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Porto Alegre, 11 de novembro de 2011.

Exmo. Sr. Desembargador Leo Lima

Presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul

A Associação Nacional de História (ANPUH), sua seção Rio Grande do Sul


(ANPUH-RS) e os representantes dos Cursos Superiores de História do estado
consideram altamente meritória a iniciativa do Poder Judiciário, que buscou
consultar os profissionais da área da História para discutir esse importante
processo de organização e preservação da massa documental acumulada, e que
consideramos de imenso e insubstituível valor para o conhecimento de nossa
sociedade, através dos registros armazenados no Arquivo Judicial desse Tribunal.
Compreendemos, também, a necessidade de uma administração adequada
desses conjuntos documentais, na medida em que seu volume excessivo
consome recursos que sempre são reduzidos, face aos investimentos que se
precisa fazer para responder à demanda da sociedade, que vê na Justiça o
espaço correto para a resolução de conflitos.

No entanto, entendemos que a forma com que se está desenvolvendo essa


proposta não é adequada, pois impede uma consideração apropriada do
significado social desses documentos. Eles são importantes para que se possa
interpretar os processos históricos vivenciados no nosso Estado, o que se dá
através do contato com tais informações ali coligidas. Além disso, é fundamental
destacar que o Judiciário não é o proprietário dessa documentação, sendo
somente seu guardião, pois estes documentos, na verdade, pertencem a todo a
sociedade. Assim, querer dispor desses processos através de medidas extremas

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atenta contra essa perspectiva, podendo causar prejuízos irreparáveis a todos os
que se interessam pela História e pela cidadania.

Entendemos também que não podemos ser convocados a realizar uma


atividade limitada, desenvolvida somente no final dos procedimentos
administrativos, numa proposta que pretende exigir do profissional da História a
escolha e preservação dos documentos ditos “interessantes”, pois isso, além de
contrariar tudo o que se tem preconizado na historiografia das últimas décadas,
ainda atenta contra o bom senso, na medida em que impede quaisquer critérios
objetivos para sua execução, pois o que pode ser um critério “interessante” para
um profissional, pode não ser para outro, e vice-versa. Por fim, também não
guarda nenhuma lógica com procedimentos operacionais adequados, já que
significa nova revisão do conjunto documental, que foi anteriormente avaliado
para se identificar outros requisitos.

Tendo em vista o exposto até o momento, os historiadores aqui


representados optam por não participar da comissão interdisciplinar proposta sem
as garantias de atendimento as nossas reivindicações e de que essas poderão
influenciar concretamente no processo de avaliação, preservação e descarte dos
documentos custodiados pelo Tribunal.

Outrossim, nos propomos a participar, neste momento, da avaliação da


tabela de temporalidade sugerida pelo CNJ, juntamente com arquivistas e outros
profissionais específicos, adquirindo subsídios sobre as tipologias documentais
geradas pelo Poder Judiciário em seu funcionamento, para, com uma noção mais
clara do acervo custodiado pelo TJ/RS, podermos propor efetivas regras de
arranjo, descarte ou guarda permanente.

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Aproveitamos para sugerir ao Tribunal que, o mais breve possível, promova
concurso público para a contratação de profissionais da área de História, capazes
de participar da gestão documental da instituição, bem como a disponibilização
adequada dos documentos aos pesquisadores e à sociedade em geral.

Como contribuição, apresentamos as seguintes proposições a serem


desenvolvidas pela Equipe Técnica do Tribunal de Justiça, a fim de obter nosso
apoio a essa atividade:

- Efetuar ampla reorganização da documentação, visando sua correta


identificação e classificação, ANTES de se proceder a qualquer descarte;
- Propor a revisão, por parte de profissionais da área da História, da Tabela de
Temporalidade sugerida pelo CNJ, na medida em que essa é apenas uma
recomendação, que pode ou não ser aceita pelos demais Tribunais. Cabe
lembrar que um instrumento desse porte, elaborado em nível nacional, é
incapaz de atender aos diversos fenômenos regionais, os quais encontram-se
registrados na documentação produzida pelo Poder Judiciário gaúcho;
- Consultar, por meio de manifestação oficial, a Comissão Setorial do Sistema
de Arquivos do Estado do Rio Grande do Sul (SIARQ/RS), que tem como
determinação legal o dever de se pronunciar a respeito dos procedimentos
arquivísticos a serem adotados em todo o Estado do Rio Grande do Sul;
- Apresentar, por meio de Projeto adequado, o Programa de Trabalho de
Organização de Acervos Arquivísticos do Poder Judiciário, prevendo as
atividades, os procedimentos e, principalmente, os recursos a serem
destinados a esse Programa, de modo a permitir um planejamento adequado
para a destinação definitiva dessa documentação.
As proposições acima tem como objetivo permitir ao Judiciário uma
agenda positiva de tratamento dessa documentação, considerando-se que há

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perspectivas de redução significativa dos recursos dispendidos pelo Poder
Judiciário, em função de se estar adotando o Processo Eletrônico. Essa
redução de custos, inclusive, poderia ser reinvestida nessa atividade,
produzindo um resultado efetivo e qualificado para a questão, fomentando
procedimentos que ofereçam à nossa sociedade um ganho em termos de
pesquisa e produção de conhecimento.
Colocamo-nos à disposição para continuarmos debatendo esse tema,
de modo a encontrar uma solução equilibrada, justa e adequada para todos,
que permita ao Judiciário resolver suas dificuldades nesse campo de ação,
mas que impeça prejuízos danosos à memória da sociedade gaúcha, o que
com toda a certeza não deve ser o objetivo de Vossa Excelência. Temos a
clareza de que tais esforços serão recompensados no futuro, no momento em
que nossas ações no presente se tornarem também objeto de consideração
por parte de nossos descendentes, sejam eles historiadores, operadores do
direito ou cidadãos em geral.

Atenciosamente,

Benito Schmidt
Presidente da ANPUH (Gestão 2011-13)

Zita Possamai
Presidenta da ANPUH-RS (Gestão 2010-12)

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