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Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 21-35

http://submission-pepsic.scielo.br/index.php/rpot/index Uma publicação da Associação Brasileira de


ISSN 1984-6657 Psicologia Organizacional e do Trabalho

Artigo - Relato de Pesquisa Empírica

O exercício Profissional do Psicólogo do Trabalho e das


Organizações: Uma Revisão da Produção Científica
Fellipe Coelho-Lima*
Ana Ludmila Freire Costa*
Oswaldo Hajime Yamamoto*
* Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Campus Universitário, Centro de Ciências Humanas Letras e Artes, Departamento de
Psicologia, sala 614, Lagoa Nova, Natal/RN, CEP 59078-970, Caixa-Postal: 1622. Telefone: 84 3215.3590, Ramal 212.

Resumo
O objetivo da pesquisa foi analisar características da profissão de psicólogo da área da Psicologia Organizacional e
do Trabalho a partir da produção científica sobre o tema. Foram identificados 22 artigos a partir de bases de dados
eletrônicas, selecionados por meio de juízes. Por meio de uma leitura minuciosa dos textos, agrupou-se o conteú-
do dos materiais em três eixos. No Eixo 1, foram identificadas três posições a respeito do papel do psicólogo neste
contexto; no segundo, evidenciou-se as principais críticas a essa subárea; e o último eixo apresenta as prescrições
apontadas pelos autores para a psicologia do trabalho. Desse quadro geral, conclui-se que há dois movimentos
centrais na área: um de permanência de certas problemáticas do campo ao longo dos anos, e outro da coexistência
de duas perspectivas ideopolíticas. Os resultados indicam a necessidade de que o campo, mais do que se polarizar,
deve buscar o diálogo entre as duas posições a fim de avançar em questões nodais.

Palavras-chave: atuação do psicólogo; psicólogo no contexto do trabalho; produção científica; método compa-
rativo constante.

Abstract
The professional practice of the psychologist in the organization and work
context: a review of scientific production

This paper analyzes features of the profession of psychologist in the area of Organizational and Work Psychology
present in the scientific literature. Through a detailed reading, the content of texts were grouped in three axes.
The results were arranged in three axes. The first one presents the role of the psychologist in the work context,
the second axis brings out the major criticisms of the field, and the last assembles the requirements for impro-
ving development of the field. This scenario reveals two central movements in the area: one, the maintenance of
certain issues over the years, and the other, the co-existence of two opposite ideopolitical perspectives, towards
the organizations or towards the workers. The main conclusion refers to the idea that, rather than polarizing, the
field needs to seek dialogue between these two positions in order to move forward on central topics.

Keywords: psychologist’s professional practice; psychologist in the context of work; scientific production; Cons-
tant Comparative Method.

Lima, Costa & Yamamoto. Profissão de Psicólogo no contexto do Trabalho

Recebido em: 06.06.2011


Aprovado em: 21.11.2011
Publicado em: 30.12.2011
22 Lima, Costa & Yamamoto

A
história da inserção do psicólogo no aposentadoria, invalidez, e também os que se
contexto do trabalho, que remonta inserem em novos arranjos produtivos, como
ao desenvolvimento da própria Psi- as cooperativas e trabalho voluntário.
cologia no Brasil, é permeada de polêmicas Outra abordagem sobre a constituição
que abrangem desde a sua denominação, as histórica da Psicologia Organizacional e do
atividades que seriam de sua competência, Trabalho, não restrita ao âmbito nacional, é
até o lugar que o profissional desse campo encontrada em Martin-Baró (1989), Peiró
ocuparia na divisão capitalista do trabalho. (1996) e Borges, Oliveira e Morais (2005). Se-
A literatura registra diversas tentativas gundo esses estudiosos, o primeiro momento
de sistematização da evolução da área. Para dessa Psicologia seria caracterizado por um
Sampaio (1998) e Freitas (2002), a Psicologia enfoque individualista, ligado diretamente
do Trabalho e das Organizações se desenvol- ao contexto do capitalismo mais tradicional,
veu no Brasil em três fases. A primeira cor- com a consolidação do setor industrial, pro-
responderia à chamada Psicologia Industrial, dução em massa, extensão da jornada de
inaugurada em meados da década de 1930, trabalho, fragmentação e desqualificação do
quando o profissional ainda era intitulado de fazer laboral. Com as mudanças sociopolitico-
psicotécnico. O trabalho do psicólogo resu- econômicas e o consequente fortalecimento
mia-se, primordialmente, à seleção e à colo- dos movimentos sindicais e das lutas traba-
cação profissional no ambiente de indústrias, lhistas (Antunes, 1999), essa abordagem teria
especialmente nas empresas ferroviárias. O se mostrado limitada frente às demandas das
segundo momento é identificado pelos auto- organizações. Assim, a Psicologia nesse con-
res como o da Psicologia Organizacional, re- texto teria adotado o enfoque sistêmico, ca-
presentando uma ampliação do objeto-alvo racterizado pela ampliação de seu objeto de
sem, contudo, uma ruptura radical com a fase análise do nível individual para o grupal e or-
anterior, visto que os psicólogos permane- ganizacional. O ambiente de trabalho passou
ceriam voltados a assegurar a produtividade a ser visto como um sistema com elementos
das empresas. Nessa fase, agregam-se às ati- inter-relacionados e dinâmicos e as atividades
vidades provenientes da Psicologia Industrial, do psicólogo se voltaram para o ajuste da or-
ações com os grupos que compõem a organi- ganização ao indivíduo e vice-versa. Mais uma
zação. A última fase corresponderia à Psicolo- vez, seguindo o movimento de reestruturação
gia do Trabalho, considerada um campo cujo do capital em escala mundial e seus efeitos
aspecto central seria “o estudo e a compre- sobre as empresas, sociedade e a organização
ensão do trabalho humano em todos os seus da classe trabalhadora (Antunes, 1999; Har-
significados e manifestações” (Lima, 1994, vey, 2010), é construída uma nova abordagem
p. 53). Fortemente influenciada pelos pres- para essa Psicologia. Neste contexto, Martin-
supostos da Psicologia Social Crítica, a Psico- -Baró (1989) chama este terceiro ciclo de En-
logia do Trabalho considera o trabalho uma foque Político, pois para a intervenção em
construção histórica e social, com influências Psicologia do Trabalho se faz necessária uma
significativas sobre a subjetividade e saúde análise do comportamento que leve em conta
do trabalhador (Tomanik, 2003; Veronese, mediações políticas e tratem, em um âmbito
2003). Zanelli e Bastos (2004) indicam que, estratégico, as políticas organizacionais e as
nos dias atuais, a atenção à saúde (mental) do políticas públicas de trabalho e emprego.
trabalhador cresce como subcampo e faz com Outra tentativa de periodização, tam-
que o psicólogo ultrapasse os limites conven- bém não referente ao quadro brasileiro, é
cionais da área, lidando com categorias ocu- oferecido por Shimmin e Strien (1998), que
pacionais diversas, como aqueles que vivem pensam o desenvolvimento da área em três
em situação de desemprego/subemprego, de etapas, cada uma delas marcada por res-

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Profissão de Psicólogo no contexto do Trabalho 23

postas cada vez mais complexas a contextos seus determinantes, levantando os elementos
sociais, econômicos, políticos e tecnológicos que conferiram o contorno atual para esse fe-
igualmente mais complexos. A primeira, a da nômeno. Sem tal compreensão histórica dos
Psicologia Industrial, corresponderia ao pe- fenômenos torna-se inviável qualquer aproxi-
ríodo de estabelecimento da profissão, que mação com a sua essência que é, necessaria-
iria até 1945, é definida de maneira análoga mente, expressa e construída social, espacial
às outras classificações já referidas. A Psicolo- e temporalmente (Kosik, 1963/2002).
gia Organizacional, estruturando-se nos dois O presente estudo partiu dessa consta-
períodos subsequentes (expansão e consoli- tação e, na tentativa de contribuir para o de-
dação pós-Segunda Guerra, até 1960; e reo- bate sobre as características da área, focalizou
rientação, nos anos de 1960-70), transita das a atenção para o pensamento expresso pelos
abordagens e métodos do período preceden- pesquisadores do campo Psicologia Organiza-
te a uma crítica a estes, buscando ultrapassar cional e do Trabalho na sua produção sobre a
as abordagens no nível micro para interven- profissão.
ções mais globais. O período atual corres- Bastos (2003) afirma que a comunidade
ponderia ao terceiro período, o da Psicologia científica dessa área ainda era restrita e a sua
Organizacional e do Trabalho, marcada pela produção científica vinculava-se estritamente
necessidade de responder às transformações às temáticas e tendências internacionais nos
no mundo do trabalho, a partir de uma pers- primeiros anos do século XXI, contudo o cená-
pectiva socioconstrutivista. rio atual não é mais o mesmo. Essas mudanças
Como se pode verificar nos esforços se traduzem na criação da Associação Brasilei-
empreendidos pelos autores referidos, as pe- ra de Psicologia Organizacional e do Trabalho
riodizações propostas têm por base diferentes (SBPOT), em 2001, do seu respectivo congres-
compreensões do que seria o papel do psicó- so bienal (CBPOT), com primeira edição em
logo no campo do trabalho, refletindo leituras 2004 e da Revista de Psicologia Organizacio-
da realidade a partir de marcos sociopolíticos nal e do Trabalho (rPOT). No mesmo período
diversos. As classificações e cronologias têm, despontaram outras duas revistas científicas
também, uma função didática, como adver- na área: os Cadernos de Psicologia Social do
tem os próprios autores. Trabalho – coordenado pela USP – e a Revista
Nessa direção, a análise das atividades Brasileira de Orientação Profissional – vincula-
desenvolvidas pelos profissionais e da própria do a Associação Brasileira de Orientação Pro-
produção científica do campo, aponta que é fissional. Além disso, registram-se os esforços
impossível advogar-se por uma linearidade na dos Grupos de Trabalho da Associação Nacio-
história da Psicologia do Trabalho e das Orga- nal de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicolo-
nizações (Gondim, Bastos & Peixoto, 2010). gia e das diversas linhas de pesquisa criadas
Em outras palavras, fica claro que as fases nos programas de pós-graduação que vêm fo-
apresentadas são construídas em determina- mentando estudos no campo (Borges, 2010).
dos momentos históricos, mas a emergência Contudo, como ressaltado por Botomé
de uma não implica a eliminação das demais: (1988), tão importante quanto conduzir pes-
em cada contexto histórico e social estabele- quisas e construir conhecimento que subsidie
ce-se uma dinâmica de interação entre as “fa- a prática profissional, é promover sistematiza-
ses”, o que impele uma maior complexidade ções do conhecimento produzido até então,
na compreensão dos determinantes do de- de forma a analisar os avanços alcançados e
senvolvimento desse campo. identificar os desafios postos à comunidade
Tal esforço em apresentar, em linhas ge- científica. A área da Psicologia tem se dedi-
rais, a reconstrução histórica do campo justifi- cado a avaliar a produção científica sobre a
ca-se pela necessidade de se compreender os profissão no Brasil (p.ex., Coelho-Lima, Cos-

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ta & Yamamoto, 2010; Souza Filho, Belo & ganizações, referendada pelo recurso a juízes.
Gouveia, 2006; Tonetto, Amazarray, Koller & O conjunto final analisado é composto por
Gomes, 2008; Yamamoto & Costa, 2010; Ya- 22 artigos dos 323 identificados pelo projeto
mamoto, Souza & Yamamoto, 1999). Espe- mais amplo. O Anexo traz um quadro iden-
cificamente abordando a produção sobre a tificando cada artigo por um código, que foi
Psicologia do Trabalho e das Organizações, o atribuído pela equipe da pesquisa e utilizado
material ainda é escasso (p.ex., Bastos, Fran- nos resultados; referência completa e breve
ça, Pinho & Pereira, 1997; Borges-Andrade & descrição do conteúdo.
cols.,1997; Borges-Andrade & Pagotto, 2010; Uma caracterização geral desse mate-
Tonelli, Caldas, Lacombe & Tinoco, 2003; To- rial aponta que os 22 artigos foram publica-
netto, Amazarray, Koller & Gomes, 2008). dos entre 1978 e 2008 em 11 revistas diferen-
Incluindo-se no escopo desses traba- tes, que tinham a sua linha editorial dedicada
lhos, a presente pesquisa pretendeu investi- ou à Psicologia, ou a alguma das subáreas (Or-
gar o que tem sido publicado em periódicos ganizacional e do Trabalho ou Social). Em sua
da área da Psicologia no Brasil sobre a pro- maioria, foram produzidos individualmente
fissão de psicólogo no campo da Psicologia (nove deles são produções coletivas), sendo
Organizacional e do Trabalho. Nessa direção, os autores principalmente da região Sudeste
objetivou-se caracterizar tal produção quanto (10) e Sul (11), havendo participação também
às discussões sobre o papel desse psicólogo, de autores do Nordeste (2), Norte (1) e um de
as críticas que são realizadas a essa profissão nível Nacional. Eles são resultados principal-
no contexto do trabalho, bem como as pres- mente de ensaios teóricos (14), com relatos
crições apontadas para o campo. de pesquisa (6) e de experiência (2) com uma
menor frequência.
A PESQUISA A análise do conteúdo na íntegra dos
O presente estudo é um dos desdobra- artigos foi realizada por uma leitura minucio-
mentos do projeto “Historiografia da produ- sa e constante do material textual, buscando
ção sobre a profissão de psicólogo no Brasil”, partir de afirmações mais simples e imedia-
tendo como recorte os materiais em formato tas a ideias mais abstratas e gerais, tendo
de artigo publicado em periódicos científicos como norte os materiais concretos. Com
brasileiros. isso, de cada leitura foram abstraídas cate-
A coleta ocorreu entre o segundo se- gorias que, em um primeiro momento, eram
mestre de 2008 e o ano de 2009, quando hou- particulares de cada documento, procuran-
ve a busca de material nas principais bases de do, em momentos posteriores, aproximar as
dados eletrônicas1. A leitura dos resumos dos categorias entre si, até a formulação daque-
trabalhos viabilizou a classificação dos docu- las que conseguiram estar presente no maior
mentos em Psicologia do Trabalho e das Or- número possível de casos.
1 As bases de dados utilizadas para a coleta foram: 1) a Auxiliando na compilação, organização
Biblioteca Virtual em Saúde – Psicologia (BVS-PSI), que e análise do material, foram utilizados os sof-
por sua vez engloba a Scientific Eletronic Library Online twares Microsoft Office Excel 2007 (para as in-
(SciELO), a Literatura Latino-Americana e do Caribe
em Ciências da Saúde (LILACS), o Index Psi Periódicos formações bibliométricas) e o QDA Miner 3.2
Técnicos-Científicos, o Index Psi Periódicos de Divulgação (para a análise do conteúdo).
Científica e o Periódicos Eletrônicos em Psicologia
(PePSIC); 2) o Catálogo Global On-line (DEDALUS) do A partir da leitura geral de todos os tra-
Sistema Integrado de Bibliotecas da USP (Sibi-USP) e balhos, foi possível reunir os conteúdos em
3) o sítio eletrônico Psicologia Online, do Conselho
Federal de Psicologia. Dada a especificidade do tema três eixos principais que, por sua vez, contém
em questão, realizou-se uma coleta complementar, no categorias mais específicas de análise, que
primeiro semestre de 2010, nos periódicos “Cadernos
de Psicologia Social do Trabalho” e “Revista Psicologia:
são apresentadas na Tabela 1.
Organizações e Trabalho”.

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Profissão de Psicólogo no contexto do Trabalho 25

Tabela 1. Resumo dos eixos e categorias analisadas

Eixos Categorias

Compromisso com a empresa, em detrimento dos trabalhadores


O papel do psicólogo no
Equidade entre o compromisso com a empresa e com os trabalhadores
contexto do trabalho
Compromisso com os trabalhadores, em detrimento da empresa

Avaliação negativa da profissão pelos próprios psicólogos

Regulação dos trabalhadores


Críticas à profissão de psicólogo
Defasagem teórica e prática
no contexto do trabalho
“Clinicismo”

Deficiência na formação do psicólogo para o campo do trabalho

Atualização dos currículos de Psicologia


Prescrições para a profissão Apropriação de bases teórico-filosóficas pelos profissionais
de psicólogo no contexto do
trabalho Promoção de inovações na atividade profissional do psicólogo

Adoção de novos rumos gerais para profissão

OS ARTIGOS -la em três gradações, conforme se referem a


De maneira geral, percebe-se que os esse binômio.
artigos tratam, em sua maioria, ou da descri- Em A10, L136 e L380, percebe-se o com-
ção das atividades do psicólogo ou da análise promisso do psicólogo primeiramente com as
do papel desse profissional, conforme Anexo. empresas e, posteriormente, com os trabalha-
Mesmo considerando o pequeno volume de dores. De maneira geral, para esses autores, é
artigos em comparação a outras subáreas da necessário que se atue junto aos sujeitos que
Psicologia (Costa, Amorim & Costa, 2010), a compõem a organização a fim de se aperfei-
análise demonstra que tanto profissionais çoar o desempenho da empresa. Estão inseri-
como acadêmicos estão preocupados, ao lon- das as considerações de que o psicólogo deve
go dos anos, com o modo pelo qual a profis- atuar em setores de Recursos Humanos (A10,
são de psicólogo no contexto do trabalho vem L380 e L474) e de maneira macro organizacio-
se desenvolvendo. nal (D343, J365, L380, L474, L479 e M94).
Também foi possível identificar textos
que colocam lado a lado o compromisso com
Eixo 1: O papel do psicólogo no contexto do a empresa e com os trabalhadores. Neste gru-
trabalho po, incluem-se os trabalhos J46, L222, L479 e
Esse eixo trata das posições que os au- M94, que expressam a impossibilidade de o
tores defendem quanto ao lugar que o psicó- psicólogo escapar do seu duplo compromisso
logo deve ocupar no contexto do trabalho, dentro das organizações: por um lado, deve
isto é, qual o fundamento de sua ação, seus atuar a favor do desenvolvimento dos traba-
objetivos, metas e compromissos. Quase to- lhadores, realizando atividades voltadas para
dos os artigos (19 de 22) apresentaram algum a promoção de Saúde Mental destes; por
conteúdo dessa natureza. outro, ele deve atuar em prol dos resultados
Foi possível extrair o tipo de relação empresariais, principalmente quanto ao in-
esperada entre o psicólogo com a empresa e cremento da produtividade e competividade.
com os trabalhadores, sendo possível arranjá- A última perspectiva, por seu turno,

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defende a tese de que o psicólogo deveria tros profissionais. Essas questões são atuali-
se comprometer, prioritariamente, com os zadas ao longo dos anos e adiciona-se, a esse
trabalhadores, estando em segundo plano, o quadro, o desconhecimento das lideranças
compromisso com a empresa. L223 e NV02 organizacionais sobre o real papel do psicó-
apresentam essa posição, na medida em que logo nesse contexto (A10, J304), a carga ex-
apontam o psicólogo como um profissional cessiva de trabalho e a deterioração de outras
que deveria possuir no horizonte final de esferas da vida do psicólogo em favor da sua
suas ações propostas de melhoria de vida e atividade profissional (J304).
das condições de trabalho para o trabalhador. A regulação dos trabalhadores para a
Outros autores radicalizam essa proposta e promoção da produtividade organizacional é
consideram que, em última instância, os psi- outro foco de críticas presente principalmente
cólogos nos contextos do trabalho, deveriam em A07, D21, D343, J304, J367 e NV01. No fi-
promover o desenvolvimento e emancipação nal da década de 1980, em A07, afirma-se que
dos trabalhadores, atuando conforme as ne- a entrada do psicólogo nas empresas ocorreu
cessidades dos homens e mulheres e não do ao passo em que a coerção física aos traba-
sistema (J146, F25, J367 e NV01). lhadores começou a ser limitada. Uma década
Assim, o que se depreende a partir da depois, o texto NV01 reiterou que “as perspec-
análise desse eixo é a presença do binômio tivas para a psicologia na área organizacional
capital-trabalho como pano de fundo para se são excelentes, (...) pois nunca se necessitou
definir o lugar do psicólogo nas organizações tanto de um aparato ideológico tão bem fun-
e no trabalho. Ou seja, de maneira direta ou damentado” (p. 51), sendo o psicólogo res-
indireta, as categorias transitam de modos es- ponsável por garantir que os trabalhadores
pecíficos entre os dois pólos, mas não os per- não necessitem de regulações externas, mas
dem de vista. que sejam autorregulados (D343, J304, NV01).
Deve-se ter em mente, para essa aná- Há também uma crítica mais geral so-
lise, que a definição do espaço ocupado por bre a defasagem teórica e prática desses pro-
esses psicólogos – as organizações de traba- fissionais, proposta em D21, F25, J46, J365,
lho, seja privada, pública, sem fins lucrativos, L222, L380, L382, L474, M94 e NV01. Na se-
entre outras – já torna patente a necessidade gunda metade de 1980, em L222, afirmava-
de se refletir sobre essa relação, já que ela se -se que o profissional da área se encontrava
expressa claramente no cotidiano desse pro- desamparado teórico-metodologicamente,
fissional (Oddone & cols., 1981, citado por tendo que importar os conhecimentos pro-
Sato, 2010). duzidos em outros países. Dez anos depois,
o texto L382 resgatou o tema e avançou em
Eixo 2: Críticas à profissão de psicólogo no tais críticas, ao definir que a principal falta de
contexto do trabalho fundamentação é com relação ao mundo do
A apreciação dos artigos em questão trabalho, relações de trabalhos e processos
proporcionou também a identificação de di- grupais, além de o profissional possuir uma
versas críticas que os autores fazem à área. visão arcaica sob o fenômeno humano. Já so-
Esse conteúdo está organizado no Eixo 2, abri- bre a defasagem da atuação, em L474 denun-
gando seis categorias distintas. ciava-se a carência de embasamento crítico e
A primeira se refere à avaliação negativa integrativo dos profissionais, atrelada a uma
que os próprios psicólogos fazem da sua ati- atuação superficial e em L380 criticava-se a
vidade. F440 apontou que esses profissionais permanência do psicólogo nos níveis técnicos
avaliavam negativamente, principalmente, a de ação, tendo dificuldades de inserção nos
remuneração, a satisfação com o trabalho, as níveis estratégicos da empresa. Sobre a entra-
condições para atuação e interação com ou- da dos psicólogos em novos contextos de tra-

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balhos, como nas cooperativas, o artigo F25 dade econômica e social e saúde mental do
afirma que as bases teóricas e instrumentais trabalhador (D21, L382 e L474).
baseadas nos locais tradicionais de atuação Em resumo, é importante notar que
desse psicólogo – os setores de Recursos Hu- os autores estabelecem uma relação entre a
manos – não oferecem subsídios às atividades má qualidade da formação e a atuação, sen-
nos novos espaços. do nesta última categoria o ponto central e,
Outra categoria se relaciona com esta direta ou indiretamente, explicativo para as
última: o “clinicismo”. Presente nas críticas de demais críticas arroladas na literatura. Pes-
J367, L136, L222, L380 e L474, essa categoria quisas mais restritas a essa temática (Bote-
se refere ao comportamento dos profissionais lho, 2003; Freitas, 2002; Guareschi & Freitas,
em priorizarem a clínica, em detrimento das 2004; Iema, 1999; Zanelli, 1994, 1995, 2002)
demais áreas. Historicamente, quatro conse- corroboram tal análise e denunciam exata-
quências são listadas para essa situação: (a) mente essa defasagem entre a formação e o
o profissional acaba extrapolando o emba- preparo do psicólogo para atuar no contexto
samento clínico que possui para o ambiente do trabalho.
organizacional (L474), (b) há a descaracteriza-
ção da identidade profissional do psicólogo no Eixo 3: Prescrições para a profissão de
contexto do trabalho (L222), (c) negligencia-se psicólogo no contexto do trabalho
a compreensão do comportamento a partir do O último eixo engloba as possibilidades
paradigma do trabalho, em favor da dicotomia indicadas pelos autores para um desenvol-
saudável/não saudável, que se mostra contra- vimento mais consistente da profissão. Tais
producente (J367) e (d) há desvalorização das apontamentos estão agrupados em quatro
atividades específicas do ambiente organiza- categorias distintas.
cional, quando comparado com a atuação nos O primeiro conjunto, melhoria na for-
consultórios particulares (L380). mação, aparece em J365, L136, L382 e L474,
A última categoria é a que reúne maior cujas indicações se referem à atualização dos
volume, tanto de comentários, como de arti- currículos dos cursos de Psicologia, nos quais
gos (D21, F440, J365, L136, L222, L223, L380, deveria haver maior dedicação a disciplinas
L382, L474 e M94): a deficiência na formação relacionadas à Psicologia Organizacional e do
do psicólogo para atuar no contexto do traba- Trabalho, bem como interfaces com outros
lho. Essa crítica desponta na literatura desde campos, como a Administração e a Economia.
final da década de 1970, com L136 que rela- Esses autores concordam que é necessário
ciona a má formação desse psicólogo à limi- que haja uma maior aproximação tanto entre
tação da sua ação e à dificuldade de inserção a teoria e a prática, como entre a realidade
plena dentro das indústrias. Essa posição é social brasileira e os conteúdos tratados nas
reafirmada, posteriormente, por J365, L380, disciplinas. De maneira geral, essas indicações
L382 e L474. As problemáticas mais recor- encontram forte respaldo nas críticas que es-
rentes relacionadas à formação desse psicó- ses próprios autores elaboraram, presentes
logo são: prioridade dos currículos para dis- no eixo de análise anterior.
ciplinas e conteúdos eminentemente clínicos Outro grupo de prescrições, presente
(J365, L382, L474 e M94); a formação de um em J146, J367, L380 e M94, aponta ser ne-
profissional liberal, distante da realidade de cessário para o psicólogo no contexto do tra-
atuação desse psicólogo (F440, J365 e L474); balho se apropriar de sólidas bases teóricas
o anacronismo e disparidade entre o profis- e filosóficas. Identifica-se nessa literatura, di-
sional formado e a realidade social brasileira retamente, três correntes que são indicadas
(L222, L223 e L474); e o déficit no ensino de como possíveis fundamentos para a atuação
temas como processos organizacionais, reali- desse psicólogo: o paradigma do trabalho de

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tradição marxista (J367), a psicanálise (J146) e muitas das prescrições apontadas pelos au-
o behaviorismo radical (M94). É curioso notar tores possuem forte relação com as críticas
que são exatamente essas correntes teóricas identificadas. Ademais, confirma-se, mais
as citadas como fundamentando a prática des- uma vez, a insatisfação e a urgência para que
ses profissionais em estudos recentes sobre a ocorram transformações no modo como este
profissão de psicólogo no Brasil (Gondim, Bas- campo profissional vem se desenvolvendo.
tos & Peixoto, 2010). Ou seja, mesmo os pro-
fissionais assinalando que fazem uso dessas Considerações sobre a produção a respeito
teorias, ainda parece ser preocupante o modo do psicólogo no contexto do trabalho
como se apropriam e aplicam os conceitos A partir de uma reflexão sobre os arti-
A terceira categoria de prescrições é gos analisados, depreende-se dois movimen-
voltada à necessidade de inovação na ativi- tos centrais expressos nessa produção.
dade profissional do psicólogo no contexto O primeiro deles se refere à existência
do trabalho, sendo corroborada por análises de uma continuidade temporal das principais
de F25, J46, J146, J367, L223 e L479. Essas discussões apontadas sobre a profissão. Inde-
inovações girariam em torno de: (a) atuação pendente do eixo de que se trata, essa dinâ-
proativa e preventiva em vez da tradicional mica é encontrada, refletindo a dificuldade do
postura reativa e remediativa (J46); (b) incen- campo de enfrentar suas principais proble-
tivo às reflexões dentro da própria organiza- máticas. Elencam-se aqui dois determinantes
ção, promovendo o seu autodesenvolvimento centrais para esse quadro histórico.
(L479); (c) inserção em variados contextos, Um deles, levantado pela própria lite-
como sindicatos, grupos de trabalhadores de- ratura analisada, situa-se na inadequação da
sempregados (L223) e cooperativas de traba- formação acadêmica. Havendo um ciclo vicio-
lhadores (F25); e (d) ações que tomem como so no processo formativo (seja nos métodos,
norte o benefício direto dos trabalhadores seja nos conteúdos abordados), os psicólogos
(J146 e J367). Assim, concorrem, dentro da que saem das instituições de ensino superior
mesma categoria, prescrições voltadas para para ingressar no contexto de trabalho aca-
inovações quanto a atividades desempenha- bam por não inovar nem superar diversas
das no interior das empresas e em prol do seu posturas já largamente criticadas. Como já
desenvolvimento, e outras orientadas para o levantado por alguns outros autores (Bote-
desenvolvimento da classe trabalhadora. lho, 2003; Freitas, 2002; Guareschi & Freitas,
A última categoria faz remissão à reo- 2004; Iema, 1999; Zanelli, 1994, 1995, 2002),
rientação da profissão, havendo considera- a formação nesse campo é deficitária tanto
ções de J365, L222, L223, L380, L382, L474 em questões curriculares como de qualifica-
e L479. Aqui, é marcante a indicação da ne- ção dos docentes.
cessidade de o profissional se integrar aos ní- Por outro lado, é preciso relativizar até
veis estratégicos e decisórios da organização, onde essa formação pode ser julgada como
sinalizada desde a década de 1980 (L222) e principal viés do desenvolvimento profissio-
1990 (L380) do século passado. L382 e L479 nal dessa área, uma vez que os psicólogos,
complementam essa reflexão, ao afirmarem ao longo de sua carreira, tendem a entrar em
que também é preciso que esses profissionais contato com outras experiências formativas
avaliem criticamente suas ações, tomando que vão compondo a base para a sua ativi-
como norte os conflitos sociais. Segundo o dade profissional (Yamamoto, Souza, Silva &
texto J365, a reorientação da profissão passa, Zanelli, 2010).
necessariamente, pela inserção efetiva dos Desse modo, é importante integrar
psicólogos nas equipes multidisciplinares. nessa análise, como segundo componente, a
Como pontuado ao longo desta seção, configuração das próprias relações trabalhis-

Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 21-35


Profissão de Psicólogo no contexto do Trabalho 29

tas estabelecidas pelo psicólogo. Percebe-se cífica na dinâmica entre o capital e o trabalho,
que os espaços ocupados por essa categoria uma vez que, tradicionalmente, é chamado
profissional, em diversas situações, não viabi- para oferecer subsídios às gerências no pro-
lizam a concretização de ações que escapem cesso de controle de pessoal. Ou, como assi-
as já consagradas. Para tanto, basta constatar nalado por Figueiredo (1989), o psicólogo tra-
que, dos artigos aqui analisados, aqueles que balha como um mantenedor do status quo,
apresentam atuações voltadas a novos pú- garantindo a pacificação e o direcionamento
blicos e propõem atuações diferenciadas são dos trabalhadores de acordo com as neces-
gestadas dentro de experiências acadêmicas sidades das empresas. É exatamente desse
de extensões ou de reflexões teóricas. Com contexto histórico que emerge a perspectiva
isso, as inovações nessa área restringem-se a orientado para as empresas e para o desen-
um fazer prático e técnico, e não de pressu- volvimento do capital.
postos ético-políticos. Contudo, sabe-se que nas décadas de
Resgatando as análises empreendidas 1970 e 1980, principalmente nos países eu-
por Iamamoto (1998, 2007), é possível am- ropeus e latino-americanos, construiu-se um
pliar esse debate, ao considerar que a ativida- movimento crítico dentro da Psicologia que
de profissional exercida pelos psicólogos, nos propunha a reorientação de diversas atua-
diversos contextos do trabalho, é perpassada ções, decorrente, em grande parte, da di-
por relações internas de poder, determinada nâmica política da época (período posterior
por seu contrato de trabalho. Com isso, as aos governos autocráticos burgueses), bem
políticas institucionais não podem ser con- como da aproximação dos psicólogos com as
sideradas como meros objetos extrínsecos a demandas sociais (Bernardes, 2005). Nesse
sua ação, mas sim condicionantes das ativida- momento, passou-se a observar questiona-
des que são desenvolvidas. Por outro lado, a mentos dirigidos às teorias tradicionais indi-
constatação de tal limitação não precisa ser vidualistas que fundamentavam a Psicologia e
tomada como uma subordinação fatalista da aos posicionamentos que excluíam o contexto
profissão aos ditames do capital, uma vez social da compreensão dos fenômenos psico-
em que, em alguma dimensão, ainda é viável lógicos. Assim, os conhecimentos e práticas
a criatividade e independência na atuação da Psicologia do Trabalho e das Organizações
desse profissional. Deste modo, essa análise foram postos em questão, tendo em vista que
evidencia os limites, mas não sepulta as pos- não contabilizavam as demandas dos traba-
síveis inovações que o campo possa oferecer. lhadores nos locais de trabalho. Em contrapar-
Quanto ao segundo movimento identi- tida, foram produzidos estudos e fomentadas
ficado, refere-se à coexistência de duas pers- ações que buscassem essa aproximação entre
pectivas ideopolíticas nos artigos analisados. o psicólogo e os problemas enfrentados pelos
Verifica-se que nos três eixos, de acordo com trabalhadores, atuando diretamente em prol
os pressupostos fundamentais adotados pe- da sua autonomia. Por sua vez, a perspectiva
los autores, as conclusões oscilam, remeten- gestada nesse período foi propalada ao lon-
do-se ora à defesa de uma atuação orientada go dos anos e passou a conviver em paralelo
para a manutenção e desenvolvimento do ca- (mas não de maneira pacífica) com a perspec-
pital organizacional, ora a ações que tenham tiva anterior2.
como meta final a promoção da emancipação A identificação dessa dualidade não é
dos trabalhadores – com diversas graduações novidade no campo. Um exemplo direto é
entre esses dois extremos. a discussão conduzida por Sato (2010), que
Tais perspectivas remontam à origem 2 Respeitando o escopo dessa pesquisa, apenas é possível
afirmar a existência de ambas as perspectivas no período
da atuação do psicólogo no contexto do tra- que compreende a década de 1970 até 2010.
balho, cuja inserção ocorreu de maneira espe-

Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 21-35


30 Lima, Costa & Yamamoto

afirma ser a relação entre a Psicologia e a te- de ocupar os espaços dentro das indústrias
mática do Trabalho mediada por duas abor- e empresas, também não é adequado se fur-
dagens. A primeira, vinculada historicamente tar das preocupações enfrentadas pela classe
com as necessidades dos engenheiros e ge- trabalhadora. A própria literatura analisada
rentes em lidar com os trabalhadores dentro oferece exemplos de integração dessas pers-
das indústrias, tornou-se, ao longo dos anos, pectivas dentro das atividades nas empresas,
a perspectiva hegemônica da área e se ligou, como as atuações relacionadas à Saúde Men-
fundamentalmente, a uma abordagem pro- tal dos Trabalhadores.
fissionalizante. A segunda abordagem, já nos Outras saídas são os locais, exterio-
anos de 1950, no cenário mundial, deriva da res às organizações tradicionais de trabalho,
Psicologia que tratava a questão do Trabalho onde se demanda a atuação dos psicólogos,
para além das organizações. No curso históri- como os Centros de Referência a Saúde dos
co, essa última abordagem tem sido remetida Trabalhadores e os sindicatos. É verdade que
à Psicologia Social (ou da Saúde), não sendo esses contextos representam uma pequena
incorporada nas discussões do primeiro cam- parcela do contingente de vagas disponibiliza-
po – que se consolidou como a Psicologia Or- das para esse profissional, mas podem ser o
ganizacional e do Trabalho. celeiro de potenciais avanços em pontos que,
Esse debate possui implicações claras classicamente, esse campo da Psicologia vem
para o desenvolvimento tanto do conhecimen- sendo criticado.
to psicológico como para o seu campo profis-
sional. A existência em paralelo de ambas as CONSIDERAÇÕES FINAIS
perspectivas, em muitos momentos, tem se As discussões empreendidas, baseadas
mostrado contraproducente no avanço de na análise da produção científica sobre a pro-
questões nodais desse campo da Psicologia. fissão de psicólogo no contexto do trabalho e
É fato que as duas concorrem para aten- das organizações, buscaram colocar em foco
der a demandas distintas: enquanto a pers- as configurações desse campo, tanto no que
pectiva empresarial se alinha com a necessi- diz respeito às suas limitações quanto às pos-
dade de inserção dos psicólogos dentro das sibilidades de avanço.
organizações de trabalho, sendo eles próprios É fato que as discussões aqui empreen-
trabalhadores que se subjugam as agruras didas, apesar de muitas vezes adentrar-se em
das condições mercadológicas; a perspectiva apontamentos gerais para a profissão, encon-
oposta agrega uma dimensão crítica a esses tra limitações, principalmente pelo tipo de
psicólogos que visam desenvolver um com- material analisado. O que se abordou foram
promisso com a classe trabalhadora, o qual, as perspectivas e indicações realizadas pela
por muito tempo, foi renegado. literatura em direção à profissão do psicólo-
Todavia, tal distinção não procura valo- go dentro dos contextos de trabalho. Assim,
rar, moralmente, uma perspectiva em detri- focalizou-se os debates realizados, eminente-
mento da outra. Por outro lado, com o intuito mente, pelo campo acadêmico sobre o campo
de produzir respostas atualizadas aos proble- profissional.
mas complexos que emergem do contexto Esses debates, por sua vez, repercutem
histórico-social atual, percebe-se como mais concretamente na prática dos profissionaisr,
relevante a promoção de maior interação en- tanto por embasar a sua formação básica, gra-
tre as abordagens. As mudanças no mundo do duada, como por subsidiar os estudos poste-
trabalho e do capital, que vem sendo eviden- riores desse profissional. Contudo, não cabe
ciadas pela literatura (Antunes, 1999; Harvey, no escopo das discussões da presente pesqui-
2010), implicam a atualização dessa Psicolo- sa apontamentos sobre as atividades concre-
gia que, se por um lado, não pode se abster tamente desenvolvidas por esses psicólogos.

Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 21-35


Profissão de Psicólogo no contexto do Trabalho 31

Nessa direção, sugere-se que estudos Borges, L. O. (2010). A Psicologia do Trabalho e


posteriores adensem os debates a respeito das das Organizações no Brasil floresce? Estu-
tendências da profissão do psicólogo nos espa- dos de Psicologia, 15, 3, 277-279.
ços laborais pela via da análise das atividades Borges, L. O., Oliveira, A. C. F., & Morais, L. T. W.
A. (2005). O exercício do papel profissional
desenvolvidas pelos profissionais. Ademais,
da Psicologia Organizacional e do Trabalho.
também permanece no horizonte a necessi-
Revista Organizações e Trabalho, 5, 2, 101-
dade de discussões de cunho teórico e político 139.
que contemplem análises mais atuais sobre o Botelho, A. S. O. (2003). Estudo exploratório-des-
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Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 21-35


32 Lima, Costa & Yamamoto

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Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 21-35


Profissão de Psicólogo no contexto do Trabalho 33

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de trabalho. Porto Alegre: Artmed. gia, organizações e trabalho no Brasil (pp.
466-491). Porto Alegre: Artmed.

 Sobre os Autores

Fellipe Coelho-Lima, Membro do Grupo de Pesquisas Marxismo e Educação. Mes-


trando do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio Grande do
Norte. Campus Universitário Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Cen-
tro de Ciências Humanas Letras e Artes, Departamento de Psicologia, sala 613, La-
goa Nova, Natal/RN, CEP 59078-970, Caixa-Postal: 1622. Telefone: 84 3215.3590,
Ramal 211. E-mail: fellipecoelholima@gmail.com.

Ana Ludmila Freire Costa, Membro do Grupo de Pesquisas Marxismo e Educa-


ção. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio
Grande do Norte. Campus Universitário Universidade Federal do Rio Grande do
Norte, Centro de Ciências Humanas Letras e Artes, Departamento de Psicologia,
sala 613, Lagoa Nova, Natal/RN, CEP 59078-970, Caixa-Postal: 1622. Telefone: 84
3215.3590, Ramal 211. E-mail: analudmila@gmail.com.

Oswaldo Hajime Yamamoto, Coordenador do Grupo de Pesquisas Marxismo e


Educação. Professor Titular do Departamento de Psicologia da Universidade Fe-
deral do Rio Grande do Norte. Campus Universitário Universidade Federal do Rio
Grande do Norte, Centro de Ciências Humanas Letras e Artes, Departamento de
Psicologia, sala 614, Lagoa Nova, Natal/RN, CEP 59078-970, Caixa-Postal: 1622.
Telefone: 84 3215.3590, Ramal 212. E-mail: oswaldo.yamamoto@gmail.com

Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 21-35


34 Lima, Costa & Yamamoto

ANEXO

Anexo 1. Temas dos artigos analisados

ID Referência Descrição do trabalho

Reflete, com base na análise da história da classe


Mello, S. L. (1989). O psicólogo e as organizações.
A07 trabalhadora brasileira, sobre o papel do psicólogo nas
Boletim de Psicologia, 39, 90-1, 59-64.
organizações

Campos, K. C. L., e Lomônaco, J. F. B. (2003). O protótipo


Levanta as representações que os alunos do curso de
do psicólogo organizacional: um estudo exploratório
A10 Psicologia possuem sobre a atuação do psicólogo nas
com graduandos de um curso de Psicologia. Boletim de
organizações
Psicologia, 53, 118, 73-87.

Jacques, M. G. C. (2007). O nexo causal em saúde/


doença mental no trabalho: uma demanda para a Indica possibilidade de atuação do psicólogo junto à
D21
Psicologia. Psicologia & Sociedade, 19, especial, 112- saúde mental do trabalhador
119.

Merhy-Silva, F. N. (2008). Lobo mau: analisador da


Analisa, baseado em experiência de campo e reflexões
transversalidade entre organização do trabalho e
D343 teóricas, o lugar do termo “lobo mau da Psicologia” e da
saúde mental? Fractal: Revista de Psicologia, 20, 1, 41-
atuação do psicólogo na saúde mental do trabalhador
64.

Coutinho, M. C.; Beiras, A.; Picinini, D., e Lückmann, G. L.


(2005). Novos caminhos, cooperação e solidariedade: a Relata uma experiência de atuação do psicólogo com
F25
Psicologia em empreendimentos solidários. Psicologia empreendimentos solidários
& Sociedade, 17, 1, 7-13.

Borges-Andrade, J. E. (1990). A avaliação da profissão,


Identifica, junto aos psicólogos inseridos nas
F440 segundo os psicólogos da área organizacional.
organizações, quais as opiniões deles sobre a profissão.
Psicologia: Ciência e Profissão, 10, 1, 19-23.

Azevedo, B. M., e Cruz, R. M. (2006). O processo de


Apresenta um modelo a ser utilizado pelos psicólogos
J46 diagnóstico e de intervenção do psicólogo do trabalho.
na descrição do trabalho.
Cadernos de Psicologia Social do Trabalho, 9, 2, 89-98.

Campos, C. I. C. M. e Vaisberg, T. M. J. A. (2003).


Propondo intervenções clínicas psicanalíticas
Propõe contribuições da Psicanálise para a intervenção
J146 no ambiente de trabalho. Diálogo - Revista do
junto a trabalhadores.
Departamento de Psicologia e Psicanálise Londrina, 3,
1, 11-17.

Silva, P. C. e Merlo, A. R. C. (2007). Prazer e sofrimento


Identifica as fontes de prazer e sofrimento dos
J304 de psicólogos no trabalho em empresas privadas.
psicólogos em organizações privadas.
Psicologia: Ciência e Profissão, 27, 1, 132-147.

Bastos, A. V. B., e Galvão-Martins, A. H. C. (1990). O


Elenca quais são as atividades desenvolvidas pelos
J365 que pode fazer o psicólogo organizacional. Psicologia:
psicólogos nas organizações.
Ciência e Profissão, 10, 1, 10-18.

Jacques, M. G. C. (1989). Uma proposta de Reflete teoricamente sobre a profissão de psicólogo


J367 redimensionamento do papel do psicólogo do nas organizações, fundamentada em uma análise
trabalho. Psico (Porto Alegre), 17, 1, 15-21. histórica da Psicologia como profissão.

Batitucci, M. D. (1978). Psicologia Organizacional: uma Reflete sobre a condição profissional do psicólogo
L136 saída para uma profissão em crise no Brasil. Arquivos nas organizações e descreve uma proposta de
Brasileiros de Psicologia Aplicada, 30, 1/2, 137-156. especialização para esses profissionais.

Tupinamba, A. C. R. (1987). A Psicologia Organizacional


Realiza um levantamento histórico sobre o campo
L222 no Brasil: sua evolução e situação atual. Revista de
profissional da Psicologia Organizacional e do Trabalho.
psicologia, 5, 2, 95-104.

Dittrich, A. (1999). Psicologia organizacional e Discute teoricamente o que é a globalização, seus


L223 globalização: os desafios da reestruturação produtiva. efeitos e implicações para a atuação do psicólogo do
Psicologia: Ciência e Profissão, 19, 1, 50-65. trabalho.

Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 11, 2, jul-dez 2011, 21-35


Profissão de Psicólogo no contexto do Trabalho 35

Farina, A. S., e Neves, T. F. S. (2007). Formas de lidar


com o desemprego: possibilidades e limites de um
Apresenta um projeto de intervenção de psicólogos
L360 projeto de atuação em Psicologia Social do trabalho.
junto a trabalhadores desempregados.
Cadernos de psicologia social e do trabalho, 10, 1, 21-
36.

Gagno, A. P. e Venturi, E. P. C. (1997). Atuação


dos psicólogos que trabalham em empresas que Caracteriza a atuação do psicólogo nos programas de
L380
desenvolvem programas de qualidade. Interação Qualidade Total.
(Curitiba), 1, 43-72.

Venturi, E. P. C. (1996). Atuação do psicólogo


Mapeia, junto aos profissionais, a situação dos
L382 organizacional em Curitiba. Psicologia argumento, 14,
psicólogos nas organizações de Curitiba.
18, 31-48.

Zanelli, J. C. (1986). Formação e atuação em Psicologia Identifica deficiências da atuação e formação do


L474 Organizacional. Psicologia: Ciência e Profissão, 6, 1, 31- psicólogo nas organizações, por meio de uma reflexão
32. teórica.

Malvezzi, S. (1990). Produtividade versus saúde mental Discute teoricamente a relação entre produtividade e
L479 do trabalhador? Psicologia: Ciência e Profissão, 10, 1, saúde mental do trabalhador, focalizando o psicólogo
6-7. nas organizações.

Tadaiesky, L. T. (2008). Métodos de seleção de


pessoal: discussões preliminares sob o enfoque do Indica contribuições teórico-metodológicas do
M94
Behaviorismo radical. Psicologia: Ciência e Profissão, behaviorismo radical para a seleção de pessoal.
28, 1, 122-137.

Heloani, R. (1999). A identidade do psicólogo do


Reflete, baseado no processo de globalização, sobre o
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