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OHSAS 18000: Conceitos Básicos e Implementação

Paulo Antônio Barros Oliveira, DSc.

Há algumas décadas vem sendo discutida a necessidade de elaboração de


uma série de normas ISO que trate especificamente das questões de
Higiene, Saúde e Segurança no Trabalho, e que tenha interface com as
demais normas de gestão. Alguns grupos de interessados no assunto
apóiam tal idéia, outros não, com um rol de razões para ambos os lados.
Em 1997, um ano após a publicação da norma UNE 81900 e da BS 8800, a
ISO decidiu que o organismo adequado para o desenvolvimento de normas
de gestão em Saúde e Segurança no Trabalho era a Organização
Internacional do Trabalho (OIT), e esta, em 2001, editou as Diretrizes
Realtivas aos Sistemas de Gestão da Segurança e da Saúde no Trabalho
(ILO-OSH 2001). Neste período ocorreram mudanças no entendimento
deste processo em alguns grupos de interessados. Para fazer frente às
críticas pela pouca ênfase à segurança e à saúde dos trabalhadores nas
normas de qualidade, e também porque o controle dos riscos e de
enfermidades e acidentes do trabalho transformaram-se em objetivos
prioritários para um grande número de empresas, mais de 20 organizações
reuniram-se na Inglaterra em 1999 e deram forma ao primeiro instrumento
para certificação de sistemas de segurança e saúde ocupacional de alcance
global. Participaram deste grupo, que deu origem à série de normas OHSAS
18000 (Ocupattional Health and Safety Assessment Series) alguns
organismos nacionais de normalização (Irlanda, Austrália, África do Sul e
Inglaterra) e algumas empresas certificadoras (SGS, BSI, BVQI, DNV e
Lloyds), entre outros. Existe uma determinação de que a OHSAS
desapareça assim que se publique uma norma ISO 18000.

Existem a Norma OHSAS 18001:1999 – o sistema de Gestão da Segurança


e Saúde no Trabalho propriamente dito - e a Norma OHSAS 18002:2000,
onde estão as diretrizes para a aplicação e implementação OHSAS 18001,
explica os princípios subjacentes e descreve o propósito, os elementos de
entrada, o processo e os elementos de saída relativos a cada requisito da
OHSAS 18001 com finalidade de servir de ajuda para a compreensão e
implantação da mesma. A própria numeração dos itens e capítulos da
OHSAS 18002 está em concordância com as da OHSAS 18001, daí
passarmos a tratar destes conteúdos genericamente como Normas OHSAS
18000.

As normas da série OHSAS 18000 são, assim, um guia para implantação de


sistemas de gestão de segurança e higiene ocupacional. Diferente das
Diretrizes da OIT, cuja aplicação não exige certificação, a OHSAS prevê a
certificação por uma terceira parte. É importante salientar-se que o Sistema
de Gestão de Segurança e Saúde no Trabalho compartilha os mesmos
princípios gerais que os demais Sistemas de Gestão (Qualidade - ISO 9000
e Ambiental - ISO 14000), o que facilita às empresas a implantação de um
Sistema Integrado de Gestão em sua forma total ou parcial, na busca da
melhoria contínua das organizações. A norma inglesa BS 8800, de 1996,
tem sido adotada de forma complementar, como guia, otimizando o
processo de certificação.
A certificação pela OHSAS 18000 acentua a abordagem pela minimização do
risco, procurando reduzir, com sua implementação, os acidentes e as
doenças do trabalho, os tempos de paragem por estes motivos e,
consequentemente, os custos econômicos e sobretudo humanos.
Identificam-se ainda como possíveis benefícios da implementação de um
Sistema de Gestão de Segurança e Saúde no Trabalho os itens a seguir
relacionados:

 Integração das responsabilidades de Higiene, Segurança e Saúde


Ocupacional em todas as atividades da organização.
 Adoção de boas práticas em Saúde e Segurança do Trabalho.
 Manutenção de um meio ambiente de trabalho seguro.
 Redução dos riscos de acidentes e incidentes nas operações.
 Evidenciar o funcionamento da saúde e segurança na empresa.
 Permitir a existência de um sistema de gestão integrado.
 Promover a melhoria da eficiência nas organizações.
 Evitar multas e demais sanções ou ações judiciais motivadas por temas
desta ordem, por implementar o cumprimento dos requisitos legais,
contratuais e sociais.
 Detectar oportunidades de melhoria no desempenho global da empresa.
 Possibilidade de redução de custos com seguros.
 Responder às demandas de clientes e acionistas.
 Melhora da imagem da empresa.
 Motivação do pessoal.

O êxito do sistema depende da garantia, do compromisso de todos, e o


engajamento essencial da gerência e da direção superior no processo como
um todo.

Sistema de Gestão em Segurança e Saúde no Trabalho

Por questões históricas e culturais, fruto da própria construção social dos


termos que utiliza-se, diferentemente dos países de língua inglesa, tem-se
optado pela nomenclatura genérica de Sistema de Gestão de Segurança,
Higiene e Saúde no Trabalho, de Sistema de Gestão em Segurança e Saúde
Ocupacional, ou ainda Sistema de Gestão de Segurança e Saúde no
Trabalho, como preferimos.

O documento contém cinco seções principais:

 Política de segurança e saúde ocupacional.


 Planejamento.
 Implementação e operação.
 Verificação e ação corretiva.
 Análise crítica pela direção.

Há uma série de requisitos que são comuns a todas as normas: política da


empresa, comprometimento da direção, formação, comunicação, objetivos e
programas, organização, controle de documentos e registros, controle de
não conformidades, ações corretivas e preventivas, análise crítica pela
direção, auditorias internas, medições e monitoramento.
Existem também requisitos específicos da norma OHSAS, que são:

 Identificação de perigos.
 Análise e controle de riscos.
 Controles operacionais.
 Preparo para emergências.
 Investigação de acidentes e incidentes no trabalho.

Estrutura e Objetivos das Normas da Série OHSAS 18000

Como referido, a OHSAS 18000 tem por objetivo oferecer às empresas


elementos de um Sistema de Gestão de Segurança e de Saúde no Trabalho.
Proporciona requisitos para a prevenção de riscos laborais com o fim de
permitir a uma organização melhorar o rendimento de seu sistema de
prevenção de riscos relacionados ao trabalho, e controlá-los. Não se
incluem critérios específicos de rendimento, nem se oferecem especificações
detalhadas para o projeto de um sistema de gestão. Define requisitos de tal
forma que possa ser aplicada em todos os tipos e tamanhos de
organizações, podendo adequar-se a diferentes condições geográficas,
culturais e sociais. Como as demais normas de Gestão da Qualidade e de
Gestão Ambiental, o êxito de sua aplicação depende da política de
prevenção de riscos da organização, da natureza de suas atividades e dos
riscos, e complexidade de suas operações, incluindo, necessariamente, o
compromisso de todos os níveis e funções da organização, especialmente os
níveis superiores da gestão. Também como as demais normas, a OHSAS
permite que a organização estabeleça e avalie a eficácia dos procedimentos
destinados a definir uma política e os objetivos de um Sistema de
Segurança e Saúde no Trabalho, alcançar a conformidade com estes
objetivos previamente definidos e demonstrá-los a terceiros interessados.

Implementação do Sistema da Gestão em Segurança e Saúde no


Trabalho

Como nas demais normas, cada organização deve decidir qual o modelo
adequado a ser utilizado, quais os requisitos aplicáveis e qual a velocidade
de implantação do Sistema. Esta decisão deve ser tomada levando-se em
consideração o tipo de negócio, o produto, o processo e fundamentalmente
o risco envolvido.

Não é estabelecido um procedimento oficial de implantação da OHSAS,


permitindo a adaptação às características e realidade de cada empresa. O
Sistema de Gestão considera como partes essenciais: formação, divulgação,
documentação, controle de documentos e dados, controle operacional,
preparação e resposta a situações de emergência, e medidas corretivas e
preventivas.

A organização tem de definir uma política e objetivos para a área, tendo


esta como suporte: identificação dos riscos; avaliação dos riscos; e controle
dos riscos.
Os passos que as empresas têm seguido para a implantação de uma política
nesta área são semelhantes àqueles indicados para os demais Sistemas de
Gestão correlatos. Assim, cabe à organização:

 Estabelecer uma política de Higiene, Segurança e Saúde no Trabalho,


incluindo aqui as questões referentes à segurança de máquinas, condições
ambientais de salubridade, ergonomia, e higiene, entre outros, bem como
fixar objetivos e metas e desenvolver programas específicos para a área.
 Detectar perigos para a saúde e a segurança dos trabalhadores, e planejar
a identificação, avaliação e o controle dos riscos existentes no trabalho,
quer físicos, químicos, biológicos e organizacionais.
 Estabelecer controle operativo para as atividades com riscos.
 Cumprir a legislação vigente na área, das três esferas de governo.
 Documentar os processos, definir os registros necessários, e mantê-los.
 Avaliar e verificar permanentemente o sistema, através de auditorias
internas.
 Implementar ações corretivas e preventivas apropriadas sempre que
necessário (ciclo PDCA de melhoria contínua).
 Divulgar a política a todos os trabalhadores e demais partes interessadas
da organização.
 Revisar a política de gestão, mantendo-a apropriada à organização e
promovendo a melhoria contínua da mesma, com o envolvimento dos
trabalhadores e da direção da empresa.

O processo inicia-se quando a organização define uma política de Higiene,


Segurança e Saúde no Trabalho tendo como suporte ações que visam
identificar os riscos existentes na organização, avaliá-los e controlá-los.
Nesta política deve ser estabelecida a orientação geral e as principais ações
na área de higiene, segurança e saúde no trabalho, bem como as
responsabilidades e as formas de avaliação do processo. Este documento
inicial deve estabelecer o compromisso da administração da empresa para a
melhoria contínua nesta área na organização. É fundamental o
comprometimento da direção superior da organização. A diretoria deve
estar consciente das dificuldades da implantação e do investimento
necessário (tempo das pessoas, recursos financeiros para consultoria,
capacitações e certificação, entre outros).

A responsabilidade dos vários intervenientes de todo o processo devem ser


definidas, documentadas e comunicadas. Também devem ser claramente
definidos os responsáveis, na empresa, pela implementação e auditoria do
Sistema de Gestão de Segurança e Saúde no Trabalho. Estes devem ser
formados e tornados aptos a definir e auditar os procedimentos da
organização. Um passo significativo é a seleção e designação de um
coordenador. Este tem um papel importante em todo o processo, e além de
conhecimentos específicos da área de saúde e segurança e de qualidade,
deve ter características que facilitem este tipo de trabalho, como acesso
fácil a todos os níveis da organização, conhecimento da instituição,
facilidade de comunicação, entre outros. Normalmente é formado um
Comitê de Coordenação composto pela Diretoria, Gerentes ou Chefias e o
Coordenador. Este comitê tem a responsabilidade da realização da análise
crítica periódica do sistema implantado.
Os auditores internos devem estar aptos para avaliar o estado inicial, definir
as políticas da área, verificar procedimentos, planejar e implementar ações
corretivas, e revisar periodicamente os procedimentos adotados.

Após esta fase, de crucial importância, porque é ela que vai balizar todo o
processo, os riscos referentes ao trabalho devem ser identificados,
analisados e avaliados, e o plano de controle dos mesmos deve ser
elaborado, de modo a planificar as ações de controle e redução dos riscos
existentes. É importante frizar que a organização deve estabelecer e manter
procedimentos para a identificação permanente de perigos, a avaliação de
riscos e a implantação das medidas de controle necessárias, e estas devem
incluir:

 As atividades de rotina e as fora de rotina.


 As atividades de todo o pessoal que tiver acesso ao lugar de trabalho,
incluindo sub-contratados, terceirizados e visitantes.
 A infra-estrutura e o lugar de trabalho proporcionado pela organização a
todas as pessoas que trabalham para ela.

Para a afetiva implementação deste processo, faz-se necessário a adoção


de indicadores que possibilitem a avaliação contínua e o acompanhamento
do processo, e a verificação se os objetivos propostos estão sendo
alcançados pela organização. Estes parâmetros devem permitir identificar
os impactos da implementação deste sistema, que podem ser expressos
através:

 Do alcance dos objetivos propostos.


 Na comparação entre as medidas adotadas e o efetivo controle dos riscos
identificados.
 No acompanhamento da divulgação, formação e responsabilização e de
sua efetividade no processo.
 Na verificação de que as informações colhidas estão sendo úteis no
processo de melhoria continuada da organização.
 Na identificação sistemática e contínua de questões críticas e de outras
necessidades emergentes.

Para atender aos requisitos da norma são necessárias ações que envolvem
recursos e tempo, o que exige um plano de trabalho formal que possa
permitir o acompanhamento da implantação do sistema de gestão. A
participação efetiva dos trabalhadores é de fundamental importância para
que o processo implantado possa reflita a realidade, garantindo a
continuidade e manutenção do processo.

A metodologia da organização para a identificação dos perigos e a avaliação


dos riscos deve:

 Ser definida com respeito ao seu alcance, natureza e oportunidade para


assegurar que é ativa e não reativa.
 Proporcionar a classificação de riscos e determinar aqueles que podem ser
eliminados ou controlados através de medidas estabelecidas.
 Ser consistente com a experiência de funcionamento e capacidade de
organização para tomar medidas de controle destes riscos.
 Prover informações para a determinação dos requisitos de infra-estrutura,
a identificação de necessidades de formação e o desenvolvimento de
controles de funcionamento.
 Considerar as ações requeridas de supervisão para assegurar a efetividade
e a oportunidade de sua implantação.

Uma das exigências da norma é a documentação de forma apropriada, que


pode adotar uma ou mais das seguintes formas (ou uma alternativa eleita
pela organização):

 Manuais do Sistema de Gestão de Prevenção de Riscos do Trabalho.


 Procedimentos de trabalho e descrição das tarefas.
 Descrição dos postos.
 Apostilas de formação.

A elaboração de manuais de segurança deve descrever todo o sistema


implantado e pode vir a ser muito utilizado pelas auditorias. Uma vez
elaborados os procedimentos e instruções de trabalho, é necessário que
todos os trabalhadores sejam capacitados nos novos procedimentos, para
que os conheçam, os assimilem e incorporem no seu dia a dia, assim como
para que todas as operações sejam executadas da mesma maneira,
assegurando a sua qualidade. Segundo a norma, deve ser seguido o
requisito de investigar os acidentes e os incidentes de trabalho, bem como
analisar as medidas corretivas ou preventivas propostas pelo sistema de
avaliação do risco.

Deve ser salientado que os procedimentos construídos devem prever


diferentes níveis de ação, valorizando-se aqueles que prevêem métodos e
procedimentos a serem executados nos locais de trabalho, para a efetiva
redução dos riscos laborais. Estes diferentes níveis de ação também devem
estar claramente definidos nos procedimentos de formação, que devem
levar em conta os diferentes níveis de riscos, de responsabilidade, de
capacidade e de instrução dos operadores do processo produtivo.

A publicação da nova ISO 14001 em 2004, a qual o texto da OHSAS tem


como base, a publicação da ILO-OSH 2001 pela OIT, e a recente revisão da
BS 8800 trouxe à discussão a necessidade de atualização da OHSAS, para
que a mesma incorpore os avanços alcançados e continue permitindo a
existência de um sistema de gestão integrado nas empresas.

A certificação por terceiros não deve ser entendida como panacéia para
todos os males. Mais ainda em questões referentes à saúde e à segurança
no trabalho, a prevenção de doenças e acidentes no trabalho deve ser uma
política de evolução permanente e, necessariamente, com pelo menos dois
pólos de tensionamento: o envolvimento direto e verdadeiro da direção
superior da organização e a participação livre e comprometida de todos os
que trabalham na empresa.