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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

MUSEU NACIONAL
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ANTROPOLOGIA SOCIAL

A MÁQUINA DA CIDADANIA:
Uma etnografia sobre a requalificação civil de pessoas transexuais

Lucas de Magalhães Freire

Rio de Janeiro
Fevereiro de 2015
A Máquina da Cidadania:
Uma etnografia sobre a requalificação civil de pessoas transexuais

Lucas de Magalhães Freire

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de


Pós-Graduação em Antropologia Social, Museu
Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro,
como requisito parcial à obtenção do título de Mestre
em Antropologia Social.

Orientadora: Adriana de Resende Barreto Vianna

Rio de Janeiro
Fevereiro de 2015
CIP - Catalogação na Publicação

Freire, Lucas
F862m A Máquina da Cidadania: uma etnografia sobre a
requalificação civil de pessoas transexuais / Lucas
Freire. -- Rio de Janeiro, 2015.
192 f.

Orientadora: Adriana Vianna.


Dissertação (mestrado) - Universidade Federal do
Rio de Janeiro, Museu Nacional, Programa de
Pós-Graduação em Antropologia Social, 2015.

1. Transexualidade. 2. Requalificação Civil. 3.


Defensoria Pública. 4. Cidadania. 5. Direitos. I.
Vianna, Adriana, orient. II. Título.

Elaborado pelo Sistema de Geração Automática da UFRJ


com os dados fornecidos pelo(a) autor(a).
A Máquina da Cidadania:
Uma etnografia sobre a requalificação civil de pessoas transexuais

Lucas de Magalhães Freire


Orientadora: Adriana de Resende Barreto Vianna

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social,


Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como requisito parcial à
obtenção do título de Mestre em Antropologia Social.

Aprovada em 06 de fevereiro de 2015


Banca Examinadora:

________________________________________________
Prof.ª Dr.ª Adriana de Resende Barreto Vianna (Presidente)
PPGAS/MN/UFRJ

________________________________________________
Prof.ª Dr.ª Maria Elvira Díaz-Benítez
PPGAS/MN/UFRJ

________________________________________________
Prof. Dr. Sérgio Luis Carrara
IMS/UERJ

________________________________________________
Prof. Dr. Guilherme Silva de Almeida
FSS/UERJ

________________________________________________
Prof. Dr. Luiz Fernando Dias Duarte (Suplente)
PPGAS/MN/UFRJ

________________________________________________
Prof.ª Dr.ª Paula Mendes Lacerda (Suplente)
DPCIS/UERJ
A Raissa
(in memoriam)
Agradecimentos

Antes de mais nada, agradeço à minha mãe por ser uma das pessoas mais incríveis e
admiráveis que eu conheço, e ao meu pai por nunca ter questionado minha decisão, mesmo sem
saber que raios é a tal da antropologia. Agradeço também aos meus irmãos mais velhos,
especialmente minha irmã, que nunca mediu esforços para me apoiar. Agradeço ainda aos meus
pequenos sobrinhos por, às vezes das formas mais controversas possíveis, me impedirem de
viver apenas na frente do computador.
Seria injusto não lembrar aqui da instituição onde tudo isso começou: um grande bloco
de concreto chamado UERJ que, apesar de cinzento, está repleto de cores e afeto. Agradeço aos
meus amigos e amores da turma de 2009.1 de ciências sociais: Aline Lopes, Conrado Pimentel,
Jenifer Bard, Josué de Souza, Karina Rodrigues, Marina Garcia, Pamella Liz, Paula Carvalho,
Paula Prado, Paulo Joaquim, Rafael Barreto, Tathiane Vitorino e Thayaná Gonçalves. Vocês
são muito mais que especiais para mim. Nós somos sim uma geração incrível. Agradeço
também ao corpo docente da universidade pela minha formação e um agradecimento especial
às professoras Claudia Rezende, por ter despertado em mim o interesse pela antropologia no
primeiro semestre da graduação, e Maria Claudia Coelho, não só pela orientação da monografia,
mas por todo o aprendizado.
Uma das coisas que mais me agradam na UERJ é a diversidade de pessoas que por lá
circulam. Gostaria então de agradecer aos amigos que fiz pelos incontáveis e confusos
corredores da universidade: Daniel Cardinali, Margareth Gomes, Marília Loschi, Anastácia
Cristina, Marcus Cardinelli, Bruno Zilli, Raphael Werneck, Vanini Lima, Talita Leixas, Ana
Carolina Soares, Wallace Corbo, Dennys Chaves, Núbia Campos, dentre muitos outros.
Ainda entre as rampas, escadas e elevadores da UERJ, agradeço a todos que compunham
a equipe do CLAM, local onde tive meu primeiro contato com o mundo acadêmico e onde eu
aprendi o que é ser um pesquisador, principalmente à professora Maria Luiza Heilborn e os
muito queridos Cristiane Cabral, Fabíola Cordeiro, Josué de Souza e Tathiane Vitorino. Vocês
foram e ainda são mais que fundamentais na minha vida. Agradeço também aos companheiros
de pesquisa do LIDIS: Sérgio Carrara, Vanessa Leite, Guilherme Almeida, Margareth Gomes,
Silvia Aguião, Martinho Tota, Paulo Victor Leite Lopes, Diógenes Parzianello, Daniele
Andrade, Aureliano Lopes e Isabella Pereira.
Subindo a Quinta da Boa Vista, gostaria de registrar meu agradecimento ao pessoal da
secretaria do PPGAS por tornar a vida burocrática acadêmica muito mais fácil, principalmente
à Adriana Valcarce, Anderson Simões e Carla Cristina. Agradeço aos funcionários da biblioteca
por serem sempre pacientes diante da minha incapacidade de encontrar qualquer livro nas
prateleiras. Agradeço também aos professores do Programa pela formação oferecida e pelos
cursos ministrados, em especial os professores Adriana Vianna, Giralda Seyferth, Luiz
Fernando Dias Duarte, Maria Elvira Díaz-Benítez e Renata Menezes. Gostaria de registrar
minha gratidão à professora Maria Elvira por coordenar o importante espaço de diálogo
propiciado pelo NUSEX, assim como todos aqueles que compõem o núcleo.
Ainda ao redor da fonte no pátio do Museu, agradeço às lindas Camila Fernandes e
Carolina de Oliveira pelas cervejas, abraços e momentos inesquecíveis. Agradeço também aos
meus amigos da turma de mestrado de 2013, especialmente aos muito queridos Aline Rabelo,
por todos os abraços afetuosos e por ser um exemplo de coragem; Barbara Pires, por manter
meus pés no chão e por encarar várias ciladas comigo ao longo desses dois anos; Everton
Rangel, por mostrar que meus dramas são quase sempre facilmente solucionáveis e por me
ensinar o que é “vento encanado”; Morena Freitas, por me mostrar leveza onde só havia pesar;
e Vlad Schüler, por fazer a melhor comida japonesa caseira e por comprar minhas ideias mais
insanas.
Não tenho palavras para agradecer a Adriana pela paciente, atenciosa e carinhosa
orientação desta pesquisa. Só ela compreende o mimimi que cerca os que possuem Sol e Lua
em Câncer. Gostaria, então, de deixar registrado que “eu se esforcei muito” e “dei tudo de si”
para fazer o melhor possível. Agradeço também aos professores Maria Elvira Díaz-Benítez,
Sérgio Carrara e Guilherme Almeida por aceitarem o convite de ser parte da banca examinadora
de minha dissertação, bem como os professores Luiz Fernando Dias Duarte e Paula Lacerda
por aceitarem serem suplentes.
Agradeço ao Daniel Cardinali por nada menos que tudo, por descobrir comigo uma das
lições mais valiosas que aprendi até hoje: amar é muito mais que querer ter o outro pra si.
Agradeço ainda a sua mãe, Márcia Cardinali, por sempre me incentivar e acreditar no meu
potencial.
Agradeço à Claudia Dantas, Raiza Venceslau, Diego Venceslau e Diego de Souza pelos
anos de carinho, amizade e aprendizado mútuo. À Margareth Gomes por estar sempre ao meu
lado, ainda que a quilômetros de distância. À Marília Loschi, pelo carinho e por me fazer pensar
e repensar minhas ideias com suas inúmeras perguntas. À Anastácia Cristina, pelas palavras
reconfortantes e pelas aventuras nos transportes coletivos desta cidade. Ao Francisco Vieira,
pela paciência, incentivo e por me mostrar as virtudes e fragilidades do meu texto. Ao Michel
Carvalho, por trazer poesia à minha vida. Ao Victor Hugo Barreto, por me impedir de viver
apenas no “meu feudo”, por trazer alegria aos meus momentos de tédio e por me obrigar a
assistir aos piores filmes já produzidos pela indústria cinematográfica. Ao Raphael Werneck
por ser sempre tão doce e sensível. Ao Gustavo Saggese, pelas leituras e indicações preciosas
e por ser uma das alegrias de 2014. Ao Amurabi Oliveira, por me querer sempre bem.
Agradeço às pessoas que compõem tanto o NUDIVERSIS quanto o NUDEDH, as quais,
infelizmente, não podem ser nomeadas. Obrigado pela recepção e pela oportunidade de crescer
e aprender com vocês, o trabalho feito na Defensoria Pública é realmente admirável. Espero um
dia poder retribuir tudo que vocês me ofereceram. Agradeço também às pessoas transexuais
que me deram acesso às suas vidas. Obrigado por compartilharem comigo suas histórias e por
me fazerem refletir sobre os privilégios de ser um homem cisgênero.
Por fim, agradeço ao CNPq pela concessão da bolsa de mestrado que permitiu que eu
me dedicasse integralmente à realização desta pesquisa.
RESUMO

Esta é uma dissertação sobre a gestão judicial da demanda por requalificação civil de pessoas
transexuais. Os dados aqui analisados são oriundos de um trabalho de campo empreendido entre
os meses de fevereiro e julho de 2014 no Núcleo de Defesa da Diversidade Sexual e Direitos
Homoafetivos (NUDIVERSIS) da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro (DPGE-RJ).
A alteração do nome e/ou sexo no registro civil e, consequentemente, nos documentos de
identificação, é compreendida como a ação através da qual as pessoas transexuais conseguem
exercer determinados direitos fundamentais, alcançando, assim, o status de cidadãs. Tenho
como objetivo discutir como estes indivíduos se constituem enquanto “sujeitos de direitos”.
Deste modo, exploro quatro pontos principais deste processo de constituição: 1) a criação de
uma instituição responsável por oferecer assistência judicial a uma determinada “população”;
2) a avaliação e fabricação de sujeitos que têm “direitos a pleitear direitos”; 3) a produção e
apresentação de documentos que comprovam a versão construída do sujeito pleiteante; 4) os
modos do fazer político que buscam legitimar a demanda por requalificação civil.

Palavras-chave: Transexualidade; Requalificação Civil; Defensoria Pública; Cidadania;


Direitos
ABSTRACT

The Machine of Citizenship: an ethnography on the civil requalification of transsexual people

This is a dissertation on the judicial management of transsexual people’s demand for civil
requalification. The data analyzed here derives from a fieldwork carried out between February
and July 2014 in the Defense Center of Sexual Diversity and “Homoaffective Rights”
(NUDIVERSIS) of the State Public Defender of Rio de Janeiro (DPGE-RJ). The change of
name and/or sex in the civil registry and consequently in identification documents is understood
as the action through which transsexual people can exercise certain fundamental rights,
reaching thus the status of citizens. I aim to discuss how these individuals become “right
holders”. Thus, I explore four main points of this constitution process: 1) the creation of an
institution responsible for providing legal assistance to a certain “population”; 2) the evaluation
and construction of subjects who have “right to claim rights”; 3) the production and presentation
of documents that prove the built version of the claimant subject; 4) the ways of doing politics
that seek to legitimize the demand for civil requalification.

Key words: Transsexuality; Civil Requalification; Public Defender; Citizenship; Rights


LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

ANS – Agência Nacional de Saúde


APA – American Psychiatric Association (Associação Americana de Psiquiatria)
CEDS – Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual
CFM – Conselho Federal de Medicina
CID – Classificação Internacional de Doenças
DPGE-RJ – Defensoria Pública Geral do Estado do Rio de Janeiro
DSM – Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (Manual Diagnóstico e
Estatístico de Transtornos Mentais)
HUPE – Hospital Universitário Pedro Ernesto
IEDE – Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia
IML – Instituto Médico Legal
LGBT – Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais
MP – Ministério Público
NUDEDH – Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos
NUDIVERSIS – Núcleo de Defesa da Diversidade Sexual e Direitos Homoafetivos
ONG – Organização Não Governamental
ORD – Ofício de Registro de Distribuição
RSH – Rio Sem Homofobia
SEASDH-RJ – Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos do Governo do Estado do
Rio de Janeiro
SuperDir – Superintendência de Direitos Individuais, Coletivos e Difusos
SUS – Sistema Único de Saúde
TJ – Tribunal de Justiça
SUMÁRIO

Prólogo – O [d]efeito do nome 1

Introdução – Sobre as fronteiras do humano, o exercício da cidadania e a


necessidade de uma vida digna: a transexualidade na esfera jurídica brasileira 2

1. O Lugar da Diversidade: apresentando o NUDIVERSIS e a pesquisa


empreendida 16
1.1 Descrevendo o NUDIVERSIS: rotinas de trabalho, atribuições institucionais
e estrutura profissional 16
1.2 A política dos sujeitos e os sujeitos da política: o papel do NUDIVERSIS na
constituição da “população LGBT” e do Estado 29
1.3 Uma etnografia estagiária 40

2. Quem tem Direito a Pleitear Direitos? sobre tornar-se uma/um assistida/o


da Defensoria Pública 48
2.1 “Primeiro atendimento”: enquadrando sujeitos 48
2.2 Peregrinações burocráticas: em busca dos atestados da “verdade” 61
2.3 Produzindo uma/um assistida/o: a definição de quem tem direitos a pedir
direitos 66

3. Corpos de Papel, Sujeitos Impressos: sobre documentos e a construção de


sujeitos e realidades 83
3.1 Dos documentos que fazem sujeitos: as múltiplas formas de materialização
dos sujeitos e da realidade 84
3.2 Certificações do sexo e gênero: a produção de identificações a partir dos
documentos 103
3.3 Papéis mágicos: sobre documentos e atos de magia 115
3.4 Para além do papel: inteligibilidade de experiências e construção de
subjetividades 119
4. Em Defesa da “Dignidade da Pessoa Humana”: política, emoções e
moralidades nas petições iniciais de requalificação civil 125
4.1 Vítimas da natureza, vítimas da sociedade: a produção da vulnerabilidade
das pessoas transexuais 128
4.2 Em defesa da “dignidade da pessoa humana”: os argumentos que legitimam
a demanda por requalificação civil 133
4.3 “Sofro, logo tenho direitos”: a vitimização e o “acesso aos direitos” 149
4.4 “Todos são iguais perante a lei”: sobre modelos, apagamentos e
homogeneizações 151

Considerações Finais – Sobre os limites de uma promessa 154

Referências Bibliográficas 167

Anexo I – Quadro de Funcionárias do NUDIVERSIS durante a pesquisa 174


Anexo II – Núcleos Regionais da DPGE-RJ na cidade do Rio de Janeiro 175
Anexo III – Núcleos Especializados da DPGE-RJ 176
Anexo IV – Assuntos verificados nas Certidões dos ORD 177
O [d]efeito do nome

R é uma mulher de meia idade, dona de casa, moradora do subúrbio do Rio de Janeiro,
casada há pouco mais de 20 anos com um funcionário público de baixo escalão. Ela tem três
filhos adultos, dois de um primeiro casamento e um terceiro com o atual marido.
R não é só R, é também B. Acontece que R era o nome que sua mãe gostaria que fosse
registrado, mas seu pai, contrariado, chegou ao local onde nascem os cidadãos e disse que
aquela bebê se chamaria B. A mãe não admitiu e bradou para o mundo que sua filha não era
outra senão R. R cresceu sendo R. Quando chegou no lugar onde os cidadãos são formados,
ouviu chamarem-na de B. R não entendeu, ela tinha apenas sete anos de idade. Depois de visitar
algumas vezes as pessoas que faziam muitas perguntas, R foi informada que este nunca foi o
seu nome, que ela era, na verdade B. R não conseguia compreender aquilo tudo, ela era R. “Qual
o problema em ser R?”, ela pensava.
R nunca foi B. Tal qual sua mãe, ela também não aceitou ser outra pessoa que não ela
mesma. Ela era R e ponto final, por mais que todas aquelas pessoas e papéis dissessem que ela
era B. Ela era R.
R nunca foi R. Ao menos, plenamente. R se fechou em seu mundo. Escondeu tudo aquilo
que era de B. R não viveu tudo aquilo que B poderia viver. B nunca saiu das pastas nas quais
as pessoas carregam a si mesmas quando precisam resolver suas vidas. Ela nunca foi nem R
nem B.
Apesar de muito inteligente, R não prosseguiu os estudos. Nunca teve conta em banco.
Nunca assinou um recibo de entrega de uma encomenda. Nunca concordou com ter que
apresentar sua carteira de trabalho ou usar um crachá. Nunca aceitou que a chamassem por
outro nome. Nunca se identificou como B. Nunca deixou que B existisse, assim como B nunca
permitiu que R fosse tudo que ela poderia ser. Nunca falou abertamente para ninguém sobre
seu outro eu, aquele guardado na caixa que fica no fundo do armário. Até mesmo seus filhos só
descobriram a existência de B quando já adolescentes.
B nunca habitou o mundo das pessoas, R nunca habitou o mundo dos cidadãos.

1
Introdução
Sobre as fronteiras do humano, o exercício da cidadania e a necessidade de uma vida
digna: a transexualidade na esfera jurídica brasileira

No prefácio de uma das mais recentes pesquisas sobre a temática da transexualidade na


área das ciências sociais, Berenice Bento (2013) estabelece uma importante distinção entre os
termos humanidade e cidadania, de modo que o primeiro representa um “corpo perambulante”,
sem vínculo com as instituições sociais e, portanto, privado do reconhecimento dentro de um
sistema jurídico que possibilita o exercício de direitos; enquanto o segundo está amarrado à
ideia do Estado-nação e indica o pertencimento a uma determinada comunidade política. Ainda
de acordo com a autora, “ao confundirmos cidadania e humanidade estamos atribuindo um valor
englobante de produção de significado para o Estado, materializando, assim, o maior desejo do
Estado: ser um ente total” (Bento, 2013, p. 14).
Ponderação semelhante já havia sido anunciada por Hannah Arendt no final do século
passado. Ao analisar a situação dos apátridas, Arendt (1989) conclui que este personagem se
caracteriza pela total ausência de vinculação a um sistema jurídico, que, em último caso, está
ligado ao pertencimento a um Estado-nação. Dito de outro modo, para a autora, a inexistência
de uma filiação nacional implica privação completa de qualquer tipo de “direitos”, situação que
corresponde a uma “abstrata nudez de ser unicamente humano” (p. 333)1. Neste sentido, a
garantia de direitos é inseparável do enquadramento dentro de uma determinada forma de
organização política.
De modo sintético, a pergunta a qual as duas autoras buscam responder diz respeito ao
aparato político que transforma “seres humanos” em “cidadãos”, isto é, pessoas detentoras de
direitos e deveres em relação a uma coletividade compreendida como “nacional”. Ambas
respondem que a cidadania é adquirida a partir da inserção e integração em uma dada forma de
organização política. É a partir deste ponto que os documentos de identificação adquirem
centralidade, pois estes são tecnologias do controle burocrático exercido pelo Estado. Como
destaca Peirano (2006), é o documento que qualifica um sujeito como um cidadão de um
determinado Estado nacional. Nas palavras da autora, o documento “legaliza e oficializa o

1
Outros autores que elaboraram importantes reflexões sobre o não reconhecimento do valor da vida e a
consequente impossibilidade do exercício de direitos foram Butler (2004b) e Agamben (2010).

2
cidadão e o torna visível, passível de controle e legítimo para o Estado; o documento faz o
cidadão em termos performativos e obrigatórios” (p. 26-7, grifos no original).
A passagem do “ser humano” para o “cidadão” é central para a construção das reflexões
que serão apresentadas nesta dissertação. Entretanto, não me preocupo apenas com o que faz
dos seres humanos cidadãos, mas também questiono sobre como esta conversão é possível. É
para responder sobre este “como” que adiciono um terceiro elemento à problemática: o dever
constitucional do Estado de proporcionar aos seus “cidadãos” uma “vida digna”, largamente
utilizado como argumento para afirmar a legitimidade da requalificação civil de pessoas
transexuais. Em linhas gerais, busco demonstrar ao longo dos capítulos como as pessoas
transexuais se tornam tanto humanas quanto cidadãs através de uma espécie de denúncia sobre
as violações de certos “direitos fundamentais”. Denúncia esta que, nos marcos contemporâneos
da política humanitária (Fassin, 2012), se transfigura em uma obrigação moral de promoção da
“dignidade da pessoa humana”.
Como o subtítulo da dissertação sugere, este trabalho tem como foco a análise da gestão
judicial da demanda por requalificação civil de pessoas transexuais, entendendo tal gestão como
parte dos mecanismos de controle de determinadas “populações” que é exercido pelo Estado.
Compreendo esta demanda como parte da busca das pessoas transexuais pelo pertencimento à
humanidade e pela obtenção da cidadania através da luta por condições dignas de se viver. Em
outras palavras, este texto trata das batalhas destes sujeitos pelo reconhecimento de suas
existências e experiências através da aquisição de documentos de identificação que sejam
representativos de suas “verdadeiras identidades”.
Os dados aqui discutidos são oriundos de uma pesquisa etnográfica realizada no Núcleo
de Defesa da Diversidade Sexual e Direitos Homoafetivos (NUDIVERSIS) da Defensoria
Pública do Estado do Rio de Janeiro (DPGE-RJ), entre os meses de fevereiro e julho de 2014.
Este núcleo, criado em 2011, é tido como responsável por “acolher” as demandas da chamada
“população LGBT”. Assim, é atribuição de suas funcionárias atuarem em casos de processos
por danos morais provocados por discriminação em relação à orientação sexual e/ou identidade
de gênero, pedidos de adoção por parte de pessoas LGBT, dissolução de uniões estáveis ou
casamentos entre pessoas do mesmo sexo, violação de direitos sucessórios, processos de
requalificação civil de pessoas transexuais, entre outros tipos de contendas judiciais.
Dentre as atividades realizadas durante a pesquisa, destaco o acompanhamento das
rotinas de trabalho das profissionais atuantes no NUDIVERSIS (principalmente das

3
estagiárias), tanto nos atendimentos as/aos assistidas/os2 quanto nos expedientes internos, bem
como as leituras dos documentos, declarações, laudos, certidões, etc. que compõem as “pastas
das/os assistidas/os”. Conforme será abordado mais profundamente no primeiro capítulo, minha
entrada em campo se dá através do posicionamento como um tipo de “estagiário” do núcleo, o
que foi crucial para o acesso a alguns dados, mas também implicou certa limitação na minha
circulação pelos corredores da Defensoria Pública.
O levantamento bibliográfico sobre a temática da requalificação civil de pessoas
transexuais revela que as pesquisas empreendidas, ao menos nos campos disciplinares tanto do
Direito quanto das Ciências Sociais, tomam como objeto de análise as normativas e/ou as
decisões judiciais acerca da alteração do registro civil, como por exemplo, as realizadas por
Zambrano (2003), Ventura (2010) e Teixeira (2013). Deste modo, a pesquisa ora apresentada
se diferencia de outras investigações que abordam o tema ao priorizar uma das “portas de
entrada” desta demanda, tendo como foco de análise uma etapa anterior aos processos judiciais,
na qual se avaliam e se constituem aquelas/es que terão “direito a pleitear direitos”.

***

Aquilo que contemporaneamente se entende por transexualidade3 possui uma


genealogia que pode ser rastreada a partir do desenvolvimento dos saberes-poderes da
psiquiatria, endocrinologia, psicologia e psicanálise. Tal genealogia já foi amplamente exposta
por pesquisadores como Leite Jr. (2010) e Bento (2006). Deste modo, me limito a reproduzir
aqui alguns dos levantamentos feitos pelos autores com o intuito de fazer um breve panorama
histórico que auxilie na compreensão da forma pela qual as múltiplas experiências de
transexualidade são contemporaneamente apreendidas e apropriadas por atores ligados ao poder

2
“Assistida/o” é a categoria nativa que designa as/os usuárias/os do serviço da Defensoria Pública.
3
Antes de mais nada, gostaria de esclarecer que não desconheço as críticas que movimentos sociais fazem quanto
ao uso do termo “transexualidade”. Uma vertente da militância argumenta que ao falar sobre “transexualidade”,
remete-se ao exercício da sexualidade ou da orientação sexual; ao passo que o termo “transgeneridade” seria então
o mais adequado, por dizer respeito à identidade de gênero. A transgeneridade abarca uma série de posições
identitárias que expressam as variadas formas de vivenciar o gênero, como crossdressers, travestis, pessoas não-
binárias e os sujeitos que são clinicamente classificados como “transexuais”. Este trabalho aborda especificamente
as trajetórias dos indivíduos que buscam a alteração do registro civil, que é concedida apenas àqueles que possuem
laudos do “transexualismo” ou da “disforia de gênero”. É por esta razão que opto por utilizar a categoria nativa de
“transexualidade” encontrada durante o trabalho de campo. Contudo, ressalto que, do mesmo modo que Teixeira
(2013), tomo o cuidado de utilizar a palavra “transexual” não como uma identidade ou substantivo, mas sim como
um adjetivo, aparecendo quase sempre a expressão “pessoas transexuais”. Por fim, saliento que este cuidado em
apresentar a transexualidade como mais uma das inúmeras características que compõem a vida dos indivíduos
reflete uma preocupação com a tentativa de não englobar estas pessoas como sujeitos apenas do sexo-gênero.

4
Judiciário. A transexualidade figura nos discursos jurídicos a partir das produções médica e
psicológica, as quais classificam o “transexualismo” – ou “disforia de gênero”4 – como um tipo
de distúrbio psiquiátrico que necessita de um tratamento específico.
Jorge Leite Jr. (2010) discute em sua obra de que modo a noção de “humanidade” que
regula e dá inteligibilidade aos corpos é fruto da produção discursiva da biopolítica. São nos
debates e disputas de poder pelo estabelecimento do “humano” que se fabricam ficções de
normalidade e categorias classificatórias nas quais sujeitos são enquadrados. De acordo com o
autor, a contemporânea figura da “pessoa transexual” tem suas origens na ideia de
“hermafroditismo psíquico” – ou seja, uma espécie de “inversão sexual” a nível mental –
desenvolvida por uma “ciência sexual” que se apoia em e articula estudos de psiquiatras,
psicólogos e psicanalistas a partir de meados do século XX.
Bento (2006) e Leite Jr. (2010) identificam que três foram os principais teóricos que
contribuíram para a formulação do que hoje é nomeado como a/o “verdadeira/o transexual” 5:
Harry Benjamin, John Money e Robert Stoller. Estes três sujeitos são formados em campos
distintos do conhecimento e enunciam diferentes teorias sobre o que seria o fenômeno, ou, mais
especificamente no caso dos três, a patologia do “transexualismo”.
Harry Benjamin foi um endocrinologista alemão radicado nos Estados Unidos, figura-
chave da Harry Benjamin International Gender Dysphoria Association (HBIGDA)6 e autor do
pioneiro livro The Transsexual Phenomenon, publicado em 1966 como fruto de pesquisas
realizadas nas décadas de 1950 e 1960. Benjamin aponta para o caráter biológico da
transexualidade; para ele, o aspecto psicológico é menos preponderante do que a distribuição
hormonal dos indivíduos no processo de identificação sexual. Uma das mudanças promovidas
por Benjamin foi o reconhecimento do sexo como algo pluridimensional: existe o sexo genético
(XX para mulheres e XY para homens); o gonádico (presença de testículos nos homens e
ovários nas mulheres); o fenotípico (ligado à aparência externa dos genitais: pênis ou vagina);
o psicológico (ligado a uma dimensão subjetiva); e o jurídico (inscrito nos documentos).

4
Utilizo aqui os termos “transexualismo” e “disforia de gênero” para me referir à inteligibilidade da experiência
transexual ditada pelo poder-saber médico, o qual compõe o dispositivo da transexualidade (Bento, 2006). Em
contrapartida, o termo “transexualidade” abarca um conjunto mais amplo de vivências de experimentações do
gênero.
5
De acordo com Bento (2004 e 2006), o “verdadeiro transexual” é um ser ficcional descrito nos documentos
oficiais e nos protocolos de atendimento médico. Faço aqui uma apropriação mais ou menos livre da ideia da
autora e utilizo o termo para fazer referência às/aos assistidas/os do NUDIVERSIS que obtêm sucesso nas
“peregrinações burocráticas” e conseguem reunir todos os laudos necessários para que sejam juridicamente
consideradas/os como transexuais, como será discutido ao longo desta dissertação.
6
Atualmente nomeada como World Professional Association for Transgender Health (WPATH).

5
Entretanto, enquanto endocrinologista, Benjamin localiza o “verdadeiro sexo” a partir da
distribuição hormonal nos corpos e também a partir das definições genéticas.
Para o autor, a transexualidade se manifesta quando estes vários “sexos” estão em
desacordo. Além de propor um nexo lógico entre o sexo e gênero, a concepção de
“transexualidade verdadeira” benjaminiana articula também a esfera da sexualidade, tendo em
vista que transexual é aquele sujeito que tem horror ao próprio órgão genital e deseja
incontestavelmente uma série de modificações corporais para que possa exercer sua sexualidade
de forma “apropriada”. A “mudança de sexo” aparece então como a única forma possível de
tratamento para as pessoas “verdadeiramente transexuais” (Bento, 2004).
Contemporâneo de Benjamin, o psicólogo e pediatra John Money foi um dos primeiros
a utilizar, em 1955, o conceito de “gênero” para falar das diferenças sexuais na Medicina.
Money destacava a importância do “sexo de criação” na produção da identificação com o sexo
de crianças. Em outras palavras, de acordo com o autor, a identidade sexual é gradualmente
moldada até os 18 meses de vida. Apesar de colocar em questão a dimensão social da
constituição da identidade sexual ao enfatizar a distinção entre “sexo” e “gênero”,
diferentemente de Benjamin, Money compreende o último como uma continuação “natural” do
primeiro, contribuindo assim para a manutenção de uma ordem heteronormativa (Butler, 2003)
que organiza corpos e desejos, na qual somente as equações homem-pênis-masculino e mulher-
vagina-feminino produzem seres humanos inteligíveis.
Dez anos após o início das atividades de Money, em 1965, foi realizada, no John
Hopkins Hospital, a primeira cirurgia de transgenitalização dos Estados Unidos que se tem
notícia. Em 1966, John Money fundou a Clínica de Identidade de Gênero junto a este hospital,
uma instituição que tinha como objetivo tratar de “problemas” decorrentes da não associação
entre os órgãos genitais, o reconhecimento de si como “homem” ou “mulher” e das expressões
de “masculinidade” e “feminilidade” (Leite Jr., 2010).
A partir de perspectivas distintas dos dois primeiros, o psiquiatra e psicanalista Robert
Stoller foi um dos primeiros a sistematizar reflexões sobre a transexualidade nestes campos do
conhecimento, apoiando-se em teorias freudianas. Para ele, a gênese da transexualidade se
encontra na relação da pessoa transexual com a mãe e se desenvolve na infância. Fica claro que
Stoller pensa o fenômeno da transexualidade como uma “enfermidade” que atinge somente
“homens biológicos que se pensam como mulheres”, ao descrever como comportamentos
típicos da criança que está “desenvolvendo o transexualismo” o desejo de usar roupas do sexo
feminino e brincar com bonecas. Como “tratamento”, o autor propõe o desenvolvimento de um
“Complexo de Édipo terapeuticamente induzido” ainda na infância. O sucesso do tratamento
6
seria indicado pelo aparecimento de comportamentos agressivos em relação às roupas e
brinquedos “de menina” e também para com a mãe. De acordo com Stoller, caso não fosse
tratado quando jovem, o indivíduo viria a ser transexual e a única forma de “curar” tal transtorno
seria realizar a cirurgia de “mudança de sexo”.
Com o passar dos anos, as teorias destes autores foram criticadas e revisadas por outros,
como por exemplo, a denúncia do jornalista John Colapinto, que em 2001 expôs outra versão
da história de um famoso caso de irmãos gêmeos, o qual foi reiteradamente apresentado por
John Money como prova de suas ideias e hipóteses. Entretanto, estas teorias ainda circulam e
estão presentes na atual concepção da transexualidade. Até meados de 2013, o “transexualismo”
era considerado uma patologia pela quarta edição do Diagnostic and Statistical Manual of
Mental Disorders (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) – ou, como é
conhecido no Brasil, DSM-4. Sua classificação na linguagem médica era, até então, uma
espécie de “Transtorno da Identidade de Gênero”. Com a publicação do DSM-V em maio de
2013, a expressão foi substituída por “Disforia de Gênero”, em uma tentativa de retirar das
pessoas transexuais o estigma de portadores de um transtorno mental. No entanto, o fato da
transexualidade estar descrita em um “Manual de Desordens Mentais” representa um dos
obstáculos para a despatologização das experiências de transexualidade e é o suficiente para
que a visão destas pessoas como sujeitos acometidos por uma determinada patologia permaneça
não só entre médicos e juristas, como também no senso comum.

***

No âmbito jurídico brasileiro, a transexualidade possui uma longa e complexa trajetória


marcada por diferentes posicionamentos políticos em relação ao tema. Desde o surgimento da
atual concepção de transexualidade, em meados da década de 1950, a cirurgia de
transgenitalização é apontada como “terapia para adequação genital ao sexo psíquico do
indivíduo”. Contudo, tal intervenção corporal era considerada no Brasil crime de lesão corporal
por supostamente representar a amputação de um membro saudável do corpo dos indivíduos.
Um relevante caso deste período foi o do cirurgião Roberto Farina, pois foi a partir deste
que se iniciaram os debates públicos sobre a “descriminalização” da cirurgia de
transgenitalização. Em 1971, Farina realizou a cirurgia em uma pessoa cujo nome de registro
era Waldir Nogueira. O pedido de requalificação civil de Waldir não foi somente negado, mas
também resultou em um inquérito policial instaurado contra Farina por conta do crime de “lesão
corporal grave”. Em um processo movido pelo Conselho Federal de Medicina, o cirurgião
7
acabou condenado a dois anos de reclusão e teve seu registro profissional cassado. Farina foi
absolvido posteriormente devido à intervenção de diversos profissionais ligados tanto à
Medicina quanto ao Direito. A junta médica do Hospital das Clínicas de São Paulo emitiu um
parecer favorável à realização da cirurgia como solução terapêutica e o criminalista Heleno
Fragoso avaliou como improcedente a acusação de lesão corporal.
Em seu parecer, considerado histórico, Heleno Fragoso (1979) destaca a “novidade” da
questão transexual. O jurista cita as teses de Harry Benjamin e John Money para diferenciar
homossexuais, travestis e transexuais, destacando a condenação moral que recai sobre os dois
primeiros e o caráter de enfermos dos últimos. Em suas palavras, “entende-se por
transexualismo uma inversão da identidade psico-social, que conduz a uma neurose reacional
obsessivo-compulsiva, que se manifesta pelo desejo de reversão sexual integral”. Por fim,
Fragoso ressalta que não há dúvida de que o “transexualismo” constitui uma patologia cuja
intervenção cirúrgica é a terapêutica mais adequada.
A “descriminalização” da cirurgia de transgenitalização ocorreu em 1997 com a
publicação da Resolução nº 1.482/97 do Conselho Federal de Medicina (CFM). Tal resolução
autorizou, em caráter experimental, as cirurgias do tipo neocolpovulvoplastia, neofaloplastia7 e
outros procedimentos de intervenção nas gônadas e caracteres sexuais secundários para o
tratamento do “transexualismo” (Teixeira, 2013). Conforme apontado por Zambrano (2003 e
2005), é somente a partir da possibilidade de realização da cirurgia e da autorização propiciada
pela resolução do CFM que se constitui a pauta pelo “direito de mudança de nome e sexo”, ou
requalificação civil, redesignação de nome e sexo, entre outros termos.
Em 2002, o CFM lançou a Resolução nº 1652/2002 que substituiu a resolução anterior.
A novidade desta resolução foi a retirada do caráter experimental da cirurgia de
neocolpovulvoplastia, ou seja, tal cirurgia foi liberada para ser realizada por médicos de
hospitais de todo o Sistema Único de Saúde (SUS), enquanto a cirurgia de neofaloplastia
permaneceu restrita aos hospitais universitários que realizam pesquisas sobre esta temática.
Almeida e Murta (2013) salientam que apesar de não ser mais considerada “experimental” e
figurar associada a um determinado número na Classificação Internacional de Doenças (CID),
a cirurgia de neocolpovulvoplastia não consta na tabela de procedimentos cobertos pelos planos
de saúde e não parece haver nenhum movimento da Agência Nacional de Saúde (ANS) no
sentido de reverter tal situação. Segundo os autores, este quadro influencia para que a realidade

7
A neocolpovulvoplastia e a neofaloplastia são cirurgias plásticas que visam à construção de uma vagina e de um
pênis, respectivamente.

8
dos programas transexualizadores seja marcada por filas que não possuem previsão de
andamento. Com isso, a efetivação de todas as mudanças corporais desejadas pelas pessoas
transexuais pode levar muito mais que os dois anos mínimos previstos pela regulamentação do
CFM e, assim, “prolonga-se desnecessariamente um estado de insatisfação e, em muitos casos,
de ausência de cidadania em seus termos mais elementares (direitos civis, direito de
propriedade, direito ao trabalho)” (p. 395).
De acordo com Teixeira (2013), a retirada do caráter experimental da cirurgia de
neocolpovulvoplastia se deu por conta de uma exigência burocrática do Ministério da Saúde
para que esta fosse incluída na tabela de procedimentos cobertos pelo SUS. Atualmente, a
Resolução vigente é a nº 1955/2010, que revogou a de 2002. Apesar de manter o caráter
experimental da cirurgia de neofaloplastia, tal resolução autoriza os profissionais da rede
privada de saúde a realizar de procedimentos complementares sobre as gônadas e caracteres
sexuais secundários como parte do tratamento da transexualidade, como por exemplo, a retirada
de útero, ovários e mamas.
As colocações de Fragoso (1979) ecoam até hoje nos discursos produzidos pelos
operadores do Direito. A professora e advogada Tereza Vieira (2011), referência comum em
artigos, peças processuais e decisões judiciais acerca da requalificação civil de pessoas
transexuais, destaca que a transexualidade é compreendida a partir das produções médicas e
psicológicas sobre o tema, sendo representada então como um conflito entre o corpo e a
identidade de gênero do sujeito. A inexistência de uma lei explícita sobre o direito à identidade
sexual e o não enquadramento da pessoa transexual nas previsões jurídicas são apontadas por
Schramm, Barboza e Guimarães (2011) como uma das principais causas da negação dos direitos
destes indivíduos.
O PLC 5002/2013, também conhecido como Lei João Nery8, proposto pelo deputado
federal Jean Wyllys e pela deputada federal Érica Kokay, visa estabelecer uma “lei de
identidade de gênero”. O projeto tem por intenção regulamentar não só o processo de alteração
do registro civil de travestis, pessoas transexuais e intersexuais, como também modificar as
condições de acesso à serviços de saúde, tais como a hormonização e a cirurgia de
transgenitalização, as quais não seriam mais encaradas como parte de um “tratamento” para
uma patologia e, portanto, não dependeriam mais de um diagnóstico e/ou autorização judicial.

8
João W. Nery é um famoso e importante militante do movimento transexual. Em seu livro autobiográfico, Viagem
Solitária, João narra como a impossibilidade de alterar legalmente seu registro civil o levou a renunciar sua carreira
como professor universitário para que pudesse apresentar documentos de identificação masculinos em sua vida
cotidiana, uma vez que todos os diplomas e certificados estavam em seu nome de registro.

9
Entretanto, o projeto parece caminhar a passos lentos. Após ter sido desarquivado no início de
2015, o PLC ainda aguarda designação de relator na Comissão de Direitos Humanos e Minorias
(CDHM) da Câmara dos Deputados.
É neste cenário de incerteza e dificuldades de “acesso aos direitos” – por conta da não
existência de normativa legal9 que rege a requalificação civil de pessoas transexuais – que se
desenvolvem as atuações das profissionais da Defensoria Pública. Em outras palavras, é a
ausência de um amparo legal que faz com que o processo de alteração do registro civil apele
para uma série de argumentações e estratégias de apresentação de diversos tipos de “provas” e
justificativas, como será demonstrado aos longos dos capítulos deste trabalho. Assim, ressalto
que minha intenção não é “criticar” o trabalho feito pelas funcionárias do núcleo, mas sim
contextualizar como a administração e gestão da demanda por requalificação civil de pessoas
transexuais se dá em meio a um conjunto de obstáculos que precisam ser enfrentados tanto
pelas/os pleiteantes, quanto pelas operadoras/es do Direito.

***

A mudança de estatuto da cirurgia de transgenitalização, que deixa de ser uma mutilação


e passa a ser considerada como terapêutica, é acompanhado pela modificação da moralidade
que cerca a transexualidade, que não é mais vista como um “desvio moral”, mas sim como uma
patologia que acomete alguns sujeitos. É a partir desta mudança no plano moral que a
transexualidade se transforma em um objeto amplamente investigado por pesquisadores da
bioética (Schramm, Barboza e Guimarães, 2011). É também esta visão patológica que faz com
que a argumentação em favor do direito à requalificação civil passe a ter como pedra angular a
luta pelo “direito à saúde” e a defesa do “Princípio da Dignidade da Pessoa Humana”, apelando
sempre para a obrigação dos operadores do direito de amenizar o sofrimento de “indivíduos
doentes” e oferecer a estas pessoas condições para uma “vida digna”. Sobre este ponto é preciso
destacar as relações entre moralidade e patologia: a transexualidade deixa de ser um tipo de
falha moral da pessoa transexual através da sua conversão em uma questão de saúde ao mesmo

9
Apesar da lei de identidade de gênero ainda não existir, a utilização do nome social por instituições públicas e
privadas tem se constituído enquanto um mecanismo que tenta minimizar os constrangimentos enfrentados por
pessoas transexuais em situações em que os documentos de identificação são solicitados. Neste sentido, uma série
de manobras políticas foram acionadas por instâncias como, por exemplo, o Ministério da Educação (MEC) e
Ministério da Saúde (MS), para que suas/eus usuárias/os do Sistema Único de Saúde) e de instituições públicas de
ensino possam ser identificados pelo nome utilizado publicamente.

10
tempo em que se configura como um problema moral para os operadores do Direito, invertendo
assim a equação que regulava estas relações.
Sanches (2011) argumenta que o nome e o sexo são elementos da representação social
do indivíduo e que os documentos que não expressam a realidade dos sujeitos são fontes da
infelicidade da pessoa transexual, que busca contornar tal situação através da requalificação
civil. Ainda segundo a autora, nome e sexo se confundem como elementos identificadores a
partir do momento em que existem “nomes masculinos” e “nomes femininos”, sendo esta uma
das principais causas dos constrangimentos que as pessoas transexuais estão expostas. Neste
sentido, “a busca da felicidade no perfeito ajuste da personalidade do indivíduo com sua
representação social é a tônica social moderna” (p. 425). Em outras palavras, as formulações
das demandas por direitos das pessoas transexuais é orientada por uma tripla busca: 1) pelo
pertencimento ao humano, compreendido aqui como o reconhecimento da experiência
transexual no interior da matriz heterossexual que dá inteligibilidade aos corpos, o qual, em
última instância, está condicionado à aquisição de um laudo médico; 2) pela cidadania,
entendida aqui como o pleno exercício de direitos; e 3) pela vida digna, representada pela
ausência de discriminação.
O tratamento indicado para a “cura” do transexualismo – a chamada “terapia de
mudança de sexo” – inclui uma série de procedimentos como a utilização de hormônios, o
acompanhamento psicoterápico, as intervenções corporais sobre as gônadas e os caracteres
sexuais secundários (retirada de mamas, ovários e útero) e aquilo que é tido como seu ápice: a
cirurgia de transgenitalização ou “redesignação sexual”. Para além dos consultórios médicos e
psicológicos, esta “terapia” estende-se para o âmbito judiciário ao incluir como parte do
tratamento a aquisição de um dado bem social: as alterações de nome e sexo no Registro Civil,
ou, a requalificação civil. Grosso modo, o propósito deste tratamento é solucionar os “conflitos
inerentes à transexualidade” e oferecer aos portadores da disforia de gênero a oportunidade de
“viver dignamente”.
É possível notar como a criação de uma categoria para explicar e classificar um
determinado conjunto de experiências produz não só uma determinada patologia – o
“transexualismo” ou “disforia de gênero” –, como também modifica radicalmente as formas de
subjetivação dos indivíduos que são colocados sob esta denominação. É neste processo que se
cria a pessoa “transexual”, uma figura investida de uma série de discursos reguladores e
posicionada no centro de uma disputa de poder pela definição da verdade entre diferentes
esferas do saber. Visto por outro ângulo, pode-se compreender a criação do “transexualismo”,
das “pessoas transexuais” e da “terapia de mudança de sexo” como formas de dar sentido à
11
múltiplas formas de vivenciar a transexualidade e tentar colocar tais indivíduos dentro dos
limites do humano.
Como discutido acima, ao definir a transexualidade como uma patologia e,
consequentemente, transformá-la em uma questão de saúde pública, os médicos retiraram das
mãos do poder Legislativo a competência para regular o acesso aos direitos de pessoas
transexuais. Os conflitos entre Medicina e Direito sobre a autoridade para determinar o que é
feito com determinados sujeitos não é recente e pode ser percebido em diversas searas e na
construção de distintos “problemas” que necessitam ser “resolvidos”. Um dos exemplos deste
embate foi estudado anos atrás por Carrara (1998) em sua pesquisa sobre o manicômio
judiciário. Como assinala o autor, a figura do “louco criminoso” localiza-se no centro das
disputas de poder travadas por médicos e juristas pela designação da “instituição responsável”
por lidar com estas pessoas.
O reposicionamento da transexualidade no plano político pela via da Medicina constitui,
antes de tudo, uma atualização dos mecanismos de poder que conformam e estabelecem
protocolos de atendimento em hospitais e normativas para alteração de nome e sexo no âmbito
judiciário. Nas palavras de Bento (2006), são estes saberes que conformam o dispositivo da
transexualidade, ou seja, um conjunto de práticas discursivas e não discursivas as quais têm
por finalidade estabelecer uma dominação (Foucault, 1988); ou ainda, segundo Márcia Arán,
equivale à “gestão biomédica das subjetividades no contexto atual da sociedade de controle”
(2012, p. 140).
As teorias dos autores mencionados na segunda parte desta introdução podem ser lidas
na chave do que Butler (2003) chama de “matriz heterossexual”. Tal matriz opera uma
vinculação entre as dimensões do sexo, gênero e sexualidade na produção discursiva que dá
inteligibilidade aos corpos e apresenta como natural tanto aquilo que é compreendido como
“características típicas de homens e mulheres”, quanto a heterossexualidade, apoiada em
enunciados sobre a reprodução humana. Ainda de acordo com Butler, a existência do ser social
depende da experiência do reconhecimento do pertencimento à humanidade e as fronteiras do
humano são determinadas pelas normais sociais (2004b).
A patologização da transexualidade produz a inteligibilidade das experiências de
pessoas transexuais e, por conseguinte, transforma tais sujeitos em “humanos”. Entretanto, esta
forma de compreensão traz como um efeito possível a “vitimização” dos sujeitos, os quais
passam a ser encarados como portadores de um “transtorno da identidade de gênero”. Deste
modo, ao mesmo tempo em que a linguagem do sofrimento legitima uma série de direitos
pleiteados pelas pessoas transexuais, revelando neste processo a dimensão moral presente no
12
campo do Direito e dando forma a uma espécie de “política de gestão das vítimas” (Fassin,
2012 e Sarti, 2011), ela impõe aos sujeitos outra gramática normativa – que definirá quem é
“verdadeiramente transexual” – e excluirão aqueles que não se encaixarem neste modelo, ou
seja, as/os “outras/os transexuais”. Aqueles que não têm suas experiências reconhecidas – ou
seja, não adquirem as “provas da transexualidade”, materializadas nos laudos psiquiátricos,
psicólogos e endocrinológicos – são postos à margem da humanidade. Ou seja, são corpos
ininteligíveis que, por não serem reconhecidos no interior do dispositivo da transexualidade,
encontram-se excluídos da economia jurídico-moral que regula o “acesso aos direitos”.
Produzem-se assim novas desigualdades ao hierarquizar os diferentes modos de viver a
experiência da transexualidade, ou, como aponta Claudia Fonseca e Andrea Cardarello (1999),
a disputa de poder para determinar quem tem a autoridade para designar quem são os detentores
de direitos implica uma definição de quem são os “mais e menos humanos”.

***

A organização dos capítulos desta dissertação reproduz, de certa forma, as trajetórias


das pessoas transexuais que buscam a requalificação civil através da Defensoria Pública do
Estado do Rio de Janeiro. Em outras palavras, a estrutura do trabalho está baseada no trâmite
de parte da peregrinação burocrática necessária para a construção das ações de requalificação
civil: primeiro atendimento e encaminhamentos para busca de declarações e certidões em outras
instituições; reunião de todos os documentos necessários para o ajuizamento da ação; e, por
último, a produção da petição inicial de requalificação civil.
O capítulo que abre este trabalho traz uma apresentação da instituição onde foi realizado
o trabalho de campo: estrutura, horário de funcionamento, formas de atendimento, atribuições
da instituição, demandas recepcionadas e outros fatores importantes para a caracterização do
núcleo. A partir da descrição do NUDIVERSIS, localizo-o no interior de uma malha de outras
instituições que compõem o “Estado” e também dentro de um conjunto de políticas públicas
que visam gerir as demandas da “população LGBT”. Nesta esteira, abordo também como isto
implica em um processo de dupla constituição que forma não só os sujeitos das políticas, mas
também cria a necessidade das mesmas. Por fim, explicito as condições nas quais esta pesquisa
foi realizada, demonstrando como foi minha entrada em campo e as negociações para o acesso
aos dados.
O segundo capítulo aborda como se define quem terá “direito a pleitear direitos”. Na
primeira parte do capítulo, concentro-me na descrição e análise do primeiro contato das/os
13
assistidas/os com as profissionais do núcleo: o chamado “primeiro atendimento”. Este episódio
se materializa posteriormente em um documento chamado de Relatório de Primeiro
Atendimento, o qual contém as informações básicas de identificação tanto das/os assistidas/os
quanto de suas demandas. É na situação do primeiro atendimento que histórias, demandas e
pessoas são avaliadas, podendo ou não gerar a “abertura de procedimento”, movimento que
significa a oficialização da recepção do pedido de requalificação civil dos sujeitos pelas
funcionárias do NUDIVERSIS. Na segunda parte do capítulo são exploradas as “peregrinações
burocráticas” que as pessoas transexuais precisam realizar durante o período em que são
assistidas pela Defensoria Pública. A ideia principal desta parte é pensar o trânsito destes
sujeitos por outros espaços e instituições na busca pelos documentos necessários para instaurar
a “ação de requalificação civil” como parte das estratégias e mecanismos de gestão e controle
do acesso ao direito de alteração do registro civil. Na terceira seção, preocupo-me em evidenciar
como as/os assistidas/os são produzidos e geridos ao longo do tempo de assistência. Deste
modo, exploro quais são os critérios utilizados para avaliar pessoas que pretendem realizar a
alteração de nome e sexo no registro civil.
O terceiro capítulo, intitulado “corpos de papel, sujeitos impressos”, pode ser
compreendido como uma continuação do anterior. A principal questão deste capítulo é
problematizar a concepção que orienta parte da argumentação elencada em favor da alteração
do nome e sexo no registro civil: a de que os documentos devem refletir a realidade. A primeira
parte do capítulo aborda a organização e composição das pastas das/os assistidas/os através dos
documentos obtidos após a peregrinação burocrática e a forma pela qual os sujeitos se
materializam através de documentos como declarações, atestados, relatórios e fotos. Além da
materialização de pessoas, discuto também o estatuto de prova que estes vários documentos
adquirem no processo de requalificação civil. A segunda parte articula a questão principal do
capítulo e as concepções sobre sexo/gênero que orientam as normativas e decisões judiciais. Na
terceira seção, busco aproximar as ações de produção de documentos e os atos mágicos
descritos por Mauss (2003). Por último, discuto de que modo os discursos vão para além do
papel e constroem, também, a subjetividade das pessoas transexuais.
O quarto e último capítulo apresenta uma análise do “produto final” que é função do
NUDIVERSIS elaborar: as petições iniciais de requalificação civil. Neste capítulo é abordado
o modo pelo qual política, emoções e moralidades se conjugam na busca por direitos de pessoas
transexuais ao demonstrar como o “Princípio da Dignidade da Pessoa Humana” funciona como
fio condutor da argumentação desenvolvida pelos operadores do Direito que atuam nestas
causas. Ademais, este princípio se desdobra em uma série de considerações de cunho moral e
14
apelos emocionais que vão além das justificativas baseadas nas normas positivas do Direito.
Por um lado, parte da retórica utilizada nestes documentos tenta produzir no indivíduo
responsável pelo julgamento uma empatia pelo autor da ação. Por outro, há, ao longo do texto,
denúncias de “contaminação moral” por parte dos juízes que já negaram os pedidos de alteração
do registro civil. Este capítulo encontra-se dividido em quatro seções. Na primeira, abordo o
modo pelo qual os operadores do Direito incorporam o fenômeno da transexualidade em sua
linguagem, descrevendo, assim, sujeitos vulneráveis porque vítimas. A segunda seção traz os
argumentos desenvolvidos ao longo dos textos das petições para defender a legitimidade da
demanda por requalificação civil de transexuais, implicando assim uma espécie de política da
compaixão. A terceira seção amarra as duas anteriores através da reflexão sobre os “direitos das
vítimas” que se constitui a partir das atuações das profissionais do núcleo e das ações judiciais
protocoladas. A última apresenta alguns desdobramentos deste modo fazer política: o
apagamento dos sujeitos e a homogeneização das experiências de sofrimento.

15
Capítulo 1
O Lugar da Diversidade:
apresentando o NUDIVERSIS e a pesquisa empreendida

O capítulo que abre este trabalho tem por objetivo abordar o primeiro passo para a
construção das pessoas transexuais enquanto “sujeitos de direitos” e, assim, oferecer as bases
para a compreensão e contextualização das questões que serão discutidas ao longo do texto.
Entendo como este “primeiro passo” a criação do NUDIVERSIS enquanto uma instituição que
é responsável por “acolher” todas as demandas da “população LGBT” e prestar a assistência
jurídica necessária para que tais demandas sejam atendidas. Deste modo, dedico-me aqui à
apresentação tanto da instituição na qual se deu o trabalho de campo, quanto das condições de
execução da pesquisa.
Tomo como ponto de partida a descrição tanto dos aspectos mais objetivos do
NUDIVERSIS, como o espaço de trabalho, as rotinas, as atribuições institucionais e a estrutura
profissional; quanto do processo de criação do núcleo. A partir deste panorama, busco refletir
sobre os efeitos políticos da concepção de um núcleo deste tipo, localizando-o no interior de
uma malha de instituições que compõem aquilo que é compreendido como “o Estado”. Assim,
abordo também a forma como a construção de uma política de governança produz a “população
LGBT” enquanto sujeitos de direitos específicos, ao mesmo tempo em que produz o Estado.

1.1 Descrevendo o NUDIVERSIS: rotinas de trabalho, atribuições institucionais e


estrutura profissional

O espaço e a rotina de trabalho no núcleo

O Núcleo de Defesa da Diversidade Sexual e Direitos Homoafetivos (NUDIVERSIS),


criado em maio de 2011, é um órgão de atuação da Defensoria Pública Geral do Estado do Rio
de Janeiro (DPGE-RJ). Grosso modo, a Defensoria Pública pode ser definida como uma
instituição estatal que tem por objetivo cumprir o dever constitucional do Estado de prestar
assistência jurídica integral e gratuita às pessoas que, comprovadamente, não possuem
condições financeiras para arcar com as despesas dos serviços judiciais sem prejudicar seu
16
sustento ou o de sua família; também chamadas nativamente de sujeitos hipossuficientes. As
disposições constitucionais sobre o assunto são as seguintes: artigo 5º, inciso LXXIV, o qual
diz “o Estado prestará assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência
de recursos”; e artigo 134, o qual expõe: “a Defensoria Pública é instituição permanente,
essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe, como expressão e instrumento do
regime democrático, fundamentalmente, a orientação jurídica, a promoção dos direitos
humanos e a defesa, em todos os graus, judicial e extrajudicial, dos direitos individuais e
coletivos, de forma integral e gratuita, aos necessitados, na forma do inciso LXXIV do art. 5º
desta Constituição Federal”.
O NUDIVERSIS está localizado em um prédio comercial na região central da cidade
do Rio de Janeiro. O núcleo divide um andar deste prédio com o Núcleo de Defesa dos Direitos
Humanos (NUDEDH), o qual era responsável pelo acolhimento das demandas das pessoas
LGBT antes da criação do núcleo especializado. Não existe nenhum tipo de sinalização que
indique o espaço delimitado de cada um dos núcleos10. Pelo contrário, as/os assistidas/os tanto
do NUDIVERSIS quanto do NUDEDH dividem as duas salas de espera existentes: uma
localizada imediatamente após a saída dos elevadores e antes da mesa da recepção, na qual fica
um segurança; e outra que fica após a recepção, diante da porta que dá acesso à sala dos
estagiários. As/os estagiárias/os de ambos os núcleos compartilham uma mesma sala de
trabalho; o mesmo acontece na sala das/os assessoras/es e funcionárias/os técnicas/os
administrativas/os. O único espaço que pode ser considerado como exclusivo do NUDIVERSIS
é a sala da Defensora Pública que coordena o núcleo, a qual conta com, além da mesa de
trabalho da Defensora, uma mesa vazia, que por vezes é utilizada nos atendimentos aos
assistidos e assistidas. É preciso ressaltar que no âmbito dos dois núcleos, ela é a única
Defensora que possui uma sala própria. As/os Defensoras/es do NUDEDH se dividem entre
outras duas salas maiores.
O horário de funcionamento do núcleo é das 11 às 17 horas, de segunda à sexta-feira,
período que compreende a jornada de trabalho da assessora e da funcionária técnica
administrativa. Entretanto, o atendimento ao público é realizado somente na parte da tarde,
entre às 13 e 17 horas, horário equivalente à jornada das estagiárias. O horário de atendimento
é restrito ao horário das estagiárias porque são estas que realizam a grande maioria destes, como
será discutido mais adiante. O método de controle do fluxo de atendimento é o mesmo para

10
Por este motivo, é praticamente impossível descrever as rotinas do NUDIVERSIS sem atentar para os
procedimentos realizados pelo outro núcleo (NUDEDH).

17
ambos os núcleos: assim que sai do elevador, a pessoa é interpelada por um segurança, que
pergunta o nome da/o assistida/o, o núcleo pelo qual será ou está sendo acompanhada/o e se
possui atendimento agendado. O segurança então anota o nome, o núcleo e o horário de chegada
da pessoa em uma tabela impressa e pede que a pessoa aguarde nos bancos da sala de espera
que fica após a recepção. Com as informações em mãos, ele se dirige à sala das/os estagiárias/os
e avisa que tal pessoa está esperando para tal núcleo, geralmente dando uma breve descrição
da/o assistida/o e indicando em que ponto da sala a pessoa está sentada aguardando.

Figura 1: Planta do NUDEDH/NUDIVERSIS.

Os atendimentos realizados tanto pelo NUDIVERSIS quanto pelo NUDEDH se dão, em


sua maioria, nas próprias salas de espera. A única exceção acontece quando se trata de um
“primeiro atendimento”11, que é realizado em outro espaço: uma mistura de sala de estudo e
depósito de arquivos que é utilizada para os mais diversos fins. Esta sala não possui janelas e é
relativamente pequena e apertada. Nela se encontra uma estante de livros de Direito que vão
desde os de temáticas mais comuns – como por exemplo, a Constituição Federal e o Código
Penal – até aqueles acerca das matérias específicas trabalhadas pelo NUDEDH. Contudo, não
há nenhum livro específico sobre “direitos LGBT” disponível para consulta nesta estante. Outra
estante está repleta de pastas com arquivos da Defensoria Pública. Além destas estantes, há, no

11
O “primeiro atendimento” é uma das categorias êmicas mais importantes em uso no NUDIVERSIS. Esta será
abordado mais detidamente no próximo capítulo.

18
centro da sala, uma mesa redonda e, em um canto, uma mesa com um computador. Como dito,
esta sala é utilizada das mais variadas formas. O computador é, por vezes, utilizado pela auxiliar
de serviços gerais em seu horário de almoço; alguns defensores fazem reuniões na sala; e certos
atendimentos do NUDIVERSIS ocorrem neste espaço. Em resumo, o espaço é usado quando
se precisa alguma privacidade, a qual é garantida através de uma placa que é afixada na porta
indicando que a sala está ocupada.
A maioria das/os assistidas/os do núcleo é oriunda de outras instituições voltadas para
o atendimento da população LGBT no Rio de Janeiro, com as quais existem “Termos de
Cooperação” assinados por representantes de ambas as partes. São estas os Centros de
Cidadania LGBT do programa Rio Sem Homofobia12 e Coordenadoria Especial da Diversidade
Sexual13. Contudo, estas não são as únicas vias pelas quais os sujeitos acessam o núcleo. Alguns
deles são encaminhados por outros órgãos de atuação da própria Defensoria Pública. Outras
pessoas também chegam ao núcleo sem nenhum tipo de encaminhamento formal, através da
indicação de outras/os assistidas/os. Especificamente no caso das pessoas transexuais, é comum
que haja um aconselhamento por parte da equipe profissional de programas transexualizadores
para que elas busquem orientação jurídica no NUDIVERSIS.

As atribuições do NUDIVERSIS

Além da sede no Centro da cidade, a Defensoria Pública conta com três tipos de
instituições em sua estrutura: as unidades de atuação ligadas às Varas onde os processos
tramitam; os núcleos regionais, os quais são responsáveis por realizar o “primeiro atendimento”
e o “aconselhamento jurídico” dos moradores de determinados bairros (como por exemplo, os
núcleos de Botafogo, Santa Cruz, Vila Isabel, Madureira, Bangu, etc.); e os núcleos
especializados, que lidam com matérias e/ou populações específicas, consideradas como

12
O programa Rio Sem Homofobia, criado em maio de 2007, é uma iniciativa do Governo do Estado do Rio de
Janeiro que tem por objetivo combater a discriminação e a violência contra a população LGBT e promover a
cidadania desta população em todo o estado. O programa está vinculado à Secretaria de Assistência Social e
Direitos Humanos do Governo do Estado do Rio de Janeiro (SEASDH/RJ) e é coordenado pela Superintendência
de Direitos Individuais, Coletivos e Difusos (SuperDir). Para uma etnografia sobre o processo de construção e
implementação do programa, consultar Aguião (2014).
13
A Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual (CEDS-Rio) é uma pasta do poder público da Prefeitura do
Rio de Janeiro criada em 2011. Seu objetivo é “propor políticas públicas de promoção de uma cultura de respeito
à livre orientação sexual e identidade de gênero, assim como resguardar direitos que favoreçam a visibilidade e o
reconhecimento social do cidadão LGBT – lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros no Município do Rio de
Janeiro”. Disponível em: <http://www.cedsrio.com.br/site/coordenadoria>. Último acesso em agosto de 2014.

19
necessitadas de algum tipo de “assistência especial” (Como por exemplo, o NUDIVERSIS, o
NUDEDH, o Núcleo de Defesa do Consumidor, o Núcleo Especial de Atendimento à Pessoa
Idosa, o Núcleo Especial de Direito da Mulher e de Vítimas de Violência, dentro outros)14. Em
outras palavras, os núcleos especializados respondem à uma espécie de “carência” de
administração singular demandada por determinados grupos e/ou assuntos. “Carência” esta que
é fabricada pela própria malha administrativa do Estado, como discutirei mais adiante.
O NUDIVERSIS é classificado como um núcleo especializado de primeiro
atendimento. Para compreender a extensão deste tipo de categorização é preciso dividir esta
frase em duas partes. Primeiramente, o termo “especializado” indica que as atividades do núcleo
são direcionadas às questões e demandas de uma determinada “população” (Aguião, 2014), no
caso, as pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT). Já a expressão
“primeiro atendimento” aponta para o fato de que o núcleo atua, ao menos oficialmente,
somente em uma etapa pré-processual. Ou seja, é função do núcleo “garantir a efetividade do
acesso à justiça” das pessoas LGBT. Neste caso, a palavra “acesso” não carrega uma conotação
moral característica do “fazer justiça”, mas sim possui um significado muito próximo do literal:
fazer com que as demandas de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais “cheguem” ao
poder Judiciário, uma vez que as atividades do núcleo se concentram em produzir petições
iniciais15 – e tudo aquilo implicado neste processo como, por exemplo, a produção e reunião de
provas a serem anexadas – que serão posteriormente entregues aos assistidos e assistidas para
serem protocoladas em órgãos competentes do Judiciário para dar início ao processo judicial
propriamente dito. Neste sentido, os processos com os quais as profissionais do núcleo lidam
são, basicamente, processos administrativos, também chamados de procedimento.
O documento que justifica a atuação do NUDIVERSIS nos casos patrocinados é
fundamental para a construção do raciocínio a ser desenvolvido ao longo deste trabalho.
Patrocinar um caso, um interesse ou uma ação significa transformar a demanda de alguém em
um processo judicial. No âmbito da Defensoria Pública, este é o movimento que inicia a
judicialização de uma vontade. Assim, neste contexto, o verbo “patrocinar” adquire uma dupla
acepção: 1) o primeiro sentido tem a ver com uma questão de representação jurídica: ao
patrocinar um caso, o advogado se torna a pessoa capacitada para agir em uma causa; 2) o
segundo significado remete a uma dimensão financeira: a gratuidade de justiça promovida pela

14
As listas dos Núcleos Regionais da cidade do Rio de Janeiro e dos Núcleos Especializados podem ser
encontradas nos anexos deste trabalho.
15
Petição inicial é o nomes dado ao documento protocolado em Tribunais de Justiça ou Fóruns para dar início a
um processo judicial.

20
Defensoria Pública visa uma integralidade de abrangência dos custos processuais, uma vez que
esta abarca honorários advocatícios, perícias e custas judiciais e extrajudiciais.
Definida de um modo genérico, a principal atribuição dos Defensores Públicos em
exercício no NUDIVERSIS é “atuar na defesa de LGBT em causas que sejam relacionadas a
esta condição”. De acordo com o texto deste documento – intitulado “Justificativa para
Autuação de Procedimento” –, a construção de um sujeito de direitos que necessita de um
serviço especializado está ancorada na precariedade de direitos, na condição de vulnerabilidade
e no modo de funcionamento dos órgãos do Judiciário, conforme fica explicitado no seguinte
trecho:

Considerando que as pessoas que compõem a população de lésbicas, gays, bissexuais,


travestis e transexuais (LGBT) encontram especiais dificuldades para exercitar com
plenitude ante o sistema de justiça os direitos reconhecidos pelo ordenamento jurídico,
enquadram-se no conceito de pessoas em situação de vulnerabilidade da regra n. 3 do
documento internacional conhecido como ‘100 Regras de Brasília sobre acesso a justiça
das pessoas em condição de vulnerabilidade’, estando a demandar a atuação do
NUDIVERSIS, a fim de buscar-se a efetividade do acesso à justiça. (Justificativa para
autuação de procedimento, grifos no original)

Assim, as profissionais do núcleo atuam em diversos tipos de “casos”, como por


exemplo, processos por danos morais e agressões físicas provocadas por discriminação em
relação à orientação sexual e/ou identidade de gênero, pedidos de adoção por parte de pessoas
LGBT, ações de dupla maternidade ou paternidade, garantia de direitos associados à dissolução
de uniões estáveis ou casamentos entre pessoas do mesmo sexo, violação de direitos
sucessórios, reconhecimento de união estável post mortem, pedidos de requalificação civil,
obrigação do Estado de prestação de serviços de saúde pública, entre outros.
Durante o trabalho de campo, tive como foco a apreciação da administração daquilo que
as pessoas transexuais reivindicam enquanto “seus direitos”. Neste sentido, a principal demanda
apresentada por estas pessoas é a requalificação civil, ou “redesignação de prenome e sexo” no
registro civil. Outros pedidos e reclamações feitas pelos sujeitos transexuais estavam
relacionados à falta ou ao não acesso aos medicamentos indicados como terapêuticos para a
transexualidade – geralmente hormônios e/ou inibidores de hormônios; ou ainda, reclamações
sobre serviços de saúde prestados pelos programas transexualizadores, como o longo tempo de
espera para a marcação de consultas, a falta de vaga em ambulatórios e a não previsão de
realização da cirurgia transgenitalizadora, o não respeito ao uso do nome social etc.

21
Nos casos em que é solicitada a modificação de prenome e sexo de pessoas transexuais,
a atuação do núcleo consiste em elaborar uma ação de requalificação civil, que, em outras
palavras, é uma petição inicial a ser entregue as/aos assistidas/os para dar início ao processo de
“alteração de prenome” ou “alteração de prenome e sexo”. A distinção da demanda entre
“alteração de prenome” e “alteração de prenome e sexo” se faz importante na medida em que
cada uma delas é remetida a diferentes Varas do poder Judiciário, implicando, entre outras
coisas, distintos tempos médios de julgamento da ação. Os processos de requalificação civil
que visam à mudança de sexo no registro civil da/o assistida/o são de competência da Vara de
Família por se tratar de uma alteração no “estado da pessoa”. Já os pedidos de modificação
apenas do prenome, por não terem essa especificidade, são distribuídos nas Varas de Registros
Públicos.
A construção da ação de requalificação civil traz consigo um processo de produção,
organização e apresentação de “provas” de que o indivíduo autor da ação se trata de um
“verdadeiro transexual” (Bento, 2006) e que, por conta disso, deve ter seu desejo pela alteração
de nome e/ou sexo acolhido pelo Judiciário. Dentre os diversos tipos de documentos que
figuram como “provas”16 nestes processos, encontram-se laudos de psicólogos, psiquiatras,
endocrinologistas e assistentes sociais atestando a transexualidade do sujeito; certidões de
“nada consta” emitidas por Ofícios de Registro de Distribuição (ORD) comprovando que não
existe nenhum tipo de pendência judicial, tributária, criminal etc. associada àquela pessoa;
Estudos Sociais elaborados por psicólogos e assistentes sociais vinculados à Defensoria Pública
avaliando a procedência do pedido de requalificação civil; fotos da assistida ou assistido
“vivendo sua identidade de gênero”; e uma lista com, ao menos, três pessoas “dispostas a
testemunhar em juízo que tal pessoa se trata de uma ou um transexual”.
De acordo com as estagiárias, o tempo médio de duração do acompanhamento de
uma/um assistida/o pelo NUDIVERSIS, isto é, o período que compreende desde o primeiro
atendimento até a entrega da petição inicial, é de dois a três meses. Segundo a Defensora Pública
que coordena o núcleo, o trabalho executado pelas profissionais é rápido: uma vez que se tenha
em mãos todos os documentos necessários para o ajuizamento da ação de requalificação civil,
levam-se em média três dias para a produção da petição inicial17. Por um lado, o longo tempo

16
O status de prova que determinados papéis adquirem nos processos de requalificação civil de pessoas transexuais
será discutido em maior profundidade no terceiro capítulo deste trabalho.
17
Cabe salientar que as petições iniciais seguem um modelo previamente estabelecido, com pouco espaço para
modificações, as quais dependem das trajetórias das/os assistidas/os. Este modelo de petição inicial é tomado como
objeto de análise no quarto capítulo desta dissertação.

22
de espera a qual os sujeitos estão submetidos é oriundo do funcionamento de outras instituições,
como por exemplo, a Coordenação de Psicologia e Serviço Social da Defensoria Pública do Rio
de Janeiro e os ORD. Por outro, tal demora é atribuída pelas profissionais ao “desinteresse” ou
“descompromisso” das/os assistidas/os em buscar ofícios e apresentar a documentação que
precisa a ser anexada à ação.
Ressalto que durante os meses em que acompanhei e participei das rotinas de trabalho
das profissionais do NUDIVERSIS, nenhuma/um das/os assistidas/os as/os quais pude observar
desde o primeiro atendimento teve a petição inicial entregue. Até o momento em que encerrei
o campo, nenhuma dessas pessoas havia reunido a documentação completa para o ajuizamento
da ação. De acordo com as estagiárias, algumas destas pessoas “simplesmente desistiram” da
demanda, tendo em vista que não mais entravam em contato ou respondiam as solicitações das
profissionais do núcleo.
De um modo mais difuso, a espera dos indivíduos “realmente interessados” na
requalificação civil é produzida como “culpa da burocracia”, o que, em última instância, pode
ser compreendido como a responsabilização do “Estado”. Para pensar sobre este ponto, trago
as colocações de Herzfeld (1993) sobre a teodiceia secular. Segundo o autor, é a teodiceia
secular que permite a problematização daquilo que é descrito como errado sem descrer
completamente na cosmologia do Estado. Em outras palavras, esta é uma linguagem utilizada
para falar contra o Estado sem abalar sua crença fundante, construindo a inteligibilidade das
situações através da acomodação dos infortúnios.
Como mencionado anteriormente, o NUDIVERSIS atua somente na fase prévia a
instauração do processo judicial propriamente dito. Logo, o trabalho do núcleo tem início com
a recepção da demanda através daquilo que é nativamente nomeado como primeiro atendimento
e encontra seu fim, ao menos no plano teórico, com a entrega da petição inicial a/ao assistida/o.
Após estar com a petição inicial em mãos, a/o assistida/o deve protocolá-la no Fórum
competente, ou seja, aquele que abrange seu bairro de residência. Conforme exposto acima, a
distribuição da ação vai depender dos pedidos constantes no documento: ações para alteração
somente de prenome são encaminhadas para a Vara de Registros Públicos, enquanto os
processos de modificação de prenome e sexo são de competência da Vara de Família.
A partir do momento em que a ação é protocolada, é a/o Defensora/or Pública/o da Vara
à qual o processo foi distribuído que se torna responsável pelo caso. No plano formal, é este
movimento que encerra o papel das profissionais do NUDIVERSIS, uma vez que a Defensora
Pública do núcleo não é legitimada a fazer nenhuma manifestação escrita no processo. Fazer
uma manifestação escrita em um processo significa intervir oficialmente no se andamento.
23
Apesar não estar autorizada a fazer isso, a Defensora aciona certos mecanismos para atuar de
modo informal nos processos sobre “direitos LGBT”, como por exemplo, a troca de e-mails
com outras/os Defensoras/es, a comunicação das reclamações das/os assistidas/os, o envio de
modelos de ação do núcleo e de compilação de jurisprudência sobre o assunto, entre outras
coisas.
Entretanto, não é incomum que as/os assistidas/os retornem ou liguem para o núcleo
para tirar algumas dúvidas relativas ao seus processos e/ou para saber sobre o andamento de
suas ações. Outro tipo comum de retorno ao núcleo é para reclamar sobre o atendimento
prestado por profissionais de outros órgãos de atuação da Defensoria Pública. De acordo com
um discurso nativo que circula entre os corredores e mesas de trabalho, não são todos os
profissionais da Defensoria Pública que estão preparados para lidar com os casos e demandas
característicos da população LGBT por uma série de questões. Uma delas é que as matérias –
muitas vezes relativamente recentes e não previstas legalmente – não são do conhecimento de
todos os operadores do Direito. Além disso, é mencionado pelas funcionárias do núcleo que
muitos desses operadores não possuem contato com indivíduos LGBT, o que os torna menos
sensibilizados aos problemas enfrentados por essa população. Em outras palavras, estes sujeitos
são, de certa forma, acusados de não terem empatia pelas pessoas LGBT, em especial, as
pessoas transexuais. Este último discurso reforça algumas ideias largamente reproduzidas entre
as profissionais do núcleo: a de que a segunda instância do Judiciário é mais receptiva às
demandas LGBT e que os desembargadores são mais competentes e atuam de acordo com uma
ética profissional que não é característica dos magistrados de primeira instância.

A estrutura profissional do núcleo

O NUDIVERSIS contava, na época da pesquisa, com cinco profissionais atuando em


seu quadro: uma defensora pública, uma assessora, uma técnica de nível médio e duas
estagiárias. Esta estrutura se mantém constante praticamente desde a criação do núcleo, em
maio de 2011, exceto pelas estagiárias, cujos contratos duram seis meses e podem ser renovados
de acordo com o interesse tanto das mesmas quanto da coordenadora do núcleo, até o prazo
máximo de dois anos. Apresento agora um breve resumo das trajetórias de cada uma destas
profissionais18.

18
Um quadro resumido das funcionárias que atuavam no NUDIVERSIS na época em que realizei a pesquisa
encontra-se nos anexos deste trabalho.

24
A Defensora Pública é também a coordenadora do núcleo. Ela tem 32 anos e é
concursada da Defensoria Pública desde 2006 (cerca de oito anos quando no fim do trabalho de
campo). Antes de coordenar o NUDIVERSIS, ela atuou como defensora substituta, cobrindo
as férias de outros Defensores. No início de 2011 ela passou a integrar a administração da
instituição, trabalhando na corregedoria da Defensoria Pública. Formada em Direito por uma
universidade pública do Rio de Janeiro em 2005, ela defendeu uma monografia cuja temática
envolvia um dos aspectos dos “direitos de pessoas LGBT”. Ela diz também ser interessada neste
tema desde sempre, e isso, somado ao seu descontentamento em trabalhar na corregedoria, foi
crucial para que ela fosse convidada pelo Defensor Público Geral para coordenar o
NUDIVERSIS desde a sua criação, em maio de 2011. Durante o trabalho de campo, ela também
integrava a equipe de um núcleo regional da DPGE-RJ, revezando seus dias de trabalho entre
as duas instituições. Enquanto coordenadora e única Defensora Pública em atuação no núcleo,
é ela quem responde pelo NUDIVERSIS e representa o órgão em algumas situações, como por
exemplo, nas reuniões do Conselho Estadual dos Direitos da População LGBT do Rio de
Janeiro; é ela também quem assina e carimba todos os documentos produzidos no âmbito do
núcleo, desde os ofícios até as petições iniciais.
A Assessora tem 54 anos e, além de advogada, é também professora de história. Ela atua
no NUDIVERSIS desde o fim de 2011, por volta de seis meses depois da criação do núcleo
(quase três anos quando no fim do trabalho de campo). Seu cargo é comissionado, ou seja, é
um cargo de confiança. Dentre suas funções, destaca-se o assessoramento da Defensora em
reuniões e eventos, o acompanhamento de determinados atendimentos aos assistidos e
assistidas, o auxílio em relação aos conhecimentos sobre “direitos LGBT” das estagiárias, o
atendimento telefônico do núcleo e a marcação de primeiro atendimento no calendário. Antes
do NUDIVERSIS, ela atuava em outro órgão da Defensoria Pública, entretanto, devido à sua
identificação com as causas LGBT, foi convidada a formar a equipe do núcleo. Sua trajetória é
marcada pelo ativismo desde sua juventude, quando era ligada a um partido de esquerda, o qual
ela descreve como aberto às questões das minorias sociais. Em sua entrevista, ela afirmou ter
interesse na “defesa dos direitos daqueles que não têm muita voz” e é isso que a motiva a
trabalhar no núcleo.
A Técnica Administrativa tem 27 anos é uma funcionária concursada de nível médio da
Defensoria Pública lotada no NUDIVERSIS. Entretanto, ela também possui graduação em
Direito, o que faz com que ela exerça funções que seriam de uma técnica de nível superior,
como por exemplo, revisão das petições iniciais e auxílio nas dúvidas das estagiárias. Além
disso, ela também desempenha funções administrativas, como a emissão de ofícios, marcação
25
de primeiro atendimento, atendimento telefônico, controle da planilha de ofícios, organização
dos procedimentos e acompanhamento processual e administrativo dos processos no âmbito do
núcleo. Ela tomou posse em julho de 2012 (cerca de dois anos quando no fim do trabalho de
campo) e foi imediatamente lotada no núcleo, não tendo trabalhado em outros órgãos da
Defensoria Pública anteriormente. Ela diz que ser lotada no núcleo foi muito bom, pois fez com
que ela entrasse em contato com assuntos e experiências de vida que até então eram pouco
conhecidos por ela, seja no plano do conhecimento jurídico, seja em sua vida pessoal.
A Estagiária I tem 21 anos e é estudante do 7º período da graduação em Direito de uma
universidade pública do Rio de Janeiro. Ela chegou ao NUDIVERSIS em outubro de 2013
(cerca de dez meses quando no fim do trabalho de campo) através de um anúncio de vaga de
estágio que circulou em um grupo voltado para estudantes de Direito de uma rede social, bem
como pela indicação de uma amiga, que na época estagiava no núcleo. Ela conta que tinha
interesse em trabalhar com “direito homoafetivo”, mas que até então não sabia da existência de
um núcleo especializado nesta área e não tinha experiência com a temática. Seu processo
seletivo consistiu de uma prova com perguntas sobre a atuação da Defensoria Pública e sobre
direitos da população LGBT, uma redação e uma entrevista com a Defensora do núcleo.
A Estagiária II também tem 21 anos e é estudante do 5º período da graduação em Direito
de uma universidade pública do Rio de Janeiro. Ela relata que entrou formalmente para os
quadros do NUDIVERIS em abril de 2014, mas que já estava efetivamente trabalhando desde
meados de fevereiro (cerca de seis meses quando no fim do trabalho de campo). Seu processo
seletivo foi praticamente idêntico ao da outra estagiária: prova e redação sobre direitos LGBT
e uma entrevista que, no seu caso, foi conduzida pela funcionária técnica administrativa. Ela
conta que estava buscando um estágio e que foi informada da existência da vaga no núcleo por
um amigo que era estagiário do NUDEDH. Apesar de ter vagas disponíveis para estagiar em
outros locais e, consequentemente, com outras questões, ela preferiu o NUDIVERSIS por
acreditar que ela iria gostar muito de trabalhar no núcleo. De acordo com sua narrativa, ela
destaca que apesar de nunca antes ter estudado ou trabalhado com direitos LGBT, ela vivenciou
algumas questões “na prática”, pois seu pai é homossexual e uma de suas primas é uma mulher
transexual.
Estes resumos das trajetórias pessoal e profissional das pessoas que trabalhavam no
núcleo durante a realização de minha investigação revelam algumas importantes questões sobre
a estrutura profissional da instituição. A primeira, e mais óbvia, é que todas as pessoas que
trabalhavam no NUDIVERSIS durante a realização da pesquisa eram mulheres. Percebe-se
então que tal estrutura, do modo como se encontra configurada, está orientada por determinadas
26
concepções de gênero. Conforme apontado na seção anterior – e que será explorado ao logo
deste trabalho – as pessoas LGBT são vistas como “vulneráveis”, ou seja, como pessoas que
necessitam de um serviço qualificado e especializado para que tenham o acesso aos direitos
garantido. Para além dos papéis, esta visão é constantemente reproduzida nas falas e nas
atuações das profissionais, como podemos ver no trecho da entrevista realizada com a
Defensora aqui reproduzido:

Primeira coisa, a gente tem que ter na estrutura do núcleo pessoas que tenham o mínimo
de sensibilidade e identificação com a causa. A partir do momento que você se identifica
com aquela causa, que você consegue se colocar no lugar da outra pessoa, você estuda a
fundo o que significa, como é a luta, como é a história de luta dessa população LGBT,
como é o engajamento das pessoas no sentido de ver reconhecido um direito que eu
acredito que elas realmente tenham e eu efetivamente acredito que elas tenham todos os
direitos pelos quais eu luto aqui, eu não luto da boca pra fora, eu realmente acredito no
que eu faço. A partir do momento que você acredita nisso e tem o mínimo de sensibilidade,
é mais fácil você conseguir atender essa pessoa sem tornar apenas mais um atendimento.
Aqui, cada um que eu atendo eu tento me colocar no lugar daquela pessoa e eu tento pensar
que aquele é um atendimento especial em relação ao outro. Todos são especiais, eu não
trato aqui como mais um, como um processo a mais. E isso eu sempre falo para as
estagiárias, para as servidoras: todas as pessoas aqui precisam ser muito bem atendidas.
Porque eu parto do princípio que a pessoa antes de chegar aqui já sofreu muito. Já passou
um processo de vitimização. De repente aqui foi a última porta que ela veio bater e pra
chegar até aqui, de repente, ela precisou de muita coragem, de muita energia, muito
esforço para ter ânimo de vir bater na porta da Defensoria Pública. Porque, com certeza,
pra chegar aqui a pessoa já sofreu, já bateu muito com a cabeça. (Defensora Pública)

Uma cena que condensa o modo como esta representação opera se deu quando uma das
estagiárias manifestou que se preocupa quando alguma/um assistida/o transexual para de
procurar o núcleo e que se incomoda com tempo que se leva não só para a produção da petição
inicial, mas também para o julgamento da ação. Segundo ela relata, seu medo é de que a pessoa
venha a se suicidar durante este período. O suicídio apareceu em vários momentos como aquilo
que simbolizaria o fracasso absoluto do serviço no que se refere a assistência de pessoas
transexuais. Este temor do suicídio tem a ver com o modo pela qual as concepções médico-
psiquiátricas da transexualidade atravessam o discurso jurídico. Se as pessoas transexuais estão
sujeitas a um sofrimento intenso e contínuo, faz sentido conceber tais indivíduos como se eles
estivessem sempre propícios a dar fim na própria vida.
Todas as funcionárias do núcleo afirmam, de formas mais e menos explícitas, que para
trabalhar no NUDIVERSIS é preciso possuir certa sensibilidade e capacidade empática para
lidar com assistidas e assistidos que chegam à sala de espera com percursos de vida marcados

27
por episódios de sofrimento e discriminação. Tal sensibilidade está associada a uma dimensão
do cuidado e do afeto, que seria característica do feminino, evidenciando uma espécie de
“generificação do cuidado”.
Um cenário parecido com o do NUDIVERSIS foi anteriormente observado na pesquisa
etnográfica empreendida por María Gabriela Lugones (2012). Ao acompanhar o cotidiano dos
Tribunales Prevencionales de Menores na cidade de Córdoba, a autora demonstra como as
práticas de administração e gestão de uma população produzida como vulnerável – no caso,
crianças e adolescentes – é perpassada por construções do gênero cuja centralidade pode ser
localizada na figura da mulher-mãe que tem não somente a capacidade de compreensão dos
dramas que afligem as pessoas e famílias, mas também o dever moral de cuidar das crianças.
Outros tópicos recorrentes nas falas sobre as características requisitadas para atuar no
NUDIVERSIS são sobre o interesse, no âmbito normativo, pelos “direitos LGBT” e a
identificação com a “causa LGBT”19. O interesse aparece como a vontade de estudar matérias
específicas dos direitos da população LGBT, como por exemplo, o matrimônio igualitário, a
adoção por casais do mesmo sexo, dupla maternidade ou paternidade, repressão à discriminação
por orientação sexual e/ou identidade de gênero, requalificação civil de pessoas transexuais
etc.; já a identificação surge nas trajetórias de cada uma delas por diferentes motivos. No caso
da Defensora, a identificação é fruto do interesse pelo tema no campo jurídico; a Assessora,
que já foi militante de um partido de esquerda, diz identificar-se não apenas com a causa LGBT,
mas com uma questão mais geral das minorias sociais; e a Estagiária II possui familiares LGBT,
o que faz com que ela se identifique com a causa.
A possibilidade de identificação é condição-chave para que se tenha empatia por
determinado caso e/ou pessoa, contudo, tal questão será abordada mais adiante. Por ora, me
limito a citar a proposição de Lynn Hunt sobre o funcionamento da empatia. De acordo com a
autora, “a empatia depende do reconhecimento de que os outros sentem e pensam como
fazemos, de que nossos sentimentos interiores são semelhantes de um modo essencial” (Hunt,
2009, p. 27). Subjacente tanto ao interesse quanto à identificação está uma espécie de crença
no mérito das demandas das/os assistidas/os e de comprometimento com a promoção daquilo
que é justo, ambos ancorados em um idioma ético e moral compartilhado.

19
A passagem dos “casos” às “causas” é uma das formulações propostas por Boltasnki (1999). De acordo com o
autor, tal passagem depende uma determinada economia entre o individual e o coletivo. Em outras palavras, é
preciso de uma certa forma de disposição e exposição do “caso” para que ele possa ser encarado como um exemplo
de um mal mais amplo que pode atingir a todos, transformando-se em uma “causa” política. No caso da
investigação ora apresentada, os “casos” se configuram a partir do momento em que “o procedimento é aberto”,
ou seja, a partir da criação da pasta da/o assistida/o, como será discutido no próximo capítulo.

28
1.2 A política dos sujeitos e os sujeitos das políticas: o papel do NUDIVERSIS na
constituição da “população LGBT” e do Estado

A seção anterior traz algumas importantes informações para se ponderar sobre o modo
como a estrutura de um serviço público para o atendimento da chamada “população LGBT”
espelha a forma pela qual tais pessoas são vistas e como suas demandas são produzidas e
incorporadas nas agendas políticas e aparatos administrativos do Estado. Oferece, também,
certas pistas para se refletir sobre como tais instituições contribuem para a formação das pessoas
LGBT enquanto sujeitos de direitos. Ou ainda, como aponta Aguião (2014), permite pensar
sobre como um conjunto de direitos é capaz de materializar certas identidades e como certas
identidades engendram um determinado conjunto de direitos.
Deste modo, nesta parte do capítulo, meu esforço se concentra na análise do contexto
político da criação do núcleo e suas consequências na constituição da “população LGBT”.
Busco também apresentar algumas reflexões sobre o papel do NUDIVERSIS dentro de uma
malha de instituições que produzem o efeito de Estado (Mitchell, 2006), ou seja, como a
complexidade de dimensões que compõem o Estado se articulam de modo a construí-lo
enquanto uma espécie de entidade autônoma capaz de regular e administrar não somente os
sujeitos, mas também uma série de conflitos.

A criação do NUDIVERSIS

O NUDIVERSIS foi criado no dia 12 de maio de 2011 através da Resolução DPGE nº


580, assinada pelo então Defensor Público Geral do Estado do Rio de Janeiro. Contudo, é
preciso destacar que a resolução que regulamenta e define precisamente quais são as atribuições
do NUDIVERSIS se encontrava em discussão até o momento em que finalizei o campo, tendo
sido pauta de diversas reuniões do Conselho Superior da Defensoria Pública sem que se
chegasse a um consenso. A criação do núcleo se deu junto com a campanha de promoção e
inauguração dos serviços oferecidos pelo programa Rio Sem Homofobia, uma iniciativa do
Governo do Estado do Rio de Janeiro. O programa, criado em 2008, consiste na elaboração de
um Caderno de Ações e Metas a ser assinado por diferentes secretarias, instâncias
administrativas e órgãos do estado do Rio de Janeiro para que estes se envolvam no “combate
à discriminação por orientação sexual e identidade gênero e na promoção da cidadania das
pessoas LGBT”.
29
Neste sentido, o programa já estabeleceu “parcerias” com outras instituições, como por
exemplo, a Policia Civil do Estado do Rio de Janeiro; e promoveu uma série de eventos e cursos
para sensibilização e capacitação para a promoção dos “direitos humanos da pessoa LGBT”,
como a Jornada Formativa de Segurança Pública e Cidadania LGBT, empreendida com o
apoio das Polícias Civil e Militar do Rio de Janeiro para qualificar policiais civis e militares do
estado para o atendimento de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, visando o
enfrentamento à homofobia. Sobre as “parcerias” entre diversas instituições, cabe salientar que
esta é uma importante categoria nativa da administração pública, que visa à distribuição das
atribuições e conformação de uma malha de entidades, organizações etc. que estabelecem o
controle minucioso de determinados sujeitos e/ou coletividades.
A concepção do núcleo vem na esteira deste processo de produção de políticas de
governança e serviços públicos voltados para a “população LGBT”. Logo, o NUDIVERSIS é
criado através do comprometimento da Defensoria Pública, representada pelo Defensor Público
Geral, com a assinatura do caderno proposto pelo Rio Sem Homofobia. Em outras palavras, o
núcleo surge como uma das frentes do programa. No entanto, atualmente, a autonomia do
NUDIVERSIS em relação ao programa é objeto de algumas disputas. Um dos discursos
correntes defende que a Defensoria Pública é uma instituição estatal independente e que o
núcleo, enquanto um órgão de atuação da Defensoria, é subordinado somente a esta. Assim, a
autonomia do NUDIVERSIS se materializa através do atendimento de assistidas/os que chegam
ao núcleo por outros caminhos; e também através da existência de um termo de cooperação
assinado entre o núcleo e a Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual, uma iniciativa
semelhante ao Rio Sem Homofobia, só que de outra instância governamental, a Prefeitura do
município do Rio de Janeiro.
Apesar da reiteração da independência do NUDIVERSIS, este continua ligado ao
programa Rio Sem Homofobia, considerando que: 1) a grande maioria das/os assistidas/os vem
encaminhada deste serviço; 2) o núcleo é concebido como parte integrante do programa. Esta
imbricação é explicitada no texto do termo de cooperação técnica celebrado entre o programa
– representado pela Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos do Governo do Estado
do Rio de Janeiro (SEASDH-RJ) – e os núcleos de defesa tanto da diversidade sexual
(NUDIVERSIS) quanto dos direitos humanos (NUDEDH) – representantes da DPGE-RJ para
o referido assunto. De acordo com este documento, é atribuição dos núcleos:

1) prestar assistência jurídica integral e gratuita a população de lésbicas, gays, bissexuais,


travestis e transexuais – LGBT e seus familiares em especial aos usuários encaminhados

30
pelos Centros de Cidadania LGBT e outros órgãos da SUPERDIR/SEASDH do Programa
Estadual Rio Sem Homofobia, no âmbito das tutelas individual e coletiva, nos casos
envolvendo busca e direitos e ou situações de discriminação e violência contra lésbicas,
gays, bissexuais, travestis e transexuais – LGBT e seus familiares;
[...]
5) manter a participação de Defensor Público em atuação no NUDIVERSIS e no NUDEDH
no Conselho Estadual dos Direitos da População LGBT (CELGBT/RJ) e Comissões afins;
[...]
12) divulgar em todos os materiais do NUDIVERSIS, a parceria Programa Estadual Rio
Sem Homofobia, SUPERDIR/SEASDH e NUDIVERSIS/DPGERJ. (Termo de cooperação
técnica RSH-NUDIVERSIS, grifos meus).

A complexidade das múltiplas dimensões que compõem o Estado fica evidente quando
voltamo-nos para a análise deste termo de cooperação técnica. Ambas as instituições são, de
certo modo, políticas públicas e ambas fazem parte do Estado. Entretanto, esta separação entre
aquilo que é programa governamental de iniciativa do poder Executivo – o RSH, a SuperDir e
a SEASDH-RJ – e aquilo que é um órgão auxiliar do poder Judiciário – a DPGE-RJ e seus
núcleos –, opera para produzir um efeito de Estado, como proposto por Mitchell (2006). Ou
ainda, ambas fazem parte da malha de mecanismos e instituições que compõem o Estado e
reforçam seu poder através desse espraiamento e distribuição de deveres e responsabilidades
administrativas, botando em evidência o “Estado enquanto administração” (Teixeira e Souza
Lima, 2010).

Especificando “sujeitos de direitos”: a constituição da “população LGBT” a partir do


discurso sobre direitos humanos

Antes de iniciar o desenvolvimento do raciocínio proposto nesta parte, é preciso ter em


mente que sua construção é orientada por uma questão central formulada por Butler (2003).
Tomando como objeto de reflexão a fabricação das “mulheres” enquanto “o sujeito” do
feminismo, a autora sugere que se compreendam as identidades como efeito de práticas
discursivas. Butler então se pergunta se existiria um “sujeito” – uma figura crucial para a
organização política – anterior à construção política de seus interesses e demandas. Em suas
palavras, “a formação jurídica da linguagem e da política que representa as mulheres como ‘o
sujeito’ do feminismo é em si mesma uma formação discursiva e efeito de uma dada versão da
política representacional” (p. 18-9). Assim, é a partir destas colocações que busco discutir o

31
papel do NUDIVERSIS na produção da inteligibilidade dos sujeitos que compõem a
“população LGBT”.
No documento de criação do núcleo é apresentado um conjunto de considerações que
fundamentam e justificam a formação de um órgão de atuação voltado para o atendimento
específico de demandas da “população LGBT”. Dentre estas, destaco aquelas que sumarizam
não só o escopo de atuação do núcleo, mas também condensam muitas das questões que serão
abordadas ao longo deste trabalho:

- a descentralização administrativa, através da criação dos Núcleos Especializados de


Atendimento, prima pela excelência e crescente especialização dos serviços prestados e
tem como escopo a prestação de atendimento cada vez mais eficaz aos hipossuficientes,
para a efetiva concretização do acesso à Justiça;
[...]
- a necessidade de crescente qualificação e especialização na defesa da Diversidade Sexual
e dos Direitos Homoafetivos, garantindo-se a efetivação do acesso à justiça e a inserção do
direito das pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis e transgêneros (LGBT)
no sistema jurídico, especialmente no que concerne à vedação à discriminação por
orientação sexual, propositura de ação judicial para retificação do nome e sexo registral do
transexual, reconhecimento da união homoafetiva e seus consectários jurídicos, tais como,
direito à percepção de alimentos, sucessão, partilha de bens, homoparentalidade, ou na
defesa de qualquer outro direito relacionado à dignidade da pessoa humana, nos termos do
art. 1º, inciso III da Constituição Federal, de modo a garantir o pleno exercício do direito
de todos em realizar os seus atributos inerentes à personalidade e concretizar os direitos
constitucionalmente previstos. (Resolução de criação do NUDIVERSIS, grifos no original)

Como apontado na seção anterior de forma breve, antes da criação do NUDIVERSIS,


as demandas de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais eram recepcionadas pelos
Defensores Públicos ligados ao NUDEDH. Como proposta analítica, sugiro pensar tanto a
definição de direitos quanto a produção dos sujeitos destes direitos – a “população LGBT” –
como duas faces de um mesmo processo: a especificação contínua dos direitos humanos, tendo
em vista que, no atual quadro político, marcado pela emergência da razão humanitária (Fassin,
2012), os “direitos humanos” funcionam como uma espécie de parâmetro ético supostamente
universal.
Tenho como ponto de partida a ideia colocada por Vianna (2012) de que as práticas,
sujeitos e experiências implicados nos chamados “direitos sexuais” conformam um “conjunto
disperso e heterogêneo de princípios, demandas, incômodos e subjetividades políticas” (p. 228).
A autora compreende os direitos sexuais como derivados de um discurso sobre direitos
humanos através da autonomização da esfera da sexualidade, a qual transforma o seu exercício

32
em uma espécie de “direito humano legítimo”. Vianna observa também que este processo
acarreta a invenção de “solidariedades não muito simples de serem articuladas no plano das
iniciativas políticas” (p. 229). Tomo, então, a produção da “população LGBT” como um
exemplo desta “invenção de solidariedades”, uma vez que uma gama complexa de sujeitos e
demandas é colocada sob uma mesma categoria.
Claudia Fonseca e Andrea Cardarello (1999) identificam um processo de luta simbólica
pela efetivação dos direitos humanos, que elas denominam de definição dos “mais e menos
humanos”. Isto é, existe uma disputa de poder para determinar quem tem a autoridade para
designar quem são os sujeitos detentores de direitos. Um dos principais conceitos trabalhados
pelas autoras em suas análises é o de frente discursiva, a qual possui um duplo-efeito: ao mesmo
tempo em que movimenta um suporte político ao grupo tematizado, o reifica e reforça imagens
que pouco têm a ver com a realidade concreta vivenciada pelas pessoas. Como o nome sugere,
a frente discursiva é formada por “processos discursivos” que produzem sujeitos políticos
através da definição de categorias que conformam um sistema de classificação. Tais categorias
de classificação são fundamentais para o acesso aos direitos, já que, segundo as autoras, os
direitos humanos, enquanto um ideal, seriam esvaziados de significados. Tais significados só
são adquiridos na prática, quando colocados em “categorias semânticas precisas” (1999, p. 3).
De modo semelhante a Fonseca e Cardarello, Lynn Hunt (2009), ao analisar a história
do desenvolvimento dos direitos humanos, propõe que estes sejam vistos como um tipo de
linguagem que aparece sem uma definição exata daquilo sobre o que ela fala, ou seja, sem
esclarecer quais são esses “direitos”. É a partir desta indefinição que os conteúdos dos direitos
humanos começam a ser produzidos através da especificação, fazendo surgir, por exemplo, os
chamados “direitos sexuais”. Nesta esteira aparecem também os sujeitos e grupos que se
constituem através de determinados direitos, como por exemplo, as vítimas de uma dada
doença. Neste sentido, a criação de um núcleo especializado no atendimento a lésbicas, gays,
bissexuais, travestis e transexuais pode ser identificado com este processo que busca
constantemente delimitar quais sujeitos e quais direitos estão sendo tratados, produzindo assim
a população LGBT e o direito homoafetivo20 (ou direitos LGBT).

20
“Direito Homoafetivo” é uma expressão que designa o conjunto de direitos que seriam característicos das
pessoas LGBT e cuja autoria é creditada a Ex-desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul e vice-
presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM), Maria Berenice Dias. De acordo com a autora,
o termo deriva de outro: “união homoafetiva”, o qual foi cunhado com o objetivo de “retirar o estigma de que os
vínculos homossexuais teriam uma conotação exclusivamente de natureza sexual” (Dias, 2011, p. 9) e também
para incorporar a mudança no conceito jurídico de família, que passou a ser definida como “uma relação íntima
de afeto”. Destaco que a expressão foi rechaçada por alguns setores e ativistas do movimento LGBT por conta da

33
De acordo com Fonseca e Cardarello (1999), é preciso atentar para “a importância dos
sistemas de classificação embutidos na linguagem que usamos para descrever (e apreender) a
realidade” (1999, p. 2). Contudo, defendo que a linguagem não é apenas utilizada para
“descrever” e “apreender” a realidade, mas sim tem potencial para produzi-la, de forma que o
aparente efeito de “descrição” serve para obnubilar relações de poder que perpassam a
construção de enunciados, dando a estes um caráter de “verdade” e “objetividade”.
O potencial produtivo da realidade contido na linguagem se torna especialmente
significativo quando o que está em questão é o discurso jurídico. Foucault (1988) demonstra o
modo pelo qual o poder jurídico produz os sujeitos que consecutivamente ele alega apenas
representar. Para o autor, o poder não é somente proibitivo, mas possui também uma dimensão
positiva. Nas suas palavras: “deve-se considerá-lo como uma rede produtiva que atravessa todo
o corpo social muito mais do que uma instância negativa que tem por função reprimir”
(Foucault, 1979, p. 8). Poder e verdade são então indissociáveis, uma vez que os discursos
carregam “efeitos de verdade” que são frutos do poder.
Por outro caminho, Bourdieu (1989) chega a uma conclusão análoga. Segundo o autor,
a “força do Direito” está no seu poder simbólico, ou seja, na sua capacidade de fabricar
documentos carregados de “enunciados verdadeiros”, ao mesmo tempo em que apaga as
condições sociais de criação destes documentos. Em última instância, a produção da verdade
está intimamente conectada com a própria construção da realidade21.
Apresento estas reflexões para sustentar o argumento de que a criação do NUDIVERSIS
implica um processo de dupla constituição, ou seja, a produção simultânea e espelhada tanto
dos sujeitos de direitos quanto dos direitos dos quais estes sujeitos necessitariam. De acordo
com Vianna (2012), este processo de criação mútua está associado a uma espécie dimensão
demiúrgica que é característica dos cenários de disputa por “direitos”. Esta dimensão está
“traduzida na possibilidade de fazer nascer necessidades e sujeitos para essas necessidades ao
enunciá-las e mesmo ‘revelá-las’” (2012, p. 229-30).

“moralização” que esta sugere. O termo é utilizado de forma intermitente, por juristas e operadores do Direito e
figura no nome oficial do NUDIVERSIS: Núcleo de Defesa da Diversidade Sexual e Direitos Homoafetivos.
21
As relações entre poder, verdade e realidade que podem ser apreendidas a partir do processo de produção de
determinados documentos serão discutidas no terceiro capítulo desta dissertação.

34
O lugar da diversidade: sobre as relações entre tempo e espaço envolvidas na “espera”

Aguião (2014) descreve que os militantes presentes na I Conferência Nacional GLBT,


em junho de 2008, consideraram a participação do então Presidente da República Luís Inácio
Lula da Silva como o símbolo do momento em que o Estado passou a reconhecer a “população
LGBT”. Descendo do plano do poder Executivo Federal, podemos entender a criação do
programa RSH e da CEDS como parte desse reconhecimento do Estado nos planos Estadual e
Municipal do poder Executivo, respectivamente. Como dito acima, é na esteira deste
movimento que acontece a criação do NUDIVERSIS, o que, em última instância, pode ser visto
como o reconhecimento da “população LGBT” por parte dos atores ligados ao poder Judiciário.
Contudo, é preciso pensar em que lugar social se encontram os sujeitos que compõem a
“população LGBT” e como isto reflete na criação destes “espaços de reconhecimento” por parte
do Estado. Assim, tomo o NUDIVERSIS como um espaço físico e moral do reconhecimento
de pessoas LGBT como “sujeitos de direitos”. Proponho, então, que este lugar seja pensado a
partir de determinados episódios e, principalmente, das relações entre tempo e espaço que estão
envolvidas no ato de aguardar nos corredores e salas de espera da Defensoria Pública.
Conforme exposto acima, o NUDIVERSIS foi criado através de uma resolução em maio
de 2011. Entretanto, até julho de 2014 – ou seja, pouco mais de três anos depois – a resolução
definitiva que delimitava o escopo de atuação do núcleo ainda não havia sido votada e figurava
como alvo de algumas controvérsias entre os profissionais da DPGE-RJ. Outra pista que aponta
para esta relativa não importância do núcleo foi oferecida por um episódio vivenciado durante
o trabalho de campo. Certo dia, cheguei ao NUDIVERSIS e as profissionais estavam irritadas
com um problema que havia acontecido no computador do Servidor, que resultou na perda de
muitas pastas virtuais e arquivos digitais do núcleo. A Técnica-Administrativa reclamou da
demora do setor de informática em resolver o problema e disse também que isso já havia
acontecido antes e que elas já haviam proposto uma solução definitiva que não foi apreciada
pelos funcionários da DPGE-RJ. Apesar destes dados não serem suficientes para afirmar nada,
tenho como hipótese que a precariedade na constituição do NUDIVERSIS diante dos outros
núcleos e órgãos de atuação da Defensoria Pública é um reflexo do lugar social ocupado pelo
“público alvo” de um núcleo de defesa da diversidade sexual.
Como já mencionado, o NUDIVERSIS se caracteriza por ser um “núcleo especializado
de primeiro atendimento”. A partir desta caracterização, é possível compreender, em certa
medida, o núcleo como uma “grande sala de espera” que tem por função a manutenção de uma
condição de provisoriedade e suspensão. Digo isto porque, ao menos oficialmente, o
35
NUDIVERSIS não é o lugar onde os sujeitos conseguirão “resolver suas vidas” e ter suas
demandas atendidas, o que só poderá ocorrer, de fato, nos Tribunais. Em outras palavras, o
núcleo corresponde a uma antessala na qual as pessoas transexuais aguardam sua vez de ter
suas solicitações de alteração do registro civil julgadas, ao mesmo em que “se preparam” para
esta ocasião. Ademais, esta relação entre tempo e espaço fica evidente quando observo que a
grande maioria dos atendimentos – exceto o “primeiro atendimento” – se dá nas salas de espera,
nas quais os sujeitos aguardam indefinidamente.
Neste contexto, o “primeiro atendimento” adquire um duplo significado: um para as/os
assistidas/os, ou seja, para o “lado de fora do balcão”; e outro para o Estado, isto é, para o “lado
de dentro do balcão”. Para as/os assistidas/os, este é um momento no qual elas/es são instados
a falar sobre suas vidas e demandas, como será discutido no próximo capítulo. Para o Estado,
o “primeiro atendimento” proporcionado pela Defensoria Pública se constitui enquanto um
mecanismo através do qual é possível a administração e gestão das demandas de certos sujeitos
e/ou “populações”. Entretanto, ao tomar o Estado enquanto administração pública (Teixeira e
Souza Lima, 2010), é preciso estar atento para este duplo registro, uma vez que os dois “lados
do balcão” são, ainda que de modos diferentes, “Estado”.
Em resumo, criar não só Centros de Cidadania, mas também Núcleos Especializados
para o atendimento e assistência da “população LGBT” representa, sem dúvida, o
reconhecimento destes sujeitos perante o Estado. Contudo, reconhece-se “o lugar da
diversidade” justamente em um espaço de inferioridade, de menor importância diante das outras
“urgências administrativas” que cabem ao Estado.

O NUDIVERSIS, o “Estado” e a “população LGBT”

Na primeira parte desta seção abordei o contexto da criação do NUDIVERSIS como


parte de uma rede instituições concebidas especialmente para o atendimento da “população
LGBT”. Na segunda, busquei refletir sobre o papel do núcleo no processo de criação desta
população. Na terceira, apresentei minhas hipóteses acerca do lugar ocupado por esta população
na hierarquia administrativa do Estado. Agora, me esforço para pensar o núcleo como parte dos
aparatos administrativos que conformam o “Estado”, ou ainda, questionar que formas de Estado
são constituídas a partir do núcleo. Outro ponto a ser abordado será a relação entre o núcleo, a
produção de sujeitos de direitos LGBT e de que modo tal produção pode ser entendida como
uma prática que faz o próprio “Estado”.
36
Inicialmente, é preciso esclarecer quais concepções de “Estado” conduzem as reflexões
desenvolvidas nesta parte do capítulo. O Estado aqui não é encarado como uma entidade fixa,
coesa e autônoma, mas sim um composto de “crença e materialidade” (Teixeira e Souza Lima,
2010, p. 57). Assim, tomo o Estado como objeto a partir do exame das práticas que posicionam
sujeitos e instituições como “dentro” ou “fora” do Estado (Vianna, 2013, p. 21).
Uma das principais referências utilizadas para pensar que tipo de Estado se faz no
NUDIVERSIS é Philip Abrams (2006). O autor constrói o Estado a partir de duas dimensões
que se conjugam: o Estado-ideia e o Estado-sistema. O primeiro corresponde à abstração do
Estado enquanto uma entidade real e autônoma; ao passo que o segundo é um conjunto de
práticas institucionalizadas que exercem controle político e executivo. A proposta de Abrams é
chamar atenção para o plano representacional do Estado como parte da prática política que
constitui o próprio Estado. Em suas palavras: “em suma: o Estado não é a realidade que se
esconde atrás da máscara da prática política. Ele é, em si mesmo, a máscara que previne que
vejamos a prática política como ela é” (p. 125, tradução livre)22.
Mitchell (2006), por sua vez, retoma as propostas de Abrams ao defender que tanto o
Estado-ideia quanto o Estado-sistema devem ser compreendidos como dois aspectos de um
mesmo processo: o Estado como um fenômeno, ou, para utilizar sua terminologia, um efeito de
Estado. Este efeito é fruto da produção da “sociedade” e da “economia” como “os outros” do
Estado. Deste modo, a delimitação do Estado nada mais é do que uma linha desenhada no
interior de mecanismos institucionais que visam à manutenção da ordem social e política (p.
175). Do mesmo que Abrams, Mitchell propõe a observação do Estado a partir das práticas
políticas; práticas estas que estão fundamentadas em relações de poder internas que adquirem
uma aparência de estrutura externa, dando ao Estado um duplo caráter: força material e
construção ideológica.
A partir destas colocações, proponho então duas formas de compreender como o Estado
se faz através do NUDIVERSIS e como o NUDIVERSIS faz o Estado. A primeira destas formas
aposta em um encadeamento mais evidente entre estes elementos, uma vez que a Defensoria
Pública é um órgão estatal cuja função é cumprir a obrigação constitucional do Estado de prestar
assistência jurídica integral e gratuita aos hipossuficientes. Neste sentido, o núcleo – enquanto
um órgão de atuação da Defensoria Pública – faz o Estado na medida em que sua existência
desempenha um “dever do Estado”. Este “dever de assistência jurídica” é recorrentemente
reiterado nas falas das profissionais do núcleo como forma de justificar suas atuações e se

22
No original: “In sum: the State is not the reality which stands behind the mask of political practice. It is itself
the mask which prevents our seeing political practice as it is.” (Abrams, 2006, p. 125).

37
eximir de determinadas responsabilidades, produzindo assim o Estado enquanto uma
construção ideológica de uma entidade que está acima dos sujeitos, para utilizar os termos de
Mitchell (2006).

É claro que algumas pessoas chegam aqui com um tipo de demanda que você vê que
evidentemente não tem a menor condição, que não tem qualquer respaldo jurídico. Aí eu
sou muito honesta, muito sincera. Eu falo logo pra pessoa: ‘olha, não tem condições, isso
aí não tem como fazer, você não vai ganhar’. (Defensora Pública)

Essa é a forma que a gente trabalha aqui. E sempre com a isenção, não deixando que a
paixão ou até mesmo o emocional do nosso assistido traga uma nuvem aos nossos olhos e
a gente esqueça que antes de tudo nós somos técnicos e que a gente está aqui para
trabalhar pelo Direito e não para trabalhar com a emoção. A emoção deixa para a
SuperDir, deixa para o Rio Sem Homofobia, aqui nós somos os operários do Direito.
(Assessora)

A gente não tem como se afastar da questão jurídica, isso aqui é um núcleo da Defensoria
Pública. Então a gente não pode ir só pelo lado social da coisa. Claro, a nossa vontade é
ajudar todo mundo que entra aqui. Só que nem todo pedido é um pedido juridicamente
possível e aqui a gente tem que avaliar isso. Então, em todo atendimento que a gente faz,
por mais que a gente se envolva com a história da pessoa e por mais que a gente sinta
aquela necessidade de ajudar, a todo momento a gente tem que fazer o primeiro
atendimento pensando: ‘o que eu posso fazer juridicamente em relação a isso?’.
(Estagiária)

A gente tenta de todo jeito e se não conseguir a gente tenta consolar o assistido pelo menos
pessoalmente, porque a gente não consegue fazer nada além do que a gente tem
competência legal para fazer. (Estagiária)

Outra “limitação” imposta pelo Estado pode ser percebida através dos fragmentos de
entrevistas apresentados: o Estado, representado pelo Judiciário, se materializa através das
normas positivas do Direito, ou, na letra fria da lei23. Assim, tais normativas são apontadas
como o norte das ações executadas pelas profissionais24. As normas, combinadas à repetição
constante das atribuições e do lugar político do núcleo na qualidade de instituição que cumpre
um dever do Estado, reforçam um efeito de Estado ao buscarem demarcar aquilo que cabe ao

23
A expressão “letra fria da lei” é de uso comum no jargão jurídico para indicar as normas jurídicas escritas em
documentos como a Constituição Federal, o Código Civil, o Código Penal, entre outros. Estas normativas se
configuram como um “texto relativamente fechado” – ou seja, que permite algum grau de interpretação – que deve
orientar toda e qualquer decisão judicial.
24
As justificativas elencadas para legitimar as atuações das profissionais serão discutidas com maior atenção no
próximo capítulo desta dissertação.

38
Estado do poder Judiciário, e portanto, é de responsabilidade dos operadores do Direito; e aquilo
que cabe ao Estado do poder Executivo, e consequentemente, é incumbência dos gestores
públicos.
Como segunda abordagem, sugiro que existe uma relação complexa entre o núcleo e o
“Estado”, que é constituída a partir do processo de criação da “população LGBT”. Assim, penso
que as práticas simultâneas de produção e gestão da “população LGBT” feitas no âmbito do
NUDIVERSIS fazem com que este se insira em uma malha de instituições que compõem o
Estado. O NUDIVERSIS cumpre então uma espécie de “função de Estado” ao produzir as
classificações que dão significado à vida social (Teixeira e Souza Lima, 2010). Em outras
palavras, é através do duplo processo de criação-administração da “população LGBT” que
podemos compreender o modo pelo qual o Estado se faz através do núcleo.
Esta segunda proposta analítica se baseia em algumas das ideias apresentadas por Aguião
(2014) em sua tese de doutorado. A autora se dedica a analisar como a “população LGBT” é
construída “no Estado” através de uma série de diferentes tipos de tecnologias administrativas,
como eventos: as I e II Conferências Nacionais LGBT; e documentos: as três versões do Plano
Nacional de Direitos Humanos (PNDH), o texto do programa Brasil Sem Homofobia, o Plano
Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos LGBT e os relatórios finais das
Conferências Nacionais LGBT. Uma das principais contribuições da autora é pensar como o
processo de criação desta “população” implica também um constante processo de criação do
próprio Estado. Em suas palavras:

o fazer-se no Estado de que fala o título desta tese procura chamar a


atenção não só para as formas através dos quais o Estado produz os
sujeitos que governa (administra), mas também para o processo de
constituição desses sujeitos como parte de um fluxo contínuo de
produção do próprio Estado. (Aguião, 2014, p. 14, grifos no original).

Em uma parte de sua tese, a autora se dedica a explorar a implantação de uma política
do governo do estado do Rio de Janeiro que tem por objetivo prestar atendimento em diversos
campos para a “população LGBT”. A política em questão é promovida pelo programa Rio Sem
Homofobia e consiste na oferta de um conjunto de serviços públicos, como por exemplo, os
Centros de Cidadania LGBT, o Disque Cidadania LGBT, entre outros. Considerando que o
NUDIVERSIS encontra-se articulado ao programa Rio Sem Homofobia desde a sua criação,
como apontado na primeira parte desta seção, penso o núcleo da mesma forma que Aguião

39
pensa o programa, ou seja, como parte dos mecanismos que ao produzir os governados – a
“população LGBT” –, produz também os governantes – o Estado.
Em síntese, adoto aqui uma visão do Estado em ação, ou seja, o Estado que nada mais
é do que “feixes de relações de poder” (Castilho, Souza Lima e Teixeira, 2014). Assim, o Estado
nunca está pronto ou finalizado, mas se constitui permanentemente nas práticas, de modo que
o NUDIVERSIS pode ser encarado como um local onde é possível observar e compreender as
práticas de poder que conformam os fenômenos da administração e gestão estatais.

1.3 Uma etnografia estagiária

Como mencionado anteriormente, este trabalho é fruto de uma etnografia levada a cabo
entre os meses de fevereiro e julho de 2014, no Núcleo de Defesa da Diversidade Sexual e
Direito Homoafetivo (NUDIVERSIS) da Defensoria Pública Geral do Estado do Rio de Janeiro
(DEPGE-RJ). Para encerrar este primeiro capítulo de apresentação da instituição acompanhada
e contextualização da pesquisa, empreendo um esforço de expor as condições nas quais se deu
o trabalho de campo, explorando algumas questões centrais: as escolhas metodológicas; a
posição a partir da qual observei e participei das rotinas de trabalho das profissionais do núcleo;
e as possibilidades e limitações que este posicionamento impôs ao trabalho etnográfico.
Destaco que a pesquisa empreendida se caracteriza pelo que Nader (1972) chamou de
studying up. De acordo com a autora, estudar o “up” significa investigar contextos nos quais o
pesquisador se encontra em uma posição inferior em relação aos dos pesquisados e isto
representa uma inversão na relação de poder mais comum aos trabalhos antropológicos. Neste
sentido, estudar as práticas das profissionais de um dado órgão estatal, detentoras de um poder
de permitir ou não o acesso à informações, acarreta em certas especificidades do trabalho de
campo, as quais serão abordadas a seguir.

Ver, ouvir e ler: as opções metodológicas que conduziram a pesquisa

A construção desta etnografia ancora-se em três diferentes estratégias de pesquisa e


obtenção de dados: a observação participante, a análise documental e a realização de
entrevistas. Durante cerca de seis meses acompanhei as rotinas de trabalho das profissionais do
NUDIVERSIS, tanto no atendimento ao público, quanto nos expedientes internos de elaboração
40
de relatórios, ofícios e petições iniciais. Além da observação participante com as pessoas, tive
como fonte de dados as pastas das/os assistidas/os, nas quais constam diversos tipos de
documentos. Por fim, na última semana de trabalho de campo, dediquei-me a entrevistar
formalmente as funcionárias do núcleo a fim de esclarecer algumas das indagações formuladas
no decorrer da pesquisa, bem como para sistematizar certas informações sobre a trajetória
profissional de cada uma delas.
A escolha pelo acompanhamento das rotinas de trabalho se justifica por dois motivos.
O primeiro, e mais óbvio, tem a ver com a noção de Estado que balizou a construção da pesquisa
e, consequentemente, as percepções das ações efetuadas não só no espaço do núcleo, mas,
fundamentalmente, em nome deste – o que, em última instância, pode ser compreendido como
atuações feitas em nome do Estado. Uma vez que compreendo o Estado não como uma entidade
fixa e una, dotada de consciência e intenção, mas sim como um processo em permanente
construção através das práticas de “agentes estatais”, é através da observação destes atos que
busco produzir minhas reflexões. Castilho, Souza Lima e Teixeira (2014) argumentam que as
políticas públicas são um ótimo “local” para se estudar os fenômenos estatais e que as práticas
de poder efetuadas nestes contextos oferecem um importante ângulo de análise. Nas palavras
dos autores, “se consideramos o Estado como feixes de processos em permanente
(trans)formação, é no estudo dessas práticas (mas não só) que a Antropologia pode aportar
contribuições significativas” (p. 22).
O segundo motivo se relaciona com a escolha por complementar os dados de pesquisa
através da inclusão de uma segunda fonte: a análise dos documentos que compõem as pastas
das/os assistidas/os, pois, como aponta Ferreira (2011), tais documentos podem ser
compreendidos como “artefatos etnográficos” através dos quais o cotidiano das repartições
públicas são, de certa forma, arquivados. Se na pesquisa empreendida pela autora cada pasta
equivale a um “caso de desaparecimento” – ou, uma sindicância –, no contexto do
NUDIVERSIS, cada pasta representa um “caso de requalificação civil” ou um procedimento.
A leitura destas pastas é fundamental na medida em que estes papéis carregam em si as marcas
das técnicas burocráticas da administração estatal.
Castilho, Souza Lima e Teixeira (2014), por sua vez, apontam a investigação com
documentos como um imperativo para a realização de etnografias sobre as práticas de poder
que conformam os Estados-nação contemporâneos, tendo em vista que, nas sociedades letradas,
a escrita funciona como um instrumento de poder e segregação. Além disso, como defendido
por Valente (2014), a pesquisa documental é fundamental para os estudos sobre burocracias e
práticas de gestão de populações.
41
Vianna (2014) se detém um pouco mais sobre a questão da etnografia com documentos.
Segundo a autora, os documentos figuram como elementos capazes de produzir mundos sociais
e é esta característica que os torna tão importantes em certas investigações. Em suas palavras:

levar a sério os documentos como peças etnográficas implica tomá-los


como construtores da realidade tanto por aquilo que produzem na
situação na qual fazem parte – como fabricam um ‘processo’ como
sequência de atos no tempo, ocorrendo em condições específicas e com
múltiplos e desiguais atores e autores – quanto por aquilo que
conscientemente sedimentam (Vianna, 2014, p. 47).

A autora também assinala que um dos estranhamentos relacionados à etnografia com


documentos se deve ao fato de que estes estão sempre submetidos a determinados regimes de
fala e de silêncio, concretizados nas inescapáveis lacunas daquilo que não é ou não pode ser
escrito. São estas lacunas que provocam uma sensação contínua de falta, posto que só é possível
observar aquilo que foi registrado e não como ocorreu a produção do registro e o que ficou de
fora.
Deste modo, combino o exame dos documentos – e com isso “levo a sério” o potencial
produtor da realidade dos mesmos – com a observação participante. Acredito que o
acompanhamento das atividades das profissionais funciona como uma ferramenta para
“superar” as lacunas inerentes aos documentos apontadas pela autora. Contudo, saliento que
isto não permite a solução de todos os hiatos, mas tão somente dos documentos produzidos pelo
próprio núcleo, como relatórios de primeiro atendimento, ofícios e petições iniciais.
Perto da finalização do trabalho de campo, optei por realizar entrevistas individuais com
cada uma das profissionais do NUDIVERSIS como forma de acessar uma terceira fonte de
dados, diferente daqueles obtidos até então. Não obedeci a um roteiro pré-definido, de modo
que as perguntas variaram de acordo com o desenvolvimento da conversa. Mas, todas as
entrevistas tiveram como solo comum questões sobre trajetória profissional e atividades
desempenhadas no núcleo. As entrevistas se mostraram úteis para sistematizar algumas das
reflexões que se desenvolveram ao longo da pesquisa, bem como para abordar questões que
dificilmente seriam debatidas publicamente nos corredores da Defensoria Pública.

42
Tornar-se um estagiário: o trabalho no campo

As profissionais do NUDIVERSIS foram receptivas à minha presença desde o início da


pesquisa. Meu contato se deu da mesma forma que é considerada como “ideal” para as/os
assistidas/os: primeiramente, enviei um e-mail expondo meu interesse. Este foi respondido
algumas horas depois com os números de telefone do núcleo e uma solicitação para marcar um
“atendimento” diretamente com a Defensora Pública. Na época deste primeiro encontro, em
fevereiro de 2014, minhas questões de pesquisa ainda não estavam muito bem formuladas e por
isso me limitei a dizer que meu interesse era acompanhar as atividades realizadas no núcleo,
em especial o atendimento às pessoas transexuais. Esta primeira conversa transformou-se em
uma espécie de entrevista informal, uma vez que a Defensora Pública me ofereceu um
panorama sobre a instituição a partir do qual pude começar a afinar minhas propostas de
investigação. Conversamos sobre o funcionamento da Defensoria Pública, as atribuições do
NUDIVERSIS, as principais demandas recepcionadas, os limites da atuação do núcleo, entre
outros assuntos. Além disso, a Defensora também me ensinou a consultar jurisprudência no site
do Tribunal de Justiça e outras informações que pudessem ser úteis à minha investigação.
Em seguida, neste mesmo dia, a Defensora me apresentou à Assessora e à Estagiária I.
Conversei um pouco com esta última sobre o funcionamento do núcleo e sobre o que é o
“primeiro atendimento” das/os assistidas/os. Ao fim desta primeira visita, a Defensora pediu
que a Estagiária imprimisse uma cópia de uma petição inicial de requalificação civil para que
eu pudesse ler com calma e compreender que tipo de trabalho é feito no núcleo. Ela informou
que a estagiária deveria tomar os cuidados necessários de apagar toda e qualquer informação
que pudesse identificar quem era a/o autora/or da ação, demarcando assim quais seriam os
limites do meu acesso aos dados e o que eu poderia “levar para casa”.
A partir do dia seguinte, passei a frequentar os corredores e salas do NUDIVERSIS
quase todos os dias da semana, até o fim do mês de julho. Um período de exceção se deu entre
os meses de junho e julho, quando a cidade do Rio de Janeiro foi um dos palcos de um
megaevento que estava ocorrendo no país, a Copa do Mundo de 2014. Entre estes dois meses,
diversos feriados foram decretados, implicando no fechamento de boa parte das instituições
públicas, especialmente nas regiões próximas de onde aconteceriam as partidas do referido
evento.
Por uma casualidade, a Estagiária II começou a trabalhar na mesma época em que iniciei
o trabalho de campo, o que se configurou como uma excelente oportunidade de observação.
Assim, pude apreender muito das atividades realizadas no núcleo através dos ensinamentos que
43
a estagiária mais antiga passava à mais nova, em um processo de formação de uma expertise
necessária para atender as demandas recebidas pelo núcleo.
Afirmo que esta pesquisa pode ser percebida como um tipo de “etnografia estagiária”
pois, desde o início do trabalho de campo, minha presença ficou quase o tempo inteiro restrita
à sala dos estagiários. Além disso, este trabalho pode ser entendido como tal na medida em que
há algo de “estagiário” na constituição do próprio núcleo enquanto um órgão da Defensoria
Pública. Conforme abordado nas seções anteriores, não é efetivamente no NUDIVERSIS que
as pessoas transexuais adquirem “seus direitos”, sendo função do núcleo a realização do
“primeiro atendimento”, a atuação na etapa pré-processual, a preparação todos os trâmites para
que ação de requalificação civil seja julgada etc.
Ao explicitar qual foi minha posição no campo, busco deixar claro que minhas
observações se deram a partir de um determinado ângulo. Listo agora as quatro razões que
explicam este posicionamento, o qual não foi nem totalmente imposto, nem totalmente
autodeterminado: 1) meu evidente interesse em acompanhar os atendimentos às pessoas
transexuais fez com que a Defensora me orientasse a permanecer junto às estagiárias, uma vez
que são elas as responsáveis pela grande maioria dos atendimentos feitos pelo núcleo; 2) o fato
de ser da mesma faixa etária das estagiárias – e com isso compartilhar de algumas inquietações,
gostos e interesses – contribuiu para o estabelecimento de uma relação de confiança e
proximidade crucial para o acesso aos dados, levando a um constante processo de
estabelecimento de certas “moedas de troca”25 (Barroso, 2014) que dinamizaram o campo; 3)
por estarem elas em posição de menos autoridade na estrutura do núcleo e, consequentemente,
menos responsabilidade, as assimetrias de poder entre pesquisador e pesquisados característica
dos estudos de instituições do Estado foram consideravelmente reduzidas; 4) o volume de
trabalho acumulado pelas estagiárias acarretava, por vezes, em situações limite, nas quais minha
ajuda era solicitada para a realização de algumas tarefas simples.
Assim, foi por meio da proximidade com as estagiárias do NUDIVERSIS que o
“trabalho de campo” se transformou também em “trabalho no campo”, ou ainda, foi desta
maneira que passei da observação para a observação participante. Em pouco tempo, fui incluído
como parte da equipe de estagiários e passei a realizar certas atividades de auxílio, como por
exemplo, fotocopiar documentos, intervir nos atendimentos, ajudar na elaboração de relatórios

25
Barroso (2014) discute em seu texto o modo pelo qual o pesquisador negocia sua aceitação no campo
investigado, especialmente quando se trata de um campo no qual os pesquisados possuem mais poder que o
pesquisador. A autora utiliza a imagem de “moedas de troca” para se referir aos acordos – tácitos e explícitos –
que legitimam a presença do pesquisador em um determinado contexto.

44
e ofícios, revisar alguns textos etc. A partir do momento em que passei a ser considerado, de
certo modo, como um integrante do núcleo26, alteraram-se as percepções do campo e o acesso
aos dados. As pastas das/os assistidas/os, repletas de documentos que em um primeiro momento
não poderiam ser vistos para que as informações pessoais das/os assistidas/os permanecessem
preservadas, tornaram-se não apenas facilmente alcançáveis, mas também de manejo
incontornável.

De um dos “lados do balcão”: sobre as implicações de um posicionamento

Estar no NUDIVERSIS me obrigava a lidar com dois diferentes tipos de “condição


nativa”: de um lado, estavam as operadoras do Direito, funcionárias do núcleo; de outro,
estavam os assistidas/os da Defensoria Pública. Antes de iniciar a pesquisa, minha ideia era
focar no modo pelo qual as pessoas transexuais davam sentido aos desconfortos,
transformando-os em demandas judiciais e lutas por direitos, isto é, meu interesse estava em
ficar “do lado de fora do balcão”. Entretanto, o fato de encontrar-me junto das estagiárias
durante a maior parte do tempo – ou seja, “do lado de dentro do balcão” – acarretou uma
mudança neste desenho inicial, de modo que estas se tornaram as “nativas privilegiadas” da
investigação.
Lugones (2012) escreveu sobre uma topografia classificatória do espaço que vigorava
nos Tribunales Prevencionales de Menores de Córdoba. De acordo com a autora, a posição
ocupada no espaço destes Tribunais era definidora do modo pelo qual ela seria vista pelos atores
em campo. Logo, sua presença no corredor à associava aos administrados, enquanto dentro das
salas ela era encarada como uma administradora. Além disso, ela destaca que não fazia sentido
para as funcionárias a sua permanência nos corredores, uma vez que ela, enquanto pesquisadora,
deveria ficar nas salas. No caso do NUDIVERSIS, estas reflexões encontram certo eco. Da
mesma forma que Lugones, não me era “permitido” ficar na sala de espera e estar
constantemente na sala dos estagiários significou ser lido pelas/os assistidas/os como um
integrante do núcleo.

26
É preciso ressaltar que ao dizer que fui absorvido como parte da equipe, não pretendo sustentar de maneira
ingênua a crença de que é possível tornar-se um nativo. Como apontado por Barroso (2014), a necessidade de
produção de um relatório final – a qual guia a etnografia desde o momento em que se realiza as observações –
implica uma disjunção pesquisador-nativo que é impossível de transpor.

45
Apesar dos meus inúmeros esforços para demarcar minha posição enquanto um
“pesquisador independente” durante os atendimentos, as/os assistidas/os pareciam não me
dissociar da estrutura profissional do núcleo e isto ficava cada vez mais claro na medida em que
algumas/uns delas/es me procuravam para pedir informações, tirar dúvidas e saber sobre o
andamento de seus processos. Esta parece ser uma marca das investigações realizadas junto à
funcionários e servidores de repartições públicas. Para citar apenas um exemplo, trago as
narrativas de Ferreira (2011). Segundo a autora, ainda que ela informasse que não era uma
policial, mas sim uma pesquisadora, isto não impedia os sujeitos que telefonavam para o Setor
de Descoberta de Paradeiros (SDP) de tentar sanar suas dúvidas com ela.
Acredito que esta percepção não era ocasionada apenas por eu estar sempre junto das
estagiárias, mas também por outros fatores como, por exemplo, não compartilhar de
experiências de transgeneridade e a diferença nos modos de se vestir: enquanto grande parte
das/os assistidas/os utilizam roupas mais leves e menos formais, eu buscava me vestir de acordo
com as regras previstas para as pessoas que atuam em repartições públicas, sempre utilizando
calças compridas e sapatos fechados. Além disso, os motivos que me levavam a circular pelos
corredores do NUDIVERSIS eram completamente distintos das razões das/os assistidas/os:
ainda que as profissionais do núcleo também tivessem alguma “autoridade” sobre mim, estas
só poderiam influenciar nos rumos da minha pesquisa e não sobre alguns dos “meus direitos”,
como era o caso das/os usuárias/os da Defensoria Pública.
A partir do momento em que passei a frequentar o núcleo com o propósito de
empreender uma investigação, percebi que meu modo de agir em relação às/aos assistidas/os
não era muito diferente das atitudes das estagiárias, pois, assim como estas fazem no “primeiro
atendimento”, eu também estava ali para fazer uma série de perguntas sobre a vida de cada
uma/um delas/es. Assim, se pensarmos em uma linha contínua em que assistidas/os e
funcionárias do núcleo se encontram em extremidades opostas, eu, enquanto pesquisador, só
poderia me posicionar mais próximo das segundas, embora jamais no ponto extremo.
Ser percebido como um dos funcionários do NUDIVERSIS foi uma dificuldade
encontrada nas tentativas de me aproximar das/os assistidas/os. Por acreditarem que eu teria
algum poder de decisão sobre o encaminhamento de suas demandas, muitas/os delas/es
mantinham posturas reservadas e desconfiadas. A impossibilidade de estabelecer o mesmo tipo
de relação com ambas as partes ficou clara quando me envolvi em uma situação de tensão entre
uma assistida e uma das estagiárias:

46
Já não era a primeira vez que Helena27 se dirigia ao núcleo para “saber como estava seu
processo”. Segundo a assistida, ela vem ao NUDIVERSIS desde 2012. Ao verificar a pasta
da mesma, a estagiária afirmou que o procedimento não poderia ser aberto porque Helena
estava respondendo um processo por lesão corporal e não é possível alterar o registro civil
enquanto não houver sentença. Esta informação foi passada na sala de espera, onde os
atendimentos às/aos assistidas/os são realizados, e outras pessoas estavam presentes.
Irritada, a assistida se virou para as outras pessoas e disse em voz alta que “isso era um
absurdo”, pois ela apenas se defendeu de um homem que a agredia e que os policiais, por
serem preconceituosos, acreditaram na versão do outro envolvido, levando somente a ela
para a delegacia. A estagiária então insistiu que não poderia fazer nada diante desta
situação. Inconformada, Helena disse que iria até a Universidade do Estado do Rio de
Janeiro (UERJ), pois lá ela poderia “resolver seus problemas”. Até então, eu apenas
observava a cena se desenrolar. Entretanto, quando a assistida mencionou que iria até a
UERJ, perguntei para onde exatamente ela iria, no intuito de direcioná-la ao Escritório
Modelo28 da universidade. Helena então me respondeu que isso “não era da minha conta”,
ao passo que retruquei afirmando que só estava tentando ajuda-la. Neste momento, ela me
disse de forma ríspida que se minha intenção fosse realmente ajudar, eu não teria ficado
calado ao lado da estagiária durante todo esse tempo. Sem saber bem como agir, respondi
que ela então fizesse o que considerasse melhor. (Diário de campo, junho de 2014).

Em suma, nesta parte da seção busquei explicitar de qual perspectiva realizei a pesquisa
ora apresentada, bem como os caminhos que foram construídos e alterados ao longo do trabalho
de campo. Se, por um lado, lidar diretamente com as estagiárias facilitou a obtenção de um
importante conjunto de dados, trazendo assim um inegável viés; por outro, isto impôs certos
limites no observar e zonas de circulação parcialmente interditas, como as salas dos
funcionários técnicos-administrativos e da Defensora Pública, assim como implicou na
dificuldade de aproximar mais intimamente das/os assistidas/os.

27
Como de praxe nas pesquisas antropológicas, todos os nomes citados se tratam de codinomes utilizados para
preservar a identidade dos sujeitos envolvidos.
28
“Escritório Modelo” é uma espécie de instituição de algumas faculdades de Direito que prestam assistência e
aconselhamento jurídico gratuito às pessoas. Geralmente, seus principais “atendentes” são alunos da própria
faculdade que realizam um estágio obrigatório e não remunerado como parte da formação.

47
Capítulo 2
Quem Tem Direito a Pleitear Direitos?
sobre tornar-se uma/um assistida/o da Defensoria Pública

Em linhas gerais, este capítulo aborda o processo pelo qual as pessoas transexuais se
tornam efetivamente assistidas/os do NUDIVERSIS. Deste modo, analiso as práticas de
assistência postas em práticas no núcleo – desde o “primeiro atendimento” até as “peregrinações
burocráticas” –, levando em consideração que estas implicam uma constante definição de quem
tem a legitimidade necessária para demandar a requalificação civil. Em outras palavras, trato
aqui do modo pelo qual é determinado “quem tem direito a pleitear direitos”. Por meio de
descrições tanto das atuações das profissionais do núcleo durante os diversos “momentos” que
compõem o chamado “primeiro atendimento”, quanto da peregrinação burocrática através de
outras instituições na busca por uma série de documentos que são considerados necessários para
instruir a ação de requalificação civil, busco refletir sobre a forma pela qual se definem os
“sujeitos de direitos” no cotidiano da administração pública.
Schritzmeyer (2012) relaciona a demanda por “direitos aos direitos” às múltiplas formas
com que se tenta “acessar à Justiça”. Os sentidos atribuídos aos termos e às experiências
vivenciadas pelos sujeitos no que se refere ao direito, direitos e Justiça são variados, pois o
controle burocrático estatal convive com uma série de outros sistemas de obrigação e controle
social, gerando assim tensões entre estes sistemas e os aparatos legais administrativos. Deste
modo, a autora propõe que “refletir sobre o acesso à Justiça implica pesquisar como o poder se
distribui nas próprias instituições e nos grupos responsáveis por ela” (p. 266, grifos no original).
Seguindo esta pista, busco neste capítulo não apenas rastrear a distribuição do poder nas
instituições, mas também pensar como as dinâmicas que cercam o “acesso à Justiça” são
atravessadas por afetos, ideais e compromissos morais diversos.

2.1 “Primeiro Atendimento”: enquadrando sujeitos

Como já abordado, o “primeiro atendimento” é uma das categorias nativas mais


importantes no ambiente do NUDIVERSIS, uma vez que realizar uma espécie de “primeiro
atendimento” é a principal função do núcleo, como apontado no capítulo anterior. Assim, se faz
mister distinguir os dois tipos de “primeiro atendimento” que estão sendo aqui discutidos. No
48
âmbito da Defensoria Pública enquanto instituição, realizar um “primeiro atendimento”
significa prestar assistência e realizar todos os procedimentos pré-processuais necessários para
o ajuizamento de uma determinada demanda. No cotidiano do NUDIVERSIS, esta categoria é
utilizada para descrever, em linhas gerais, as situações nas quais os indivíduos apresentam suas
solicitações às operadoras do Direito. É durante este primeiro atendimento que tais demandas
e pessoas são avaliadas, podendo ou não se transformarem em assistidas/os.
A seção encontra-se dividida em quatro partes, que representam, de certo modo, as
etapas sequenciais pelas quais o primeiro atendimento é constituído. Assim, exploro desde a
chegada ao núcleo até a produção do relatório de primeiro atendimento, passando pela
entrevista e o processo de avaliação das possibilidades jurídicas de atendimento à certas
demandas.

Primeiro passo: bater na porta

Antes de mais nada, é preciso mencionar que aquilo que fica registrado como “primeiro
atendimento” pode não coincidir com a primeira vez em que a pessoa compareceu ao núcleo
ou entrou em contato com uma das profissionais. Muitas vezes, as pessoas transexuais que
chegam ao NUDIVERSIS foram encaminhadas por funcionários de outras instituições, como
os Centros de Cidadania do programa Rio Sem Homofobia e a Coordenadoria Especial de
Diversidade Sexual da Prefeitura do Rio de Janeiro; por profissionais que atuam nos programas
de saúde que prestam atendimento às pessoas transexuais29; ou até mesmo através de uma rede
de troca de informações que se estabelece entre as/os usuárias/os destes serviços.
Nas concepções das profissionais, a realização de um primeiro atendimento ideal está
condicionada a uma marcação prévia. Este imperativo de planejamento está ligado ao
imaginário que cerca a noção de “primeiro atendimento”. Este, por ser de importância
fundamental para a abertura de procedimento, é construído como algo demorado e trabalhoso,
demandando muita atenção e tempo para o seu fazer. Na prática, muitas pessoas chegam ao
núcleo apenas “batendo na porta”, ou seja, sem ofícios de encaminhamento – principalmente

29
Geralmente, as/os assistidas/os são encaminhados por assistentes sociais e/ou psicólogos do Hospital
Universitário Pedro Ernesto (HUPE) ou do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia (IEDE), que são as
principais instituições públicas que prestam serviços de saúde à pessoas transexuais, como exames, consultas,
acompanhamento médico, hormonoterapia e cirurgia transgenitalizadora no Estado do Rio de Janeiro.

49
nos casos de indivíduos orientados a procurar o NUDIVERSIS pelos profissionais dos pelos
serviços médicos ou por outras pessoas transexuais – e sem agendar previamente.
Se não há nenhuma/um assistida/o com atendimento marcado e as estagiárias não se
encontram ocupadas com outras tarefas do núcleo, o primeiro atendimento é realizado
imediatamente. Quando elas estão ocupadas, a atitude prevista no modelo de atendimento é a
de anotar a “demanda geral” do sujeito – que no caso das pessoas transexuais geralmente é a
requalificação civil – e marcar uma data para que este retorne e tenha seu primeiro atendimento
efetivado. Entretanto, este modelo está sujeito a negociações, de modo que sua aplicação é
sempre contextual. Muitas vezes as pessoas foram de fato remarcadas para outro dia, mas,
dependendo do caso, as estagiárias interrompem suas atividades para realizar o primeiro
atendimento.

Cheguei ao núcleo um pouco mais cedo que o habitual, antes das estagiárias. Enquanto lia
os documentos contidos em uma pasta, um dos funcionários do NUDEDH foi até a sala
dos estagiários e me perguntou se eu era do NUDIVERSIS. Respondi que não. Ele
perguntou se eu era então um estagiário voluntário, ao passo que expliquei que era um
pesquisador. Ele então disse que tinha uma assistida na sala de espera que gostaria de
entregar algum documento para as estagiárias e me pediu para recebê-la. Concordei e me
dirigi à sala de espera. Carmem se apresentou e disse que foi encaminhada pela SuperDir e
que estava ali para “mudar seus documentos”. Perguntei se Carmem já havia sido atendida
antes e ela respondeu que não. Avisei então que seria preciso esperar que uma das
estagiárias chegasse, pois eu não poderia realizar um atendimento deste tipo sozinho e
expliquei que não era um funcionário do núcleo, mas sim um estudante fazendo uma
pesquisa. Carmem então me disse que sua residência fica em um bairro no interior do
município de São Gonçalo e que o deslocamento para o Rio de Janeiro é difícil e
dispendioso. Por conta disso, ela perguntou se poderia ser atendida ainda no mesmo dia, ao
passo que respondi que somente uma das estagiárias poderia dizer. A Estagiária I chegou
pouco tempo depois e eu logo disse que havia uma assistida aguardando para um primeiro
atendimento. Ela respondeu que não poderia fazer e seria preciso marcar o atendimento de
Carmem para outro dia, pois já havia marcado um primeiro atendimento para às 14:30 com
uma assistida que viria de um município na região serrana do Rio de Janeiro. Contei que a
assistida morava em São Gonçalo e que vinha pouco ao Rio. Ela então disse que tentaria
entrar em contato com a outra estagiária, para saber se ela poderia ficar encarregada pelo
atendimento das 14:30. Neste instante, a Estagiária II chegou e elas dividiram o trabalho,
de modo que ambas foram atendidas no mesmo dia. (Diário de campo, março de 2014).

Estávamos na sala dos estagiários quando o segurança anunciou que havia duas pessoas na
sala de espera para atendimento pelo NUDIVERSIS e que uma delas era um primeiro
atendimento. A estagiária falou que marcaria o primeiro atendimento para depois. Após
receber a lista de testemunhas deixada por uma assistida, a estagiária perguntou a Pedro
qual seria sua demanda, e ele respondeu que gostaria de realizar a “redesignação de nome
e sexo”. Pedro trazia consigo uma bengala e permaneceu de olhos fechados durante todo o

50
tempo, dando indícios de que era cego. Ele estava acompanhado de sua esposa, uma
senhora em uma cadeira de rodas. Ele explicou que morava em um município na região
dos lagos do estado do Rio de Janeiro e que estava na cidade pela ocasião de retirada dos
pontos cirúrgicos da mastectomia30 realizada na semana anterior. Diante desse quadro, a
estagiária pediu que eles dirigissem à sala da Defensora e os atendeu imediatamente.
(Diário de campo, maio de 2014).

A partir dos fragmentos apresentados, é possível perceber que atender ou não atender
imediatamente a pessoa que bate na porta do NUDIVERSIS é a primeira situação na qual os
sujeitos e suas narrativas são avaliadas para que eles possam se tornar assistidas/os da
Defensoria Pública. A possível exceção do modelo se dá na medida em que as circunstâncias
despertam a compaixão das profissionais. Os casos de Carmem e Pedro oferecem algumas
pistas para a compreensão da função da compaixão na escuta promovida pelas estagiárias e as
subsequentes ponderações sobre a situação da/o assistida/o, como será discutido mais adiante.

Segundo passo: tomar notas

O “primeiro atendimento” consiste basicamente em uma entrevista com a/o assistida/o,


na qual suas demandas são registradas. O foco da entrevista é levantar alguns momentos
específicos da trajetória do indivíduo. Apesar de pedir de modo relativamente vago para que a
pessoa “conte sobra sua vida” e deixá-la livre para construir sua biografia do modo mais
conveniente, algumas questões são apontadas como fundamentais para a elaboração da petição
inicial de requalificação civil. Assim, se não mencionados ao longo da narrativa da/o assistida/o,
estes episódios são diretamente perguntados: com qual idade que começou a se apresentar e se
vestir como alguém do “sexo oposto” em tempo integral; como é a relação com a família; como
foi a descoberta da transexualidade; se utilizou ou utiliza hormônios por conta própria; se já
realizou algum procedimento cirúrgico para a composição da imagem do gênero identificado;
se esteve ou está em acompanhamento por algum programa transexualizador; se possui laudos
médicos que atestem a transexualidade; se já realizou a cirurgia de transgenitalização ou se

30
Mastectomia é o nome dado à cirurgia de remoção completa da(s) mama(s). Ao contrário de cirurgias plásticas
com fins estéticos, como a implantação de uma prótese de silicone ou a redução dos seios, a mastectomia é um
procedimento que só pode ser realizado como parte de um tratamento para uma determinada patologia, ou seja,
está restrito à pessoas que possuem um diagnóstico preciso, como por exemplo, câncer de mama. No caso das
pessoas transexuais, é o diagnóstico da “disforia de gênero” que permite o acesso a este tipo de intervenção
corporal sem acarretar uma responsabilização ética e criminal da/o médica/o que a realiza.

51
possui previsão de quando fará; se trabalha ou já trabalhou; grau de escolaridade; se está ou já
esteve em um relacionamento estável; e se tem ou não filhas/os.
Além destas informações, as pessoas transexuais são instadas a narrar dificuldades
enfrentadas e eventos de discriminação vivenciados em função da posse de documentos com o
nome e o sexo de registro, o que se transformará na base da argumentação a favor da
procedência do pedido de alteração de nome e sexo no registro civil, como será discutido no
último capítulo. É justamente a centralidade dos episódios de sofrimento que faz com que estes
possuam sua existência presumida, mesmo quando não relatados. Esta presunção está ligada a
dois fatores: 1) as teorias que constroem o fenômeno da transexualidade como uma experiência
marcada pela angústia e pelo sofrimento; 2) os ideais morais e comprometimentos políticos que
sustentam toda a construção da política pública de assistência jurídica voltada para a população
LGBT, como abordado no capítulo anterior.

Elisa narrou uma série de sofrimentos durante sua entrevista, como por exemplo, que seu
pai a obrigava a ficar em silêncio quando na presença dos amigos dele. Alguns episódios
foram mais marcantes que outros. Em seguida, Elisa revelou aos prantos que foi estuprada
aos 15 anos por colegas de escola após uma partida de futebol. Além disso, ela contou que
já foi recusada em empregos por conta da divergência entre sua aparência e seus
documentos. Seu sustento é oriundo de trabalhos informais e ela passa por dificuldades
econômicas, de modo que, naquele momento, a luz e água de sua residência estavam
cortadas devido à falta de pagamento. (Diário de campo, março de 2014)

Estava na sala de espera aguardando o retorno da estagiária e aproveitei para conversar com
Amanda. A assistida me contou que seus documentos masculinos geram muitos
constrangimentos, especialmente quando ela está acompanhada de seu enteado, filho de
seu parceiro. Segundo ela, o menino tem apenas sete anos de idade e não sabe que ela é
transexual. Em um episódio, ela estava com o menino quando foi chamada pelo nome de
registro por um funcionário de uma instituição, o que fez com que a criança estranhasse.
Ela disse que desconversou e que os funcionários haviam se enganado. Isto se repetiu uma
segunda vez e ao utilizar a mesma explicação, a criança questionou, deixando-a
embaraçada. (Diário de campo, março de 2014)

Gabriela relatou que conversou com seus pais sobre seus desejos e depois disso passou a
usar roupas femininas. Com isso, seu pai, que era alcóolatra, passou a agredi-la fisicamente
de modo sistemático; sua mãe, apesar de não discriminá-la, nunca a defendeu das violências
cometidas por seu pai e irmãos. Gabriela disse que após sair de casa passou muito tempo
afastada de sua família e que mesmo após tanto tempo, a relação com os familiares não é
de proximidade. (Diário de campo, março de 2014)

A estagiária pediu que Marta contasse sobre sua trajetória. A assistida reclamou e disse que
já não aguenta mais repetir as mesmas histórias toda vez que é atendida por um funcionário

52
diferente. Diante da resistência da assistida, a estagiária resolveu fazer somente as
perguntas padrão para a elaboração da petição inicial, de modo que a assistida se limitou
apenas a responder tais questões de modo curto e objetivo. (Diário de campo, maio de 2014)

Como é possível perceber, os relatos de dor giram em torno de experiências de


discriminação e conflitos em múltiplos planos: com si mesma/o, com familiares, com colegas
de escola ou trabalho, com amigos e com desconhecidos em espaços públicos. Uma das
trajetórias que mais mobilizou as profissionais do núcleo foi a de Pedro. De acordo com as
funcionárias, sua narrativa foi uma das mais dramáticas e impactantes que elas já atenderam no
núcleo, marcada, por um lado, por duas ordens distintas de sofrimento – problemas de saúde
tanto próprios quanto de sua esposa e dificuldades econômicas – e, por outro, por uma espécie
de “força de vontade” e determinação, como podemos ver no trecho a seguir.

Após não obter êxito no pleito de uma vaga no programa transexualizador do HUPE, Pedro
buscou informações em grupos virtuais de transexuais FtM [Female to Male]. O assistido
conseguiu, com a ajuda de amigos, consultas com profissionais da rede pública de seu
município para adquirir o diagnóstico de transexualidade e assim começar as mudanças
corporais. Antes disso, ele contou que pedia aos médicos que retirassem suas mamas, e
estes se recusavam alegando que isso seria mutilação. Assim, Pedro pedia constantemente
para ter câncer de mama para que os médicos fossem obrigados a retirar seus seios. Após
o início da utilização de hormônios, o problema de visão que Pedro tinha se aguçou, de
modo que ele perdeu completamente este sentido. Ele relatou que a médica oftalmologista
que o acompanhava havia alertado sobre essa possibilidade. Antes que pudéssemos dizer
alguma coisa ou expressar qualquer reação, Pedro comentou com orgulho que não se
arrependia de sua decisão, pois somente assim ele conseguiu “ser o que ele é” e que perder
a visão é preferível a “olhar no espelho e não se reconhecer”. Pedro emendou o assunto
dizendo que não pretende fazer a cirurgia transgenitalizadora porque ainda possui caráter
experimental. Ele diz que sua esposa é cadeirante e depende de sua ajuda para a realização
de muitas das atividades cotidianas, de modo que ele não pode se arriscar a ter um problema
grave de saúde, pois isso afetaria a rotina de ambos. (Diário de campo, maio de 2014).

Ao analisar os processos de requalificação civil em uma Promotoria Pública de Brasília,


Teixeira (2013) salienta o modo como as histórias eram escutadas a partir de um roteiro único.
No cotidiano do NUDIVERSIS, a construção da semelhança dos relatos também é significativa.
Deste modo, me aproprio da ideia de convenção narrativa utilizada por Nadai (2012) para
pensar os modos de narrar que são possíveis no cenário do primeiro atendimento do núcleo.
Segundo a autora, as convenções narrativas são as formas pelas quais os relatos de experiências
das pessoas podem se tornar inteligíveis em determinados contextos. Assim, uma biografia
marcada por experiências de sofrimento e constrangimento é compreendida como a primeira

53
convenção narrativa que opera nos atendimentos realizados pelas profissionais do núcleo. Passo
agora para a análise de outras convenções que foram percebidas ao longo do trabalho de campo.

Elisa diz que nunca se sentiu gay e que ainda sente raiva quando alguém diz que ela é um
“viado de saia”. Ela afirma o tempo inteiro que age como uma “mulher normal”, uma
“senhora de respeito” e que não conseguiria, nem mesmo se tentasse, reproduzir os
“trejeitos dos viadinhos”. As travestis, por sua vez, são imediatamente associadas à
prostituição, de modo que Elisa diz querer alterar seus documentos para poder ter um
“emprego digno” e parar poder voltar a universidade “com a cabeça erguida”. [...] A
assistida conta que não se sentia nem gay e nem travesti, mas que nunca havia ouvido falar
sobre transexualidade até ingressar no programa transexualizador do HUPE. Somente
durante as consultas que ela adquiriu informações e passou a se identificar como transexual.
(Diário de campo, março de 2014)

Pedro relatou que foi casado durante nove anos com uma mulher, mas que não se sentia
pleno. Em um dado momento, ele viajou para um sítio de uma amiga psiquiatra e esta
sugeriu que ele usasse as roupas de seu filho e passasse a se apresentar como Pedro. O
assistido disse então que se sentiu muito feliz agindo desse modo. [...] Ele afirmou que não
sabia nada sobre transexualidade e seu primeiro contato com o assunto se deu quando ele
e uma amiga alugaram o filme Meninos Não Choram31 [Boys Don’t Cry]. Segundo ele,
assistir ao filme foi como se olhar no espelho. (Diário de campo, maio de 2014)

A partir destes trechos, identifico outras duas convenções narrativas, ambas relativas à
construção de subjetividade e à elaboração de uma identidade transexual. A primeira delas
busca reforçar a distinção entre a transexualidade e outras formas de significar as experiências
dissidentes de identidade de gênero e orientação sexual: os homens gays, as mulheres lésbicas
e as travestis. Algumas interpretações sobre este ponto já foram oferecidas por autoras que
pesquisam o fenômeno da transexualidade. De acordo com Teixeira (2013), estas distinções se
fazem necessárias para a manutenção das pessoas transexuais no programa transexualizador,
que se destina somente àquelas/es que possuem o diagnóstico. A análise de Ventura (2010) é
semelhante à de Flavia Teixeira. Para Ventura, o caráter diferencial do diagnóstico da
transexualidade cumpre a função de delimitar quem são os “sujeitos de direito” de uma
determinada política. Já Zambrano (2005) propõe que a utilização de um discurso sobre a
transexualidade embasado pela medicina tem por objetivo afastar das pessoas transexuais os
estigmas que recaem sobre as travestis e as pessoas homossexuais. Bento (2006), por sua vez,

31
O filme Meninos Não Choram, de 1999, dirigido por Kimberly Pierce, é baseado na história real de Brandon
Teena, um homem transexual assassinado em uma pequena cidade do Estado de Nebraska, nos Estados Unidos. O
caso de Brandon tornou-se emblemático para a militância LGBT estadunidense. Uma instigante análise sobre o
filme pode ser encontrada em Halberstam (2005).

54
ao discutir a constituição da identidade transexual, argumenta que o ato de dizer que “não é
viado”, “não é travesti” e “não é sapatão” representa a construção da identidade na e pela
diferença.
Sem desprezar as outras análises, dou um peso maior aos escritos de Berenice Bento em
minha reflexão sobre esta convenção narrativa. Como pode ser visto nos relatos das/os
próprias/os assistidas/os, todas essas categorias muitas vezes são, nas interações cotidianas,
colocadas sob os signos da homossexualidade ou da travestilidade. Em outras palavras, as
pessoas transexuais continuam sendo socialmente identificadas como “viados”, “sapatões” e
travestis (Bento, 2006). Assim, a expressão “viado de saia” evidencia os limites da
performatividade na construção de uma identidade de gênero. Como apontado por Butler
(1993), a produção de um gênero implica identificações com e rejeições de determinados atos
performáticos, um processo que acarreta a construção de margens e fronteiras que delimitam o
humano, criando assim uma matriz excludente. Deste modo, “viados”, travestis e “sapatões”
que habitam o espaço da abjeção conformam o “exterior constituinte” de uma identidade
transexual que busca se estabelecer através da hierarquização das diferenças.
O raciocínio da autora se complexifica quando ela oferece algumas respostas às críticas
feitas ao seu primeiro grande trabalho sobre gênero: Gender Trouble, de 1990. Segundo Butler,
uma leitura simplista de sua obra fez com que muitos acreditassem que ela definia o gênero
como uma escolha livre e autônoma, baseada apenas na performance dos sujeitos. Em outras
obras, Butler (1993, 2004) observa que os limites da invenção da performatividade é o olhar do
outro, e é esse olhar que confere a materialidade dos corpos. Neste sentido, os “corpos
importam” pois é o corpo que oferece a matriz da performatividade de gênero possível, uma
vez que este é visto como uma espécie de “lugar” no qual as normas sociais são incorporadas e
atualizadas.
A segunda convenção narrativa, que está intrinsecamente relacionada a primeira, diz
respeito a um tipo de “tomada de consciência” que é promovido pelo contato com os discursos
médico-científicos sobre transexualidade, seja por meio de filmes, reportagens, outras pessoas
transexuais ou médicos e profissionais de saúde. Neste sentido, perceber-se como transexual
oferece uma estabilização, ao menos temporária, de uma identidade que confere sentido às suas
experiências. Como consequência, tal percepção traz uma ressignificação dos eventos que
compõem a biografia dos sujeitos. Como escreve Bento,

[o] conhecimento da existência de outras pessoas que compartilham a


mesma sensação de não-pertencimento ao gênero atribuído é relatado

55
como um momento de “revelação” e de encontro. Finalmente,
conseguem nomear; situar o que sentem; entender que não são os únicos
com aqueles conflitos e, principalmente, que não são gays, travestis ou
lésbicas. Ser “transexual” oferece uma posição identitária que dará um
sentido provisório a suas vidas. (Bento, 2006, p. 209, grifos no original)

Por fim, além de produzirem narrações compreensíveis, podemos pensar que as


convenções narrativas estabelecem, em certa medida, limites tanto daquilo que pode ser falado,
quanto daquilo que pode ser ouvido32. Em última instância, tais limitações funcionam para a
construção de uma espécie de “homogeneidade experiencial” que cerca os modos de vida das
pessoas transexuais, como apontado nas investigações realizadas por Bento (2006), Teixeira
(2013) e Ventura (2010), já citadas anteriormente.

Terceiro passo: definir possibilidades

Uma vez que se tenha escutado as narrativas e demandas das pessoas transexuais, o
passo seguinte que determinará a abertura de um procedimento e, consequentemente,
oficializará a condição de assistida/o da pessoa, é a avaliação sobre a possibilidade de
procedência dos pedidos apresentados. Conforme discutido no primeiro capítulo, o “respaldo
jurídico” é o que aparece nos discursos das profissionais do NUDIVERSIS para justificar suas
atuações.
Nos casos de requalificação civil, ao final da entrevista, as estagiárias explicam como
funciona o expediente para este tipo de demanda, o tempo médio de elaboração da petição
inicial e descrevem quais documentos e condições necessárias para que o pedido de alteração
do registro civil possa ser julgado como procedente pelo Judiciário. Assim, elas expõem o
caráter de “primeiro atendimento” do núcleo ao deixar claro que só podem atuar oficialmente
em uma etapa pré-processual.
Sobre os documentos, as profissionais avisam que só é possível dar início ao
procedimento após a entrega das cópias dos documentos de identificação ou qualificação civil:
Certidão de Nascimento; Carteira de Identidade (RG); CPF; Título de Eleitor; Certificado de
Reservista (para aqueles cujo sexo de registro é masculino); Passaporte (caso tenha); Carteira

32
O lugar do silêncio e sua subsequente elucidação sobre o que pode ser dito na interação cotidiana entre usuários
e funcionários de um serviço público de saúde foi discutido por Balthazar (2012). De acordo com a autora, o
silêncio é também uma forma de discurso e ocupa um determinado “espaço de fala”. Para um debate mais amplo,
consultar a referida dissertação.

56
de Habilitação (caso tenha); Carteira de Trabalho, contracheque e/ou outro comprovante de
renda; Comprovante de Residência e diplomas e certidões de escolaridade e/ou cursos
profissionalizantes.
Além dos documentos de identificação, são solicitados uma lista de testemunhas; laudos
psiquiátrico, endocrinológico, psicológico e social que atestam a transexualidade; atestado
médico de realização da cirurgia de transgenitalização (nos poucos casos em que isso se aplica);
exames médicos; receitas de hormônios; e fotos nas quais as/os assistidas/os se apresentem com
a “identidade de gênero pretendida”. Com tudo isso em mãos, inicia-se o processo de
assistência, que implica, basicamente, na produção de outros documentos que serão anexados
como “provas” na petição inicial. São estes: as certidões emitidas pelos Ofícios de Registro de
Distribuição (ORD); e os relatórios psicológico e social que são entregues mediante um ofício
enviado à Coordenação Geral de Serviço Social e Psicologia da DPGERJ no qual é solicitada a
realização de um “estudo social” da/o assistida/o33.
Ter todos os documentos listados se configura como a dimensão mais formal da
avaliação pelas quais as pessoas transexuais passam para se tornarem assistidas e assistidos. No
plano das práticas, é admitida uma margem de manobras e negociações das regras de
procedimento. Um exemplo se dá com a comprovação da hipossuficiência. Segundo a
Defensora, a ideia de não ter como pagar os custos do processo sem comprometer o próprio
sustento ou da família precisa ser alargada no NUDIVERSIS, para abarcar o máximo de pessoas
possível, pois ela acredita que as pessoas LGBT são atendidas de forma insatisfatória em outras
instituições. Neste sentido, alguns manejos são permitidos quanto à necessidade da carteira de
trabalho, contracheque e comprovante de renda, uma vez que o propósito destes documentos é
comprovar a condição econômica da/o assistida/o, para que ela/e possa obter a assistência pela
DPGE-RJ e, consequentemente, a gratuidade de justiça. Muitas/os assistidas/os nunca
trabalharam e não possuem Carteira de Trabalho. Neste caso, elas/es são aconselhados a levar
extratos de contas correntes, caso possuam, o que também não é sempre é aplicável, tendo em
vista que a grande maioria das pessoas transexuais evitam o máximo possível usar seus nomes
de registro para abrir conta em banco, se credenciar em serviço de distribuição elétrica, etc.
Como último recurso, é possível ainda apresentar declarações de dependência econômica de
familiares com os documentos comprobatórios da hipossuficiência das pessoas que assinam a
declaração.

33
Este capítulo se concentra nos procedimentos administrativos efetivados no âmbito do NUDIVERSIS. Os
documentos, que são também peças fundamentais destas dinâmicas, serão analisados no próximo capítulo.

57
Outro campo sujeito a ajustes e acordos é o dos laudos que atestam a transexualidade.
Como apontado por Zambrano (2005), o direito de requalificação civil só pode ser reclamado
por quem passou por mudanças corporais feitas de acordo com as regras definidas pelo
Conselho Federal de Medicina. De acordo com a resolução nº 1.955/2010 do CFM, que regula
desde os critérios diagnósticos até os procedimentos terapêuticos para o tratamento do
“transexualismo”, sujeitos transexuais devem ser acompanhados por um período mínimo de
dois anos por um programa transexualizador que conte com uma equipe multidisciplinar
envolvendo cirurgiões, endocrinologistas, anestesistas, enfermeiros, psiquiatras, psicólogos e
assistentes sociais, a fim de obter não somente o laudo da transexualidade, mas também a
permissão para a realização da cirurgia transgenitalizadora.
Algumas/ns das/os assistidas/os do núcleo não possuem tais laudos por uma série de
razões como, por exemplo, terem ingressado nos serviços de saúde há menos de dois anos.
Nestes casos, os laudos podem ser substituídos por declarações constando que a pessoa está em
acompanhamento pela equipe de algum programa transexualizador e, se possível, a previsão de
a partir de quando ela poderá realizar a cirurgia de transgenitalização. Ainda sobre os laudos,
existe outro espaço de negociação, referente à origem do documento. Por conta da restrição em
atender somente pessoas residentes do Estado do Rio de Janeiro, os laudos apresentados ao
NUDIVERSIS são, em sua grande maioria, oriundos de setores do HUPE ou do IEDE, as únicas
duas instituições públicas do Rio de Janeiro que possuem programas destinados à assistência
em saúde de pessoas transexuais34. Há, entretanto, pelo menos um caso em que o laudo
afirmando a transexualidade do sujeito foi dado por um psiquiatra que não faz parte de uma
equipe específica de atendimento a pessoas transexuais, não configurando um fato impeditivo
para que a alteração do prenome e sexo seja pleiteada.

Quarto passo: registrar sujeitos, trajetórias e demandas

Após a realização da entrevista no primeiro atendimento, as estagiárias transformam as


informações anotadas em um documento chamado de Relatório de Primeiro Atendimento. É
este ato que materializa sujeitos e suas trajetórias e demandas ao documentá-los, tornando-os
oficialmente assistidos do NUDIVERSIS. Assim, ao tomar estes relatórios como objetos da

A cirurgia de transgenitalização é tida como a intervenção corporal mais complexa envolvida na “terapia de
34

mudança de sexo”. No âmbito público, esta é realizada, no Rio de Janeiro, somente pelos profissionais do HUPE.

58
investigação pretendo explorar o modo pelo qual as narrativas das/os assistidas/os são
apropriadas pelas profissionais do núcleo e o que é levado em consideração ou não no processo
de elaboração dos registros oficiais.
Este relatório contém informações básicas sobre o primeiro atendimento, tais como o
nome do profissional responsável pela entrevista, a data em que a pessoa compareceu na
Defensoria, os nomes social e de registro do/a assistido/a, a qualificação do/a assistido/a
(naturalidade, estado civil, profissão, números de RG e CPF), telefones de contato, lista de
testemunhas (quando entregue no primeiro atendimento, o que não acontece sempre) e um
resumo do caso. Concentro-me aqui na análise do que consta como “resumo do caso”.
A partir da comparação entre minhas anotações no diário de campo, as notas feitas pelas
estagiárias durante o primeiro atendimento e as informações contidas no relatório de primeiro
atendimento, é possível perceber que a produção deste relatório deve ser apreendida como um
processo através do qual as narrativas dos sujeitos são reduzidas e traduzidas para uma
linguagem juridicamente tanto compreensível quanto aceitável. Contudo, ressalvo que não
tomo as diferenças entre estas três modalidades de registrar narrativas de forma ingênua ou
hierárquica. Apesar de, grosso modo, todas elas terem por função produzir uma espécie de
memória, elas possuem finalidades, interesses e linguagens utilizadas muito distintas, o que
afeta sua constituição desde o início. Logo, os três registros são produzidos no interior daquilo
que pode ser dito, ouvido e escrito.
A primeira característica do relatório de primeiro atendimento é a discrepância entre
aquilo que é dito e aquilo que fica registrado. É neste sentido que afirmo a existência de um
ininterrupto processo de contração destas narrativas, uma vez que nem tudo que é dito durante
as entrevistas é anotado pela estagiária e nem tudo aquilo que é anotado é posteriormente
descrito no Relatório de Primeiro Atendimento35, pois certas coisas não são passíveis de
tradução para a linguagem jurídica e, portanto, não podem ser judicializáveis.
Aproximo a elaboração do relatório de primeiro atendimento ao movimento que
Herzfeld (1993) denomina como o da produção de informação classificada. De acordo com o
autor, enquadrar demandas, sujeitos e narrativas em determinadas categorias faz parte de uma
taxonomia fundamental ao controle burocrático do Estado exercido pelas instituições. Assim,
redigir um relatório de primeiro atendimento significa também traduzir dramas sob a forma de
escrita e produzir a realidade através de um documento. Retomo então a ideia de convenção

35
Nem mesmo tudo aquilo que consta no relatório de primeiro atendimento é transposto para a petição inicial.
Contudo, isto só será abordado no último capítulo.

59
narrativa para pensar sobre um caso que ilustra qual tipo de demanda cabe em uma ação judicial
de requalificação civil, apontando assim os limites do que deve ser registrado pelas estagiárias
durante o primeiro atendimento.

Ao elencar uma série de “sonhos e aspirações”, Elisa disse que quer fazer a cirurgia de
transgenitalização para poder ter uma vagina e assim se tornar uma “mulher de verdade”.
Em seguida ela disse sentir atração apenas por homens e não por “viados”. Além disso, a
assistida relatou que não gosta de penetração anal e que quando finalmente tiver passado
pela cirurgia, poderá “dar” como sempre quis. (Diário de campo, março de 2014)

Elisa enfatizou sua vontade de fazer a cirurgia de transgenitalização para exercer uma
prática sexual específica – isto é, a penetração vaginal – em vários momentos durante a
entrevista de primeiro atendimento. No entanto, nada foi anotado sobre isso e não há nenhuma
menção ao exercício da sexualidade no relatório de primeiro atendimento. Por ora, abordo
apenas como isto é representativo do processo que enquadra os sujeitos em determinadas
formas narrativas, uma vez que as justificativas que são consideradas plausíveis para o pedido
de requalificação civil serão discutidas posteriormente.
A tradução dos dramas em papéis e os limites dessa transposição para uma linguagem
juridicamente compreensível foram objetos da investigação empreendida por Lugones (2012).
A autora explora, através de sua etnografia, a disparidade entre as atuações das administradoras
dos Tribunales Prevencionales de Menores de Córdoba e os autos processuais. Já na introdução
de seu trabalho, a pesquisadora aponta que há um hiato entre as práticas efetuadas nos tribunais
e aquilo que fica registrado nos documentos, de modo que as formas de aconselhamento36 não
estão presentes nas atas assinadas pelos administrados, aparecendo somente aquilo que pode
ser legalmente tratado. Do mesmo modo, as reclamações feitas e justificativas dadas pelos
tutelados nestes tribunais não são tomadas na íntegra, mas sim passam pelo processo de
adequação executado pelas funcionárias dos tribunais.
O mesmo acontece com as pessoas transexuais durante o período em que se encontram
sob a assistência promovida pelas profissionais do NUDIVERSIS. Neste sentido, as narrativas
apresentadas tanto pelos tutelados estudados por Lugones (2012) quanto pelas/os assistidas/os
do núcleo são transpostas para que possam ser contidas nas formas legais previstas.

36
O aconselhamento é uma das técnicas de menorização – ou seja, de exercício do poder administrativo – utilizadas
pelas operadoras do Direito nos Tribunales Prevencionales de Menores de Córdoba que depende de um modo
determinado de dispor o corpo, o qual envolve o tom de voz, a postura corporal, o uso da linguagem etc. O
aconselhamento é visto como um tipo de ordem com “boas intenções”, tendo em vista que as profissionais encaram
suas atuações como uma forma de ajudar os responsáveis dos menores que se encontram nos tribunais.

60
Por fim, reforço que, uma vez que a inteligibilidade jurídica destes dramas é
condicionada a um ajuste de linguagem, é necessário ressaltar que este processo de tradução é
sempre insatisfatório e a conversão nunca é completa. Os pormenores dos dramas sociais e
individuais “não cabem” nos documentos oficiais e a linguagem jurídica não dá conta de cobrir
aquilo que é movimentado pelos sujeitos moral e subjetivamente.

2.2 Peregrinações burocráticas: em busca dos atestados da “verdade”

Tendo em mente que o primeiro atendimento deve ser previamente marcado através de
contato telefônico ou por correio eletrônico e que neste contato as profissionais informam a
lista de documentos necessários para a abertura de procedimento, espera-se que a pessoa leve
toda a documentação quando na ocasião da entrevista. Contudo, isto raramente acontece, seja
porque os sujeitos não possuem ou não levam tais documentos no primeiro atendimento, seja
porque em algumas situações as pessoas são atendidas mesmo que não tenho agendado
antecipadamente. Isto faz com que as/os assistidas/os tenham que fazer várias visitas ao
NUDIVERSIS até que todos os documentos considerados necessários sejam reunidos.
O constante ir e voltar das/os assistidas/os às salas de espera da Defensoria Pública
representa um dos aspectos da peregrinação burocrática a qual estão submetidos. Utilizo a
ideia de “peregrinação burocrática” para descrever os trânsitos dos sujeitos através de
determinados espaços e instituições para adquirir declarações, certidões, relatórios etc.
necessários para a efetivação de alguma demanda. No caso das pessoas transexuais, a
peregrinação burocrática representa uma etapa na busca pela requalificação civil, na qual é
preciso agregar documentos que funcionam como provas necessárias à apreciação do pleito no
âmbito do Judiciário.
Ressalvo que o núcleo figura como parte de uma peregrinação burocrática mais ampla37
pela qual as pessoas transexuais precisam passar para ter atendido seu desejo de alteração de
prenome e sexo, já que a grande maioria das/os assistidas/os chegam ao núcleo através de
encaminhamentos feitos por outras instituições, como os centros de cidadania do programa Rio

37
É preciso ressaltar que a peregrinação pode ser não somente “burocrática”, uma vez que, segundo a portaria do
Ministério da Saúde nº 457 de agosto de 2008, apenas quatro hospitais públicos estão habilitados a oferecer a
cirurgia de transgenitalização: o Hospital Universitário Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro; o Hospital de Clínicas
de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul; a Fundação da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
(USP), em São Paulo; e o Hospital de Clínicas de Goiânia, em Goiás. Assim, muitas pessoas transexuais migram
de suas cidades de origem em busca da realização dos procedimentos necessários para a realização da cirurgia de
transgenitalização.

61
Sem Homofobia (RSH), a Coordenadoria Especial de Diversidade Sexual (CEDS) e os
programas de saúde voltados para o atendimento de pessoas transexuais do Hospital
Universitário Pedro Ernesto (HUPE) e do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia
(IEDE). Ademais, após a entrega da petição inicial, os sujeitos precisam se dirigir até os
Tribunais de Justiça e/ou Fóruns para protocolar este documento e assim dar início ao processo
judicial em si, o que pode implicar mais visitas a estas instituições para comparecer à
audiências.
Entretanto, devido aos dados aqui discutidos serem oriundos de uma etnografia
realizada no âmbito do NUDIVERSIS, é preciso reconhecer que isto implica certos limites para
pensar sobre esta peregrinação burocrática. Assim, por conta dos objetivos da investigação
empreendida, abordo somente os caminhos percorridos em decorrência da assistência prestada
pelas profissionais do núcleo. Isto é, tomo como objeto as jornadas pela Sede da Defensoria
Pública Geral do Estado do Rio de Janeiro (DPGE-RJ) e pelos nove Ofícios de Registro de
Distribuição (ORD) da cidade do Rio de Janeiro38.
Para tentar situar o leitor na dimensão espacial da peregrinação burocrática feita pelas
pessoas transexuais, apresento um mapa de parte da região central da cidade do Rio de Janeiro
no qual se encontram marcados todos os locais para os quais que estas precisam se deslocar.

Figura 2: Pontos da peregrinação burocrática no Centro da cidade do Rio de Janeiro.

38
Ressalto que, nesta seção, exploro apenas o processo de circulação das pessoas transexuais pelas instituições.
Os documentos obtidos através da peregrinação burocrática serão analisados em outro capítulo.

62
Sede da DPGE-RJ

A Sede da Defensoria Pública também fica localizada na região central da cidade do Rio
de Janeiro, a aproximadamente 750 metros de distância do NUDIVERSIS. As/os assistidas/os
são direcionados para a Coordenação Geral de Serviço Social e Psicologia da DPGE-RJ através
de um ofício no qual é solicitada a realização de um Estudo Social do indivíduo encaminhado.
Após a entrega do ofício, a pessoa deve levá-lo até a Sede da DPGE-RJ para assim agendar
atendimentos em dias e horários específicos.
Além de cópias de todos os documentos coletados durante o primeiro atendimento, o
modelo de ofício de encaminhamento traz como elementos: a identificação da pessoa (nome
social, nome de registro, nacionalidade, profissão, estado civil, números de RG e CPF e
endereço); a demanda da/o assistido (“A/o assistida/o é transexual feminina/masculino. Busca
redesignação de nome e sexo pela via judicial, tendo procurado o NUDIVERSIS/DPGE-RJ
após tomar conhecimento da atuação do núcleo”); alguns parágrafos sobre a trajetória do
sujeito, focado no momento de descoberta da transexualidade, na relação com a família, na
utilização ou não de hormônio por conta própria e no acompanhamento ou não por profissionais
de programas transexualizadores (tais trechos são retirados do relatório de primeiro
atendimento); e, por fim, a justificativa da necessidade de requalificação civil e a solicitação
aos funcionários da Coordenadoria Geral de Serviço Social e Psicologia.

Por conta de dificuldades em relação ao prenome masculino/feminino e a sua atual


aparência, passa por situações vexatórias ao ser chamada/o em público por seu nome de
registro, fazendo-se necessária, para que viva com dignidade, a requalificação civil em seus
documentos pessoais.
Este comunicado oficial segue com cópias dos documentos pessoais e comprovantes de
residência, renda, bem como fotos da/o mesma/o, para solicitar Estudo Social do caso e
elaborado o respectivo Relatório social e psicológico, a fim de instruir ação judicial. (Ofício
de encaminhamento à Coordenação Geral de Serviço Social e Psicologia da DPGE-RJ)

O estudo social consiste basicamente em entrevistas realizadas com assistentes sociais


e psicólogos servidores da Defensoria Pública. Seu objetivo é avaliar a procedência do pedido
de requalificação civil da pessoa transexual. As entrevistas feitas tanto pelos assistentes sociais
quanto pelos psicólogos possuem praticamente o mesmo caráter da realizada pelas funcionárias
do NUDIVERSIS. Após estes atendimentos, os profissionais emitem seus respectivos
relatórios, os quais são enviados diretamente para o núcleo e anexados a petição inicial de
requalificação civil a ser entregue à/ao assistida/o.

63
Ofícios de Registro de Distribuição

Os Ofícios de Registro de Distribuição (ORD) são órgãos extrajudiciais do Estado – e


fiscalizados pelo Poder Judiciário – encarregados de registrar diversos tipos de atos,
documentos e títulos no município do Rio de Janeiro, bem como garantir a disponibilidade,
perpetuidade, conservação e autenticidade dos mesmos. Em outras palavras, os ORD são
entidades que até a Constituição de 1988 eram chamadas de cartórios e realizam “serviços
notariais”, isto é, dão fé pública aos diversos tipos de documentos com que lidam.
Como apontado por Miranda (2012), estes se dividem de acordo com três funções:
tabelionato, responsável pelo reconhecimento de firma, autenticação de documentos, certidões,
registro de procurações etc.; escrivanias de Justiça, encarregadas de registrar os feitos
relacionados com os direitos civil e processual criminal; e registros públicos, incumbidos de
realizar o registro civil de pessoas naturais, de pessoas jurídicas, de títulos e de documentos.
Além disso, a autora destaca o papel dos funcionários destas instituições na construção de uma
“cultura legal” no Brasil, exercendo assim uma significativa influência nos processos de
construção da verdade39 (p. 279).
Existem ao todo nove ORD na cidade, todos localizados na região central. Cada um
desses Ofícios é responsável por lidar com determinadas categorias de documentos. De modo
resumido, aos 1º, 2º, 3º e 4º Ofícios é delegado o registro de todos os feitos ajuizados na
Comarca da Capital (e Foros Regionais) e distribuídos ao Poder Judiciário do Estado do Rio de
Janeiro, ou seja, tudo aquilo que é levado a juízo. Os 5º e 6º Ofícios são responsáveis pela
ordenação dos atos praticados pelos cartórios de notas e registros de imóveis. O 7º Ofício é
encarregado de registrar e distribuir os protestos de títulos40. O 8º Ofício possui uma “atribuição
residual” de registrar todos os títulos e documentos que não são feitos ajuizados. Por último, o
9º Ofício assume a responsabilidade de registrar todos os feitos ajuizados no qual o Estado ou
o Município figuram como uma das partes do processo – réu ou autor41 –, especialmente quando
se trata de cobrança de impostos de contribuintes inadimplentes.

39
O papel dos documentos no processo de criação de verdades/realidades será abordado no próximo capítulo.
40
De acordo com a Lei 9.492/97, “protesto é o ato formal e solene pelo qual se prova a inadimplência e o
descumprimento de obrigação originada em títulos e outros documentos de dívida” (Brasil, 1997).
41
Geralmente, um indivíduo pode assumir três distintas “posições” em um processo judicial: réu, aquele em face
de quem é feita a demanda ou pedido; autor, quem propõe a ação; ou testemunha, quem tem algo a declarar sobre
o assunto em questão. Logicamente, Pessoas Jurídicas, isto é, entidades, instituições, empresas etc., só podem
assumir uma das duas primeiras posições. Além disso, pode existir processos sem réus, como é o caso das ações
de requalificação civil de pessoas transexuais. Estes processos sem réu são chamados na praxe jurídica de

64
As/os assistidas/os do NUDIVERSIS são encaminhados a estes nove Ofícios com o
intuito de retirarem Certidões sobre as mais variadas questões. Após a entrega do ofício do
núcleo em que consta a solicitação, é preciso esperar um período médio de até sete dias úteis
para retornar às instituições e assim pegar os documentos. Do mesmo modo que os relatórios
do estudo social, tais certidões são anexadas a petição inicial de requalificação civil. Segue
abaixo um quadro sucinto com os requerimentos das funcionárias do núcleo aos ORD42.

Ofício Competências Solicitação


Falências, Cível e Certidão acerca da existência ou inexistência de ações

Criminal criminais
Falências, Cível,
Certidão acerca da existência ou inexistência de ações
2º Criminal e
criminais
Concursos
Falências, Cível e Certidão acerca da existência ou inexistência de ações

Criminal criminais
Falências, Cível,
Criminal, Certidão acerca da existência ou inexistência de ações

Interdições e criminais
Tutelas
Bens e Certidão acerca da existência ou inexistência de escrituras em
5º Testamentos geral, títulos judiciais e instrumentos particulares (pesquisa em
(Escrituras) geral)
Bens e Certidão acerca da existência ou inexistência de pesquisa de

Testamentos bens, testamentos e procurações
Protesto de Certidão acerca da existência ou inexistência de distribuição

Títulos para protesto
Títulos e Certidão acerca da existência ou inexistência de títulos e

Documentos documentos
Fazenda Pública Certidão acerca da existência ou inexistência de execuções

Estadual fiscais
Tabela 1: Solicitações aos Ofícios de Registro de Distribuição do Rio de Janeiro

“jurisdição voluntária”, não possuindo natureza propriamente jurisdicional e processual, sendo uma atividade de
cunho puramente administrativo.
42
Este quadro apresenta de modo esquemático as solicitações contidas nos ofícios de encaminhamento enviados
aos ORD. Contudo, estes serviços fornecem certidões que excedem, em muito, os assuntos que são do interesse
das profissionais do NUDIVERSIS para a instauração da ação de requalificação civil. Um quadro completo com
todos os assuntos mencionados nas certidões pode ser encontrado nos anexos deste trabalho.

65
É preciso levar em consideração que, usualmente, estas certidões possuem custos
relativamente elevados para serem obtidas. Os valores43 cobrados por cada um dos Ofícios
variam. Os 1º, 2º, 3º e 4º Ofícios Distribuidores cobram, cada um, um valor de R$ 84,57 por
certidão. As certidões dos 7º, 8º e 9º custam, respectivamente, R$ 63,62, R$ 70,90 e R$ 75,46.
Logo, as certidões dos Ofícios cujos valores cobrados são conhecidos somam um custo total de
R$ 548,26. Contudo, ao serem encaminhados munidos de ofícios da Defensoria Pública e
declarações de hipossuficiência, as/os assistidas/os do NUDIVERSIS conseguem solicitar tais
documentos sem custos, uma vez que eles se encaixam na definição de serviço extrajudicial
necessário para o ajuizamento da causa, garantindo assim a gratuidade de justiça.
A entrega das certidões dos ORD é o último passo dos procedimentos de assistência que
precisa ser cumprido antes da elaboração da petição inicial. De certo modo, tais certidões
imprimem um “ritmo de trabalho” entre as funcionárias do núcleo e impõem uma espécie de
data limite para que o processo administrativo do NUDIVERSIS tenha fim, pois estes
documentos possuem, ao menos teoricamente, uma validade de noventa dias.

2.3 Produzir uma/um assistida/o: definindo quem tem direito a pedir direitos

Tanto o primeiro atendimento quanto as peregrinações burocráticas fazem parte de um


processo que produz sujeitos legítimos para reclamar direitos na esfera judicial, uma das
preocupações centrais do trabalho ora apresentado. Ou ainda, dito de outro modo, estes
procedimentos efetivam a construção de determinados sujeitos políticos a partir de uma
linguagem “dos direitos” (Vianna, 2013). O termo que designa as/os usuárias/os dos serviços
da Defensoria Pública – “assistidas/os” – permite uma dupla apreensão: por um lado, uma/um
assistida/o é alguém que recebe assistência da instituição; por outro, ser assistido remete ao ato
de ser observado por terceiros.
Uma vez que o NUDIVERSIS se caracteriza por ser um “núcleo especializado de
primeiro atendimento”, a assistência oficial prestada pelas profissionais se limita ao âmbito pré-
processual. Nada garante que a demanda por requalificação civil venha a ser julgada procedente
após o ajuizamento da ação, contudo, para que haja a possibilidade de tal vontade ser apreciada
pelo Judiciário, é preciso que a pessoa ou tenha contratado um serviço privado de advocacia

43
Os valores cobrados pelos 5º e 6º Ofícios não estão disponíveis online. Os custos aqui mencionados foram
verificados na página da Rio Rápido Central de Certidões. Disponível em: < http://www.riorapido.com.br/tabela-
de-emolumentos.php>. Último acesso em setembro de 2014.

66
ou, como é o caso das/os assistidas/os do núcleo, tenha passado pelos trâmites de atendimento
da Defensoria Pública. É neste sentido que a expressão que dá título ao capítulo – “direito a
pleitear direitos” – se faz fundamental para compreender as práticas de administração
empreendidas no contexto do NUDIVERSIS.

A avaliação dos sofrimentos que contam: definindo prioridades

Consoante ao descrito na primeira seção deste capítulo, o primeiro atendimento é o


movimento pelo qual as pessoas se tornam efetivamente assistidas/os do NUDIVERSIS.
Durante o primeiro atendimento, tais pessoas são avaliadas em múltiplos planos, desde a
percepção sobre o grau de sofrimento e constrangimento enfrentados na vida cotidiana até os
julgamentos sobre o comprometimento e interesse em conseguir a alteração de prenome e sexo
no registro civil. Proponho agora discutir como se dão estas avaliações e mensurações. A
construção desta subseção está inspirada, principalmente, em três autores: Lugones (2012),
Boltanski (1999) e Fassin (2012). Aproprio-me aqui de algumas de suas reflexões para discutir
duas questões entrelaçadas: 1) as formas pelas quais o sofrimento pode ser politizado; e 2) o
processo avaliativo no qual se constituem os sujeitos de direitos.
Estas questões precisam ser observadas em conjunto na medida em que, como destacado
no início do capítulo e será demonstrado ao longo desta seção, a gestão de demandas e sujeitos
exercida pelas profissionais do NUDIVERSIS é perpassada por afetos, obrigações morais e
compromissos político-institucionais, conectando, assim, emoções e modos de fazer política.
Utilizo, então, a noção de micropolítica das emoções – isto é, a capacidade das emoções de
alterar as macrorrelações sociais nas quais emergem – proposta por Coelho e Rezende (2010)
para compreender as múltiplas formas de politização do sofrimento, pois esta assume uma
posição fundamental na fabricação dos casos que precisam ser “solucionados”. Além disso, a
objetivação política do sofrimento só é possível e eventualmente eficaz porque se dá no campo
essencialmente polissêmico “dos direitos”, como salientado por Vianna (2013), uma vez que a
linguagem da reivindicação de “direitos” é um dos modos de produção política dos sujeitos
através das construções de narrativas de sofrimento no espaço público.
Em “o sofrimento à distância” (Distant Suffering), Boltanski (1999) discute os modos
pelos quais as cenas de sofrimento podem produzir causas políticas e fazer com que as pessoas
se engajem em tais causas. Em outras palavras, o autor se interessa por estudar o capital político
que pode ser mobilizado através da exposição do sofrimento. Uma das contribuições trazidas
67
por Boltanski diz respeito às escalas de mediação e mensuração do sofrimento. De acordo com
o autor, é preciso medir corretamente a exibição de um infortúnio para que a indignação seja
moralmente aceitável. Assim, o sofrimento não pode ser insignificante a ponto de não mobilizar
os atores, tampouco catastrófico de mais que faça com que as pessoas se sintam incapazes de
ajudar.
Boltanski discute também como a escala de mediação do sofrimento engendra uma
hierarquização dos “sofrimentos que contam”, das situações que precisam ser mais
imediatamente remediadas. Por outro caminho, Didier Fassin (2012) explora questão
semelhante. Em um capítulo intitulado “escolha patética” (pathetic choice), o autor expõe como
se deu a distribuição de um bilhão de francos (ou 150 milhões de Euros) do Fundo de
Emergência Social (FUS – Fonds d’urgence sociale) como uma resposta política às
mobilizações promovidas pelos movimentos sociais de pobres e desempregados na França. A
distribuição deveria ser feita de modo “eficiente” e ficou a cargo dos governos locais, que
decidiriam não somente quem teria direito a receber este auxílio, mas também a quantia a ser
recebida por cada indivíduo ou família.
Um comitê de assistentes sociais ficou responsável por avaliar os requerimentos dos
solicitantes. É a partir desta configuração que Fassin argumenta que a exposição da pobreza,
marcada por uma retórica das necessidades vitais e da sobrevivência, foi alvo da avaliação da
equipe. O autor diferencia quatro critérios de julgamento dos casos: necessidade, justiça, mérito
e compaixão; e duas formas ideais de decisão que se combinam: uma baseada em uma medida
geral, que promove a igualdade (liberação de uma quantia fixa por pessoa ou por família); e
outra baseada em uma medida individual, que promove a equidade (quantia definida a partir
das avaliações das justificativas apresentadas pelos requerentes). De modo semelhante ao
abordado por Boltanski, tais decisões também acarretam mensurações e hierarquizações dos
sofrimentos suportáveis e de quem seriam os mais e menos sofredores.
Escrevendo sobre um contexto não tão diferente do da Defensoria Pública, Lugones
(2012), por sua vez, faz uma etnografia sobre o cotidiano dos Tribunales Prevencionales de
Menores de Córdoba. O objetivo da investigação da autora é compreender o exercício do poder
administrativo-judicial sobre menores de idade e seus responsáveis nos casos em que há a
presunção da condição de vítima. Neste sentido, seu trabalho traz ricas contribuições sobre
práticas de administração e técnicas de gestão que constroem o poder do Estado. Contudo,
destaco aqui somente um dos aspectos da pesquisa que pode ser utilizados para pensar as rotinas
do NUDIVERSIS: o processo pelo qual as narrativas dos sujeitos se transformam em um
expediente judicial.
68
Um dos pontos que gostaria de chamar atenção é sobre “os casos que se tomam”.
Segundo Lugones, os “casos tomados” são oriundos das avaliações e interpretações feitas pelas
administradoras – ou pequenas juízas – nos balcões de atendimento, as quais são influenciadas
por concepções morais acerca da infância e do cuidado na criação de filhos e filhas. Assim, as
narrativas são primeiramente classificadas como “coisas de adulto” ou “coisas de criança”.
Diversos elementos são levados em consideração durante a avaliação como, por exemplo, a
“urgência”, a existência ou não de uma intervenção prévia, a presença ou não de advogados
particulares e o modo como os denunciantes se apresentam nos tribunais. Sobre este último
elemento, a autora destaca que a expressão de emoções – principalmente o choro – durante
relatos de sofrimento é crucial para que um caso seja tomado.
Como o título deste capítulo aponta, tenho por objetivo compreender como se
constituem os sujeitos que têm “direito a pleitear direitos”. Passo agora a discussão das
especificidades do NUDIVERSIS na administração das pessoas que poderão ou não almejar a
alteração de seus documentos de identificação civil.

Os casos de requalificação civil eu ainda não fiz nenhuma que seja urgente, urgente
mesmo. Agora, por exemplo, existem casos de união estável post mortem que o falecido
deixou uma pensão ou deixou algum tipo de previdência e o banco não está deixando a
pessoa pegar esse dinheiro porque não tem o reconhecimento da união estável ainda. E a
pessoa está passando por necessidade, alguma coisa assim nesse sentido. São casos que a
gente costuma dar prioridade porque a gente sabe que a pessoa está passando diariamente
por necessidade, questão às vezes até de gente que não tem condição de pagar a casa que
está morando e tal. A gente costuma priorizar. Mas é algo feito informalmente. Foi o que
eu falei com a [outra estagiária], do caso que ela atendeu ontem. Era um caso desses de
urgência e eu orientei ela da seguinte forma: faz a petição independente do procedimento
voltar, manda os documentos, faz o relatório de primeiro atendimento e tal, mas fica com
os documentos da pessoa aqui também, deixa uma cópia com você para que quando o
procedimento retornar, você já tenha feito a petição. É algo que, assim, foge aos padrões
do procedimento administrativo. É o que a gente faz diretamente, pede permissão a
Defensora, explica para ela e a gente adianta por conta própria. Mas não é algo que a
gente possa solicitar. A gente não manda para a Defensoria e pede “ah, olha só o caso é
urgente, acelera aí esse procedimento”. [...] Normalmente, na questão de requalificação
civil a prioridade vem nesse sentido: ou alguém que tem N qualificações profissionais e
não consegue emprego nenhum por causa do documento; ou então alguém que está em
vista um emprego muito bom e não consegue por causa da documentação. Algo nesse
sentido. É isso. Requalificação civil seriam casos nesse sentido. Ou quando a única coisa
que realmente está travando a vida da pessoa é a questão documental. Ou alguém que, sei
lá, esteja a ponto de cometer suicídio. Algo assim, algo extremo. Aí tem como passar na
frente, mas é mais incomum. (Estagiária)

69
Geralmente não existe nenhum tipo de hierarquização. O que acontece é que, por exemplo,
os casos por danos morais geralmente são casos mais urgentes em si. Eles precisam andar
mais rápido, eles precisam ser protocolados mais rápido para o processo andar porque a
gente entende que são mais urgentes pelo tipo de caso que é, de agressão. Mas, ao mesmo
tempo, no caso dos transexuais, a gente sabe também que eles acabam sofrendo agressões
justamente pela dualidade entre a identidade, o nome que consta na identidade, e a
aparência. Então a gente até tenta que seja feito o mais rápido possível, mas como é a
nossa maior demanda, acaba que as coisas vão fluindo mais devagar. E como a gente tem
um procedimento extenso, dentro da defensoria, para lidar com esses casos, vai
caminhando bem mais devagar do que os outros casos que você atende a pessoa, pega os
documentos e já faz a ação. O que geralmente tem mais urgência, são os casos de união
estável post mortem porque aquela pessoa fica dependendo dessa ação para conseguir os
direitos dela, às vezes a pessoa não tem nem como sobreviver sem conseguir mexer numa
conta ou conseguir algum benefício. Às vezes também o casal tem filhos, então é uma
questão complicada que a gente tem que priorizar. Entre os transexuais, a gente tenta
priorizar quem está há mais tempo. Como os estagiários aqui saem de seis em seis meses,
às vezes fica alguma coisa faltando que um estagiário antigo não fez e a gente não sabia e
que descobre depois. Então a gente tenta dar prioridade para esses casos porque a gente
vê que eles entraram aqui há mais tempo. Dentre os casos que eu peguei, já aqui na
defensoria, eu vou seguindo a ordem cronológica da qual cada um chegou, a não ser, por
exemplo, uma assistida que a gente tem que mora nos Estados Unidos e que vai voltar para
lá, aí eu tentei fazer uma parte do procedimento dela mais rápido porque ela não estaria
aqui e isso atrasaria em um ano o procedimento dela para fazer depois. Mas acaba que a
ação mesmo, eu não vou priorizar porque não vai fazer diferença para ela. Vou seguir a
ordem cronológica mesmo igual dos outros assistidos. Ah, as pessoas mais velhas também,
se o assistido é idoso a gente entende que é preciso priorizar, mas eu atendi só uma, que é
a que já tem 67 anos, mas como ela também já estava aqui há muito tempo, deu na mesma,
porque eu priorizei ela, mas eu teria priorizado ela sendo ou não idosa. Até agora não
peguei outro idoso, mas se eu pegar, certamente será priorizado. (Estagiária)

Um dos primeiros aspectos que precisa ser abordado é o cálculo das “dores
insuportáveis” dentro de uma espécie de economia moral do sofrimento. Como é possível
perceber através destes trechos de entrevistas, a demanda por requalificação civil de pessoas
transexuais não figura como situações prioritárias usualmente, o que aponta para o lugar desta
demanda em uma escala dos sofrimentos que precisam ser aliviados. A sobrevivência aparece
como o horizonte destas avaliações e é por isso que somente os casos de requalificação civil de
pessoas transexuais que ameaçam suicidar-se são considerados como urgentes no quadro que
engloba todas/os assistidas/os e demandas do NUDIVERSIS.
Curiosamente, a situação citada por ambas as estagiárias como uma urgência
inquestionável envolve a restrição à renda, moradia e bens de consumo, e é isto que a configura
como tal. Entretanto, relatos de privação econômica são frequentes nas biografias de pessoas
transexuais, não só entre as assistidas/os da Defensoria – como o já descrito caso de Elisa –,

70
bem como é apontado em outras pesquisas (Bento, 2006; Teixeira, 2013; Ventura, 2010). O que
diferencia as pessoas transexuais que solicitam a alteração do registro civil das/os outras/os
assistidos seria então a previsibilidade da situação de penúria. Um sujeito que perca a/o
parceira/o repentinamente, se vê em uma situação inesperada de dificuldades financeiras; ao
passo que um indivíduo transexual pode já estar vivendo tal situação cotidianamente há um
longo tempo.
Assim, a transexualidade pode ser percebida como uma experiência que contém um
potencial de sofrimento que é inevitável e, justamente por ser inevitável, é alvo de uma
resignação, tornando-se menor porque comum. Contudo, é preciso fazer duas ressalvas: 1) a
definição das situações prioritárias obedece uma lógica por tipo de demanda e não por sujeitos,
ou seja, no caso de uma pessoa transexual apresentar um pedido de união estável post mortem,
provavelmente este será considerado “urgente”; 2) a alteração do registro civil não acarreta
nenhuma mudança imediata na situação econômica das pessoas transexuais, ainda que isto se
se encontre no horizonte de possibilidades que é construído pela “terapia de mudança de sexo”;
ao passo que nos outros casos citados, uma atuação rápida das operadoras do Direito implica
modificações quase instantâneas das situações dos sujeitos.
Em certa medida, a hierarquização dos casos obedece uma lógica do “bom senso” – e,
obviamente, todas as conotações morais implicadas – que perpassa todos os atendimentos
realizados pelas profissionais do núcleo. Segundo Miranda (2012), o “bom senso” é um
componente indispensável da administração pública e representa “um poder discricionário
exercido pelos funcionários ao tomar decisões e julgar com base não na lei, e sim na avaliação
de que cada caso é um caso” (p. 282).
A hierarquia dos casos urgentes não funciona apenas no plano geral das demandas
atendidas no NUDIVERSIS, existindo também uma mensuração dentre os casos de
requalificação civil de pessoas transexuais. Para além do quadro normativo que regula as
práticas no núcleo – como por exemplo, a prioridade legal do atendimento à pessoas idosas –,
existem gramáticas emocionais que influenciam as percepções e avaliações das histórias
narradas, que por sua vez determinam o andamento dos processos. Neste sentido, destaco que
as apreciações das estagiárias são frutos de negociações que ocorrem durante a interação
proporcionada pelo primeiro atendimento, no qual as pessoas transexuais elencam uma série de
argumentos que constrói e justifica a sua necessidade de requalificação civil.
Assim, ao mesmo tempo em que se definem quais são as possibilidades da pessoa
transexual conseguir ter sua demanda pela requalificação civil atendida, determina-se quem terá
prioridade na assistência promovida pelo núcleo. Como ressaltado por uma das estagiárias, o
71
critério geral de organização dos atendimentos é a “ordem de chegada” no NUDIVERSIS, logo,
as/os assistidas/os que estão em acompanhamento por mais tempo são os que têm prioridade.
Além das prioridades legais, existem ainda outros dois fatores influenciam diretamente a
disposição dos sujeitos em uma fila de atendimento: o “real interesse” da/o assistida/o e a
“urgência” do caso.
De acordo com as profissionais, só é possível iniciar o processo de elaboração da petição
inicial após a entrega de toda a documentação que precisa constar anexada e cabe às/aos
assistidas/os reunir tais documentos. Procurar o núcleo, entregar os documentos rapidamente,
comparecer nos dias e horários agendados, entre outas atitudes, são vistos como formas de
demonstrar que efetivamente se tem uma necessidade de ser reconhecido como mulher ou
homem, bem como reivindica a mudança de prenome e sexo no registro civil como parte deste
processo. Assim, fica clara a existência de uma relação entre o ritmo da peregrinação, o
andamento dos procedimentos de assistência e os valores morais que os cercam; relação esta
que possibilita a constante modificação da ordem dos atendimentos na medida em que algumas
pessoas são consideradas mais “interessadas” que outras.
É a relação entre estes três fatores que faz com que a responsabilidade pelo “avanço dos
processos” seja, quase que inteiramente, atribuída às/aos assistidas/os. Na medida em que as
operadoras do Direito só podem realizar aquilo que é considerado tanto como o “seu trabalho”
quanto a principal função do núcleo – isto é, a elaboração de petições iniciais – depois que as/os
assistidas/os entregam toda a documentação exigida, concerne a estes sujeitos “correr atrás de
seus interesses” e impor uma determinada velocidade na resolução de seus casos e efetivação
de demandas.
A “urgência”, por sua vez, se constrói desde o momento em que a pessoa chega pela
primeira vez ao núcleo. Ter o primeiro atendimento remarcado ou ser atendida/o imediatamente
depende do modo pelo qual as narrativas dos sujeitos serão avaliadas pelas profissionais do
núcleo. Ao apresentar suas dificuldades, as/os assistidas/os conseguem ou não fazer com que
seus sofrimentos “contem” e despertam, assim, a compaixão das funcionárias.
Ao formular a ideia da tópica do sentimento, Boltanski (1999) discute como alguns
casos se tornam “urgentes” e como a urgência, combinada com um conjunto de elementos, pode
transformar estes casos em causas. De acordo com o autor, algumas formas de exibição dos
sofrimentos são capazes de gerar uma exigência de engajamento por parte dos atores sociais
que são expostos às imagens ou relatos de infortúnios, pois existe um constrangimento moral
que tornaria impossível a apatia. No contexto do NUDIVERIS, é o episódio do primeiro
atendimento que influenciará todo o andamento do processo do sujeito na Defensoria Pública,
72
tendo em vista que ao ser considerado como um sofrimento intolerável que precisa ser ouvido
imediatamente sem a necessidade de agendamento prévio, é quase sempre um indicativo de que
tal situação será enquadrada como um “caso urgente”. Logo, a urgência pode ser oriunda das
mais diversas situações. Em linhas gerais, a definição dos casos urgentes depende do modo
como a/o assistida/o constrói sua trajetória narrativamente e como essa narrativa é apreendida
pelas profissionais do núcleo, como podemos ver nos exemplos a seguir.
O caso de Pedro, já descrito anteriormente, foi considerado como urgente por causa de
três elementos contidos em sua narrativa: a perda da visão ocasionada pelo início da
hormonoterapia, que foi interpretada como prova indiscutível da vontade de Pedro de construir
sua identidade de gênero e, portanto, da necessidade de ter seu registro civil alterado; o fato de
sua esposa ser cadeirante, o que faz com que se acredite o cotidiano de ambos seja marcado por
dificuldades; e sua indicação para assumir a presidência da associação de cegos de seu
município – ou seja, a oportunidade de um “bom emprego” –, tendo em conta o
constrangimento pelo qual ele passaria ao ser obrigado a assinar todos os documentos da
instituição com seu nome de registro.
Já Carmem é uma assistida casada há muitos anos e moradora de um bairro no interior
do município de São Gonçalo. Em seus relatos, ela afirma que nenhum dos amigos de seu
marido sabe que ela é uma mulher transexual. Após contar uma série de problemas enfrentados
no lugar onde reside, Carmem mencionou que foi selecionada para integrar o programa federal
de habitação Minha Casa, Minha Vida. Contudo, ela disse que pretendia desistir, pois a
correspondência de cobrança de condomínio chegaria com seu nome de registro e isso revelaria
sua transexualidade. A partir das falas das estagiárias citadas acima, é possível afirmar que
existe um tipo de “circuito de bens e perdas” – representado exemplarmente pela oportunidade
de um “bom emprego” – que pode acelerar o andamento dos procedimentos de administração
executados pelo núcleo. Diante deste quadro, isto é, da possibilidade da assistida abdicar um
bem conseguido, o caso de Carmem foi considerado como urgente.
O caso de Camila funciona como um contraponto aos dois primeiros e nos permite
pensar como se dá a assistência do NUDIVERSIS quando o sofrimento e o constrangimento
não são o centro dos relatos de uma/um assistida/o. Camila chegou ao núcleo às 16h,
acompanhada de duas amigas. Seguindo as orientações de um advogado particular que foi
consultado antes de sua ida ao núcleo, ela trazia consigo uma pasta com documentos e outros
registros que ela considerava importantes, como alguns de seus trabalhos como modelo e uma
entrevista dada em um programa de televisão. A estagiária disse então que agendaria um dia
para que Camila pudesse ser atendida. O fato de chegar perto do fim do horário de expediente
73
e de ser encarada como alguém “de sucesso” porque possui uma fonte de renda relativamente
estável e teve condições de acionar um serviço privado de advocacia previamente, fez com que
Camila não fosse classificada no rol das urgências atendidas pelo núcleo.
Levando em consideração que os processos de requalificação civil não possuem réus44
a serem julgados, faz sentido que me aproxime mais da “tópica do sentimento” que da “tópica
da denúncia” descrita por Boltanski (1999). A tópica dos sentimentos agrega alguns elementos
fundamentais: 1) a figura de um “bem-feitor”; 2) a centralidade dos sentimentos de bondade
por parte dos que ajudam, e de gratidão por parte dos que são ajudados. Além disso, o autor
destaca que esta é marcada por uma metafísica da interioridade, pois a relação entre o
espectador e a vítima é essencialmente sentimental, pois se constrói a partir do momento que o
primeiro se sente tocado pela condição sofredora do segundo.
Estes dois elementos se fazem presentes no cotidiano do NUDIVERSIS. As
profissionais representam a si mesmas como pessoas comprometidas com a luta pela promoção
dos “direitos LGBT” e o próprio núcleo se constitui a partir de uma chave política baseada na
retórica da necessidade de um serviço especializado no assunto, como abordado no primeiro
capítulo. Neste contexto, falas sobre sentir-se feliz em poder ajudar de alguma forma são
comuns por parte das funcionárias, bem como os elogios e outras formas de expressão da
gratidão, em situações particulares, por parte de algumas/uns assistidas/os.
Em suma, observo a localização das pessoas transexuais no NUDIVERSIS a partir de
um quadro de constante avaliação. Tendo em vista que as estagiárias do núcleo são as
responsáveis por realizar todos os procedimentos de assistência, desde o primeiro atendimento
até a elaboração da petição inicial, é possível estabelecer uma analogia com as pequenas juízas
descritas por Lugones (2012). Tais profissionais possuem um campo de manobra no qual
exercem um poder administrativo-jurídico ao definir quem terá direitos a pleitear direitos.
Assim, buscar a ajuda das profissionais não é o suficiente para demonstrar a vontade de
alterar o prenome e o sexo no registro civil, tal interesse precisa ser constantemente reiterado
através de ações. A urgência de um caso de requalificação civil diante dos outros só se institui
quando a sobrevivência da/o assistida/o é posta em questão. O sofrimento que é construído
como inerente à experiência da transexualidade – isto é, os constrangimentos, a rejeição
familiar, a baixa escolaridade, as dificuldades de ingresso no mercado de trabalho formal, etc.
– não mobiliza atuações particulares por parte das operadoras do Direito, nos casos de

44
Como vem sendo demonstrado, as pessoas transexuais são representadas nas petições iniciais como vítimas.
Entretanto, as acusações se dirigem não à pessoas ou instituições específicas, mas a entidades abstratas, como a
“natureza” e a “sociedade”. De todo modo, este assunto será abordado no último capítulo.

74
requalificação civil, porque não podem ser resolvidos através da judicialização. Apenas quando
há um ponto de inflexão, ou seja, quando estes sofrimentos de certa forma “transbordam”, como
nos casos de Pedro e Carmem, é que há um imperativo moral de “fazer alguma coisa” por aquela
pessoa. Ou ainda, é somente quando o sofrimento deixa de ser ordinário e passa a ser visto
como extraordinário que os atores sociais são confrontados com o constrangimento de agir para
aplacar as dores do outro.

Controle burocrático: a administração e o exercício do poder

A construção dos sujeitos que podem pleitear o direito à requalificação civil pode ser
lida também a partir da chave de uma racionalidade burocrática, ao menos no nível da
justificação das práticas de gestão executadas pelas profissionais do NUDIVERSIS. O Estado
se faz a partir desta lógica burocrática, ou seja, através da criação de instituições que dividem
entre si a tarefa de exercer o controle social e administrar os cidadãos. Tal lógica é caracterizada,
principalmente, pela impessoalidade e pelo legalismo formal (Weber, 1999).
Conforme apontado em outras partes deste trabalho, as normativas legais são descritas
como um norte que deve orientar as atuações de operadores do Direito e, consequentemente,
que as legitima, como por exemplo, quando a prioridade é dada às pessoas idosas e quando são
determinadas quais demandas serão ou não incluídas na petição inicial de uma/um assistida/o.
O caso de Yasmim ilustra bem este último ponto. Quando compareceu ao núcleo para
entregar alguns documentos pendentes, a assistida levou também uma mamografia e alguns
laudos médicos. Ela havia sido atropelada por um ciclista e o impacto não apenas deslocou sua
prótese de silicone, como também a arrebentou, podendo gerar complicações de saúde em
virtude do vazamento do líquido no interior de seu corpo. Deste modo, Yasmim solicitava além
da alteração de prenome e sexo em seu registro civil, a reparação de sua prótese em um hospital
público ou que o Estado arcasse com os custos. A estagiária anotou a demanda da assistida e
ficou com cópias da mamografia e dos laudos. Ela informou a Yasmim que consultaria a
Defensora para saber se no seu caso era possível apelar para o dever do Estado de prover
serviços públicos de saúde. No entanto, a questão da reparação da prótese permaneceu em
aberto e até o fim do trabalho de campo e somente a petição inicial de requalificação civil havia
sido entregue à assistida quando parei de acompanhar o cotidiano do núcleo.
O controle burocrático é acionado para explicar outras atuações das funcionárias do
núcleo, mesmo que estas não obedeçam a um horizonte de normativas legais. Isto ocorre
75
principalmente nas ocasiões em que as estagiárias se recusam a fazer um primeiro atendimento
imediato, alegando, por exemplo, que este precisa ser previamente marcado ou que, de acordo
com o horário de atendimento, não há tempo hábil para que este seja realizado – especialmente
quando o indivíduo chega ao núcleo depois das 16h.
Outro importante aspecto deste controle se refere à imprescindibilidade da juntada de
todos os documentos antes da elaboração da petição inicial. Primeiramente, é preciso registrar
que: 1) existe um modelo de petição de requalificação civil; e 2) as alterações da petição entre
uma/um assistida/o e outra/o são mínimas e sempre localizadas na seção que apresenta a
trajetória da/o autora/or. Levando isso em consideração, saliento que tal necessidade configura
uma das facetas do exercício do poder administrativo, uma vez que nada impede que a petição
seja elaborada durante, por exemplo, o período em que a pessoa aguarda a emissão das certidões
dos Ofícios de Registro de Distribuição.
Sugiro então que pensemos esta forma de gestão como parte da indiferença produzida
pela burocracia ocidental. O Estado se materializa no balcão, através da experiência de
submissão que ocorre durante o atendimento. A lógica burocrática faz com que os atendimentos
sejam cercados por um ideal de neutralidade e impessoalidade. É este ideal que permite ao
“fatalismo” funcionar como um sistema de justificação dos atos discricionários dos
funcionários (Herzfeld, 1993). Ao atribuir a “culpa” à burocracia, a assimetria que marca as
relações entre as pessoas que se localizam em um dado lado do balcão – ou seja, administrados
e administrados – é encoberta, uma vez que, por meio deste discurso, ambos são dispostos como
“sujeitos impotentes” diante da “máquina estatal”.
Herzfeld (1993) argumenta que o controle do tempo dos administrados é um dos
componentes da indiferença que caracteriza as tecnologias burocráticas de administração do
Estado. A seu turno, Lugones (2012) associa o controle do tempo ao exercício do poder nos
Tribunais, como por exemplo, quando os sujeitos são chamados a comparecer em dado dia e
horário. Neste sentido, sugiro que, quando uma das profissionais do núcleo diz a alguém que
ele precisa agendar o primeiro atendimento e retornar outro dia, há, além do exercício do poder,
o estabelecimento de mensurações e valorações distintas aplicáveis ao tempo de cada um,
indicando uma desvalorização do tempo das/os assistidas/os.
O controle e a disposição do tempo das/os assistidas/os se faz presente durante todo o
período em que é prestada a assistência. Os encaminhamentos à Sede da Defensoria Pública e
aos Ofícios de Registro de Distribuição são uma das faces desta forma de gestão, pois os sujeitos
precisam comparecer nestes locais ao menos duas vezes antes de retornarem ao NUDIVERSIS
(no caso da Sede da DPGE-RJ, é preciso ir uma vez para marcar e outra para ser entrevistada/o
76
pelas/os psicólogas/os e assistentes sociais; e nos ORD é preciso ir a primeira vez para solicitar
as certidões e uma segunda para retirá-las).
Além de administrar as pessoas através da disposição de seu tempo, a peregrinação
burocrática também cumpre um importante papel na determinação de quem serão os sujeitos
que terão direito a reivindicar a requalificação civil. Apesar das solicitações que constam nos
ofícios de encaminhamento serem sobre “a existência ou não” de um dado assunto, só é possível
instaurar a ação caso não tenha nenhum registro de dívida, protesto, processo criminal etc., ou
seja, que tais certidões sejam do tipo nada consta.
De acordo com o discurso das profissionais do NUDIVERSIS, estas certidões não
apenas compravam que o sujeito não possui nenhuma “pendência com a Justiça” – condição
legalmente indispensável para a possibilidade de alteração do prenome e sexo –, mas também
se fazem necessárias para afastar uma suspeita que sempre paira sobre as pessoas que requerem
a requalificação civil: a de que estejam se utilizando de uma exceção da regra de imutabilidade
do prenome para fugir de dívidas, crimes, ou outros tipos de atos ilícitos por ventura cometidos.
Deste modo, compreendo a peregrinação burocrática e os documentos que são
produzidas por ela como um tipo de burocracia de exceção que tem por objetivo regular o
acesso ao direito de requalificação civil. Este aspecto se conecta com uma gramática comum
da luta por direitos que os produz como uma espécie de “bem escasso” que necessita de uma
constante supervisão dos sujeitos que os acessam, enfatizando assim uma dimensão do
merecimento de determinados atores políticos (Vianna, 2012 e 2013).
Por fim, a necessidade de apresentar certidões em negativo pode ser considerada como
uma das faces da constituição de si: a comprovação de que não se é, no caso, uma/um farsante
ou “criminosa/o”. O outro lado desta constituição apoia-se na comprovação de quem se é, no
caso, comprovar que se trata, de fato, de uma pessoa transexual. Esta será a discussão da
próxima subseção.

Da necessidade de pertencer a uma categoria como forma de “acessar direitos”: as travestis,


as/os “verdadeiras/os” e as/os “falsas/os” transexuais.

Conforme abordado na introdução deste trabalho e discutido em diversas pesquisas


sobre transexualidade, ser considerada/o como uma/um “verdadeira/o transexual” é condição
fundamental para que os corpos e narrativas das pessoas que vivem as múltiplas formas de
transexualidade possam ser incluídas dentro da margem do “humano”. Isto é, ser
77
diagnosticada/o com a “disforia de gênero” é a única forma de dar inteligibilidade a um
conjunto de experiências e, assim, ser incluída/o em uma economia jurídico-moral que regula
o acesso aos direitos, tendo em vista que, no âmbito do NUDIVERSIS, o laudo é elencado como
um dos documentos necessários para a elaboração da petição inicial. Proponho agora uma
discussão sobre a exclusão de determinados sujeitos na gestão dos que tem direito a solicitar a
requalificação civil.

A maior parte das travestis com as quais eu tenho contato, não sei se é a maior parte das
que existem, mas são as que eu tenho contato. Muitas vezes não se incomodam de mudar
o nome no registro. Elas têm um nome social, obviamente, mas, assim, não é uma
reinvindicação tão evidente como no caso das transexuais. Ai fala: “não, eu só quero meu
nome social, se puder botar no crachá do emprego já está bom”. Não se importam com
isso. Mas nós já fizemos ações aqui pra mudança só de nome de travestis sim. A grande
dificuldade que a gente encontra no Poder Judiciário é explicar para um juiz o que é
travesti. Porque o juiz acha que travesti é drag queen, é transformista, é qualquer coisa,
menos travesti. Então se a gente falar “olha, fulana é travesti” o juiz já vai achar graça e
vai julgar improcedente. Então o caminho que a gente faz é tentar aproximar o máximo
possível a lógica da travesti da lógica da transexual. Então eu digo pro juiz “olha, essa
pessoa nasceu com esse sexo biológico, mas ela assumiu uma identidade correspondente
a um outro gênero, o gênero feminino e por conta disso ela já se construiu socialmente
como uma mulher, então ela precisa de um nome que seja correspondente a essa aparência
física dela”. E é assim que eu tento explicar para o juiz sem falar “olha, é travesti”. Eu
não posso usar essa palavra travesti em uma ação. Se eu usar isso vai virar motivo de
chacota. (Defensora Pública)

As diversas investigações empreendidas sobre a transexualidade no contexto do


Judiciário descrevem as situações em que as vivências das pessoas transexuais não adquirem
inteligibilidade como uma espécie de “estado de liminaridade”, caracterizado pela ausência ou
suspensão de direitos. Para Zambrano, a experiência vivida durante os dois anos de
acompanhamento como parte do processo transexualizador equivale a um tipo de “falsidade
ideológica”, já que a pessoa vive uma identidade sexual na vida social discrepante da identidade
sexual legal – ou, “no documento” (2005, p. 104). Isto é motivo de inúmeros constrangimentos
para os indivíduos transexuais e é visto como uma das causas do sofrimento que estas pessoas
enfrentam em seu cotidiano.
Ao analisar as decisões judicias acerca dos pedidos de alteração de nome e sexo no
registro civil de pessoas transexuais, Ventura (2010) identificou alguns processos cujos pedidos
foram negados mesmo após a realização de todas as intervenções corporais previstas na “terapia
de mudança de sexo”, isto é, utilização de hormônios, cirurgias plásticas, e, inclusive, a
transgenitalização. A autora cita uma apelação judicial que descreve tal episódio como um

78
“limbo do purgatório eterno”, uma vez que a pessoa não consegue viver de forma plena em
nenhum dos dois sexos.
É a necessidade de enquadramento em uma determinada categoria como pressuposto
para o acesso aos direitos que permite que aproximemos as pessoas transexuais da situação
vivenciada pelos apátridas, como exposto por Hannah Arendt (1989). Ao ser desvinculado de
todo e qualquer sistema jurídico – o que em última instância significa não pertencer a nenhum
Estado-nação – o apátrida encontra-se privado do exercício de direitos. Assim, a autora
demonstra como a garantia de direitos é inseparável do enquadramento dentro de uma
determinada forma de organização política e como a “humanidade nua” do sujeito – objeto do
discurso sobre direitos humanos – representa na verdade o completo fracasso de tal garantia45.
De modo semelhante aos apátridas, pessoas que desejam as alterações de nome e sexo
e modificações corporais, mas que não consideradas “transexuais verdadeiras/os” são deixadas
no “limbo do purgatório eterno”. Tais corpos não adquirem uma inteligibilidade médica, a qual
é transformada em inteligibilidade jurídica para a efetivação dos direitos. Em outras palavras,
pode-se pensar como as profissionais do NUDIVERSIS efetuam uma espécie de tradução da
linguagem médica contida nos laudos de psiquiatras, a qual sempre remete às convenções
estabelecidas no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM)46, na
Classificação Internacional de Doenças (CID) e nas resoluções do Conselho Federal de
Medicina (CFM). É preciso destacar que, segundo Bento (2004), Teixeira (2013), Ventura
(2010) e Zambrano (2005), isto não é incomum, uma vez que muitos sujeitos não desejam
realizar a cirurgia de transgenitalização devido aos mais diversos motivos, como por exemplo,
as possíveis complicações de saúde que esta pode gerar.
Ainda sobre o pertencimento à humanidade como condição fundamental para a
reivindicação de cidadania, podemos nos apropriar novamente das reflexões de Fonseca e
Cardarello (1999). Segundo as autoras, o processo através do qual o discurso sobre direitos
humanos se consolida implica sempre na definição de quem são os “mais e menos humanos”.
Tal processo está relacionado à necessidade de pertencimento a uma determinada categoria de
classificação para o acesso a um certo conjunto de direitos. É possível observar efeito
semelhante no fenômeno da transexualidade, já que o dispositivo da transexualidade encerra
uma série de práticas de dominação que consequentemente encapsulam os sujeitos em

45
Sobre este ponto, cabe ressaltar que “ter uma pátria” é um dos direitos humanos universais consagrados em
documentos internacionais.
46
Tais convenções, as quais se referem principalmente às definições da “disforia de gênero” e de seus critérios
diagnósticos, serão abordadas no próximo capítulo.

79
determinados modelos (Bento, 2006). Como efeito inevitável, a produção discursiva da/o
“verdadeira/o transexual” gera também um tipo de “gêmea/o maligna/o”: a/o “falsa/o
transexual”.
Berenice Bento (2004 e 2006) nomeia os sujeitos que são deixados de fora do programa
transexualizador como “outros transexuais”, uma vez que é nesta categoria – transexual – que
estes se identificam, mesmo sem o aval da equipe médica. Segundo a autora, o fenômeno
transexual se caracteriza por ser uma experiência de deslocamentos, de “interpretações
negociadas em atos sobre o masculino e o feminino” (Bento, 2004, p. 170). Assim, a/o
“verdadeira/o transexual” não existe, mas é somente uma criatura do imaginário médico que é
imposta aos sujeitos, relegando às margens as múltiplas e distintas formas de expressão da
transexualidade.
Nos corredores e salas de espera do NUDIVERSIS, a/o “falsa/o transexual” não parece
ser uma preocupação, tendo em vista que aquilo que atesta a transexualidade de alguém – isto
é, a aquisição de um laudo médico – não é encarado como competência do núcleo. A figura que
se encontra excluída da economia que regula o acesso aos direitos no âmbito do Judiciário é a
travesti. Distante do discurso médico-científico que esquadrinha e certifica a transexualidade
de determinadas pessoas, as travestis não são “levadas a sério”, como a Defensora salientou
durante a entrevista. Portanto, as travestis não são consideradas como legítimas a pleitearem a
requalificação civil, a não ser que abdiquem desta forma de identificação e passem a dizer, ao
menos nos corredores do núcleo, que são pessoas transexuais.
Em resumo, evidencia-se então uma questão crucial: o estabelecimento de uma
categoria que é sujeito de direitos implica sempre a exclusão daqueles que não se encaixam
nela. Este é o efeito negativo de tal produção discursiva, um algo que “sempre sobra”. Para
utilizar os termos de Fonseca e Cardarello (1999), a frente discursiva que produz o sujeito
“verdadeiramente transexual” classifica-o como mais humano que as/os “outras/os transexuais”
e as travestis. Deste modo, ao ser visto como vítima de um transtorno do qual não é culpado,
a/o “verdadeira/o transexual” pode exercer seus “direitos humanos”, enquanto as/os “outras/os
transexuais” e travestis permanecem excluídas tanto das instituições de saúde, quanto das
judiciais.

80
Assistência e peregrinação burocrática: fazendo Estado e sujeitos ao longo do tempo

Tendo já demonstrado como os médicos, principalmente os psiquiatras, exercem a


autoridade concedida pela posse de um saber no processo de designação de uma categoria que
conformará, em última instância, sujeitos de direitos específicos, gostaria de adicionar mais
elemento neste quadro: as operadoras do Direito. Para sustentar essa ideia, remeto à relação
entre o período de acompanhamento – ou o tempo da tutela – e a peregrinação burocrática na
produção das pessoas que terão direito a pleitear a requalificação civil.
Vianna (2002) demonstra a vinculação entre tempo e tutela na gestão da infância.
Através da análise de um conjunto de processos judiciais envolvendo a guarda de crianças e
adolescentes, a autora argumenta que o exercício do poder tutelar precisa, necessariamente, se
estender ao longo do tempo, uma vez que a tutela tem por função proteger sujeitos em transição
e, assim, salvaguardar o “correto desenvolvimento” dos mesmos. No caso dos menores de
idade, esta relação entre tempo e tutela se dá um modo óbvio, pois, ao atingir a maioridade
legal, tais indivíduos deixam de ser “naturalmente tuteláveis” (p. 271).
Na tentativa de transpor esta ideia para o contexto etnográfico no qual realizei esta
pesquisa, penso que o período de acompanhamento que as pessoas transexuais passam não só
no NUDIVERSIS, mas também nos programas transexualizadores47, pode ser compreendido
como um “tempo de tutela”. Durante o tempo em que permanecem sendo, às vezes
simultaneamente, assistidas pelas profissionais da Defensoria Pública e atendidas por
psiquiatras, psicólogos, endocrinologistas e assistentes sociais dos serviços do HUPE ou do
IEDE, as pessoas transexuais aguardam o cumprimento de uma promessa forjada tanto pelos
discursos médicos quanto pelos jurídicos: a de que através da cirurgia de transgenitalização,
por um lado, e da alteração do prenome e sexo no registro civil, por outro, estas pessoas
conseguirão finalmente serem “homens e mulheres de verdade”. Estes atos são considerados as
etapas finais da “terapia de mudança de sexo” e representam o fim do “estado de liminaridade”.
Por último, proponho olhar para as peregrinações burocráticas e os procedimentos de
assistência descritos ao longo do capítulo a partir de uma das principais questões deste trabalho,
abordada desde o primeiro capítulo: a produção espelhada – isto é, mútua e simultânea – dos
sujeitos e do Estado, materializado tanto no balcão do NUDIVERSIS quanto nos “papéis”
(relatórios, certidões, etc.). Como discutido por Souza Lima (2002), existem nuances no

47
De acordo com a resolução nº 1955/2010 do CFM, a qual dispõe à cirurgia de transgenitalização no Brasil, a/o
paciente só poderá obter a autorização para a realização do procedimento após o acompanhamento por uma equipe
multidisciplinar durante um período mínimo de dois anos (CFM, 2010).

81
exercício do poder tutelar. Tais nuances podem ser compreendidas a partir do par gestar-gerir,
no qual o primeiro termo compreende práticas constitutivas e pedagógicas do “ensinar a ser”;
enquanto o último faz referência ao controle administrativo cotidiano (p. 16). Aproprio-me aqui
destes conceitos para defender que, além de produzirem os sujeitos tutelados ao conduzirem o
seu “correto desenvolvimento” – gestando-os –, o acompanhamento jurídico e as peregrinações
burocráticas por uma série de instituições têm por função proteger a maquinaria burocrática de
conceder direitos às pessoas que não são legítimas, ou seja, aqueles que não são considerados
como as “verdadeiras vítimas” da transexualidade – ações que podem ser lidas na chave do
gerir.

82
Capítulo 3
Corpos de Papel, Sujeitos Impressos:
sobre documentos e a construção de sujeitos e realidades

O terceiro capítulo deste trabalho deve ser lido como uma continuação do anterior, não
apenas por uma questão de coerência sequencial, mas também porque seu objetivo é analisar
os “produtos” dos procedimentos de assistência e das peregrinações burocráticas discutidas no
capítulo dois: os diversos documentos reunidos pelas/os assistidas/os do NUDIVERSIS. Tomo
aqui como principal objeto de investigação as pastas das pessoas que já haviam sido ou que
estavam sendo acompanhadas pelas profissionais da Defensoria Pública. Logo, faz sentido
considerar que é neste capítulo que realizo com mais rigor uma “etnografia dos papéis”, pois
estes são peças-chave para responder umas das principais perguntas de pesquisa que orientou a
investigação empreendida: de que forma o Estado administra a demanda por requalificação civil
de pessoas transexuais?
Antes de iniciar as discussões propriamente ditas, destaco que estas pastas são
constituídas por dois tipos distintos de “papéis”: as folhas que estão devidamente presas à pasta
por “bailarinas” e se encontram furadas, numeradas e carimbadas por algum funcionário da
DPGE-RJ; e os outros papéis que são entregues pelas/os assistidas/os e permanecem “soltos”
no interior das pastas, dentre os quais se encontram cópias extras dos documentos de
identificação, matérias de jornais, crachá de trabalho etc. Afirmo que estes papéis são de tipos
diferentes porque os primeiros, aqueles que estão registrados e adequadamente apensados à
pasta, são sempre anexados à petição inicial, enquanto os últimos podem ou não vir a figurar
como elementos necessários para a comprovação de algo. Por conta das questões que pretendo
abordar, concentro-me aqui no primeiro tipo de papel descrito, ou seja, aqueles documentos que
adquirem um estatuto de prova nas ações de requalificação civil.
Uma “etnografia dos papéis” se justifica na medida em que podemos pensar os
processos burocráticos de administração pública – os quais representam a rotinização do poder
do Estado – que envolvem a etapa pré-processual de alteração do nome e sexo no registro civil
de pessoas transexuais como uma espécie de fabricação contínua de papéis. Além disso, como
dito no primeiro capítulo, Ferreira (2011) argumenta que nos contextos de pesquisa em
instituições públicas, os documentos figuram como “artefatos etnográficos” por meio dos quais
é possível acessar os modos como o cotidiano administrativo das repartições é arquivado.

83
Ao chegar no NUDIVERSIS, a/o assistida/o precisa entregar um enorme conjunto de
papéis (as cópias dos documentos civis, a lista de testemunhas e as fotos) para que se possa
solicitar outros papéis (as certidões dos ORD e o Estudo Social), os quais servirão de base para
a produção de mais papéis (a petição inicial) que terão por objetivo argumentar em favor da
aquisição de novos papéis (os documentos civis alterados). Dito de outro modo, estes processos
de Estado se materializam neste complexo de papéis de diversos tipos que compõem não
somente as pastas das/os assistidas/os da Defensoria Pública, mas as/os acompanharão durante
toda a vida.
Tomo como ponto de partida a apresentação da lista de documentos comuns que
compõem as pastas das/os assistidas/os e busco discutir uma espécie de poder mágico que estes
papéis possuem, uma vez que são capazes de fabricar e materializar uma determinada “versão”
dos sujeitos que descrevem, sujeitos que são generificados e inseridos em ordens morais de
distintas formas. Além disso, demonstro como os documentos possuem poderes desiguais de
instituição da realidade, não apenas porque eles “falam” sobre coisas distintas, mas também
porque são produzidos por atores sociais que se encontram em diferentes posições em uma
escala de distribuição do poder. Por fim, discuto também como estes documentos criam também
“realidades internas”, influenciando o modo pelo qual se dá a subjetivação e a significação das
experiências vivenciadas pelos indivíduos.

3.1 Dos documentos que fazem pessoas: as múltiplas formas de materialização dos sujeitos
e da realidade

Conforme descrito no capítulo anterior, existe uma lista de documentos que são
considerados como necessários para que a ação de requalificação civil seja instaurada. No
âmbito da qualificação civil, é preciso apresentar uma série de documentos: Certidão de
Nascimento, Carteira de Identidade, CPF, Título de Eleitor, Certificado de Reservista (para
aqueles cujo sexo de registro é masculino), Passaporte (caso tenha), Carteira de Habilitação
(caso tenha), Carteira de Trabalho, contracheque e/ou outro comprovante de renda,
comprovante de residência e diplomas e certidões de escolaridade e/ou cursos
profissionalizantes. Além disso, são solicitados outros tipos de documentos, que possuem
poderes de produção de verdade distintos uns dos outros; dentre estes se encontram: uma
relação de ao menos três testemunhas, laudos que atestam a transexualidade, atestado médico
de realização da cirurgia de transgenitalização (nos poucos casos em que isso se aplica), exames
84
médicos, receitas de hormônios, Estudo Social emitido por psicólogos e assistentes sociais da
Defensoria Pública, certidões de nada consta dos Ofícios de Registro de Distribuição e fotos
nas quais as/os assistidas/os se apresentem com a “identidade de gênero pretendida”.
Esta lista de documentos será o objeto de análise desta seção. Proponho discutir como
tais documentos possuem a função de produzir e dar materialidade à realidade ao descrever e
classificar indivíduos em determinadas categorias, bem como o status de prova que estes
adquirem neste contexto. Além disso, busco demonstrar como tais papéis ajudam a construir
uma imagem de “sujeito idôneo” que justifica o merecimento do acesso aos direitos48.

Lista de Documentos

Lista de testemunhas

Uma das primeiras exigências feitas pelas profissionais do NUDIVERSIS às/aos


assistidas/os é uma lista com três testemunhas. É preciso informar o nome completo, o endereço
residencial, telefone para contato e, eventualmente, o número de CPF. Tais pessoas devem estar
dispostas a testemunhar em juízo, caso sejam chamadas a comparecer na audiência de
requalificação civil. Em certa medida, a lista de testemunhas funcionam como um tipo de
“contrato de fiança” no qual outros sujeitos auxiliam a produção da verdade através da assunção
da responsabilidade pela veracidade dos relatos apresentados.
Portanto, as/os assistidas/os são aconselhados a chamarem pessoas de sua confiança,
que confirmarão a história apresentada na petição inicial e que responderão “corretamente”
qualquer pergunta que o indivíduo responsável pelo julgamento faça. Contudo, as estagiárias
geralmente sugerem que não se chame familiares para compor a lista de testemunhas, pois, de
acordo com a interpretação dos juízes, os laços de parentesco indicam que as pessoas possuem
“interesse na questão julgada”, “contaminando” os depoimentos com interesses particulares e
desvalorizando o testemunho de tais sujeitos.

48
Embora não apareça na lista de documentos como um tópico específico, o Relatório de Primeiro Atendimento
também é um dos elementos que opera a materialização dos sujeitos. Este foi discutido no capítulo anterior por
ser o único documento cuja produção depende única e exclusivamente das profissionais do NUDIVERSIS. É por
esta razão que este não aparece aqui com uma descrição detalhada, como os laudos, fotos, etc.

85
Laudos psiquiátrico, psicológico, endocrinológico e social

Outros documentos que são descritos como fundamentais para que o pedido de
requalificação civil seja julgado como procedente são os laudos de psiquiatras, psicólogos,
endocrinologistas, assistentes sociais e quaisquer outros profissionais que possam atestar a
transexualidade de uma/um assistida/o ou, nos casos que se aplicam, o atestado de realização
da cirurgia transgenitalizadora. Neste sentido, as estagiárias do núcleo pedem que a pessoa
transexual leve o máximo possível destes laudos, de preferência, de profissionais de distintas
especialidades. Como já mencionado, algumas/ns das/os assistidas/os não possuem tais laudos,
pois ingressaram nos serviços de saúde há menos de dois anos ou por uma série de outras razões.
Nestes casos, são requeridas declarações constando que a pessoa está em acompanhamento pela
equipe de algum programa transexualizador e, se possível, a previsão de quando ela poderá
realizar a cirurgia de transgenitalização, como fica evidente nos seguintes exemplos:

Informamos que o paciente [nome de registro], nome social: [xxxx], registro [xxxx], se
encontra em acompanhamento no serviço de Urologia na Unidade de Urologia
Reconstrutora, no Programa de Atenção Integral a Saúde Transexual aguardando processo
transexualizador (CID F64.0). (Atestado psiquiátrico do HUPE)

Atesto, a pedido da própria, que [nome de registro] (nome social), Registro Geral no HUPE
nº xxxx está inscrita no programa de cirurgia de transgenitalização do Hospital
Universitário Pedro Ernesto da UERJ, fazendo acompanhamento psicológico, psiquiátrico,
urológico e endocrinológico, devendo ser submetida à cirurgia a partir de [mês] de [ano].
(Atestado psiquiátrico do HUPE)

Além destes laudos e atestados, sempre assinados por algum profissional autorizado,
são apresentados alguns documentos auxiliares que comprovam a transexualidade da/o
assistida/o, tais como: exames de taxas hormonais, receituários de hormônios e inibidores
hormonais, cartões de ambulatório de programas transexualizadores com datas de consultas,
atestados de realização de determinados procedimentos de intervenção corporal – como por
exemplo, implante de próteses de silicone ou de retirada dos seios – e tudo mais que possa
funcionar como “prova” nas ações de requalificação civil de pessoas transexuais.
Conforme discutido no capítulo anterior, é a exigência destes tipos de laudos que faz
com que o direito a requalificação civil seja restrito àquelas pessoas que se enquadram na lógica
médica do “transexualismo” ou “disforia de gênero”, excluindo assim as travestis e as múltiplas
formas de vivenciar as experiências da transexualidade.

86
Estudo Social

O Estudo Social, fruto das avaliações feitas por psicólogos e assistentes sociais
servidores da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, consiste em dois documentos
distintos e complementares: o relatório social e o relatório psicológico. Ambos têm por
objetivo atestar a procedência do pedido de requalificação civil e seguem um modelo pré-
estabelecido. Da mesma forma que as petições iniciais, estes dois documentos são praticamente
idênticos para todas/os as/os assistidas/os, exceto no que se refere à trajetória de cada uma/um.
Assim, de modo paradoxal, o Estudo Social funciona como uma tecnologia que produz a
singularização do caso através de um documento padronizado.
O Relatório Social contém, geralmente, apenas uma página e enfatiza a convicção da/o
assistida/o de não pertencer ao sexo registrado e não vivenciar tal identidade, de modo que a
alteração do registro civil se faz premente. A breve argumentação apresentada pode ser tomada
como um resumo da contida na petição inicial, isto é, baseada no direito da personalidade de
ser identificado pelo nome que utiliza publicamente e na obrigação do Estado de resguardar a
“dignidade da pessoa humana”, como será discutido no próximo capítulo deste trabalho.
O Relatório Psicológico é mais detalhado que o social e encontra-se dividido em alguns
tópicos: limites (salienta que o objetivo do psicólogo, neste caso, é avaliar a motivação e
condição psíquica frente a demanda por requalificação civil); validade (informa que os
resultados obtidos são temporários); procedimento (adoção como método de uma “entrevista
individual com escuta psicológica” e observação dos atos da/o entrevistada/o); síntese da
entrevista (apresenta, de modo muito resumido, os episódios destacados no Relatório de
Primeiro Atendimento); interação com a imagem feminina/masculina (um tipo de avaliação
sobre a performance de gênero da/o assistida/o); e conclusão (ressaltando a convicção da/o
entrevistada/o e as situações de constrangimento às quais estão submetidas/os por conta do
registro civil não espelhar sua “verdadeira identidade”).

Certidões dos Ofícios de Registro de Distribuição

As certidões emitidas pelos Ofícios de Registro de Distribuição certificam a existência


ou não de registros de atos, documentos e títulos em nome de alguém na cidade do Rio de
Janeiro, como por exemplo, a existência de processos criminais e dívidas. Como demonstrado
no capítulo anterior, o objetivo de tais certidões é comprovar a ausência de “pendências
87
judiciais”, uma vez que essa é uma condição indispensável para que a demanda por
requalificação civil possa ser julgada procedente.
Os documentos dos 1º, 2º, 3º, 4º e 6º Ofícios atestam que “nada consta” em um período
de 20 anos anteriores a data de solicitação. As certidões emitidas pelos 5º, 7º e 8º Ofícios se
referem a períodos de cinco anos. O documento emitido pelo 9º Ofício, a princípio, também
investiga a existência de registros em um período de 20 anos, exceto por duas questões
específicas que implicam períodos distintos: Indisponibilidade de bens, arrestos, sequestros,
intervenção e liquidação extrajudicial de instituições financeiras pelo Banco Central do Brasil
ou Ministério da Fazenda e outras determinações comunicadas pela Corregedoria Geral da
Justiça (Lei 6.024/197449); e Ações nos Juizados Especiais Fazendários (Ato Executivo nº
6340/201050 do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro).
Existe uma discrepância entre aquilo que consta nos ofícios de encaminhamento do
NUDIVERSIS e os assuntos investigados pelos ORD que são mencionados nas certidões.
Enquanto as profissionais da Defensoria Pública solicitam certidões apenas sobre algumas
matérias que são consideradas relevantes para o processo de alteração do registro civil – as
quais estão disponíveis na tabela apresentada no capítulo dois –, os funcionários dos Ofícios
emitem documentos acerca de todas as questões que são responsabilidades da instituição. Tal
disparidade não parece representar um problema no âmbito do núcleo. Pelo contrário, tendo em
vista a economia de provas à qual as/os assistidas/os estão submetidas/os – que pode ser
compreendida, grosso modo, como “quanto mais melhor” –, tais certidões, no modo como são
escritas, possuem um imenso valor. Ao elencar uma gama de assuntos, ainda que
completamente dispensáveis em um processo de requalificação civil, tais documentos
produzem e reforçam uma imagem de “sujeito idôneo” que é merecedor de direitos, como será
abordado mais adiante.

Fotografias

Logo no primeiro atendimento, as/os assistidas/os são informadas/os que precisam


entregar fotografias de si, em tamanho 10x15, reveladas em papel fotográfico. A quantidade de

49
A Lei 6.024/1974 dispõe sobre as condições de possibilidade de falência ou de intervenção e liquidação
extrajudicial em instituições financeiras e cooperativas de crédito privadas e públicas não federais.
50
O Ato Executivo 6340/2010 disciplina a criação dos I, II e III Juizados Especiais de Fazenda Pública da cidade
do Rio de Janeiro.

88
fotos não é especificada, mas, durante a entrevista realizada no primeiro atendimento, as
estagiárias sugerem, informalmente, um mínimo de quatro ou cinco retratos. As fotos ficam nas
pastas das/os assistidas/os até que a petição inicial seja elaborada, quando estas são então
anexadas à ação – junto com as cópias dos documentos de identificação, a lista de testemunhas,
o estudo social e as certidões dos ORD.
Como se pode imaginar, não é qualquer tipo de fotografia que pode ser entregue ao
núcleo e, consequentemente, utilizada no processo de modificação do registro civil. Existem
certas exigências que são passadas às/aos assistidas/os, dentre as quais estão: 1) a/o assistida/o
não deve estar sozinha/o nas fotos; 2) as fotografias devem retratar a/o assistida/o em locais
públicos; 3) é preciso que a foto retrate a “verdadeira identidade” de gênero da pessoa, ou seja,
é preciso que esta esteja utilizando roupas, acessórios, cortes de cabelo, etc. típicos do gênero
com o qual se identifica. Esta última é a principal condição para que a foto seja aceita pelas
profissionais do NUDIVERSIS e a única que, se não cumprida, implica a rejeição da fotografia.
Não é incomum que as/os assistidas/os perguntem sobre a utilidade das fotos e até
mesmo questionem tal obrigação. Diante disso, as estagiárias explicam que estas fotos se fazem
necessárias para comprovar que a/o autora/or da ação se trata de uma/um “verdadeira/o
transexual”, e não alguém que pretende utilizar o recurso à requalificação civil para “fugir de
algum crime”. Em outras palavras, tais fotografias, supostamente, apresentam uma pessoa que
“realmente vive como uma mulher ou um homem” e é por isso que são exigidas como
comprovação de que o sujeito de fato se apresenta publicamente como alguém de um
determinado gênero.
Neste sentido, estas fotografias possuem a mesmas função que as certidões dos ORD e
o estudo social, isto é, afastar a constante suspeita de que as pessoas que desejam a alteração
do registro civil o fazem para fins moral e legalmente condenáveis, bem como comprovar a
transexualidade do indivíduo. Esta função se torna ainda mais evidente quando verificamos o
papel histórico das fotografias na identificação e controle social exercidos pelos registros
policiais. É por conta destas características que atribuo às fotografias o mesmo estatuto de
documento que os outros itens listados acima.

Um espelho da realidade? sobre o papel das provas e documentos na construção dos sujeitos

Parte da argumentação para que a demanda transexual seja julgada procedente


apresentada pelos operadores do Direito nas petições iniciais de requalificação civil se baseia
89
na função legal dos documentos de registro civil de “refletir a realidade”. Assim, defende-se
que, uma vez que a pessoa se apresenta por um nome e possui a “aparência” do sexo oposto ao
que consta no registro, estes devem ser “corrigidos” para que cumpram corretamente sua
função, como podemos perceber no trecho aqui reproduzido:

O Presidente da Câmara e relator do recurso, Desembargador [nome], votou pelo


provimento do apelo do requerente destacando-se na motivação do voto as ponderações
sobre o alcance do registro civil de uma pessoa e se deve o mesmo refletir uma realidade
apenas biológica. O fato é que, na sua forma exterior, na sua aparência e em confronto
com essa aparência, o registro civil do apelante não reflete a realidade. Por não refletir a
realidade é que ele incute terceiros em erro, que abalam o equilíbrio jurídico. Na lúcida
visão do relator, a indução de terceiros em erro não ocorreria em virtude da redesignação
do assento de nascimento, que revelaria o transexual operado como mulher, mas sim o
oposto. (Modelo de petição inicial, grifos meus)

Nesta subseção pretendo problematizar a premissa de que um documento deve ser


“espelho da realidade” através da sua inversão. Ou seja, considero que, ao invés de descrever
ou refletir a realidade, tais documentos possuem a função de produzir, dar materialidade e
estabilizar a realidade ao classificar indivíduos em determinadas categorias, atestar
determinados aspectos, comprovar certas experiências etc. Tenho como pressuposto a já
abordada ideia de Vianna (2014) de “levar os documentos a sério” pelo seu potencial de
produzir mundos sociais. Neste sentido, busco demonstrar como estas certidões, relatórios,
laudos, atestados, fotografias etc. funcionam para materializar os sujeitos nos processos
judiciais e quais relações de poder perpassam a produção dos mesmos.
Os documentos que constam na lista descrita na subseção anterior são exigidos para que
a ação de requalificação civil seja instaurada. Segundo um discurso diversas vezes reiterado
pelas funcionárias da Defensoria Pública, estes servem para comprovar – e neste processo
sedimentar determinadas “verdades” – uma série de coisas: a transexualidade, a condição de
sofrimento, a identidade de gênero e, principalmente, a legitimidade da demanda pela
modificação do registro civil. Conforme já salientado na introdução, tais exigências são fruto
da dimensão normativa e legal na qual os pedidos de alteração do registro civil são feitos, isto
é, a inexistência de uma lei de identidade de gênero que padronize os procedimentos e permita
que o processo possa ser “simplificado”.
A necessidade de apresentação de provas está ligada à prerrogativa do poder Judiciário
de julgar objetiva e imparcialmente qualquer assunto que lhe seja apresentado. De acordo com
Weber (1999, p. 14), o Direito Objetivo possui um caráter formal, dada sua composição por

90
disposições jurídicas, e seu desenvolvimento está ligado ao surgimento de um modo de governo
marcadamente burocrático. Em outras palavras, este formalismo jurídico é consequência de um
Direito que prevê uma suposta racionalidade administrativa. Neste sentido, as decisões judicias
do Direito moderno são tomadas com base em um processo formal e em determinadas “provas
racionais e objetivas”: documentos, testemunhas, dentre outras.
Além disso, as provas se fazem necessárias na medida em que impera uma lógica da
suspeição na administração pública, isto é, existe uma presunção de culpa que implica a adoção
de uma série de procedimentos que visam comprovar a inocência de quem se põe sob o
escrutínio do Estado. Para Miranda (2012), a imprescindibilidade das provas está ligada a uma
“longa tradição do Estado brasileiro, a de se colocar num legalismo formalístico caracterizado
pela necessidade de documentos com fé pública, em que cabe ao cidadão provar quem é, o que
faz e quais suas intenções” (p. 280). Nos casos do processo de requalificação civil administrados
pela Defensoria Pública, tal lógica de suspeição se torna evidente quando as profissionais do
NUDIVERSIS afirmam que boa parte dos documentos requisitados funcionam como provas
para afastar a constante suspeita de que as pessoas solicitam a alteração do registro civil para
escapar do julgamento e/ou condenação por conta de algum crime, dívida etc.
Assim, a noção de prova está intimamente conectada com a ideia de verdade, pois sua
função é, obviamente, provar a veracidade de uma dada afirmação. O ato de provar nada mais
é que atestar, confirmar, comprovar, certificar a autenticidade de um fato ou alegação. Ou ainda,
provar não é senão que uma forma de demonstrar a realidade. Verdade e realidade podem então
ser compreendidas como noções inseparáveis e quase indistinguíveis, sinônimas. Se algo é
considerado como verdadeiro, ele é imediatamente encarado como real e vice-versa.
No campo do Direito, o jurista Moacyr Amaral Santos (1994) conceitua a prova
judiciária como “a verdade resultante das manifestações dos elementos probatórios, decorrente
do exame, da estimação e ponderação desses elementos; é a verdade que nasce da avaliação,
pelo juiz, dos elementos probatórios” (p. 11). Esta pequena citação oferece uma pista para
pensarmos nas complexas relações que se estabelecem entre autoridade, poder, verdade e
realidade. Por ora, preocupo-me em discutir os três últimos elementos – isto é, poder51, verdade
e realidade –, deixando a inclusão da questão da autoridade para a próxima subseção.
Se os documentos são considerados provas e as provas criam a realidade, passo então
para a discussão da capacidade do campo jurídico de regular, moldar, produzir, mediar, manter

51
Enfatizo que a concepção de poder utilizada neste trabalho é de inspiração foucaultiana. Neste sentido, o poder
não é algo dado a priori, mas sim permanentemente constituído nas relações.

91
etc. as relações, os conflitos, os laços e os mundos sociais. Proponho que pensemos nos
procedimentos de assistência às pessoas transexuais executados pelas profissionais que atuam
no NUDIVERSIS e no processo de fabricação de provas documentais a partir de chaves
analíticas propostas por três autores que refletem sobre os modos pelos quais o Direito adquire
o poder de produção da realidade52: Foucault, Bourdieu e Boltanski.
Em A Verdade e as Formas Jurídicas, Foucault (1973) demonstra como as práticas
sociais de controle e vigilância – como por exemplo, o “inquérito”, o “exame”, a apresentação
de “provas” –, as quais se tornaram algumas das principais “práticas jurídicas”, fundamentaram
a construção de um determinado campo do conhecimento: o Direito. Este domínio do saber está
intrinsecamente conectado aos modos de produção da verdade, sendo o “efeito de verdade”
garantido pela rede de relações de poder na qual o discurso é enunciado. Um dos efeitos de
verdade mais significativos do discurso jurídico é sua capacidade de fabricar sujeitos que ele
alega apenas representar (Foucault, 1988). Em outras palavras, o autor evidencia como a
linguagem jurídica é capaz de construir e estabilizar determinadas coisas como “verdades
indiscutíveis”.
A linguagem jurídica também é um dos temas de interesse de Bourdieu (1989). Como
mencionado no primeiro capítulo, para o autor, a “força do Direito” se encontra no seu potencial
de não apenas descrever a realidade, mas sim produzi-la efetivamente. Tal força está ancorada
no monopólio do exercício da violência simbólica. A partir deste poder simbólico são criados
documentos que, em última instância, produzem verdades e a própria realidade em si. Se para
Foucault a estabilização da verdade é conseguida através de uma suposta representação dos
indivíduos, para Bourdieu este efeito é fruto do apagamento das condições sociais da criação
dos documentos probatórios, ou seja, das relações de poder que condicionam a sua produção.
Boltanski (1990), por sua vez, pensa a tensão que perpassa a construção da realidade a
partir de outra perspectiva. De acordo com o autor – que é um dos representantes de uma
corrente denominada sociologia da crítica53 –, a realidade é um espaço crítico por excelência,
sujeito à disputas por definições de mundos alternativos. Boltanski toma por objeto a construção
de denúncias públicas na busca por justiça, de modo que os conflitos contidos nas tentativas de

52
Ressalto que o poder de produção da realidade não é exclusivo do Direito. Como Foucault demonstra, a criação
de diversos aparelhos de Estado fraciona, capilariza e faz circular os efeitos de poder (1979, p. 8). Mais adiante,
poderemos ver como os outros profissionais também detêm de uma parte desse poder de construção da realidade.
53
A sociologia da crítica surge como um contraponto à sociologia crítica. De acordo com Boltanski (1990), a
sociologia crítica não leva em conta a capacidade crítica dos atores sociais. Para o autor, as sociedades
contemporâneas são “críticas”, pois todos os atores dispõem, em alguma medida, de uma capacidade reflexiva. É
neste sentido que Boltanski descreve uma passagem da sociologia crítica para a sociologia da crítica.

92
constituição da “verdade dos casos” se tornam mais evidentes. A transformação de um “caso”
em uma “causa”, ou seja, a coletivização de um mal individual, depende da competência do
sujeito em produzir a plausibilidade da denúncia e, portanto, a “verdade do caso”.
Uma das preocupações de Boltanski são as condições de produção de enunciados que
são tidos como verdadeiros. Deste modo, o autor apresenta a construção da realidade como algo
que não está dado, pois existe um espaço de negociação no qual os atores disputam pelo
estabelecimento da “verdade”. Entretanto, ele não ignora que tais condições são marcadas por
desigualdades. É introduzida então a noção de magnitude dos sujeitos para compreender os
quadros nos quais as denúncias são construídas. Há uma multiplicidade de magnitudes possíveis
e é a equivalência entre tais magnitudes que conformam determinados ideias de justiça e formas
de justificação, o que, em última instância, aponta para um reconhecimento da impossibilidade
da efetivação da igualdade plena.
Segundo o autor, um dos principais elementos que garantem a eficácia da denúncia é a
apresentação de provas. As provas adquirem validez a partir do regime de justificação nas quais
estão inseridas. Uma vez que o regime de justificação encontra-se ligado à magnitude de
alguém, “a execução da justiça pode, portanto, ser comparada à realização de uma disposição
justificável de pessoas e coisas”54 (Boltanski, 1990, p. 93, tradução livre). Assim, a busca por
algo que é visto pelo sujeito como “justo” – no caso das pessoas transexuais, a aquisição de
documentos que melhor expressam suas identificações – implica “pôr-se à prova”, isto é, se
submeter ao escrutínio de terceiros que avaliarão a legitimidade de tal demanda.
É a partir deste referencial teórico que busco desconstruir a premissa de que os
documentos devem representar ou refletir a realidade, apresentada nas petições iniciais como
uma argumentação dos operadores do Direito em favor da requalificação civil. Defendo que
estes documentos exercem um papel fundamental no processo de construção de verdades e,
consequentemente, da realidade.
O primeiro documento que precisa ser analisado é o Relatório de Primeiro Atendimento.
Conforme já apontado no capítulo anterior, é este relatório que materializa os sujeitos,
transformando-os em assistidas/os do NUDIVERSIS. O campo “resumo do caso” cristaliza não
apenas as trajetórias das pessoas, mas também suas demandas e anseios. Reproduzo aqui dois
destes relatórios para ilustrar o modo pelo qual tais indivíduos são construídos a partir da ênfase
em determinados episódios de suas biografias.

54
No original: “La ejecución de la justicia puede asimilarse con ello a la realización de uma disposición justifícable
de personas y cosas” (Boltanski, 1990, p. 93).

93
Trata-se de resignação de nome. A assistida foi encaminhada pela Superintendência de
Direitos Individuais, Coletivos e Difusos da SEASDH. A assistida se identificou desde a
infância como diferente das outras crianças do seu convívio social. Segundo a mesma, não
se interessava pelas mesmas brincadeiras dos meninos, se identificando com as meninas.
Aos 19 anos assumiu a transexualidade para a família passando a se vestir como mulher
dentro e fora de casa e assumindo seu nome social, pelo qual se apresenta e é conhecida
por seus amigos e familiares. Afirma que obteve apoio de seu pai e de uma de suas irmãs.
No entanto, o mesmo não ocorreu com sua mãe, a qual, por ser muito religiosa, não soube
lidar com a situação.
Aos 23 anos começou a tomar hormônios femininos por conta própria, porém interrompeu
a ingestão dos mesmos devido a efeitos colaterais, procurando orientação médica no HUPE,
onde é acompanhada atualmente, apresentando interesse na cirurgia de readequação sexual.
A assistida apresenta como principal motivação para a mudança de prenome a possibilidade
de plena convivência social, livre de preconceitos e das situações vexatórias pelas quais é
submetida devido a atual discrepância entre a sua identificação física de gênero e o prenome
constante do seu registro. (Relatório de primeiro atendimento de Larissa)

Nasceu no Rio de Janeiro, desde pequena se identificara com o universo feminino. Por
volta de seus 7/8 anos, os próprios colegas de classe se questionavam sobre o gênero de
Elisa. Por volta dos 12/13 anos seus seios começaram a se desenvolver e com 15 anos
passou a vestir-se de forma feminina na escola e foi introduzindo essas vestimentas em casa
e seus pais foram aceitando bem.
Iniciou a faculdade de Direito [em uma universidade particular], cursando até o 4º período.
Elisa não concluiu a faculdade porque ficou desacreditada de conseguir um emprego devido
a sua identidade de gênero. O mesmo aconteceu com a faculdade de Geografia, a qual
cursou até o 4º período, sem concluir pelos mesmos motivos.
Ela sempre se reconheceu como mulher, nunca como homossexual, no entanto não
conhecia a transexualidade. Aos 18 anos Elisa passou a se vestir integralmente de forma
feminina. Atualmente ela trabalha em [nome da instituição] confeccionando fantasias e
durante o final de semana apresenta-se numa peça, na qual é voluntária.
Em 2010 começou o acompanhamento no HUPE, encaminhada pelo posto de saúde, o qual
a encaminhou para o programa de transgêneros, para acompanhamento endocrinológico.
Foi no HUPE que conheceu o transexualismo, pois se identificava como mulher, mas não
sabia “o que era”. Antes do HUPE nunca havia tomado hormônios. (Relatório de primeiro
atendimento de Elisa)

Outros documentos que constroem a realidade dos sujeitos são os laudos, atestados e
declarações emitidos por profissionais da Medicina, principalmente psiquiatras. É a partir
destes papéis que as/os assistidas/os conseguem comprovar a transexualidade, condição
fundamental para o acesso ao direito à requalificação civil, como já abordado anteriormente.
Entretanto, apesar do caráter “patologizante” que os laudos e atestados carregam, estes
documentos frequentemente funcionam como os únicos “passaportes” que permitem que
pessoas transexuais consigam obter sucesso em atividades cotidianas como, por exemplo,

94
realizar operações bancárias em que o documento de identificação é solicitado ou até mesmo
viajar para fora do estado ou país. Tendo em vista que muitas vezes ao apresentarem seus
documentos de identidade, as pessoas transexuais têm a veracidade dos mesmos questionada,
de modo que a apresentação de um laudo de “disforia de gênero” pode ser um caminho para
evitar maiores transtornos e constrangimentos55.

Levo ao conhecimento deste serviço que a paciente [nome de registro] (nome social: xxxx),
registro geral no HUPE nº xxxx apresenta as condições previstas na Resolução nº 1.958 de
12 de agosto de 2010 do Conselho Federal de Medicina, publicada no Diário Oficial da
União em 03 de setembro de 2010, que dispõe sobre cirurgia de transgenitalização, ou seja:
a) tem o diagnóstico médico de transexualismo;
b) apresenta desconforto com o sexo anatômico natural;
c) exibe o desejo expresso de eliminar os genitais, perder as características primárias e
secundárias do próprio sexo e ganhar as do sexo oposto;
d) o distúrbio permanece de forma contínua e consistente por mais de dois anos;
e) há ausência de outros transtornos mentais. (Encaminhamento interno do setor de perícia
psiquiátrica para a unidade de urologia reconstrutora do HUPE)

Declaro, para fins judiciários, que [nome de registro] (nome social: xxxx) está em
acompanhamento neste serviço com vista à futura cirurgia de transgenitalização por
apresentar transexualismo. (Declaração psiquiátrica do HUPE)

Do mesmo modo que os Relatórios de Primeiro Atendimento, os laudos e relatórios de


assistentes sociais que atuam junto às equipes que compõem programas transexualizadores
(IEDE e HUPE), nos programas governamentais atendimento à população LGBT (CEDS e
RSH) ou na DPGE-RJ também sedimentam certas verdades sobre a trajetória das/os
assistidas/os. Entretanto, o foco destes documentos é apresentar, por um lado, as condições
socioeconômicas nas quais as pessoas vivem (composição familiar, fontes de renda, condições
de habitação, etc.); e, por outro, as formas pelas quais elas exercem ou não a cidadania. Além
disso, estes também podem apresentar algumas recomendações, mais ou menos explícitas,
direcionadas aos operadores do Direito, no sentido de defender a legitimidade do direito à
alteração do registro civil.

A usuária [nome social], sob o nome de registro [xxxx], prontuário nº xxxx, é acompanhada
por equipe multiprofissional (médicos urologistas, psiquiatra, serviço social e psicologia)
do Hospital Universitário Pedro Ernesto, responsáveis pelo processo transexualizador no
Estado do Rio de Janeiro. [...] A equipe de Serviço Social do programa em questão assiste

55
Agradeço ao professor Guilherme Almeida por, na ocasião da defesa desta dissertação, sugerir que eu olhasse
para estes laudos como “passaportes” que legitimam as pessoas transexuais a se moverem mais livremente pelos
espaços.

95
a usuária durante todo o seu acompanhamento, tendo por base a portaria 457 de 19 de
agosto de 2008 que define as Diretrizes Nacionais para o processo transexualizador no
Sistema Único de Saúde e a portaria 1.707 do Ministério da Saúde de 18 de agosto de 2008
que institui o processo transexualizador no âmbito do SUS, entende que é necessária e
urgente a retificação de seu nome de registro, buscando interromper o intenso, continuo e
sistemático processo de constrangimento que vem lhe impedindo o livre acesso aos direitos
básicos da cidadania. (Laudo social do HUPE).

Deseja ser reconhecida enquanto cidadã, participar da vida em sociedade como qualquer
outra pessoa e não ser alijada. [...] Diante do exposto, percebeu-se que a usuária desde a
sua adolescência luta por seu reconhecimento enquanto uma mulher e a retificação do nome
significa o exercício da cidadania, o qual a usuária tem direito. (Relatório social do RSH).

Os laudos, relatórios e atestados propiciados por psicólogos, os quais podem ser


oriundos das mesmas variadas instituições nas quais atuam os assistentes sociais, avaliam o
estado mental dos indivíduos e, ainda mais importante, atestam tanto o desejo quanto o
consentimento da/os assistida/o em relação aos efeitos não só das transformações corporais,
mas também da requalificação civil. Assim como os laudos sociais, estes documentos também
podem trazer recomendações em favor da requalificação civil. Contudo, as recomendações, por
vezes, não se limitam aos operadores do Direito, direcionando-se também às/aos assistidas/os,
como podemos ver em um dos exemplos a seguir:

A usuária apresenta discurso coerente e é ciente de todas as implicações decorrentes da


retificação de nome. Em face ao exposto, solicito gentilmente que tais questões sejam
levadas em consideração e que o referido seja retificado para que [nome da usuária] possa
ter o resgate de sua autoestima e melhoria em sua qualidade de vida. (Relatório psicológico
do RSH)

Atesto para os devidos fins que [nome de registro] (nome social: xxxx), prontuário nº xxxx
encontra-se em acompanhamento psicológico regular ambulatorial especializado neste
serviço, a fim de obter o Laudo de Disforia de Gênero (CID F64.0), para posteriormente
submeter-se a cirurgia para transgenitalização. (Atestado de acompanhamento psicológico
do HUPE)

Finalizando, caso deferidas as recomendações, é prudente que a entrevistada seja


encaminhada a um tratamento psicoterápico individual, a fim de conhecer e entender
melhor as dificuldades, emoções e constrangimentos que possam advir dessa etapa da
transformação. Recomendação que foi acatada pela assistida. (Relatório psicológico da
DPGE-RJ)

Os outros documentos que compõem as pastas das/os assistidas/os não podem ser aqui
reproduzidos por algumas razões. A lista de testemunhas e as fotografias são compostas,
96
respectivamente, por nomes de pessoas e imagens das/os assistidas/os com amigos, familiares
etc. e por isso, evidentemente, não podem ser expostas. Já as certidões dos ORD, apesar de não
conterem nenhuma informação pessoal que não possa ser omitida, trazem uma grande
quantidade de tópicos56 analisados pelos funcionários, o que tornaria a leitura maçante. Limito-
me então a dizer que estes documentos atestam a inexistência de pendências judiciais no nome
de registro da/o assistida/o.
Em suma, é a partir de um diagnóstico, de uma assinatura e de um carimbo em um
relatório, um laudo, um atestado, uma certidão, etc. que as pessoas deixam de ser simplesmente
pessoas e tornam-se portadores de uma “disforia de gênero”, vítimas de discriminação, sujeitos
sem pendências judiciais, assistidas/os da Defensoria Pública. Em outras palavras, estes papéis
não refletem a realidade, mas a cria ativamente através de inscrições, ou seja, atos que
produzem coisas que não estavam lá anteriormente ao mesmo tempo em que fixam e
estabilizam os sentidos e significados atribuídos à determinadas experiências.

Das pessoas que fazem documentos: entre assinaturas e carimbos, ou o papel da autoridade
na produção da verdade

[...] já para as transexuais o caminho é mais fácil, acaba sendo mais fácil porque juiz gosta
de laudo, de documento, de atestado, de papel. Aí tem um psicólogo, um psiquiatra, um
urologista, um monte de profissional que faz um documento dizendo que é transexual, que
quer fazer cirurgia, eles acham ótimo e com isso eles dizem “ah, então pode mudar o nome”
porque é transexual. Se eu falar que é travesti eles não vão falar que a travesti pode mudar
o nome, então eu tento o máximo possível associar as duas situações, não diferenciar muito
que é para não parecer para o juiz que é uma coisa muito diferente. (Defensora Pública,
grifos meus)

Apesar de tratar de forma mais ou menos genérica os diversos tipos de papel localizados
nas pastas das/os assistidas/os do NUDIVERSIS ao nomear todos como “documentos”, saliento
aqui que é preciso distinguir o “peso” ou “valor” de cada um destes, uma vez que possuem
propriedades de verdade distintas entre si. Isto é, estes documentos atestam verdades sobre
diferentes aspectos da vida dos sujeitos, os quais, de acordo com a economia de provas que
cerca o processo de requalificação civil, são considerados mais importantes que outros.

56
Reitero que a lista completa dos assuntos mencionados nestas certidões se encontra nos anexos deste trabalho.

97
Busco, então, demonstrar aqui como os documentos são diferentemente valorados e
hierarquizados nos pedidos de requalificação civil de pessoas transexuais, ainda que todos
sejam classificados como indispensáveis pelas funcionárias do núcleo. Como é possível
perceber a partir da fala da Defensora Pública, aqueles papéis que possuem assinaturas e
carimbos – isto é, que são certificados por alguma autoridade competente, detentora de um
saber característico – ocupam uma posição de maior prestígio que aqueles que são produzidos
pelas/os próprias/os assistidas/os, como as fotos e a lista de testemunhas.
É neste sentido que inverto o enunciado que dá título à esta seção: de “documentos que
fazem pessoas” para “pessoas que fazem documentos”. Logo, minha preocupação aqui é menos
em como os documentos fabricam e sedimentam verdades sobre os sujeitos e mais em como
determinados indivíduos são consideradas como dotados do poder de produzir a verdade por
meio da escrita.
A discussão sobre autoridade e conhecimento tem como base a produção de Foucault
sobre as relações entre poder e saber. Uma das preocupações de Foucault foi investigar o
“estatuto de política da ciência e as funções ideológicas que podia veicular” (1979, p. 1), ou a
articulação entre as relações de poder e a produção de saberes. De acordo com o autor, “não há
relação de poder sem a constituição correlata de um campo do saber, nem saber que não suponha
e não constitua ao mesmo tempo relações de poder” (1997, p. 30).
Para Foucault as relações entre poder e saber remontam ao estabelecimento de um novo
regime do discurso, o qual implicou uma alteração nas formas pelas quais os enunciados são
tomados como cientificamente verdadeiros (1979). Neste sentido, o poder não é algo externo
que atua sobre a ciência, mas os próprios enunciados científicos fazem circular determinados
“efeitos de poder”. Se os enunciados científicos estão ligados a uma rede de poder e são
produtores e produtos da “verdade”, o intelectual precisa ser considerado como uma figura
evidentemente política. Diante deste novo regime do discurso, o intelectual se torna cada vez
mais “específico” e se aproxima da imagem de um “cientista-perito”: alguém chamado a utilizar
o conhecimento para atuar em certas lutas políticas.
Em Vigiar e Punir, Foucault (1997) tem por proposição a compreensão das
transformações dos métodos punitivos. O estabelecimento de uma punição é feito através de
um julgamento no qual se estabelece a verdade sobre um determinado fato, no caso, um crime.
Para que a verdade seja estabelecida, o juiz conta com o apoio de “cientistas-peritos” como
psiquiatras e psicólogos, multiplicando assim as instâncias anexas ao julgamento.
As ideias de Foucault dialogam com as proposições de outros autores sobre a temática
das relações entre poder, saber e produção da verdade. Além disso, estas serviram como ponto
98
de partida para outras investigações e vêm sendo apropriadas, problematizadas, criticadas e
atualizadas por inúmeros pesquisadores contemporâneos, ainda que, por vezes, não se faça
menção direta ao autor. Trago agora alguns exemplos de como estas questões têm aparecido
em trabalhos que abordam contextos distintos.
Bourdieu utiliza a expressão linguagem autorizada para dar conta da articulação entre
poder, autoridade, discurso e produção da verdade. De acordo com esta noção, o poder não se
encontra no discurso em si, mas está ancorado no reconhecimento e legitimação do sujeito que
pronuncia o discurso. Esta articulação pode ser encontrada, por exemplo, no campo do Direito.
Para o autor, não é qualquer pessoa que pode falar sobre “direitos”, pois as falas possuem
valores distintos e é preciso um domínio da linguagem utilizada (1989).
As ideias de Souza Lima (2002) sobre as formas pelas quais o Estado administra
determinadas populações também podem ser lidas a partir das lentes do poder-saber. De acordo
com o autor, a gestão de um dado grupo está associada a uma produção de saberes específicos
e articulados às questões que necessitam de regulação. Assim, as figuras-chave da gestão
pública são os especialistas: “produtores e portadores de certos saberes que se cristalizam em
setores da administração” (p. 11). Por um caminho diferente de Bourdieu, Souza Lima reflete
sobre uma questão muito semelhante: o papel da autoridade – concedida pela posse de um saber
– na produção da verdade.
A autoridade de determinados profissionais foi trabalhada também por Fassin e
Rechtman (2009) em sua pesquisa sobre a construção da noção de trauma. Os autores chamam
atenção para a necessidade da produção dos laudos por mediadores especialistas – no caso,
psiquiatras e psicólogos – para que se concretize a figura do indivíduo traumatizado. Estes
especialistas possuem o poder de escrutínio da verdade de um sofrimento que não é evidente,
pois não é localizável no corpo, mas sim na psique.
Detenho-me um pouco mais na obra de Fassin e Rechtman por conta das apropriações
possíveis para a análise do contexto do NUDIVERSIS. Como dito anteriormente, os psiquiatras
e psicólogos são aqueles que possuem o capital simbólico necessário para a transformação do
sofrimento em “direitos”. Esta metamorfose é efetivada através da inscrição e tradução do dano
sofrido pelo sujeito em um laudo que atesta o trauma. Entretanto, o reconhecimento do
sofrimento não implica uma relação imediata com um direito de reparação, existe uma margem
de incerteza que perpassa a politização do sofrimento.
Guardadas as devidas proporções, apresento as profissionais da Defensoria Pública
como mediadoras especialistas que efetuam uma espécie de “metatradução”. O primeiro
movimento de atribuição de significados é feito pelos psiquiatras, os quais transformam as
99
experiências dos sujeitos em uma patologia codificada – “disforia de gênero”, F64.0 – por meio
da emissão de um laudo, um papel devidamente assinado e carimbado. Concomitante ao
surgimento desta categoria nosológica aparece seu respectivo tratamento: a “terapia de
mudança de sexo”, a qual inclui, no plano das intervenções corporais, a ingestão de
determinados hormônios e uma série de cirurgias, sendo a mais importante a de
transgenitalização; e no plano jurídico, a alteração do nome e sexo no registro civil. Uma vez
de posse desses laudos, cabe às operadoras do Direito efetivar uma segunda transformação para
fazer com que as prescrições médicas se tornem compreensíveis na linguagem jurídica, criando,
neste processo, as pessoas transexuais como sujeitos de direitos específicos.
Como já mencionado várias vezes, os laudos, apesar de serem considerados os mais
importantes, não são os únicos documentos necessários para a instauração da ação de
requalificação civil, pois eles só podem atestar verdades sobre determinadas áreas da vida de
um indivíduo. Reitero então que psicólogos e psiquiatras são autorizados a falar somente sobre
as condições psíquicas de uma pessoa; endocrinologistas proporcionam atestados referentes
apenas à “vida hormonal” dos sujeitos; assistentes sociais descrevem a situação socioeconômica
na qual o indivíduo vive (fonte de renda, habitação etc.) e também as formas pelas quais ele
consegue ou não exercer a cidadania; tabeliões e funcionários dos ORD comprovam a
existência ou não de registros oficiais em nome da/o assistida/o; as testemunhas são chamadas
à comprovar a veracidade da biografia; e, por último, as fotos completam a constituição do
sujeito ao oferecerem uma imagem que servirá para ancorar todas as outras “verdades”.
Deste modo, é possível pensar como a “verdade” dos sujeitos – e no caso da
administração pública do direito à requalificação civil de pessoas transexuais o que está em
jogo é a “verdade da transexualidade” – se distribui por diversos aspectos: ela está na psique,
na corporalidade e na performatividade, como será discutido mais adiante. Considerando esta
distribuição, sugiro que os sujeitos dos quais estes papéis falam devem ser vistos como um
mosaico: uma imagem constituída por peças de diferentes tamanhos, mas que são
complementares, pois somente quando todas se encontram reunidas é que a figura se torna
evidente e pode ser percebida em sua totalidade. Contudo, não basta que todos os pedaços
estejam juntos, estes precisam estar corretamente dispostos e encaixados para que a imagem
não fique distorcida ou ambígua. Uma imagem que não seja suficientemente clara e coerente
abre espaço para dúvidas acerca de sua compreensão, uma vez que é possível ver coisas distintas
daquilo que era pretendido por quem a montou. A fabricação de uma imagem precisa das/os
assistidas/os será o assunto da próxima subseção.

100
Fabricando sujeitos idôneos: uma forma de “acessar direitos”

Foram abordadas até aqui duas ideias sobre os documentos: 1) seu potencial de
construção da realidade e não mera representação ou reflexo; 2) o papel de determinadas
autoridades profissionais, detentoras de saberes-poderes específicos, na produção dos
documentos e, consequentemente, da realidade. Além destes dois aspectos, é preciso salientar
que tais documentos não fabricam “qualquer verdade” sobre os sujeitos. Deste modo, passo
agora para a discussão de quais verdades são produzidas pelos ditos papéis. Uma vez que estes
estão inseridos em uma economia jurídico-moral que regula o “acesso aos direitos”, seu
principal objetivo é a produção da única figura legítima a pleitear as alterações do prenome e
sexo no registro civil: um sujeito idôneo que, por ser portador de um transtorno, configura-se
como uma vítima que precisa e merece ter seu sofrimento aliviado57.
Todos os documentos que compõem as pastas das/os assistidas/os – isto é, o Relatório
de Primeiro Atendimento, os laudos, a lista de testemunhas, as certidões dos ORD, o Estudo
Social e as fotografias – funcionam, em maior ou menor grau, como peças na fabricação da
idoneidade e do sofrimento da pessoa e da verdade sobre a transexualidade. De um modo mais
ou menos implícito, as estagiárias indicam que as testemunhas elencadas devem estar dispostas
a confirmar todas as informações contidas na petição inicial, que é basicamente a condição de
constante infortúnio da/o autora/or. O extenso período da vida da/o assistida/o que é submetido
à investigação – geralmente 20 anos – pelos Ofícios de Registro de Distribuição e a quantidade
de assuntos verificados sugerem que estas certidões não só comprovam a inexistência de
pendências judiciais, mas também fazem parte da construção da imagem de uma pessoa idônea,
merecedora dos direitos pleiteados.
Os limites das narrativas que podem ser registradas durante o primeiro atendimento
também apontam este aspecto. O já mencionado caso de Elisa, que gostaria de realizar a cirurgia
de transgenitalização para poder exercer sua sexualidade como, segundo ela, uma “mulher de
verdade”, exemplifica esta construção de um tipo de sujeito da política que seja legítimo. Neste
sentido, somente as experiências de sofrimento e martírio têm lugar nos relatórios de primeiro
atendimento; o prazer e o desejo sexual não soam como motivos possíveis de figurarem nas
petições iniciais escritas pelas profissionais do NUDIVERSIS. Como discutido no capítulo
anterior, os Relatórios de Primeiro Atendimento são caracterizados pela construção de

57
A questão da vitimização será discutida com maior atenção no próximo capítulo.

101
trajetórias marcadas pelo sofrimento e, por vezes, pela superação de obstáculos, como podemos
ver no seguinte exemplo:

A assistida era constantemente transferida de setor e sofria acusações infundadas, como,


por exemplo, um boato acerca de Selma ter assediado um rapaz e mãe desse rapaz ter
formulado uma queixa junto à administração da [empresa]. [...] Por fim, Selma cedeu à
pressão e pediu demissão. A partir daí Selma teve dificuldade em conseguir outro emprego,
devido a divergência entre seus documentos pessoais e sua aparência. Selma então mudou-
se para a casa de amigos, que a apoiaram e ajudaram-na a se requalificar no mercado de
trabalho. A assistida trabalhou como faxineira e cabelereira para manter seu sustento. [...]
Nem mesmo sua qualificação profissional venceu os obstáculos empregatícios impostos
por sua aparência feminina e Selma continuou desempregada. Seguindo o conselho de seus
“irmãos”, Selma decidiu prestar concurso público. A assistida foi bem sucedida em sua
empreitada e foi aprovada no concurso para [cargo e instituição]. Após tomar posse, foi
aprovada também no concurso de [cargo e instituição], optando por esse último. (Relatório
de Primeiro Atendimento de Selma)

Os laudos dos psiquiatras e psicólogos atestam o desconforto do indivíduo em relação


ao seu próprio corpo, enquanto os assistentes sociais comprovam como a vida social das/os
assistidas/os é marcada por experiências de constrangimento e discriminação que geram
incessantes sofrimentos, demandando, assim, que algo seja feito por essas pessoas. Segue
alguns exemplos de laudos sociais:

É necessária e urgente a retificação de seu nome de registro, buscando interromper o


intenso, continuo e sistemático processo de constrangimento que vem lhe impedindo o livre
acesso aos direitos básicos da cidadania. (Laudo social do programa transexualizador do
HUPE).

Atualmente trabalha na empresa [nome], onde é necessário a utilização de seu nome para
todos os processos de intervenção, gerando assim situações de extremo constrangimento,
expondo a vida íntima da usuária. Tem sido utilizado o nome de registro em sua
apresentação na empresa. (Relatório social do RSH).

Os relatórios psicológico e social que compõem o Estudo Social avaliam a procedência


do pedido de requalificação civil na medida em que também reforçam esta visão das/os
assistidas/os como sujeitos a um incessante sofrimento psíquico e social causado pelos
episódios de constrangimento e discriminação. As fotografias, por sua vez, constatam não o
sofrimento ou a idoneidade, mas sim a vivência pública da identidade de gênero requerida.

102
3.2 Certificações do sexo e gênero: a produção de identificações a partir de documentos

Um dos aspectos mais relevantes da construção dos sujeitos através dos documentos, no
caso das pessoas transexuais, é uma espécie de “certificação do sexo e gênero” que estes papéis
conferem. Butler (2003) postula que não existe corpo sem sexo, pois esta é uma categoria
fundamental que confere inteligibilidade às figuras humanas. Apoio-me na ideia da autora e
afirmo que, no caso brasileiro, não existe cidadão sem sexo, pois o registro da
masculinidade/feminilidade dos sujeitos implica “direitos e deveres” em relação a uma
comunidade imaginada como “nacional” que são sexualmente diferenciados, como por
exemplo, a obrigatoriedade do alistamento militar e a idade mínima para aposentadoria
convencional. Assim, esta seção se concentra em observar os modos pelos quais o conjunto de
documentos presentes nas pastas das/os assistidas/os produzem sujeitos sexuados e
generificados.

Atestando o sexo e gênero: dos documentos que produzem sujeitos generificados

Com exceção das certidões dos ORD e dos documentos de identificação civil –
justamente os que necessitam de alteração – todos os papéis envolvidos nas ações de
requalificação civil contribuem, cada um ao seu modo, para a produção de um sujeito
generificado. Como discutido na seção anterior, estes documentos possuem a capacidade de
atestar verdades sobre diferentes aspectos da vida dos indivíduos e o mesmo se repete quando
os observamos com lentes do sexo e gênero. Em outras palavras, estes papéis falam sobre o
sexo e o gênero a partir de distintos lugares e de diversas formas e é este ato de falar sobre que
produz a verdade sobre o sexo e o gênero das/os assistidas/os.
Os Relatórios de Primeiro Atendimento constroem biografias marcadas por sentimentos
de desconforto em relação ao próprio corpo e à identidade de gênero que era atribuída à/ao
assistida/o. Deste modo, todos estes papéis mostram como as pessoas não se identificavam com
o sexo imputado e/ou se identificavam como alguém do sexo oposto desde a infância,
produzindo assim uma trajetória coerente que culmina no diagnóstico da transexualidade e na
demanda pela alteração de prenome e sexo no registro civil. Esta identificação é fabricada
através de narrativas sobre escolhas de roupas, cortes de cabelo, preferência por determinadas
brincadeiras ou por colegas do sexo oposto, entre outras coisas.

103
Desde sua infância, Selma se identificava com o gênero feminino e usava maquiagem da
avó e convencia sua mãe a não lhe obrigar a cortar o cabelo, para manter sua aparência
mais feminina. Aos 18 anos iniciou, por conta própria, o uso de medicamentos hormonais.
A assistida se lembra de sempre se apresentar como Selma, mesmo enquanto criança.
Por possuir curso técnico de auxiliar de enfermagem, Selma foi convocada a servir o
Exército. Selma foi alocada na área médica do quartel e não praticava as atividades do
quartel, tais como treinamentos físicos e vigília. Por servir ao lado de oficiais médicos, não
sofreu repreensões, mas ainda assim foi submetida a constrangimentos, como olhares e
comentários pejorativos por parte dos demais soldados. (Relatório de Primeiro
Atendimento de Selma)

A assistida declara-se transexual, se identificando com os indivíduos do gênero feminino


desde tenra idade, preferindo comportar-se de forma feminina e realizar brincadeiras ditas
socialmente como de meninas, se assumindo gradualmente para seus familiares, com os
quais sempre manteve um bom relacionamento. (Relatório de Primeiro Atendimento de
Samanta)

Da mesma forma que os Relatórios de Primeiro Atendimento, os documentos assinados


por assistentes sociais também produzem biografias coesas sobre os caminhos que levam à
estabilização da identidade de gênero dos sujeitos, isto é, partindo de um momento inicial de
questionamento do próprio sexo, passando pela busca da compreensão dos desejos, preferências
e gostos experienciados e resultando em um processo de subjetivação58 através do diagnóstico
da transexualidade.

Aos 4 anos de idade se questionou sobre seu sexo. No entanto, sua família, evangélica,
fazia as orientações à usuária a partir de seu sexo biológico, omitindo sua transexualidade.
Aos 19 anos passou a se vestir como mulher e teve apoio de uma de suas irmãs e a aceitação
de seu pai. (Relatório Social do RSH)

[nome social da usuária] tem sexo biológico masculino, mas desde muito cedo sempre se
identificou com o sexo feminino. A usuária informa que iniciou o processo
transexualizador em 2005 e que este se tornou mais concreto após adquirir sua prótese de
silicone no ano passado. [...] Sendo assim, há anos que [nome de registro da usuária] não
existe mais. Na verdade, esta pessoa jamais existiu, sendo apenas consequência de uma
imposição da vida civil, que lhe impôs um sexo jurídico, o cárcere de sua identidade
feminina. (Relatório Social do RSH)

Os laudos, relatórios, declarações e atestados emitidos por psiquiatras e psicólogos


também certificam que, por um lado, a/o assistida/o vivencia, “pensa como”, “age de acordo

58
Os processos de subjetivação – ou seja, de atribuição de significados a determinadas experiências – propiciados
pelo diagnóstico da transexualidade já foram sinalizados no capítulo anterior, mas serão abordados na última seção
deste capítulo.

104
com” e “se identifica como pertencente” ao gênero que é oposto ao sexo que lhe foi atribuído
no momento de seu nascimento e posteriormente reiterado nos seus documentos de
identificação civil, condições imprescindíveis para que o diagnóstico da “disforia de gênero”
seja obtido. Por outro lado, tais documentos também afirmam que a/o assistida/o rejeita e nega
qualquer forma de identificação com o sexo atribuído.

Interação com a imagem feminina: [nome social da assistida] veste-se como mulher, age
como mulher, feminina e muito educada, possui um bom nível de aspiração com relação à
vida pessoal e profissional. (Relatório psicológico da DPGE-RJ)

Gostaria então de destacar dois aspectos sobre o conjunto de documentos descrito acima.
Primeiramente, em certa medida, todos eles realizam, através da escrita, a produção da
coerência dos sujeitos por meio do apagamento e silenciamento das ambiguidades,
contribuindo, assim, para a composição de um mosaico que só pode formar uma única imagem.
É este procedimento de fabricação da coerência que elimina qualquer possibilidade de dúvida
ou questionamento sobre a realidade da transexualidade – e também do gênero – da/o assistida/o
por parte dos juízes responsáveis pelo julgamento do pedido de requalificação civil.
Em segundo lugar, saliento como estes papéis – todos produzidos por alguém que faz
parte de uma dada categoria profissional – refletem a disseminação, circulação e articulação
entre duas teorias sobre a formação da identidade sexual: de um lado, é possível verificar a forte
presença de uma abordagem mais próxima a um dos modelos do construtivismo social (Vance,
1995), principalmente quando o que está em questão é o gênero; e de outro, há uma marca do
essencialismo, especialmente quando se fala sobre o sexo. Em linhas gerais, a abordagem
essencialista do sexo o compreende como algo que possui uma essência que é fixa e imutável,
designada não pelo homem, mas pela natureza. Já esta vertente construtivista social, oriunda
das críticas feministas datadas da década de 1970, opera uma separação entre sexo, que seria
biológico e, portanto, “natural”; e gênero, que seria as formas culturais pelas quais a diferença
sexual seria significada e, por conseguinte, “social”. Em outras palavras, o sexo seria uma
espécie de tábula rasa (natureza) sobre a qual o gênero (cultura) trabalharia para produzir a
distinção entre homens e mulheres. Nota-se, então, como este tipo de construtivismo carrega
em si algo do essencialismo, uma vez que o sexo é posto em um lugar de naturalidade e, como
consequência, é encarado anterior ao gênero.
A incorporação de ambas teorias se faz ver a partir das muitas passagens nas quais as/os
assistidas/os são descritos e caracterizados. Frases como “veste-se como mulher”, “age como
mulher”, “possui sexo biológico masculino, mas desde muito cedo identifica-se com o sexo

105
feminino”, entre outras, apontam tanto para uma concepção essencialista de sexo, baseada nos
discursos de saber da medicina e da biologia – ou seja, uma identificação da verdade do sexo a
partir dos órgãos genitais, do aparelho reprodutor, e/ou dos genes; quanto para uma concepção
construtivista do gênero, uma vez que é possível pertencer a um dado sexo biológico e ainda
assim vivenciar uma identidade sexual distinta do mesmo. Deste modo, o sexo aparece como
algo que é natural do indivíduo, dado desde a sua gestação e “confirmado” no momento de seu
nascimento; já o gênero parece ser um tipo de roupagem que reveste esse corpo natural,
atribuindo-lhe características masculinas ou femininas de acordo com os desejos e vontades dos
sujeitos.
Entretanto, ressalvo que é preciso estar atento para até que ponto o essencialismo está
de fato presente nestes documentos. Pois bem, se todos os procedimentos da “terapia de
mudança de sexo” trazem como promessa a transformação de homens em mulheres e vice-
versa, como o próprio título indica expressamente, é preciso questionar o quão essencialistas
são as visões destes profissionais, uma vez que ao defenderem esta “terapia”, desestabilizam a
fixidez do sexo, demonstrando como até mesmo este pode ser literalmente (re)construído; bem
como pensar sobre quais e como outras teorias se articulam em determinados campos do saber.
Em resumo, todos esses documentos fazem gênero a partir de uma linguagem escrita.
Contudo, as palavras não são suficientes para convencer os juízes do gênero da/o assistida/o e
assim fazer desaparecer qualquer dúvida sobre a intenção da/o autora/or da ação. É neste sentido
que as fotografias se fazem necessárias nos processos de requalificação civil, para oferecer uma
imagem concreta da identidade de gênero dos sujeitos. Passo agora para a essa discussão.

As provas visuais do gênero: as fotografias das assistidas

Conforme dito na seção anterior, as fotografias encontradas nas pastas das/os


assistidas/os – e que serão anexadas à petição inicial quando na conclusão dos serviços de
assistência prestados pelo NUDIVERSIS – oferecem, literalmente, imagens nas quais todas as
outras “verdades” sobre o sujeito podem ser ancoradas. De certo modo, as fotos reproduzem a
lógica do “teste de vida real” que é aplicado por psicólogos que acompanham as pessoas
transexuais durante o período mínimo de dois anos, tempo para que o laudo da disforia de
gênero seja emitido. Além disso, estas também funcionam como “provas visuais” da identidade
de gênero na medida em que cumprem a função de demonstrar para os juízes que os indivíduos
de fato vivem publicamente o gênero pleiteado.
106
Há uma média de oito fotografias por pasta, algumas com mais e outras com menos (o
mínimo solicitado pelas profissionais do núcleo é quatro ou cinco). As composições destas são
as mais variadas possíveis. Entretanto, é possível observar alguns pontos comuns entre elas59.
Em algumas fotos é possível ver a assistida em seu ambiente de trabalho (entre aquelas que
possuem algum tipo de emprego), seja exercendo suas atividades, seja conversando com
colegas, ou em outras situações.
Fotos com membros da família são também muito comuns – especialmente com
mulheres mais velhas, que podem ser mães, avós, tias etc. – e retratam alguns eventos familiares
como, por exemplo, festas de aniversários, de fim de ano e outras comemorações. Estas fotos
de família operam uma espécie de performatividade moral ao demonstrar que as autoras das
ações de requalificação civil se encontram inseridas em uma rede de relações familiares. Se
observadas em conjunto com o que é descrito nos relatórios de primeiro atendimento e no
Estudo Social, podemos perceber como a família não apenas presta um certo tipo de apoio às
pessoas transexuais, mas também “sofrem” junto a estas. Assim, a requalificação civil pode ser
construída pelas operadoras do Direito como um “benefício de largo alcance”, na medida em
que “corrige” não só a “incoerência” do sujeito transexual, mas também ajuda de alguma forma
os seus familiares.
Chama atenção o fato de a maioria das assistidas apresentarem fotos que retratam a força
da maternidade, ou seja, interagindo com bebês e/ou crianças em diferentes situações: dando
de mamar, brincando, passeando em parques, fazendo algum lanche ou refeição, etc. Apesar de
ser impossível afirmar com certeza qual o laço que une a assistida às crianças, em alguns casos
– aqueles em que tais crianças figuram nos Relatórios de Primeiro Atendimento – é justificável
deduzir que se tratam de sobrinhos, filhos de amigos, afilhados e enteados.
As fotografias com os parceiros também apareceram nas pastas das assistidas. Tais fotos
retratam majoritariamente apenas o casal, quase sempre abraçados ou muito próximos um do
outro, em diversas situações: em passeios por parques públicos, restaurantes, bares, shows,
entre outras. Assim, é possível visualizar como estas fotografias também (re)produzem imagens
morais que circundam o gênero, pois a “verdadeira mulher” é aquela que é mãe e esposa.

59
A construção deste tópico encontra-se, obviamente, limitada pelas fotografias disponíveis nas pastas das/os
assistidas/os do núcleo. Deste modo, destaco que pude analisar somente as fotografias apresentadas por mulheres
transexuais. Durante o trabalho de campo, pude acompanhar o atendimento de apenas dois homens transexuais.
Em um dos casos a petição inicial já havia sido distribuída e, portanto, as fotos já não se encontravam mais em
posse do núcleo. O outro caso, de Pedro, teve seu primeiro atendimento realizado durante a pesquisa. Até o fim
do trabalho de campo o assistido não havia entregado nenhuma fotografia.

107
Retomando a discussão sobre a fabricação de “sujeitos idôneos” que “merecem” acessar
determinados direitos, estas fotos não fazem qualquer mulher, mas “mulheres direitas”.
Como dito anteriormente, a performatividade é um dos aspectos que carrega a “verdade
da transexualidade”. Assim, as cores, os estilos de roupas, os cortes de cabelo, a utilização de
maquiagem, etc. também são característicos nas fotografias entregues por mulheres transexuais.
Neste sentido, a cor rosa, as estampas floridas, as saias, os vestidos, os sapatos de salto, as
bolsas, os cabelos tingidos e compridos, os batons e sombras coloridas, etc. aparecem em pelo
menos uma foto de cada uma das assistidas do NUDIVERSIS.
De certo modo, estas fotografias são o registro visual e impresso de atos performáticos
que constroem o gênero. Assim, proponho que estas fotos sejam encaradas em si mesmas como
objetos performativos, tendo em vista que possuem um poder próprio de materializar não
apenas os sujeitos mas também as relações que os constituem enquanto tal. A ideia de
performatividade aqui utilizada é uma apropriação da noção descrita por Butler. Para a autora,
“a performatividade deve ser compreendida não como um ‘ato’ singular ou deliberado, mas,
em vez disso, como a prática reiterativa e citacional pela qual o discurso produz os efeitos que
ele nomeia” (Butler, 1999, p. 154). Logo, mais do que retratar, estas fotografias funcionam
como elementos que produzem uma imagem determinada das pessoas.
Levando a sério o objetivo destas fotografias, é preciso atentar para o fato de que estas
não apenas produzem sujeitos, mas também materializam sujeitos generificados. E novamente
o aporte deste raciocínio pode ser encontrado na obra de Butler. A autora define a estabilização
do gênero como um processo decorrente da reiteração de atos performativos ou, em suas
próprias palavras como “a estilização repetida do corpo, um conjunto de atos repetidos no
interior de uma estrutura reguladora altamente rígida, a qual se cristaliza no tempo para produzir
a aparência de uma substância, de uma classe natural de ser” (Butler, 2003, p. 59).
A investigação empreendida por Teixeira (2013) sobre os processos judiciais de
alteração de nome e sexo no registro civil de pessoas transexuais também apresenta uma análise
dos conjuntos de fotografias dos sujeitos constantes dos autos processuais. De acordo com a
autora, estas fotografias “buscam cobrir, explicitar, dar a ver o retratado tendo como crença
central a certeza na ‘imparcialidade’ e na ‘verdade’ do registro fotográfico” (p. 126). Embora
esta crença também esteja presente no discurso que cerca a necessidade das fotografias no
NUDIVERSIS, há, ao menos, três diferenças entre os registros imagéticos que figuram nos
autos processuais da Promotoria de Brasília e os que se encontram nas pastas das/os
assistidas/os da Defensoria Pública Geral do Estado do Rio de Janeiro.

108
A primeira distinção se encontra em quem produz tais fotografias. No âmbito do núcleo
de diversidade sexual, as fotos são pedidas diretamente às/aos assistidas/os e cabem a elas/es a
realização de todo o processo de produção: o ato de fotografar, a escolha parcial das fotos que
vão constar na ação civil, a revelação e a entrega às funcionárias do NUDIVERSIS. No caso
das pessoas transexuais inscritas no Programa de Transgenitalização do Ministério Público de
Brasília, estas fotografias são solicitadas formalmente aos técnicos do Instituto Médico Legal
(IML) através de um documento de encaminhamento. São os profissionais da instituição os
responsáveis pela fabricação do registro visual das/os inscritas/os. Deste modo, as fotografias
produzidas pelos peritos do IML possuem um potencial de estabelecimento da
verdade/realidade que é muito distinto das fotos entregues pelas/os assistidas/os da Defensoria
Pública, uma vez que as primeiras são produto do investimento de um suposto saber feito por
uma autoridade competente.
A segunda diferença se dá no conteúdo retratado por estas fotos. Teixeira (2013)
descreve que são fotografadas as genitálias, os seios, as mãos, os pés, o rosto, etc., com a lente
da câmera muito próxima – ou com muito zoom – para que uma maior quantidade de detalhes
sobre os corpos dos sujeitos possa ser captada. Já as fotografias das/os assistidas/os do
NUDIVERSIS apresentam planos mais abertos, tendo como foco não os detalhes do corpo, mas
sim tudo aquilo que o cobre – roupas, cabelos, pelos e maquiagens – e os lugares por onde este
circula: os espaços públicos.
Seguindo as pistas da teoria construtivista que atravessa a construção das ações de
requalificação civil na Defensoria Pública, arrisco dizer que a terceira distinção, a qual conecta
a primeira e a segunda, se refere aos objetivos e significados que estas fotografias adquirem nos
dois contextos. Ao retratarem com riqueza de detalhes as mais diversas partes do corpo, os
técnicos do IML pretendem mostrar aos juízes e promotores uma verdade sobre o sexo dos
sujeitos, verdade esta que é determinada com base em critérios anatômicos definidos pelos
saberes médico-biológicos. Ao apresentarem as assistidas portando signos tidos como
femininos – cabelos longos, vestidos e saias, performances maternais, etc. – na companhia de
outras pessoas e em lugares públicos, as profissionais do núcleo pretendem demonstrar uma
verdade sobre o gênero dos sujeitos, o qual é legitimado socialmente. Em suma, a primeiras
operam um tipo de inspeção física do corpo, enquanto as últimas realizam uma verificação
social da identidade.

109
Onde está a verdade da identidade? as apropriações dos saberes nas petições iniciais de
requalificação civil

O registro civil, tal como está no original, induziria terceiros em erro, por revelar a estes
um homem, quando, na realidade, a constituição morfológica do indivíduo e toda a sua
aparência é de mulher. O registro mantido originalmente propicia constrangimentos
individuais e perplexidade no contexto social. Deve o mesmo, por tudo isso, ser corrigido,
a fim de garantir a paz jurídica. (Modelo de petição inicial)

O que a cirurgia [de transgenitalização] modifica são os órgãos sexuais, o sexo psicológico
e a identidade sexual não são alterados, não havendo nenhuma ameaça à ordem social.
(Modelo de petição inicial, grifos no original)

Conforme já demonstrado, a prerrogativa legal dos documentos de identificação civil de


“refletirem a realidade” aparece nas petições inicias elaboradas pelas profissionais do
NUDIVERSIS. Diante deste quadro, é fundamental que se ponham algumas perguntas: de qual
realidade está se falando? Quais são seus critérios de definição? Quando as operadoras do
Direito acionam tal atribuição como parte da argumentação que defende a legitimidade da
alteração do registro civil da/o assistida/o, afirma-se determinados lugares nos quais a verdade
sobre a identificação sexual do sujeito pode ser encontrada: na sua psique e na sua expressão
pública de gênero.
Como já abordado, os laudos, atestados, relatórios, etc. dos diversos profissionais que
contribuem para a construção da verdade do sujeito mesclam visões essencialistas e
construtivistas sobre sexo e gênero. Ao apresentarem certas “considerações sobre a identidade
sexual”, no modelo de petição inicial, as operadoras do Direito articulam teorias e
conhecimentos produzidos por representantes de diferentes campos do saber – e aqui estão
incluídos não somente psicólogos, psiquiatras, endocrinologistas, entre outros profissionais dos
ramos da saúde e da biologia, mas também reflexões produzidas por cientistas sociais – para a
construção de um raciocínio que opera uma distinção entre sexo e gênero. Neste sentido, o sexo
é tomado como algo que possui uma essência dada pela natureza, enquanto o gênero não passa
de uma espécie de construção cultural baseada na diferença sexual.

O saber médico, segundo ANTONIO CHAVES60, tem como verdade que a definição do sexo
no ser humano obedece a critérios estabelecidos: 1) pelo sexo genético que irá informar a

60
Antonio Chaves foi um jurista, professor e diretor da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).
Dentre suas interesses figurou o tema do “direito ao corpo” e as discussões sobre transexualidade, intersexualidade
e transplante de órgãos.

110
constituição cromossômica (XX ou XY); 2) pelo sexo gonadal que irá conduzir a formação
da estrutura morfológica das gônadas; 3) pelo sexo fenotípico, que respeita ao estado
hormonal e é responsável pela estrutura morfológica dos condutos genitais e dos genitais
externos. No entanto, além destes fatores, na formação da identidade sexual, o indivíduo
recebe inafastáveis influências psicológicas, socioculturais e ambientais que são, da mesma
forma, responsáveis pelo estabelecimento de seu sexo de criação e pelo seu comportamento
e identificação sexuais.
MIRIAM VENTURA61 vai além, ao analisar o que chama de caracteres funcionais do sexo,
elencando, assim, sexo cerebral, que se refere à possibilidade de se compreender a
diferença sexual a partir das diferenças de estrutura, ritmo e níveis químicos, identificados
nos cérebros femininos e masculinos; sexo psíquico, constituído por uma série de reações
psicológicas diferenciadas em razão do sexo biológico do indivíduo, frente a determinados
estímulos, que estaria diretamente ligado à conduta sexual da pessoa; sexo psicossocial,
entendido como aquele que resulta de interações genéticas, fisiológicas e psicológicas que
se formam dentro de uma determinada atmosfera sócio-cultural, cujo produto final será a
percepção do indivíduo de si mesmo, como homem ou mulher.
Destaque-se a definição de sexo psíquico, uma vez que a Resolução n.º 1.652/2002, do
Conselho Federal de Medicina, afirma que o propósito terapêutico da cirurgia de
transgenitalização é o de adequar a genitália ao sexo psíquico;
O termo gênero, igualmente, admite muitos significados. Para a antropologia é a forma
culturalmente elaborada que a diferença sexual toma em cada sociedade, e que se manifesta
nos papéis e status atribuídos a cada sexo e constitutivos da identidade sexual dos
indivíduos e, na biologia, expressa uma categoria taxonômica compreendida entre a família
e a espécie.
Introduzida pelos cientistas sociais a partir dos anos 60-70, a categoria gênero tem o
objetivo de evidenciar as determinações ou estereótipos do masculino e do feminino.
(Modelo de petição inicial, grifos no original)

A partir do fragmento recortado do modelo de petição inicial, nota-se que existe uma
disputa no interior do campo médico entre endocrinologistas, geneticistas e psiquiatras pela
definição do sexo. Segundo o discurso apresentado nestas petições, a verdade sobre o sexo se
encontra não nas genitálias, nos órgãos reprodutores ou nos genes, mas sim na mente dos
sujeitos. É neste sentido que busco problematizar até que ponto uma visão essencialista se faz
presente nestes processos, ou melhor, como o essencialismo é apropriado por estas
profissionais. A partir desta argumentação, podemos dizer que há algo de essencial no sexo,
mas tal essência não é mais localizável no corpo, como proposto originalmente pela teoria
essencialista, mas sim na mente. O corpo, que já não é mais imutável, deve passar por
intervenções de diversos tipos – cirúrgicas, hormonais etc. – para se adequar ao verdadeiro sexo
da/o assistida/o: o psíquico.

61
Miriam Ventura é advogada e mestre em saúde pública pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação
Oswaldo Cruz (ENSP/Fiocruz). Sua dissertação de mestrado, “A Transexualidade no Tribunal” figura aqui como
uma das referências em investigações sobre a transexualidade no âmbito judicial.

111
De acordo com este entendimento, a constituição do sexo de um corpo não ocorre
somente através dos procedimentos médicos, mas também através do investimento de símbolos
de gênero que são socialmente estabelecidos. Assim, a “expressão pública do gênero” –
condição fundamental para o convencimento dos juízes acerca da transexualidade da/o
pleiteante da requalificação civil e comprovada por meio das fotografias – representa, senão, a
manifestação do “verdadeiro sexo” do sujeito. Se o gênero não passa de uma exibição e
demonstração do sexo, faz sentido pensar que, embora a teoria construtivista social tenha
separado sexo e gênero, esta ainda carrega marcas do essencialismo.
Sobre este ponto, se faz necessário, mais uma vez, trazer para o centro da discussão as
proposições de Butler. De acordo com a autora, ao elaborar um discurso sobre o gênero como
elemento cultural, a teoria construtivista colocou o sexo em um lugar de natureza que é pré-
discursivo e, portanto, inquestionável. Butler apresenta então duas críticas ao construtivismo:
por um lado, ela aponta um paradoxo inerente à esta abordagem, uma vez que o pré-discursivo
é delimitado justamente por um dado discurso; e por outro, argumenta que o conceito de
“natureza” é histórico e ligado à emergência dos meios tecnológicos de dominação (1993).
Com isso, a autora busca problematizar a dicotomia sexo-gênero ao afirmar que gênero
sempre foi sexo, na medida em que “a hipótese de um sistema binário dos gêneros encerra
implicitamente a crença numa relação mimética entre gênero e sexo, na qual o gênero reflete o
sexo ou é por ele restrito” (Butler, 2003, p. 24). Na hipótese apresentada pela autora, a
“construção” é substituída pela “materialização”. Deste modo, aquilo que é pensado enquanto
“materialidade do corpo” – isto é, aquilo que é compreendido como sexo na teoria construtivista
– é efeito de um poder produtivo e também é governado por normas culturais que determinam
a possibilidade de reconhecimento da existência do sujeito. Assim, não existe um sujeito prévio
ou exterior aos mecanismos de regulação que operam simultaneamente a sujeição e a
subjetivação dos indivíduos (2004), ou, em outras palavras, não há corpo sem sexo, uma vez
que o sexo é “uma das normas pelas quais o ‘alguém’ se torna viável, é aquilo que qualifica um
corpo para a vida no interior do domínio da inteligibilidade cultural” (1999, p. 155).
Se estar de acordo com as normas de gênero – ou seja, constituir-se enquanto alguém
que possui um gênero inteligível – é condição fundamental para o reconhecimento da
humanidade, ter documentos de identificação civil que atestem o sexo/gênero com o qual se
identifica é condição fundamental para aquisição de cidadania no contexto brasileiro. É essa
dupla busca – pelo reconhecimento enquanto humana/o e cidadã/ão – que marca as trajetórias
das/os assistidas/os do NUDIVERSIS, a qual nem sempre é bem sucedida, como discutirei a
seguir.
112
Quem diz a “verdade do sexo”? as tensões que perpassam os processos de requalificação civil

As alegações constantes das petições iniciais sobre a localização da verdade do sexo na


mente dos sujeitos nem sempre são eficazes. Esta determinação se dá em meio a tensões e
conflitos entre os diversos operadores do Direito: Defensores Públicos, Juízes,
Desembargadores, Promotores, Advogados particulares etc. Se na subseção anterior minha
pergunta era sobre os critérios de definição da realidade acionados nos discursos das
profissionais do NUDIVERSIS, nesta, a questão fundamental é: quem são os responsáveis pela
determinação da verdade do sexo? Assim, pretendo explorar aqui as várias contendas que se
desenrolam a partir desta pergunta.
Antes de mais nada, é preciso lembrar que o NUDIVERSIS se caracteriza por ser um
núcleo especializado de primeiro atendimento e, portanto, sua função oficial é atuar apenas na
etapa pré-processual. Assim, minha discussão sobre o que acontece durante o julgamento do
processo está limitada etnograficamente aos casos das/os assistidas/os que retornaram à
Defensoria Pública por alguma razão – geralmente uma sentença indeferindo a alteração do
nome e/ou do sexo.
Durante o trabalho de campo, muito se foi falado sobre o julgamento das ações de
requalificação civil de pessoas transexuais. Na percepção das profissionais do núcleo, há um
movimento na primeira instância do Judiciário no sentido de autorizar – e aqui o uso do verbo
autorizar não é despropositado – a mudança do prenome, mas não a do sexo. A alteração do
sexo só é concedida, geralmente, à/ao assistida/o que tenha realizado a cirurgia de
transgenitalização, cumprindo assim a principal etapa da “terapia de mudança de sexo”. Em
todo caso, a jurisprudência – ou o entendimento – não está pacificada62.
Nos meses em que acompanhei as rotinas de trabalho no NUDIVERSIS pude entrar em
contato com casos que tiveram desfechos distintos, os quais exemplificam algumas das
possibilidades existentes. Sônia teve seu processo suspenso até a realização da cirurgia de
transgenitalização sem que nenhuma sentença fosse proferida, ou seja, sem que nada fosse
modificado em seu registro civil. Eduardo também teve seu processo suspenso por conta da não
realização da cirurgia, contudo, o assistido obteve a autorização judicial para alterar somente
seu nome. Aline teve seu pedido negado em primeira instância, mas após recorrer da decisão,
a assistida conseguiu a mudança tanto do nome quanto do sexo sem ter feito a cirurgia de

62
Jurisprudência ou entendimentos “pacificados” são expressões que designam a consolidação da jurisprudência
sobre um dado assunto, ou seja, é quando conclui-se que uma determinada interpretação é a mais adequada para
julgar casos semelhantes.

113
transgenitalização. Michele adquiriu o direito de modificação do nome e sexo em primeira
instância mesmo ser ter passado pela intervenção médica de “redesignação sexual”.
O entendimento não está pacificado porque não há um consenso entre os atores sociais
ligados ao Direito sobre o conceito de sexo. Por mais que as profissionais da Defensoria Pública
argumentem – apoiadas em documentos produzidos por outros inúmeros profissionais – que a
verdade do sexo se encontra na mente do sujeito e na sua percepção sobre si mesmo, alguns
Juízes, Promotores e Desembargadores insistem em localizar a essência do sexo na dimensão
fenotípica, ou seja, nos pênis e vaginas das/os assistidas/os, condicionando, assim, o acesso aos
direitos à realização da cirurgia de transgenitalização.
Já a percepção das funcionárias do NUDIVERSIS acerca da permissão para alteração
apenas do nome das/os assistidas/os que não passaram pela intervenção cirúrgica pode ser
associada a uma relativa difusão da noção de gênero defendida pela teoria construtivista entre
os operadores do Direito. O nome, enquanto um signo generificado – afinal, a grande maioria
destes se divide entre “nomes masculinos” e “nomes femininos” –, pode ser modificado na
medida em que os sujeitos são socialmente reconhecidos em suas identificações de gênero
masculinas ou femininas. Deste modo, ao conceder a alteração do nome, os juízes admitem a
existência de uma dimensão social na construção das identidades sexuais ao mesmo tempo em
que, através da manutenção do sexo como foi registrado, subordinam o social ao natural, em
um ato que assegura não somente a essência do sexo, mas também o sexo como a essência da
identidade.
A disputa pelo estabelecimento da localização da “verdade do sexo” remete ao contexto
descrito por Fausto-Sterling (2002) no capítulo em que a autora trata dos “dualismos em duelo”.
Partindo do caso da descoberta do cromossomo Y em uma atleta espanhola, a autora desenvolve
uma reflexão acerca dos “testes do sexo” e todos os pares de oposições implicados nestes:
masculino-feminino, sexo-gênero, real-construído e natureza-criação. Em linhas gerais, Fausto-
Sterling argumenta as crenças sobre gênero influenciam de forma crucial a produção do
conhecimento científico e, consequentemente, o que será compreendido como sexo.
De modo semelhante, Nucci (2010) parte do pressuposto que a produção do
conhecimento científico não é neutra, como a ciência postula, mas sim permeada por valores e
interesses políticos, econômicos e sociais. A autora investiga de que modo os artigos científicos
postulam a existência de um “sexo cerebral” que é determinado pela distribuição dos hormônios
sexuais no corpo e suas conexões com o cérebro. Nucci argumenta que o desenvolvimento da
endocrinologia e dos hormônios “masculinos” e “femininos” alteraram o cenário do debate
sobre a diferença sexual. Ou seja, a partir deste movimento, os endocrinologistas se
114
constituíram como mais um grupo de atores no terreno altamente disputado da “verdade do
sexo”. Ao postularem a existência de “cérebros masculinos” e “cérebros femininos”, os
cientistas articulam uma série de gostos, comportamentos e habilidades à uma base biológica e,
portanto, supostamente natural: o cérebro dos indivíduos.
No contexto dos processos de requalificação civil de pessoas transexuais, ressalto que a
capacidade de determinação do sexo no âmbito jurídico obedece a uma distribuição hierárquica
do poder e da autoridade dentre os operadores do Direito e é alvo de constantes disputas. Os
casos de Aline e Sônia, citados acima, ilustram bem tais conflitos e as manobras de exercício
do poder e contestação da autoridade executadas pelos distintos atores envolvidos nestes
processos.
Aline saiu do NUDIVERIS com uma petição inicial solicitando a modificação tanto do
prenome quanto do sexo, mesmo sem a realização da cirurgia de transgenitalização. Após a
audiência com o juiz, ambos os pedidos foram negados. Os profissionais da Defensoria Pública
da Vara de Família na qual seu processo tramitava apresentaram então um recurso a esta
decisão. Tal recurso foi acolhido e os Desembargadores julgaram procedente a demanda de
Aline, reformando assim a sentença da primeira instância.
A situação de Sônia se revela particularmente dramática. A assistida relatou que no
decorrer de sua audiência a Promotora recomendou ao juiz que negasse o pedido da autora da
ação, caso contrário, o Ministério Público (MP) – representado ali pela Promotora – iria recorrer
da decisão, o que levou o Juiz a suspender o processo até a realização da cirurgia de
transgenitalização sem oferecer nenhuma sentença. Uma vez que um processo suspenso não
admite recurso, o magistrado assegurou que sua autoridade não seria contestada nem por
Promotores, caso julgasse o pedido como procedente; nem por Defensores Públicos, caso
indeferisse a solicitação. Ao condicionar sua decisão à realização da cirurgia de
transgenitalização, este juiz operou uma aparente transferência de poder – ainda que temporária
– e colocou Sônia e em uma posição de completa incerteza, refém de outros profissionais, pois
nada pode garantir que ela terá acesso a tal intervenção médica um dia.

3.3 Papéis mágicos: sobre documentos e atos de magia

Explorei até aqui como os documentos presentes nas pastas das/os assistidas/os – muitos
deles adquiridos através das peregrinações burocráticas – são capazes de produzir os sujeitos.
Mais do que produzir os sujeitos, estes papéis constroem uma figura de mosaico muito
115
específica, que possui um dado gênero (aquele que é pleiteiado na ação de requalificação civil),
uma certa índole (alguém que não possui nenhuma pendência para com a “sociedade”) e uma
determinada biografia (uma pessoa que passou e passa por constantes episódios de
constrangimento e discriminação, gerando assim um sofrimento incessante). Ou ainda, como
sinalizado no capítulo anterior, estes documentos operam um “fazer existir” da pessoa
transexual através da produção de uma figura ausente: as travestis. Esta ausência é construída
por meio da constante eliminação e apagamento das múltiplas possibilidades de leitura e
interpretação das experiências da transexualidade.
Este poder de fabricação da realidade que os documentos têm é inegavelmente
dependente da crença que estes possuem a capacidade de criar, reforçar, modificar e desfazer
mundos sociais. É esta crença que sustenta a promessa de “transformação de homens em
mulheres” e vice-versa que perpassa toda a visão da “terapia de mudança de sexo” como a
“cura” para a “disforia de gênero”, que tem na cirurgia de transgenitalização e na subsequente
alteração do registro civil seu ápice, permitindo que a pessoa reconstrua e recomece sua vida
de acordo com sua “verdadeira identidade”. A disseminação e presença desta crença – e também
promessa – pode ser percebida a partir dos seguintes fragmentos:

Conforme relato da usuária, a retificação de nome representa o seu renascimento, o começo


de uma vida sem preconceito, discriminação e violência no convívio social devido sua
aparência feminina e, principalmente, a necessidade de utilizar legalmente o nome
masculino. (Relatório de um assistente social do RSH)

Durante o primeiro atendimento de Marta, me chamou atenção a narrativa da assistida sobre


o relacionamento com sua família. Ela contou que nenhum de seus familiares a chama pelo
seu nome social e que ela compreende a atitude deles, uma vez que ela ainda não “trocou
seus documentos”. A mesma situação se repete em seu trabalho. De um modo geral, Marta
disse que evita se apresentar pelo seu nome social em situações que ela acredita que serão
constrangedoras. (Diário de campo, maio de 2014)

Se considerarmos que de fato estes documentos possuem o poder de criar e definir o que
é real e o que não é – ou ainda, o que é verdade e o que não é – e que tal poder é oriundo de
uma crença socialmente compartilhada, proponho que estes papéis sejam pensados a partir do
seu caráter “mágico” e que as ações que os produzem sejam vistas como “atos de magia”
(Mauss, 2003).
Deste modo, os movimentos executados durante a peregrinação burocrática – ou seja,
as consultas com psicólogos, psiquiatras e endocrinologistas, as entrevistas com assistentes e
as solicitações aos funcionários dos ORD – constituem atos mágicos rituais que, ao serem
116
executados por uma autoridade, constroem uma dada realidade. De acordo com Bourdieu
(1996), é a partir da linguagem autorizada que os atos de instituição – isto é, de nomeação,
categorização, etc. – se configuram como uma espécie de magia performativa do ritual. Em
outras palavras, tais atos representam o poder das palavras de não apenas descrever algo
existente, mas instituir realidades a partir do discurso, corroborando para a hipótese ora
apresentada de enxergar estes papéis como peças dotadas de poderes mágicos.
A ideia de encarar os documentos como artigos mágicos não difere radicalmente da
noção de objetos performativos construída anteriormente a partir de apropriações particulares
da teoria da performatividade apresentada por Judith Butler, tendo em vista que ambas
pretendem dar conta da fabricação de realidades executada por meio dos papéis. Contudo, é
impossível falar de magia e atos mágicos sem retornar às proposições clássicas de Marcel
Mauss (2003), discutidas em seu “esboço de um teoria geral da magia”. As ideias do autor são
fundamentais para a compreensão do contexto investigado, especialmente se levarmos em
consideração que o que sustenta o poder dos artigos mágicos é a crença na sua capacidade de
fazer efetivamente aquilo que este se propõe e a materialidade adquirida após os atos mágicos,
representada, no caso, pelos documentos.
Para Mauss, três são os elementos constituintes da magia: 1) os agentes, aqueles que
executam os atos mágicos; 2) os atos, ou ritos mágicos que funcionam como um tipo de
linguagem através da qual as ideias são traduzidas; e 3) as representações, o sentido adquirido
pelo rito mágico. A partir destes elementos, a magia é encarada então como um fenômeno
indiscutivelmente social, pois depende fundamentalmente, por um lado da crença de seus
praticantes na sua eficácia e veracidade e, por outro, da materialidade dos atos mágicos. Outra
observação do autor que precisamos levar em consideração no contexto desta pesquisa é sobre
a aproximação entre magia e ciência. Mauss demonstra em diversos pontos do seu texto o
evidente parentesco entre a magia e a ciência, uma vez que o êxito desta última também depende
da crença dos sujeitos no seu funcionamento, desfazendo assim uma visão que opõe as duas
coisas.
A partir destas colocações, sugiro que pensemos nos diversos profissionais envolvidos
nos processos de requalificação civil, ou seja, psiquiatras, psicólogos, endocrinologistas e
assistentes sociais – todos dotados de um conhecimento científico que autoriza o exercício do
poder – de modo semelhante ao utilizado por Mauss para descrever os mágicos. Ambos,
mágicos e cientistas (ou profissionais), produzem algo – ou seja, dão materialidade a alguma
coisa – que não existia antes através de algum tipo de encantamento ou ato mágico.

117
Apesar de não ser o objeto privilegiado da investigação aqui empreendida, a produção
mágica dos sujeitos por essa série de mágicos-profissionais pode ser condensada na sentença
proferida por um Juiz após o julgamento do processo de requalificação civil, uma vez que este
menciona os documentos emitidos por todos as outras categorias envolvidas na questão.
Quando o pedido é julgado procedente, tal sentença é encarada como um marco do surgimento
de uma nova pessoa, como mencionado por uma assistida do NUDIVERSIS que retornou ao
núcleo para agradecer as profissionais após ter seu registro civil alterado. Trago agora um trecho
de uma sentença que exemplifica tal “ato mágico”:

Vistos, etc. [nome social], cujo nome de registro é [xxx], requereu a Retificação do seu
Registro Civil, para redesignação de prenome, com as demais anotações sem qualquer
referência, no assentamento do seu Registro de Nascimento. [...]. A inicial veio com os
documentos de fls. 44/58 e 63, dentre eles a quesitação respondida pela Coordenadoria
Geral do Serviço Social e Psicologia-CGESSP, às fls. 52/53, que conclui, favoravelmente,
a mudança de nome do requerente. A parte assistida pelo NUDIVERSIS, foi lhe deferida a
gratuidade de Justiça ás fls. 60. O Ministério Público à fls. 83, não se opõe a mudança do
nome do requerente. É o relatório. Decido. Cuida-se de requerimento de retificação de
registro civil de nascimento, para substituir o nome masculino que ali conste [nome social].
O pedido foi devidamente instruído com documentos médicos que atestam a condição de
transexual do requerente, o qual, sendo anatomicamente do sexo masculino, apresenta
personalidade inversa, ostentando, desde a infância, comportamento feminino,
encontrando-se feliz com a nova condição física, mas vive recolhido sob o temor de vir a
ter que identificar-se com seus documentos masculinos, sofrendo grande constrangimento.
Cuidando-se de procedimento de jurisdição voluntária, não houve impugnação ao pedido e
o Ministério Público opinou favoravelmente. [...] Isto posto, defiro o requerimento, para
determinar a retificação do assento de nascimento da requerente, com substituição do
prenome [xxx] para constar [xxx], permanecendo as demais anotações. (Sentença de um
processo de alteração de prenome no registro civil)

Em suma, os documentos podem então ser compreendidos como artigos mágicos na


medida em que possuem o poder de, por meio de uma ação – geralmente uma assinatura e uma
carimbo –, criar realidades e materializar sujeitos que não existiam previamente. Seguindo de
perto as ideias de Mauss, identifico no processo de fabricação das provas os mesmos elementos
que compõem a magia: os agentes (psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais, funcionários de
instituições estatais, etc.), através de atos mágicos (consultas, entrevistas, verificação de
arquivos) apoiados em certas representações (autoridade profissional, definição médica da
transexualidade, normativas legais), produzem papéis com poderes para definir e certificar o
gênero, as condições psíquicas, a idoneidade, dentre outros aspectos da vida dos indivíduos.

118
3.4 Para além do papel: inteligibilidade de experiências e construção de subjetividades

Além do poder de criação de mundos sociais e “realidades compartilhadas”, os


documentos analisados produzem também – através da categorização – a inteligibilidade das
experiências transexuais e oferecem modos de construção de uma espécie de “realidade interna”
dos sujeitos. Assim, esta seção busca discutir de que modo as práticas e as discursividades tanto
médica quanto jurídica produzem não somente o diagnóstico de uma patologia, o
“transexualismo” ou “disforia de gênero”, mas também uma categoria que conforma
subjetividades e cria identidades: a pessoa transexual. Em outras palavras, a ideia é refletir sobre
as disputas de poder na elaboração da verdade do sujeito e, consequentemente, da “verdade
sobre a transexualidade”.
Inspiro-me aqui nas ideias de Foucault (1988 e 1997) sobre o poder-saber e as práticas
disciplinares. Segundo o autor, a constituição de um saber ou de um determinado campo do
conhecimento estão inegavelmente relacionadas a uma série de relações de poder. Já as práticas
disciplinares conformam um exercício minucioso, capilar e constante do poder através do qual
os sujeitos são constituídos. Outra noção fundamental para a construção do raciocínio aqui
apresentado é a de dispositivo da transexualidade (Bento, 2006). Berenice Bento retoma a ideia
foucaultiana de dispositivo da sexualidade e afirma que existe também um dispositivo
específico que regula as vivências de pessoas transexuais. Assim como o descrito por Foucault,
o dispositivo da transexualidade encerra uma série de práticas discursivas que se apoiam em
certos saberes para estabelecer e produzir “verdades” sobre a transexualidade e sobre os sujeitos
transexuais.
Antes de mais nada, é preciso deixar claro que a/o “verdadeira/o transexual” é aquela/e
que se encaixa nos critérios diagnósticos da disforia de gênero descritos na 5ª edição do
Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (Manual Diagnóstico e Estatístico de
Transtornos Mentais) da American Psychiatric Association (Associação Americana de
Psiquiatria). O DSM-V, como é mais conhecido, foi lançado em meados de 2013 e apresentou
algumas mudanças significativas no capítulo referente à transexualidade. Dentre estas, destaco
duas: 1) os termos “transexualismo” e “transtorno da identidade de gênero” foram substituídos
pela expressão “disforia de gênero”; 2) foram atribuídos critérios diagnósticos diferenciais para
adultos/adolescentes e crianças, como podemos ver no seguinte trecho:

119
Disforia de gênero em crianças

A. A incongruência entre o gênero experienciado/expressado e o gênero atribuído, com


duração mínima de 6 meses, manifestada por pelo menos seis dos seguintes sintomas
(um dos quais deve ser considerado o critério A1):

1. O persistente desejo por ser do outro gênero ou a insistência de que alguém é do outro
gênero (ou algum gênero alternativo diferente do atribuído).
2. Nos meninos (gênero atribuído), a significativa preferência por vestir-se com roupas
de outro gênero ou simular o vestuário feminino; nas meninas (gênero atribuído), a
persistente preferência por vestir apenas roupas tipicamente masculinas e forte
resistência em vestir roupas tipicamente femininas.
3. A persistente preferência por papéis do outro gênero em brincadeiras de faz-de-conta
ou de fantasia.
4. A persistente preferência por brinquedos, jogos e atividades estereotipicamente
utilizados ou exercidas pelo outro gênero.
5. A persistente preferência por companheiros de brincadeira do outro gênero.
6. Nos meninos (gênero atribuído), a persistente rejeição de brinquedos, jogos e
atividades tipicamente masculinas e a evasão de esportes de contato; nas meninas
(gênero atribuído), a persistente rejeição de brinquedos, jogos e atividades tipicamente
femininas.
7. A forte antipatia à sua anatomia sexual.
8. O persistente desejo por características sexuais primárias e/ou secundárias que
combinem com o gênero experienciado.

B. A condição está associada ao sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo em


campos social, escolar ou outras áreas relevantes para seu funcionamento.

[...]

Disforia de gênero em adolescentes ou adultos

A. A incongruência entre o gênero experienciado/expressado e o gênero atribuído, com


duração mínima de 6 seis meses, manifestada por pelo menos dois dos seguintes
sintomas:

1. A incongruência entre o gênero experienciado/expressado e as características sexuais


primárias e/ou secundárias (ou no caso de jovens adolescentes, as antecipadas
características sexuais secundárias).
2. O persistente desejo de perder as características sexuais primárias e/ou secundárias
por causa de sua incongruência com o gênero experienciado/expressado (ou no caso
de jovens adolescentes, o desejo de prevenir o desenvolvimento de antecipadas
características sexuais secundárias).
3. O persistente desejo por adquirir as características sexuais primárias e/ou secundárias
do outro gênero.
4. O persistente desejo por ser de outro gênero (ou algum gênero alternativo diferente do
atribuído).

120
5. O persistente desejo de ser tratado como alguém de outro gênero (ou de algum gênero
alternativo diferente do atribuído).
6. A persistente convicção de que possui os sentimentos e reações típicas de outro gênero
(ou de algum gênero alternativo diferente do atribuído).

B. A condição está associada ao sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo em


campos social, ocupacional ou outras áreas relevantes para seu funcionamento. (APA,
2013, p. 452-453, tradução livre).

É preciso ter em mente que os critérios diagnósticos daquilo que é considerado um


transtorno mental se diferenciam radicalmente de outros tipos de doenças. Enquanto o aumento
da temperatura corporal e a indisposição física podem indicar uma gripe, a “disforia de gênero”
é diagnosticada através da patologização de gostos, desejos, experiências e comportamentos.
Esta espécie de “patologização da vida” fica ainda mais clara com a inclusão de um tópico
específico para a identificação da transexualidade em crianças, de modo que condutas como
preferir brinquedos, jogos e atividades que são consideradas como parte do estereótipo do sexo
oposto, ou preferir brincar com colegas do sexo oposto passaram a figurar como indicativos de
uma ruptura com a identidade de gênero atribuída.
Neste sentido, penso que mais que descrever certos critérios diagnósticos, as formas
pelas quais a “disforia de gênero” é identificada prescrevem também modos específicos de
subjetivação e de compreensão das experiências vivenciadas pelas pessoas transexuais. Através
destas prescrições que as potenciais ambiguidades são eliminadas e as possibilidades de
significação, inteligibilidade e interpretação dos desejos e comportamentos dos sujeitos são
restringidas, reforçando assim a construção de uma imagem única e coerente para a pessoa
transexual.
Para desenvolver esta ideia, relembro duas das convenções narrativas discutidas no
capítulo anterior: a distinção entre transexualidade, travestilidade e homossexualidade; e a
“tomada de consciência” promovida pelo contato com o discurso médico sobre transexualidade.
Não raras foram as narrativas das/os assistidas/os que produziam um sentimento difuso de
desconforto com aquilo que era socialmente esperado para alguém de determinado sexo desde
a infância. Sentimento este que só adquiria inteligibilidade após o contato com a discurso
médico-psiquiátrico da “disforia de gênero” e da “terapia de mudança de sexo”. Além de
promover uma interpretação plausível para as experiências de “inadequação”, o discurso
médico funciona como âncora para a construção de uma identidade transexual minimamente
estabilizada, a qual é fabricada através do contraste e diferença entre as pessoas transexuais e
as travestis e homossexuais. Estas dois desdobramentos do contato com profissionais da

121
Medicina e da Psiquiatria podem ser vistos através dos depoimentos dados por duas assistidas
do NUDIVERSIS quando na ocasião da entrevista realizada no primeiro atendimento:

A estagiária perguntou quando Gabriela começou a se perceber como alguém do sexo


feminino. A assistida respondeu que tinha por volta de doze ou treze anos de idade, quando
começou a sentir atração por homens. Ela comentou que sempre foi chamada de “viado”
pelas pessoas do bairro onde ela cresceu, mas que nunca se sentiu dessa forma. De acordo
com ela, essa era a única forma de dar sentido às suas experiências. Gabriela afirmou que
não se via como gay ou travesti, mas que não sabia o que era até ver uma reportagem sobre
transexualidade na televisão. Foi então que ela procurou o IEDE e “descobriu” que era
transexual e passou a entender a “vontade de ser mulher” que ela sentia desde criança.
(Diário de campo, março de 2014).

Yasmim contou que sempre se sentiu presa e quando jovem eram muito tímida e retraída.
Ela narrou que chegou na Europa aos 23 anos de idade e que trabalhou em diversas casas
que ofereciam shows de travestis. Era sob o signo da travestilidade que Yasmim se
reconhecia até descobrir a possibilidade de “mudança de sexo” através da cirurgia
transgenitalizadora e assim passou a se considerar como transexual. (Diário de campo,
março de 2014)

Dito de outro modo, ao descrever determinadas atitudes e percepções como sinais da


disforia de gênero, o discurso médico permite que os sujeitos operem determinadas construções
de si, acarretando em uma estabilização – ao menos temporária – da “identidade transexual”; e
possibilita a ressignificação de uma série de experiências, produzindo assim uma coerência
biográfica. Estes foram os casos de Gabriela, Yasmim, Elisa, Pedro, dentre outras/os
assistidas/os do NUDIVERSIS. Situações semelhantes foram descritas por outras
pesquisadoras que se dedicaram ao tema da transexualidade, como por exemplo Bento (2006)
e Zambrano (2005). Assim, o discurso médico-científico adquire um papel fundamental nas
negociações dos sentidos atribuídos às experiências de pessoas transexuais.
De acordo com Bento (2004), no caso da transexualidade, os médicos não tratam
terapeuticamente nem o corpo e nem a mente, mas sim realizam uma função moral de
manutenção do padrão de normalidade. Neste sentido, acredito que ao elencar determinadas
características como critérios diagnósticos da disforia de gênero em crianças, os médicos não
identificam uma espécie de transtorno mental, mas sim asseguram um “correto”
desenvolvimento do gênero ao produzir meninos-masculinos e meninas-femininas, ditando
como, com o que e com quem as crianças devem conviver e brincar.
Podemos trazer novamente a ideia de magia performativa do ritual de Bourdieu (1996)
para compreender o diagnóstico da disforia de gênero e a construção de subjetividades de

122
pessoas transexuais. De acordo com o autor, a função social de um ritual de instituição é
demarcar uma diferença, transformando limites arbitrários em algo legítimo e natural (p. 98).
A instituição de uma determinada identidade contém um indicativo que é também um
imperativo; em outras palavras, ao indicar quem se é, indica-se também quem se deve ser.
Assim, ao escrever, assinar e carimbar uma folha de papel, um médico exerce seu poder mágico
de não apenas conferir uma identidade a uma pessoa, mas também cria uma série de
expectativas em relação aos modos como esta pessoa deverá se enxergar, se identificar e se
comportar.
Saliento também que os critérios diagnósticos descritos são parte constituinte do
dispositivo da transexualidade. De acordo com Bento (2004), este dispositivo exemplifica o
exercício do poder de autoridades profissionais. Esta autoridade é obtida através da localização
do conflito no indivíduo, e não nas normas de gênero, gerando assim uma despolitização. Nas
palavras da autora, “a despolitização do conflito gera o apagamento, por meio da naturalização
das condutas, das relações de poder que se engendram para naturalizar as verdades que
estruturam o funcionamento do dispositivo” (Bento, 2004, p. 155).
Por fim, chamo atenção para o fato de que é preciso estar atento para os limites do
discurso médico na produção das subjetividades. Por um lado, as investigações empreendidas
por Bento (2006) e Teixeira (2013) apontam como este discurso é rapidamente aprendido e
manejado pelas pessoas transexuais. Ambas as autoras descrevem uma série de
comportamentos e estratégias acionadas pelas/os “candidatas/os”63 durante as primeiras
consultas de inscrição no Projeto Transexualismo e no Programa de Transgenitalização,
respectivamente, para que sejam classificadas/os como “verdadeiras/os transexuais” e assim
garantirem seu ingresso nas instituições hospitalares, o que, em última instância, é visto como
uma “solução para os problemas” e uma segurança – ainda que mínima – de que seus direitos
serão respeitados. Por outro, Almeida e Murta (2013) buscam matizar as afirmações de
Berenice Bento ao postularem que as pessoas transexuais não necessariamente se opõem às
normas de gênero, como defendido pelo movimento social, mas sim contestam apenas a
designação sexual que lhes foram atribuídas.
No caso das/os assistidas/os do NUDIVERSIS, estes limites não foram apreendidos
durante o trabalho de campo. Por um lado, nunca foi meu interesse revelar “a verdade” sobre
as pessoas por dois motivos: em primeiro lugar, a discussão apresentada até aqui buscou

63
“Candidata/o” é o termo que designa as pessoas inscritas nos programas transexualizadores que demandam à
cirurgia de transgenitalização e outras intervenções corporais.

123
problematizar como é constituída “a verdade”, de modo que localizo minha voz como somente
mais uma nesta disputa; em segundo, tomando as críticas de Boltanski (1990) sobre a sociologia
clássica e a então necessidade de uma sociologia da crítica, acredito que este não é e não deve
ser o objetivo de investigações antropológicas. Por outro, como já discutido no primeiro
capítulo, a impossibilidade de realizar uma pesquisa dos “dois lados do balcão” e a consequente
escolha pelo “lado de dentro” – isto é, tomar como principais interlocutoras as profissionais que
atuam no núcleo – acarretou na circunscrição do meu contato com as pessoas transexuais ao
espaço da Defensoria Pública, local onde o caráter estratégico do uso do discurso jamais seria
revelado.

124
Capítulo 4
Em Defesa da “Dignidade da Pessoa Humana”:
política, emoções e moralidades nas petições iniciais de requalificação civil

O último capítulo64 desta dissertação traz uma análise das petições iniciais de
requalificação civil elaboradas pelas profissionais do NUDIVERSIS, que são apresentadas
pelas pessoas transexuais ao poder Judiciário. Estas peças vestibulares65 são os “produtos” cuja
fabricação é a principal responsabilidade das operadoras do Direito que atuam em um núcleo
de primeiro atendimento da Defensoria Pública. Sua construção se dá a partir de um modelo
previamente escrito, cujas lacunas são preenchidas com determinadas informações pessoais e
episódios pontuais que marcaram a trajetória da/o assistida/o. Como discutido ao longo dos
capítulos anteriores, a produção da petição inicial é a última etapa – ao menos no plano oficial
– dos procedimentos de assistência operados pelas funcionárias do núcleo e só ocorre após a
conclusão da peregrinação burocrática e da reunião de todos os documentos comprobatórios
considerados necessários para o julgamento do mérito da alteração do nome e sexo no registro
civil.
O modelo de petição inicial possui uma média de 36 páginas de texto corrido, o que não
inclui todos os documentos que são anexados: cópias de documentos de identificação, Estudo
Social, fotografias das/os assistidas/os e laudos psiquiátrico, psicológico, endocrinológico e
social. Tal modelo é composto por, ao todo, doze seções: 1) Da gratuidade de justiça; 2) Dos
fundamentos fáticos; 3) Considerações sobre a identidade sexual; 4) Considerações sobre o
transexualismo; 5) Da possibilidade jurídica dos pedidos; 6) Dos direitos inerentes à
personalidade; 7) Do procedimento de jurisdição voluntária; 8) Do panorama normativo; 9) Do
panorama doutrinário favorável; 10) Do panorama jurisprudencial; 11) Incursão no Direito
Comparado; e 12) Dos pedidos. Não vou me estender sobre o conteúdo destas seções, uma vez
que grande parte dos títulos indicam de maneira explícita sobre o que cada uma delas trata.
Meu objetivo neste capítulo é abordar os recursos argumentativos que são acionados
pelas operadoras do Direito que atuam no NUDIVERSIS para que os pedidos de requalificação
civil de pessoas transexuais sejam julgados procedentes. Neste sentido, não há como não pensar

64
Algumas das questões discutidas neste capítulo foram esboçadas em um trabalho anterior (Freire, 2014),
apresentado no GT “Emoções, Política e Trabalho” da 29ª Reunião Brasileira de Antropologia. Agradeço aos
participantes pelos comentários e sugestões feitos na ocasião do evento.
65
“Peça Vestibular”, “Exordial”, dentre outros termos, são todos sinônimos de Petição Inicial.

125
no modo pelo qual todos os papéis adquiridos durante o período em que as/os assistidas/os são
acompanhadas/os são cuidadosamente orquestrados e combinados – ou ainda, como a imagem
do mosaico é finalmente formada – em um único documento: a petição inicial, a qual produz
uma espécie de “narrativa concisa” cujo propósito é efetivar a demanda pela alteração do
registro civil.
Em linhas gerais, a argumentação contida nas petições iniciais segue uma linha bastante
clara: inicialmente, destaca-se a condição de vulnerabilidade das pessoas transexuais, as quais
são descritas como vítimas de experiências constantes de discriminação e violência, o que gera
um incessante sofrimento; o sofrimento dos sujeitos é amenizado pela efetivação daquilo que é
descrito como “seus direitos”, os quais, supostamente, garantem o pleno exercício da cidadania,
cuja obrigação de promover é de responsabilidade do Estado e, consequentemente, dos
operadores do Direito.
A leitura destas peças processuais revela que diversas estratégias são postas em prática
pelas operadoras do Direito na tentativa de fazer com que a demanda pela alteração dos
documentos de identificação das pessoas transexuais seja atendida. O Princípio da Dignidade
da Pessoa Humana – previsto expressamente no art. 1º, III da Constituição Federal como
“fundamento” da República Federativa do Brasil – funciona como uma espécie de fio condutor
da argumentação desenvolvida pelas funcionárias da Defensoria Pública e se desdobra em uma
série de considerações de cunho moral e apelos emocionais que extrapolam as justificativas
baseadas no conjunto de códigos, doutrinas, documentos internacionais de direitos etc. que
compreendem o panorama normativo positivado do Direito e suas interpretações consagradas.
Ao apelar para certa obrigação moral dos operadores do Direito em promover o “bem
estar” de todos os cidadãos, em especial aqueles que são considerados como mais “frágeis”,
parte da retórica utilizada nestes documentos tenta produzir no indivíduo responsável pelo
julgamento uma empatia pela/o autora/or da ação. Por outro lado, há, ao longo do texto, uma
série de denúncias de “contaminação moral” por parte dos Juízes e Promotores que já se
posicionaram contrários aos pedidos de alteração do registro civil de pessoas transexuais. Parte
da argumentação apresentada pelas funcionárias do NUDIVERSIS salienta que não existe
norma proibitiva que fundamente tais negativas, sendo estas influenciadas por valores morais,
os quais, obedecendo aos pressupostos de um Direito imparcial e objetivo, não deveriam estar
presentes em decisões judiciais. Entretanto, ao mesmo tempo em que buscam afastar
determinadas concepções morais dos processos de decisão, o texto evoca, em diversos pontos
e de diferentes formas, o dever moral de promover a dignidade das pessoas transexuais.

126
Tomo como premissa algumas das proposições discutidas por Butler (2004b e 2009)
sobre a percepção de uma condição de vulnerabilidade compartilhada como elemento
fundamental para o reconhecimento de uma humanidade comum. A autora apresenta uma
importante diferença entre o reconhecimento e a apreensão da vida, sendo a última uma forma
de reconhecer sem pleno reconhecimento. A vida que é somente apreendida, ou seja, que não é
plenamente reconhecida, é uma vida precária, sem importância, cuja morte não será pranteada
– e aqui, entendo a concepção de morte como mais que o falecimento do corpo para abarcar a
espécie de “morte social” que atinge as pessoas transexuais que não têm direito ao
reconhecimento de sua identidade. A pergunta feita por Butler (2004b) sobre quais seriam as
vidas merecedoras de luto se assemelha, em muitos pontos, à feita por Fonseca e Cardarello
(1999) sobre quem seriam os “mais e os menos humanos”. De certo modo, os dois textos
indagam sobre a produção e o reconhecimento de determinadas pessoas e/ou grupos como
“sujeitos de direitos”.
Articulo estas ideias de Butler aos postulados apresentados por Fassin (2012) sobre ética
e moral humanitárias e por Sarti (2011) sobre a figura política da vítima na luta por direitos na
contemporaneidade para dar conta da política da compaixão que é acionada como estratégia na
efetivação do direito à requalificação civil de pessoas transexuais. A exposição da precariedade
da vida revela que tais vidas encontram-se “nas mãos dos outros”, isto é, evidencia como
determinadas pessoas desconhecidas possuem poder de vida e morte sobre outras (Butler,
2009). No atual cenário ético humanitário descrito por Fassin (2012), tal exibição do sofrimento
não pode ser ignorada por aqueles que veem, escutam ou são expostos aos relatos de dor de
alguma forma, demandando assim uma obrigação moral de engajamento. O engajamento só
ocorre quando a empatia – que é um sentimento de reconhecimento da igualdade entre os
sujeitos em algum plano – se transfigura em compaixão – um sentimento que demarca a
desigualdade entre aqueles que são compassivos porque podem fazer algo para ajudar e aqueles
que despertam a compaixão porque precisam de ajuda. Sarti (2011), por sua vez, destaca como,
contemporaneamente, os embates por aquisição de direitos de determinados indivíduos e/ou
grupos encontram-se ancorados no reconhecimento das experiências de vitimização que
acometem os sujeitos. O reconhecimento das vítimas implica o direito à reparação, a qual é
vista, principalmente, como uma responsabilidade do Estado e seus agentes.
Em resumo, busco discutir como estas petições iniciais constroem evidências dessa
condição de vulnerabilidade – que é apresentada como inerente às experiências que envolvem
a transexualidade – para que as pessoas transexuais tenham sua humanidade reconhecida. Uma
vez que tais sujeitos são reconhecidos como humanos, a obrigação dos operadores do Direito
127
de lidar com esta vulnerabilidade a partir de um dever moral de redução desta condição é
traduzido na defesa do Princípio da Dignidade da Pessoa Humana.

4.1 Vítimas da natureza, vítimas da sociedade: a produção da vulnerabilidade das pessoas


transexuais

As petições iniciais – apoiadas em outros documentos produzidos ao longo do processo


de assistência como o relatório de primeiro atendimento, os laudos de psicólogos, psiquiatras e
de assistentes sociais – descrevem as pessoas transexuais como seres duplamente vitimados:
por um lado, tais indivíduos são vistos como uma espécie de “vítimas da natureza”, pois são
acometidos por uma patologia psíquica, o “transexualismo” ou a “disforia de gênero”; por
outro, são encarados como “vítimas da sociedade”, uma vez que encontram inúmeras
dificuldades em sua vida cotidiana, devido aos constantes episódios de discriminação e
violência vivenciados por conta de um preconceito largamente difundido.

Considerando que as pessoas que compõem a população de lésbicas, gays, bissexuais,


travestis e transexuais (LGBT) encontram especiais dificuldades para exercitar com
plenitude ante o sistema de justiça os direitos reconhecidos pelo ordenamento jurídico,
enquadram-se no conceito de pessoas em situação de vulnerabilidade da regra n. 3 do
documento internacional conhecido como “100 Regras de Brasília para o acesso a justiça
de pessoas em condição de vulnerabilidade”, estando a demandar a atuação do Poder
Judiciário e das demais instituições e órgãos integrantes do sistema de Justiça, com o
fim de concretizar a efetividade do direito à identidade de gênero, enquanto expressão
da dignidade da pessoa humana. (Modelo de petição inicial, grifos no original)

A transcrição acima é um dos parágrafos que abrem o atual modelo de petição inicial de
requalificação civil do NUDIVERSIS. O texto – que também se encontra em um documento
intitulado “Justificativa para Autuação de Procedimento” – demonstra que o primeiro passo
para a construção das pessoas transexuais como “sujeitos de direitos” é a sua produção enquanto
indivíduos em situação de vulnerabilidade. Além disso, são expostos os motivos que
fundamentam a atuação do núcleo na demanda destes indivíduos, justificando, assim, a
necessidade de existência do mesmo. A produção espelhada – ou constituição mútua – tanto
dos “sujeitos vitimados” quanto das pessoas responsáveis por mitigar seus sofrimentos
relaciona-se com a dimensão demiúrgica do Direito apontada por Vianna (2012), conforme
discutido no primeiro capítulo deste trabalho.

128
“Considerações sobre o transexualismo”: as pessoas transexuais como vítimas da natureza

Uma das seções que compõem as petições iniciais de requalificação civil de pessoas
transexuais é chamada de “Considerações sobre o transexualismo”. Como o próprio título deixa
explícito ao mencionar a palavra “transexualismo” – termo que constava até a edição anterior
do DSM e cujo uso ainda é corrente dentre determinados grupos –, tais considerações se
baseiam em apropriações das teorias e discursos produzidos por autoridades da Medicina,
principalmente da Psiquiatria. Assim, as/os assistidas/os que pleiteiam a alteração do registro
civil são incorporadas/os nas instituições que atuam junto ao poder Judiciário como portadoras
de uma determinada patologia: o “transexualismo”, ou, contemporaneamente, a “disforia de
gênero”.

O transexualismo é um fenômeno da sexualidade. Caracteriza-se por uma inversão da


identidade psicossocial, que conduz a uma neurose relacional obsessivo-compulsiva,
que se manifesta pelo desejo de integral reversão sexual. (Modelo de petição inicial,
grifos no original)

Este pequeno trecho elucida as formas pelas quais tais teorias são apreendidas. Ao dizer
que “o transexualismo é um fenômeno da sexualidade”, extingue-se completamente qualquer
possibilidade de compreensão da transexualidade como uma experiência que diz respeito
somente às percepções dos sujeitos sobre seus próprios corpos e identificações de gênero. Além
disso, o termo “sexualidade” aparece em um registro ambíguo, não sendo possível estabelecer
se este faz referência ao exercício erótico de atos e práticas sexuais ou se fala sobre uma
determinada concepção ou modo de perceber o “sexo”66.

Seus órgãos sexuais e nome, destoantes de seu psiquismo, são verdadeira fonte de aflição,
desespero, repugnância e graves distúrbios psicológicos, que não raras vezes conduzem
a tentativas de suicídio e a mutilação da genitália. (Modelo de petição inicial, grifos no
original)

O transexual, recusando seu sexo fisiológico e admitindo como seu verdadeiro sexo
unicamente o psicológico, imagina-se como se realmente tivesse nascido nesse sexo, e,

66
Esta ambiguidade se torna mais evidente quando observamos as movimentações de atores sociais envolvidos na
militância pelos direitos de pessoas transexuais no sentido de traçar linhas e delimitar o espaço das pessoas “T” no
interior das políticas voltadas para a efetivação dos “direitos LGBT”. De acordo com estes atores, as demandas de
travestis e pessoas transexuais são distintas das demandas de lésbicas, gays e bissexuais na medida em que as
primeiras têm como fonte a vivência de determinadas “identidades de gênero”, ao passo que as últimas se
fundamentam no exercício da “orientação sexual”.

129
contrariamente ao que em geral se supõe, o transexual não é um indivíduo grotesco, mas,
na maioria das vezes, bastante tímido e reservado. (Modelo de petição inicial, grifos no
original)

Por se tratar de um “distúrbio psicológico”, a transexualidade figura, então, como fonte


de um sofrimento do qual o sujeito não pode fugir e, principalmente, não pode ser considerado
culpado. Em um movimento parecido com o descrito por Zambrano (2005), a apropriação do
discurso médico nestas petições iniciais busca afastar das pessoas transexuais as acusações de
desvio moral que geralmente recaem sobre as travestis. Além disso, ao se revestir de um caráter
científico, a definição médica do “transexualismo” funciona como um dos elementos que são
elencados para que a demanda por requalificação civil destes sujeitos seja vista como justa e
legítima.
De acordo com Ventura (2010), o diagnóstico do “transexualismo” é do tipo diferencial
– ou seja, deve distinguir transexuais, travestis e homossexuais –, uma vez que somente a/o
“verdadeira/o transexual” pode ter acesso não só às mudanças corporais, mas também ao direito
de requalificação civil. Além disso, uma das prerrogativas de tal diagnóstico é constatar a
“condição de intenso sofrimento de seu portador” (Ventura, 2010, p. 81). Logo, tal discurso
reforça um dos enunciados relacionados à transexualidade que é largamente reproduzido por
atores de vários campos: a de que este fenômeno representa um tipo de “erro da natureza” do
qual os sujeitos transexuais são vítimas, isto é, a ideia de uma pessoa que nasceu “no corpo
errado”. Como aponta Almeida e Murta (2013, p. 386), esta noção de “corpo errado” é uma das
formas de representação da transexualidade mais comum entre as pessoas transexuais.
Conforme explorado no final do capítulo anterior, estas teorias não circulam somente
entre representantes de distintos campos do saber, mas influenciam de modo significativo a
construção subjetiva dos indivíduos transexuais. Neste sentido, a ideia de “vítima da natureza”
também é reproduzida nos e a partir dos discursos das/os próprias/os assistidas/os do
NUDIVERSIS. Durante as entrevistas realizadas no primeiro atendimento, não raras foram as
vezes em que frases como “eu não pedi para nascer assim” figuraram nas falas dos sujeitos.

“Dos fundamentos fáticos”: as pessoas transexuais como vítimas da sociedade

A produção da condição de vulnerabilidade das pessoas transexuais é feita através de


dois caminhos distintos. Se por um lado as pessoas transexuais são consideradas como “vítimas
da natureza” por serem “portadoras de disforia de gênero”, por outro, elas também são vistas
130
como “vítimas da sociedade”, uma vez que são alvos de constantes discriminações em sua vida
cotidiana.
A seção “Dos Fundamentos Fáticos” das petições iniciais é, basicamente, a única lacuna
deste modelo de ação judicial, tendo em vista que, como o título sugere, esta tem como
propósito a apresentação dos “fatos do caso”. Tais lacunas devem ser preenchidas com
episódios concretos das trajetórias dos indivíduos. Em outras palavras, é neste espaço que as
histórias de vida dos/as assistidos/as da Defensoria Pública são contadas. Entretanto, o que são
considerados como “fatos do caso” relevantes para a legitimação do direito à modificação do
registro civil são as situações de violência vividas pelos sujeitos, o que, em última instância,
serve para reforçar a ideia de que as pessoas transexuais são “vítimas da sociedade”.

Tal nome guarda absoluta desconformidade com a aparência [feminina] que [a


Autora] apresenta, sendo ela compelida a enfrentar olhares curiosos, perguntas invasivas,
ofensas preconceituosas e toda a espécie de situações vexatórias, como dificuldades de
identificação. (Modelo de petição inicial, grifos no original)

Cabe ressaltar que [o Autor] sofreu e sofre diversas discriminações e dificuldades nos locais
públicos que frequenta como bancos, casas de show, cinemas, repartições públicas, salas
de espera de hospitais e consultórios médicos e demais locais congêneres, se vendo
constantemente exposto e constrangido, em razão do prenome [feminino] que carrega em
seus documentos. Além disso, encontra dificuldades para ingressar no mercado de trabalho,
sendo que, por vezes, é compelido a usar seu nome de registro no ambiente interno às
empresas onde trabalha, assim como frequentar o banheiro [feminino]. Em outras
oportunidades, não alcança a efetivação no emprego pela dicotomia entre sua aparência e
seus documentos. (Modelo de petição inicial)

Da análise dos documentos acostados pela [Autora], é possível vislumbrar uma série de
declarações que denotam sua identificação duradoura e constante com o gênero [feminino],
bem como a longa luta que vem sendo travada pela [Autora] para ser aceita na condição de
[mulher], não só junto aos institutos médicos, mas sobretudo a partir do enfrentamento do
preconceito fortíssimo que as transexuais enfrentam – a chamada transfobia – a qual
lamentavelmente sabemos ser extremamente comum no cotidiano. (Modelo de petição
inicial)

As narrativas que são apresentadas como “fundamentos fáticos” da ação de


requalificação civil são oriundas, principalmente, das informações que são registradas durante
a entrevista realizada no primeiro atendimento e posteriormente transformadas no Relatório de
Primeiro Atendimento. Como sinalizado no segundo capítulo deste trabalho, a transposição do
que é dito para as profissionais do núcleo para um relato contido numa peça processual –
passando pelas anotações da estagiária e a posterior elaboração do Relatório de Primeiro

131
Atendimento – implica um processo contínuo de contração das narrativas das/os assistidas/os.
A seção do modelo de petição inicial ora analisada pode ser encarada como a etapa final deste
processo de redução, pois, mesmo que existam lacunas, estas são poucas e não permitem a
narrativa de nenhuma história que possa vir a questionar a imagem de “vítima” da/o autora/or
da ação. Dito de outro modo, a apresentação dos “fatos do caso” representa a última fase da
montagem do mosaico, na qual todas as ambiguidades da imagem já foram eliminadas, assim
como as possibilidades de interpretação restringidas.
As informações contidas na seção dos “fundamentos fáticos” são apoiadas e
comprovadas por uma série de documentos que se encontram nos anexos das petições iniciais.
Dentre estes, destaco o Estudo Social feito por funcionários ligados à Defensoria Pública.
Conforme abordado no capítulo anterior, os relatórios tanto dos psicólogos quanto dos
assistentes sociais têm por objetivo confirmar não só as trajetórias dos indivíduos, mas também
a condição de incessante sofrimento a qual as pessoas transexuais estão sujeitas por conta das
experiências de discriminação vivenciadas.
A construção da vitimização pela sociedade através da exposição dos “fatos do caso”
possui uma inegável relação com o tempo. Ao privilegiar – na verdade, quase limitar – os
episódios de sofrimento na fabricação das biografias dos sujeitos, tais narrativas fazem com que
estas experiências não se limitem ao tempo presente, mas que também marcaram o passado e
atravessarão o futuro caso “nenhuma atitude seja tomada”. Deste modo, faz sentido pensar estes
modos de narrar operam um certo congelamento dos sujeitos, fabricando figuras que estão
presas em cenários de dor e angústia.
Por fim, ressalto, mais uma vez, a centralidade que as experiências de sofrimento
possuem não apenas na construção da imagem das pessoas transexuais, mas também como
elemento que legitima o direito à requalificação civil destes sujeitos. Tal centralidade pôde ser
percebida por meio do acompanhamento das rotinas de trabalho das profissionais do
NUDIVERSIS em seus atendimentos e da leitura de todos os documentos que constam nas
pastas e petições iniciais das/os assistidas/os. Os episódios de discriminação, mesmo quando
não diretamente relatados, têm sua existência presumida, uma vez que muitos dos parágrafos
do modelo de petição inicial que permanecem inalterados salientam este aspecto da vida
cotidiana dos sujeitos.
Contudo, ao expor aqui tal “presunção do sofrimento”, não pretendo revelar nenhum
tipo de farsa ou dizer que as pessoas transexuais não sofrem violências e discriminações ao
realizarem várias atividades, mas sim busco demonstrar como uma determinada forma de fazer
política e de gestão estatal se fundamentam na necessidade de criação de uma figura que é ao
132
mesmo tempo vítima de uma dada “configuração social” que relega as pessoas transexuais às
margens da sociedade e de uma patologia que acomete “sujeitos inocentes”.

4.2 Em defesa da “dignidade da pessoa humana”: os argumentos que legitimam a


demanda por requalificação civil

Uma vez que se tenha construído a figura da pessoa transexual como alguém que está
sujeito aos mais diversos sofrimentos, a argumentação apresentada nas petições iniciais toma
como base a defesa do Princípio da Dignidade da Pessoa Humana, previsto expressamente no
art. 1º, III da Constituição Federal como “fundamento” da República Federativa do Brasil. Ao
contar histórias e expor sofrimentos, o leitor é, de certo modo, envolvido. A narrativa produz
um efeito de cumplicidade naquele que escuta, lê, ou tem acesso de algum modo aos infortúnios
vividos pelo outro. É no contexto de cumplicidade que o apelo ao Princípio da Dignidade da
Pessoa Humana pode ser eficaz, uma vez que a condição de cúmplice só pode ser superada se
o sujeito atuar, de alguma forma, para mitigar as dores do outro.
Neste sentido, a defesa de tal Princípio67 extrapola aquilo que pode ser visto como uma
dimensão mais normativa ou positivada constitucionalmente e se desdobra em uma série de
estratégias discursivas que visam, por um lado, legitimar o pleito pela alteração de pronome e
sexo através do acionamento da empatia e de um sentimento de pertencimento a uma
humanidade comum; e, por outro, questionar e deslegitimar as alegações que são comumente
utilizadas por Juízes e Promotores para negar tais pedidos.

“De que direitos estamos falando?”: os múltiplos discursos sobre “direitos” que figuram nas
petições iniciais

O primeiro argumento utilizado pelas operadoras do Direito nos pedidos de


requalificação civil das pessoas transexuais é o de que não existe nenhuma proibição legal em

67
É preciso ressaltar que, no jargão jurídico, o termo princípio se refere a um conceito específico. De acordo com
o filósofo do Direito Robert Alexy, as normas se dividem em dois tipos qualitativamente distintos: regras: normas
“engessadas”, cuja interpretação é restrita e que são aplicadas somente em sua totalidade; e princípios: “mandados
de otimização”, ou seja, postulam fins ideais e metas políticas. Nas palavras do autor: “o ponto decisivo na
distinção entre regras e princípios é que princípios são normas que ordenam que algo seja realizado na maior
medida possível dentro das possibilidades jurídicas e fáticas existentes.” (Alexy, 2008, p. 90, grifos no original).

133
relação à alteração do registro civil dos cidadãos. No âmbito formal, é citada a Lei nº 6.015/73,
também conhecida como “Lei de Registros Públicos”. A partir da combinação dos artigos 55 e
5868 do referido diploma legal, chega-se a interpretação de que o prenome pode ser alterado
caso exponha a pessoa ao ridículo ou à situações vexatórias. Neste ponto, o texto assume a
seguinte forma:

NÃO É OUTRA A SITUAÇÃO DA TRANSEXUAL QUE, A DESPEITO DE UMA


APARÊNCIA [FEMININA] E DE COMPORTAMENTO SOCIAL CONSENTÂNEO,
TENHA QUE SE APRESENTAR COM PRENOME [MASCULINO]
COMPLETAMENTE DESTOANTE DE SUA CONDIÇÃO FÁTICA, SENDO, POR
ESTA RAZÃO, ALVO DE CONSTANTE CHACOTA. (Modelo de petição inicial, grifos
no original)

Além do recurso à Lei de Registros Públicos, a leitura das petições iniciais revela que
há uma combinação entre distintos discursos sobre “direitos” como formas de legitimar a
demanda pela requalificação de pessoas transexuais: o direito à saúde, o direito à
autodeterminação sexual e o direito à dignidade. Grosso modo, o direito à saúde faz referência
ao dever do Estado de assegurar que os cidadãos tenham acesso às melhores condições de saúde
disponíveis através da prestação de serviços públicos; já o direito à autodeterminação sexual
incorpora um discurso sobre “liberdade” ao ser descrito como um dos direitos inerentes à
personalidade e diz respeito à proteção da intimidade, da vida privada, da honra e da imagem;
por sua vez o direito à dignidade fala sobre a efetivação de condições fundamentais para o
exercício da cidadania.
De certo modo, estes três “tipos” de direitos encontram-se, nas petições iniciais,
dispostos em uma espécie de linha evolutiva. A garantia do direito à liberdade de
autodeterminação sexual visa garantir a “integridade psíquica e social” dos indivíduos ao
proteger aspectos de sua vida íntima; a integridade psíquica é uma das condições essenciais

68
Os artigos da lei 6.015/73 dizem o seguinte:

Art. 55. Quando o declarante não indicar o nome completo, o oficial lançará adiante do prenome escolhido o nome
do pai, e na falta, o da mãe, se forem conhecidos e não o impedir a condição de ilegitimidade, salvo reconhecimento
no ato.
Parágrafo único. Os oficiais do registro civil não registrarão prenomes suscetíveis de expor ao ridículo os seus
portadores. Quando os pais não se conformarem com a recusa do oficial, este submeterá por escrito o caso,
independente da cobrança de quaisquer emolumentos, à decisão do Juiz competente.

Art. 58. O prenome será definitivo, admitindo-se, todavia, a sua substituição por apelidos públicos notórios.
Parágrafo único. A substituição do prenome será ainda admitida em razão de fundada coação ou ameaça decorrente
da colaboração com a apuração de crime, por determinação, em sentença, de juiz competente, ouvido o Ministério
Público. (Brasil, 1973).

134
para que os sujeitos possam usufruir do mais alto padrão de saúde; desfrutar de melhores
condições de saúde é, por fim, considerado um dos elementos que configuram uma “vivência
digna”. Nesta subseção, me limito a abordagem somente dos dois primeiros discursos sobre
direitos, deixando o terceiro para a seguinte.

A liberdade e os direitos sexuais

O surgimento de um discurso sobre a defesa dos ditos “direitos sexuais” se deu


simultaneamente ao desenvolvimento de um pleito pela aquisição de “direitos reprodutivos”.
Em que pese as diferenças entre demandas e sujeitos abarcados pelos dois termos, ambos são,
por muitas vezes, colocados sob uma mesma rubrica. Como apontado por Vianna (2012) e
discutido no primeiro capítulo deste trabalho, os direitos sexuais pressupõem uma
autonomização da esfera da sexualidade na constituição dos sujeitos, de modo que seu exercício
passa então a se configurar como um “direito humano legítimo”.

No sentido de consagrar os direitos sexuais e reprodutivos, os documentos internacionais


avançaram com declarações e planos de ação. Tem-se o Programa de Ação do Cairo
(1994) que, com os Princípios [...] e 8 (do mais alto padrão de saúde possível e benefícios
do progresso científico: “Toda pessoa tem direito ao gozo do mais alto padrão possível de
saúde física e mental. Os estados devem tomar todas as devidas providências para
assegurar, na base da igualdade de homens e mulheres, o acesso universal aos serviços de
assistência médica, inclusive os relacionados com saúde reprodutiva, que inclui
planejamento familiar e saúde sexual. Programas de assistência à saúde reprodutiva devem
prestar a mais ampla variedade de serviços sem qualquer forma de coerção. Todo casal e
indivíduo têm o direito básico de decidir livre e responsavelmente sobre o número e o
espaçamento de seus filhos e ter informação, educação e meios de o fazer.”), somado ao
Capítulo XII (Tecnologia, Pesquisa e Desenvolvimento) introduziram na seara dos Direitos
Humanos os direitos à saúde sexual e à saúde reprodutiva.
Na Declaração de Pequim e Plataforma de Ação (1995), que segue a linha do documento
produzido no Cairo, um ano antes, estão consagrados: (1) o direito à integridade psicofísica
no § 12 (“O fortalecimento e o avanço das mulheres, incluindo o direito à liberdade de
pensamento, consciência, religião e crença, o que contribui para a satisfação das
necessidades morais, éticas, espirituais e intelectuais de mulheres e homens,
individualmente ou em comunidade, de forma a garantir-lhes a possibilidade de realizar
seu pleno potencial na sociedade e organizar suas vidas de acordo com as suas próprias
aspirações”), (2) o direito ao pleno exercício de direitos humanos e liberdades fundamentais
no § 23 (“Garantir o pleno exercício de todos os direitos humanos e liberdades
fundamentais às mulheres e meninas e adotar medidas efetivas contra a violação destes
direitos e liberdades) e (3) o direito à saúde sexual no § 30 (“Assegurar a igualdade de
acesso e a igualdade de tratamento de mulheres e homens na educação e saúde e promover

135
a saúde sexual e reprodutiva das mulheres e sua educação”). (Modelo de Petição Inicial,
grifos no original).

Outro direito que ganha extrema relevância no caso é o direito ao reconhecimento perante
a lei. Considerando que a orientação sexual e a identidade de gênero constituem parte
essencial da personalidade e um dos aspectos mais básicos de sua autodeterminação e
dignidade, deve o Estado “tomar todas as medidas legislativas, administrativas e de outros
tipos que sejam necessárias para que existam procedimentos pelos quais todos os
documentos de identidade emitidos pelo Estado que indiquem o sexo/gênero da pessoa –
incluindo certificados de nascimento, passaportes, registros eleitorais e outros documentos
– reflitam a profunda identidade de gênero autodefinida por cada pessoa”, de maneira a
salvaguardar os direitos dessas minorias. (Modelo de Petição Inicial, grifos no original)

No cenário político contemporâneo, uma retórica sobre o exercício de direitos sexuais


tem sido apropriada, principalmente, por atores ligados aos movimentos sociais LGBT. Um
exemplo dessa apropriação se faz ver na demanda por medidas que visem coibir a discriminação
por orientação sexual, como o extinto Projeto de Lei da Câmara 122 de 200669 (PLC 122/2006)
que pretendia criminalizar a homofobia. Para as demandas mais singulares das pessoas que
compõem a letra T do movimento – as travestis e pessoas transexuais – o discurso sobre direitos
sexuais se traduz na luta por determinadas liberdades fundamentais, como por exemplo, a
autodeterminação da identidade sexual/de gênero.

Impende ponderar, ademais, que o direito à intimidade integra os chamados direitos da


personalidade. Neste sentido, a tutela da intimidade, no direito pátrio, é elevada à categoria
de direito fundamental, constitucionalmente tutelado, consistindo, sua tutela, uma das
funções inderrogáveis do Estado. (Modelo de petição inicial, grifos no original)

Apesar de ser relativamente difundido entre militantes, os direitos sexuais não parecem
se constituir enquanto a via mais importante para defender o direito à requalificação civil de
pessoas transexuais atendidas pelo NUDIVERSIS. O modelo de petição inicial formulado pelas
profissionais do núcleo traz somente uma única referência à esta expressão. Além disso, os
direitos sexuais aparecem colados aos direitos reprodutivos e, por conta dessa articulação,
subordinados ao “direito à saúde”, como pode ser visto nos trechos acima reproduzidos. Passo
então para a discussão dessa segunda via de sustentação da legitimidade da demanda pela
alteração de nome e sexo no Registro Civil de pessoas transexuais.

69
O PLC 122/2006 tinha por objetivo a incluir na Lei 7.716/89, a chamada Lei do Racismo, não somente a
discriminação motivada por orientação sexual, mas também em função da condição de pessoa idosa ou
“deficiente”. Para uma discussão mais ampla sobre a questão, consultar Freire e Cardinali (2012).

136
O bem estar e o direito à saúde

Uma segunda forma de defender o direito à requalificação civil de pessoas transexuais


é pela argumentação via “direito à saúde”. A mobilização de um dado conceito de saúde e de
um subsequente direito ao usufruto de melhores condições físicas e mentais é possível porque
a transexualidade figura como uma “disforia de gênero” na edição contemporânea do DSM-V,
como discutido ao longo deste trabalho. Deste modo, ao definir a transexualidade como uma
espécie de patologia, transformando-a, assim, em uma questão de saúde pública, os médicos
retiraram – em certa medida – das mãos do poder Legislativo a hegemonia da competência para
regular os “direitos” das pessoas transexuais. Se observarmos que os membros do Legislativo
têm se posicionado sistematicamente contrários aos avanços dos “direitos sexuais” no Brasil,
muito por conta de influências de concepções religiosas, esta situação representa uma estratégia
política que propõe um caminho alternativo na luta pela efetivação da cidadania de pessoas
transexuais. Assim, apesar da patologização da transexualidade encapsular os indivíduos no
dispositivo da transexualidade (Bento, 2006), transformando-os em “verdadeiros transexuais”,
o fato de existir algo que seja considerado como uma “terapia de mudança de sexo” faz com
que o Estado seja obrigado tanto a oferecer serviços públicos de saúde, quanto arcar com os
custos das transformações corporais realizadas pelas pessoas transexuais.
A despeito de excluir as/os “outras/os transexuais” – ou seja, os sujeitos que não
conseguem um laudo médico classificando-os como portadores da disforia de gênero –, os
programas transexualizadores ligados ao SUS representam um caminho para que as pessoas
transexuais de classes populares – justamente as que são atendidas pela Defensoria Pública –
tenham suas demandas por modificações corporais atendidas, tendo em vista o alto custo tanto
das aplicações hormonais quanto dos diversos tipos de procedimentos cirúrgicos na rede
privada de serviços de saúde (Almeida e Murta, 2013). Ademais, conforme já descrito na
introdução, caso não fossem consideradas como terapêuticas, as cirurgias que implicam a
intervenção nos e/ou retirada de órgãos – mastectomia, histerectomia70 e a própria
transgenitalização – seriam enquadradas como “crime de lesão corporal”, pois seriam vistas
como a amputação de membros do corpo que são considerados saudáveis. Isto implicaria não
somente a criminalização, como também a cassação do Registro Profissional de Médico do
cirurgião que realizasse tais procedimentos em alguém.

70
Histerectomia é o nome dado ao procedimento cirúrgico de remoção do útero. A histerectomia pode ser
considerada “radical” quando há também a ablação dos ovários e das trompas.

137
Na pesquisa empreendida por Miriam Ventura (2010), o discurso sobre direito à saúde
aparece como a principal forma pela qual a demanda pela modificação do registro civil
encontrou respaldo no Judiciário. Entretanto, a autora afirma que a mudança retórica pela qual
o fenômeno da transexualidade passou, no âmbito jurídico, a partir dos anos 1990, saindo do
Direito Penal que condenava a cirurgia de transgenitalização para integrar o debate sobre um
“direito humano à saúde” não promoveu a autonomia dos sujeitos transexuais. Conforme venho
tentando demonstrar desde o início deste trabalho, especialmente nos capítulos dois e três,
afirmo que esta alteração na forma de interpretar a questão a partir do dever humanitário do
Estado de promover o bem estar dos cidadãos não representou nenhuma grande mudança
quanto à promoção da autonomia dos sujeitos. As pessoas transexuais permanecem enredadas
no dispositivo da transexualidade. Ventura busca, também, pontuar como uma argumentação
centrada principalmente na defesa deste direito encontra uma série de limitações:

Os avanços obtidos se situam no restrito terreno do dever do Estado de


assistência à saúde do cidadão, limitado ao fornecimento dos meios e
recursos necessários para minimizar os efeitos de uma doença,
incluindo-se a alteração da identidade sexual como um dos recursos
terapêuticos. Isso significa afirmar que não se reconhecem a ampla
autonomia pessoal em relação ao próprio corpo, que permitiria o livre
acesso às transformações corporais desejadas, ou o direito à
autodeterminação de identidade sexual por meio da prática das
transformações corporais (Ventura, 2010, p. 91).

Se, por um lado, a manutenção da patologização da transexualidade representa o não


reconhecimento da autonomia das pessoas transexuais, por outro, a despatologização “pura e
simples” traz uma série de riscos, pois, como salientado por Almeida e Murta (2013), as
políticas públicas voltadas para a assistência de pessoas transexuais são construídas tendo como
base a categoria nosológica da “disforia de gênero”. Nas palavras dos autores:

Despatologizar tão somente, sem ter as condições de


manutenção/ampliação do acesso ao SUS em perspectiva é avançar em
direção ao passado, reiterando a histórica exclusão deste público dos
modelos de atenção em saúde disponíveis. (Almeida e Murta, 2013, p.
404).

No âmbito do NUDIVERSIS, o direito à saúde é citado em alguns pontos da petição


inicial elaborada pelas profissionais do núcleo, muitas vezes descrito como fundamental para o

138
desenvolvimento do sujeito. Contudo, do mesmo modo que os direitos sexuais, o direito à saúde
não aparece isolado, sendo conectado, principalmente, ao dever do Estado de promover a
cidadania e de se comprometer com a defesa do Princípio da Dignidade da Pessoa Humana,
como podemos verificar nos exemplos a seguir:

Assim é que o direito à vida, o direito à integridade psicofísica e o direito à saúde


constituem o trinômio que informa o livre desenvolvimento da personalidade e a
salvaguarda da dignidade do ser humano, traduzindo-se, finalmente, no exercício da
cidadania. (Modelo de Petição Inicial, grifos no original)

Inclui-se entre os princípios de Yogyakarta o direito ao padrão mais alto alcançável de


saúde, que aconselha o grau mais elevado de saúde, seja mental ou física, como direito
subjetivo do indivíduo, tendo a saúde sexual como aspecto fundamental e intrínseco deste
direito e definindo como obrigação estatal facilitar o acesso daquelas pessoas que estão
buscando modificações corporais relacionadas à redesignação de sexo/gênero, ao
atendimento, tratamento e apoio competentes e não discriminatórios. (Modelo de Petição
Inicial, grifos no original).

A superação das barreiras e limitações impostas por um discurso sobre direito à saúde
só pode ser alcançada na medida em que a concepção de saúde é alargada e deixa de designar
apenas a ausência de doenças, mas sim o bem estar do corpo e da mente. A ideia de bem estar
defendida nas petições iniciais elaboradas pelas profissionais do NUDIVERSIS encontra-se
articulada à noção de dignidade, a qual, por sua vez, reflete o pleno exercício da cidadania.

A saúde, muito embora venha assegurada fora do rol exemplificativo do art. 5º, da Lei
Magna, é garantia de extrema importância, posto que sua pedra angular é o próprio
princípio da dignidade da pessoa humana, o qual não apenas consiste em um dos
fundamentos do Estado Democrático de Direito, como consagra expressamente o art. 1º,
mas também caracteriza o cerne axiológico de todo o ordenamento jurídico. (Modelo de
Petição Inicial, grifos no original)

[...] uma vez negado o presente pleito, condenar-se-á a Autora a um ininterrupto e profundo
sofrimento – penalizando-a pela ineficiência do Estado em prover os serviços de saúde
essenciais, uma vez que o Transtorno de Identidade de Gênero inscreve-se no CID-10
(através do Código F64) e o Ministério da Saúde oferece, pelo menos no plano do dever-
ser, o tratamento adequado à “patologia”. (Modelo de Petição Inicial, grifos no original)

Em suma, apesar de aparecer mencionado em vários documentos internacionais de


direitos humanos que tratam dos direitos de pessoas transexuais, o “direito à saúde” não é
protagonista da argumentação desenvolvida pelos profissionais do NUDIVERSIS. A seção “do
direito à saúde pública” não figura nas petições iniciais de requalificação civil de pessoas
transexuais, mas somente nas que se destinam à aquisição gratuita de determinados
139
medicamentos, como hormônios ou inibidores da produção destes. O discurso sobre o caráter
terapêutico das alterações de nome e sexo no registro civil – conforme apontado nas pesquisas
feitas por Zambrano (2005) Ventura (2010) e Teixeira (2013) – fica ofuscado pelo dever moral
de minimização do sofrimento e promoção da dignidade e da cidadania, como será abordado
na subseção seguinte.

Pelo direito à vida digna: a política da compaixão e os deveres morais como estratégias de
legitimação da demanda por requalificação civil

Conforme o título do capítulo sugere e como demonstrado na subseção anterior, o direito


à dignidade aparece nas petições iniciais como a principal via de argumentação para que o
pedido de alteração do registro civil de pessoas transexuais seja atendido. Ainda que as análises
feitas neste trabalho não se orientem por um viés quantitativo, gostaria de chamar atenção para
o fato de que a palavra “dignidade” aparece 34 vezes no modelo de petição inicial. Levando em
consideração que este possui 36 páginas, há uma média de quase uma menção por página.
As alegações apresentadas nestas peças processuais extrapolam, de certa forma, a
dimensão normativa positivada ao construir uma série de apelos emocionais e deveres morais
tendo como fundamento o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana. Em outras palavras, no
contexto dos processos judiciais envolvendo transexuais, tal discurso não se limita a defesa de
um princípio jurídico previsto na Constituição Federal, mas também fala sobre um modo de
fazer política que pode ser eficaz em um dado quadro da economia moral contemporânea
(Fassin, 2012).

A Constituição de 1988, no Título I, ao tratar dos princípios fundamentais que norteiam a


República Federativa do Brasil, destaca, no art. 1º, inc. II e III, a valorização da cidadania
e da dignidade da pessoa humana, elegendo, desta forma, valores humanitaristas como
alguns dos princípios objetivos do Estado e da Sociedade. Assim, é que a obrigação de
garantir o bem-estar do cidadão, zelar por sua dignidade e pelo livre desenvolvimento de
sua personalidade, encontram amparo constitucional. (Modelo de petição inicial, grifos no
original)

Hodiernamente, se prevê que levariam mais de dez anos para que a integralidade dos
pacientes inscritos no Programa de Transgenitalização do HUPE seja atendida. Deste
modo, não se pode vincular o deferimento da alteração de registro civil da Requerente à
realização de procedimento cirúrgico de reconstrução genital (neocolpovulvoplastia) – sob

140
pena de postergar-se por longo período de tempo o sofrimento e os constrangimentos
cotidianos que a Autora é compelida a passar. (Modelo de petição inicial)

Como aparece explicitado na primeira citação extraída do modelo de petição inicial, a


Constituição Federal de 1988, também conhecida como Constituição Cidadã, é representativa
da incorporação de “valores humanitaristas” nas normativas legais brasileiras, inaugurando
novas formas de imbricação entre moral e política. Para compreender o modo pelo qual a defesa
do Princípio da Dignidade da Pessoa Humana se torna um discurso politicamente eficaz é
preciso fazer uma digressão teórica um tanto longa, que tem por objetivo evidenciar as conexões
que estabeleço entre empatia, política da compaixão, valores morais, governo humanitário e
direitos humanos. Ou ainda, para demonstrar como política, emoções e moralidades se
combinam nas petições iniciais para legitimar o direito à requalificação civil de pessoas
transexuais.
De acordo com Fassin (2012), os sentimentos morais se tornaram uma força essencial
nas políticas contemporâneas. Tais sentimentos morais conectam afetos e valores na produção
daquilo que o autor nomeia por política da compaixão, característica do governo humanitário.
O sentido de “governo” no referido conceito possui uma inspiração foucaultiana e se refere às
formas de gestão de populações; já o termo “humanitário” possui um duplo significado:
enquanto espécie – ou seja, seres que compartilham um mesmo tipo de organismo biológico –
e enquanto sentimento de pertencimento a uma mesma comunidade moral – a humanidade.
O argumento exposto por Fassin afirma que o desenvolvimento de uma forma de gestão
baseada em valores humanitários está associado a uma nova economia moral que rege os modos
de fazer política. O surgimento desta nova economia moral tem a ver com as mudanças nos
sentidos atribuídos à violência e à injustiça, alterando, assim, o modo pelo qual determinadas
situações são investidas de significados. O governo humanitário é caracterizado pela aplicação
de uma mesma razão humanitária em cenários variados, uma vez que todos eles “necessitam”
de algum tipo de intervenção. Neste sentido, as três cenas humanitaristas paradigmáticas são as
marcadas por epidemias, desastres naturais e conflitos políticos.
De acordo com o autor, a evolução do humanitarismo como modo de governo se deu
em duas temporalidades distintas: uma mais longa e antiga, que se refere à emergência dos
sentimentos morais no Ocidente a partir do século XVIII, sendo o movimento abolicionista um
marco no início da cristalização destes sentimentos na ordem política; e outra mais curta e
recente, que remete ao final do século XX e a criação de organizações orientadas por valores
humanitários.

141
A despeito de Fassin não abordar diretamente a relação entre “governo humanitário” e
“direitos humanos”71, o desenvolvimento de uma política orientada por preceitos humanitários
está entrelaçado com a expansão, disseminação e consolidação de uma linguagem de direitos
humanos. Segundo Wilson e Mitchell (2003), o surgimento da retórica dos direitos humanos
tem como marcos históricos os Julgamentos de Nuremberg e o fim da Guerra Fria. Entretanto,
os debates sobre direitos humanos só ganharam força a partir da segunda metade dos anos 1990,
com a multiplicação de instituições jurídicas internacionais.
Contudo, mais interessante que traçar os marcos históricos do desenvolvimento da
linguagem dos direitos humanos, é compreender as condições de emergência deste discurso, as
transformações que este provocou na paisagem moral global e os processos que levaram a sua
consolidação enquanto uma linguagem politicamente eficaz. Um trabalho cujas questões
centrais eram exatamente estas foi feito pela historiadora Lynn Hunt, autora de A Invenção dos
Direitos Humanos.
De acordo com Hunt (2009), os direitos humanos possuem um aspecto autoevidente que
está ligado à três qualidades fundamentais de direitos deste tipo: naturalidade, igualdade e
universalidade. A proposta da autora é apresentar a história da afirmação desta autoevidência a
partir do século XVIII. Neste sentido, a consolidação dos direitos humanos ocorre a partir de
dois processos distintos: a crescente individualização promovida pela expansão de ideologias
liberais, a qual é indispensável para a atual concepção de “sujeito de direitos”, que é sempre um
indivíduo autônomo; e as mudanças nos patamares de sensibilidade proporcionadas pela
alteração dos valores morais. Segundo a autora, tal mudança de sensibilidade está ancorada no
desenvolvimento da empatia promovido pelas publicações de romances epistolares e que
encontra expressão no movimento pela abolição da tortura como forma de punição aos
criminosos. Em suas palavras:

Meu argumento depende da noção de que ler relatos de tortura ou


romances epistolares teve efeitos físicos que se traduziram em
mudanças cerebrais e tornaram a sair do cérebro como novos conceitos
sobre a organização da vida social e política. Os novos tipos de leitura
(e de visão e audição) criaram novas experiências individuais (empatia),
que por sua vez tornaram possíveis novos conceitos sociais e políticos
(os direitos humanos). (Hunt, 2009, p. 32)

71
Um dos poucos momentos em que Fassin (2012) escreve sobre “direitos humanos” na introdução de seu livro é
para destacar o aparente paradoxo que há na utilização de uma “retórica sobre direitos humanos” para justificar
práticas de exceção efetuadas no cenário político contemporâneo.

142
A localização do papel da empatia é fundamental para a compreensão do modo pelo
qual a política da compaixão adquiriu protagonismo no cenário político atual. Como escrito por
Garber (2004), as últimas décadas presenciaram um significativo crescimento da associação da
compaixão com questões ligadas aos direitos humanos e uma centralização desta emoção nas
formulações políticas de Organizações Não Governamentais (ONGs) globais. Uma das
preocupações da autora é distinguir compaixão e benevolência, uma vez que a compaixão é
sempre benevolente, mas a benevolência nem sempre é compassiva. Deste modo, ter compaixão
implica compartilhar do sofrimento do outro por meio da empatia; enquanto ser benevolente
significa somente “querer bem ao outro”. Além disso, Garber argumenta que o trabalho da
compaixão é promover um tipo de “justiça” e, por conta disso, “a compaixão parece oscilar
entre duas formas de desigualdade: a benevolência daqueles que têm (o poder do rico) e o direito
daqueles que precisam (o poder do pobre)”72 (p. 25, tradução livre).
Berlant (2004), por sua vez, ressalta que não existe uma noção fechada daquilo que pode
ser classificado ou conceituado como compaixão, exceto que tal sentimento “implica uma
relação social entre espectadores e sofredores, com a ênfase na experiência do espectador de
sentir compaixão e a subsequente relação com a prática material”73 (p. 1, tradução livre). Do
mesmo modo que Garber, Berlant também sugere que o sentimento de compaixão emerge da
necessidade de concretização de um determinado ideal de justiça. Assim, “fazer justiça” implica
a avaliação dos sofrimentos na busca por uma solução adequada, a qual é sempre perpassada
pelas relações de poder entre aqueles que são compassivos e aqueles que despertam a
compaixão.
A autora critica as análises que colocam as “boas intenções” como a essência da
compaixão – como sugerido por Garber. Neste sentido, Berlant propõe que uma das formas de
compreender a compaixão é encará-la como um tipo de tecnologia social e estética do
pertencimento à humanidade, a qual é característica das sociedades orientadas por princípios
morais influenciados pelo liberalismo. Seguindo esta ideia, ela enfatiza também o lugar da
compaixão na subjetividade moderna ao se transformar em uma medida de valor dos indivíduos.

72
No original: “Compassion seems to waver politically between two forms of inequality: the benevolence of those
who have (the power of the rich) and the entitlement of those who need (the power of the poor)” (Garber, 2004, p.
25).
73
No original: “There is nothing clear about compassion except that it implies a social relation between spectators
and sufferers, with the emphasis on the spectator’s experience of feeling compassion and its subsequent relation
to material practice” (Berlant, 2004, p. 1)

143
A compaixão é também um dos temas de Didier Fassin (2012). Ao analisar os pedidos
de legalização de residência na França de imigrantes enfermos, o autor propõe o conceito de
protocolo da compaixão, em uma analogia ao jargão médico que postula “protocolos de
atendimento”. Os apelos contidos nos formulários preenchidos e nas narrativas apresentadas se
dão através da empatia e do reconhecimento de um sentimento de humanidade. Do mesmo
modo que as petições iniciais apresentadas pelas pessoas transexuais são julgadas por um juiz,
os formulários pleiteando direito de residência são avaliados por médicos. Em ambos os casos,
instaura-se uma figura que representa um poder-saber e que tem autoridade para determinar se
tais demandas são ou não legitimas de serem atendidas.
Sobre os processos de julgamento dos casos que merecem ter seu sofrimento aliviado,
Berlant (2004) argumenta que compaixão e frieza são os dois lados desta mesma avaliação,
sempre baseada em um senso moral do que é “certo e justo”. Por outro viés, Boltanski (1999)
discute a mesma questão: a legitimação – e consequente hierarquização – dos sofrimentos que
“contam”, que são dignos de se transformarem em causas políticas. Segundo o autor, a
construção da política do sofrimento depende de uma economia específica entre o individual e
o geral, em como um drama singular se transforma em um exemplo de um mal mais amplo que
pode afetar a todos. Tais situações engendram uma fabricação contínua de zonas morais ao
focarem na dimensão do merecimento – quem pode e quem não pode ter seu “sofrimento
aliviado”. Tais avaliações são afetadas pela capacidade dos “espectadores” de serem
compassivos com a dor alheia e, em última instância, demonstram a produção de coletividades
através do compartilhamento de um sentimento em comum.
A questão que cruza todas as obras citadas é a empatia, ou seja, a capacidade de se
reconhecer no outro ou, ao menos, de perceber o outro como igual e possivelmente se identificar
com seu sofrimento. Em suma, é necessário que haja uma linguagem moral compartilhada para
que o sofrimento se torne inteligível. Tal reconhecimento está na base dos direitos humanos e
é condição fundamental de instituição da política da compaixão.
A defesa do Princípio da Dignidade da Pessoa Humana se insere neste cenário ético e
político em que a obrigação moral de ser compassivo é acionada estrategicamente para que o
pedido de alteração do registro civil de pessoas transexuais seja atendido por Juízes e
Promotores. As considerações morais contidas nas petições iniciais falam basicamente do dever
dos operadores do Direito, enquanto pertencentes a uma mesma “humanidade” que as pessoas
transexuais, de se solidarizar com as situações de discriminação vivenciadas constantemente
pelas/os assistidas/os e, consequentemente, de se engajar em medidas que têm por objetivo
aplacar o sofrimento destes sujeitos. Assim, tais colocações fabricam a imbricação entre
144
política, moralidade e apelos sentimentais, a qual fica clara em diversos pontos das peças
processuais formuladas pelas operadoras do Direito que atuam no NUDIVERSIS, como
podemos verificar nas seguintes passagens:

Todos os operadores do Direito que lidam com a presente demanda devem ter em mente
que o influi de forma decisiva na efetivação da cidadania e dignidade deferimento
deste pleito da Requerente, uma vez que é direito da mesma ser reconhecida socialmente
pelo nome com o qual se identifica. (Modelo de petição inicial, grifos no original)

Uma vez constatado que o indivíduo exibe síndrome informadora de incongruência entre
sexo gonadal e gênero social na determinação de seu sexo civil, e que se adapta mais a sexo
diverso daquele constante de seu assentamento de nascimento, compete ao juiz deferir o
pedido de retificação atentando a princípios de equidade e isonomia e ao direito que
todo o ser humano tem à sua integridade psicofísica e, principalmente, ao princípio
da dignidade da pessoa humana, fundamento da República Federativa do Brasil, a teor
do artigo 1º da Constituição Federal, que se apresenta como norte interpretativo e finalístico
para todas as regras vigentes do sistema legal brasileiro. (Modelo de petição inicial)

A eficácia da retórica fundamentada no Princípio da Dignidade da Pessoa Humana a


partir do acionamento da compaixão pode ser compreendida também a partir da noção de
micropolítica das emoções proposta por Rezende e Coelho (2010). Segundo as autoras, as
emoções possuem uma

capacidade para dramatizar, reforçar e alterar as macrorrelações sociais


que emolduram as relações interpessoais nas quais emerge a
experiência emocional individual. É assim, então, que as emoções
surgem perpassadas por relações de poder, estruturas hierárquicas ou
igualitárias, concepções de moralidade e demarcações de fronteiras
entre grupos sociais. (Rezende e Coelho, 2010, p. 78).

Antes de mais nada, é preciso lembrar que a emergência da compaixão é sempre


perpassada por uma relação de poder entre aquele que sofre e aquele que se comove. Neste
sentido, o “apelo empático” contido nas petições iniciais refletem não apenas as relações de
poder marcadamente desiguais entre aqueles que são julgados e aqueles que julgam, mas
também os princípios morais que regem a vida em sociedade.
Para amarrar o raciocínio que procurei desenvolver nesta subseção, remeto às conexões
entre o “fazer político” e a “micropolítica das emoções” proposta por Vianna (2013). Para a
autora, a articulação entre estas duas dimensões, que a princípio não são percebidas como
semelhantes, se dá no plano da reivindicação de direitos. Em outras palavras, a circulação entre

145
linguagens “do sofrimento e da objetivação política torna-se possível e eventualmente eficaz
porque se dá em um campo intrinsecamente polissêmico, o dos ‘direitos’” (Vianna, 2013, p.
28). Em outro texto, Vianna (2012) argumenta que o discurso sobre direitos sexuais centrado
nos sujeitos movimenta uma práxis político-afetiva. Entretanto, tal centralidade apaga as
“causas” ao focar no “merecimento” como uma justificativa moral para o acesso aos direitos,
ponto que será retomado na última seção deste capítulo.
Por fim, destaco que se há uma “obrigação moral” de engajamento, a recusa de tal
comprometimento e/ou a não preocupação com a violência cotidiana que atinge as pessoas
transexuais implica uma acusação mais ou menos implícita de “contaminação moral” dos
Juízes, os quais deveriam – idealmente – proferir sentenças neutras, imparciais e em sintonia
com os “direitos humanos”. Passemos agora a este outro lado da discussão.

Do outro lado do muro: as acusações de “contaminação moral” dos juízes que negam os
pedidos de requalificação civil

Esta subseção pretende evidenciar um aspecto verificado nas petições iniciais


elaboradas pelos operadores do Direito que, à primeira vista, pode parecer paradoxal. Se, por
um lado, conforme abordado anteriormente, há uma série de apelos morais e emocionais
utilizados para reconhecer como “justa” a demanda pela alteração de prenome e sexo no registro
civil de pessoas transexuais; por outro, a possibilidade de negação de tal pleito é inscrita a partir
de uma série de considerações e acusações de uma espécie de “contaminação moral” dos
responsáveis pelo julgamento. Deste modo, meu objetivo aqui é apresentar como a moralidade
em torno das noções de “humanidade” e “humano” são acionadas em distintas partes das peças
vestibulares como uma estratégia para a efetivação do direito a alteração dos documentos civis
das pessoas transexuais.

Inicialmente, impende evidenciar que, no Direito Pátrio, não há norma proibitiva com
relação ao tema. Óbices derivam, sobretudo, de considerações de cunho moral, religioso
e social que partem, evidentemente, de suposições preconceituosas e de um total
alheamento a questões que afligem tão dramaticamente os seres humanos portadores de
deficiências ou características que os tornem diferentes dos demais. (Modelo de petição
inicial, grifos no original)

A Lei de Registros Públicos, diploma específico, é omisso, sendo certo que as decisões até
agora prolatadas trazem como fundamento considerações de ordem moral ou religiosa, no

146
sentido de desconsiderar os avanços no campo da pesquisa científica. Como negar ao
transexual uma vida digna?! Uma identidade que realmente o espelhe?! Como livrá-lo da
execração preconceituosa?! (Modelo de petição inicial)

De acordo com as proposições de Boltanski (1999), é possível compreender os


argumentos que buscam demonstrar aquilo que estou chamando aqui de “contaminação moral”
como uma forma de exposição do “caso” que o autor denomina por denúncia. Para Boltanski,
a eficácia de uma denúncia está ligada à correta disposição de três elementos: as vítimas, os
sujeitos que sofrem algum infortúnio; os espectadores engajados, as pessoas moralmente
comprometidas em denunciar uma determinada mazela ou violação; e os perpetradores, aqueles
que são acusados de causar o sofrimento das vítimas. Neste sentido, as críticas feitas à negação
dos pedidos de alteração do registro civil de pessoas transexuais assumem a forma de uma
denúncia na medida em que os sujeitos envolvidos nos casos são posicionados da seguinte
maneira: transexuais como vítimas, defensores públicos como espectadores engajados e juízes
que negam os pedidos e promotores que recorrem de decisões de procedência, senão como
perpetradores, ao menos como coniventes com os causadores do sofrimento que aflige as
pessoas transexuais. Esta disposição dos elementos fica evidente nos seguintes trechos do
modelo de petição inicial:

A partir do momento em que uma ciência como o Direito, a qual tem um poder de influência
imenso nos comportamentos humanos, se abstêm de tutelar os interesses de indivíduos
invisíveis socialmente, os operadores do Direito tornam-se não somente omissos nos
processos cotidianos de violação dos direitos da personalidade das quais os transexuais e
travestis são vítimas, mas passam a ser agentes violadores dos direitos de tais grupos
populacionais. (Modelo de petição inicial)

Para os que consideram um caso, como o dos autos, uma violação às regras sociais,
pergunta-se: a Requerente deveria ser mantida como pária social, recebendo uma punição,
não escrita na lei, ditada aparentemente pela moral e pelos bons costumes, mas
substancialmente pelo preconceito e pelo temor de servir de estímulo a tais transformações?
(Modelo de petição inicial)

O último trecho transcrito vem logo após a citação de uma sentença na qual um juiz
negou o pedido de requalificação civil de uma mulher transexual. Nota-se que, além da
“contaminação moral”, tais discursos acusam aqueles que negam tais pedidos de “agentes
violadores de direitos” – reforçando o caráter de “denúncia” de tal modo de argumentação –,
ora de forma implícita, como nas perguntas retóricas; ora de forma direta, como na primeira
citação transcrita nesta subseção.

147
Além da ideia de “denúncia” proposta por Boltanski, estes trechos das petições iniciais
que visam construir as acusações de “contaminação moral” podem também ser lidos a partir da
apropriação da noção de retórica emocional74 proposta por Geoffrey White (1990), uma vez
que, “a expressão de uma emoção torna-se um pronunciamento ou uma reclamação (geralmente
implícita) sobre o modo como as coisas são ou, mais significativamente, como elas deveriam
ser”75 (p. 49, tradução livre). O autor empreende um esforço no sentido de evidenciar como
um discurso sobre emoções veicula uma espécie de linguagem moral. Assim, White propõe
duas ideias fundamentais: 1) a capacidade dos movimentos retóricos de transformarem
realidades socioemocionais; e 2) o potencial do discurso emocional de falar um “idioma moral”.
Estas colocações podem ser úteis para a análise do modo pelo qual os apelos emocionais são
construídos nos processos de requalificação civil de pessoas transexuais, pois, é através do
discurso fundamentado no Princípio da Dignidade da Pessoa Humana que há um acionamento
da empatia, a qual figurará como base da compaixão e instituirá um tipo de dever moral de
amenização do sofrimento vivenciado por transexuais.
Em resumo, busquei evidenciar nesta segunda seção do capítulo como os modos de
argumentação contidos nas petições iniciais escritas pelas profissionais do NUDIVERSIS
operam um embate entre dois tipos radicalmente distintos de moralidades, uma “tradicional” e
outra “humanitária”. Em outras palavras, proponho que as considerações e enunciados
presentes nas petições iniciais analisadas sejam vistas como formas de afastar aquilo que
poderia ser considerado como uma “moralidade tradicional”, a qual considera a transexualidade
como uma espécie de transgressão moral que, se não pode ser judicialmente condenada, ao
menos não transforma as pessoas transexuais em “merecedoras de direitos”; ao mesmo tempo
em que tentam implantar outra ordem moral, uma baseada na razão humanitária e no
compromisso com a defesa dos direitos humanos de sujeitos socialmente vulneráveis. Cabe
ainda reiterar que este embate entre moralidades reflete as tensões originadas pelo
reposicionamento da transexualidade em um plano ético-moral. Conforme abordado na
introdução deste trabalho, a “descriminalização” da cirurgia de transgenitalização acompanhou
um movimento que fez com que a transexualidade deixasse de ser vista como um “desvio
moral” e passasse a ser considerada um transtorno mental que acomete “sujeitos inocentes”.
Tal reposicionamento pode acarretar na vitimização das pessoas transexuais, como discutirei a
seguir.

74
Emotion Talk no original.
75
No original: “an expression of emotion becomes a pronouncement or claim (often implicit) about the way things
are or, more significantly, the way they ought to be.” (White, 1990, p. 47).

148
4.3 “Sofro, logo tenho direitos”: a vitimização e o “acesso aos direitos”

Nesta seção, busco costurar as duas anteriores por meio da construção de um raciocínio
sobre a produção de uma forma de reivindicação de direitos que tem como base a figura de um
sujeito vulnerável, o qual é, consequentemente, uma vítima sofredora que necessita de ajuda
para aliviar suas dores. Em outras palavras, busco expor de que modo a linguagem dos direitos
humanos e a ética humanitária são contemporaneamente apropriadas por um discurso que
demanda um direito à reparação de um dado sofrimento.
No caso das pessoas transexuais, o acesso à “terapia de mudança de sexo” e,
consequentemente, a todos os direitos contidos neste processo – mudanças corporais, alterações
de prenome e sexo no registro civil, etc. – só é concedido àquelas que são classificadas como
“verdadeiramente transexuais”, ou seja, os indivíduos que possuem documentos que
comprovem tal condição. Ao chegar à sala de espera da Defensoria Pública, uma das primeiras
perguntas feita a uma/um assistida/o é se ela/e possui algum laudo psiquiátrico e/ou psicológico
que ateste a transexualidade.
Lembrando que a “disforia de gênero” constitui, no discurso médico-psiquiátrico, um
tipo de transtorno mental marcado por uma série de sofrimentos nos planos psíquico e social,
logo, a promoção de direitos está intimamente ligada à condição de vitimização das pessoas
transexuais, cuja produção foi demonstrada na primeira seção deste capítulo. O reconhecimento
de determinados sujeitos como vítimas implica uma obrigação moral dos atores sociais de
agirem em favor de tais sujeitos, como abordado na seção anterior. Todos os elementos até
agora discutidos – isto é, vulnerabilidade, vitimização, empatia, compaixão e dever moral de
atuação dos operadores do Direito – encontram-se condensados na seguinte passagem do
modelo de petição inicial:

Contudo, é notório que os transexuais há muito vêm sendo vítimas de discriminação e


represálias. Ora, um direito à intimidade, protegido constitucionalmente abrange,
necessariamente, a tutela do interesse das minorias que, por serem minorias, enfrentam
maiores dificuldades de exercer com plenitude seus direitos, a demandar atuação pronta e
sensível do Poder Judiciário, que, nesse aspecto, atua como guardião da democracia e do
Estado de Direito. (Modelo de petição inicial, grifos meus)

Apesar de trabalhar no registro do sofrimento e da vitimização associados às


experiências de violência física atendidas em um contexto hospitalar, os escritos de Sarti (2009)
podem ser apropriados para pensar o encadeamento do “acesso aos direitos” à condição de

149
reconhecimento enquanto vítima de uma violência, um infortúnio, uma doença ou qualquer
outra forma de sofrimento. A autora explora o nexo entre uma categoria diagnóstica, o stress
pós-traumático, e uma categoria social, a vítima. Esta relação entre vítima e trauma, trabalhada
também no já citado estudo de Fassin e Rechtman (2009), coloca os psiquiatras – uma
autoridade detentora de um poder-saber – em uma posição de indispensabilidade, pois são estes
que possuem a legitimidade necessária para atestar, com eficácia, a condição de vítima de
alguém. No marco da expansão do discurso do “direito à saúde” – entendido não apenas como
um “direito” do cidadão, mas, em muitos casos, como uma obrigação de ser saudável 76 – e ao
bem-estar, “a vítima ganha reconhecimento e se afirma por meio dos seus ‘direitos’” (Sarti,
2009, p. 100).
Em outro artigo, Sarti (2011) elabora melhor a politização da figura da vítima e sugere
que a vitimização seja encarada como um processo de reconhecimento social do sofrimento e
de legitimação moral das demandas por direitos de certos grupos identitários. Nas palavras da
autora:

A noção de vítima configura, assim, uma maneira de dar inteligibilidade


ao sofrimento de segmentos sociais específicos, em contextos históricos
precisos, que se produzem ou são produzidos como tal, conferindo
legitimidade moral às suas reivindicações (Sarti, 2011, p. 54).

No caso das petições iniciais aqui analisadas, proponho que a vitimização produzida
pelos relatos de violência e discriminação contidos no tópico “dos fundamentos fáticos” da ação
tem por objetivo legitimar a necessidade de alteração do registro civil das pessoas transexuais
não apenas em um plano jurídico-formal, mas também em um plano ético-moral.
Uma observação que a autora faz é que a produção da vítima tende a essencializar os
sujeitos e cristalizar as identidades, dando visibilidade a determinados indivíduos e/ou grupos
e invisibilizando outros (Sarti, 2009 e 2011). Esta homogeneização dos sujeitos e das
experiências também foi descrita por Fonseca e Cardarello (1999) como um dos efeitos da
produção de discursos sobre determinados sujeitos de direitos, conforme já discutido no
primeiro capítulo. O processo de definição da/o “verdadeira/o transexual” reproduz esta prática
ao visibilizar determinadas experiências e legitimar as demandas de algumas pessoas – aqueles

76
A tensão entre “direito à saúde” e “obrigação de ser saudável” remete às proposições de Foucault sobre
biopolítica, regime disciplinar e construção de corpos produtivos no interior de um modelo econômico capitalista
e podem render uma interessante discussão sobre quais os objetivos do modelo de cidadania que é previsto pela
“terapia de mudança de sexo”. Este assunto será abordado, em parte, na próxima seção.

150
que adquirem o laudo da disforia de gênero –; ao mesmo tempo que nega o direito às
transformações solicitadas por aquelas que não se encaixam no modelo previsto, reforçando o
apagamento da figura das travestis.
Outro ponto que merece ser ressaltado é que, segundo Sarti (2011), no campo da saúde,
a circunscrição da vítima implica também a circunscrição do sofrimento e do cuidado que lhe
corresponde. Estendo as proposições da autora para a esfera judiciária na medida em que
verifico que existe um modelo de procedimentos de assistência – ou até mesmo um protocolo
da compaixão –, o que encaro como uma repetição da situação descrita pela autora no trabalho
de campo por mim empreendido. Tal reflexão dialoga com a produção de Bento (2004 e 2006)
sobre o dispositivo da transexualidade, principalmente se levarmos em consideração que tal
dispositivo aprisiona os sujeitos não só em uma patologia específica, o “transexualismo” ou
“disforia de gênero”; como também oferece como uma única forma de tratamento, a “terapia
de mudança de sexo”, a qual compreende um conjunto de procedimentos que só pode ser
adotado em sua totalidade. Deste modo, a autonomia – um dos valores tido como fundamentais
para a efetivação dos chamados direitos humanos – da pessoa transexual fica limitada à procura
dos serviços, seja os programas transexualizadores, seja a Defensoria Pública. Após ser inserido
na “máquina da cidadania”, o indivíduo precisa se adequar às normativas tanto médicas, quanto
jurídicas.

4.4 “Todos são iguais perante a lei”: sobre modelos, apagamentos e homogeneizações

O termo máquina que consta no título desta dissertação possui uma dupla referência:
por um lado, este remete à expressões amplamente difundidas no senso comum de “máquina
burocrática” ou “máquina do Estado”, as quais insinuam que tanto a burocracia quanto o Estado
são entidades autônomas que possuem um modo próprio de funcionar que independe de seus
operadores; por outro, uma máquina remete ao universo das fábricas e da produção em escala
industrial, em que determinados equipamentos fabricam e/ou montam coisas idênticas e
funcionais de um modo rápido e padronizado. É a partir destas referências que compreendo o
NUDIVERSIS como uma “máquina de produzir cidadãs/ãos” no que se refere ao atendimento
à demanda por requalificação civil de pessoas transexuais. Para encerrar este capítulo, retomo
alguns dos fios puxados ao longo da dissertação para dar a ver aquilo que pode ser considerado
como a face perversa do maior chavão do “direito à igualdade” contido no artigo 5º da

151
Constituição da República Federativa do Brasil de 1988: “Todos são iguais perante a lei, sem
distinção de qualquer natureza”.
A modelização de procedimentos de assistência, o apagamento das singularidades e
subjetividades e a homogeneização das experiências de sofrimento foram sinalizados em vários
pontos deste trabalho, desde o seu início. No primeiro capítulo, estes assuntos aparecem
entremeados pelo debate sobre a constituição da dita “população LGBT” e a produção de
solidariedades políticas entre os diferentes sujeitos que compõem as letras deste movimento.
No segundo capítulo, estas questões aparecem com mais evidência quando trato dos limites
daquilo que pode figurar nos relatórios de primeiro atendimento elaborados durante a entrevista
feita pelas profissionais do núcleo. Contudo, o modelo dos procedimentos de assistência
também podem ser percebidos na organização das peregrinações burocráticas. No terceiro
capítulo, a homogeneização e o apagamento ganham forma através da metáfora do mosaico
utilizada para descrever como os documentos constroem sujeitos muito específicos. Neste
quarto e último capítulo, estes aspectos atingem seu ápice, pois tratei aqui exatamente de um
modelo de petição inicial, cujas alterações se resumem, basicamente, ao nome da/o autora/or e
alguns relatos mais marcantes apresentados como “fundamentos fáticos” no processo.
Ademais, estas mesmas questões aparecem de variadas maneiras nas pesquisas que
abordam o fenômeno da transexualidade. De acordo com Bento (2006), a generalização da
experiência transexual oculta as estratégias de poder e controle que produzem um suposto
sujeito universal. O dispositivo da transexualidade, ao postular a existência da/o “verdadeira/o
transexual”, ignora a multiplicidade de transexualidades existentes. Já Ventura (2010) discute
como a regulamentação do processo transexualizador pelo Conselho Federal de Medicina
(CFM) reproduz uma lógica de dominação que retira a autonomia das pessoas transexuais no
que concerne às intervenções corporais, que fica restrita a busca pelo “tratamento”. No âmbito
jurídico, Zambrano (2005) verifica que somente os sujeitos que realizaram as modificações
corporais dentro dos critérios estabelecidos pelo CFM podem requerer a alteração do registro
civil, negando este direito aos indivíduos que não seguem por esse caminho, como por exemplo,
as pessoas que fizeram a cirurgia de transgenitalização em outro país. Teixeira (2013), por sua
vez, demonstra de que forma o cumprimento dos protocolos estabelecidos pelo programa de
transgenitalização silencia as construções subjetivas da experiência transexual.
Com base nas análises e discussões até aqui apresentadas, proponho que a
homogeneização acarretada pelos procedimentos de assistência que envolvem a requalificação
civil de pessoas transexuais seja vista como um desdobramento da política da compaixão. Esta
forma de fazer política, baseada no apelo aos deveres morais dos operadores do Direito,
152
centraliza as narrativas de sofrimentos, gerando uma presunção das experiências de violência
e/ou discriminação. Deste modo, tal estratégia de legitimação da demanda das pessoas
transexuais sexuais acarreta um quase que completo apagamento das singularidades e trajetórias
dos sujeitos ao produzir a homogeneização das experiências de sofrimento. Reitero que, ao
apresentar tal homogeneização, não pretendo afirmar que as pessoas transexuais não possam
compartilhar de episódios comuns de discriminação, mas sim demonstrar como a política da
compaixão aprisiona os sujeitos na figura de “vítimas”. É neste sentido que compreendo tais
práticas institucionais como uma “máquina de cidadania”, ou ainda, como parte do dispositivo
da transexualidade proposto por Bento (2006).
Por fim, gostaria de apresentar uma hipótese sobre o “modelo de cidadania” que é
oferecido na esteira da “terapia de mudança de sexo”. Sugiro que tal modelo tem por objetivo
integrar as pessoas transexuais em um circuito de bens e consumo característico de regimes
capitalistas, especialmente se levarmos em consideração todas as vezes em que o acesso ao
mercado de trabalho formal apareceu nas falas tanto das/os assistidas/os quanto das funcionárias
do NUDIVERSIS. Entretanto, esta hipótese necessita de uma reflexão mais elaborada, pois não
é possível estabelecer o quanto do interesse das pessoas transexuais por tal modelo pode ser, de
certa forma, considerado como “genuíno” e o quanto deste é fruto da dominação e imposição
institucional. Fazendo uma apropriação livre da ideia discutida por Mahmood (2005), saliento
que é sempre preciso ter em mente quais são “as recompensas por habitar a norma”, pois, para
manter o mesmo exemplo, o ingresso no mercado de trabalho formal possibilita que os sujeitos
reivindiquem não somente direitos trabalhistas, mas também tenham acesso à previdência
social, dentre outros “direitos”.

153
Considerações Finais
Sobre os limites de uma promessa

Antes de mais nada, gostaria de avisar ao leitor que esta talvez não seja uma conclusão
usual para um trabalho monográfico deste tipo. Não tenho por intenção oferecer respostas
conclusivas às perguntas, mas sim retornar às reflexões e análises elaboradas no decorrer desta
dissertação e propor outras tendo como fio condutor a narrativa de um caso particularmente
dramático e triste, cujo desfecho trágico se deu enquanto escrevia este texto.
Conforme o título da dissertação sinaliza e busquei demonstrar ao longo deste trabalho,
no que se refere à gestão administrativa-judicial da demanda por requalificação civil de pessoas
transexuais, o NUDIVERSIS pode ser compreendido como uma espécie de “máquina” cuja
função é produzir “cidadania”. Como será demonstrado nas páginas a seguir, o caso de Raissa
foi visto como especialmente problemático por uma série de questões, sendo então considerado
um tipo de caso que “deu errado”. Minha ideia inicial era escrever sobre este ao longo da
dissertação como um tipo de contraponto ao modelo de assistência executado pelas
profissionais do NUDIVERSIS. Entretanto, um acontecimento fez com que eu optasse por
trazer a trajetória de Raissa apenas agora, ao final do trabalho.

***

Raissa era uma jovem mulher transexual de 24 anos. Nascida no interior do Ceará, ela
conta que se mudou para o Rio de Janeiro na busca por “melhores oportunidades de vida”, mais
“liberdade” e “opções de lazer”. Iniciou seu acompanhamento com profissionais da Defensoria
Pública em 2010, quando o NUDIVERSIS ainda não existia e o atendimento a pessoas
transexuais era realizado por funcionários do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos
(NUDEDH). Raissa fazia parte do programa transgenitalizador do Hospital Universitário Pedro
Ernesto (HUPE) desde 2009. No início de 2012, ela deu entrada no processo de requalificação
civil e em dezembro de 2013 obteve o direito de ser reconhecida oficialmente pelo seu nome
feminino, modificando assim seu registro civil e “seus documentos”. Conheci Raissa durante o
trabalho de campo realizado no NUDIVERSIS. Meu primeiro contato com sua trajetória se deu
de modo indireto, quando uma das estagiárias relatou, um tanto perplexa, o que havia
conversado com uma possível assistida que estava ao telefone até segundos antes.

154
02.04.2014
A situação mais significativa no campo de hoje se deu quando uma mulher transexual ligou
dizendo que queria reverter o processo de requalificação civil. Ela conseguiu a alteração de
seu registro civil e agora quer voltar a ter seu nome masculino. As estagiárias e a técnica
administrativa pareceram não entender a questão em um primeiro momento. Pelo telefone,
a estagiária pediu que Raissa comparecesse ao NUDIVERSIS no dia seguinte para explicar
melhor a situação. Após alguns comentários sobre o ocorrido, a técnica administrativa
sugeriu que Raissa deveria estar passando por algum tipo de problema. Encerramos a
conversa ansiosos para saber o que ela terá a dizer amanhã. (Diário de campo, abril de
2014)

No dia seguinte, a expectativa em relação ao caso de Raissa dominou as conversas entre


as profissionais do núcleo, das quais eu usualmente participava. Muito se falou sobre os motivos
que teriam levado a assistida a “desistir” da modificação do registro civil e os impactos que
uma ação deste tipo poderia causar tanto nas várias teorias sobre a transexualidade quanto nas
reivindicações e argumentações utilizadas por movimentos militantes pelos direitos de pessoas
transexuais.

03.04.2014
Raissa chegou por volta das 15h, como havia marcado. Quando o segurança anunciou sua
chegada, eu, a defensora pública, as estagiárias e a recepcionista77 conversávamos sobre o
caso. A hipótese da defensora era de que Raissa havia se convertido a alguma religião que
não aceita a transexualidade. Por um momento, pensamos em ir todos conversar com a
assistida, tamanha era a curiosidade em relação ao caso. No entanto, a defensora pediu que
não fôssemos todos juntos, para não assustá-la. Ela então sugeriu que a recepcionista
acompanhasse uma das estagiárias e que eu me dirigisse até a sala apenas alguns minutos
depois das duas primeiras. Raissa foi levada para a sala na qual os assistidos do
NUDIVERSIS são atendidos e cerca de dez minutos depois eu bati na porta, me apresentei
como um pesquisador e perguntei se Raissa se incomodaria com minha presença, ao passo
que ela respondeu negativamente.
Tentei me manter em silêncio o maior tempo possível. Algumas coisas me incomodaram
profundamente naquela sala. Dentre elas, meu suposto interesse “científico” pela trajetória
de sofrimento de Raissa fez com que me sentisse uma espécie de antropólogo “carniceiro”.
Raissa disse estar passando por momentos muito difíceis em sua vida nos últimos tempos.
Ela alegou que a mudança de documentos não alterou a vida dela de forma significativa.
Ela migrou do Ceará para o Rio de Janeiro e aqui passou por todo o processo de
transformação de seu corpo, sendo acompanhada pelo programa de transgenitalização do
HUPE. Contudo, ela relatou que possui alguns problemas de saúde que a impedem de obter
bons resultados com o tratamento hormonal prescrito para as pessoas transexuais. Raissa
relatou que, por conta disso, ainda possui uma série de “características masculinas” que a
incomodam e que a impedem de se enxergar “plenamente como mulher”. Além disso, ela

77
A recepcionista não é uma funcionária do quadro oficial do NUDIVERSIS. Pelo contrário, dentre suas
atividades, destaca-se uma espécie de auxílio geral que é prestado, principalmente, para os técnicos administrativos
do NUDEDH. Entretanto, ela adquiriu uma singularidade no caso da Raissa, pois é também uma mulher transexual.

155
também contou que não passou pela cirurgia de transgenitalização, sem explicitar
exatamente os motivos.
Atualmente, Raissa diz estar insatisfeita com seu trabalho e enfrentando dificuldades
financeiras devido ao aumento do custo de vida na cidade do Rio de Janeiro. Ela trabalha
há quase dez anos como caixa de um café localizado em um famoso cinema na zona sul da
cidade. Ela diz que já sofreu alguns assédios morais em seu emprego, mas que ela não o
abandona por não ter encontrado outra oportunidade até então. Além de não ter um elevado
nível de escolaridade – Raissa não concluiu o ensino médio –, a assistida diz que enfrenta
muitos problemas na busca por vagas no mercado de trabalho devido ao preconceito que
assola as pessoas transexuais. Segundo ela, a alteração apenas de seu nome de registro e
não do sexo produziu uma situação de confusão e ambiguidade. Raissa relatou que muitas
pessoas não entendem a situação quando ela entrega seu currículo com um nome feminino
e o sexo masculino. Neste sentido, ela sente que é associada à travestilidade e seu currículo
é descartado quase que imediatamente.
Raissa contou também que tem um namorado, mas que a relação não está mais tão firme
quanto já foi. Ela relatou que seu namorado já terminou o relacionamento algumas vezes
alegando que gostaria de ter filhos biológicos e que isso ela nunca poderá fazer. Esta atitude
do namorado contribui de forma substancial para que ela não se enxergue como uma
“mulher completa”.
Segundo Raissa, o somatório de todos esses problemas gerou nela um quadro de depressão.
Ela está fazendo acompanhamento com um psiquiatra no HUPE, mas diz não estar tendo
bons resultados. Diante disso, Raissa explicou que não quer somente “reverter” o processo
de requalificação civil, mas também pretende desfazer as modificações corporais
realizadas, como por exemplo, retirar as próteses de silicone. Raissa diz que não é assim
que ela gostaria de viver, mas acredita que essa atitude será a solução para muitos dos
problemas enfrentados. De um modo um tanto ressentido, Raissa diz que gays sofrem
menos preconceito que as travestis e transexuais. Assim, ela acredita que sua vida será mais
fácil caso ela “volte a ser menino”.
O atendimento de Raissa consistiu, basicamente, em uma tentativa de fazer com que ela
avaliasse melhor seu pedido e até mesmo desistisse de alterar novamente seu registro civil.
A recepcionista contou vários casos de pessoas transexuais que obtiveram sucesso em suas
vidas profissionais e se prontificou em acionar sua rede de contatos para tentar arranjar um
novo emprego para Raissa. A estagiária, por sua vez, contou uma série de casos de
preconceitos vivenciados por ela e por pessoas próximas por conta do machismo, racismo,
homofobia etc. como forma de “naturalizar” a discriminação e mostrar pra Raissa que ela
não está “sozinha no mundo” e que é preciso enfrentar certas situações.
A estagiária também argumentou que por conta do estado depressivo, Raissa não estaria
em condições de tomar uma decisão tão importante neste momento e que qualquer juiz
entenderia a questão dessa forma, extinguindo o processo. Neste sentido, a estagiária
recomendou que Raissa continuasse em acompanhamento psiquiátrico e que só retornasse
à Defensoria Pública com uma decisão quando ela estivesse se sentindo melhor. Raissa se
manteve firme e disse que trocou de nome a primeira vez de forma precipitada e que se
trocasse novamente, não se arrependeria, pois ela sabe que alterar o registro civil “não é
brincadeira” e ela também não tem condições financeiras de para ficar colocando e
retirando próteses de silicone.
O atendimento de Raissa durou ao todo quase três horas. Na maior parte do tempo, a
assistida foi ouvida e questionada pela estagiária e pela recepcionista. Dentre as soluções
alternativas oferecidas estavam 1) uma tentativa de processar o Estado com base no direito

156
à saúde para que este seja obrigado a realizar a cirurgia transgenitalizadora; 2) a tentativa
de alteração do sexo no registro civil para que a ambiguidade descrita pela assistida se
dissipasse. Ambas as propostas obedecem o roteiro previsto pela “terapia de mudança de
sexo”. (Diário de campo, abril de 2014)

Nos meses que se seguiram, muito foi discutido sobre a situação de Raissa. A assistida
teve um atendimento agendado diretamente com a Defensora Pública e foi chamada a
comparecer no NUDIVERSIS algumas vezes. Em uma destas vezes, Raissa teve que ir buscar
um ofício que a encaminhava para a realização de um novo Estudo Social com psicólogos e
assistentes sociais da Defensoria Pública. Em maio de 2014, Raissa foi atendida por uma
psicóloga da DPGE-RJ, que se recusou a fazer um relatório recomendando uma nova alteração
no nome de Raissa. Este episódio fez com que o caso se tornasse novamente pauta dos assuntos
das funcionárias do núcleo. Um dos assuntos deste dia foram as alegações que poderiam ser
apresentadas para que o NUDIVERSIS se recusasse a atender a demanda da assistida. Após
alguns debates, chegou-se à ideia de que esta ação poderia, a longo prazo, trazer certos danos
para Raissa e que, portanto, não era recomendável fazê-la.
Em alguns diálogos, uma das estagiárias comentava sobre seu medo de que uma/um
assistida/o pudesse vir a se suicidar enquanto aguardava a resolução de seu pedido de
requalificação civil. Como discutido no primeiro capítulo, o suicídio, de certo modo, figura no
horizonte de acontecimentos do núcleo ao mesmo tempo em que sinaliza o fracasso absoluto
do serviço de assistência. Nos momentos em que o caso de Raissa era mencionado, eu insistia
em oferecer meu ponto de vista da situação: afirmava que Raissa era uma pessoa lúcida e
consciente, de modo que sua autonomia não estava de modo algum comprometida.
Em meados de julho, período em que eu começava a me preparar para deixar o campo,
o caso de Raissa voltou a circular intensamente pelos corredores do NUDIVERSIS. No início
do mês, a Defensora Pública pediu que as estagiárias marcassem um atendimento para que a
situação fosse resolvida em definitivo. Neste dia, a Defensora comentou que Raissa já havia ido
conversar com a psicóloga e com a assistente social da DPGE-RJ três vezes e que em todas as
vezes a assistida insistiu em dizer que “já não via mais sentido em ser mulher”. A Defensora
pediu que o agendamento fosse feito com urgência, pois ela estava preocupada com Raissa,
uma vez que a psicóloga comentou que a assistida relatou ter comprado chumbinho78 para
cometer suicídio, mas que não tinha tido coragem.

78
Chumbinho é o nome dado a um produto químico clandestino popularmente utilizado como raticida. Além disso,
o chumbinho figura como um dos principais meios pelos quais as pessoas tentam e/ou cometem suicídio.

157
22.07.2014
Raissa chegou para ser atendida no final do dia após muitas remarcações e imprevistos. A
assistida estava vestida de um modo que foi classificado pelas profissionais como “neutro”:
um tênis all star xadrez, uma calça jeans escura de corte reto e uma camiseta preta sem
estampas. Raissa reforçou seu desejo de ter um nome masculino novamente. De início, ela
apresentou uma declaração dada por uma psicóloga do HUPE dizendo que ela não faz mais
parte do programa transexualizador e que já não tem mais intenção de fazer a cirurgia
transgenitalizadora.
A Defensora pediu que ela explicasse melhor o que está acontecendo em sua vida. Raissa
disse que não vê mais possibilidade de sucesso econômico no Rio de Janeiro e que pretende
voltar para o Ceará para morar com sua família novamente. Ela reiterou que está insatisfeita
com seu trabalho, mas que não tem acesso a outras oportunidades. Reclamou do aumento
do custo de vida na cidade, do aumento do aluguel, dos “custos laterais” com a
transexualidade, como compra de roupas, maquiagem, cuidados com o cabelo, depilação,
etc., com os quais ela diz não ter mais condições de arcar.
Além disso, Raissa afirmou novamente que a mudança de documentos não efetivou
nenhuma grande mudança na sua vida, como ela acreditava que faria. A assistida disse que
de nada adianta ter um documento feminino se as pessoas continuam tratando-a com
diferença e discriminando-a. Ela relatou também que não toma hormônios, o que faz com
que sua aparência se masculinize, a ponto de já ter sido tratada no masculino por clientes
do café onde trabalha, situação que a deixa profundamente magoada e ressentida.
Durante todo o atendimento, Raissa se referiu à alteração do nome como “resolver isso”,
indicando a existência de um “problema a ser solucionado”. A assistida também insistiu
que gostaria de fazer todo o processo de reversão – registral e corporal – antes de retornar
ao Ceará. Raissa reclamou também das dificuldades que está enfrentando para ter sua
demanda atendida e do tempo despendido em conversas repetidas com assistentes sociais
e psicólogos.
Após ouvir Raissa, a Defensora Pública explicou à assistida que não é possível reverter um
processo judicial deste tipo. O que pode ser feito é abrir um novo processo de requalificação
civil, no qual o fato da primeira alteração do nome não poderia ser omitido. A Defensora
enfatizou que quer que ela consiga solucionar seus problemas, mas que ela, enquanto
operadora do Direito, não poderia perder o horizonte jurídico de vista. Deste modo, a
Defensora falou que compreende os motivos pelos quais Raissa deseja viver novamente
com um nome masculino, mas que estes não podem ser juridicamente sustentados em uma
ação de requalificação civil. Assim, a única estratégia possível é a mesma dos outros
procedimentos de alteração de nome e sexo no registro civil, ou seja, convencer o juiz de
que Raissa é, na verdade, um homem e que seu documento, do jeito que está, é uma
verdadeira fonte de aflição. Para isso, Raissa precisará entregar, do mesmo modo que as/os
outras/os assistidas/os, laudos afirmando sua condição masculina e também fotos suas
retratando sua vivência do gênero masculino.
Raissa disse que já conversou com a psicóloga do HUPE sobre sua vontade, mas que esta
não deu a declaração que ela precisa. A Defensora então redigiu rapidamente um ofício a
ser entregue para a psicóloga especificando as informações que precisarão constar na
declaração emitida pela profissional. No fim das contas, a Defensora reiterou sua vontade
de ajudar Raissa, mas ressaltou que é preciso reunir um mínimo de provas para que a ação

158
possa ser julgada procedente. Estas provas se concentram na ideia de provar a
masculinidade de Raissa.
Ao ouvir isso, uma ideia passou pela minha cabeça. Curiosamente, antes de conseguir ser
reconhecida oficialmente por um nome feminino, Raissa precisou comprovar sua
feminilidade “apesar de ter um pênis”; agora, para recuperar o nome masculino, a assistida
precisa provar que é homem “mesmo tendo um pênis”. (Diário de campo, julho de 2014)

Uma semana depois desse encontro na Defensoria Pública encerrei oficialmente o


campo no NUDIVERSIS. O relativo isolamento imposto pelo processo de escrita fez com que
meu contato com as pessoas do campo se tornasse muito reduzido, limitado à troca de algumas
mensagens através da internet e das redes sociais. A última vez que encontrei Raissa foi no dia
11 de outubro de 2014, em seu local de trabalho, durante o expediente. Ela utilizava o crachá
com o nome feminino, os cabelos loiros compridos e ainda não havia retirado a prótese de
silicone, como dizia sentir vontade alguns meses atrás. Perguntei como ela estava e quais eram
as novidades sobre seu processo de requalificação civil. Raissa reclamou que nada havia sido
feito até então, que ela já não aguentava mais ir e voltar nos psicólogos e assistentes sociais da
Defensoria Pública para dizer e ouvir as mesmas coisas e que ela já não sentia mais ânimo em
fazer nada. Pouco tempo depois, um dos funcionários do café começou a chamar seu nome
enfaticamente e eu entendi que poderia estar atrapalhando-a, afinal, ela estava em horário de
trabalho.
Quase um mês depois, no dia 06 de novembro de 2014, por volta das 14 horas, estava
escrevendo a dissertação quando recebi uma mensagem de uma das estagiárias do
NUDIVERSIS noticiando que, ao que tudo indicava, Raissa havia se suicidado há alguns dias.
Naquele momento a informação ainda não havia sido verificada por nenhuma das profissionais
do núcleo. Uma rápida busca na internet através da rede social facebook confirmou a história.
Uma página dedicada aos mais diversos assuntos relacionados a travestis e transexuais havia
postado uma nota sobre o falecimento de Raissa no início da tarde daquele mesmo dia.
Reproduzo aqui um trecho:

Raissa era funcionaria no Espaço Itaú de Cinema, e há pouco tempo foi notícia por vencer
na Justiça o direito de ser reconhecida pelo nome conforme a sua identidade de gênero.
Mesmo com todas as conquistas Raissa estava insatisfeita com a vida em continuar não
sendo aceita mesmo depois da cirurgia de readequação sexual e passava por problemas de
depressão, e tirou sua própria vida(suicídio).

O registro no facebook continha um link para outra nota publicada na versão online de
um dos mais importantes jornais que circulam no Rio de Janeiro. Esta pequena nota consegue,

159
em apenas três linhas, reproduzir as violências que as pessoas transexuais vivenciam
cotidianamente. Sem se preocupar em informar corretamente o leitor nem sobre Raissa e nem
sobre o acontecido, a nota, escrita de forma extremamente ambígua, permite uma multiplicidade
de interpretações. A primeira violência se faz ver quando a despeito do modo pelo qual Raissa
se identificava, a autora da nota diz que “a travesti Raissa foi encontrada morta”. Localizada
em uma coluna cujo título é “crime”, o texto reforça um estigma que associa travestis à
criminalidade. Além disso, ao tratar a morte de Raissa como um delito, sugere-se que sua vida
tenha sido tirada por alguém – possivelmente o próprio namorado? – e não que ela tenha se
suicidado, como de fato aconteceu. Tomo a liberdade de copiar o conteúdo desta nota na
íntegra:

CRIME

Travesti que mudou de nome é encontrada morta no Catete

A travesti Raíssa, que trabalhava no Espaço Itaú de Cinema, em Botafogo, foi encontrada
morta pelo seu namorado, ontem, no apartamento dela no Catete.
Há pouco tempo, Raissa ganhou na Justiça o direito de ser chamada pelo nome79.

***

A nota de falecimento publicada no facebook descreve Raissa como um tipo de “modelo


exemplar” ao enfatizar uma série de “sucessos” que ela obteve ao longo de sua vida, os quais
não são tão comuns nas biografias de pessoas transexuais: um emprego formal, um
relacionamento estável, a cirurgia de transgenitalização e o direito a ser reconhecida
oficialmente pelo nome e sexo com os quais se identificava. Entretanto, o discurso de Raissa
sobre a própria vida era um tanto diferente, afinal: 1) uma das soluções propostas pela
Defensoria era tentar obrigar o Estado a realizar a cirurgia de transgenitalização; 2) em diversos
momentos Raissa disse que seu relacionamento não era tão estável, o que ameaçava sua
moradia, pois o apartamento pertencia ao namorado; 3) Raissa reclamou das condições de
trabalho e relatou estar em busca de outras oportunidades; 4) ela adquiriu somente a
modificação de seu nome de registro, não do sexo, o que, segundo seus relatos, gerou uma
situação de ambiguidade e confusão “pior que a anterior”.

79
Disponível em: <http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/posts/2014/11/03/travesti-que-mudou-de-nome-
encontrada-morta-no-catete-553856.asp>. Último acesso em dezembro de 2014.

160
Em outras palavras, poderia dizer que as declarações contidas na postagem do facebook
não levam em consideração a visão que Raissa tinha da própria vida. Contudo, ao fazer uma
afirmação deste tipo – extremamente perigosa entre antropólogos – não pretendo oferecer uma
explicação que torne o suicídio de Raissa compreensível ou determinar aquilo que ela
considerava como “mais importante”. Como Kleinman (2006) sugere ao se questionar sobre o
que “realmente importa” nas vidas dos indivíduos, os sujeitos buscam viver “vidas morais” e
viver uma “vida moral” significa agir de acordo com aquilo que se considera como o mais
correto. Deste modo, as pessoas constroem o sentido de suas vidas de formas particulares e,
assim, sempre existirá algo inapreensível a todos os demais. Ressalto, então, que ao trazer o
caso de Raissa para o centro da discussão, não pretendo oferecer uma narrativa que domestique
este “inapreensível” ou que a apresente como um caso exemplar de algo, mas sim tento objetivar
os acontecimentos através do enquadramento das complexidades de sua vida a partir das
indexações disponíveis, isto é, a partir daquilo a que tive acesso enquanto um pesquisador
atuante em um núcleo da Defensoria Pública. Assim, busco descrever Raissa como mais do que
um sujeito absoluto do sexo-gênero – como a “terapia de mudança de sexo” tenta enquadrar as
pessoas transexuais –, ainda que boa parte de minhas reflexões estejam relacionadas a este
aspecto de sua vida.
A imagem construída pelas informações mencionadas na nota encontrada na página do
facebook representa aquilo que se espera do cumprimento de uma promessa de transformação
radical da vida e solução instantânea dos problemas que é amplamente disseminada e
consolidada entre as pessoas transexuais. Como discutido ao longo dos capítulos anteriores, tal
promessa é promovida pelo discurso que constrói a “terapia de mudança de sexo”, que é
elaborada como uma espécie de “cura” para todos os sofrimentos que podem estar envolvidos
nas experiências de pessoas transexuais: o incômodo em relação ao próprio corpo, a
discriminação vivenciada cotidianamente etc.
A incorporação subjetiva desta promessa de resolução mágica das atribulações pode ser
percebida nos relatos das/os assistidas/os do NUDIVERSIS, que descrevem tanto a cirurgia de
transgenitalização quanto a alteração do registro civil como uma espécie de “renascimento” e
recomeço da vida, como demonstrado ao final do terceiro capítulo. Visões mais ou menos
parecidas foram encontradas nas investigações empreendidas ao longo dos últimos anos por
Zambrano (2003), Bento (2006), Ventura (2010) e Teixeira (2013).
Além disso, esta crença também ficou visível no teor da nota de falecimento publicada
na rede social, que faz questão de ressaltar a insatisfação de Raissa mesmo com todas as
conquistas. As/os usuárias/os do facebook que acessam a página responsável pela publicação,
161
na sua grande maioria travestis e transexuais, deixaram comentários que expressam, ao menos
implicitamente, certo ressentimento por Raissa ter tirado a própria vida mesmo após ter
conseguido coisas que outras pessoas transexuais – possivelmente elas/es mesmas/os – ainda
buscam. Alguns destes sujeitos se manifestaram no espaço virtual através de uma pergunta
quase que retórica: “como Raissa poderia estar em depressão e insatisfeita com a vida mesmo
após ter conseguido a alteração de seu registro civil e a cirurgia de transgenitalização?”.
Uma pergunta deste tipo faz sentido em um contexto no qual os “direitos” são
construídos como “bens escassos” concedidos somente àqueles que provam serem merecedores
de tais “benefícios” (Vianna, 2013). Como observado na introdução deste trabalho, não existe
no Brasil uma lei de identidade de gênero que permita que travestis e pessoas transexuais
acessem o direito à alteração do registro civil de forma legalmente prevista. Uma vez que os
procedimentos não estão uniformizados e, como dito no terceiro capítulo, nem mesmo a
jurisprudência está pacificada, o processo de definição dos sujeitos direitos acarreta a
construção de uma ideia de “privilégio”. Assim, é preciso atentar para os perigos que um
determinado ganho traz, ou, em outras palavras, para os “possíveis venenos que os presentes
guardam” (Vianna, 2005, p. 49). Ao ser considerada como merecedora do direito à
requalificação civil, a pessoa é inserida em um tipo de relação de “dívida moral”, cujo
pagamento deve ser feito por meio da expressão da gratidão. Como demonstrou Coelho (2006),
nas relações de troca entre pessoas de status desiguais, a demonstração da gratidão figura como
uma forma possível de retribuição da dádiva, pois opera a manutenção da hierarquia.
Entretanto, se existe uma dívida, se faz necessária uma pergunta: se deve a quem? No
caso de Raissa, quando ela renuncia tanto ao direito à requalificação civil quanto à vaga no
programa transexualizador do HUPE, ela não retribui as “dádivas” que lhe foram concedidas.
Pelo contrário, Raissa, de certa forma, “ofendeu” um amplo conjunto de sujeitos: os
profissionais da Defensoria Pública, que despenderam seu tempo e energia realizando os
procedimentos de assistência para que ela pudesse protocolar a ação de requalificação civil; os
juízes e promotores – os quais representam o “Estado” através do Judiciário – que deram
procedência ao pedido de alteração do registro civil, abrindo assim uma “exceção” à regra de
imutabilidade do prenome; e até mesmo as outras pessoas transexuais que ainda aguardam na
fila para terem seus desejos atendidos. Isto é, a renúncia de Raissa foi vista, ao menos em um
primeiro momento, como uma forma de “ingratidão”.
Com relação ao ressentimento manifestado pelas/os leitoras/es da página do facebook,
acredito que a resposta mais honesta para questionamento feito por estas/es pode ser encontrada
na própria nota de falecimento publicada pelas/os administradoras/es da página. Como o texto
162
expõe de modo claro, apesar de – supostamente – ter passado por todos os procedimentos
previstos na “terapia de mudança de sexo”, Raissa continuava não sendo aceita socialmente
como mulher e, de acordo com suas constantes reclamações apresentadas nos corredores do
NUDIVERSIS, essa era uma das fontes de sua insatisfação. Outras frustrações, não menos
importantes, eram oriundas das dificuldades econômicas enfrentadas, das condições de
trabalho, da situação de habitação etc.
O não reconhecimento social da sua forma de identificação fica ainda mais evidente
quando lemos na outra nota, a publicada no jornal, que Raissa era uma “travesti que mudou de
nome”, cuja morte, quase que obviamente, não pode estar relacionada a outro fator que não um
crime. É este não reconhecimento que revela as fragilidades do discurso sobre a “terapia de
mudança de sexo” e da promessa de reconstrução da vida que a acompanha.
A existência dos limites desta promessa foi sinalizada por Zambrano (2005) anos atrás,
pois, segundo ela, após a cirurgia de transgenitalização, “os transexuais deixam de pertencer ao
sexo de nascimento, mas não passam a pertencer inteiramente ao outro. Quero chamar atenção
para o fato de a medicina continuar classificando transexuais como tais, reafirmando que serão
sempre transexuais, jamais homens ou mulheres” (p. 109). É com uma discussão acerca dos
limites desta promessa que gostaria de concluir este trabalho.
Em primeiro lugar, é preciso destacar que as tensões entre diferentes mundos sociais
não se esgotam com a aquisição de um documento, que é perigosamente fetichizado como
aquilo que resolverá o “problema” das pessoas transexuais através da fabricação de uma suposta
coerência entre corpo, mente e identidade. Como abordado por Goffman (1975 e 1988), a
identidade não é fixa e sem contradições, de modo que seu reconhecimento faz parte de jogos
relacionais e interativos complexos, dos quais os documentos de identificação, apesar de
extremamente importantes, figuram apenas como mais um elemento. No caso de Raissa, foi
justamente a aquisição dos documentos devidamente alterados que significou a disjunção
insuportável e o desencaixe absoluto. A figura da travesti, reiteradamente apagada pelos
procedimentos que compõem a “terapia de mudança de sexo”, reapareceu nas suas interações
cotidianas como, por exemplo, quando ela foi buscar um novo emprego e até mesmo após sua
morte, quando a nota publicada no jornal a descreveu como uma “travesti que mudou de nome”.
Além disso, o Estado, enquanto produtor de categorias que regulam e dão significado à
vida (Bourdieu, 1989), não é capaz de dar conta das complexidades vivenciadas pelos sujeitos.
Podemos dizer que Raissa desistiu no “meio do processo” – e aqui me refiro tanto à
requalificação civil, pois somente seu nome foi alterado e não o sexo; quanto à
transgenitalização, uma vez que ela tinha iniciado a hormonização, mas a cirurgia ainda não
163
havia sido realizada. Sua desistência revela a ilusão da homogeneização e estabilização de uma
categoria que é pretendida pelo aparato administrativo do Estado e construída através da série
de mecanismos analisados nos capítulos desta dissertação: a criação de um núcleo específico
para o atendimento da “população LGBT”; a delimitação daquilo que pode ser registrado
durante o primeiro atendimento; a aquisição de determinados documentos por meio da
peregrinação burocrática; e que é, por fim, materializada no modelo de petição inicial de
requalificação civil. Ou seja, a abdicação de Raissa ilumina o efeito de “naturalização” – e,
consequentemente, de apagamento das relações de poder envolvidas neste processo –
promovido pelos inúmeros discursos que circundam a “terapia de mudança de sexo” na medida
em que estes tentam homogeneizar os procedimentos políticos, administrativos e morais, todos
produzidos para serem vistos como “corretos”.
Em linhas gerais, a promessa de “mudança de sexo” nunca poderá ser efetivamente
cumprida80 enquanto as normas que regulam os gêneros se mantiverem numa oposição binária
que não apenas reproduz, mas também está a serviço de uma noção restritiva de sexo. A não
aceitação da identidade relatada por Raissa e descrita na nota publicada no facebook sugere que
há uma determinada concepção de sexo, marcada pelo essencialismo, disseminada no senso
comum. Ainda que não vincule o sexo à presença das genitálias, esta concepção pode ser
considerada essencialista na medida em que o sexo é tomado como algo natural e certamente
biológico, mas cuja essência é difusa e não localizável, acarretando assim a sua imutabilidade.
Tal inalterabilidade pode ser percebida através das máximas que escutamos cotidianamente
como “fulano nasceu mulher”, “fulana nasceu homem”, “nunca será mulher porque nunca
gerará filhos”, entre outras.
A construção da “terapia de mudança de sexo” reforça uma lógica apontada por Bento
(2004 e 2006) que aloca a fonte dos conflitos que perpassam as experiências transexuais nos
“indivíduos transtornados” e não nas normas de gênero. Ou ainda, como salientado por Teixeira
(2013), a definição de “disforia de gênero” que consta no DSM pressupõe que a causa do
sofrimento vivenciado por pessoas transexuais é o “transtorno” ou a “perturbação”, enquanto a
verdadeira fonte destas dores – as normas sociais – não são problematizadas. É esta localização
do conflito nos sujeitos que atua para a despolitização da questão e reproduz os mecanismos
operativos do dispositivo da transexualidade. De acordo com Bento, “o que antecede aos
conflitos com as genitálias são aqueles com a própria construção das verdades para o gêneros,

80
Da mesma forma que a “mudança de sexo” nunca poderá ocorrer efetivamente, as normas de gênero também
nunca poderão ser plenamente satisfeitas por um sujeito (Butler, 2003) e, portanto, ambas serão sempre violentas.

164
efetivadas nas obrigações que os corpos paulatinamente devem assumir para que possam
desempenhar com sucesso os designíos do seu sexo” (2006, p. 164).
Deste modo, é preciso problematizar tal promessa, pois a construção de uma única forma
legítima de apreensão das experiências transexuais – o diagnóstico da disforia de gênero – e,
consequentemente, de uma única possibilidade de “tratamento” – a “terapia de mudança de
sexo” – impõe uma única forma de reconhecimento destas nos marcos daquilo que é
considerado como “humano”, o que, por sua vez, pode inviabilizar não só o exercício da
cidadania, mas a vida como um todo. Ao apreender as pessoas transexuais como sujeitos
unicamente do sexo-gênero – ignorando assim uma série de outros fatores preponderantes, tais
como raça, classe, idade etc. – e localizar o “problema” exclusivamente na pessoa, a “terapia
de mudança sexo” passa a ser vista como a única forma possível de resolução dos conflitos e
sofrimentos. Contudo, a possibilidade desta “terapia” falhar em algum ponto é grande – até
mesmo quando todas as suas etapas são executadas como previsto – e, assim, a promessa de
transformação da vida pode nunca ser efetivamente cumprida.
Outra característica da “terapia de mudança de sexo” que precisa ser discutida é que
esta, do modo como se encontra construída atualmente, invisibiliza críticas e não admite
interpelações. Como observou Mauss (2003) muitas décadas atrás, quando a magia dá errado,
a crença protege a magia de ser questionada e atribui ao mágico a responsabilidade pela falha.
Quando a “terapia de mudança de sexo” não funciona, a autoridade médico-científica impede
que o “tratamento” seja contestado, pois, uma vez que o “problema” se encontra no indivíduo
transexual, somente o próprio pode ser responsabilizado pelo insucesso da “terapia”. Logo,
mais do que proteger sujeitos supostamente vulneráveis – como descrito no documento que
fundamenta a necessidade de criação de um núcleo especializado para o atendimento da
“população LGBT” –, esta construção tem por função resguardar os aparatos do Estado. No
caso de Raissa, tal preservação do Estado fica clara na medida em que a patologia é retransferida
para ela – não mais a “disforia de gênero”, mas sim a “depressão” – e o “problema” é novamente
localizado apenas nela.
Ademais, apesar do suicídio figurar nos discursos de diferentes profissionais –
operadoras do Direito, psiquiatras, psicólogos e assistentes sociais – como aquilo que deve ser
evitado a todo custo, pois sinalizaria o “fracasso” dos serviços públicos, este, quando de fato
acontece, se dá em um cenário domesticado cognitiva e politicamente, uma vez que se encontra
desde o início no horizonte de possibilidades e reitera os riscos inerentes às experiências da
transexualidade, reforçando, assim, a ideia de vulnerabilidade e o conjunto de fragilidades dos
sujeitos que são constitutivos destes serviços.
165
Em suma, o objetivo desta dissertação foi apresentar algumas reflexões sobre a gestão
judicial da demanda por requalificação civil de pessoas transexuais. Entretanto, é preciso
reconhecer e ter consciência de que existem pelo menos três dimensões completamente distintas
em jogo: 1) os objetivos e limites da atividade acadêmica; 2) o tipo de trabalho de assistência
jurídica realizado pelo núcleo; e 3) a própria vida das pessoas transexuais com seus anseios e
questões. Assim, ressalto que ao enfatizar as práticas administrativas e interações entre as
profissionais do núcleo e as/os assistidas/os, não tenho por intenção me colocar na posição
daquele que pode fazer uma “denúncia” sobre a desigualdade das relações de poder entre
administradores e administrados, “revelar a verdade” sobre o funcionamento do Judiciário e
suas instâncias anexas, como é o caso da Defensoria Pública, ou mesmo oferecer uma “fórmula
correta” de realização dos procedimentos no interior do núcleo. Minha intenção é, antes de tudo,
tentar iluminar algumas questões sobre como tal gestão implica um processo complexo de
constituições múltiplas de “sujeitos de direitos”, políticas públicas e aparatos de Estado, que é
perpassado por inúmeras contradições.
Por fim, reitero que ao trazer este conjunto de críticas – e não só as contidas nas
considerações finais, mas ao longo da dissertação como um todo – não pretendo, de forma
alguma, desqualificar a existência do NUDIVERSIS e o trabalho realizado pelas profissionais,
muito menos as demandas feitas por pessoas transexuais no que diz respeito ao acesso aos “seus
direitos”, isto é, a determinados bens de cidadania como, por exemplo, a alteração do registro
civil, a assistência integral à saúde, a cirurgia de transgenitalização etc. Conforme abordado na
introdução, o cenário no qual as atuações das profissionais se desenrolam é marcado por
incertezas e dificuldades, uma vez que não existe o amparo legal necessário para que os direitos
possam ser acessados. Afinal, ainda que seja um dos discursos envolvidos nos embates e
disputas políticas que constroem uma determinada temática, um trabalho
acadêmico/antropológico não deve ofertar “soluções mágicas” e assertivas para resolver algo
que é constituído enquanto um “problema social”.

166
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1973. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L6015original.htm>. Último
acesso em dezembro de 2014.

BRASIL. Casa Civil. Lei 9.492, de 10 de Setembro de 1997. Brasília: Diário Oficial da União,
1997. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9492.htm>. Último acesso
em setembro de 2014.

172
CFM, Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 1482/1997. Brasília: Diário Oficial
da União, 1997, p. 20.944.

CFM, Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 1.652/2002. Brasília: Diário Oficial
da União, 2002, p. 80-81.

CFM, Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 1.955/2010. Brasília: Diário Oficial
da União, 2010, p. 109-110.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Atenção à Saúde. Portaria nº 457, de 19 de Agosto


de 2008. Brasília: Diário Oficial da União, 2008. Disponível em: <
http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/sas/2008/prt0457_19_08_2008.html>. Último acesso
em fevereiro de 2015.

173
ANEXO I – Quadro de funcionárias do NUDIVERSIS durante a pesquisa

Tempo no
Função Idade Formação Tempo na DPGE-RJ
NUDIVERSIS
Graduação em Direito;
Defensora 32 cursando Mestrado em 8 anos 3 anos
Direito
Graduação em Direito e Não há informação
Assessora 54 3 anos
em História precisa
Técnica-
27 Graduação em Direito 2 anos 2 anos
Administrativa
Cursando o 7º período da
Estagiária I 21 10 meses 10 meses
graduação em Direito
Cursando o 5º período da
Estagiária II 21 6 meses 6 meses
graduação em Direito

174
ANEXO II – Núcleos Regionais da DPGE-RJ na cidade do Rio de Janeiro

Núcleo Bairros de Abrangência


Anchieta, Acari, Barros Filho, Coelho Neto, Costa Barros, Guadalupe, Parque
Anchieta
Anchieta, Pavuna e Ricardo de Albuquerque.
Bangu, Campo dos Afonsos, Deodoro, Jardim Sulacap, Magalhães Bastos, Padre
Bangu
Miguel, Realengo, Vila Militar e Senador Camará.
Barra da Barra da Tijuca, Caeté, Grumari, Pau Ferro, Musema, Piabas, Recreio dos
Tijuca Bandeirantes, Rio Bonito, Vargem Grande e Vargem Pequena.
Botafogo, Catete, Copacabana, Cosme Velho, Flamengo, Glória, Humaitá,
Botafogo
Laranjeiras, Leme e Urca.
Campo Grande, Augusto de Vasconcelos, Barra de Guaratiba, Ilha de Guaratiba,
Campo
Inhoaíba, Mendanha, Morro da Pedra, Praia do Aterro, Rio da Prata e Pedra de
Grande
Guaratiba.
Centro, Cidade Nova, Catumbi, Caju, Aeoroporto, Castelo, Estácio, Fátima, Lapa,
Central
Mangue, Ilha de Paquetá, Santa Tereza e Rio Comprido.
Ilha do
Ilha do Governador.
Governador
Irajá, Colégio, Vicente de Carvalho, Terra Nova, Vila da Penha, Vila Kosmos e Vista
Irajá
Alegre.
Praça Seca, Anil, Camorim, Cidade de Deus, Curicica, Freguesia, Pechincha,
Jacarepaguá
Taquara, Tanque e Vila Valqueire.
Leblon Gávea, Jardim Botânico, Leblon, Rocinha e São Conrado.
Madureira, Bento Ribeiro, Campinho, Cascadura, Cavalcante, Quintino Bocaiúva,
Madureira Engenheiro Leal, Honório Gurgel, Magno, Marechal Hermes, Oswaldo Cruz, Rocha
Miranda, Turiaçu e Vaz Lobo.
Méier, Abolição, Água Santa, Cachambi, Catumbi, Encantado, Engenho de Dentro,
Méier Engenho Novo, Jacaré, Jacarezinho, Lins de Vasconcelos, Piedade, Pilares,
Riachuelo, Rocha, Sampaio, São Francisco Xavier e Todos os Santos.
Inhaúma, Del Castilho, Engenho da Rainha, Tomás Coelho, Higienópolis e Maria Da
Pilares
Graça.
Ramos, Bonsucesso, Brás de Pina, Cordovil, Jardim América, Manguinhos,
Ramos
Complexo do Alemão, Parada de Lucas, Penha Circular, Olaria e Vigário Geral.
Santa Cruz Santa Cruz, Paciência, Palmares e Sepetiba.
São São Cristóvão, Praça Mauá, Caju, Gamboa, Santo Cristo, Saúde, Benfica, Mangueira
Cristóvão e Triagem.
Vila Isabel, Maracanã, Tijuca, Usina, Muda, Praça da Bandeira, Aldeia Campista,
Vila Isabel
Alto da Boa Vista, Andaraí, Engenho Velho e Grajaú.

175
ANEXO III – Núcleos Especializados da DPGE-RJ

Sigla Núcleo
CDEDICA Coordenadoria de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente
NEAPI Núcleo Especial de Atendimento à Pessoa Idosa
NUPED Núcleo de Atendimento à Pessoa com Deficiência
- Núcleo de Fazenda e Registros Públicos
- Núcleo de Loteamentos
- Núcleo de Terras e Habitação
- Engenharia Legal
NUDECON Núcleo de Defesa do Consumidor
NUDEM Núcleo Especial De Direito Da Mulher E De Vítimas De Violência
NUCAPP Núcleo de Cadeias Públicas e Apoio ao Preso Provisório
NUSPEN Núcleo do Sistema Penitenciário
- Núcleo da Polícia Militar
- Núcleo dos Bombeiros Militares
NUDIVERSIS Núcleo de Defesa da Diversidade Sexual e Direitos Homoafetivos
- Núcleo da Polícia Civil
NUDEDH Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos

176
ANEXO IV – Assuntos verificados nas Certidões dos ORD

Ofício Competências Assuntos Verificados nas Certidões

1º Falências, Cível A) Indisponibilidade de bens, arrestos, sequestros e outras


e Criminal determinações comunicadas pela Corregedoria Geral de Justiça;
B) Rescisórias;
2º Falências, Cível, C) Falências, concordatas, recuperações judiciais e demais ações e
Criminal e precatórias distribuídas às Varas com competência empresarial;
Concursos
D) Separações, divórcios, alimentos e outras ações e precatórias
distribuídas às Varas com competência de família;
3º Falências, Cível E) Ações incidentarias;
e Criminal
F) Retificações, averbações e outras ações e precatórias distribuídas às
Varas com competência em registros públicos;
4º Falências, Cível, G) Medidas cautelares (arrestos, sequestros, buscas e apreensões,
Criminal, notificações, etc.) distribuídas às Varas com competência cível.
Interdições e
H) Ordinárias, sumárias, despejos, consignatórias, execuções e outras
Tutelas
ações e precatórias distribuídas às Varas com competência cível;
I) Ações e precatórias de competência das Varas regionais de cada um
dos Ofícios (Madureira, Jacarepaguá, Leopoldina, Campo Grande, Barra
da Tijuca, Méier, Santa Cruz e Ilha do Governador);
J) Inventários, testamentos, arrolamentos, arrecadações, administrações
provisórias, tutelas, interdições, curatelas, declarações de ausência e
outras ações e precatórias distribuídas às Varas com competência em
órfãos e sucessões;
K) Ações e precatórias de competência dos Juizados Especiais Cíveis
afetos a cada um dos Ofícios.
L) Ações distribuídas às Varas da Infância, da Juventude e do Idoso
mencionadas nos §§ 1º e 3º do artigo 33 da Consolidação Normativa da
CGJ/RJ (Provimento 11/2009);
M) Ações de competência da Justiça Itinerante.

5º Bens e A) Escrituras lavradas nos Serviços Notariais dos Ofícios Ímpares;


Testamentos
B) Escrituras lavradas nas Circunscrições de Registro Civil com funções
(Escrituras)
notariais ímpares;
C) Escrituras lavradas no Ofício de Notas e Registro de Contratos
Marítimos;
D) Procurações em causa própria, lavradas nos Serviços Notariais
ímpares;

177
E) Procurações Públicas em geral, lavradas nos Serviços Notariais
ímpares (Lei Estadual nº 5358/2008);
F) Escrituras autorizadas pela Corregedoria Geral da Justiça;
G) Testamentos Públicos e Cerrados, lavrados nos Serviços Notariais
Ímpares;
H) Contratos particulares equiparados a Escrituras Públicas por força de
lei;
I) Títulos de origem judicial, Translativos de Direitos Reais sobre
Imóveis que tenham como circunscrição imobiliária serviço de registro
ímpar, no município do Rio de Janeiro;
J) Escrituras lavradas em outros municípios, cujo imóvel tenha como
circunscrição imobiliária de serviço de registro ímpar, no município do
Rio de Janeiro;
K) Intervenções com Indisponibilidade de Bens determinadas pelo
Banco Central ou Varas Processantes;
L) Inventários, partilhas, separações consensuais e divórcios
consensuais, lavrados nos Serviços Notariais Ímpares (Lei nº
11.441/2007).

6º Bens e A) Escrituras lavradas nos Cartórios de Notas Pares, inclusive as


Testamentos decorrentes da Lei 11.441/2007;
B) Contratos particulares, Testamentos públicos e cerrados, Procurações
ou Títulos de origem judicial, translativos de direito real sobre imóvel.

7º Protesto de Duplicatas, Triplicatas, Notas Promissórias, Letras de Câmbio,


Títulos Cheques, “Warrants”, Debêntures, Conhecimentos de Frete, Confissões
de Dívidas, Verificações de contas, Contratos de Câmbio, Cédulas de
Crédito Bancário e outros documentos de dívida.

8º Títulos e Registro das distribuições dos Cartórios dos Registros de Títulos e


Documentos Documentos da cidade do Rio de Janeiro.

9º Fazenda Pública A) Execuções fiscais promovidas pela Fazenda Pública Estadual e suas
Estadual autarquias;
B) Ações promovidas pela Fazenda Pública Estadual e suas autarquias;
C) Ações promovidas pelo Estado, pelo Município e suas autarquias, tais
como: Ordinárias, Sumárias e Possessórias;
D) Medidas Cautelares promovidas pelo Estado, pelo Município e suas
autarquias, tais como: Produção Antecipada de Provas, Notificações e
Interpelações;
E) Ações e Medidas Cautelares distribuídas às Varas de Fazenda
Pública, tais como: Ordinárias, Sumárias, Desapropriações, Despejos,

178
Possessórias, Notificações, Produção Antecipada de Provas, Protestos,
Interpelações, Cartas Precatórias e outras;
F) Ações de Dívida Ativa do Estado do Rio de Janeiro distribuídas à
Vara com competência fazendária específica;
G) Ações de Dívida Ativa do Município do Rio de Janeiro distribuídas
à Vara com competência fazendária específica;
H) Indisponibilidade de bens, arrestos, sequestros, intervenção e
liquidação extrajudicial de instituições financeiras pelo Banco Central
do Brasil ou Ministério da Fazenda e outras determinações comunicadas
pela Corregedoria Geral da Justiça;
I) Ações nos Juizados Especiais Fazendários.

179