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Julia Caroline Goulart Blank

Síntese das Aulas dos dias 12/08 a 16/09/2016.

Cruz Alta – RS, Setembro de 2016.


1. O Problema da Moral – Tugendhat

Nesta conferência, Tugendhat apresenta três conceitos diferentes de moral:


M1 – moral significa um sistema de obrigações intersubjetivas, normas que
consideramos intersubjetivamente válidas.
M2 – moral significa comportamento altruísta, pois sistemas normativos
morais contêm apenas, parcialmente, exigências altruístas, assim como existem
ações altruístas que não são normativas.
M3 – moral significa qualquer coisa que uma pessoa crê dever fazer, como
deve viver. Mesmo que a palavra dever tenha o sentido intersubjetivo de m1,
também pode ter o sentido da pergunta “como é para mim bom viver?”, não tendo
mais o sentido de obrigação.
Durante o texto, o autor foca no conceito de m1 e, posteriormente, m2 para
esclarecer conceitos de m1.
Considera-se a moral no sentido etnológico, onde a moral de uma sociedade
consiste em regularidades do comportamento baseadas em pressão social, um
sistema de exigências e sansões recíprocas que podem se alterar, historicamente,
de acordo com as condições do meio social. Normas que eram válidas em
determinada época, não necessariamente permanecerão válidas em outro período
de tempo, por exemplo, a inserção da mulher no mercado de trabalho era encarada
como imoral no começo do século, situação que atualmente é vista como normal por
grande parte da sociedade.
Os seres humanos compartilham um afeto negativo quando alguém transgride
as normas, esse afeto moral pode ser chamado de indignação. Por se tratar de um
afeto compartilhado por toda a sociedade, o transgressor também tem esse
sentimento quando ele mesmo transgride as normas, fato conhecido como culpa.
Mesmo que ninguém saiba que ele transgrediu as normas, ainda terá o sentimento
de culpa, pois não pode esconder dele próprio a transgressão e sabe que o restante
da sociedade manifestaria seu sentimento de indignação contra ele caso soubesse,
dessa forma, internaliza-se a moral e gera-se o que se chama de consciência. Uma
obrigação só se pode entender sabendo o que vai acontecer caso não se cumpra o
dever, no caso da moral, o próprio indivíduo já tem os afetos e usa da consciência
para saber o que é certo e errado, sabendo qual a sanção que lhe caberá em caso
de desobediência.
A moral está sempre relacionada com o nós, por ser um sistema de
exigências mútuas que permitem ao ser humano viver em sociedade, entendendo a
moral como universal, temos uma sociedade moral universal. No entanto, os
membros da sociedade precisam acreditar que essas normas são justificadas para
impor a si mesmos essas sanções e fazem isso, regularmente, de forma autônoma,
considerando que seus atos são justificáveis reciprocamente, não que
necessariamente o sejam.
O autor menciona apenas dois tipos de justificação recíproca de normas:
 O religioso: denominado de justificação vertical ou autoritária, comum
aos ditadores e líderes religiosos, que impõe determinados conceitos e os justificam
com a frase “Deus quis assim”. Muitos ainda pensam como Nietzsche e Dostoiewski,
que quando a justificação vertical é impossível, a moral não é justificável. Porém a
própria justificação vertical leva a justificação horizontal no momento em que não se
tem como explicar por que tais normas são boas.
 O relacionado aos interesses dos membros da sociedade: aqui se
sobrepõe o interesse próprio, pois convém ao indivíduo que os outros não o
desconsiderem e ele estará disposto a respeitar os interesses dos outros, contanto
que os seus sejam respeitados, a moral tem um fundamento egoísta para cada um,
que só está disposto a aceitar as normas se os outros também as aceitarem. Nesse
sentido contratualista, o consenso moral se difere de um simples contrato por estar
relacionado ao conceito comum de bom, ou seja, as normas precisam ser
igualmente boas para todos, dando o sentido de reciprocidade.
O autor distingue a moral de um sistema de altruísmo recíproco, onde não há
um princípio de igualdade em si, mas é determinado pelo poder dos mais fortes.
Sem sentimentos compartilhados como a culpa e a indignação.
Sobre a questão da compaixão, o autor destaca que essa só pode ser válida
moralmente se for generalizada, nesse caso estender-se-ia para todos os seres
capazes de sofrer, como os animais. Não se sabe se a compaixão teria a
capacidade de estender a moral para além do que pode ser recíproco.

Referência:
TUGENDHAT, Ernest. O Problema da Moral. EDIPUCRS, Porto Alegre, 2003.
2. Os Âmbitos da Argumentação – Perelman & Olbrechts-Tyteca

A retórica envolve artes com técnicas acadêmicas e é diferente de


eloquência, uma pessoa que fala muito, não necessariamente domina a técnica da
retórica, que dispende mais conhecimento e argumentação. Os autores destacam
que a argumentação visa à adesão dos espíritos, logo, necessita de um contato
intelectual.
Com o fim da tirania e início da democracia, os sofistas passam a ensinar a
retórica para os cidadãos, criando as escolas sofistas de oratória, dedicadas à elite
que podia pagar por seus ensinamentos. Aristóteles lembra que com determinadas
pessoas, perde-se a qualidade da argumentação, logo, não é com todo mundo que
se pode/deve argumentar.
A retórica era usada para a resolução de problemas da sociedade e não
acadêmicos. No texto base, os autores destacam que percebemos melhor a
argumentação quando o orador se dirige verbalmente para o auditório, que pode ser
definido como o conjunto daqueles que o orador quer influenciar com sua
argumentação.
Quando o orador se depara com um auditório heterogêneo precisa utilizar
argumentos múltiplos, reconhecer o público para o qual está se dirigindo para assim
selecionar os argumentos que lhe parecerem mais convincentes, podendo expressá-
los de diferentes maneiras, como música, iluminação, etc. Argumentos válidos para
um auditório podem parecer ridículos para outro, mas não significa que estejam
certos ou errados, contato que aplicados adequadamente. O orador precisa se
adaptar ao seu auditório, buscar nos espíritos presentes ali a fonte de seu
entusiasmo para, ao mesmo tempo, entusiasmar os ouvintes.
O orador pode buscar convencer ou persuadir seu auditório:
Convencer: usar a razão para dizer que algo deve ser feito de determinada
forma. Esse método busca convencer todo o ser racional de que sua proposição é
válida.
Persuadir: o interlocutor não entende por que quer algo, é uma argumentação
voltada para um auditório particular, visa resultados, como na divisão de terras,
época em que os grandes proprietários contrataram retóricos para defender suas
propriedades, persuadindo os demais de que aquela terra realmente pertencia a
eles.
Cada argumento pode ser válido para um determinado auditório, portanto os
autores dividem o conceito de auditório em três:
Auditório universal: composto por todo o mundo, precisa de argumentos
válidos para a razão de todo o homem, é praticamente impossível conquistar o
consentimento universal, geralmente apenas aponta para uma generalização
ilegítima de uma intuição particular. No entanto, caso todos não sejam convencidos
sempre resta o argumento de desqualificar aquele que discorda. Alguns comparam o
auditório universal com o auditório de elite, mas essa condição só é válida para
aqueles que lhe dão o papel de modelo. O mesmo pode ser aplicado para a moral,
buscamos àqueles que refletiram devidamente sobre a conduta que aprovamos e
esperamos que nossos conceitos sejam aprovados por eles.
Argumentação perante um único ouvinte: precisa levar em conta as reações
daquele para quem se fala, é mais voltado para persuadir uma personalidade e não
um único ser, sabendo-se que aqueles determinados argumentos funcionam ou não
para aquela personalidade, considerando o ouvinte único como um auditório
particular.
Deliberação consigo mesmo: o orador precisa ser sincero consigo mesmo,
convencer-se de seus argumentos.
A retórica tem como finalidade, além de persuadir, descobrir o que há de
persuasivo em cada caso.
Retórica e dialética trabalham juntas.
Dialética – atacar/defender algo
Retórica – atacar/ defender alguém
Proposições contrárias podem ser argumentadas, no entanto, aquela que é
verdadeira é mais sustentável que uma proposição falsa, Platão diz que a retórica
digna é sempre condicionada pela verdade.
Nos discursos epidícticos, o orador não busca convencer ninguém, apenas
reforçar uma proposição já aceita, usando o discurso como espetáculo, buscando
uma base comum para os valores reconhecidos pelo auditório.
O império Romano usou as escolas sofistas como princípio para a educação.
E o papel do educador não se distancia do discurso epidíctico no momento em que
tenta buscar a união em torno de conceitos já conhecidos por seus ouvintes e
aumentar a adesão a esses conceitos.
Durante a idade média, a religião se apropria da retórica e são formadas as
primeiras universidades. A palavra reitor se originou da palavra retor – aquele que
domina a retórica. No entanto, quando os dirigentes do grupo buscam aumentar a
adesão dos ouvintes, podem empregar ameaças e coerções para submeter a seus
discursos aqueles que não concordam com o que é dito pelos oradores, como
aconteceu na inquisição, época em que a igreja católica usou da força com aqueles
que não acreditavam em seus dogmas.
Na atualidade, argumentos retóricos são usados constantemente na política e
na mídia. Essa última apela para o conceito de imparcialidade, onde pertence ao
mesmo grupo daqueles a quem julga, sem ter tomado partido de nenhum lado.
Sabemos que a condição imparcial não é de todo possível na mídia, pois no
momento em que usamos um determinado recorte para transmitir uma notícia, já
estamos sendo parciais. Poder-se-ia aplicar um conceito semelhante ao que
Fairclough aplicou às metáforas: ao significarmos algo por meio de uma metáfora e
não de outra, estamos construindo nossa realidade de uma maneira e não de outra.
Quando falamos sobre a mídia, ao selecionarmos um recorte e não outro, queremos
mostrar a realidade que vemos por aquele recorte e não por outros, que podem
transmitir um sentido diferente para o ouvinte.
Antigamente, o Oráculo fazia o papel da mídia atual, sendo que nunca estava
errado:
Idis, redibis, nunquam peribis (irás, voltarás, nunca perecerás).
Idis, redibis nunquam, peribis (irás, voltarás nunca, perecerás).

Referência:
PERELMAN, Chaïm; OLBRECHTS-TYTECA, Lucie. Tratado da Argumentação: a
nova retórica. Martins Fontes. São Paulo. 1996. P.11 a 70.
3. O Homem e a Linguagem – Gadamer

O homem se distingue dos animais pelo logus, ser capaz de pensar. A


linguagem é condição da compreensão. Dessa forma, o homem também pode
pensar naquilo que é comum, retomando conceitos como a moral.
Pela bíblia, a materialidade é constituída na linguagem, quando Deus deu ao
homem o domínio do mundo e permitiu a ele que nomeasse aos animais.
Fala-se mais sobre a língua do que se deixa a língua falar. Através da
linguagem de um povo é possível conhecer muito sobre sua cultura e tradições.
Aristóteles: ética e política são a manifestação do ser humano como ser de
linguagem.
Interioridade humana e linguística se dão ao mesmo tempo, pois só podemos
pensar dentro de uma linguagem. Nós mesmos estamos encarnados na palavra, o
verbo que permite compreender o mundo.
Nós convencionamos ou usamos uma convenção já universalizada? Platão
defende ser um meio termo entre ambos. Designamos por semelhança, por algo que
já conhecemos.
A humanidade é definida como já possuidora da linguagem, que é do âmbito
social, não há língua que possa ser falada dela para ela mesma, há sempre um
pensamento dialógico e não há pensamento fora da linguagem.
A linguagem não é uma ferramenta, não vamos ter um treinamento para usá-
la, vamos aprendê-la dentro de uma comunidade e não podemos nos desfazer dela
assim que cumpre seu uso.
Motivação de uma pergunta: se não se sabe a intenção de uma pergunta, não
há como respondê-la, quem é o outro para que eu possa responder dessa forma?
Tudo que é humano deve poder ser dito, são os humanos que dão sentido ao
mundo a sua volta. A linguagem verbal é capaz de complementar as outras
linguagens.
A condição da linguagem não evolui, o que evolui é o repertório do indivíduo.
O dicionário é uma forma de instrumentalização da língua. Instrumentalizar a
linguagem é como não vive-la, não estar “em casa”, mesmo que um indivíduo saiba
todas as palavras de uma língua, não significa que são utilizáveis por ele, é preciso
que a palavra encontre vida em sua utilização, que se esteja a vontade (“em casa”)
com seu uso. Nossa compreensão dos sentidos está relacionada às nossas
experiências. Não basta apenas utilizar uma nova palavra
Quando você lê, torna o texto vivo. Quanto mais vivo o ato de linguagem,
menos consciência temos dele. O ensino excessivo de gramática é um silenciador,
pois o uso mais rico da língua desconstrói a forma, como acontece na poesia.
A análise sintática vem de um pensamento lógico, por exemplo, ligar um ser
ao seu atributo, sempre de forma lógica. A linguagem é um sistema de signos
esquematizados. Uma comunidade de linguagem tem diferentes formas de usar a
língua.
Para dar sentido a uma coisa, precisamos silenciar as outras. O “nada” entre
as palavras permite dar sentido a elas. O trabalho da hermenêutica é saber o que
fica de não dito naquilo que foi dito.
Enquanto se pensa sobre o jogo, não se joga. Mesmo conhecendo toda a
estrutura da língua é impossível prever o que será dito, o sentido. O falar é falar a
alguém e todo diálogo possui uma infinitude interna, que fica guardada para que o
diálogo seja retomado quando necessário.
A língua é incompleta, sempre é possível achar um novo sentido para uma
palavra.

Referência:
GADAMER, Hans Georg. Verdade e Método II. Ed.Vozes, Rio de Janeiro, 2000.
4. Problemas Epistemológicos das Ciências Humanas – Gadamer

O texto aponta a ingenuidade de tornar o homem como objeto e confinar-se


em uma tradição fechada em si mesma, pois os tempos modernos exigem
reflexividade. O senso histórico nos permite ver o passado refletido no presente.
“A tradição nos é legada sem nenhum testamento”, pela ideia de
possibilidade, as coisas podem ser constantemente reinterpretadas e a vida
moderna se recusa a seguir essa tradição e considerar como verdade absoluta, pelo
contrário, reflete sobre tudo que lhe é oferecido a fim de saber se é ou não
verdadeiro. É a capacidade de interpretação dos indivíduos, que faz com que olhem
para além do significado dado e busquem o significado real de algo.
Nas ciências humanas há uma fraqueza epistemológica onde se diz que
ciência que não produz resultado ainda não encontrou o caminho certo/seguro. Não
há fórmula que dê conta das dimensões humanas, diferente das ciências da
natureza, é impossível medir e apresentar resultados tangíveis aplicando um método
aos seres humanos.
Não se pode ter a ilusão de que vamos resolver definitivamente as questões
humanas. O ser não se dissocia do humano e essa indissociabilidade impede que o
próprio ser seja visto como objeto de sua pesquisa, pois sempre enxergamos um
recorte do horizonte, nunca o horizonte completo.

Referência:
GADAMER, Hans Georg. O Problema da Consciência Histórica. FGV. Rio de
Janeiro. 1998. p. 17 a 25.
5. Hermeneuein e Hermeneia. Trinta Teses sobre Interpretação da
Experiência Hermenêutica – Palmer

É necessário haver uma marca para construir uma argumentação, é preciso


haver registro na realidade. Uma marca que nos permita enxergar a realidade em
uma fala.
A hermenêutica teve origem na Grécia antiga e seu significado remete ao
Deus mensageiro Hermes. Na atualidade, a hermenêutica possui três funções:
1º. Expressar: dizer em voz alta. A linguagem escrita é mais fraca por não
manter a expressividade da linguagem falada, portanto é importante que os textos
sejam falados para que os sentidos sejam compreendidos de forma mais ampla,
expressando melhor a intenção do autor.
2º. Explicar: como chegou a tal situação. As palavras também precisam
explicar e racionalizar os textos, o método que utilizaremos já delimita nossa
compreensão do objeto, tornando-se uma pré-interpretação, assim como sentir a
necessidade de analisar algo também já é uma interpretação. O significado tem a
ver com o contexto no qual está inserido.
3º. Traduzir: colocar a sua interpretação. Tornar compreensível aquilo que nos
é estranho/estrangeiro. Cada língua guarda a cultura de cada povo, a maneira como
aqueles indivíduos traduzem o mundo. É a tradução que nos dá consciência do
nosso universo de compreensão e das obras nele e além dele.
Ao nos depararmos com uma obra precisamos usar de dois tipos de
interpretação:
Interpretação Gramatical: o que está dito no texto, como ele foi escrito, as
palavras que foram usadas.
Interpretação Psicológica: o que o autor quis dizer, o que há de subjetivo no
texto, compreender a questão que ele apresenta.
Nossa interpretação está condicionada a determinadas categorias de análise,
compartilhadas entre nós, formando um mundo comum.
Mesmo que seja uma mensagem pronta, há sempre espaço para que o
interprete faça suas interpretação, como no caso de uma peça teatral, que é
representada diversas vezes por diferentes atores, cada um deles colocará no
personagem um pouco de sua própria interpretação. Pode-se também usar como
exemplo a adaptação de livros para filmes, em geral, os leitores dos livros não
concordam com as adaptações dos filmes, pois em seu imaginário, com suas
vivências, haviam desenhado a história de forma diferente.
Os seres humanos têm a necessidade de explicar o que está ao seu redor e
quando há a incapacidade de formular tal explicação, incorrem na criação de mitos.
A linguagem não dá conta de transmitir algo tal e qual é. Ao descrevermos
algo, sempre nos colocamos no presente. O passado independe de nossas
narrativas, nenhuma história está deslocada do que estamos vivendo hoje, nos
aproximamos desse passado quando reconhecemos que as interpretações não são
válidas para sempre e que, no decorrer do tempo, elas podem mudar.

Referência:
PALMER, Richard. Hermenêutica. Edições 70. Lisboa. 1996. p. 23 a 41 e p.243 a
254.