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Caligrafias urbanas: pichação e

linguagem visual no Rio de Janeiro

Urban calligraphy: tagging and


visual language in Rio de Janeiro

KARINA KUSCHNIR1 E VINÍCIUS MORAES DE AZEVEDO2

RESUMO

Neste artigo, apresentamos a linguagem visual, simbólica e sonora do universo da picha-


ção carioca. O projeto é parte de uma pesquisa que busca investigar o uso do desenho
como forma de significar e viver em ambientes urbanos. Partindo de entrevistas e de uma
observação etnográfica com pichadores na zona norte do Rio de Janeiro, procuramos ex-
plorar as experiências e os significados dessa prática para seus protagonistas. Apresenta-
mos as imagens dessas “caligrafias” urbanas em sua ocupação da cidade, buscando apre-
sentar a lógica de sua produção pelos critérios de identidade, visibilidade, durabilidade,
distribuição e dificuldade. Nosso objetivo é “alfabetizar” nossos leitores, dando-lhes
ferramentas para enxergar essas redes sociais marginalizadas com outros olhos e para
perceber a cidade sob sua perspectiva, demonstrando, assim, a vitalidade da expressão
gráfica, artística e social da pichação.

PALAVRAS-CHAVE: Pichação, Juventude, Antropologia urbana, Antropologia visual,


Rio de Janeiro.

ABSTRACT

In this article, we present the visual, symbolic and sonorous language of the Rio de Ja-
neiro’s tagging universe. The project is part of a study that investigates the use of draw-
ing as a form of meaning and living in urban environments. Starting from interviews and
ethnographic observation of taggers in the north zone of Rio de Janeiro, we try to explore
the experiences and meanings of this practice for its protagonists. We present images
of these urban “calligraphy” in its occupation of the city, seeking to present the logic of
its production by the criteria of identity, visibility, durability, distribution and difficulty.
Our goal is to “literate” our readers by giving them tools to see these marginalized social
network with new eyes and to see the city from their perspective, thereby demonstrating
the vitality of the graphic, artistic and social expression of tagging.

KEYWORDS: Tagging, Youth, Urban Anthropology, Visual Anthropology, Rio de Janeiro.

Trama: Indústria Criativa em Revista. Dossiê: A Cidade e as Questões do Urbano.


Ano 1, vol. 1, julho a novembro de 2015: 110-122. ISBN: 1519-9347
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INTRODUÇÃO

P
ara a maioria de nós, leitores alfabetizados em português, as imagens abaixo (Figu-
ra 1) são manchas gráficas de difícil compreensão. Vendo-as em conjunto, podemos
até imaginar que são palavras, mas o que significam? Quem as compreende?

Figura 1

Essas mesmas perguntas podem ser feitas para esta segunda imagem abaixo (Figura
2). Habitantes de grandes centros urbanos são familiarizados com esses sinais gráficos.
Mas saberiam responder qual o seu significado? E para quem?

Figura 2

Vamos à decodificação das duas imagens. Na primeira figura, temos dezessete vezes
a palavra “pichação” traduzida pelo Google para línguas que não utilizam o alfabeto la-
tino (ou romano). Da esquerda para a direita, e de cima para baixo, listamos vocábulos
falados por bilhões de pessoas nos dias atuais, nos seguintes idiomas: árabe, armênio,
bengali, bielorrusso, chinês, coreano, grego, gujarati, hebraico, hindi, japonês, kannada,
khmer, malaiala, russo, tamil e telugo.
112 | Karina Kuschnir e Vinícius Moraes de Azevedo

Para verificar se a tradução correspondia ao sentido original em português, pesqui-


samos se as palavras vertidas para a língua de destino geravam imagens semelhantes
ao que entendemos como pichação no Brasil. De modo amplo, a checagem deu certo.
Vimos muros rabiscados mundo afora. Mas ficou claro que o Google utilizou os sentidos
de pichação e grafite como sinônimos, o que absolutamente não procede se passarmos à
análise da segunda imagem.
Na figura 2, temos quarenta grafismos que não poderiam ser traduzidos pelo Google.
São “nomes”, ou “tags”, de jovens que se tornaram famosos ao ponto de terem suas assi-
naturas impressas em camisetas à venda numa loja em Niterói, no Rio de Janeiro. Abaixo,
temos a estampa completa na frente de uma camiseta (à esquerda) com a legenda nume-
rada para o “nome” de seus autores na tabela à direita:

1-DOSI 2-CHINA 3-ETE 4-CASCÃO 5 - 6 - 7-COTA 8-

9-BANJO 10-FODÃO 11-BOINA 12-DANDE 13 - 14-COOL 15-ARK 16 -

17-ANJO* 18 - 19-ABRA 20- CISCO 21-AQUI * 22 - 23 - 24-LUB

25-NITO 26-EDS * 27 - 28-BUNUS 29-BICO 30-CUBANO 31 - 32 -

33- 34- 35-MAGAM 36-AICAR 37-KIK * 38-CAIXA * 39-RAK * 40-EMA


41-SEL 42-YRA * 43- 44- 45- 46-LALA 47- 48-


49-FBI 50- 51- 52-ARPA 53- 54- 55-FAKA 56-


57- 58-BIGODE
59-BAKA
60-CYCK
61-DEZA 62- 63- 64-

65- 66-COW 67- 68- 69-ZICO 70- 71-ALKA 72-ARKA

73-DUDAS 74-DERK 75- 76-JAPA 77- 78- 79-FILÓ 80-SAPÃO

* Pichadores já falecidos. (Os números sem nomes são de autores não identificados.)

Figura 3
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Apesar de sua aparente ilegibilidade (para leigos), esses grafismos fazem todo sentido
no universo de jovens pichadores do Rio de Janeiro. São marcas que traduzem pessoas,
identidades, regiões; que trazem consigo memórias, histórias de vidas, projetos, perdas,
sensações intensas de prazer, medo, aventura, revolta, realização, risco e morte. Não são
apelidos, mas sim “nomes”, no sentido social do termo, ou seja, denominações que re-
metem à biografia do indivíduo e à reputação que adquire junto aos seus pares. Para Zo-
nabend (1980), o nome não apenas identifica: é uma linguagem que fala sobre as formas
de sensibilidade e os valores de um grupo, delimitando espaços relacionais e marcando
fronteiras entre o mundo do “nós” e o dos “outros”.
Nessa linguagem do mundo dos pichadores, o nome não se escreve. O nome se “taca”,
se “espalha”, numa “missão” pela cidade, de “pico em pico”, onde se “pega” pedra, muro,
marquise e chapisco, para um dia, quem sabe, virar “lenda”3. Foi nesse universo que desen-
volvemos uma pesquisa sobre a relação dos pichadores com sua própria atividade e com a
cidade, dentro de um projeto maior sobre a percepção do mundo urbano através do dese-
nho (cf. AZEVEDO, 2015; e KUSCHNIR, 2012, 2014). Mostramos como se dá o processo de en-
volvimento dos jovens com esse mundo, nas diversas etapas de uma carreira na pichação,
no sentido de Becker (2008) e Goffmann (1988) para o termo. Neste artigo para a TRAMA,
nosso objetivo é explorar essa prática chamando atenção para a produção de “caligrafias”
urbanas – uma linguagem de nomes que ocupam visualmente a cidade.4
Os jovens do sexo masculino se aproximam da pichação na adolescência, quando co-
meçam a exercitar sua “assinatura” e a se divertir pichando a própria escola com caneta
pilot (marcador preto). Seu “nome” pode ter origem em relações jocosas com os amigos
(que remetem a manias ou características pessoais), mas está, sobretudo, ligado a um
campo de possibilidades (VELHO, 1981) que configura os nomes possíveis (em termos de
letras e sonoridade) e sua forma, expressa numa “caligrafia” cuja estética é construída
coletivamente.
Nesse campo, o “nome” tem em média quatro letras, o que facilita que seja desenhado
de forma rápida e furtiva. Nos termos de um entrevistado, o nome pequeno é bom porque é...

“...fácil de mandar, ué... nome pequeno! Quatro letrinhas! Tranquilão, mandou,


saiu, um, dois, nem me viu na neblina. [risos] É assim, cara... o nome tem que ter
essa média aí de letras... se não fica muito demorado pra mandar e sair batido.
Numa dessas tu roda!”

No Rio de Janeiro, é mais comum que as letras sejam desenhadas de forma transpas-
sada e, em alguns casos, dispostas fora de ordem ou até mesmo invertidas. A inversão é
central no idioma “xarpi” – “pixar” na linguagem “TTK”, expressão que viria da pala-
vra Catete dita silabicamente ao contrário, num dialeto que remete ao bairro de origem
onde teria sido inventado (OLIVEIRA, 2009 e AZEVEDO, 2015). Também é praxe que sejam
acrescentados elementos gráficos como estrelas, pontos, traços e outros. Com o tempo,
o pichador desenvolve o que considera um aperfeiçoamento estético da sua assinatura,
sendo capaz de registrar a memória desse traçado, como na imagem a seguir (Figura 4),
que mostra a evolução da caligrafia de “Fome” de 2005 a 2014 (atual):
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Figura 4

Como nesse universo de pichadores um dos critérios de qualidade da pichação é a dificul-


dade de acesso às superfícies da cidade, os indivíduos se preocupam em dominar a execução
de sua assinatura sob diversas condições corporais. É essencial saber “mandar o nome” de
cabeça pra baixo, de forma invertida (para a esquerda ou para a direita), com a mão não-
-dominante e, sobretudo, sob forte tensão, medo e adrenalina, como veremos adiante.
Outro critério fundamental é criar uma imagem que se destaque visualmente, que seja
singular e reconhecível pelos pares. Não se trata de “legibilidade”, como deixa claro um
experiente integrante desse mundo:

“(...) você nunca lê uma pichação. Você vê mais como se fosse uma fotografia do
cara, uma marca dele! Porque é assim que funciona mais. Você não aprende a ler o
nome do cara, você aprende que aquela assinatura representa ele, está ligado? (...)
Cada um tem sua caligrafia única! Claro que uns se inspiram nos outros, copiam
uma letra ou um padrão de um nome mais famoso, mistura e por aí vai embora!”
(grifos nossos)

Figura 5

Por essa lógica, na Figura 5 (acima), podemos enxergar uma reunião de jovens pi-
chadores registrada através de suas caligrafias na lona preta. A prática de reunir as assi-
naturas é comum nesses encontros. Os pichadores disputam espaço entre si nas paredes
da cidade, mas muitos também são amigos e realizam encontros e reuniões frequentes.
Como nos lembra Becker (2008) a socialização é um fator primordial para se apren-
der a obter prazer e satisfação pessoal através de uma prática considerada socialmente
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desviante. A dificuldade de legibilidade é, inclusive, apontada por alguns autores como


intencional. Seria uma estratégia para dificultar o entendimento de quem não perten-
ce ao grupo e, portanto, não domina o código da pichação (ALMEIDA e outros, 2010;
AGUIAR DE SOUZA, 2007). Esse aspecto nos remete também à origem da prática, relacio-
nada à contestação e ao protesto em contextos de violência e represssão política e social
(MEHRET e GEBELUKA, 2013). Essa dimensão é explicitamente retomada por pichadores
que defendem a necessidade de ter mais “consciência” de quem são seus “verdadeiros
inimigos”, apontando a escola e a igreja como instituições “inimigas da sociedade”, que
“têm como meta manter a ignorância do povo” (nas palavras de um de nossos entrevista-
dos). Frases desafiadoras, como “Pare! Olhe e sinta raiva!”, também são frequentemente
escritas ao lado dos nomes.
Voltando à análise, a imagem acima (Figura 5) assemelha-se à produção de uma gi-
gante “folhinha”, uma página onde se registram os “nomes” de todos que participaram
da “reú” (reunião). No caso da foto acima, sinalizamos com um traço preto a divisão dos
jovens em dois coletivos, reunidos para um churrasco e jogo de futebol entre as siglas
“R!” (Rataria) e “5*” (Five Star), cujos símbolos destacamos com traço oval.
A ocupação dos locais pela pichação segue uma lógica de leitura social do espaço
urbano, num sistema que espalha “pensamentos na parede”, na expressão de Dos Santos
(2009). Ou seja, não são marcas nos muros feitas de forma aleatória. Os principais crité-
rios em jogo são o destaque visual, a durabilidade da “tag”, a sua distribuição pela cidade
e a dificuldade de acesso ao local pichado. Alcançar esses quatro parâmetros é uma forma
atribuir valor a um “nome” – significa, portanto, demonstrar a criatividade, inteligência,
esperteza e coragem por parte do pichador portador dessa assinatura.
Na foto abaixo (Figura 6), vemos uma fachada de prédio visada pelos jovens devido
à sua falta de manutenção. Do ponto de vista dos pichadores, o espaço ótimo é aquele
que leva à maior durabilidade de suas “tags”. Ou seja, eles valorizam positivamente su-
perfícies que outros habitantes da cidade considerariam degradadas. O ideal, inclusive,
é identificar espaços “eternos”, como se diz no vocabulário dos pichadores: paredes de
pastilha, pedra, mármore e outras superfícies que tornam muito difícil a remoção da pi-
chação (característica também apontada por Aguiar de Souza, 2007). Apesar de bastante
pichada, podemos observar (na fig.6, abaixo) faixas bem delimitadas de “nomes” indi-
viduais (que circundamos para melhor visualização). No topo, em vermelho, temos um
único indivíduo se destacando pelo local de acesso mais difícil, com uma caligrafia bem
elaborada e com um padrão gráfico executado com destreza, de modo uniforme.

Figura 6
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Essa imagem também nos ajuda a entender o critério da dificuldade de acesso como
algo que atribui renome aos que vencem o desafio. Como afirma um pichador carioca
experiente, a altura e o risco (de cair ou de ser pego por agentes repressores) são fatores
que geram medo (“onda”), mas também muito prestígio ao pichador:

“Eu sou alpinista urbano. Sou da galera da escalada, sempre fui. É o destaque da
pichação! Eu gosto de altura mesmo, de subir mais que o mais alto. Então eu sempre
pego topo, marquise de sobrado, marquise de casinha, janela de prédio... é onde eu
me sinto bem, onde eu sinto que dá onda!”

Em situações de iniciação experimentadas por jovems novatos, essas mesmas emo-


ções são vividas num misto de apreensão e excitação:

“...a galera pilhou de botar nome. Vou te falar, ele até tentou, mas foi pesado demais
pra ele. O moleque se tremia todo na hora de botar o nome, largou a lata suando frio,
meio se tremendo, doido demais!”

“É difícil explicar legal, mas não tem como descrever mesmo não. A primeira vez
que eu pichei eu achei que eu ia desmaiar; minha perna tremia muito, irmão! Eu
estava com muito medo.”

Aprender a ter prazer com esse “medo” faz parte do processo de aprendizado na car-
reira do pichador, de forma análoga ao que nos mostrou Howard S. Becker (2008) com os
usuários de maconha, que aprendiam a ter um “barato” com seus pares. Esse prazer-me-
do é apontado pelos jovens com um dos motivos que os “viciam” na prática da pichação,
como nos disse um interlocutor:

“Antigamente era muito fácil sentir medo. Hoje em dia eu fico procurando ele por aí...
de pico em pico. (...) Acho que esse vício que todo mundo está falando por aí. É essa
sensação da primeira vez que você picha. É sempre uma volta nisso... nesse medo gosto-
so. Sentir esse medo, sair desse medo, passar no lugar depois e ver sua assinatura lá... é
como se fosse uma prova de que você superou um obstáculo naquele momento.”

O grau de dificuldade enfrentado fica mais claro na imagem abaixo (Figura.7). Vemos
à esquerda três pichações do coletivo Five Star no topo de um dos prédios mais altos do
Centro do Rio de Janeiro. Na imagem à direita, uma dessas três tags está repetida em toda
a empena do edifício, entremeada com uma frase onde se lê “5* [five star] não mede esfor-
ços para vencer o medo”. O coletivo se destaca por meio da façanha daquele nome. Seu
pichador certamente estava sendo “escoltado” (apoiado) por amigos do grupo com quem
compartilha suas rotas e “picos” (locais de pichação).
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Figura 7

“Tem que pichar nos locais certos senão você só gasta tinta à toa. Não adianta
pichar onde vão apagar no outro dia. Não adianta pichar em rua que ninguém vai
ver, não adianta pichar em lugar escondido. Se for para cagar muro é melhor deixar
espaço pra outro! Eu, antes de pichar, fico escoltando o pico mais de uma semana,
vendo a hora em que o cara vai dormir, vendo se tem segurança no local. Tem que
estar na atividade!”

A repetição é outro fator importantíssimo na busca pelo renome. “Mandar” a tag mui-
tas vezes e em muitos locais diferentes é uma forma eficaz de fazer com que uma assi-
natura se destaque em meio a dezenas de outras. Ter um elevado número de pichações
atendendo aos critérios de ocupação de espaços dá ao pichador maior prestígio, respeito
e reconhecimento do grupo de pares. Abaixo (Figura 8), vemos uma sequência de fotos
com destaque para a tag “BARAO”, assinatura consolidada no cenário da pichação cario-
ca. É um nome “respeitado”, “antigo” e bem “espalhado” pela cidade.

Figura 8
118 | Karina Kuschnir e Vinícius Moraes de Azevedo

Os inseridos na lógica e no cenário da pichação percorrem a cidade buscando e iden-


tificando “tags” de pichadores que se tornaram “relíquias” e “lendas” admiradas. A fama
passa a fazer parte da assinatura que, mesmo em paredes lotadas de pichações, ganham
notoriedade e se destacam aos olhos dos que sabem “ler” essa linguagem. Poderíamos
dizer que essas “tags” passam progressivamente a portar um mana – numa diluição da
fronteira sujeito-objeto. A própria assinatura-tag-caligrafia-nome se confunde com o in-
divíduo que representa. A satisfação de ter uma assinatura com alto grau de prestígio no
mundo da pichação é análoga ao sentimento de prazer advindo da posse de objetos cobi-
çados – possuí-los é “inebriante, reconfortante, apaziguante em si” (MAUSS, 1974, p. 76).
A emoção lembra o que nos descreveu um jovem experiente sobre pichar: “É muito
bom, cara! Muito sentimento, muita adrenalina. Depois de tudo, ainda tem a fama. Sei lá,
me completa!” Como na analogia com o mana, esse prazer só faz sentido se pensarmos
no indivíduo inserido numa ação coletiva. A tensão e o deslizamento entre o eu e o grupo
está no cerne da prática. Os pichadores têm um “nome”, mas também estão em “missões”
com sua “sigla”, “bonde”, “crew” – um coletivo a que se filiam e que, por sua vez, tam-
bém tem “nome” e “tag” próprios, como vimos acima: Rataria! (R!), Five Star (5*), Vício
Maldito (VM), Vida Bandida (VB), VR (Vício Rebelde).
Por outro lado, o pichador vive no anonimato perante os pais, a família e demais
contemporâneos que não fazem parte do mundo da pichação. Diante desses potenciais
repressores, precisam disfarçar os sinais que revelam sua identidade: roupas sujas de
tinta, latas de spray na mochila e até andar “olhando muito para o alto” podem te fazer
“rodar” (ser punido, preso ou morto). Dependendo do pico (local), pode ser melhor sair
para pichar sozinho, para chamar menos atenção. Em locais altos, é bom estar com “alia-
dos”, seja para pra ajudar a alcançar alturas maiores, seja para ter alguém “escoltando”
enquanto você picha.
É para os aliados (amigos) também que se reservam partes da própria casa (ou do
prédio) para uma pichação bem-vinda. E é para eles que se emprestam as latas; e com
eles que se enfrentam as dificuldades da “pista”. Num episódio da pesquisa, observamos
uma “missão” de dois amigos para pichar na vizinhança de um bairro na zona norte do Rio.
É um bom momento para observar como essas relações misturam intimidade, jocosidade,
disputas e diferenças.

Jota repreendeu o amigo que ia pichar a imagem de uma Santa na fachada da casa:
“Tá maluco!? Crença é crença! Deixa a santa do cara em paz!”. Mas Zap respondeu:
“Nem é um cara, porra! É só uma velha!” Acordada pela conversa, a “velha” (dona
da casa) flagrou os dois pela janela: “O que que é isso?! Meu deus do céu!”. Zap
responde: “É o crime, tia! Volta pra dentro que é o crime, tia!” E ambos saem
discretamente do local, antes de serem pegos. Num local já seguro, Jota reclama do
amigo: “Mas tu é um verme mesmo, moleque. Tu sai de casa sem tinta, faz barulho
pra caralho, não me deixa pichar em paz. Agora eu vou ter que dividir minha lata
contigo todo dia? Tu é um verme mesmo.”

E mais tarde, já no alto de uma marquise, Jota se irrita com seu “aliado”: “Taca
a lata, verme. (...) Taca a porra da lata, verme! Taca a lata reta! Se tu acabar com
a minha tinta, quando tu subir aqui, vou te empurrar daqui de cima.” (Trechos
editados do diário de campo de Vinícius M. de Azevedo, com nomes fictícios).

Um aspecto importante no processo de “espancar” (pichar) um nome é a progres-


siva ampliação da circulação do jovem pela cidade, para além dos limites do seu local
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de moradia. O trânsito por meio da pichação, assim como de outras práticas culturais e
artísticas, é também uma forma de “romper com o isolamento” – um meio de transpor as
barreiras territoriais e simbólicas impostas aos moradores de áreas não centrais da cidade
(RAPOSO, 2012). Para Aguiar de Souza (2007), a pichação é também um “embate ideológi-
co”, uma forma subversiva de ação dos pichadores frente aos demais sujeitos da cidade.
Trabalhar em atividades que facilitam essa circulação – como, por exemplo, os “mo-
toboys” – é estimulante para buscar não só novos espaços de pichação, como também
desenvolver estratégias para pichar sem ser “pego” por agentes repressores. Isso pode ser
visto nos dois depoimentos abaixo, que constrastam segundo a menor ou maior experiên-
cia do pichador, que se reflete por sua vez na amplitude de sua circulação:

“Eu fico tacando nome mais por aqui pelo bairro. Eu saio com meu cachorro e uma
latinha escondida em um saco cheio de lixo. Suave! Passa batidão!” (pichador iniciante)

“Cara, eu trabalho como motoqueiro. Faço entregas, sou motoboy e o caralho,


entende? Eu fico rodando esses picos o tempo inteiro. Chega uma hora que tu
já sabe que horas que passa carro em tal rua, que horas que não passa. (...) Eu
sempre procuro ficar atento a essas paradas e isso já dá a maior moral na hora de
escolher os locais. Tirando isso, eu gosto daqueles bagulhos que tu pega na cara
mesmo, na lata, e deixa o nome esplanadão! Esses são os nomes que vale a pena
tu lançar!” (pichador experiente)

É interessante observar que, no caso do “xarpi”, essa circulação pode ser tanto física (pe-
las ruas da cidade) quanto através de meios de comunicação (jornais, revistas, TV e redes
sociais na internet). Espalhar o nome em locais ou situações que terão visibilidade midiática
é um objetivo muito presente nesse universo. É proposital, inclusive, escolher como alvo edi-
ficações do patrimônio público, de forma a reforçar a transgressão e, consequentemente, a
fama do próprio transgressor (ALMEIDA e outros, 2010; e AGUIAR DE SOUZA, 2007). Como
afirmou um interlocutor da nossa pesquisa: “Eu, particularmente, estou interessado em mí-
dia. Eu quero saber de divulgação! (...) Eu nunca respeitei nada; eu picho escola, hospital,
igreja. Quero mídia!” Pode ser no alto de um prédio famoso, como vimos na figura 7 (acima),
mas também são visadas as cenas jornalísticas, como situações de acidentes ou espaços de
circulação onde pessoas famosas serão fotografadas (abaixo, Figura 9-a e 9-b).

Figura 9 (a)
120 | Karina Kuschnir e Vinícius Moraes de Azevedo

Figura 9 (b)

É interessante notar que as próprias fotografias vão se tornando “um registro ‘eterno’
das assinaturas”, como nos disse um interlocutor da pesquisa que coleciona e divulga
milhares dessas imagens. Através de páginas no Facebook ou em outros canais da in-
ternet, criam-se verdadeiros centros de informação e formação dos jovens no universo
codificado da prática. Também é pertinente notar que nem todos aprovam certas formas
de atuação. Como em todo mundo social (BECKER, 2008), há divergências internas e, em
muitos casos, dissidências para outros universos de expressão, em nome de projetos pes-
soais, avaliações morais e/ou busca de condições socialmente legitimadas.

“Cara, não faz sentido eu me arriscar por uma coisa que não vai me render nenhum
retorno financeiro. (...) Eu não sou playboy! Eu tinha que fazer meu próprio ganho.
E eu nunca ia ganhar dinheiro com xarpi! Então o rap e o grafite hoje em dia me
fazem muito mais feliz. (...) O grafite é muito mais aceitável! (...) Se você entra nessa
de pichação direto, faz da tua vida pichação e aí são muitas portas que se fecham!
(...) tem muito pichador brabo, cara. Uma galera que não picha só e mete o pé não.
Tem uma galera que entra em casa, rouba, assalta mesmo, ameaça o morador. Tem
muita gente envolvida com drogas também.” (grifos nossos)

Mas esta não é uma posição hegemônica. O mesmo grafite que no depoimento acima
é visto como uma alternativa para quem não é “playboy” (ie., com boas condições finan-
ceiras), é apontado por outro entrevistado como uma atividade “domesticada”. Diz ele:
“pichação em si não dá dinheiro nenhum”. O grafite, ao contrário, dá dinheiro, porque
quem faz é “só playboy” – “O grafite é a pichação domesticada pra madame. O papo reto
é um só!”
A associação pichação-protesto, como vimos na análise da figura 5 (acima), remete às
origens históricas da pichação (inclusive e principalmente de edificações consideradas
“patrimônio”) como uma forma de ação política e social:

“Se a pichação é uma arte de protesto, para mim, não pode ser só seu nome, senão é
pura vaidade. (...) Eu colocava sempre umas frases que fizessem as pessoas pensar;
não importa se era algo com teor político ou só um desabafo pessoal, tudo pode acabar
provocando uma reflexão em alguém, entende? (...) Todos os patrimônios estão na rua,
a rua é nossa, nós somos a rua, então fica tudo no zero a zero! (...) Ah, sinceramente?
Foda-se. Caguei, cara. É isso mesmo, a gente invade patrimônio pra pichar muro
mesmo e foda-se. Não entra nessa de querer ver as coisas por esse lado não. Você quer
falar de legalidade com pichador? Vai se arrasar! (...) Não importa absolutamente
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nada, pelo menos pra mim, e acho que pra uma maioria aí.” (grifos nossos)

E nas palavras de outro veterano que ressalta a combinação entre a “magia” da práti-
ca e a ação de rebeldia e protesto frente ao “jogo de marionetes” da vida social:

“Eu acredito que o que eu faço é uma coisa muito ousada e diferente. Muitas pessoas
não percebem que existe uma certa magia no que eu faço. Todo mundo gosta muito
de criticar... Tem neguinho que diz que não tem nada de protesto na pichação...
Que protesto maior do que ir aonde dizem que você não pode ir e ainda deixar sua
assinatura como quem diz ‘Eu estive aqui, porra!’. Você me entende? As pessoas
olham meus nomes no alto e não entendem (...) o propósito, (...) porque elas não
estiveram lá, nunca, no topo de um prédio, vendo de cima como eles estão presos
em um jogo de marionetes.” (grifos nossos)

Retomando a ideia inicial deste artigo, esperamos que essa apresentação sobre a ló-
gica das caligrafias cariocas possa “alfabetizar” nossos leitores, dando-lhes novos olhos
para enxergar o meio urbano e suas redes sociais. Como a tradição da antropologia ur-
bana vem ressaltando, a cidade é complexa, feita de múltiplas camadas de significados,
segundo gramáticas de compreensão diversas e muitas vezes conflitantes (VELHO, 1973,
2013; e MAGNANI, 2002). A pichação é um universo de linguagem visual, com nomes,
tags, caligrafias, e também uma linguagem simbólica e sonora, com um vocabulário pró-
prio – do xarpi (da língua TTK carioca) a inúmeras expressões verbais, não necessaria-
mente exclusivas do mundo da pichação como aliado, atropelar, bandido, batido, birro,
bonde, caga-muro, caligrafia, chapisco, crew, crime, ensaboado, escoltar, esculacho, es-
palhar, espancar, esplanar, eterno, folhinha, gás, lata, maluco, mandar, missão, neblina,
nome, onda, pala, palmear, passador, pegar, pico, pilha, pista, rato, reú, ritmo, rodar,
salgada, sequelado, sigla, suave, tacar, tag, verme, vício, visão, entre outras.
Compreender a lógica pichação é uma forma de compreender as relações sociais onde
essa linguagem faz sentido. Os projetos engendrados nesse meio, no sentido de Velho
(2013), vão contra os projetos hegemônicos na cidade. Como mostramos em trabalhos an-
teriores, a pichação é uma carreira que a sociedade classifica como desviante (AZEVEDO,
2015 e outros autores, cf. bibliografia). É uma atividade feita às escondidas, tanto da famí-
lia quanto dos agentes de repressão, que perseguem, prendem, batem e, não raro, matam
os jovens. Como nos disse um deles: “Você sabe muito bem como acontece na pista! De
madrugada? Pulando muro? Muita gente atira primeiro e pergunta depois! Tu vai rodar
pros cana, pros vigia ou pro próprio morador”. O risco de vida é constante: “Pichar na li-
nha do trem é foda: se rodar é morte! Esses malucos (...) te enfiam a porrada até a morte!”.
Num universo social tão profundamente desigual quanto o nosso, acreditamos que
está mais do que na hora de compreendermos os sentidos dessa prática que, apesar (e por
causa) da violenta repressão, é praticada com grande vitalidade, constituindo-se como
um meio de expressão gráfica, artística e social de habitantes da nossa cidade. Fazemos
a todos esse convite para olharmos a cidade sob uma nova perspectiva, levando a sério
o que nos diz um de nossos entrevistados: “A pichação é o esporte das ruas; o jogo da
tinta! (...) A pichação faz com que a gente teste os nossos próprios limites. Para mim é até
terapêutico.”
A irreverência e a transgressão que acompanham essa linguagem são também uma
forma de forçar o olhar, de tornar visível aqueles que são socialmente invisíveis, como
nos explicam os próprios jovens: “você tem que fazer com que olhem pra você”, pois
“quem não é visto não é lembrado”.
122 | Karina Kuschnir e Vinícius Moraes de Azevedo

REFERÊNCIAS

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NOTAS

1. Karina Kuschnir é professora do Departamento de Antropologia Cultural do IFCS/UFRJ, onde coordena


o Laboratório de Antropologia Urbana (lau-ufrj.blogspot.com). E-mail: karinakuschnir@gmail.com.
2. Vinícius Moraes de Azevedo é bolsista de iniciação científica do LAU/IFCS/UFRJ e graduando do curso de
Licenciatura em Ciências Sociais do IFCS/UFRJ. E-mail: viniciusmoraes.az@gmail.com.
3. Os termos entre aspas neste artigo são expressões utilizadas pelos pichadores em entrevistas ou em ati-
vidades observadas durante o nosso trabalho de campo. Aproveitamos para esclarecer que optamos por
não explorar as questões relativas às diferenças entre grafite e pichação devido aos limites de espaço deste
artigo. (Sobre esses temas, ver AZEVEDO, 2015, e demais títulos pertinentes nas referências bibliográficas).
4. Os dados aqui apresentados são fruto de uma pesquisa etnográfica realizada por Vinícius Moraes de
Azevedo em seu projeto de iniciação científica sob orientação de Karina Kuschnir no Laboratório de Antro-
pologia Urbana (LAU) do IFCS/UFRJ. A pesquisa vem se realizando desde 2013 com grupos de pichadores
que atuam em bairros da zona norte do município do Rio de Janeiro (ver AZEVEDO, 2015 e KUSCHNIR, 2012).
Mais produções do projeto podem ser encontradas em http://lau-ufrj.blogspot.com.