas são como um manancial que
contêm água da vida em abundância, assim como tudo o
que é necessário para que o povo de Deus experimente a
salvação… A voz e o testemunho da igreja primitiva são um
guia e uma norma ministerial subordinada, que nos
preservam e nos conduzem à interpretação correta de suas
palavras.”
Prefácio
Tertuliano tentou animar um grupo de cristãos de sua
congregação, que apodrecia numa masmorra romana, dizendo-
lhes as seguintes palavras: “…A prisão faz para o cristão o
mesmo papel que o deserto fez para o profeta. O próprio
Jesus passou muito tempo sozinho, para que tivesse
maior liberdade para orar e se manter afastado do
mundo… Os pés não sentem as correntes quando a
mente está no Céu.”
Este fragmento foi retirado do capítulo cinco, “Por que
eles tiveram êxito onde nós fracassamos?” Na seção: “Um
povo da cruz”. Embora seja um texto curto, nunca me
esquecerei do impacto que causou em meu coração quando o
li pela primeira vez. A frase de Tertuliano, “Os pés não
sentem as correntes quando a mente está no céu”, ficou
gravada em meu coração para sempre e, em minha opinião,
ela resume a fé heroica dos cristãos primitivos, que viviam
conforme as palavras ditas por Jesus: “Se alguém quer vir
após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e
siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á;
quem perder a vida por minha causa, esse a salvará”
(Lucas 9:23–24).
Em certos momentos, este livro me levou às ruas
empoeiradas das cidades de Roma, Antioquia, Cartago e
Alexandria, dos séculos II e III. Também me mostrou a fé
simples e sincera dos cristãos primitivos, assim como sua
estrita fidelidade aos ensinamentos dos apóstolos, sua
constante disposição ao sacrifício e suas convicções
radicais. Fui inspirado, desafiado e motivado.
David W. Bercot realizou um grande trabalho ao escrever
este e outros livros sobre os escritos dos primeiros líderes
cristãos, também chamados de “escritores patriarcais”. Que
Falem os Primeiros Cristãos se tornou um livro essencial
em minha biblioteca de pastor cristão, tão importante quanto
o livro A Dictionary of Early Christian Beliefs (Um
Dicionário das Crenças Cristãs Primitivas), outra obra
formidável de Bercot.
Hoje sabemos que os autores patriarcais não eram
escritores inspirados por Deus, como os apóstolos e
profetas, e até cometeram alguns erros. A história e seus
próprios escritos revelam que vários deles se perderam
doutrinalmente em alguns assuntos. No entanto, é difícil não
ficarmos fascinados por suas convicções e é aí que está o
sucesso de Que Falem os Primeiros Cristãos, pois ele
consegue captar o espírito da fé desses homens, desafiando
nossa fé hoje.
No moderno mundo do século XXI, em que o cristianismo
em muitos casos se transformou num mero produto
comercial, sem convicções radicais, sem sacrifício pessoal,
sem obras acompanhadas de fé, o livro Que Falem os
Primeiros Cristãos é uma profunda fonte de inspiração para
todos aqueles que buscam viver um cristianismo puro,
sincero e simples como os primeiros discípulos de Jesus
viveram e nós também somos chamados a viver. Se você é
um desses, irá se apaixonar por este livro.
—Arturo V. Elizarrarás Rosales
Evangelista na Igreja Cristã do México, A. R. E Diretor da Escola de
Capacitação Bíblica do México em Tlalnepantla, Estado do México.
1

O prisioneiro

A carruagem feita de grades cruzava as ruas de pedra de


Esmirna e o prisioneiro podia ouvir os gritos da furiosa
multidão que estava na arena. Cães farejadores seguiam o
carro pelas ruas, latindo violentamente. Crianças de pele cor
de oliva corriam pelas calçadas, com os olhos cheios de
ansiedade. Ao longo do caminho, rostos sem nome paravam
para espiar pela janela.
A carruagem se deteve diante dos sólidos muros da arena.
O guarda arrancou o prisioneiro do veículo e o lançou
bruscamente ao chão, como se fosse um saco de lixo,
machucando sua perna.
Há semanas o público vinha pedindo a prisão e execução
daquele homem. Mas ele não se parecia em nada com um
criminoso — um homem idoso e de aparência frágil, com o
rosto marcado pelas rugas. Tinha cabelos e barba tão
brancos quanto as nuvens que enfeitavam o céu mediterrâneo
naquela tarde. Enquanto o velho prisioneiro mancava até a
arena sob a vigilância de guardas armados, espalhou-se pela
multidão a notícia de que aquele homem era Policarpo, o
criminoso vil que tinha sido sentenciado à morte. Seu crime?
Ele era o líder local de um ritual supersticioso praticado por
um grupo conhecido como “os cristãos”.
A multidão gritava com sede de sangue, enquanto os
soldados levavam o prisioneiro para se apresentar diante do
procônsul romano. Quando ele viu o velho mancando, corou
de vergonha. Então aquele era o grande criminoso que havia
causado tanto tumulto? Apenas um pobre velhinho?
O procônsul usava uma túnica cor de púrpura, que
balançava com o vento. Ele se aproximou do velhinho e lhe
disse em particular:
— O governo romano não faz guerra contra idosos.
Simplesmente jure pela divindade de César e deixarei você
ir.
— Não posso fazer isso.
— Então, ao menos grite: “Acabem com os ateus!” E isso
será suficiente.
Ele disse isso porque muitos romanos acreditavam que os
cristãos eram ateus, já que eles não tinham templos nem
adoravam imagens.
O prisioneiro calmamente esticou seu braço enrugado,
virou-se e apontou para a multidão cheia de ódio. Então,
olhando fixamente para os céus, gritou:
— Acabem com os ateus!
A reação do prisioneiro surpreendeu o procônsul. Apesar
de o velhote ter feito o que lhe fora pedido, o governador
percebeu, pela reação da multidão, que a libertação de
Policarpo estava fora de cogitação.
— Amaldiçoe a Jesus Cristo! — Exigiu ele.
Por um instante, Policarpo fixou seus penetrantes olhos
castanhos no semblante inflexível do procônsul. Então,
respondeu calmamente:
— Durante oitenta e seis anos tenho servido a Jesus e Ele
nunca foi injusto comigo. Como, então, poderia eu
amaldiçoar meu Rei e Salvador?
A multidão, incapaz de ouvir a conversa, estava ficando
impaciente com a demora. O procônsul já estava ficando
ansioso e pediu novamente ao prisioneiro:
— Jure pela divindade de César!
— Já que o senhor continua fingindo não saber o que eu
sou, vou simplificar sua tarefa. Declaro, sem nenhuma
vergonha, que sou um cristão. Se o senhor quiser aprender
um pouco sobre as nossas crenças, marque um horário e eu
lhe ensinarei.
O procônsul ficou muito irritado e respondeu bruscamente:
— Não tente me convencer, convença a eles! — Disse
apontando para a multidão.
Policarpo olhou para os inúmeros rostos desconhecidos,
que ansiavam pelo espetáculo sanguinolento a que vieram
assistir.
— Não, não vou rebaixar os ensinamentos de Jesus
tentando convencer essa gente!
O procônsul já muito irado, gritou:
—Você não sabe que tenho animais selvagens a minha
disposição? Vou soltá-los imediatamente se você não se
arrepender!
— Bem, então solte! — Respondeu Policarpo, sem
qualquer vestígio de medo na voz. — Como eu poderia me
arrepender de fazer o bem para fazer o mal?
O procônsul estava acostumado a amedrontar até os
criminosos mais perigosos, mas não estava conseguindo
assustar aquele velhote. Então replicou:
— Já que os animais selvagens não lhe assustam, saiba
que você será queimado vivo se não renunciar a Jesus Cristo
imediatamente!
Cheio do Espírito Santo, Policarpo irradiava alegria e
confiança.
— O senhor me ameaça com um simples fogo que queima
por uma hora e depois se apaga. Nunca ouviu falar do fogo
do julgamento vindouro e do castigo eterno reservados para
os ímpios? Por que está demorando tanto? Faça logo o que
quiser comigo!
As coisas não saíram como o planejado. O procônsul
deveria ser o grande vencedor e o prisioneiro deveria estar
ajoelhado, implorando por misericórdia. Mas aquele
prisioneiro, um idoso, havia vencido. O governador voltou
ao seu assento, sentindo-se humilhado.
Como a arena era muito grande, alguns mensageiros foram
enviados a pontos específicos para anunciar o que Policarpo
havia dito. Quando repetiram o que ele havia declarado, uma
onda de fúria tomou conta da multidão. Fariam com ele o que
eles quisessem!
Pularam de seus assentos e correram pelas saídas e
corredores, clamando pela morte de Policarpo. Corriam
como loucos pelas ruas da cidade, juntando todos os
pedaços de madeira que pudessem encontrar. Assaltaram
alguns estabelecimentos e roubaram até a lenha acumulada
nos banheiros públicos. Então, voltaram apressados para a
arena, com os braços cheios de lenha para a pira que o
carrasco estava preparando. Eles empilharam a madeira em
volta de uma estaca, onde os soldados amarravam os
membros de Policarpo.
Mas Policarpo dizia calmamente aos soldados:
— Deixem-me como estou. Aquele que me dá força para
suportar o fogo também me dará capacidade para ficar
imóvel na fogueira sem que precisem me amarrar.
Depois de permitir que Policarpo orasse, os soldados
atearam fogo à pira.
O povo de Esmirna acreditava que depois de queimar
Policarpo apagaria seu nome da história, dando um fim
àquela odiada superstição chamada cristianismo. Mas assim
como o procônsul, eles subestimaram a vitalidade e a
convicção dos cristãos. Pois em vez de intimidar os outros
cristãos, a morte de Policarpo lhes trouxe inspiração. E em
vez de desaparecer, o cristianismo cresceu ainda mais.
Ironicamente, o que os romanos não conseguiram fazer
acabou sendo realizado pelos próprios cristãos. Hoje, pode-
se dizer que o nome de Policarpo foi esquecido e que o
cristianismo de seus dias é desconhecido para a maioria dos
ocidentais.*
2

Quem foram os cristãos


primitivos?

Ainda me lembro do meu professor de inglês da faculdade


tentando me fazer compreender a importância de definir os
termos em minhas dissertações. Embora eu não tenha dado a
devida atenção às suas palavras naquela época, entendi o
significado de sua advertência quando comecei a discutir
sobre os cristãos primitivos com diferentes grupos. Uma das
primeiras perguntas que eles geralmente me fazem é: “A
quem você está se referindo quando diz ‘cristãos
primitivos’?”
Então, deixe-me definir alguns termos. Quando eu digo
“cristãos primitivos” estou me referindo aos cristãos que
viveram entre o ano 90 d.C. e 199 d.C. O apóstolo João, por
exemplo, ainda estava vivo no início desse período. A
primeira geração de cristãos era de homens como Policarpo,
que haviam sido evangelizados por um ou mais dos
apóstolos de Jesus. O período terminou com o último homem
que teve alguma ligação com o apóstolo João: Ireneu, um
discípulo de Policarpo.
Quando uso o termo “cristianismo primitivo”, estou me
referindo às crenças e costumes da comunidade dos cristãos
primitivos que mantinham laços de amizade e
companheirismo uns com os outros. Não estou me referindo
às crenças ou costumes de alguém classificado pela igreja
como herege. Isto é, não estou me referindo a todo o campo
de joio e trigo misturado, mas somente ao trigo (leia Mateus
13:24–30).1
Apesar de este livro se focar mais nos cristãos que
viveram no período citado acima, as doutrinas e costumes
destes cristãos primitivos foram mantidos pelos cristãos que
viveram no século seguinte. Por este motivo, a discussão a
seguir vai incluir citações de autores que viveram entre 200
d.C. e 313 d.C., desde que seus ensinos convirjam com os
ensinos dos cristãos que viveram no período logo após os
apóstolos de Cristo.

Foram estes os “pais da igreja primitiva”?


Sempre que eu começo a falar sobre os cristãos
primitivos, geralmente as pessoas me dizem: “Ah! você está
falando sobre os pais da igreja primitiva, não é?” Mas esses
homens não foram os pais da igreja! Eles eram, em sua
maioria, homens simples, que trabalhavam duro e tinham
uma educação rudimentar. Eles poderiam ficar revoltados se
fossem chamados de pais da igreja, pois os únicos que
reconheciam como pais da igreja eram os discípulos de
Jesus.
Na verdade, o fato de esses escritores não serem pais da
igreja é o que torna seus escritos tão valiosos. Se esses
homens fossem grandes fundadores de teologia, seus escritos
teriam um valor limitado para nós, já que eles simplesmente
nos mostrariam quais doutrinas esses “fundadores
teológicos” tinham desenvolvido. No entanto, eles não
escreveram tratados teológicos. Na realidade, não podemos
chamar ninguém da igreja do segundo século de teólogo, no
sentido moderno, pois não existe uma teologia sistemática
real na igreja pré-Constantino.
Em vez disso, os escritos dos cristãos primitivos
consistem primariamente em: 1) obras apologéticas que
explicam aos romanos e aos judeus as crenças cristãs
universais; 2) obras defendendo o cristianismo apostólico
contra os hereges; e 3) correspondências entre igrejas. Esses
escritos são testemunho daquilo em que a igreja acreditava e
praticava durante o período imediatamente após a morte dos
apóstolos. Isso é o que torna seu valor incalculável.
Na verdade, a única pessoa durante todo o período entre
90 d.C. e 313 d.C. que podemos chamar de teólogo é
Orígenes. Mas Orígenes não impunha sua opinião sobre os
outros cristãos. Ao contrário, ele era o menos dogmático
entre todos os escritores do cristianismo primitivo. Aquela
era uma época em que ninguém era muito dogmático em
assuntos que iam além das poucas doutrinas cristãs
essenciais.
Uma das características mais notáveis do cristianismo
primitivo é a carência de dogmas teológicos explicitamente
definidos. Na verdade, quanto mais longe voltarmos na
história do cristianismo, menos dogmas definidos iremos
encontrar. No entanto, existiam algumas doutrinas e costumes
comuns que todos os cristãos ortodoxos seguiam. O foco
deste livro serão essas doutrinas e costumes universais.
Com esse propósito, não apresentarei nenhuma crença ou
costume como sendo da igreja primitiva a menos que elas
preencham os seguintes critérios:

​• ​Todos os escritores cristãos que apresentaram o tema


tenham o mesmo ponto de vista; e

​• ​Ao menos cinco escritores do cristianismo primitivo


de diferentes épocas e regiões geográficas tenham
escrito sobre o assunto.
De fato, a maioria dos assuntos abordados neste livro tem
como base o testemunho de mais do que cinco escritores.

Uma breve introdução a oito dos escritores mais


relevantes
Antes de entrar no assunto dos ensinos da igreja cristã
primitiva, quero apresentar a você alguns dos principais
escritores que vou citar aqui:
Policarpo – discípulo do apóstolo João
Policarpo, cuja morte foi descrita no primeiro capítulo, foi
modelo de fé e devoção para as igrejas da Ásia. Ele era
amigo e discípulo de João, que, ao que tudo indica, o
nomeou para o cargo de supervisor ou bispo da igreja de
Esmirna.2 Se os anjos das sete igrejas do Apocalipse se
referirem aos supervisores dessas igrejas, então é bem
possível que o anjo da igreja de Esmirna fosse ninguém
menos que Policarpo. Se for assim, é um grande feito, pois
Esmirna é uma das duas únicas igrejas do Apocalipse que
não foram repreendidas por Jesus.
Policarpo viveu 87 anos e foi martirizado por volta do ano
155 d.C.

Ireneu – um vínculo importante com os apóstolos


Ireneu foi um dos discípulos pessoais de Policarpo, que se
mudou para a região de Gália, na França, para servir como
missionário. Quando o supervisor da igreja na região de
Lyon, na França, foi assassinado durante uma perseguição,
Ireneu foi nomeado seu sucessor. A igreja primitiva falava
muito bem de Ireneu, que viveu até depois de 200 d.C. Como
discípulo de Policarpo, que por sua vez era companheiro do
apóstolo João, Ireneu se tornou um vínculo importante com
os apóstolos em sua época.

Justino – o filósofo que se tornou evangelista


Na época de Policarpo, um jovem filósofo chamado
Justino embarcou numa jornada espiritual em busca da
verdade. Certo dia, ele caminhava em direção ao lugar onde
costumava meditar – um campo com vista para o Mar
Mediterrâneo – quando, de repente, notou que um senhor
idoso o seguia à distância. Como queria ficar sozinho, ele se
virou e encarou o homem com um olhar irritado. Contudo, o
homem, que também era cristão, começou a conversar com
ele e acabou descobrindo que Justino era filósofo. Então,
aquele senhor passou a fazer perguntas muito profundas, que
fizeram com que Justino percebesse como a filosofia humana
era deficiente. Anos mais tarde, Justino declarou:
Depois que aquele homem me disse várias coisas, foi embora
incentivando-me a refletir sobre o que ele dissera. Nunca mais o
vi, mas uma chama logo se acendeu em meu coração. Dentro de
mim, cresceu um grande amor pelos profetas e pelos amigos de
Jesus. Depois de pensar muito sobre o que aquele senhor havia
me dito, percebi que o cristianismo era a única filosofia válida e
verdadeira.3
Após se converter ao cristianismo, Justino continuou
usando sua túnica de filósofo, simbolizando que havia
encontrado a única filosofia verdadeira. De fato, ele passou
a pregar o evangelho aos filósofos pagãos e dedicou sua
vida a ajudar os romanos cultos a entenderem a importância
do cristianismo. Suas defesas escritas aos romanos são as
apologias cristãs mais antigas e completas que ainda
existem. Justino mostrou-se um evangelista nato, convertendo
muitos romanos, tanto os alfabetizados quanto os
analfabetos. Por fim, foi vítima de uma conspiração e acabou
preso. Preferiu morrer a negar seu Senhor e, por isso, foi
executado por volta do ano 165 d.C. Depois de sua morte,
passou a ser chamado de Justino, o mártir ou, simplesmente,
Justino Mártir.

Clemente de Alexandria – instrutor de novos convertidos


Outro filósofo que descobriu o cristianismo após uma
jornada em busca da verdade foi Clemente. Depois que
percebeu a incoerência da filosofia humana, ele se tornou
cristão. Após sua conversão, ele viajou pelo Império
Romano, a fim de aprender os preceitos do cristianismo
diretamente com os mais velhos e respeitados professores
cristãos de sua época. Seus escritos, que são datados de
cerca de 190 d.C., refletem a sabedoria de seus instrutores e
inspiraram muitos cristãos através dos séculos, incluindo
João Wesley.
Clemente acabou se estabelecendo em Alexandria, no
Egito. Ele foi eleito ancião (presbítero) naquela congregação
e foi encarregado de ensinar os novos cristãos. Geralmente é
chamado de Clemente de Alexandria, para que possa ser
distinguido de outro Clemente, que foi supervisor (bispo) da
igreja de Roma nos últimos anos de vida do apóstolo João (a
menos que seja indicado de outra forma, quando me referir a
Clemente neste livro, estarei falando sobre Clemente de
Alexandria).

Orígenes – uma mente brilhante dedicada a Deus


Entre os alunos de Clemente na cidade de Alexandria,
havia um adolescente muito inteligente chamado Orígenes,
que havia crescido num lar cristão. Quando ele tinha
dezessete anos, houve uma grande perseguição em
Alexandria e seu pai acabou preso. Orígenes escreveu a seu
pai na prisão, encorajando-o a continuar firme na fé e a não
renunciar a Cristo por causa de seu amor paternal para com
sua família. Depois que a data para o julgamento de seu pai
foi marcada, Orígenes decidiu que apareceria ao lado de seu
pai no julgamento e morreria junto com ele. No entanto, na
noite anterior à execução de seu pai, sua mãe escondeu todas
as suas roupas enquanto ele dormia, para evitar que ele
saísse de casa a tempo para a execução.
Embora tivesse apenas dezessete anos, Orígenes se
destacava na igreja de Alexandria por causa do modo como
cuidava de seus amigos cristãos durante a feroz perseguição
que estava acontecendo na época. A multidão enraivecida
notou seus atos de bondade e por pouco ele não perdeu a
vida na perseguição.
Orígenes tinha aprendido gramática e literatura gregas
com seu pai e passou a dar aulas sobre a matéria para
sustentar seus irmãos mais novos. Ele era tão brilhante que
muitos pagãos enviavam seus filhos para estudarem com ele
e muitos desses jovens se converteram ao cristianismo por
causa do testemunho de Orígenes.
Enquanto isso, Clemente, o professor responsável por
instruir os novos cristãos, corria risco de morte. Ele era um
homem procurado pelos oficiais pagãos. Assim, teve que
fugir para outra cidade, a fim de continuar ensinando sobre o
cristianismo. Os anciãos de Alexandria tomaram uma
decisão incomum e nomearam Orígenes, que estava com
apenas dezoito anos, para ocupar o lugar de Clemente como
diretor da escola de treinamento. Foi uma escolha sábia,
pois Orígenes se entregou de corpo e alma àquela tarefa.
Logo, ele abandonou sua curta profissão de professor de
literatura e gramática e vendeu todos os seus livros de
literatura grega a prazo para outro homem. Passou a
sobreviver apenas dos pagamentos mensais que recebia por
seus livros vendidos e permanecia pobre. No entanto, ele se
recusava a receber qualquer tipo de pagamento por sua
função de professor cristão. Depois de passar o dia todo
ensinando os novos convertidos, ele ficava estudando a
Bíblia até tarde da noite.
Em pouco tempo, Orígenes se tornou um dos mais
respeitados professores cristãos de sua época. Por fim,
alguns amigos o convidaram a realizar palestras sobre a
Bíblia, discutindo cada livro, passagem por passagem. Seus
amigos pagavam escrivães para que anotassem tudo o que
ele dizia e assim surgiu o primeiro comentário bíblico
escrito por um cristão. Orígenes não tinha a intenção de que
seus comentários fossem tomados como declarações
dogmáticas, já que frequentemente se desviava do assunto e
expressava suas próprias opiniões. Em seus comentários,
sempre se mostrava amigável e flexível, geralmente
terminando as discussões com o seguinte discurso: “Bem, é o
melhor que posso fazer com essa passagem. Talvez alguém
com uma visão mais compenetrada possa dar uma explicação
melhor.”
Às vezes, em suas especulações, Orígenes mostrava uma
visão não ortodoxa, que não correspondia com os
pensamentos cristãos da época. Por esta razão, tomei
cuidado ao usar citações dele.
Apesar de suas especulações errôneas, Orígenes possuía
uma das mentes mais brilhantes de seus dias, entre cristãos e
não-cristãos. Ele chegou até a trocar correspondências com
um dos imperadores romanos da época. Contudo, sua fama
atraiu também os olhares dos inimigos do cristianismo,
obrigando-o a se mudar frequentemente, a fim de fugir das
perseguições. Mas apesar de tudo, ele conseguiu sobreviver
até aos setenta anos, quando foi finalmente preso e torturado.
Mas, por maior que fosse a tortura, ele não renunciou a
Cristo e seus inimigos se deram por vencidos. No entanto,
ele veio a falecer por causa do tratamento desumano que
havia recebido.

Tertuliano – apologista para os romanos


Para os cristãos do Ocidente, talvez Tertuliano seja o mais
conhecido de todos os escritores do cristianismo primitivo.
Ele era líder da igreja de Cartago, no norte da África, onde
resolveu morar.4 Tertuliano era um dos mais talentosos
apologistas da igreja primitiva e era também um dos poucos
anciãos que escrevia em latim, em vez de grego. Ele é
lembrado por seus muitos provérbios, como por exemplo:
“O sangue dos mártires é a semente da igreja”.
Tertuliano escreveu por um período de quase vinte anos,
entre 190 d.C. e 210 d.C. Além de suas obras apologéticas,
ele escreveu muitas cartas e ensaios, confortando cristãos na
prisão e encorajando cristãos em geral a se manterem
separados do mundo. Também escreveu muitas defesas
ortodoxas contra as heresias do seu tempo.
Anos mais tarde, Tertuliano foi fortemente influenciado
pelo movimento montanista, que era ortodoxo em sua
teologia, mas esperava que seus fiéis seguissem regras
ascéticas estabelecidas por homens. Felizmente, mais da
metade de suas obras foram escritas antes que ele aderisse
ao movimento. Além disso, como o montanismo era ortodoxo
em sua teologia, mesmo os escritos montanistas de Tertuliano
geralmente são representações dos pensamentos do
cristianismo primitivo. Não obstante, fui muito criterioso ao
citar algumas de suas obras montanistas.

Cipriano – o homem rico que entregou tudo para Cristo


Algumas décadas depois de Tertuliano ter escrito suas
obras, um romano muito rico se converteu ao cristianismo.
Ele tinha, então, quarenta anos. Apesar de ser um grande
admirador de Tertuliano, ele nunca se uniu ao movimento
montanista e se opunha fortemente a qualquer movimento
herético ou cismático. Sendo novo na fé, Cipriano ficou tão
feliz em encontrar Jesus e nascer de novo, que vendeu tudo o
que tinha e doou o dinheiro aos pobres. Ele ficou muito
contente em se livrar do peso de seus bens materiais. Seus
escritos contêm algumas das passagens mais tocantes sobre o
novo nascimento que já foram escritas. A igreja de Cartago
respeitava seu comprometimento entusiasmado com Cristo.
Embora ele houvesse se convertido há pouco tempo, eles o
elegeram como supervisor (bispo) de sua igreja, o que não
era nada comum mesmo naquele tempo.
Os escritos de Cipriano são particularmente valiosos
porque consistem em cartas trocadas com líderes de outras
igrejas, que revelavam as preocupações corriqueiras das
congregações cristãs da época. Como sofreu perseguição
muitas vezes, Cipriano foi forçado a realizar grande parte de
seu ministério em lugares subterrâneos. Era um pastor
incansável, que colocava toda sua energia na direção do
rebanho que Cristo lhe havia confiado, e por fim, acabou
perdendo sua vida por amor a ele, pois foi preso pelos
romanos e decapitado no ano 258 d.C.

Lactâncio – professor do filho do imperador


Lactâncio não é muito conhecido entre os cristãos de hoje,
o que é uma pena, pois ele escrevia com clareza e
eloquência fora do comum. Antes de se tornar cristão,
Lactâncio foi um renomado professor de retórica,
reconhecido até mesmo pelo imperador Diocleciano.
Contudo, depois que se converteu, passou a dedicar seus
conhecimentos literários ao cristianismo. Viveu durante a
última grande perseguição romana aos cristãos no início do
século IV e, eventualmente, se estabeleceu na França.
Embora ele já estivesse velho quando Constantino se tornou
imperador, em 312 d.C., o governador lhe pediu que fosse
tutor de seu filho mais velho.
As obras de Lactâncio são importantes, porque foram
escritas no período que antecede o império de Constantino.
Seus escritos mostram que as doutrinas cristãs haviam
sofrido poucas mudanças nos 223 anos que se passaram
entre a morte do apóstolo João e o início do império de
Constantino.

Caso já tenha esquecido os nomes que citei…


Eu compreendo que provavelmente esses nomes são
desconhecidos para você e que talvez seja difícil se lembrar
de todos eles. Por isso, incluí um dicionário biográfico ao
final deste livro. Este dicionário traz um breve esboço
biográfico de todos os autores citados no livro. Talvez você
queira colocar um marcador na página, para facilitar uma
pesquisa rápida enquanto lê.
Nas primeiras versões deste livro, eu praticamente só
descrevia as crenças e costumes dos cristãos primitivos,
incluindo somente uma ou duas citações dos escritores da
época em cada capítulo. Mas o comentário que geralmente
recebia dos amigos que revisaram os primeiros capítulos
era: “Queremos ouvir os cristãos primitivos falando, não
você. Deixe que contem sua história com suas próprias
palavras.”
Foi o que fiz. Aqui estão as histórias deles, contadas
principalmente por eles mesmos. Espero que você se sinta
tão desafiado quanto eu.
3

Cidadãos de outro reino

Ao refletir sobre todas as coisas que Jesus fez durante sua


curta vida na terra, o apóstolo João disse que se elas fossem
colocadas em papel “nem no mundo inteiro caberiam os
livros que seriam escritos” (João 21:25). Ainda assim, na
noite anterior à sua morte, Jesus teve que escolher dentre
todos os seus ensinos e lições alguns pontos chave que ele
queria que seus discípulos se lembrassem para sempre.
Ele poderia ter-lhes falado sobre teologia. Mas, não falou.
Poderia ter-lhes repreendido por todos os erros que
cometeram durante o tempo que passaram com ele. Mas não
repreendeu. Em vez disso, escolheu partilhar com eles a
planta do mais perfeito edifício que seria construído na
história da humanidade: a igreja. Jesus mostrou graficamente
para os apóstolos que aqueles que fossem liderar a igreja
deveriam servir aos outros acima de tudo. Também lhes
mostrou qual deveria ser a marca que distinguiria os
membros fiéis da igreja. A seguir, veremos três marcas que
Cristo destacou:
1. Separação do mundo. “Se o mundo vos odeia, sabei
que, primeiro que a vós outros, me odiou a mim. Se vós
fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu;
como, todavia, não sois do mundo, do contrário, dele
vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia” (João 15:18–
19).
2. Amor incondicional. “Novo mandamento vos dou:
que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei,
que também vos ameis uns aos outros. Nisto
conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes
amor uns aos outros” (João 13:34 e 35).
3. Confiança total. “Não se turbe o vosso coração;
credes em Deus, crede também em mim. Aquele que tem
os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me
ama” (João 14:1 e 21).
João escreveu estas palavras no fim do primeiro século.
Mas, a igreja continuou assim no século seguinte? Como foi
a igreja do segundo século?

Um povo que não pertence a este mundo


Jesus disse aos seus discípulos que “ninguém pode servir
a dois senhores” (Mateus 6:24). No entanto, nos últimos
dois milênios, nós cristãos temos tentado provar que ele
estava errado, pois queremos nos convencer de que
podemos, sim, ter tanto as coisas de Deus quanto as coisas
do mundo. Muitos vivem uma vida bem parecida com a vida
daqueles que não são cristãos, a única diferença é que eles
vão à igreja todas as semanas. Assistimos aos mesmos
programas de televisão, nos preocupamos com as mesmas
coisas e até compramos os mesmos produtos. Ou seja, o
“não pertencer a este mundo” existe mais na teoria que na
prática.
Contudo, a igreja não era assim originalmente. Os cristãos
primitivos viviam de acordo com princípios e valores
totalmente diferentes do resto da humanidade. Eles
renunciavam aos privilégios, às riquezas e aos divertimentos
do mundo, pois já eram cidadãos de outro reino e davam
ouvidos à voz de outro Mestre. No primeiro século era assim
e no segundo a tradição continuou.
A obra de um autor desconhecido, escrita por volta do ano
130 d.C., descreve os cristãos para os romanos da seguinte
maneira:
Vivem em seus próprios países como se fossem meros
visitantes… São de carne, mas não vivem através da carne.
Passam seus dias na terra, mas na verdade são cidadãos do céu.
Obedecem às leis prescritas, mas ao mesmo tempo, as
sobrepujam com seu estilo de vida. Amam a todos os seres
humanos, no entanto, são constantemente perseguidos por eles.
São desconhecidos e condenados. São assassinados, mas (serão)
restaurados à vida. São pobres, mas tornam muitas pessoas ricas.
Possuem quase nada, mas têm abundância de tudo. São
humilhados, mas em sua humilhação são exaltados… E aqueles
que os odeiam são incapazes de explicar a razão de tanto ódio. 1
Como a Terra não era seu lar, os cristãos podiam dizer
como Paulo: “Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o
morrer é lucro” (Filipenses 1:21). Justino Mártir deu a
seguinte explicação aos romanos:
Não nos preocupamos quando somos condenados à morte,
pois nossos pensamentos não estão fixados no presente. A morte
é uma dívida que todos teremos que pagar um dia. 2
Um ancião do século II encorajou sua congregação,
dizendo:
Caros irmãos, vamos de boa vontade esquecer nossa jornada
neste mundo temporário para fazer a vontade daquele que nos
chamou. Não tenhamos medo de partir desta vida… Não
consideremos as coisas deste mundo como nossas e não
desejemos as coisas daqui… O Senhor declara: “ninguém pode
servir a dois senhores”. Portanto, se quisermos servir a Deus e
ao dinheiro, não aproveitaremos nem uma coisa nem outra. Pois,
“Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder
a sua alma?” O mundo de hoje é inimigo do mundo porvir…
por isso, não podemos ser amigos de ambos.3
Cipriano, respeitado supervisor da igreja de Cartago,
enfatizou algo semelhante numa carta que escreveu a um
amigo cristão:
A única tranquilidade verdadeira, a única segurança sólida e
imutável é esta: para que um homem consiga renunciar às
atrações do mundo ele deve se ancorar no firme solo da
salvação, levantando os olhos da terra e elevando-os ao céu…
Aquele que é verdadeiramente superior ao mundo não pode
almejar nada aqui, nem desejar as coisas deste lugar. Como é
firme e imutável esta garantia e como é divina a proteção das
infinitas bênçãos, que nos libertam das armadilhas deste mundo
confuso, nos purificam das impurezas terrestres, preparando-nos
para a imortalidade eterna. 4
A mesma temática está presente em todos os escritos dos
cristãos primitivos. Da Europa à África, o assunto é sempre
o mesmo: não podemos servir a Deus e ao mundo.
Para que não pensemos que os cristãos primitivos
pregavam um estilo de vida que eles mesmos não
conseguiam viver, os próprios romanos testemunham o
contrário. Um pagão, antagonista dos cristãos, observou:
Eles desprezam nossos templos como se fossem cemitérios.
Rejeitam nossos deuses. Zombam das coisas sagradas.
Miseráveis, sentem pena dos nossos sacerdotes. Embora vistam
trapos, desdenham dos nossos privilégios e túnicas cor de
púrpura. Quanta audácia e insensatez! Eles não temem o
sofrimento presente, mas têm medo dos sofrimentos incertos e
futuros. Embora não tenham medo de morrer no presente, têm
medo de morrer na vida após a morte…
Povo desprezível, ao menos percebam pela situação presente o
que realmente os espera no futuro. Percebam que muitos de
vocês, na verdade, a maioria, passa necessidade, sente frio, fome
e trabalha duro, segundo vocês mesmos admitiram. E o seu Deus
permite tudo isso. Ele com certeza não quer ou não pode ajudar
seu povo. Então, ou ele é fraco, ou é injusto… Prestem atenção!
Para vocês só restam ameaças, castigos, torturas e cruzes… Que
Deus é esse que pode ajudar vocês quando ressuscitarem dos
mortos? Ele não consegue ajudá-los nem nesta vida! Não é
verdade que os romanos, mesmo sem a ajuda do Deus de vocês,
governam, dominam e aproveitam as coisas deste mundo,
inclusive o controle sobre vocês?
Enquanto isso, vocês se abstêm dos melhores prazeres do
mundo e vivem ansiosos e tensos. Vocês não frequentam os
eventos esportivos, não se interessam por diversões em público,
rejeitam os banquetes do povo e abominam os jogos sagrados…
Dessa forma, miseráveis como são, não ressuscitarão dos mortos
nem aproveitarão as coisas boas da vida. Então, se tiverem um
pouco de sabedoria ou sensatez, vocês vão parar de bisbilhotar
sobre o céu, sobre o destino e sobre os segredos deste mundo…
Pois pessoas que não conseguem entender os assuntos civis, com
certeza não tem capacidade para discutir assuntos divinos.5
A primeira vez que li as críticas que os romanos
endereçaram aos cristãos, tive a triste certeza de que hoje
ninguém faria as mesmas acusações aos cristãos modernos.
Não somos criticados por estar totalmente absortos com as
coisas do reino celestial, a ponto de ignorarmos as coisas
que o mundo oferece. Na verdade, os cristãos de hoje são
acusados justamente do contrário: ser loucos por dinheiro e
viver um cristianismo hipócrita.

Um amor incondicional
Em nenhuma outra fase do cristianismo o amor esteve tão
presente quanto nos três primeiros séculos. A sociedade
romana percebeu isso. Tertuliano informou que os romanos
costumavam dizer: “Vejam como eles amam uns aos
outros!”6
Justino Mártir definiu o amor cristão da seguinte maneira:
Nós que valorizávamos a aquisição de riquezas e posses acima
de tudo agora entregamos o que temos para um fundo comum,
que é dividido com qualquer um que necessite. Costumávamos
odiar e destruir uns aos outros, recusando-nos a fazer associação
com qualquer pessoa de outra raça ou nacionalidade, mas agora,
por meio de Cristo, vivemos junto com essas pessoas e oramos
por nossos inimigos. 7
Clemente escreveu sobre a pessoa que encontra Deus:
Ela se torna pobre por amor, para que tenha certeza de que
nunca irá negligenciar um irmão em necessidade, principalmente
se souber que pode suportar a pobreza mais que seu irmão.
Também sente a dor do outro como se fosse sua. Se acaso passar
alguma dificuldade por haver se tornado pobre, ela não reclama.8
Depois que uma praga devastadora atingiu o mundo antigo
no terceiro século, os cristãos foram os únicos que cuidaram
dos enfermos, mesmo correndo o risco de contrair a doença.
Enquanto isso, os pagãos jogavam os infectados de suas
próprias famílias nas ruas, ainda vivos, a fim de se
protegerem da peste.9
Eis outro exemplo que ilustra o amor fraternal dos cristãos
e seu compromisso inflexível com Jesus como seu Senhor:
um ator pagão se tornou cristão e percebeu que teria que
mudar de profissão, já que a maioria das peças que encenava
falava sobre imoralidades e estava cheia da idolatria pagã.
Além do mais, às vezes, o teatro transformava garotos em
homossexuais, para que eles pudessem encenar os papéis
femininos com maior perfeição. Já que o ator não possuía
nenhuma outra habilidade profissional, pensou em abrir uma
escola de dramaturgia para os pagãos que quisessem estudar
teatro. No entanto, ele primeiro levou sua ideia para os
líderes da igreja e lhes pediu conselho.
Os líderes lhe disseram que se a dramaturgia era uma
profissão imoral, então não seria certo ensiná-la aos outros.
Todavia, como aquela era uma situação nova para eles,
escreveram a Cipriano em Cartago, pedindo sua opinião.
Então, Cipriano concordou que uma profissão que não servia
para um cristão também não deveria ser ensinada por ele,
mesmo que fosse seu único meio de sustento.
Quantos de nós ficaríamos tão preocupados em fazer o que
é certo que submeteríamos uma decisão tão importante como
nosso emprego (e meio de sustento) à comissão da igreja? E
quantos líderes da igreja se preocupariam tanto em não
ofender a Deus que assumiriam uma posição tão inflexível
assim?
Mas a história não acaba aqui. Cipriano também disso
àqueles irmãos que eles deveriam sustentar o ator, caso ele
não tivesse outro meio para se manter, do mesmo modo que
sustentavam os órfãos, viúvas e outros necessitados. E ele
foi além: “Se a igreja não tiver condições de sustentá-lo, ele
deve se mudar para cá, para que possamos providenciar tudo
o que ele precisar.”10 Cipriano e sua igreja sequer
conheciam aquele ator, mas estavam dispostos a sustentá-lo
só porque era um irmão na fé. É como um cristão disse aos
romanos: “Nós nos amamos com amor mútuo, simplesmente
porque não sabemos odiar.”11 Será que se os cristãos de hoje
fizessem esse tipo de declaração o mundo acreditaria?
O amor dos cristãos primitivos não era limitado aos seus
irmãos na fé. Eles também ajudavam os que não eram
cristãos: os pobres, os órfãos, os idosos, os enfermos, os
abatidos e até seus perseguidores.12 Jesus disse: “Amai os
vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mateus
5:44). Os cristãos primitivos tomaram isso como um
mandamento de seu Senhor, em vez de um ideal que não pode
ser praticado na vida real.
Lactâncio escreveu:
Se todos somos originados de um só homem criado por Deus,
então somos uma só família. Assim, o ódio a outro ser humano
deve ser considerado abominação, não importando quão culpado
seja. Por essa razão, Jesus decretou que não devemos odiar
ninguém, mas devemos, sim, rejeitar o ódio. Deste modo,
podemos confortar nossos inimigos, lembrando-lhes da nossa
relação mútua. Pois se todos viemos à vida por meio do mesmo
Deus, o que mais somos senão irmãos? … Por sermos todos
irmãos, Deus nos ensina a nunca fazermos mal uns aos outros,
somente o bem. Devemos ajudar os oprimidos e os que estão em
dificuldade e também alimentar os famintos. 13
A Bíblia ensina que um cristão não deveria levar seu
irmão ao tribunal. Em vez disso, deve sofrer injustiça nas
mãos de seu irmão, se necessário for (leia 1 Coríntios 6:7).
Contudo, como advogado, vejo que os cristãos não hesitam
em processar seus irmãos na fé. Recentemente, aconteceu um
caso muito perturbador na cidade onde moro. Um aluno de
uma escola cristã local trabalhava em seu tempo livre para
ajudar a pagar seus estudos. Certo dia, ele foi atingido pelo
vapor de um inseticida que estava pulverizando no prédio da
escola e precisou ser hospitalizado imediatamente.
Aparentemente, o método de pulverização da escola era
inapropriado. Sabe o que aconteceu? Os pais do aluno
processaram a escola em mais de meio milhão de dólares!
Os cristãos primitivos, ao contrário, não apenas se
recusavam a levar seus irmãos ao tribunal, como recusavam
levar qualquer um a julgamento, já que viam a todos como
irmãos.
Não é de admirar que o cristianismo tenha se espalhado
tão rápido pelo mundo antigo, mesmo havendo poucos
programas evangelísticos organizados ou programas
missionários. O amor que eles viviam chamava a atenção de
todos, como Jesus disse que aconteceria.

Confiando em Deus como crianças


Para os cristãos primitivos, confiar em Deus era mais do
que um simples testemunho emocionado sobre “o dia em que
decidi confiar no Senhor”. Significava acreditar que mesmo
que obedecer a Deus causasse sofrimento, ele lhes daria
capacidade para superar os momentos difíceis.
Clemente declarou que “alguém que não faz o que Deus
ordena mostra que não acredita nele de verdade.”14 Para os
cristãos primitivos, dizer que ama a Deus e não obedecer-lhe
era uma grande contradição (leia 1 João 2:4). O cristianismo
deles era mais que meras palavras. Um cristão primitivo
disse: “Nós não falamos sobre grandes coisas, nós as
vivemos!”15
Uma das marcas dos cristãos primitivos era a obediência
literal, quase infantil, aos ensinos de Jesus e dos apóstolos.
Eles não achavam que tinham que primeiro entender um
mandamento para depois obedecer-lhe. Simplesmente
confiavam de que os caminhos de Deus eram sempre
melhores. Por isso, Clemente perguntou: “Quem poderia ser
tão audacioso a ponto de não crer em Deus e exigir que ele
desse explicações a meros seres humanos?”16
Eles confiavam em Deus porque respeitavam sua
soberania e sabedoria. Félix, um advogado cristão romano
contemporâneo de Tertuliano, escreveu:
Deus é maior que todo nosso entendimento. Ele é imenso,
infinito! Apenas Deus é capaz de compreender sua própria
magnitude, pois nossa mente é pequena demais para entendê-lo
como um todo. Estamos fazendo uma avaliação justa quando
dizemos que ele está muito além de qualquer avaliação…
Qualquer um que pense que pode compreender a grandeza de
Deus está subestimando sua majestade.17
O maior exemplo de sua total confiança em Deus era a
aceitação que tinham da perseguição que sofriam. Desde a
época do imperador Trajano (por volta do ano 110 d.C.) até
o Édito de Milão (313 d.C.), a prática do cristianismo era
proibida dentro do território romano. Ser cristão era crime
punido com a morte. Mas os oficiais romanos geralmente não
caçavam cristãos. Eles os ignoravam, a menos que alguém
fizesse uma denúncia formal. Por isso, a perseguição era
intermitente. Enquanto os cristãos de uma determinada
cidade sofriam torturas e morte, cristãos de outra cidade
vizinha permaneciam intocados. Era tudo muito
imprevisível. No entanto, todos os cristãos viviam com uma
sentença de morte pesando em seus ombros.
A própria notícia de que os cristãos estavam dispostos a
sofrer horrores e até a morrer por seu Senhor era, junto com
seu estilo de vida, sua maior ferramenta evangelística.
Poucos romanos (provavelmente nenhum) morreriam por
seus deuses. O cristianismo tinha que ter algum fundamento,
já que era tão importante para os que o praticavam. Na
verdade, a palavra grega para “testemunha” é mártir. Então,
não é de surpreender que também signifique mártir. Em
várias passagens bíblicas em que lemos “testemunha”, os
cristãos primitivos liam “mártir”. Por exemplo, Apocalipse
2:13 refere-se a “Antipas, minha testemunha, meu fiel, o
qual foi morto entre vós”. Mas os cristãos primitivos
entendiam a passagem como: “Antipas, meu mártir, meu
fiel”. Embora a maioria dos cristãos tentasse fugir da
perseguição sempre que possível, recusavam-se a sair do
Império Romano num êxodo em massa. Eles acreditavam,
com a simplicidade de uma criança, que Deus edificaria sua
igreja sobre uma pedra e que o inferno não prevaleceria
contra ela (leia Mateus 16:18).
Eles tinham consciência de que milhares deles sofreriam
torturas terríveis, morreriam de maneiras monstruosas e
seriam aprisionados. Mas tinham a certeza de que seu Pai
não permitiria que sua igreja fosse destruída. Os cristãos
enfrentavam os romanos de mãos vazias, mostrando que não
usariam recursos humanos para tentar preservar sua religião.
Confiavam em Deus e somente nele para protegê-los.
Como Orígenes disse aos romanos:
Quando Deus dá permissão ao tentador para que nos persiga,
então sofremos perseguição. Mas quando ele quer nos livrar do
sofrimento, mesmo cercados por pessoas que nos odeiam,
sentimos uma paz revigorante. Confiamos na proteção daquele
que disse: “Tende bom ânimo, pois eu venci o mundo”. E ele
realmente venceu o mundo. Assim, o mundo só prevalece
enquanto ele assim o permite, pois ele recebeu poder do Pai para
vencer o mundo. É através da vitória dele que temos coragem.
Então, mesmo que ele venha a desejar que soframos e lutemos
por nossa fé, que seja feita a sua vontade. Pois diremos aos
nossos inimigos: “Posso todas as coisas em Jesus Cristo que
me fortalece”18
Orígenes perdeu seu pai numa perseguição aos cristãos
quando ainda era adolescente e acabou morrendo torturado
nas mãos dos romanos. Ainda assim, com uma fé inabalável,
ele disse aos romanos: “No fim, todas as formas de religião
serão destruídas, exceto a religião de Cristo, que será a
única a prevalecer. Um dia, o cristianismo triunfará, pois
seus ensinos têm se apoderado mais e mais da mente dos
homens.”19
4

Certo e errado: apenas uma


questão cultural?

O cristianismo primitivo se espalhou pelo mundo antigo


como fogo em palha. Era um movimento de contracultura que
desafiava as principais instituições da sociedade romana.
Tertuliano escreveu a respeito disso:
Nosso desafio é contra as instituições dos nossos ancestrais,
contra a autoridade das tradições, contra as leis humanas, contra
a sabedoria do mundo, contra a antiguidade, contra os costumes.1
Assim, é de se estranhar que a igreja moderna afirme que
os cristãos que viveram nos primeiros séculos estavam
simplesmente ensinando e praticando a cultura de sua época.
Chega a ser irônico, já que as maiores críticas que eles
recebiam dos romanos eram por justamente não seguirem as
normas culturais daqueles tempos.
Contudo a relação que os cristãos primitivos tinham com a
cultura da época não era simplesmente uma questão de
histórias do passado. É algo que interessa à igreja atual, já
que a maioria dos problemas que a igreja do século XXI
enfrenta é bem parecida com os problemas que a igreja
primitiva enfrentava. Mas, geralmente, a maneira com que
lidamos com estas questões é bem diferente do modo como
eles lidavam com elas.

Divórcio – a praga romana


Como na maioria das sociedades, a família era o centro da
civilização romana. Mas, assim como nos nossos dias, os
casamentos eram muitas vezes infelizes. Tanto o marido
quanto a esposa geralmente tinham amantes. Nos tempos de
Cristo, os casos extraconjugais por parte de ambos os
cônjuges eram tão comuns que já não causavam escândalo.
Assim, não é de surpreender que o divórcio fosse algo
muito normal. Homens e mulheres romanos frequentemente
se casavam quatro ou cinco vezes. Tertuliano observou que:
“As mulheres anseiam pelo divórcio como se fosse uma
consequência natural do casamento.”2 Na sociedade romana,
grande parte dos casamentos era arranjada pelos pais dos
noivos. Assim, os casais em lua-de-mel geralmente não
estavam apaixonados um pelo outro e era muito comum que
nem ao menos se conhecessem até o dia do casamento. Com
frequência, a diferença de idade entre marido e mulher era
muito grande. Isso acontecia tanto com os cristãos quanto
com os romanos. Então, era muito mais fácil justificar o
divórcio naquela época que nos dias de hoje.
Todavia, os cristãos primitivos não interpretavam as
coisas sob o ponto de vista humano. Apesar de o divórcio
ser muito bem aceito na sociedade em que viviam, ele só era
permitido se houvesse adultério.3 Orígenes escreveu: “‘O
que Deus ajuntou não o separe o homem’, nem o governo,
nem qualquer outro poder. Pois o Deus que os uniu é mais
poderoso que qualquer outro deus que alguém possa criar.”4
Os cristãos levavam muito a sério as palavras de Jesus:
“Quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de
relações sexuais ilícitas, e casar com outra comete
adultério” (Mateus 19:9).5
A posição tão severa que os cristãos primitivos tinham em
relação ao divórcio obviamente não era um reflexo da sua
cultura. Mas o que dizer da nossa atitude frente ao divórcio?
Será que nossa opinião não tem seguido as tendências da
nossa cultura? Há quarenta anos, um cristão jamais poderia
se divorciar de seu cônjuge por simples “incompatibilidade
de gênios”. Mas nos dias de hoje, o divórcio tem crescido
tanto entre o povo evangélico que já está se aproximando do
índice de divórcios do mundo.6 O que mudou? Com certeza
não foi a Bíblia. Ao contrário, o grupo conservador da
sociedade americana é que mudou seu ponto de vista sobre o
divórcio. Os evangélicos geralmente se orgulham de se opor
às atitudes e tendências “mundanas”. Mas, na realidade,
geralmente nos opomos somente ao segmento liberal do
mundo. Assim que um costume é aceito pela sociedade
conservadora, logo a igreja também passa a aceitá-lo. O
divórcio é um bom exemplo disso.
Aborto — um problema muito anterior ao século XXI
Assim como nos dias de hoje, os romanos se preocupavam
com as gestações indesejadas. Como não havia os meios
modernos de contracepção, os romanos tinham três meios
para lidar com a gravidez indesejada: estrangular os recém-
nascidos, abandonar os bebês à beira de uma estrada (onde
geralmente morriam ou eram levados como escravos) e
abortar. Ao contrário do que sempre pensei, o aborto não é
uma invenção do século passado. O advogado cristão
Marcus Félix repreendeu aos romanos: “Há mulheres entre
vocês que bebem poções especiais para extinguir a vida dos
futuros seres humanos em suas entranhas, cometendo
assassinato mesmo antes de darem à luz.”7
Uma vez mais, os cristãos se posicionaram de modo
enfático ante algo que era considerado um costume moral e
civilizado. Quando alguns romanos fizeram a absurda
acusação de que os cristãos comiam crianças em seus cultos
religiosos, Atenágoras, um apologista cristão e escritor do
segundo século, respondeu às acusações da seguinte forma:
Se nós temos acusado suas mulheres que tomam poções para
abortar de cometer assassinato, que, aliás, terão que prestar
contas a Deus, como poderíamos matar [crianças]? Não faz
sentido algum considerarmos o feto como um ser humano sob
os cuidados de Deus para matá-lo depois de nascido.8
Então, Tertuliano explicou aos romanos:
Em nosso caso, já que assassinato é proibido em qualquer
forma, não podemos destruir sequer o feto no ventre da mãe…
Interromper a gravidez é apenas uma maneira mais rápida de
matar. Não importa se você mata alguém já nascido ou alguém
que ainda não nasceu.9
É admirável ver que os cristãos modernos têm se mantido
em firme oposição ao aborto, do mesmo modo que os
cristãos primitivos faziam. Espero que esta posição seja a
mesma independente da cultura, mas não sei se é assim. A
sociedade conservadora norte-americana ainda não aceitou o
aborto, assim como legisladores e juízes conservadores
também não. Mas e se a atitude deles mudar, será que a
nossa também mudará? Nesse momento, parece impossível
que algum dia mudemos nossa posição quanto ao aborto.
Mas, há mais ou menos um século, ninguém diria que o
divórcio um dia seria aceitável para o povo de Deus.

Alta moda e baixo pudor


Pedro instruiu as mulheres: “Não seja o adorno da esposa
o que é exterior, como o frisado de cabelos, adereços de
ouro, aparato de vestuários” (1 Pedro 3:3). Paulo também
deu instruções parecidas: “Da mesma sorte que as
mulheres, em traje decente, se ataviem com modéstia e bom
senso, não com cabeleira frisada e com ouro, ou pérolas,
ou vestuário dispendioso, porém com boas obras (como é
próprio das mulheres que professam ser piedosas)”
(1 Timóteo 2:9 e 10). Ao dar esses conselhos, os apóstolos
não estavam simplesmente reforçando as normas culturais da
época. Estavam fazendo justamente o contrário.
Uma mulher romana elegante usava quase todos os
apetrechos de beleza que existem em nossa época. Ela
começava o dia arrumando os cabelos e fazendo maquiagem.
Pintava os lábios, passava sombra negra nas pálpebras e
aplicava cílios postiços. Depois, passava pó no rosto e ruge
nas bochechas. Ela usava os cabelos num penteado
elaborado com franja e várias camadas de cachos, formando
uma cascata parecida com um véu de noiva. Algumas
mulheres importavam perucas da Índia e muitas tingiam os
cabelos de loiro.
Um romano escreveu a uma amiga: “Enquanto você fica
em casa… seus cabelos ficam no cabeleireiro; você tira seus
dentes para dormir e dorme entre inúmeras caixas de
cosméticos. Até seu rosto não dorme com você! Então, você
pisca para os homens nas ruas sob sobrancelhas que tirou de
uma gaveta pela manhã.”10
As mulheres romanas enfeitavam o corpo do mesmo modo
que enfeitavam o rosto. Quando iam sair, colocavam várias
joias, usando anéis muito caros em todos os dedos. As
mulheres elegantes faziam questão de usar vestidos feitos de
materiais importados e caros como a seda, que custava tanto
quanto o ouro. Clemente fez um comentário espirituoso: “O
corpo dessas mulheres não vale nem mil dracmas (moeda de
pouco valor), no entanto, elas são capazes de pagar dez mil
talentos (mais do que um romano comum ganhava durante a
vida toda) por um único vestido. Ou seja, suas roupas valem
mais que elas mesmas.”11 Até alguns homens romanos
usavam cosméticos e se vestiam de forma extravagante como
as mulheres.
Em contraste, a igreja não incentivava o uso de cosméticos
e recomendava aos membros que usassem roupas simples,
pois elas eram de baixo custo. Além disso, os vestidos caros
eram, em sua maioria, transparentes e marcavam o corpo de
modo sensual. Sobre isso, Clemente comentou:
Roupas luxuosas, mas que não escondem as formas do corpo
de nada valem. Essas roupas, quando grudam no corpo, tomam
sua forma, aderindo à carne. Elas acentuam as formas femininas
de maneira que todo o corpo fica à mostra, mesmo que não se
possa vê-lo… Esse tipo de roupa é feita para ser admirada e não
para cobrir o corpo.12
Todavia, eles não tentavam fazer leis sobre o tipo de
roupa que os cristãos deveriam usar. Embora a igreja
enfatizasse o uso de roupas simples e modestas, cabia a cada
um exatamente como aplicar esses princípios em sua vida.
Vestimentas à parte, o padrão de modéstia dos cristãos
(tanto para homens quanto para mulheres) era diferente dos
padrões romanos. Isso ficava claro nos locais de banho,
tanto particulares quanto públicos. Poucas sociedades
apreciaram tanto os banhos quentes quanto os romanos,
exceto os japoneses. Os banhos públicos eram um grande
passatempo do povo romano e também um ponto de encontro
entre eles. Nos primeiros dias da república romana, os
banhos masculinos e femininos eram totalmente separados.
Contudo, no século II, os banhos conjuntos (e nus) eram
muito comuns.13
Os romanos de classes mais altas geralmente tomavam
banho em casa, mas a modéstia era um pouco diferente.
Clemente descreveu os banhos privados da seguinte maneira:
Algumas mulheres quase não ficam nuas diante de seus
próprios maridos para fingir que têm pudor. Mas, qualquer um
que quiser pode vê-las nuas na banheira de suas casas, já que elas
não têm vergonha de se despir diante de uma plateia, como se
estivessem exibindo seus corpos para venda… Aquelas que não
perderam totalmente a vergonha, não permitem a entrada de
estranhos, mas se banham diante dos seus servos. Elas ficam
nuas na frente dos escravos e recebem massagens deles.14
Em vez disso, os cristãos ensinavam que homens e
mulheres não deviam tomar banho uns com os outros em
público, pois seu padrão de modéstia não era o padrão
romano, mas o padrão divino.15
Você não acha que há paralelos entre o padrão de
modéstia dos romanos e os padrões de hoje? A maioria das
pessoas ficaria muito envergonhada se fosse vista em roupas
íntimas em público. Contudo, não veem o menor problema
em frequentar piscinas públicas com trajes de banho que
revelam tanto ou mais que sua lingerie. Mas, não é verdade
que nós, os cristãos, geralmente seguimos nossa tendência
cultural? Às vezes, aparecemos em público com trajes de
banho que causariam espanto aos cristãos que viveram há
apenas cinquenta anos. Porém, como a comunidade
conservadora de hoje aceita nossos trajes sem maiores
dificuldades, não vemos problema algum em vesti-los. Estou
dizendo isso em primeiro lugar para mim mesmo, pois eu
costumava rotular os cristãos que eram contra os trajes de
banho modernos como puritanos ou medievais. Todavia, o
testemunho dos cristãos primitivos me fez repensar minha
posição.

Entretenimento romano — proibido para menores


Os romanos da alta sociedade gostavam muito de gastar
tempo em lazer. Preenchiam suas noites com banquetes de
glutonaria, teatro e esportes na arena. Os banquetes
chegavam a durar até dez horas. Era comum ouvir falar de
banquetes que tiveram vinte e dois pratos. Servindo iguarias
como úberes de porco e língua de pavão. Os cristãos,
contudo, não gostavam de participar dessas festas.
O teatro romano foi inspirado nos gregos e seus temas
preferidos eram o crime, o adultério e a imoralidade. Os
papéis femininos eram interpretados por garotos ou
prostitutas. Apesar de o teatro ser um dos entretenimentos
favoritos dos romanos mais cultos, os cristãos o
repugnavam. Podemos ver isso claramente no texto de
Lactâncio:
Na minha opinião a influência corrupta do teatro é ainda pior
[que a arena]. O principal assunto das comédias é a defloração
das virgens e o envolvimento com prostitutas… Da mesma
forma, as tragédias mostram pais sendo assassinados e reis que
cometem incestos… A arte da mímica é melhor que esta? Ela
ensina o adultério através de seus gestos. Que resposta
esperamos dos nossos jovens quando veem que essas coisas são
praticadas sem nenhum pudor e todos ficam ansiosos para
assisti-las.16
Tertuliano acrescentou:
O mesmo pai que protege e guarda sua filhinha de ouvir
palavras que poluem a mente, leva-a ao teatro, onde ela será
exposta a todo tipo de linguagem vil e atitudes degradantes.
Depois, pergunta de maneira retórica:
Como pode ser certo ver coisas que são erradas de se fazer?
Como uma coisa que contamina o homem quando sai de sua boca
não o contaminará quando entra através de seus olhos e ouvidos?
17 (leia Mateus 15:17–20).

Embora, a maioria dos romanos que frequentava o teatro e


participava de banquetes fosse da alta sociedade, tanto
pobres quanto ricos podiam assistir aos espetáculos no
coliseu. Os jogos no coliseu foram criados para saciar a
sede de violência, brutalidade e sangue dos romanos. O
evento preferido deles eram as brutais corridas de
carruagens. No decorrer da corrida, era inevitável que as
carruagens colidissem umas com as outras, lançando seus
condutores na pista de corrida, onde eram arrastados por
seus cavalos assustados até que morressem ou eram
pisoteados pelo cavalo de outro condutor. Quando isso
acontecia, a multidão se agitava e ia ao delírio.
Contudo, a morte e violência das corridas de carruagens
não eram suficientes para satisfazer a sede de sangue dos
romanos. Então, animais selvagens, até centenas deles, eram
trazidos para a arena para lutarem entre si – lobos contra
veados, leões contra touros, matilhas de cães contra ursos,
ou qualquer outra combinação que suas mentes pervertidas
pudessem imaginar. Às vezes, homens armados caçavam os
animais. Outras vezes, animais famintos caçavam cristãos
desarmados. Mas os romanos queriam ainda mais. Por isso,
faziam lutas de gladiadores, que eram obrigados a brigar até
a morte. Geralmente, eram prisioneiros condenados à morte.
Os romanos achavam que estavam sendo nobres ao dar a
esses homens uma “chance de lutar”. Se um gladiador
ganhasse várias lutas, poderia, eventualmente, ganhar a
liberdade. Mas, vemos uma vez mais, que os cristãos não
seguiam a cultura de seu tempo, pois Lactâncio disse aos
romanos:
Aquele que sente prazer em assistir a alguém morrer, mesmo
que esse alguém tenha sido legitimamente condenado, polui sua
consciência da mesma maneira que aqueles que são cúmplices da
morte ou que querem assistir a um assassinato secreto. E ainda
chamam isso de “esporte” — jogos nos quais sangue humano é
vertido!… Eles veem homens sob o golpe da morte, rogando por
clemência, mas como podem ser justos se não apenas permitem
que eles sejam mortos, como exigem que isso aconteça? Não se
satisfazem com o derramamento de sangue e as feridas profundas,
então votam cruelmente pela morte. Na verdade, eles ordenam
que os gladiadores, mesmo caídos e machucados, sejam atacados
e espancados, para ter certeza de que eles não estão fingindo estar
mortos.
A multidão chega a ficar com raiva dos gladiadores se um deles
não for massacrado rapidamente. Sedentos por sangue humano,
eles não toleram demoras… De tanto assistirem a esses jogos,
perderam a humanidade… Portanto, não é conveniente que nós
que queremos andar nas veredas da justiça tomemos parte neste
tipo de assassinato em público. Quando Deus nos proíbe da matar,
ele não está se referindo apenas à violência condenada pelas leis
públicas, mas também à violência que é aceita e legalizada pelos
homens.18
Será que estamos dispostos a tomar uma posição tão
inflexível em relação aos entretenimentos modernos? Depois
que li esse conselho, fiz uma análise de mim mesmo. Tive
que admitir que eu estava deixando minha cultura ditar meus
padrões de entretenimento e diversão. Apesar de evitar
assistir a filmes que fossem considerados arriscados pela
comunidade conservadora, eu assistia a filmes, e outros tipos
de entretenimento, cheios de violência, crimes e
imoralidade. Também aceitava ver cenas obscenas e
profanas e até flashes de nudez, se a classificação do filme
fosse “não recomendado para menores de 14 anos”. Então,
percebi que eu estava permitindo que a indústria
cinematográfica decidisse o que eu poderia ou não assistir.
Minha cultura tinha determinado meus padrões de
divertimento.

A evolução antes de Darwin


Os romanos gostavam de assistir a pessoas morrendo à
espada ou sendo estraçalhados por animais selvagens, pois
acreditavam que o homem não passa de um animal mais
desenvolvido. A ideia de que os humanos evoluíram
vagarosamente através do tempo não é uma visão moderna.
Assim como a teoria de que o mundo passou a existir depois
de uma grande e casual colisão de partículas de matéria. Os
romanos cultos tinham ideias muito parecidas com as dos
cientistas seculares da atualidade.
Um dos cristãos primitivos escreveu:
Alguns homens negam a existência do poder divino. Outros se
questionam diariamente se realmente existe um Deus. Outros
ainda construiriam toda a fábrica do universo por meio de
acidentes do acaso e colisões aleatórias, que aconteceriam pelo
movimento de átomos de formas diferentes.19
Sim, até o termo “átomo” não é uma invenção do século
XXI, mas um termo inventado pelos filósofos gregos.
Lactâncio também discutiu o pensamento científico dos
romanos de seu tempo:
Algumas pessoas ensinam que os primeiros homens viveram
como nômades entre bosques e vales e que não tinham nenhum
tipo de ligação, como a fala ou as leis. Em vez disso, viviam em
cavernas e grutas e usavam folhas e grama para confeccionar
suas camas. Eram vítimas das bestas e de animais de grande
porte. Finalmente, os que escapavam, depois de terem sido
feridos [por animais selvagens]… procuravam a companhia de
outros seres humanos, a fim de se proteger. A primeira forma de
comunicação humana foram os acenos com a cabeça; depois
tentaram outras formas elementares de fala. Ao colocar nome
em vários objetos, aos poucos eles conseguiram desenvolver um
sistema de fala.20
A crença cristã de que todos os humanos podem traçar sua
origem ao primeiro par humano significava que todos os
humanos eram irmãos, uma ideia nova para a cultura romana.
Então ao ensinar a criação divina, os cristãos não estavam
simplesmente repetindo o que todos em sua cultura já
acreditavam. Pelo contrário, os gregos e romanos cultos
ridicularizavam os cristãos por acreditarem na criação.
Esses mesmos intelectuais aceitavam livremente os escritos
de outros grupos étnicos que tratavam da origem do homem
— muitas não faziam o menor sentido. No entanto, eles
rejeitavam os escritos dos judeus e os cristãos sobre a
criação — apesar deles fazerem sentido.21

Para os romanos, as pessoas não eram criadas iguais


Praticamente todas as sociedades têm distinções de classe
e Roma não era diferente. Os romanos ricos desdenhavam
dos romanos pobres e os homens livres desprezavam os
escravos. Algumas profissões eram consideradas melhores
que as outras. Até os judeus tinham distinções de classe entre
si. Os cidadãos romanos se consideravam superiores a todos
os outros povos. Aqui, mais uma vez, os cristãos primitivos
iam contra a corrente cultural de seu tempo. Na verdade,
seus ensinos sobre a fraternidade foram revolucionários.
Clemente escreveu:
[Deus] deu seu próprio Filho para todos e tudo o que criou foi
para todas as pessoas. Assim, todas as coisas são bens comuns a
todos, não são propriedade dos ricos, que não repartem nada
com os outros. A expressão: “Tenho posses e posses em
abundância, então por que não desfrutar delas?”, não é adequada
nem para o indivíduo nem para a sociedade. Uma expressão mais
digna de amor seria: “Eu tenho muito, então por que não repartir
com os que precisam?… É monstruoso alguém viver com tanto
luxo, enquanto muitos passam necessidade.”22
Mais de um século depois, Lactâncio escreveu:
Aos olhos de Deus, ninguém é escravo, ninguém é senhor. Se
temos o mesmo Pai, somos todos igualmente seus filhos.
Ninguém é pobre aos olhos de Deus, a não ser aqueles que têm
falta de justiça. Ninguém é rico aos olhos de Deus a não ser
aquele com abundância de virtudes… A razão pela qual nem os
romanos nem os gregos conseguiam obter justiça era a quantia
de classes sociais diferentes que existiam. Os ricos e os pobres.
Os poderosos e os simples. A autoridade máxima dos reis e o
indivíduo comum… Contudo, alguns podem dizer: “Não é
verdade que há pobres e ricos entre os cristãos? Que há servos e
senhores? Será que não há nenhuma distinção entre as pessoas?”
Mas não há, pois a razão pela qual nos chamamos “irmãos” é que
acreditamos que somos todos iguais… Mesmo que as
circunstâncias físicas da vida cristã possam ser diferentes, não
vemos nenhuma pessoa como servo. Em vez disso, falamos com
eles — e os tratamos — como irmãos em espírito e como
nossos companheiros no serviço a Cristo.23

O papel das mulheres na religião romana


Paulo disse aos coríntios: “Conservem-se as mulheres
caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido falar; mas
estejam submissas como também a lei o determina. Se,
porém, querem aprender alguma coisa, interroguem, em
casa, a seu próprio marido; porque para a mulher é
vergonhoso falar na igreja” (1 Coríntios 14: 34 e 35).
Também disse a Timóteo: “A mulher aprenda em silêncio,
com toda a submissão. E não permito que a mulher ensine,
nem exerça autoridade de homem; esteja, porém, em
silêncio” (1 Tim. 2:11 e 12).
Atualmente, esta é uma das partes da Bíblia que mais tem
sido atacada, por causa de seu ensinamento sobre o papel
das mulheres na igreja. Muitos dizem que os apóstolos e
cristãos primitivos estavam apenas reforçando as atitudes
culturais da época em relação ao papel das mulheres na
religião e na sociedade. No entanto, as mulheres romanas
não eram conhecidas por serem submissas. Um homem
romano comentou o seguinte: “Nós dominamos o mundo, mas
somos dominados por nossas mulheres.”24
Na religião romana, as mulheres exerciam as mesmas
funções que os homens. Sumo-sacerdotisas governavam
muitos templos. Marcus Félix, um advogado cristão,
descreveu a religião romana da seguinte maneira:
Há certos lugares nos quais os homens não podem entrar e
também há lugares onde é proibida a entrada de mulheres. A
presença de um escravo em determinadas cerimônias religiosas
é considerada crime. Alguns templos são dirigidos por mulheres
que tem um marido e outros por mulheres com muitos
maridos.25
No mundo mediterrâneo antigo, a figura religiosa mais
importante era o oráculo (ou profetisa) de Delphi e esse
oráculo era sempre uma mulher.
Se o papel da mulher na igreja fosse simplesmente uma
questão cultural, em vez de um ensinamento apostólico, seria
normal encontrar mulheres que desempenhassem as mesmas
funções tanto na igreja ortodoxa como em grupos hereges,
mas não era o caso. As mulheres podiam oficiar e ensinar na
maioria dos grupos hereges. Tertuliano fez um comentário
sobre a função dessas mulheres em tais grupos: “Elas têm
audácia para ensinar, para argumentar, para exorcizar, para
fazer curas e, quem sabe, até para batizar.”26 As principais
figuras da seita montanista (depois da morte de seu fundador,
Montano) foram duas mulheres: Maximila e Prisca. Na
verdade, a maioria das profecias e novos ensinamentos desta
seita se originaram em seus membros do sexo feminino.
Assim, a exclusão de mulheres nas funções de professoras
e supervisoras de igrejas não acontecia porque os cristãos
seguiam a cultura romana.
“Espere um pouco”, você pode estar pensando, “talvez a
igreja não seguisse a cultura romana nesta questão, mas com
certeza seguiam a cultura judaica.” E é verdade que as
mulheres eram excluídas do sacerdócio no judaísmo, mas
lembre-se de que o sacerdócio judaico não era produto da
cultura humana, já que fora instituído por Deus. Além disso,
pela metade do segundo século, a maioria dos cristãos era
formada por gentios e eles não seguiam a tradição judaica.
Não guardavam o sábado, não praticavam a circuncisão, não
seguiam as leis judaicas de alimentação, não observavam as
festas judaicas, nem seguiam qualquer outra tradição do
judaísmo que não coincidisse com os ensinamentos cristãos.
A igreja primitiva simplesmente obedecia aos
ensinamentos apostólicos sobre o papel das mulheres na
igreja, assim como obedecia a todos os outros ensinamentos
dos apóstolos. Mais uma vez, eles estavam indo contra a
cultura romana, em vez de segui-la.
Algumas feministas e teólogos modernos afirmam que a
posição da igreja em relação às mulheres era fruto do
desprezo que os apóstolos e líderes da igreja primitiva
tinham por elas. Todavia, os escritos dos cristãos primitivos
dizem justamente o contrário. Por exemplo, Felix escreveu:
“Que todos saibam que todos os humanos nascem iguais;
todos nascem com capacidade de pensar e sentir; sem
distinção de idade, sexo, ou dignidade.”27 E Clemente
escreveu: “Temos que… entender que a virtude do homem e
da mulher é a mesma, pois se o Deus dos dois é o mesmo, o
senhor dos dois também é um só.”28
Mas vamos voltar a falar de nós. Por que será que o papel
das mulheres na igreja é tão comentado atualmente? Será que
isso acontece porque foram descobertos novos manuscritos
da Bíblia que ensinam coisas que diferem da Bíblia que
temos hoje? Ou será que é porque nossa cultura diz que
homens e mulheres não deveriam ter funções diferentes?
Novamente surge a pergunta: quem é incapaz de resistir às
influências culturais, nós ou os cristãos primitivos?

Ser conservador é o mesmo que ser espiritual?


Os cristãos modernos se orgulham de ser diferentes do
mundo, mas na verdade diferem apenas de um segmento da
população mundial.
Os cristãos liberais pensam que são diferentes do mundo
porque não compartilham do fanatismo, provincialismo e da
mente fechada que algumas vezes identificam o bloco
conservador de nossa sociedade. Mas a verdade é que o
estilo de vida dos cristãos liberais não é muito diferente
daquele dos liberais não cristãos.
O mesmo princípio se aplica aos evangélicos. Por nos
apegarmos aos valores conservadores, nos convencemos de
que estamos agindo de maneira independente à nossa cultura.
Mas as atitudes conservadores podem fazer parte do mundo
tanto quanto as atitudes liberais. Nossa atitude frente ao
divórcio, ao entretenimento e a outros assuntos não mudou
junto com as mudanças da nossa cultura?
De fato, há pouca diferença espiritual em seguir os
preceitos do segmento liberal da sociedade ou seguir o
segmento conservador, já que o que é considerado
conservador hoje era considerado liberal algumas décadas
atrás.
Ainda me lembro de uma conversa que tive em 1969 com
um radialista de trinta e poucos anos. Tivemos uma
discussão calorosa sobre assuntos que estavam em alta na
época – discriminação racial, a brutalidade dos policiais,
drogas e a Guerra do Vietnã. Pela natureza de seu programa
de rádio, fiquei muito surpreso com seus pontos de vista
bastante conservadores, então comentei:
–– Você é realmente direitista, não é?
Ao que ele respondeu sorrindo:
–– Não, eu não sou conservador. Para falar a verdade, não
sou nem da direta nem da esquerda, estou no meio.
Então, fez uma pausa, estudou meu rosto incrédulo e disse
sorrindo de novo:
–– A estrada é que mudou de lugar.
Na época, não dei muita importância ao que ele disse, mas
seu comentário ficou gravado em minha mente. Hoje percebo
que ele estava certo. A estrada ainda está se movendo e nós
só estamos nos enganando, quando colocamos as atitudes
conservadoras no mesmo patamar que as atitudes espirituais.
A realidade é que a igreja do século XXI está casada com
o mundo. As atitudes, o estilo de vida, e os problemas do
mundo logo se tornam as atitudes, o estilo de vida e os
problemas da igreja. Russ Taff, um cantor cristão popular,
fez a seguinte observação sobre a igreja evangélica atual:
“Cristãos frequentam consultórios psicológicos, cristãos têm
problemas familiares e cristãos se tornam alcoólatras. A
única diferença entre cristãos e não-cristãos é a fé em nosso
Deus Criador, que nos ama e nos ajuda diariamente.” Creio
que a análise de Russ Taff é sincera. No entanto, acredito
que é muito triste pensar que isso é tudo o que cristãos
professos de hoje podem dizer com sinceridade.
Originalmente, os cristãos eram muito diferentes da
sociedade onde viviam e seu principal testemunho era seu
estilo de vida. É claro que nem todos os cristãos viviam a
vida santificada que descrevi neste capítulo, mas sem
dúvida, era o estilo de vida que os cristãos primitivos
viviam.
Então, por que será que eles eram capazes de viver de
maneira diferente de sua cultura, enquanto nós achamos tão
difícil viver assim? Que poder é esse que eles tinham e nós
não temos?
5

Por que eles foram bem-


sucedidos onde geralmente
fracassamos?

Anos atrás, quando comecei a estudar os escritos dos


cristãos primitivos, meu principal interesse era traçar o
desenvolvimento histórico da doutrina cristã. Era apenas um
desafio acadêmico. Eu não esperava me sentir inspirado ou
desafiado por aquilo que leria. Mas foi exatamente o que
aconteceu. Logo que comecei meus estudos fiquei
profundamente tocado pelo testemunho e a vida daqueles
cristãos. “Então é isso que significa uma entrega completa”,
pensei. Apesar de ser considerado um cristão bastante
comprometido entre meus amigos, me dei conta de que na
igreja primitiva eu seria considerado um membro
espiritualmente fraco, sem comprometimento.
Quanto mais eu lia, mais desejava ter a mesma comunhão
que eles tinham. Eu desejava ardentemente esquecer as
preocupações deste mundo como eles faziam. Queria moldar
meus padrões de ação e de vida segundo Cristo, não segundo
a cultura do século XXI. Mas me sentia sem forças para isso.
Como eles conseguiam fazer o que eu não consigo? Então,
comecei a buscar respostas em seus escritos e encontrei três
razões fundamentais:

​• O​ papel apoiador da igreja;


•​ A​ mensagem da cruz;
•​ A​ crença de que a obediência é um trabalho conjunto
do homem com Deus.

Como a igreja ajudava os indivíduos a crescer


espiritualmente.
John Donne, poeta cristão do século XVI, escreveu:
“Nenhum homem é uma ilha”.1 Os seres humanos são
naturalmente sociáveis e têm a tendência de se adaptar à
sociedade ao seu redor. Por isso é tão difícil nadar contra a
maré da nossa cultura. Mas já houve tempos na sociedade
humana em que grandes números de pessoas rejeitaram os
valores e o estilo de vida de sua cultura. O movimento
hippie dos anos 1960 é um grande exemplo disso. Durante a
década de 1960, milhares de jovens – a maioria da classe
média – rejeitaram a busca materialista e a moda ditada pela
maioria da sociedade. Em vez disso, buscavam um estilo de
vida diferente.
O que fez com que aqueles jovens saíssem dos moldes
culturais da época e se tornassem inconformistas? A resposta
está no fato de que eles na verdade não eram inconformistas,
mas se comportavam como uma sociedade diferente.
Esse era um dos segredos dos cristãos primitivos. Eles
foram capazes de renunciar às atitudes, costumes e
entretenimentos do mundo porque eram guiados pelos
princípios de uma cultura diferente. Milhares de outros
cristãos compartilhavam os mesmos valores, atitudes e
princípios de entretenimento. Tudo o que o cristão individual
tinha que fazer era se ajustar às normas de um corpo de
crentes. Sem o apoio da igreja, viver uma vida espiritual
teria sido infinitamente mais difícil.
Cipriano observou: “Quebre um galho de uma árvore e
depois de quebrado ele não será capaz de brotar. Desvie o
riacho de sua fonte e logo ele secará.”2
A igreja primitiva era uma igreja disciplinada. Mas, ao
contrário de alguns grupos religiosos que apareceram
depois, os primeiros cristãos não tentaram criar leis para
alcançar a justiça por meio de um monte de regras e
regulamentos. Em vez disso, eles se baseavam nos
ensinamentos, no exemplo correto e no poder transformador
do Espírito Santo. As igrejas que dependem de listas de
regras para produzir santidade podem acabar produzindo
fariseus. Por essa razão, a igreja primitiva enfatizava que os
novos conversos deveriam mudar de dentro para fora. A
aparência exterior era considerada sem valor se não
refletisse o que estava acontecendo dentro da pessoa.
Clemente explicou:
Deus não dá coroa para aqueles que se abstém do pecado por
impulso, mas àqueles que se abstém por escolha própria. É
impossível alguém viver uma vida justa se não tiver escolhido
fazê-lo. Aquele que é feito justo pela exigência dos outros não é
verdadeiramente justo… É a liberdade de cada pessoa que produz
a verdadeira retidão e revela a maldade real.3
Por exemplo, apesar de incentivar o vestuário simples, a
igreja primitiva não exigia que seus membros usassem um
tipo específico de roupa e eles também não se vestiam todos
da mesma maneira. Apesar de a igreja ser contra o uso de
cosméticos, algumas mulheres cristãs os usavam. Outros
cristãos ignoravam o conselho da igreja e frequentavam o
coliseu e o teatro, mas não eram expulsos da igreja por isso.
De qualquer forma, os métodos da igreja eram efetivos, pois
até os romanos testemunhavam que a maioria dos cristãos
seguia voluntariamente suas diretrizes sobre essas questões.4
É claro que a igreja só pode ensinar pelo exemplo se
estiver sujeita aos ensinamentos de Cristo. Caso contrário,
seria mais um tropeço do que uma ajuda. Por exemplo, qual
seria a atitude da maioria dos cristãos de hoje em relação a
um crente que se vestisse de maneira simples e recatada, sem
se importar com a moda? Ou em relação a alguém que não se
importasse com os esportes violentos da atualidade? Ou
alguém que se recusasse a assistir a programas de televisão
ou filmes que fossem imorais e apimentados com linguagem
obscena e imagens violentas? Sejamos honestos, ele
provavelmente seria considerado fanático!
Mais que isso, se todo um grupo de cristãos vivesse
dessa maneira, provavelmente seria chamado de seita.
Resumindo, a igreja do século XXI veria estes cristãos da
mesma maneira que os romanos viam os cristãos primitivos.
Assim, para que um cristão moderno pudesse viver como os
cristãos primitivos, ele teria que ser um inconformista e é
muito difícil ser inconformista.

Pastores formados na universidade da vida


O comprometimento que os cristãos primitivos tinham
para com a igreja era um reflexo direto da qualidade de sua
liderança.
As igrejas evangélicas de hoje são geralmente lideradas
por um pastor e um corpo de anciões e/ou comissão de
diáconos. Normalmente, o pastor é um homem com formação
profissional e diploma de um seminário, que não se criou
entre o grupo que o contratou. Em geral, ele não manda na
igreja, mas pode usar seu poder de persuasão. O grupo de
anciãos e diáconos é geralmente composto por homens com
empregos normais. São eles que cuidam das finanças e dos
programas da igreja e, às vezes, estabelecem as normas da
congregação. Mas normalmente, os membros da igreja não
os procuram para aconselhamento espiritual e eles não são
os pastores do rebanho.
Embora ainda usemos a mesma nomenclatura usada pela
igreja primitiva – tais como: anciãos (ou presbíteros) e
diáconos – o governo da nossa igreja é bem diferente do
deles em sua essência. Na igreja primitiva, em vez de ter um
só pastor, todos os anciãos (ou presbíteros) eram pastores
em tempo integral. Conforme o cristianismo ia crescendo, se
tornava impossível reunir todos os cristãos de uma só cidade
num mesmo lugar. Assim, cada irmandade cristã da cidade
tinha ao menos um ancião ou presbítero para pastoreá-la.
Além disso, cada cidade tinha um supervisor ou bispo, que
coordenava todas as congregações da cidade. Isso ajudava a
unir os irmãos das igrejas locais. Como resultado, os
cristãos primitivos podiam falar da igreja de Corinto ou de
Alexandria, em vez de igrejas.
O supervisor (bispo) e os anciãos (presbíteros) não eram
desconhecidos trazidos para a igreja local. Em vez disso,
eles geralmente eram pessoas que moravam naquela
comunidade há anos. Então, a congregação conhecia muito
bem seus defeitos e qualidades. Além disso, não eram
escolhidos como supervisores ou anciãos por haverem
estudado e enchido suas mentes com conhecimento. Pelo
contrário, as congregações estavam mais interessadas na
espiritualidade do líder que em seus conhecimentos. Como
era seu relacionamento com Deus? Ele era um exemplo a ser
seguido? Estava disposto a morrer por Cristo? Como
Tertuliano disse aos romanos: “Nossos presbíteros são
homens valorosos que não compram sua posição, mas que a
alcançam pelo seu caráter”.5
Não havia seminários. Um homem aprendia as habilidades
necessárias para ser um líder de igreja através da
experiência. Ele era treinado pelo grupo de anciãos e
aprendia a andar com Deus e a pastorear o rebanho através
do exemplo. Ele tinha a oportunidade de trabalhar com a
congregação sob a supervisão dos anciãos com a
congregação e, durante esse período, lhe era permitido
cometer erros. O candidato tinha que ser capaz de ensinar
pelo exemplo tanto quanto por palavras antes que pudesse
ser considerado apto a servir como ancião ou supervisor.
Lactâncio explicou a diferença entre professores pagãos e
professores cristãos:
Sempre pergunto sobre quem ensina princípios de vida e
forma o caráter de outros: “Não é ele obrigado a viver de acordo
com os princípios que ensina?” Se ele mesmo não vive segundo
esses princípios, seus ensinamentos são nulos… Seus alunos lhe
darão respostas como esta: “Eu não posso praticar as coisas que
você ensina, porque elas são impossíveis. Você me proíbe de ter
raiva. Você me proíbe de cobiçar. Você me proíbe de praticar a
luxúria. E, por fim, você me proíbe de temer a dor e a morte.
Isso é totalmente contrário à natureza; todas as criaturas estão
sujeitas a essas emoções. Já que você está tão convencido de que
é possível viver de forma contrária aos nossos impulsos naturais,
deixe-me primeiro ver você praticando as coisas que ensina,
então, saberei que elas são possíveis.”… Como [o professor]
poderá acabar com essa desculpa dos obstinados, se ele não for
um exemplo? É somente através do exemplo que seus alunos
verão que as coisas que ele ensina são possíveis. É por isso que
ninguém obedece aos ensinamentos dos filósofos. As pessoas
preferem exemplos a palavras, porque falar é fácil, mas é difícil
praticar o que se diz.6
Em uma de suas cartas, Cipriano descreveu o processo de
seleção de um novo bispo ou supervisor:
[Ele] deve ser escolhido na presença da congregação, sob a
observação de todos e deve ser considerado digno e apto pelo
julgamento público e testemunho… Para uma ordenação correta,
todos os supervisores da província deveriam se reunir com a
congregação. O supervisor deveria ser escolhido na presença da
congregação, já que eles estão familiarizados com sua vida e
seus hábitos.7
Uma vez escolhido como supervisor, ele normalmente
permanecia na igreja local pelo resto da vida, a não ser que
tivesse que se mudar por causa de uma perseguição. Ele não
servia por três ou quatro anos e depois se mudava para outro
lugar. Como foi mencionado mais cedo, não somente o
supervisor, como também os anciãos eram pastores e mestres
em tempo integral. Os anciãos não deviam ter nenhum outro
emprego, a não ser que a congregação fosse pequena demais
para sustentá-los financeiramente, pois assim poderiam se
dedicar totalmente ao rebanho.
Existem cópias de uma série de cartas trocadas entre duas
congregações primitivas sobre um ancião que tinha sido
nomeado testamenteiro no testamento de um cristão falecido.
De acordo com a lei romana, alguém que fosse nomeado
como testamenteiro no testamento de uma pessoa era
obrigado a cumprir seu papel, querendo ou não. Essa tarefa
consumia muito tempo. Então, o ancião ficou muito surpreso
quando soube que tinha sido nomeado, pois aquele dever o
afastaria de suas responsabilidades de pastor. De fato, todo
o corpo de anciãos ficou admirado.8
Os cristãos primitivos tinham o privilégio de ser
pastoreados por anciãos cuja única preocupação era o bem-
estar espiritual de suas ovelhas. Com tantos pastores em
tempo integral, com certeza cada membro da igreja podia
receber atenção dirigida.
Para alguém que pudesse servir como ancião ou
supervisor na igreja primitiva, era necessário estar disposto
a deixar tudo por amor a Cristo, começando pelos bens
materiais. É importante saber que o ancião não deixava seu
emprego normal para receber um salário de classe média da
igreja. Pagar qualquer tipo de salário para um líder era
considerado uma heresia naquele tempo. Em vez disso, a
igreja dava-lhes o mesmo apoio financeiro que as viúvas e
órfãos recebiam. Isso significava que os líderes tinham o
suficiente para as necessidades básicas e um pouco mais.9
Mas abandonar suas posses materiais não era o único
sacrifício que faziam. Eles tinham que estar dispostos a ser
aprisionados e a sofrer tortura e morte. A maior parte dos
escritores citados neste livro era ancião ou supervisor, sendo
que mais da metade deles (Inácio, Policarpo, Justino Mártir,
Hipólito, Cipriano, Metódio e Orígenes) acabou perdendo a
vida por Jesus.
Com líderes com tamanho comprometimento, é fácil
entender por que os cristãos comuns se sentiam inspirados a
caminhar com Deus e renunciar aos padrões mundanos.

O povo da cruz
Ninguém gosta de sofrer. Recentemente, li uma pesquisa
com o povo norte-americano sobre sua opinião em relação
ao déficit no orçamento nacional. Praticamente todos os
entrevistados concordaram que o déficit tinha que ser
reduzido. Mas, ao mesmo tempo, quase três quartos deles
eram contra aumentar os impostos ou cortar gastos
governamentais. Em outras palavras, eles queriam que o
déficit diminuísse sem que houvesse nenhum sofrimento.
Nenhum sofrimento! É assim que queremos que o
cristianismo seja. Porém, Jesus disse aos seus discípulos: “E
quem não toma a sua cruz e vem após mim não é digno de
mim. Quem acha a sua vida perdê-la-á; quem, todavia,
perde a vida por minha causa achá-la-á” (Mateus 10:38 e
39). Apesar do que nosso Mestre nos disse, a mensagem da
cruz não é muito popular hoje em dia. Quando falamos do
evangelho às pessoas, raramente mencionamos as palavras
de Jesus sobre ter que carregar a cruz. Na verdade, damos a
impressão que uma vez que a pessoa aceite a Cristo sua vida
será repleta de felicidade.
Nos tempos da igreja primitiva, a mensagem que os novos
convertidos ouviam era bem diferente: “Ser cristão é sofrer.”
A declaração de Lactâncio era bem comum:
Aquele que escolhe viver bem pela eternidade, terá uma vida
de desconforto no presente. Estará sujeito a todo tipo de fardo e
problema aqui na Terra, para que no fim receba o consolo
celeste. Por outro lado, aquele que escolhe viver bem no
presente vai ficar mal durante toda a eternidade.10
Jesus fez uma alegoria parecida quando contrastou o
caminho estreito e apertado que leva à vida com a estrada
larga e espaçosa que conduz à destruição (leia Mateus 7:13 e
14).
Inácio, bispo (supervisor) da igreja de Antioquia e
companheiro do apóstolo João, foi preso por causa de seu
testemunho como cristão. Enquanto estava sendo levado para
Roma para ser executado, escreveu cartas de advertência e
encorajamento para várias congregações cristãs. Ele disse a
uma dessas igrejas:
Portanto é necessário não somente ser chamado pelo nome de
‘cristão’, mas ser um cristão de verdade… Se não estivermos
dispostos a passar pelo mesmo sofrimento de Cristo, sua vida
não está em nós11 (leia João 12:25).
Para outra congregação, ele escreveu:
Que tragam o fogo e a cruz. Que soltem as matilhas de animais
selvagens. Que quebrem e desloquem meus ossos e cortem
meus membros. Que mutilem todo o meu corpo. Na verdade, que
tragam todas as torturas diabólicas de Satanás. Mas deixem que
eu me apegue a Cristo!… Eu prefiro morrer por Cristo que
ganhar todos os reinos deste mundo.12
Logo depois de escrever essas palavras, Inácio foi levado
diante de uma multidão enlouquecida no Coliseu de Roma,
onde foi despedaçado por animais selvagens.
Tertuliano encorajou um grupo de cristãos que padecia
numa masmorra romana com as seguintes palavras:
Vejam tudo o que tiverem que sofrer como uma disciplina para
sua mente e corpo. Vocês estão prestes a passar por uma luta
nobre, em que o Deus vivo é quem os dirige e o Espírito Santo é
quem os treina. O prêmio é uma coroa eterna e angelical, a
cidadania celeste e a glória infinita… A prisão faz para o cristão
o mesmo papel que o deserto fez para o profeta. O próprio Jesus
passou muito tempo sozinho, para que tivesse maior liberdade
para orar e se manter afastado do mundo… Os pés não sentem
as correntes quando a mente está no céu.13
No entanto, a maioria dos cristãos não precisava ser
avisada do sofrimento que viria, pois já tinham visto tudo
com seus próprios olhos. Na realidade, um dos meios mais
poderosos de evangelismo da época era o testemunho dos
milhares de cristãos que passavam por sofrimento e morte
apenas para não renunciar ao seu Senhor.
Em sua primeira apologia, Tertuliano relembrou aos
romanos que a perseguição deles apenas fortalecia os
cristãos:
Quanto mais vocês nos matam, mais crescemos em
quantidade, pois o sangue cristão é como uma semente… Pois
quando pensam sobre o assunto, qual de vocês não fica curioso
em saber o que está por trás disso tudo? E quando perguntam por
aí, quem é que não acaba adotando nossos ensinamentos? E
depois que os adotam, como não sofrer também para receber
conosco a glória de Deus?14

Evangelho pleno
Hoje em dia, este termo muito comum chegou a significar
“pentecostal” ou “carismático”. Porém, um dos problemas
da igreja atual é que raramente ouvimos o evangelho pleno
sendo pregado, sejamos nós carismáticos ou não. Geralmente
os sermões falam sobre as bênçãos de ser cristão, mas quase
nunca mencionam o sofrimento por Cristo.
Estamos tão distantes da mensagem da igreja primitiva,
que a maioria de nós não tem a menor ideia do que é sofrer
por Cristo. Anos atrás, ouvi um sermão de um pastor sobre
1 Pedro 4:16: “Mas, se sofrer como cristão, não se
envergonhe disso; antes, glorifique a Deus com esse
nome”. O pastor comentou que a maioria dos cristãos
modernos não entende o conceito de sofrer por Cristo.
Depois do culto, eu estava conversando com o pastor
quando um diácono se aproximou e lhe agradeceu pela
mensagem. O diácono concordou que a maioria dos cristãos
não compreende o que é sofrer por ser cristão. Contudo, o
diácono disse que ele sabia exatamente o que o pastor quis
dizer. Então, passou a descrever a dor e o sofrimento que ele
passou alguns anos antes durante uma cirurgia. Enquanto
voltava para casa, fiquei pensando na maneira como o
diácono ilustrou tão bem o ponto de vista que o pastor estava
tentando mostrar: que os cristãos modernos não sabem o que
significa sofrer por Cristo. Achamos que quando enfrentamos
as mesmas tribulações que todo mundo enfrenta, estamos
sofrendo por Cristo.
É claro que há outros meios de carregar nossa cruz,
diferentes de sofrer perseguição. Clemente comenta que para
um cristão comum a cruz pode ser representada por um
casamento em que o cônjuge não é cristão, ou ter que
obedecer a pais que não creem em Deus, ou ainda, ser
empregado de um patrão descrente. Mas embora todas essas
situações trouxessem muito sofrimento físico e emocional,
elas eram uma cruz mais leve para carregar para os que já
tinham se comprometido a sofrer tortura e morte por amor a
Cristo (leia Romanos 8:17; Apocalipse 12:11).
No passado, os cristãos suportavam casamentos dolorosos
com descrentes por toda a vida, mas hoje, milhares de
cristãos se divorciam de seus cônjuges crentes sem
pestanejar, pelo simples fato de seus casamentos não serem
aquilo que idealizaram. Essas pessoas preferem desobedecer
a Deus que carregar uma cruz tão leve. Já houve cristãos que
me disseram que simplesmente não conseguiam continuar
suportando um casamento cheio de brigas. Fico imaginando
o que essas pessoas dirão no dia do juízo, quando se
encontrarem com cristãos que preferiram ter os olhos
queimados com brasas vivas, ou seus braços arrancados, ou
ainda sua pele rasgada a desobedecer a Deus. Por que será
que aqueles cristãos eram capazes de suportar tamanho
sofrimento enquanto nós mal conseguimos manter um
casamento fracassado? Talvez seja porque não aceitamos a
responsabilidade de carregar nossa cruz.
Há muitos anos, uma mulher me contou que estava se
divorciando de seu esposo, pois os dois já não se davam
bem. Ela me disse, com lágrimas nos olhos: “Não quero ser
obrigada a viver assim pelo resto da minha vida.” Mais
tarde, comecei a pensar na expressão que ela tinha usado:
“pelo resto da minha vida”. Lembrei-me das muitas vezes
que eu mesmo havia dito aquelas palavras. O uso de tal
expressão me mostrou que o céu não era uma realidade para
mim, ao menos não no mesmo sentido da minha vida
terrestre.
Os cristãos primitivos aceitavam o sofrimento físico,
porque seus olhos estavam fixos na eternidade. Eles não
pensavam que o sofrimento duraria “pelo resto de suas
vidas”, mas por no máximo cinquenta ou sessenta anos, já
que o “resto de suas vidas” seria passado com Jesus na
eternidade. Se comparado a isso, o sofrimento presente é
irrelevante. Assim como Tertuliano, eles entendiam que “os
pés não sentem as correntes quando a mente está no céu”.

Os humanos são capazes de obedecer a Deus?


Os cristãos primitivos não tentavam viver uma vida de
comprometimento com Deus simplesmente por suas próprias
forças, pois tinham consciência da necessidade de um poder
divino para vencer o mal. Mas isso não é nenhuma novidade.
Os cristãos de todos os tempos, em todas as denominações,
sabem que precisamos da ajuda de Deus para seguir seus
mandamentos.
Eu não creio que alguém já tenha tido a pretensão de tentar
servir a Deus sem a ajuda dele. O que geralmente acontece é
o seguinte: no começo, caminhamos lado a lado com Deus,
dependendo totalmente do seu poder. Mas, com o passar do
tempo, começamos a escorregar na vida espiritual, nos
afastando lentamente de Deus. Isso normalmente acontece
internamente, pois na aparência somos a mesma pessoa.
Apesar de ainda fazermos as coisas que as pessoas que
dependem de Deus fazem, nossas orações começam a se
tornar cada vez mais frias e formais. Talvez ainda leiamos a
Bíblia, mas nossa mente está pensando em outros interesses.
Por fim, acabamos dependendo apenas de nossos próprios
esforços pra continuar “firmes” na fé.
O problema não é que a igreja não prega sobre a
necessidade de depender do poder de Deus. Na realidade, os
cristãos evangélicos pregam que não somos capazes de fazer
qualquer coisa boa por vontade própria. Contudo, se somos
incapazes de obedecer a Deus e não há nada que possamos
fazer a respeito dessa desobediência, temos que orar para
que Deus nos torne obedientes. Mas será que isso realmente
funciona?
Lembro-me de como fiquei animado quando ouvi pela
primeira vez alguém dizer numa pregação que não podemos
fazer nenhum bem por nossas próprias forças, pois só Deus
pode fazer coisas boas através de nós. Tudo o que temos que
fazer é pedir que ele transforme nosso caráter e nos ajude a
vencer nossos pecados. Então pensei comigo: “Este é o
segredo!” Mal podia esperar para colocar aquela ideia em
prática. Eu deixaria Deus mudar meus defeitos de caráter e
erradicar meus pecados. Então, orei fervorosamente para
que Deus efetuasse aquilo em mim. Entreguei tudo nas mãos
dele. Depois, esperei, mas nada aconteceu. Então, orei mais
ainda. Mesmo assim nada mudou.
No começo, achei que o problema fosse comigo. Será que
minhas orações não eram sinceras? Mas depois conversei
com outros cristãos sobre o assunto e descobri que eu não
era o único a enfrentar aquele problema. Eles também não
haviam obtido bons resultados. “Então por que vivem
dizendo que Deus transforma nosso caráter e nos torna
obedientes como num passe de mágica?”, perguntei. “Porque
deveria ser assim”, foi a resposta que recebi. Percebi que a
maioria dos cristãos tinha medo de falar sinceramente sobre
aquele assunto, pois temiam ser os únicos que não tinham
obtido sucesso. Assim, estávamos todos agindo como na
história das novas roupas do imperador[1], com medo de que
pensassem que não éramos cristãos espirituais.
Não estou dizendo que o método do “simplesmente ore”
não funcione para ninguém, só estou dizendo que não
funcionou comigo e, de acordo com a história, também não
funcionou com a igreja. Nossa doutrina sobre esse assunto é
fruto de Martinho Lutero, que disse que somos incapazes de
fazer o bem por nós mesmos e que tanto o desejo quanto a
capacidade em obedecer a Deus vem dele e somente dele.
Mas embora essa fosse a pedra fundamental da Reforma na
Alemanha, ela não produziu uma nação cristã obediente e
espiritual. Muito pelo contrário. A Alemanha luterana era
uma fossa de embriaguez, imoralidade e violência.
Simplesmente sentar e esperar que Deus fizesse todo o
trabalho não produziu nem uma igreja nem uma nação
espiritual.15
Os cristãos primitivos, ao contrário disso, nunca
ensinaram que o ser humano não é capaz de fazer o bem ou
vencer o pecado. Eles acreditavam que temos, sim,
capacidade para servir e obedecer a Deus. Mas, antes de
tudo, temos que ter um amor profundo por ele e um grande
respeito por seus mandamentos. Como disse Hermes: “O
Senhor precisa estar no coração dos cristãos, não apenas em
seus lábios”.16 Mas ao mesmo tempo, os cristãos primitivos
não acreditavam que poderiam vencer todas as suas
fraquezas e permanecer obedientes a Deus dia após dia
apenas com sua própria força. Precisavam buscar poder em
Deus. Mas não era apenas uma questão de buscar a Deus e
esperar sentado.
Eles acreditavam que a caminhada com Deus é um
trabalho em conjunto. O cristão deve estar disposto a fazer
sacrifícios, colocando toda sua energia e sua alma nesse
trabalho. Mas também tem que reconhecer que precisa da
ajuda de Deus. Como Orígenes explicou: “Ele se manifesta
àqueles que, depois de fazerem tudo o que está ao seu
alcance, confessam que precisam de sua ajuda.”17
A igreja primitiva acreditava que o cristão devia desejar e
buscar a ajuda divina ardentemente. Mas não era uma mera
questão de pedir essa ajuda só uma vez, na verdade, era um
processo contínuo. Clemente ensinou aos seus alunos:
Um homem que trabalhe por si mesmo para se libertar do
pecado nada consegue. Porém, se ele se mostra verdadeiramente
ansioso por isso, Deus o ajuda a alcançar sua meta. Deus trabalha
junto com pessoas dispostas. Mas se a pessoa abandona seu
entusiasmo, o Espírito de Deus também se contém. Para salvar
aquele que é resistente, usa-se a coação, mas para salvar o
homem disposto, basta mostrar a graça.18
Então, os cristãos primitivos consideravam a retidão
pessoal como uma obra conjunta de Deus com o homem.
Havia uma fonte de poder infinita em Deus e o segredo era
saber tirar proveito desse poder. A vontade tinha que vir do
próprio cristão. Como bem lembrou Orígenes, não somos
marionetes de madeira que Deus manipula ao seu bel
prazer.19 Somos seres humanos capazes de desejar a Deus e
responder a ele. Ao se referir ao entusiasmo de nossa parte,
Clemente não estava se referindo a um mero desejo. Em vez
disso, ele disse que temos que estar dispostos a sofrer uma
dolorosa “perseguição interior”. Matar nossos maus hábitos
é um processo doloroso. Assim, se não estivermos dispostos
a sofrer interiormente, lutando contra nossos pecados, então
Deus não nos dará poder para vencê-los (leia Romanos 8:13;
1 Coríntios 9:27).20
Algumas pessoas podem se sentir incomodadas com esse
ensinamento dos cristãos primitivos. Mas como disse Jesus:
“Mas, se faço, e não me credes, crede nas obras” (João
10:38). Antes de menosprezar a teologia dos cristãos
primitivos, é melhor que se tenha uma boa explicação para o
poder espiritual que tinham. Pois não podemos negar o fato
de que eles tinham muita força espiritual. Nem os romanos
pagãos argumentavam contra isso. Como declarou Lactâncio:
Quando as pessoas veem que alguém está dilacerado por tantas
torturas diferentes e ainda assim permanece firme, mesmo
quando seu torturador já está esgotado, passam a crer que o
compromisso de tantas pessoas e a fé persistente dos
moribundos têm algum significado. Então percebem que apenas
a perseverança humana não seria capaz de suportar todas essas
torturas sem a ajuda de Deus. Ainda os ladrões e homens fortes
não são capazes de aguentar essas torturas… Mas aqui entre nós,
jovens e delicadas mulheres, isso sem falar dos homens,
superam silenciosamente a seus torturadores. Nem mesmo o
fogo é capaz de lhes fazer soltar um único gemido… Essas
pessoas, os jovens e o sexo frágil, suportam a mutilação e
queima de seus corpos como se não tivessem outra opção. Mas,
se quisessem, poderiam facilmente evitar tudo isso
(simplesmente negando a Cristo). Mas suportam tudo com
prazer, pois colocam sua confiança em Deus.21

A história não acabou


Em suma, a igreja atual poderia aprender lições valiosas
com os cristãos primitivos. Havia três fatores que permitiam
que eles vivessem como se fossem cidadãos de outro reino e
pessoas de outra cultura: 1) o papel apoiador da igreja, 2) a
mensagem da cruz e 3) a crença de que o homem e Deus
devem trabalhar juntos para atingir a santidade humana.
Eu podia terminar o livro aqui e deixar que ele fosse um
simples inspirador esboço histórico. Mas, se eu fizesse isso,
estaria lhe contando apenas metade da história e é preciso
contar a história toda. Contudo, já digo de antemão que o
resto dessa história poderá deixá-lo incomodado, pois foi o
que aconteceu comigo.
[1]
N.T. Aqui, o autor faz referência ao conto de Hans Christian
Andersen, A Nova Roupa do Imperador.
6

O que eles criam quanto à


salvação

Logo que comecei a estudar o cristianismo primitivo,


fiquei surpreso com o que estava lendo. Na verdade, depois
de alguns dias de leitura, coloquei os livros de volta na
estante e decidi descartar minha pesquisa completamente.
Contudo, depois de analisar a situação, percebi que o
problema era que seus escritos contradiziam muitas das
minhas convicções teológicas.
Isso não quer dizer que nenhuma das minhas crenças
tivesse respaldo nos escritos do cristianismo primitivo. As
crenças deles confirmavam muitas das minhas convicções.
Por outro lado, eles com frequência ensinavam coisas que
iam contra o que eu acreditava e até designavam algumas das
minhas opiniões como heresias. Talvez aconteça o mesmo
com você.
Para ilustrar isso, nestes capítulos seguintes discutiremos
cinco crenças religiosas que eram aceitas por todos os
cristãos primitivos. Mas estas crenças não são as mais
difíceis de aceitar, porém, também não são as mais fáceis.
Talvez você concorde com algumas delas, mas acho
improvável que concorde com todas. Contudo, por favor,
entenda que eu não estou pedindo que você aceite esses
ensinamentos. Apenas peço que você escute o que eles têm a
dizer.

Somos salvos somente pela fé?


Se houvesse uma única doutrina em que pudéssemos
encontrar algo que seja fiel aos ensinos dos apóstolos, seria
a doutrina da salvação pela fé. Afinal, essa é a pedra
fundamental do movimento reformista. Na verdade, dizemos
que as pessoas que não seguem essa doutrina não são cristãs
de verdade.
A história que geralmente ouvimos sobre a igreja é que os
cristãos primitivos ensinavam a doutrina da salvação pela fé,
assim como nós. Contudo, depois que o imperador
Constantino corrompeu a igreja, eles começaram aos poucos
a ensinar que as obras tinham um papel importante no
processo da salvação. A passagem a seguir, retirada do livro
de Francis Schaeffer, “Como Viveremos” (Ed. Cultura
Cristã, 2003) nos dá uma definição bem típica do panorama.
Depois de descrever a queda do Império Romano e o
declínio da aprendizagem no Ocidente, o autor escreveu o
seguinte:
A Bíblia foi preservada graças aos monges, assim como alguns
clássicos gregos e latinos… Todavia, o cristianismo puro que é
descrito no Novo Testamento foi aos poucos sendo distorcido.
Agregou-se a ele um elemento humanista: a autoridade da igreja
foi se sobrepondo aos ensinos da Bíblia. Então, o cristianismo
passou a dar cada vez mais ênfase no merecimento do homem
pelo sacrifício de Cristo, em vez de enfatizar o sacrifício em si.1
Assim como Schaeffer, a maioria dos escritores
evangélicos nos dá a impressão de que a ideia de que nossos
próprios méritos e obras afetam nossa salvação foi um
conceito que entrou gradualmente na igreja depois do
império de Constantino e da queda de Roma. Mas não é bem
assim.
Os cristãos primitivos em geral acreditavam que as obras
ou a obediência têm um papel essencial para a salvação, o
que talvez seja um pouco chocante para a maioria dos
cristãos modernos. Mas para que fique bem claro, citei
abaixo (praticamente em ordem cronológica) algumas
palavras de escritores primitivos de todas as gerações,
desde o apóstolo João até o império de Constantino. O
primeiro é Clemente de Roma, companheiro de Paulo2 e
supervisor da igreja de Roma, que escreveu:
Assim, é preciso que pratiquemos prontamente as boas obras.
Pois ele nos advertiu: “E eis que venho sem demora, e comigo
está o galardão que tenho para retribuir a cada um segundo
as suas obras” (Apocalipse 22:12)… Lutemos, pois, para estar
entre aqueles que o aguardam, a fim de que recebamos a
recompensa prometida. Mas como faremos isso? Fixando
nossos pensamentos em Cristo mediante a fé, buscando as
coisas que são boas e agradáveis a ele, fazendo a sua vontade e
seguindo no caminho da verdade, tirando todo pecado e injustiça
de nós.3
Policarpo, companheiro pessoal do apóstolo João,
ensinou:
Aquele que ressurgiu dentre os mortos também nos levantará,
se fizermos sua vontade, guardarmos seus mandamentos e
amarmos as coisas que ele amou, afastando-nos de toda
injustiça.4
A Epístola de Barnabé diz o seguinte:
Aquele que guarda isso [os mandamentos], será glorificado no
reino de Deus, mas aquele que escolhe outro caminho será
destruído junto com suas obras.5
Hermes, que escreveu suas obras entre 100 d.C. e 140
d.C., afirmou:
Somente aqueles que temem a Deus e guardam seus
mandamentos têm vida com o Senhor. Mas, aqueles que não os
guardam, não há vida neles… Assim, todos que o desprezam e
não guardam sua Lei se entregam à morte e cada um será culpado
de seu próprio sangue. Contudo, lhes imploro: guardem seus
mandamentos e vocês serão curados de seus pecados
passados.6
Em sua primeira apologia, escrita por volta de 150 d.C.,
Justino Mártir disse aos romanos:
Ensinaram-nos… que ele só aceita aqueles que imitam as
virtudes que ele possui – domínio próprio, justiça e amor pela
humanidade… E assim recebemos [seus ensinos], que se os
homens se mostram dignos de seu desígnio por meio de suas
obras, são considerados dignos de reinar com ele, sendo
libertos da corrupção e do sofrimento.7
Clemente de Alexandria escreveu por volta do ano 190
d.C.:
O Verbo, tendo revelado a verdade, mostrou à humanidade o
cume da salvação, a fim de que se se arrependerem sejam salvos,
mas se não obedecerem sejam condenados. Esta é a
proclamação da justiça: aos que obedecerem, regozijo; aos que
desobedecerem, condenação.8
E novamente:
Quem quer que obtenha [a verdade] e se destaque por boas
obras receberá o prêmio da vida eterna… Algumas pessoas
entendem da maneira certa como [Deus provê a força
necessária], mas quando dão pouca importância às obras que
levam à salvação, não estão se preparando corretamente para
alcançar seus objetos de esperança.9
Orígenes, que viveu no início do século III, escreveu:
A alma… [será] recompensada de acordo com o que merece,
estando destinada a receber ou a herança da vida eterna, caso
tenha atingido isso em seus atos ou a punição do fogo eterno,
se a culpa de seus crimes a levarem a isso.10
Hipólito, um supervisor cristão que viveu na mesma época
que Orígenes, escreveu:
Os gentios, pela fé em Cristo, se preparam para a vida eterna
através das boas obras.11
E escreveu novamente:
Quando der o justo juízo do Pai para todos, Jesus o fará
segundo as obras de cada um… A justificação será o prêmio
de cada justo, aqueles que fizeram o bem receberão a felicidade
eterna. Para os amantes dos prazeres será dada a punição
eterna… Mas os justos lembrarão apenas das boas ações, pelas
quais alcançaram o reino do céu.12
Cipriano escreveu:
Profetizar, expulsar demônios e realizar grandes atos sobre a
terra com certeza é nobre e admirável. Todavia, ninguém alcança
o Reino do Céu, mesmo que faça essas coisas, se não andar no
caminho da justiça. O Senhor diz: “Muitos, naquele dia, hão de
dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós
profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos
demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então,
lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de
mim, os que praticais a iniquidade” (Mateus 7:22–23). É
preciso ter retidão para que se possa merecer a Deus nosso Juiz.
Devemos obedecer aos seus preceitos e advertências para que
nossos méritos possam receber sua recompensa.13
Finalmente, Lactâncio explicou aos romanos, por volta do
ano 300 d.C.:
Então por que ele criou o homem frágil e mortal?… Para que
pudesse colocar a virtude diante do homem, isto é, paciência
com a maldade e o trabalho, através da qual ele poderá receber
a recompensa da imortalidade. Pois já que o homem consiste
em duas partes, corpo e alma, onde a primeira é terrena e a
segunda divina, duas vidas lhe foram designadas. A primeira, que
aponta para o corpo, é transitória. A outra, pertencente à alma, é
eterna. Recebemos a primeira ao nascer e conquistamos a outra
com muita luta, pois a imortalidade não está disponível ao
homem sem que passe por dificuldades… E foi por isso que ele
nos concedeu a vida presente, para que possamos ou perder a
vida eterna por causa dos nossos pecados, ou ganhá-la pela
virtude.14
Na verdade, todo escritor do cristianismo primitivo que
discutia esse assunto apresentava o mesmo ponto de vista.

Isso significa que os cristãos ganham a salvação através


das obras?
Não, os cristãos primitivos não ensinavam que nós
ganhamos a salvação por praticarmos boas obras. Eles
reconheciam e enfatizavam o fato de que a fé é
absolutamente essencial para a salvação e que sem a graça
de Deus ninguém pode ser salvo. Todos os escritores citados
acima enfatizaram isso. Abaixo estão alguns exemplos:

​• ​Clemente de Roma escreveu: “Não somos


justificados por nós mesmos. Nem por nossa
própria sabedoria, conhecimento, espiritualidade
ou obras feitas de todo coração. Mas somente pela
fé através da qual o Deus Todo-poderoso justificou
todos os homens desde o princípio.”15
Policarpo escreveu: “Muitos desejam alcançar este
gozo, sabendo que ‘pela graça sois salvos,
mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de
Deus’ (Efésios 2:8).”16
Barnabé escreveu: “O Senhor entregou sua carne
para a corrupção, a fim de que possamos ser
santificados através da remissão de pecados, que é
efetuada por meio do seu sangue.”17
Justino Mártir escreveu: “Nosso Cristo, que sofreu
e foi crucificado, não foi amaldiçoado pela Lei. Em
vez disso, nos mostrou que somente ele pode salvar
aqueles que não se afastam da fé nele… Assim
como o sangue da Páscoa salvou os que estavam no
Egito, assim também o sangue de Cristo salvará da
morte aqueles que crerem.”18

​• ​Clemente de Alexandria escreveu: “Acontece que


só há um dom imutável da salvação dado por um só
Deus, através de um só Senhor, que traz muitos
benefícios.”19 E depois escreveu: “Abrãao não foi
justificado pelas obras, mas pela fé (leia Romanos
4:3). Então, mesmo que façam boas obras agora,
não lhes será nenhuma vantagem depois que
morrerem, a menos que tenham fé.”20

A fé e as obras se excluem mutuamente?


Talvez você esteja dizendo a si mesmo: “Estou confuso.
Por um lado eles dizem que somos salvos pelas nossas
obras, mas por outro lado, dizem que somos salvos por meio
da fé ou da graça. Acho que eles não sabiam bem no que
acreditar!”
Ah, mas eles sabiam sim! O problema é que Agostinho,
Lutero e outros teólogos ocidentais nos convenceram de que
há um conflito irreconciliável entre a salvação pela graça e a
salvação pelas obras. Eles usaram uma forma de
argumentação enganosa conhecida como “falso dilema” ao
garantir que só há duas formas de salvação: 1) um dom dado
por Deus, ou 2) algo conquistado com nossas obras.
Os cristãos primitivos responderiam dizendo que um dom
não deixa de ser dom simplesmente porque está
condicionado à obediência. Por exemplo, suponha que um
rei tenha pedido ao seu filho que fosse ao pomar real e
trouxesse uma cesta cheia das maçãs favoritas de seu pai.
Depois que o filho realizasse a tarefa, suponha que o pai lhe
desse metade de seu reino. A recompensa seria um presente
ou um prêmio merecido? A resposta é que seria um presente.
O filho com certeza não merecia metade do reino de seu pai
apenas por cumprir uma tarefa tão pequena. Mas o fato de
que o presente estava condicionado à obediência do filho
não muda o fato de que ainda era um presente.
Os cristãos primitivos acreditavam que a salvação é um
dom de Deus, mas também acreditavam que Deus dá seu dom
a quem ele escolher. E ele escolhe dar àqueles que lhe
amam e obedecem.
Será que o ponto de vista deles é tão estranho assim? Com
frequência ouço cristãos evangélicos dizendo que só se deve
dar assistência social àqueles que realmente merecem.
Quando dizem que certos pobres merecem, será que estão
dizendo que a assistência social é como um salário que eles
ganham? É claro que não! Eles ainda consideram a ajuda
como um presente. Só porque o doador seleciona para quem
doar, não quer dizer que o presente passou a ser um salário.

Sim, mas a Bíblia diz que…


Recentemente, enquanto eu explicava para um grupo de
crentes a interpretação que os cristãos primitivos tinham
sobre a salvação, uma das senhoras ali presente ficou um
pouco perturbada. Então, ela exclamou, obviamente
incomodada: “Eu acho que eles tinham que ler mais a
Bíblia!”
Acontece que os cristãos primitivos liam suas Bíblias. Em
seu livro Evidência Que Exige um Veredito, Josh McDowell
diz:
J. Harold Greenlee diz que as citações bíblicas nos escritos
dos cristãos primitivos são tão extensas que o Novo Testamento
poderia ser reescrito a partir deles sem ter que fazer uso de seus
manuscritos…
Clemente de Alexandria (150 a 212 d.C.) tem 2.400 citações
que são de todos os livros do Novo Testamento, exceto três.
Tertuliano (160 a 220 d.C.) foi um presbítero da igreja de
Cartago e ele cita o Novo Testamento mais de 7.000 vezes, sendo
que dessas citações, 3.800 são dos evangelhos…
Geisler e Nix concluem que “um breve inventário a esta altura
revelaria que existiam mais de 32.000 citações do Novo
Testamento antes da época do Concílio de Niceia (325 d.C.).”21
Então, por favor, não acusem os cristãos primitivos de não
lerem a Bíblia. Esses cristãos tinham consciência do que
Paulo escreveu sobre a salvação e a graça. Afinal, Paulo em
pessoa foi mentor de homens como Clemente de Alexandria.
Mas os cristãos primitivos não colocavam as cartas de Paulo
aos Romanos e Gálatas num pedestal, como se fossem mais
importantes que os ensinos de Jesus e dos outros apóstolos.
Eles liam as palavras de Paulo sobre a graça junto com
outras passagens bíblicas, tais como:

​• ​Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! Entrará no


reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu
Pai, que está nos céus (Mateus 7:21).

​• ​Aquele, porém, que perseverar até o fim, esse será


salvo (Mateus 24:13).

​• ​Não vos maravilheis disto, porque vem a hora em que


todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e
sairão: os que tiverem feito o bem, para a ressurreição
da vida; e os que tiverem praticado o mal, para a
ressurreição do juízo (João 5:28 e 29).

​• ​E eis que venho sem demora, e comigo está o


galardão que tenho para retribuir a cada um segundo
as suas obras (Apocalipse 22:12).
​• ​Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Continua
nestes deveres; porque, fazendo assim, salvarás tanto
a ti mesmo como aos teus ouvintes (1 Timóteo 4:16).
Outras passagens bíblicas que eles usavam se encontram
no fim do capítulo.
Então, a questão aqui não é se eles acreditavam ou não
nas Escrituras, mas sim a maneira como as interpretavam. A
Bíblia diz: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e
isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para
que ninguém se glorie” (Efésios 2:8 e 9). Mas também diz:
“Verificais que uma pessoa é justificada por obras e não
por fé somente” (Tiago 2:24). Nossa doutrina sobre
salvação aceita a primeira declaração, mas anula a segunda.
Mas a doutrina de salvação dos cristãos primitivos dá a
mesma importância para as duas.
Como já disse antes, os cristãos primitivos não criam que
o homem fosse incapaz de fazer o bem. Eles ensinavam que
somos capazes de amar e obedecer a Deus. Mas também
acreditavam que para que alguém vivesse em obediência por
toda a vida, precisaria do poder divino. Em suma, a
obediência não depende totalmente da força humana, mas
também não é fruto apenas do poder de Deus. É um
equilíbrio entre as duas coisas.
Na visão deles, a salvação era similar. O novo nascimento
como filhos de Deus e herdeiros da promessa de vida eterna
é oferecido a todos unicamente pela graça. Não precisamos
ser “bons o bastante” primeiro. Não temos que merecer este
novo nascimento. Também não temos que fazer expiação de
todos os nossos pecados do passado. O escravo imundo
torna-se limpo pela graça de Deus. Somos realmente salvos
pela graça, não pelas obras, como Paulo disse.
Todavia, de acordo com a Bíblia e com os cristãos
primitivos, nós temos um papel no processo da nossa
salvação. Primeiro, precisamos nos arrepender e crer em
Cristo como nosso Senhor e Salvador, a fim de que
possamos receber o benefício da graça de Deus. Depois de
passarmos pelo novo nascimento, precisamos obedecer a
Cristo. No entanto, até mesmo a obediência depende da
graça contínua do poder e perdão de Deus. Assim, a
salvação começa e termina com a graça, mas no entremeio
estão a fé e a obediência humanas. Enfim, a salvação
depende tanto do homem quanto de Deus. Foi por esta razão
que Tiago disse que somos salvos pelas obras e não somente
pela fé.

Uma pessoa salva pode se perder?


Como os cristãos primitivos acreditavam que fé e
obediência contínuas são necessárias para a salvação, é
natural que eles acreditassem que uma pessoa “salva” ainda
poderia acabar se perdendo. Por exemplo, Ireneu, discípulo
de Policarpo, escreveu:
Jesus não vai morrer outra vez por aqueles que ainda pecam,
pois a morte não terá mais domínio sobre ele… Portanto não
devemos nos orgulhar… Mas temos que tomar cuidado, pois de
alguma forma, depois que conhecemos a Cristo, se continuamos
fazendo coisas que desagradam a Deus, não obtemos mais o
perdão dos nossos pecados, mas, em vez disso, somos excluídos
de seu reino (leia Hebreus 6:4–6).22
E Tertuliano escreveu:
Algumas pessoas agem como se Deus tivesse a obrigação de
dar seu dom até aos indignos. Transformam sua generosidade em
escravidão… Afinal, muitos não acabam perdendo a graça de
Deus? Este dom precioso não é retirado de muitos?23
Cipriano disse aos seus companheiros:
Está escrito: ‘Sereis odiados de todos por causa do meu
nome; aquele, porém, que perseverar até ao fim, esse será
salvo’ (Mateus 10:22). Assim, o que quer que anteceda o fim é
apenas um degrau para chegarmos ao topo da salvação. Aqui não
é a linha de chegada, em que já ganhamos o prêmio da escalada.24
Uma das passagens bíblicas mais citadas pelos cristãos
primitivos era Hebreus 10:26, que diz: “Porque, se vivermos
deliberadamente em pecado, depois de termos recebido o
pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício
pelos pecados”. Geralmente nos dizem que nesta passagem o
autor de Hebreus não estava se referindo aos salvos. Se for o
caso, o escritor não conseguiu se fazer entender aos seus
leitores, pois todos os cristãos primitivos entendiam que esta
passagem estava se referindo às pessoas salvas.
Talvez algumas das citações dos cristãos primitivos levem
você a pensar que eles viviam em constante insegurança.
Mas isso não é verdade. Embora acreditassem que Deus
poderia deserdá-los se assim o quisesse, seus escritos
geralmente mostram que os cristãos obedientes não viviam
com um medo constante de que fossem deserdados. Um filho
obediente vive sempre com medo de que seu pai terrestre o
deserde?

O grupo que pregava a salvação somente pela graça


Por mais que tudo isso possa ter surpreendido você, o que
vou contar agora é ainda mais bizarro. Havia um grupo
religioso, rotulado pelos cristãos primitivos como
“hereges”, que contestava fortemente a ideia da igreja acerca
da salvação e das obras. Em vez disso, ensinava que o ser
humano é totalmente corrompido, que somos salvos somente
pela graça e que as obras não têm nenhum papel na salvação.
Também ensinava que uma vez que obtemos a salvação, não
a perdemos mais.
Sei o que você está pensando: esse grupo de hereges era
formado pelos verdadeiros cristãos e os cristãos e ortodoxos
é que eram os hereges. Mas esta conclusão é impossível.
Digo que é impossível, pois estou me referindo ao grupo dos
gnósticos. A palavra grega gnosis significa conhecimento e
os gnósticos alegavam que Deus havia lhes dado um
conhecimento especial desconhecido pelos cristãos comuns.
Embora cada professor gnóstico ensinasse uma versão
pessoal das coisas, todos eles ensinavam que o Criador era
um Deus diferente do Pai de Jesus. Esse Deus inferior teria
agido sem a autoridade do Pai para criar o mundo material.
O tal Criador teria estragado as coisas, fazendo com que o
ser humano ficasse corrompido. O Deus do Antigo
Testamento seria esse Deus inferior, que teria qualidades
diferentes do Deus do Novo Testamento.
Como o ser humano é uma obra falha desse Deus inferior,
ele é totalmente incapaz de fazer qualquer coisa em relação à
sua salvação. Mas felizmente para a humanidade, o Pai de
Jesus teve pena dos humanos e enviou seu Filho para nos
salvar. Contudo, como a carne é naturalmente corrompida, o
Filho não poderia se tornar um homem de verdade. Em vez
disso, o Filho de Deus apenas assumiu a aparência de
homem. Ele não era um homem real e, portanto, não morreu
nem ressuscitou de verdade. Já que tudo em relação ao ser
humano é corrompido, nossas obras não podem ter parte em
nossa salvação, por isso somos salvos apenas pela graça do
Pai.25
Caso você esteja com a mínima dúvida de que os
gnósticos eram cristãos verdadeiros, veja o que o próprio
apóstolo João disse sobre eles: “Porque muitos
enganadores têm saído pelo mundo fora, os quais não
confessam Jesus Cristo vindo em carne; assim é o
enganador e o anticristo” (2 João versículo 7). Os
gnósticos negaram que Jesus veio em carne e é a eles que
João está se referindo. Ele deixou claro que eles eram
enganadores e anticristos.
Então, se nossa doutrina sobre a salvação for verdadeira,
temos que encarar a dura realidade de que ela foi
primeiramente ensinada por enganadores e anticristos.

A compreensão dos cristãos primitivos em relação à salvação


também era baseada nestes outros versículos bíblicos: “E não nos
cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não
desfalecermos” (Gálatas 6:9). “Porque importa que todos nós
compareçamos perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba
segundo o bem ou o mal que tiver feito por meio do corpo” (2
Coríntios 5:10). “Sabei, pois, isto: nenhum incontinente, ou impuro, ou
avarento, que é idólatra, tem herança no reino de Cristo e de Deus”
(Efésios 5:5). “Se perseveramos, também com ele reinaremos; se o
negamos, ele, por sua vez, nos negará” (2 Timóteo 2:12). “Esforcemo-
nos, pois, por entrar naquele descanso, a fim de que ninguém caia,
segundo o mesmo exemplo de desobediência” (Hebreus 4:11). “Com
efeito, tendes necessidade de perseverança, para que, havendo feito a
vontade de Deus, alcanceis a promessa” (Hebreus 10:36). “Se, tendo
escapado das contaminações do mundo por meio do conhecimento de
nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, encontram-se novamente nelas
enredados e por elas dominados, estão em pior estado do que no
princípio. Teria sido melhor que não tivessem conhecido o caminho da
justiça, do que, depois de o terem conhecido, voltarem as costas para o
santo mandamento que lhes foi transmitido” (2 Pedro 2:20-21 – NVI).
“Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu
amor” (João 15:10). “Se vós permanecerdes na minha palavra,
verdadeiramente sereis meus discípulos” (João 8:31). “Se alguém
guardar a minha palavra, nunca verá a morte” (João 8:51). “E porá as
ovelhas à sua direita, mas os bodes à esquerda. Então dirá o Rei aos que
estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança
o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; Porque tive
fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era
estrangeiro, e hospedastes-me” (Mateus 25:33-35). “Eu sou a videira
verdadeira, e meu Pai é o lavrador… Se alguém não estiver em mim,
será lançado fora, como a vara, e secará; e os colhem e lançam no fogo,
e ardem” (João 15:1,6). “Deus retribuirá a cada um conforme o seu
procedimento. Ele dará vida eterna aos que, persistindo em fazer o
bem, buscam glória, honra e imortalidade” (Romanos 2:6-7 – NVI).
“Por meio deste evangelho vocês são salvos, desde que se apeguem
firmemente à palavra que lhes preguei; caso contrário, vocês têm crido
em vão” (1 Coríntios 15:2 – NVI). “Vede que não rejeiteis ao que fala;
porque, se não escaparam aqueles que rejeitaram o que na terra os
advertia, muito menos nós, se nos desviarmos daquele que é dos céus”
(Hebreus 12:25). “Bem-aventurado o homem que suporta a tentação;
porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor
tem prometido aos que o amam” (Tiago 1:12).
7

Crença sobre predestinação e


livre arbítrio

Muitos cristãos acreditam que a Reforma de Lutero levou


a igreja de volta aos padrões do cristianismo primitivo.
Muitos até acreditam que os cristãos de hoje ensinam as
mesmas coisas que Lutero. No entanto, as duas suposições
são incorretas.
Você provavelmente ficou surpreso ao saber que nossa
doutrina sobre a salvação pela fé é diferente da doutrina que
os cristãos primitivos ensinavam e talvez você se surpreenda
ainda mais em saber que nossa doutrina sobre a salvação é
diferente do que Martinho Lutero e outros reformadores
ensinavam. Na verdade, ensinamos apenas metade da
doutrina de salvação ensinada pelos reformistas.
Embora seja verdade que Lutero disse algumas vezes que
o homem é “salvo somente pela fé”, ele também ensinou que
o ser humano é tão corrompido que seria incapaz até de ter
fé em Deus ou aceitar o dom da salvação. Então, as únicas
pessoas que têm fé são aquelas para quem Deus concedeu a
fé. E Deus só concedeu essa fé para aqueles que foram
arbitrariamente predestinados antes da fundação do mundo.
Quando digo “arbitrariamente” estou dizendo que, de acordo
com Lutero, a decisão de Deus em dar a fé para uns e não
para outros não era baseada em qualquer desejo, fé, justiça,
ação ou oração por parte de quem a recebia.
Ao final, Lutero podia apenas lamentar: “Este é o maior
grau da fé, crer que ele é misericordioso, aquele que salva
poucos e condena tantos. Crer que ele é justo, aquele que
segundo sua própria vontade, nos torna condenáveis.”1
Então, a Reforma não ensinava que somos salvos somente
pela graça ou pela aceitação de Jesus Cristo. Em vez disso,
ensinava que os predestinados são salvos somente pela graça
e que os demais seres humanos são eternamente condenáveis.
É um mito que João Calvino introduziu a doutrina da
predestinação, pois Calvino estava simplesmente repetindo
uma teologia reformista já estabelecida. Assim, quem hoje
diz que a oferta da salvação está aberta a todos contradiz
uma doutrina básica da Reforma.
Depois da Reforma, os cristãos evangélicos tentaram
durante séculos convencer a um mundo incrédulo de que
nossas vidas e destinos eternos eram arbitrariamente
predestinados por Deus e que este era o Deus a quem
devíamos amar. Então, é uma ironia que os cristãos tenham
originalmente tentado convencer a um mundo incrédulo de
que nossa vida e sorte não são predestinadas.
Os crentes e o livre arbítrio
Os cristãos primitivos acreditavam fortemente no livre
arbítrio. Por exemplo, Justino Mártir disse aos romanos:
Aprendemos com os profetas e cremos que seja verdade que
punições, castigos e recompensas são dadas de acordo com o
que cada um merece. De outro modo, se todas as coisas
acontecem pelo destino, então nada está em nossas mãos. Pois
se estamos predestinados a ser bons ou maus, então o primeiro
não merece elogios e o segundo não pode ser culpado. A menos
que os humanos tenham poder para escolher evitar o mal e fazer
o bem, não podem ser culpados por suas ações, sejam elas quais
forem… Pois um homem não poderia ser digno de recompensa
ou elogios se ele mesmo não escolheu ser bom, mas foi
simplesmente criado para ser assim. Do mesmo modo, se um
homem for mau, não merece ser punido, já que não é mau por
escolha própria e é incapaz de fazer qualquer coisa que não tenha
sido criado para fazer.2
Clemente ecoava a mesma coisa:
“Nem elogios nem condenação, nem recompensa nem castigo
são corretos se a alma não tem poder de escolher ou evitar o
mal, se ele for involuntário.”3
Arquelau escreveu algumas décadas depois, repetindo a
mesma coisa:
Todas as criaturas que Deus fez, ele as fez muito bem. E deu a
todos os indivíduos o senso de livre arbítrio, por cuja norma
também instituiu a lei de julgamento… E é claro que quem
quiser pode guardar os mandamentos. E quem os desprezar e agir
contrariando o que neles está escrito, com certeza terá que
enfrentar esta lei de julgamento… Não pode haver dúvida que
cada indivíduo, usando sua própria força de vontade, pode
direcionar o curso de sua vida na direção que quiser.4
Metódio, um mártir cristão que viveu no fim do século III,
escreveu de modo similar:
Aqueles [pagãos] que decidiram que o ser humano não tem
livre arbítrio, mas dizem que somos governados pelas inevitáveis
necessidades do destino, são culpados de impiedade contra o
próprio Deus, colocando-o como a causa e o autor dos males
humanos.5
Os cristãos primitivos não estavam simplesmente
especulando sobre este assunto, em vez disso, eles baseavam
suas convicções nas passagens seguintes, entre outras:

​• ​Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o


seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê
não pereça, mas tenha a vida eterna (João 3:16).

​• ​O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que


alguns a têm por tardia; mas é longânimo para
conosco, não querendo que alguns se percam, senão
que todos venham a arrepender-se (2 Pedro 3:9).

​• ​O Espírito e a esposa dizem: Vem. E quem ouve, diga:


Vem. E quem tem sede, venha; e quem quiser, tome de
graça da água da vida (Apocalipse 22:17).
​• ​Os céus e a terra tomo hoje por testemunhas contra
vós, de que te tenho proposto a vida e a morte, a
bênção e a maldição; escolhe pois a vida, para que
vivas, tu e a tua descendência (Deuteronômio 30:19).
Então, originalmente, eram os pagãos que acreditavam na
predestinação e não os cristãos. Ainda assim, em uma das
maiores loucuras da história do cristianismo, Martinho
Lutero ficou do lado dos pagãos romanos e contra os cristãos
primitivos. Não estou dizendo que ele realmente ficou do
lado deles. Mas estou dizendo que ele literalmente se uniu a
eles! Por exemplo, Lutero escreveu sobre a predestinação:
Mas por que essas coisas deveriam ser tão difíceis para nós
cristãos entendermos, de modo que fosse considerado
irreligioso, curioso e vão discutir ou saber essas coisas, quando
poetas pagãos e pessoas comuns falam delas o tempo todo? Com
que frequência Virgílio [um poeta romano pagão] menciona o
destino? “Todas as coisas permanecem fixas por uma lei que não
muda”. Novamente: “Fixo está o dia de cada homem”. Mais uma
vez: “Se o destino te chama”. E de novo: “Se queres romper a
cadeia do destino”.
A intenção desse poeta é mostrar que na destruição de Tróia e
no reerguimento do Império Romano o destino fez mais que
todos os esforços humanos… Disso podemos ver que todo o
conhecimento da predestinação e da presciência de Deus eram
tão visíveis quanto o conceito da divindade. Porquanto, tendo
conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe
deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o
seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios,
tornaram-se loucos (Romanos 1:21–22). Negaram e fingiram
não saber as coisas que seus poetas e amigos e até sua
consciência sabia que eram universalmente conhecidas como
certas e verdadeiras.6

Mas a Bíblia não diz que…?


Pelo que tenho observado, muitos, senão a maioria, dos
cristãos diz acreditar em predestinação. Mas suas orações e
ações dizem o contrário. Alguns simplesmente se entregam,
dizendo: “Não sei no que eu acredito”.
O dilema que enfrentamos é que a Bíblia diz “escolhe pois
a vida” (Deuteronômio 30:19), mas também nos diz que
“isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de
Deus, que se compadece” (Romanos 9:16). E por outro lado
a Bíblia nos ensina que Deus é paciente conosco “não
querendo que alguns se percam, senão que todos venham a
arrepender-se” (2 Pedro 3:9). Mas também nos diz que ele
“compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer”
(Romanos 9:18).
Eu tenho lutado com estas passagens aparentemente
contraditórias durante a vida toda. Então, é confortante saber
que os cristãos primitivos tinham explicações lógicas e
bíblicas para estas aparentes contradições. Na verdade, as
suas interpretações da presciência de Deus e do livre
arbítrio do homem são algumas das coisas mais sensatas que
eu já ouvi.
Em contraste, foram novamente alguns dos mestres
gnósticos que ensinaram que os seres humanos são
arbitrariamente predestinados para a salvação e a punição.
Obviamente, se nós somos totalmente corrompidos, por
termos sido criados por um Deus injusto e inferior (como
ensinado pelos gnósticos), a nossa salvação só pode vir de
uma decisão arbitrária de Deus. Em sua obra intitulada “Os
Princípios”, Orígenes abordou muitos dos argumentos
bíblicos usados pelos gnósticos. Ele também respondeu a
muitas perguntas dos alunos sobre o livre arbítrio e a
predestinação. A seguir está um trecho da discussão de
Orígenes:

********
Uma das doutrinas contidas nos ensinamentos da Igreja é que há
um Deus justo. Isso encoraja aqueles que acreditam a viverem de
maneira virtuosa, rejeitando o pecado. Essas mesmas pessoas
reconhecem que as coisas dignas de louvor e culpa estão sob
nosso controle.
É nossa responsabilidade viver corretamente. Deus nos pede
isso, não como se isso dependesse dele, ou de qualquer outra
pessoa, ou do destino (como alguns acreditam), mas como se
dependesse de nós mesmos. O profeta Miquéias demonstrou isso
ao dizer: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que
o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, e a ames e
andes humildemente com o teu Deus?” (Miquéias 6:8). E
Moisés disse: “Te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a
maldição” (Deuteronômio 30:15).
Observe como Paulo também fala com a compreensão de que
temos livre arbítrio e que nós mesmos somos a causa da nossa
ruína ou da nossa salvação. Ele diz: “Ou desprezas tu as riquezas
da sua benignidade, e paciência e longanimidade, ignorando
que a benignidade de Deus te leva ao arrependimento? Mas,
segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras
ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus; O
qual recompensará cada um segundo as suas obras; a saber: A
vida eterna aos que, com perseverança em fazer bem,
procuram glória, honra e incorrupção; Mas a indignação e a
ira aos que são contenciosos, desobedientes à verdade e
obedientes à iniquidade” [Romanos 2:4–8].
Mas algumas declarações do Antigo e Novo Testamento
poderiam levar à conclusão oposta: a de que não depende de nós
guardarmos os mandamentos e sermos salvos. Ou transgredi-los e
nos perdermos. Então, vamos examiná-las uma a uma.
Primeiro, as declarações sobre Faraó têm deixado muitos
incomodados. Deus declarou em várias ocasiões: “Endurecerei o
coração do Faraó” (Êxodo 04:21). É claro que se o Faraó
endureceu o coração por causa de Deus e pecou por ter o coração
endurecido, ele não foi a causa de seu próprio pecado. Então, ele
não tinha o livre arbítrio.
Junto com esta passagem, vamos também dar uma olhada na
seguinte passagem de Paulo: “Mas, ó homem, quem és tu, que a
Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a
formou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder
sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra
e outro para desonra?”(Romanos 9:20–21).
Uma vez que acreditamos que Deus é justo e bom, vamos ver
como o bom e justo Deus poderia endurecer o coração do Faraó.
Talvez possamos mostrar através de uma ilustração utilizada pelo
apóstolo na epístola aos hebreus que Deus pode mostrar
misericórdia para com um homem enquanto endurece o coração
de outro, mesmo não tendo a intenção de fazê-lo. Paulo diz:
“Porque a terra que embebe a chuva, que muitas vezes cai
sobre ela, e produz erva proveitosa para aqueles por quem é
lavrada, recebe a bênção de Deus; Mas a que produz espinhos
e abrolhos, é reprovada, e perto está da maldição; o seu fim é
ser queimada” (Hebreus 6:7–8).
Pode parecer estranho que ele que produz a chuva diga: “Eu
produzi frutos e os espinhos da terra”. Mas, embora pareça
estranho, é verdade. Se a chuva não tivesse caído, não haveria
frutas nem espinhos. Portanto, a bênção da chuva caiu até em
terras improdutivas. Mas como a terra foi abandonada e não foi
cultivada, produziu espinhos e abrolhos. Então, os atos
maravilhosos de Deus são como a chuva e os diferentes
resultados são como a terra cultivada e a terra abandonada.
Os atos de Deus também são como o sol, que poderia dizer:
“Eu abrando e endureço”. Embora essas ações sejam contrárias,
o sol não estaria mentindo, pois assim como o calor derrete a
cera, ele endurece o barro. Mas por outro lado, os milagres
realizados por Moisés endureceram o coração do Faraó por causa
de sua própria maldade. Mas suavizaram alguns egípcios, que
saíram do Egito junto com os hebreus.
Vejamos outra passagem: “Assim, pois, isto não depende do
que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece”
(Romanos 9:16). Paulo não nega que algo tem que ser feito pelos
humanos. Mas reconhece que é Deus, que completa a obra. O
simples desejo humano não é suficiente para atingir o objetivo,
assim como o simples fato de correr não faz com que o atleta
ganhe o prêmio. Nem permite aos cristãos obter o precioso
chamado de Deus em Cristo Jesus. Essas coisas só são alcançadas
com a ajuda de Deus.
Paulo disse como se estivesse falando sobre o cultivo da terra:
“Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento. Por
isso, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas
Deus, que dá o crescimento” (1 Coríntios 3:6–7). Então não
podemos dizer que a semeadura é um trabalho só do agricultor.
Também não é só do irrigador. No fim das contas, é um trabalho
de Deus. Do mesmo modo, não é como se não tivéssemos
nenhum papel em nosso crescimento espiritual rumo à perfeição.
No entanto, não somos nós que terminamos a obra, pois Deus
produz a maior parte. O mesmo vale para a nossa salvação. O que
Deus faz é infinitamente maior do que o que nós fazemos.7

********
Deus pode prever o futuro?
Apesar de não acreditarem em predestinação, os cristãos
primitivos acreditavam na soberania de Deus e em sua
capacidade de prever o futuro. Por exemplo, eles entendiam
que a profecia divina sobre Esaú e Jacó era resultado de sua
habilidade de prever o futuro e não resultado de predestinar,
arbitrariamente, aqueles homens para um determinado
destino. Mas os primeiros cristãos viam uma distinção muito
clara entre prever alguma coisa e fazê-la acontecer.
8

O significado do batismo para


os cristãos primitivos

Ainda me lembro da primeira vez que li as palavras de


Jesus a Nicodemos: “Na verdade, na verdade te digo que
aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode
entrar no reino de Deus” (João 3:5). Eu era um garoto e
estava lendo esse versículo em um pequeno grupo. Então, o
professor perguntou: “O que significa nascer da ‘água’?” Eu
pensei um pouco e levantei a mão: “Acho que Jesus estava
se referindo ao batismo nas águas.” Eu estava orgulhoso de
mim mesmo por ter encontrado a resposta. No entanto, para
minha desilusão, o professor disse que aquele era um erro
comum e que “nascer da água” não se referia ao batismo nas
águas.
Com o tempo, pude corrigir outras pessoas que
acreditavam erroneamente que esta passagem se refira ao
batismo nas águas. Eu me sentia muito inteligente por ser
capaz de explicar o ponto de vista “certo”. Mas, eu “baixei a
bola” quando descobri que todos os cristãos primitivos
acreditavam que as palavras de Jesus se referiam ao batismo
nas águas.
Aqui, outra vez, eram os gnósticos que ensinavam uma
visão diferente da visão da igreja, pois diziam que o ser
humano não pode nem nascer de novo nem ser regenerado
pelo batismo da água. Então, Ireneu escreveu: “Estes homens
foram instigados por Satanás para rejeitarem o batismo, que
é a regeneração para Deus.”1
Na igreja evangélica moderna, o batismo é muitas vezes
considerado uma questão trivial, ao menos no processo de
salvação. No entanto, o batismo era de suma importância
para os cristãos primitivos. Eles associavam o batismo nas
águas com três aspectos muito importantes:

1. O perdão dos pecados. Eles acreditavam que o


batismo da água anulava todos os pecados do passado. Por
exemplo, Justino Mártir escreveu: “Não há outra maneira [de
obter as promessas de Deus] além desta: conhecer a Cristo,
ser lavado na fonte mencionada por Isaías para a remissão
dos pecados e, finalmente, viver uma vida sem pecado”.2
Os cristãos primitivos baseavam sua opinião sobre o
batismo e a remissão dos pecados nas passagens bíblicas a
seguir, entre outras:

​• ​“E agora por que te deténs? Levanta-te, e


batiza-te, e lava os teus pecados, invocando o
nome do Senhor” (Atos 22:16).
“Não pelas obras de justiça que houvéssemos
feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou
pela lavagem da regeneração e da renovação do
Espírito Santo” (Tito 3:5).
“Que também, como uma verdadeira figura, agora
vos salva, o batismo, não do despojamento da
imundícia da carne, mas da indagação de uma
boa consciência para com Deus, pela ressurreição
de Jesus Cristo” (1 Pedro 3:21).
“E disse-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um
de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo,
para perdão dos pecados; e recebereis o dom do
Espírito Santo” (Atos 2:38).
Como este “lavar” era completamente independente de
qualquer mérito por parte da pessoa batizada, o batismo era
frequentemente chamado de “graça”. Fiquei muito surpreso
ao ver que os cristãos primitivos usavam a palavra “graça”
para se referir a um ato tão específico quanto o batismo.
Anos atrás, quando estávamos estudando as crenças da Igreja
Católica Romana na escola dominical, tivemos uma
discussão sobre o uso da palavra “graça” para se referir aos
sacramentos dados pelo sacerdote. Lembro-me de que
pensei: “Como os católicos complicam as coisas!” Hoje eu
entendo que a maneira que os católicos usam esse termo
pode ser mais semelhante ao modo como os cristãos do
Novo Testamento interpretavam esta palavra.
2. O novo nascimento. Com base nas palavras de Jesus a
Nicodemos, os cristãos primitivos acreditavam que o
batismo era o canal através do qual uma pessoa nascia de
novo. Ireneu menciona isto em uma discussão sobre o
batismo:
Por sermos pecadores imundos, somos purificados de nossas
transgressões por meio da água sagrada e da invocação do
Senhor. Então, somos espiritualmente restaurados ao estado de
bebês recém-nascidos, por isso Cristo disse: ‘Na verdade, na
verdade te digo que aquele que não nascer da água e do
Espírito, não pode entrar no reino de Deus’ (João 3:5).3
3. A iluminação espiritual. Os primeiros cristãos
acreditavam que a pessoa recém-batizada, depois de receber
o Espírito Santo, tinha uma visão mais clara das questões
espirituais, recebendo a iluminação como um filho de Deus e
como um cidadão do seu reino.

Clemente de Alexandria discutiu essas três questões


espirituais relacionadas ao batismo:
Esta obra é chamada de várias coisas: graça, iluminação,
perfeição ou limpeza. Limpeza, através da qual lavamos nossa
alma. Graça, através da qual nossos pecados são anulados. E a
iluminação, através da qual contemplamos a santa luz da
salvação, ou seja, vemos Deus claramente.4
Em uma carta a um jovem amigo cristão, Cipriano
explicou seu próprio batismo de uma forma semelhante:
Levando em conta meu caráter naquela época, eu achava muito
difícil que um homem pudesse nascer de novo… Ou que um
homem que tivesse sido trazido a uma nova vida através do banho
na água da salvação pudesse apagar o que tinha sido antes, que
pudesse sofrer uma mudança no coração e na alma, ainda que
conservasse o mesmo corpo físico… Eu costumava ver os meus
pecados como se fizessem parte de mim, fossem naturais em
mim. Mas então, com a ajuda da água do novo nascimento, a
mancha foi removida e uma luz do alto, serena e pura, foi
infundida em meu coração reconciliado. Então, através do sopro
divino, um segundo nascimento me transformou num novo
homem.5

O batismo não era um ritual vazio


Em suma, o batismo no cristianismo primitivo era o ritual
de iniciação sobrenatural, através do qual um novo crente
deixava de ser o velho homem da carne e se tornava um novo
homem no Espírito. Mas, por favor, não pense que essa
prática era um ritual vazio. Os cristãos primitivos não
separavam o batismo da fé ou do arrependimento. O batismo
não era um ritual mágico que podia restaurar uma pessoa se
não fosse acompanhado pela fé e o arrependimento. Eles
ensinavam que Deus não tinha necessidade de perdoar
pecados só porque uma pessoa havia passado pela emoção
do batismo.6 Uma pessoa sem fé não renascia através do
batismo nas águas.
Em sua Primeira Apologia, Justino Mártir explicou aos
pagãos como o arrependimento, a fé e o batismo estão
interligados:
Aqueles que estão convencidos de que o que ensinamos é
verdade e querem viver dessa forma são instruídos a jejuar e orar
a Deus pelo perdão de todos os seus pecados do passado. Nós
também oramos e jejuamos com eles. Em seguida, os levamos
para um lugar onde haja água e eles são regenerados da mesma
forma que nós mesmos fomos regenerados. Então, são lavados
na água em nome de Deus (o Pai e Senhor do universo), do
nosso Salvador Jesus Cristo e do Espírito Santo. Pois Cristo
disse: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não
nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de
Deus” (João 3:5).7

Pessoas não batizadas eram automaticamente


condenadas?
Uma coisa que sempre me impressionou sobre os cristãos
primitivos é que eles nunca limitavam o poder de Deus. Por
exemplo, eles sempre acreditavam que Deus seria justo e
amoroso com os pagãos que nunca haviam tido a
oportunidade de ouvir sobre Jesus. Da mesma forma, eles
acreditavam que, embora o batismo fosse o canal normal da
graça e o meio para o renascimento, Deus não era limitado
por ele. Eles acreditavam que bebês não batizados que
morressem na infância ainda podiam ser salvos. Foi
Agostinho que ensinou, séculos mais tarde, que todas as
crianças não batizadas estão condenadas.
Outro exemplo era o dos mártires. Muitos crentes eram
martirizados antes que tivessem a oportunidade de ser
batizados. A igreja primitiva sabia que o Deus de amor não
abandonaria essas pessoas. A igreja dizia que, de certa
forma, eles tinham sido batizados num batismo de sangue
(leia Marcos 10:38–39). Então, embora os cristãos
primitivos enfatizassem a importância do batismo e seu
papel no novo nascimento, eles não mostravam Deus como
um ser frio e inflexível que não podia atuar de outra forma.

O ritual de passagem evangélico


O interessante é que os evangélicos parecem reconhecer a
necessidade de algum tipo de cerimônia de iniciação ou
ritual de passagem para marcar o novo nascimento em
Cristo. Mas o estranho é que, em geral, eles têm rejeitado a
cerimônia histórica do renascimento através do batismo e
criado sua própria cerimônia especial, o apelo. Quando
Pedro pregou aos judeus no dia do Pentecostes, os ouvintes
lhe perguntaram: “Que faremos?” (Atos 2:37). Será que
Pedro lhes disse para irem em frente à multidão e
convidarem Jesus para entrar no coração deles? Não. Ele
disse: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em
nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados” (Atos
2:38).
Depois que Filipe explicou o evangelho ao eunuco etíope,
o que ele fez? Batizou-o imediatamente (leia Atos 8:34–38).
Da mesma forma, quando Deus mostrou a Pedro (com o
derramamento do Espírito Santo sobre Cornélio) que o
cristianismo estava aberto aos gentios, a primeira coisa que
Pedro fez foi batizar Cornélio e sua família (leia Atos
10:44–48). E quando Paulo pregou no meio da noite para o
carcereiro de Filipos e sua família, o apóstolo fez um apelo?
Não! As Escrituras dizem: “E lhe pregavam a palavra do
Senhor, e a todos os que estavam em sua casa. E, tomando-
os ele consigo naquela mesma hora da noite, lavou-lhes os
vergões; e logo foi batizado, ele e todos os seus” (Atos
16:32-33).
Já que sentimos necessidade de associar o nosso
renascimento espiritual a uma data e hora, por que não
relacioná-lo ao batismo, em vez do apelo? Na verdade, a
pregação e as orações incluídas no apelo são resultado dos
movimentos de revitalização religiosa dos séculos XVIII e
XIX e eram praticamente desconhecidos para os cristãos
antes dessa época.
9

Prosperidade: bênção ou
maldição?

O pastor da maior igreja do mundo, Dr. Paul Yonggi Cho,


escreveu recentemente um livro sobre a prosperidade cristã.
Ele o intitulou Salvation, Health and Prosperity [Salvação,
Saúde e Prosperidade]. Depois de discutir o fato de que
somos cidadãos do céu, ele declarou:
Se somos reis, não deveríamos ter as glórias, honras e bens
que os reis possuem? Esta é a nossa herança natural. É um legado
que podemos reclamar, se mostrarmos as credenciais certas. São
tesouros que podemos exigir, tão facilmente como retiramos
dinheiro de um banco onde foi depositada uma quantia generosa
de dinheiro em nossa conta. Se alguém diz ser rei, mas está
pobre e muito doente, como vão acreditar que ele é rei?1
O “evangelho da saúde e da prosperidade” é
extremamente popular na igreja atual. A maioria das igrejas
que tem um crescimento rápido nos Estados Unidos, e em
todo o mundo, prega esse “evangelho”. Alguns pregadores
da prosperidade constroem toda uma teologia com base no
seguinte versículo da terceira carta de João: “Amado, desejo
que te vá bem em todas as coisas, e que tenhas saúde,
assim como bem vai a tua alma” (3 João 1:2).
O que João quiz dizer com isso? Será que ele estava
dizendo que queria que seus amigos cristãos fossem
materialmente prósperos e fisicamente saudáveis? Será que
estava prometendo riquezas e saúde em nome de Deus?
Antes de fazer suposições sobre o significado das
palavras de João, por que ninguém se dá ao trabalho de
consultar os escritos de Policarpo, um dos colaboradores de
João? Se os pregadores da prosperidade tivessem verificado
os escritos do companheiro de João, teriam encontrado uma
forte advertência contra a busca pela prosperidade material
e não uma mensagem em favor da saúde física e da riqueza
material. Na verdade, os cristãos primitivos testificam que
os próprios apóstolos viviam na pobreza, não na riqueza
material.
Em vez de ver a riqueza como uma bênção prometida por
Deus, os cristãos primitivos a viam como algo que os
envolvia demais, podendo lhes custar a vida eterna. Eles
baseavam sua interpretação em versos bíblicos, tais como:

​• ​“Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a


espécie de males; e nessa cobiça alguns se
desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos
com muitas dores” (1 Timóteo 6:10).
“Sejam vossos costumes sem avareza,
contentando-vos com o que tendes; porque ele
disse: Não te deixarei, nem te desampararei”
(Hebreus 13:5).
“Não ajunteis tesouros na terra… Mas ajuntai
tesouros no céu… Porque onde estiver o vosso
tesouro, aí estará também o vosso coração”
(Mateus 6:19-21).
“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou
há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a
um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus
e a Mamom” (Mateus 6:24).

“Tendo, porém, sustento, e com que nos


cobrirmos, estejamos com isso contentes” (1
Timóteo 6:8).
Algumas passagens adicionais estão expostas no final do
capítulo.

Os perigos da prosperidade
Aplicando alguns dos versículos citados, Hermes
escreveu:
Na verdade, estes são os que têm fé, mas também as riquezas
deste mundo. Quando vem a prova, negam o Senhor por causa de
sua riqueza e de seus negócios… Portanto, aqueles que são ricos
neste mundo não podem ser úteis ao Senhor, a menos que
primeiro reduzam suas riquezas. No seu caso, primeiro
aprendam isso. Quando vocês eram ricos, eram inúteis. Mas
agora são úteis e aptos para a vida.2
Então, aconselhou:
Abstenham-se dos muitos negócios e evitarão o pecado.
Aqueles que estão ocupados com muitos negócios também
cometem muitos pecados e acabam se distraindo com o trabalho
em vez de servir ao Senhor.3
Clemente alertou:
A riqueza por si só pode ensoberbecer e corromper a alma dos
que a possuem, desviando-os do caminho da salvação… [A
riqueza é] um fardo que deve ser removido como se fosse uma
doença perigosa e mortal.4
Cipriano, um homem rico que deu todos os seus bens aos
pobres para se tornar um cristão, repreendeu os membros da
congregação com estas palavras:
O amor às propriedades tem enganado muitos. Como eles
poderiam estar preparados para abandonar esta terra [por
perseguição], se suas riquezas os mantêm acorrentados aqui?…
Portanto, o Senhor, que só ensina coisas boas, disse, prevendo o
futuro: ‘Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e
dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-
me’ (Mateus 19:21). Se os ricos fizessem isso não pereceriam
por causa de suas riquezas… ‘Porque onde estiver o vosso
tesouro, aí estará também o vosso coração’ (Mateus 6:21).
Aquele que não tem nada no mundo não pode ser vencido pelo
mundo e poderia seguir ao Senhor, livre e sem restrições, como
fizeram os apóstolos… Mas como podem seguir a Cristo se
estão presos pelas correntes da riqueza?… Eles acham que
possuem, quando na verdade são possuídos. Eles não são
senhores do seu dinheiro, mas sim escravos dele.5
Usando a ilustração de Jesus sobre o caminho estreito e o
caminho largo, Lactâncio advertiu sobre aqueles que
prometem riqueza e prosperidade:
Satanás, ao inventar as falsas religiões, afastou os homens dos
caminhos celestes, conduzindo-os ao caminho da ruína. Esse
caminho parece ser plano e largo, adornado com todo tipo de
flores e frutos. Pois Satanás coloca nele todas as coisas que são
valorizadas na terra: riqueza, honra, diversão, prazer e todo tipo de
atração. Mas, escondido ao lado deles também estão a injustiça, a
crueldade, o orgulho, a luxúria, o conflito, a ignorância, a
falsidade, a mentira e outros vícios. Mas o final deste caminho é
o seguinte: quando chegam a um ponto em que não conseguem
mais voltar atrás, a estrada desaparece com toda sua beleza. Tudo
acontece tão rápido que ninguém consegue prever o golpe antes
que caia de cabeça em um profundo abismo…
Em comparação, o caminho celeste parece difícil, acidentado e
cheio de espinhos e pedras. Então, todos devem andar com o
máximo de cuidado e cautela para evitar a queda. Neste caminho,
Deus colocou justiça, temperança, paciência, fé, pureza, domínio
próprio, paz, conhecimento, verdade, sabedoria e outras virtudes.
Mas ao lado deles estão a pobreza, a humildade, o trabalho, a dor
e todo tipo de dificuldade. Pois aqueles que colocam sua
esperança além desta vida e escolhem coisas melhores não terão
os bens desta terra. Como carregam pouca bagagem e estão livres
de estorvos, eles podem superar as dificuldades do caminho. Pois
é impossível para o homem que foi cercado por toda a pompa
real, ou que possui muitas riquezas, entrar no caminho ou
perseverar diante dessas dificuldades (Mateus 7:13–14; 19:23–
24).6
Mas os cristãos primitivos não só falavam de pobreza,
como a maioria deles era realmente pobre. Os romanos os
ridicularizavam por isso. Por exemplo, um romano zombou
dos cristãos, dizendo:
Perceba — que muitos de vocês, na verdade, como vocês
mesmos admitem, são em sua maioria necessitados, passam frio
e fome e têm trabalhos difíceis. No entanto, o seu Deus permite
isso.7
O advogado cristão Marcus Félix, admitindo a verdade da
acusação, respondeu:
Sermos chamados de pobres não é a nossa desgraça, mas sim a
nossa glória. Pois assim como a mente relaxa numa vida de luxo,
ela se fortalece na pobreza. Mas quem pode ser pobre se não
anseia por coisa alguma? Se não deseja as posses de outros?
Mais pobre é aquele que apesar de ter muito quer sempre mais.8
A mensagem antimaterialista dos cristãos primitivos era
tão estranha para os romanos, que eles ridicularizavam o
cristianismo. Celso, o crítico romano, perguntou aos
cristãos:
Como poderia Deus ordenar que os judeus, através de Moisés,
acumulassem riquezas, estendessem seu domínio de terras,
enchessem a terra e matassem seus inimigos… Enquanto, seu
Filho, o Homem de Nazaré, instituiu leis totalmente contrárias a
isso? Ele declarou que ninguém pode ir ao Pai se amar o poder,
as riquezas ou a glória. Além disso, ele disse que os homens não
deviam se preocupar em obter comida mais que os corvos. Que
deviam se preocupar menos com suas vestes que os lírios do
campo.9
Alguém pode dizer que esses cristãos viviam na pobreza
simplesmente porque rejeitavam a prosperidade de Deus e
doavam suas riquezas. Mas como é que alguém pode dar
mais que Deus? Se a riqueza vem de Deus, um cristão não
pode perdê-la por obedecer à Sua Palavra e partilhar sua
riqueza com os pobres.

Quanta diferença entre a mensagem deles e a nossa!


Agora compare os ensinamentos dos cristãos primitivos
com o que é ensinado em tantas igrejas hoje em dia. Por
exemplo, Kenneth Hagin, um pregador cristão muito popular
nos Estados Unidos, afirma que teve a seguinte conversa com
Deus:
E o Senhor continuou: “Diga: ‘Satanás, tire suas mãos do meu
dinheiro’, pois é ele que não deixa o dinheiro chegar até você, não
eu”.
Reclame, pois o dinheiro está aí na terra e Satanás tem domínio
sobre ele, pois ele é o deus deste mundo. Diga: “Eu exigo…” e
peça o que você quer ou precisa.
As pessoas podem dizer: “Bem, eu acredito que Deus suprirá as
nossas necessidades, mas começar a falar sobre seus desejos é ir
longe demais.” Foi exatamente o que eu disse ao Senhor: “Senhor,
eu acredito que queiras satisfazer as nossas necessidades… mas
nossos desejos?”
Então, ele respondeu: “Você diz que é entendido na Palavra.
Pois no Salmo 23, que você cita muitas vezes, diz: ‘O Senhor é o
meu pastor, e nada me faltará.’ E no Salmo 34 diz: ‘Os filhos dos
leões necessitam e sofrem fome, mas àqueles que buscam ao
Senhor bem nenhum faltará’ (verso 10)… Reivindique o que você
precisa ou o que lhe falta. Diga: ‘Satanás, tire suas mãos do meu
dinheiro’. Então diga: ‘Vão espíritos ministradores e façam o
dinheiro vir para mim’.”10
No entanto, nos primeiros séculos, eram os hereges, e não
a igreja, que ensinavam a teologia da prosperidade. Por
exemplo, um dos mais infames hereges do terceiro século,
Paulo de Samósata, ensinava e praticava a mensagem de
riqueza. Um grupo de anciãos, que viveu na mesma época
que ele, o descreveu assim:
Antes, ele não tinha posses e era pobre. Não herdou fortuna de
seu pai. Não conseguiu nada através de negócios ou do
comércio. Mas agora tem riqueza abundante obtida a partir de
atos errados e de seus sacrilégios… Ele os [seus seguidores]
tornou ricos. Por isso, ele é admirado e amado por aqueles que
buscam essas coisas.11

Os cristãos eram mais saudáveis?


Quanto ao “evangelho da saúde”, tanto a história cristã
quanto a secular mostram que os cristãos primitivos não
gozavam melhor saúde que os pagãos. Algumas cartas
escritas por eles mostram que eles sofriam as mesmas pragas
e calamidades que o resto da humanidade.
Os cristãos primitivos acreditavam na cura divina, mas
seus testemunhos sobre milagres de cura indicam que as
orações de curas eram feitas principalmente para os
incrédulos, como um sinal. Não era algo que os cristãos
normalmente recebiam como uma bênção prometida.
Cipriano nos diz que alguns cristãos ficaram desiludidos
depois de sofrerem uma terrível praga:
Alguns ficam chateados porque esta doença ataca nosso povo
da mesma forma que ataca os pagãos. Como se os cristãos
cressem para poder gozar dos prazeres do mundo e de uma vida
livre de doenças, em vez de enfrentarem adversidades aqui,
aguardando uma alegria futura. Enquanto estivermos aqui na
terra, experimentaremos os mesmos problemas que o resto da
raça humana, apesar de estarmos separados em espírito… Assim,
quando a fome assola a Terra ela não faz distinção de pessoas.
Quando um exército invasor toma uma cidade, todos são
igualmente feitos prisioneiros. Quando as nuvens serenas retêm
a chuva, a seca é a mesma para todos… Nossos olhos ficam
doentes, temos febre e nossos membros se debilitam, assim
como acontece com os outros.12
O cristianismo primitivo era uma religião que não
prometia prosperidade material nem um melhor estado de
saúde nesta vida. Mas seus membros acreditavam no poder
de Deus. Como mostrado nos capítulos anteriores, a fé que
tinham no poder e na proteção de Deus superava a confiança
da maioria dos cristãos de hoje.
No entanto, as suas diferenças para conosco vão muito
além do assunto da prosperidade. Tinham muitos pontos de
vista diferentes dos nossos com relação a várias questões
morais que a igreja enfrenta atualmente.

Outras passagens bíblicas que se referem à riqueza material são: “E


quando Jesus ouviu isto, disse-lhe: Ainda te falta uma coisa; vende tudo
quanto tens, reparte-o pelos pobres, e terás um tesouro no céu; vem, e
segue-me” (Lucas 18:22). “Porque é mais fácil entrar um camelo pelo
fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus” (Lucas
18:25). “Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a
concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do
mundo” (1 João 2:16).
“Eia, pois, agora vós, ricos, chorai e pranteai, por vossas misérias,
que sobre vós hão de vir. As vossas riquezas estão apodrecidas, e as
vossas vestes estão comidas de traça. O vosso ouro e a vossa prata se
enferrujaram; e a sua ferrugem dará testemunho contra vós, e comerá
como fogo a vossa carne. Entesourastes para os últimos dias” (Tiago
5:1–3). “Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma
mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar; não
dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe ganância, mas
moderado, não contencioso, não avarento” (1 Timóteo 3:2–3). “Manda
aos ricos deste mundo que não sejam altivos, nem ponham a esperança
na incerteza das riquezas, mas em Deus, que abundantemente nos dá
todas as coisas para delas gozarmos” (1 Timóteo 6:17).
10

O moralismo do Antigo
Testamento ainda é válido?

Os princípios morais do Novo Testamento são realmente


diferentes dos princípios do Antigo Testamento? João
Calvino, teólogo e reformador do século XVI, enfatiza que
não. Em um de seus tratados contra os anabatistas, ele
escreveu:
A única solução para estes inimigos é alegar que nosso Senhor
exige mais perfeição da igreja cristã do que exigia do povo
judeu. Bem, isso é válido para as cerimônias. Agora, dizer que há
uma regra de vida diferente do que os antepassados usavam com
respeito à lei moral, que é como a chamamos, é uma opinião
falsa… Há orientações simples e claras na lei de Moisés para
um homem fiel, que tenha a consciência limpa e seja completo
diante de Deus na vocação e nas obras, orientações que devemos
compreender, a fim de seguirmos o caminho certo. Então, quem
quer que adicione ou tirar algo da lei, ultrapassará os limites.
Portanto, nossa posição é segura e infalível.1
Embora a maioria de nós não seja tão dogmática quanto
Calvino, os cristãos de hoje, geralmente, se apegam à crença
de que, com exceção das diferenças cerimoniais e
alimentícias, praticamente não existem diferenças entre os
preceitos morais do Antigo e do Novo Testamento. Na
verdade, citamos o Antigo Testamento com bastante
frequência quando queremos respaldar nossa opinião sobre
os princípios de vida cristãos.
Contudo, a interpretação dos cristãos primitivos era que
os ensinamentos morais de Cristo superavam os ensinos
morais do Antigo Testamento. A igreja não acreditava que
Deus houvesse mudado, mas que os ensinos de Jesus haviam
atingido o âmago da Lei, extraindo seu verdadeiro
significado espiritual. Além disso, eles acreditavam que os
mandamentos descritos no Antigo Testamento eram para um
reino terrestre, mas que os ensinos do Novo Testamento eram
para os cidadãos de um reino celeste. Assim, eles aplicavam
os ensinos morais de Jesus de forma literal, o que os levou a
algumas atitudes e costumes bem diferentes das nossas.
Os capítulos anteriores mostraram a maneira cuidadosa
com que os cristãos primitivos seguiam os ensinos do Novo
Testamento sobre temas como divórcio, riqueza e
julgamento. Abaixo estão mais alguns exemplos:

A que Jesus se referia quando disse: “Não jurem”?


No sermão do monte, Jesus ensinou: “Outrossim, ouvistes
que foi dito aos antigos: Não perjurarás, mas cumprirás os
teus juramentos ao Senhor. Eu, porém, vos digo que de
maneira nenhuma jureis; nem pelo céu, porque é o trono de
Deus” (Mateus 5:33–34). Tiago também escreveu: “Mas,
sobretudo, meus irmãos, não jureis, nem pelo céu, nem pela
terra, nem façais qualquer outro juramento; mas que a
vossa palavra seja sim, sim, e não, não; para que não
caiais em condenação” (Tiago 5:12). Antes de ler os
escritos dos cristãos primitivos, conheci algumas
denominações que levavam esse verso ao pé da letra e se
negavam a jurar qualquer coisa. Eu sempre tinha pensado
que essas denominações levavam as palavras de Jesus muito
a sério e esperava poder respaldar minha interpretação do
verso com os escritos dos cristãos primitivos.
Mas, em vez disso, descobri que os cristãos primitivos
também se negavam a fazer juramentos. Como Clemente
enfatizou:
Como pode o fiel parecer infiel a ponto de precisar fazer
juramentos?… Mas ele nem ao menos jura, pois prefere afirmar
dizendo ‘sim’ ou negar, dizendo ‘não’.2
Tertuliano explicou aos romanos:
Não preciso dizer nada sobre os falsos juramentos, já que nem
o ato de jurar é lícito.3
Orígenes, Cipriano e Eusébio também confirmam que essa
era a postura normal dos cristãos primitivos quanto ao
juramento.4

A guerra é errado do ponto de vista moral?


Antes de começar a estudar os escritos dos cristãos
primitivos, li em alguns livros sobre a história da igreja que
os cristãos primitivos, geralmente, repeliam o serviço
militar. Os livros diziam que eles não eram contra o
derramamento de sangue, mas que não queriam participar de
costumes idólatras. Mas isso não é verdade. Em seus
escritos os cristãos primitivos afirmavam que eram contra a
guerra porque cumpriam literalmente os mandamentos de
Jesus que diziam, “ama aos teus inimigos” e “vire a outra
face”. Eles viam a guerra como algo moralmente errado.
Justino Mártir escreveu em sua Apologia aos romanos:
Nós, que antes nos matávamos uns aos outros, agora nos
abstemos de fazer guerra contra nossos inimigos.5
Tertuliano fez a seguinte pergunta sobre a guerra:
Como pode ser lícito usar armas, quando o Senhor proclama
que: ‘Porque todos os que lançarem mão da espada, à espada
morrerão’? E pode o filho da paz tomar parte numa guerra,
quando nem sequer aceita levar alguém na lei? Pode ele colocar
correntes, prender, torturar e punir se ele não é vingador nem de
seus próprios erros? (leia Mateus 26:52 e 1 Coríntios 6:1–8).6
Quando os pagãos começaram a dizer que o cristianismo
era uma seita que havia se separado do judaísmo por uma
revolução armada, Orígenes respondeu a essa falsa acusação
da seguinte maneira:
Em nenhum lugar das Escrituras ele ensinou que seus
discípulos podiam ser violentos com os outros, não importando
quão maldosa fosse a pessoa. Pois matar era contra sua lei, que
era orginalmente divina. Se o cristianismo tivesse começado
com uma rebelião, não teriam adotado leis de caráter tão brando.
[Estas leis] sequer permitem que eles resistam aos seus
perseguidores, mesmo quando serão abatidos como ovelhas.7
Cipriano fez a seguinte observação em relação à guerra:
O mundo está encharcado do sangue. O assassinato, que é
considerado crime quando cometido por um indivíduo, é
chamado de virtude quando é cometido em grande escala. A
impunidade é reivindicada para as más obras [da guerra], não
porque não são culpados, mas porque a crueldade é perpetrada
em grande escala.8
Arnóbio, um apologista do terceiro século, explicou aos
romanos a posição dos cristãos sobre este assunto:
Aprendemos com seus ensinos e sua lei que não se deve pagar
o mal com o mal (leia Romanos 12:17). Que é melhor sofrer a
injustiça do que aplicá-la. E que é melhor que nosso sangue seja
derramado do que sujar as mãos e a consciência com o sangue de
outros. Como resultado disso, um mundo ingrato tem recebido
os benefícios das palavras de Cristo, pois através delas, a raiva
do selvagem tem sido suavizada e o mundo está começando a
tirar sua mão hostil do sangue de seus companheiros.9
Numa época em que a intrepidez militar era considerada a
maior das virtudes, os cristãos primitivos eram os únicos
que se levantavam para dizer que a guerra nada mais era que
assassinato em grande escala. Então, é irônico ver que a
comunidade cristã estadunidense não só apoia a guerra,
como são mais militaristas que outros setores da sociedade.
Somos muitas vezes tachados como “marqueteiros da
guerra” ao redor do mundo. Aliás, não me lembro de
nenhuma guerra em que os cristãos norte-americanos tenham
manifestado sua oposição.
Quando a crise iraniana irrompeu em 1980, eu era
estudante de direito na universidade Baylor, uma faculdade
batista. Um dia depois que os embaixadores norte-
americanos foram feitos reféns em Teerã, observei os muitos
alunos do Oriente Médio que estavam na lanchonete da
faculdade. Eu não sabia a nacionalidade deles, o mais
provável é que nem fossem iranianos. Ainda assim, vários
estudantes passavam pela mesa deles e esbarravam
propositadamente, num gesto de ameaça. Tanto na lanchonete
quanto nos corredores da faculdade, eu ouvi várias
discussões sobre como os Estados Unidos tinham que
mandar nossos exércitos para o Irã para “acabar com
aqueles malditos ‘moreninhos’”. O mais triste de tudo isso,
foi que na hora da verdade os cristãos reagiram com a
mesma fúria e ódio que o mundo.

Mas o cristão não tem uma responsabilidade para com seu país?
“Quer dizer que os cristãos não podem defender seu
país?” você pode estar se perguntando. Os cristãos
primitivos teriam respondido: “Sim, mas de uma maneira
bem diferente da do mundo.” Os romanos fizeram a mesma
pergunta aos cristãos, ao que eles responderam:

********
Somos incentivados a “ajudar o rei com toda nossa força, a lutar
com ele pela preservação da justiça, guerrear por ele, e, se
necessário for, lutar sob seu comando ou liderar um exército ao
seu lado”.
Nossa resposta é que ajudaremos o rei quando necessário, mas
do modo divino, “vestindo a armadura de Deus”. Fazemos isso em
obediência à ordem do apóstolo: “Admoesto-te, pois, antes de
tudo, que se façam deprecações, orações, intercessões, e ações
de graças, por todos os homens; pelos reis, e por todos os que
estão em eminência” (1 Timóteo 2:1-2). Quanto mais alguém se
destaca espiritualmente, mais eficiente será sua ajuda aos reis, até
mais eficiente que a ajuda dos soldados que saem para a guerra e
matam quantos inimigos puderem assassinar.
Para nossos inimigos que exigem que levantemos nossas armas
em nome do imperador e matemos seres humanos, nós
respondemos: “Não é verdade que os sacerdotes que cuidam [dos
seus deuses]… mantêm suas mãos limpas de sangue, a fim de
oferecerem sacrifícios aos seus deuses com as mãos livres de
manchas do sangue humano?” Mesmo quando a guerra é contra
vocês, vocês não convocam os sacerdotes para lutar. Então, se
esse é um costume louvável, quanto mais que nós cristãos
façamos como os sacerdotes quando há uma guerra, mantendo
nossas mãos livres de sangue… Mas com nossas orações,
derrotamos todos os demônios que provocam a guerra… Deste
modo, somos muito mais úteis ao rei que aqueles que vão para o
campo de batalha… E ninguém luta melhor pelo rei do que nós.
No entanto, nos recusamos a lutar sob seu comando, mesmo que
ele exija isso. Porém, lutamos a seu favor, formando um exército
especial, o “exército da justiça”, que oferece orações a Deus.10

********
Podemos ter a tendência de considerar esse ponto de vista
um tanto irreal, porém os cristãos primitivos chamavam isso
de confiança. Mas afinal, quem está certo? A história mostra
que provavelmente esses cristãos não eram tão ingênuos
quanto parecem. Do período que vai do nascimento de Jesus
ao início do terceiro século, o Império Romano não
experimentou sequer uma invasão bem-sucedida em suas
fronteiras. Os historiadores chamam isso de “Pax Romana”
(paz romana) e o consideram um período extraordinário na
história da civilização ocidental. Por 200 anos, o mundo
mediterrâneo antigo experimentou um período de paz, o que
nunca tinha acontecido antes da Pax Romana e nunca mais
voltou a acontecer. É claro que nenhum historiador secular
atribuiria isso à presença e às orações dos cristãos, mas os
cristãos primitivos acreditavam piamente que aquilo era
fruto da intervenção divina.
Por exemplo, Orígenes perguntou aos romanos:
Então como foi possível que a doutrina do evangelho de paz
tenha prevalecido no mundo? Esta doutrina que não permite que
os homens se vinguem de seus inimigos, que chegou quando
Jesus veio ao mundo em espírito de paz. Vocês não acreditam
que ele mudou essas coisas?11
Em contraste, depois do império de Constantino, quando
os mestres cristãos como Agostinho passaram a ensinar a
doutrina da “guerra santa” e os cristãos começaram a apoiar
Roma com espadas, todo o Império Romano ocidental decaiu
em poucas décadas. O Império Romano caiu porque a igreja
mudou sua posição em relação à guerra? Ninguém pode
responder a essa pergunta com certeza. Mas no fim das
contas, é uma grande coincidência que Roma tenha
prosperado e ficado segura enquanto os cristãos serviram
como um “exército da justiça” especial, confiando somente
em Deus para proteger o império, e que assim que os
cristãos passaram a lutar na guerra física, Roma decaiu.

Um cristão pode ser militar?


Em consistência com a posição de não legislar a justiça
em outras áreas da vida, a igreja primitiva não instituiu uma
lei proibindo os cristãos de servirem ao exército. A Bíblia
só ordenava que eles amassem seus inimigos e que não
pagassem o mal com o mal. Nem Cristo, nem os apóstolos,
alguma vez proibiram os cristãos de servir ao exército. Já
que o Império Romano estava passando por um período de
paz no início da era cristã, era bem possível que um cristão
fosse parte do exército a vida toda e nunca precisasse
derramar sangue. Na verdade, neste período, os soldados
serviam mais ou menos como os policiais que temos hoje.
Em geral, a igreja não permitia que um cristão se alistasse
após sua conversão. Contudo, se o homem já fosse soldado e
se convertesse, a igreja não exigia que ele renunciasse ao
cargo. Só lhe era exigido que concordasse em nunca usar sua
espada para matar. Uma das razões para esta flexibilidade
era que o exército romano não permitia que um soldado
abandonasse seu posto até que seu tempo de serviço tivesse
terminado.12

Como o cristão deve considerar a pena de morte?


Deus ordenou a pena de morte na lei que deu aos
israelitas. Por esta razão, sempre fui um grande defensor da
pena de morte e esperava descobrir que os cristãos
primitivos também eram. Assim, fiquei muito surpreso
quando soube que eles viam a pena de morte do mesmo
modo que viam a guerra.
Embora apenas alguns escritores tenham discutido esse
assunto, todos tinham a mesma visão: um cristão não podia
executar um criminoso, assistir a execuções públicas na
arena (algo que os romanos adoravam) e nem prestar queixa
contra outro ser humano. Resumindo, os cristãos primitivos
simplesmente abominavam o assassinato de qualquer tipo,
fosse pela guerra, pela pena de morte ou pelo aborto.
Lactâncio, por exemplo, escreveu:
Quando Deus nos proibiu de matar, ele não apenas proibiu
a violência que é condenada pelas leis públicas, como
também proibiu a violência permitida pelas leis humanas.
Dessa forma, não é permitido que um homem justo se
envolva com a guerra, já que sua guerra é a própria justiça.
Também não é [permitido] acusar alguém de uma ofensa que
o leve à pena de morte. Não faz diferença se você leva
alguém à morte pela palavra ou pela espada. É o ato de
matar que é proibido. Assim, não deve haver exceções
quanto a esse princípio divino. Ao contrário, é sempre ilícito
matar alguém que Deus criou como um ser sagrado.13
Contudo, os cristãos não pretendiam dizer aos governantes
o que deviam ou não fazer para punir os crimes. Os cristãos
primitivos reconheciam que Deus permitia que os governos
seculares fizessem uso da espada, como seus “vingadores
para castigar o que faz o mal” (Romanos 13:4). Todavia, os
cristãos primitivos acreditavam que não podiam tomar parte
na execução de criminosos.

Então quem são os verdadeiros hereges?


Uma vez mais, os cristãos primitivos mostraram ser
cidadãos de outro reino, pessoas de uma cultura diferente. E
outra vez, os cristãos modernos vivem uma realidade muito
diferente da dos cristãos primitivos. Como mencionei
anteriormente, os ensinamentos discutidos neste capítulo e
nos quatro anteriores são apenas exemplos das crenças dos
cristãos primitivos que diferem das nossas crenças hoje. Há
muitos outros exemplos que poderiam ser citados. Muitas
das doutrinas que eles ensinavam são tachadas como
heresias hoje e eles chamavam de heresias muitos dos
nossos ensinamentos. Então, afinal quem são os verdadeiros
hereges?
Outras passagens bíblicas que eles citavam em relação à guerra são
as seguintes: “Então Jesus disse-lhe: Embainha a tua espada; porque
todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão” (Mateus
26:52). “Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu
reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não
fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” (João
18:36). “Porque, andando na carne, não militamos segundo a carne.
Porque as armas da nossa milícia não são carnais, mas sim poderosas
em Deus para destruição das fortalezas” (2 Coríntios 10:3-4). “Porque
não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os
principados, contra as potestades… Portanto, tomai toda a armadura de
Deus” (Efésios 6:12-13). “Não retribuam a ninguém mal por mal.
Procurem fazer o que é correto aos olhos de todos. Façam todo o
possível para viver em paz com todos. Amados, nunca procurem vingar-
se, mas deixem com Deus a ira… Não se deixem vencer pelo mal, mas
vençam o mal com o bem” (Romanos 12:17-21). “Quando somos
amaldiçoados, abençoamos; quando perseguidos, suportamos”
(1 Coríntios 4:12).
11

Quem entende melhor os


apóstolos?

Nós cristãos modernos geralmente achamos que estamos


seguindo o cristianismo apostólico. Os cristãos primitivos
também achavam que estavam. Mas como já vimos, nossas
crenças e costumes variam muito em relação aos deles.
Então, como podemos saber quem está seguindo mais
fielmente o padrão estabelecido pelos apóstolos?
Uma solução tentadora, mas simplista, é fazer uma
comparação entre as crenças deles, as nossas e o que a
Bíblia diz. O problema é que os cristãos primitivos
baseavam suas crenças na Bíblia, assim como nós. A grande
questão é a interpretação bíblica. O máximo que podemos
fazer é comparar a interpretação bíblica deles com a nossa.
Acontece que isso não prova muita coisa. Então, a pergunta
que fica é: qual é a interpretação bíblica mais correta, a
nossa ou a deles?

A vantagem do tempo
A igreja primitiva enfrentava um impasse com os
gnósticos que era bem parecido com a indecisão que temos
acerca dela. Tanto os cristãos primitivos quanto os gnósticos
diziam que tinham o evangelho verdadeiro. Sobre isso,
Tertuliano escreveu:
Eu digo que o meu evangelho é o verdadeiro. Mas Marcião
[um líder gnóstico] diz que o dele é que é. Porém, eu digo que o
evangelho de Marcião é adulterado. Ele diz que é o meu. E agora
como podemos resolver esse impasse? Só se usarmos o
princípio do tempo. De acordo com esse princípio, a autoridade
fica com o evangelho que surgiu primeiro. Ele é baseado na
verdade elementar de que a corrupção (da doutrina) está no
evangelho que surgiu posteriormente. Já que o erro é a
falsificação da verdade, a verdade deve preceder o erro.1
O “princípio do tempo” de Tertuliano é um dos principais
critérios usados pelos historiadores modernos para avaliar
explicações históricas contraditórias. As explicações
escritas no período mais próximo ao evento, geralmente são
aquelas para as quais eles dão crédito, em vez de outra que
tenha sido escrita muito tempo depois. O mesmo princípio se
aplica aos manuscritos bíblicos. Afinal, quanta credibilidade
tem um manuscrito que difere muito dos outros e que, além
disso, foi escrito 1.400 anos depois da morte dos apóstolos?
Principalmente se você tiver em mãos um manuscrito
compilado poucas décadas depois que os apóstolos
morreram. Então, por que escolhemos doutrinas escritas no
mínimo 1.400 anos depois que eles morreram, em vez de
escolher aquelas que foram escritas pouco tempo depois da
vida deles?

O efeito cumulativo das pequenas mudanças


A cópia de alguma coisa raramente é uma duplicação
perfeita do original. Já que o cristianismo tem sido
duplicado de geração em geração, ele sofreu muitas
mudanças. De geração a geração, muitas dessas mudanças
têm sido pequenas, quase imperceptíveis. Contudo, o efeito
cumulativo das pequenas mudanças durante muitos séculos
pode ser muito significativo. Veja, por exemplo, nosso
idioma. Com o passar das gerações a língua sofreu pequenas
modificações. A mudança é tão vagarosa que mal
percebemos a diferença entre a maneira como falamos e a
maneira como nossos avós falavam, com exceção das gírias.
Contudo, depois de centenas de anos, o acúmulo dessas
pequenas alterações é bem visível. Por exemplo, quando
tentamos ler um texto do século XVII, temos a impressão que
estamos lendo outro idioma.
O mesmo ocorre com o cristianismo. Tenho certeza de que
o cristianismo do segundo século não era uma réplica
perfeita do cristianismo apostólico. Que dizer de nós que
estamos a vinte séculos de distância! Seria um absurdo
dizermos que depois de dois mil anos o cristianismo não
mudou quase nada em relação ao tempo apostólico,
principalmente porque alegamos que o cristianismo ortodoxo
sofreu grandes mudanças em relação ao cristianismo
apostólico num período de apenas cinquenta anos.
As vantagens da língua e da cultura
Mas o elemento do tempo não é a única vantagem que os
cristãos primitivos tinham. Eles estavam numa posição muito
mais vantajosa na interpretação dos escritos apostólicos.
Para começar, os cristãos primitivos podiam ler os
manuscritos no grego original. Quantos de nós podem dizer o
mesmo? Nossos pastores tiveram que estudar grego antigo
por alguns anos no seminário. Mesmo assim, poucos deles
conseguem falar o idioma fluentemente. A maioria não
consegue sequer ler ou entender um texto grego sem a ajuda
de um léxico grego-português. No entanto, os cristãos
primitivos não precisavam estudar grego, pois essa era sua
língua materna. Eles não apenas falavam grego, eles
pensavam em grego!

O que você sabe sobre a cultura mediterrânea antiga?


E quanto às barreiras culturais? A maioria dos cristãos
modernos sabe muito pouco sobre o contexto histórico e
cultural em que o Novo Testamento foi escrito. Na maioria
das vezes, aquilo que eles acham que sabem é um mito.
Mesmo os acadêmicos que dedicam toda sua vida para
estudar o cristianismo do Novo Testamento não poderão um
dia entender o contexto cultural e histórico como as pessoas
que viveram naquela época. Assim, uma vez mais, os
cristãos primitivos tinham uma grande vantagem sobre nós
em relação à interpretação da Bíblia.
Você alguma vez conversou com o apóstolo João?
Finalmente, a primeira geração de cristãos tinha a
oportunidade de conversar pessoalmente com os apóstolos e
lhes fazer perguntas.
Clemente de Roma é um bom exemplo disso, pois ele foi
discípulo tanto de Paulo quanto de Pedro.2 Paulo cita
Clemente em sua carta aos filipenses, dizendo: “E peço-te
também a ti, meu verdadeiro companheiro, que ajudes
essas mulheres que trabalharam comigo no evangelho, e
com Clemente, e com os outros cooperadores, cujos nomes
estão no livro da vida” (Filipenses 4:3). Qual é a
probabilidade de que Clemente, discípulo pessoal de Paulo,
tenha interpretado mal seus ensinos sobre a salvação? E por
que Paulo falaria tão bem de Clemente se ele estivesse
ensinando coisas erradas?
Eu já falei antes sobre o relacionamento de Policarpo com
o apóstolo João, que o indicou para ser supervisor (bispo)
da igreja de Esmirna. Se os anjos descritos no Apocalipse se
referem aos supervisores dessas igrejas, é bem provável que
o “anjo” de Esmirna seja Policarpo. E no livro do
Apocalipse, Jesus não diz que a igreja de Esmirna estava
ensinando doutrinas erradas. De fato, ele não pronunciou
palavras de repreensão para a igreja de Esmirna
(Apocalipse 2:8-11). É evidente que a igreja de Esmirna
estava indo bem sob a supervisão de Policarpo, pois caso
contrário Jesus a teria repreendido.
Mas ouvir os apóstolos explicando seus próprios escritos
não era simplesmente um privilégio, era uma necessidade.
Afinal, Pedro comentou sobre os escritos de Paulo:
“Falando disto, como em todas as suas epístolas, entre as
quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e
inconstantes torcem, e igualmente as outras Escrituras,
para sua própria perdição” (2 Pedro 3:16). Pedro estava
escrevendo para cristãos que falavam grego fluentemente e
que compartilhavam do mesmo contexto cultural que Paulo.
Mas mesmo com estas vantagens, Pedro admite que algumas
coisas nos escritos de Paulo eram “difíceis de entender”.
Ainda assim, nós que vivemos há mais de dois mil anos de
distância, agimos como se fosse impossível cometermos
erros na interpretação de seus escritos.
Infelizmente, Pedro não explica o que as “pessoas
instáveis e ignorantes” estavam ensinando. Será que eles
estavam interpretando os escritos de Paulo do mesmo modo
que nós os interpretamos? Afinal, grande parte dos
enganadores no fim do primeiro século eram os gnósticos. E
como já vimos, sua interpretação dos escritos de Paulo era
em vários aspectos idêntica à nossa.

A principal ferramenta de ensino dos apóstolos era a voz


Jesus ensinava oralmente. Ele não deixou uma única
palavra escrita para a igreja. No dia do Pentecoste, quando a
igreja foi fundada, a única metodologia de ensino cristã que
existia era oral. Na verdade, o Novo Testamento não foi
completado até quase no fim do primeiro século. Então, a
igreja do primeiro século se baseava principalmente no
ensinamento oral dos apóstolos, pois eles ensinavam
principalmente desta maneira.
Afinal, você pensa que o apóstolo Paulo, o incansável
pregador e professor, não tinha mais nada para ensinar além
de suas treze ou quatorze cartas do Novo Testamento? É
claro que tinha! Paulo advertiu aos tessalonicenses:
“Portanto, irmãos, permaneçam firmes e apeguem-se às
tradições que lhes foram ensinadas, quer de viva voz, quer
por carta nossa” (2 Tessalonicenses 2:15, NVI). Paulo
queria que eles seguissem seus ensinos orais tanto quanto os
escritos.
E os outros apóstolos? Você acha que tudo o que Pedro
ensinou se resume a sete páginas na Bíblia? Você realmente
acha que André, Tiago, Filipe, Bartolomeu e Tomé não
tinham nada para compartilhar com a igreja? Que absurdo!
Eles eram homens selecionados, que passaram três anos
sendo pessoalmente treinados pelo próprio Jesus. Segundo o
testemunho da igreja primitiva, todos os apóstolos pregavam
e ensinavam o evangelho.
Paulo disse aos coríntios: “E louvo-vos, irmãos, porque
em tudo vos lembrais de mim, e retendes os preceitos como
vo-los entreguei” (1 Coríntios 11:2). Paulo continua, agora
repreendendo as mulheres que não estavam usando o véu de
oração, apesar de não haver nenhuma ordem apostólica para
que as mulheres cobrissem a cabeça enquanto oravam ou
profetizavam. Mas era uma tradição, como Paulo testifica:
“Mas, se alguém quiser ser contencioso, nós não temos tal
costume, nem as igrejas de Deus” (1 Coríntios 11:16).
Mas, por favor, não tire conclusões precipitadas. Não
estou dizendo que havia doutrinas adicionais, mandamentos
morais ou revelações que eram dados oralmente para os
cristãos primitivos. Na verdade, os escritos dos cristãos
primitivos são a evidência mais forte de que não havia nada
disso. O Novo Testamento contém tudo o que é necessário
para nossa salvação. As doutrinas e mandamentos essenciais
para a salvação foram todos colocados na Bíblia.
Isso quer dizer que as tradições apostólicas (os
ensinamentos dos apóstolos) não têm valor algum? Não é
nada disso, elas têm muito valor, pois tinham duas funções
principais. A primeira era estabelecer os costumes
eclesiásticos, tais como a liderança, os métodos de adoração
e o batismo. Na verdade, a maioria das práticas do primeiro
século era uma questão de costumes e tradições apostólicas
e não de diretrizes escritas. Não há, por exemplo, nenhuma
passagem do Novo Testamento que diga quando os cristãos
devem se reunir ou com que frequência devem realizar a
Santa Ceia. Mas o testemunho dos cristãos primitivos mostra
que havia tradições muito bem definidas pelos apóstolos ou
seus associados quanto a essas questões. A Bíblia às vezes
nos dá alguns relances desses costumes apostólicos, mas só
de vez em quando.
As regras da igreja eram estabelecidas unicamente pela
palavra dos apóstolos. Quando Paulo instruiu Timóteo e Tito
sobre a seleção dos anciãos e diáconos, ele não estava
instituindo um novo tipo de governo na igreja (leia
1 Timóteo 3:1–13; Tito 1:5–9). Ele estava simplesmente
descrevendo o tipo de homem que deveria ocupar os cargos
de supervisão que já tinham sido pré-implementados.
A segunda função das tradições apostólicas era esclarecer
assuntos que eram discutidos (ou que viriam a ser discutidos
posteriormente) no Novo Testamento. Porque os cristãos
primitivos aderiram à riqueza dos ensinos orais dos
apóstolos, eles tinham uma enorme vantagem sobre nós na
interpretação das Escrituras.
Por favor, não confunda tradições apostólicas com as
tradições humanas que a igreja católica e a igreja ortodoxa
adotaram, pois muitas de suas tradições surgiram depois do
império de Constantino e eram desconhecidas para os
cristãos primitivos.
O que eu quis mostrar foi que os cristãos primitivos
estavam numa posição melhor que a nossa para entender e
imitar os apóstolos. Não mostrei que eles não mudaram de
maneira deliberada os ensinos orais que receberam dos
apóstolos. Eles mudaram? A resposta pode ser crucial para
nosso relacionamento com Deus.
12

Os ensinos dos apóstolos


foram propositadamente
alterados?

Se o cristianismo mudou muito dentro de poucas décadas


depois da morte do apóstolo João, não foi porque a igreja
interpretou mal os ensinos dos apóstolos. Afinal, se os
homens que eram pessoalmente ensinados pelos apóstolos
não pudessem entendê-los, como qualquer outra pessoa
poderia? Então, podemos concluir que qualquer mudança
drástica que tenha havido nos ensinos dos apóstolos só pode
ter acontecido de propósito.

Eles não acreditavam que existisse uma nova revelação


especial
Será que os cristãos primitivos acreditavam que os
apóstolos estavam errados em alguns pontos? Eles
acreditavam que a igreja teve novas revelações depois dos
apóstolos ou que alguns de seus ensinos estavam
ultrapassados?
A resposta é “não!” A igreja primitiva ensinava que
nenhuma doutrina especial havia sido revelada depois dos
apóstolos e que tudo o que precisamos saber sobre Deus foi
revelado a eles. Além disso, a igreja acreditava que os
apóstolos não ensinavam nada de errado e que seus ensinos
se aplicavam para os cristãos de todas as idades. Sobre esse
assunto, Tertuliano escreveu:
Nossa autoridade está nos apóstolos de Jesus. Mesmo eles
não optaram por introduzir algo [novo], mas deixaram para as
nações (a humanidade) a doutrina recebida de Cristo. Se, então,
um anjo do céu pregasse outro evangelho, o chamaríamos
maldito… Assim, estabelecemos a seguinte regra: já que o
Senhor Jesus enviou os apóstolos para pregar, ninguém mais
deveria ser recebido como pregador [da doutrina original],
exceto aqueles a quem ele designou essa tarefa… O Filho não
revelou o Pai a ninguém além dos apóstolos, a quem enviou para
pregar as coisas que lhes foram reveladas.1
Na verdade, o principal conflito entre a igreja primitiva e
os primeiros hereges era a questão da revelação. Pois
praticamente todos os hereges afirmavam ter novas
revelações que iam além dos ensinos dos apóstolos. Ireneu,
discípulo de Policarpo, declarou em favor da igreja:
O Senhor deu aos seus discípulos o poder do evangelho,
através de quem tem revelado a verdade… É ilícito dizer que [os
apóstolos] pregavam antes de ter ‘o conhecimento perfeito’,
como alguns gnósticos se atrevem a dizer, vangloriando-se de
serem superiores aos apóstolos.2
A igreja primitiva era firme em sua posição de que não
tinha nenhuma revelação especial depois dos apóstolos.
Então, a igreja rejeitava qualquer doutrina que não tivesse
sido ouvida da boca dos apóstolos.

Os líderes da igreja primitiva eram homens íntegros


É claro que simplesmente porque os cristãos primitivos
afirmavam que não há revelação de Deus depois dos
apóstolos, não quer dizer que eles não alterassem
maldosamente seus ensinos. E quanto a sua integridade? Os
líderes da igreja eram homens de princípio ou eram homens
que buscavam a riqueza e o poder inescrupulosamente? A
maior evidência era que eles eram homens de Deus, honestos
e humildes. Em primeiro lugar, os líderes da igreja primitiva
não obtinham nenhum benefício material com os cargos que
ocupavam. Como já foi comentado, eles nem sequer
recebiam salário. Ser presbítero na igreja primitiva, em
geral, implicava em renunciar as comodidades materiais
para viver na pobreza. Somente os hereges se beneficiavam
economicamente de seus cargos de liderança. Pouquíssimas
coisas faziam com que alguém se sentisse atraído a ocupar
um cargo de liderança da igreja, exceto o desejo sincero de
servir a Deus.
Além disso, em tempos de perseguição, os cristãos se
tornavam alvo dos soldados e multidões. Em alguns
períodos, ser nomeado supervisor era receber a sentença da
pena de morte. Quase sem exceção, os líderes da igreja
suportaram torturas inumanas para não negar a Cristo. Uma
quantidade considerável de líderes cristãos citados neste
livro (Inácio, Policarpo, Justino Mártir, Hipólito, Cipriano,
Metódio e Orígenes) morreu em favor de sua fé, por sua
própria vontade. Se esses homens tivessem sido desonestos
e tivessem adulterado os ensinos de Jesus e seus discípulos,
será que eles estariam dispostos a morrer por isso? Os
gnósticos, com certeza, não. Apesar de garantir que tinham
uma revelação especial de Deus, os gnósticos negavam a
Jesus quando ficavam diante da tortura e da morte. Poucas
pessoas morreriam por uma mentira.
Nós mesmos não usamos esse fato quando queremos
provar a veracidade da morte e ressurreição de Jesus?
Também não alegamos que os discípulos não teriam morrido
por uma mentira? Os discípulos dos apóstolos teriam feito
algo diferente?

Eles reuniram e preservaram o Novo Testamento


De fato, a autenticidade do Novo Testamento está ligada à
integridade dos cristãos primitivos. Afinal, foram os líderes
da igreja primitiva que compilaram, conservaram e
provaram a autenticidade dos escritos que hoje chamamos de
Novo Testamento.
Alguns cristãos têm formado uma opinião equivocada de
que no fim do tempo dos apóstolos alguém apareceu com
uma coleção de escritos chamada “Novo Testamento”,
contendo tudo o que a igreja precisava saber. Mas não foi
assim. As diferentes cartas e narrativas escritas pelos
apóstolos e outros discípulos, na verdade, foram compiladas
separadamente pelas primeiras congregações cristãs. Os
apóstolos nunca disseram à igreja quais escritos aceitar e
quais recusar. Sob a direção do Espírito Santo, os cristãos
primitivos tiveram que decidir por si mesmos quais escritos
eram autênticos e quais não eram, o que não foi tarefa fácil.
Primeiro porque circulavam muitos evangelhos e cartas
“apostólicas” falsas. Na verdade, a maioria dos relatos
sobre Jesus e seus discípulos era falsa. Você já ouviu falar
do Evangelho de Tomé? E do Evangelho de Nicodemos? Ou
talvez dos Atos de Filipe ou dos Atos de André e Matias?
Você alguma vez já ouviu falar do Apocalipse de Paulo?
Provavelmente não. A razão é que a igreja primitiva não
aceitava esses relatos como verdadeiros.
Caso a igreja quisesse se desviar dos ensinos dos
apóstolos, tudo o que tinha que fazer era aceitar alguns
desses relatos falsos e rejeitar alguns dos verdadeiros
ensinos apostólicos. Ou, a igreja poderia ter mudado os
escritos apostólicos genuínos para que apoiassem a sua
posição. Ninguém iria contra a escolha da igreja, pois
pensariam que eles estavam apenas agindo como fizeram
com os outros livros.
Isso nos deixa entre a cruz e a espada. Pois se dissermos
que os cristãos primitivos eram homens desonestos que
alteraram os ensinos dos apóstolos propositadamente,
teremos que admitir que eles também teriam alterado seus
próprios escritos. De fato, quando defendemos a veracidade
dos escritos do Novo Testamento perante os céticos,
geralmente usamos o testemunho dos cristãos primitivos
como uma das principais bases de autoridade.
A integridade desses homens é visível, principalmente
pela decisão que tomaram de quais livros deveriam ser
incluídos no cânone do Novo Testamento. Por exemplo,
conhecendo a doutrina da igreja sobre a salvação e as obras,
seria normal se descobríssemos que eles deram grande
ênfase ao livro de Tiago, aceitando-o como autêntico sem
pestanejar, mas que, provavelmente, teriam tido resistência à
Epístola aos Romanos. Mas a verdade é o contrário. Os
cristãos primitivos raramente fazem citações do livro de
Tiago e muitas igrejas contestam sua autenticidade.3 Em
contraste, Paulo era muito citado por eles, que não hesitaram
em incluir suas cartas no Novo Testamento.
Quanta integridade! Eles contestaram a autenticidade do
livro que mais se identificava com suas crenças e doutrinas
sobre a salvação. Ao mesmo tempo, aceitaram sem hesitar os
livros que poderiam ser interpretados como aqueles que
contradiziam suas convicções. Será que nós teríamos o
mesmo comportamento?
Eu não vejo esse tipo de integridade no homem de quem se
derivam a maioria das nossas doutrinas: Martinho Lutero.
Uma das coisas mais notáveis que ele fez foi traduzir a
Bíblia para o alemão. Mas sua tradução continha prefácios
em cada livro bíblico, chamando a atenção do leitor para os
pontos que não se encaixavam com sua teologia.
Por exemplo, no prefácio do Novo Testamento, ele
escreveu:
Seria apropriado, e correto, que este livro não tivesse prefácio
ou qualquer outro nome que não fosse o de seus autores, levando
somente seu nome e seu idioma. No entanto, muitas
interpretações e prefácios desordenados têm levado os cristãos a
um ponto em que não se sabe mais o que é Evangelho e o que é
Lei, o que é Antigo Testamento ou Novo. Contudo, a necessidade
demanda que se tenha um prefácio ou anúncio, para que o homem
comum possa se voltar das noções antigas para o caminho
correto, e lhe seja ensinado o que ele deve esperar deste livro, a
fim de que não procure por leis e mandamentos onde deveria
estar buscando o evangelho e as promessas de Deus…
Se eu tivesse que escolher entre as obras e a pregação de
Cristo, eu ficaria sem as obras em vez da pregação. Pois as obras
dele não me ajudam, mas suas palavras trazem vida, como ele
mesmo diz. João, por exemplo, escreve bem pouco sobre as obras
de Jesus, mas fala muito de suas pregações. Mas os outros
evangelistas falam muito de suas obras e pouco de suas
pregações. Sendo assim, o Evangelho de João é o mais completo
dos quatro e está muito acima dos outros três. Também as
epístolas de Paulo e Pedro superam os outros três evangelhos,
Mateus, Marcos, Lucas.
Resumindo, o evangelho de João e sua primeira epístola, as
epístolas de Paulo, principalmente, Romanos, Gálatas e Efésios, e
também a primeira epístola de Pedro, são os livros que mostram
Jesus e que lhe ensinam tudo o que você precisa saber, mesmo
que você nunca venha a ler ou ouvir outra doutrina ou livro.
Contudo, a epístola de Tiago é uma epístola sem valor, em
comparação com essas outras, pois não possui nada da natureza
do evangelho.4
Lutero afirmou que a única razão pela qual ele preferia o
evangelho de João aos outros três era porque ele continha
mais pregações de Jesus. Mas isso não é verdade, pois o
evangelho de Mateus contém pelo menos duas vezes mais
pregações de Jesus que o evangelho de João.
Não é preciso ser muito perceptivo para entender os
verdadeiros motivos de Lutero. Os livros bíblicos que ele
depreciou são aqueles que indicam que a obediência é
necessária para a salvação. Em Mateus, por exemplo,
encontramos o seguinte: “Nem todo o que me diz: Senhor,
Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a
vontade de meu Pai, que está nos céus” (Mateus 7:21); e:
“Mas aquele que perseverar até ao fim será salvo” (Mateus
24:13). Tiago nos diz “que o homem é justificado pelas
obras, e não somente pela fé” (Tiago 2:24).
Lutero estava disposto a menosprezar a Palavra de Deus
apenas para fazer com que sua teologia prosperasse. Não é
de surpreender que a maioria das teologias modernas e
liberais começou nos seminários luteranos.
Resumindo, eu vejo um grande contraste entre a
integridade dos cristãos primitivos e o fundador da Reforma.
Que confiança poderíamos ter no cânone do Novo
Testamento se ele tivesse sido compilado por Martinho
Lutero? E ao mesmo tempo, que confiança podemos ter nas
nossas doutrinas originadas em Lutero?
Os cristãos primitivos eram muito conservadores
Os cristãos primitivos eram muito conservadores,
equacionando a mudança com o erro. Como eles não
esperavam que houvesse outras revelações depois dos
apóstolos, eles rejeitavam qualquer novo ensinamento que
não tivesse surgido deles. Por exemplo, uma congregação
primitiva escreveu o seguinte comentário numa carta a outra
congregação:
Como vocês bem sabem, aqueles que tendem a estabelecer
novas doutrinas têm o hábito de perverter qualquer prova bíblica
que não esteja de acordo com suas convicções… Então, um
discípulo de Cristo não deve aceitar nenhuma nova doutrina que
queiram adicionar às que os apóstolos nos deixaram.5
Quando a mudança é equacionada com o erro, as coisas
não mudam muito rápido. Uma comparação dos escritos da
igreja do segundo século com os do terceiro século mostra
que havia pouquissímas mudanças nas doutrinas e preceitos
entre os dois séculos. Só para constar, houve algumas
mudanças entre o segundo e o terceiro século, mas elas eram
relacionadas às regras e disciplinas da igreja.6

Eles consultavam os discípulos dos apóstolos


Outra coisa que me impressionou sobre os líderes da
igreja primitiva era sua sincera preocupação em se
equivocar com os escritos dos apóstolos. Como já
mencionei, as igrejas do primeiro século aderiram às
tradições orais dos apóstolos e os consultavam quando
surgia algum problema. Se os apóstolos não estivessem
disponíveis, conversavam com os líderes das igrejas onde os
apóstolos tinham estado pessoalmente. Esse costume
continuou até o império de Constantino. Sobre isso, Ireneu
escreveu:
Digamos que surja uma discussão sobre algo importante. Nós
não deveríamos ir até as igrejas mais antigas, onde os apóstolos
pregavam e perguntar a eles o que é certo fazer sobre o assunto?7
Lembre-se de que mesmo por volta do ano 150 d.C. ainda
havia senhores que tinham tido contato pessoal com os
discípulos e tinham sido ensinados por eles. No fim do
segundo século ainda havia líderes que tinham sido
ensinados por um ou mais dos discípulos de um apóstolo. É
claro que consultar as igrejas fundadas pelos discípulos não
era tão bom quanto conversar pessoalmente com eles. Mas
considerando o espírito superconservador da igreja
primitiva, era melhor fazer isso do que se equivocar com
algum dos ensinos dos apóstolos.
Note que essa prática era totalmente voluntária. Nenhuma
igreja tinha autoridade eclesiástica sobre a outra. Lembre-se
também de que a justificativa para essa prática não era que
as igrejas apostólicas tivessem qualquer autoridade ou
revelação de Deus, mas eles tinham uma maior ligação com
as revelações passadas.

Todos ensinavam a mesma doutrina básica


Como eu disse antes, a igreja primitiva era marcada por
uma diversidade de pensamentos em relação aos pontos mais
sutis da doutrina. Ao mesmo tempo, a maioria dos costumes
e crenças básicos, incluindo os que estão neste livro, era o
pensamento de todos na igreja primitiva. Essa
universalidade das crenças básicas me convence de que elas
devem ter vindo dos apóstolos. Isso porque não havia um
cristão do segundo século, por mais influente que fosse, que
pudesse ter dado origem a eles.
Na verdade, Tertuliano aponta isso para os gnósticos e
outros hereges que afirmavam que a igreja não estava
ensinando a doutrina dos apóstolos da forma correta. Mas a
advertência de Tertuliano também serve para os cristãos de
hoje:
É um absurdo afirmar que os apóstolos desconheciam a
grandiosidade da mensagem que eles tinham para proclamar, ou
que não haviam compreendido bem a regra de fé. Vejamos se as
igrejas, talvez, por conta própria, adulteraram a fé que os
apóstolos lhes deixaram… Suponha que todas as igrejas tenham
errado e que o Espírito Santo não tenha se preocupado o
suficiente com uma igreja sequer para mostrar-lhe a verdade,
apesar de esta ser a razão pela qual Deus o enviou a nós…
Suponha também que o Espírito Santo, o Mordomo de Deus e
Vigário de Cristo, negligenciou seu ofício e permitiu que as
igrejas entendessem de maneira errada e ensinassem as coisas de
modo diferente daquele que ele mesmo ensinava através dos
apóstolos.
Se esse fosse o caso, seria possível que tantas igrejas se
desviassem e ainda assim acabassem tendo a mesma mensagem?
Nenhum desvio cometido por tantas pessoas diferentes poderia
fazer com que todas chegassem a uma mesma conclusão. Se as
igrejas tivessem cometido erros doutrinários, com certeza teriam
ensinamentos diferentes. No entanto, quando ela [a fé cristã] é
espalhada entre muitos, percebe-se que é a mesma e única fé; não
é resultado de um erro, mas de um costume estabelecido há muito
tempo.8
Eu acho muito difícil burlar o argumento de Tertuliano. Se
a igreja tivesse se afastado dos ensinos dos apóstolos, como
ela ensinaria a mesma coisa em todos os lugares? Naquele
tempo não existiam comissões de igreja, seminários de
teologia, livros impressos ou qualquer outro meio para
disseminar um erro doutrinário entre as igrejas. Então, como
todas as igrejas acabariam tendo as mesmas interpretações e
costumes se não estivessem seguindo o que Paulo e outros
apóstolos ensinaram nas visitas às congregações? Na
verdade, mesmo trezentos anos depois da morte de Cristo, os
cristãos ortodoxos ainda eram uma só igreja. Mas, trezentos
anos depois da Reforma, os cristãos protestantes e
evangélicos se difundiram em centenas de grupos e seitas.
Será que isso não nos diz nada?

Eles seguiam os passos de Jesus


Um amigo que ouviu dizer que eu estava estudando os
escritos dos cristãos primitivos comentou o seguinte através
de uma carta: “Eu tenho uma teoria. A melhor maneira para
determinar a autenticidade daqueles que respeitamos como
os ‘pais da igreja’ é comparar suas ideias e estilo de vida
com as ideias e estilo de vida de Jesus e seus discípulos.”
Eu, obviamente, percebi que ele estava certo. Seria difícil
afirmar que os cristãos primitivos conservavam os
ensinamentos apostólicos se seu estilo de vida e seus
costumes dissessem o contrário. Mas, como vimos antes,
eles viviam literalmente o que os apóstolos ensinavam. Além
disso, a vida deles refletia sua lealdade a Cristo.

O que Jesus disse acerca da doutrina deles?


Finalmente, nós temos o testemunho do próprio Jesus, que
é o mais importante de todos. No fim do primeiro século, ele
avaliou sete igrejas representativas e deu o resultado da
análise para João, que a escreveu no livro do Apocalipse.
Esta revelação foi feita com apenas alguns anos de diferença
dos primeiros escritos discutidos neste livro, como as cartas
de Inácio e Clemente de Roma.
O que Jesus disse àquelas sete igrejas no livro do
Apocalipse? (leia Apocalipse caps. 2 e 3). Ele as
repreendeu por ensinarem falsas doutrinas? Ele as censurou
por acreditarem que as obras têm um papel no processo de
salvação? Não, ele lhes disse “Conheço as tuas obras”. Ele
as avaliou baseado nas suas obras. Ele disse à igreja de
Sardes que sua obra não estava completa, e que precisavam
se arrepender. Ele critica algumas das igrejas porque elas
eram negligentes na disciplina, pois toleravam aqueles que
ensinavam a idolatria e a imoralidade.
Ele encorajou algumas igrejas a permanecer firmes
naquilo que tinham. Na verdade, duas das igrejas, Esmirna e
Filadélphia, nos servem de referências puras no fim do
primeiro século. Escritos que harmonizam com autores
destas igrejas podem ser considerados confiáveis.
Note que Jesus não fez nenhuma censura para a igreja de
Esmirna, onde Policarpo aparentemente era o supervisor.
Que selo de aprovação melhor do que saber que seus ensinos
e costumes agradam a Deus?
Contudo, se não foram os cristãos primitivos que
adulteraram os ensinamentos dos apóstolos, quem foi?
13

Como o cristianismo primitivo


foi corrompido

O cristianismo primitivo era como um tesouro precioso


que os apóstolos confiaram a homens de caráter irrefutável e
cheios do Espírito Santo. Este tesouro estava guardado numa
fortaleza quase impenetrável, protegida por quatro muros
altíssimos:
1. A certeza de que não havia nenhuma revelação
especial depois do tempo dos apóstolos e um espírito
superconservador que equacionava a mudança com o
erro.
2. A separação da igreja com o mundo, que protegia a
igreja das cadeias que prendem os costumes
mundanos.
3. O costume de compartilhar os problemas com o
corpo de anciãos das igrejas onde os apóstolos
haviam estado pessoalmente.
4. A independência de cada congregação, que fazia
com que fosse difícil espalhar uma falsa doutrina
através da igreja.
Enquanto esses quatro muros permaneceram de pé, o
cristianismo apostólico esteve salvo de qualquer
adulteração. Talvez esses muros tivessem se deteriorado
com o tempo, mas nunca saberemos, pois antes que se
deteriorassem, foram derrubados.
Todavia, não foram derrubados pela força brutal da
perseguição aos cristãos. Durante trezentos anos, Satanás
havia mandado onda após onda de perseguição à igreja, mas
os muros permaneceram intactos, impenetráveis. Na
realidade, a perseguição serviu como um refinamento,
separando o ouro dos dejetos.
Satanás levou três séculos para perceber isso. Mas quando
percebeu, ele conseguiu conquistar em poucas décadas o que
tentou fazer durante trezentos anos. Agora, em vez de usar a
força bruta para acabar com o cristianismo, ele usou a
persuasão para destruí-lo de dentro para fora. Isso me
lembra de uma das fábulas de Esopo que eu li quando era
criança:
“Certo dia, o sol e o vento estavam discutindo ardentemente
quem era o mais forte. Como nenhum dos dois estava disposto a
ceder, o sol propôs que eles testassem sua força. Quem ganhasse
a prova seria conhecido como o mais forte entre eles. Daí, o sol
viu que um homem estava caminhando numa rua do campo, usando
um casaco de lã. Então propôs que tanto ele quanto o vento
tentassem fazer com que o homem tirasse o casaco. O vento
concordou que aquela seria uma tarefa justa. O sol pediu que o
vento começasse a disputa e se escondeu atrás de uma nuvem.
O vento soprou com toda sua força, fazendo com que o homem
quase perdesse o equilíbrio. Enquanto o homem tentava caminhar,
o vento, assobiando como uma locomotiva, soprava cada vez mais
forte contra o pobre homem. Apesar de quase não conseguir ficar
em pé, o homem não tirou o casaco. Em vez disso, ele o apertou
ainda mais em volta do corpo. Já exausto, o vento desistiu.
O sol, então, saiu detrás da nuvem e gentilmente direcionou
seus raios naquele homem. Dentro de poucos minutos, o homem,
que estava sentindo muito calor, tirou o casaco.”
Do mesmo modo, quando Satanás tentou coagir os cristãos
pela força, ele falhou. Contudo, quando estendeu o tapete
vermelho e derramou presentes, glórias e honras sobre a
igreja, ela se rendeu quase que instantaneamente.

A transferência do estilo de vida para a doutrina


Como eu já disse, houve poucas mudanças na igreja do
segundo século para o terceiro. No entanto, lá pela metade
do terceiro século, a igreja já tinha perdido um pouco de sua
vitalidade. Muitos cristãos passaram a adotar o estilo de
vida materialista e confortável do mundo. Um número grande
de cristãos negava a Cristo durante as perseguições.1 À
medida que a igreja perdia sua vitalidade, sua estrutura
eclesiástica se tornava cada vez mais rígida. Os cristãos
começaram a enxergar seus líderes mais como sacerdotes
sacramentais que como pregadores e mestres. Além disso, o
bispo de Roma começou a impor sua autoridade sobre outras
igrejas.2
Já disseram que “o patriotismo é o último refúgio de um
canalha.”3 No cristianismo, a teologia é o último refúgio de
uma igreja espiritualmente fraca. A teologia não requer fé,
amor nem sacrifício. Um “cristão” sem fé, que não tem um
relacionamento real com Deus, pode dar seu consentimento a
uma lista de doutrinas, do mesmo modo que um cristão
espiritualmente forte faz. Assim, conforme a igreja se
enfraquecia, ela começou a colocar toda sua ênfase na
doutrina. No fim do terceiro século, depois de um longo
tempo sem sofrer perseguição, as discussões entre igrejas
sobre assuntos doutrinários cresceram muito.
O historiador da igreja, Eusébio, que viveu nesse período,
lembra-se da situação triste em que se encontravam:
“Devido ao excesso de liberdade [dado pelo governo]
caímos na negligência e na preguiça. Invejamos e insultamos
uns aos outros e estamos quase nos esmurrando, pois líderes
atacam outros líderes com palavras que cortam como espada
e há pessoas formando partidos contra outras pessoas.”4
Como consequência disso, a igreja estava despreparada para
a grande onda de perseguição que a assolou no início do
quarto século.

Como Constantino tentou “cristianizar” o Império


Romano
Desde Nero, que imperou no primeiro século, não tinha
havido uma dinastia continuada de imperadores romanos. Em
vez disso, um imperador reinava por um curto período de
tempo, antes que fosse destronado por algum rival
reclamando seu direito ao trono. No ano 306 d.C., vários
rivais compartilharam o governo do Império Romano.
Severo governava a Itália e a África do Norte e Constantino
governava a Grã-Bretanha e a Gália. Outros dois
governadores administravam o império oriental. Quando
Severo foi destronado por um rival chamado Magêncio,
Constantino se autodeclarou o único governador legítimo do
império ocidental romano.
Constantino era um líder nato, um homem de ação
decisiva, que conseguia inspirar e organizar o povo ao
mesmo tempo. Logo depois de se autodeclarar o único
imperador do ocidente, ele começou uma jornada em direção
aos Alpes romanos, a fim de destronar Magêncio. Após uma
sucessão de vitórias, Constantino iniciou a etapa final de sua
jornada em 312 d.C. Durante a marcha de Roma, ele teve
uma experiência que teria um grande impacto no cristianismo
e na história do mundo.
Eusébio, o historiador da igreja, contou mais tarde o que
Constantino lhe disse que acontecera:
Ele disse que por volta do meio-dia, quando o dia começava a
caminhar para seu fim, ele viu com seus próprios olhos o sinal
de uma cruz na luz acima do sol, onde estava escrito: ‘Com isto,
vença’.5
Além disso, Constantino disse que ele teve um sonho em
que Cristo lhe dizia para construir uma arma militar em
forma de cruz. Esta arma o protegeria de seus inimigos em
todas as batalhas. Como resultado dessas duas experiências,
Constantino ordenou que um artefato especial fosse
construído. Era uma lança perpendicular banhada a ouro,
com uma pequena barra atravessada, formando uma cruz.
Sobre a barra cruzada, ele mandou colocar uma coroa de
louros cravada de pedras preciosas. Dentro da coroa,
estavam gravadas as inicias de Cristo.
Constantino levou a lança para a guerra, e seu exército
venceu o de Magêncio na Ponte Mílvia, que ficava a cerca
de três quilômetros dos muros de Roma. Constantino se
tornou o único governador do império ocidental e creditou
sua vitória ao Deus dos cristãos.
A relação que se desenvolveu entre Constantino e a igreja
depois disso só pode ser compreendida à luz do
relacionamento que os imperadores romanos tinham tido com
a religião até aquele momento.
Os romanos eram um povo muito religioso, que atribuía
seu sucesso e prosperidade como império aos deuses que os
abençoavam. A religião era um assunto público no Império
Romano e a religião e o Império sempre tinham sido
interligados. Nas cerimônias públicas, eles invocavam seus
deuses, pois a adoração pública era considerada uma
questão de dever patriótico. Ofender os deuses era crime
contra o estado.6
Constantino realmente acreditava que o Deus dos cristãos
havia lhe dado a vitória e que ele protegeria o Império
Romano, desde que o imperador o adorasse e a igreja fosse
fiel a ele. Então, Constantino passou a derramar “bênçãos”
sobre a igreja e seus líderes. Juntamente com o imperador do
oriente, ele estabeleceu o Édito de Milão em 313 d.C., que
diz, em parte:
Pareceu-nos [aos imperadores] justo que todos, os cristãos
inclusive, gozem da liberdade de seguir o culto e a religião de
sua preferência. Assim qualquer divindade que no céu mora ser-
nos-á propícia a nós e a todos nossos súditos.7
Note que Constantino não decretou que todos no império
se tornassem cristãos. Ele simplesmente deu ao cristianismo
o reconhecimento nunca antes obtido, colocando-o em pé de
igualdade com todas as outras religiões do império. Todavia,
o cristianismo agora era a religião do próprio imperador, o
que lhe trouxe um prestígio maior do que a todas as religiões
pagãs.
Muitos prédios da igreja tinham sido destruídos nas
perseguições que ocorreram antes que Constantino assumisse
o trono. Então, ele mandou que a maioria dos prédios fosse
reconstruída com financiamento do governo. Também passou
a pagar salário para os líderes da igreja com dinheiro dos
cofres públicos e lavrou leis que isentavam esses líderes de
qualquer serviço governamental obrigatório. Ele fez isso
para que os líderes pudessem se dedicar às congregações em
período integral, pois acreditava que se a igreja fosse
espiritualmente saudável, Deus continuaria favorecendo seu
império.8 Constantino também promoveu os cristãos a
posições proeminentes no governo, ficando cercado por
conselheiros cristãos. Ele tinha também bispos que
acompanhavam seus soldados nas batalhas, a fim de garantir
o favor divino para seu exército.9

Os muros começam a ruir


Por dois séculos e meio o cristianismo permaneceu
praticamente imutável, protegido por quatro muros
intransponíveis. No entanto, a muralha mais distante, o
espírito superconservador da igreja, estava ameaçado. No
passado, qualquer nova doutrina ou costume era
automaticamente rejeitado pela igreja. Mas depois da
conversão de Constantino, a igreja começou a reexaminar
sua posição que dizia que mudar era uma coisa errada. Por
exemplo, a igreja sempre havia considerado uma heresia
pagar salário aos seus líderes. Contudo, quando o imperador
ofereceu-se para pagar os tais salários, a igreja ponderou
sobre o assunto e decidiu aceitar a sugestão. A igreja, então,
passou a proclamar que havia chegado uma nova era para o
cristianismo e que as antigas regras não precisavam mais ser
seguidas. Os cristãos começaram a dizer a si mesmos que
Deus havia mudado os preceitos. Então, Eusébio escreveu:
Deve parecer aos que respeitam devidamente estes fatos que
está chegando uma nova era existencial, mais suave, e que uma
luz anteriormente desconhecida, de repente, começa a despontar
no horizonte da escuridão da raça humana. E todos devem
confessar que estas coisas são obra divina, pois Deus levantou
esse piedoso imperador para contrariar a multidão de pagãos.10
Eusébio descreveu como os líderes da igreja foram
convidados a entrar na câmara do imperador e se socializar
com ele. Eusébio mais parecia um fã deslumbrado ao lado
de seu ídolo, que um líder maduro da igreja:
Os homens de Deus adentraram sem medo no mais íntimo
aposento imperial, onde alguns fizeram companhia para o
imperador em sua mesa, enquanto outros se reclinavam em sofás
em cada lado da mesa. Poder-se-ia pensar que era uma imagem
do reino de Deus obscurecida, pois parecia mais um sonho que
uma realidade. 11
O muro mais distante tinha desmoronado. A igreja já não
equacionava a mudança com o erro. De fato, os cristãos
começaram a acreditar que o cristianismo podia mudar para
a melhor. Talvez o cristianismo apostólico não fosse o
apogeu do cristianismo, mas apenas seu começo. A
possibilidade de novas revelações especiais tinha sido
aceita. Os cristãos passaram a aplicar a seguinte profecia de
Ageu ao cristianismo: “A glória deste novo templo será
maior do que a do antigo” (Ageu 2:9, NVI).12 A igreja
estava pronta para expandir seus horizontes.

Como a amizade com o mundo destruiu a igreja


O próximo muro a desmoronar foi o muro de proteção que
separava a igreja do mundo. A igreja era como uma menina
ingênua que de repente se encanta por um rapaz. O mundo
queria ser amigo da igreja, e ela não viu problema em
corresponder à amizade. Pela primeira vez na história, ser
cristão trazia prestígio social. Os cristãos tinham preferência
na nomeação para cargos governamentais.
Contudo, a amizade do mundo logo destruiu a alma da
igreja. Como Constantino começou a estabelecer leis para
“cristianizar” o povo romano, as diferenças entre cristãos e
pagãos foram ficando cada vez mais difíceis de distinguir.
No passado, não havia muita coisa que atraísse as pessoas
ao cristianismo, exceto a fé genuína em Deus. Aqueles que se
convertiam só por fogo de palha se revelavam logo que
surgiam provações. Pessoas não-regeneradas eram minoria
na igreja. Mas agora que o cristianismo era bem visto na
sociedade, multidões passaram a se aglomerar na igreja.
Como já estava espiritualmente fraca, a igreja não conseguia
assimilar um número tão grande de “convertidos”. Logo, o
nome “cristão” se tornou sem sentido. Ele simplesmente
indicava que alguém tinha aceitado determinado credo e que
havia participado dos vários rituais cristãos, como o
batismo, por exemplo. A conversão não mais significava uma
mudança de vida.
Um dos primeiros efeitos da amizade entre a igreja e o
mundo foi que a igreja passou a adotar os métodos
mundanos. Era inevitável, pois o mundo não consegue fazer
as coisas do jeito de Deus. Pois para fazer as coisas do jeito
de Deus é preciso ter o seu poder. E uma multidão de
pessoas não-regeneradas usando o nome de “cristãos” não
tem o poder do Senhor. Na verdade, elas nem querem fazer
as coisas do jeito de Deus, pois isso exige paciência,
disposição para sofrer e confiança absoluta nele.

Que ousem nos perseguir!


A princípio, os métodos inovadores do mundo pareciam
mais efetivos que a maneira antiga de fazer as coisas. Por
exemplo, a igreja mudou a maneira de enfrentar a
perseguição e a opressão governamental. No passado, os
cristãos simplesmente tentavam se esconder e escapar da
perseguição. Eles se recusavam a lutar fisicamente com seus
perseguidores ou a revidar as agressões. Mas agora, a
multidão de pessoas não-regeneradas que abarrotava as
igrejas não estava disposta a aceitar a morte, a tortura e a
opressão assim tão mansamente.
Por exemplo, quando o filho de Constantino enviou um de
seus generais a Constantinopla para destituir o bispo da
igreja local, a congregação formou uma turba. Naquela noite
enquanto o general estava dormindo, a turba ateou fogo em
seus aposentos. Quando ele finalmente saiu da casa, confuso
e tossindo por causa da fumaça, a turba o atacou. Então, o
arrastaram pelas ruas da cidade e o espancaram até a
morte.13 Esse não foi um caso isolado. Essa era a resposta
comum da igreja do quarto século a quem os oprimia. O
caráter do cristianismo tinha mudado!

Silenciando os hereges!
O mundo também tinha um jeito diferente de lidar com os
hereges. Constantino ponderou que a igreja seria muito mais
saudável se não houvesse hereges que pudessem enganar o
povo. Assim, ele tentou usar seu poder para erradicar a
heresia, baixando o seguinte decreto:
Entendam, pelo presente estatuto, vocês novacianos,
valentinianos, marcionistas, paulicianos, montanistas e todos os
demais que apoiam e divulgam heresias através de suas
assembleias privadas… Que suas ofensas são tão detestáveis e
atrozes que um só dia não bastaria para contá-las… Já que não é
possível tolerar seus erros mortais, eu os advirto a não se
reunirem mais de hoje em diante. Por isso, ordeno que seus
locais de reuniões sejam confiscados. E vocês estão
expressamente proibidos de fazer suas reuniões supersticiosas e
inúteis, nem em público, nem em particular, ou em qualquer
outro lugar.14
Poucas décadas antes, era crime ser cristão. Agora, o
crime era ser herege. A igreja aceitou todas essas mudanças
em silêncio. Afinal, era bem mais fácil usar o poder do
estado para silenciar os hereges, do que ter que argumentar
com eles.
Mas logo, muitos segmentos da igreja começaram a acusar
uns aos outros de heresia, usando a espada uns contra os
outros. Por fim, um número muito maior de cristãos foi morto
pela espada da igreja do que todos os que foram
assassinados pelos romanos.
É triste dizer que quando o exército mulçumano invadiu o
Egito em 639 d.C., muitos cristãos dali os receberam como
seus libertadores, pois se sentiam melhor estando nas mãos
dos muçulmanos, do que nas mãos de seus companheiros
cristãos.

O evangelismo através de uma arquitetura deslumbrante


Originalmente, os cristãos faziam seus cultos nas casas
dos irmãos (leia Romanos 16:5). Conforme a congregação
crescia, eles transformavam a casa num lugar de reuniões e
as chamavam de “casas de oração”. Ninguém se sentia
atraído ao cristianismo pela arquitetura de seus prédios, mas
sim por seus ensinos e pelo exemplo de vida de seus
membros. No entanto, Constantino imaginou que talvez as
pessoas se atraíssem mais pelo cristianismo se os templos
fossem mais impressionantes. Então, com o dinheiro público,
ele construiu templos tão luxuosos que podiam facilmente
competir com a magnificência dos templos pagãos. Os novos
templos foram decorados com colunas exuberantes e tetos
com abóbadas. Muitos tinham belíssimas fontes e pisos de
mármore. A intenção de Constantino era que qualquer um que
não fosse cristão que passasse em frente à igreja não pudesse
resistir a entrar nela.15
Sua ideia funcionou perfeitamente. Os pagãos se sentiam
atraídos pelos templos magníficos e milhares acabaram se
“convertendo” ao cristianismo.

Em vez de carregar a cruz, os cristãos agora a vendiam


Em seguida, foi a vez da mãe de Constantino agir.
Seguindo diretrizes que alegava terem sido dadas por Deus
em sonho, ela viajou até Jerusalém e disse que tinha
encontrado o túmulo do Cristo. Também disse que tinha
encontrado três cruzes na tumba, mas não sabia qual delas
pertencia a Jesus. Então, as três cruzes foram levadas até
uma mulher muito doente, que ficou instantaneamente curada
ao tocar a verdadeira cruz de Cristo.16 Isso iniciou uma onda
de relíquia-mania. Em um curto espaço de tempo, as
relíquias começaram a aparecer em todo lugar: ossos dos
profetas, pedaços da cruz, roupas usadas pelos apóstolos, e
assim por diante. Milhares de pessoas eram supostamente
curadas ao tocar ou olhar nessas peças. Por fim, as peças
começaram a ser comercializadas por vendedores, que
criaram um negócio bem lucrativo com elas.
No fim do século VI, uma senhora muito rica pediu a
Gregório (bispo de Roma), que lhe enviasse o crânio do
apóstolo Paulo, para ser colocado numa igreja que ela estava
construindo para homenageá-lo. Gregório lhe respondeu
numa carta:
Estou aflito, pois não posso, nem ouso, fazer o que me
pediste, porque os corpos dos apóstolos Pedro e Paulo brilham
com tantos milagres e horrores em suas igrejas, que não se pode
ir até lá para orar sem grande temor.17
Ele continua contando como um padre caiu morto ao chão
quando tentou remover alguns ossos de Paulo. Mas vai mais
além:
Você precisa saber que não é costume dos romanos que, ao dar
relíquias dos santos, se possa tocar qualquer parte do corpo
deles. Em vez disso, coloca-se um pedaço de tecido numa caixa
que é colocada ao lado do corpo sagrado dos santos. Quando [a
roupa] é recolhida, ela é depositada com muita reverência na
igreja a ser dedicada. O efeito produzido é tão poderoso como
se o próprio corpo do santo estivesse ali presente.18
Gregório continuou a descrever como um bispo romano
tinha cortado um desses tecidos com uma tesoura e sangue
tinha fluído do pedaço de pano.

O caminho mais curto para o coração de um pagão é seu estômago


Poucas coisas atraíam mais o povo romano que uma festa.
Um dos costumes das congregações da igreja primitiva era
se lembrar dos seus mártires locais através de uma “festa do
amor” e uma cerimônia no dia do aniversário de sua morte.
Alguns cristãos inovadores perceberam que podiam atrair os
pagãos para a igreja se expandissem as festas dos mártires
para uma celebração pública. A ideia funcionou
perfeitamente e logo cidades inteiras se “converteram” por
esse método.

Crescimento indica bênção de Deus?


Agora que a igreja estava aberta a mudanças, como
poderiam saber se Deus aprovava aquelas alterações? Os
cristãos pensaram que a resposta era simples: o crescimento.
Se a igreja crescia era sinal da aprovação de Deus. O
cristianismo cresceu rápido nos três primeiros séculos, mas
depois da conversão de Constantino, o crescimento explodiu.
No período em que o Édito de Milão (313 d.C.) foi escrito,
provavelmente um décimo do Império Romano já tinha se
convertido ao cristianismo. Mas isso levou cerca de
trezentos anos. No entanto, cerca de cem anos depois do
Édito de Milão, noventa por cento do império tinha sido
“convertido”. Então, a igreja acreditava que esse
crescimento era um sinal da aprovação de Deus. Tendo
aceitado essa premissa, a igreja passou a adotar qualquer
costume que resultasse em crescimento, inclusive o uso de
imagens na adoração, uma ideia totalmente repugnante aos
cristãos primitivos.
Dois dos muros de proteção do cristianismo tinham sido
derrubados. Restavam só dois: 1) O costume de compartilhar
os problemas com o corpo de anciãos das igrejas onde os
apóstolos haviam estado pessoalmente e 2) A independência
de cada congregação. Sem se dar conta, Constantino demoliu
os dois últimos muros de uma só vez no Concílio de Niceia.
14

Os últimos muros caem

Como já foi dito, a igreja do princípio do quarto século


estava cheia de conflitos e divisões doutrinárias. Uma das
discussões mais calorosas foi sobre a origem e a natureza do
Filho de Deus. A controvérsia começou por causa de uma
pergunta hipotética que Alexandre, bispo de Alexandria, fez
ao seu corpo de anciãos. Ário, um dos anciãos (presbíteros),
expressou uma visão não ortodoxa sobre a questão, e logo os
dois estavam envolvidos numa discussão calorosa. A disputa
logo se espalhou por toda a congregação e, mais tarde, para
outras congregações.
Logo, Constantino começou a se preocupar se aquela
divisão não faria com que Deus retirasse as bênçãos do
Império Romano. Quando os métodos antigos não
funcionaram para resolver a disputa, ele sugeriu uma nova
abordagem: uma comissão com líderes de todas as igrejas do
império. Aquilo nunca tinha acontecido, pois as comissões
eram sempre em menor escala, nas igrejas locais. Ter uma
comissão tão grande era uma novidade maravilhosa.
Toda a igreja vibrou animada. Líderes de todos os lugares
viajaram à Niceia (lugar escolhido para o concílio, que hoje
é onde fica a Turquia) por conta do governo. O estado
também providenciou hospedagem, alimentação e
entretenimento para os representantes logo que chegaram a
Niceia.
O próprio Constantino presidiu a conferência com duração
de dois meses, participando acirradamente das discussões.
Os líderes logo ficaram impressionados com o espírito de
liderança do imperador. Constantino persuadiu o grupo a
criar um credo universal para a igreja que determinasse a
natureza divina do Filho de Deus. Aquilo era algo novo, pois
no passado cada igreja usava seu próprio credo.
O próprio Constantino propôs as palavras que seriam
usadas para redigir o credo. Para excluir o ponto de vista de
Ário, ele argumentou que o termo grego homoousios deveria
ser usado para descrever o relacionamento de Jesus com o
Pai. Este termo quer dizer: “Pertencente a uma mesma
natureza”. O termo consistia com as crenças dos cristãos
primitivos. Na verdade, muitos escritores cristãos já tinham
usado o termo para descrever a divindade do Filho. No
entanto, ele não aparece nenhuma vez na Bíblia e também
não foi incluído em nenhum credo congregacional.
Todavia, como resultado das habilidades de persuasão de
Constantino, todos os representantes da igreja, exceto cinco,
assinaram o novo credo universal. Então, o imperador baniu
os cinco ao exílio, um deles era Ário.1 Além disso, ele
decretou:
Se for descoberto algum tratado proposto por Ário, que seja
lançado no fogo, a fim de que não apenas sua doutrina deturpada
seja suprimida, mas para que também não se preserve nenhuma
memória dele. Assim, eu decreto que, se alguém for descoberto
com um livro escrito por Ário e não o entregue para ser
queimado, sofrerá a pena de morte.2
Constantino ainda direcionou o Concílio Niceno a dar
outros passos para evitar futuras controvérsias e discórdias
na igreja. Ele achava que a igreja se fortaleceria se fosse
mais organizada e estivesse mais de acordo com o governo
romano. Então, cada bispo recebeu uma diocese (uma
unidade administrativa do governo romano) para governar.
O governo também estabeleceu leis que davam autoridade
sobre outras igrejas para determinados bispos, também
chamados “metropolitanos”. Por exemplo, para o bispo de
Alexandria, foi dada autoridade sobre todas as igrejas no
Egito e na Líbia. Depois o concílio decidiu que nenhum
outro bispo poderia ser estabelecido sem autorização do
metropolitano. Os metropolitanos eram, em geral, os bispos
das principais cidades romanas. Logo, esses metropolitanos
foram proclamados como tendo uma autoridade delegada por
Deus, similar à dos apóstolos. Então, era obrigatório que
todos se submetessem a eles.3
Mas o Concílio de Niceia não terminou aí. Muitas outras
leis foram estabelecidas, a fim de proporcionar a maior
uniformidade possível à igreja. Por exemplo, o concílio
decretou que todos os cristãos deveriam orar em pé aos
domingos e durante os cinquenta dias entre a Páscoa e o
Pentecoste.4 Resumindo, os cânones de Niceia destruíram a
independência de cada congregação. Mudanças teológicas,
ou qualquer outra inovação, não precisaria mais ser
vagarosamente divulgada de congregação em congregação.
Um concílio universal fez em alguns dias o que antes levaria
séculos.
Por fim, Constantino declarou que o novo Credo Niceno
tinha sido inspirado por Deus:
Este que foi aceito por mais de trezentos bispos não pode ser
nada além da doutrina de Deus; visto que o Espírito Santo, que
habita na mente de tantas pessoas dignas, os iluminou quanto à
vontade divina.5
Depois disso a convicção de que não havia revelação
especial depois dos apóstolos foi destruída.

As sequelas de Niceia
Do ponto de vista humano, parecia que Constantino tinha
feito algo fantástico. A igreja nunca mais seria dividida por
conflitos e costumes decisivos! Os representantes em Niceia
se regozijavam com sua grande conquista. Mas a alegria
durou pouco. Trezentos anos de conservadorismo não
podiam ser desfeitos em tão pouco tempo. Quando os bispos
voltaram a suas igrejas e estas começaram a refletir mais
seriamente sobre o decreto de Niceia, logo surgiu um
movimento conservador contrário ao Édito. Devido a esta
oposição, Eusébio achou por bem escrever uma carta
explicando o motivo pelo qual ele havia assinado o tratado.6
Os conservadores ainda equacionavam a mudança com o
erro e ficaram bastante incomodados com o fato de o Credo
Niceno usar uma terminologia que não estivesse nas
Escrituras Sagradas. Também estavam perturbados porque os
credos locais que tinham sido usados por centenas de anos
seriam abolidos. Por fim, quando vários hereges passaram a
se esconder atrás do Credo Niceno para propagar suas
crenças não ortodoxas, o grupo conservador começou a
insistir para que o Credo fosse revisto e ampliado, a fim de
explicar mais precisamente as crenças que a igreja vinha
seguindo há anos.
Talvez esse movimento de contra fluxo em relação às
mudanças tivesse sido bem-sucedido, não fosse pela
persistência de um homem: Atanásio. Ele havia sido diácono
na igreja de Alexandria na época da desavença com Ário e
também tinha ido ao concílio, apesar de não ter tido um
papel relevante nele. O Credo Niceno tinha a intenção de
preservar o que a igreja acreditava sobre a pessoa de Cristo
e, aparentemente, a intenção original de Atanásio era manter
a teologia ortodoxa dos cristãos primitivos.
Contudo, com o passar do tempo, manter o Credo se
tornou mais importante para Atanásio do que conservar a
teologia ortodoxa. Ele ficou obcecado com a ideia de que o
Credo não podia ser alterado de forma alguma, por mais
ortodoxas que essas modificações pudessem ser. Afirmava
que o Credo tinha sido inspirado por Deus, colocando-o no
mesmo nível da Bíblia. Assim, embora Atanásio tivesse
começado como um grande defensor da ortodoxia cristã, no
final, ele acabou contradizendo muitos dos ensinos da igreja
primitiva e conseguiu arrastar grande parte de igreja com
ele.

Credos e mais credos


O Concílio de Niceia acabou não trazendo a união que
Constantino almejava para a igreja. Na realidade, havia mais
divisão e contendas depois de Niceia do que antes do
concílio. A verdade é que os dois séculos que se seguiram à
conversão de Constantino foram marcados por disputas
teológicas, discussões e discórdias na igreja. Os cristãos
começaram a levantar suas espadas e literalmente matar uns
aos outros por causa das diferenças doutrinárias. À medida
que a estrutura do cristianismo se deteriorava, a ênfase na
doutrina, em vez da ênfase na vida cristã, crescia cada vez
mais.
A partir desses conflitos, surgiram líderes que se
destacaram e acabaram se tornando verdadeiros “pais” da
teologia cristã. Houve outros concílios e mais credos
surgiram. Os argumentos passavam de Jesus para o Espírito
Santo e novamente para Jesus. Conforme os anos se
passavam, cada vez mais pessoas diziam ter novas
revelações vindas de Deus. Gregório de Nazianzo, um dos
líderes no debate sobre o Espírito Santo, declarou:
O Antigo Testamento mencionava o Pai abertamente e o Filho
de forma mais obscura. O Novo [Testamento] evidenciava o
Filho e sugeria a divindade do Espírito. Contudo, o próprio
Espírito habita entre nós e nos dá uma clara demonstração de si
mesmo. Pois não era seguro, proclamar um Filho quando a
divindade do Pai ainda não era reconhecida. Nem quando a
[divindade] do Filho ainda não era aceita, nos sobrecarregar com
mais um fardo (se me permitem usar uma expressão tão
atrevida), isto é, o Espírito Santo.7
A teologia simples e flexível da igreja primitiva logo
abriu caminho para os credos rígidos e dogmáticos. Por fim,
os credos ocuparam o lugar da Bíblia como autoridade da
igreja. A cada concílio ecumênico, novas linguagens não
bíblicas eram adicionadas ao dogma da igreja. Na maioria
dos casos, a intenção, supostamente, era restaurar as crenças
que a igreja sempre acreditara. Mas no fim, os credos
contribuíam para que a doutrina cristã apostólica fosse cada
vez mais adulterada.
Um bom exemplo disso é o decreto que foi estabelecido
no Primeiro Concílio de Éfeso (431 d.C.). Neste concílio foi
proclamado que todos aqueles que não reconhecessem Maria
como a “Mãe de Deus” (grego: Theotokos) seriam
amaldiçoados.8 Apesar de o título teológico afirmar que a
intenção não era endeusar Maria, seu decreto a igualou a
Deus ante os olhos do povo. Em algumas partes do mundo
hoje, as pessoas oram mais a Maria que ao próprio Deus.
Atanásio, Gregório de Nazianzo e outros líderes desse
período haviam feito os preparativos para o Concílio de
Éfeso. Mas também prepararam a base para o homem que
mudaria radicalmente a doutrina original que a igreja
ensinava. Este homem, que escreveu no fim do século IV,
acabou se tornando o professor teológico mais influente de
todos os tempos, mais influente até que os próprios
apóstolos.
15

O cristão mais influente de


todos os tempos

Não estou exagerando quando digo que Agostinho, bispo


de Hipona no século IV, foi o teólogo mais influente de todos
os tempos, ao menos para o mundo ocidental. Ele tem
influenciado a igreja mais que os próprios apóstolos, pois a
igreja ocidental lê os apóstolos através de seus olhos. De
fato, ele é reconhecido por quase todos como o “pai” da
teologia cristã ocidental.
Mas não é à toa que a influência de Agostinho sobre a
teologia tem sido tão grande. Antes de se tornar cristão, ele
era professor de retórica e redação. Como bispo, ele
obviamente fazia uso dessas ferramentas. Ninguém conseguia
resistir aos seus argumentos. Em sua época, ele se tornou a
maior autoridade teológica ocidental em quase todas as
questões sobre doutrina e moralidade. Um dos maiores
atributos de Agostinho é que ele sabia argumentar como um
homem ocidental, coisa que a maioria dos escritores
primitivos não sabia. Mesmo hoje, é fácil seguir a lógica de
Agostinho. Mas não se pode dizer o mesmo sobre a lógica de
alguns escritores cristãos pré-nicenos.
Infelizmente, o Novo Testamento não foi escrito por
mentes ocidentais, mas por mentes greco-orientais.
Agostinho não dominava o idioma grego, o que é muito
significativo, já que o grego é a língua original do Novo
Testamento, assim como da maioria dos escritos do
cristianismo primitivo. Talvez seja por isso que Agostinho se
apartou tanto do cristianismo primitivo em vários assuntos,
mais que qualquer outro teólogo de sua época. É uma pena
que ele tivesse uma mente tão brilhante, pois acabou
convencendo grande parte da igreja ocidental de suas
teorias.
A lista de doutrinas e costumes introduzidos, ou pelo
menos defendidos, por Agostinho é incrivelmente longa. A
seguir está um pouco do que ele ensinava:

​• ​Que Maria havia nascido e vivido praticamente a


vida toda sem pecar;1
Que bebezinhos que não foram batizados estão
condenados por toda a eternidade;2
Que o sexo dentro do casamento é um ato
inerentemente degradante;3
Que a guerra pode ser santa;4
Que o Milênio não será literal;5
Que não há perdão de pecados a não ser pela igreja
católica;6
Que alguns ensinamentos dos apóstolos não se
aplicam mais ao cristianismo, pois eles viveram
numa época diferente;7
Que existe um purgatório;8
Que os mortos podem se beneficiar do sacrifício da
eucaristia;9 e
Que é apropriado que o estado cristão persiga os
hereges.10
Quanto a este último assunto, ele escreveu:
Que todos sejam chamados à salvação. Que todos sejam
trazidos do caminho da destruição. Aqueles que podem, pelos
sermões católicos. Aqueles que podem, pelos editais dos
príncipes católicos. Alguns porque obedecem às advertências
divinas. Outros porque obedecem às ordens do imperador… O rei
Nabucodonosor… quando se converteu por um milagre divino,
promulgou uma lei justa e digna de elogios em nome da verdade:
Que todo aquele que falasse algo indevido contra o Deus
verdadeiro, o Deus de Sadraque, Mesaque e Abede Nego, devia
perecer, junto com sua família…
Se a igreja verdadeira é aquela que sofre perseguição, não a que
inflige [como alguns dizem], deixe-os perguntar ao apóstolo que
igreja Sara tipificou quando perseguiu sua serva. Pois [o apóstolo]
declara que nossa mãe livre, a Jerusalém celestial, que é a
verdadeira igreja de Deus, foi prefigurada por aquela mulher
[Sara], que tratou sua serva do modo cruel. Contudo, se
investigarmos a história mais a fundo, descobriremos que na
verdade a serva arrogante foi quem perseguiu Sara… [Sara] apenas
lhe impôs o castigo devido por sua soberba.
Pergunto novamente: Se os homens santos nunca perseguem
ninguém, mas só são perseguidos, de quem são as palavras do
Salmo que diz: “Persegui os meus inimigos, e os alcancei; não
voltei senão depois de os ter consumido?” Assim, se quisermos
reconhecer ou declarar a verdade, há uma perseguição injusta, em
que os ímpios perseguem a igreja, e há uma perseguição justa, em
que a igreja persegue os ímpios. Além do mais, [a igreja]
persegue em espírito de amor e eles em espírito de ódio…
Então, qual é a função do amor fraternal? Pelo medo que alguns
têm do fogo temporário da fornalha, há de se condenar muitos ao
fogo eterno do inferno?11
Você provavelmente já entendeu por que Agostinho é o pai
da igreja católica romana. Mas você provavelmente vai ficar
surpreso em saber que ele também é o pai da Reforma
Protestante.

A Lei de Newton da teologia


Sir Isaac Newton observou que a toda ação há sempre uma
reação oposta ou de igual intensidade. É triste dizer que a
Lei de Newton se aplica à teologia do mesmo modo que se
aplica à física. Para cada herege que se afasta da doutrina
verdadeira numa determinada direção, há um teólogo
“ortodoxo” que reage a ele, indo a um extremo igualmente
oposto. Infelizmente, o teólogo “ortodoxo”, quase que
inevitavelmente, arrasta toda a igreja junto com ele. O
resultado final é que o herege consegue mudar a igreja, mas
no sentido contrário ao que planejava.
Um bom exemplo disso é o clássico conflito entre
Agostinho e Pelágio, um monge britânico. Por volta do ano
400 d.C., a igreja havia se transformado num grupo de
pessoas que se encontrava todos os domingos para recitar
credos e doutrinas formuladas. A grande maioria não tinha
um relacionamento verdadeiro com Deus. A igreja estava
espiritualmente anêmica. Pelágio queria contestar esse
relaxo espiritual e, por isso, passou a viajar para todos os
lugares pregando uma mensagem firme e direta sobre
arrependimento e consagração. Ele destacava a
responsabilidade que o homem tinha diante de Deus por seus
pecados. Um de seus discípulos, que se chamava Celéstio,
começou a pregar que o ser humano podia viver uma vida
teoricamente sem pecado e assim salvar a si mesmo, sem
precisar da graça de Deus ou do sangue de Cristo. Seu
argumento era mais ou menos assim:
Somos capazes de obedecer a qualquer mandamento de
Deus por no mínimo um dia. Por exemplo, todos podem
evitar a mentira, a cobiça, o roubo ou dizer o nome de Deus
em vão por no mínimo um dia. Se formos capazes de
obedecer a esses mandamentos por um dia, também teremos
força para obedecê-los por dois dias. Se pudermos obedecê-
los por dois dias, poderemos obedecê-los por uma semana, e
assim por diante. A conclusão a que Celéstio chegou é que
somos capazes de obedecer aos mandamentos de Deus todos
os dias pelo resto da vida. Então, unicamente nós somos
responsáveis por nossos pecados e não podemos culpar nem
Adão pela nossa desobediência nem qualquer fraqueza
herdada da carne.12
Embora seu argumento pareça lógico, ele é fraudulento.
Pois só porque uma coisa é possível ser feita em pequena
escala, não quer dizer que pode ser repetida em grande
escala. Por exemplo, só porque alguém consegue correr
cinco quilômetros, não quer dizer que ele possa correr
trezentos. Eu posso digitar uma média de setenta e cinco
palavras por minuto, por três minutos consecutivos, sem
cometer erros. Então, seguindo a lógica de Celéstio, eu seria
capaz de digitar a essa velocidade por três dias seguidos
sem cometer erros, o que simplesmente não consigo fazer.
Mas ao mesmo tempo, alguns de seus ensinamentos não
eram muito diferentes dos ensinos dos cristãos primitivos.
Como vimos antes, eles também acreditavam que cada um é
responsável por seus próprios pecados e que somos capazes
de viver uma vida de obediência a Deus. Por outro lado, eles
reconheciam que todos nós carecemos da graça de Deus,
tanto da graça salvadora quanto da graça fortalecedora. Sem
graça, não há salvação.

O que Agostinho ensinava sobre a salvação?


Em resposta a esses ensinamentos (conhecidos como
pelagianismo), Agostinho foi ao outro extremo e
desenvolveu as seguintes doutrinas:
1. Devido à queda de Adão, o homem é completamente
corrompido e incapaz de fazer qualquer bem ou de
salvar a si mesmo. De fato, ele é incapaz de crer ou de
ter fé em Deus.
2. Assim, o homem só é capaz de crer e ter fé em Deus,
se ele lhes conceder a fé e a crença. O ser humano não
tem liberdade de escolher acreditar ou não.
3. A decisão divina de salvar um e condenar o outro, ou
de dar fé a um e não ao outro, é totalmente arbitrária.
Não há nada que possamos fazer para influenciar sua
escolha.
4. Antes da criação do mundo, Deus predestinou (não
simplesmente previu) quem se salvaria e quem se
perderia. Não há nada que possamos fazer, nesta vida ou
na vindoura, que possa mudar isso.
5. Os eleitos, aqueles que estão predestinados à
salvação, não podem perder a salvação. Os que estão
condenados à perdição não podem jamais ser salvos.
6. Não há como saber se você é ou não um dos eleitos.
Deus dá o dom da fé para muitos, a fim de que creiam,
sejam batizados e guardem seus mandamentos. Contudo,
alguns destes não estão predestinados à salvação e, no
fim, não irão perseverar. O dom da perseverança é
diferente do dom da salvação. Não há como sabermos
quem tem o dom da perseverança na igreja.
7. A salvação depende unicamente da graça. A fé é um
dom de Deus. A obediência é um dom de Deus. A
perseverança é um dom de Deus.13
Agostinho conseguiu persuadir a maioria dos bispos do
Norte da África e seu ponto de vista acabou prevalecendo.
Todavia, ao reagir exageradamente contra os erros de
pelagianismo, ele jogou por terra os ensinamentos originais
dos cristãos primitivos sobre o livre arbítrio e envolvimento
do ser humano no processo da salvação. No lugar delas,
Agostinho colocou a fria e amarga doutrina da
predestinação.
16

A reforma foi uma volta ao


cristianismo primitivo?

A história geralmente se repete. Isso vale tanto para a


esfera cristã quanto para a secular. Por exemplo, a
controvérsia entre Agostinho e Pelágio praticamente se
repetiu na Europa do século XVI. O nome dos protagonistas
era diferente e a doutrina havia mudado um pouco. Mas o
resultado foi o mesmo.
Outra vez, a questão era a salvação. Com o passar dos
séculos, a igreja tinha lentamente se afastado da doutrina
agostiniana da predestinação. Em vez disso, a igreja católica
medieval, assim como os cristãos primitivos, ensinava que
as boas obras têm um papel importante na salvação. A
diferença é que os cristãos primitivos usavam o termo
“obediência” em vez de “boas obras”. Os católicos
medievais expandiram o termo para incluir práticas
ritualísticas, tais como fazer peregrinações, contemplar
relíquias e comprar indulgências. Contudo, ao contrário do
que se crê, a teologia da igreja católica medieval não
ensinava que se pode obter a salvação sem a graça de Deus.
A Reforma foi provocada por causa do abuso do costume
católico de vender indulgências. Na teologia católica, a
indulgência é a remissão da pena temporal do pecado. As
pessoas acreditavam que o papa tinha autoridade para
conceder indulgências para os vivos e os que estavam no
purgatório, contanto que a pessoa que receberia a
indulgência, ou seu intercessor, estivesse arrependida e
fizesse doações para a igreja ou alguma instituição de
caridade.
O papa precisava de fundos para reconstruir a Catedral de
São Pedro em Roma. Então, ele autorizou um pregador
chamado João Tetzel, a arrecadar fundos para o prédio,
“vendendo” indulgências na Alemanha. Tetzel era um orador
muito entusiasmado e, ao que parece, fazia todo tipo de
afirmação absurda sobre o que se podia conseguir com a
compra da indulgência. Ele usava a preocupação que as
pessoas tinham com seus entes queridos mortos, dizendo o
seguinte: “Assim que a moeda cai na salva, a alma do ser
amado é libertada do purgatório.”1
Certo dia, um homem perguntou a Tetzel se a compra da
indulgência garantia perdão por qualquer pecado.
“Claro que sim!” Tetzel respondeu.
“E se o pecado ainda não foi cometido?” O homem
questionou.
“Não faz diferença,” Tetzel garantiu. “Nenhum pecado é
grande demais para ser perdoado”.
Então, o homem comprou rapidamente a indulgência.
Depois que Tetzel terminou sua lucrativa tarefa naquela vila,
ele empacotou suas coisas e partiu para a próxima cidade.
No caminho, ele foi confrontado por um bando de ladrões,
que roubou tudo o que ele tinha, inclusive o dinheiro das
vendas de indulgência daquele dia. O sorridente líder do
bando era ninguém menos que o jovem rapaz que tinha
comprado a indulgência naquela tarde, prevendo um pecado
futuro: o roubo.
As afirmações absurdas de Tetzel não passaram
despercebidas. Um enérgico monge chamado Martinho
Lutero, cheio de indignação, confrontou Tetzel, denunciando
suas afirmações ridículas. Mas quando a igreja não fez nada
para repreender Tetzel, Lutero cravou 95 teses na porta da
igreja de Wittenberg, propondo um debate público sobre a
questão das indulgências. Muitas pessoas têm uma
concepção errada das 95 teses de Lutero. Elas não eram uma
lista com 95 doutrinas e sim declarações sobre as
indulgências. Por exemplo, a tese 75 diz: “Crer que o perdão
papal é tão grande que pode absolver um homem que tenha
cometido um pecado imperdoável e violado a Mãe de Deus
é uma loucura!”2 Parece que Tetzel e seus companheiros
alegavam exatamente isso.
As chamas do que deveria ser uma disputa local se
espalharam por todos os lugares, através de uma novidade
recém-inventada: a imprensa. As 95 teses de Lutero foram
copiadas por imprensas locais, sendo distribuídas por toda a
Europa. Logo passou a se formar um confronto sem tamanho.
A fim de solidificar sua posição doutrinária contra os abusos
de Tetzel, Lutero sucumbiu à teologia instintiva e foi para o
outro extremo. Ao fazer isso, ele não tinha que desenvolver
nenhuma nova teologia. Como era um monge agostiniano,
tudo o que tinha que fazer era ressuscitar algumas doutrinas
enterradas de Agostinho. Seguindo os passos de Agostinho,
Lutero argumentou que a salvação é uma questão de
predestinação. Ensinou que os seres humanos são incapazes
de fazer algo bom ou de ter fé em Deus. Em vez disso, Deus
dá a fé e as boas obras para aqueles que ele escolheu
arbitrariamente antes da criação do mundo. Outros foram
escolhidos para ser condenados eternamente.3
Mais que isso, Lutero afirmava que uma pessoa não podia
se salvar, a menos que acreditasse na doutrina absoluta da
predestinação:
Pois se não há conhecimento disto, não pode haver fé nem
adoração a Deus. Na verdade, não saber isso é desconhecer a
Deus. E com tal ignorância, a salvação, como se sabe, não é
possível. Pois se você duvida e nem se importa em saber que
Deus sabe todas as coisas e faz tudo conforme sua vontade,
então, como você pode crer nele, confiar nele, e aprender a
depender de suas promessas?… Você não vai temê-lo como
verdadeiro e fiel, o que é considerado incredulidade, o pior dos
pecados, a negação do Deus Todo-Poderoso!4
Lutero pegou muitas outras doutrinas emprestadas de
Agostinho, inclusive a doutrina da guerra santa. Quando
camponeses alemães se levantaram contra o tratamento
desumano que sofriam nas mãos da nobreza, Lutero
reconheceu que a rebelião deles podia ter se formado por
causa de seus ensinos. Então, ele encorajou a nobreza a
reprimir a rebelião através da força, incitando-os com as
seguintes palavras:
Não há tempo para dormir; e também não há espaço para
paciência ou misericórdia. É hora de usar a espada e não de
mostrar clemência… Todo camponês que morrer estará perdido
e pertencerá ao diabo por toda a eternidade. Mas os governantes
têm a consciência tranquila e lutam por uma causa justa. Então,
podem dizer a Deus com toda a certeza em seu coração: “Veja,
meu Deus, tu me colocaste como príncipe e soberano, disso não
duvido. E me confiaste a espada sobre os malfeitores…
Portanto, vou castigar e ferir até que me faltem as forças. Tu
julgarás e farás justiça.” E pode ser que aquele que morrer ao
lado de um governante seja visto como mártir aos olhos de
Deus… Tempos estranhos estes, em que um príncipe pode
ganhar o céu pelo derramamento de sangue, muito mais que um
homem de oração!… Golpeie, apunhale e mate quantos puder!
Se você morrer lutando, melhor para você! Não pode haver
morte mais digna que essa.5
A nobreza não hesitou em seguir os conselhos de Lutero.
Eles massacraram os camponeses numa guerra marcada por
terríveis atrocidades. Os camponeses que não foram
assassinados no campo de batalha foram aprisionados,
torturados e executados.
Nos mil e cem anos que se passaram entre Agostinho e
Lutero, o cristianismo ocidental havia sofrido várias
mudanças, indo e voltando entre doutrinas. Agora, ele estava
mais ou menos na situação em que Agostinho o havia
deixado. A Reforma não era uma volta ao espírito e aos
ensinos do cristianismo primitivo. Na verdade, Lutero tinha
conseguido eliminar muitos dos costumes pós-Constantino na
igreja alemã, como, por exemplo, o uso de imagens e
relíquias, as orações aos santos, os cultos em favor dos
mortos que estavam no purgatório, o celibato forçado para
os clérigos, a venda de indulgências e as peregrinações
religiosas como uma espécie de “boas obras”. Ao remover
esses costumes, Lutero levou o cristianismo alemão para um
padrão muito mais próximo do seu original, a época dos
cristãos primitivos. Por outro lado, ao voltar para o estilo
teológico de Agostinho, Lutero acabou retrocedendo alguns
passos para longe do cristianismo primitivo.

Qual é a nossa maior autoridade: a Bíblia ou a


interpretação luterana da Bíblia?
Provavelmente, a maior contribuição de Lutero para o
cristianismo foi sua ênfase na Bíblia como única fonte de
autoridade. Um dos lemas mais conhecidos da Reforma era
“Sola Scriptura”. Mas na verdade, os dizeres do slogan
funcionavam mais na teoria que na prática. Lutero traduziu a
Bíblia para o alemão, a fim de que as pessoas pudessem lê-
la por si mesmas, o que foi uma grande conquista. No
entanto, ele se certificou de que o povo alemão lesse a
Bíblia através da sua interpretação.
No capítulo 12, vimos algumas partes do prefácio de
Lutero para o Novo Testamento, em que ele tentava desviar a
atenção das pessoas das partes da Bíblia que não estavam de
acordo com sua teologia. A introdução de Lutero ao livro de
Romanos é tão extensa que dá quase metade do livro. Nessa
introdução, Lutero disse: “Esta epístola é o principal livro
do Novo Testamento e o evangelho em sua forma mais
pura”,6 o que coloca o livro de Romanos acima dos outros
livros do Novo Testamento. Ele declarou também:
Para começar, devemos conhecer sua linguagem e saber o que
São Paulo quis dizer com as palavras: lei, pecado, graça, fé,
justiça, carne, espírito, etc. Senão, a leitura não tem valor.7
Depois, Lutero passou a definir cada um desses termos,
em geral de modo bem diferente da definição que os cristãos
primitivos davam a cada um deles.
No prefácio à Epístola aos Hebreus, Lutero ataca a carta,
dizendo:
Mais uma vez, há um problema no fato de que os capítulos seis
e dez negam e proíbem o arrependimento pós-batismo. E no
capítulo doze diz que Esaú buscou arrependimento, mas não o
encontrou. Isso parece ir contra todos os Evangelhos e as
Epístolas de São Paulo. Mesmo que alguém tente suavizar o
texto, suas palavras são tão claras, que não sei se isso seria
suficiente. Minha opinião é de que esta é uma epístola feita de
fragmentos, em que não há nenhum tema específico.8
Então o lema de Lutero, “Solo Scriptura”, era um mito,
pois ele mesmo se certificou de que os cristãos não
ouvissem só as palavras da Bíblia. No fim, a Bíblia não era
a principal fonte de autoridade da Reforma, mas sim a
interpretação luterana da mesma.
Antes de passarmos para o próximo assunto, quero me
certificar de que você entenda que as contribuições positivas
de Lutero para o cristianismo têm mais peso que seus erros
teológicos. Eu mencionei mais as suas falhas que pontos
positivos, porque a igreja evangélica tem colocado Lutero
num pedestal. Suas qualidades e conquistas positivas já são
bem conhecidas da maioria dos evangélicos. Lutero foi um
corajoso homem de Deus, que arriscou a própria vida para
ressuscitar uma igreja espiritualmente morta. É possível
admirarmos suas qualidades sem ter que seguir seus erros.
Lutero queria levar a igreja de volta às crenças originais
do cristianismo, mas ele mesmo praticamente não sabia
quais eram essas crenças. A maioria dos escritos dos
cristãos primitivos não estava disponível no ocidente quando
a Reforma começou. Então, Lutero igualou erroneamente os
escritos de Agostinho com os escritos dos cristãos
primitivos. No período em que os escritos dos cristãos
primitivos ficaram disponíveis, as doutrinas da Reforma já
estavam estabelecidas e ninguém estava disposto a mudá-las.
17

A busca pela restauração do


cristianismo primitivo

Lutero acendeu a faísca que incendiou o cristianismo


ocidental. Se ele não houvesse feito nenhuma outra
contribuição ao cristianismo, ainda assim a igreja lhe
deveria eterna gratidão. Seu corajoso confronto com a Igreja
Católica inspirou milhares de pessoas a questionar seus
ensinos e a trabalhar pela restauração do cristianismo
apostólico. Enquanto Lutero lutou para reformar a igreja-
estado, outros concluíram que essa instituição estava além de
uma reforma. Então eles tentaram restaurar o cristianismo
primitivo independentemente da igreja-estado. A seguir
vamos ver alguns destes movimentos, os mais importantes.

A revolução wesleyana
Na Inglaterra, a Reforma tomou um rumo diferente da
Reforma na Alemanha. Assim como Lutero, a maioria dos
reformistas ingleses buscava reformar a instituição igreja-
estado. Contudo, enquanto Lutero leu as Escrituras através
dos olhos de Agostinho, muitos reformistas ingleses se
baseavam nos escritos da igreja pré-nicena.1 Um deles
escreveu:
A Bíblia Sagrada é a fonte viva que contém em abundância a
pura Água da Vida, assim como tudo o que é necessário para
levar o povo de Deus à salvação… A voz e o testemunho da
igreja primitiva são um guia e uma norma ministerial
subordinada, para nos preservar e dirigir à interpretação correta
da Bíblia.2
Infelizmente, nem sempre os reformistas ingleses seguiram
este princípio da interpretação bíblica. Se tivessem feito
isso, nunca teriam tentado comprimir o cristianismo dentro
de uma instituição estatal. Como os cristãos primitivos
reconheciam, o Reino de Deus não é desse mundo e não
pode se unir aos reinos terrestres.
Apesar de ter defeitos, a Reforma inglesa preparou o
território para um pastor inglês que virou a Inglaterra do
século XVIII de cabeça para baixo. Este pastor era João
Wesley. Nos anos 1700, a igreja na Inglaterra tinha
regressado a uma igreja letárgica, feita para os cultos,
educados e ricos. Descontente com a situação, Wesley
começou a levar o evangelho para os asilos, vilarejos e
campos abertos, a fim de alcançar as pessoas comuns. Assim
como aconteceu com os cristãos primitivos, a pregação de
João Wesley mudou milhares de vidas. O evangelho da
salvação pela graça virou a Inglaterra e a América de ponta
cabeça.
Diferentemente dos muitos reformadores que o
precederam, Wesley entendeu que uma revolução espiritual
deve começar dentro do ser humano. O Espírito Santo tem
que mudar a pessoa de dentro para fora. Não há como voltar
para o cristianismo primitivo sem a obra fortalecedora do
Espírito Santo. Wesley também entendeu que quando o
Espírito Santo habita na pessoa, a mudança externa acontece
naturalmente. Ninguém que vive no Espírito anda de acordo
com o mundo.
Wesley tinha grande admiração pelos escritos dos cristãos
primitivos. Ele escreveu:
Pode-se desculpar alguém que passa vários anos nos assentos
da aprendizagem e não inclui os Pais em suas leituras? Os Pais
são os mais autênticos comentaristas das Escrituras, pois
estiveram mais perto da fonte e estavam cheios do Espírito, que
foi quem inspirou a Bíblia. Você perceberá que estou falando
especialmente daqueles que escreveram antes do Concílio de
Niceia.3
O ministério de João Wesley deu início, não apenas à
Igreja Metodista, mas a inúmeras igrejas cristãs, das quais
muitas têm seu foco na volta ao cristianismo apostólico.
Além disso, o movimento wesleyano, que tinha ênfase no
relacionamento pessoal com Cristo e no fortalecimento
através do Espírito Santo, influenciou centenas de igrejas
fora do círculo wesleyano.
Outros movimentos que se focavam no cristianismo
primitivo
Houve outro movimento que restaurou o cristianismo
primitivo e que surgiu dentro da igreja presbiteriana nos
Estados Unidos, no início do século XIX. Cansado de tantas
disputas teológicas, da predestinação rígida, da tirania
eclesiástica e das frequentes discórdias que assolavam a
igreja presbiteriana, Barton W. Stone, um pastor
presbiteriano, iniciou um movimento no estado de Kentucky
para restaurar o cristianismo apostólico. O principal
objetivo de Stone era restaurar a vida santificada e a
separação do mundo vividas pelos cristãos primitivos.4
Na década de 1820, o movimento de Stone se fundiu com
outro movimento, iniciado por Thomas e Alexander
Campbell, que também queriam restaurar o cristianismo
primitivo. Um dos principais objetivos de Alexander era
unir todos os cristãos. Ele sentia que esta unidade só
aconteceria se todos os cristãos esquecessem os credos e
tradições feitos pelos homens e se voltassem para a forma, a
estrutura e as doutrinas da igreja apostólica. Com este
propósito, os membros do movimento Campbell-Stone
voltaram a praticar a comunhão semanal, a autonomia
congregacional e um ministério pluralista em cada
congregação, praticados anteriormente pelos cristãos
primitivos. Embora o movimento se focasse mais nas
doutrinas e nas ordenanças primitivas, em vez de na vida
santificada e na vida interior, ele conseguiu promover a
renovação espiritual de milhares de pessoas em todo o país.
Mas não podemos falar sobre movimentos religiosos sem
mencionar o Movimento Oxford no início dos anos 1800,
apesar de ele ter sido um movimento mais reformista que
restauracionista.[1] Tudo começou com uma cruzada dos
professores e pastores da Universidade de Oxford. Eles
chamavam os cristãos para voltar à fé e aos costumes da
igreja antiga. Através de seu trabalho, os líderes do
movimento chamaram a atenção para a igreja primitiva,
fazendo com que os cristãos se interessassem pelo assunto.
Na verdade, eles até publicaram alguns dos escritos dos
cristãos primitivos na forma de folhetos, disponibilizando-os
aos cristãos a um custo de dois centavos por panfleto. Pela
primeira vez na história, o povo inglês podia ler por si
mesmo o relato do martírio de Policarpo a um preço
acessível.
Edward Pusey, um dos principais líderes do movimento,
lançou pessoalmente uma coleção de traduções, constando
de 50 volumes, dos escritos dos cristãos primitivos,
chamando-a de A Biblioteca dos Pais. Na realidade, é
através do movimento Oxford que hoje existem traduções
dos cristãos primitivos em inglês a um custo acessível.
Devido ao fundamento lançado pelos homens de Oxford, os
cristãos comuns de hoje podem descobrir por si mesmos
como era o cristianismo primitivo.
Muitos grupos ainda buscam o cristianismo primitivo nos
dias de hoje. Muitas dessas igrejas são enormes, enquanto
outras não passam de duas ou três pessoas reunidas em uma
casa. Seja um grupo grande ou pequeno, os cristãos que
buscam o cristianismo primitivo podem aprender muito com
um dos movimentos mais significativos na história da igreja:
a Reforma Radical.
[1]
Um movimento restauracionista busca restaurar a igreja
apostólica. Já um movimento reformista quer melhorar a
instituição religiosa já existente.
18

O fogo anabatista

No século XVI, grupos de cristãos ardentes do continente


europeu colocaram a Europa em chamas com sua busca pela
restauração do cristianismo apostólico. Esses cristãos,
conhecidos como anabatistas, formavam um dos movimentos
mais notáveis da história do cristianismo. Os historiadores
em geral se referem aos anabatistas como a “terceira asa da
Reforma”, sendo que as primeiras duas são a Luterana e a
Reformada. Outros chamam o movimento anabatista de
“Reforma Radical”. Isso porque os anabatistas reconheciam
que para restaurar o cristianismo primitivo tem que haver
uma transformação radical de vida.
De todos os movimentos restauradores dos últimos
quinhentos anos, os anabatistas provavelmente foram os que
mais se aproximaram de recuperar o espírito cristão
primitivo dos “dois reinos”. Ou seja, eles entendiam que não
podemos servir a dois senhores. Não podemos estar
envolvidos nos assuntos políticos e militares deste mundo e
ainda assim achar que estamos totalmente comprometidos
com Cristo. Também não podemos estar engajados em
construir impérios comerciais e, ao mesmo tempo, buscar o
Reino de Deus em primeiro lugar. Seu reino não é deste
mundo e quando vivemos através dos ensinos de Jesus,
somos notadamente diferentes do mundo que nos cerca,
assim como os cristãos primitivos eram.
Curiosamente, das três asas da Reforma, os anabatistas
foram os que mais se afastaram dos centros intelectuais de
sua época. Pois apesar de haver alguns líderes anabatistas
com educação universitária, a maioria deles não tinha um
diploma universitário. Contudo, embora não houvesse entre
eles quem estudasse os escritos dos cristãos primitivos, a
maioria de suas crenças eram as mesmas deles,
principalmente no que dizia respeito ao estilo de vida. Qual
era seu segredo? Eles tentavam seguir as palavras da Bíblia
de forma literal. O fato de que os anabatistas, que se
baseavam tanto na Bíblia, chegaram às mesmas conclusões
que os cristãos primitivos é uma das afirmações mais fortes
que temos de que o cristianismo primitivo era baseado na
Bíblia. Aliás, os pontos que os anabatistas ensinavam de
modo diferente do cristianismo primitivo eram aqueles em
que não se podia tomar os escritos do Novo Testamento de
forma literal.
Algumas das conclusões dos anabatistas eram
consideradas extremamente revolucionárias e radicais pela
maioria dos cristãos professos de seus dias, católicos,
luteranos e reformistas. Por exemplo, os anabatistas
ensinavam que a Igreja deve estar separada do Estado.
Desde os tempos de Constantino, a Igreja e o Estado
estiveram casados um com o outro, e praticamente ninguém
no século XVI, nem mesmo Lutero ou Calvino, questionou
isso. Toda a estrutura da sociedade medieval girava em torno
da união do Estado com a Igreja. Então, a maioria das
pessoas pensou que os ensinamentos dos anabatistas geraria
anarquia. Como resultado, os anabatistas foram declarados
fora-da-lei em quase todos os países da Europa. Como
lamentou um deles: “Hoje em dia, não se permite que um
cristão sincero, que ensine a Palavra de Deus sem culpa,
viva em nenhum reino, país ou cidade debaixo do céu, se
descobrirem que ele é cristão.”1
Dentro de poucos anos, a maioria dos líderes anabatistas
originais tinha sido presa e executada. Os anabatistas se
tornaram um grupo caçado, mudando de um lugar para outro
e se encontrando nas florestas e outros esconderijos
secretos. Mas eram evangelistas incansáveis e cresceram
muito rapidamente. O segredo de sua força era o profundo
amor que tinham por seu Senhor.

Paralelos fascinantes entre os anabatistas e os cristãos


primitivos
Em maior grau, os anabatistas rejeitavam as coisas do
mundo e viviam como cidadãos do reino celestial, do mesmo
modo que os cristãos primitivos. O restante da igreja os
odiava por causa disso. Diferente de Lutero, que desprezou o
Evangelho de Mateus, os anabatistas levavam o Sermão do
Monte muito a sério e o seguiam de modo literal. Eles
diziam que um cristão renascido deveria viver por aqueles
princípios.
Embora a maioria das denominações religiosas se
preocupem com os necessitados hoje em dia, não era assim
na época da Reforma. Então, os anabatistas se contrastavam
dos luteranos, reformistas e católicos no cuidado fraternal de
uns para com os outros. Eles declararam a essas outras
igrejas:
“…Esta misericórdia, amor e comunidade, nós ensinamos e
praticamos, e durante dezessete anos os temos ensinado e
praticado. Que Deus seja louvado para sempre, porque embora
nossas propriedades tenham sido tomadas de nós e continuem
sendo tomadas todos os dias, e muitos pais e mães justos são
mortos queimados ou ao fio da espada, e também não tenhamos
liberdade para desfrutar de nossos lares, como bem se sabe…
ainda assim, nenhum dos que se uniu a nós, assim como nenhum
de seus filhos órfãos, tem sido forçado a mendigar. Se isso não
for o verdadeiro cristianismo, então também abandonaremos o
Evangelho de nosso Senhor…
Não é triste e intolerável a maneira hipócrita com que esses
infelizes [os luteranos] se gabam de ter a Palavra de Deus e de ser
a verdadeira igreja cristã e se esquecem de que perderam
totalmente o sinal de seu cristianismo? Embora muitos deles
tenham muito de tudo e vistam-se com sedas e veludos, usem
ouro e prata, andem com toda a pompa e esplendor… permitem
que muitos dos seus membros pobres e afligidos peçam esmolas.
[Eles forçam] os pobres, famintos, sofredores, idosos, coxos,
cegos e doentes a implorarem por comida em suas portas.
Ah, meus queridos pregadores, onde está o poder do evangelho
que vocês pregam?… Onde estão os frutos do Espírito que
receberam?2
Assim como os cristãos primitivos, os anabatistas
pregavam a mensagem da cruz. Eles perguntavam: “Se a
Cabeça teve que sofrer tanta tortura, angústia, miséria e dor,
como podem seus servos, filhos e membros esperar paz e
liberdade para sua carne?”3 Ao mesmo tempo, embora
fossem cruelmente perseguidos, torturados e executados, eles
se recusavam a reagir ou retaliar.
Dirk Willems é um dos exemplos mais emocionantes do
amor incondicional que os anabatistas tinham pelos outros.
Enquanto fugia das autoridades católicas que tentavam
prendê-lo, Dirk teve que atravessar um lago congelado, mas
chegou ao outro lado são e salvo. Ele começou a correr para
a margem do lago, mas virou-se para ver a que distância
estavam seus perseguidores. Para sua surpresa, o oficial que
o perseguia tinha caído dentro do gelo e estava se afogando.
Apesar de poder escapar facilmente por causa daquela
situação toda, Willems voltou e salvou o oficial. Sem se
comover com a cena, o oficial encarregado ordenou que Dirk
fosse preso. Em consequência de sua bondade, ele foi preso
e queimado vivo.
Também como os cristãos primitivos, os anabatistas se
recusavam a usar a espada para defender seu país, para se
proteger ou executar criminosos.4 Obedecendo às palavras
de Jesus, eles se recusavam a jurar.5 Em vez de pregar um
evangelho de saúde e prosperidade, enfatizavam a vida
simples. Na realidade, por causa das perseguições, a
maioria vivia em terrível pobreza.
Embora o lema da Reforma fosse “salvação somente pela
fé”, os anabatistas ensinavam que a obediência também é
essencial para a salvação. Contudo, não ensinavam que se
ganha a salvação pelo acúmulo de boas obras e rejeitavam
todos os rituais de obras para a auto-justificação ensinados
pelos católicos romanos. Enfatizavam o fato de que a
salvação é um dom de Deus, mas também ensinavam que é
um dom condicional, que pode ser retirado dos
desobedientes.
De fato, a doutrina de salvação anabatista era bem
semelhante à doutrina de salvação dos cristãos primitivos.
Porém, como eles ensinavam que a obediência é necessária
para a salvação, os luteranos e cristãos reformistas os
acusavam de ensinar que devemos ganhar nossa própria
salvação.6 Em uma época em que os outros ressaltavam os
ensinos de Agostinho, os anabatistas rejeitavam totalmente a
doutrina da predestinação. Em vez disso, ensinavam que a
salvação é para todos e que todos escolhem se aceitam ou
rejeitam a graça oferecida por Deus para a salvação.

A história se repete
O paralelo entre os anabatistas e os cristãos primitivos vai
além dos costumes e crenças. O declínio espiritual de ambos
foi similarmente marcante. Enquanto foram perseguidos, os
anabatistas brilharam com um fervor e espírito cristãos que
não deixavam a desejar em nada para os cristãos primitivos.
Apesar de serem foras-da-lei, eram os evangelistas mais
incansáveis da Reforma. E assim como os cristãos
primitivos, seu sangue era a semente que fazia seu
movimento crescer.
Mas também como a igreja primitiva, o movimento
anabatista decaiu quando seus perseguidores passaram a
tolerá-los. Em geral, o governo era tolerante, desde que eles
não pregassem mais. Como consequência desse acordo, a
maioria dos anabatistas passou a se retirar para seus
conclaves, tornando-se “os silenciosos da terra”. Dentro de
poucas gerações, grande parte dos anabatistas já tinha
perdido o interesse em compartilhar sua visão com os
outros, mesmo quando tinham liberdade para fazê-lo. Sua
ética de trabalho duro fez com que muitos deles
prosperassem e se tornassem cada vez mais interessados nas
coisas desta vida e menos nas coisas da vida porvir.
Uma vez mais, assim como os cristãos primitivos, quando
os anabatistas perderam o senso de comprometimento, se
viram envolvidos em calorosas disputas internas. Mas
diferentemente dos conflitos da igreja primitiva, as
controvérsias dos anabatistas eram em geral sobre assuntos
relacionados à disciplina, em vez da teologia. Logo, o
movimento foi fragmentado por uma interminável cadeia de
divisões e rupturas. Embora os anabatistas originais
enfatizassem a transformação do ser interior, o movimento
foi se focando cada vez mais no exterior. Com frequência, as
roupas e adornos do cristão se tornavam mais importantes do
que aquilo que ele era por dentro.

O legado dos anabatistas


Apesar do enfraquecimento do movimento, o impacto que
os anabatistas tiveram sobre a igreja dura até hoje. Embora
fossem de longe a menor das três asas da Reforma, muitos
dos seus ensinamentos são aceitos pela maioria dos cristãos
de hoje: a separação da igreja e do estado, a liberdade
religiosa, a necessidade de arrependimento e conversão e o
dom da salvação aberto a todos.
Além disso, os anabatistas do século XVI inspiraram o
surgimento de movimentos similares em outros séculos. Os
batistas ingleses, por exemplo, devem muito aos anabatistas,
apesar de não terem abraçado todos os seus princípios.
Também no início do século XVIII, surgiu na Alemanha um
movimento muito parecido com o dos anabatistas. Seu líder
era um homem chamado Alexander Mack e o movimento
pregava sobre o amor inflexível, a separação do mundo, a
não violência e a entrega de corpo e alma. Por causa da
perseguição na Europa, esses fiéis foram se refugiar nas
florestas da América. A história desses cristãos
extraordinários, conhecidos como Irmandade ou Dunkards, é
bem parecida com a história dos anabatistas originais.
Novamente, na Suíça do século XVIII, depois que os
anabatistas tinham quase desaparecido naquele país, Samuel
Froehlich, um jovem seminarista, organizou comunidades
cristãs que se baseavam na interpretação literal da Palavra
de Deus. Não é de surpreender que ele e seus amigos
chegassem às mesmas conclusões que os anabatistas. Esses
cristãos, chamados de Irmandade Evangélica, se espalharam
rapidamente pela Europa. Hoje em dia, muitos movimentos
de “novos anabatistas” estão se espalhando pelos Estados
Unidos e Europa. Com frequência, esses novos anabatistas
têm se beneficiado da “transpolinização espiritual”
juntamente com outros grupos restauracionistas, como o
movimento wesleyano.
Mais que isso, os anabatistas originais não
desapareceram. Os menonitas e amish de hoje são
descendentes diretos dos anabatistas do século XVI. Eles
mantêm a maioria dos ensinamentos e costumes dos
anabatistas do século XVI. Mas infelizmente, para a maioria,
eles não conseguiram recuperar o fervor dos seus ancestrais.
Apesar dos anabatistas terem sido o movimento
evangelístico mais importante da Reforma, muitos dos
menonitas e amish de hoje não têm muito zelo para o
evangelismo, senão que escondem sua luz. Alguns deles
estão mais preocupados se um de seus membros usa botões
no vestido, do que em compartilhar sua fé com o resto da
humanidade. Embora tenham boas intenções, eles muitas
vezes se prendem muito às questões exteriores.
Não estou dizendo isso com espírito crítico, nem julgando
ninguém, mas com amor e tristeza. Porém, no fundo, ainda
existem algumas brasas do fervor anabatista — e também
dos cristãos primitivos. Talvez Deus ainda inflame essas
brasas, transformando-as em fogo, a fim de que tragam uma
renovação espiritual para toda a igreja.
19

Mas o que tudo isso significa


para nós?

Então, o que isso significa para nós? Para mim, significa


que tenho que encarar os cristãos primitivos. Talvez todos
devessem fazer isso. A maioria dos cristãos simplesmente
ignora os cristãos primitivos. Raramente falamos sobre eles
na igreja e somos indiferentes aos seus escritos.
Nossa postura é parecida com a posição dos fariseus em
relação a João Batista. Quando eles tentaram armar uma
emboscada para Jesus, perguntando de onde vinha sua
autoridade, ele respondeu perguntando de onde vinha a
autoridade de João. Então, os fariseus discutiram entre si:
“Se dissermos: Do céu, ele nos dirá: Então por que não o
crestes? E, se dissermos: Dos homens, tememos o povo,
porque todos consideram João como profeta. E,
respondendo a Jesus, disseram: Não sabemos” (Mateus
21:25–27).
A concepção que temos dos cristãos primitivos é bem
parecida com essa. Não podemos dizer que seu estilo de
vida e suas convicções eram corretos, pois assim teríamos
que reconhecer que nosso estilo de vida e muitas das nossas
convicções estão errados. Mas, por outro lado, não
queremos chamá-los de hereges, pois não podemos negar
que tinham uma fé invencível e um amor cristão genuíno.
Além disso, se dissermos que eles são hereges, teremos que
admitir que a compilação do Novo Testamento foi feita por
hereges. Assim, nos recusamos a tomar uma posição, do
mesmo modo que os fariseus. Simplesmente ignoramos os
cristãos primitivos, como se pudéssemos fazê-los
desaparecer por não prestar atenção neles. Mas ignorá-los
não vai mudar as verdades históricas das quais eles foram
testemunhas.

Precisamos de humildade doutrinária


Entenda que eu não estou dizendo para abandonarmos
todas as nossas crenças e adotarmos as crenças dos cristãos
primitivos. O que estou dizendo é que temos alguns segredos
que mantemos escondidos, mas que precisam ser revelados.
Por exemplo, grande parte das doutrinas de salvação que
temos hoje são quase idênticas às doutrinas de salvação dos
gnósticos. É claro que existe a possibilidade de que os
gnósticos estivessem certos e a igreja estivesse errada. Mas
qual é a probabilidade disso?
Devemos ao menos levar em consideração que algumas
doutrinas sacramentadas podem estar erradas. Quando li os
escritos dos cristãos primitivos pela primeira vez, cheguei à
conclusão de que muitas crenças que eu pregava há anos,
nunca foram ensinadas pelos cristãos primitivos. Na
realidade, como já mencionei, eles consideravam algumas de
minhas convicções religiosas como heresias. Esta
experiência me ajudou a ser mais humilde e talvez todos nós
precisemos de uma boa dose de humildade espiritual.
Pouco tempo atrás, eu estava explicando a um amigo quais
eram as crenças e costumes dos cristãos primitivos. A
maioria das coisas que compartilhei com ele ia de encontro
com aquilo que ele acreditava. Ele ficou muito contente com
o que ouviu, pois sentia que o testemunho dos cristãos
primitivos era uma evidência muito forte de que suas crenças
eram corretas. Contudo, quando falei sobre outras crenças
que não coincidiam com as crenças dele, ele ficou
desconcertado e permaneceu em silêncio por algum tempo.
Então, sacudiu a cabeça perplexo e disse: “Eles com certeza
se equivocaram neste ponto, não é?” A possibilidade de que
ele estivesse equivocado nem sequer lhe passou pela cabeça.
Mesmo que não estejamos dispostos a mudar nossas
convicções religiosas por causa das crenças dos cristãos
primitivos, devíamos (no mínimo) parar de julgar aqueles
que interpretam a Bíblia de maneira diferente.
Principalmente se a interpretação deles coincidir com a dos
cristãos primitivos. Jesus nos disse: “Não julgueis, para que
não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgardes
sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido
vos hão de medir a vós” (Mateus 7:1–2).
Parece que muitos duvidam que Jesus quis dizer
exatamente o que ele disse. Pois não hesitamos em condenar
a interpretação sincera de outras pessoas, achando que
Cristo vai ficar feliz conosco e nos dar um tapinha nas costas
no Dia do Juízo. Mas pode ser que estejamos errados, que a
nossa interpretação é que seja incorreta. Talvez Jesus faça
exatamente o que ele disse e nos julgue com a mesma medida
com que julgamos os outros.

Os escritos dos cristãos primitivos nos dão um ponto de


referência
Como muitos cristãos, eu também acredito que a Bíblia é a
única fonte de autoridade inspirada e livre de erros do
cristianismo. Todavia, há mais de 22.000 igrejas, seitas e
denominações que creem na Bíblia.1 Em geral, a razão para
tantas divisões não é o fato de os cristãos torcerem as
palavras da Bíblia de propósito. Pelo contrário, o problema
é que muitas passagens bíblicas podem ser interpretadas de
diferentes maneiras pelos humanos imperfeitos.
Assim, muitos cristãos que creem na Bíblia são obrigados
a usar fontes adicionais de autoridade: publicações
denominacionais, pastores, seminários, comentários
bíblicos, corpos administrativos denominacionais,
convenções de igreja, credos e tradições evangélicas. Mas
qual é a validade destas fontes de autoridade? Será que um
seminário realmente sabe mais que o outro? Como podemos
ter certeza de que nosso pastor está certo e outros estão
errados? Como um comentarista bíblico do século dezessete,
como Matthew Henry, realmente sabe o que os apóstolos
queriam dizer?
Os escritos dos cristãos primitivos não ajudam muito neste
ponto, pois eles não são escritos inspirados e também não
alegam ser inspirados. Os cristãos primitivos nunca colocam
seus escritos no mesmo patamar da Bíblia e nós também não
deveríamos. Mas através de seus escritos, podemos saber
que os cristãos primitivos tinham praticamente as mesmas
crenças que os apóstolos. Isso nos dá um ponto de referência
que sobrepõe o que qualquer seminário, comentário ou
teólogo do século XXI possa nos ensinar. Já que não
conseguimos entrar em acordo sobre o que cada passagem
bíblica significa, deveríamos ao menos ser suficientemente
humildes para ouvir as interpretações dos cristãos
primitivos, já que eles concordavam entre si nos pontos
fundamentais.
Mas quando usamos os cristãos primitivos como ponto de
referência, temos que fazê-lo de forma honesta. Algumas
denominações usam fragmentos de textos dos cristãos
primitivos que se encaixam com suas doutrinas. Ao fazer
isso, argumentam que o testemunho dos cristãos primitivos é
uma forte evidência daquilo que os cristãos do Novo
Testamento acreditavam. Contudo, quando essas mesmas
denominações são confrontadas com textos dos cristãos
primitivos que vão contra suas crenças, elas mudam de
atitude. De repente, as convicções dos cristãos primitivos
deixam de ter importância. Em outras palavras, os escritos
dos cristãos primitivos têm autoridade quando convergem
com nossas crenças, mas quando não convergem, se tornam
obsoletos. Isso é honesto? Será que estamos buscando a
verdade de Deus quando agimos assim?

Unidade nos princípios básicos


Se tomarmos os escritos dos cristãos primitivos como
ponto de referência, podemos notar que havia um conjunto de
costumes e crenças dadas pelos próprios apóstolos. Todos
os cristãos primitivos ortodoxos aceitavam essas crenças e
costumes. Mas ao mesmo tempo, há muitas outras coisas que
os apóstolos não explicaram à igreja, ou qualquer outra
pessoa. Era nessas áreas que havia diversidade entre os
cristãos primitivos. Mas ainda assim, eles não se dividiram
em vários grupos por causa desses assuntos. De fato, não
havia sequer disputas sobre essas questões.
Por exemplo, Justino Mártir acreditava que muitas
profecias bíblicas iriam se cumprir durante o milênio. Mas
muitos outros cristãos primitivos pensavam diferente. Preste
atenção ao espírito cordial com que ele apresenta seu ponto
de vista sobre o milênio a um grupo de judeus:
Como já mencionei, eu e muitos outros temos a mesma
opinião, acreditamos que as profecias se cumprirão desta forma.
Mas, por outro lado, eu lhes disse que muitos que possuem a fé
pura e justa pensam de outra forma.2
Este espírito aberto e amistoso era bem comum entre os
cristãos primitivos. Eles não permitiam que os diferentes
pontos de vista afetassem a unidade cristã.
Apesar de sua obediência inflexível a Deus, os cristãos
primitivos não eram dogmáticos em relação aos assuntos que
os apóstolos não haviam esclarecido por completo.
Devíamos imitar esse espírito pacífico.

Reavaliando a igreja moderna


Depois de estudar os escritos dos cristãos primitivos, fiz
uma avaliação da minha espiritualidade. Como eu já disse,
pelos padrões de hoje, sou um cristão relativamente
comprometido, mas pelos padrões do cristianismo primitivo,
sou espiritualmente fraco. Então, pergunto: “Como será que
Deus me vê?”
Talvez toda a igreja deva se fazer a mesma pergunta.
Como Deus vê a igreja de hoje? Ele está sorrindo em
aprovação e derramando bênçãos sobre nós? Ou ele nos vê
como uma igreja mundana e apostatada? Se Jesus escrevesse
uma carta à igreja de hoje, Ele poderia dizer o que falou à
Igreja de Esmirna: “Conheço as tuas obras, e tribulação, e
pobreza (mas tu és rico)?” Ou repetiria as palavras ditas à
Igreja de Laodiceia: “Como dizes: Rico sou, e estou
enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um
desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu?”
(Apocalipse 2:9; 3:17).
Muitos cristãos modernos alegam que estamos vivendo
numa nova era da igreja. Dizem que Deus está abençoando a
igreja com prosperidade, milagres e outras dádivas que nos
foram negadas nos últimos dois mil anos.
Claro que existe a possibilidade de que Deus por alguma
razão esteja derramando bênçãos especiais sobre a igreja
moderna. Mas com base no histórico passado, acho
improvável que ele faça isso. É mais provável que estejamos
nos enganando. Afinal, por que Deus faria os cristãos
primitivos carregarem uma cruz de sofrimento, enquanto
abençoa os cristãos de hoje com prosperidade, milagres e
outras gratificações? Mas, por favor, não me entenda mal.
Não estou dizendo que Deus não faz milagres. Há relatos de
milagres e curas entre os cristãos primitivos. Mas não eram
acontecimentos comuns e esse não era o foco da igreja.
As igrejas modernas que enfatizam milagres, curas e
bênçãos estão crescendo muito. Mas esse crescimento é uma
evidência da aprovação de Deus? Lembre-se de que o
número de membros da igreja decuplicou após a conversão
de Constantino. Contudo não cresceu em santidade, apenas
em número. Jesus nos preveniu: “Muitos me dirão naquele
dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e
em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não
fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi
abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós
que praticais a iniquidade” (Mateus 7:22-23).
O crescimento de igrejas se tornou uma obsessão até entre
os cristãos mais tradicionais. Métodos que produzem um
crescimento rápido são adotados por inúmeras
denominações. Por exemplo, onde moro, a moda é construir
complexos recreativos de milhões de dólares, chamados de
“centros familiares”. As igrejas que possuem esses centros
crescem muito mais rápido que as outras. E daí? A igreja do
século IV mostrou que podemos utilizar métodos humanos
para fazer a igreja crescer. No entanto, ela não provou que
podemos usar meios humanos para melhorar a igreja.

Não é tarde para voltar atrás


O cristianismo inicialmente foi uma revolução que
desafiou as atitudes, o estilo de vida e os valores do mundo
antigo. Era mais que um mero conjunto de doutrinas, era toda
uma maneira de se viver. E nem toda a força militar,
econômica e social dos romanos foi capaz de detê-lo. Mas
depois de 300 anos, a revolução perdeu a força.
Isso aconteceu porque a maioria dos cristãos deixou de
confiar completamente em Deus. Pensaram que poderiam
melhorar o cristianismo por meios humanos, adotando a
metodologia do mundo. Mas em vez de melhorar o
cristianismo, eles o destruíram.
Há um ditado texano que diz: “Se não estiver quebrado,
não conserte.” Ou seja, não tente melhorar alguma coisa, se
não há nada de errado com ela. O “aperfeiçoamento”
geralmente piora as coisas.
Não havia nada de errado com o cristianismo primitivo.
Ele não precisava de “conserto”. Contudo, os cristãos do
quarto século acharam que poderiam melhorar o
cristianismo. “Se o cristianismo trouxesse bênçãos materiais
e prosperidade, em vez de sofrimento e privação,
converteríamos o mundo todo,” pensaram. Mas por fim, não
conseguiram converter o mundo todo. O mundo é que
converteu a igreja.
Todavia, as lições do passado não têm sido suficientes
para convencer os cristãos do presente. A igreja continua
casada com o mundo e os cristãos ainda acham que podem
melhorar a igreja por meios humanos. Mas o cristianismo
não vai melhorar enquanto não se voltar para a santidade
simples, o amor verdadeiro e a fé inquebrantável dos
cristãos primitivos. Deveríamos ter nos divorciado do
mundo há muito tempo. Esse seria um divórcio aprovado por
Deus.
A cruz e a bandeira revolucionária do cristianismo
primitivo ainda estão no mesmo lugar em que os mártires as
deixaram. Não é tarde demais para que a igreja volte a
carregá-las.
Dicionário biográfico

Alexandre (273 a 326 d.C.). Bispo da igreja de


Alexandria, no Egito, no início da controvérsia ariana que
dividiu a igreja e levou ao Concílio de Niceia. Forte
opositor das ideias de Ário.
Apolônio (175 a 225 d.C.). Escritor de uma obra curta
contra os montanistas. Sabe-se muito pouco sobre ele.
Arquelau (250 a 300 d.C.). Bispo da igreja que debateu
publicamente com um mestre gnóstico chamado Manes. Há
mais detalhes sobre este debate em “Os Padres Pré-
Nicenos”.
Ário (270 a 336 d.C.). Presbítero da igreja de Alexandria,
no Egito, que discutiu com Alexandre sobre a natureza de
Cristo. Ário ensinou que Jesus tinha uma natureza diferente
da do Pai, que havia sido criado do nada. Seu ponto de vista
foi condenado no Concílio de Niceia.
Arnóbio (260 a 303 d.C.). Apologista cristão que
escreveu algumas obras pouco antes do império de
Constantino. Lactâncio foi um de seus discípulos.
Atanásio (300 a 373 d.C.). Bispo de Alexandria depois
da morte de Alexandre. Escreveu vários tratados teológicos
e foi o principal defensor do Credo Niceno.
Atenágoras (150 a 190 d.C.). Apologista cristão. Antes
de sua conversão foi um filósofo grego. Sua apologia foi
apresentada aos imperadores Marco Aurélio e Cômodo por
volta do ano 177 d.C.
Agostinho (354 a 430 d.C.). Bispo da igreja de Hipona,
África do Norte, e “pai” da teologia ocidental.
Barnabé (Antes de 150 d.C.). Célebre autor de uma carta
amplamente divulgada entre os cristãos primitivos. Acredita-
se que tenha sido o companheiro do apóstolo Paulo, mas a
maioria dos peritos não confirma isso.
Caio (180 a 217 d.C.). Presbítero da igreja de Roma.
Escreveu várias obras contra os principais hereges de sua
época.
Calvino, João (1509 a 1564). Teólogo e pregador francês.
Estabeleceu-se em Genebra, Suíça, tornando-se o líder da
Reforma, já estabelecida. “Pai” das igrejas reformistas e da
doutrina presbiteriana.
Celso (125 a 175 d.C.). Filósofo pagão romano que
escreveu, atacando o cristianismo, e foi brilhantemente
contestado por Orígenes.
Clemente de Roma (30 a 100 d.C.). Bispo do primeiro
século da igreja de Roma e companheiro pessoal dos
apóstolos Pedro e Paulo (leia Filipenses 4:3). Escreveu uma
epístola aos coríntios no fim do século I.
Clemente de Alexandria (150 a 200 d.C.). Presbítero da
igreja de Alexandria, no Egito, e encarregado do centro de
ensino para novos convertidos. Orígenes era um de seus
discípulos.
Constantino (274 a 337 d.C.). General romano que
governava o Império Romano ocidental no ano 312. Atribuiu
sua vitória ao Deus dos cristãos. Proclamou o Édito de
Milão em 313, dando reconhecimento legal ao cristianismo
pela primeira vez. Presidiu o Concílio de Niceia em 325.
Cipriano (200 a 258 d.C.). Bispo da igreja de Cartago,
África do Norte, durante um dos períodos mais fortes de
perseguição. Foi pastor da sua congregação
clandestinamente por uma década, antes de ser capturado e
executado pelos romanos. Muitas das cartas que ele escreveu
ainda existem, como também as cartas que lhe foram
escritas.
Édito de Milão (313 d.C.). Lei promulgada em conjunto
por Constantino e Lecínio, imperadores das partes ocidental
e oriental do Império Romano. Este edital reconheceu o
cristianismo como religião lícita.
Eusébio (270 a 340 d.C.). Bispo da igreja de Cesareia
durante o império de Constantino. Autor de uma história
completa sobre a igreja, que detalhava o cristianismo desde
os dias de Jesus até o tempo de Constantino.
Félix, Minúcio (170 a 215 d.C.). Advogado romano que
se converteu ao cristianismo. Autor de uma das melhores
apologias do cristianismo primitivo, escrita em forma de um
diálogo entre um cristão e um pagão. Neste livro ele foi
citado pelo nome de “Félix”.
Gnósticos. O principal grupo de hereges durante o
período da igreja primitiva. O gnosticismo começou na
época dos apóstolos e teve diferentes nomes até a metade da
Idade Média. Embora existissem muitas escolas filosóficas
entre os gnósticos, suas principais características eram: 1)
Afirmavam ter recebido um conhecimento especial (gnose)
de Deus; 2) criam que os humanos foram criados por um
deus inferior, que não era o Pai de Jesus; e 3) ensinavam que
o Filho de Deus nunca se tornou realmente humano.
Gregório de Nissa (325 a 391 d.C.). Teólogo do século
IV, que fazia parte do grupo dos três “Pais Capadócios”.
Escreveu vários tratados sobre o Espírito Santo e ajudou a
formar a doutrina cristã da Trindade.
Hermes (Antes de 150 d.C.). Autor de uma obra
alegórica intitulada O Pastor, muito lida e difundida entre as
igrejas cristãs primitivas. Alguns dos primeiros cristãos
criam que ele era a mesma pessoa citada por Paulo em
Romanos 16:14, mas não há como confirmar isso.
Hipólito (170 a 236 d.C.). Líder da igreja, escritor, mártir,
e discípulo de Ireneu. Sua obra mais importante é Contra
Heresias.
Inácio (50 a 100 d.C.). Bispo da igreja de Antioquia e
discípulo pessoal do apóstolo João. Foi executado no fim do
primeiro século.
Ireneu (120 a 205 d.C.). Bispo da igreja de Lyon, França,
e discípulo de Policarpo.
Justino Mártir (110 a 165 d.C.). Filósofo que se
converteu ao cristianismo, tornando-se um evangelista
incansável. Autor das primeiras apologias cristãs de que se
tem referência. Foi executado por volta do ano 165 d.C.,
durante o reinado de Marco Aurélio.
Lactâncio (260 a 330 d.C.). Eminente professor romano
da retórica, que depois se converteu ao cristianismo. Mudou-
se para a França, onde foi professor do filho de Constantino.
Sua principal obra é Instituições Divinas.
Lutero, Martinho (1483 a 1546). Monge alemão que deu
início à Reforma. Embora sua primeira discussão tenha sido
sobre a venda de indulgências, acabou por desafiar a igreja
católica quanto a vários temas, entre eles a doutrina da
salvação, a autoridade da Bíblia, o uso de imagens
religiosas e as missas em favor dos mortos. É o pai da teoria
protestante e luterana.
Marcião (110 a 165 d.C.). Um importante professor
herege do século II. Formou sua própria igreja e formulou
seu próprio Testamento.
Metódio (260 a 315 d.C.). Mártir e supervisor da igreja
de Tiro. Ecreveu sobre algumas das especulações excessivas
de Orígenes.
Montanistas. Seita que se autodenominava o “Movimento
da Nova Profecia”. O nome “montanistas” foi dado pela
igreja, por causa de Montano, fundador do movimento. Eles
afirmavam que o Paráclito, ou o Espírito Santo, continuava
dando ordens à igreja. Alguns membros da seita geralmente
“profetizavam” em estado de frenesi emocional.
Orígenes (185 a 255 d.C.). Ancião na igreja de
Alexandria, Egito, e o primeiro autor de um comentário
bíblico. Era discípulo de Clemente de Alexandria e o
sucedeu na direção do centro de ensino para novos
convertidos.
Pelágio (360 a 420 d.C.). Monge romano-britânico e
evangelista que se dedicava à visitação e pregação em
congregações do mundo todo. Dava mais importância às
obras e ao livre arbítrio do que à graça, dentro do processo
de salvação. Recebeu muitos ataques por parte de Agostinho.
Policarpo (69 a 156 d.C.). Bispo da igreja de Esmirna e
companheiro do apóstolo João. Já em idade avançada, foi
preso e queimado vivo.
Simons, Menno (1492 a 1559). Sacerdote católico
romano na Holanda, que se uniu ao movimento anabatista e
se tornou seu principal autor e porta-voz.
Tertuliano (140 a 230 d.C.). Líder da igreja de Cartago,
África do Norte, e um dos primeiros autores cristãos a
escrever em latim. Escreveu muitas apologias, obras contra
os hereges e exortações a outros cristãos. Mais tarde se uniu
a um ramo da seita montanista.
Tetzel, João (1465 a 1519). Frade dominicano e
entusiástico vendedor de indulgências. Martinho Lutero o
questionou em relação às indulgências. Esse confronto deu
início à Reforma na Alemanha.

Nota: As datas antes do Concílio de Niceia são aproximadas.


Notas

Capítulo 1
*
A cena descrita neste capítulo foi retirada da Carta À Igreja de
Esmirna referente ao martírio de Policarpo.

Capítulo 2
1. Outro termo que eu poderia definir é romanos. Quando eu usar a
palavra romanos neste livro, estarei me referindo aos cidadãos
pagãos do Império Romano e não às pessoas que tinham
nacionalidade romana ou italiana.
2. Ireneu. Contra Heresias, volume 3, capítulo 3.
3. Justino. Diálogo com Trifão, capítulo 8, parafraseado.
4. Como alternativa, é possível que Tertuliano tenha sido presbítero
da igreja de Roma, antes de se mudar para Cartago.

Capítulo 3
1. Autor desconhecido. Epístola a Diogneto, capítulo 5.
2. Justino. Primeira Apologia, capítulo 11.
3. Homilia sem título atribuída a Clemente, capítulos 5 e 6.
4. Cipriano. Carta a Donato, seção 14.
5. FELIX, Marco M. Octavius, capítulos 8 e 12.
6. Tertuliano. Apologia, capítulo 39.
7. Justino. Primeira Apologia, capítulo 14.
8. Clemente. Miscelâneas, livro 7, capítulo 12.
9. Eusébio. História Eclesiástica, livro 7, capítulo 22.
10. Cipriano. Epístola a Eucrates, epístola 60.
11. FELIX. Octavius, capítulo 31.
12. Tertuliano. Apologia, capítulo 39; Clemente. Miscelâneas, livro
7, capítulo 12.
13. Lactâncio. Instituições Divinas, livro 6, capítulo 10.
14. Clemente. Miscelâneas, livro 4, capítulo 7.
15. FELIX. Octavius, capítulo 38.
16. Clemente. Miscelâneas, livro 5, capítulo 1.
17. FELIX. Octavius, capítulo 8, parafraseado.
18. Orígenes. Contra Celso, livro 8, capítulo 70.
19. Ibidem, capítulo 68.

Capítulo 4
1. Tertuliano. Aos Pagãos, livro 2, capítulo 1.
2. Tertuliano. Apologia, capítulo 6.
3. Hermes. O Pastor, livro 2, volume 4, capítulo 1.
4. Orígenes. Comentário ao Evangelho de Mateus, livro 14,
capítulo 17, parafraseado.
5. Justino. Primeira Apologia, capítulo 15; Atenágoras. Presbeia,
capítulo 33.
6. SCOTT, Cynthia. Divorce Dilemma, Moody Monthly (Setembro,
1981): 7.
7. FELIX, M. Octavius, capítulo 30.
8. Atenágoras. Presbeia, capítulo 35.
9. Tertuliano. Apologia, capítulo 9.
10. PANATI, Charles. Extraordinary Origins of Everyday Things.
Nova York: Harper e Row. 1987, p. 223.
11. Clemente. O Instrutor, livro 2, capítulo 11, parafraseado.
12. Ibidem.
13. Clemente. O Instrutor, livro 3, capítulo 5; Cipriano. Da
Vestimenta das Virgens, capítulo 19; Constituição dos Santos
Apóstolos, livro 1, século III, capítulo 9.
14. Clemente. O Instrutor, livro 3, capítulo 5.
15. Ibidem; Cipriano. Da Vestimenta das Virgens.
16. Lactâncio. Instituições Divinas, livro 6, capítulo 20,
parafraseado.
17. Tertuliano. The Shows, capítulos 17, 21.
18. Lactâncio. Instituições Divinas, livro 6, capítulo 20,
parafraseado.
19. Arnóbio. Contra os Pagãos, livro 1, capítulo 31.
20. Lactâncio. Instituições Divinas, livro 6, capítulo 10.
21. Orígenes escreveu: “[Celso] dá crédito às histórias dos bárbaros e
gregos, respeitando a antiguidade dessas nações. Mas mostra a
história desta única nação [Israel] como sendo falsa… Observem,
pois, o proceder arbitrário deste indivíduo, que acredita na
história dessas nações por serem cultas e considera outras como
ignorantes… Assim, parece que Celso não faz essas declarações
por amor à verdade, mas sim por ódio, tendo como objetivo
desprezar o cristianismo, que está diretamente ligado ao
judaísmo… Então, deve-se considerar os egípcios como sábios,
isso por considerarem os animais como divindades. Contudo, se
algum judeu, que manifesta seu interesse pela Lei e por Aquele
que a instituiu, atribuir todas as coisas ao Criador do universo —
e único Deus — será considerado um ser inferior na opinião de
Celso e daqueles que pensam como ele.” Orígenes. Contra
Celso, livro 1, capítulos 14 a 20.
22. Clemente. O Instrutor, livro 2, capítulo 13.
23. Lactâncio. Instituições Divinas, livro 5, capítulos 15 e 16.
24. WINER, Bart. Life in the Ancient World, Nova York: Random
House, Inc., 1961, p. 176.
25. FELIX, M. Octavius, capítulo 24.
26. Tertuliano. Prescrição Contra os Hereges, capítulo 41.
27. FELIX, M. Octavius, capítulo 16.
28. Clemente. O Instrutor, livro 1, capítulo 4.

Capítulo 5
1. DONNE, John. Devoções Para Ocasiões Emergentes. 1624.
2. Cipriano. Sobre a Unidade da Igreja, seção 5.
3. Clemente. Maximus, sermão 55.
4. FELIX, M. Octavius, capítulos 8 e 12; Tertuliano. The Shows,
capítulos 20 e 24.
5. Tertuliano. Apologia, capítulo 39.
6. Lactâncio. Instituições Divinas, livro 4, capítulo 23.
7. Cipriano. Cartas, episódio 67, capítulos 4 e 5.
8. Ibidem, episódio 65.
9. Hermes. O Pastor, livro 2, volume 11; Clemente. Miscelâneas,
livro 1, capítulo 1; Apolônio. Contra Montano; Tertuliano,
Hereges, capítulo 41.
10. Lactâncio. Instituições Divinas, livro 7, capítulo 5.
11. Inácio. Epístola aos Magnésios, capítulo 5.
12. Inácio. Epístola aos Romanos, capítulo 5.
13. Tertuliano. Para os Mártires, capítulos 2 e 3.
14. Tertuliano. Apologia, capítulo 50.
15. Menno Simons, contemporâneo de Lutero, deu a seguinte
descrição sobre a Alemanha luterana no auge da Reforma:
“Vamos prestar atenção ao modo como ele [Lutero] ensina, pois
com esta mesma doutrina, eles [os luteranos] têm levado pessoas
descuidadas e ignorantes, importantes e humildes, que vivem no
campo ou na cidade, a uma vida sem frutos e não regenerada,
dando-lhes rédeas tão soltas, que não seríamos capazes de
encontrar um estilo de vida tão abominável e sem espiritualidade
nem mesmo entre os turcos e os tártaros. Seus atos testemunham
sobre a gula e bebedeira, a pompa e o esplendor, a fornicação, a
mentira, o adultério, a maldição; as juras em nome do sangue de
Cristo, pelos sacramentos e sofrimentos do Senhor, o
derramamento de sangue e as lutas.” SIMONS, Menno. The
Complete Writings of Menno Simons, traduzido por J. C.
Wenger: True Christian Faith, Herald Press, 1956, p. 333.
Pastores e historiadores seculares descreveram um quadro
semelhante. Leia, por exemplo, Pia Desideria de Jacob Spener.
16. Hermes. O Pastor, livro 2, volume 12, capítulo 4.
17. Orígenes. Contra Celso, livro 7, capítulo 42.
18. Clemente. A Salvação do Homem Rico, capítulo 21.
19. Orígenes. Os Princípios, livro 3, capítulo 1, seção 5.
20. Clemente. A Salvação do Homem Rico, capítulo 25.
21. Lactâncio. Instituições Divinas, livro 5, capítulo 13.

Capítulo 6
1. Francis Schaeffer, “Como Viveremos” (Ed. Cultura Cristã, 2003)
2. “No décimo segundo ano do mesmo reinado, Clemente sucedeu
Anacleto, que havia sido supervisor da igreja de Roma por doze
anos. Na Carta aos Filipenses, Paulo nos informa que Clemente
era um de seus colaboradores, quando diz: ‘Também com
Clemente e com os demais cooperadores meus, cujos nomes se
encontram no Livro da Vida.’ (capítulo 4, verso 3) Há também
uma epístola de Clemente que é verdadeira.” (Eusébio, História
da Igreja, livro 3, capítulos 15 e 16).
Ireneu também escreveu sobre Clemente: “Este homem, que viu os
apóstolos e conviveu com eles deve ainda ter seus ensinamentos
ecoando [em seus ouvidos] e suas tradições diante dos olhos”
(Ireneu. Contra Heresias, livro 3, capítulo 3, seção 3).
Já Clemente de Alexandria tratava a Epístola aos Coríntios escrita
por Clemente de Roma como parte das Escrituras e se referia ao
apóstolo como “um discípulo dos apóstolos”. (Orígenes. Os
Princípios, livro 2, capítulo 3, seção 6).
“(30 d.C. a 100 d.C.) É bem provável que Clemente fosse romano e
gentio. Ele esteve em Filipos, quando essa primeira igreja
ocidental enfrentava alguns problemas.” (COXE, A. Cleveland.
The Ante-Nicene Fathers, vol. 1, Introductory Note to the First
Epistle of Clement to the Corinthians. Grand Rapids, 1985, p. 1).
3. Clemente de Roma. Epístola aos Coríntios, capítulos 34 e 35.
4. Policarpo. Epístola aos Filipenses, capítulo 2.
5. Barnabé. Epístola de Barnabé, capítulo 21.
6. Hermes. O Pastor, livro 2, volume 7; livro 3, sim, 10, capítulo 2.
7. Justino. Primeira Apologia, capítulo 10.
8. Clemente. Exortação aos Pagãos, capítulo 11.
9. Clemente. A Salvação do Homem Rico, capítulos 1 e 2.
10. Orígenes. Os Princípios, prefácio, capítulo 5.
11. Hipólito. Fragmentos de Comentários Sobre Provérbios.
12. Hipólito. Contra Platão, seção 3.
13. Cipriano. A Unidade da Igreja, seção 15.
14. Lactâncio. Instituições Divinas, livro 7, capítulo 5.
15. Clemente de Roma. Epístola aos Coríntios, capítulo 32.
16. Policarpo. Epístola aos Filipenses, capítulo 1.
17. Barnabé. Epístola de Barnabé, capítulo 5.
18. Justino. Diálogo com Trifão, capítulo 111.
19. Clemente. Miscelâneas, livro 6, capítulo 13.
20. Ibidem, livro 1, capítulo 7.
21. McDOWELL, Josh. Evidências Que Exigem Um Veredito, Ed.
Candeia, 1997
22. Ireneu. Contra Heresias, livro 4, capítulo 27, seção 2.
23. Tertuliano. A Penitência, capítulo 6.
24. Cipriano. Sobre a Unidade da Igreja, seção 21.
25. Tertuliano. A Ressurreição da Carne, capítulo 4; Contra os
Valentinianos, capítulos 24 a 30; Contra Marcião, livro 1,
capítulos 2, 13, 17-21; Ireneu. Contra Heresias, livro1,
capítulos 5, 6, 24-27; livro 4, capítulos 28 e 29.
Capítulo 7
1. LUTERO, Martinho. “Da Vontade Cativa” em Obras Selecionadas
de Martinho Lutero. Editora Sinodal, 1993.
2. Justino. Primeira Apologia, capítulo 43.
3. Clemente. Miscelâneas, livro 1, capítulo 17.
4. Arquelau. Disputa com Mani, seções 32 e 33.
5. Metódio. Banquete das Dez Virgens, discurso 8, capítulo 16.
6. LUTERO, Martinho. “Da Vontade Cativa” em Obras Selecionadas
de Martinho Lutero. Editora Sinodal, 1993.
7. Orígenes. Os Princípios, livro 3, capítulo 1, parafraseado e
abreviado.

Capítulo 8
1. Ireneu. Contra Heresias, livro 1, capítulo 21, seção 1.
2. Justino. Diálogo Com Trifão, capítulo 44.
3. Ireneu. Fragmentos de Escritos Perdidos, número 34.
4. Clemente. O Instrutor, livro 1, capítulo 6.
5. Cipriano. Carta a Donato, seção 3.
6. Tertuliano. A Penitência, capítulo 6.
7. Justino. Primeira Apologia, capitulo 61.

Capítulo 9
1. CHO, Paul Yonggi. Salvation, Health and Prosperity. Creation
House, 1987, p. 51.
2. Hermes. O Pastor, livro 1, vis.3, capítulo 6.
3. Ibidem, livro 3, sim. 4.
4. Clemente. A Salvação do Homem Rico, seção 1.
5. Cipriano. On the Lapsed, seções 11 e 12, parafraseado.
6. Lactâncio. Instituições Divinas, livro 6, capítulo 4, parafraseado.
7. FELIX M. Octavius, capítulo 12.
8. Ibidem, capítulo 36.
9. Orígenes. Contra Celso, livro 7, capítulo 18.
10. HAGIN, Kenneth. How God Taught Me About Prosperity.
RHEMA Bible Church, 1985, pp. 17-19. Os itálicos do autor
foram omitidos.
11. Eusébio. História Eclesiástica, livro 7, capítulo 30.
12. Cipriano. Sobre a Mortalidade, seção 8, parafraseada.

Capítulo 10
1. CALVINO, João. “Tratados Contra os Anabatistas e os Libertinos”
em A Instituição da Religião Cristã. Ed. UNESP, 2007.
2. Clemente. Miscelâneas, livro 7, capítulo 8.
3. Tertuliano. A Idolatria, capítulo 11.
4. “Há mandamentos nos evangelhos que admitem que sem dúvida se
devem ou não ser observados, tais como… “Por isso lhes digo
não jureis de modo algum.” Orígenes. Os Princípios, livro 4,
capítulo 1, seção 19; Veja também, Cipriano. Sobre a
Mortalidade, capítulo 4, e Eusébio, História Eclesiástica, livro
6, capítulo 5.
5. Justino. Primeira Apologia, capítulo 39.
6. Tertuliano. A Coroa, capítulo 11.
7. Orígenes. Contra Celso, livro 3, capítulo 7.
8. Cipriano. Carta a Donato, seção 6.
9. Arnóbio. Contra os Pagãos, livro 1, seção 6.
10. Orígenes. Contra Celso, livro 8, capítulo 73.
11. Ibidem, livro 2, capítulo 30.
12. Leia, Tertuliano. Primeira Apologia, capítulos 5 e 42; Eusébio.
História Eclesiástica, livro 6, capítulo 5; livro 7, capítulo 11.
13. Lactâncio. Instituições Divinas, livro 6, capítulo 20.

Capítulo 11
1. Tertuliano. Contra Marcião, livro 4, capítulo 4, parafraseado.
2. Clemente de Roma. Epístola aos Coríntios, capítulos 5 e 44 (veja
também: capítulo 6, fn. 2, supra).

Capítulo 12
1. Tertuliano. A Prescrição dos Hereges, capítulos 6 e 21.
2. Ireneu. Contra Heresias, livro 3, prefácio e capítulo 1.
3. “Escreveu-se isso a respeito de Tiago, que dizem ser o autor da
primeira das epístolas católicas, como são chamadas. Mas temos
que levar em conta que isso ainda está em discussão, ao menos
não muitos dos antigos mencionam isso.” Eusébio. História
Eclesiástica, livro 2, capítulo 23.
4. Lutero. Works of Martin Luther - The Philadelphia Edition, vol.
6: Preface to the New Testament. Grand Rapids, 1982, pp. 439-
444.
5. Arquelau. Disputa Com Mani, capítulo 40.
6. A igreja do terceiro século era mais bem estruturada que a do
segundo século. Além disso, o papel do bispo tinha crescido em
importância, enquanto que o poder do corpo de anciãos decaiu.
7. Ireneu. Contra Heresias, livro 3, capítulo 4, seção 1.
8. Tertuliano. Prescrição Contra os Hereges, capítulos 27, 28,
parafraseado.

Capítulo 13
1. Veja On the Lapsed e Commodianus Instruction on Christian
Discipline de Cipriano.
2. “E neste aspecto, estou justamente indignado com essa evidente
loucura de Estevão (supervisor de Roma), pois ele, que se
orgulha tanto do seu episcopado, afirma ter a sucessão de Pedro,
sobre quem os fundamentos da igreja foram estabelecidos.”
Firmiliano Para Cipriano (epístola 74), capítulo 17.
3. JOHNSON, Samuel. Boswell’s Life of Johnson, Vol. 1, p. 348.
4. Eusébio. História Eclesiástica, livro 8, capítulo 1.
5. Eusébio. Vida de Constantino, livro 1, capítulo 28.
6. Veja Contra Celso de Orígenes, livro 8, capítulos 24, 55, etc.
7. Eusébio. História Eclesiástica, livro 10, capítulo 5.
8. Ibidem, capítulos 5 e 7.
9. Eusébio. Vida de Constantino, livro 2, capítulo 44; livro 4,
capítulo 56.
10. Ibidem, livro 3, capítulo 1.
11. Ibidem, capítulo 15.
12. Eusébio. História Eclesiástica, livro 10, capítulo 4.
13. Sócrates. History, livro 2, capítulo 13. Leia também livro 1,
capítulo 24.
14. Eusébio. Vida de Constantino, livro 6, capítulos 64 e 65,
parafraseado.
15. Eusébio. História Eclesiástica, livro 10, capítulo 4.
16. Sócrates. History, livro 1, capítulo 17.
17. Gregório. Great Letter to Constantine (episódio 30).
18. Ibidem.

Capítulo 14
1. Sócrates. History, livro 1, capítulo 8.
2. Ibidem, capítulo 9.
3. Credo Niceno, cânones 6 e 7.
4. Ibidem, cânone 20.
5. Sócrates. History, livro 1, capítulo 9.
6. Ibidem, capítulo 8.
7. NAZIANZO, Gregório de. On The Holy Spirit, capítulo 26.
8. Credo de Calcedônia.
Capítulo 15
1. Agostinho. Da Natureza do Bem, capítulo 42.
2. Agostinho. De peccatorum meritis et remissione et de baptismo
parvolorum, livro 1, capítulo 21.
3. Agostinho. Enquirídio, capítulos 26 e 34.
4. Agostinho. A Cidade de Deus, livro 1, capítulo 21.
5. Ibidem, livro 20, capítulo 7.
6. Agostinho. Enquirídio, capítulo 65; sobre o casamento e a
concupiscência.
7. Agostinho. Contra os Donatistas, capítulo 5.
8. GONZALEZ, Justo L. A History of Christian Thought, vol. 2.
Abingdon Press, 1970, p. 53; CAIRNS, Earle E. Christianity
Through the Centuries. Grand Rapids: Zondervan Publishing
House, 1954, p. 161.
9. Agostinho. Euquirídio, capítulo 110.
10. Agostinho. Contra os Donatistas, capítulo 2.
11. Ibidem.
12. Agostinho. Da Natureza do Bem, capítulos 8 e 49
13. Agostinho. A Predestinação dos Santos.

Capítulo 16
1. LUTERO, Martinho. Works of Martin Luther-The Philadelphia
Edition, tradução: C. M. Jacobs, vol. 1: Letter to the Archbishop
Albrecht of Mainz. Grand Rapids: Baker Book House, 1982, p.
26.
2. Ibidem, vol. 1: Disputation on the Power and Efficacy of
Indulgences, p. 36.
3. LUTERO, Martinho. A Escravidão da Vontade, pp. 171-174.
4. Ibidem, p. 44.
5. LUTERO, Martinho. Works of Martin Luther-The Philadelphia
Edition, tradução: C. M. Jacobs, vol. 4: Against the Robbing
and Murdering Peasants, pp. 252, 253.
6. Ibidem, volume 6, Prefácio aos Romanos, p. 447.
7. Ibidem.
8. Ibidem, volume 6, Prefácio aos Hebreus, p. 476.

Capítulo 17
1. Quando digo “reformistas ingleses”, estou me referindo a homens
como Francis White, William Laud, Lancelot Andrewes e seus
descendentes espirituais.
2. WHITE, Francis. “A Treatise of the Sabbath Day” em Anglicanis.
Ed. Paul Elmer More and Frank Leslie Cross. London, SPCK,
1957, pp. 8 e 9.
3. WESLEY, João. The Works of John Wesley, 3ª ed. Peabody:
Hendrickson Publishers, escrito em ingles contemporâneo.
4. ALLEN, C. Leonard e HUGHES, Richard T. Discovering Our
Roots. Abilene: ACU Press, 1988, p. 103.

Capítulo 18
1. SIMONS, Menno. The Complete Writings of Menno Simons.
Tradução: J. C. Wenger: Reply to False Accusations. Herald
Press, 1956, p. 574.
2. Ibidem, p. 558 e 559.
3. Ibidem, Foundation of Christian Doctrine, p. 109 e 110.
4. Ibidem, Reply to False Accusations, p. 555; Foundation of
Christian Doctrine, p. 175.
5. Ibidem, Confessions of the Distressed Christians, pp. 517- 521.
6. Ibidem, Reply to False Accusations, p. 566.

Capítulo 19
1. SHELER, Jeffery L. “Reuniting the flock,” U. S. News & World
Report, 4 de março de 1991, p. 50.
2. Justino. Diálogo com Trifão, capítulo 80, parafraseado.
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