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Michel Foucault

A Sociedade Punitiva
Curso no Collêge de France
(1972-1973)

Edição estabelecida por Bernard E. Harcourt.


sob a direção de François Ewald
e Alessandro Fontana

Tradução
IVONE C. BENEDETTI

~
wmfmartinsfontes
SÃO PAULO 2015
ÍNDICE

Nota................................................................................................... XI

Curso, anos 1972-1973 ................................................................... .

Aula de 3 dejaneiro de 1973 ............................................................ 3


Classificação de sociedades: incinerantes e inumantes; assimilantes e
excludentes. Insuficiência da noção de exclusão. Hospital psiquiátrico.
Insuficiência da noção de transgressão. - Objeto do curso: critica às
noções de exclusão e de transgressão, análise das táticas Ímas da san-
ção. (I) As quatro táticas penais: 11 excluir; 2/ impor compensação; 3/
marcar; 4/ encarcerar. - Hipótese inicial: classificação das sociedades
de exclusão, de resgate, de marcação ou de reclusão. - Objeções possí-
veis e resposta: as penas constantes têm funções diferentes nas quatro
táticas penais. O caso da multa. O caso da pena de morte. Damiens e o
poder do soberano. A pena de morte como reclusão redobrada na atua-
lidade. (lI) Tornar autônomo o nível das táticas penais: li colocá-las
dentro da esfera do poder; 2/ examinar as lutas e contestações políticas
em torno do poder. - A guerra civil como matriz das lutas de poder:
táticas de luta e penalidade; estratégia da reclnsão.

Aula de 10 dejaneiro de 1973.......................................................... 21


Os quatro elementos de uma análise: 1/ guerra constante, universal, in-
terna à sociedade; 2/ sistema penal nem universal nem unívoco, mas
feito por uns para os outros; 3/ estrutura da vigilância universal; 4/ sis-
tema de reclusão. (I) Teor da noção de guerra civil. (A) A guerra civil
como ressurgência da guerra de todos contra todos, segundo Hobbes.
(B) Distinção entre guerra civil e guerra de todos contra todos. Coleti-
vidades novas; exemplo da Revolta dos Nu-pieds [Descalços] e do mo-
vimento luddista. (C) A política como continuação da guerra civil. (11)
O status do criminoso como inimigo social. - A prática judiciária como
declaração de guerra pública. - Efeitos de saberes: apreensão do crimi-
noso e do desvio pela psicopatologia ou pela psiquiatria. Efeitos epis-
têmicos: sociologia da crirninalidade corno patologia social. O crimino-
so corno conector, transcritor, comutador.

Aula de 17 dejaneiro de 1973 .......................................................... 41


Aparecimento do criminoso corno inimigo social. Identificação históri-
ca das primeiras manifestações. (I) Análise econômica da delinquência
no século xvm pelos fisiocratas. Le Trosne, Mémoire sur les vagabonds
[Dissertação sobre os vagabundos] (1764): Mais que propensão psico-
lógica, como a ociosidade, ou fenômeno social, corno a mendicidade, a
vagabundagem é a matriz do crime e um flagelo para a economia; ela
produz a rarefação da mão de obra, a elevação dos salários e a redução
da produção. - Leis inadequadas; medidas preconizadas por Le Trosne:
1/ escravização; 2/ pôr fora da lei; 3/ autodefesa dos camponeses; 4/
convocação militar em massa. - Semelhanças entre errantes e nobres.
(lI) O criminoso-inimigo social como terna literário. Gil Blas e o início
do século XVIII: o continuum e a onipresença da delinquência. Roman-
ces de terror e fim do século xvm: delinquência localizada e extrasso-
cial. Emergência das dualidades crime-inocência, mal-bem.

Aula de 24 de janeiro de 1973 .......................................................... 57


(III) Outros indícios da emergência do criminoso-inimigo social. Debate
sobre a pena de morte em 1791. (IV) Relação entre os efeitos teórico-
-políticos de um discurso e as táticas punitivas na mesma época. Sistema
principal de castigo: na Inglaterra, instauração do sistema penitenciário
em 1790-1800; na França, instauração em 1791-1820. Heterogeneidade
entre o criminoso-inimigo social e a prisão: fissura entre o penal e o
penitenciário. - Segundo a teoria penal, puníção como defesa social;
donde os seguintes princípios: relatividade; graduação; vigilância, pú-
blica e infalível; e três modelos de puníção: infâmia, talião, escravidão.
- Na prisão: tempo, única variável graduada. Forma-prisão e forma-
-salário: duas formas historicamente gêmeas. Poder capitalista e siste-
ma penal: o poder sobre o tempo.

Aula de 31 dejaneiro de 1973 .......................................................... 77


Forma-prisão e forma-salário (continuação). A tornada de poder sobre o
tempo: condição de possibilidade do sistema capitalista e da reclusão.
Da arqueologia à genealogia. - Objeções ao modelo religioso e respos-
tas. (A) A cela monástica: excluir o mundo, e não punir. (B) Os quakers:
rejeição ao código penal inglês e à pena de morte. - Oposição a Beccaria
relativamente à infração e à culpa; concepção de pecado. (C) Organiza-
ção da prisão de Filadélfia e de Walnut Street: primeira menção à "peni-
tenciária". (O) Consequências: 11 introdução da moral cristã na justiça
criminal; 2/ conhecimento do prisioneiro: torna-se possível um saber;
3/ a religião investe a prisão. Recristianização progressiva do crime.
Aula de 7 defevereiro de 1973.......................................................... 93
Penitenciária, dimensão de todos os controles sociais contemporâneos.
(I) Generalização e condições de aceitabilidade da founa-prisão. (A) In-
glaterra. Grupos espontâneos para garantir a ordem: 1/ quakers e meto-
distas; 21 sociedades para a eliminação do vício; 31 grupos de autodefesa;
41 polícias particulares. Novo sistema de controle: inculcar condutas,
moralizar e controlar as lower classes. Colquhoun, Tratado sobre a poli-
cia da metrópole (1797). Três princípios: 11 a moralidade como funda-
mento do sistema penal; 21 necessidade do Estado policial; 31 a polícia
tem como alvo as classes baixas. - Conclusões: 11 o Estado como agente
da moralidade; 2/ vínculos com o desenvolvimento do capitalismo; 31
coerção como condição de aceitabilidade da prisão. - Movimentos atuais
de dissidência moral: dissolver o vínculo penalidade-moralidade.
Anexo................................................................................................. 106

Aula de 14 de fevereiro de 1973........................................................ 113


(A) Inglaterra (continuação). Grande promoção das virtudes. (B) Fran-
ça. Aparecimento de novas técnicas de captação e reclusão, bem como
de um novo aparato policial. Dois mecanismos para tornar a repressão
tolerável. Na França, investimento do aparelho estatal pelo interesse
social lateral: ordens régias, meio de controle social que produz a mo-
ralização e a psicologização da pena no século XIX. Contrainvestimen-
to capilar das associações, famílias e corporações. - Campo de saber,
arquivos biográficos: influência sobre os saberes psiquiátrico, socioló-
gico, criminológico no século XIX. - Substituição das ordens régias por
organismos estatais centralizados: as grandes casas de correção.

Aula de 21 defevereiro de 1973........................................................ 129


(B) França (continuação). Recapitulação e resultados: sociedade puniti-
va. Mecanismo: dominar o ilegalismo popular. 1. Ilegalismo popular no
século xvm. O caso dos tecelões do Maine. Mercadores e tecelões
esquivam-se dos regulamentos. O funcionamento positivo dos ilegalis-
mos. 2. Inversão no fun do século XVIII. A burguesia se apodera do
aparato judicial para se livrar do ilegalismo popular que se tornou "de-
predação". A depredação operária; o banditismo dos operários do porto
de Londres. 3. Implementação do sistema penal e penitenciário. Instru-
mentos: noção de inimigo social; moralização da classe operária; pri-
são, colônia, exército, polícia. - No século XIX, ilegalismo operário,
alvo de todo o sistema repressivo da burguesia.

Aula de 28 defovereiro de 1973 ............. :.......................................... 143


(B) França (continuação). O moral fmcado no penal. 4. Depredação
camponesa: no século XVIII, ilegalismo como elemento funcional da
vida camponesa; fIm do século XVllI, abolição dos direitos feudais; no
século XIX, exploração mais cerrada. O caso da exploração das flores-
tas. Novo ilegalismo contra o contrato; contestação e litígio civil. 5.
Consequências: 11 exército como foco e comutador dos ilegalismos; 21
o ilegalismo como fulcro da Revolução; 31 uma resposta burguesa ma-
ciça e programada: a classe baixa como "raça abastardada". O novo
personagem do de1inquente: selvagem, imoral, mas regenerável por
meio da vigilância. - Reflexões: a inteligência da burguesia; a burrice
dos intelectuais; a seriedade da luta.

Aula de 7 de março de 1973.............................................................. 157


Analogias entre Target e os quakers. <n
O medo no começo do século
XIX: li ligado aos novos modos de produção; medo do operário, de seu
desejo, de seu corpo; 21 baseado na realidade; 31 medo da classe labo-
riosa; 41 pelo fato de que "eles" não trabalham o sufIciente. Ameaça ao
aparato capitalista. O sistema penal visa o corpo, o desejo, a necessidade
do operário. Duas exigências: livre mercado e disciplina. Carteira pro-
fIssional do operário. (TI) Dualismo penal: o duplo front da penalidade.
1. RecodifIcação dos delitos e das penas: homogênea, positiva, coerci-
tiva, representativa, eficaz. 2. Integração de um condicionamento mo-
ral: circunstâncias agravantes e atenuantes; vigilância; casas de correção;
reeducação. Dualidade direito-correção. Criminologia: discurso que
garante a transcrição dessa dualidade. Monomania. - Simbiose da cri-
minologia com o sistema penal.

Aula de 14 de março de 1973............................................................ 171


(I) Novo ilegalismo: da depredação à dissipação. Recusar a força de
trabalho. O corpo do operário como fator dominante: ociosidade; recu-
sa ao trabalho; irregularidade; nomadismo; festa; recusa à família; de-
vassidão. (A) História da preguiça. Ociosidade clássica dos séculos
XVll-XVllI; recusa coletiva e organizada no século XIX. (B) Caracte-
risticas dessa dissipação: fortalecimento reciproco dos ilegalismos; co-
letiva e fácil de difundir; infralegal; proveitosa para a burguesia; objeto
de reprovação. As três formas de dissipação: intemperança, imprevi-
dência, desordem. As três instituições de dissipação: festas, loteria,
concubinato. (TI) Domínio da dissipação. Mecanismos parapenais; ca-
derneta de poupança; caderneta de trabalho. Sistema graduado, contí-
nuo, cumulativo. (UI) Continuidade e capilarização da justiça na vida
cotidiana. Vigilância geral. Forma de exame. Par vigiar-punir. A socie-
dade disciplinar.

Aula de 21 de março de 1973............................................................ 185


A fábrica-caserna-convento em Jujurieux. Regulamentos minuciosos,
Icária patronal. (I) Instituições de reclusão: pedagógicas, corretivas, te-
rapêuticas. Pesquisa arquitetônica e microssociológica. (lI) Análise
dessas instituições. (A) Nova forma de rec1usão-sequestração. Três di-
ferenças em relação ao período clássico. 1. Forma de superpoder. 2.
Normatização. 3. Sistema intraestatal. (B) Funções da sequestração. 1.
Sequestração do tempo. Sujeitar o tempo da vida ao tempo da produ-
ção. 2. Controle direto ou indireto da existência inteira. Fabricação do
social. 3. Julgamento permanente e ininterrupto. 4. Produção de um
novo tipo de discursividade: contabilidade moral cotidiana da existên-
cia total; em função do normal e do anormal.
Anexo................................................................................................. 199

Aula de 28 de março de 1973............................................................ 205


Temática do curso: a forma-prisão como forma social; um saber-poder.
(I) Análise geral do poder. Quatro esquemas por rejeitar. 1. Apropria-
ção: o poder não é possuído, é exercido. Caso da poupança operária. 2.
Localização: o poder não está estritamente localizado nos aparatos es-
tatais, mas sua ancoragem é bem mais profunda. Caso da polícia no
século XVIll e do sistema penal no século XIX. 3. Subordinação: o
poder não garante, mas constitui modos de produção. Caso da seques-
tração. 4. Ideologia: o exercício do poder não é lugar de formação de
ideologia, mas de saber; todo saber possibilita o exercício de um poder.
Caso da vigilância administrativa. (11) Análise do poder disciplinar:
normatização, hábito, disciplina. Comparação do uso do termo "hábi-
to" na filosofia dos séculos xvrn e XIX. Comparação do poder-sobe-
rania no século XVIll com o poder-normatização no século XIX. A
sequestração fabrica a norma e produz os normais. Novo tipo de discur-
so: ciências humanas.

Resumo do curso.. ....................... .......................... ........ ............. ....... 225


Situação do curso.............................................................................. 241
Jndice das noções.............................................................................. 285
Jndice onomástico ...... ..... ...... .................... .......................... .............. 317