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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

ESCOLA DE ENGENHARIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENGENHARIA DE BIOSSISTEMAS

I - Avaliação da taxa de sucesso de pegamento de mudas de diferentes espécies de

frutíferas de restinga tratadas com ácido indolbutírico (AIB)

Lucas Couto de Oliveira

Orientador: Prof. Carlos Rodrigues Pereira, D.Sc.

NITERÓI

Janeiro/2018
II - RESUMO

A flora da restinga tem sido escassamente estudada no que se refere à propagação. A propagação

vegetativa feita através de estacas é um dos métodos mais importantes da macropropagação de

espécies florestais e arbustos ornamentais. A reprodução por sementes acarreta variabilidade nas

plantas descendentes, o que é um problema quando o objetivo é a formação de mudas em maior

escala. Objetiva-se por meio desse estudo avaliar a percentagem de pegamento de estacas de

espécies frutíferas de restinga e verificar a possibilidade da utilização do estaqueamento como

método de propagação vegetativa das espécies selecionadas. Assim como avaliar a necessidade

do uso de enraizador e, se necessário, sua concentração ideal, permitindo assim, reduzir o custo

com beneficiamento e quebra de dormência de sementes. Além destes, serão avaliados diferentes

parâmetros visando estabelecer o diâmetro ideal para a produção de mudas por estaquia das

espécies selecionadas. As estaquias serão realizadas com ramos de 3 espécies frutíferas com

frutos comestíveis que serão selecionadas entre as seguintes espécies, conforme disponibilidade

e viabilidade de indivíduos em campo: Chrysobalanus icaco; Garcinia brasiliensis; Myrciaria

floribunda; Eugenia sulcata; E. brasiliensis; E. candolleana; E. copacabanensis; E.

itaguahiensis; E. uniflora; Myrcia multiflora; Myrciaria cuspidata; Neomitranthes obscura;

Psidium cattleyanum; Sideroxylon obtusifolium (LORENZI, 2008; 2009; JB, 2009; Barbara,

2009). Os ramos serão cortados e divididos em estacas com 3 diâmetros diferentes: Até 0,5 cm;

entre 0,5 e 1 cm; maiores que 1 cm; todos com 20 cm de comprimento, cortados em bisel na

base. Após o corte, as estacas serão separadas em 4 lotes e tratadas com diferentes concentrações

de AIB com 20 estacas cada, totalizando 720 estacas. O plantio será feito em substrato arenoso

de granulosidade média e as estacas serão mantidas em casa de sombra a 70% com irrigação por

gotejamento. Ao final do experimento, 120 dias após o plantio, será feita a avaliação do
percentual de estacas viáveis que emitiram raízes, por meio das médias comparadas pelo teste

de Tukey a 5% de probabilidade. As estacas enraizadas serão levadas para laboratório onde serão

feitas análises, verificando-se o comprimento e a massa seca de raiz de cada lote.

III - INTRODUÇÃO
Nas últimas duas décadas tem-se visto um aumento nas iniciativas de recuperação de

ecossistemas. Embora isto tenha resultado em avanços científicos e tecnológicos, algumas

lacunas de conhecimento ainda existem. A vegetação que cobre as planícies costeiras arenosas

ao longo de cerca de 5.000 km da costa atlântica, a chamada restinga, tem recebido pouca

atenção (ZAMITH & SCARANO, 2006).

Restinga é ao mesmo tempo um termo geomorfológico e botânico. Se aplica igualmente às

planícies arenosas datadas do quarternário e à vegetação que cobre estas planícies (ZAMITH &

SCARANO, 2006).

Apresentando-se como ecossistema associado à Mata Atlântica, sendo caracterizada pela

presença de sedimentos arenosos quartzosos que foram depositados por meio de diferentes

processos durante o período quaternário, as restingas apresentam formações com fitofisionomias

ora predominantemente herbáceas ou arbustivas, ora florestais por influência no nível do lençol

freático (MAGNAGO et al., 2011; MONTEIRO et al., 2014). Coexistem espécies adaptadas

oriundas da mata tropical chuvosa e que se estruturam em comunidades através de processos de

interação positiva entre poucas espécies (ZAMITH & SCARANO, 2006; MENEZES et al.,

2010).

Todas as restingas possuem em comum o fato de terem surgido aproximadamente no

período quaternário, após a última regressão marinha, e de terem sido colonizadas por flora e
fauna. Esses indivíduos colonizadores, em grande parte, são provenientes da Mata Atlântica

vizinha (REIS, 2006).

A vegetação que ocupava as planícies costeiras no passado era representada por uma massa

verde contínua, apenas interrompida ocasionalmente por dunas e afloramentos rochosos

próximos ao mar. Entretanto, atualmente as restingas estão representadas por um conjunto

reduzido e descontínuo de manchas de vegetação (REIS, 2006), ameaçadas principalmente pela

especulação imobiliária e extração de areia. Desta forma, faz-se necessário conservar e recuperar

os remanescentes destas áreas degradadas (OLIVEIRA et al., 1989; ASSIS et al., 2004;

ZAMITH & SCARANO, 2006).

Nas restingas do estado do Rio de Janeiro, as comunidades praianas têm sido o objeto da

maioria dos estudos ecológicos, já as comunidades arbustivas abertas e as arbóreas, mais

afastadas da praia, foram consideradas com menor ênfase. Nenhum estudo descritivo foi

realizado, até o momento, nas comunidades arbustivas fechadas, criando uma lacuna nos dados

disponíveis sobre a vegetação de restinga (PEREIRA et al., 2001).

Entre as espécies arbustivas da restinga, as frutíferas desempenham um importante papel

para a alimentação de pássaros frugívoros. É conhecido o fato de que os pássaros frugívoros,

importantes dispersores, durante as fases de maior demanda de energia, como a reprodução e a

muda, aumentam o consumo de frutas e insetos. A reprodução de pássaros residentes é

sintonizada com a abundância de frutas nutritivas. O conhecimento de fontes de alimento para

animais silvestres é essencial para a conservação e manejo destas áreas silvestres (GOMES et

al., 2010).

Diversas destas espécies frutíferas são utilizadas como plantas ornamentais e ou para atrair

pássaros, como a aroeira (Schinus terebinthifolius) por exemplo. Outras produzem frutos
comestíveis que apresentam potencial para produção em escala comercial, podendo ser

comercializados in natura como frutos raros da flora brasileira ou utilizados para produção de

geléias e compotas.

Apesar das pressões de devastação a que vem sendo submetida, a flora de Restinga tem sido

escassamente estudada no que se refere à propagação (ZAMITH & SCARANO, 2004).

A propagação vegetativa feita através de estacas é um dos métodos mais importantes da

macropropagação de espécies florestais e arbustos ornamentais. Para espécies que podem ser

facilmente propagadas por estacas, este método tem numerosas vantagens. É econômico, rápido,

simples e não exige técnicas especiais, como aquelas necessárias para enxertia, além disto se

obtém maior uniformidade devido a ausência de variação genética dos progenitores (HOPPE et

al., 1999). A reprodução por sementes acarreta variabilidade nas plantas descendentes, o que é

um problema quando o objetivo é a formação de mudas em maior escala (ALCANTARA, 2010).

Na estaquia emprega-se ramos ou galhos já maduros com um ou dois anos de idade no

período de repouso da planta (HOPPE et al., 1999).

Para espécies de difícil enraizamento, a aplicação de fitorregulador pode compensar a falta

do nível endógeno de auxina. O AIB apresenta algumas vantagens, dentre as quais está a não

toxicidade para uma maior amplitude de concentrações testadas, para a maioria das espécies

vegetais (ALCANTARA, 2010).

Objetiva-se por meio desse estudo avaliar a percentagem de pegamento de estacas de

espécies frutíferas de restinga e verificar a possibilidade da utilização do estaqueamento como

método de propagação vegetativa das espécies selecionadas. Assim como avaliar a necessidade

do uso de enraizador e, se necessário, sua concentração ideal, permitindo assim, reduzir o custo

com beneficiamento e quebra de dormência de sementes. Além destes, serão avaliados diferentes
parâmetros visando estabelecer o diâmetro ideal para a produção de mudas por estaquia das

espécies selecionadas.

IV - MATERIAIS E MÉTODOS
As coletas serão realizadas nas áreas de restinga do estado do Rio de Janeiro, dentro dos

parques naturais municipais da Prainha, de Marapendi, da Restinga de Maricá e da restinga da

Marambaia, com a devida autorização dos órgãos competentes responsáveis por estes locais.

As estaquias serão realizadas com ramos de 3 espécies frutíferas com frutos comestíveis

que serão selecionadas entre as seguintes espécies, conforme disponibilidade e viabilidade de

matrizes em campo: Chrysobalanus icaco L.; Garcinia brasiliensis Mart.; Myrciaria floribunda

(H. West ex Willd.) O. Berg; Eugenia sulcata Spring ex Mart.; E. brasiliensis Lam.; E.

candolleana DC.; E. copacabanensis Kiaersk.; E. itaguahiensis Nied.; E. uniflora

L.; Myrcia multiflora (Lam.) DC.; Myrciaria cuspidata O. Berg; Neomitranthes obscura (OC.)

N. Silveira; Psidium cattleyanum Sabine; Sideroxylon obtusifolium (Roem. & Schult.) T.D.

Penn. (FONSECA-KRUEL, 2006; LORENZI, 2008; 2009; LIMA, 2012)

As matrizes selecionadas deverão estar em boas condições de vigor e sanidade, com boa

ramificação.

Os ramos serão cortados com espessura de até 2 cm. A quantidade de matrizes e de ramos

coletados em cada uma será de acordo com a disponibilidade de indivíduos com as

características necessárias. Em seguida, os ramos cortados serão envolvidos em jornal

umedecido, sendo acondicionados em sacos plásticos para manter a umidade durante o

transporte.

Uma vez no viveiro, os ramos serão cortados e divididos em estacas com 3 diâmetros

diferentes: Até 0,5 cm; entre 0,5 e 1 cm; maiores que 1 cm; todos com 20 cm de comprimento,
cortados em bisel na base. Após o corte, as estacas serão separadas em 4 lotes e tratadas com

diferentes concentrações de AIB com 20 estacas cada, totalizando 720 estacas.

O plantio será feito em substrato arenoso de granulosidade média, contido em caixas de

madeira dentro de casa de sombra a 70%.

A irrigação será por meio de gotejamento, de modo a manter a umidade do substrato

constante.

O estudo será conduzido em delineamento de blocos casualizados, com quatro repetições,

em esquema fatorial 4x3x3, sendo os fatores constituídos por quatro doses de AIB (0 mg L-1,

1.000 mg L-1, 2.000 mg L-1 e 4.000 mg L-1), três espécies de frutíferas e três diferentes

diâmetros, onde cada unidade experimental será constituída por vinte estacas.

Ao final do experimento, 120 dias após o plantio, será feita a avaliação do percentual de

estacas viáveis que emitiram raízes, por meio das médias comparadas pelo teste de Tukey a 5%

de probabilidade. As estacas enraizadas serão levadas para laboratório onde serão feitas análises,

verificando-se o comprimento e a massa seca de raiz de cada lote.

V - RESULTADOS ESPERADOS

Espera-se, com este estudo, a determinação do diâmetro ideal para clonagem por meio de

estaquia, bem como a verificação de quais espécies mais se adequam à propagação por este

meio, visando perspectivas de cultivo bem sucedido para produção comercial.


VI - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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