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Memória coletiva e identidade piauiense nas páginas de Revestrés1


FERREIRA, Mayara Sousa (mestranda)2
Universidade Federal do Piauí/ PI

Resumo: Este trabalho aborda o papel do jornalismo enquanto lugar de memória e ressalta, por conseguinte,
suas contribuições para o fortalecimento da identidade coletiva. Partimos da compreensão de que a notícia
transcende o tempo presente e a imediaticidade própria do ofício e contribui para a construção de arquivos que
podem ser usados tanto no presente quanto no futuro. Desse modo, no primeiro momento, discutimos acerca da
proposição de jornalismo como lugar de memória com base em Pierre Nora, Ana Regina Rêgo e Marialva
Barbosa. Abordamos também a sua ação sobre a afirmação da identidade, recorrendo, principalmente, a Michel
Pollak, na relação memória e identidade; e Stuart Hall, na relação identidade e cultura. Com o objetivo de
identificar os aspectos identitários e mnemônicos da cultura piauiense na seção de Entrevistas da Revestrés,
revista segmentada em cultura e editada no Piauí, seguimos para as análises do material. Para tanto, recorremos
ao método da Análise de Conteúdo sobre seis edições do impresso, referentes aos anos de 2012 a 2014.

Palavras-chave: memória do jornalismo; identidades; jornalismo; lugar de memória; revista Revestrés.

Introdução
O jornalismo atua na construção da memória coletiva e histórica a partir do
enquadramento e veiculação dos acontecimentos em forma de notícia, desse modo, contribui
para a reafirmação das identidades. Entendemos o jornalismo como lugar de memória e
destacamos a responsabilidade do profissional da área no exercício diário, pois o texto
transcende o tempo presente e a imediaticidade própria do ofício. Assim, deve possibilitar ao
sujeito reflexão sobre a realidade que testemunha.
Ao ressaltarmos o papel do jornalismo como um lugar de memória que transpõe o
espaço físico, abrangendo o simbólico, ponderamos sobre a relevância desse debate,
considerando um segmento específico, o de cultura. Assim, chegamos ao jornalismo cultural,
que tem como propósito refletir e conduzir o leitor à meditação sobre as manifestações
artísticas e culturais da sociedade, deixando rastros e indícios da cultura, que alcançam outras
gerações que não somente aquelas contemporâneas às produções de determinado veículo

1
Trabalho apresentado no GT de História da Mídia Impressa, durante o 10º Encontro Nacional de História da
Mídia - Alcar 2015, no Rio Grande do Sul.
2 Jornalista pela Universidade Estadual do Piauí - Uespi. Pesquisadora no Núcleo de Pesquisa em Jornalismo e
Comunicação - NUJOC. Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal
do Piauí - PPGCOM-UFPI. E-mail: mayaraferreira0809@gmail.com.
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midiático.
Desse modo, o Jornalismo Cultural atua como lugar de memória sobre a produção
artística, intelectual, sobre os costumes, os valores de uma sociedade. Enfatizando o seu papel
como crítico cultural capaz de conduzir o indivíduo, de alguma maneira, à sua integralidade a
partir da reflexão da cultura, contribuindo no processo de fixação das manifestações como
parte da memória de um povo, chegamos ao nosso objeto: a revista de cultura Revestrés.
Dadas as limitações deste texto, seu foco está em tentar responder às seguintes
questões que nortearão o estudo: 1) Como a revista Revestrés contribui para a construção da
memória coletiva e da identidade piauiense? Quais os enquadramentos de memória da seção
Entrevistas da revista sobre a cultura local? Quais os aspectos identitários mais valorizados na
seção sobre os costumes e manifestações culturais do povo do Piauí?
Assim sendo, o trabalho tem como objetivo analisar os aspectos identitários e
mnemônicos da cultura piauiense na seção de Entrevistas da Revestrés, revista segmentada
editada no Piauí. A composição analítica é formada por seis edições do impresso, sendo
considerados dois exemplares de cada ano, desde 2012, ano em que se deu a primeira
publicação, a 2014. Para tanto, recorremos ao método da Análise de Conteúdo por
acreditarmos que é capaz de revelar características, significados e de explorar aspectos
qualitativos a partir de interpretações de mensagens através de dados que vão além da leitura
comum.
O trabalho estrutura-se do seguinte modo: inicialmente, discutimos como o jornalismo
produz marcas e vestígios que ficam para a memória coletiva, considerando as implicações de
sua abordagem para a afirmação da identidade, pois ela está ligada á cultura e à memória de
forma intrínseca. Posteriormente, apresentamos de modo breve o nosso objeto, explicando a
metodologia utilizada e seguimos para a análise do material previamente estabelecido sobre a
revista Revestrés.

Memórias e identidades: o papel do jornalismo


Meios de comunicação constroem arquivos para o presente e para o futuro, arquivos
permanentes do presente. São restos, vestígios, rastros e relíquias que a mídia em geral e o
jornalismo em particular fabricam. Portanto, pode ser considerado guardião de uma memória
válida da sociedade nos dias contemporâneos. A compreensão de que a notícia transcende o
tempo presente e a imediaticidade própria do ofício, de que o jornalismo é um lugar de
memória se dá com base em Pierre Nora (1993), Ana Regina Rêgo (2012) e Marialva Barbosa
(2004).
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Na preocupação com os "lugares de memória", Nora (1993, p. 12) sobrepõe a ideia de


que eles "são, antes de tudo, restos [...]. O que secreta, veste, estabelece, constrói, decreta,
mantém pelo artifício e pela vontade uma coletividade fundamentalmente envolvida em sua
transformação e sua renovação". A memória, segundo ele, é atual, pois é carregada pelos
grupos e transferida de uns para outros no presente; ela é afetiva, porque as lembranças
podem estar nos sentimentos das pessoas; a memória pode está também no gesto, no hábito,
nos saberes.
Os lugares onde a memória se cristaliza não são necessariamente locais
geograficamente estabelecidos, mas aqueles onde é possível encontrar marcas de ligações
coletivas, de ordem simbólica. "Museus, arquivos, cemitérios e coleções, festas aniversários,
tratados, processos verbais, monumentos, santuários, associações são os marcos testemunhas
de uma outra era, das ilusões de eternidade" (NORA, 1993, p. 13). Assim, a criação desses
espaços está ligada ao dever que cada grupo tem de afiançar sua identidade, um dever que
vem da ideia de que é preciso criar e conservar arquivos e datas comemorativas para
operacionalizar as memórias identitárias e coletivas.
Para Nora, o que há, realmente, é medo de perda da memória, necessidade de registrar
a história de grupos, de pessoas e de marcar no tempo e no espaço por meio de lembranças,
capazes de reconstituir o passado até de forma minuciosa, porque as memórias são apenas
reconstituições daquilo que podemos lembrar. O pressuposto desse autor é de que nossa época
é uma grande produtora de arquivos mnemônicos, produzidos espontaneamente e a partir de
uma preocupação com os rastros e vestígios. "Não somente tudo guardar, tudo conservar dos
sinais indicativos da memória, mesmo sem se saber exatamente de que memória são
indicadores. Mas produzir arquivo é o imperativo da época" (NORA, 1993, p. 16). Essa
multiplicação de memórias demonstra sociedades que reivindicam sua própria história, sua
identidade, é por isso que, em tempos modernos a preocupação em marcar as memórias
coletivas e individuais "faz de cada um historiador de si mesmo" (NORA, 1993, p. 17).
Para Rêgo (2012), o lugar de memória é aquele que possibilita recorrência aos
acontecimentos vivenciados por uma coletividade, um lugar de permanência, onde é possível
presentificar o passado por meio das lembranças estimuladas pelo cheiro, pela audição e por
leituras. Assim, com base nas qualidades dos lugares de memória estabelecidos por Nora
(1993) é que,

Consideramos o jornalismo como lugar de memória, a partir de novos olhares sobre


o texto jornalístico em um momento posterior a seu tempo de produção, pois o texto
jornalístico continua, mesmo situado no passado e falando sobre um determinado
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presente, a reunir as três condições essenciais de consolidação de um lugar


mnemônico, ou seja: material, funcional e simbólica (RÊGO, 2012, p.14).

A partir desse posicionamento, Rêgo (2012, p. 12) acrescenta que a memória é "um
dos fatores constituintes e mais influentes do senso de pertencimento social e da identidade
individual e cultural". Com ela, enfatizamos a importância do jornalismo nesse contexto de
enquadramento do passado em uma ação que se dá no presente, mas que se perpetua por meio
da memória, e ao mesmo tempo, ressaltamos o seu papel no fortalecimento da identidade.
De acordo com Barbosa (2004), o discurso jornalístico é legitimado e válido, passível
de consulta futura, por isso é que o jornalista pode ser considerado, segundo ela, um dos
"senhores da memória". Acrescentamos, desse modo, que o jornalismo pode ser avaliado
como guardião da memória da sociedade, na medida em que, ao acompanhar o desenrolar de
acontecimentos, retém assuntos que devem ser lembrados pela sociedade e, ao mesmo tempo,
cobra um desfecho dos que devem ser atualizados, funcionando como uma espécie de pressão
sobre aquilo que não pode ser relegado ao esquecimento ou do que não pode ser silenciado.
A sociedade tem memória curta, mas, "ao selecionar o fato, transpondo-o do lugar da
normalidade para o da anormalidade, transformando-o em acontecimento, e ao escolher a
forma da narrativa, o jornalista está constituindo o próprio acontecimento e criando uma
memória da atualidade" (BARBOSA, 2004, p. 4). Portanto, consideramos que o trabalho de
enquadramento da memória pode ser organizado por jornalistas por meio da revificação do
acontecimento como notícia. Seu desempenho repercute na formação e consolidação da
memória coletiva e histórica.
Assim sendo, concedemos ao jornalismo um importante papel ao operar sobre a
construção da memória coletiva e histórica a partir do enquadramento e veiculação das
relações e manifestações sócio-culturais, contribuindo, de tal modo, para afirmação da
identidade. Vale ressaltar que os veículos midiáticos não são os únicos a atuarem na formação
da realidade social, assim como no arquivamento de lembranças e na construção das
identidades, mas seu lugar nesse contexto é notório diante do cenário atual de preocupação
das sociedades com sua história e memória. Isso ocorre porque elas querem, de fato, fortalecer
aqueles aspectos que as distinguem.
Para Palacios (2010, p. 40 e 41), há, atualmente, um reforço e estímulo no uso dos
recursos de memória durante a produção e escrita da notícia, completando na produção de
"reportagens de cunho memorialístico" sobre datas de aniversários de nascimento, criação,
mortuário ou fim, especiais com retrospectivas, além das clipagens que dizem respeito a outro
instrumento dos novos usos da memória. Com ele, compreendemos que "o jornalismo é
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memória em ato, memória enraizada no concreto, no espaço, na imagem, no objeto,


atualidade singularizada, presente vivido e transformado em notícia que amanhã será passado
relatado".
Nesse contexto de discussões, ressaltamos que a memória extrapola o físico porque é
uma construção social. Halbwachs (2006, p. 102), nos anos de 1920 e 1930, já havia
sublinhado que a memória deve ser entendida também, ou sobretudo, como um fenômeno
coletivo e social, ou seja, como um fenômeno construído coletivamente e submetido a
flutuações, transformações, mudanças constantes. Segundo ele, a memória coletiva “é uma
corrente de pensamento contínuo, de uma continuidade que nada tem de artificial, pois não
retém do passado senão o que ainda está vivo ou é capaz de viver na consciência do grupo que
a mantém”.
Por ser um elemento coletivo é que a memória não vem pura e limpa, mas vem
carregada de ideologia, pois é fruto de uma construção feita a partir de uma seleção, de um
enquadramento. Para Pollak (1992, p. 203), “a memória é seletiva. Nem tudo fica gravado.
Nem tudo fica registrado”. Ela é em parte herdada, articulada e estruturada de acordo com as
preocupações do momento, portanto, é considerada um fenômeno construído e sua
organização pode ser tanto consciente, quanto inconsciente.
Pollak (1992, p. 204) completa assegurando que as noções de memória remetem às
percepções da realidade, ela é constituída por acontecimentos do grupo ou vividos
pessoalmente. Portanto, a memória coletiva se utiliza da memória individual para se
completar, remetendo às lembranças pessoais e se remetendo, ao mesmo tempo, à memória
dos outros sobre um acontecimento. A memória é um elemento formador de identidade, “na
medida em que ela é também um fator extremamente importante do sentimento de
continuidade e de coerência de uma pessoa ou de um grupo em sua reconstrução de si”.

A construção da identidade é um fenômeno que se produz em referência aos outros,


em referência aos critérios de aceitabilidade, de admissibilidade, de credibilidade, e
que se faz por meio da negociação direta com outros. [..] Vale dizer que memória e
identidade são valores disputados em conflitos sociais e intergrupais e
particularmente em conflitos que opõem grupos políticos diversos (POLLAK, 1992,
p. 204).

De tal modo, há uma ligação estreita entre memória e identidade, isso porque esta se
forma a partir do que foi construído historicamente. Stuart Hall (2004, p. 7) discute a respeito
do conceito de identidade, que está ligada à cultura. Para ele, existe uma preocupação em
discutir a temática na atualidade, porque “as velhas identidades, que por tanto tempo
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estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e


fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado”.
O autor coloca três concepções de identidade: do sujeito do Iluminismo, do sujeito
sociológico e do sujeito pós-moderno. Na primeira, “o centro essencial do eu era a identidade
de uma pessoa”, enquanto na concepção do sujeito sociológico, “a identidade é formada na
‘interação’ entre eu e a sociedade”. Já na terceira concepção, “o sujeito, previamente vivido
como tendo uma identidade unificada e estável, está se tornando fragmentado; composto não
de uma única, mas de várias identidades, algumas vezes contraditórias ou não-resolvidas”
(HALL, 2004, p. 11 e 12).
Para Stuart Hall (2004, p. 13), a definição é bem mais complexa que essas
simplificações demonstram, contudo, ele destaca: a identidade “é definida historicamente”.
Desse modo, o autor discute as consequências da globalização sobre a identidade, colocando
que podem ocorrer efeitos de tensão entre o global e o local, mas ao mesmo tempo, a
homogeneização da identidade pode gerar sua desintegração, fortalecendo o local a partir da
resistência a esse processo. Assim, reforça a valorização das questões locais e afirma:

Quanto mais a vida social se torna mediada pelo mercado global de estilos, lugares e
imagens, pelas viagens internacionais, pelas imagens da mídia e pelos sistemas de
comunicação globalmente interligados, mais as identidades se tornam desvinculadas
– desalojadas – de tempos, lugares, histórias e tradições específicos (HALL, 2004, p.
75).

Portanto, existe uma ligação entre memória e identidade. Nas sociedades atuais a
preocupação com a identidade coletiva e a memória é evidente. A comunidade acredita e vive
coisas que não vivenciou, mas que foram narradas jornalisticamente e passa a reproduzir
enfaticamente como se estivesse vivenciado de perto. Dessa maneira, pensar em como o
jornalismo se consolida no espaço e no tempo é imprescindível para entender a memória
como elemento catalisador e fortalecedor das identidades. E dentro do jornalismo, se insere
uma especificidade que trata designadamente da cultura de um povo, o jornalismo cultural.
A memória é um sentimento de identidade na medida em que ela é um fator
importante do sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa ou de um grupo e sua
reconstrução de si. Por conseguinte, destacamos a encargo do profissional da área, pois o
texto ultrapassa o tempo presente, assim, deve possibilitar ao sujeito reflexão sobre a
realidade que vivencia, pois vai transcender os aspectos temporais e ambientais. Daí, a
importância de estudar o jornalismo enquanto lugar de memória, considerando seu papel na
afirmação das identidades.
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Aspectos identitários e mnemônicos em Revestrés


A partir da discussão embasada acima, analisaremos, neste momento, como a revista
Revestrés contribui para a construção das memórias e identidades piauienses, e
investigaremos os enquadramentos mnemônicos e os aspectos identitários mais valorizados
sobre a cultura do Piauí pelo impresso. A amostra avaliada compreende seis exemplares
bimestrais, os primeiros de cada semestre desde que a revista foi criada, em 2012, até 2014,
com a proposta de oferecer um universo amplo para investigação.
A revista surgiu em fevereiro de 2012, em Teresina, Piauí, como uma publicação
bimensal segmentada em cultura, no sentido de “manifestações culturais populares, artes
plásticas, teatro, música, cinema, fotografia, arquitetura, dança, literatura, enfim, tudo que
possa ser reconhecido como ‘atividade cultural'”, de acordo com folder explicativo Revista
Revestrés (2013). Atualmente, tem tiragem bimestral de cerca de dois mil exemplares.
Revestrés tem duas editorias fixas: Entrevista e Reportagem - são, portanto, as que
ganham mais visibilidade, com maior número de páginas e fotos. Outros espaços do impresso
são denominados de Crônicas, Lendas Piauienses Revisitadas, Ficção, Piauiês (seção de
humor inspirada na Grande Enciclopédia Internacional de Piauiês, de Paulo José Cunha, com
ilustração explicando um dialeto piauiense), Ensaio Fotográfico, Um Lugar no Piauí (foto de
cenário piauiense), além de seções de artigos de opinião e matérias sobre temas variados. O
editorial, assim como as duas seções de Dicas curtas (de filmes, livros, música etc.) e o
Colunismo Cultural (que traz notas com curiosidades e temas variados) também compõem a
revista. Contudo, esses aspectos não foram considerados nesse estudo; a investigação
compreende apenas a editoria Entrevista pelo motivo referenciado acima.
Como metodologia para as análises, utilizamos a Análise de Conteúdo (AC) para
fazermos inferências sobre o material examinado a partir de frases, visibilidade, importância e
aprofundamento do material veiculado e, assim, identificar aspectos da identidade e memória
da cultura do Piauí. Conforme Bardin (1977, p. 38), “a análise de conteúdo aparece como um
conjunto de técnicas de análise das comunicações, que utiliza procedimentos sistemáticos e
objetivos de conteúdo de mensagens”. Mas, além disso, o método se utiliza da interpretação
da amostra reunida para verificar também aquilo que não está totalmente explícito e assim
buscar a compreensão a frente dos resultados imediatos.
Inicialmente, verificamos que três das seis entrevistas consideradas neste estudo
ocuparam a capa como destaque principal do exemplar, foram elas: edição 1 (fevereiro de
2012), com o renomado autor piauiense Assis Brasil; edição 6 (janeiro/fevereiro de 2013),
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com a pesquisadora Niéde Guidon; edição 12 (janeiro/fevereiro de 2014), com 'o maior poeta
vivo do Brasil', Ferreira Gullar. Os 50% das entrevistas avaliadas que tomaram as capas de
Revestrés revelam a visibilidade e importância que o impresso concede à seção. As outras
capas foram ocupadas pelo material divulgado na editoria Reportagem.

Figura 1: Capas das revistas Revestrés, n. 1, ano 1, fev. 2012; n. 6, ano 2, jan./fev. 2013; n.
12, ano 3, jan./fev. 2014

A cada edição de Revestrés, um convidado especial participa da Entrevista do bimestre


junto aos integrantes do impresso. São produtores culturais, professores universitários,
jornalistas e arquitetos. A seção é disposta nas primeiras páginas da revista, ocupando grande
espaço nos exemplares, com cerca de 8 a 12 páginas, que concentram texto introdutório,
seguido das perguntas e respostas, permeadas de fotos. Geralmente, os escritos que abrem a
editoria se tratam de descrições do cenário onde foi realizado o bate-papo ou do próprio
entrevistado, que se manifesta em gestos, comportamentos e roupas, ajudando o leitor a criar
uma imagem da ambientação da pauta, assim como a caracterizar o sujeito alvo das perguntas.
A entrevista da edição 1 (fevereiro de 2012), com Assis Brasil, por exemplo, traz esse tipo de
descrição, ressaltando a presença de máquinas de escrever, livros e filmes na casa do
renomado autor piauiense Assis Brasil.
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Figura 2: Revestrés, n. 1, ano 1, fev. 2012, p. 6 e 7

Como entrevistados, na maioria das edições avaliadas, Revestrés mostrou pessoas que,
por muito tempo, moraram no Piauí (piauienses natos ou de coração) e que se destacaram
numa vida lá fora, seja na produção de arte do Rio de Janeiro, como Assis Brasil e Benjamim
Santos (edições 1 e 3, de fevereiro e julho-agosto de 2012, respectivamente) ou na aquisição
de conhecimentos, por ocasião da saída para estudar em universidades reconhecidas
nacionalmente, como o caso do jornalista e escritor Paulo José Cunha (edição 9, de julho-
agosto de 2013), que se mudou para fazer curso de graduação em Brasília, e acabou ficando
na capital federal pelo menos até a data de publicação da edição citada.
Isso demonstra a preocupação da revista em caracterizar essas pessoas de prestígio
nacional como, de fato, piauienses, que valorizam claramente em suas falas o berço onde
nasceram ou viveram parte de suas vidas. Os três entrevistados citados acima valorizam e
reconhecem a identidade típica do Piauí, não obstante à temporada dedicada à cultura em
outros estados, que não este. Dessa maneira, percebemos em Revestrés um veículo de
comunicação que se preocupa com esse fortalecimento e valoração dos aspectos identitários
locais a partir da cultura, já que se trata de uma revista segmentada que tem esse objetivo
claro. A inquietação com a produção cultural do Piauí e/ou dos piauienses é percebida desde a
escolha dos sujeitos entrevistados, temas abordados, perguntas até o direcionamento dado no
momento da entrevista com tais personalidades.
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O autor de teatro infantil Benjamim Santos, entrevistado da edição 3 (julho-agosto de


2012), nascido em Parnaíba, cidade localizada no litoral do Piauí, onde viveu por um tempo
até se mudar para Recife e depois para o Rio de Janeiro, exalta a cultura do estado natal a
partir da valorização de sua cidade, que na década de 40 já tinha espaços para manifestações
culturais, como teatro, música: "Eu nasci em berço de ouro cultural na Parnaíba, numa época
em que a Parnaíba era um berço de ouro no Piauí" (Revestrés, p. 10, ano 1, edição 3,
julho/agosto de 2012). Contudo, ressalta, ao mesmo tempo, que na atualidade o lugar onde ele
voltou a morar depois de muitos anos não tem manifestações artísticas tão comuns em outras
cidades do país, mas é onde o autor cultiva hábitos próprios do piauiense.

Figura 3: Revestrés, n. 3, ano 1, jul./ago. 2012, p. 10 e 11

A editoria Entrevista de Revestrés número 3 (julho/agosto de 2012) fala de um estado


brasileiro onde é necessário que os jovens, artistas talentosos, saiam de seu lugar de origem
para conquistar reduto profissional e sobreviver financeiramente da cultura. Mas, ao passo em
que lamenta e critica a falta de estímulo às artes e aprecia o piauiense que se destaca Brasil
afora escrevendo, dirigindo, ela também destaca características que são simbólicas e comuns
entre as pessoas que vivem no estado, revelando indícios que permanecerão na memória dessa
coletividade e contribuindo para o fortalecimento de traços que identificam e diferenciam os
piauienses dos outros estados do Brasil, como a tranquilidade e a leveza com que essas
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pessoas se adornam dia-a-dia, apesar das durezas enfrentadas.


A entrevista com Paulo José Cunha (edição 9, de julho-agosto de 2013) é outro
modelo de colaboração com a identidade local, pois enfatizou a obra escrita pelo jornalista
denominada Grande Enciclopédia Internacional de Piauiês, que aborda expressões típicas do
estado e pouco conhecidas em outros. Para Cunha, é um livro que contribui com o resgate e
com a afirmação da identidade, porque colabora com a valorização de uma linguagem muito
usada, mas pouco assumida publicamente por vergonha. Ele ressalta a maneira particular e
diferente de o piauiense falar. "São expressões de uma riqueza cultural fantástica. Nos ajudam
na nossa definição cultural, contribuem no desenho do que somos" (Revestrés, p. 16, ano 2,
edição 9, julho/agosto de 2013).

Figura 4: Revestrés, n. 9, ano 2, jul./ago. 2013, p. 16 e 17

Outro caso abordado na seção foi o de Niéde Guidon, pesquisadora brasileira, paulista,
mas que morou por muito tempo na França, antes de se mudar para a região Sul do Piauí,
lugar onde desenvolve e coordena um trabalho de pesquisa arqueológica, com descobertas que
embatem com as teorias até então aceitas, desdobrando ações que mexem com as estruturas de
um estado ainda colonialista, na opinião da entrevistada. Ela reconhece o potencial do Piauí
para se desenvolver a partir do turismo, mas também lastima a falta apoio e investimento dos
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Governos nas esferas federal e estadual. Nesse caso avaliado da edição 6 (janeiro/fevereiro de
2013), percebemos o interesse do veículo midiático em trabalhar temáticas e pessoas que, de
algum modo ou de maneira exemplar, contribuíram e continuam a fazer pelo estado, que
aparenta, pelos olhares da revista especializada, ter tantas singularidades culturais, ao passo
em que não tem muitas políticas públicas voltadas para a valorização de manifestações
artísticas típicas de sociedades tradicionalistas. E é assim que a revista vai construindo os
indícios que ficarão para a memória coletiva desse povo.
De modo semelhante, a edição 15 (julho/agosto de 2014) mostrou outro natural de São
Paulo, filho de pernambucana e piauiense, que se mudou para a terra do pai ao se formar em
Arquitetura para uma temporada, que perdura até os dias atuais como professor da
Universidade Federal do Piauí. Um paulista deslumbrado pelo Piauí, pelas particularidades,
pelos aspectos provincianos, por municípios que vão de pequeno a médio porte. Ele discute a
identidade da capital piauiense, as cenas e costumes que são comuns e que diferenciam a
coletividade que lá habita.

Figura 5: Revestrés, n. 15, ano 3, jul./ago. 2014, p. 8 e 9

Ao mesmo tempo, o sujeito principal da entrevista critica a arquitetura atual das


cidades e ressalta, com base em sua pesquisa de pós-graduação, que antigamente, as casas
eram mais adequadas e pensadas conforme as condições climáticas do Piauí: "tanto a casa de
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fazenda como a casa popular são arquiteturas que usam matéria prima local e tem o
enfrentamento do calor" (Revestrés, p. 15, ano 3, edição 15, julho/agosto de 2014). O
arquiteto faz crítica ao "abandono" dos centros das cidades e sugere jeitos condizentes com a
realidade piauiense, focados na cultura local:

Nós temos a cultura da conversa na rua, da roda da calçada, então a gente poderia ter
casas com terraços dando pra rua, buscando o resgate do espaço de transcrição do
público e privado, que é uma característica própria da arquitetura popular e
espontânea. Você vai ao bairro Poti Velho [um dos mais tradicionais da cidade] e vê
isso: o cara faz um puxadinho, coloca uns tamboretes, e ele conversa, interage, é
como se fosse a sala da rua" (Revestrés, p. 15, ano 3, edição 17, julho/agosto de
2014).

O único entrevistado da revista, considerando a amostra escolhida para verificação,


que não é piauiense, nem mora ou morou no Piauí foi Ferreira Gullar, poeta maranhense,
crítico de arte que mora no Rio de Janeiro desde 1979. O texto da edição 12 (janeiro/fevereiro
de 2014) tratou da cultura brasileira de modo geral, sem especificações para a cultura
piauiense. Não obstante, Revestrés o questionou sobre a relação do escritor com o Piauí e
Gullar citou o Poema Sujo, que, segundo ele, relembra a infância no Maranhão e na capital do
estado vizinho, o Piauí, época em que suas visitas a Teresina se davam por ocasião das
viagens do pai, que era ambulante.
Todavia, a maioria das edições pesquisadas demonstrou forte valorização da cultura
piauiense, além de preocupação com o que dessa cultura pode ser destacado como diferencial,
como marca para este povo. Portanto, a revista de jornalismo cultural colabora, enquanto
lugar de memória que é, com a permanência de características e aspectos próprios dos
piauienses.

Considerações
O papel do jornalismo na construção da memória coletiva sobre os acontecimentos é
inestimável. Ao operar como lugar de memória, ele também coopera de modo surpreendente
com o fortalecimento das identidades a partir dos enquadramentos sobre o que é noticiado e
de como é noticiado. Vale ressaltar, que no jornalismo de revista essa função se dá de modo
operante, pois o tempo age como aliado da apuração, a estrutura e a diagramação dão espaço
para a criatividade na forma de escrever e de gerir as pautas.
Por isso, evidenciamos a importância de se conduzir uma pesquisa sobre esse veículo
de comunicação, principalmente, quando se trata de uma revista de jornalismo cultural,
sabendo que este tem, por excelência, o papel de refletir, de se aprofundar, de pensar e criticar
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os aspectos sociais, desde os costumes, práticas, valores às formas de arte expressas na


música, teatro, cinema, arquitetura, gastronomia.
Logo, consideramos que a Revestrés cumpre essa função de maneira significante,
constituindo-se ao longo da sua trajetória como um veículo de comunicação que eleva a
cultura da qual trata, que colabora com a valorização de características que distinguem essa
cultura de outras, ora elevando pontos próprios dos costumes e práticas piauienses, ora
criticando a falta de outros, como o despertar para a arte, no mesmo sentido que outras
cidades e estados já o fazem.
A revista tem veiculação em todo o estado, concorrendo com portais, jornais, rádios,
TVs, ajudando a construir memórias juntamente com os outros meios de comunicação que
atuam na região, mas com vestígios peculiares adequados e ao mesmo tempo favoráveis a um
povo que reside e atua neste local e nesta temporalidade. São estes indícios e rastros
mnemônicos que estão ficando para que gerações futuras possam analisar os costumes e
práticas a partir da dessa produção.

Referências

ANDRADE, Samária. Assis Brasil, 80 anos. Revestrés. Teresina, ano 1, n. 1, p. 6-13, fev.
2012.

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