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Noticia 22

Que é feito da luta das mulheres?


A 13 de janeiro de 1975, um grupo de feministas entra no Parque Eduardo VII, em Lisboa, para
se manifestar contra “os símbolos da opressão das mulheres”

No ano em que a ONU lança uma campanha pela igualdade de género questionando "Se não
eu, quem? Se não agora, quando?", o DN repete a pergunta. Ou a discriminação acabou e já
não é preciso?

Coutada do macho ibérico, 2014. Vinte e cinco anos depois do famoso acórdão das turistas
violadas que se tinham "habilitado" ao andar à boleia em "zona de turismo de fama
internacional, onde abundam as turistas estrangeiras com comportamento sexual muito mais
liberal que o da maioria das nativas", o Supremo Tribunal certifica que sexo nas mulheres após
os 50 não faz grande falta, sobretudo se já tiverem cumprido o desígnio da procriação. Um
matador de mulheres condenado por violência doméstica entra no tribunal sob aplausos. Uma
barbearia no Chiado afixa um cartaz a dizer que mulheres não podem entrar, cães sim. Ataca-se
uma ministra das Finanças chamando-lhe "frígida". Ridiculariza-se um projeto de lei que
criminaliza o assédio sexual. Sublinha-se que a melhor aluna de MBA do mundo é mãe e que
uma atleta foi medalha de bronze na maratona de Nova Iorque "mas" faltou ao primeiro
aniversário do filho. Uma conferência sobre Portugal com 12 palestrantes, organizada por uma
universidade e um jornal, não inclui uma única mulher.

A lista de agravos é interminável; a reação quase nula. Joana Grilo, 27 anos, membro da Rede 8
de Março, um coletivo feminista que inclui várias organizações, incluindo o BE de que é
militante, sorri. "Houve uma desmobilização geral pós-2007, depois da conquista do direito ao
aborto por vontade da mulher. Foi uma luta de décadas em que as pessoas se empenharam
muito e quando se conseguiu ficou a ideia de que "está tudo feito". Pergunta-se: para que
serve o feminismo se já não há mais motivos para lutar? Por exemplo aparece aquele acórdão
do Supremo e as pessoas chocam-se, acham uma abominação, mas também uma exceção. Não
veem como uma manifestação mais extremada de uma perspetiva geral sobre a mulher. O
mesmo se passa com a violência doméstica: toda a gente acha horrível e que não devia
acontecer, claro, mas a ideia é de que aqueles homens são monstros e que aquilo é uma
questão de violência e não de desigualdade de género. Não há a noção de que sucede, e
sucede tanto - uma mulher morta por semana, caramba! - porque existe uma cultura de
violência contra as mulheres. É a norma, e a norma é muito difícil de ver. É preciso treinar o
olhar."

por Fernanda Câncio, DN Portugal, 17 novembro 2014