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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ

CAMPUS UNIVERSITÁRIO DO TOCANTINS


FACULDADE DE LINGUAGEM
DISCIPLINA: LITERATURA BRASILEIRA CONTEPORÂNEA II
DOCENTE: SARA VASCONCELOS
DISCENTE: LAYSE GRAZIELLE RODRIGUES RODRIGUES

CHOVE NOS CAMPOS DE CHACHOEIRA, DALCÍDIO JURANDIR

Falar em literatura, pensar em literatura para quem a ama, é algo que desperta um
sentimento sem igual. Muitas vezes o indivíduo cresce cercado de obras literárias, é um
leitor assíduo e encontra na literatura um meio pelo qual pode se ausentar do mundo em
que vive e das coisas que acontecem à sua volta. Para muitas pessoas a literatura por meio
de suas obras tem esse poder, o de levar para longe, de fazer viajar, de despertar cada vez
mais a busca pelo novo, pelo até então desconhecido.

Mas é claro que as sensações e sentimentos inexplicáveis que a literatura causa em


seus amantes está diretamente ligada à maneira como as obras são construídas, pois

quando recebemos o impacto de uma produção literária, oral ou


escrita, ele é devido à fusão inextricável da mensagem com a sua
organização. Quando digo que um texto me impressiona, quero
dizer que ele impressiona porque a sua possibilidade de
impressionar foi determinada pela ordenação recebida de quem
o produziu. ” (CANDIDO, 2004)

Como pode ser observado nas palavras de Candido, o impacto que determinado
texto, que determinada obra causa em mim, vai depender também da vontade e da
intenção de quem o produziu, visto que é algo muito certo que ao escreverem os escritores
e autores não o fazem por fazer, sempre há uma intenção por detrás, sempre há algo
tentando ser repassado para os receptores da mensagem que nesse caso serão os leitores.

Alguns gostam de dizer que a literatura tem o poder de modificar a realidade, talvez
ele não tenha todo esse poder, mas de cerdo modo ela contribui para que certos leitores
ao se depararem com um livro e o lerem, possam observar a realidade à sua volta com
outros olhos, vendo coisas que talvez antes de lerem aquele livro não tivessem observado
antes, e assim desse modo, o leitor poderá reavaliar a própria vida e seus comportamentos.

Por isso é que nas nossas sociedades a literatura tem sido


um instrumento poderoso de instrução e educação entrando nos
currículos, sendo proposta a cada um como equipamento
intelectual e afetivo. Os valores que a sociedade preconiza ou os
que considera prejudiciais, estão presentes nas diversas
manifestações da ficção, da poesia e da ação dramática. A
literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate,
fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os
problemas. (CANDIDO, 2004)

Um outro teórico ao nos apresentar e expressar seu pensamento sobre a literatura,


nos diz que

A literatura, como toda arte, é uma transfiguração do real, é a


realidade recriada, através do espírito do artista e retransmitida através da
língua para as formas, que são os gêneros, e com os quais ela toma corpo e
nova realidade. Passa, então, a viver outra vida, autônoma, independente do
autor e da experiência de realidade de onde proveio. Os fatos que lhe deram às
vezes origem perderam a realidade primitiva e adquiriram outra, graças à
imaginação do artista. São agora fatos de outra natureza, diferente dos fatos
naturais objetivados pela ciência ou pela história ou pelo social. O artista
literário cria ou recria um mundo de verdades que não são mais medidas pelos
mesmos padrões das verdades ocorridas. Os fatos que manipula não têm
comparação com os da realidade concreta. São as verdades humanas gerais,
que traduzem antes um sentimento de experiência, uma compreensão e um
julgamento das coisas humanas, um sentido de vida, e que fornecem um retrato
vivo e insinuante da vida. A Literatura é, assim, vida, parte da vida, não se
admitindo possa haver conflito entre uma e outra. Através das obras literárias,
tomamos contato com a vida, nas suas verdades eternas, comuns a todos os
homens e lugares, porque são as verdades da mesma condição humana.
(COUTINHO, 1976)

Esse pensamento de Afrânio Coutinho de seu livro Notas de Teoria Literária, é


simplesmente maravilhoso. Ele fala não apenas da literatura e a realidade na qual ela se pauta e é
construída, mas ele fala também da relação que se constrói entre realidade e imaginação, sobre o
quanto uma é importante para a outra e para o fazer literário. É também incrível como ele coloca
para nós a forma como vê a literatura, sobre a relação com os sentimentos e sensações humanas
e principalmente como ele relaciona literatura e vida, sendo as duas inseparáveis em sua
concepção, pois a literatura seria como uma ponte que nos permite fazer a travessia das nossas
verdades e realidades para o imaginário que se constrói através delas.
Mas não é apenas para o ser humano em si que a literatura é importante, e
sim para a sociedade como um todo onde esse ser está inserido. Aprendemos que a
literatura pode ser considerada um instrumento de instrução, de modificação e também
porque não um instrumento pelo qual podemos demonstrar nossa inquietação. Sim
inquietação e também revolta perante a sociedade e os problemas nela existentes.

Literatura é conhecimento, sendo assim nada melhor do que se utilizar dela para
proteger-nos de estupidez, ignorâncias, desmandos e tiranias, a abrirmos nossas mentes
seja por meio de leitura ou mesmo da construção do texto literário.

Falemos portanto, alguma coisa a respeito das produções


literárias nas quais o autor deseja expressamente assumir
posição em face dos problemas. Disso resulta uma literatura
empenhada, que parte de posições éticas, políticas, religiosas ou
simplesmente humanísticas. São casos em que o autor tem
convicções e deseja exprimi-las, ou parte de certa visão da
realidade e a manifesta com tonalidade crítica. De fato, sabemos
que em literatura uma mensagem ética, política, religiosa ou
mais geralmente social só tem eficiência quando for reduzida a
estrutura literária, a forma ordenadora. Tais mensagens são
válidas como quaisquer outras, e não podem ser proscritas; mas
a sua validade depende da forma que lhes dá existência como
um certo tipo de objeto. (CANDIDO, 2004)

De fato, não há como discordar de Candido, afinal, ao falarmos de “uma literatura


que parte de posições éticas, políticas, religiosas” nos vem à mente as mais diversas obras
e muitos nomes de autores que encontraram na literatura um meio pelo qual poderiam
expressar suas convicções.
Sim muitos assim o fizeram, escreveram obras maravilhosas voltando-se sempre e
penetrando cada vez mais fundo na realidade brasileira, e foi isso o que aconteceu no
período modernista, quando os escritores cansados de estarem presos e quase que reféns
de tudo o que vinha de fora, caíram em si e foi como se compreendessem que habitavam
em um país lindo, cheio de riquezas culturais e sociais, com um povo todo misturado e
miscigenado, mas que também era cheio de problemas, problemas esses que clamavam
para que alguém os expusesse e os fizesse serem vistos.
Muitas obras foram escritas nesse período, algumas é claro logo tornaram-se
conhecidas e conquistaram muitos leitores, outras precisaram de um bom tempo para
serem decifradas, visto que com a nova roupagem dada aos escritos pelo modernismo,
não eram de fácil compreensão, outras ainda apesar de uma escrita mais simples levaram
tempo para tornarem-se conhecidas, o que é o caso da obra “Chove nos Campos de
Cachoeira” de Dalcídio Jurandir, que apesar de ter sido premiada, até mesmo na sua
região de origem ainda é pouco conhecida.

“ O ponto de desconhecimento da obra Dalcidiana é a má divulgação de seus


livros publicados em pequenas editoras, de pouca circulação, muitas vezes sem
pagar devidamente os direitos autorais e ademais há outra questão, que é da
posição geográfica da Amazônia e do imaginário acerca de sua população e
cenário.” (SANTOS, 2010)

A realidade infelizmente ainda é essa, onde continuam a nos moldar e imaginar


como eternos índios, vivendo em malocas em meio à uma grande floresta. Sim, esse
preconceito para conosco é cruel e mais cruel ainda porque impede que muitos escritores
e muitas obras tornem-se conhecidas.

Voltando para a obra acima citada, ela é a primeira de um total de dez obras que
compõem o chamado “Ciclo do Extremo Norte”, premiado com o prêmio Vecchi – D.
Casmurro de Literatura em 1940.

Escrito entre 1929 e 1939, o romance foi concebido entre as duas guerras
mundiais, tragédias que abalaram profundamente os valores do homem
ocidental, e o foi de tal modo que, a despeito das declarações do autor, a obra
revela-se surpreendentemente inserida no espírito de época de seu tempo, um
tempo marcado pela sensação da morte absurdamente iminente e, como tal,
oferece algo bem mais amplo do que parece acreditar seu autor - algo que
subjaz às desventuras de Alfredo e que o texto-embrião toma por fundamento
temático. É neste fundamento, então, que não nega o tema da “vida paraense”,
mas o assimila enquanto figura, onde se pode achar o grande responsável pelo
alcance estético da obra e, portanto, por sua ampla capacidade comunicativa.
(PANTOJA, 2004)

Nesse trecho Pantoja nos dá pequenas amostras de todo um emaranhado de histórias


e sentimentos que envolvem os personagens, sendo que a história é marcada pela
“sensação da morte absurdamente eminente”.
A morte é onipresente em Chove nos campos de Cachoeira, entre cujos
personagens se podem encontrar figuras emblemáticas como velho Leão, o
sineiro-surdo sempre ao pé do sino a anunciar defuntos; velho Abade, coveiro
e carpinteiro de caixões tão ocupado na função quanto o sineiro; Ezequias,
hipocondríaco e suicida cujo nome pouco se distingue de Exéquias -
cerimônias e honras fúnebres -; e Eutanázio, personagem moribundo de quem
o nome é clara e direta referência a Thánatos. Outrossim, a onipresença da
morte também se mostra na pobreza dos pobres, na fraqueza dos fracos, nos
cadáveres que o inverno cada vez arrasta do cemitério... Mas, acima de tudo, a
morte, enquanto fato, manifesta-se por meio do morticínio em massa que a
influenza, a chamada gripe espanhola, provoca na vila. (PANTOJA, 2004)

Sim a morte está presente no texto o tempo todo, em parte no personagem Alfredo,
mas principalmente em seu irmão Eutanázio, que faz jus a seu próprio nome, pois
personifica a luta entre a vida e a morte, vive de solidão, é solteiro, feio e azedo, ele causa
muito espanto nas pessoas por conta de sua aparência.

E Eutanázio pensava que doença do mundo ele tinha era na alma. Vinha
sofrendo desde menino. Desde menino? Quem sabe se sua mãe não botou
ele no mundo como se bota um excremento? Sim, um excremento. Teve
certa pena de pensar assim sobre sua mãe. [...] Ele saltou de dentro dela
como um excremento. Nunca dissera isso a ninguém. Depois a sua própria
mãe contava que o parto tinha sido horrível. Os nove meses dolorosos. Sim,
um excremento de nove meses. A gravidez fora uma prisão de ventre
(JURANDIR, 1997).
O personagem Eutanázio em meio às suas dores e sofrimentos, crises emocionais
e existenciais, é como se estivesse ele sendo a representação de muitos males que muitas
vezes nos são causados, por conta de transformações que provém das modernidades e que
causam em nós efeitos negativos, não apenas em nós, mas também no mundo que nos
rodeia.

Quanto a Alfredo, ele é considerado um menino contemplativo e melancólico,


sempre mergulhado em seus sonhos e imaginações, assim como também frustrações pelo
que tanto almejava mas que era muito difícil de alcançar, que vem a ser a sua travessia de
sua cidade para Belém, onde pretendia estudar.

Quando for para Belém não quer ir para aquela cidade triste, cheia de lama,
com meninos sujos, homens rotos e tisnados que passavam carregados de
embrulhos, com carrinhos de mão vendendo bucho, com uns velhinhos
batendo na porta e estendendo a mão, uma carroça cheia de cachorros presos
numa grade. Queria era ver o Círio, a Santa na berlinda, os cavalinhos, a
montanha russa, o museu, queria ao menos ver os colégios e as livrarias onde
se vendiam os livros de histórias maravilhosas que sempre desejava
(JURANDIR, 1991, p. 87-89).

Ambos citados acima são os personagens centrais de “Chove nos Campos de Cachoeira”,
mas não são apenas eles que compõem essa rica obra amazônica, tão menos apenas suas
dores e tristezas, sonhos e devaneios. Há muito, muito mais da realidade da época, dos
costumes e culturas, lendas, histórias, imaginário popular.

O tema amazônico cria o cenário da obra, introduzindo-a na literatura


geográfica do país, o estilo moderno da narrativa que se constrói no meio
caboclo lembra opção de Mário de Andrade, ao criar Macunaíma, o herói que
nasce na floresta amazônica e dali parte para o sudeste do país. A Amzônia de
tantos imaginários sevre de fonte para a ficção modernista de Dalcídio Jurandir
que mostra o concreto da realidade, do cotidiano, do que é mais próximo das
pessoas comuns. (SANTOS, 2010)

Dalcídio faz-nos então conhecidos através dos moradores de Cachoeira, ele mostra
como de fato são os amazônidas, sem enfeites, sem exageros, sem alegorias, afinal, somos
um povo de garra, força que tem orgulho de ser quem é e principalemente, de ser de onde
é. Ele mostra e descreve a Amazônia viva em suas cores e dores, em seus cantos e seus
gritos, em suas festas e em seus choros, é a Amazônia como ela é.

Dalcídio Jurandir deixa para a Moderna Literatura brasileira um romance que


revela uma narrativa complexa, pela aproximação do narrador e personagem
através de um elo psíquico, podendo despertar confusões na identificação das
vozes; pela predominância do discurso indireto livre como um recurso que
permite longas construções revelando de um lado a confusão anterior, de outro
permitindo ao leitor um profundo conhecimento da vida das personagens; e,
sobretudo por fazer uso das anacronias (recuos e antecipações) como técnica
narrativa, esclarecendo o leitor sobre fatos que envolvem os personagens,
sejam fatos do passado, sejam do futuro. (CUNHA,s.d)
REFERÊNCIAS

CANDIDO, Antônio. Vários escritos. Direito a literatura. 4a. ed. reorg. pelo autor. Rio
de Janeiro: Ouro sobre Azul. São Paulo: Duas Cidades. 2004, 272 p.

COUTINHO, Afrânio. Notas de Teoria Literária. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2008.

PANTOJA, Edilson. O “Extremo Norte”: finitude e niilismo em Dalcídio Jurandir. 2006


Disponível em <http://www.dalcidiojurandir.com.br/pdf/extremo.pdf > Acesso em 09 de
setembro de 2017

SANTOS, Izabel dos. Chove nos Campos de Cachoeira: o primeiro romance moderno
da Amazônia. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Instituto das Letras. Porto
Alegre, 2010.