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EXMO. SR. DR.

JUIZ DE DIREITO DA ____ VARA CÍVEL DA COMARCA DA


CAPITAL/RJ.

PEDIDO DE LIMINAR/URGÊNCIA
PEDIDO DE JUSTIÇA GRATUITA

“UMA MENTIRA REPETIDA MIL VEZES TORNA-SE VERDADE” frase de Joseph


Goebbels, que foi ministro da Propaganda de Adolf Hitler na Alemanha Nazista.

ANIELLE SILVA DOS REIS BARBOZA, brasileira, casada, professora, portadora do RG


n° 109463273 DIC/RJ e inscrita no CPF nº 105.381.567-08, residente e domiciliada na Rua
Aguiar Moreira, nº 663/201, Bonsucesso, Rio de Janeiro, CEP 21041-070, e MÔNICA
TEREZA AZEREDO BENICIO, brasileira, solteira, que vivia em união estável com Marielle
Francisco da Silva, arquiteta, portadora do RG nº 206460321 DIC/RJ e inscrita no CPF nº
099.112.647-50, com endereço à Rua Araújos, 111, casa 1, Tijuca, Rio de Janeiro, CEP
20521- 000; vêm, por meio de suas advogadas constituídas através de procuração anexa e
que desde já informam o e-mail: contato@ejsadvogadas.com.br, perante Vossa Excelência,
propor com fundamento no art. 5º, X da Constituição Federal de 1988 e Lei 12.965/14 e
demais dispositivos legais aplicáveis à espécie, propor a presente

AÇÃO COMINATÓRIA COM PEDIDO DE TUTELA PROVISÓRIA CUMULADA


COM AÇÃO INDENIZATÓRIA

1
em face de FACEBOOK SERVICOS ONLINE DO BRASIL LTDA., pessoa jurídica de
direito privado, inscrita no CNPJ/MF sob o n.º 13.347.016/0001-17, com sede na cidade
de São Paulo, Estado de São Paulo, na rua Leopoldo Couto de Magalhães Júnior, nº
700, andar 1 parte andar 5 andar 6 andar 15 parte, Itaim Bibi, CEP 04.542-000, pelos
fatos e fundamentos que passam a expor.

DA GRATUIDADE PROCESSUAL:

Inicialmente, as autoras confessam ser pobres no sentido legal, não podendo


arcar com as custas do processo sem o prejuízo de seu próprio sustento e o de sua
família, requerendo desde já os benefícios da Justiça Gratuita, conforme lhe faculta a
Lei 1.060/50 e arts. 98 e ss. do Código de Processo Civil.

Neste ato faz a juntada das declarações de hipossuficiência de ambas as


autoras, instruídas com os documentos necessários que demonstram a situação delas
junto à Secretaria da Receita Federal.

DA LEGITIMIDADE ATIVA:

O parágrafo único do artigo 12 do Código Civil prevê expressamente a


legitimação do cônjuge supérstite (parceiro homoafetivo), ou qualquer parente em linha
reta, ou colateral até o quarto grau para exigir que cesse a ameaça, ou a lesão, a
direito da personalidade do morto, e ainda reclamar perdas e danos, sem prejuízo de
outras sanções previstas em lei.

Art. 12. Pode-se exigir que cesse a ameaça, ou a lesão, a


direito da personalidade, e reclamar perdas e danos, sem
prejuízo de outras sanções previstas em lei.

Parágrafo único. Em se tratando de morto, terá legitimação


para requerer a medida prevista neste artigo o cônjuge

2
sobrevivente, ou qualquer parente em linha reta, ou colateral
até o quarto grau.

Nesse sentido, ANIELLE SILVA DOS REIS BARBOZA e MÔNICA TEREZA


AZEREDO BENICIO são partes legítimas para moverem tal ação. A primeira como irmã
da de cujus e a segunda como sua companheira sobrevivente.

MÔNICA TEREZA AZEREDO BENICIO era parceira homoafetivo de Marielle


Francisco da Silva. Com um relacionamento de quase 12 (doze) anos, viveram juntas
seus últimos dois anos como se casadas fossem.

Atualmente, resta pacificada a questão da união estável homoafetiva. Em razão


do julgamento da ADPF nº 132 e da ADI nº 4.277, o embate acerca da isonomia de
tratamento jurídico destinado à união estável restou sufragado pelo Supremo Tribunal
Federal. Essa Corte reconheceu a união estável homoafetiva como entidade familiar,
com o mesmo tratamento dado à união estável tratada na legislação constitucional e
infraconstitucional.

A regra contida no art. 226, § 3º, da CRFB, quando trata da união estável entre
homem-mulher, também deve ter plena aplicação às relações homoafetivas.

Ademais, as mesmas sempre tiveram firme intenção de viver como


companheiras, como é de conhecimento público em declarações na Tribuna, e
postagens da vida em casal nas redes sociais, o que a doutrina denomina de affectio
maritalis, tanto que iriam formalizar a relação marital no ano vindouro.

Nesse passo, seguindo as mesmas disposições atinentes ao casamento, a união


estável homoafetiva em relevo resulta que a autora faria jus a representação post
mortem.

3
Nesse sentido, inclusive, enunciado 275 da IV Jornada de Direito Civil do

CJF:

IV Jornada de Direito Civil - Enunciado 275 - O rol dos


legitimados de que tratam os arts. 12, parágrafo único, e 20,
parágrafo único, do Código Civil também compreende o
companheiro.

DA LEGITIMIDADE PASSIVA:

Justifica-se a legitimidade passiva de Facebook Serviços Online do Brasil Ltda.


para figurar nesta ação, pois é a civilmente responsável pela mídia social e rede social
virtual, operada e de propriedade privada da Facebook Inc.

O presente caso versa sobre vídeos, comentários e publicações em geral


compartilhados na rede social Facebook.com.

DO SEGREDO DE JUSTIÇA:

O art. 189, III, do Código de Processo Civil permite a tramitação de processos em


segredo de justiça, quando constarem dados protegidos pelo direito constitucional à
intimidade. No presente caso, como são apresentadas os prints e links com nome dos
usuários que publicaram e compartilharam conteúdos sabidamente inverídicos e
atentatórios à honra, dignidade e memória de Vereadora Marielle Franco, requer-se a
decretação do segredo de justiça, caso este douto juízo entenda cabível.

DOS FATOS:

4
As autoras são irmã e companheira, respectivamente, de Marielle Francisco da
Silva, conhecida como Marielle Franco, assassinada no último dia 14 de março.

Marielle Franco foi vereadora da cidade do Rio de Janeiro, pelo Partido


Socialismo e Liberdade, eleita com 46.502 votos, sendo a quinta candidata que mais
recebeu votos no pleito eleitoral de 2016.

Socióloga, feminista e militante de direitos humanos, destacou-se na Câmara


Municipal do Rio de Janeiro porque deu visibilidade a luta das mulheres negras, a luta
da favela, a luta LGBT e pautou todas essas questões na tribuna e fora dela.

Após seu assassinato, diante da comoção e perplexidade da população, além de


manifestações de amigos e familiares de Marielle, começaram a surgir nas redes
sociais mentiras a respeito da vereadora, com acusações falsas e criminosas, além de
discursos de ódio sobre sua vida pessoal, história e atuação na política e na defesa de
direitos humanos.

As fake news1, os discursos de ódio2 e a divulgação de conteúdos criminosos e,


obviamente, inverídicos, começaram a surgir a partir de quinta- feira, dia 15/03/2018, e
foram tomando vulto na internet. Então, no sábado, dia 17/03/2018, foram tomadas
medidas para proteção e preservação da honra e da memória de Marielle Franco e sua
família. No mesmo dia foi disponibilizado o e-mail: contato@ejsadvogadas.com.br para

1 Fake news, tradução livre de notícias falsas, da expressão em inglês, é um termo utilizado para retratar a
publicação deliberada de desinformações, mentiras ou boatos, seja em via impressa, na televisão, no rádio,
nas mídias sociais e na internet em geral. Em todos os casos, a intenção é levar o leitor incauto a erro e criar
a roupagem de veracidade sobre fato falso e criminoso.

2 São mensagens que promovem o ódio e incitação à discriminação,à hostilidade e à violência contra uma
pessoa ou grupo em virtude de raça, religião, nacionalidade, orientação sexual, gênero, condição física ou
outra característica. Destacam-se algumas matérias que apuraram o caráter anti democrático e
nocivo dos discursos de ódio, disponível em:
<http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/o-discurso-de-odio/> e
<https://oglobo.globo.com/sociedade/brasil-cultiva-discurso-de-odio-nas-redes-sociais-mostra- pesquisa-
19841017>.

5
receber tais denúncias e este endereço eletrônico foi amplamente divulgado na mídia
em geral3.

Várias pessoas, do Brasil e do mundo, enviaram mensagens se solidarizando


com a família e denunciando vídeos, comentários falsos e maliciosos,
compartilhamentos e publicações em geral, todas criminosas e atentatórias à imagem e
à memória de Marielle Franco. Foram mais de 18 mil e-mails e serviram de base para a
propositura da presente ação. Foi uma mobilização coletiva visando combater as fake
news, o discurso de ódio e a divulgação de conteúdo criminoso.

Ressalta-se a gravidade da divulgação, do compartilhamento e da manutenção


“no ar” destes conteúdos falsos, deliberadamente mentirosos, criminosos e atentatórios
à honra e à dignidade das pessoas que são vítimas da difusão das fake news e dos
discursos de ódio.

Por ora, já foi possível mapear os links em anexo com conteúdos criminosos,
falsos, discursos de ódio e atentatórios à dignidade, honra e memória de Marielle
Francisco da Silva, sem prejuízo de outros que venham a ser indicados. Destaca-se
que após o anúncio de que as autoras ingressariam com a medida judicial cabível para
proteger a honra e a memória de Marielle Franco, diversas publicações do rol dos
denunciados pelos 18 mil e-mails já foram excluídos.

Destacam-se as análises apresentadas na reportagem “Como ganhou corpo a onda


de ‘fake news’ sobre Marielle Franco”4, no jornal O Globo, que estudou o rastro da
campanha de fake news atentatória contra a honra e memória da Vereadora Marielle
Franco. A reportagem apontou que a onda de fake news começou com um tuíte na sexta-
feira (16/03), às 12:28h e, no mesmo dia, às 18:23h, foi publicado no Facebook uma das
3Disponível em: <https://noticias.r7.com/rio-de-janeiro/partido-de-marielle-vai-processar- magistrada-e-
rastrear-noticias-falsas-17032018>; <https://www.revistaforum.com.br/equipe-juridica-que-rastreia-calunias-
contra-marielle-ja-recebeu-mais-de-2-mil-denuncias/>;<https://g1.globo.com/rj/rio-de-
janeiro/noticia/advogadas-fazem-forca-tarefa-contra-posts-falsos-sobre-marielle-na-web.ghtml>. Acesso em
19 de março.

4 Disponível em: <https://oglobo.globo.com/rio/como-ganhou-corpo-onda-de-fake-news-sobre-marielle-


franco-22518202>. Acesso em 23 de março.

6
primeiras matérias que criou o boato da ligação de Marielle Franco com “bandidos”. Veja-
se:

Até a noite desta quinta-feira, o link do Ceticismo Político


havia sido compartilhado mais de 360 mil vezes no
Facebook, ocupando o primeiro lugar entre as
publicações que abordaram o boato da ligação da
vereadora com o crime organizado — seja de maneira
difamatória ou em tentativas de rebater a acusação.

No dia seguinte ao crime, boatos começaram a se espalhar


em grupos de WhatsApp por meio de textos, áudios e memes.
Por volta do meio-dia de sexta-feira, apareceram os primeiros
tweets relacionando Marielle ao traficante Marcinho VP e à
facção Comando Vermelho. Quatro horas mais tarde, o site
Ceticismo Político publicou um texto que teve papel
fundamental na disseminação das falsas acusações. O link foi
divulgado no Facebook, e, pouco depois, o Movimento
Brasil Livre (MBL) replicou a mensagem, ampliando ainda
mais a repercussão.

(Grifos nossos).

Ao Poder Judiciário cabe trazer a pacificação social diante de um caso de


grande repercussão e, até mesmo, um leading case de fake news, dado o volume de
notícias falsas, sua repercussão e a mobilização nacional e internacional para
combater as fake news e o discurso de ódio. Destaca-se a notícia veiculada no jornal O
Globo5:

5Disponível em: <https://oglobo.globo.com/rio/iniciativas-para-combater-informacoes-falsas- contra-marielle-


mobilizam-web-22506243>. Acesso em 20 de março.

7
O movimento coletivo de reação às informações falsas
espalhadas pelas redes sociais e por aplicativos contra a
vereadora Marielle Franco, assassinada a tiros na última
quarta-feira, não tem precedentes na internet brasileira,
afirmaram especialistas ouvidos ontem pelo GLOBO. O
fenômeno desencadeou ainda uma série de iniciativas que
visam também a exigir punição jurídica contra os
responsáveis pelas fake news. Concentrada num escritório
de advocacia carioca, uma força-tarefa criada para reunir
provas contra pessoas ou grupos que espalharam as
calúnias já contabilizou 16 mil e-mails com denúncias.
(...)
- Analiso a opinião pública digital há 11 anos, e nunca vi
uma reação tão forte em defesa de alguém. É a mais
estruturada contra uma notícia falsa e difamação que já
vimos - afirmou Manoel Fernandes, diretor da Bites,
consultoria que faz análise de dados transmitidos na
internet. - E acho que aí tem um aprendizado muito
importante para a sociedade: é possível reagir.
(Grifos nossos).

O que ora se requer ao Poder Judiciário, um dos pilares do Estado Democrático


de Direito, é justamente esta reação, que é possível, na opinião de Manoel Fernandes;
para que o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro seja um paradigma na
mudança de consciência da coletividade e um marco para a responsabilização de
conteúdos postados na internet.

Os mais 18 mil e-mails recebidos com denúncias de notícias falsas e criminosas


e o discurso de ódio contra Marielle Franco representam um clamor popular para que o
Poder Judiciário se posicione de maneira combativa contra atos criminosos e
atentatórios à honra e à dignidade das pessoas, de difícil punição, porém, não
impossível. Esta enorme quantidade de mensagens eletrônicas demonstra o quanto a

8
população está atenta e se opõe à divulgação de notícias falsas e discursos de ódio, já
que qualquer um pode ser vítima.

O caso de Marielle Franco deu maior visibilidade a um ranço que deve ser
combatido. A internet não é e não pode ser tratada como “terra sem lei”, tanto que os
debates acerca de suas limitações e ponderações de interesses originou o Marco Civil
da Internet, Lei Federal nº 12.965, de 23 de abril de 2014. Muitos paradigmas ainda
precisam ser regulados e a visibilidade que o presente caso teve na mídia mostrou o
quão danosa essa agressão invisível pode ser.

Com o passar dos dias, surgem novas análises do maior caso de repercussão
de fake news. Na matéria do jornal O Globo “Como ganhou corpo a onda de ‘fake
news’ sobre Marielle Franco”6, Fábio Malini, pesquisador entrevistado, afirma que

A atuação de perfis falsos ajuda a impulsionar o debate nas


redes, mas, segundo Malini, os boatos e mentiras ganham
força por quem “cai no trote” e não checa a informação:
— Há usuários robotizados, os fakes ou os bots humanos, que
publicam conteúdos em diferentes perfis. Mas, em geral, a
força do boato vem de pessoas que caem no trote e carregam
efeito de verdade. Acontece muito em casos de incerteza: não
se sabe quem matou, não se sabe quem morreu, então o tema
é potencializado.

Estes fatos abriram um flanco para que o Poder Judiciário seja o pioneiro na
garantia de direitos fundamentais das pessoas que têm sua dignidade humana afrontada e,
como no caso em tela, das pessoas já falecidas que têm sua memória e honra igualmente
afrontadas, já que existe tutela jurídica dos direitos da personalidade da pessoa morta. E
as autoras, na qualidade de irmã e ex-companheira, são legitimadas para requerer essa
tutela jurídica.

6 Disponível em : <https://oglobo.globo.com/rio/como-ganhou-corpo-onda-de-fake-news-sobre-marielle-
franco-22518202>. Acesso em 23 de março.

9
DOS FUNDAMENTOS:

Da ilicitude dos conteúdos das publicações feitas no Facebook:

Já se tornou fato público e notório que diversas pessoas publicaram conteúdos


falsos, maliciosos e criminosos, devido a ampla e maciça divulgação nas redes sociais,
jornais de grande circulação, programas televisivos e telejornais. Pessoas do Brasil e
de outros países, em solidariedade à família e à honra e memória da Vereadora
Marielle Franco, enviaram mais de 18 mil e-mails para este escritório, noticiando a
prática que ora se combate.

Os conteúdos publicados no Facebook ora indicados nesta exordial, mas que


não se limitam aos até então apurados, contêm fake news, discursos de ódio e prática
de calúnia contra pessoa morta. Os fatos que a rede social Facebook têm abrigado são
relacionados à: “Marielle era ex de Marcinho VP”; “Marielle foi eleita pelo comando
vermelho”; “Marielle era usuária de maconha”; “Marielle engravidou aos 16 anos”;
“Marielle defendia bandido”; “Marielle mereceu morrer”; “Marielle era criminosa”; entre
outros. Todos esses conteúdos ilícitos foram desmentidos no sítio eletrônico
<https://www.mariellefranco.com.br/averdade> e já foram encaminhados para a
Delegacia de Repressão a Crimes de Informática investigar as responsabilidades
individuais.

O Código Civil tutela os direitos da personalidade de pessoa morta no art. 12 e


no seu parágrafo único. Igualmente, tutela quem viola o direito da personalidade quem
comete ato ilícito, regulados nos artigos 186 e 187. E, ainda, tutela a responsabilidade
civil, com a obrigação de reparar, daqueles que cometerem tais atos ilícitos, no art. 927
do referido Código.

Já o Código Penal prevê que caluniar alguém, imputando-lhe falsamente fato


definido como crime, sujeita o infrator a detenção, de seis meses a dois anos, e multa;
sendo punível a calúnia contra os mortos, nos termos do art. 138, § 2º.

10
Os links com publicações acima mencionados têm conteúdo ilícito, pois atentam
contra a dignidade e honra da Vereadora Marielle Franco, porque foram publicados e
compartilhados contendo crime contra a honra e violação ao direito da personalidade
de pessoa morta, causado grande dano e transtorno às autoras e toda da sua família.

Neste sentido, a título de exemplificação, na decisão proferida no processo nº


0066013-46.2018.8.19.0001, da ação de mesma autoria, por fake news, discurso de
ódio é conteúdos criminosos, ajuizada em face do YouTube, a Juíza Márcia Correia
Hollanda entendeu, à fl. 39, que:

E, ao analisar os vídeos indicados, verifico que alguns


deles, realmente, extrapolaram o que a Constituição fixou
como limite ao direito de livremente se manifestar. Tais
vídeos e áudios fizeram referência direta à Marielle,
apontando-a como vinculada a facções criminosas e
tráfico ou imputações maliciosas sobre as suas
bandeiras políticas, como o aborto, fatos que podem
caracterizar violação à honra e à imagem da falecida e
que certamente causam desconforto e angústia a seus
familiares. Note-se que nenhum dos divulgadores
apresentou prova concreta sobre o declarado. Ao contrário,
foram meras suposições e opiniões, sem lastro probatório
identificado e que se continuarem a ser propagadas
poderão atingir de forma irrecuperável a dignidade da
falecida Marielle, com repercussões danosas a seus
familiares.

Da limitação à liberdade de expressão nos casos de discursos de ódio –


ponderação de valores e princípios.

11
É importante mencionar que os discursos divulgados nas publicações realizada
por usuários do Facebook, que ora se atacam, são incompatíveis com o respeito à
dignidade da pessoa humana de Marielle Franco, e não estão protegidos pela liberdade
de expressão, pois extrapola os limites deste direito fundamental, caracterizando-se
como caluniosos e como um discurso de ódio, por verdadeira afronta à dignidade da
pessoa humana, prevista no art. 1º, III, da Constituição da República. Este
entendimento foi sustentado pelo Supremo Tribunal Federal na ADI 4274:

O repúdio ao “hate speech” traduz, na realidade, decorrência


de nosso sistema constitucional, que reflete, nesse ponto, a
repulsa ao ódio étnico estabelecida no próprio Pacto de São
José da Costa Rica. (...) Evidente, desse modo, que a
liberdade de expressão não assume caráter absoluto em
nosso sistema jurídico, consideradas, sob tal perspectiva, as
cláusulas inscritas tanto em nossa própria Constituição
quanto na Convenção Americana de Direitos Humanos. (...)
Há limites que, fundados na própria Constituição, conformam
o exercício do direito à livre manifestação do pensamento,
eis que a nossa Carta Política, ao contemplar determinados
valores, quis protegê-los de modo amplo, em ordem a
impedir, por exemplo, discriminações atentatórias aos
direitos e liberdades fundamentais (CF, art. 5º, XLI), a prática
do racismo (CF, art. 5º, XLII) e a ação de grupos armados
(civis ou militares) contra a ordem constitucional e o Estado
Democrático (CF, art. 5º, XLIV).

A doutrina de Cristiano Chaves Faria e Nelson Rosenvald, no mesmo


entendimento, leciona que o chamado hate speech não pode estar sob o manto da
proteção constitucional:

Toda essa coerência de raciocínio também é aplicável à


liberdade de expressão, permitindo antever a existência de

12
limites ao seu exercício. Com isso, o chamado hate speech
(consistente nas manifestações de pensamento ilimitadas,
contendo declarações de ódio, desprezo ou intolerância,
normalmente atreladas à etnia, religião, gênero ou
orientação sexual) não é permitido pelo sistema jurídico
brasileiro. Até porque a Constituição não vedou, tão só, ao
poder público a prática de atos discriminatórios, impondo,
por igual, a todo e qualquer cidadão ou pessoa jurídica tal
conduta. Por isso, impor limites à liberdade de expressão é
manter acesa a luz contra o preconceito e a intolerância –
que atingem, em especial, às minorias sociais, étnicas e
econômicas. (Curso de Direito Civil. Volume 1. Parte Geral e
LINDB. 12º edição. 2014. Salvador. Pág. 181 e 182).

Em igual sentido a doutrina estrangeira salienta que utilizar como subterfúgio


o caráter absoluto da liberdade de expressão para acobertar discursos de ódio se revela
em uma irresponsabilidade, uma subversão completa dos valores constitucionais, ferindo
gravemente a dignidade da pessoa humana das vítimas7.

É notório que esses perfis, para conseguirem audiência, público, mais


seguidores e compartilhamentos, sublevam o sacro direito à liberdade de expressão e,
travestidos do princípio que garante o direito à informação, lançam verdadeiras
perseguições e campanhas difamatórias contra as mais variadas pessoas, anônimas
ou públicas, do universo político e artístico, que no presente caso foi a Vereadora
Marielle Franco.

7 Essa também é a conclusão de DANIEL SOLOVE. Para o autor, a Seção 230 do Communications Decency
Act deveria ser reformada: “Além de falhar na proteção adequada da privacidade, a lei superprotege a
liberdade de expressão. Particularmente, o CDA § 230 promove uma cultura de irresponsabilidade quando se
trata da liberdade de expressão online.”SOLOVE, Daniel. Speech, privacy and reputation on the Internet. in
LEVMORE, Saul; NUSSBAUM, Martha. The offensive Internet. Cambridge: Harvard University Press, 2010. p.
23. Tradução livre. Apud LONGHI, João Victor Rozatti. Marco civil da Internet no Brasil: breves
considerações sobre seus fundamentos, princípios e análise crítica do regime de responsabilidade civil dos
provedores.. In: MARTINS, Guilherme Magalhães. (Org.). DIREITO PRIVADO E INTERNET: Atualizado pela
Lei no 12.965/2014 (Marco Civil da Internet no Brasil). 1ed.: , 2014, v. , p. 109 e ss.

13
A conduta dos selecionados perfis se torna mais lesiva, pois as notícias
inventadas e distorcidas, divulgadas no Facebook, estimulam o compartilhamento
massivo de informações falsas para todo o sempre, a respeito da pessoa
indevidamente retratada e que, muitas vezes, é de difícil reparação. Ademais não se
pode deixar de salientar que a empresa ré possui grande lucratividade com esses
perfis que possuem diversos seguidores e compartilhamentos.

É necessário dar um basta nisso. A internet não pode ser uma “terra sem lei”,
onde as pessoas “acham” que podem fazer o que bem entender e não serão punidas.

E é necessária uma punição pedagógica, para educar a sociedade e dar limites


nas suas ações, para se evitar danos às vítimas e aos seus familiares. É necessário
dar um basta à impunidade digital.

Repita-se, não se pode legitimar o exercício de um direito constitucional, o da


liberdade de expressão, à medida que manifestamente afronta a outro direito de igual
natureza, o da dignidade da pessoa humana, salientando-se que, ainda que fossem de
hierarquias distintas, tal violação não se justificaria.

Como visto, no choque entre dois princípios constitucionalmente previstos, deve-se


analisar e interpretar o caso concreto a fim de harmonizar o sistema jurídico, adotando-se
como solução a aplicação da razoabilidade e proporcionalidade, com a inafastável
ponderação de valores.

Salienta ainda a lei conhecida como o “Marco civil da internet” (Lei nº


12.965/2015), cujos artigos 2º e 22 disciplinam o uso da internet no Brasil e têm como
fundamento a liberdade de expressão, mas respeitando os direitos humanos e da
personalidade dos cidadãos. E se houver violação a direitos, a parte interessada
poderá, com o propósito de formar conjunto probatório em processo judicial cível ou
penal, em caráter incidental ou autônomo, requerer ao juiz que ordene ao responsável
pela guarda o fornecimento de registros de conexão ou de registros de acesso a
aplicações de internet, bem como a sua exclusão.

14
As publicações veiculados no Facebook, no conjunto, configuram crime contra a
honra de Marielle Franco, conforme destacado acima, pelas ofensas ali perpetradas,
por terem cunho que maculam a sua figura como pessoa, sendo o seu direito
resguardado no art. 5º, incisos V e X da CRFB8, devendo os agentes ser
responsabilizados pelos seus atos, criminal e civilmente. Destaca-se que a notícia de
crime já foi apresentada na Delegacia de Repressão a Crimes de Informática, conforme
noticiado em mídias de grande circulação9.

Assim, no caso concreto, como a liberdade de expressão não é garantia


constitucional absoluta, deve prevalecer o princípio da dignidade da pessoa humana,
devido às manifestações apresentadas possuir conteúdo imoral, ilícito, ilegal e discurso
de ódio, requerendo a sua exclusão no prazo máximo de 24 horas das publicações
destacadas na presente exordial, sob pena de ser responsável civilmente conforme os
termos do art. 19 da Lei nº 12.965/201510.

8 Constituição da República - Fundamento da República. art. 1º, III - a dignidade da pessoa humana; e art.
5º, V - é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material,
moral ou à imagem; X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas,
assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação.

9 Disponível em: <https://epocanegocios.globo.com/Brasil/noticia/2018/03/epoca-negocios-policia-investiga-


responsaveis-por-textos-falsos-sobre-marielle.html>; <https://istoe.com.br/policia-investiga-responsaveis-por-
textos-falsos-sobre-marielle/>; <http://www.jb.com.br/rio/noticias/2018/03/24/policia-investiga-responsaveis-
por-textos-falsos-sobre-marielle/>. Acesso em 25 de março.

10 Art. 19. Com o intuito de assegurar a liberdade de expressão e impedir a censura, o provedor de
aplicações de internet somente poderá ser responsabilizado civilmente por danos decorrentes de conteúdo
gerado por terceiros se, após ordem judicial específica, não tomar as providências para, no âmbito e nos
limites técnicos do seu serviço e dentro do prazo assinalado, tornar indisponível o conteúdo apontado como
infringente, ressalvadas as disposições legais em contrário.
§ 1o A ordem judicial de que trata o caput deverá conter, sob pena de nulidade, identificação clara e
específica do conteúdo apontado como infringente, que permita a localização inequívoca do material.
§ 2o A aplicação do disposto neste artigo para infrações a direitos de autor ou a direitos conexos depende
de previsão legal específica, que deverá respeitar a liberdade de expressão e demais garantias previstas
no art. 5oda Constituição Federal.
§ 3o As causas que versem sobre ressarcimento por danos decorrentes de conteúdos disponibilizados na
internet relacionados à honra, à reputação ou a direitos de personalidade, bem como sobre a
indisponibilização desses conteúdos por provedores de aplicações de internet, poderão ser apresentadas
perante os juizados especiais.
§ 4o O juiz, inclusive no procedimento previsto no § 3o, poderá antecipar, total ou parcialmente, os efeitos
da tutela pretendida no pedido inicial, existindo prova inequívoca do fato e considerado o interesse da
coletividade na disponibilização do conteúdo na internet, desde que presentes os requisitos de
verossimilhança da alegação do autor e de fundado receio de dano irreparável ou de difícil reparação.

15
Do marco civil da internet e dos tratados internacionais que o Brasil é signatário.

O § 3º, do art. 5º da Constituição da República assegura que “Os tratados e


convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados, em cada Casa do
Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros,
serão equivalentes às emendas constitucionais”. Neste sentido, os tratados internacionais
de direitos humanos abaixo citados foram recepcionados e têm natureza de emenda
constitucional.

O marco civil da internet estabeleceu fundamentos e princípios que disciplinam o


uso da internet no Brasil, dentre os quais se destacam os direitos humanos, o
desenvolvimento da personalidade e o exercício da cidadania em meios digitais (art. 2º, II)
e a proteção da privacidade (art. 3º, II). No sentido de garantir eficácia a estes
fundamentos e princípios, o parágrafo único do art. 3º prevê que “Os princípios expressos
nesta Lei não excluem outros previstos no ordenamento jurídico pátrio relacionados à
matéria ou nos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte”.

Pois bem. O direito à privacidade é tratado com ampla proteção no âmbito


internacional e está previsto em diversas Convenções Internacionais e outras fontes
internacionais, já alcançando, atualmente, larga abrangência na sociedade internacional.

Neste sentido, a título de exemplificação, o Brasil é signatário da Declaração


Universal de Direitos Humanos de 194811 e consagra, no o artigo 12, a proteção ao direito
à privacidade, impedindo qualquer tipo de interferência na vida privada dos indivíduos, de
tal forma que “Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada, na sua família,
no seu domicílio ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação.
Contra tais intromissões ou ataques toda a pessoa tem direito a proteção da lei.”

11 A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), foi adotada pela Organização das Nações Unidas
em 10 de dezembro de 1948.

16
A proteção ao direito à privacidade dos indivíduos também foi garantida na
Convenção Americana de Direitos Humanos de 1969. O artigo 11, item 2 e 312, explicitou a
proibição de ofensas ilegais à honra e reputação dos indivíduos, garantia que é igualmente
mencionada no Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos.

Ademais, o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos de 196613 também


dispõe, em seu artigo 17(1), quanto à proibição de qualquer tipo de intromissão arbitrária
ou ilegal na vida privada, afirmando que devem existir proteções legais contra esse tipo de
ação: “1. Ninguém poderá ser objetivo de ingerências arbitrárias ou ilegais em sua vida
privada, em sua família, em seu domicílio ou em sua correspondência, nem de ofensas
ilegais às suas honra e reputação; 2. Toda pessoa terá direito à proteção da lei contra
essas ingerências ou ofensas”.

Desta forma, o Brasil e todos os países signatários dos tratados internacionais


acima mencionados devem respeitar as garantias fundamentais de proteção da
privacidade contra ataques à honra e a reputação citadas.

Da responsabilidade da empresa Facebook.

12 DECRETO No 678, DE 6 DE NOVEMBRO DE 1992. Promulga a Convenção Americana sobre Direitos


Humanos (Pacto de São José da Costa Rica), de 22 de novembro de 1969.Artigo 11 - Proteção da honra e da
dignidade. 1. (...). 2. Ninguém pode ser objeto de ingerências arbitrárias ou abusivas em sua vida privada, na
de sua família, em seu domicílio ou em sua correspondência, nem de ofensas ilegais à sua honra ou
reputação. 3.Toda pessoa tem direito à proteção da lei contra tais ingerências ou tais ofensas.”

13 DECRETO No 592, DE 6 DE JULHO DE 1992. Promulgou os Atos Internacionais. Pacto Internacional


sobre Direitos Civis e Políticos.

17
Facebook é a maior rede social em todo o mundo, com 1,4 bilhão de usuários ativos
diários, em média, para dezembro de 2017 e com 2,13 bilhões de usuários ativos mensais
em 31 de dezembro de 2017, segundo informações da própria empresa14.

Ao criar uma conta no Facebook, a pessoa precisa inserir os seguintes dados:


nome, sobrenome, celular ou e-mail, criar uma senha, indicar a data de nascimento e
selecionar a opção “feminino” ou “masculino”. E ao clicar em “criar conta”, o usuário
necessariamente concorda com os Termos e com a Política de Dados, incluindo nosso
uso de Cookies15. Dentre os Termos de uso da rede social, está a vedação ao usuário
falso, ou perfil fake.

Destaca-se que o Facebook é um website gratuito para os usuários, pois a


receita é gerada a partir de publicidade, direcionada para os usuários, a partir da
análise de seu perfil, e de patrocínio em publicações, ou posts.

Ao ter uma conta no Facebook, a pessoa poderá: compartilhar fotos e listas de


interesses pessoais, trocar mensagens privadas e públicas entre si e entre
participantes de grupos de amigos.

Portanto, Facebook tem acesso aos dados pessoais das contas de pessoas que
têm perfil ou página pública e publicaram comentários, vídeos ou compartilharam
discurso de ódio, fake news e conteúdos contra a honra de Marielle Franco. Desta
forma, é lícito requerer, por meio de ordem judicial, que a empresa seja obrigada a
fornecer os registros de conexão ou os registros de acesso a aplicações de internet,
para que as autoras formem um conjunto probatório para futuro processo judicial cível e
penal, que ajuizará em face dos responsáveis pela publicação dos vídeos e conteúdos
falsos e ilícitos, como autoriza o art. 22, da Lei nº 12.965/2014.

14 Disponível em: <https://newsroom.fb.com/company-info/>. Acesso em: 25 de março.

15 Os cookies são usados para armazenar e receber identificadores e outras informações em computadores,
telefones e outros dispositivos. Os cookies ajudam o Facebook a prestar, proteger e aprimorar seus Serviços,
seja personalizando conteúdo e anúncios, medindo anúncios ou viabilizando uma experiência mais segura.

18
É responsabilidade da parte ré em retirar do ar, no prazo de 24 horas, todas as
publicações que ora se notifica, sob pena de configuração do direito à reparação,
previsto no art. 19, da Lei nº 12.965/2014.

Destaca-se, ainda, a viabilidade técnica da análise de dados de perfis e páginas


públicas que o Facebook é capaz de fazer. Ilustra-se, para justificar quais dados o
Facebook tem disponível de pronto, que no botão “Informações”, de uma página
pública no Facebook, é possível saber: (1) Ações na página; (2) Visualizações da
página; (3) Prévias da página; (4) Curtidas na página; (5) Alcance; (6) Recomendações;
(7) Envolvimento com a publicação; (8) Vídeos; (9) Seguidores da página; (10)
Pedidos; e (11) Publicações impulsionadas/patrocinadas. Observa-se que, quanto mais
seguidores, maior é a análise de dados das páginas públicas.

Cabe mencionar que, recentemente, com a divulgação do caso Cambridge


Analytica, tornou-se pública a análise de dados de perfis de usuários (que não páginas
públicas) para direcionar anúncios e, até mesmo, análise de dados para finalidades
eleitorais. A empresa analisou dados de mais de 50 milhões de usuários. Este fato traz
à tona a viabilidade que a empresa tem de acesso aos perfis dos usuários.

Com esses dados leva-nos ao entendimento de que a empresa, hoje, é um dos


meios de formação de opinião em massa. Detendo informações privilegiadas dos seus
usuários, direciona-se mensagens e conteúdos próprios e adequados para cada perfil.

Desta forma, sobre a viabilidade técnica do Facebook, ressalta-se: (1) assim


como o YouTube, o Facebook bloqueia os vídeos protegidos por direitos autorais e
aqueles com cena e/ou foto de nudez; quando o usuário deleta sua conta e retorna ao
Facebook, os dados do perfil anterior são recuperados, o que significa que o Facebook
mantém um banco de dados em seus servidores; igualmente, mantém um banco de
dados sobre os usuários que impulsionaram os conteúdos publicados ou, até mesmo,
seus perfis pessoais.

19
Assim, existe viabilidade técnica a ensejar a ordem judicial para que a parte ré
se abstenha de publicar e compartilhar conteúdos criminosos e que violam o direito a
personalidade de Marielle Franco, impulsionar conteúdos sabidamente inverídicos e
pode deletar os perfis identificados como falsos. A título de argumentação, o marco civil
da internet, Lei nº 12.965/2014, já prevê no seu art. 21 que:

Art. 21. O provedor de aplicações de internet que


disponibilize conteúdo gerado por terceiros será
responsabilizado subsidiariamente pela violação da
intimidade decorrente da divulgação, sem autorização de
seus participantes, de imagens, de vídeos ou de outros
materiais contendo cenas de nudez ou de atos sexuais de
caráter privado quando, após o recebimento de notificação
pelo participante ou seu representante legal, deixar de
promover, de forma diligente, no âmbito e nos limites
técnicos do seu serviço, a indisponibilização desse
conteúdo.

Na prática, o Facebook pode criar filtros com as imagens abaixo, para bloquear
novas postagens e retirar do ar as já existentes. Portanto, ao Facebook pode ser
ordenado para que não permita a publicação ou a republicação e o compartilhamento
de conteúdos criminosos, sabidamente inverídicos e atentatórios à honra e dignidade
da Vereadora Marielle Franco, sem a necessidade de prévia notificação, como se
visualiza abaixo, sem prejuízo de outros que venham a ser indicados (Prints de
compartilhamentos - DOC. 1):

20
21
22
23
24
Ademais, dentre os perfis indicados no documento anexo a esta exordial, requer-
se que o Facebook certifique quais perfis são verdadeiros e que garanta que os falsos
sejam excluídos de sua plataforma.

25
Sem prejuízo da análise dos perfis pessoais do documento anexo, observa-se as
seguintes páginas públicas que compartilharam estes posts, acima mencionados,
repercutindo, com maior visibilidade devido ao número de seguidores, o conteúdo
criminoso, sabidamente inverídico e atentatório à honra, dignidade e memória da
Vereadora Marielle Franco. São as seguintes páginas públicas e algumas de suas
publicações, sem prejuízo de outras que venham a ser indicadas (Prints - DOC. 2):

Operacionais - https://www.facebook.com/Operacionais/posts/1794057390633432

Direita Já - Bolsonaro 2018 -


https://m.facebook.com/direitajabolsonaro2018/
https://m.facebook.com/story.php?
story_fbid=421459998292888&id=294910287614527

Endireitando a Verdade - https://www.facebook.com/EndireitandoVerdade


https://www.facebook.com/EndireitandoVerdade/posts/805395049655150

Olavo de Carvalho
https://www.facebook.com/noticiasepoliticas/
https://www.facebook.com/noticiasepoliticas/photos/a.440726992695817.10737418
30.160506607384525/1336639159771258/?type=3&theater

Contraponto - https://www.facebook.com/Contraponto-1581486635444108/
https://www.facebook.com/permalink.php?
story_fbid=2218941628365269&id=1581486635444108&pnref=story

“Bolsonaro Opressor 2.0” - https://www.facebook.com/bolsonaropressor2.0/


https://www.facebook.com/bolsonaropressor2.0/videos/vb.1259165470771371/177
6309182390328/?type=2&theater

Anti-PT - https://www.facebook.com/PartidoAntiPT/
https://www.facebook.com/PartidoAntiPT/photos/a.1657750364446220.107374183
1.1646635912224332/2046027292285190/?type=3&theater

“Movimento Curitiba Contra Corrupção” -


https://www.facebook.com/movimentocuritbacontracorrupcao/

26
https://www.facebook.com/movimentocuritbacontracorrupcao/photos/a.4314404470
44582.1073741830.414795185375775/769346813253942/?type=3&theater

De outro norte, entende-se que o Facebook já deveria ter feito esse filtro e
retirado todas as publicações caluniosos e de incitação ao ódio de MARIELLE
FRANCO desde que tomou conhecimento, a partir do dia 17/03/2018, tendo em vista a
ampla e maciça divulgação nas redes sociais, jornais de grande circulação, programas
televisivos e telejornais. O tema foi maciçamente debatido e amplamente divulgado.
Tanto que após as análises apresentadas na reportagem “Como ganhou corpo a onda
de ‘fake news’ sobre Marielle Franco”16, no jornal O Globo, que estudou o rastro da
campanha de fake news atentatória contra a honra e memória da Vereadora Marielle
Franco apontou que

(...) um site de opinião política ampliou de forma decisiva a


repetição de falsas acusações contra a vereadora do PSOL.
Dados colhidos pelo Laboratório de Estudos sobre Imagem e
Cibercultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo
(Ufes) e uma investigação feita pelo GLOBO traçaram o
caminho das fake news de maior repercussão sobre o
assunto. Até a noite desta quinta-feira, o link do Ceticismo
Político havia sido compartilhado mais de 360 mil vezes
no Facebook, ocupando o primeiro lugar entre as
publicações que abordaram o boato da ligação da
vereadora com o crime organizado — seja de maneira
difamatória ou em tentativas de rebater a acusação.

No dia seguinte ao crime, boatos começaram a se espalhar


em grupos de WhatsApp por meio de textos, áudios e memes.
Por volta do meio-dia de sexta-feira, apareceram os primeiros

16 Disponível em : <https://oglobo.globo.com/rio/como-ganhou-corpo-onda-de-fake-news-sobre-marielle-
franco-22518202>. Acesso em 23 de março.

27
tweets relacionando Marielle ao traficante Marcinho VP e à
facção Comando Vermelho. Quatro horas mais tarde, o site
Ceticismo Político publicou um texto que teve papel
fundamental na disseminação das falsas acusações. O link foi
divulgado no Facebook, e, pouco depois, o Movimento
Brasil Livre (MBL) replicou a mensagem, ampliando ainda
mais a repercussão.

(Grifos nossos).

Seguem abaixo as imagem que o Jornal O Globo apresentou na mencionada


reportagem:

O referido site e a publicação no Facebook são oriundos dos seguintes


links:<https://www.ceticismopolitico.org/desembargadora-quebra-narrativa-do-psol-e-
diz-que-marielle-se-envolvia-com-bandidos-e-e-cadaver-comum/> e
<https://www.facebook.com/ceticismopolitico/posts/1722780341115767>, e do MBL que
foi publicado no Facebook, no dia 16 de março, às 22:24 horas, estes dois útlimos com
os conteúdos apagados. Portanto, desde já é possível requerer que o Facebook

28
informe os IPs e usuários responsáveis pela criação da página e pela publicação dos
referidos conteúdos e, ainda, se as publicações atentatórias à honra de Marielle Franco
foram patrocinadas e/ou impulsionadas e por quem.

Entretanto, somente após uma semana de divulgação exaustiva na imprensa


sobre os fatos tratados nesta ação, e após a divulgação da repercussão que a
publicação que originou uma das maiores ondas de fake news do mundo, no dia 24 de
março o Facebook apagou as postagens17 com os mencionados conteúdos do
Ceticismo Político e dois perfis identificados como falsos: Luciano Ayan e Luciano
Henrique Ayan.

A empresa foi conveniente com o ilícito há 10 (dez) dias, permitindo que se


propagasse mentiras e discursos de ódio contra Marielle Franco. Ora, foram dez dias
de angústia, de sofrimento da família, de dor ao ver mentiras serem proliferadas nas
redes sociais rapidamente.

No mesmo dia 24, foi publicado o texto de Luciano Ayan, pseudônimo de Carlos
Augusto de Moraes Afonso, e este mesmo assumiu em publicação no link:
<https://www.ceticismopolitico.org/carta-aberta-de-luciano-ayan-aos-leitores/>18, cuja
Carta Aberta (DOC ANEXO), que

O perfil Luciano Henrique Ayan é meu pseudônimo. Me chamo


Carlos Afonso e atuo na área de tecnologia. Mas nas horas
vagas decidi, há mais de 13 anos, estudar métodos
relacionados à dinâmica política. Inicialmente, realizava
refutações básicas de discursos, mas a partir de 2011 comecei
17 Disponível em: <http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2018/03/24/facebook-tira-do-ar-pagina-que-
bombou-noticia-falsa-sobre-marielle-franco/>; <https://oglobo.globo.com/rio/facebook-tira-do-ar-pagina-perfis-
associados-onda-de-fake-news-contra-marielle-22523575>; <https://veja.abril.com.br/brasil/facebook-retira-
do-ar-pagina-ligada-a-fake-news-contra-marielle/>. Acesso em 25 de março.

18 Acesso em 25 de março.

29
a desenvolver um método para a guerra política. Sinto dizer
aos meus oponentes: o método funciona que é uma beleza.

Ocorre que mesmo após a maciça divulgação dos conteúdos falsos, criminosos
e atentatórios à honra e memória de Marielle Franco, a empresa omitiu-se e continua
inerte, trazendo grande mal e transtornos para as autoras e todos da família de Marielle
Franco, necessitando recorrer ao judiciário, para que vejam todas as publicações
sabidamente inverídicas deletadas, já que não estão protegidas pela liberdade de
expressão, por serem atentatórias à dignidade da pessoa humana, fundamento da
República Brasileira.

O art. 21 da lei 12.965/2014 não pode ser interpretado de forma literal ou


gramatical. A responsabilidade objetiva da empresa ré não pode ser aplicada apenas
para os casos exposto do comentado artigo, de cunho sexual e direito autoral, a
interpretação deve ser extensiva, axiológica.

O que se tem discutido na presente exordial é a vinculação de publicações e


compartilhamentos com imputação de crime e com incitação ao ódio, deixar vincular
publicação com conteúdos que fazem ligação de Marielle Franco ao Comando
Vermelho, por exemplo, é tão grave ou até mais do que vincular vídeos de cunho
sexuais ou nudes. Isso porque os conteúdos publicados no Facebook que proferem
mentiras caluniosas ou incitação ao ódio abalam não apenas a imagem retrato da
vítima, mas a imagem atributo.

Destaca-se que é possível requerer que Facebook filtre as imagens indicadas


nesta exordial, porque constatadamente inverídicas, para bloquear novas postagens e
retirar do ar as já existentes sem necessidade de prévia notificação.

Ademais, levantamos a discussão do que se pode gerar ao vincular e espalhar


esse tipo de notícias nas redes sociais para terceiros, tendo em vista que em apenas
duas publicações no Facebook (Luciano Ayan/Ceticismo Político e MBL) apontados

30
pelo jornal O Globo19, houveram 361.005 compartilhamentos na mesma rede social
apenas em 5 dias. A título de ilustração, dependendo da notícia veiculada, pode-se
levar o assassinato de pessoas inocentes como foi o caso do linchamento da dona de
casa Fabiane Maria de Jesus, que morreu no dia 05/05/2014, após ter sido espancada
por dezenas de moradores de Guarujá/SP, devido um boato gerado por uma página em
uma rede social que afirmava que a dona de casa sequestrava crianças para utilizá-las
em rituais de magia negra20.

É necessário por um fim nisso. Não se pode fechar os olhos para esse tipo de
impunidade.

Desta forma, as autoras não autorizam que o Facebook publique e compartilhe


conteúdos que violam a dignidade da pessoa humana de Marielle Francisco da Silva,
conhecida como a Vereadora Marielle Franco e, desde já notificam a empresa para que
não o faça, sob pena de responsabilidade subsidiária, já que, acima do direito à
intimidade (conferindo interpretação extensiva ao art. 21 da Lei nº 12.965/2014), está a
dignidade da pessoa humana, fundamento do Estado Democrático de Direito, previsto no
art. 1º, III, da Constituição da República.

Neste sentido, cabe destacar a decisão liminar concedida parcialmente no


processo nº 0066013-46.2018.8.19.0001, em tramitação na 47ª Vara Cível, da mesma
autoria desta exordial, em face do google, requerendo a retirada do ar dos vídeos
atentatórios à honra e memória de Marielle Franco, hospedados no YouTube, nos
seguintes termos:

Assim, com base no que acima se expôs, DEFIRO


PARCIALMENTE O PEDIDO DE TUTELA DE URGÊNCIA
para determinar ao réu que promova, no prazo de 72

19 Na já mencionada matéria “Como ganhou corpo a onda de ‘fake news’ sobre Marielle Franco”, dicponível
em: <https://oglobo.globo.com/rio/como-ganhou-corpo-onda-de-fake-news-sobre-marielle-franco-22518202>.

20 Disponível em: <http://g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia/2014/05/mulher-espancada-apos-boatos-em-


rede-social-morre-em-guaruja-sp.html>. Acesso em 21 de março.

31
horas, a retirada do conteúdo abaixo relacionado,
publicado em sua plataforma YOUTUBE, sob pena de
multa diária de R$ 1.000,00 (um mil reais), sem prejuízo da
responsabilização pelos danos advindos da manutenção
indevida dos links, em descumprimento a esta decisão. Com
relação a novas postagens exclusivas da plataforma
YOUTUBE e que possam vir a ser identificadas como
ofensivas à honra e à memória de MARIELLE, deverá o réu
promover sua retirada no prazo de 48 horas da sua
notificação, que poderá se dar através de intimação nestes
autos ou por comunicação formal dos patronos das autoras,
com a devida discriminação do link, sem prejuízo da
vigilância que deve exercer sobre o conteúdo que expõe
em suas plataformas de atuação.

A título de argumentação, em que pese o acórdão proferido no REsp 1641155, do


Superior Tribunal de Justiça, que vetou controle prévio de conteúdo do Facebook, em caso
similar de conteúdo de natureza difamatória, conforme o informado no sítio eletrônico do
STJ21 de que

No STJ, o Facebook alegou, entre outras questões, que não


está sujeito à responsabilidade objetiva e que seria impossível
monitorar ou moderar o conteúdo publicado em sua plataforma,
em razão da grande quantidade de novos dados inseridos a
cada segundo pelos usuários. Sustentou ainda que precisa ser
alertado previamente de que houve alguma ofensa, injúria ou
difamação para, em seguida, providenciar a remoção.

21 Disponível em: <http://www.stj.jus.br/sites/STJ/default/pt_BR/Comunica%C3%A7%C3%A3o/noticias/Not


%C3%ADcias/Terceira-Turma-veta-controle-pr%C3%A9vio-de-conte%C3%BAdo-no-Facebook-e-afasta-
multa-di%C3%A1ria>. Acesso em 25 de março.

32
Sobre o informado pelo Facebook no caso julgado perante o STJ vale destacar as
peculiaridades do caso concreto e da não aplicação do precedente do Tribunal da
Cidadania:

1. Já é fato público e notório as ofensas à honra e memória da Vereadora


Marielle Franco, por ter se tornado um leading case de repercussão
nacional, até com visibilidade no exterior, já que dos 18 mil e-mails
com denúncias de publicações contra a Marielle Franco recebidos até
agora, tem denunciantes da Espanha, França e Estados Unidos.
2. O Facebook faz análise de conteúdo publicado por seus usuários, para
fins de publicidade dirigida. Inclusive, como recentemente divulgado
caso da consultoria política Cambridge Analytica, o Facebook analisa
os dados e informações de seus usuários até mesmo para influenciar
no cenário político e econômico, como nas campanhas de Donald
Trump e no Brexit, e teve acesso ilegal de dados de 50 milhões de
seus usuários22.

Portanto, o precedente do REsp 1641155 não se aplica ao caso concreto.

Desta forma, reitera-se, as autoras requerem que o Facebook seja obrigado a não
publicar conteúdos sabidamente que violem a dignidade de Marielle Francisco da Silva,
conhecida como Marielle Franco, e notificam a empresa para que não o faça, sob pena de
responsabilidade subsidiária.

Como já ressaltado acima, Facebook faz análise de dados dos seus usuários
para publicidade dirigida. Inclusive, recebe patrocínio para impulsionar páginas públicas
e publicações, possivelmente tendo recebido para impulsionar páginas que publicaram
e compartilharam conteúdos que desonram a Vereadora Marielle Franco, que ora se
combate. Quanto o Facebook lucrou nos dez dias por manter tais publicações ativas??

22 Após vazamento de dados, Facebook sofre cerco político e econômico. Disponível em:
<https://oglobo.globo.com/mundo/apos-vazamento-de-dados-facebook-sofre-cerco-politico-economico-
2251036>. Acesso em 21 de março.

33
É certo que manter tais páginas e o risco de mantê-las é lucrativo, pois, até o presente
momento não se houve punição.

Vale ressaltar, por oportuno, a recente denúncia da Cambridge Analytica contra o


Facebook, para introduzir a tese de ser este uma relação de consumo, caracterizada
pela remuneração indireta, pois é pago diretamente pelos anunciantes, para fazer a
publicidade dirigida, já que os usuários, destinatários finais não remunerados, têm uma
relação de consumo aparentemente gratuita, mas essencialmente onerosa, pois os
dados pessoais dos usuários são coletados e processados para fins de publicidade
dirigida, com marketing cruzado. Corroborando esse entendimento, segundo Guilherme
Magalhães Martins e João Victor Rozatti Longhi, “a responsabilidade civil dos
prestadores de serviços nas redes sociais virtuais pelos danos à pessoa humana
decorrentes do meio é objetiva, na forma do art. 14 do CDC”23.

Assim , por exemplo, ao permitir o patrocínio de publicações feitas por usuários,


principalmente por perfis falsos, fecha-se o ciclo do proveito econômico que Facebook
tem, o que configura a relação de consumo rebatida. Portanto, é lícito requerer ao
Facebook que certifique quais perfis indicados nesta exordial e nas futuras notificações
são verdadeiros ou falsos, para que sejam excluídos os perfis falsos, segundo seus
Termos de uso e quais deles foram impulsionados/patrocinados.

Por fim, destaca-se a falsidade dos perfis Luciano Ayan e Luciano Henrique Ayan
foram excluídos pelo próprio Facebook, requerendo-se, desde já, que informe se os
posts destes perfis foram impulsionados.

23 MARTINS, Guilherme Magalhães; LONGHI, João Victor Rozatti. A TUTELA DO CONSUMIDOR NAS
REDES SOCIAIS VIRTUAIS RESPONSABILIDADE CIVIL POR ACIDENTES DE CONSUMO NA
SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO in Revista de Direito do Consumidor | vol. 78/2011 | p. 191 - 220 | Abr -
Jun / 2011 | DTR\2011\1573.

34
Assim, nos termos do art. 6º, VIII, a critério do juiz, quando forem verossímeis as
alegações apresentadas pela parte hipossuficiente, pode o juiz inverter o ônus da prova
e ordenar que Facebook apresente as análises de dados (como número de
visualizações, alcance, curtidas, envolvimento com a publicação) de publicações e
quais perfis e publicações foram impulsionados/patrocinados.

Por essas razões, existe um defeito nesta prestação de serviço, o que resulta da
obrigação objetiva de reparar os danos causados, nos termos do art. 14 do Código de
Defesa do Consumidor, combinado com o art. 19 da Lei nº 12.965/2014.

DA TUTELA DE URGÊNCIA ANTECIPADA:

Tradicionalmente, a tutela antecipada se dá nas ações cujo provimento


jurisdicional pleiteado é de natureza condenatória, executória e mandamental, como é
o caso concreto.

Trata-se de ação de obrigação de fazer que consiste, prioritariamente, na


retirada de exibição na rede mundial de computadores as matérias ofensivas, de
incitação ao ódio e caluniosas referentes à Vereadora Marielle Franco, que,
resumidamente, vem ferindo a sua honra e imagem, trazendo constrangimento e dor às
requerentes.

O art. 300 e o § 2º do Código de Processo Civil preveem a possibilidade de


concessão liminar da tutela de urgência quando houver elementos que evidenciem a
probabilidade do direito e o perigo de dano.

Não restam dúvidas que a medida, além de ser de urgência, é necessária, posto
que os fatos mentirosos que o site YouTube tem abrigado relacionados à: “Marielle era ex
de Marcinho VP”; “Marielle foi eleita pelo comando vermelho”; “Marielle era usuária de
maconha”; “Marielle engravidou aos 16 anos”; “Marielle defendia bandido”; “Marielle
mereceu morrer”; “Marielle era criminosa”, são todos FALSOS, conforme se demonstrou

35
exaustivamente na presente exordial e melhor tratado no site, especialmente desenvolvido
para esclarecer as mentiras que estão circulando na internet:
<https://www.mariellefranco.com.br/quem-e-marielle-franco-vereadora>.

Ocorre que a família tem sofrido com os ataques desses vídeos, que ainda
permanecem circulando nas mídias sociais, com o intuito de desonrar a imagem de
quem não vive mais para se defender.

Para reforçar a imprescindibilidade do deferimento da tutela de urgência


antecipada, destaca-se que a Diretoria de Análise de Políticas Públicas da FGV/FGV-
DAPP analisou os dados do Twitter, entre os dias 15 e 19 de março, sobre a evolução
das fake news sobre a Marielle Franco e, posteriormente, a evolução do desmentido. O
gráfico é o seguinte:

O gráfico revela que quando as fake news começaram a ser combatidas (linha
vermelha), as publicações espalhando boato começaram a diminuir (linha azul).
Portanto, é urgente a concessão da tutela antecipada requerida, como medida a

36
combater as fake news, discursos de ódio e a divulgação de informações criminosas e
atentatórias à honra e memória de Marielle Franco.

Assim, vem requerer à V. Exa. a concessão dos efeitos da TUTELA


ANTECIPADA para que a ré retire no prazo de 24 (vinte e quatro horas) todo o
conteúdo selecionado na presente inicial, sob pena de multa diária, em caráter de
astreinte, em caso de descumprimento da decisão liminar e responsabilidade civil por
desobediência à ordem judicial, a ser arbitrado por esse r. juízo, conforme os termos do
art. 19 da Lei 12.965/2015.

DO PEDIDO.

Diante do exposto, requer a V.Exa. o seguinte:

1. que liminarmente as publicações, posts e vídeos do sítio administrado pela ré (site


do Facebook), links apontados na inicial, sejam retirados do ar no prazo de 24 (vinte e
quatro horas) sob pena de multa diária, em caráter de astreinte, a fim de que à Marielle
Francisco da Silva, conhecida como Marielle Franco, à sua irmã Anielle Barboza e à sua
companheira Mônica Benicio, possam ser assegurados seu direito constitucional à
intimidade, honra e a privacidade e a imagem;
2. que caso a liminar deferida não seja cumprida no prazo de 24 horas, seja a ré
responsabilizada pelos danos causados, nos termos do art. 19 da Lei nº 12.965/2014;
3. que a ré seja obrigada a não publicar e/ou republicar as publicações, posts e vídeos
cujos conteúdos violem a dignidade de Marielle Francisco da Silva, conhecida como
Marielle Franco, e que seja judicialmente notificada para que não o faça, sob pena de
responsabilidade subsidiária, em interpretação extensiva do art. 21 da Lei nº
12.965/2014;
4. que a parte ré seja obrigada a filtrar as imagens indicadas nesta exordial, bloquear
novas postagens com o mesmo conteúdo e retirar do ar as já existentes, sem
necessidade de prévia notificação;

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5. que seja obrigada a informar quais publicações foram atentatórias à honra e a
dignidade de Marielle Franco e quais perfis que fizeram estas postagens, indicadas nesta
exordial, foram impulsionadas/patrocinadas, nos termos do art. 6º, VIII, do Código de
Defesa do Consumidor;
6. que seja parte ré obrigada a informar se os perfis falsos, que foram excluídos , de
Luciano Ayan, Luciano Henrique Ayan e/ou do Movimento Brasil Livre - MBL
patrocinaram os posts indicados, nos termos do art. 6º, VIII, do Código de Defesa do
Consumidor;
7. que seja a parte ré obrigada a certificar se os perfis indicados nesta petição inicial
foram certificados que são verdadeiros e que sejam excluídos os falsos, por violar os
Termos de uso do Facebook;
8. a citação da parte ré, por via postal com AR, para, se quiser, apresentar
contestação;
9. condenação da ré a retirar da internet todas as matérias que caluniam e ofendam a
imagem de MARIELLE FRANCO, a fim de manter a decisão proferida em liminar, sob
pena de, cometendo desobediência, a empresa ré responda civilmente, conforme os
termos do art. 19 da 12.965/2015;
10. que seja obrigada a fornecer a identificação dos IPs e dos usuários, para futuras
ações de reparação civil e criminal;
11. ad argumentandum, que seja a parte ré obrigada a reparar às autoras pelos danos
causados, nos termos do art. 14 do Código de Defesa do Consumidor, combinado com o
art. 19 da Lei nº 12.965/2014.
12. a condenação nas custas e honorários de sucumbência em 20% sobre o valor total
da condenação.
13. deixam claro as autoras que NÃO tem interesse em realização de audiência de
conciliação e mediação, nos termos do art. 334 do Código de Processo Civil.
14. pedem o deferimento da Justiça Gratuita para ambas as partes, conforme os termos
do Lei 1.060/50 e arts. 98 e ss. do Código de Processo Civil.

Protesta pela produção de todas as provas admitidas em


direito, especialmente, prova testemunhal, documental, pericial, depoimento pessoal,

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bem como quaisquer outras que esse MM. Juízo entender necessário para o
prosseguimento do feito.

Informa ainda que todas as intimações e atos do processo


devem ser informados em nome da patrona das autoras, EVELYN MELO SILVA,
OAB/RJ 165.970, JULIANA DURÃES DE OLIVEIRA LINTZ, OAB/RJ 173.536 e
SAMARA MARIANA DE CASTRO, OAB/RJ 206.635, cujo endereço profissional é o
constante no timbre desta petição e endereço eletrônico qual seja
contato@ejsadvogadas.com.br.

Dá-se à causa, o valor de R$ 1.000.000,00 (um milhão de Reais), para fins


meramente fiscais.

Nestes termos,

Pedem deferimento.

Rio de Janeiro, 27 de março de 2018.

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