Você está na página 1de 6

A “ Ideologia Cientificista” morreu?

Num livro famoso “ O Mito do Estado” Ernst Cassirer”

mostra o que aconteceu depois de findo o ideal

humanístico da Revolução Francesa:ele foi substituído por

modelos absolutos que deviam confinar a sociedade num

caminho sem alternativa.Assim foi com a noção de

povo,de nação,de raça,de Estado,que dá título ao livro.

Mas um conceito é mais complexo:o de ciência.Isto

porquê ele permite ,ao contrário dos outros,uma discussão

segundo os modos diversos pelo quais ele é entendido.Não

que os outros não o possam,mas de modo geral eles

cristalizam mais rapidamente a vontade dos povos,como a

história provou.

A ciência,no entanto,tem,de plano, legitimidade e é,por

isso,freqüentemente chamada a embasar todos os outros

modelos universalistas.Mas quando isto acontece ela se


torna ideologia pura,como consciência falsa e distorcida

da realidade.Quero dizer, quando serve de modelo,por si

mesma,já atingiu esta condição,porque não é tarefa

dela,segundo a sua natureza.

A ciência sempre se repropõe,é provisória,mas a ideologia

científica diz o contrário.

Busca-se na ciência uma identidade nacional,um conceito

de povo,de nação,mas a história da ciência demonstra a

sua variabilidade,a realidade de suas leis tendenciais e não

absolutas.

Infelizmente o reconhecimento regenerador de sua

essência levou muito tempo para se estabelecer e até que o

fizesse inúmeros erros e crimes foram cometidos em seu

nome.

Se observarmos as duas figuras abaixo


dois judeus famosos, nós veremos um caso clássico de

aplicação da “ ideologia científica”.Com o nascimento da

microbiologia
o mesmo fenômeno de ideologização da teoria da

evolução,ocorrido depois da publicação de “ Origem das

Espécies”,se dá após as provas apresentadas por

Pasteur(acima).

Partindo das premissa de que a sujeira esconde seres

minúsculos infecciosos,a limpeza se torna uma questão

obrigatória moral e de estado,na maioria das nações

européias(e no Brasil )e de modo paroxístico no nazismo.

A falta de higiene designa um ser humano não moralmente

evoluído,despreocupado de si e dos outros,como

propagador de doenças e infecções.A medida da ética

humana individual e coletiva passa a ser a ciência,não

restando nada de autenticidade e legitimidade existencial

naquele que não se estetiza,isto é,não se limpa,não se

higieniza.
Pior ainda, a higiene acompanha a beleza,que é prova dos

cuidados com a saúde

O quadro de Van Gogh “ Os comedores de batatas”

Não representaria a condição,imposta de fora para

dentro,de pobreza,mas de desleixo, e a existência destas

pessoas teria que ser mudada,de cima para baixo(pelo

estado totalitário).

No nefando filme “ O Judeu Eterno”,os nazistas

expressam esta ideologia científica expondo os hábitos

pessoais do dois judeus acima.


Mas depois da derrota do nazismo,estas distorções

acabaram?”A Curva de Bell”,na década de 90,o

esfacelamento da Iugoslávia, o nacionalismo russo

atual,Trump e suas bravatas contra os mexicanos e o

problema dos migrantes não são uma continuidade?