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RESUMO ESTENDIDO

Psicologia da fé

Dr. Giovanetti, Jose Paulo1

Um dos pilares da vida humana é a fé. Ninguém vive sem praticar um ato de fé.
Assim, a fé é um ato humano necessário para que nossa vida se desenvolva e flua. O que
nos faz crescer como seres humanos é a vivência da fé. A dúvida pode gerar insegurança
no ser humano e a fé nos leva para a esperança. A criança desde pequena acredita nos
seus pais e na sua família e com isso vai construindo suas próprias referências, isto é, a
sua própria história. Sem crer nos outros e nas coisas, nossa vida estaria fadada ao
fracasso e à angústia.
A fé nos auxilia na vivência de uma vida mais plena, pois ela nos ensina a acreditar
nos outros e a acreditar na vida. Acreditar faz parte da estrutura mais profunda da vida
humana. A fé humana abre caminho para a fé religiosa. Daí a necessidade de
compreendermos, em primeiro lugar, a estrutura antropológica de uma experiência de fé,
isto é, quais os componentes próprios do ser humano que estão implicados no ato de fé.
Para responder as questões que a fé nos coloca, dividiremos nossa reflexão nos
seguintes pontos: a) apresentaremos uma reflexão antropológica sobre a fé humana, b)
em seguida, destacaremos o que podemos entender sobre a vivência da fé religiosa, c)
finalmente, buscaremos explicitar os componentes psicológicos da experiência da fé.

A fé humana

Se a fé é definida como um ato de se acreditar em algo ou em alguém, o primeiro


ponto a ser discutido é: qual a experiência humana que possibilita o homem crer, isto é,
acreditar em alguém. Todo ser humano ao nascer necessita de cuidados especiais para

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Prof. Aposentado da UFMG e prof. Titular da Faje ( Faculdade dos Jesuitas) – jpgiovanetti@terra.com.br

X Seminário de Psicologia e Senso Religioso, Curitiba, PUCPR, 2015.


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sobreviver diferentemente da maioria dos animais. Alguns animais, já começam a andar
logo após o nascimento como o cavalo, mas o ser humano precisa do auxílio de outro ser
humano para sobreviver. Essa atenção da mãe para com o bebê vai gerar nele uma
confiança de vida, isto é, um sentimento de confiança que brota da relação com a pessoa
que se dedica a esse ser indefeso. O sentimento de confiança é a base para uma
experiência de fé. Quanto mais confiança na vida, mais possibilidade de acreditar no
outro, pois a confiança gera uma força em mim onde sou capaz de arriscar. Só arrisca
aquele que tem confiança na vida a acredita no outro. Ter fé implica risco. O sentimento
de confiança está na base da fé. Também podemos dizer que a fé nos abre para o outro.
Dessa forma, cada ser humano vai viver tanto a fé humana como a fé religiosa a partir de
sua estrutura pessoal, a partir do conjunto das experiências humanas que fazem parte de
sua vida. Outra experiência marcante para que a fé seja experimentada como algo
fundamental é a experiência do dom da vida. Quando nascemos a vida nos é dada. Não
escolhemos o lugar, a época, a família, etc. Experimentar a vida como dom é fundamental
para a distinção entre o ato de fé e o dom da fé.

A fé religiosa

Ao passarmos à análise da fé religiosa, se faz necessário uma distinção entre


espiritualidade, religiosidade, religião e fé religiosa. A espiritualidade designa o mergulho
que fazemos em nós mesmos. Para esse mergulho utilizamos de técnicas de meditação e
ao experimentarmos a realidade como um todo, estamos vivendo a nossa espiritualidade.
A espiritualidade é uma atividade do nosso espírito e não necessariamente implica fé.
Religiosidade implica uma abertura ao mistério, a algo maior do que o ser humano e que
para designá-lo utilizamos várias palavras, entre elas sagrado, divino, etc. A religiosidade
será a vivência dessa ligação com algo que se mostra misterioso e grandioso. Daí que
esse contato provoca em nós um sentimento especifico de que Rodolf Otto o nomeia de
“tremendum” ou “ fascinosum”.
A religião é entendida como uma instituição e, por isso mesmo, como uma
organização composta de pessoas, lugares e templos. Ela estabelece ordem e sua função
é criar condições para que os seus membros vivam a fé. A fé religiosa é um ato de

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entrega a um ser superior e por consequência esse ser superior passa a ser o sentido
último da vida e proporciona uma nova luz sobre a existência.

Componentes psicológicos da vivência da fé

Finalmente, buscaremos explicitar os componentes psicológicos implicados na


experiência da fé, pois a fé não nasce pronta. Ela é construída a partir das relações
intersubjetivas e, por isso mesmo, tem implicações psicológicas. A primeira questão que
surge é sobre a adesão intencional, isto é, a busca da experiência da fé é construída a
partir de um ato volitivo, melhor dizendo, a partir da vontade. A fé é a adoção de uma
atitude que se estrutura a partir de uma vontade inicial de crer, de acreditar no outro.
Discutir as motivações que levam a pessoa a acreditar em alguém é um campo
extremamente complexo e que exigiria estudo especial. Como complementação dessa
intencionalidade, surge uma mobilização do sentimento. A pessoa ao deixar-se impregnar
pela mensagem mobilizará dentro de si conteúdos afetivos, uma vez que tudo o que nos
mobiliza é acompanhado por um registro afetivo. Outro elemento psicológico que comporá
o ato de fé é a exigência de engajamento que a fé provoca. Esse componente existencial,
o engajamento, modifica o modo de ser da pessoa que crê que é baseado na maneira
pessoal de como a pessoa se compromete com uma causa ou com uma pessoa. Por
último, podemos destacar que a experiência de fé lança uma nova luz sobre várias
questões da vida das quais podemos destacar a dor, a frustação, o amor, a interação
humana e a morte, modificando a maneira de como uma pessoa vivencia esses desafios,
diferentemente de uma pessoa sem fé.

Palavras chaves: - Fé, Fé Religiosa e Aspectos psicológicos

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