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Teoria das Estruturas

Energia Potencial de Deformação por Flexão

(Material de Apoio às Aulas)

aNelson Traquinho

Pemba, 2018

aUniversidade Lúrio-Faculdade de Engenharia-Direcção do Curso de Engenharia Civil; ntraquinho@gmail.com


Semestre I -2018

1.11.1. Geometria de deformação por Flexão-Hipótese de Bernoulli

Está-se perante a flexão, se o elemento estrutural (sobretudo vigas) for solicitada por
momentos, em que os vectores são perpendiculares ao eixo de viga, com sem
presença de forças transversais (Figura 1).

Para facilitar a compressão da geometria deformação e da energia de deformação por


flexão, consideremos que:

1-O eixo viga é recta;


2-A viga apenas é solicitada por momentos flectores;
3-A secção transversal da viga é constante ao longo do seu comprimento.

Considere uma viga recta sujeita apenas a momentos flectores em torno do eixo 𝑥,
perpendicular ao plano da folha e aos eixos 𝑦 e 𝑧, 𝑀𝑥. Considere também que nas
facetas verticais foram traçadas linhas rectas verticais que representam a projecção
vertical dos planos de secção transversal da viga, que interceptam as arestas das facetas
da viga nos vértices A, C, B e D (Figura 1a).

Experiências laboratoriais mostram que as secções transversais iniciais, que passam


pelos pontos A, B, C e D, inicialmente planas e perpendiculares ao eixo da viga mantêm-
se planas e perpendiculares ao eixo após a deformação (Figura 1b). Ou seja tanto os
planos que passam por A, B, C e D como os planos que passam pelos pontos A’, B’, C’
e D’ são perpendiculares aos seus respectivos eixos. Isto, constitui hipótese do
matemático holandês Jacob Bernoulli (1705) e constitui a teoria fundamental das vigas.

Por inspecção visual observa-se que as fibras/facetas da camada superior, são


comprimidas e as da camada inferior são traccionadas. Como é obvio, haverá tensões
de compressão na camada superior e de tracção na camada inferior.

É porque as tensões mudam de sinal, então terá de a haver uma zona ao longo da
secção transversal do elemento/viga em que as tensões nem são compressão e nem

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são de tracção. Esta camada livre de tensões denomina-se camada neutra. E qualquer
linha contida na camada neutra chama-se linha neutra.

Agora considere um eixo y de direção vertical e sentido de cima para baixo, perpendicular
ao eixo da viga 𝑧. Já que sobre a viga actuam apenas momentos flectores (flexão pura),
a curvaturada viga será uniforme, isto é, tanto a camada neutra como qualquer outra
camada longitudinal que constitui a viga, ao se deformarem formam áreas cilíndricas com
o mesmo centro, cujas geratrizes são constituídas pelas respectivas camadas da viga.
O centro destas camadas curvas chama-se centro de curvatura (P) e o seio respectivo
raio de curvatura (𝜌).

A camada neutra é constituída por pontos cujas tensões são nulas, pelo que não há
deformações nesta camada. A linha de intersecção do plano que contém os pontos de
tensão nula com o plano de desenho ou seja plano paralelo a 𝑦𝑧, chama-se linha elástica.
E a equação que define a tal linha chama-se equação da linha elástica, apreendida na
resistência e mecânica dos materiais.

Todas as secções transversais da viga antes e depois da deformação são formam


ângulos de 90o com a linha neutra (Figura 1a).

Assim muitas vezes no projecto de estruturas de betão, por exemplo, importa saber qual
é a zona comprimida e a zona traccionada para poder escolher o material mais
apropriado para a construção de um determinado elemento estrutural sujeita a flexão.

Consideremos agora um elemento infinitesimal (de dimensões muito reduzidas) da viga


considerada (ABCD), cujo comprimento é 𝑑𝑧, este elemento devido à acção de momento
flector vai mudar de forma e de dimensões, de tal modo que só as fibras da camada
neutra ficam com a forma e dimensões iniciais, ou seja não o comprimento inicial não
sofre variação (a variação de comprimento 𝑑𝑠 = 𝑑𝑧, para 𝑦 = 0), hipótese de pequenas
deformações (Silva, 2004).

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P
A B
90o Z 𝜌 𝑑𝜃
A B
D Mx z
Y C A’ B’
Linha elástica y ds (y=0) Mx
ds (y)
C D D’
Fibra comprimida C’
Mx A’ B’ Mx
dz
90o
C’ D’
Fibra traccionada

Figura 1a-Hipótese de Bernoulli. Figura 1b-Hipótese de Bernoulli.

Assim, pela trigonometria:


𝑑𝑧
Como 𝑑𝑠(𝑦=0) = 𝑑𝑧, então: = 𝑡𝑔𝜃, com as rotações são pequenas então,
𝑑𝑦

𝑠𝑒𝑛𝜃 lim 𝑠𝑒𝑛𝜃


lim 𝑡𝑔𝜃 ≈ lim ( ) = 𝜃→0° ≈ lim 𝑠𝑒𝑛𝜃, 𝑡𝑔𝜃 = 𝜃 ⟺ 𝑑(𝑡𝑔𝜃) = 𝑑𝜃, isto é como o
𝜃→0° 𝜃→0° 𝑐𝑜𝑠𝜃 lim 𝑐𝑜𝑠𝜃 𝜃→0°
𝜃→0°
ângulo de flexão ( que diminui quando o y cresce) é pequeno pode ser substituído pela
sua tangente.

𝑑𝑧
≈ 𝑑𝜃 ⟺ 𝑑𝑧 = 𝑑𝜃. 𝑑𝑦, para o eixo neutro, 𝑑𝑧 = 𝜌𝑑𝜃
𝑑𝑦

As fibras situdas abaixo da camada neutra, isto quando 𝑑𝑦 → +∞


𝑑𝑠(𝑦) = (𝜌 + 𝑦)𝑑𝜃

A extensão segundo a direção 𝑧 de cada uma das camadas situadas a distância 𝑦 em


relação a linha neutra é :
𝑑𝑠(𝑦) −𝑑𝑠(𝑦=0) (𝜌+𝑦)𝑑𝜃−𝜌𝑑𝜃 𝑦
𝜀𝑧(𝑦) = × 100% = × 100% = 𝜌 × 100%. (1)
𝑑𝑠(𝑦=0) 𝜌𝑑𝜃

Este parâmetro tem-sido usado no dimensionamento de estruturas, para limitar as


extensões ou encurtamentos nos elementos estruturais sujeitas a flexão.

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Assim pela Lei de Hooke, as tensões são proporcionais as deformações. Então as


tensões normais/perpendiculares aos planos que passam em A, C, B e D, são as únicas
tensões que aparecerão no elemento em estudo.

𝑦
𝜎𝑧 (𝑦) = 𝐸. 𝜀𝑧(𝑦) = 𝐸. 𝜌 (2)

Esta equação mostra claramente que as tensões são cada vez maiores quando maior
for a distância da camada a linha neutra (Figura 2). Esta é a razão pela qual nos
elementos traccionados e comprimentos, como betão, os varões/armaduras são
colocadas mais distantes do eixo neutro, como se vai estudar na disciplinas de betão.

LN

𝑥 dA
𝑧 𝜎𝑍 (𝑦)
𝑀𝑥 𝑦 𝜎𝑧

Linha elástica

Camada neutra

Figura 2-Distribuição de tensões normais na secção transversal de uma viga sujeita apenas
à momentos flectores.

Na direção normal, consideremos uma área infinitesimal igual a 𝑑𝐴 então o esforço


normal na direção 𝑧 será:

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𝐴 𝐸 𝐴
𝑁𝑧 = ∫0 𝜎𝑧 (𝑦) . 𝑑𝐴 = ∫0 𝑦𝑑𝐴 (2)
𝜌

O momento resultante em torno do eixo 𝑥𝑥 obtém-se pela soma do produto das tensões

paralelas a 𝑧 na camada 𝑦 (𝜎𝑧 (𝑦) ) pelo braço 𝑦 ou seja:

𝐴 𝐸 𝐴
𝑀𝑥 = ∫0 𝜎𝑧 (𝑦) . 𝑦. 𝑑𝐴 = ∫0 𝑦 2 𝑑𝐴 (2)
𝜌

𝐴
Em que o termo ∫0 𝑦 2 𝑑𝐴 corresponde ao momento (axial ) de inércia em 𝑥 e 𝑦𝑑𝐴 ao
momento estático, então:

𝐸 𝐴 𝐸 𝑀𝑥 𝐸
𝑀𝑥 = ∫0 𝑦 2 𝑑𝐴 = 𝐼𝑥 ⟺ =
𝜌 𝜌 𝐼𝑥 𝜌

Porém da equação em (2), sabe-se que:

𝜎𝑧 (𝑦) 𝐸 𝜎𝑧 (𝑦) 𝑀𝑥
= ⟺ = ⟺
𝑦 𝜌 𝑦 𝐼𝑥

𝑀𝑥
𝜎𝑧 (𝑦) = 𝑦 (3)
𝐼𝑥

Esta é a expressão analítica de distribuição de tensões de flexão pura numa


secção transversal de qualquer elemento estrutural.

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1.11.2. Energia Potencial de Deformação por Flexão

Agora voltemos a considerar a Fig.1b, e suponha-se que a viga é constituída por um


material de tal forma que os momentos flectores actuantes não são linearmente
proporcionais as respectivas rotações (Majid, 1978).

Suponha-se que um acréscimo de momento de 𝑀 para 𝑀 + 𝑑𝑀, provoca um acréscimo


de rotação de 𝜃 para 𝜃 + 𝑑𝜃. Então o trabalho realizado pelos momentos flectores
exteriores é:

𝑑𝑀 𝑑𝑀
𝑑𝑊 = (𝑀 + ) 𝑑𝜃 = 𝑀𝑑𝜃 + 𝑑𝜃 (4)
2 2

Como 𝑑𝑀 e 𝑑𝜃 são reduzidos, então a área do triângulo ∆𝐴𝐵𝐶 na Fig.3, é desprezável.


Então:

𝑑𝑊 = 𝑀𝑑𝜃 (5)

Este trabalho é armazenado sob forma de energia interna de deformação, que para
materiais elástico linear ou não linear pode ser perdida se a carga for retirada (Majid,
1978). Assim a energia interna de deformação armazenada no elemento A’B’C’D’ é dada
pela expressão:

𝑈 = 𝑀𝜃

E a energia total de deformação armazenada no elemento quando o momento aumenta


de zero até 𝑀1 e a rotação aumenta de zero até 𝜃1 é dada pela soma integral da
expressão anterior:

𝜃
𝑑𝑈 = ∫0 1 𝑀𝑑𝜃 (6)

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Dentro do regime elástico, em que as deformações são proporcionais aos esforços


aplicados o trabalho é dado pela área debaixo do gráfico momento flector versus rotação,
que corresponde a área do triângulo (Majid, 1978) & (Stiopin, 1979).

A
dM C
B

M1
M

𝜃 d𝜃 𝜃
𝜃1

Tal como no trabalho realizado por uma carga concentrada, pode-se demonstrar o
trabalho realizado por um momento flector exterior, calcula-se pela fórmula (7):

1
𝑊 = 2 𝑀𝜃 (7)

Onde,

𝜃-é o ângulo de rotação no ponto de aplicação do momento flector exterior M;

Analogamente, o trabalho elementar do momento flector (interno), pode-se obter pela


expressão:

1
𝑑𝑊 = − 2 𝑀𝑑𝜃 (8)

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Note que o sinal negativo, significa que o esforço interno momento opõe-se ao
momento exterior.

No caso de flexão sabe-se também que:

𝑑𝑧
𝑑𝜃 = (9)
𝜌

Como o raio de curvatura (Figura 1) é calculado pela fórmula:

1 𝑀
= 𝜃 = 𝐸.𝐼 (10)
𝜌

Onde:

𝐼 é o momento de inércia em relação ao eixo “central” de flexão e E é o módulo de


elasticidade.

Resolvendo as equações 2, 3 e 4, pela regra de substituição obtém-se:

1 1 1 𝑀
𝑑𝑊 = − 2 𝑀 𝜌 𝑑𝑧 = − 2 𝑀 𝐸.𝐼 𝑑𝑧 ⟹

1 𝑀2
𝑑𝑊 = − 2 𝐸.𝐼 𝑑𝑧 (11)

Aplicando integração em ambos os membros da expressão (5) obtém-se:

1 𝐿 𝑀2
𝑊 = − 2 ∫0 𝑑𝑧 (12)
𝐸.𝐼

Onde:

L-é o comprimento da barra, no caso geral o comprimento de cada elemento


estrutural solicitada a flexão.

Como a energia potencial (U) de deformação por flexão é igual ao simétrico do


trabalho das forças internas (conservação de energia mecânica) então obtém-se:

1 𝐿 𝑀2 1 𝐿 𝑀2
𝑈 = −𝑊 = − (− 2 ∫0 𝑑𝑧) = 2 ∫0 𝑑𝑧 (13)
𝐸.𝐼 𝐸.𝐼

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O limite inferior de integração corresponde ao ponto que considerar origem do sistema


de coordenadas, no caso de uma em consola, corresponde por exemplo uma das suas
extremidades e L, a abcissa da obra extremidade.

Como a flexão está em geral associada a ao esforço transverso, sobretudo em elementos


que se comportam como vigas, a expressão anterior é somada algebricamente ao termo
correspondente ao esforço transverso, como veremos mais tarde.

A integração é feita ao longo de cada elemento estrutural e a soma algébrica ao longo d


estrutura (Majid,1978).

Nas vigas o momento flector muitas vezes vem acompanhado de esforço transverso.
Contudo a energia potencial devida ao esforço transverso é muito pequena em relação
a de flexão, por isso, em geral o seu efeito pode ser desprezável (Majid,1978) & Stiopin
(1979).

Deve-se notar que, por exemplo em pontes de tirantes, nos pontos de fixação dos
tirantes no “tabuleiro”, os esforços transversos são elevados.

Note-se que para todos os esforços, na dedução da equação de energia de


deformação supõe-se que não há perda de energia, nem por atrito, nem cinética, nem
por calor ou qualquer outra forma de energia. A carga é aplicada lentamente e as
tensões não devem exceder o limite elástico do material. Quando a carga é retirada
gradualmente o corpo retoma a sua forma inicial. (Ghali et. al, 2009).

As relações entre trabalho e energia permite calcular os deslocamentos lineares e


angulares (rotações) e esforços.

Deve-se notar que os deslocamentos, em pórticos em que a altura e largura é da mesma


ordem de grande (edifícios baixos) a influência de esforço transverso e axial é
desprezável quando comparada com a de momentos flectores, pelo que os
deslocamentos são devidas devidas apenas à flexão. Mas nos edifícos altos o esforço
axial já não é desprezável (Connor & Faraji, 2013)

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1.11.3. Referência Bibliográfica

Connor, J. J., & Faraji, S. (2013). Fundamentals of Structural Engineering. New York: Springer.

da Silva, V. D. (2004). Meânica e Resistência dos Materiais (3a ed.). Coimbra, Portugal: Universidade de
Coimbra. Departamento de Engenharia Civil.

Ghali, A., Neville, A. M., & Brown, T. G. (2009). Structural Analyisis. A Unified Classical and Matrix
Approach (6a ed.). London and New York: Taylor and Francis.

Majid, K. I. (1978). Theory of Structures With Matrix Notation (1a ed.). London-Boston, USA:
Butterworths & Co.

Stiopin, P. A. (1979). Resistência de Materiales (3ª Revisada Y Ampliada ed.). (P. G. Mora, Trans.) Moscú,
URSS: Editorial MIR Moscú.

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