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Doenças podem suspender desconto de

empréstimo consignado
De autoria do deputado Luiz Fernando Faria (PP-MG), o Projeto de Lei 2110/07
determina que, em caso de gravidez ou de doença grave e incapacitante, os
trabalhadores possam suspender o desconto em folha de pagamento dos empréstimos
consignados. A Lei 10.820/03, que criou as regras para esse tipo de financiamento,
estabelece que a autorização para desconto em folha é irrevogável.

Pela proposta, as doenças que, caso contraídas, permitem a alteração do contrato, são:
moléstia profissional, tuberculose ativa, alienação mental, câncer, cegueira, hanseníase,
paralisia irreversível e incapacitante, cardiopatia grave, Mal de Parkison,
espondiloartrose anquilosante, nefropatia grave, estados avançados da doença de Paget
(osteíte deformante) e aids. Neste último caso, a doença deve ser comprovada pela
medicina especializada e não pode ser preexistente à data da contratação do
empréstimo. Em caso de gravidez, esta também tem de ser posterior à assinatura do
contrato.

Renegociação
O projeto prevê que, no caso de uma dessas ocorrências, o contrato de financiamento
deverá ser renegociado para que se estabeleçam novas garantias, prazo de pagamento e
taxa de juros. As modificações dependem, pelo texto, de autorização expressa do
devedor, que poderá também optar pela liqüidação antecipada da dívida.

De acordo com Luiz Fernando Faria, as doenças arroladas no projeto são as mesmas
previstas na legislação para permitir a isenção do pagamento de imposto de renda. O
parlamentar ressalta ainda que essas medidas devem ter caráter excepcional, "uma vez
que não se tem a intenção de fragilizar a garantia que consagrou essa modalidade de
financiamento bancário como a mais barata em uso no País".

Tramitação
O projeto será analisado, em caráter conclusivo, pelas comissões de Trabalho, de
Administração e Serviço Público; de Seguridade Social e Família; de Finanças e
Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania.

O direito sucessório
Principais aspectos
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Publicado por Giovanna Pissutto - 1 ano atrás

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Resumo:

O presente artigo se propõe a analisar os aspectos mais relevantes do


Direito Sucessório, tão importante instituto de Direito de Família.
Para tanto, pretende-se analisar, sob todos os ângulos, a forma e o
procedimento da sucessão patrimonial.

1. Introdução
Sucessão – transferência do patrimônio que todo ser humano é titular
ao nascer com vida. A definição de sucessão para a maioria dos
doutrinadores está consubstanciada na seguinte frase: sucessão é a
transmissão/transferência da titularidade do patrimônio pertencente
a alguém, no todo ou em parte, por força de lei ou por força da
determinação de última vontade do titular do patrimônio a outrem
em virtude de sua morte.

Sucessão é transmissão do patrimônio que pertence a alguém – já


vimos em direito das obrigações/direito comercial/direito de
empresa/contratos que a transferência de um patrimônio se dá por
diversas maneiras. A maneira mais comum de transferência de um
patrimônio é o ato inter vivos (doação; empréstimo; venda e compra).

2. Patrimônio
O que é patrimônio? Patrimônio é o conjunto de bens imóveis, bens
móveis, bens materiais e imateriais, corpóreos e incorpóreos, direitos,
deveres, ônus e obrigações que todo ser humano é possuidor. Ainda
que a pessoa não tenha nenhum bem, é portadora de direito, e esse
direito pode ser objeto de transmissão se houver a morte do titular.

“No todo ou em parte”: parte do patrimônio pode ser objeto de


transmissão pela via legal (sucessão legítima), enquanto que a outra
parte pela via testamentária.
“em virtude de lei” – sucessão em virtude da lei é a sucessão legal ou
legítima. É aquela em que quem define o destino dos bens é o
legislador, não o dono do patrimônio. Se alguém morrer e não deixar
testamento e deixar filhos e irmãos, o patrimônio vai para os filhos em
decorrência da imposição legal. Se o critério ou justo/injusto,
correto/incorreto, isso é irrelevante, mas é o critério que a lei adotou.

Se o morto não concorda com o que diz a lei, deve fazer um


testamento. Se não deixar, a lei irá determinar a sucessão.

“ou em virtude de ato de última vontade” – sucessão testamentária. É


aquela que se dará quando o falecido deixou um testamento válido e
eficaz. Se o testamento é válido e eficaz, o patrimônio do testador vai
para aqueles indicados como beneficiários da herança (na qualidade
de herdeiro testamentário ou legatário).

“em decorrência da morte do próprio titular do patrimônio” – morte


no seu duplo aspecto. Em direito, a palavra tem duas vertentes: a
morte real/biológica e a morte ficta/presumida/legal. As duas geram
direito sucessório.

Ex. Maria é casada com João. João diz que vai viajar a trabalho para
Porto Alegre. O marido viaja e não retorna no domingo. Ao tentar
localizar o marido, a Maria não consegue. Depois de 6 meses do
desparecimento do João, Maria quer regularizar a situação dela.
Maria pode entrar com uma declaração judicial de ausência do
marido, pedindo que o marido seja declarado morto, mesmo que
esteja na vida real vivo. A declaração de ausência gera direitos
sucessórios assim como a morte verdadeira.

Morte real/biológica – como se prova que um ser humano morreu?


Através da Certidão de Óbito. Cartório do Registro Civil expede tal
certidão. Com a certidão de óbito, prova-se o falecimento de um ser
humano. É o documento hábil para abrir um inventário judicial ou
extrajudicial.
Como se expede a certidão de alguém que se envolveu em um acidente
e não é possível reconhecer a pessoa? Em casos de desastre (incêndio,
quebra de aeronave, etc.), desde que se prove que a pessoa estava no
local dos fatos, é expedido a Certidão de Óbito pelo cartório
competente.

3. Sistemas sucessórios
I. Concentração obrigatória – é aquela época em que o filho homem
primogênito recebia todo o patrimônio deixado pelo pai ou pela mãe
que havia falecido. Obviamente esse sistema não existe mais.

II. Liberdade plena de dispor – vigente em grande parte dos países


europeus e da América do Norte, Ásia – o dono do patrimônio pode
deixar para quem ele quiser o patrimônio e na quantidade que quiser.
Aqui no Brasil não vigora esse regime.

III. Divisão obrigatória – legítima – herdeiros necessários


(descendente; ascendente; cônjuge sobrevivente). No Brasil, se o dono
do patrimônio tiver herdeiros necessários/obrigatórios/reservatários,
o dono do patrimônio não pode dispor de todo ele.

Companheiro sobrevivente – aquele que vive em união estável e um


dos companheiros morre, deixando companheiro sobrevivente, há
uma discussão enorme se o convivente sobrevivente é herdeiro
necessário da mesma maneira que o viúvo ou viúva. O professor
acredita que não.

A justiça entende que sim e que não. Enquanto a lei não definir
permanece a situação de incerteza.

O que é o sistema da divisão obrigatória? Brasil e Portugal adotam


esse sistema da divisão obrigatória. O professor defende que deveria
existir uma herança obrigatória para um ascendente, descendente ou
para um cônjuge sob certas condições específicas. A enorme maioria
dos países adota o sistema da liberdade plena de dispor.
No sistema da divisão obrigatória, a legítima representa metade do
patrimônio do morto (50%) que deverá ser transferido para os
herdeiros necessários. A outra metade, o titular do patrimônio pode
deixar para quem quiser (inclusive para algum dos herdeiros
necessários).

3.1. Espécies de sucessão.

Sucessão Legítima – ocorre em duas situações: (i) a pessoa morreu


e não deixou o testamento: o patrimônio vai para aqueles indicados
na lei; (ii) o testamento deixado pelo falecido for inválido/ineficaz.
Existem trÊs situações de invalidez/ineficácia: nulo, anulado ou
caducou.

Testamento é um ato jurídico como outro qualquer. Para um ato


jurídico ser válido deve obedecer os pressupostos de validade: (i)
agente capaz; (ii) objeto lícito; (iii) forma da lei.

Testamento anulado é quando houver vício de consentimento (erro,


dolo, fraude, coação, simulação). Se o ato foi impugnado porque
houve vício na vontade do testador, aquilo que deixou para o herdeiro
não vai para o herdeiro testamentário, mas sim, para o herdeiro
legítimo do morto.

Testamento caduco – testamento feito por uma pessoa capaz, com a


forma prevista na lei, com a disposição do testamento válido. No
entanto, o testamento não vai ser cumprido por uma ou outra
situação. Caduca por inexistência do beneficiário (ou porque aquele
que foi escolhido morreu antes do testador, por exemplo)

Nomeação conjunta – caso algum dos beneficiários morra, vai ter o


direito de acrescer. No entanto, se descrever o quinhão (metade, por
exemplo), a metade do beneficiário inexistente vai para os herdeiros
necessários daquele que fez o testamento.

Basta que o testador tenha herdeiros obrigatórios que pelo menos


uma parte da herança será legítima e outra testamentária. A sucessão
testamentária convive em perfeita harmonia com a sucessão legítima.
Em quase 100% dos casos, quem deixa testamento possui herdeiros
necessários.

Sucessão contratual – art. 426 do CC – não é admitida no Brasil. O


que seria a sucessão contratual? Ser objeto de um contrato o
patrimônio de uma pessoa que está viva e aquele ser cumprido
quando a pessoa morrer. No Brasil há proibição expressa (não é
possível o pacto do corvo).
A sucessão legítima se dá em duas situações: não deixa testamento ou
deixa testamento ineficaz (que é ineficaz por três razões: nulo,
anulado ou caducou. Sendo assim, aquilo que o herdeiro receberia vai
para o herdeiro necessário.

Sujeitos da sucessão:

I. Morto – defunto – falecido – “de cujus” – autor da herança – finado


– usar sempre que possível a expressão “autor da herança”.

II. Sucessor

a. Universal – herdeiro legítimo: necessário e facultativo. Os


herdeiros necessários são: descendentes, ascendentes
(art.1845 do CC) e cônjuge sobrevivente.
Os herdeiros facultativos são: convivente sobrevivente e colaterais até
4º grau (2º grau: irmão; 3º grau: sobrinho e/ou tio; 4º grau primo-
irmão, sobrinho-neto, tio-avô).

O herdeiro possui mais direitos que o legatário.

Herdeiro é receber o patrimônio do morto a título universal. O que é


receber a título universal? É receber um percentual, uma fatia, um
quinhão, uma cota parte do conjunto de bens que forma o patrimônio
deixado pelo morto.

O herdeiro pode ser ainda testamentário.


O herdeiro legítimo, que o é por determinação legal, se subdivide em
duas categorias: (i) herdeiro legítimo
necessário/obrigatório/reservatário: descendentes, ascendentes e
cônjuge sobrevivente. Na classe dos descendentes e dos ascendentes
não há limites de gerações para se reconhecer a qualidade de
herdeiro. Sâo chamados de herdeiros legítmos obrigatórios pois se
alguém possuir ascendente ou descendente vivos NA DATA DO
ÓBITO DO DONO DO PATRIMÔNIO, NÃO PODERIA DISPOR MAIS
DO QUE METADE DO SEU PATRIMÔNIO. A outra metade,
necessariamente deveria ser distribuída aos ascendentes ou
descendentes.

O cônjuge sobrevivente não era herdeiro necessário na regra


do CC/16. Inspirado numa legislação europeia, houve uma
modificação do status do cônjuge no direito sucessório.
O CC/2002 colocou ao lado dos descendente e ascendentes o cônjuge
sobrevivente como herdeiro obrigatório. Hoje, se for casado, pouco
importa o regime de bens do casamento, não tendo o casal filhos nem
ascendentes, o cônjuge sobrevivente passa a ser herdeiro, NÃO
IMPORTANDO O REGIME DE BENS DO CASAMENTO.
(ii) Herdeiro legítimo facultativo é aquele que vai receber o
patrimônio do morto caso o falecido não tenha, em vida, determinado
sua vontade de maneira contrária e não tenha herdeiros necessários.
Ex. A faz testamento deixando 50% dos bens para o irmão B e para o
irmão C, excluindo o irmão D. É perfeitamente possível tal situação.

É por isso que o herdeiro é chamado de facultativo porque o dono do


patrimônio tem liberdade plena de dispor. Ou seja, não tem
obrigatoriedade de dar metade do patrimônio do falecido.

b. Singular – legatário (legado é o direito que a pessoa recebe). Só


existe legado se houver testamento válido deixado pelo morto.
Receber um bem ou dois mais bens ou parte de um bem ou parte de
dois ou mais bens devidamente individualizados, indicados,
pormenorizados, em um ato jurídico anterior que é o testamento.
Se alguém deixar no testamento e escrever na disposição do
testamento “fulano receberá 25% do patrimônio de tudo ” – a pessoa
que recebe é herdeiro testamentário.

Se alguém deixar no testamento e escrever “deixo 25% da minha casa


para fulano” – fulano é legatário, pois o testador pegou um bem e
singularizou aquele bem, pormenorizou, dizendo que X% fica com
fulano.

Qual a diferença entre herdeiro testamentário e legatário? Morto o


testador, se o herdeiro for testamentário, este entra imediatamente na
posse e domínio na herança. O legatário, por sua vez, não entra na
posse e no domínio do legado. Sò entra na posse e no domínio do
legado quando terminar o inventário, com a partilha dos bens; (ii) se
o testador dispôs mais do que poderia dispor, invadindo a legítima
dos herdeiros obrigatórios, haverá a necessidade de reduzir as
disposições testamentárias para proteger o herdeiro necessário. Nessa
redução quem é atingido primeiro é o legatário.

Sendo assim, é melhor ser herdeiro do que ser legatário.

Uma pessoa pode ser, na mesma herança, só herdeiro legítimo;


herdeiro legítimo e testamentário; herdeiro legítimo, testamentário e
legatário.

Legatário precípuo é aquele que é, na mesma sucessão, herdeiro e


legatário (herdeiro legítimo e testamentário; herdeiro legítimo,
testamentário e legatário).

herdeiro legítimo e/ou testamentário + legatário = legatário precípuo.

Herança + legado = pré legado.

3.2 Abertura da Sucessão.

O que significa abertura da sucessão? É o momento do óbito, da


morte do titular do patrimônio.
A morte real se dá no momento em que se dá a atividade cerebral do
ser humano. Esse é o momento, segundo a maioria dos médicos, em
que ocorre o falecimento do ser humano. A morte presumida é o
momento em que ocorre o trânsito em julgado da sentença
declaratória de ausência.

É importante delimitar a data para determinar os efeitos jurídicos:

I. A lei que determina a capacidade sucessória passiva; para se


determinar quem pode ou quem é sucessor do morto, é preciso
verificar a lei no momento do óbito do titular do patrimônio.

Art. 1787 do CC – regula a sucessão e a legitimação para suceder a lei


em vigor no tempo da abertura da sucessão.
João e Maria contraíram núpcias no dia 03/03/1980. Tiveram dois
filhos: Renato e Renata. O casamento durou muitos anos, até que em
dezembro de 2002 João morre, deixando a viúvas e os filhos. OS
sucessores são apenas os dois filhos, porque a lei que estava em vigor
(dezembro/2002) era o Código Civil revogado de 1916. SE o morto
deixasse descendente vivo e cônjuge sobrevivente, o cônjuge
sobvrevivente seria, dependendo do regime de bens, meeiro daquele
que morreu, mas nunca herdeiro, desde que o morto deixasse
descendentes.
Pensando no mesmo exemplo, só que o óbito se deu em fevereiro de
2013. Quem seriam os herdeiros de João? Os dois filhos concorrendo
com a viúva, pois se aplica a lei em vigor na data da sucessão (art.
1849).

Ex. Um casal contraiu núpcias em 1960. Desse casamento, tiveram


dois filhos, que nasceram em 1964 e 1967. Esse casal que teve dois
filhos resolveu adotar um terceiro filho em 1974. Em setembro de
1988 João morreu em um acidente de automóvel, deixando a viúva e
os três filhos. Quem são os herdeiros de João? Os três filhos seriam os
herdeiros do pai que morreu em setembro de 1988. Só que naquela
época era oCC/16 e havia uma discriminação no direito sucessória do
filho adotado após a existência de filhos legítimos do morto; o
adotado recebia uma cota menor. Se o mesmo óbito tivesse ocorrido
em janeiro de 1989, a divisão dos três filhos seria igual, pois a lei que
estaria em vigor seria a CF/88, que entrou em vigor em outubro de
1988, que expressamente previa a não discriminação de qualquer
filho.
A divisão antigamente dos filhos: (i) legítimos são aqueles nascidos na
constância do casamento, frutos de um casal; (ii) ilegítimos, que se
subdividiam em naturais e espúrios (os espúrios eram ainda divididos
em adulterinos e incestuoso).

Outro efeito importante: hoje, fevereiro de 2013, se alguém deixar um


testamento para uma pessoa jurídica que existe no mundo real, mas
não no mundo jurídico, e morrer logo depois, a lei não permitirá que
essa empresa seja herdeira. Mas vamos imaginar que daqui a 15 anos
a lei permita que uma empresa que existe no mundo real apenas possa
ser herdeira. Vai aplicar a lei em vigor na data do morte do testador.

II. A abertura da sucessão transmite a posse e a propriedade dos bens


do falecido. A morte do dono patrimônio implica na transferência
incontinenti da propriedade aos HERDEIROS, não SUCESSORES
(art. 1784 do CC).
O legatário, com a morte do testador, não entra imediatamente na
posse do legado. Para que ele entre na posse do legado, é necessário
que seja aberto o inventário do testador e feita a partilha do
patrimônio do testador que morreu. Com o trânsito em julgado da
partilha, entra na posse e propriedade do legado.

O herdeiro testamentário entra imediatamente na posse do seu


quinhão, pois recebe uma fatia de tudo. Por sua vez, o legatário, para
entrar na posse dessa casa, a situação padrão é entrar na posse depois
que terminar o inventário.

Só existe uma situação em que o legatário pode entrar na posse do


legado antes do trânsito em julgado da partilha: o legatário faz um
pedido aos herdeiros do morto perguntando se há algo contra a entrar
na posse antes do término do inventário. Caso os herdeiros
concordem, o legatário entra na posse do legado; (ii) quando o
legatário for o único sucessor do testador (sucessor universal). Ex.
Não tenho herdeiros legítimos necessários, mas tenho irmãos e
sobrinhos vivos. Posso deixar um testamento e escolher uma pessoa
como sucessora universal, pegando todo o patrimônio, vendo e
adquiro um único bem imóvel. Como tenho uma relação de amizade
com certa pessoa, deixo um testamento e instituo a pessoa como única
sucessora na qualidade de legatária. Como é legatária, a princípio, não
entrar na posse do legado. Mas como é a única sucessora, entra na
posse do legado, pois só existe o legatário.

Por força do que determina o artigo 1784 do CC, com a abertura da


sucessão, os herdeiros do morto entram na posse e propriedade da
herança. Esse princípio de que o patrimônio é transferido
imediatamente aos herdeiros com a morte do autor da herança tem
origem na Idade Média, denominado Princípio da Saisine (“le mort
sait le vif”). A sociedade era estruturada em clero, nobreza e plebe.
Como a expectativa de vida na época era muito pouca, o camponês
ocupava a terra do senhor feudal e o senhor feudal exigia uma taxa
pelo fato de ocupar terra que não era dele. Quando o camponês
morria, a família do camponês não tinha condições de pagar a taxa.
Com a morte do camponês, o proprietário feudal exigia o pagamento;
se não pagasse, a família era sumariamente expulsa das terras. Por
causa dessa situação, surgiu esse princípio: enquanto não terminar a
colheita para pagar a taxa, a família não poderia ser expulsa
sumariamente da terra do senhor feudal.
Outro princípios: a herança da data da morte até a data em que é feita
partilha entre os sucessores, esse patrimônio, chamado de herança, é
considerado um todo único e indivisível. Princípio da
unidade/unicidade da herança e princípio da indivisibilidade da
herança – art. 1791, § único.

A herança defere-se como um todo unitário, ainda que vários sejam os


herdeiros. Até a partilha, o direito dos co-herdeiros em relação à
propriedade e posse da herança, será indivisível, e regular-se-á pelas
normas relativas ao condomínio.
Se a herança é considerada, da data da morte até a data em que foi
feita uma partilha feita em inventário, única, nenhum dos herdeiros
tem que exigir dos doutros co-herdeiros qualquer tipo de
anuência/permissão para defender a herança. Qualquer co-herdeiro
pode defender o todo, não só o seu quinhão.

Enquanto permanece a situação de condomínio, qualquer um dos co-


herdeiros pode defender o todo, não apenas o seu quinhão.

Princípio da indivisibilidade da herança – enquanto perdura a


situação de condomínio, a herança é considerada um bem imóvel
(art. 80, II CC). Nenhum herdeiro pode transferir, seja a título oneroso
ou gratuito, um bem imóvel sem que seja essa transferência feita por
escritura pública e sem que seja respeitado o direito de preferência
dos demais co-herdeiros.
Sendo assim, o co-herdeiro não pode vender 1/3 de determinado bem,
mas sim, ceder 1/3 dos direitos sucessórios a determinada pessoa. Se
houver co-herdeiros, antes de ceder o direito sucessória a um
estranho, tem que ser dado o direito de preferência aos outros
herdeiros.

Se a herança, de acordo com o artigo 80, é considerada bem imóvel,


toda e qualquer transferência de bem imóvel só é válida mediante
escritura pública. Escrito particular não tem força legal para
demonstrar a transmissão de um imóvel.

Por isso que o artigo 1793 do CC repete o comando que já vem da


parte geral (art. 80) ao determinar: o direito a sucessão aberta, bem
como o quinhão do co-herdeiro, poderá ser objeto de cessão desde
que seja por escritura pública.
Art. 1792 do CC – o herdeiro só responde pelas dívidas/obrigações
que o autor da herança eventualmente possuir com as forças do
patrimônio que recebeu. Ex. Morto deixou patrimônio de 100 e
dívida de 120; os herdeiros não recebem nada, mas os credores
recebem apenas 100, não podendo exigir os 20 do patrimônio
pessoal dos herdeiros.
Herança é igual a patrimônio. Quando uma pessoa morre, o
patrimônio é chamado de herança.

O que é espólio? O espólio só surge quando existir inventário aberto.


Inventário é a herança do ponto de vista processual. Não existe
espólio antes que seja aberto o inventário. A partir do momento em
que é aberto o inventário, a herança passa a ser o espólio do morto.

Quem representa o espólio = inventariante.

O espólio desaparece com a partilha transitada em julgado.

O espólio representa o patrimônio deixado pela pessoa falecida.

4. Aceitação e renúncia da herança – artigos 1804


a 1813 do CC
Quando alguém morre, surge a transmissão do patrimônio. Esse
patrimônio se chama herança. Aquele que tem direito por lei ou por
vontade do falecido de receber esse patrimônio, tem duas opções: (i)
aceitar; (ii) renunciar ao direito.

Aceitação – é um ato jurídico, uma manifestação da vontade daquele


que tem direito de receber patrimônio no intuito de receber esse
direito.

Ex. Morreu uma pessoa e o morto deixou filhos e viúva. Os filhos e


viúva tem direito de receber esse patrimônio. Mas esse direito não é
uma obrigação; aqueles que são detentores do direito podem exercer
ou não.

Sendo a aceitação um ato jurídico, como todo e qualquer ato jurídico,


a aceitação, para ser válida, precisa obedecer os requisitos de validade
de um ato jurídico: (i) agente capaz; (ii) forma prevista na lei; (iii)
objeto lícito.
Quem é que pode aceitar a herança? A princípio, aquele que seja
maior de 18 anos e esteja no pleno gozo da sua saúde mental. Ou seja,
maior e capaz pode aceitar. Aquele que é maior e capaz pode aceitar
de duas maneiras: (i) diretamente; (ii) indiretamente.

A forma mais comum de o herdeiro/legatário é aceitar diretamente e


pessoal.

Mas é possível a aceitação indireta. É possível constituir uma outra


pessoa para em nome dele aceitar a herança. Pode-se nomear até
mesmo um parente para que aceite a herança no nome do indivíduo.

A aceitação do herdeiro/legatário que é maior e capaz pode aceitar


por meio dessas duas formas.

E se o herdeiro/legatário (em sentido amplo: sucessor) for incapaz


(menos de 18 anos; tem comprometimento na saúde mental)? Pode
aceitar a herança. Para que o herdeiro incapaz aceite, a aceitação só
será válida de maneira indireta. Não existe aceitação de
herdeiro/legatário incapaz que não a indireta. Quem aceita é o
representante legal: pais, tutor, curador.

Representando o detentor do direito, vai, em nome do incapaz, aceitar


a herança. Obviamente, é uma aceitação indireta.

A aceitação tem que ser feita de acordo com a forma prevista na lei.
Temos três formas válidas de aceitar a herança
(art.1805 e 1807 do CC):
I. A aceitação pode ser expressa – todo ato que é expresso é um ato
que obrigatoriamente deve ser por escrito. Não vale a manifestação
verbal. Todo ato expresso precisa ser obrigatoriamente feito por
escrito.

Esse escrito precisa ser público ou já é suficiente o escrito particular?


Quando o ato exigir a forma pública, ele é taxativo. É suficiente o
escrito particular porque a lei não exige.
A maneira clássica de se aceitar a herança por escrito: tem que abrir o
inventário. Quem tem legitimidade para requerer a abertura do
inventário é o advogado. O escrito particular por excelência é a
procuração que deu para o advogado abrir o inventário (seja judicial
ou extrajudicial).

Pode não ser a procuração do advogado.

II. Aceitação tácita – quando tácita, há de resultar tão-somente de


atos próprios da qualidade de herdeiro.

Não exprimem aceitação de herança os atos oficiosos, como o funeral


do finado, os meramente conservatórios, ou os de administração e
guarda provisória.

Ex. Procurar um advogado para fazer o inventário, adiantando parte


dos honorários; defender a herança.

III. Aceitação presumida – hipótese mais rara. O interessado em que


o herdeiro declare se aceita, ou não, a herança, poderá, vinte dias após
aberta a sucessão, requerer ao juiz prazo razoável, não maior de trinta
dias, para, nele, se pronunciar o herdeiro, sob pena de se haver a
herança por aceita.

O interessado pede a intimação do herdeiro para que este dentro de


um prazo de até 30 dias diga se aceita ou não a herança. Se o herdeiro
não falar nada, presume-se aceita a herança.

O interessado pode ser um credor do herdeiro ou do morto.

Na prática, se o interessado for um credor tanto do herdeiro quanto


do morto, o herdeiro não poderia renunciar a herança porque a
renúncia seria considerada ilícita.

A aceitação é quase sempre feita de maneira expressa.


A aceitação, para ser válida, precisa lícita. O objeto da aceitação
precisa ser legal em relação à lei que está em vigor na data da abertura
da sucessão.

Todo bem que tenha origem ilícita, a aceitação feita não tem nenhum
valor porque o objeto é ilícito.

4.1 Restrições em relação à validade da aceitação – a aceitação


não pode ser parcial; não pode ser feita sob condição; não pode ser
feita a termo.

Não se admite a aceitação em parte – se alguém morre e deixa 3


herdeiros, cada um desses 3 herdeiros tem direito de receber 1/3 do
patrimônio deixado pelo morto. O herdeiro pode dar a parte dele para
outro herdeiro, mas formalmente esse herdeiro aceitou a herança e
imediatamente depois transferiu a parte dele para outro herdeiro.
Sendo assim, vai pagar 2 impostos (ITCMD). Se o filho mais velho
tivesse renunciado à sua qualidade de herdeiro, a herança seria
dividida por 2. A lei impede a aceitação de parte da herança; ou se
aceita tudo ou se renuncia a tudo. É claro que na prática isso pode ser
perfeitamente contornado, mas o efeito prático é o pagamento de dois
tributos.

Art. 1.808. Não se pode aceitar ou renunciar a herança em parte, sob


condição ou a termo.

§ 1º O herdeiro, a quem se testarem legados, pode aceitá-los,


renunciando a herança; ou, aceitando-a, repudiá-los – o herdeiro que
simultaneamente é legatário, pode aceitar a herança e o legado;
aceitar a herança e renunciar o legado e vice-versa.

O que não pode é aceitar parte da herança e parte do legado;


renunciar parte da herança e renunciar parte do legado.

§ 2º O herdeiro, chamado, na mesma sucessão, a mais de um quinhão


hereditário, sob títulos sucessórios diversos, pode livremente
deliberar quanto aos quinhões que aceita e aos que renuncia – se na
mesma herança é herdeiro legítimo e herdeiro testamentário, pode
renunciar a qualidade de herdeiro testamentário e herdeiro legítimo;
aceitar a herança na qualidade de herança legítimo e herdeiro
testamentário, etc.

Não se pode aceitar sob condição – subordinação a um evento futuro


incerto. A condição válida se subdivide em: (i) resolutiva – extintiva
de um direito. O nomeado perde a qualidade de herdeiro se a
condição vier a ocorrer; (ii) suspensiva.

Se nomear sob condição, a condição normalmente é suspensiva


(muito dificilmente resolutiva, pois esta tem um caráter punitivo).

Ou seja, ou aceita na data da abertura da data da sucessão ou não se


aceita. Não pode o herdeiro dizer: “aceito mas não quero pagar o
ITCMD”; “aceito desde que não tenha que me deslocar da minha
cidade”. Qualquer tipo de condição imposta pelo aceitante, não é
válida.

Aceitação feita a termo – data futura e certa. A aceitação não pode


valer a partir de uma data que não seja a data do óbito. A aceitação
vale sempre a partir da data da abertura da sucessão; não pode ter
uma outra data. Por isso não se admite a aceitação feita a termo.

A aceitação tem uma única data: data da abertura da sucessão. Por


isso não é possível a aceitação feita a termo.

A renúncia é um ato de despojamento da herança; ato de liberalidade.

A renuncia, como todo e qualquer ato jurídico, precisa obedecer os


requisitos de validade de qualquer ato jurídico (agente capaz; objeto
lícito; forma).

A princípio, quem pode renunciar é o herdeiro/legatário maior e


capaz. SE o sucessor for maior e capaz, a renúncia pode ser feita de
duas maneiras:
I. Renúncia direta e pessoal

II. Renúncia indireta (feita por um procurador do renunciante)

A renúncia do incapaz é obrigatoriamente indireta, feita pelo


representante do incapaz.

É admissível que o herdeiro incapaz abra mão do seu direito à


herança? Sim. Os pais, com relação ao patrimônio do filho, podem
administrar e tem o usufruto pela administração dos bens dos filhos.
Sendo assim, os pais não podem diretamente renunciar à herança,
mas pode pedir uma autorização judicial para que a renúncia seja
autorizada judicialmente. O juiz vai autorizar quando, ao renunciar, o
incapaz não sofra nenhum tipo de prejuízo à sua
formação/criação/sustento/manutenção.

A renúncia é um ato jurídico que pode ser praticado pelo incapaz,


desde que haja autorização judicial, pois o representante do incapaz
tem o direito de administrar, mas não de dispor do patrimônio do
incapaz, sendo que a herança é um patrimônio.

A doutrina classifica a renúncia tem duas categorias:

I. Renúncia própria/pura/abdicativa – é aquela em que o renunciante


abre mão do seu direito e pouco importa a ele quem é que vai ficar
com aquilo que seria dele. Em outras palavras: o renunciante não
renuncia para favorecer determinada pessoa; simplesmente abre mão.
Favorece todos que a lei determina que seriam beneficiários da
renúncia.

II. Renúncia imprópria/impura/translativa – é cessão