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Tão Perto

Para o meu amor, por ter sido meu grande incentivador, mesmo quando criticava.

Você sempre disse que eu conseguiria, mas nunca entendeu que eu só consegui porque você estava meu lado.
Agradecimentos

Chegar até aqui foi a realização de um grande e antigo sonho. Não é o ponto de chegada,
mas o ponto de partida para uma longa caminhada.
Nessa caminhada, não posso deixar de agradecer ás pessoas importantes que estiveram ao
meu lado.
Agradeço aos meus pais e familiares que me incentivaram e estiveram comigo sempre,
mesmo antes disso tudo começar. Vocês são as minhas raízes, e uma árvore com boas raízes suporta
qualquer tempestade.
A Wendy e a Camila porque nunca me deixaram desistir e sempre me ajudaram á ir além do
que eu achava que conseguia. Vocês foram minhas fadas madrinhas e as melhores amigas que alguém
poderia querer.
Ao quinteto mais cheio de amor que eu poderia encontrar. Wendy, Margarete, Alessandra e
Janaina, vocês tornam os meus sonhos mais possíveis e eu sempre vou precisar do apoio de vocês.
Á Monica, minha amiga e revisora, por se preocupar em me ajudar a tornar o livro lindo
para que vocês pudessem aproveitá-lo melhor.
A Daiane que me fez ficar super orgulhosa da minha nova assinatura, criada por ela.
Obrigada Dai, você é uma daquelas pessoas que a gente sabe que já conhece de muitas vidas.
Á todas as minhas, novas e nem tão novas assim, amigas do Wattpad. Graças á vocês, eu
comecei a acreditar que isso tudo aqui poderia realmente dar certo. Vocês são como luzes na minha
vida, sempre me mostrando o caminho á seguir.
“Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma


Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança”

(Fernando Pessoa)
Prólogo

Era uma tarde chuvosa quando eu a deixei. Era uma tarde fria, chuvosa e triste.

Meu corpo estava prostrado, ajoelhado contra a grama molhada. A calça do meu terno preto
estava molhada e suja de lama, pela terra recém-revolvida.

Apoiei minha mão contra a lapide de mármore, correndo os dedos pelas inscrições, sentindo
como se fosse um ultimo adeus. Uma ultima vez em que eu iria tocar algo que ainda tivesse o cheiro
dela.

Fechei os olhos, deixando minha mente vagar em busca da garota de olhos verdes. Linda,
cheia de vida. A garota que eu havia ajudado a destruir. Eu lembrava exatamente da primeira vez em
que a vi. Eu me lembrava de pensar que nunca uma garota como ela iria querer um cara como eu. Eu
me lembrava do primeiro beijo e de como ela tentava parecer confiante, mesmo estando assustada em
meus braços, quando eu a fiz minha. Suspirei, sentindo as lágrimas completarem o trabalho que a
chuva havia começado.

Nesse mesmo instante, a mão repousou sobre meu ombro, calma, gentil, mas forte, como eu
precisava que fosse. Virei-me para encontrar os olhos claros de Alexander. Meu amigo. Meu irmão.
Ele não disse nada. Tinha os mesmos olhos vermelhos, o mesmo semblante triste, cansado que eu
tinha. Haviam sido muitos meses de dor e sofrimentos. Muitos meses de noites em claro com um bebê
recém-nascido nos braços esperando que a mãe estivesse forte o suficiente para embalá-lo, até que
ele mesmo desistiu, apegou-se ao colo que podia ter. Meu, de Alex, de John, foi assim, até que ela
finalmente desistiu. Não podia mais lutar e eu não podia mais vê-la lutar.

Levantei-me e olhei ao meu redor. A maioria das pessoas já haviam ido embora. Estávamos
apenas Alex, John e eu. Meu filho tinha uma rosa cor de rosa nas mãos. Ele caminhou até a grama
revolvida da lapide e a colocou ali, correndo os dedos pela placa de mármore fria, como eu havia
feito á pouco. Olhos vermelhos perdidos no horizonte, jovem demais para aquele terno preto.

Lembro-me de tudo como se fosse hoje. Lembro-me do cheiro da terra molhada e da dor
lancinante que senti ao ver meu filho sofrer daquele jeito. Eu me lembro de sentir que faria qualquer
coisa para que a dor que ele sentia viesse toda para mim. Eu não pude. Não havia nada que eu
pudesse fazer naquela hora. Eu havia passado tempo demais preocupado comigo mesmo para
entender que eles precisavam de mim. Eu havia passado tempo demais aproveitando minha vida, meu
dinheiro, minha fama. Tempo demais perdido comigo mesmo.

Egoísta – minha mente repetia em silencio – tudo isto está acontecendo porque você foi
egoísta demais para olhar ao lado e perceber que eles precisavam de você.

Apertei meu filho contra os meus braços, sentindo sua resistência em ser consolado. Ele era
forte. Era maduro e bom. Muito melhor do que eu nunca havia sido.
Fechei os olhos, sentindo finalmente sua cabeça pender contra o meu peito, soltei o ar
devagar, jurando que nunca mais me permitiria estragar a vida de alguém. Eu viveria por eles. Eu os
protegeria. Cuidaria deles. Eu seria o pai que não havia sido até agora. Eu seria o pai que o meu não
foi. Eu nunca mais me permitiria ser levado por sentimentos. Nunca mais.
Capítulo 1

Estávamos no fim do inverno e a primavera começava a despontar pelos canteiros e praças


de Amsterdã. Era um daqueles dias raros de sol que se tem aqui, pelos arredores dos países baixos.
Nós passamos a maior parte do tempo com aquele céu cinzento e pesado querendo desabar em nossas
cabeças, então, eu estava animada. Você deve imaginar como é para uma brasileira acostumada ao
sol tropical das nossas terras tupiniquins, estar á tanto tempo longe de casa. Bem, não que eu tenha
exatamente saudades de casa, para ser sincera, sair de casa foi minha grande carta de alforria, mas o
sol, esse sim, me fazia falta.

Acordei um pouco antes do despertador – o que não acontecia com frequência – tomei um
banho relaxante, penteei os cabelos no meu coque costumeiro, vesti uma saia lápis verde escura e
uma blusa bege de seda fina com um padrão floral. Encarei a figura no espelho feliz, depois do monte
de merdas com que tenho lidado desde a formatura, me sentir bonita e respeitavelmente profissional
certamente contribuiria para um dia agradável no escritório. Calcei meus scarpins* pretos e peguei
minha pasta. Enchi um dos potinhos de Mia com leite e o outro, que ficava ao lado da água, com
ração para gatos. Olhei para a almofada sobre o parapeito da janela e a vi ali, preguiçosamente
procurando um raio de sol. Esticada sobre a almofada bordada, encarando os transeuntes pelo vão da
cortina semiaberta. Se você nunca visitou Amsterdã, certamente irá estranhar o quanto o povo
Holandês não se preocupa em ser observado.

Confesso que nos primeiros dias em que me vi em um apartamento tão pequeno que era
possível ver toda a área comum pela janela da frente, eu estranhei e corri até a primeira loja de
departamentos que encontrei em busca de uma cortina. Tarefa quase impossível – Holandeses não
usam cortina. Nunca. Em lugar algum. Eles não se importam em serem vistos e menos ainda em ver
os outros. Nesses quase seis anos em que me encontro por aqui, foram raras ás vezes em que percebi
alguém de olho no meu apartamento – Que fica no térreo de uma ruela não muito movimentada, no
Jordaan** - e percebi na hora que se tratava de um turista e não de um local.

Tranquei a porta da frente e dei uma ultima olhada em minha grande e gorda gata laranja,
esticada ao sol, pensando em como ela tinha sorte de ter á mim. Ou seria eu que tinha sorte de ter á
ela? Não sei. O fato é que formamos uma boa dupla, desde sempre.

*Scarpin – tipo de calçado feminino

**Jordaan – Baixo na cidade de Amsterdã, Holanda.

Continuei caminhando até o ponto do tram*, observando o vai e vem de turistas nas ruas
principais, maravilhados com a arquitetura e a beleza dos canais. Amsterdã é uma cidade
encantadora. Mesmo morando aqui á tanto tempo, eu ainda não me canso de encarar a beleza da
cidade.
Eu estava á alguns quarteirões do ponto quando uma brisa caramelada golpeou meu estomago
com tanta força que eu tive que parar e me permitir um stroopwafel**. Eu simplesmente não consigo
enjoar desse maldito biscoitinho holandês e atribuo á ele o fato de nunca mais ter perdido aqueles
“três quilinhos” que todas nós queremos perder. Peguei meu biscoito, um copo de café daqueles
com tampa, encaixei a alça da pasta de couro ao redor do antebraço, copo em uma mão, biscoito na
outra e lá fui eu, ainda mais feliz, esperar meu transporte até a área comercial da cidade.

Que a Holanda é o país dos moinhos, praticamente todas as pessoas do mundo sabem, mas
poucas delas pensam sobre as razões praticas disso – vento. Na Holanda o vento é constante. Sim,
constante. Oscilando entre brisa e vendaval com a mesma velocidade em que alguém pisca.
Estávamos num momento brisa, e de repente, um vendaval golpeou-me com força, soltando algumas
mechas castanhas dos meus cabelos e me deixando momentaneamente sem enxergar. Eu estava ali,
tentando colocar meu cabelo rebelde atrás da orelha com a mão que segurava o biscoito e
equilibrando a pasta e o café quando me choquei contra algo duro. Não tive muito tempo para pensar
ou reagir. Tudo que consegui foi perder o equilíbrio e lambuzar meu cabelo com o caramelo quente
do biscoito, enquanto meus sapatos patinavam naquela lamazinha nojenta que se forma quando a neve
derrete nas ruas e o sol não é suficientemente quente para secá-la. O copo se foi em direção ao muro
de terno na minha frente e eu juro que quis impedir, mas não pude, eram os meus joelhos contra a
calçada ou o café contra o terno do homem. Pensei que ele sentiria menos dor em sujar o terno do que
eu sentiria em ralar os joelhos no cimento da calçada. Antes que eu tivesse certeza de que não cairia,
senti sua mão firme em torno do meu pulso, sustentando-me e colocando-me em posição
confortavelmente vertical novamente.

Eu ainda não tinha olhado para cima, mas então, pareceu inevitável encarar meu salvador. O
salvador sujo de café, graças á mim. Meus olhos subiram pelo terno escuro, minhas bochechas
corando pela mancha grudenta e escura na camisa imaculadamente branca – até segundos atrás – era
um peito forte e definido, mesmo sob o terno, eu podia ver que ele tinha uma bela constituição física.
Gravata de seda cinza, ombros largos, pele clara com uma barba bem aparada que oscilava entre o
castanho claro e o louro e a boca mais linda que eu já havia visto em um homem, e então eu parei nos
olhos.

* Tram – um tipo de bonde ou trem pequeno que circula em algumas cidades europeias.

*stroopwafel – é um biscoito de origem holandesa, em uma tradução livre significa "waffle com calda". Trata-se de
um biscoito formado por duas finas partes de massa, unidas por uma espessa calda, em formato de disco.

Os olhos dele me queimavam de dentro para fora. Aquele tipo de olhar que faz você querer se
cobrir porque sente que o outro está olhando dentro da sua pele. Os olhos eram castanhos, levemente
esverdeados. Estreitos e profundos como se o mundo o entediasse. Ele tinha a mão ainda em torno do
meu pulso – seu toque firme não era gentil, nem delicado. Nada naquele homem era delicado. Eu
sabia que ele deixaria uma marca e sabia que não seria apenas no meu pulso.

- Desculpe – pronunciei no holandês mais polido que eu consegui, embora meu holandês fosse ruim
como o inferno.
Ele não respondeu pelo que me pareceu tempo demais, os olhos perdidos dentro dos meus. E
então ele se abaixou elegantemente, sem deixar os olhos se perderem dos meus, os lábios apertados,
sem nenhum esboço de sorriso em sua boca linda. Eu só percebi o que ele ia fazer, quando me
entregou as primeiras folhas de papel manchadas de lama e café que haviam caído da pasta com
nosso choque. Ele as pegou, uma á uma, e me entregou. Quando eu peguei a ultima e coloquei dentro
da pasta, ele deslizou a mão pelo cabelo claro, ajeitando uma mecha que insistia em descer por sua
testa, alisando-a para trás novamente. Ele cheirava tão bem que eu rezava mentalmente para que ele
se movesse mais e espalhasse aquele aroma delicioso pelo ar em volta de mim, mas ele não era de
mover-se demais. Era contido, elegante e certeiro; calculista, planejado. Eu me sentia como uma
maluca nos poucos minutos em que estávamos perto um do outro. Eu gesticulava demais, movia os
pés demais, eu me sentia nervosa, descontrolada, ansiosa. Meus cabelos estavam uma bagunça de
vento e caramelo, o biscoito idiota repousando entre os meus dedos.

- Espero não tê-la ferido – ele me disse em inglês, com o sotaque mais erótico que eu já ouvi.
Provavelmente percebendo que eu não era holandesa. Eu queria cavar um buraco na calçada com
minhas unhas e me atirar nele, humilhada e suja de caramelo.

- Não. Não se preocupe. Eu sou desastrada mesmo – eu falava descontroladamente. Queria parar,
mas simplesmente não podia. Minha mente maluca tentando aumentar o que provavelmente era uma
despedida curta entre dois estranhos. Sinto muito pela camisa. Se quiser eu posso mandar lavar.
Basta dizer onde devo busca-la.

Eu rezava para que ele me desse um endereço. Que me dissesse onde buscar a maldita
camisa, provavelmente feita sob medida, para que eu tivesse alguma esperança de encontrá-lo
novamente. Corri os dedos por sua mão esquerda – Não havia aliança, mas havia uma pequena marca
ali, quase sumindo. Ele esperou pacientemente que eu terminasse de tagarelar como uma gralha,
sempre em silencio, os olhos focados nos meus. Eu sentia uma onda estranha de calor que começava
dentro do meu umbigo e se espalhava até minhas bochechas, que já pegavam fogo.

- Não será necessário, senhorita – sua voz apertava botões dentro de mim que eu nem sabia que
existiam – Espero apenas que me perdoe e desejo que tenha um dia agradável, apesar do ocorrido.

Ele acenou levemente com a cabeça, virou-se e se foi, sumindo na pequena multidão que
tentava atravessar a rua. Nem um nome, nem um aperto de mão, e menos ainda um convite para
qualquer coisa que me incluísse. Eu ainda estava meio atordoada com todo o acontecido quando vi o
pequeno trem aproximar-se e corri, sem um decimo da elegância do espécime perfeito de homem
com quem eu tive o prazer de trombar.

Entrei, passei meu cartão pela maquina de cobrança e me sentei. Fiz uma varredura de mim
mesma e conclui que nada – além do meu orgulho e do meu cabelo – havia se perdido com o fatídico
esbarrão. Encarei o maldito biscoito na minha mão e dei uma mordida, grande demais, tentando
compensar a fome que eu ainda sentia. Seu perfume estava no meu pulso, vermelho pelo toque, e eu
queria mais.

Cheguei ao escritório com dez minutos de atraso, esperando ser repreendida – ultimamente
eu vinha sendo repreendida muito mais do que gostaria – mas Hans não estava lá. Hans Andersen,
meu chefe, mentor e tudo mais que você possa considerar importante. Hans foi o responsável por eu
poder permanecer na Holanda, uma vez que eu não havia encontrado pista alguma do meu pai. Eu o
conheci seis meses depois de chegar aqui, enquanto ainda tinha esperanças sobre meu progenitor
misterioso. Ele me ajudou no que pode, dentro dos meus poucos euros disponíveis e me arranjou uma
bolsa para a faculdade depois de presenciar um dos telefonemas incrivelmente desconfortáveis que
tive com a minha mãe. Quando estava no terceiro semestre da faculdade de direito, ele me deu um
estágio. Pagava muito mais do que eu merecia e, apesar de tentar, compreendia minha dificuldade na
língua. Eu falava inglês muito bem, quase sem sotaque, mas o holandês era outra história, eu me
sentia como uma velhinha banguela falando e todo mundo me corrigia. Com o tempo, fui desistindo e
firmando meu inglês. Eu trabalhava com direito internacional, então não era assim tão difícil não
falar holandês, uma vez que meus clientes, em geral, falavam inglês.

Hans era para mim como o pai que eu nunca tive, uma vez que o maldito holandês que me
gerou, deixou minha mãe gravida com alguns milhares de reais e um pedido de aborto. Vida difícil?
Nem tanto. Essa é apenas a parte fácil. A parte realmente difícil foi descobrir que tudo isso podia
não ser verdade e que minha adorável mãe podia não ser tão sincera assim. Resumindo, quando fiz
dezenove anos eu fugi com meu passaporte e tudo que consegui de dinheiro com minha avó para a
Holanda. Eu tinha certeza de que minha vida acabaria como aqueles filmes em que a garota não sabe
quem é o pai e descobre que ele é algum tipo de príncipe. Como Anne Hathaway em “O Diário da
Princesa”. Não foi exatamente assim que as coisas aconteceram, mas eu considero que terminei
muito bem, considerando a vida que eu teria se tivesse ficado com minha mãe em São Paulo.

Voltando as represálias frequentes, eu estava em debito com Hans. Arrastei o nome do


escritório do anonimato direto para a beira do meio fio com o escândalo que resultou do meu
primeiro caso. Era um caso importante. Uma empresa Belga usando mão de obra quase escrava com
trabalhadores bolivianos. Eu tive um prazer quase sexual em vencer esse caso, porque me sentia
ligada ás pessoas de alguma maneira. Eles eram sul-americanos como eu e estavam em uma situação
ruim, eu me sentia em divida e quis ajuda-los. O fato é que eu acabei desagradando às pessoas
erradas e no fim, embora eu fosse brilhante em defender o que eu acreditava, conseguiram sair com
uma historia hedionda na mídia de que eu havia ganhado o caso porque ofereci favores sexuais ao
juiz. Primeiro eu quis morrer, enterrei-me em casa, debaixo das cobertas e chorei até não aguentar
mais com um pote de Häagen Dazs*. Depois eu quis matar. Fui até o escritório do canalha que
inventou a mentira toda e quase saí de lá escoltada pela policia. Por ultimo, Hans me convenceu que
nem uma das duas coisas iria mudar o que metade da Europa estava convencida a pensar e que só o
tempo poderia realmente exercer algum bem sobre esse assunto.

Voltei ao trabalho e passei a escolher casos menos polêmicos para meter meu narizinho
arrebitado. Já fazia quase um ano e eu ainda tinha que lidar com olhares tortos quando pisava em um
maldito tribunal de justiça, mas ali estava eu, uma brasileira que não desistia nunca – clichê, mas era
verdade.

Entrei em meu escritório, encostei a porta, sentei em minha cadeira e liberei todo o ar dos
pulmões, puxando uma lufada de vento para dentro pela primeira vez desde o fatídico esbarrão – eu
ainda podia sentir o peito firme dele contra a pele do meu rosto. O perfume delicioso de roupa limpa
e algo masculino e sofisticado. Lambi os lábios sem querer, caneta brincando na boca, olhos
perdidos na janela, mirando o mar lá no fundo, sentindo minha respiração se acalmar e fluir quando
minha porta bateu.

Hans estava lá, calça escura, camisa clara, blazer xadrez, óculos na ponta do nariz aquilino,
olhar de interesse.

- Ou eu estou perdendo meu faro para palpites, ou algo a deixou mais fora de controle que o costume.

Ajeite-me na cadeira, fechei a boca e deixei a caneta descansar no porta-lápis – a pobre


coitada já estava mordida e babada o suficiente para uma manhã de trabalho.

- Hum – comecei – se foi pelo atraso, eu sinto muito Hans. Realmente não pretendia me atrasar, eu
não me esqueci do seu compromisso com o tal executivo importante. Sério. Se eu te contasse você
nem acreditaria – parei a historia por aí porque eu realmente não queria dividi-la com ele e nem
sabia como fazer isso sem parecer imbecil.

Ele sentou-se na cadeira de frente para a minha, do outro lado da mesa. Cruzou as mãos
sobre a mesa e me deu um sorriso divertido, acendendo um cigarro.

- Para a sua sorte, Srta. Soares, eu estou com muito tempo livre esta manhã, uma vez que meu cliente
teve um infortúnio e desmarcou nosso encontro, então, eu adoraria ouvir o que a fez se atrasar.

*Häagen Dazs – marca de sorvetes estadunidense, mundialmente conhecida.

Eu estava me preparando mentalmente e repassando a história em minha mente da maneira


mais sensata que pensei quando Berta bateu na porta.

- Sr. Andersen – ela disse com a voz baixa – telefone para o senhor na linha dois. É o Sr. Persen.
Posso transferir para cá?

- Claro – Hans respondeu – Transfira que eu mesmo atendo.

Berta saiu e Hans deu um longo trago no cigarro.

- Ele é metódico. Extremamente metódico. Confesso que fiquei curioso para conhecê-lo e um pouco
desapontado quando ele desmarcou, hoje de manhã.

O telefone tocou em seguida.

- Sim, pois não, você fala com ele mesmo. Claro que sim Sr. Persen, eu mesmo irei á Roterdã pela
manhã – uma estreitada de olhos de Hans em minha direção e uma longa pausa na conversa me
deixaram nervosa – Claro. Eu entendo. Sei que sim – mais uma pausa – Não estou certo disso. Seria
arriscado demais. Não quero manchar a carreira dela – meu coração martelando em meu peito agora
– Bem, aí seria diferente, mas ainda assim Persen, você sabe que eu tenho muito apreço pelo trabalho
dela. Não eu não acho que nenhuma noticia seja verdadeira, eu conheço meus empregados – agora eu
estava desesperada, realmente desesperada. O homem era metódico, vai ver pediu minha demissão
como condição para entregar algum caso á Hans. Pronto, esse era o fim da minha carreira.

Hans desligou e eu fiquei sem saber se queria ou não ouvir o que ele tinha para me dizer,
esvaziando mentalmente minhas gavetas e olhando minha pequena planta carnívora sobre a janela,
pensando que ela teria que dividir a janela com Mia de agora em diante.

- Tenho boas e más noticias Laura, o que quer primeiro? – Hans me disse.

Respirei fundo, endireitei os ombros, soltei o ar com cuidado. Se ele iria me despedir eu
receberia isso de peito aberto, Hans merecia isso de mim, ele merecia que eu fosse corajosa e eu
seria.

***

Minha mente estava longe enquanto eu dava goladas esparsas no meu uísque. Longe.
Perdido. Sozinho. Minhas forças e minha paciência levadas ao limite. Eu estava á ponto de cometer
algum tipo de loucura. Eu os queria de volta. Eu os queria comigo. Eu não podia mais postergar isso.
Meu coração se apertava e eu não sabia mais o que fazer. Eu havia tentado evitar toda essa merda
judiciaria porque não queria procurar meu pai. Não queria ouvir ele me dizer que avisou. Dizer que
eu estava errado que tinha metido os pés pelas mãos que havia jogado meu futuro fora e todas as
coisas que nos fizeram discutir desde o nascimento de John. E então Collin me ligou chorando e me
disse que sentia saudades e que queria voltar. Perguntou-me sobre Chucrute e disse que sentia falta
de casa. Ele respirou fundo, e me perguntou se eu não o queria mais e então me coração desmoronou.
E tudo ao meu redor perdeu o brilho e o sabor e nada mais importava se eu não pudesse trazê-los de
volta, os três.

Liguei o notebook. Já fazia anos que eu não lidava com esse tipo de coisa, estava enferrujado,
mas minha licença era válida, e embora eu não pudesse cuidar desse caso sozinho, eu podia
encontrar alguém bom o suficiente para o caso. Pensei em Alex e descartei o pensamento assim que
me ocorreu. Eu precisava dele em outros assuntos, não poderia simplesmente comprometer meu
melhor advogado e deixar todo o resto desamparado e eu queria alguém á minha disposição. Eu sabia
que o caso exigiria algumas viagens e isso era impossível para Alex, especialmente com Alissa
prestes á dar á luz.

Respirei fundo, lembrando o momento exato em que segurei John em meus braços. Eu era um
garoto bobo e mimado e não tinha ideia do que estava fazendo, mas aquele pedacinho de gente nos
meus braços mudou tudo isso. Eu olhei nos olhinhos dele e prometi que faria meu melhor por ele. Eu
prometi que não permitiria nunca que nada o magoasse e eu falhei. E o vi derramar mais lagrimas do
que eu queria. E eu o vi crescer. E o vi tornar-se tão diferente de mim. E o vi se afastar. E agora ele
estava lá, com milhares de quilômetros de distancia de mim e tudo que eu queria era ele aqui,
ouvindo aquelas músicas barulhentas e chatas, e deixando os tênis sujos esparramados pelo meu
tapete de pele de ovelha. Minha casa estava silenciosa demais.

Abri o navegador e digitei “caso Fergusson” na caixa de pesquisa. Eu me lembrava do


acontecido muito bem. E me lembrava de todos os problemas que ele trouxe consigo. Procurei por
uma foto da advogada envolvida, mas não encontrei. Ela havia conseguido uma liminar proibindo a
divulgação de imagens dela. Não encontrei nada, apenas o nome – Laura Soares. Ela era impetuosa.
Havia ido até a sede da Fergusson para confrontar o diretor á respeito das falsas acusações sobre os
acontecimentos de caráter sexual entre ela e o juiz Albert Reign. Sorri com a lembrança – ela não
havia feito isso e eu sabia bem. Encontrei um curriculum dela na rede. Eram quase cinco páginas e
começava assim.

“Laura Soares, vinte e seis anos, brasileira, formada pela Academia de Direito Internacional
de Haia, concluindo especialização em direito corporativo”.

Era um curriculum impressionante para uma garota tão jovem. Ela lembrava á mim com a
idade dela. Ela havia trabalhado em vários casos importantes e, se não fosse toda a merda que a
Fergusson lançou sobre ela, ela já estaria muito longe do escritoriozinho em que trabalhava,
provavelmente ocupando uma cadeira no departamento jurídico da união europeia. Ela era
competente, mas esse não foi o ponto mais importante da minha escolha por ela. Ela era brasileira, e
isso sim era o diferencial. Eu queria alguém que pudesse falar com destreza, convencer o júri, ainda
que no Brasil, de que não havia lugar melhor para os meus filhos do que ao lado do pai.

Peguei o telefone e disquei o numero comercial. Uma voz feminina atendeu no segundo
toque.

- Andersen advogados associados, em que posso ajuda-lo?

- Eu gostaria de um horário com a Srta. Soares. Preciso da ajuda dela em um caso.

A mulher pensou por um tempo, procurando pela resposta mais adequada.

- Sinto muito – ela me disse com pesar – A Srta. Soares não está pegando casos novos. Posso indica-
lo á outro advogado. O Sr. Andersen tem muita experiência em direito internacional. Eu poderia
agendar uma hora com ele – e completou – tenho certeza de que o Sr. Andersen poderá ajuda-lo no
que o senhor necessitar.

Respirei fundo – a pobre garota estava na geladeira. Hans Andersen não iria colocar sua
pequena reputação no lixo por causa de uma recém-formada, por mais que ela fosse brilhante.
Concordei.

- Seria ótimo que eu pudesse falar com ele amanhã, pela manhã – eu disse.

- Infelizmente a agenda do Sr. Andersen está completa pela semana. Poderia ser na próxima terça?

Suspirei, mantendo minha irritação sob controle.


- Eu realmente preciso de urgência. É um caso importante e tenho certeza de que o Sr. Andersen
entenderá assim que nos encontrarmos. Acredito que ele tenha outros casos esperando, mas eu
realmente preciso de urgência – e então eu suspirei novamente, lançando mão da minha melhor
carteirada – diga á ele que o Juiz Reign me indicou.

Ela demorou alguns minutos, provavelmente consultando o tal Hans Andersen. Eu estava me
afogando em frustração quando ela retornou.

- As nove então – ela respondeu – o senhor tem o endereço do escritório?

- Sim. Tenho sim.

- E á quem o Sr. Andersen deve esperar? – ela me perguntou.

- Alex Persen – menti.

Eu quase sorri. Albert Reign, o nome que abre portas. Todas as portas, sempre. Abri o
celular novamente e disquei para Alex. Ele atendeu no terceiro toque.

- Alex Persen.

- Alex. Preciso que me faça um favor amanhã. Preciso que me encontre em Amsterdã – Alex
permaneceu em silencio, então eu continuei – preciso que me encontre em um escritório da advocacia
no centro novo, perto do porto.

- E o que exatamente precisamos fazer em um escritório de advocacia no centro de Amsterdã? – ele


me perguntou.

- Bem – comecei – eu preciso que convença o Sr. Hans Andersen que quero a funcionaria dele
trabalhando para mim – suspirei – Collin me ligou esta tarde.

Alex pensou por alguns minutos. A linha muda. Apenas sua respiração fazendo-se ouvir. Ele
era meu muito mais meu amigo do que meu advogado. Havíamos divido coisas demais nesses quinze
anos de amizade. Desde o quarto no dormitório da universidade, haviam sido noite e dias de
conquistas e decepções, todas partilhadas com ele. Éramos muito mais que amigos, éramos como
irmãos. Quando Collin nasceu, Alex foi o único que entendeu e ficou ao meu lado.

- Sabe que será um desafio trazer Collin de volta. Não sabe? – não respondi. Eu sabia – á uma hora
dessas os pais de Patrícia já devem ter feito todos os testes possíveis.

- Eu sei – disse de repente.

- Se quiser mesmo entrar com um processo, eu mesmo posso pedir a restituição de guarda. Hanna e
John estariam aqui antes do fim de semana. Quanto á Collin. Não acredito que esse tal Andersen
possa fazer algo melhor do que eu poderia. Francamente Adrian. Não entendo.

- Não vou apenas pedir restituição de guarda – continuei – eu vou processá-los por cárcere privado.
Meus filhos são menores. Vou me valer da convenção de Haia.

- Tem certeza de que quer entrar nesta briga? Você sabe que Patrícia usou certas – ele parou a frase
no meio sem saber como continuar – certas peculiaridades do relacionamento de vocês para deixar
os pais á favor dela. Será uma briga feia.

- Sei disso Alex. E é por isso que não quero você encarregado disso. Como sabe os negócios não
podem parar e eu não confio em ninguém mais para tocá-los enquanto eu estiver no Brasil.

- Então você está mesmo decidido – ele concluiu.

- Sim. Estou – respondi – mas como você sabe não posso representar á mim mesmo e não sou fluente
em português como gostaria. Preciso que alguém faça isso por mim.

- E acha que Andersen é capaz – completou.

- Não exatamente – continuei – você se lembra da garota do caso Fergusson?

- Como se fosse ontem. Rimos um bocado da situação.

- Então você se lembra de que ela é brasileira.

- Adrian, Adrian. Não me diga que está fazendo isso apenas para atingir o juiz.

Eu sorri – seria interessante, mas não era essa a razão.

- Não. Eu realmente acho que ela é capaz. É impetuosa, jovem, ousada. Não baixa a cabeça fácil. Ela
precisa de algo que limpe sua ficha – sorri – eu sou o cara certo para isso. Não acha?

Alex riu alto contra o telefone.

- Nenhum ponto sem nó para Adrian Van Galagher.

- Nunca.

- E porque eu faço parte desse seu plano tão perfeito?

- Simples. Preciso convencer o Andersen de que a garota pode pegar o caso sem arrastar o nome do
escritório dele pela lama e estou sem vontade alguma de perder tempo com isso. Como eu nasci rico
e você não, você fará isso por mim enquanto eu esperarei por você e pela Srta. Soares tomando uma
bela xicara de café no Waldorf.

- Seu bastardo filho da puta! – ele xingou – se você não assinasse meu contracheque todos os meses –
brincou.

Eu sorri e desliguei o telefone, mandando uma mensagem de texto com o endereço e o


horário do encontro.

Não sei quanto tempo levei para pegar no sono naquela noite. Cenas antigas correndo em
minha mente. Cenas de um tempo que nunca mais vai voltar. Um tempo em que pensei que minha vida
estava certa, finalizada. Cenas de um Adrian que não existia mais. Acordei cedo demais, o corpo
doendo, a garganta seca. Andei por cada um dos três quartos vazios no andar de cima da minha casa.
Encarei a guitarra sobre a cama de John, os pôsteres de bandas de rock distribuído pelas paredes.
Revistas de criação de cavalos sobre a escrivaninha. Uma foto de Patrícia sentada sobre a grama na
fazenda. Será que meu filho me odiava tanto quanto eu odiava meu pai? Não eu não odiava o pai, eu
apenas não conseguia conviver com ele. Meu pai era um homem complicado, difícil – pensei por um
momento – John provavelmente pensava o mesmo sobre mim.

Caminhei até o quarto de Hanna. Minha menininha. As paredes tinham um tom de amarelo
suave como a luz do sol. Hanna era o meu sol. Sentei-me sobre o edredom de flores cor de rosa. Eu
me lembro de acordar no meio da noite apenas para vê-la dormir. Seus cabelos louros espalhados
pelo travesseiro brilhavam como raios de sol. Não importa o quão duro fosse o clima lá fora, aqui
dentro eu tinha sol. Agora minha casa estava perdida em um inverno sem fim. Ajeitei a boneca sobre
os travesseiros e me levantei.

Entrei no quarto de Collin e senti meu coração apertar. Os brinquedos empilhados nas
estantes. A cama feita, as almofadas no lugar. Nada costumava ficar assim com ele aqui. Collin era o
meu pequeno furacão. Eu quase podia ouvi-lo correr pelo quarto com a toalha nas costas me dizendo
que era o Superman. Collin era feliz e animado. Diferente dos irmãos ele não sofreu com a morte da
mãe. Era jovem demais quando ela o deixou. Quando Collin nasceu eu pensei que poderia corrigir
todos os erros que tinha cometido com John. Eu era mais maduro, menos infantil, mas nós não
tivemos tanto tempo quanto eu gostaria. Ele se foi rápido demais. Olhei uma fotografia de Collin no
berço, as mãozinhas estendidas em direção a Chucrute, que dormia debaixo do berço. Chucrute não
estava mais aqui. Eu o havia mandado para a fazenda. Não tinha condições de cuidar de mim e dele.
Além disso, ele era feliz demais para essa minha nova vida. Eu não queria um cachorro feliz
abanando o rabo para mim á cada manhã, quando tudo que eu queria era esquecer a vida.

Fechei a porta da minha suíte e acendi a lareira. Tirei o paletó e desatei o nó da gravata.
Abri os botões da minha camisa e deixei que ela caísse sobre o tapete. Desfiz-me dos sapatos e da
calça e caminhei até o banheiro. Encarei o homem no espelho. Ele parecia muito mais vivido do que
os trinta e sete anos que tinha. Ele parecia sofrido, triste. Os olhos pareciam nublados. E estavam. Eu
não via mais cor no mundo depois de tudo que vivi. Eu aprendi á duras penas que o dinheiro não
compra tudo. Não comprou para mim. Não comprou para minha mãe e não comprou para Patrícia.

Encarei meus braços tatuados. Pequenos pedaços de tudo que eu havia vivido até aqui.
Lucian, Mamãe, Galápagos, Patrícia, John, Hanna e Collin. Todos estavam ali, de alguma maneira,
tatuados sob minha pele. Tudo que era importante para mim estava ali, ao longo dos meus braços e
ombros, descendo até o meu tórax. Meu pai odiava tatuagens, então tudo tinha começado como uma
forma de dizer que eu não me importava com a opinião dele. Seis meses depois que Lucian morreu,
eu havia tatuado o nome dele, entre duas mãos estendidas, com asas de anjos ao redor, no centro das
minhas costas. Era minha maneira de dizer que o tinha entregado á Deus. Que ele agora era um anjo,
olhando por nós lá de cima. Então mamãe se foi e eu tatuei três rosas em meu peito, perto do coração.
Éramos eu, ela e Lucian e estaríamos sempre juntos.
Havia feito uma tatuagem no braço com um cavalo correndo na praia. Ela circundava toda a
parte superior do meu braço. Era meu Galápagos. Meu primeiro cavalo. Ele tinha esse nome porque
seu pelo era da mesma cor das areias que encontrei quando visitei Galápagos. Patrícia sempre me
perguntava por que eu não havia tatuado nada para ela. Eu me esquivava, não parecia certo. Não
queria que fosse eterno. Eu achava tudo efêmero e passageiro sobre nós. Eu estava certo. Depois que
tudo aconteceu eu soube que estava certo. E então ela adoeceu, e eu soube que estava errado, e
percebi nas lagrimas do meu filho que ela seria eterna em nossas vidas, mesmo que não fosse mais
minha esposa. Tatuei uma cena nas costelas, era uma garota entrando em um jardim, com um ramo de
margaridas na mão. Ela tinha os cabelos ondulados, varridos pelo vento. Era minha Patrícia. A
garota alegre que eu conheci na faculdade. A garota cheia de vida que me deu três filhos e que me
deixou estragar a vida dela com as minhas merdas.

Havia os três anjos pequenos e gorduchos tatuados no lado aposto das minhas costelas. Eram
John, Hanna e Collin. Meu outro braço era coberto por padrões de arabescos e algumas imagens que
eram importantes para mim. Um por do sol, uma gaivota voando, a data da minha formatura. E por
último, a dama da justiça na parte baixa das costas, com seu vestido esvoaçante e seus olhos
vendados, segurando a balança. Era minha ultima paixão, meu trabalho. Mesmo que eu estivesse
afastado dele, ainda era minha paixão.

Entrei na banheira e fiquei ali, deixando o tempo passar e esperando o dia clarear para me
trocar e seguir com os meus planos.
Capítulo 2

Eu tamborilava meus dedos sobre a mesa sem querer. Estava nervosa. Refazendo
mentalmente os planos de quantos meses eu poderia ficar tranquila com minha poupança depois que
Hans me dispensasse. Decidi que não tornaria as coisas mais difíceis pra ele e me adiantei.

- Hans, eu sei que é difícil para você. Sei que confiou em meu trabalho e eu o desapontei, então, tudo
bem. Eu entendo. Eu até acho que você tem seu ponto.

Hans fitou meus olhos por um tempo, estudando meu comportamento. Eu fiquei ali, pensando
em como um dia bom podia ter se transformado em um dia péssimo em menos de três horas – praga
do cara de terno! Só podia ser.

- Exatamente que ponto você acha que eu tenho Laura? – ele me perguntou.

Engoli em seco – ele realmente queria que eu pedisse demissão? Ajeitei uma mecha
insistente em meu coque recém-refeito.

- Em me dispensar – soltei de uma vez – você está certo. Não é como se eu pudesse esperar na
geladeira até que as coisas se acalmem. Você tem clientes importantes. Eu entendo.

Tentei levantar para começar a ajeitar minhas coisas, mas Hans fez sinal para que eu me
sentasse novamente.

- Porque acha que eu pretendo dispensá-la?

Agora eu estava irritada! Maldito holandês do inferno! Eu não sei oras! Talvez porque o
ricaço metódico e chato não me queria perto dos seus negócios? – Não respondi por alguns
segundos, pensando no que falar.

- Pelo que eu entendi da conversa – comecei – Alexander Persen não me quer perto do caso dele.

Soltei o ar sentindo meus pulmões doerem. Era a verdade, mas era uma verdade dolorosa.
Eu, com minha experiência sexual irrisória, carregaria o estigma de prostituta de luxo para sempre.

- Alexander Persen me impôs apenas uma condição – Hans começou – a de que você tomasse conta
do caso dele pessoalmente.

Engasguei. E tossi. E senti como se minha glote se fechasse em um instante, fazendo todo o
ar faltar.

- Oi? – perguntei.

- Ele acabou de me ligar e dizer que, dado os problemas que teve hoje pela manhã, espera que você
possa encontra-lo ao final da tarde no Waldorf para uma xícara de chá. Ele quer discutir o caso com
você e ver se a interessa.
Minha boca parecia colada ás orelhas, impedindo-me de fechar o sorriso, mas o medo era
um fantasma rondando minha felicidade.

- E você acha que eu não deveria – conclui.

- Ao contrário, acho que nada poderia ser melhor para sua carreira. Persen veio com indicação do
Juiz Reign. É um homem influente. Eu fiz uma varredura sobre ele. Descobri que é um advogado
importante, braço direito de um grande empresário holandês. Se ele a escolheu tão especificamente
foi por seus méritos como profissional – Hans parou por um instante, descansando a mão sobre as
minhas, cruzadas sobre a mesa – só não queria que fosse sozinha. Eu preferia estar ao seu lado e
garantir que tudo sairia bem, mas ele foi muito especifico quanto á isso. Disse que quer você no caso.
Exigiu confidencialidade.

Acariciei a mão de Hans sobre as minhas. Então era isso, preocupação comigo. Eu quis
beijá-lo, mas os europeus não são como os brasileiros e eu aprendi nesses anos que contato físico
aqui é meio limitado.

- Obrigado – eu disse.

Hans sorriu e então eu continuei.

- Obrigado por me dar todas as oportunidades da minha vida. Obrigado por estar ao meu lado e por
confiar em mim quando ninguém mais fez. E, principalmente, obrigado por concordar com Alexander
Persen.

Hans sorriu e eu continuei.

- Eu sei que tenho sido meio displicente, mas acredite desta vez vou tomar cuidado. Vou me proteger
e vou ganhar este caso. E vou trazer essa vitória para o nosso escritório.

- Dezessete horas no Waldorf – ele me disse levantando uma sobrancelha para mim enquanto passava
pela porta – não importa o que aconteça não se atrase Soares. Você se atrasa e Persen nunca mais a
recebe. Desgraça total para sua carreira. Ultima pá de terra sobre algo que já está semienterrado.

Passei o que restou do dia no escritório. Eu não queria dar chance para que nada
acontecesse entre o intervalo de tempo de minha conversa com Hans até o encontro com Persen. O
único momento em que saí foi para ir ao mercado orgânico que funcionava próximo ao escritório e
comprar macarrão integral e molho de tomates italianos com manjericão. Esquentei no micro-ondas
do escritório, abri minha embalagem de suco de toranja e comi com o máximo de cuidado que
consegui – já bastava o cabelo caramelizado, pelo menos minha blusa podia estar em sua melhor
forma.

Depois de almoçar, enquanto todos ainda estavam fora, eu caminhei ate a pequena varanda.
Ela estava ali apenas para abrigar o ar condicionado, mas era meu lugar preferido para pensar.
Debruçada sobre o parapeito da varanda, eu tinha uma visão completa da baía. Detive meu olhar no
horizonte, apreciando o movimento dos barcos, sentindo o vento balançar meus cabelos que agora
estavam soltos.

Olhei para o pulso, não havia mais uma marca ali. Não havia mais perfume. Tudo sobre o
misterioso homem de terno havia desaparecido. Porque então ele estava em minha mente? Ele era
bonito. Educado, cortês. Parecia rico e sofisticado. E isso tudo por si só já era razão suficiente para
que alguém se fizesse lembrar, mas havia algo nos olhos dele. Não exatamente no formato ou na cor –
por melhores que fossem – era o que ele escondia no olhar. Suspirei – eu queria ter a chance de vê-
lo novamente. Se pelo menos eu tivesse uma direção. Eu nem sabia se ele era holandês ou se era
apenas um executivo de passagem. Ele era uma agulha em um palheiro e já sabia pelo meu pai, que
não era boa em solucionar mistérios.

Fechei os olhos e deixei o tempo passar, fantasiando em minha mente como seria beijar
aquela boca linda pelo menos por um minutinho. Eu quase podia sentir o gosto do beijo dele. Olhos
fechados, cara de idiota, pensando em um homem que eu certamente não veria nunca mais. Céus
como isso soava preocupante – Eu precisava de um namorado, na velocidade da luz!

Quando meu relógio marcou dezesseis e trinta eu deixei o escritório. Meus cabelos soltos
sobre os ombros. Franja devidamente lavada e ajeitada com uma presilhinha para trás – coque não
tinha sido meu melhor visual de hoje. Peguei o Tram assim que cheguei ao ponto e desci á algumas
estações do terminal central de Amsterdã. Caminhei até o Waldorf, um hotel chique no centro velho.
Entrei, caminhei até o café e avisei o maitre* que esperava pelo Sr. Alexander Persen. Ele me
indicou uma mesa no fundo do salão, com vista para o Amstel**.

Eu me sentei, coloquei a pasta na cadeira ao lado, peguei meus óculos para ler o cardápio e
estava no terceiro nome de chá, quando o homem parou á minha frente.

- Eu sou Alexander Persen – o homem disse em um inglês britânico perfeito e quase sem sotaque.

*maitre – responsável pelo agendamento e coordenação de bares e restaurantes, entre outros.

**Amstel – canal importante na cidade de Amsterdã.

Corri meus olhos para cima, observando o homem ali parado. Alto, esguio, apesar de forte.
Ombros largos. Terno impecável, sapatos lustrados, relógio caro. Ele tinha a pele clara e olhos
pálidos, que oscilavam entre o verde o avelã. Cabelo escuro e liso, penteado para trás, barba por
fazer que deixava sua pele ainda mais clara. Ele era bonito. Realmente bonito. Não bonito de um
jeito perturbador como o homem da trombada da manhã – Alexander Persen era o tipo de homem
confiável, de quem você fica logo amigo depois de uma xicara de chá e dez minutos de conversa.

Estendi minha mão em cumprimento e segurei a dele. Seu aperto era firme, seguro, gentil.
Alexander sorriu.

- Você é um pouco mais jovem do que eu imaginei – ele pontuou – e muito mais bonita também.

Corei. Não era algo que eu pudesse impedir, essa maldita pele branca herdada do meu pai
me fazia corar com a mesma facilidade que eu respirava. Sorri de volta, tentando não parecer
afetada.

- Obrigada – eu me limitei a dizer, evitando parecer que flertava, embora ele fosse realmente o tipo
com o qual eu gostaria de flertar.

Alexander fez sinal para que eu me sentasse e sentou-se á minha frente. Eu pedi uma xícara
de chá indiano e algumas Madeleines*

Encarei Alexander um pouco mais, enquanto ele escolhia o chá. Ele tinha mãos bonitas,
suaves, mas não delicadas. Dedos longos como os de um jogador de basquete, mas elegantes como as
de um maestro. Tinha pequenas sardas sobre o nariz e a boca tinha um tom rosado que causaria
inveja em metade das mulheres que eu conhecia. Não havia marca alguma de aliança em seu dedo.
Alexander Persen era um homem perfeito. Digno de um editorial de moda. Ele chamou o garçom e fez
o pedido em holandês. Sorriu de volta para mim antes de continuar a conversa em inglês.

- Eu soube que estudou na academia de Haia – ele disse.

- Sim – respondi – formei-me á quase um ano.

- Então está familiarizada com direito internacional – assenti – já pegou algum caso de guarda, Srta.
Soares?

*Madeleines – biscoitos de origem francesa, em formato de concha. São macios e geralmente come-se acompanhado de chá.

Oh ele tinha filhos. Se tinha filhos talvez fosse divorciado. Ou talvez não usasse aliança. Eu
estava curiosa, traçando padrões para a vida de Alexander Persen.

- Estou mais familiarizada com direito empresarial, mas não tenho nenhuma objeção quanto á casos
diferentes.

Eu e minha boca grande não resistimos.


- O senhor tem filhos, Sr. Persen?

O garçom voltou com uma bandeja. Deixou nossas xicaras de chá, meu prato de Madeleines
e um pedaço gigantesco de torta de maçã com sorvete de creme para Alexander. Ele deu uma golada
no chá e uma garfada certeira, bem no meio da torta. Parou um pouco antes de leva-la á boca e
respondeu minha pergunta.

- Não – ele disse – bem, não ainda – corrigiu – minha noiva está grávida. Esperamos nossa Louise
para o final da primavera. Alissa recusou-se a casar parecendo um balão – e sorriu – palavras dela,
não minhas.

Eu sorri, sentindo meu peito se apertar. Ele era realmente o homem perfeito e, fosse quem
fosse a tal Alissa, tinha muita, muita sorte. Meus olhos correram até meu estomago plano, liso, triste.
Eu provavelmente nunca teria essa sorte. Forcei o sorriso novamente.

- Meus parabéns Alexander.

- Alex – ele interrompeu – pode me chamar de Alex – e emendou – na verdade quando alguém me
chama de Alexander eu penso que estão falando com meu pai, sabe?

Sorri com mais vontade.

- Não, mas imagino.

- Mas voltando ao nosso pequeno arranjo, Srta. Soares.

- Laura – eu o interrompi.

- Laura – ele corrigiu – preciso de sua ajuda com um caso de guarda.

- Posso fazer uma pergunta Alex? – ele me encarou e assentiu – porque fala comigo em inglês?

Alex sorriu.

- Porque sei que não é holandesa, e esta é uma das grandes razões para que esteja aqui, sentada á
minha frente, Laura – ele parou, deu outra golada no chá e continuou – é brasileira – não era uma
pergunta e então eu não respondi – o caso que tenho para você envolve a justiça brasileira.

Wow! – Pensei, mas não falei. Fiquei com o olhar mais focado que consegui.

- Se você não tem filhos Alex, não entendo de que tipo de caso de guarda estamos falando.

- Não sou eu o solicitante, Laura. A corporação que eu represento, ou melhor, o diretor dela, é o
solicitante. Como deve imaginar ele dispõe de pouco tempo – assenti – e pediu-me que a inteirasse
do processo. Caso você aceite, marcaremos uma reunião com o Sr. Galagher.

Eu senti minha animação murchar um pouquinho, já tinha me afeiçoado á Alex e pensado que
seria realmente fácil trabalhar com ele e então havia um alto executivo – provavelmente o metódico e
chato da historia toda – com quem eu realmente trabalharia. Pensei em um daqueles holandeses
barbudos e carecas, com cara de pirata, que mal falava inglês e achava que o mundo todo tinha
obrigação de compreende-los – realmente, não era o meu dia de sorte, senti o doce sendo tirado de
mim pela segunda vez no mesmo dia.

- Laura? – Alex chamou e eu percebi que tinha fantasiado o pirata por tempo demais – o que você
acha?

Oh meu Deus que imbecil eu sou!

- Desculpe – eu disse envergonhada – mas Alex, não sei por que um homem importante como o Sr.
Galagher poderia querer colocar um recém-formada como eu em um caso importante.

- Ah não, não se preocupe, Galagher é advogado. Um excelente advogado, diga-se de passagem. Ele
precisa apenas que você o ajude. Como você sabe, ele não pode representar á si mesmo.

Deus! O homem era advogado e faria de mim sua estagiaria – tudo que eu sonhei. Encarei
os olhos claros de Alex Persen – poderia pelo menos ser para ele que eu traria o café!

- Conte-me mais sobre o caso – eu disse cruzando ás mãos sobre a mesa.

- São três menores. Com idades entre dezessete e quatro anos. Eles estão no Brasil contra a vontade
do pai.

- Restituição de guarda – eu disse.

- Entre outros, mas Galagher quer contar-lhe tudo pessoalmente. Quero apenas saber o que você acha
do caso. Se você tem disponibilidade para aceita-lo. Sabe que isso envolverá algumas viagens ao
Brasil.

Brasil – a palavra golpeando meu estomago como um soco. Brasil – minha mãe. Minha avó.
Meu passado. E então eu lembrei-me que o Brasil não é como a Holanda. E que eu provavelmente
poderia passar por lá sem nem mesmo deixar rastros. Qual era a chance do caso ser em São Paulo?

- De que parte do Brasil estamos falando, Alex? – perguntei.

- São Paulo.

Revirei mentalmente meus olhos – claro!

- Laura – Alex disse com os olhos focados em mim – eu sei que teve problemas com seu ultimo caso
– senti outro golpe no estomago – quero que saiba que não haverá problemas com esse. Galagher é
muitas coisas, muitas coisas mesmo – ele sorriu e revirou os olhos – mas ele sempre honra a palavra
dele. Se você tiver um pouquinho de jeito com ele – Deus o homem era a personificação do demônio,
pelo visto – sei que terá um grande aliado em relação aos problemas com Fergusson.

Eu estava me preparando para responder quando ele continuou.


- Também quero que saiba que, financeiramente, esse será o melhor caso que já teve. Galagher não
costuma medir esforços para ter o que deseja.

Engoli em seco. Eu precisava de dinheiro, claro, como noventa por cento da população
mundial, mas eu precisava muito mais de alguém poderoso o suficiente para carimbar meu passaporte
profissional de “não vadia” e talvez um velho e influente magnata holandês fosse perfeito. Eu teria
que aguentar algumas manias chatas? Talvez! Isso iria doer? Bem menos do que abrir os jornais e
ver meu nome arrastado na lama. E o mais importante – o homem queria o filho e isso era louvável.
Eu não via muitos homens por aí, brigando internacionalmente pela guarda dos filhos, como exemplo
perfeito estava meu próprio pai. Suspirei profundamente.

- Eu aceito, Alex. Aceito o caso.

***

Depois do acontecido eu decidi voltar para Roterdã e desmarcar o encontro com o tal Hans
Andersen. Eu não estava mal humorado. Na verdade, para alguém que teve uma camisa Armani
manchada de café de copo de plástico, eu estava até bem humorado. Eu havia passado o dia todo em
casa. Abri a porta do quarto, desatei a gravata e abri os botões da camisa. Deixei a sobre a cama.
Caminhei até a varanda, acendi um cigarro, dei uma tragada longa. A sensação da minha mão fechada
em torno do pulso fino dela despertando coisas demais dentro de mim.

Eu a segurei firme, muito mais firme do que precisava, eu queria sentir a pele dela contra
meus dedos. Queria sentir sua pulsação. Queria deixar meu toque gravado ali, na pele clara dela. E
então ela se atrapalhou em um sorriso nervoso, os olhos curiosos sobre os meus. O peito subindo e
descendo nervosamente, a renda da lingerie apertando-se contra a seda fina da blusa. O vento
espalhava o perfume dela ao meu redor e eu tive que me segurar. Ela não parecia o tipo de garota
para o qual eu abro a porta do Mercedes e consigo uma noite de sexo. Ela não tentou me seduzir.
Estava ansiosa, eu podia jurar que ela me queria, mas ela não fez nada além de falar e falar. Sua voz
subindo meio tom a cada vez que eu estreitava meu olhar. Ela era como um coelho assustado e eu
adorava perseguir minha caça.

- Adrian, Adrian. Esse é um jogo perigoso – eu disse para ninguém.

Sorri para mim mesmo – sorte dela que não faço ideia de quem seja. Eu havia examinado as
folhas caídas no chão em busca de algo que me fizesse encontra-la, caso eu desejasse, mas não havia
nada. Eram partes desconexas de coisas digitadas. Não havia nem um timbre ou logotipo. Sentei em
minha espreguiçadeira, sentindo o sol em minha pele, aproveitando meu cigarro. Talvez eu devesse
ter deixado meu cartão com ela. Ou pedido o dela. Não fiz nenhuma das duas coisas. As folhas das
árvores balançando suavemente, criando padrões de pequenas sombras sobre minhas pálpebras
entreabertas. Com o tempo elas foram ficando mais fechadas, o escuro dominando, mais fechadas,
mais fechadas. Adormeci.
Eu estava em meu escritório. Observando o porto pelo vidro da janela quando senti suas
mãos em mim. Meu corpo reagindo instantaneamente, Ela deslizou a mão pelo blazer até abrir os
botões, retirando-o pelos meus ombros. Seu toque era tão suave, arrastava uma onda de calor pela
minha pele.

- Você quer brincar, anjo? – eu perguntei e ela assentiu. Seu nariz tocando de leve minhas costas com
o movimento.

Eu me virei e a segurei junto á mim, uma mão em sua nuca, perdendo-se entre as ondas
castanhas, a outra segurando seu quadril junto ao meu, sentindo minha ereção pulsar contra seu
estomago. Ela fechou os olhos e sorriu e eu tomei sua boca na minha, abrindo caminho com a minha
língua. Mordi seu lábio inferior, segurando-o entre meus dentes, puxando o suficiente para suga-lo
inteiro. Ela gemeu, aumentando minha urgência. Virei-a de frente para a janela, apoiando minhas
mãos no vidro e baixando meu corpo o suficiente para que minha boca estivesse em sua orelha.

- Vê aquilo tudo lá embaixo? – ela assentiu – eu sou o dono de metade de tudo que você vê. Sabe do
que eu gosto? – ela negou – eu gosto de ter tudo. E nesse momento tudo que eu quero é você. O que
você quer anjo?

Ela deixou a cabeça pender contra meu peito.

- Eu quero você Adrian. Eu quero você agora.

- Só tem uma coisa baby – eu continuei. Minha língua brincando na concha da sua orelha – eu quero
você aqui. Eu quero que o mundo lá fora veja que você é minha – completei – só minha.

Ela não se moveu. As mãos levemente trêmulas, a respiração descompassada num misto de
desejo e medo. Eu adorava essa sensação de controle. Abri os botões da sua blusa um á um, minhas
mãos brincando na renda da lingerie, apertando seus seios contra minhas palmas, comprimindo minha
ereção contra sua bunda, mais e mais forte. Escorreguei minhas mãos em seu corpo, descendo até a
barra da saia e a puxei para cima, expondo sua calcinha. Com a mão em sua nuca eu baixei seu
tronco, empinando sua bunda em minha direção. Eu acariciei sua pele branca contra a calcinha escura
e não resisti apertando a carne com força, marcando minha palma ali. Desafivelei meu cinto, abri o
botão e baixei o zíper, encaixando meu comprimento duro contra sua pele, sentindo como eu me
encaixava ali. Ela gemeu e se inclinou mais.

- É isso que você quer anjo? – ela assentiu.

Puxei sua calcinha de lado e tracei o caminho com os meus dedos, sentindo sua umidade
quente contra minha pele. Ela me queria e eu podia sentir ali. Baixei minha boxer o suficiente para
liberar minha ereção e posicionei-me em sua entrada. Eu tinha uma visão maravilhosa dali. Podia ver
sua bunda redonda e empinada como um coração, ali, pronta para mim, com aquele pequeno pedaço
de renda completando o visual. Empurrei dentro dela com força, tomando o que eu queria. Ela
gemeu, arqueando um pouco as costas, sentindo-me preenche-la completamente.

- Assim baby – eu disse em seu ouvido – toda minha. Toda.


Apertei minha mão contra a carne suave da sua bunda uma vez mais, sentindo a pele
vermelha aquecer com a pressão. Eu queria marca-la. Queria enche-la com os meus dedos e o meu
pau. Eu queria possui-la da maneira mais funda que eu pudesse.

- Queria que você pudesse ver o que eu vejo, baby – eu disse em seu ouvido, enquanto o vai e vem
do Porto continuava lá embaixo.

Eu gemia mais e mais, abafado contra seus cabelos, meu desejo se apertando, concentrando-
se no fundo do meu estomago e eu queria mais. Mais fundo. Mais forte. Mais intenso. E então o
telefone me acordou.

Eu pisquei algumas vezes porque não conseguia distinguir a realidade do sonho, meu corpo
suado, rígido, ofegante. O cigarro apagado caído contra o deck de madeira. Cocei a barba por fazer e
deslizei as mãos no rosto até os cabelos.

- Alex, seu maldito bastardo – eu disse assim que atendi – me diga que Louise nasceu ou eu mato
você por me acordar.

Alex sorriu.

- Houve um tempo em que você trabalhava, meu amigo.

Sorri.

- Houve um tempo em que eu não era milionário – parei por um segundo – não, na verdade não
houve.

- Seu arrogante filho da puta! Você deveria ser grato á minha competência.

- E sou, por isso o contratei.

- Ok. Que seja, mas veja como você deve me amar, eu acabei de falar com a tal Laura Soares – ele
parou e eu soube que sorria – sem Hans Andersen. Ela aceitou o caso. Agora diga se eu não sou seu
melhor amigo.

Sorri novamente, levantando-me e seguindo para dentro do quarto.

- Você é o melhor amigo que um cara pode ter, Alex Persen, e sou muito, muito grato mesmo por ter
colocado aquele anuncio no quadro de avisos dizendo que eu precisava de um colega de quarto, mas
você deve imaginar que eu quero mais detalhes do que isso.

- Se você abrir a porta da frente, você terá meu amigo.

Parei em frente ao armário, meio atordoado pelo sonho, o corpo trêmulo, a respiração ainda
alterada. Eu havia sonhado com ela. Ela, a moça da trombada de hoje de manhã. Fechei os olhos por
um segundo, sua imagem tomando forma em meu pensamento mais rápido do que eu gostaria. Havia
algo no olhar dela, em seu sorriso bobo e afetado. Um brilho que eu não tinha mais. Uma leveza fácil.
A garota era bonita. O corpo era atraente, mas não era exatamente isso. Ela havia me seduzido com
seu brilho. Eu a queria. Queria mais do seu brilho em meu mundo cinza. Apoiei a mão contra o
armário, suspirando fundo. Peguei uma camiseta e a vesti – Para a sorte dela, Adrian Van Galagher
não podia encontra-la.

Desci os degraus da escada com urgência, varrendo a garota e tudo mais que ela havia me
feito sentir para longe. Abri a porta. Alex estava lá, parado, esperando por mim. Fiz sinal para que
ele entrasse e caminhei até o bar. Destampei a garrafa de uísque e coloquei duas doses, uma em cada
copo. Entreguei um a ele.

- Tudo. Eu quero absolutamente tudo sobre Laura Soares.

Alex pegou o copo, sentou-se em minha poltrona, cruzou as pernas displicentemente e


sorriu.

- Tenho que dizer que ela é muito mais bonita do que eu imaginei. Acredite, o juiz seria um homem
de sorte se a tivesse levado para a cama.

Bebi um gole do meu uísque, encarando Alex.

- É gentil e sensível. Parece competente, mas eu senti alguma emoção borbulhando em sua superfície
quando mencionei o Brasil.

- Saudade talvez?

- Talvez. Sei que ela está aqui á quase seis anos. O que você disse á ela?

- Que são três menores. E que estão no Brasil contra a sua vontade.

- O que seu faro de advogado diz sobre a Srta. Soares? – perguntei.

- Sinceramente?

- Sempre.

- Que ela é jovem demais para lidar com um caso tão complicado – ele parou, tomou outro gole de
bebida – mas se for bem direcionada, pode dar certo. Laura me parece obstinada em limpar as
marcas do passado. Ela irá se empenhar em agradá-lo – eu quase sorri e então ele continuou – o que
me preocupa não é Laura – olhei curioso – o que me preocupa é você.

Ele terminou o uísque e levou o copo até o bar. O deixou sobre a mesinha. Andou até a
janela, encarou a noite lá fora. Eu estava tentando decifrá-lo. Não iria perguntar por que ele se
preocupava comigo porque eu tinha uma breve ideia da razão.

- Eu conheço você bem demais Adrian – ele continuou e eu levantei uma sobrancelha em sua direção
– Não brinque com Laura.

Terminei meu uísque em uma golada só.


- Não estou em busca de divertimento – me limitei a dizer.

- Laura é doce e meiga. Ela é jovem. Bonita. Ela tem vinte e quatro anos Adrian, merece ter sonhos e
merece alguém que realmente a faça feliz. Não faça isso.

Estreitei meus olhos para Alex.

- Se eu não o conhecesse, Alex Persen, diria que quem está interessado em dar tudo isso á Srta.
Soares é você.

Alex limpou a garganta, pigarreando um pouco – a garota havia mexido com ele.

- Eu amo Alissa – ele disse por fim.

- E eu amo meus filhos Alex, nada, nem ninguém irá entrar em meu caminho até eles.
Capítulo 3

Passei o restou da noite e parte da madrugada debruçada em cima dos meus livros de
faculdade e pesquisando casos parecidos na internet – eu não podia desapontar o tal Sr. Galagher.
Abri meu exemplar da Conferência da Haia de Direito Internacional Privado e debrucei minha mente
sobre ela. Debrucei, literalmente, em algum ponto da noite. Acordei no outro dia, com o rosto
amassado e agradeci por meu livro não ser feito de papel jornal, ou eu estaria, de fato, marcada pela
lei.

Eu estava atrasada. Tinha dormido pouco e tarde demais. Era uma jornada de pouco mais de
meia hora de trem expresso e mais algum tempo caminhando de saltos pelas ruas, eu não sabia
exatamente porque não conhecia o lugar. Já fazia um tempo que eu não ia á cidade e Roterdã
continuava crescendo na velocidade da luz. Abri o pote de cereais e despejei na tigela, cobrindo com
leite. Comi três colheradas, entre o tempo em que calçava meus sapatos e vestia o casaco. O dia
estava frio – típico – e o vento sacudia ás folhas das árvores lá fora – ainda mais típico.

Desci na estação central de Roterdã com pouco mais de quarenta minutos para minha
reunião com o Sr. Galagher. Eu estava perdida. Completamente perdida e literalmente perdida, sem
saber em que direção ir e temendo qualquer minuto de atraso. Os holandeses são meio britânicos no
quesito “atraso”. Toquei na tela do meu celular e conversei com o “Google Now”.

- Google trace uma rota até o endereço da Galagher Corporation – eu ainda me sentia meio idiota de
falar com o celular, mas correndo pela rua, era a maneira mais segura de não trombar em outro
bonitão de terno.

O telefone me respondeu alguns minutos depois, com sua voz metálica, dizendo que eu
estaria á vinte minutos de distancia á pé. Segui pela rua e contornei na Hofplein e segui pela
Coolsingel até a Erasmusbrug*. O prédio da Galagher Corporation ficava em Katendrecht, um
braço debruçado sobre o canal. Assim que avistei os prédios imponentes do lugar soube que meu
prédio era, obviamente o mais alto. Era um prédio arredondado, todo em pele de vidro que se
estendia em direção ao céu. Era uma bela visão, ás nuvens refletidas sobre o vidro azulado.

Assim que passei pelas portas giratórias conferi meu relógio – 11h05min – o que significava
cinco minutos de atraso. Praticamente corri em direção á recepcionista.

- Eu tenho uma reunião com o Sr. Galagher – eu disse em holandês, rezando para o transito tê-lo
segurado por mais tempo do que eu.

*Erasmusbrug – ou Erasmus Bridge é um dos ícones de Roterdã. Uma das pontes mais famosas da Holanda foi oficialmente inaugurado
pela rainha Beatrix em 1996 como uma importante ligação entre as partes norte e sul de Roterdã.

- Á quem devo anunciar?

- Laura. Laura Soares. Ele provavelmente está me aguardando.


Ela pegou o telefone e discou. Alguns segundos depois se virou em minha direção e
respondeu.

- O Sr. Galagher a aguarda na sala dele – e continuou digitando algo em sua tela de LCD.

- Desculpe – comecei – é a primeira vez que venho até aqui, pode me dizer qual é a sala dele?

- Oh sim, claro, perdão – ela desculpou-se – último andar.

“Claro!” – pensei, mas não falei – tão clichê!

- E em qual sala do ultimo andar devo procura-lo?

- O andar todo é do Sr. Galagher. Não se preocupe, o elevador parará exatamente na antessala, a
Srta. Helst a anunciará.

Ótimo. Além de velho e rabugento, o pirata ainda tinha mania de grandeza. Um andar
inteiro? Serio? Quem precisa de tanto espaço para trabalhar? Á menos que ele trabalhe montado
em um elefante indiano!

Entrei no elevador e fiz o que as estatísticas mostram que as mulheres fazem em elevadores
espelhados – conferi o visual. Eu estava bem. Minha saia preta combinando com as meias grossas de
inverno e os sapatos de bico fino. Uma camisa de botões rosada e meu casaco cinza comprido. Meus
cabelos estavam soltos. Ajeitei-os com as mãos, colocando atrás das orelhas. Repassei o batom e
coloquei meus óculos. Eu queria parecer menos jovem, depois da observação de Alexander –
príncipe – Persen.

Uma senhora sentada á mesa, de frente para as portas do elevado sorriu.

- Você deve ser a Srta. Soares – ela me disse em um holandês pesado, arrastado.

- Sim. Eu mesma – confirmei.

- O Sr. Galagher á espera – ela se levantou e caminhou até a porta dupla, ao lado da sua mesa – tenha
a bondade.

Ela abriu a porta, eu passei por ela, e a porta fechou-se atrás de mim. Fiquei sem ar.
Observando a beleza da vista. O prédio era alto o suficiente para que tivéssemos uma vista
panorâmica privilegiada desde o Euromast* até o porto. O parque parecia uma colcha de retalhos
coloridos. Pisquei algumas vezes, enquanto o ouvia falar ao telefone em um idioma que eu não
conhecia, mas que parecia alemão.

Concentrei-me na conversa, apesar de não entendê-la. Ele não parecia velho. Tinha uma voz
sexy e profunda. Senti algo dentro de mim se revirando com o som. Era como se ele falasse ao meu
ouvido. Senti uma onda de arrepio percorrer meu corpo desde os dedos dos pés até o cabelo e dei
uma sacodida discreta para espantar. Abri minha pasta e comecei a revirar meus documentos em
busca das anotações – pelo menos eu estava preparada, fosse quem fosse. Pensei. E me enganei.

Sr. Galagher desligou o telefone e virou a cadeira em minha direção e eu senti como se um
furacão interno me atingisse de baixo para cima, arrepiando cada um dos pelos do meu corpo numa
espiral crescente de adrenalina e desespero – era ele. Simplesmente ele – o homem do encontrão da
manhã passada.

As folhas caíram das minhas mãos uma á uma, como se eu fosse incapaz de manter algo
entre meus dedos, espalhando-se ao meu redor, confirmando minha teoria do furacão interno.

Minha boca aberta, meus olhos esbugalhados em direção á ele. Eu balbuciei algo que nem
eu mesma compreendi, então não esperava que ele compreendesse e rezei para que não acabasse
babando nos sapatos lustrados dele. Ele caminhou até mim. A mesma boca sem sorriso. O mesmo
rosto sério. Os mesmo olhos perturbadores e enlouquecedores. O mesmo perfume incrivelmente
sedutor espalhando-se pelo escritório enquanto ele caminhava – Deus eu teria uma sincope. Antes
que ele me tocasse novamente, infelizmente.

Eu podia sentir meu coração batendo tão forte que dei uma olhadinha rápida para baixo,
conferindo se minha camisa não estava pulsando. Não estava, para minha sorte. Fechei a boca,
evitando engasgar com a saliva depositada ali e pisquei algumas vezes – sim, eu era idiota. E
deslumbrada, mas acredite, não era sempre que isso acontecia. Na maior parte do tempo, eu
parecia bem normal.

Sr. Galagher caminhou até mim com seu belo conjunto de calça e blazer claros, camisa azul
marinho, sem gravata. Sapatos sociais reluzentes e um relógio que provavelmente custava muito mais
do que eu ganharia em dez anos na Andersen Advogados Associados. Meu avô disse-me, muito
tempo atrás, que um homem se reconhece pelos sapatos e pelo relógio. Bem, daí vem meu fascínio
por homens que sabem usar esses dois itens. E o Sr. Galagher certamente fazia parte do diminuto
clube.

*Euromast – é a torre mais alta da Holanda e de onde se tem a melhor vista de Roterdã. No topo da torre existe um observatório
giratório, de onde é possível ver a cidade em 360°.

Ele abaixou-se, recolhendo as folhas com a mesma elegância de ontem, deixando uma
sensação de déjà vu* - Ele estava mais uma vez aos meus pés, mas eu sentia lá no fundo que a
posição inverteria em breve e eu não sei se me levantaria novamente.

Esperei que ele dissesse algo desesperadamente. Eu sentia minha mente girar. Queria ter
algum indício de que eu havia feito pelo menos cócegas naquela superfície inquebrável dele. Ele
estendeu as folhas para mim sem dizer uma palavra, deixando-me ainda mais desconfortável. Eu tinha
medo que se abrisse minha boca para dizer qualquer coisa seria uma avalanche de palavras sem
sentido. Segurei as folhas e ele estendeu-me a mão.

Encarei a mão, estendida em minha direção. Milhares de pensamentos voando em minha


mente. Eu queria desesperadamente aquele toque, mas uma sensação estranha revirava meu estomago.
Aquele homem tinha mexido em pontos dentro da minha cabeça que eu nem sabia que estavam ali,
isso sem contar o eu ele fazia com o meu corpo.

Estendi a mão e segurei a dele. Mão grande. Dedos longos e macios, pele grossa. Aperto
firme, sólido. Não era gentil como Alex Persen. Ele não tinha nada de Alex Persen. Era como se ele
achasse que fazia um favor ao mundo por existir. Sobrancelhas baixas, olhos estreitos, sorriso
escasso. Se Alex Persen era um príncipe, aquele homem na minha frente era um deus. E eu tinha
medo do isso significava.

- Sou Adrian Van Galagher – ele me disse em inglês com aquele sotaque que me atingia como um
soco, ou um beijo francês, ou os dois. Sua voz soava como um convite para qualquer coisa obscura
que eu já havia aceitado antes mesmo de saber o quê – você deve ser Laura.

Não havia emoção alguma em Adrian Van Galagher. Ele era uma rocha solida. Um iceberg
gigantesco e holandês, enquanto eu forçava minha boca idiota a manter-se reta, sem se curvar como
uma colegial idiota.

- Sim. Sou Laura Soares – eu disse rezando desesperadamente para que ele não percebesse meu
desespero iminente.

- Atrasos são comuns no Brasil, Srta. Soares? – ele me disse tirando a mão da minha e sentando-se
novamente em sua cadeira.

*Déjà vu - é uma reação psicológica fazendo com que sejam transmitidas ideias de que já se esteve naquele lugar antes, já se viu aquelas
pessoas, ou outro elemento externo. O termo é uma expressão da língua francesa que significa, literalmente, "Já visto".

Eu quis morrer. Todo o meu mundo de fantasia em que Adrian Van Galagher era um deus
cavalheiro e gentil, que me levaria para passear em um corcel branco se desfazendo em pequenas
bolhas de sabão, estourando uma á uma, ao me redor. Meu rosto queimando de vergonha e raiva.
Cinco minutos! Eram cinco minutos e não cinco horas! Maldito pirata presunçoso e arrogante! Só
não era velho.

- Não senhor. Peço que me perdoe, não estou familiarizada com a cidade, tive dificuldades para
encontrar o endereço.
Adrian me encarou por uns instantes antes de falar. Foram instantes, mas pareceram horas.
Eu me sentia desconfortável com seus olhar. Ele parecia ver dentro de mim, e eu ainda não sabia se
isso era bom ou ruim, mas era diferente. Seu olhar picava toda a superfície da minha pele.

Ele cruzou as mãos sobre a mesa e eu juro que pude perceber um principio discreto de
sorriso curvar sua boca linda.

- Não se preocupe, Srta. Soares, eu nasci aqui e ainda me perco nas ruas de Roterdã.

Sorri muito mais do que gostaria, mostrando um pouco dos meus dentes, ajeitando uma
mecha solta atrás da orelha novamente.

- Roterdã é uma cidade realmente bonita – eu disse – imagino que tenha muito para ver. Eu me
perderia com alegria – brinquei.

Adrian estreitou os olhos, naquela postura que lembrava um guerreiro, preparando-se para o
golpe final. Seus olhos eram como espadas, afiadas, rasgando o véu de controle que eu ainda tinha.

- Espero ter a oportunidade de leva-la para conhecer minha cidade, Srta. Soares. Seria um prazer.

Deus do céu! – ele flertou comigo? – Oh meu Deus! Oh meu Deus! Oh meu Deus!

Eu queria pensar em algo inteligente e perspicaz para responder á ele. Mas tudo que eu
conseguia pensar era em gritar “Sim!” e isso não era perspicaz. Era bem obvio até. Eu ali, naquela
guerra mental, e Adrian Van Galagher com os olhos dentro dos meus, divertindo-se muito mais do
que eu gostaria, quase sorrindo para mim.

Limpei a garganta fazendo o mínimo de barulho possível, mas parecendo Mia, minha gata,
quando queria comida e então eu tossi. Porque, obviamente, meu corpo pretendia me trair, deixando-
me idiota e vulnerável perto de Adrian Van Galagher.

- Seria um prazer Sr. Galagher. Tenho certeza de que teremos oportunidade, já que trabalharemos
juntos.

Fiquei feliz comigo mesma. Segura, gentil, sem parecer uma louca que não faz sexo á mais
de um ano, embora essa seja a verdade.

Adrian conferiu o relógio caro e em seguida olhou em minha direção novamente, aquele
olhar lançado por cima das sobrancelhas que me fazia apertar as coxas um pouco mais forte, como se
minha calcinha pudesse sair correndo, hipnotizada pela intensidade dos olhos dele.

- Creio que não tenha almoçado ainda, Srta. Soares - não era uma pergunta. Adrian Van Galagher era
um homem de respostas, não de perguntas.

- Não senhor. Eu respondi.

- Então acho que teremos uma pequena oportunidade hoje – minha mente viajando nas palavras lentas
e profundas dele. Cada silaba soando como um convite sexual – a senhorita me acompanha no
almoço? – ele parou por um instante e eu tentei absorver tudo que ele causava em mim – podemos
discutir o caso durante a refeição.

Pronto. Não era um convite sexual, era um almoço de negocio, obviamente. Uma parte de
mim sentia-se segura novamente, confortável. Outra parte, a parte maior, sentia-se desapontada como
uma criança que descobre que papai Noel não existe. Sorri delicadamente.

- Será um prazer.

***

Eu não conseguia deixar de olha-la. Simplesmente não conseguia. Meus olhos varrendo ao
redor dela, meu olfato buscando o perfume da pele dela. Eu queria puxa-la contra mim com força,
queria enfiar minha mão no meio dos seus cabelos e puxar sua boca para a minha. As memorias do
sonho fazendo o espaço em minha calça diminuir insistentemente. Laura. Minha doce e delicada
Laura. As palavras de Alex sondando meus pensamentos.

“Laura é doce e meiga. Ela é jovem. Bonita. Ela tem vinte e quatro anos Adrian, merece ter
sonhos e merece alguém que realmente a faça feliz. Não faça isso.”

Havia um sentimento estranho, confuso, irritando-me. Encarei Laura uma vez mais, correndo
meus olhos detidos pelos seus lindos olhos castanhos, sua boca bem formada, doce, suculenta. Eu
queria morde-la inteira. Queria correr meus dedos em sua pele clara. Eu queria Laura. Cada parte do
meu corpo reclamando por ela. Exigindo o controle sobre Laura. Lembrei-me do desconforto de Alex
quando eu o questionei sobre ela. Agora eu sabia a razão. Laura era o tipo de mulher que mexe com
os instintos mais sombrios de um homem e o que não me faltavam eram instintos sombrios.

Pensei sobre minha promessa á Alex. Eu sabia que ele estava certo. Jovem demais, bonita
demais, sonhos demais. Demais. Laura era tudo que eu não precisava agora. Laura seria minha ruina
e eu sabia disso. E então ela sorriu, ajeitou o cabelo, espalhando aquele perfume enlouquecedor pelo
ar ao redor de mim e desculpou-se e eu me acabei naquele momento, pego em sua teia. Não importa o
que eu tivesse que fazer, ou eu a tirava daquele escritório ou a debruçaria sem calcinha, sobre minha
mesa.

Agradeci mentalmente á Deus por ela ter aceitado almoçar comigo. Caminhamos juntos para
fora da minha sala, em silencio.

- Karol, desmarque meus compromissos desta tarde. Tenho assuntos com a Srta. Soares.

- Sim Sr. Galagher. Devo dizer ao Sr. Persen que o senhor não voltará ao escritório?

Persen! Persen mais uma vez. Eu estava começando a me irritar com Alex, embora ele não
tivesse feito realmente nada. Não era uma manhã boa para ele.

- Diga á ele que quando eu estiver em casa ligarei e conversaremos. Não quero ser interrompido.

- Sim senhor.

Acabei soando mais autoritário do que gostaria, mas Karol estava acostumada com minhas
manias. Ela trabalhava comigo desde antes de tudo acontecer.

Entramos no elevador. Laura em silencio, provavelmente pensando que eu era um boçal.

- Desculpe por isso – eu disse sem entender bem do que estava me desculpando – acredite, eu não
sou sempre assim.

Era verdade. Eu não era um bárbaro em tempo integral. Eu vinha tendo tempos difíceis e
esses tempos vinham se prolongando cada vez mais, mas algo na menina ao meu lado me fazia querer
ser melhor e isso era confuso, para dizer o mínimo.

Abri a porta do Mercedes e fiz sinal para que ela entrasse. Entrei em seguida e dei as
coordenadas ao motorista. Chegamos á torre alguns minutos depois. Subimos em silencio, Laura e eu.
Eu sentia aquela sensação estranha de que precisava tocá-la mais. Queria sentir meu toque em sua
pele. Queria saborear seu aroma espalhando-se ao redor de mim, mas me mantive focado, sério,
concentrado no foco do nosso encontro – meus filhos.

- Sr. Galagher – me disse o maitre – é um prazer tê-lo novamente em nosso restaurante.

Agradeci com um aceno de cabeça e segui para minha mesa costumeira, no fundo do salão,
longe da agitação. Esperei que Laura se aproximasse e puxei sua cadeira. Ela sentou-se, os cabelos
esbarrando em minhas mãos, enviando ondas de eletricidade através da minha pele. Tudo que eu
queria era sentir os cabelos de Laura grudados de suor, escorrendo por suas costas nuas enquanto eu
investia dentro dela com força. Sentei-me antes que Laura ou outra pessoa qualquer percebesse
visualmente o quanto eu estava abalado.

- Já veio a este restaurante, Srta. Soares? – perguntei.

- Não tive o prazer – ela me disse.

Seus olhos estavam admirados, olhando ao redor, apreciando a vista em 360° de minha
cidade natal. Olhei ao redor também, apreciando uma vez mais minha vista preferida da cidade.
Aquele lugar era a razão de eu ter escolhido Katendrecht como sede do meu império. Era meu
pedaço de mundo preferido. Eu gostava de olhar o mar e pensar que nada mais me prendia. Nada
mais tinha fim, tudo se perdia num talvez, levado pelo horizonte. Laura deixava o mundo mais
colorido. Era como se eu estivesse descobrindo Roterdã pela primeira vez.

- Se me permite uma recomendação – continuei – você deveria provar o carré de cordeiro ao molho
de frutas vermelhas.
Meus olhos estavam escuros, pensando em degustar a boca de Laura. Absorvê-la entre meus
lábios e suga-la com força. Cordeiro nenhum no mundo mataria minha fome. Eu queria Laura. Uma
overdose dela.

Laura estava com o cardápio aberto na folha de saladas. Os olhos perdidos nos meus,
fazendo um esforço imenso para não transparecer o quanto minha presença mexia com ela.

- Acreditaria em mim se eu dissesse que nunca comi cordeiro, Sr. Galagher?

Fechei a carta de vinhos e sorri em direção á ela.

- Esse é um terrível engano, Srta. Soares – era inevitável. Eu estava flertando, seduzindo Laura. –
Engano este que eu terei prazer em reverter. Não existe nada mais saboroso que um belo pedaço de
cordeiro, preparado com maestria. Experimente. Prometo que não irá arrepender-se.

Laura engoliu em seco, o movimento dos seus lábios aumentando meu desejo.

- Eu gostaria de um cordeiro – ela disse ao garçom.

Não posso negar que o simples fato de que ela tivesse aceitado minha sugestão encheu
minha mente de ideias e que nenhuma delas era exatamente dobre o cordeiro ou qualquer outra coisa
que estivesse no cardápio.

- Traga dois cordeiros e uma garrafa de Malbec – eu disse ao garçom.

E eu decidi que era hora de iniciar o assunto realmente importante.

- O que exatamente Persen lhe contou sobre mim, Srta. Soares?

- Ele me disse que tratava de um processo de restituição de guarda. Ou pelo menos uma parte de todo
o processo era isso. Ele realmente não me forneceu muitos detalhes.

- Está familiarizada com o assunto? – perguntei, mesmo sabendo a resposta. Eu esperava que ela
demonstrasse suficiente interesse.

- Não tenho experiência, se é o que deseja saber, mas garanto ao senhor que isso é uma questão de
tempo. Eu adoraria me envolver em algo novo. Diferente do que costume fazer.

Minha boca quis curvar-se em um sorriso muito mais irônico do que eu desejava, mas eu
não permiti. Eu tinha que deixar claro desde o inicio á Laura que não importava o tipo de arranjo que
teríamos, eu ditaria as regras. Sempre.

Abri minha carteira e coloquei uma foto sobre a mesa. Nela estavam Hanna e Collin,
sentados no deck, em frente ao rio que cortava nossa fazenda.

- Estes são Hanna e Collin – eu disse – meus filhos mais jovens.

Ela pegou a fotografia, os dedos correndo sobre os rostos das crianças. Eu podia sentir uma
pequena ponta de emoção borbulhando em Laura. Ela permaneceu em silencio.

- A mãe deles é brasileira?

- Sim.

- O senhor se divorciou á quanto tempo Sr. Galagher?

Sua curiosidade quanto ao meu estado civil deixava-me tentado. Eu queria sentir seu
interesse.

- Não me divorciei, Srta. Soares.

Eu queria aguçar sua curiosidade, leva-la ao limite. Queria ver até onde o interesse e a
curiosidade de Laura Soares iria.

Ela me encarou. Sobrancelhas baixas, rosto serio. Correu os olhos pela minha mão
esquerda, onde a marca da aliança quase não era visível.

- Não entendo – ela disse por fim.

- Fiquei viúvo três anos atrás.

Seu rosto se quebrou. Triste. Pesaroso. Senti meu coração se apertar – não era o que eu
queria.

- Sinto muito – ela disse por fim.

- Obrigada – respondi – mas não se preocupe. Meu casamento não foi exatamente um conto de fadas.
Patrícia e eu tínhamos um acordo de separação de corpos quando ela faleceu. Eu decidi estar ao lado
dela durante a doença, apenas isso, cumpri com minhas obrigações – e adicionei – por meus filhos,
eles precisavam que eu estivesse ao lado deles.

Eu podia sentir a tensão como uma teia de eletricidade entre Laura e eu. Tínhamos tantos
fantasmas escondidos dentro de nossos corpos que estávamos pesados. Eu queria saber quais eram
os fantasmas de Laura, mas não tinha certeza se queria que ela descobrisse os meus. Havia coisas em
meu passado com Patrícia, coisas em meu próprio passado que eu não tinha certeza se queria que
alguém soubesse. Meu pai tinha razão, eu era monstro. Um monstro escondido atrás daquele terno
caro. Laura interrompeu meus pensamentos.

- São três, correto? – ela me perguntou.

- Sim.

Retirei a fotografia de John. Era uma das poucas fotografias em que estavam juntos, John e
eu. O potro de Ginger havia acabado de nascer e John o segurava para a câmera. Suspirei fundo,
encarando as fotografias sobre a mesa – eu os queria de volta.
Laura pegou a foto de John e sorriu.

- Acho que o senhor foi pai realmente cedo, Sr. Galagher – ela disse encarando o garoto na foto.

John tinha a mesma altura que eu. Ombros largos como os meus. Um pouco mais magro, mas
forte, bem constituído. Meu filho já era um homem. Tinha cabelos castanhos como os da mãe, mas
tinha coisas minhas demais nele. Os mesmos olhos amendoados. A mesma boca arrogante. A mesma
teimosia – eu queria que ele se parecesse menos comigo. Eu não era uma pessoa fácil de conviver.

Laura continuou.

- Ele tem os seus olhos e imagino que se o senhor sorrisse, teriam o mesmo sorriso.

Encarei os olhos de Laura. Lindos e desprotegidos olhos castanhos. Eu queria saber o que
havia ali. Eu queria saber tudo que havia ali. Queria despir Laura completamente e eu não falava
apenas das suas roupas.

- Se eu tivesse dezessete anos, Srta. Soares, provavelmente sorriria mais.

Ela sorriu mais. Por alguma razão ela estava se divertindo com a foto de John. Corri os
olhos pela fotografia. Era um momento diferente deste. Eu não estava trabalhando, não era diretor de
uma corporação, naquela imagem eu era um pai. Estava vestindo jeans desgastados e uma camiseta
branca que estava suja de feno e de Ginger – não havia sido uma boa escolha.

Nosso almoço me salvou de mais algum tempo de apreciação de um momento constrangedor


em que eu mesmo havia me colocado. Guardei as fotografias na carteira e esperei que o vinho me
fosse servido.

O garçom abriu a garrafa e me passou a rolha. Observei. Estava intacta, então ele serviu.
Agitei a taça, girando o liquido vermelho dentro dela, liberando os aromas frutados e amadeirados
da bebida. Laura me encarava, os olhos curiosos. Levei minha boca á taça com os olhos em Laura.
Inspirei o aroma com cuidado e então deixei que o líquido entrasse em minha boca. Laura mordeu o
lábio inferior e descansou a língua sobre ele.

- Gosta de Malbec, Srta. Soares?

- Oi? – ela me perguntou, como se voltasse de algum tipo de viagem interna – desculpe. Eu não bebo
quando trabalho.

Soltei a taça. Cruzei os dedos sobre a mesa e a encarei.

- A Srta. Aceita trabalhar para mim, Srta. Soares?

Ela pensou por alguns segundos, não entendendo a pergunta e então respondeu.

- Sim.

- Então temos duas regras – comecei diante de seu olhar curioso – em primeiro lugar eu exijo
exclusividade total. Enquanto estivermos juntos nesse caso a senhorita trabalha apenas para mim.
Não se preocupe com honorários. Eles serão suficientes – continuei – Eu sou um homem egoísta,
Srta. Soares. Não estou acostumado a dividir o que quer que seja. E em segundo lugar, se come
comigo, bebe comigo. Eu exijo experiência completa – e acrescentei – concorda com minhas regras,
Srta. Soares?

Laura corou. A pele rosada e a respiração tensa. Eu podia imaginar o que se passava em sua
mente porque era exatamente o que eu queria despertar nela. Desejo. Desejo pelo desconhecido.
Desejo por mim, tanto quanto eu a desejava.

Ela não me respondeu. Segurou a taça e esperou que a servissem. Eu não disse nada
também. Ficamos em silencio até que o garçom estivesse longe e nossas taças cheias.

- Á nossa nova parceria – ela disse levantando a taça.

Toquei minha taça na dela.

- Será uma parceria de sucesso, imagino.


Capítulo 4

Dei a primeira garfada na minha carne, a faca escorregando por sua maciez. Era de longe o
prato mais bonito que eu já tinha comido na Holanda. Eu não era rica. Não tinha muitos encontros, e a
Holanda não era exatamente um país gourmet. Pelo menos para nós, meros mortais.

O sabor golpeou meu olfato antes de ser absorvido pelas minhas papilas gustativas. Quente,
macio, rico. Havia um leve gosto ferroso, diluído na imensidão silvestre das frutas vermelhas – eu
queria levar aquele prato para casa e coloca-lo ao meu lado na cama.

- Hum – gemi, arrancando um olhar curioso de Adrian.

- Devo presumir que eu estava certo – ele me disse.

“Como se alguma vez você estivesse errado!” – pensei, mas não falei. Limitei-me a sorrir.

- Simplesmente maravilhoso – eu disse por fim.

- Gostou do vinho?

- Perfeito para o prato.

Adrian não sorriu. Sua boca fez apenas menção de curvar-se e então parou, ali, naquele
estado tão “Adrian” de ser. Ele estava acostumado á elogios, obviamente, mas isso não significava
que ele não gostava de recebê-los.

Eu tinha decidido, depois de ouvir suas regras, que o deixaria ganhar esse jogo. Se ele tinha
suas duas razões, eu tinha uma lista de pelo menos dez para não desejar encrenca com Adrian Van
Galagher. Entre elas, a mais forte, era que ele poderia salvar minha carreira e não era esforço algum
estar ao lado dele.

Dei uma golada no vinho, observando o horizonte ao fundo. Eu não acreditava que em mais
de cinco anos morando na Holanda eu não tinha conhecido esse lugar. Deus era absolutamente
fantástico.

- Gosta da vista?

Suspirei.

- É incrível. Eu quase quero chorar.

As palavras deixaram minha boca rápido demais. Quando percebi que parecia, novamente,
uma adolescente deslumbrada, já era tarde. Adrian me encarava num misto de curiosidade e o que eu
chamaria de pena, contida, mas ainda pena – ou pelo menos era o que eu achava.

- Devo supor que você nunca subiu até o observatório – ele constatou.
- O senhor é bom em suposições, Sr. Galagher – brinquei.

Ele não disse mais nada. Esperou pacientemente que eu me deliciasse com meu cordeiro.
Terminou de comer e bebeu o vinho da taça. Chamou o maitre.

- Eu gostaria de usar o Euroscoop*. Peça para que o liberem e o reservem.

Assim, simplesmente “Fechem o lugar que eu quero usar”. Engoli meu ultimo gole de
vinho, encarando as pobres pessoas subindo aquele monte de escadas para descobrirem que o tal
Euroscoop estaria fechado.

Alguns minutos depois, o maitre voltou e falou algo próximo ao ouvido de Adrian que eu
não escutei. Ele se afastou e Adrian levantou-se.

- Vamos? – ele me disse.

Levantei, empurrei minha cadeira de volta ao lugar e vesti meu casaco, acompanhando
Adrian Van Galagher até a saída.

Como eu já disse e reitero, Holanda e vento são sinônimos. Quando passamos pela porta,
para a plataforma de acesso ao observatório, o vento praticamente me carregou, arrastando-me até
Adrian. Bati com o nariz em seu peito. Foi um segundo de toque, antes que ele me amparasse com
suas mãos grandes e firmes, mas eu juro que fui ao céu e voltei. Eu pude sentir o calor, a solidez, o
perfume de Adrian em cada ponto do meu corpo, do nariz ao estomago e Deus! Sim, eu estava
disposta a deixar Adrian Van Galagher ganhar. Por mim ele já tinha ganhado o jogo, eu faria qualquer
coisa por um pouco mais dele.

- Desculpe – eu disse meio sem graça, meio abalada ainda.

- Não se preocupe – ele respondeu.

Adrian não se afastou. Sua mão esquerda permanecendo em meu ombro, amparando o vento
forte com seu corpo grande. Ele era alto, muito mais alto que eu, de forma que funcionava muito bem
como uma barreira para o vento, mas seu perfume estava todo em mim agora, espalhando e fundindo-
se em mim.

*Euroscoop – plataforma giratória no alto de um prédio em Roterdã. De dentro do Euroscoop é possível ter uma vista em 360° á 185
metro de altura de toda a cidade.

Entramos e subimos até uma câmara completamente escura. Eu estava excitada e ansiosa,
parte porque eu imaginava o que me aguardava e eu e alturas não nos dávamos muito bem, e parte
porque estava ali, no escuro, sentindo a presença de Adrian atrás de mim. Alguém fechou a porta e eu
senti a mão de Adrian deslizar para baixo, quebrando nosso contato. Praguejei mentalmente, mas
jamais eu daria á ele o prazer de saber que eu estava com medo.

O chão começou a se movimentar, subindo. Foi rápido, mas meu coração parecia que sairia
pela boca, minhas mãos suavam e eu sentia minha cabeça martelar. Apertei meu maxilar, impedindo
que ele tremesse. E então, as luzes se acenderam e eu me perdi. Estávamos no alto. Muito, muito alto.
Eu sentia que flutuava, enquanto a plataforma girava suavemente, mostrando uma vista completa de
Roterdã. Tudo que me separava da queda era o vidro, completamente transparente á minha frente.

Eu sentia minhas bochechas pegando fogo, mas imagino que a coisa toda era um pouco pior
do que eu pensava porque Adrian advertiu.

- Não olhe para baixo.

Pronto! Olhei! E quase morri – o chão, era todo feito de vidro. Eu flutuava em direção á um
abismo de cento e oitenta e cinco metros de altura.

Foi instintivo, nada intencional. Minha mão procurou um apoio, segurança e eu encontrei a
mão de Adrian. Grande e solida. Seu aperto firme, concreto, protetor. Pensei em soltar, mas não fui
capaz. Adrian entrelaçou os dedos nos meus, capturando minha mão pequena na sua. Eu me sentia
frágil, pequena, mas completamente protegida. Não tive mais medo. Encarei o horizonte, observando
a cidade girar ao redor, oferecendo-se para mim. Suspirei profundamente, deixando o ar sair devagar
dos meus pulmões.

- É uma bela vista. Não acha senhorita. Soares? – ele me perguntou sem me olhar. Minha mão
repousando dentro da sua.

- É a coisa mais incrível que eu já fiz – respondi por que era a verdade e eu não queria jogar agora.
Queria me perder naquele infinito.

Adrian aumentou o contato das nossas mãos um pouco mais. O esboço costumeiro de sorriso
em seus lábios, olhos perdidos no além mar.

- Essa não será a ultima vez que ouço essa frase deixar os seus lábios, Srta. Soares.

Novamente não era uma pergunta e eu não queria mesmo responder, mas queria que ele
estivesse certo.

Quando paramos, meu sorriso se perdeu – eu queria mais. Não queria parar. Não queria a
realidade de volta e principalmente, eu não queria perder o toque de Adrian em minha mão.

Abriram a porta e eu esperei que Adrian quebrasse nosso contato, ali, ressentida, triste, mas
ele não fez. Seguiu na frente, puxando-me pela mão atrás dele. E eu saí sorridente, feliz, rindo como
uma imbecil apaixonada.
Apaixonada? – talvez. Imbecil?- sem sombra de dúvidas. O que eu tinha na cabeça? Adrian
Van Galagher, desde nossa trombada, ontem pela manhã.

Não tive muito tempo para questionar minha capacidade mental. Passamos pela porta do
restaurante novamente e antes que pudéssemos seguir para baixo, demos de cara com Alex Persen.
Instintivamente, tentei soltar minha mão. Não que existisse algum problema em Alex me vir de mãos
dadas com Adrian, mas, naquela situação, eu me senti no mínimo fácil e previsível – seduzida pelo
milionário. E não era bem isso que estava acontecendo. Ou era? O fato é que Adrian não me
permitiu. Ao contrario, apertou o toque ainda mais, puxando-me suavemente para o seu lado. Alex
sorriu.

- Hey, Laura! Um prazer revê-la – ele me disse com aquele sorriso que fazia todo dia parecer
primavera.

- Hey – eu disse – prazer em revê-lo também.

Ele beijou meu rosto e eu fiz o mesmo. Não era exatamente um beijo, era mais um toque de
bochechas, como se faz quando se cumprimenta alguém, mas os olhos de Adrian pareciam gelo sobre
mim.

- Como vai Alissa e seu bebê, Alexander? – Adrian perguntou. As palavras calculadas, medidas,
certeiras. Se ele tivesse atirado elas com uma arma, marcaria o centro do circulo.

- Muito bem – Alex respondeu sem parecer abalar-se – ela foi ao banheiro – e adicionou fazendo
graça – Grávidas!

Eu sorri. Adrian não. Seus olhos continuavam focados em Persen, sua mão apertada na
minha. Eu me sentia como um tipo de osso, sendo guardado por um buldogue.

Uma moça jovem caminhou sorrindo para nós. Ela tinha os cabelos longos e lisos, em vários
tons de dourado, emoldurando seu belo rosto. Os olhos eram de um verde tão limpo e solido que
pareciam brilhar. Ela era alta e esguia, e parecia ainda mais bonita com a barriga redonda que
estava. A blusa descia solta até os quadris, fazendo um tipo de saia ao redor das calças justas de
gestante. Ela me fazia lembrar uma daquelas fadas de desenhos animados. Ela se aproximou e deixou
a cabeça cair contra o ombro de Alexander e ele a abrigou em seu peito, passando a mão por suas
costas.

Naquele momento eu percebi como eu não me encaixava naquele contexto. Como eu estava
perdida e sozinha e como eu era idiota. Alexander e Alissa pareciam um daqueles casais de filmes
da Disney que eu assistia quando ainda achava que romances davam certo. Alissa era a garota por
quem os príncipes se apaixonam, não eu. E se eu não era a garota certa para um príncipe, era ainda
menos certa para um deus como Adrian.

- Você está linda Alissa. Como se sente? – Adrian disse.

- ótima – ela disse e fez uma careta – e gorda. Já você continua galanteador como sempre, Adrian.
Diga como pode um homem como você continuar solteiro? – ela disse sorrindo e eu comecei a
pensar que a Cinderela estava mais para madrasta.

Adrian sorriu. Não foi um sorriso divertido e alegre, foi um sorriso mecânico, do tipo “vou
sorrir porque sou educado”. Eu não sorri – Não tinha sido tão bem educada assim.

- Eu já tive minha dose de casamento e ela não foi tão homeopática assim.

Isso! Muito bem! Ponto para Adrian Van Galagher! – permaneci em silêncio.

- Amor esta é Laura, ela também é advogada. Está trabalhando com Adrian no processo das crianças
– Acrescentou Alex.

Os olhos de Alissa caíram direto para minha mão, perdida dentro da de Adrian. Ela me
puxou em um cumprimento que forçou nossa pequena separação.

- Oi Laura, é um prazer conhecer os colegas de trabalho do meu noivo – ela disse – especialmente se
são jovens e bonitas como você – ela falava comigo, mas não era para mim que olhava. Ele olhava
na direção de Adrian e sorria. Não era um sorriso falso. Era um sorriso cortês, contido, discreto –
espero que tenha sucesso – ela disse olhando para mim agora – Especialmente no caso de Collin.

Adrian pigarreou. Alex tossiu e eu tive certeza de que o que eu sabia era apenas a ponta de
um grande iceberg.

***

Eu nem sabia por que aquele encontro me incomodava tanto. Na verdade eu nem tinha parado
para pensar até que o olhar de Alissa denunciou sua teoria – Laura.

Alissa era uma garota bonita. Era inteligente e bem educada. Eu a conhecia á muito tempo,
muito antes de Alex a conhecer. Ela era de uma família importante, ele não. Alexander Persen era o
filho bastardo de um corretor de seguros e uma estudante belga. Por isso ele não tinha o “Van” em
seu nome. E Alissa fazia questão de deixar claro sempre que podia, como ele tinha sorte de estar com
ela. Alex era meu melhor amigo e eu não me importava em que condições ele havia nascido. Toda
essa bobagem de sociedade importava para meu pai, não para mim, e importava para os pais de
Alissa também, para o azar de Alex. Ela o amava. Isso era um fato, mas em alguns momentos eu a
sentia recuar, fazendo o que os pais queriam.

Para ser sincero, eu sempre achei que o pai de Alissa esperava que nós dois terminássemos
juntos, já que nos víamos em muitos lugares quando mais jovens, mas eu decidi burlar todas as regras
e engravidei minha namorada do colégio, aos dezenove anos. Saí de casa, casei-me com ela. Então
deixei de ser o bom partido que ele me considerava. Anos mais tarde, após a morte de Patrícia, eis
que eu surjo como “novo bom pretendente” para a filha dele, o viúvo milionário. Para minha sorte e
terror dele, Alissa já estava saindo com Alex.

Eu ás vezes me pergunto se Alissa não estivesse grávida, se os dois ainda estariam juntos.
Bem, essa é uma resposta que não vou ter.

Quando Alissa puxou Laura eu senti uma sensação estranha. Não queria soltá-la. Não queria
deixá-la ir. Eu me sentia um pouco ridículo, mas ao mesmo tempo me sentia cheio, completo. Eu nem
lembrava mais como era me sentir assim.

Laura era doce e meiga. Seus olhos sorriam muito antes de sua boca se curvar. Ela ainda
sorria como uma menina, deslumbrada com a vida, e isso me fazia crer que talvez, só talvez, eu
pudesse voltar a sorrir assim.

Despedi-me de Alex e Alissa e os deixei no restaurante. Acompanhei Laura até o carro


novamente. Ela estava em silêncio. Um silêncio perturbador. Eu não gostava do silencio de Laura. Eu
não sabia o que ela pensava. Eu não a compreendia. Eu era bom em decifrar pessoas. Elas, em geral,
seguem em uma linha de raciocínio. Laura não era assim, seu raciocínio dava voltas, criava uma
espiral de pensamentos aleatórios. Ela falava mais rápido que pensava na maioria das vezes. Eu
gostava disso. Podia saber o que ela pensava simplesmente porque ela acabava me dizendo, mas
agora ela estava em silencio.

Cruzei as mãos sobre meu colo, encarando o canal, enquanto passávamos pela Erasmusbrug.
Ela havia ficado em silencio desde o momento em que encontramos Alexander. Ela havia tentando
retirar sua mão da minha. É claro que sim. Ele era muito menos complicado do que eu. Laura não
fazia o tipo que se deslumbrava com meu dinheiro. Ela havia se deslumbrado com o que eu
apresentei á ela, não com quanto tudo aquilo custou. Suspirei. Alex tinha muito mais capacidade de
fazê-la feliz do que eu. Ele sabia como. Ele sempre sabia transformar as coisas ruins em coisas boas.
Ele havia feito isso para mim tantas vezes. Meus filhos o amavam. Patrícia o amava. Até meu pai o
amava. Eu não. Eu era o cara errado. O cara ruim. Eu era o monstro sempre. Eu era como Midas ao
contrário, que destruía tudo que tocava. E era por isso que eu devia ouvir o conselho de Alex e me
manter longe de Laura.

Encarei a garota ao meu lado, no banco de couro do meu carro de luxo – Eu não podia perder
meu foco com Laura. Ela não era uma mulher descartável. Eu precisava dela para outros fins. Tinha
que pensar com minha mente e manter minhas bolas fora disso. Não Laura. Não com ela. Mas uma
coisa era certa – se eu não teria Laura, Alexander Persen não teria também.

- Eu quero que entre em contato com o juizado de menores, Srta. Soares. Desejo ver meus filhos o
quanto antes e como deve imaginar, eu não domino o idioma. Quero que os informe que entrarei no
processo de restituição. John completará dezoito anos em menos de um ano. Eu o quero de volta á
Holanda antes que atinja a maioridade. Não vou perder meu filho – eu disse cortando o silencio
estranho entre nós.

Eu não pretendia parecer autoritário, mas acabei soando assim, pela segunda vez. Respirei
fundo, mas não me desculpei. Era melhor que ela percebesse de uma vez que eu estava longe de ser
um gentleman como Persen.

Laura virou-se em minha direção com o olhar quase triste, mas profissional. Eu não sabia se
era por minha causa ou se era por causa de Alex. E eu não tinha certeza se queria descobrir.

- Sim Sr. Galagher. Pode ficar tranquilo. Assim que chegar á Amsterdã farei isso.

- Eu prefiro que trabalhe aqui, no prédio da empresa temos escritórios que servem para uso
esporádico. A senhorita pode escolher um e utiliza-lo pelo tempo que durar nossa associação.

Era melhor que ela estivesse por perto. Assim eu poderia me focar nisso. Poderíamos
discutir sobre o caso e montar um processo sólido mais rápido. Era necessário que Laura estive
próxima. Não era? Necessário para o processo, claro – os pensamentos formando nós em minha
cabeça e ela parecia querer explodir.

- No entanto por hoje terminamos – eu disse taxativo – Harold a levará para sua casa assim que me
deixar no escritório. Ele também a pegará, amanhã pela manhã. Esteja pronta ás oito horas, Srta.
Soares. Eu gosto de começar o trabalho logo pela manhã.

- Ok.

Ok. Apenas ok e nada mais. Nem uma discussão, nem olhos brilhando nem nada mais da
garota com a qual eu havia trombado. Isso era estranho. Eu não estava familiarizado com a sensação
de rejeição e ela não entraria no hall das sensações que eu esperava repetir.

Entrei em meu escritório. Peguei minha pasta e saí. Passei por Karol sem dizer nada. Eu não
estava para muitas conversas nem explicações.

- Já vai embora Sr. Galagher? – ela me perguntou.

Parei. Baixei meus óculos e encarei os olhos azuis de Karol.

- Esta é uma das vantagens de ser o dono do negocio Karol. Eu decido quando é hora de parar.

Arrependi-me no segundo seguinte. Nem Karol, nem ninguém tinha culpa dos meus
problemas. Todos eles eram minha culpa. De um jeito ou de outro. Eu também não era bom em me
desculpar, na verdade eu era péssimo nesse quesito, como em nenhum outro. Esperei que Karol
compreendesse meu arrependimento.

- Se quiser, pode tirar á tarde de folga Karol. Não vou voltar ao escritório hoje – eu disse como um
pedido de desculpas silencioso.

Karol sorriu.

- Eu não sou o chefe Sr. Galagher. Preciso manter tudo em ordem. O senhor sabe, meu chefe é um
homem exigente.

Sorri.
- Sorte dele em ter uma secretária tão competente.

- Se o Sr. Persen perguntar, devo dizer que o senhor está em casa?

Não resisti. Meu gênio dominando novamente.

- Se o Sr. Persen aparecer por aqui diga á ele que deve se empenhar menos e passar mais tempo com
a noiva grávida.

Saí. Eu estava irritado demais com a possibilidade de encontrar Alex e eu realmente não
precisava de nenhum tipo de lição de moral ou coisa assim em resposta á minha mão na de Laura. Foi
uma bobagem. Não foi? Um toque casual. Algo perfeitamente dispensável e esquecível. Nada
demais. Então porque eu não conseguia deixar para lá?

Entrei em casa e verifiquei meus recados na secretária eletrônica. Nada de importante. Tirei
o blazer. Soltei os botões da camisa. Acendi a lareira. Servi-me de uma dose de uísque. Tirei os
sapatos e as meias e cruzei os pés sobre o apoio da poltrona de couro. Fechei os olhos. Laura. Laura
estava ali. Seu corpo tocando o meu pela segunda vez. Seu perfume impregnado em minha roupa. Em
minha pele. Ela havia procurado minha mão. Ela estava com medo e havia procurado meu toque.
Confiado em mim. Suspirei, deixando o liquido escorregar por minha garganta. Vinte e quatro anos.
Vinte e quatro anos.

- Você sabia que ela tem quase a idade do seu filho? – eu disse para mim mesmo.

Eu não deveria nem ao menos cogitar a possibilidade de me envolver com Laura. Laura era
uma menina. Doce e cheia de sonhos – palavras de Alex – e eu, bem eu era um homem que não
acreditava mais em finais felizes. Ou melhor, eu acreditava, mas meu final feliz envolvia outra garota
em minha cama, com seus cabelinhos claros e seus olhos amendoados. Era nisso que eu tinha que me
focar. Hanna. Hanna era a única garota da minha vida. E John e Collin.

Peguei o telefone e disquei. Tocou. Tocou e não obtive resposta. Eu estava mais irritado.
Com raiva.

Liguei novamente. Atenderam no quinto toque.

- Papai! – a voz de Hanna encheu meus ouvidos.

- Hey princesinha! Como você está?

- Com saudades!

Meu coração se aqueceu.

- O que tem feito por aí anjinho? Me conte.

- Eu estou indo á escola. Estou aprendendo muitas coisas. Acredita que eu até já consigo falar
português?
Senti uma punhalada no fundo do meu peito – se ela estava indo á escola era porque os avós
realmente pretendiam mantê-la no Brasil. Eu queria pegar o primeiro voo para São Paulo e arrancar
meus filhos de lá á força. Suspirei. Pensei. Acalmei minha mente, mantendo o foco na voz doce e
infantil de minha Hanna.

- Sério querida? Que ótimo!

Suspirei novamente.

- E você está feliz aí anjinho? – perguntei com tanto medo da resposta que quase deixei o telefone
cair.

- Estou feliz papai – ela me disse e então suspirou – mas quero ir para casa. Sinto sua falta.

Meus olhos ficaram pesados de repente. Limpei a garganta e funguei, afastando o que quer
que fosse que tentava parar ali.

- Também sinto sua falta querida.

- Papai me responda uma coisa – Hanna me disse de repente, porque ela era assim, transformava tudo
em novidade. Meu raio de sol – já parou de nevar?

Sorri.

- Já sim querida. As flores começaram a aparecer. Seus morangueiros estão florindo.

- Ah que pena! Eu queria esquiar – ela disse mal humorada – agora vou ter que esperar até o ano que
vem para treinar! Acredita que minhas amigas nunca viram neve? Eu disse que fazemos bonecos de
neve no quintal de casa todos os anos.

Funguei novamente – este inverno havia sido o pior de toda a minha vida.

- Não se preocupe anjinho. Quando você voltar para casa vou leva-la para esquiar em Chamonix*.
Combinado?

- Sim! – ela gritou e eu sorri.

- Agora chame John para o papai.

Ela se foi, gritando o nome do irmão pela casa e xingando em holandês – minha princesinha
delicada, como sempre.

Algum tempo depois, ouvi a voz do outro lado da linha.

- Sim Sr. Galagher – ele me disse.

- Houve um tempo em que você me chamava de pai – praguejei.

- Houve um tempo em que eu achava que se plantasse uma moeda, nasceria uma arvore de dinheiro –
John retrucou.

- Sempre com uma resposta rápida e certeira, não é John Albert Van Galagher?

- Dizem que puxei meu pai.

Eu quase sorri. Podia ver John deitado na cama, às mãos cruzadas atrás da cabeça, o
telefone sobre o peito, ligado no viva voz. Ele provavelmente sorria também. Era nosso pequeno
jogo de bate-rebate, mas funcionava para nós.

- Como estão seus irmãos? – perguntei.

- Eles estão bem pai. Collin tem perguntado muito sobre você. Diga que tem pensando em uma
maneira de leva-lo embora.

Nós falávamos em holandês. Era nossa maneira de manter o assunto apenas para nós.

- Ele se sente sozinho pai. Não consegue fazer amigos porque não entende bem à língua. E pai? – Ele
disse e então parou. Suspirou. E eu senti meu coração diminuir.

- Sim meu filho?

- Eu estou entediado. Você sabe, sinto falta do vento. E das tulipas. Veja se não demora, ok?

*Chamonix - Chamonix-Mont-Blanc é o nome completo dado à cidade conhecida geralmente só por Chamonix, que fica
no departamento francês de Alta-Saboia, na região de Ródano-Alpes, e que tem em frente nada menos que o Mont Blanc, o mais alto
cume dos Alpes e da Europa Ocidental. Em Chamonix é possível esquiar em qualquer época do ano.

Ele brincou, mas no fundo eu sabia que era verdade – ele sentia falta de casa e eu sentia falta
dele. John não estava preso lá. Ele estava por vontade própria. Havia decidido ficar com os irmãos.
Collin não falava português e John era o elo que o ligava á esse mundo para o qual o tinham
arrastado. Eles estavam no Brasil á pouco mais de três meses. Tinham ido para o aniversario de
morte da mãe e não tinham mais voltado. Os avós haviam entrado com um pedido de guarda junto ao
juizado de menores, e dadas ás circunstâncias de Collin não tinha sido difícil. Eu não havia entrado
com nenhum processo. Conversei varias e varias vezes ao telefone com os pais de Patrícia. Eu não
queria uma briga judiciaria internacional. Não queria meus filhos envolvidos em todas essas coisas.
Eles já haviam sofrido demais. Eles viram meu casamento acabar, viram a mãe morrer. Eles
mereciam um pouco de paz.

- John? – chamei porque a linha parecia muda.

- Eu estou aqui.

- Vou trazê-los para casa.


Ele ficou em silencio novamente. Eu queria abraça-lo. Queria dizer á ele o quanto eu sentia
falta das nossas discussões e de como ele deixava o leite destampado na geladeira. Eu queria dizer
que o amava. Mas eu não disse. Nem ele.

- Vou dar uma volta pai, tem muitas brasileiras por aqui que se amarram no meu sotaque. Até mais.

Eu sorri. E pude senti-lo sorrir também. Desliguei. Fechei os olhos novamente e deixei que
a lembrança de John afastasse Laura de minha mente.
Capítulo 5

Eu estava de volta á minha casa bem antes do que pretendia. Eu não entendia muito bem o
que havia acontecido. Adrian estava irritado, mal-humorado, contrariado. Eu não sabia o que havia
causado isso. Eu não sabia se era o fato de Alissa mencionar algo sobre Collin ou se era por termos
sido flagrados em um momento que ele provavelmente considerava errado. O fato é que eu nem
mesmo podia me desculpar, porque nenhum dos dois prováveis motivos tinha sido minha culpa.
Entrei em casa e encontrei Mia na janela. Sentei-me ao lado dela no parapeito e cocei a sua barriga
redonda e laranja.

- Você precisa de uma dieta. E eu, se continuar comendo como hoje, precisarei em breve.

Mia ronronou, demonstrando sua reprovação quanto ao meu pequeno exame em sua
condição física.

Tirei os sapatos e coloquei uma lista de reprodução do meu celular, deixando o som de
“Higher” encher meu pequeno apartamento com a sua batida marcada, envolvente. Tirei as roupas e
entrei no chuveiro, deixando a água descansar meu corpo do dia. Saí do chuveiro alguns minutos e
musicas depois. Cabelo molhado. Calça de flanela com desenho de carneirinhos e uma regata justa
de algodão branco, que eu amava. Meias nos pés, corri para a cozinha e fiz uma caneca de chá e
aqueci um sanduiche pronto – Amsterdã é a cidade mais prática do mundo, sério! Você pode
encontrar quase tudo pronto para ser aquecido.

Dei a primeira mordida e praguejei contra Adrian Van Galagher por me mostrar que comida
pode ser muito, muito melhor do que isso.

Abri meu computador e comecei a pensar no que escrever no e-mail que encaminharia para
o juizado de menores brasileiro. Tentei. Tentei. Meu pensamento girando em torno de Adrian. Suas
mãos. Seu toque. Sua boca mastigando. A maneira como seus lábios bem feitos recusavam-se a
curvar-se em um sorriso – Deus eu estava perdida! Perdida em Adrian Van Galagher! E o pior –
ele não estava nem perto de sentir-se igual.

“Idiota! Idiota! Idiota” – Quer tipo de garota amadora e deslumbrada se deixa encantar por
um homem como ele? Eu queria bater minha cabeça contra a parede repetidas vezes, mas não acho
que isso me faria esquecer o maldito pirata sexy.

Eu estava lá. Cara de nada olhando para o vazio da parede, parecendo um gato depois do
banho com o cabelo ainda encharcado. Computador aberto. Revirando meu chá com a colher e
pensando em desabotoar os botões da camisa de Adrian Van Galagher mentalmente, quando uma
batida suave na janela quase me faz cair da cadeira. Ele estava lá, lindo e príncipe como sempre –
Alex Persen, em seu terno bem cortado e cabelo penteado. Sorriso fácil mostrando um par de
covinhas de suspirar, enquanto me olhava lá de fora.

Cogitei correr, mas para onde eu iria? – malditas janelas holandesas!


Olhei para minha calça de flanela larga e cheia de carneirinhos fofinhos e pensei que eu não
poderia estar menos sexy. Tudo bem que o homem estava com um pé e meio no altar, mas vamos lá,
quem quer ser vista assim por um pedaço de mau caminho como Alex Persen?

Caminhei até a porta como quem caminha para a forca, porque se eu me trocasse, ficaria
muito claro que havia sido por causa dele e isso seria bem estranho. Abri a porta e ele sorriu.

- Laura! Linda como sempre.

Forcei um sorriso, mas pareceu mais uma careta.

- O que foi – ele me perguntou rindo – é sério! É uma calça espirituosa! E fica uma graça em você!

Corei inevitavelmente e sinalizei para que ele entrasse.

- Bem, primeiro eu vou me explicar. Não estou seguindo você ou coisa assim – Alex me disse.

Não que eu me importasse em ser seguida por ele.

- Meu pai mora no final da rua. Eu estava na casa dele quando vi o carro de Adrian deixa-la. Quis vir
ver como estava. E se precisava de alguma ajuda. Acredite, eu conheço Adrian melhor que qualquer
pessoa no mundo – Alex sorriu meio sem jeito – sei lá, seria estranho se você descobrisse que
estávamos na mesma rua e eu não dissesse nada. Não queria parecer que estava espionando ou coisa
assim – ele não parava de falar e eu percebi que tentava se justificar, como eu fazia quando ficava
nervosa – é só que meu pai mora ali, então eu venho muitas vezes para cá – o homem coçava a barba
e falava sem parar.

Sorri.

- Acho que veio á calhar.

Eu não queria que ele ficasse sem graça. Eu sabia exatamente como era sentir-se assim. Eu
gostava de Alex. Sentia-me confortável na presença dele. Alex não me perturbava, ele me acolhia. Eu
sentia como se fossemos amigos á anos.

- Quer um chá? Um sanduiche? Uma cerveja?

Alex sorriu, recuperando um pouco do controle.

- Eu diria um uísque, mas acho que cerveja pode funcionar.

Andei até a geladeira e peguei uma garrafinha de cerveja, entreguei a ele.

Alex girou a tampa e acertou na lixeira de longe.

- Cesta! - ele brincou – mas vamos lá, em quê minha presença veio á calhar?

Eu queria dizer: “Em tirar Adrian Van Galagher da minha mente!” – mas por questões
óbvias, eu não disse.

- O Sr. Galagher me pediu que entrasse em contato com o juizado de menores no Brasil, mas
sinceramente – eu o encarei com o alhar mais derrotado que tinha – não sei se estou fazendo isso da
maneira correta.

Alex retirou o paletó, ficando apenas de camisa. Afrouxou a gravata, sentou-se ao me lado e
virou meu notebook para si. Encarou a tela.

- Você traduz para mim? – ele disse puxando sua cadeira para mais perto de mim, esbarrando o
tecido fino da camisa contra o meu braço.

Eu me sentia estranha. Devia me sentir mal e errada, mas me sentia bem. Era bom tê-lo
próximo, mas não era nem de longe como tocar em Adrian. Pensei em Alissa e sua grande barriga e
tentei me sentir culpada, mas eu não conseguia. Nós não estávamos fazendo nada demais, certo? O
que era aquilo? Uma conversa de amigos? Colegas de trabalho? Não era como se Alex Persen
estivesse dando em cima de mim ou coisa assim! Ele não estava sendo sedutor. Estava? Ele era
apaixonado pela garota, não era? Sim ele era. Ponto. E eu não tinha absolutamente nada com
Adrian. Então não era errado!

Percebi que demorava demais para responder e que Alex me encarava.

- Tudo bem? Ele disse me estudando.

- Tudo – eu disse, mas não me sentia tão certa assim.

Não achei que Alex tivesse concordado, mas ele seguiu em frente, fazendo o possível para
que a situação ficasse mais leve.

- Vamos lá, traduza-me tudo com seu lindo sotaque brasileiro.

Sorri, mas foi mais de nervoso do que de graça mesmo. Li o e-mail todo, traduzindo para o
inglês.

- Sei lá Alex. Não acho que tenha ficado suficientemente embasado. Tenho medo de falhar.

- Não acho que esteja ruim – ele começou – na verdade está realmente bom. Achei ótimo que você
tenha citado o Princípio de Interesse Superior da Criança. Pelo que sei as crianças tem perguntado
muito sobre o pai. Eu sei como isso pode ser ruim na vida de uma criança.

Os olhos de Alex baixaram um pouco. Seu sorriso diminuiu. Eu não queria dizer á ele que
também sabia como isso podia ser negativo. Não queria encher a cabeça de Alex com os meus
problemas, porque ele provavelmente tinha os dele.

- Não vou encher você com os meus problemas Laura – ele disse lendo meus pensamentos – vamos
corrigir apenas a parte final. Imagino que Adrian queira vê-los ainda este mês. Hanna fará
aniversário no final do mês e ele certamente deseja vê-la antes disso.
Ele foi ditando em inglês e eu fui escrevendo em português, corrigindo o final do e-mail.
Terminei e sorri – parecia muito melhor.

- Leia para mim novamente Laura – Alex disse. Seus olhos focados nos meus. De repente eu sentia
um calor se espalhar em meu rosto e isso não era muito confortável.

Li, fugindo dos olhos claros de Alex Persen.

- O que você acha? – ele me perguntou.

- Acho que ficou muito melhor – comecei – acho que parece mais profissional, menos – eu girei os
dedos ao redor de mim – estagiária.

Alex ainda tinha os olhos nos meus e eu tentava não me concentrar neles.

- Acho que já estava muito bom – ele disse – mas acho que assim você vai ter uma resposta mais
rápida.

- Isso seria ótimo! Adrian ficaria feliz.

Falei sem pensar. Não deveria ter me referido á ele com o primeiro nome e, principalmente,
não deveria ter deixado meus olhos estúpidos brilharem com isso.

Alex sorriu, mas o sorriso morreu rápido demais. Seus olhos eram profundos e pesarosos.
Aquele verde límpido de repente parecia triste.

- E você gostaria de vê-lo feliz – constatou.

Fechei a tela do notebook esbarrando na xicara e derrubando a colher no chão. Nervosa.


Estupida. Sem jeito. Peguei a colher quando fui levantar dei de testa com Alex. Nossos rostos
próximos demais. Minha pele esbarrando em partes demais de Alex Persen.

- Bem, ele me contratou para isso – comecei sem conseguir parar – eu ficaria feliz em seu útil –
continuei – seria bom ser reconhecida por um bom trabalho. Além disso, o Sr. Galagher certamente
merece ver os filhos. Eu acho uma atitude louvável.

Alex colocou a mão sobre a minha, cobrindo-a. seu toque gentil, quente, derretendo-se em
minha pele.

- O que foi aquilo que eu vi no Euromast? – ele me perguntou com a voz calma, suave.

Pensei por alguns segundos, revirando minha mente atrás de algo que pudesse explicar
Adrian e eu de mãos dadas.

- Nada! – eu disse por fim porque nada pareceu realmente funcionar – eu tenho medo de alturas e –
eu não sabia como continuar – bem, ventava bastante. Eu sou pequena, então – Alex interrompeu.

- Então a mão de Adrian apareceu.


Na verdade, tinha sido realmente assim, mas ouvindo da boca dele agora, pareceu idiota.
Fiquei calada.

- Laura – ele continuou – Adrian é uma das pessoas que eu mais amo no mundo. Ele é realmente um
cara incrível – Alex suspirou – é um pai incrível. É um profissional incrível. Ele é bom em tudo que
faz. Construiu tudo aquilo com o talento que tem. Ele é o melhor amigo que eu tenho. Quase um irmão
– ele suspirou novamente – eu provavelmente não deveria estar aqui – seus dedos movendo-se sobre
a minha mão – não quero vê-lo se magoar. E principalmente, não quero vê-lo magoar você.

- Não se preocupe – eu disse sorrindo – não pretendo me envolver com o Sr. Galagher.

Minha voz soou decidida, firme. E eu me senti orgulhosa. Queria que Alex percebesse que
não existia possibilidade alguma de Adrian e eu, bem, existia?

Alex curvou a boca em um sorriso de lado. Um sorriso daqueles que me faziam ter certeza
de que Deus existia e amava o mundo, criando alguém como Alex Persen.

- A questão, Laurinha – ele me disse ajeitando uma mecha de cabelo atrás da minha orelha, e
escorregando os dedos pelo meu rosto, segurando meu queixo e mirando meus olhos nos dele – é que
você já se envolveu. E não há nada que eu possa fazer.

Eu não sabia o que dizer. Em parte porque ele tinha razão e isso era terrivelmente
assustador, e em parte porque com Alex assim, tão perto, tão quente e tão gentil e carinhoso, eu tinha
muitas duvidas sobre o fato de que ele não poderia impedir que eu me envolvesse com Adrian.

Alex quebrou nosso contato, beijando minha bochecha e levantando-se. Jogou-se em meu
sofá, deu uma golada na cerveja e fechou os olhos, balançando os ombros no ritmo da musica que
tocava.

- Ah eu amo os clássicos! – ele disse enquanto cantarolava “Sweet Child O Mine”.

Eu nem tinha percebido que a musica ainda tocava no meu celular. Sorri.

- Eu simplesmente amo os clássicos também.

- Se você me disser que tem “Carry on My Wayward Son” eu sequestro você e mantenho em
cativeiro, no meu apartamento. Só para ter com quem dividir o gosto musical.

Pronto. Tudo estava bem. Alex parecia ter esse dom. ele parecia concertar tudo á sua volta.
Peguei o celular. Sentei-me ao lado dele e coloquei o Kansas para tocar.

Algumas cervejas e músicas depois, Alex se levantou.

- Diga-me quando sua sala começou a girar – ele me disse rindo alto.

- Acho que na metade daquela pequena pilha de garrafas.

Ele estava bêbado. Eu estava bêbada. Então tentei manter a maior distancia possível entre
Alex e eu.

- Ainda bem que eu tenho a chave da casa do meu pai – ele disse meio grogue – não acho que eu
deveria ir dirigindo para Roterdã agora.

- Acho que você está coberto de razão, Sr. Persen – brinquei – o que mostra que o senhor é um
homem sensato.

E então eu não sei o que houve. Em um momento eu estava ali, parada, fazendo piada, no
momento seguinte eu estava entre os braços de Alex Persen. Presa em um abraço do qual eu não tinha
certeza se queria sair. Suas mãos segurando meu corpo contra o dele. Era um abraço, nada demais,
mas eu não podia dizer que era completamente imune á Alex Persen.

Ele me abraçava por baixo dos meus braços, forçando meu corpo para cima, abaixando o
dele para se encaixar. Eu podia sentir o peito forte e o estomago plano e firme dele contra mim.
Minhas mãos em sua nuca, tentando conter-se em não acariciar seu cabelo macio. Seu rosto
encaixado na curva do meu pescoço, sua respiração fazendo cocegas em minha pele.

Fiquei parada. Imóvel. Mas não me afastei. Eu não queria e Alex não merecia. Toquei seu
cabelo com meus dedos. Sentindo o cheiro limpo do seu shampoo se espalhar em minhas narinas. Ele
se afastou. Segurou meu rosto entre suas mãos. Olhos tristes. Boca sem sorriso.

- Eu deveria ter sido sensato á alguns meses atrás.

Ele ficou em silencio. Eu fiquei em silencio. E então ele sorriu.

- Foi um prazer revê-la Laurinha.

Caminhou até a porta e eu fiquei ali, meio sem entender, meio sem querer entender. Abri a
porta. Ele parou no batente e me deu um beijo suave na bochecha.

- Esteja pronta ás oito. Vou te dar uma carona até a empresa.

E se virou, caminhando em direção á esquina.

- Alex – chamei e ele virou-se – Harold virá me buscar.

- Não se preocupe. Eu avisarei. Tenho certeza de que estarei com uma dor de cabeça daquelas
amanhã e vou precisar do seu bom gosto musical para melhorar minha manhã.

Não discuti. Não tinha razões para isso. Se eu ia conviver com Alex Persen por um período
razoável de tempo, precisava encontrar uma maneira de ser imune ao seu charme.

Faltava pouco mais de meia hora para ás oito horas, quando minha campainha tocou. Abri a
porta para encontrar um Alexander que eu ainda não havia conhecido. Ele estava escorado no batente
da minha porta, vestindo jeans escuros e uma camisa de botões listrada, com uma jaqueta de couro
por cima. Olhos cobertos por óculos escuros.
- Você me disse oito horas – brinquei.

Ele sorriu de canto e passou a língua sobre os lábios – Hum. Sedutor.

- Deve ser oito horas em algum lugar do mundo agora.

Sorri e atirei a toalha de rosto nele.

- Entre. Eu termino em alguns minutos.

- Aham – ele disse – Sei como funciona. Sou noivo, lembra-se?

Eu me lembrava. Não havia esquecido em nenhum momento e rezava para que Alex
lembrasse também. Pelo visto, a noite de sono o havia ajudado com isso.

Demorei exatos quinze minutos para vestir uma calça social ajustada nas pernas. Camisa e um
blazer de couro preto. Prendi meus cabelos em um rabo de cavalo alto. Coloquei meus óculos de sol
Clubmaster* e peguei minha bolsa.

Fechei a porta do meu pequeno apartamento para encontrar um Audi TT** prateado,
estacionado no meio fio.

- Wow! – eu disse sem pensar.

Alex sorriu.

- Gosta?

- Gostar? – eu disse – eu gosto de café com creme. Gosto de torta de chocolate. Esse carro é o
máximo! Eu não gosto, eu amo esse carro! Ele é – eu andei até o carro e deslizei a mão por toda a
pintura brilhante do capô – ele é simplesmente o príncipe dos carros!

*Clubmaster – modelo clássico de óculos da marca Ray ban.

**Carro esportivo de luxo da marca Audi.

Ele pegou a chave e entregou em minha mão.

- Vamos lá Laurinha. Cuide bem do meu bebê.

Olhei a chave reluzente em minhas mãos e quase tive um surto momentâneo. Corri até Alex e
me pendurei em seu pescoço, beijando seu rosto.

- Alexander Persen você é o melhor!

Alex sorriu sem graça e entrou no banco do passageiro. Entrei. Fechei a porta, ajustei o
banco. Girei a chave e deixei o motor rugir – Deus do céu. Eu poderia ter um orgasmo ali, ouvindo
o Audi gemer para mim.

Alex ligou o radio. E deixou um rock suave do “Foo Fighters”*** tocar. Seguimos em
direção á Roterdã.

Paramos em um drive thru e compramos dois copos de café. Entramos no prédio da empresa
de Adrian e havia uma vaga sinalizada com o nome de Persen. Estacionei o Audi ali, feliz em ver que
a vaga de Adrian permanecia vazia. Com sorte, eu entraria, tomaria meu café e poderia escovar os
dentes, antes de vê-lo.

Subimos pelo elevador rindo como dois bobos. Alex criticando minha excitação
aparentemente engraçada, atrás do volante.

- Hey – protestei batendo de leve em seu ombro – eu não dirijo sempre e certamente não dirijo um
carro desses!

- Baby você pode pegar meu carro quando quiser. Alguém precisa aproveitá-lo, já que Alissa espera
que eu o venda antes do bebê nascer.

Ele estava sorrindo, mas eu podia sentir uma nota de descontentamento por trás do seu
sorriso – cara, a garota devia ser uma chata mesmo!

Alex pegou meus óculos de grau e colocou em seu rosto, fazendo careta por trás da armação
vermelha. Eu sorri e o peguei de volta.

- Hey! Eu estou sem lentes. Não enxergo nada sem eles! – eu disse enquanto caminhava para fora do
elevador.

*** Foo Fighters – É uma banda de rock alternativo dos Estados Unidos formada por Dave Grohl em 1995 . Seu nome é uma referência
ao termo "foo fighter", usado por aviadores na Segunda Guerra Mundial para descrever fenômenos aéreos misteriosos,
considerados OVNIs.

Não dei muitos passos e me choquei contra o corpo duro e forte de Adrian Van Galagher.
Meu copo colidindo contra a imensidão dura do seu peito. Eu podia ver tudo em câmera lenta – o
copo se abrindo, o liquido escuro escorrendo camisa abaixo e minha boca se abrindo em desespero.
Perdi o equilíbrio em minha tentativa frustrada de impedir o desastre, e senti uma vez mais a força do
braço de Adrian, erguendo meu corpo como se eu não pesasse mais que alguns gramas.

- Ops – soltei sem querer.

Ele continuou em silencio. Aquele mesmo olhar que me fazia perder a noção do mundo ao
meu redor e esquecer de respirar.

Pisquei. Chacoalhei um pouco a cabeça me desintoxicando do perfume arrebatador dele.

- Perdão Sr. Galagher – eu não sabia o que fazer, estava entrando em “modo desespero” – Eu estava
distraída. Foi minha culpa. Eu realmente não queria – eu tentava me explicar, mas falava como uma
vendedora de telemarketing maluca – Alex e eu – emudeci.

Apertei meus olhos – “Ai caramba, usei o primeiro nome” – foi tudo que consegui pensar.

Adrian virou-se para Alex. O liquido melado empapando sua camisa azul clara, colando o
tecido ao seu abdome.

- Devo supor que esta pequena festinha era a razão para ter dispensado os serviços de Harold.

Eu não sabia se respondia ou não porque eu não sabia se ele falava comigo ou com Alex.
Então fiquei em silencio. Um terrível e constrangedor silencio.

***

Quando acordei naquela manhã, eu estava ansioso. Falar com meus filhos havia deixado o
caminho aberto para que eu sonhasse com Patrícia e sonhar com ela me deixava muito, muito
perturbado.

Desliguei o chuveiro e sentei-me na borda da banheira por algum tempo, deixando meu rosto
pesar sobre minhas mãos, analisando os últimos acontecimentos. Levantei-me, enrolei a toalha em
volta do corpo e caminhei até o armário. Peguei a caixa de madeira e sentei-me na cama, traçando
meus dedos em torno do padrão de rosas marchetado na tampa. Abri, encarando o conteúdo.

Meu álbum de casamento era simples. Quando me casei com Patrícia não éramos ricos nem
tínhamos apoio dos nossos pais. Éramos duas crianças brincando de casinha.

Fui passando as folhas envelhecidas pelo tempo uma á uma, encarando o sorriso no rosto da
minha garota e no meu. Eu podia ver o pequeno volume sob o vestido claro, arredondando suas
formas. John já estava ali, meu pequeno lutador.

O próximo álbum era dos nossos primeiros anos juntos. Havia fotos do primeiro
apartamento que dividimos. E fotos de um Alexander desajeitado tentando dar banho em meu filho.
Suspirei, afastando as primeiras lagrimas e engolindo-as em seguida. Sorri – nós éramos uma boa
família juntos.

Olhei todos os álbuns de fotos, percebendo a diferença em cada um de nós. Eu estava mais
altivo, mais arrogante, mais rico. Patrícia mais triste, mais sofrida, mais apagada. Eu fui apagando
sua luz com a minha arrogância pouco á pouco, até que não restou nada.

Corri os olhos por cada um dos bilhetes que eu havia mandado á ela. Bilhetinhos em
pedaços de folhas de caderno. Apaixonados e românticos como eu nunca mais havia sido.

Havia uma rosa seca sobre uma folha de papel. No papel havia uma data. Era
provavelmente o dia em que ela concebeu meu filho. Eu havia falhado tanto com ela e com eles que
nem sabia por onde voltar consertando meus erros.

Fechei os olhos e pensei em Laura novamente. Eu me sentia culpado pela maioria dos
sentimentos que Laura despertava em mim, mas eu gostava do homem que eu era quando ela estava
por perto. Eu me preocupava mais com a maneira como tratava as pessoas. Preocupava-me mais em
tentar ser parte de algo que não fosse apenas sobre mim e o meu dinheiro.

Estava divagando quando meu telefone tocou. Atendi preocupado assim que vi o numero
internacional piscando na tela.

- Aconteceu algo com os meus filhos Margarida? – perguntei sem saber se queria uma resposta.

- Bom dia Adrian! – ela me recriminou – não. Não aconteceu nada com os seus filhos. Eles estão
ótimos e estão dormindo ainda.

Respirei fundo e me recompus.

- Bom dia Margarida. Desculpe minha falta de educação. Eu estava um pouco absorto em
pensamentos e – antes que pudesse continuar, Margarida me interrompeu.

- Sonhei com Patrícia hoje, Adrian – ela confessou – tenho pensado tanto em minha filha ultimamente.

Senti meu coração se apertar.

- Eu também – confessei tão baixo que não tive certeza se ela havia me ouvido.

- Eles estão bem aqui comigo – ela me continuou – quero que saiba disso.

- Sei que estão. Nunca tive duvidas de que você os ama, mas eles são meus filhos Margarida.

Ela não respondeu. Respirando contra o telefone.

Margarida e eu não discutíamos. Éramos polidos demais para discutir. Na verdade não
trocávamos mais do que poucas palavras. Durante todo o tempo que durou meu casamento, havia sido
pequenas conversar medidas e pesadas, sem sentimento algum.
- Teve notícias de Jens? – ela soltou de repente, fazendo meu corpo se retesar.

- É um país pequeno – brinquei sem humor – Sempre ouço algo aqui e ali, mas nada realmente
preocupante.

- Tenho medo Adrian – Margarida me confessou.

Eu tinha medo também. Tinha muito. Não queria que aquele homem se aproximasse de da
minha família. Ele já havia causado danos demais. Mas eu tinha certeza de que ele não seria burro o
suficiente para tentar algum tipo de aproximação. Ele sabia que precisamos conviver pelos negócios
e ele amava dinheiro mais do que amava qualquer coisa em sua vida.

Jens havia cruzado meu caminho em meu segundo ano escolar. Não encontramos semelhanças
desde o inicio. Nenhum ponto de interesse comum, nenhuma razão para sermos amigos. Eu havia
decidido que ele era apenas mais uma pessoa no mundo, mas ele havia decidido que eu era o seu
rival e isso não havia mudado ainda hoje. Ele era sobrinho do primeiro ministro, e isso fazia com
que se sentisse o próprio rei da Holanda.

Eu era de uma família importante, mas havia renegado isso porque não pensava como eles. Eu
não era como meu pai e eu não era como Jens. Eu jogava o jogo, dançava a musica, mas esse não era
eu, esse era Jens. Ele gostava do jogo. Gostava de se sentir superior, de ser bajulado e aclamado nos
jornais pela Europa. Gostava de desfilar com belas mulheres á tiracolo e manter a fama de solteiro
cobiçado. Ele gostava de mentir e gostava de enganar e ele gostava, principalmente, de ter o que era
meu. Jens era como um rato, infiltrando-se pelos caminhos do palácio e tomando posse do que
achava necessário. Ele era sujo e desonesto, mas se escondia sob uma carcaça elegante e um sorriso
gentil que fazia com que as pessoas caíssem fácil demais em sua lábia. Patrícia, inclusive.

Eu havia lutado contra a vontade de soca-lo tantas vezes que podia sentir a sensação da minha
mão batendo contra os ossos da face dele só de imaginar.

- Não se preocupe. Eu mantenho Jens longe o suficiente – e completei – tenho meus meios.

E então me ocorreu um pensamento.

- Por isso você os levou? – perguntei.

Margarida pensou e pensou por algum tempo. Suspirou contra o telefone.

- Também.

- Eu os quero de volta, Margarida – eu disse baixo, mantendo meu tom sob controle – se o problema
é Jens ou qualquer outra pessoa, eu tenho plenas condições de manter meus filhos seguros.
Ela não respondeu. Continuou aquele duro silencio que me fazia querer socar alguma coisa,
ou alguém.

- Eu vou tê-los – continuei – você sabe que vou.

E então eu desliguei o telefone porque já não havia razão para continuar a conversa. Se ela
pensava que poderia manter meus filhos longe de mim apenas porque tinha medo daquele calhorda,
ela estava enganada. Eu não aceitaria. Não me esconderia e não ensinaria isso aos meus filhos.

Terminei de me vestir sentindo minha cabeça latejar – não era, nem de longe, um bom dia.

Desci as escadas apressado. Entrei na cozinha e encontrei Harold e Martina tomando uma
xicara de café. Encarei o horário em meu relógio.

- Pensei que estaria em Amsterdã, buscando a Srta. Soares, como eu havia mandado – disse
encarando Harold.

- Bom dia Sr. Galagher – ele começou – recebi um telefonema do Sr. Persen dizendo que não
precisava me preocupar, que ele mesmo á levaria. Pensei que eram ordens do senhor.

Engoli em seco, ajeitando minha gravata.

- Da próxima vez que tiver duvidas sobre uma ordem minha, basta que faça uma ligação. É
exatamente por isso que você tem um celular com a conta paga pela empresa.

Era grosseiro, eu sabia, mas era verdade. Virei às costas e saí sem responder aos apelos de
Martina para que eu comesse algo.

Ela havia assumido minha casa como se fosse dela. Eu gostava de como cuidava das coisas e
mantinha tudo do meu agrado. Martina estava conosco desde os primeiros anos de Hanna. Era uma
boa mulher e me conhecia o suficiente para saber a hora de não insistir em algo.

Cheguei à garagem e encarei minha moto estacionada – era o que eu precisava. Um pouco de
vento no rosto e talvez eu me sentisse menos irritado com a petulância de Alexander.

Alguns minutos mais tarde, estacionei a moto e desci, ajeitando meu terno. Caminhei até a
vaga de Alexander e a encontrei vazia – ele queria mesmo arranjar um briga comigo!

Subi pelas escadas para ter tempo suficiente de me recompor, antes de entrar, mas tempo
algum seria suficiente para o que eu vi.

Eu sentia o sangue concentrar-se em minha cabeça. Latejando. Latejando. Eu não me importava com a
mancha na camisa. Não me importava com o liquido quente, escorrendo em meu peito. Meus olhos
estavam vermelhos focados no sorriso na boca de Alexander enquanto saia do elevador com Laura.

Quando foi que os dois ficaram amiguinhos? Que parte da historia eu havia perdido?

Eu queria cerrar minha mão em punho e acertar uma direita fechada, sem chance de defesa, na
lateral do rosto dele. Eu queria sentir o sangue jorrar do osso da face dele e melar os nós dos meus
dedos. Eu queria arrastar Laura pelos cabelos para a minha sala e ensinar á ela que não se brinca
com Adrian Van Galagher. Eu queria, mas eu me contive, encarando os olhos de Alex porque sabia
que ele entenderia o que eu não dissesse.

- Não houve festa alguma Adrian – ele iniciou a sessão desculpas – Laura apenas pegou uma carona
comigo. Acabei descobrindo que meu pai mora na rua da casa de Laura. Não é uma coincidência?

Ele coçou a barba. Deslizou a mão pelo cabelo. Encarou-me com seus olhos infantis de
sempre. Ele estava sem jeito. Pego em sua própria teia.

- E levaram pouco mais de meia hora para formar essa amizade solida.

Eu estava sendo arrogante e acido e eu sabia disso. A recepcionista baixou a cabeça atrás da
tela do computador, fugindo da situação.

- Não seja rabugento Adrian. Eu só – não deixei que continuasse.

- Deixei os processos da Calahan e da Metod sobre sua mesa Alexander. Espero um parecer até a
hora do almoço.

Comecei a andar em direção ao elevador que levava á minha sala. Laura continuou ali,
parada, meio atônita, me encarando.

- Acompanha-me Srta. Soares? – eu perguntei, mas soava mais como uma ordem – ou prefere um
escritório conjugado com o Sr. Persen?

Alex pigarreou e Laura engoliu em seco. Pelo menos os dois teriam o cuidado de não serem
pegos em outra sessão de risadinhas.

Entrei em silencio no elevador, mãos cruzadas sobre o peito melado de café.

- Sr. Galagher – ela começou. A voz quase sumindo – eu espero que o senhor me perdoe. Eu
realmente não o vi. Eu estava colocando os óculos. Estou sem minhas lentes de longe. Sei que não é
um bom argumento. Eu realmente, realmente não queria sujá-lo novamente.

Ela estava usando o realmente pela terceira vez na mesma frase. Falando sem parar, como em
nosso primeiro encontro. Eu quase sorri. Quase. Ainda podia ouvir os risinhos dela com Alex no
elevador.

- Espero que seus argumentos jurídicos sejam mais contundentes, Srta. Soares.

Era uma piada. Ou deveria ter sido, mas ela não sorriu – eu definitivamente não sou bom com
piadas.

A porta se abriu e sinalizei para que Laura fosse á minha frente.

- Bom dia Sr. Galagher – Karol me disse com os olhos na mancha em minha camisa.

Cumprimentei com a cabeça.

- Bom dia Karol.

Abri a porta e deixei que Laura entrasse. Ela ficou parada, sem jeito, esperando por meu
segundo passo. Fechei as portas atrás de nós e passei por ela.

Laura estava linda. Radiante. Algo diferente brilhando em seus olhos, escondido atrás do
medo que ela sentia de mim no momento. Eu queria descobrir o que era e queria socar Alexander até
meus dedos doerem por ter sido ele à razão do que quer que fosse que a fazia feliz.

Eu não iria permitir que ele continuasse sendo a razão do sorriso por trás do rosto de Laura.
Eu precisava de algo. Algo que a fizesse sentir-se como ontem, noEuromast. Eu podia fazer isso. Eu
era muito bom com isso. Eu sabia seduzir. Esse era um jogo que eu gostava de jogar. Meu melhor
jogo.

- Conseguiu o que eu lhe pedi ontem, Srta. Soares? – eu disse afastando-me dela e mirando a janela,
de costas para ela.

- Sim senhor – ela respondeu – inclusive acabei de receber uma resposta. Se eu puder ligar meu
computador.

- Use a mesa – eu disse ainda de costas, sinalizando a mesa lateral.

Eu a ouvi se afastar e colocar o notebook sobre a mesa. Alguns segundos depois, ouvi o som
de inicialização. Tirei o paletó. Soltei minhas abotoaduras e puxei a camisa para fora da calça,
soltando o cinto. Abri os botões da camisa. Virei para encontrar uma Laura observando-me. Ela
baixou os olhos no mesmo instante, mas eles não permaneceram lá. Correram através dos desenhos
em meu dorso e costelas. E pararam nas rosas em meu peito.

Caminhei até ela, meus olhos fixos nos dela, capturando sua atenção. Eu queria Laura. Não sabia se
era o correto, mas era o que eu queria e naquele momento eu realmente não me importava com muitas
coisas. Parei perto o suficiente para que ela tivesse uma melhor visão do meu corpo. Alisei meus
cabelos trás.

- Encontrou o e-mail que procurava Srta. Soares? – Perguntei consciente de nossa proximidade.

Laura piscou algumas vezes. Os olhos tentando decidir se encarava os meus ou se matava a
curiosidade sobre minhas tatuagens.

Eu tinha plena consciência do que meu corpo marcado causava. As pessoas não imaginavam
que por trás do executivo bem vestido havia um homem transgressor. Alguém capaz de marcar todo o
corpo com tatuagens. Eu gostava disso. Gostava de surpreender. E eu gostava especialmente da
reação que isso causava em Laura.

- Eu. Eu. Eu – ela não completava a frase e eu me aproximei mais, baixando um pouco meu corpo,
por trás dela na cadeira, falando perto do seu ouvido.

- Quer me mostrar Laura? – minha voz gutural, baixa, saindo direto da garganta.

Não era exatamente sobre o e-mail que eu falava. Eu falava sobre ela. Sobre qualquer coisa dela que
ela quisesse me mostrar. Queria vencer a barreira que ela havia erguido entre nós. Queria que ela me
visse como homem. Eu não queria mais ser o Sr. Galagher, queria que Laura me visse como Adrian.
Que me desejasse como Adrian e que me deixasse mostrar á ela que homem algum no mundo seria
como eu.

Umedeci meus lábios junto á sua orelha, soltando o ar da minha boca junto ao seu ouvido, sentindo os
pequenos pelos ali se eriçarem com a suavidade do meu toque. Eu tinha consciência de toda a
agitação do seu corpo e esperava por um mínimo sinal, como um leão, esperando pelo descuido da
gazela. Imóvel, controlado. E então meu telefone tocou, arrancando Laura e eu do nosso pequeno
impasse e me fazendo amaldiçoar o homem que inventou o telefone.
Capítulo 6

Meu coração queria sair pela boca. Meu corpo imóvel, tenso, sentindo a presença quente e
forte de Adrian em minhas costas. Mesmo sob o tecido grosso do blazer, eu podia sentir ondas de
calor vindas da sua pele chocarem-se contra minha pele. Eu sofria de uma overdose – bem vinda –
de Adrian Van Galagher, quando ouvi batidas na porta.

Adrian se afastou, caminhando lentamente até lá. Eu fiquei ali, sentada, mãos tremendo,
coração acelerado, corpo latejando.

Karol entrou e eu não me virei, desesperadamente tentando recuperar o controle sobre meu corpo.
Corpo estupido! Corpo estupido!

- Karol mande lavar minha camisa, por favor – eu o ouvi dizer – e consiga algo para que eu possa
vestir até a camisa estar limpa e passada. Não se preocupe em trazer. A Srta. Soares e eu estamos em
uma reunião importante.

Ouvi passos se afastando e então a porta se fechou. Meu coração gritando em antecipação,
sentindo a presença de Adrian aproximar-se. Ele parou ao meu lado, meu rosto na altura do seu
abdome. Virei o rosto sem querer. Cinto aberto, botão da calça também – ele não se deu ao trabalho
de fechar, providencial. O elástico da cueca aparecendo discretamente enquanto ele se movia –
Deus do céu eu estava enlouquecendo! Meu peito subindo e descendo tão rápido que eu tenho
certeza que ele percebeu.

Eu queria Adrian naquele momento muito mais do que eu queria respirar. Eu sentia meu
corpo á pouco graus de entrar em combustão espontânea. Sua respiração movendo os músculos do
seu corpo lindamente. Eu podia ver o quanto Adrian era belo e proporcional de muito mais perto do
que podia ser considerado seguro para alguém.

Inspire. Expire. Inspire. Expire – eu ordenava ao meu corpo, mas tudo que eu conseguia era
mais do perfume sedutor de Adrian Van Galagher. Minha mente projetando cenas eróticas com tanta
realidade que eu podia sentir a mão de Adrian sobre minha cabeça, conduzindo-me até o botão
aberto em sua calça. Eu podia sentir minha mão descendo o zíper devagar. Podia sentir minha boca
beijando sua pele quente, fina, ajustada aos músculos do quadril – Deus eu queria isso! Queria
beijar Adrian sob o elástico da cueca Calvin Klein e senti-lo arquear contra mim, gemendo de
prazer. Eu queria mais. Queria puxar sua cueca mais para baixo, queria senti-lo inteiro. Em minha
mão. Em minha boca. Eu queria senti-lo em minha língua.

Pisquei algumas vezes porque minha visão estava escurecendo de repente. Tirei os óculos
com o cuidado de não tocá-lo. Limpei as lentes com a barra da blusa e os coloquei novamente.
Tentando ganhar tempo antes de parecer mais uma vadia completa, jogada sobre Adrian Van
Galagher.

Adrian não se abaixou. Ele permaneceu ai, parado ao meu lado, a mão escorada no encosto
da cadeira, o corpo tão próximo ao meu rosto que se eu movesse minha cabeça um centímetro,
tocaria os lábios em sua pele. E se eu fizesse isso, provavelmente estaria perdida para sempre. Como
o homem iria acreditar que não houve nada entre o Juiz e eu se eu me comportasse como uma
vadia?

Respire Laura! Respire. Não se mova. Não se mova – pensei novamente.

- Leia para mim, Srta. Soares – ele disse, quebrando minha pequena guerra mental.

Eu li. Engasgando em um inglês arrastado que nem parecia meu. Tão nervosa que demorei
alguns minutos para perceber o que tinha acabado de ler.

- Oh meu Deus! Eu consegui – eu disse tão espantada que me movi e toquei em Adrian muito mais do
que devia e muito menos do que queria.

Adrian tinha um olhar indecifrável, escuro, profundo, um sorriso diabólico no rosto.

- Parabéns Srta. Soares. Sinto que devo lhe parabenizar.

Eu sorri – era o primeiro elogio que eu ganhava dele.

Ele estendeu a mão em minha direção e eu o olhei em sua totalidade, realmente, pela
primeira vez, sem desviar os olhos, curiosa, hipnotizada.

Adrian era ainda melhor daquela posição. Sua pele clara e suave, marcada em quase toda a
extensão superior por uma série de desenhos em preto. Ele tinha músculos bem feitos e proporcionais
em todo o corpo esguio, forte. Seus ombros eram largos e os braços bem torneados. Sua cintura era
marcada por uma curvatura em forma de “v” que eu já havia notado e que sinalizava exatamente onde
ele deveria ser melhor, mas o que realmente me impressionava eram os olhos dele. Eles não tinham
mais a arrogância marcada de Adrian. Ele estava ali, inteiro, só para mim.

Estendi a mão e ele a segurou. Eu esperei um aperto de mão, mas não tive isso. Adrian levou
minha mão até seus lábios e a beijou, suavemente.

- Obrigada Laura, por tornar possível minha visita aos meus filhos.

Não havia jogo em suas palavras, nem sedução. Nada. Só havia Adrian e eu. Eu estava
derretida como um pote de manteiga no sol do meio dia no Nordeste. Eu teria feito qualquer coisa
que ele mandasse naquele momento. Fiquei imaginando como seria acordar todos os dias com um
homem como ele e tive pena da pobre esposa. Deixando-o tão cedo.

Lembrei-me da fotografia dele com o filho mais velho. Esse homem na minha frente tinha
muito mais á ver com aquele cara lindo e descontraído, segurando um filhote de cavalo. Imaginei
como ele seria como pai. Um Adrian acordando de madrugada para espantar monstros do quarto ou
empurrando a garotinha no balanço. Suspirei, perdida em mim mesma – eu queria isso. Eu queria
esse Adrian. Eu queria uma casa cheia de crianças sorridentes dos olhos caramelo. Eu queria,
mas eu sabia que não poderia ter. Essa era uma realidade impossível demais e eu poderia fazer uma
lista bem grande de motivos.
- O quê você olha tanto Laura? – ele perguntou curioso.

Percebi que estava em silencio á muito tempo. Boca meio aberta, cara de peixe fisgado pelo
anzol. Pisquei e limpei a garganta.

Sua postura era de controle, poder. Adrian sabia quem era. Sabia o poder que tinha e sabia
principalmente o poder que exercia sobre as mulheres. Sobre mim.

Eu não encontrava uma maneira de responder. Não podia simplesmente dizer que já estava
imaginando ele todo lindo e tatuado, esparramado sobre a minha cama e rodeado de crianças. Seria
meio assustador.

Ele deu alguns passos, diminuindo nossa distância, meus olhos vagando em seu corpo,
estudando os desenhos, focados nas flores sobre seu peito sólido. Ele esboçou um sorriso e fechou o
botão da calça, levando meus olhos direto do seu peito para a linha sua cintura. Adrian caminhava
como um felino ao redor de mim, espreitando.

- Acha que eu não faço o tipo tatuado? Com meu terno caro e meu carro de luxo. Você acha que sabe
quem eu sou Laura Soares – ele disse aproximando-se de mim ainda mais. Meus seios quase tocando
sua pele, minha pele arrepiada sob a roupa – você nem faz ideia Laura – meu nome soando sexy em
sua voz grossa, seu sotaque arrastado.

Se eu achei que minha calcinha poderia sair correndo antes, eu estava enganada, mas agora,
ela poderia se desfazer com uma pequena ordem de Adrian Van Galagher, meu pirata sedutor.

Adrian ergueu o braço e levou até o meu cabelo. Puxou o laço de uma vez, espalhando-o
redor do meu rosto. Ele se aproximou mais, segurando uma mecha e levando até seu rosto.

- Eu gosto do seu cabelo, Srta. Soares – ele cheirou meu cabelo, enviando ondas elétricas em todas
as partes do meu corpo e em algumas, especificamente – gosto do perfume que eles tem – seus olhos
nos meus. Minha boca seca, admirando a dele, sentindo o seu gosto – sabe por que eu gosto dos seus
cabelos Srta. Soares?

Sacudi a cabeça em negativa, como uma criança de dois anos. Eu tinha certeza de que se
tentasse falar, iria babar no sapato dele.

Adrian escorregou pelo meu rosto, enfiando a mão em meus cabelos, segurando-me pela
nuca, num aperto firme – eu quase gemi – e me puxou para si, a centímetros da sua boca.

- Seus cabelos só ótimos para puxar enquanto se faz amor, Laura. Serão perfeitos quando eu a
debruçar sobre a minha mesa. Vou poder trazê-la até minha boca assim. Seus dedos girando ao redor
do meu cabelo, segurando-o de uma vez, todo nas mãos de Adrian, prendendo-me, puxando-me.

Morri. Ou pelo menos quis morrer. Ali, nos braços de Adrian, nada poderia valer mais á
pena. Minha vida tinha sido completa. Adeus mundo!

E então ele continuou.


- Você quer me conhecer melhor, Laura? – ele me disse com o nariz tocando o meu, espalhando seu
hálito fresco em minhas narinas. Assenti – Não posso garantir que você irá apreciar tudo que irá
descobrir.

Pisquei algumas vezes. Concentrei. Respirei fundo – seu eu queria ter alguma chance de ter
mais que uma transa rápida no escritório com Adrian Van Galagher, eu precisava ser mais que uma
dessas “modeletes” burras que devem fazer fila do lado de fora da sua casa.

Endireitei meu corpo. Meus lábios roçando os de Adrian. Encarei seus olhos, mordendo meu
lábio inferior. Eu estava de volta ao jogo. Tateei seu peito com as minhas mãos, contornando cada
musculo, sentindo as ondulações da tinta em sua pele. Eu podia sentir seu corpo acordado, vibrando
com o meu toque.

- Algumas experiências valem á pena, Sr. Galagher, mesmo quando deixam marcas.

O rosto de Adrian explodiu em um sorriso sexy, quase real, provocador. Seus olhos eram
uma linha fina e dourada, encarando os meus. Ele podia derreter o meu cérebro se continuasse
daquele jeito.

- Espero que saiba exatamente o que está dizendo – ele me disse.

Sua mão desceu pela minha blusa, até o cós da calça, os dedos segurando ali, puxando-me
mais perto, tateando a renda da minha calcinha.

- Que graça teria uma vida sem riscos, Sr. Galagher? – eu provoquei e ele sorriu mais.

- Venha Srta. Soares – ele me disse e me arrastou pela mão.

***

Saí da sala com a mão de Laura entrelaçada na minha. Aquele sorriso de excitação em seus
lábios mais uma vez – Eu estava me viciando naquele sorriso.

Não pensei muito em onde isso tudo acabaria. Na verdade, depois de muito tempo, eu me
permiti não pensar. Eu me permiti vivenciar. Eu precisava disso como precisava de ar. Eu queria o
velho Adrian de volta.

Passei pela mesa de Karol e parei em frente á ela.

- Então Karol, conseguiu algo para eu vestir? Ou terei que sair seminu pelas ruas de Roterdã? –
brinquei – saiba que se eu for preso por atentado ao pudor descontarei a fiança do seu salário.

Karol sorriu. Laura sorriu. Eu não. Sorrir ainda parecia difícil.


- Claro Sr. Galagher, não se preocupe. Consegui sim.

Ela me passou uma camiseta branca, dobrada e com etiqueta de nova. Puxei a etiqueta e
vesti, cobrindo meu peito. Era menor do que eu teria comprado, ficava ajustada, mas pelo menos
cobria um pouco de mim.

Caminhei com Laura até o elevador.

- Desculpe por sua camisa – ela me disse – de novo.

- Não se preocupe – eu disse – de novo.

Ela saiu na frente e eu em seguida. Assim que passamos pela recepção, demos de cara com
Alex, voltando do departamento financeiro.

Ele correu os olhos de mim para Laura algumas vezes, tentando entender. Parou em mim,
estudando, mas não disse nada.

- Quando quer discutir o caso Calahan? – Alex perguntou – o caso Metod exige uma certidão que
ainda não tenho.

- Amanhã pela manhã discutiremos Alex – eu disse. Minha mão descansando nas costas de Laura,
entre as ondas dos seus cabelos – Não pretendo voltar ao escritório hoje.

Eu sorri quase sem querer. Alex era meu amigo, mas ele tinha pisado em terreno perigoso.
Eu queria Laura. Eu a queria desde antes de saber quem ela era e depois eu quis mais. Eu sabia
exatamente o que se passava na mente de Persen, mas eu não me importava, tudo que eu queria era
mostrar á ele que Laura era minha.

Laura foi saindo pela porta, mas eu a trouxe de volta ao elevador que dava acesso á
garagem.

- Achei que você tivesse vindo de motorista – ela me disse – seu carro não estava na vaga, então eu
pensei – eu sorri, interrompendo-a.

- Eu não vim com o motorista Laura – me limitei a dizer.

Eu a conduzi até a moto, parada ali, esperando por nós. Era meu brinquedo preferido.
Encarei os olhos curiosos de Laura.

- Vamos – eu disse entregando um capacete á ela – eu prometi que a levaria para conhecer minha
cidade. Eu sou um homem de palavra.

Laura sorriu e colocou o capacete. Eu subi na moto e liguei. Ela ficou ali, parada.

- Não me diga que tem medo de motocicletas também, Srta. Soares – brinquei.

- Não – ela me disse sem jeito – só não sei subir em uma.


Eu estendi a mão, segurando a dela.

- Pise aqui com seu pé esquerdo – eu disse indicando o pedal – agora jogue o corpo para cima e
passe a perna para o outro lado.

Ela sentou-se. Longe demais de mim. Sem me abraçar. Eu quase sorri.

- Me dê suas mãos, Laura.

Ela passou as mãos por baixo dos meus braços, timidamente. Eu as puxei e cruzei em meu
abdome.

- Você precisa encostar em mim. Acredite, é mais seguro assim.

Ela se aproximou um pouco mais.

- Mais perto Laura. Eu preciso ter certeza de que você fará as curvas comigo.

E então ela se aproximou mais, colando o corpo no meu. Minhas costas preenchidas por ela.

Saímos pela cidade, sentindo o vento bater contra nós.

Eu me deixei levar pelas ruas, sem lugar fixo, cruzando as grandes avenidas e as pequenas
vielas, mostrando uma Roterdã que ela não conhecia e da qual eu nem lembrava mais. Passamos pela
Erasmusbrug, em direção á outra parte da cidade velha, Hillegersberg*. Era uma parte especial de
Roterdã para mim. Eu havia crescido ali. Havia vivido boa parte dos meus melhores momentos ali.

Enquanto corríamos juntos pelas ruas quase desertas eu me lembrava de Lucian. De quando
éramos crianças. De nós dois chutando a bola no quintal de casa até mamãe nos chamar para comer
torta de maçã. Suspirei fundo. Essas lembranças não eram mais dolorosas. Eram lembranças boas.
Saudades boas. Eu não me culpava mais pelo acidente. A imagem do meu pai estava se formando em
minha mente mesmo sem eu querer. Já fazia tanto tempo que eu não o via. Ultimamente, John estava
mudando alguns dos meus velhos conceitos.

Eu me sentia estranhamente feliz ali. Encarei suas mãos pequenas ao redor da minha cintura,
sentindo o corpo de Laura contra o meu. Fazia tanto tempo que eu não me sentia assim. Realmente
muito tempo. Decidi que era hora de tentar. Hora de deixar o velho Adrian vir á tona, mostrar á
Laura quem eu era de verdade. Talvez ela se desiludisse de vez e se afastasse de mim, ou talvez – o
pensamento morreu em minha mente. Não Adrian, não existe talvez.

Parei a moto em um pequeno parque, á beira de um lago. O vento havia derrubando muitas
flores brancas sobre a água. Agora ela estava estática, límpida, coroada de flores. Laura desceu e eu
desci em seguida.

Os olhos dela brilhavam como quando eu a levei ao Euroscoop.

- Oh meu Deus Sr. Galagher – ela me disse com a mão tapando a boca – se eu tivesse doze anos diria
que estou em um conto de fadas!

- É uma pena que você não tenha conhecido esse lugar aos doze anos então – brinquei.

Ela tirou os sapatos de salto e pisou na grama, deslizando os pés pelo chão, amassando as
pequenas flores – essa maldita brasileira seria minha perdição.

Sentei-me na grama e deixei meu corpo cair contra o chão, cruzando as mãos atrás da
cabeça, fechei meus olhos. Fiquei assim até que ela sentou-se ao meu lado.

- Posso perguntar uma coisa Sr. Galagher? – ela me disse timidamente, e eu podia jurar que estava
mexendo nos dedos nervosamente.

- Claro.

- O senhor não acha mesmo que eu me envolvi com o Juiz Reign, acha?

Eu podia perceber o nervosismo ali, escondido entre as notas vocais. Ela tinha medo do
conceito que eu tinha dela. Eu quis sorrir – ela nem fazia ideia.

Permaneci parado, mãos cruzadas atrás da cabeça. Rosto sério. Eu me divertia em tortura-la
assim. Ela tinha muitas perguntas, mas tinha muito mais medo do que desejo de respostas.

- Tenho certeza de que não – respondi por fim, quebrando o desespero latente dela.

Eu soube que ela sorria mesmo com os olhos fechados.

- Posso perguntar como o senhor tem tanta certeza?

- Pode, se parar de me chamar de senhor. Talvez eu peça que me chame de senhor em algum momento
– brinquei, mas não era tão brincadeira assim – Acho que Adrian está bom por agora. Enquanto
estamos sozinhos.

Pude senti-la sorrir novamente.

- Como tem certeza de que eu falei a verdade no caso do Juiz, Adrian? – ela reformulou a pergunta,
acolhendo meu pedido.

Levantei, ficando de frente para ela. Apoiando as mãos nas pernas. Meus olhos encarando o
nervosismo nos dela. Sorri.

- É muito simples Srta. Laura Soares – eu disse e atirei uma pedrinha na água, fazendo-a quicar
algumas vezes sobre a superfície – O Juiz Albert Reign é meu pai.

Laura tossiu, pigarreou e limpou a garganta. Decidi explicar-lhe mais.

- Por isso eu disse a Andersen que ninguém poderia ser melhor em limpar seu nome. Nada melhor do
que o filho do juiz para dizer que você é inocente. Ter sido contratada por mim redime você. Assim
que a imprensa souber – fiz uma pausa e tirei uma folhinha dos cabelos de Laura – e ela saberá, você
estará limpa.

Os olhos de Laura estavam nos meus. Tão perto. Tão minha.

- Obrigado – ela me disse ainda sem jeito – por me ajudar. Obrigado. Eu não sei como faria. Eu não.
Eu não – ela não sabia como terminar a frase e eu não queria que ela terminasse.

Puxei seu rosto para o meu, tocando meus lábios nos dela. Fazia tanto tempo que eu não
beijava alguém. Senti a maciez dos lábios dela com a minha língua. Lambendo ao redor deles
devagar, sentindo a antecipação de Laura. Capturei o lábio inferior entre os meus e a puxei mais,
colocando-a sentada sobre minhas pernas, de frente para mim. Eu queria que ela sentisse como me
excitava. Como eu estava pronto, preparado para ela. Ajeitei seu quadril e elevei minhas pernas,
encaixando-a ali. Minhas mãos na base das suas costas, pressionando-a contra mim, sentindo meu
corpo pulsar de desejo por ela.

Laura não recuou. Ao contrário, suas mãos estavam em minha nuca, acariciando meu cabelo,
sua boca pronta, desejando a minha, enquanto eu mordiscava seus lábios, aumentando o desejo dela,
e o meu.

Minha língua abriu espaço entre seus lábios, tateando a de Laura, buscando, sugando. Eu a
beijei como se dependesse dela para viver. Mais forte, mais profundo, puxando sua língua para a
minha boca, sugando-a mais forte até que Laura gemeu, tirando meu senso. Eu me deitei e a puxei
sobre mim, minhas mãos apertando seu quadril contra o meu. Eu estava dolorosamente duro por ela.
Virei de lado, colocando-a na grama.

Era um lugar afastado. Eu sabia que àquela hora do dia não teria movimento, mas ainda era
um parque e isso me excitava mais. Enfiei minha mão por dentro da blusa de Laura, apertando seus
seios em minha palma.

- Adrian – ela protestou – não acho que – eu não a deixei terminar. Coloquei meu joelho entre suas
pernas, apertando contra ela, com movimentos suaves sobre sua calça fina.

- Adrian – ela gemeu. Não era mais um protesto.

- Shhhhhhh – eu disse com o dedo em seus lábios – eu quero você anjo – eu disse contra sua orelha –
e me você, me quer?

Ela assentiu com cabeça tonta, presa entre meus beijos.

- Eu quero ouvir você dizer. Diz Laura. Diz o que você quer.

- Você – ela balbuciou.

- Então será como eu quiser. Sempre – eu disse enfiando a mão dentro da sua calça.

Eu não pretendia fazer amor com Laura ali. Não nos exporia. Eu era um homem conhecido
demais para me dar á esse tipo de luxuria, mas Laura precisava ser testada. Eu precisava saber até
que ponto ela estava disposta á ir. O que ela estava disposta á fazer comigo.

Deslizei a mão dentro da sua calcinha, tocando-a onde eu queria. Minha boca em sua boca.
Eu sugava sua língua para minha boca ao mesmo em tempo que mexia meus dedos em espiral em sua
carne suave, macia, quente. Eu sentia meu corpo todo gritar por Laura, meu membro duro,
dolorosamente latejando por ela.

Eu estava louco, descontrolado, perdido em Laura, possuindo-a com a minha boca, já que
não podia possui-la como eu queria naquela hora.

- Laura, Laura – eu disse cortando o beijo, passando a língua em sua orelha – você nem imagina
como eu quero foder você inteira. E eu vou.

Esperei alguma reação negativa dela. Algo que indicasse que ela estava desconfortável com
o meu linguajar. Eu precisava que Laura indicasse que não queria algo em mim porque se ela
quisesse, eu não seria capaz de negar.

- Hum. Adrian – foi tudo que consegui arrancar dela.

Seu corpo amolecendo, perdendo as forças contra o chão, contorcendo-se em minha mão.
Enfiei um dedo dentro dela, sem parar o movimento, sentindo seu calor, sua umidade.

Deus! Eu estava realmente perdido.

- Como você é pequena Laura – eu disse contra a sua boca – tão apertada. Acho que nós vamos ter
um probleminha com isso.

Ela não disse nada, enfiando a língua em minha boca, mordendo meu lábio. Continuei,
respondendo ao beijo.

- Isso anjo. Goza para mim. Goza na minha mão que eu quero sentir o seu gosto.

Não demorou muito – alguns segundo depois eu pude senti-la arfar, seu corpo ondulando
contra minha mão. Eu a beijei por mais alguns minutos, deixando-a recobrar os sentidos. Ela abriu os
olhos e sorriu. Parecia um pouco envergonhada, mas lutava contra – garota decidida.

Fixei meus olhos nos dela, retirando minha mão com cuidado da sua calça. Levei os dedos
até minha boca e chupei, absorvendo o gosto de Laura.

- Sabe por que eu não jogo, Srta. Soares? – eu perguntei.

- Não faço ideia – ela me respondeu.

- Eu tenho uma tendência nata á me viciar em coisas que me fazem sentir vencedor.

Ela sorriu.
- Sinto que corro esse risco com você.

Laura se pendurou em meu pescoço, puxando meu rosto para o seu, deitando-me sobre ela na
grama. Ela me beijou. Docemente, profundamente, como se nunca mais fosse me ver. Meu corpo
ainda necessitava dela. Eu não estava satisfeito. Eu queria mais. Eu queria tudo.

- Se você continuar com isso eu vou esquecer que estamos na rua. Acredite, isso não seria um
problema para mim.

Ela não me deu atenção. Não respondeu. Abriu o botão da minha calça e enfio a mão lá
dentro, for fora da minha boxer, sentindo minha extensão rígida. Gemi contra sua boca.

- Você está navegando em águas perigosas, Srta. Soares – adverti.

Estava desesperado por liberação. Precisa dela. Eu queria entrar em Laura mais do que
qualquer coisa, mas não naquele lugar, não daquele jeito.

Laura continuou deslizando a mão desde a ponta até a base, por dentro da cueca agora,
enlouquecendo-me. Eu gostava do toque dela. Queria mais.

Encarei seus olhos e passei meu polegar sobre seus lábios.

- Eu queria sentir a sua boca fazendo isso, anjo.

Ela me beijou mais forte, mais profundo, chupando minha língua e quase me levando para
longe da razão. Sorri contra sua boca.

- O que você quer Laura? Quer me fazer gozar na cueca é isso? Não basta sujar a minha camisa.

Ela sorriu, parte sem graça, parte satisfeita.

- Sinto te informar, linda, não vai ser assim tão fácil.

Puxei seus braços contra meu pescoço. Eu precisava parar o que ela estava fazendo ou ela
acabaria descobrindo que também não seria tão difícil assim. Afinal, que tipo de homem eu era? Eu
não era mais um adolescente bobo e apaixonado. Eu tinha controle sobre mim. Sobre meu desejo,
sobre meu corpo. Não tinha?

Adrian não se esqueça – você está no comando.


Capítulo 7

Eu não havia percebido coisa alguma quando Adrian levantou-se. Tão rápido que eu não
consegui acompanhar, e correu. Correu e correu e só depois de alguns minutos eu percebi a razão.
Havia um garoto. Pouco mais jovem que eu. Câmera na mão, vigiando Adrian e eu. Senti o medo
espalhar-se tão rápido que eu estava atônita, parada feito uma idiota, vendo a cena em câmera lenta.

Adrian não deu tempo algum para que ele pensasse. Arrancou a câmera com uma mão,
segurando-o pelo colarinho da camiseta com a outra. Eu não ouvi o que ele disse, mas sinceramente,
eu no lugar do garoto, teria feito o que ele quisesse. O garoto ficou ali, com as mãos levantadas em
sinal de paz, rosto corado de desespero, esperando o próximo passo de Adrian.

Levantei-me com cuidado, ajeitei os cabelos com as mãos e caminhei até onde eles estavam.
Ao lado da motocicleta agora.

Adrian retirou um maço pequeno de dinheiro e o entregou ao garoto. Parei ao lado deles, em
silêncio.

- Passe na sede da minha empresa e eu deixarei o restante separado, Sr. Willen – Adrian disse – e eu
espero que estejamos conversados.

- Sim, Sr. Galagher – o garoto respondeu, guardando o dinheiro no bolso – posso passar ainda hoje?

Adrian não o olhou mais. Subiu na moto e sinalizou para que eu subisse. A câmera do garoto
amarrada ao seu pulso. Ligou a moto.

- Passe quando quiser. Darei a ordem de pagamento agora mesmo.

Meu peito se apertou. O homem que estava comigo até alguns minutos atrás não existia mais.
Ele tinha dado lugar ao Sr. Galagher, o executivo frio de sempre.

Subi na moto e o segurei pela cintura. Nossos corpos estavam novamente próximos, colados,
mas Adrian não estava mais ali. Ele havia ficado para trás, no meu pequeno jardim de contos de
fadas, perdido entre o sonho e a realidade.

Paramos dentro da garagem do prédio de Adrian novamente. Eu desci. Ele desceu. Silencio
absoluto.

Subimos pelo elevador e paramos na recepção. Adrian pegou um pedaço de papel e escreveu
algo que eu não li. Estava desconcertada, envergonhada, sem entender muita coisa.

- Quando este homem vir até aqui – ele sinalizou o nome no papel para a recepcionista – entregue
este valor em dinheiro.

A moça assentiu. Não discutiu, não perguntou – ninguém questionava o Sr. Galagher.
Subimos pelo elevador que dava acesso á sua sala. Adrian caminhando em minha frente com
seus passos largos e eu tentando acompanha-lo.

- Espero que minha camisa já esteja seca e pronta para o uso, Karol – ele disse sem a menor sombra
de sorriso em seu rosto.

- Sim, Sr. Galagher. Deixei-a sobre sua mesa.

Ele entrou no escritório e eu o segui. Pegou a camisa sem falar comigo e entrou por uma
porta lateral, próxima á onde eu estava estática, mãos sobre o aparador, sem saber se corria ou se
ficava.

Adrian voltou alguns segundos mais tarde, impecavelmente vestido. Colocou o paletó
novamente.

- Vou pedir á Harold que a leve de volta para Amsterdã, Srta. Soares – ele me disse.

Havia uma nota diferente em sua voz que não reconhecia. Não era a arrogância costumeira.
Adrian estava pesaroso, culpado talvez. Eu não queria ir. Queria entender o que estava acontecendo.
Ainda pretendia conhece-lo melhor, entende-lo.

Ele caminhou até a mesa. Apertou um botão no telefone.

- Karol, peça á Harold que venha até minha sala.

- Harold foi até o centro automotivo, ligaram avisando que o Porsche estava pronto. Assim que ele
voltar direi que o senhor o aguarda – ouvi a voz de Karol pelo viva-voz.

Era minha deixa. Um pequeno presente do destino. Ele não conseguiria me chutar tão rápido
para longe dele. Aproximei-me.

- Posso ver as fotos? – pedi.

Ele pegou a câmera e a ligou. Entregou em minhas mãos. Eram fotos realmente ruins. A
câmera era muito, muito boa. Fui passando, passando e sentindo meu rosto corar.

- Entende porque o que houve hoje não vai se repetir, não é Srta. Soares?

Continuei passando as imagens.

- Eu não posso ter minha vida pessoal exposta desta maneira, Srta. Soares. Tenho clientes grandes.
Pessoas importantes. Não posso por tudo a perder com rompantes adolescentes.

E o sangue ia se concentrando mais e mais em minhas bochechas. Não era mais vergonha,
estava na raiva e ia seguindo em direção ao ódio.

- Se eu quero meus filhos de volta – ele continuou. Olhos perdidos na paisagem da cidade, revelada
pela parede de vidro – não posso vacilar. Não posso.
Engoli em seco. Ele não era tão egoísta assim. Estava preocupado com os filhos e não
estava errado. Fosse pelo que fosse que tivessem levado as crianças, certamente usariam aquelas
fotos para mantê-las longe.

Parei ao lado dele. Estávamos um ao lado do outro, sem realmente nos olharmos. Encarando
a cidade lá embaixo.

- Eu entendo Sr. Galagher – eu disse, tentando me aproximar.

- Você tem filhos Srta. Soares? – ele me perguntou.

Uma onda de emoções inundando meu corpo todo. Vacilando as palavras em minha boca.
Lembranças remoendo dentro do meu coração, levando minha consciência para longe. Para outro
tempo. Para outra Laura. Uma Laura que ainda acreditava em finais felizes. Adrian me fez lembrar
que essa Laura não existia mais. Não eu não tinha.

- Não – limitei-me a dizer, sentindo as lagrimas queimando por detrás dos meus olhos.

- Então você não sabe como eu me sinto.

Adrian disse isso e se afastou. Mexendo em alguns papeis sobre a mesa. Eu fiquei ali,
segurando o meu choro contido, mãos cerradas em punho. Maxilar apertado. Olhos perdidos na
imensidão azul do mar, quando a porta se abriu.

- Oh desculpe – eu ouvi a voz de Alexander – não sabia que Laura estava com você. Posso voltar em
outro momento – Alex disse vacilante.

Eu não me virei. Não sabia se conseguiria me conter se encontrasse Alex ali. Pude senti-lo
caminhar, seus sapatos batendo contra o piso brilhante.

- Adrian? – ele perguntou – quer que eu volte em outra hora?

Adrian vacilou. Eu o vi retomar sua postura tão rápido que poderia jurar que o vacilo só
houve em minha mente.

- Tem os números da Calahan para mim Alexander? – ele perguntou com sua voz autoritária de
sempre.

Alex demorou á responder. Imagino que tenha olhado para mim, mas eu ainda precisava de
mais alguns segundos para controlar o meu coração estúpido.

- Sim – ele disse por fim – eu preparei o processo. Pensei em deixar na sua mesa – mais uma pausa –
mas vejo que decidiu voltar mais cedo.

- Mais alguma coisa? – Adrian perguntou.

- Não – Alex respondeu – até amanhã terei os números da Metod.


- Então eu o vejo amanhã – Adrian respondeu – preciso analisar esse processo com cuidado e eu
realmente não quero ser interrompido.

Eu não sabia se Adrian falava com Alex ou comigo. Suas palavras pareciam respingar em
mim como uma garoa fina em um dia de inverno.

- Ok – Alex respondeu e bufou – estarei em casa se precisar.

Ouvi seus passos se afastando e aproveitei. Eu queria fugir e Alex era a melhor fuga que eu
poderia ter de Adrian.

- Alex? – Chamei e me virei – você poderia me dar uma carona até a estação?

Adrian estava parado. Mão perdida sobre o processo. Olhos contrariados, espantados.
Sobrancelhas baixas. Continuei.

- Não quero mais tomar o tempo do Sr. Galagher. Além disso, preciso conferir algumas coisas em
meu escritório. Tenho um estudo de caso sobre Sequestro Inter parental que eu gostaria de reler.

Os olhos de Alex vagaram de mim para Adrian algumas vezes. Sobrancelhas levantadas,
como se pedisse algum tipo de permissão ou se simplesmente esperasse uma negativa de Adrian.

- Se acha conveniente, Srta. Soares – foi tudo que ele disse.

- Atrapalho você? – perguntei a Alex.

Alex encarou Adrian novamente. Coçou a barba. Sorriu.

- Não.

- Ótimo! – conclui – eu o procuro assim que tiver novidades, Sr. Galagher.

Praticamente corri para fora do escritório. Não olhei para trás nenhum momento sequer,
apesar de ter deixado uma boa parte do meu coração lá. Eu já estava acostumada a ir perdendo
pedaços dele pelo caminho.

Descemos pelo elevador sem dizer nada, Alex e eu, fugindo dos olhares um do outro.

Saímos. Entramos no Audi. Alex dirigiu em silencio. Nenhuma música.

Passamos pela Avenida da Estação Central. Alex não parou. Tomou uma estrada secundaria.
Uma que eu não sabia onde levava. Pouco mais de dez minutos depois, eu pude perceber o aumento
de espaço entre as casas. Mais distantes. Mais distantes. Plantações. Moinhos de vento. Pequenos
riachos. Alex estacionou em uma estrada transversal. Tirou o cinto de segurança. Virou-se em minha
direção, os olhos verdes encarando os meus. Não aguentei. Eu estava sendo forte á tempo demais. Eu
me perdi na primeira lagrima que escorreu. As outras vieram com tanta força que eu sentia como se
uma comporta tivesse sido aberta. Alex abriu os braços oferecendo seu abraço e eu me lancei nele.
Suas mãos eram suaves em minhas costas. Seu peito era quente e aconchegante, moldava-se á mim
com tanto carinho, tanta atenção. Afundei meu rosto em seu peito, sentindo o tecido da camisa molhar
com as minhas lagrimas.

- Baby. Baby. Eu queria tanto estar errado – foi o que ele me disse.

- Queria que você estivesse errado também – solucei.

Ele segurou meu rosto em suas mãos e limpou meus olhos com os polegares. Seus olhos
tristes e profundos. Sua boca sem sorriso.

- Há tão pouco que eu possa fazer – ele concluiu – só posso dizer que estou aqui. Que vou tentar
curar as feridas.

Encarei seu olhar por alguns minutos. Deus! Seria tão fácil amar Alex Persen. Havia tanto
para amar ali. Seria tão fácil tê-lo em minha vida. Porque eu não conheci Alex Persen alguns anos
antes? Quando eu ainda esperava meu príncipe encantado. E ele não era noivo da madrasta má.
Sorri, mesmo sem humor.

- Parece um bom plano para mim – eu disse.

Alex sorriu e eu me aninhei em seus braços de novo.

- Acredite – Alex começou – ele não é um idiota arrogante.

Eu quase consegui sorri.

- Você não sabe o que aconteceu.

- Nem preciso. Eu conheço Adrian á bem mais de uma década, baby. Conheço todos os seus jogos.

Não resisti.

- Acha que ele estava jogando comigo? – perguntei.

Alex suspirou profundamente.

- Sinceramente?

- Sim.

- Sim ele estava jogando.

Quase tive que recolher os cacos do meu coração no piso do Audi. Eu não sabia se queria
continuar ouvindo, mas Alex continuou.

- Mas ele estava jogando agora, e não antes – afundei mais a cabeça em seu peito – aquele Adrian
que você viu, divertido e de camiseta, é mais próximo do cara que eu conheci, muito tempo atrás, do
que este executivo arrogante que deixamos lá.
- Ele parece bem real no papel de executivo arrogante – conclui.

Alex sorriu.

- Eu sei. Tenho convivido com ele á algum tempo.

Limpei meus olhos uma vez mais. Encostei de volta no banco do passageiro novamente e
mirei a estrada á nossa frente.

- Isso é só uma casca, sabe? Um tipo de armadura. Quando alguém sofre demais, tende a tentar se
proteger – Alex me disse.

Pensei nas palavras de Alex por um tempo. Eu sabia exatamente como elas eram
verdadeiras. Eu só não conseguia ver em que mundo paralelo um homem como Adrian Van Galagher
poderia ter sofrido tanto. Ele ficou viúvo? Sim, mas segundo ele mesmo, o casamento não era assim
tão feliz. Estava longe dos filhos? Por pouco tempo e ele sabia disso. Ele era jovem, influente, rico,
bonito, atraente, talentoso. Eu não conseguia encaixar Adrian no perfil de sofredor.

- Acho que a armadura já virou parte dele, sabe, como o Duende Verde*.

Alex riu alto.

- É uma ótima comparação. Temos que contar isso á ele algum dia.

Suspirei.

- Nem sei se vou querer falar com ele de novo, algum dia.

Alex deu um daqueles sorrisos de canto que enchiam o rosto de príncipe dele com um
charme irresistível.

- Vai sim. Eu sei disso, e você também.

Ele suspirou e acendeu um cigarro. Ele fez uma pausa, como se quisesse me contar algo
difícil. Encarou a estrada. Pensou.

- Collin não é filho de Adrian – ele disse de uma vez.

Encare-o sem entender. Ele deu uma baforada na fumaça e continuou.

- No Euromast, quando Alissa desejou sorte, era disso que ela falava. Você iria saber de qualquer
jeito, então não acho que seja um problema me adiantar. Só não diga á ele.

*Duende Verde – Álter ego psicótico de Norman Osborn. O Duende Verde original é a manifestação da insanidade gerada pela indução
de substâncias químicas (soro mutagênico) no cientista, dono da Oscorp. É um dos principais inimigos do Homem-Aranha e por
consequência um dos principais vilões do universo Marvel.
Oh meu Deus! – pensei. Mas não disse nada.

- O que houve? – perguntei.

- Você nem imagina?

Adrian não parecia o tipo de homem que seria traído. Eu não o trairia, pelo menos. Fiquei
em silencio, esperando que Alex continuasse.

- Bem é uma longa história – ele continuou e olhou no relógio – espero que não esteja com fome.

Sorri.

- Preciso perder três quilos.

- Estávamos na faculdade, quando nos conhecemos. Eu respondi á um anuncio e encontrei Adrian lá.
Não era um tempo fácil para ele. Adrian te contou que teve um irmão?

Neguei.

- Ele se chamava Lucian. Era quatro anos mais jovem que Adrian.

Senti meu coração apertar pela segunda vez no dia.

- O que houve?

- Um acidente. Adrian estava ensinando Lucian a pilotar um Jet Ski.

- Oh meu Deus! – eu disse tapando minha boca.

- Lucian caiu na água e foi atingido pelo Jet Ski. Não houve muito que Adrian pudesse fazer. Lucian
morreu na hora.

Eu queria chorar. Pisquei algumas vezes, tentando afastar a sensação.

- Eu não fazia ideia.

- E nunca dirá á ele que faz – Alex advertiu – Adrian odeia falar do passado. Continuando a historia
– ele disse – eu o conheci pouco depois disso, quando Adrian rompeu com o pai e decidiu viver por
conta própria. O juiz o culpou pela morte de Lucian. Por isso dividimos o apartamento. Foram
tempos difíceis para nós dois. Eu havia acabado de me mudar da Bélgica.

Eu o encarei sem entender.

- Ok Srta. Soares. Pronto. Já sabe um segredo meu. Eu não sou holandês – ele disse e sorriu – pelo
menos não sou de sangue puro. Azul, como o Sr. Galagher. Mas minhas histórias ficam para outra
ocasião. O fato é que Patrícia apareceu mais ou menos nessa época. Ela era perfeita. Ou nós
achávamos que era – ele fez uma pausa e suspirou – ela sabia que Adrian era filho do Juiz Reign. Era
uma garota esperta. Ela esperava que com a gravidez Adrian acabasse reatando com o pai, mas isso
não aconteceu, então o dinheiro começou a demorar mais do que ela esperava para chegar. Sabe
Laura, o dinheiro determina muitas coisas na vida de uma pessoa.

Baixei os olhos para o chão – eu sabia. Eu era a garota que havia sido paga para não existir.

- A mãe de Adrian morreu alguns meses antes de John nascer, o que tornou a reaproximação com o
juiz ainda mais difícil. Adrian lutou muito para se reestabelecer. Apostou em sua capacidade e usou
todo o dinheiro da herança da mãe para começar seu pequeno império. Quando Hanna nasceu ele já
era dono de metade Roterdã.

- Imagino que a esposa estava feliz, então – conclui.

- Ela estava, mas Adrian não. Começou a sair. Jogar. Beber. Não existia fim para Adrian Van
Galagher. “O céu é o limite” – ele dizia.

- E então ela o traiu – eu disse por fim.

- Eu não a culpo – Alex continuou – Ou pelo menos não a culpo tanto. Não era fácil estar ao lado
dele. Principalmente com duas crianças. Ela se deixou levar. Apaixonou-se por um oportunista.
Quando Adrian soube da traição, prometeu que não tiraria as crianças dela, se ela não levasse nada
do patrimônio. Ela concordou, mas o namorado não. Ele a deixou. Meses depois ela descobriu que
estava grávida de Collin.

- Oh – eu disse.

- Mas ela só descobriu a gravidez porque sentiu-se mal e foi á um hospital. Patrícia morreu com um
tumor no cérebro antes de Collin completar um ano. Adrian esteve ao lado dela todo o tempo. Não
pôde abandoná-la. Por mais que não houvesse relação alguma, ele sentia-se culpado. Ele ama Collin,
Laura.

Agora eu estava chorando. Não podia mais conter. Na verdade o que eu precisava conter era
a vontade de voltar correndo ao escritório e me pendurar no pescoço de Adrian.

- Ele realmente ama Collin. Adrian tem um grande coração. Só aprendeu a esconder isso das
pessoas.

***

Sentei em minha cadeira, girei-a de frente para a parede de vidro – No que eu estava
pensando? Não existia mais lugar em minha vida para o velho Adrian. Ele estava morto. Foi
morrendo aos pouco.

A porta se abriu de uma vez.


- Você é um idiota – eu ouvi Alex dizer – e pode me demitir se quiser. Eu não me importo – virei à
cadeira para ele e o encarei sem humor – você precisa ouvir umas verdades de vez em quando Sr.
Galagher – ele disse debochando do meu nome.

- E imagino que você tenha vindo até aqui defender a pobre donzela em perigo – eu disse com uma
nota de sarcasmo em minha voz.

- Não seu imbecil arrogante – ele esbravejou – eu vim dizer á você que a garota está apaixonada por
você. E que, por mais que você odeie todas as mulheres do mundo, Laura não tem culpa das suas
merdas!

Pensei por um instante, ajeitando os óculos em meu rosto. Ela não estava. Não poderia. Eu
havia sido realmente um idiota arrogante com ela. Estava?

Respirei fundo, afastando as bobagens da minha mente.

- Como eu disse, Alex Persen sai em defesa de mais uma bela donzela em perigo – estreitei os olhos
para ele – como vai explicar essa sua paixonite por minha advogada á sua noiva?

- Não seja idiota! – não existe paixonite alguma.

Alex estava sem graça. Perdido. Ele não era bom em argumentar comigo. Ninguém era.
Comecei a estalar meus dedos, um por um, apertando os nós dos dedos com a mão oposta.

- Eu disse á você Adrian. Laura é uma garota doce – era quase uma suplica – não faça isso.

- Sim você já me disse. “Não envolva a pobre Laura em seu mundo destroçado” e todo esse blá, blá,
blá poético que você costuma usar. Você deveria mudar de profissão, Dr. Persen, e se tornar
psicólogo. Ganharia mais dinheiro do que eu.

- Você está errado – ele me disse – não pode agir como se todas as mulheres fossem Patrícia.

Golpe baixo. Do tipo que só ele conseguia me dar.

- Patrícia está morta Adrian. Você não.

Explodi.

- Exato. Patrícia está morta. Mamãe está morta. Lucian está morto. Eu destruo tudo ao meu redor, não
é? Destruo tudo que toco. Era o que você ia me dizer, Alexander? – provoquei – ou prefere me dizer
que sou um maldito pervertido, como meu pai sempre diz? Que sou promíscuo e que não mereço
meus filhos? Ou tem uma nova teoria para mim?

Alex me encarou por mais tempo do que eu queria. Seus olhos estudando os meus, buscando
por uma brecha para entrar e vasculhar meu coração. Protegi-me o máximo que pude.

Ele caminhou até a bandeja. Serviu duas doses de uísque. Trouxe até a mesa e empurrou em
minha direção.
- Á nos dois e nossas vidas de merda!

Sorri.

- Porque melhorar se podemos sempre piorar tudo.

Bebemos em silencio. Era um silencio confortável. O silencio de duas pessoas que já sabem
todas as respostas. Quando o uísque acabou, Alex se levantou.

- Só me prometa que desta vez você não vai jogar contra si mesmo.

Mantive meus olhos no liquido âmbar em meu copo.

- Dê a Laura o beneficio da duvida – ele fez uma pausa e soltou o ar dos pulmões de uma vez só –
acredite Adrian. Ela vale o risco.

Alex saiu e eu fiquei ali, sozinho em minha sala, vendo o sol se por no oeste, pensando em
tudo que havia acontecido em único dia com Laura. Eu soube que ela seria minha perdição no
instante em que a conheci, mas ela tinha me dado mais vida em alguns dias do que eu tive nos últimos
anos. Alexander Persen estava certo mais uma vez. Laura valia á pena.

Passei por Karol sem nem olhar. Não avisei aonde ia, não era necessário. Subi na moto e fui
deixando a cidade para trás. Meu coração estava pesado, tenso, mas ficou mais leve quando avistei a
placa “Amsterdam” em meu retrovisor.
Capítulo 8

Saí do chuveiro com um short jeans que um dia já tinha sido uma calça e uma camiseta
velha, da temporada passada do Feyenoord*. Cabelos presos em um coque bagunçado. Joguei-me no
sofá com o livro de direito internacional sobre a barriga. Peguei o celular e liguei para pedir um
sanduiche. Eu não estava com humor nem para colocar o nariz para fora de casa.

Fechei meus olhos, deixando o pensamento ir. Eu ainda estava furiosa com Adrian, mas a
fúria pouco á pouco, dava lugar á outras coisas. Eu bem sabia como era carregar esses demônios
dentro da gente. Não podia culpa-lo, mas não precisava aceita-lo também. Existia uma guerra interna
sendo travada pela boa Laura e a má Laura e, de certa maneira, as duas queriam Adrian por perto,
nem que fosse para chutar a bunda rica dele de vez em quando.

Minha mente vagou por corredores e mais corredores dentro de mim. Lugares que eu não
gostava de visitar. Coisas que eu não gostava de lembrar. Eu havia enterrado tudo tão profundamente
que nem sabia se tinha realmente lidado com o passado ou apenas escondido ele debaixo das
camadas da minha cebola interior. Suspirei fundo – eu não estava preparada para voltar ao Brasil.
Adrian havia me lembrado disso e eu queria socar ele por isso.

Quando a campainha soou, eu levei um susto tão grande que deixei o livro cair – e quase caí
junto – levantei e a campainha tocou novamente, insistente.

“Malditos entregadores!” – pensei e a campainha tocou novamente.

Eu queria xingar ele, mas sabia que este é um dos poucos lugares com entrega aqui no
Jordaan, então ajeitei o cabelo dentro do elástico novamente e gritei.

- Já vou! – no melhor e mais irritado português que podia, afinal ele não saberia mesmo o que eu
disse – vai tirar a mãe da forca?

Abri a porta colocando uma mecha de cabelo que insistia em cair atrás da orelha e quase
morri de ataque cardíaco – Não era o entregador de sanduiches.

Adrian estava lá. Cabelo levemente despenteado pelo capacete, vestido no seu terno de
sempre. Boca sem sorriso, olhar arrebatador, fazendo minha porta parecer pequena demais com seu
tamanho.

*Feyenoord de Roterdã – ou apenas Feyenoord é um clube de futebol neerlandês, com sede em Roterdã. É um dos principais clubes dos
Países Baixos.

Pisquei algumas vezes, usando a maçaneta da porta de escora – se eu a soltasse me


estabacaria no chão como uma jaca, daquelas grandes e gordas que caem das árvores no verão do
Brasil. Eu não podia acreditar que Adrian Van Galagher estava mesmo aqui, na minha porta, parado.

- Caso não tenha ficado claro ainda Srta. Soares – ele me disse. Os olhos divertidos e instigantes nos
meus – eu não falo português, o que significa que se quiser me xingar terá que fazer em neerlandês*,
ou inglês. Podemos tentar também em francês, caso a senhorita prefira. A senhorita fala francês, Srta.
Soares?

Ele era bom. Muito bom. Era inteligente e perspicaz. Eu gostava de gente assim. Gostava
das piadas sarcásticas de Adrian. Bem, eu gostava de Adrian. Gostava de praticamente tudo nele, até
o humor ácido, eu gostava. Quase sorri, mas não daria essa vantagem á ele.

- Não senhor, Sr. Galagher. Eu não tive oportunidade de aprender.

Era uma piada. O começo de uma piadinha manipuladora dele para me fazer cair em seu
jogo. O que ele ainda não sabia era que eu adorava ser desafiada. Finquei meus olhos nos dele,
esperando a próxima rodada.

- É uma pena. O francês é mesmo uma bela língua. Tem origem românica. Sabia Srta. Soares? – ele
me disse encarando uma pedaço de pele solto perto da unha – e cerca de cento e trinta e seis milhões
de pessoas em todo o mundo se comunicam assim – voltou á encarar meus olhos – Ainda que como
segunda língua.

Ele queria ganhar tempo. Não queria me dizer o que estava fazendo ali, parado na minha
porta. Queria que eu o ajudasse com seu pequeno passo em falso emocional, mas eu não estava
disposta a tornar as coisas fáceis para Adrian Van Galagher. Continuei.

- Espero que a fluência em francês não seja condição determinante para trabalhar com o senhor –
joguei – porque se for, imagino que o senhor terá que contratar uma dentre essas cento e trinta e seis
milhões.

Adrian quase sorriu, mas ele também não me daria essa vantagem. Seus olhos se estreitaram
e por um segundo, eu realmente achei que ele fosse dar um passo á frente e me beijar. Eu queria.
Sentia ainda a sensação da sua boca na minha, o gosto do seu beijo, e aquela proximidade toda não
me ajudava muito. O que nos salvou foi a buzina da bicicleta do entregador de lanches. Quando ela
soou próxima á motocicleta, Adrian deu um pulo e eu também, desconcertados, pegos com a “boca
na botija”, quase que literalmente.

*Neerlandês - A língua neerlandesa, conhecida também como língua holandesa, é uma língua indo-europeia do ramo ocidental da família
germânica, falada nos países baixos. É língua oficial da Holanda e uma das línguas oficiais da Bélgica, junto ao francês.

- Srta. Soares? – o rapaz perguntou.

- Sou eu – eu disse, pegando o dinheiro no bolso do short e entregando á ele.


Peguei meu embrulho e abri, espalhando o aroma de filé e queijo Gouda*

- Tudo certo? – o rapaz perguntou.

- Sim! Perfeito. Tenha uma boa noite – eu disse e ele sumiu pela rua com a sua bicicleta.

Eu estava parada na porta, e Adrian encarando meu pacote de sanduiche como se ele fosse
algum tipo de criatura alienígena que pudesse devora-lo.

- Algo contra sanduiches? – perguntei por que não pude manter minha boca fechada.

- Não especificamente – ele respondeu – desde que eu saiba a procedência e ele venha armazenado
da maneira correta. Além disso, pela quantidade de gordura que manchou a embalagem de papel,
devo presumir que você pretenda ter um acidente coronário antes dos trinta anos.

Sorri – esse era Adrian sendo gentil e divertido, era raro, então eu precisava aproveitar.

- Caso queira entrar e tomar parte nesse meu experimento alimentício – eu disse e me virei.

Ele bufou. Foi uma bufada suave, quase imperceptível. Adrian odiava ser contrariado e
questionado e principalmente não ser o centro do mundo, o que, aliás, era um problema existencial de
noventa e nove por cento das pessoas que combinam beleza e dinheiro.

Passei pela sala sacudindo suavemente meu pequeno saco sujo de gordura. Eu não tinha que
agradar Adrian Van Galagher! Tinha? Bem, ele estava aqui, não estava? Na minha porta? Então,
eu podia agir como Laura e não como Srta. Soares.

Escutei os passos medidos de Adrian e logo depois o baque da porta contra o batente. Ele
estava dentro – meu coração avisou. Dentro do meu pequeno apartamento. Sozinho comigo – de
repente todo aquele filé e queijo amarelo não pareciam mais tão saborosos. Eu sentia meu coração
bater nas orelhas.

Adrian parou. Braços cruzados sobre meu balcão. Olhos estreitos.

*Gouda – É um queijo amarelo feito de leite de vaca. Recebe o nome da cidade de Gouda, nos Países Baixos.

Abri o pacote, tirei o sanduiche e o coloquei sobre um prato. Peguei uma cerveja e abri,
tomando uma golada, direto da garrafa – eu estava nervosa e gente nervosa fica meio idiota. Ele
estava ali, em silencio. E eu não conseguia parar de comer e beber, entupindo minha boca com
alguma coisa antes que não resistisse e me atirasse sobre Adrian.

- Laura – ele começou e eu quase engasguei com um pedaço de sanduiche – eu vim me desculpar.
Oh Deus! Oh Deus! Ele pode ficar ainda mais maravilhoso?

Meu coração parecia parado, esperando a próxima frase, o sanduiche meio mastigado em
minha boca.

Adrian caminhou até mim, tirou a cerveja da minha mão e bebeu um gole. Engoli o
sanduiche tão rápido que senti minha garganta queimar. Ele tirou o prato de sanduiche também.
Segurou minhas mãos. Seus olhos correndo sobre mim, me fazendo amaldiçoar a ideia de colocar
mais uma roupa velha – eu precisava renovar meu guarda roupas de ficar em casa, urgente!

- Pode me perdoar, Laura? – ele disse.

Eu quase gritei que sim! Que eu perdoava qualquer coisa, desde que ele continuasse ali, com
aqueles lindos olhos amendoados parados nos meus, mas me contive.

- Eu fui impulsivo.

E quando você não é? – pensei.

- Estava irritado.

Novidade! – pensei.

- Não sou bom em lidar com coisas que me contrariam.

Ok! Agora conte outra – pensei.

- Geralmente não me importo com o que os outros pensam á respeito de mim – ele continuou – mas
com você é diferente.

Opa! Isso sim é novidade! – meu coração martelando tão alto que eu podia sentir o sangue
sendo bombeando em minhas têmporas.

- Espero não ter estragado tudo – ele continuou e eu já estava quase me jogando em seus braços – nós
ainda temos algum tempo trabalhando juntos. Não quero uma situação constrangedora.

Pronto! Agora todo o meu sangue latino estava agitando, gritando, pulando e se sacodindo
dentro das veias. Eu queria matar Adrian Van Galagher, e queria mata-lo bem devagar, talvez
asfixiado com o saco engordurado do meu sanduiche.

Maldito pirata arrogante!

Soltei minhas mãos e caminhei até a porta. Abri, tamborilando meu pé descalço no ladrilho,
rosto quente de tanta raiva.

- Se foi por isso que se abalou de Roterdã até aqui, Sr. Galagher, perdeu sua viagem. Não costumo
misturar assuntos particulares com profissionais e não costumo receber clientes em meu apartamento.
Se me der licença.
Eu estava lá, parada, esperando que ele passasse por mim como uma flecha, subisse na
maldita moto e fosse para qualquer maldito lugar onde os sanduiches não tinham gordura e as garotas
não eram idiotas, mas ele não foi. Cruzou minha sala em alguns poucos passos e colocou a mão sobre
a minha, na folha da porta.

Adrian não disse nada. Nem eu. Havia algo queimando, escuro e profundo em seus olhos. Eu
não sabia o que era, mas morria de vontade de descobrir.

Ele fechou a porta com um único toque, desequilibrando-me. Dei um passo para frente e me
choquei nele. Ele não me deu tempo. Passou o braço por baixo dos meus e me impulsionou com tanta
força até sua boca que foi quase doloroso. Quase. Eu não tinha do que me queixar.

- Você será minha ruina, Srta. Soares – ele gemeu contra o meu pescoço, mordiscando minha orelha.

Eu não tinha condições físicas e nem psicológicas para responder o que quer que fosse.
Sentia que todo o meu interior tinha sido liquidificado em algo quente e espesso. Eu nem conseguia
parar sobre meus próprios pés.

Adrian escorregou a mãos pelo meu short, apertando a carne descoberta da minha bunda.
Suspendeu meu corpo para cima e eu enrolei minhas pernas em sua cintura. Ele segurava meu corpo
perto com uma mão e com a outra segurava meu queixo. Mordendo minha boca enquanto sugava
minha língua na sua.

Ele não perguntou onde era o meu quarto. Caminhou até o sofá e me desceu. Virou-me de
costas e me empurrou contra o assento. Joelhos no assento, braços sobre o encosto, lá estava eu, de
costas para ele. Ele abaixou minhas costas com a mão, deixando-me parcialmente de quatro. Encarei
a janela á minha frente, agradecendo mentalmente por ter uma cortina, ainda que fina, tapando
parcialmente o que fazíamos lá dentro.

Adrian segurou meu quadril, encostando seu corpo no meu, encaixando sua ereção contra
mim. Segurou meu cabelo em sua mão, exatamente como tinha me dito que faria, puxando minha
cabeça para trás, encaixando-se entre minhas pernas.

- Tão fodidamente linda – ele grunhiu – caso eu não tenha dito ainda, Srta. Soares, eu não sou nada
bom em manter o controle.

Eu não me importava. Tudo que eu conseguia pensar era em como eu queria que ele tirasse
meu short e me deixasse sentir mais dele. Eu queria Adrian como nunca me lembrava de ter desejado
alguém.

- Não mantenha o controle, Sr. Galagher – eu disse entre gemidos.

Ele abriu o zíper do meu short, enfiando a mão por dentro da minha calcinha, me tocando
como no parque. Deus! Ele era bom nisso.

Adrian me tocava, enquanto apertava sua ereção dura contra mim. Eu podia sentir seu corpo
pulsar, enquanto deixava escapar gemidos contidos.
Ele tirou meu short e encarou minha calcinha da Betty Boop*. Aproximou o rosto da minha
orelha.

- O quanto você gosta dessa calcinha, Srta. Soares?

Pensei por um instante, amaldiçoando meu guarda roupas nada sexy de lingeries.

- Não gosto realmente – eu disse.

- ótimo.

E foi com um puxão certeiro na lateral que ele arrebentou minha pequena e ridícula calcinha
da Betty Boop. Não tive tempo de pensar muito á respeito. O pequeno pedaço de tecido vermelho
ficou ali, preso perto do meu joelho. Deixando-me completamente exposta.

Ouvi o som do zíper, tremendo de antecipação. Eu podia sentir o desejo latejando em mim.
Podia sentir o calor do corpo de Adrian contra o meu. Eu não conseguia organizar um único
pensamento em minha mente que não fosse sobre Adrian em mim.

***

Eu estava perdido. Sabia disso desde o momento em que subi naquela maldita moto que eu
estava. Na verdade, eu sabia desde o momento em que ela se chocou contra mim naquela maldita rua
que eu estava perdido. Eu não havia conseguido tirar Laura da minha mente um só momento depois
disso.
*Betty Boop - É uma personagem de desenho animado que apareceu nas séries de filmes Talkartoons e Betty Boop, produzida por Max
Fleischer e distribuídas pela Paramount Pictures em 1931.

Eu estava tentando alguma maneira menos idiota de dizer á ela que eu estava lá por ela. Que
eu a queria perto. A queria para mim. E então meu orgulho idiota não havia permitido. Eu quase
havia posto tudo á perder. Quase. Eu não perderia Laura. Não poderia. Resolvi arriscar. As palavras
de Alex martelando em minha mente.

Ele estava certo. Como sempre.

Minhas mãos passeavam pelas curvas do seu quadril, ali, pronta para mim. Por um momento
eu quis prolongar a espera. Quis aproveitar a ansiedade. Eu queria sentir Laura de todas as maneiras
que fossem possíveis. Queria guardar mais de Laura em minha mente. Em minha memória.

Corri os olhos em seu corpo, debruçado sobre o sofá – eu não tinha ideia do que estava
fazendo, mas eu saia que não queria parar. Minha razão e minha emoção brigavam como loucas
dentro de mim. Eu sabia que não era certo trazer Laura para a minha vida complicada, mas eu sabia
que poderia protegê-la. Não poderia? Mas e então, quem protegeria Laura de mim?
Respirei fundo. Afastando a razão, sentindo o perfume dela se dissipar, sentindo o calor da
pele dela contra minhas mãos. Eu precisava de Laura, como eu precisava de ar.

Baixei minha boxer o suficiente para que eu pudesse encaixar meu corpo no dela, sentindo
minha ereção pulsar contra a sua carne macia. Laura arqueou o corpo, oferecendo-se para mim,
pedindo, gemendo. Eu não podia mais esperar. Segurei seu quadril e empurrei contra ela, de uma vez,
sentindo minha carne abrir espaço em seu interior apertado. Laura gemeu mais alto.

- Adrian devagar – ela balbuciou, contraindo o corpo.

Enfiei minhas mãos por baixo da camiseta, sentindo seus seios contra a renda do sultien.
Apertando em minha palma. Beijando sua têmpora. Seu pescoço. Mordiscando sua orelha.

- Anjo eu disse que nós teríamos um problema – constatei – você precisa relaxar. Assim Laura – eu
disse aumentando os movimentos – relaxa para mim.

Baixei minha mão até seu umbigo, desci até a virilha, traçando círculos entre suas pernas,
sentindo-a relaxar. Afastei-me o suficiente para que pudesse sentir minha carne penetrando-a de
novo, enviando ondas elétricas em meu corpo, tirando minha razão.

Laura não protestou mais. Suas mãos relaxando sobre o encosto do sofá. Suas pernas
afastando-se mais, abrindo caminho para o meu corpo.

Segurei seu rosto e puxei sua boca para a minha, enquanto meu corpo continuava em
movimentos ritmados, arrancando gemidos dela.

- Melhor assim? – eu grunhi puxando seu lábio inferior entre os meus.

- Muito, muito melhor.

Ela arqueou mais as costas, elevando o quadril, permitindo que eu estivesse mais fundo,
mais forte. Minha ruína. Ela era a minha ruína.

- Anjo se você continuar fazendo isso eu não vou aguentar – confessei.

Ela me beijou. Mais forte. Mais intenso. Enfiando a língua em minha boca, arrancando o
pouco de sanidade que tinha restado.

- E se você continuar fazendo assim, Sr. Galagher – ela disse enfatizando meu sobrenome – não vai
precisar aguentar muito.

Não resisti. Aprofundei nosso beijo, mais e mais, até que eu podia sentir um leve gosto
metálico ali, em seus lábios. Meu corpo contra o dela. Mais forte. Mais fundo. Mais. Mais. Não
havia o suficiente de Laura para mim. Nunca haveria.

- Adrian – ela gemeu contra minha boca – acho que – ela parou e gemeu mais forte.

Eu sabia. Eu podia sentir seu corpo mais úmido, relaxado, quente, mas eu queria provoca-la.
- Acha que o quê, Laura? – provoquei.

- Hum – ela gemeu.

- Eu trabalho com certezas, Srta. Soares – eu disse, encaixando meu corpo no dela, apertando sua
carne – Acha, ou tem certeza?

Ela sorriu e eu pude sentir pequenos espasmos espalhando-se por meu corpo. Segurei a
respiração – eu estava no controle. Não estava?

- O que você quer que eu diga, Adrian? – ela me perguntou, a voz derramando-se de prazer – que
você vai me fazer gozar? Que é o melhor? Que fode muito bem?

Sorri contra sua boca.

- Seria um bom começo.

- Ah Adrian – ela disse e parou, perdendo o controle – você é incrível. Incrível.

Minhas mãos apertaram suas coxas, perto da virilha, segurando o corpo dela o mais firme
que eu podia. Eu queria estar completamente dentro dela quando fosse gozar. Queria que Laura fosse
completamente minha. Deixei meu corpo ir, embalado pelos espasmos do corpo de Laura. Pequenos
movimentos que foram se intensificando, levando-me com ela.

- Não Laura – eu sussurrei, porque sabia que ela não iria me ouvir – você é quem é.

Deitei no sofá e ela deitou-se contra mim. O corpo cansado, entregue, pesando sobre o meu.
Alisei seus cabelos com os meus dedos, sentindo sua respiração contra a pele do meu peito. Eu não
tinha nada para dizer. Nada do que eu dissesse chegaria perto do que eu sentia e eu não era muito
bom em expressar o que eu sentia. Laura não parecia querer falar também, quieta, calada. Eu só
soube que não dormia porque podia sentir seus cílios batendo contra minha camisa. Sorri.

- Nunca pensei que algum dia eu fosse foder encarando o brasão do Feyenord – constatei. Eu
precisava quebrar aquela onda sentimentalista que estava me afogando.

Laura sorriu também, como se precisasse do mesmo. Ergueu o corpo, sentando-se sobre o
meu quadril, sem nada além da camiseta cobrindo sua pele. Prendeu os cabelos no elástico
novamente, botou as mãos na cintura.

- Espero que você não torça pro Ajax*.

Eu a segurei. Passei a língua pelo lábio inferior, consciente da garota incrível sobre mim.

- Se você continuar aí, Srta. Soares, eu vou fazê-la tremer mais que o Kuip** em dia de final.

- Isso seria muito – ela disse e me beijou – muito interessante mesmo, Sr. Galagher. Mas antes eu
preciso terminar aquele sanduiche antes que morra de inanição depois de tanto exercício.

Ela se levantou e vestiu o short. Fechei minha calça, deixando a camisa por fora. Ela estava
lá, sentada sobre o balcão da pia, comendo aquele pedaço estranho de pão meio murcho, meio
encharcado de gordura e todo lambuzado de queijo.

Adrian, Adrian, você está ficando velho! Houve um tempo em que você comeria isso e
acharia bom – pensei – mas também houve um tempo em que eu Punk Rock*** e achava bom e não
tinha saudades dessa época.

Ela deu uma golada na cerveja, já quente, e sorriu, com a boca cheia de sanduiche.

*Ajax – Também conhecido como Ajax Amsterdã, é um clube de futebol neerlandês, da cidade de Amsterdã e rival do Feyenoord.

**Kuip – ou Feyenoord Stadion é um estádio localizado em Roterdã, Países Baixos. É a casa da equipa de futebol do Feyenoord. De
Kuip é considerado o melhor e mais bonito estádio da Holanda.

***Punk Rock - é um movimento musical e cultural que surgiu em meados da década de 1970 e que tem como características principais
músicas rápidas e ruidosas, com canções que abordem ideias políticas anarquistas, niilistas e revolucionárias.

- Comendo desse jeito você vai acabar sendo a heroína do meu filho – eu disse puxando um
abanqueta e me sentando – Acredite, ele acha que isso é o máximo e que eu não entendo nada de
iguarias culinárias da moda.

- Nem todo mundo pode se dar ao luxo de comer carré de cordeiro todos os dias, Sr. Galagher – ela
disse provocativa.

- Então você acha que eu sou um esnobe comedor de carneiro – respondi fingindo-me de ofendido.

- Acho que você reveza entre vitelo e faisão, de vez em quando – ela continuou fingindo seriedade.

- Pois você está enganada, Srta. Soares. Eu posso comer esse sanduiche horroroso se for preciso.

Ela empurrou o que restou do sanduiche em minha direção. Um brilho divertido em seus
olhos. Empurrei de volta.

- Se for preciso, anjo – eu disse – e não é.


Capítulo 9

Acordei atrasada – o que estava mais rotineiro do que eu julgava bom para minha reputação.
Corpo cansado, dolorido, marcado. Estiquei os braços para cima e me alonguei. Sorri.

Laura, Laura, então você realmente fez isso – eu disse mentalmente – sexo selvagem, no
sofá, com seu cliente. O que o pobre Hans diria disso? – Sorri novamente.

Pulei da cama assim que tocaram minha campainha. Vesti um roupão e corri para a porta.

- Srta. Soares – o motorista me cumprimentou. Correu os olhos por mim e sorriu sem jeito – não se
preocupe. Leve o tempo que precisar. Sr. Galagher deixou-me á sua disposição esta manhã.

Sorri de volta, alisando a bagunça que era o meu cabelo dentro do elástico e coçando os
olhos. Bocejei – pobre homem! Ficaria traumatizado em me ver de manhã!

- Hum. Obrigado – eu disse meio sem jeito – quer entrar? Eu prometo que não sou dessas que
demoram a vida toda para escolher uma roupa – brinquei.

Harold sorriu.

- Certamente que não senhorita, mas não se preocupe comigo. Como eu disse, leve o tempo que
precisar.

Entrei. Liguei o chuveiro enquanto me livrava da camiseta do Feyenoord. Segurei-a junto ao


meu nariz, inspirando o perfume de Adrian dela. Eu queria tanto vê-lo novamente. Queria olhar para
ele e ter certeza de que não tinha sido um sonho.

Saí do chuveiro e escovei o dente. Deixei meu cabelo solto. Coloquei um vestido azul
marinho ajustado de mangas curtas. Já estávamos na primavera. E eu me sentia assim, florida, viva,
feliz.

Suspirei fundo, sentindo o medo se espalhar – felicidade não costumava ser uma coisa
constante na minha vida. Em geral, ela vinha acompanhada de coisas muito, muito ruins. Passei o
batom vermelho e mandei um beijinho para o espelho, afastando os pensamentos ruins.

Saí vinte minutos depois. Harold estava encostado na lateral do Mercedes, olhos fechados,
braços cruzados sobre o peito. Limpei a garganta para chamar sua atenção.

Ele sorriu. Abriu a porta de trás para mim e eu me sentei – eu poderia me acostumar com
isso!

Chegamos á Roterdã algum tempo depois.

Desci do carro, e assim que passei pela recepção, dei de cara com Alex.

- Laura! – ele disse abrindo os braços para mim – está linda, como sempre, mas seu sorriso parece
melhor. Espero que divida comigo essa felicidade toda!

Sorri mais e revirei os olhos – não, eu não poderia.

- Efeito primavera – eu disse – sabe como é, garota tropical, primavera – movi meus dedos, fazendo
a ligação.

Alex sorriu também.

- Entendo. Entendo – ele disse debochando de mim.

Alex me abraçou, beijando meu rosto suavemente e eu retribui.

- Ah e só para que saiba – ele me disse voltando para sua sala – nosso amado chefinho está com o
humor interessantíssimo hoje.

Devo ter corado sem querer, porque minhas bochechas queimaram no mesmo instante.

- Deve ser esse “Efeito primavera” – ele disse imitando as aspas com os dedos – pelo jeito não são
apenas as garotas tropicais que são atingidas.

Peguei o elevador sorrindo. Cheguei ao andar de Adrian e me recompus, esperando encontrar


Karol. Ela não estava na recepção. A porta estava entreaberta, então entrei.

Senti meu sorriso murchar no mesmo instante – Adrian estava lá, encostado na mesa. Suas
mãos sobre a barriga de Alissa – Deus eu podia odiar mais essa garota? Podia!

Alissa sorria, fazendo beicinho para Adrian.

- Louise está voluntariosa hoje, Adrian. Não quer se mexer.

Estreitei meus olhos – Louise eu não sei, mas eu queria. Queria me mexer e queria mexer
especificamente a minha mão na cara dela.

Adrian me viu no instante seguinte. As mãos escorregando desajeitadas da barriga de Alissa.


Ele parecia sem jeito.

- Me perdoe Sr. Galagher, eu não achei que estivesse com alguém.

Virei ás costas para sair, porque se eu ficasse ali não iria me controlar o suficiente.

- Não se preocupe – a voz enjoada de Alissa me fez parar – eu não pensava em demorar. Estava
apenas esperando meu noivo fujão.

Se eu fosse ele, fugiria também – pensei.

- Acredita que ele marcou comigo aqui para almoçar e saiu? – ela continuou, numa tentativa frustrada
de me fazer sorri. Não conseguiu – então eu decidi fazer uma horinha aqui com Adrian.
Eu queria vomitar. Todo o meu pão com filé da noite anterior se agitava aqui dentro.

Sorri sem vontade, estreitando meus olhos para ela perceber que era forçado.

- Imagino que esteja ansiosa por encontra-lo – eu fiz uma pausa e encarei Adrian – Sabe o que é
estranho? Acabei de encontrar Alex á caminho da sala dele.

Adrian pigarreou. Alisou o cabelo com as mãos. Encarando-me.

- Ele deve ter acabado de chegar – Adrian justificou.

- Ah sim, provavelmente – Alissa completou – Adrian querido, me acompanha até lá?

Eu estava ali, parada, analisando em quantos artigos do código penal eu poderia ser
enquadrada, caso jogasse Alissa pela janela. O mesmo sorriso forçado curvando dolorosamente
minha boca.

- Claro – ele disse depois de me encarar novamente.

Alissa pendurou-se em seu braço. Ele não se negou, mas não parecia a pessoa mais
satisfeita do mundo. E ela parecia não se importar. Ela parou assim que chegou até mim, tocando meu
braço nu com a sua mão fria. Eu quase recuei, mas me mantive firme.

- Não se importa se eu roubar Adrian um minutinho, não é Laura?

Alarguei meu sorriso falso, tocando a mão dela com a minha, desejando ter algum poder
como o da Vampira, dos Ex Mens.

- O Sr. Galagher não me deve nenhum tipo de satisfação, Alissa, não se preocupe – eu disse
encarando mais ele, do que ela – além disso, eu realmente tenho trabalho á minha espera.

Puxei a cadeira, sentei, analisei a mesa que Adrian havia indicado como minha outro dia –
meu dia havia passado de ótimo a terrível em uma fração de segundos, mas eu não permitiria que
Alissa, a madrasta má, me pegasse em sua teiazinha de manipulações. Eu era maior que isso. Não
era?

Alguns minutos mais tarde a porta se abriu. Adrian entrou sem me olhar, uma onda pesada e
estranha de energia ondulando entre nós.

- Alex havia saído para resolver um problema no fórum para a empresa – ele disse sem que eu
perguntasse nada.

- Ok – limitei-me a dizer, analisando a tela do notebook.

- Eu e Alissa nos conhecemos desde a adolescência – ele continuou.

Alissa. Alissa. Alissa – era tudo que minha mente conseguia processar. Eu não estava
pensando claramente, então não queria continuar com o assunto.
- Ok – disse novamente.

Ele tirou o óculos e o colocou sobre a mesa. Esfregou o rosto com as mãos.

- Vai me dizer algo além de “Ok”?

- Meu passaporte não estará pronto até a semana que vem, então imagino que o senhor terá que ir ao
Brasil sem mim – eu disse erguendo os olhos por trás do monitor.

Ele não podia reclamar, era algo além de “Ok”.

- O que você espera Laura? – ele disse irritado – eu disse! Conheço Alissa á muito tempo. O que
acha que eu deveria ter feito?

Analisei a situação por um instante – ele estava irritado. Se ele estava irritado, significava
que minha raiva o incomodava e se minha raiva o incomodava – não pude concluir.

- Espera que eu mude tudo em minha vida porque nós dois fizemos sexo?

Soco no estomago. Direto. Em cheio. Bem na boca do meu estomago.

Levantei. Bati a mão na mesa, mais forte do que gostaria.

- Não senhor, Sr. Galagher. Se existe algo que eu aprendi foi a não esperar o que quer que seja de
pessoa alguma – eu estava irritada. O sangue pulsando em minhas têmporas novamente, o que
significava que eu não estava falando exatamente baixo.

- Você está sendo infantil! – ele pontuou.

- E você está sendo o mesmo babaca arrogante de sempre. Ah não, espera, você nunca deixa de ser!

Ótimo! Agora estávamos os dois gritando. Pronto! Tudo certo agora.

- Vê Laura? – ele me perguntou – é isso que acontece quando as pessoas não se controlam! É por isso
que eu disse que precisávamos manter o foco do nosso relacionamento em nosso trabalho juntos.

Outro soco, na boca dessa vez. Eu podia sentir o sangue imaginário escorrendo. Eu queria
revidar. Queria fazer Adrian sofrer.

- Até onde eu me lembro Sr. Galagher, eu não fui até sua casa ontem á noite.

Wow! Ponto para mim! – ele estava ali, parado, analisando o que responder. Seus olhos se
estreitaram de um jeito triste. Ele virou-se para a janela e eu comecei a sentir que meu golpe tinha
atingido tanto ele quanto á mim. Doía.

- Você tem razão – ele começou.

Oh meu Deus! Eu odeio ter razão! – Geralmente quando eu tenho razão eu acabo mais
infeliz do que se não tivesse.
- Eu não deveria ter ido até lá. E mesmo que fosse, eu deveria ter mantido o controle – ele se virou
devagar, mas seus olhos estavam baixos, não estavam nos meus – Eu fui impulsivo e fui leviano. Eu
não deveria tê-la tratado daquela maneira – não era exatamente esse o problema, mas deixei que ele
continuasse – Quero que saiba que eu não costumo agir assim Laura. Pode ficar tranquila. Eu não
costumo me envolver com ninguém sem proteção.

Engoli em seco, sentindo a realidade bater contra mim como um saco, cheio de chumbo –
não era de nós que ele falava, era do sexo. Puro e simples. Sexo.

- Também não faço isso, Adrian. Não se preocupe – respondi tentando parecer o menos afetada
possível.

Tirei meus óculos e pisquei algumas vezes, tentando afastar a sensação ruim, puxando as
lagrimas para dentro com meu nariz.

- Imagino que você tome pílula anticoncepcional – ele perguntou sem me encarar.

Soltei o ar dos pulmões em uma baforada só.

- Como eu disse Sr. Galagher, não tem com que se preocupar.

Cocei meu braço. Meu queixo. Minha nuca. Esse era um assunto desconfortável que
certamente nos levaria a lugares que eu não queria ir. Eu queria correr. Queria passar pela porta e
correr de volta para a minha casa o mais rápido que eu pudesse. Eu queria me enfiar debaixo do meu
edredom e fechar os olhos e fingir que estava tudo bem, mas meus pés pareciam feitos de cimento.

Ele caminhou mais para perto de mim. Parou em frente á mesa. Olhos buscando os meus.
Adrian também não era a pessoa mais confortável do mundo.

- Laura. Eu espero que você entenda que eu não pretendo ter mais filhos. Eu já tenho problemas
demais. Não preciso meter outra criança no meio disso tudo.

Eu simplesmente não podia responder. Minha mandíbula parecia travada. Minhas mãos tão
apertadas que os nós dos dedos estavam brancos. Eu nunca mais havia falado sobre isso. Eu não
havia contado á ninguém. Ninguém além de Hans sabia do passado. Adrian continuou.

- Se você quiser. Eu posso providenciar uma pílula emergencial. Dessa maneira nós ficaríamos mais
tranquilos.

Eu sentia que meu corpo não era mais meu. Perdido nas memorias do passado, voando para
longe. Eu não sentia nada até que Adrian me tocou. Ele segurou minhas mãos cerradas em punho entre
as dele.

- Laura? – ele chamou, mas eu não estava mais lá – Laura?

E então meus pés não eram mais de cimento e eu corri. Puxei minhas mãos do seu toque e
corri. Eu não olhei para trás, não me importei. Eu apenas ouvi os gritos de Adrian ficando mais e
mais fracos enquanto eu descia pelas escadas de emergência.

***

Eu estava ali, parado, gritando o nome dela, enquanto ela se afastava cada vez mais. Levei
um segundo para perceber que algo não estava certo. Laura não era assim. Ela não era do tipo que
corre das situações. Havia algo de errado com ela. Algo do que eu disse a havia magoado. Não
pensei mais. Eu apenas senti. Senti que precisava fazer algo. Laura havia levado uma parte do meu
coração com ela, despedaçado e culpado.

Passei pela porta e apertei o botão do elevador sem parar.

- Merda – xinguei.

- A Srta. Soares desceu pela escada, Sr. Galagher – Karol me disse.

Não respondi. Eu apenas corri pelas escadas amaldiçoando meu terno justo de corte italiano
– eu poderia correr muito mais rápido de jeans e tênis.

Fui segurando no corrimão e impulsionando meu corpo para baixo por mais de um degrau de
cada vez, na esperança de encontra-la ainda dentro do prédio, mas não encontrei.

Deus essa garota teria que me dizer como corria tão rápido assim de saltos!

E então eu descobri como. Seus sapatos estavam ali, entre o sexto e o sétimo andar,
provavelmente porque ela queria ser mais rápida do que eu. Peguei os sapatos na mão continuei.

Saí do prédio para o Kaappark*, procurando entre as pessoas por ela. Ela estava lá, á beira
da costeira, do outro lado do parque. De costas para mim. Os pés descalços no chão. Os cabelos
chicoteando com o vento frio do mar. Abraçando os próprios ombros. Eu não sabia se era de frio,
mas eu sabia que queria estar lá. Abraça-la. Protege-la. Corri até ela.

- Até onde eu me lembro, Cinderela só deixou um sapatinho – eu disse, na tentativa de que ela
pudesse me perdoar.

Ela não se virou, mas deixou os braços caírem um pouco mais, soltando os ombros, abrindo
a guarda.
- Talvez porque Cinderela tivesse uma carruagem á sua espera – ela disse e eu sorri.

Tirei meu blazer e o coloquei sobre os ombros dela, puxando seu corpo para o meu,
sentindo suas costas contra o meu peito, deixando meu rosto na curva do seu pescoço.

- Você quer uma carruagem, baby? – eu sussurrei – eu consigo uma para você.

Ela não respondeu, mas eu senti seu corpo um pouco mais relaxado. Apertei-a mais forte e
então eu senti a gota quente cair dos seus olhos contra a minha mão.

Virei-a de frente para mim. Seu rosto era triste, perdido. Não era minha Laura cheia de vida
e impulsiva. Ela estava quebrada, debruçada sobre mim, completamente vulnerável.

Senti uma onda de desespero tomar conta de mim. Eu não era bom em lidar com o sofrimento
das pessoas que amava. Eu sabia lidar com o meu sofrimento, mas com o sofrimento dos outros. Não,
eu não era.

Eu amava Laura? – o pensamento me golpeou e eu o afastei tão rápido quanto pude. Eu não
amava Laura. Era ridículo. Estava envolvido. Era isso.

Segurei seu rosto entre minhas mãos, limpando suas lagrimas com os meus polegares,
encarando os olhos castanhos dela ganharem um tom de caramelo com as luzes do sol – Deus eu
estava perdido.

- Ah baby, me diga como eu posso fazer você sorrir de novo? – eu perguntei desesperado por uma
resposta.

*Kaappark – Parque na cidade de Roterdã.

Os olhos dela se fecharam, deixando mais algumas lágrimas caírem.

- Você quer um bebê, Laura? – eu perguntei sem ter certeza se queria uma resposta.

- Quero – ela respondeu no mesmo instante.

- Baby, acredite isso é tão complicado – tentei justificar, mas ela me cortou.

- Mas eu não posso – ela completou e se jogou contra mim.

Eu podia sentir seu corpo tremendo, as lagrimas molhando minha camisa. Eu não sabia o que
dizer. Não sabia como dizer. Cenas dos meus filhos correndo perdidas em minha mente. Filhos. Era
isso. Ela não podia ter.

Meu coração estava apertado, dolorido, pequeno. Eu era estupido demais. Eu


provavelmente havia mexido em memorias ruins. Cego, certo de que o mundo girava em torno do meu
próprio umbigo.

- Desculpe anjo. Eu não fazia ideia.

- Eu fiz uma bobagem Adrian – ela choramingou – eu fui inconsequente. Eu – as palavras morriam
entre o choro.

Eu queria impedir que ela sofresse, mas eu sabia por experiência que pôr para fora era o
melhor tratamento. Deixei que ela continuasse.

- Eu era jovem e era estupida. Mas não pense que eu tirei! – ela se justificou – eu não faria isso. Eu
queria. Eu queria muito. Mas – ela deixou a cabeça cair contra mim novamente.

Eu a apertei entre os meus braços e beijei o topo da sua cabeça.

- Vem baby, vamos sair desse vento e então você me conta tudo que quiser, ok?

Ela assentiu.

- Vamos pegar o carro e vamos sair daqui. Eu vou cuidar de você.

Levei Laura comigo. Debaixo do meu braço. Protegida, como ela deveria estar. Abri a porta
do Porsche. E a coloquei ali. Girei a chave e saí.

Estávamos na estrada quando ela suspirou. Ajeitou o cabelo, secou os olhos e me encarou.

- Desculpe por isso. Eu realmente não queria – ela parou a frase sem saber como continuar – eu agi
como uma criança mimada. Você nunca poderia saber.

Coloquei minha mão sobre sua perna. Laura não era uma criança mimada. Eu era, na maioria
das vezes, ela não. Ela era forte e era decidida e doce e suave ao mesmo tempo. Ela sabia
reconhecer que estava errada e ela fazia isso parecer tão certo.

- Não baby. Você só deixou a emoção vencer. Isso não te faz fraca, te faz humana.

Ela abraçou meu braço, recostando o rosto sobre meu ombro.

- Para onde estamos indo Adrian?

- Eu vou cuidar de você.

Eu disse tateando seu rosto com a ponta dos meus dedos.

- Além disso – completei para quebrar o gelo – eu preciso me trocar. Com essa são três camisas que
a senhorita mancha com algum liquido estranho.
Ela sorriu e eu relaxei.

- Isso não é um liquido estranho, são lágrimas!

- Tanto pior – brinquei – além de sujo corro o risco de uma contaminação por material biológico.

- Bobo! – ela disse sorrindo.

Estacionei em frente á casa e desci. Abri a porta e estendi a mão. Laura correu os olhos pela
fachada da casa.

- Vem baby.

Entrei com ela e dispensei os empregados. Eu não queria ninguém em casa além de Laura e
eu. Queria que ela se sentisse á vontade.

Subi até o meu quarto, segurando-a pela mão. Acendi a lareira porque o vento frio do mar
esfriava um pouco o ar lá dentro.

Tirei minha gravata e abri os botões da camisa. Deixei-a sobre a poltrona. Fui até o
banheiro e deixei a banheira enchendo.

- Toma banho comigo? – eu sussurrei no ouvido dela.

Aproximei meu rosto do dela e a beijei. Suave, gentil. Eu queria sentir o sabor de Laura.
Aproveitar nosso tempo juntos e eu não tinha pressa para isso. Abri o zíper do seu vestido e o deixei
cair no piso. Livrei-me da minha calça e do seu sultien, sem cortar o contato das nossas bocas.
Apertei seu corpo contra o meu.

- Anjo – comecei – você pode ou não me contar o que você quiser. Quero que saiba que eu estou aqui
para ouvir você, mas que eu não me importo com o que quer que seja que tenha acontecido. Eu só me
importo com você agora. O que quer que seja que você tenha vivido contribuiu para que você se
tornasse essa mulher, e é isso que importa.

- Ah Adrian – ela disse e enlaçou as mãos em meu pescoço – não sei se estou preparada para um
príncipe encantado.

Eu sorri e mordi seu lábio, carregando ela até o banheiro.

- Melhor assim – constatei – não estou disposto á me tornar um á essa altura da vida.

Por mais que meu corpo estivesse excitado – e ele estava – eu não queria sexo. Eu queria
Laura. Entrei na banheira de boxer, sentei, e puxei Laura para o meu colo. Ela ficou ali, encostada no
meu corpo, costas contra meu peito, respirando devagar.

- Tudo aconteceu muito tempo atrás – ela começou e eu a apertei contra mim, passando os braços em
volta dela – eu tinha acabado de chegar á Holanda. Como eu disse, eu era jovem e idiota – ela
suspirou – eu o conheci em um bar. Ele era gentil e educado. Tinha aquele maldito sotaque britânico.
Bem, eu fiquei gravida.

Ela parou aí. Suspirando devagar, sem dizer mais nada. Eu não sabia mais se queria ouvir a
historia toda.

- Acho que não vou te surpreender se eu disser que ele era um idiota

- Todos nós fizemos besteira baby, você não é a primeira e não será a última – eu sorri um pouquinho
contra os seus cabelos.

- Até aí tudo bem, eu seria apenas mais uma garota burra que teve um filho com um idiota, mas não
foi só isso Adrian. Evan era violento. Eu achava que ele melhoraria com o tempo, mas as coisas não
foram bem assim. Eu estava grávida de pouco mais de quatro meses quando voltei para o
apartamento que morávamos mais cedo. Eu o peguei com uma garota lá.

Traição. Eu sabia o quanto doía. Eu sabia exatamente. Puxei seu cabelo de lado e beijei seu
rosto.

- Ah Laura, sinto muito.

- E foi aí que eu fui inconsequente. Deveria ter pensado no meu filho, mas eu não pensei. Fui para
cima dele. Eu bati nele, eu chutei, eu gritei e então ele me empurrou da escada.

Eu não sabia quem era Evan, mas se eu o encontrasse eu provavelmente o quebraria em


dois, com as minhas mãos.

- Baby eu nem podia imaginar.

- Acordei em um hospital. Meu bebê não estava mais lá. Eu havia sofrido um grave dano em um dos
ovários e ele foi retirado. Como resultado do procedimento, eu fiquei com uma cicatriz na parede do
meu útero. Ela torna uma futura gravidez praticamente nula. Os médicos não me deram esperanças.
Nem mesmo com um procedimento clínico.

Eu a virei para mim, de joelhos, entre as minhas pernas. Segurei seu rosto entre as minhas
mãos e beijei sua boca cuidadosamente.

- Laura você é tão incrível – eu disse por que era verdade – não deve se culpar. Foi uma fatalidade.
Acredite – eu disse e suspirei – eu entendo de fatalidades. E de culpa, principalmente.

Respirei profundamente, deixando meus próprios pesarem irem para longe.

- Se tiver algo que eu possa fazer – perguntei.

Ela me beijou, passando a língua pela minha, mordendo meu lábio. Ajeitou as pernas de
cada um dos lados da minha cintura. Eu a puxei para mim, mais forte, ajeitando seu corpo no meu. Eu
queria qualquer coisa que ela quisesse.

- Quer fazer algo por mim Adrian? – ela perguntou e eu assenti – então me faça esquecer.
Capítulo 10

Eram quase cinco da tarde, quando eu finalmente tomei consciência de que estava acordada,
olhos ainda fechados. Eu estava enrolada em lençóis macios de algodão egípcio. Caros, muito caros.
Virei de lado e gemi – Deus eles valiam cada centavo!

Espreguicei-me preguiçosamente. Tateei o espaço ao meu lado, em busca de Adrian, mas


ele não estava.

Abri os olhos e busquei por ele no quarto. A cortina estava fechada. A luz no quarto era
fraca e avermelhada com o por do sol. Adrian estava sentado em uma poltrona de couro ao lado da
lareira. Usava uma calça de elástico e nada mais. Seu peito nu mostrava todos os desenhos, toda a
sua masculinidade, integra, elegante e ao mesmo tempo perigosa, instigante. Parei meus olhos nele.
Analisando sua figura. Perna direita flexionada sobre a esquerda, cotovelos apoiados nos joelhos.
Mãos segurando o caderno de investimentos. Ele me encarava com uma estranha calma que não era
costumeira. Sorri.

- Hey – eu disse e sentei sobre a cama.

- Bom dia flor do dia – ele me disse com uma sombra de sorriso em seu olhar.

Levantei, enrolei-me no lençol e caminhei até ele. Tirei o jornal das suas mãos e os óculos
do seu rosto e os coloquei sobre a mesinha. Sentei em seu colo.

- Eu sempre digo isso á Hanna – ele me disse enquanto eu ajeitava meu rosto na curva do seu
pescoço.

- Bom dia flor do dia? – perguntei

- Sim – ele me respondeu – quando eu a acordava pela manhã.

- Você sente falta deles – constatei.

Ele pensou por um instante. Beijou minha testa.

- Desculpe. Eu não queria fazer você lembrar – eu o interrompi.

Beijei a linha de barba em seu rosto, desde a mandíbula até a boca. Parei ali. Beijei
novamente, prendendo seu lábio entre os meus. Sorri.

- Não fico triste quando você fala dos seus filhos. Na verdade crianças me deixam feliz, Adrian, não
o contrario. Eu seria uma pessoa péssima se me sentisse mal por saber que você ama os seus filhos.

Eu não estava mentindo. Crianças me deixavam feliz. Eu gostava de crianças e se eu nunca


pudesse ter as minhas, eu ainda seria feliz. Essa era a parte superada de tudo que aconteceu. Eu via a
relação de Adrian com os filhos por outro ângulo. Eu pensava no quanto queria ter meu pai ao meu
lado. Eu achava linda a maneira como ele parecia protetor e vulnerável ao mesmo tempo. Eu estava
ansiosa por conhecê-los.

Ele tocou meu rosto, encarando meus olhos sem dizer nada. Olhar sério, profundo, eu não
queria que ele dissesse nada, eu só queria que ele continuasse perdido em mim, fazendo-me sentir
aquela onda de calor se espalhando por dentro, como se meu coração estivesse estourando de tanta
felicidade.

Adrian desceu a mão pela curva da minha mandíbula, traçando o osso da minha clavícula,
parando com a mão em concha sobre os meus seios. Beijou-me profundamente, sua língua
enroscando-se na minha. Virou-me de frente para ele, nua, montada sobre sua cintura. Sua mão na
parte baixa da minha coluna, segurando-me firme. A outra, traçando círculos com os polegares sobre
os meus seios.

- Em geral, Laura – ele disse contra a minha boca – eu gosto das coisas um pouco mais duras.

Gemi, sentindo sua excitação aumentar, apertando-me contra ele.

- Mas você tem me feito mudar alguns conceitos – ele deslizou a mão das minhas costas para baixo e
apertou forte a carne da minha bunda – mas só alguns.

- Eu quero como você quiser – eu sussurrei acariciando a sua nuca.

Eu queria qualquer coisa que Adrian quisesse me dar. Queria me afogar nele, me jogar do
precipício e encarar a queda. Eu não me importava mais.

- Eu sou uma pessoa difícil, Laura – ele me disse.

- Pois é – eu disse – percebi alguns lampejos disso.

- Eu não sei até onde estou preparado para ir.

Pensei em tudo que Alex tinha me dito sobre o casamento de Adrian. Pensei na traição, na
doença da esposa. Eu tinha meus próprios problemas. Não sabia até onde estava preparada para ir
também. Suspirei fundo, sentindo como meu corpo se encaixava ao dele, tão fácil, tão certo, tão bom.

- Então não vamos traçar um caminho.

Desci minhas mãos por seu peito nu, sentindo o contorno dos músculos, ouvindo-o ofegar.
Baixei um pouco a sua calça e o encaixei para que pudesse me penetrar. Ele abaixou meu quadril de
uma vez, arrancando um gemido do fundo da minha garganta. Adrian gemeu também.

Cruzei minhas mãos atrás do seu pescoço, deixando que ele me apertasse contra ele, forte,
profundo. Eu podia sentir a ardência da pele dele roçando contra a minha, mas isso só me fazia
querer mais.

Adrian mordeu meu lábio e desceu pela minha mandíbula, até meu pescoço. Lambeu em
volta do meu mamilo e sugou para dentro, dando uma mordida suave.

- Deus Adrian – eu gemi contra sua orelha.

- O quê anjo? – ele provocou – gosta quando eu faço isso? – ele disse e mordeu novamente.

- Sim – gemi.

- E isso, você gosta? – ele disse colocando os pés sobre a mesinha, mudando o ângulo da penetração
e atingindo alguma parte muito, muito sensível dentro de mim, fazendo-me arquear de prazer.

Minha pele estava arrepiada, sensível, qualquer parte minha que Adrian tocasse agora,
qualquer sombra de toque, fazia-me gemer e me contorcer, buscando mais.

- Isso Laura! – ele me encorajou – se entregue para mim. Assim baby. Assim.

E então eu me acabei, explodindo em pequenos pedaços de êxtase sobre o corpo de Adrian,


ouvindo meus gemidos aumentarem de intensidade, sentindo o corpo dele pulsar dentro de mim.
Deus! Eu não fazia ideia de que sexo poderia ser isso. Juro!

Deixei minha cabeça cair contra o peito de Adrian, suada, ofegante, cansada. Suspirei.

- Preciso leva-la para a sua casa, Srta. Soares.

Senti meu coração murchar um pouquinho. Eu pensava, idiota como era, que poderia dormir
com ele. Fiquei em silencio, curtindo o que me restava do momento. Ele podia pelo menos, ter a
decência de esperar que eu me recuperasse!

- A senhorita precisa fazer sua mala. Nosso voo parte amanhã ao entardecer.

Estudei os olhos de Adrian sem entender.

- Voo? – confirmei.

- Sim. Para o Brasil. Lembra-se?

- Adrian – comecei – não sei se você ouviu mais cedo, quando eu te disse. Eu estou com problemas
com o meu passaporte.

Eu queria socar a minha própria cara burra por ter deixado o maldito passaporte vencer sem
me preocupar em renova-lo. Eu era idiota. Burra e idiota. E agora, eu pagaria o maldito preço.

- Sim, Srta. Soares, eu ouvi. Não sei se a senhorita se recorda, mas eu tenho em meu time um
excelente advogado. Muito competente o Dr. Persen.

Sorri. Minha boca se alargando sem que eu conseguisse impedir. Eu ainda não sabia se
queria ir ao Brasil, mas apenas o pensamento de estar sozinha com Adrian do outro lado do oceano
já me deixava excitada. Ele continuou.
- O Dr. Persen regularizou sua situação e providenciou toda a documentação necessária para que
possamos embarcar amanhã.

Adrian sorriu. Acariciou meu rosto. Beijou minha testa, e então o sorriso murchou em seu
rosto.

- Preciso que você esteja lá, Laura – ele me disse – você me faz ser mais – ele parou, provavelmente
procurando pela palavra certa. Eu podia pensar em maluco, ou mentalmente desequilibrado, mas
fiquei calada – flexível. Você me faz ser mais flexível e acredite, flexibilidade não é uma das minhas
qualidades.

Eu sorri. Saber que ele não só queria como achava precisar da minha presença deixava a
viagem bem mais interessante. Levantei e caminhei até o banheiro. Adrian veio logo em seguida.
Abriu a ducha e se livrou das calças de elástico. Deus ele era ainda melhor sem nada.

Só percebi que estava encarando, quando Adrian falou.

- Cada vez que você me olha assim, com essa ruguinha na testa, eu fico pensando se você gosta ou
não do que vê.

Sorri.

- Ah eu gosto – disse rápido demais e então corei de vergonha – quer dizer. Eu acho. Você. Bem.

Adrian me puxou para dentro do Box de vidro e me beijou.

Saí do banho e vesti minha roupa. Eu precisava mesmo ir para minha casa. Precisava pensar
no que fazer com Mia e arrumar as malas.

Adrian vestiu um jeans desgastado e uma camiseta preta. Calçou tênis e penteou o cabelo
para trás. Ele parecia tão jovem e relaxado daquele jeito. Eu gostava do poderoso Sr. Galagher, o
chefe durão e sexy, mas aquele Adrian á minha frente era mais real, mais sincero. Eu sentia que ele
era um pouco meu. Nem que fosse só um pouquinho e isso me deixava num misto de felicidade e
medo.

- Vamos? – ele me disse colocando uma jaqueta de couro por cima da camiseta.

***

Entramos no Porsche e eu peguei a estrada. Laura estava ao meu lado. Olhos fechados. Os
braços cruzados sobre o encosto do banco, pernas relaxadas. Eu gostava de vê-la assim. Ela me
inspirava a relaxar.

Ela abriu os olhos e encarou a estrada.


- Para onde estamos indo?

- Vou alimentar você anjo – eu disse – não quero que me acusem de mata-la de inanição depois de
tanto sexo.

Ela corou. E depois sorriu sem mostrar os dentes. Um leve sorriso sexy que fazia o espaço
em meu jeans diminuir consideravelmente.

Dirigi pela cidade. Eu sabia que Laura não fazia ideia de onde estávamos. Eu estava
procurando por um lugar especifico. Queria mostrar á ela que ela não fazia ideia de quem eu era. Que
o que ela achava que conhecia era apenas a ponta do iceberg.

Estacionei e desci. Laura ficou ali, tentando entender. Encarando a placa do “Fat Louie’s”.

- Vamos Srta. Soares? – eu disse abrindo a porta.

Ela me encarou. Pensou. E encarou o lugar mais uma vez.

- Sério?

Eu quase sorri, mas não faria isso. Mantive meus olhos fixos nos dela. Sobrancelhas baixas,
boca reta, lisa, sem expressão.

- Eu me lembro de ter sido acusado de ser esnobe e elitista – comecei – bem, decidi mostrar-lhe que
está errada. Não gosto que me definam com estereótipos fracos, Srta. Soares.

Ela sorriu, eu não. Puxei-a para fora do carro e a levei para dentro do lugar. Tudo
continuava como eu me lembrava. Faziam o quê? Vinte anos? Talvez mais. Mas o fato é que Loui
não tinha nem mesmo trocado os estofados das banquetas. Meu interior sorria, mas meu exterior
permanecia encarando a reação desconcertada de Laura.

Bati minha mão sobre a banqueta ao meu lado. Laura tentou sentar e se desequilibrou um
pouco, puxando o vestido para baixo para cobrir melhor as pernas.

- Eu quero dois completos, por favor – eu disse para a tendente.

O “Completo” consistia em um prato de papelão com um lanche feito com pão, uma salsicha
enrolada em bacon e frita, repolho em conserva e muito, muito queijo cheddar derretido, circundado
por uma porção generosa de batata frita engordurada e coberta por maionese caseira.

A garçonete colocou os pratos sobre o balcão.

- Duas cervejas, por favor – completei.

Laura encarou o prato por alguns instantes.

- E então você decidiu, que por minha definição fraca sobre você, eu deveria consumir toda a minha
cota de gordura da vida de uma única vez.
Peguei meu sanduiche e dei a primeira mordida, mastigando com a boca cheia. Bebi um gole
de cerveja para ajudar a descer, como tinha que ser.

- Vamos Srta. Soares mostre como as pessoas não elitistas comem cachorro quente – provoquei.

Ela estreitou os olhos para mim. Pegou o lanche na mão e deu uma bela mordida, deixando o
queijo sujar o canto da boca. Esperei pacientemente.

- Oh meu Deus Adrian! – ela gemeu – isso é. Isso é. Oh meu Deus!

Sorri – agora ela começava a entender o meu ponto.

Laura não largou o lanche nem um segundo, pelo curto espaço de tempo em que ele existiu
em suas mãos. Depois pegou a cerveja e bebeu até a metade sem parar para respirar.

Fiquei olhando a garota ali, sentada na banqueta da lanchonete, com seu vestido elegante,
pernas cruzadas e salto alto. Encarando-a beber cerveja, direto da garrafa, e sujar as mãos de
maionese e pensei onde ela esteve enquanto eu enchia a minha vida de merdas.

Adrian, Adrian, como você se deixou pegar pela recém- formada! Você não tem mais idade
para isso. Você deveria sentar-se em sua cadeira de couro e esperar pelos seus netos. Sorri do meu
próprio comentário – eu realmente esperava que John não seguisse meu exemplo.

Estiquei a mão e limpei o que tinha de molho no canto da boca de Laura, meus olhos mais
profundos do que eu gostaria. Ela sorriu, meio sem jeito.

- Vamos? – eu disse antes que me perdesse para sempre.

Deixei Laura em Amsterdã com o inicio da noite. Ela precisava descansar e precisava
resolver o que quer que fosse antes da nossa viagem e eu precisava colocar minha cabeça no lugar.

Peguei o celular e disquei. Apertei o botão de viva voz enquanto dirigia de volta para casa.
Alex atendeu no terceiro toque.

- Diga que eu não estou fazendo merda novamente – eu disse.

Alex sorriu e me fez sorrir também.

- Você não está fazendo merda novamente, mas – ele enfatizou – acho que precisa de uma dose dupla
de uísque com o seu grande e sexy melhor amigo.

- Alexander, apenas esse comentário seria capaz de me fazer não querer encontra-lo nunca mais.

Alex soltou uma pequena gargalhada.

- Te vejo no Jack’s.

Entreguei a chave do carro ao manobrista e entrei no bar. O Jack’s era o lugar que Alex e eu
havíamos elegido como nosso ponto de encontro. Era nosso pequeno refugio, um lugar em que não
levávamos garota alguma, nunca.

Meu telefone tocou.

- Sr. Galagher? – ouvi a voz do outro lado da linha.

- Não para você – brinquei.

- Vovó disse que você vem nos ver.

John tentava parecer frio, sem emoção, mas eu podia sentir sua voz ondulando contra o
telefone. Eu sabia que meu filho estava cansado disso tudo. Ele não deveria ter que passar por isso,
não deveria ter que se preocupar com os irmãos. De qualquer maneira, era a primeira vez em mais de
três meses que ele me ligava então eu sorri.

- Sim filho – respondi – Eu vou.

Ele ficou em silencio. Eu podia jurar que era um silencio bom.

- Então eu posso contar aos pirralhos?

Sorri novamente.

- Pode sim. Diga que chego depois de amanhã, perto da hora do almoço. Vou ligar para a sua avó e
tentar leva-los para almoçar.

Ele não respondeu por um tempo. Ficou calado, pensando. Eu queria saber o que ele
pensava tanto. Queria entender mais dos silêncios de John.

- Pai? – ele disse de repente – posso te pedir uma coisa?

Pai – a palavra me golpeou forte, fazendo meu coração diminuir. Faltava tão pouco e
parecia uma eternidade.

- Claro filho, o que quiser.

- Traz a minha guitarra?

Pensei por um instante – Garoto petulante! Eu oferecendo o mundo e ele pensando na


guitarra velha!

- Eu levo John. Não se preocupe.

- Hum. Ligação do filho rebelde numero um? – Alex disse atrás de mim – o mundo está mesmo de
ponta cabeça. Adrian Van Galagher apaixonado, John Albert Van Galagher sentindo falta do colo do
pai – ele brincou – Santo Deus! Quando dizem que o amor está no ar na primavera, eles não estão
brincando.
Desliguei o celular o coloquei no bolso.

- Não seja idiota – eu disse dando uma golada no meu uísque – eu não estou apaixonado.

Fugi dos olhos de Alex Persen. Ele me conhecia demais. Eu não gostava de ser estudado. Eu
sabia o que estava fazendo. Eu estava apenas aproveitando um momento bom, com uma garota legal.
Terminaríamos o nosso negocio e Laura voltaria para a sua vida. Ela era jovem, provavelmente
ainda esperava por coisas que eu não poderia dar á ela. Eu tinha muito com que ocupar minha mente.
Eu tinha duas crianças e um adolescente rebelde para tomar conta. Eu tinha meus negócios e eu tinha
muitas coisas na minha cabeça. Eu precisava ter. especialmente agora.

Cocei a barba.

- Laura não é Patrícia, Adrian – ele me disse, ignorando minha tentativa de fugir do assunto.

- Nunca pensei que fosse.

Ele serviu uma dose da garrafa em seu copo. Afastou a cadeira, cruzou as penas. Bebeu um
gole. Deslizou a mão pelo cabelo e as cruzou atrás da cabeça.

- Quer saber minha opinião? – ele perguntou.

Eu não queria, mas ele diria de qualquer maneira. Esse era Alex Persen.

- Você está com medo – ele disse – morrendo de medo.

Estreitei minhas sobrancelhas, encarando-o.

- Cuidado Persen. Muito cuidado.

- Você está morrendo de medo, como um gatinho assustado. Mostra as garras de vez em quando, mas
está louco para ser adotado – ele sorria enquanto falava, imitando ter um maldito gato nos braços,
ninando e fazendo carinho – você quer ser um grande e gordo gato de apartamento.

Alex soltou uma risada alta e eu não pude deixar de sorrir junto.

- Se você não fosse o único imbecil que ainda atura minhas merdas eu juro que socava a sua cara por
esse comentário infeliz.

Ele ergueu o copo em um brinde.

- Ah dois gatos idiotas, domesticados e medrosos.

Encarei Alex por um instante. Ele não era um cara de reclamações, mas eu podia ver algo
pesar em seu rosto. Ele não estava feliz. Ele fingia que estava. Seu senso de justiça o deixava mais
suscetível á ser manipulado. Eu odiava isso. Odiava vê-lo assim.

- Sabe que não precisa se casar com ela, não sabe? – eu disse dando outro gole em meu uísque.
Ele suspirou, soltando o ar dos pulmões devagar.

- Não vou abandonar minha filha como meu pai fez comigo.

- Você não vai abandonar Louise se não se casar com Alissa, Alex. Não seja bobo, é uma situação
completamente diferente.

- Você casou-se com Patrícia por causa de John – ele pontuou.

- Eu casei com Patrícia porque estava apaixonado por ela, Alex, você sabe disso. O que aconteceu
depois você também sabe. Não faça isso se não quiser realmente. Casamentos destroem as vidas das
pessoas.

- Alissa levaria Louise para longe de mim.

Pensei por um instante – ele tinha razão. Alissa era capaz de fazer algo assim apenas para
fazê-lo sofrer. Eu conhecia o tipo dela. Eu havia sido do mesmo tipo, tempos atrás. Mimada e infeliz,
cansada dos brinquedos que sempre teve, das festas que sempre foi. Procurando por algo que nunca
encontrará.

- Seria muito idiota da minha parte se confessasse á você que eu já amo aquele pedacinho de gente
sem nem mesmo tê-lo visto? – ele me perguntou e eu sorri.

- Não. Não seria.

- Eu não posso abrir mão dela, companheiro. Sou escravo daquela pequena criaturazinha.

Pensei em minha Hanna. Em tê-la sobre o meu peito, descansando tranquila depois de
mamar. Meus dedos correndo em suas costinhas delicadas – eu precisava fazer alguma coisa.
Precisava ajuda-lo.

- Não vamos permitir que Alissa tire Louise de você.

- E como iremos fazer isso, meu amigo? A lei não é tão manipulável assim.

- Talvez a lei não seja manipulável, meu amigo – imitei seu jeito de falar – mas ela tem seu preço.
Caso seja necessário.

- O pai de Alissa não permitiria.

- Como eu disse, a lei tem seu preço – bebi o ultimo gole de bebida – e neste país quem decide os
valores sou eu.

Alex sorriu. Era um assunto delicado, mas eu queria que ele soubesse que não precisava
fazer o que eu fiz. Que não precisava entregar sua vida á alguém que não a merecia apenas pela filha.
Se o que o unia a Alissa era o medo de perdê-la, então eu queria que ele soubesse que eu iria até o
inferno, mas colocaria Louise em seus braços.
Capítulo 11

Passei parte da manhã decidindo o que eu deveria levar para São Paulo. Clima inconstante,
situação inconstante, Laura inconstante. Coloquei um pouco de tudo, sem parecer que pretendia me
mudar para lá. Eu sabia que teríamos provavelmente reuniões e eu não era burra, sabia o meu lugar –
eu era a advogada coadjuvante do caso “Van Galagher contra a ex-sogra megera” era só isso. Eu iria
até lá e faria meu serviço, poliria minha carreira e com sorte, talvez conseguisse passar um par de
noites com Adrian. Era só isso não era? Ele havia deixado tudo muito claro! Então por que pensar
nisso me incomodava?

Fui até a cozinha e abri a geladeira – bem, pelo menos a parte sobre deixar a geladeira
vazia estava feita!

Abri a caixa de cereais e coloquei na tigela. Despejei um pouco de leite por cima. Girei a
colher algumas vezes, afundando as estrelinhas de mel – se ele me achava infantil por comer
sanduiche, precisava ver o que eu comi no café da manhã!

Sorri. E depois me policiei, desfazendo o sorriso bobo do meu rosto – eu andava sorrindo
demais por causa dele ultimamente.

Mia pulou da cadeira direto para cima da mesa, e ficou ali, parada com seu grande corpo
gordo, esperando a porção dela de leite.

- O que eu vou fazer com você hein Srta. Gorducha? Vamos ver se Hans ainda quer te alimentar.

Peguei meu telefone e disquei. Hans atendeu logo.

- Diga que a moça que estou vendo na primeira pagina do jornal não é você.

Gelei e endureci, derrubando a colher na tigela e espalhando leite na cabeça laranja de Mia.

- Oh meu Deus Hans eu não vi o jornal ainda.

- Então me explique o que a senhorita faz em uma lanchonete suburbana com ninguém menos que o
único herdeiro do Juiz Reign.

Ah meu Deus Adrian vai morrer! – foi o primeiro pensamento que veio á minha mente.

- Hans – comecei tentando me explicar, mas eu não fazia ideia do que dizer – eu nem sabia. Na
verdade eu nem sabia quem ele era. Eles nem tem o mesmo sobrenome.

- Em que mundo você vive Laura? – Hans me perguntou sarcástico.

- Desculpe se eu não conheço todas as linhas de sucessão das famílias holandesas! – apelei.

- Isso não é importante – ele disse eu percebi que era uma oferta de paz – me diga o que estava
fazendo com o Sr. Galagher.
- Alexander Persen era apenas o advogado de Van Galagher – comecei – o caso é sobre a guarda dos
filhos de Adrian Van Galagher. Eu ia passar aí mais tarde e conversar com você, mas acho que não
fui rápida o suficiente. Os últimos dias tem sido bem malucos.

- Laura – havia uma nota de preocupação em sua voz – não é muito inteligente envolver-se com ele.

Deus nós íamos mesmo ter essa conversa! De novo.

- Adrian vai magoar você. Ele não é o tipo de homem que se apaixona por uma menina como você
Laura.

Eu sabia que ele tinha razão, mas eu estava irritada.

- E por uma menina como eu, você quer dizer, pobre como eu.

- Eu ia dizer ingênua como você, mas pobre também se encaixa. Você sabia que ele tem sido visto
com a prima da princesa ultimamente?

Senti como se algo atingisse minha cabeça – é claro que ele estava. Quem era eu? Uma
pobre garota sul americana com quem ele teve uma foda rápida.

Pensei. Analisei. Respirando devagar.

- Hans nós apenas saímos para comer – menti – não sei o que a imagem mostra, mas foi isso.

Enquanto eu falava com ele, fui digitando na ferramenta de busca o nome de Adrian. Estava
ali. Varias imagens dele. Muitas e com notícias diversas . “Van Galagher salva mais uma
corporação” ou “Van Galagher quer a Holanda para si” ou ainda “O playboy ataca novamente”
onde se via uma ruiva escultural entrando em seu carro. Fui baixando a tela e encontrei uma noticia
de quinze dias atrás. Ela trazia Adrian de smoking preto, cabelos penteados e aquele olhar que me
fazia esquecer meu nome, mas ao lado dele não era eu, obvio. A prima da princesa estava lá, com um
vestido vermelho absolutamente incrível que a deixava ainda mais nobre. Ela estava de braços dados
com ele. Sorrindo como uma idiota. Ele não sorria – ele nunca sorria – mas parecia satisfeito. O
título era “Os Dias de Viúvo Estão Contados”.

Então era isso. Todo aquele papo de não poder ir até sei lá onde eram na verdade uma fuga.
Ele não queria dizer que tinha um maldito tipo de compromisso com a branquela real.

Filho da puta desgraçado! – Esbravejei mentalmente.

- Ainda está aí Laura? – Hans perguntou.

- Sim. Procurando a maldita foto. Hans eu passo aí mais tarde ok? – eu disse por que não estava em
condições de prolongar o assunto – acha que poderia cuidar de Mia?

Ele pensou por um tempo. Quieto, calado do outro lado da linha.

- Claro que cuido de Mia querida! Sabe que eu sou louco por sujar meus ternos com pelos
alaranjados – ele sorriu. Eu fingi que sorri. Então ele continuou – Laura, eu só estou preocupado com
você – ele disse por fim.

- Sei disso – respondi – e Hans. Não vou fazer besteira dessa vez. Eu juro.

Desliguei o telefone e abri a imagem. Éramos Adrian e eu, sentados na lanchonete. Ele tinha
a mãos no meu queixo e o polegar sobre o meu lábio. Ele estava limpando o molho, era só isso, mas
havia o olhar. Meu coração se apertou – não era o mesmo olhar que ele dirigia á garota no vestido
vermelho, aquele era o meu olhar. O olhar que me fazia querer que ele não fosse embora nunca.
Fiquei encarando a imagem, traçando meu polegar sobre o rosto de Adrian – eu não podia crer que
ele pertencia á outra.

O celular tocou, vibrando sobre a mesa. Encarei o numero na tela.

- Sim Sr. Galagher – eu disse.

- Boa tarde – ele me disse – você leu os jornais de hoje?

Pronto! Agora o meu pequeno castelo de cartas começava a desmoronar, antes mesmo de eu
conseguir habitá-lo.

- Adrian me desculpe – disse de uma vez porque eu não queria entrar em outra discussão sobre
exposição – eu não fazia ideia de que aquela bobagem toda sobre Alissa e filhos pudesse terminar
desse jeito. Se eu pudesse voltar atrás eu juro que não tinha comido a porcaria do cachorro quente.
Eu. Eu – eu falava sem parar para respirar e sentia as primeiras lágrimas começarem a aparecer, lá
no fundo da minha garganta.

Engoli, engasgando um pouco e dando tempo para ele me interromper.

- Engraçado você chamar meu lanche preferido de porcaria porque você pareceu gostar bastante –
ele disse ignorando tudo que eu havia dito, exceto isso.

- Adrian não é uma boa hora para piadas. Além disso – eu não sabia se queria continuar – eu vou
entender se você – parei e respirei – se você preferir ir sozinho ao Brasil ou levar outra pessoa.

Pude ouvi-lo respirar forte no telefone – ele odiava ser contrariado.

- E porque, exatamente, eu faria isso?

- A foto – eu disse – pensei que você não queria esse tipo de publicidade.

E analisando agora, ele provavelmente não queria porque se algo como isso vazasse a tal
namorada branquela real saberia.

- Laura eu posso ser gentil com as pessoas eventualmente – ele disse – não vejo problema em uma
fotografia que demonstra isso. Eu quis apenas avisá-la que seu rosto não ficou visível, e que,
portanto, ninguém poderá ligar isso ao problema com meu pai.
Fiquei muda por alguns instantes.

- Laura? – ele perguntou.

- Oi – eu disse depois de alguns instantes.

- Harold irá busca-la em três horas. Esteja pronta, não gosto de me atrasar.

Ele desligou o telefone eu fiquei com ele ali, parado no meu rosto, pensando na vida, como
uma idiota.

Olhei a imagem novamente – ele tinha razão. Era uma bobagem. Não tinha nada demais. Ele
estava sendo gentil com uma garota, e daí? Isso não mudava o fato de que os dias de viúvo dele
estavam contados. Senti uma onda de raiva misturada a dor dilacerar o meu coração.

Fazia menos de meia hora que eu havia voltado do meu escritório, quando Harold parou o
carro em minha porta. Peguei minha mala, conferi meu visual no espelho – profissional, muito
profissional – e saí.

Eu estava disposta a deixar claro para Adrian Van Galagher que, por mais que ele fosse
gostoso, eu não seria a despedida de solteiro de ninguém.

Embarcamos em silencio. Eu me sentei no banco da janela, Adrian ao meu lado, na primeira


classe. As poltronas eram bem grandes e separadas por um braço central suficientemente largo para
que Adrian e eu não nos tocássemos, caso não fosse necessário.

Mantive meu olhar na janela, vendo Amsterdã sumir lá embaixo, durante toda a decolagem.

- Laura – Adrian me disse – algo está errado?

- Não – eu respondi.

Ele não insistiu e eu não continuei o assunto. Algum tempo depois, anunciaram o serviço de
bordo.

A comissária passou oferecendo bebidas e eu me servi de uma dose dupla de uísque. Adrian
pediu uma taça de vinho e ficou me olhando.

- Não vai me dizer o que está errado?

Minha mente formava varias e varias frases para dizer á ele, nenhuma delas era gentil. E eu
não queria começar uma briga sabendo que ficaríamos pelo menos dez horas naquele mesmo lugar.

- Nada errado Sr. Galagher – eu disse – medo de voar. Apenas isso.

- Você não me parece o tipo que sente medo de voar.

Eu queria dizer “E você não parece o tipo que procura por garotas da côrte, chatas
mimadas”, mas eu não disse nada. Limitei-me a sorrir.

Comi meu pato com laranja e tomei mais uma dose de uísque, sentindo o efeito do álcool me
acalmar. Quando as luzes se apagaram, coloquei meu fone de ouvido e apaguei também.

***

Pousamos pouco antes das nove da manhã. Laura mal falou comigo durante toda a viagem.
Eu não gostava de aviões, mas eu odiava ainda mais aviões com Laura emburrada. Eu estava
começando a me irritar.

Passamos pelo saguão de desembarque e eu logo avistei a placa com o meu nome. Caminhei
até o motorista.

- Sr. Galagher? – ele me perguntou e eu assenti.

Entramos no automóvel e seguimos para minha casa. Fazia pelo menos quatro anos que eu
não ia ao Brasil, mas São Paulo parecia á mesma, tumultuada e corrida, como sempre. Perto de São
Paulo, Roterdã era uma pobre prima do interior.

O carro passou pelos portões. O gramado estava bem cuidado e as cercas vivas aparadas. A
piscina limpa, as janelas abertas – pelo menos eu tinha bons empregados aqui.

O motorista abriu a porta para mim e eu desci. Ofereci á mão para que Laura pudesse
descer, ela aceitou, mas tirou a mão da minha assim que pode. Entramos e Elza veio nos receber.

- Sr. Galaguer é prazer revê-lo – ela me disse.

- É um prazer revê-la – olhei em volta da sala – e ver que cuidou de tudo em nossa ausência.

Elza sorriu. Seus olhos passaram de mim para Laura e eu percebi que o “Nós” poderia ter
sido mal interpretado.

- Esta é Laura – eu disse gentilmente, com a mão sobre o ombro de Laura, mas antes que pudesse
concluir, ela me interrompeu.

- Sou a advogada do Sr. Galagher – ela disse estendendo a mão e depois ela terminou a frase em
português.

Elza sorriu. Laura sorriu. E eu fiquei ali, sentindo um pequeno complô feminino se formar.

O marido de Elza levou nossas malas para cima, enquanto ela e Laura caminhavam felizes e
sorridentes para a cozinha – aparentemente, o problema da Srta. Soares era comigo.
Entrei na cozinha e encontrei uma mesa posta. Havia muitas coisas sobre ela e eu não
conhecia uma boa parte delas. Laura gemeu e disse algo em português, enquanto enfiava um tipo de
panqueca branca e suja de manteiga na boca.

- Eu agradeceria se pudéssemos manter a conversa compreensível para todos á mesa – critiquei.

- Perdão, Sr. Galagher – Elza disse – é que a senhorita é tão gentil, percebeu minhas dificuldades
com a língua.

Encarei Laura, raiva borbulhando ali, escondida em algum lugar.

- Pois para mim seu inglês é suficiente Elza, não se preocupe.

Ela sorriu – se Laura achava que colocaria minha empregada contra mim, estava enganada.

- Quero um pouco dessa panqueca também – pedi – já que a Srta. Soares parece gostar tanto.

- Oh isso não é uma panqueca, Sr. Galagher. Chama-se tapioca.

Eu ainda sentia a maldita tapioca dentro do meu estomago, quando subi para o meu quarto.
Eu não sabia se me sentia mais enjoado pela panqueca grudenta e pesada, ou se era por causa de
Laura.

Tirei minha roupa, abri o chuveiro e tomei uma ducha rápida. Eu não queria perder tempo
algum que eu pudesse passar com os meus filhos e eu os veria em alguns minutos. Margarida e eu
havíamos decidido que eu poderia almoçar com as crianças, desde que fosse na casa dela. Eu não me
importava, desde que pudesse vê-los. Saí do chuveiro e vesti um jeans e uma camiseta, era um dia
tipicamente quente no hemisfério sul.

Desci as escadas com a guitarra de John presa na capa, pendurada sobre meus ombros.

- Elza – chamei – avise a Srta. Soares que estou aqui embaixo.

- Não precisa. Já estou aqui, Sr. Galagher.

Ela estava vestida como se fosse trabalhar. Calça social reta e ajustada nas pernas,
sandálias de salto alto e uma blusa de seda marfim que a deixava com um toque angelical.
Maquiagem feita e cabelos presos em um coque, com alguns fios emoldurando seu rosto. Linda. Eu
queria agarra-la ali, na escada e carrega-la para o quarto, não fosse aquele olhar mortal que ainda
pairava em seus olhos marrons.

- Não precisa vestir-se de advogada para visitar os meus filhos, Srta. Soares.

- Eu sou advogada Adrian, não me visto de uma. Além disso, não entendo qual é a necessidade de
que eu o acompanhe em um almoço.

Cocei minha barba, controlando minha irritação iminente.


- Laura eu não sou bom em adivinhações. Se não me disser o que está errado eu vou supor que é
apenas capricho de uma garota boba e vou ignorar, como faço com as manhas dos meus filhos.

Senti o efeito das minhas palavras direto em seu rosto, contorcendo suavemente seus olhos.

- Não há nada errado, Sr. Galagher – ela se limitou a dizer.

Peguei a chave do carro e caminhei para fora, com ela me seguindo.

- Vai dirigir? – ela me perguntou.

- Algum problema com minha direção?

- Nenhum.

- Ótimo – esbravejei e fechei a porta.

- ótimo – ela gritou e sentou-se ao meu lado.

Pensei por um tempo, analisando a situação – Deus do céu eu havia me esquecido como era
difícil lidar com uma mulher quando você não a está fodendo.

- Laura – comecei – é importante para mim não parecer furioso e irritado frente á avó dos meus
filhos. Poderíamos pelo menos tentar, parecer amigáveis durante esse tempo?

Meus olhos estavam no trânsito, caótico e infernal, da cidade. Eu não queria encará-la.
Laura pensou por algum tempo também, olhos encarando a janela.

- Você tem razão Adrian – ela ponderou – eu estou agindo como uma criança mimada e eu não sou
assim. Não se preocupe, vamos fazer tudo dar certo nesse encontro.

Coloquei minha mão sobre o joelho de Laura. Eu queria que as coisas voltassem a ser como
eram, quando estávamos em minha casa.

Laura encarou a mão sobre sua perna por alguns segundos. Seus olhos pesados, lutando para
mantê-la afastada de mim. Tirei minha mão – se era o que ela queria, eu respeitaria sua decisão.

Estacionei em frente á casa de Margarida. Desci. Antes que eu pudesse abrir aporta para
Laura, ela desceu. Parei em frente ao portão, minhas mãos suando, punhos cerrados. Suspirei
profundamente. Não era fácil entrar aqui novamente. Não era fácil encarar tantos fantasmas de uma
única vez. Como se pudesse sentir meus medos, Laura tocou a mão em meu ombro.

- Vai dar tudo certo – ela me disse – sei que vai.

Eu não sabia, mas com ela ali, seria mais fácil.

A empregada de Margarida abriu o portão. Nós a acompanhamos pelo gramado até a


entrada.
Margarida morava em uma casa grande, antiga. Era uma daquelas casas em estilo
modernista da década de cinquenta. Era uma casa bonita. Tinha um grande gramado na frente e a casa
ficava no centro do terreno, com um jardim tropical na lateral.

Hanna estava á beira da piscina, pulando de um lado para o outro. Collin foi o primeiro a me ver. Ele
correu tão rápido que a baba demorou a perceber.

- Papai! – ele me disse agarrando as minhas pernas.

Peguei-o no colo no mesmo instante. Apertando seu corpinho pequeno contra o meu. Ele
parecia mais velho. Não se parecia mais com o meu bebê – Deus como eu senti falta desse garotinho.

- Hey filhote – eu disse esfregando meu nariz no dele – senti sua falta.

Ele não disse nada. Segurou meu rosto com as suas mãozinhas melecadas de algo que eu não
sabia o que e não me importava. Encarei seus olhinhos claros – Collin tinha os olhos da mãe. Ele se
parecia com ela.

- Papai você vai me levar para nossa casa? Eu acho que Chucrute sente a minha falta.

Sorri.

- Tenho certeza de que ele sente, amor, vamos resolver tudo – eu disse e toquei meus lábios nos dele,
aproveitando o cheirinho gostoso de bebê que ele ainda tinha – eu prometo que vamos.

Ele encarou Laura e sorriu.

- Oi – ele disse em holandês.

- Oi pequeno – Laura respondeu.

- Você é namorada do papai?

Laura pigarreou eu pigarreei e fomos salvos por Hanna, graças á Deus.

- Papai! – ela disse se atirando sobre mim.

Ajoelhei com Collin ainda em um dos braços e abri o outro para ela. Hanna se aconchegou
em meu peito, seus cabelos se espalhando em meus ombros.

- Eca papai – ela disse – você está melecado de pirulito!

Coloquei Collin no chão e passei a mão pelo rosto – eu estava melecado por algo, se era
pirulito eu não sabia, mas tinha cheiro de cereja.

- Aqui, com licença – Laura disse e esfregou um lenço umedecido em meu rosto.

Sorri, encarando seus olhos. Ela estava agachada em frente á mim e Collin a estudava.
- Obrigada Srta. Soares.

- Tudo bem, sabe como é, mulher prevenida.

Collin esticou a mãozinha e tentou tocar o rosto de Laura.

- Filho – chamei antes que ele a tocasse – vamos lavar a mãozinha primeiro.

- Acho que podemos dar um jeito nisso – ela disse arrancando mais um lenço e limpando a mão de
Collin.

- Hum – Collin disse com os olhinhos brilhando – tem cheiro de flor papai.

- Eu quero limpar a mão também – Hanna correu para ela.

Sorrimos. Um encarando o outro meio sem querer, fugindo da espeça camada de sentimentos
ali.

- Hey, Sr. Galagher – John disse caminhando até mim. Eu havia deixado a guitarra no banco traseiro
do carro.

Ele estendeu a mão para mim e eu o cumprimentei. Depois o puxei mais para perto e o
abracei. Esperei que ele recuasse, mas ele não recuou. Acho que nós precisávamos de um abraço.

- Algum dia você vai se referir á mim como pai? – brinquei.

Os olhos dele foram de mim para Laura em uma fração de segundos. Aquele sorriso
ingenuamente malicioso curvando seus lábios para cima – o garoto era bom. Bom demais para o seu
próprio bem.

- Posso pensar em chama-lo de pai só pra que fique bem claro que você é velho – ele brincou.

Laura sorriu. Pela primeira vez no dia ela realmente sorriu.

- Sinto informa-lo pequeno Sr. Galagher que a moça não fala neerlandês.

- Eu nunca disse que não falava – ela me corrigiu – eu disse que não falava bem.

John sorriu mais, mostrando aquelas malditas covinhas – garoto safado! Eu teria uma
conversa com ele mais tarde.

- Eu sou John – ele disse estendendo a mão para Laura.

- Sou Laura – ela respondeu apertando a mão dele.

- É um prazer Laura, mas aqui no Brasil as pessoas se cumprimentam assim – ele disse e a beijou no
rosto. Duas vezes.

- Eu sei – ela respondeu retribuindo o beijo – sou brasileira.


E aí a conversa evoluiu toda em português. E eu fiquei ali, querendo ensinar algumas
liçõezinhas ao meu pequeno conquistador, enquanto Hanna me trazia uma dúzia de pequenas bonecas
de plástico com toda a sua coleção de roupas.

Margarida apareceu na porta da frente.

- O almoço está servido Adrian, vamos entrar.

Nós já havíamos conversado ao telefone, combinado de não discutir com as crianças ali. Eu
a conhecia pouco, sabia que não gostava de mim e eu não podia culpa-la, mas ela amava os netos e
isso eu sabia. Nós teríamos uma briga em breve então eu queria aproveitar o que podia do meu tempo
com os meus filhos.

O almoço se limitou a Hanna e Collin disputando quem seria alimentado por mim e John e
Laura rindo e rindo de alguma coisa em português. Vez ou outra, Hanna traduzia alguma coisa da
conversa para mim. Margarida não almoçou conosco. Ela não falava neerlandês e me odiava o
suficiente para não ter interesse em aprender.

- Papai – Hanna me disse – você tem que prometer que vai me levar na exposição da Barbie. É uma
exposição de princesas, pai, você vai amar.

Sorri.

- Tenho certeza de que vou, anjo.

Peguei Laura nos encarando. Seus olhos fugiram dos meus assim que puderam.

- Laura – Hanna disse descendo do meu colo e se colocando entre as cadeiras de Laura e John – você
pode me fazer uma trança? – ela pediu – vovó não sabe fazer tranças.

Laura afastou um pouco a cadeira e colocou Hanna de costas, entre as suas pernas. Abriu a
bolsa e sacou uma escova.

- Pois para a sua sorte, Srta. Galagher – ela disse separando o comprido cabelo louro da minha filha
com as mãos – eu sou uma especialista em tranças.

Fiquei encarando as duas ali, sorrindo e sendo garotas – minhas garotas – e pensei que as
coisas não poderiam ter sido melhores.

- Fecha a boca pai – John disse passando por trás de mim e dando um toque no meu queixo – vai
babar na camiseta.
Capítulo 12

Entrei em silencio no carro – eu não queria conversar. Eu estava em um momento difícil de


autocontrole, depois de ver Adrian com os filhos. Ele era, de longe, o pai mais incrível que eu já
tinha visto e isso deixava minha meta de não me permitir envolver mais por Adrian Van Galagher,
meu pirata sedutor, quase impossível.

Foquei meus olhos na cidade. Minha cidade. Eu não sentia falta de São Paulo, do meu país,
até pisar aqui novamente. Eu olhava os rostos das pessoas e pensava no quanto eu destoava dos
holandeses. Eu não queria pensar em minha família, mas eu não podia evitar. Eu sentia falta da minha
avó. Já fazia alguns meses que eu não falava com ela. Eu não havia contado da viagem, porque não
queria que minha mãe soubesse de mim.

- Obrigada por hoje – Adrian disse, quebrando nosso silencio – você foi muito gentil com os meus
filhos.

- Sem problemas – eu disse – Seus filhos foram muito gentis também.

Ele continuou dirigindo sem me olhar. Seus olhos estavam fixos na estrada, mas seu
pensamento estava longe. Eu quis saber em que ele pensava. Quis saber se fazia parte do que quer
que fosse, mas então eu lembrei que não fazia. Deixei meus olhos vagarem por Adrian por um tempo
que pareceu curto demais. Seu cabelo claro havia sido arrumado para trás pelas mãos, displicente,
elegante. O sol da tarde atravessava as íris cor de avelã e eu podia contar pelo menos cinco tons
diferentes, que iam desde o chocolate até o amarelo esverdeado. Sua boca vermelha parecia
relaxada, suave. Apertei meus lábios, lembrando o gosto que ela tinha. A barba por fazer deixava seu
rosto com um ar mais cafajeste, menos executivo. Os pelos cresciam até a linha do pescoço e se
perdiam na gola da jaqueta. Era tão pouco tempo, e eu já tinha uma impressão fiel de Adrian Van
Galagher dentro de mim, em minha alma. Fechei os olhos, a imagem dele de braços dados com outra
mulher não saia da minha mente. Ele não podia! Não podia! Ele era meu.

Suspirei – sim, ele podia! E podia unicamente porque ele não era meu. Ele nunca seria. Eu
era um paragrafo perdido dentro do livro de Adrian. Eu não era a protagonista. Eu não era nem
mesmo a coadjuvante. Talvez eu nem mesmo fosse uma figurante representativa.

Abri os olhos e percebi que estávamos perto, muito perto da casa dele e que eu não teria
mais a desculpa da direção para não falar com ele. Respirei devagar, limpando minha mente do
turbilhão de pensamentos – não tinha outra maneira.

- Adrian – comecei devagar enquanto ele passava pelo portão com o carro – eu gostaria de resolver
alguns assuntos pessoais amanhã. Se não se importar.

Ele continuou o caminho até a entrada em silencio, sem desviar os olhos nem uma vez.
Parou. Desligou o motor e virou-se para mim.

- Achei tivéssemos um acordo, Srta. Soares, mas se prefere assim, posso pedir á Dimas para leva-la.
- Prefiro ir sozinha.

Eu podia perceber a irritação correndo pelas veias de Adrian tão rápido como o sangue era
bombeado ao seu coração. Eu podia ver pequenas veias azuladas formando-se em suas têmporas pela
pressão da mandíbula.

- Devo supor que todo esse teatro desde que saímos de Roterdã tinha como causa esse assunto.
Acaso deixou algum namorado para trás? – ele disse frisando a ultima palavra.

Agora o sangue borbulhava em minhas veias, rápido, quente, incontrolável. Ele era cínico
demais. Meu Deus será que ele pensava mesmo que eu não descobriria?

- Receio que suas suposições sejam equivocadas, Sr. Galagher – continuei sentindo minhas
bochechas queimarem – e receio também que eu não consiga voltar á Holanda com o senhor. Como
eu disse tenho assuntos pessoas á resolver.

Os punhos de Adrian estavam cerrados. Olhos estreitos. Postura rígida. Respiração lenta e
comedida – eu podia jurar que ele pularia sobre minha jugular no instante seguinte, como um leão
sobre a presa.

- Caso não se lembre, você assinou um contrato de prestação de serviços comigo, Srta. Soares.

Irritação pairando dentro do carro, como uma névoa.

- Sim, estou ciente disso. Não se preocupe. Eu pretendo cumprir com minhas obrigações. Tenho
certeza de que eu e o Sr. Persen conseguiríamos resolver esse pequeno entrave da distancia.

E então os olhos de Adrian estavam mais assustadores do que nunca. Escuros, profundos e
matadores. Ele me encarou por cima das sobrancelhas.

- Entendo – ele disse, e eu tive medo do que quer que fosse que ele entendia – tenho ciência do
quanto à senhorita e o Sr. Persen resolvem entraves. Agora entendo a relutância dele em se casar com
a noiva.

Ele não desviava os olhos dos meus e eu sentia que a cada palavra ele arrancava um
pedacinho do meu coração.

- Adrian não seja ridículo – eu disse baixo, querendo faze-lo parar a linha idiota de raciocínio. Eu
nem mesmo sabia que Alex tinha alguma relutância quanto ao casamento.

- Tem feito bem o seu jogo – ele continuou – eu quase pensei que estava com ciúmes de mim, outro
dia, em meu escritório. Agora vejo que sua possível raiva de Alissa tinha outro foco.

O almoço revirando-se em meu estomago, levando um gosto amargo até minha boca.

- Não se preocupe – ele disse ironicamente, os olhos faiscando de ódio – Com Alissa ou não,
Alexander terá bastante tempo livre com o nascimento do bebe. Talvez ele até leve o bebê para a
senhorita criar. Seria perfeito, não seria Srta. Soares? Seu próprio bebê?

Pronto! Meu autocontrole se foi! Assim, como se não fosse eu ali, senti minha mão vagar
até golpear forte o rosto de Adrian num tapa cheio, espalmado, bem na lateral.

Ele não moveu um único musculo, continuou me encarando, como se pudesse me fuzilar com
os olhos.

Abri a porta do carro e corri para dentro com a visão nublada pelas lagrimas. Bati a porta e
passei a chave – a ultima coisa que eu queria era ver alguém.

Deixei meu corpo cair no chão, debruçada sobre a cama, rosto coberto pelas mãos, sentindo
as lagrimas descerem cada vez mais rápido. Eu sentia meu corpo pesado, prostrado, arruinado. Eu
não conseguia nem entender o que doía mais. Não sabia se era o fato de ele supor que eu estava
fazendo algum tipo de jogo entre ele e Alex ou se era a menção á ter meu próprio bebe. Adrian podia
ser o cara mais incrível do mundo quando queria, mas ele sabia exatamente como magoar. Ter
ouvido aquilo foi como um tapa na cara, muito pior do que o que ele tinha levado.

Eu queria fugir. Queria correr para longe de Adrian, de tudo, mas não sabia se conseguiria
me manter em pé. Adrian havia penetrado meio á força, meio convidado, por caminhos dentro de
mim que eu jurei não permitir que mais ninguém entrasse. E agora eu estava ali, uma vez mais, caída
no chão porque alguém pisou em meu coração idiota. Eu queria socar meu nariz bem no meio e sentir
muita dor, para garantir que dá próxima vez que trombasse em um babaca bonito, eu não iria acabar
com ele na cama. E pior, abrindo meu coração.

- Laura abra a porta – eu ouvi.

A voz preenchendo todo o vazio dentro de mim. Forte, poderosa, como ele era.

- Nós precisamos conversar Laura. Abra a porta, não seja infantil.

Eu não queria abrir, ou pelo menos achava que não deveria querer, mas o fato de Adrian
agir como se minha raiva fosse sem proposito deixava-me com mais determinação ainda em não
abrir. Não respondi.

- Laura eu só vou dizer mais uma vez – ele advertiu – abra a maldita porta.

Eu não respondi. Não conseguia pensar em nada para dizer. Eu estava magoada, ferida, com
raiva. Ele havia usado meu segredo mais dolorido contra mim, apenas por capricho e ainda me
chamava de infantil.

Adrian socou a porta com tanta força que eu pude sentir a parede vibrar pelo chão – ótimo!
Nada como uma mão quebrada para nos fazer pensar melhor em como somos idiotas! – pensei
enquanto ouvia os passos se afastando.

Levantei devagar, sem fazer barulho e entrei no banheiro. Tirei a roupa. Prendi o cabelo no
alto da cabeça – eu estava disposta a arrumar minhas coisas e ir embora o mais rápido possível. Eu
não queria lidar com minha mãe, mas eu queria menos ainda lidar com Adrian. Eu chamaria um taxi e
procuraria um hotel, o mais longe possível de qualquer coisa relacionada aquele maldito pirata
arrogante.

Abri o chuveiro e estava com um pé para dentro do Box de vidro quando o estrondo me fez
pular de susto. Não tive tempo de mais nada – Adrian estava no quarto, o pé sobre a porta, caída no
chão. Eu estava em choque, observando o pedaço de madeira quebrado ali, arrancado do batente pela
força do chute, imaginei.

Adrian entrou no banheiro. Seus olhos parados nos meus por uma fração de segundos e eu já
não lembrava mais o que estava fazendo ali.

Ele me puxou para si, seus braços fortes envolvendo meu corpo pequeno. Ele estava
ofegante, ansioso. Seus olhos ardiam, mas não era mais de raiva. Adrian encostou a porta do
banheiro e me afastou o suficiente para que pudesse me olhar, segurando-me pelos ombros. Seus
olhos correndo pelo meu corpo nu, sem se deter em nada especificamente. Ele não disse nada. Nem
eu.

Segurei na barra da camiseta e a puxei para cima, expondo seu peito. Tateei seu abdome
com as minhas mãos, meu peito se enchendo de tudo que eu não queria confessar. De tudo que eu não
queria sentir. Eu não conseguia mais negar. Encostei meus lábios na pele quente de Adrian, ouvindo-
o gemer baixo enquanto se livrava da camiseta. Eu o empurrei contra a parede, mordendo e chupando
o caminho de músculos que se perdia no elástico da sua cueca boxer. Ajoelhei no chão, traçando a
linha de músculos com a minha língua, enquanto abria o botão e descia o zíper da calça – Se era uma
despedida, eu queria tudo de Adrian que eu pudesse ter.

Baixei a calça e a cueca e o toquei devagar, sentindo sua excitação latejar. Tateando todo o
comprimento, até a ponta. Segurei em minha mão, correndo minha língua pela lateral, indo e vindo,
Adrian ofegando contra a parede. Eu não tinha pressa. Queria sentir tudo. Tocar tudo. Viver tudo. Se
eu ia sair da vida dele, ao menos eu deixaria uma pequena lembrança.

- Pelo amor de Deus Laura, acabe com essa tortura – ele disse com a voz entrecortada, enquanto eu
mordiscava e traçava círculos com a minha língua na parte sensível da ponta.

Abri a boca sem dizer nada e o suguei para dentro, devagar, deixando que se acomodasse
até minha garganta. Ajustei minha respiração para não engasgar e comecei a movimentar a cabeça,
para frente e para trás, quase soltando e trazendo-o para dentro novamente. Adrian agarrou meus
cabelos, pela parte de trás da cabeça, numa tentativa desesperada de controle. Deixei que ele me
guiasse. Que tivesse o que queria de mim, como queria. Eu o queria. Queria inteiro, sem restrições.

Eu podia sentir seu peito subir e descer com cada movimento, mais forte, mais forte. Suas
pernas trêmulas. Suguei mais forte, levando Adrian ao limite. Eu não queria parar, queria que ele se
derramasse para mim, em mim, na minha boca. Queria sentir o seu gosto, provar mais de Adrian Van
Galagher.

- Laura assim eu não vou aguentar, amor – ele disse entre gemidos.
Eu não queria que ele aguentasse. Estava gemendo também, sentindo o contorno do seu
bumbum contra as minhas mãos, apertando, chupando, devorando. Quando achei que eu mesma não
aguentaria mais, Adrian veio numa explosão para dentro de mim, derramando-se em minha garganta.
Arfei, engolindo tudo que podia, tocando-o com a minha língua. Até que ele afrouxou o aperto em
meus cabelos e me suspendeu.

Adrian me segurou apertado, junto do seu corpo, seus braços em volta de mim como uma
jaula – ele nem imaginava o quanto eu queria ficar.

- Eu quase posso dizer que o tapa valeu á pena – ele disse brincando. Seu riso fazendo cocegas em
minha cabeça.

Encostei o nariz em sua pele e puxei o ar dele para mim, seu perfume, seu suor, tudo que eu
podia. Eu não queria ir. E cada minuto que eu passava com ele ali, eu queria menos. Suspirei.

- Adrian – minha voz falhando – eu preciso ir.

Ele me encarou por um instante. Os olhos sem entender. Eu queria tanto que o que eu
pensava ver em seus olhos fosse real.

- Eu preciso mesmo – repeti – eu não vou conseguir. Eu não consigo – disse e me afundei nele
novamente.

***

Ela apertou-se contra mim como se quisesse se fundir em minha pele. Eu nem sabia se a
segurava ou se tentava entender o que ela queria dizer com ir. Para onde diabos essa mulher
pensava em ir? Deus do céu ela estava me enlouquecendo!

Fechei minha calça e desliguei o chuveiro. Peguei minha camiseta e vesti em Laura. Nós
precisávamos conversar e com ela ali, sem roupa na minha frente eu não conseguia ter muitos
pensamentos coerentes.

Levei a pela mão até meu quarto, já que o de hospedes estava sem porta. Sentei-a em minha
cama. Sentei-me ao lado. Segurei suas mãos.

- Porque tem que ir? – eu perguntei.

Ela suspirou. Os olhos analisando meu rosto. Ela parecia sofrer tanto e eu não conseguia
entender o que havia acontecido. Ela esteve comigo o tempo todo nos últimos dias.

Repassei os últimos acontecimentos em minha mente uma vez mais.

- Laura se foi por causa do que eu disse no carro – comecei desconfortável. Eu odiava admitir que
havia sido estupido. E ciumento – eu não quis dizer aquilo. Eu estava nervoso. Eu espero – ela me
interrompeu.

- Não é isso Adrian. É que isso – ela disse girando o dedo entre nós – isso não tem como ser. Nós –
ela não sabia como continuar – Eu. Eu realmente. Eu queria mesmo ser do tipo que consegue. Eu
imagino que você veja muito disso por aí, mas eu – ela parecia desconcertada – eu não consigo. Eu
queria, mas eu não consigo.

E se ela que era quem estava pensando não entendia, eu menos. Encarei-a sem fazer a menor
ideia do que ela dizia e então a primeira lagrima rolou e eu comecei a me desesperar – eu nunca fui
bom em ver garotas chorando.

- Anjo, se foi por causa da fotografia – disse – não se preocupe. Não era nada demais. Nós podemos
tomar mais cuidado, até que essa bobagem com meu pai – ela me interrompeu de novo.

- Eu vi a fotografia com a sua namorada, Adrian – ela disse de uma vez.

Tirou as mãos das minhas e secou as lagrimas. Suspirando para retomar o controle.

- Eu entendo que você se deixou envolver – ela fez uma pausa e deixou as mãos sobre o colo – e eu
facilitei, mas, eu não acho certo. Não sei qual é o seu ideal de relacionamento, mas eu não acho
certo.

Ela falava e falava e tudo que eu pensava era “sua namorada”. De que maldita namorada
essa garota estava falando? Claro que eu tive mulheres. Muitas. Mas namorada? Eu não tive
nenhuma namorada depois de Patrícia. Nem antes. Patrícia foi a única namorada que eu tive e ela não
oferecia perigo algum ao meu relacionamento com Laura.

- Laura, eu não estou entendendo – disse sincero.

Ela se levantou e começou a caminhar pelo quarto, minha camiseta cobrindo seus quadris.

- Eu vi Adrian. Via a fotografia da garota.

- Que garota Laura? – eu estava começando a me irritar, de novo – imagino que você entenda que eu
não sou nenhum tipo de celibatário.

- A garota, a do vestido vermelho! – ela bufou – seus dias de viúvo estão contados.

Tentei segurar, mas não pude. O riso explodiu em minha garganta e eu praticamente o cuspi
para fora. Laura me encarando com raiva.

- Acha engraçado? – ela me perguntou – eu aqui pensando numa maneira de dizer que eu vi a maldita
foto sua de braços dados com a nojenta real e você aí, rindo de mim!

Encarei a garota ali, á minha frente. Nervosa, ansiosa. Com ciúmes! Ela estava com ciúmes
de mim. Respirei fundo, controlando meu humor – era isso! A maldita foto era a razão de toda essa
birra de Laura.

- Então era isso? – perguntei, mesmo já sabendo a resposta – toda essa raiva e mau humor eram por
causa de uma noticia de um tabloide vagabundo?

Ela me encarava processando tudo em sua mente. Seus olhos estavam quase perdidos, sem
saber se tinham mesmo razão ou se eu tinha. Aproveitei.

- Quer dizer que ao invés de simplesmente me perguntar do que se tratava, a senhorita preferiu supor
que era verdade – eu disse levantando e caminhando até a janela – que eu era um cafajeste sem
escrúpulos e que estava enganando a pobre moça, minha quase esposa, e tendo sexo casual com uma
funcionaria.

Laura não respondeu, ponderando minhas constatações.

- Diga-me Laura? É isso? – perguntei usando o mesmo tom inquisidor que costumava usar no
tribunal.

Agora Laura era minha suspeita, e eu a estava interrogando, brincando com sua mente.

- Achou que, por ela ser rica e influente, eu iria me casar com ela, e que pretendia manter algum tipo
de caso extraconjugal com a senhorita – eu estava afirmando e ela não podia negar.

- Adrian – ela tentou justificar – você precisa entender. Eu não sabia nada sobre você.

- Responda-me Srta. Soares – eu disse caminhando em volta dela – alguma vez eu lhe neguei
qualquer informação sobre a minha vida?

- Não – ela disse derrotada.

- Então porque, ao invés de me perguntar, você decidiu me punir?

Ela pensou. Pensou. Não sabia o que dizer. Estava perdida, envolvida em minha pequena
teia de manipulação. Eu gostava disso. Gostava de sentir essa eletricidade entre o inquisidor e o
acusado. Isso fazia com que eu me sentisse muito, muito bem.

Laura estreitou os olhos.

- Caramba, você é bom! – ela disse de repente.

- Sou o melhor, anjo. Nunca perdi um caso.

Ela sorriu discretamente, desistindo de seu ponto.

- Venha até aqui – eu disse batendo na cama ao meu lado – vou dizer á você do que se trata a
fotografia.

Laura sentou-se e manteve os olhos baixos. Segurei seu queixo e elevei até a altura dos meus
olhos.

- E não faria isso Laura. Não faria com você e não faria com Clair e eu não faria comigo – eu
esperava que ela percebesse a verdade em meus olhos – eu não fui sempre fiel, Laura, mas eu
percebi da maneira mais difícil o que a infidelidade pode fazer á uma pessoa. E eu não faria isso.

Ela suspirou – estava entendendo meu ponto.

- Agora vou contar a você a breve historia entre Clair e eu. Tudo bem?

Ela assentiu.

- Eu a conheci em um jantar intimo na casa de verão da família real. Eu vou a muitos lugares que não
quero Laura. Faço muitas coisas que não quero, porque são importantes para os meus negócios.

- Imagino – ela me disse ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha.

- Não em minha pessoal – continuei – eu não vou me casar com Clair porque não a amo. Ela é uma
mulher egoísta e mimada e eu não gosto de pessoas assim, em especial mulheres, mas ela é prima da
minha princesa e eu devo respeito e gentileza á ela. Foi o que eu fiz. Eu a acompanhei em um evento,
apenas isso. Não preciso me casar com ninguém para dar um golpe ou coisa assim, Laura.

Segurei suas mãos entre as minhas – eu sabia que provavelmente não era o que ela queria
ouvir, mas eu precisava ser sincero com ela. Era algo importante, uma decisão que eu não estava
certo de querer revogar.

- Laura eu não pretendo me casar.

Estudei seus olhos. Eles estavam tranquilos, focados nos meus.

- Eu já fiz isso uma vez e acredite, não foi uma boa experiência. Não quero repetir. Casamentos
destroem o relacionamento das pessoas. Você entende?

- E quem foi que disse á você que eu esperava que se casasse comigo? – ela disse sorrindo – Acha
que só porque você é rico e tem esse cabelo bem penteado – espalhou meu cabelo com os dedos – e
esse abdome definido – Laura escorregou a mão pelo meu peito nu e parou em minha calça – eu iria
querer me casar com você? Acho que seu filho tem razão. Você está ficando velho.

Sorri. Eu não sabia se Laura concordava comigo ou se queria apenas acabar com o clima
ruim, mas eu estava disposto á mesma coisa.

Deita-a sobre a minha cama e afastei suas pernas com o as minhas, ficando entre elas.
Segurei seus braços com os meus, deixando-a presa, debaixo de mim.

- Então você acha que sou velho – perguntei – e acha isso porque um garoto bobo de dezessete anos
lhe disse – conclui.

Beijei seu ouvido, sugando o lóbulo da orelha devagar. Desci com minha língua pela lateral
do rosto, parando na clavícula.

- Acredite Srta. Soares. Quando eu terminar com a senhorita hoje, vai agradecer por cada um dos
anos que eu tive de experiência. Enquanto a senhorita assistia á um desenho bobo na televisão.

Continuei o caminho com minha boca por cima da camiseta, beijando seus seios, chupando
por cima do tecido, sentindo seu corpo se arquear em minha direção. Eu estava louco de desejo,
sentindo o sangue fluir rápido pelo meu corpo. Eu queria Laura mais do que eu queria respirar.

Continuei beijando sua barriga e desci por sua coxa, beijando o interior dela, sentindo o
quanto Laura estava úmida e pronta – Deus essa garota acabava comigo. Minha ruina. Ela era
minha ruina.

- Adrian – ela gemeu cobrindo o rosto com um travesseiro – você acaba comigo.

Beijei a parte de trás do seu joelho, sua panturrilha e tornozelo e o peito do pé. Eu podia
sentir sua pele arrepiada com o meu toque, mas eu queria mais. Queria que ela nunca mais sequer
cogitasse a possibilidade de outro homem toca-la. Eu queria reclamar meu direito de posse sobre
Laura. Marcá-la. Estraga-la para qualquer outro.

Voltei traçando o caminho pela parte de dentro da sua perna, ouvindo seus gemidos cada vez
mais profundos, entregues. Laura não estava usando calcinha. Eu não a tinha deixado se vestir.
Espalmei minhas mãos em suas coxas, aberta, puxei-a para cima de uma almofada, achando o ângulo
perfeito. Beijei o interior da sua coxa, bem no encontro com a virilha, demorando-me lá, sugando a
carne macia para a minha boca.

- Oh meu Deus Adrian – Laura gemeu.

Brinquei com os seus lábios em minha boca, sugando, mordiscando, deixando minha língua
traçar círculos ali. Eu podia sentir que ela estava perto. Eu podia sentir em minha língua os primeiros
espasmos em seu corpo e então eu não resisti. Enfiei minha língua nela, sentindo seu gosto,
friccionando meu polegar suavemente onde eu a levaria ao abismo. E levei. Laura veio á mim em
ondas de prazer e gemendo meu nome. Meu nome. Minha Laura.

Suguei todo que eu pude do gosto de Laura. Sua essência estava em mim, impregnada em
minha língua, em minha pele.

Subi beijando todo o caminho de volta, parando em seu ouvido.

- Espero que não esteja satisfeita, Srta. Soares – eu disse, beijando o ponto abaixo do seu ouvido –
porque eu não estou.

Abri o zíper da minha calça e baixei o suficiente. Encaixei meu corpo no de Laura, deixando
que ela sentisse o quanto eu não estava satisfeito. Eu estava duro e pronto, ansioso por senti-la,
possui-la.

- Eu quero foder você Srta. Soares – eu disse – eu quero muito. Muito mesmo. E caso ainda não
saiba, eu consigo tudo que quero.

Fiquei de joelhos na cama e baixei minha cueca boxer, expondo o quanto eu a queria. Ela me
encarou com olhos famintos, mordendo o lábio inferior.

Segurei-a pelos quadris e a puxei para mim, encaixando-me nela. Sentindo seu corpo
apertar-se ao redor do meu.

- Ah Adrian – ela reclamou – devagar.

Deus eu não podia ir devagar. Eu não conseguia parar. Eu queria mais. Eu estava
completamente dentro dela e eu queria mais.

- amor você precisa relaxar. Relaxa pra mim. Relaxa.

Eu a tocava com o meu dedo, enquanto penetrava fundo nela. Eu queria me satisfazer, mas eu
queria que ela gostasse também.

- Ah Adrian. Ah Adrian – Não eram mais reclamações. Eram gemidos – Ah meu Deus Adrian.

- Isso amor, geme o meu nome, geme.

Não demorou muito para que eu sentisse as primeiras ondas de prazer de Laura. Eu podia
senti-la mais quente, mais úmida, ondulando em torno de mim e assim eu não me contive, deixando
meu próprio prazer explodir.

Deitei-a sobre meu peito. Cansada, satisfeita, minha. Laura respirava devagar, suave,
tranquila.

- Adrian? – ela perguntou.

- Sim.

- Só tenho uma condição.

- Diga anjo.

Ela virou-se e fitou meus olhos. Havia um sentimento ali que eu não conseguia reconhecer.
Era algo tão doce e gentil. Eu faria tudo que ela quisesse.

- Enquanto você estiver comigo – ela disse devagar – não quero dividir você.

Eu sabia exatamente do que ele falava. Eu sentia o mesmo. Não tinha intenção alguma de
dividir Laura, mas decidir brincar.

- Não será possível, anjo, você sabe, tem uma garota em minha vida e eu não posso abrir mão dela.

Laura continuou me encarando e eu continuei.


- Sabe como é, jovem, bonita, lindos olhos cor de caramelo. Um fascínio obscuro por tranças.

Laura sorriu, batendo a mão em meu peito.

- Bobo! Não quero que abra mão dela. Nem eu sei se quero abrir mão dela – Laura brincou.

- Ótimo porque ela espera você e eu em uma exposição de bonecas amanhã.


Capítulo 13

Se alguém me contasse como Adrian Van Galagher se comportou em um shopping lotado de


garotas correndo e gritando por causa de bonecas, eu diria que essa pessoa estava completamente
louca, mas ali, encarando com meus próprios olhos, eu quase podia rir da situação, não fosse à
quantidade de olhares fulminantes de mães desacompanhadas.

Collin, sentado ao meu lado, tentava brigar desesperadamente com o sono e terminar o
sorvete.

- Querido, desse jeito você vai acabar lambuzando a sua testa! – eu disse e peguei o potinho das suas
mãos – prometo que te deixo comer mais sorvete depois que você acordar.

Ele estendeu os braços em minha direção e eu o segurei. Não precisamos de muito esforço,
para que ele se aconchegasse sobre o meu peito e fechasse os olhos. Collin tinha uma doçura latente,
arraigada, ele parecia tão bom e gentil que me fazia querer apertá-lo ainda mais em meu colo, seu
corpinho de frente para o meu, as perninhas uma de cada lado da minha cintura, debruçado contra o
meu peito. Fiquei acariciando seus cabelinhos castanhos até John sentar-se ao meu lado.

- Desse jeito o garoto vai babar na sua blusa – ele me disse displicente, passando a mão pelo cabelo.

- Eu não me importo que ele babe – disse beijando o topo da cabecinha de Collin, que já dormia –
ninguém nunca te disse que baba de bebê é limpinha.

John sorriu, mostrando um par de covinhas que certamente encantava um monte de garotas
por onde ele passava.

- Eu limpo a boca desse garoto desde que ele nasceu e acredite, não é limpinha – ele disse me
imitando – mas se você acha – ele continuou – o pirralhinho parece feliz.

Eu estava encarando Adrian, ao lado de uma pequena cadeira rosa, vendo Hanna pentear o
cabelo vermelho de uma boneca sereia, quando John me pegou no pulo.

- Então – ele começou – não vai me dizer que ele te pegou com essa cara de pai paciente.

Sorri.

- Ele não me pegaria com essa cara de paciente em nenhuma situação – brinquei – eu trabalho com
ele, lembra?

John sorriu e algo no seu sorriso torto me dizia que ele não estava bem convencido do tipo
de relacionamento entre Adrian e eu.

- Margarida me perguntou sobre você – ele começou.

- Garoto você não chama ninguém pelo grau de parentesco não? – eu disse achando graça.
Ele cruzou os braços sobre o peito, deslizando na cadeira, cruzando as pernas sem pressa.

- Posso te chamar de madrasta, caso você prefira, mas sei lá, não acho que combine com seus lindos
olhos castanhos.

Engasguei. Tossi. E limpei a garganta, sentindo minhas bochechas corarem.

- Ah tudo bem Laura! – ele me disse sorrindo – não é como se não fosse meio obvio.

Oh meu Deus! Eu estava sendo obvia – e ridícula. E agora a ex-sogra megera


provavelmente me odiava, e eu estava colocando tudo á perder.

- Eu disse á ela que você era a advogada do papai – ele disse, cortando minha pequena confusão
mental – não acho que ela tenha se convencido, mas eu disse.

Eu não sabia mais o que dizer. Estava ali, engasgada com a situação. Minha mão parada
sobre a cabeça de Collin, quase sem respirar. Quando a tal Margarida chegou.

Ela era elegante, bem vestida, bonita. Cabelos curtos e escuros, levemente ondulados. Olhos
verdes. Não muito alta, nem baixa. Corpo elegante. Imaginei que Patrícia deveria ser uma mulher
bonita. Ela parou ao lado de John, com as mãos sobre os ombros dele.

- Hanna parece feliz – ela mencionou me ignorando.

- Ela gosta do Sr. Galagher.

Eu não sabia se deveria dizer algo, ou se continuava fingindo que não estava ali. Senti-me
meio estranha, meio invadindo uma família que não era minha. Fiquei em silencio.

- Vejo que tem jeito com crianças, Srta. Soares – ela disse, dirigindo-se á mim.

- Laura – respondi – pode me chamar de Laura.

- John disse que você é brasileira Laura – ela constatou.

- Sim, sou. Sou aqui mesmo de São Paulo.

- Entendo – ela concluiu – e o que seu namorado acha de sua viagem ás pressas com Adrian? Sim,
porque imagino que uma moça bonita como você tenha um namorado.

John abafou uma pequena risada tossindo e eu quis pisar em seu All Star de proposito.

- Não senhora, infelizmente meu trabalho não me deixa muito tempo para encontros – desconversei.

- Seu trabalho ou Adrian Van Galagher?

Pronto! Eu estava sofrendo uma possível tentativa de inquisição espanhola, ali, na cadeira
do shopping.
- O Sr. Galagher é bastante exigente – pontuei – ele exige muito profissionalismo e velocidade em
seus negócios.

Eu queria parecer polida, distante, reservada. Não queria que a mulher pensasse que eu
estava na cama de Adrian Van Galagher – porque eu estava.

Adrian se levantou e pegou Hanna no colo, caminhando até nós – eu queria beijá-lo por me
salvar da megera. E queria beijá-lo porque ele parecia incrivelmente sexy de jeans e camiseta,
segurando a filhinha nos braços.

- Margarida – ele cumprimentou e ela respondeu com um aceno de cabeça.

- Vejo que as crianças estão se divertindo – ela constatou.

- Espero que sim – ele disse sorrindo e batendo a mão livre nos cabelos – porque eu acho que tenho
gliter em todo o meu cabelo.

Ela não respondeu. Virou-se para mim calmamente.

- Acha que pode ajudar Adrian com as crianças esta noite, Laura? – ela me perguntou, pegando todos
de surpresa – eu tenho um jantar e não consegui uma babá para cuidar de Hanna e Collin.

Meus olhos correram de Margarida para Adrian – eu podia notar um sorriso discreto em
seus lábios.

- Sim papai! – Hanna gritou, segurando as bochechas de Adrian – Sim! Sim! Sim!

Collin se mexeu e eu o ajeitei novamente, puxando-o mais para cima.

- John provavelmente irá à casa da tal garota misteriosa – ela continuou – e eu não quero deixa-los
apenas com a empregada.

- Eu vou? – John disse meio sem entender.

- Você sempre sai John Albert. Sempre. Aliás, preciso ter uma conversa com seu pai sobre seus
hábitos noturnos.

- Bem, acho que é minha deixa – John disse rindo e se levantando – eu definitivamente não quero
participar dessa conversa. Amo você – ele disse beijando á avó – e eu estou quase amando você –
ele disse me beijando – já você eu não vou beijar não, cara – ele disse para o pai – mas pelo jeito te
vejo em casa mais tarde.

Fiquei encarando John se afastar, meio sem saber o que eu deveria dizer.

- Acha que pode Laura? – Margarida repetiu.

- Claro! Respondi. Eu adoraria – eu disse sorrindo – assim eles poderiam ficar mais tempo com o
pai.
- Ótimo. Vamos até o estacionamento que eu preparei uma bolsa para cada um deles.

Adrian colocou Hanna no chão e pegou Collin do meu colo. Ajeitou-o nos braços e eu dei a
mão para Hanna. Margarida seguiu em silencio, correndo os olhos entre Adrian e eu. Eu não sabia se
gostava de ser avaliada assim, especialmente em uma situação tão delicada.

Pegamos as bolsas e a cadeirinha de Collin. Ajeitamos os dois no banco do carro de Adrian


e seguimos para casa. Assim que Hanna desceu, cantando e dançando pelo jardim, Elza correu para
nós.

- Não acredito que eles estão aqui, Sr. Galagher! – ela disse sorridente – que felicidade!

Hanna sorriu com a mochila das princesas nas costas.

- Você sabe fazer bolo de chocolate? – ela perguntou para Elza.

- Com cobertura de marshmellow. O que me diz? – ela perguntou a Hanna.

- Ela dirá que você é o novo amor da vida dela, Elza – Adrian brincou.

- Se você fizer esse bolo eu vou dizer que você é o amor da minha vida também, Elza – constatei – eu
simplesmente amo chocolate!

Adrian pegou Collin na cadeirinha e subiu com ele para o quarto.

- Eu estou tão feliz – Hanna me disse enquanto entravamos.

- É mesmo? – perguntei – isso é muito bom querida. Sei que seu pai está muito feliz também.

Eu a levei pela mão até a sala.

- Vem – ela me disse – vou te mostrar o meu quarto.

Subimos pelas escadas e caminhamos até o corredor. Do lado oposto ao quarto de Adrian,
Hanna abriu a porta. Era o sonho de qualquer garota de seis anos – rosa, todo rosa.

- Acredita que nem me lembrava deles? Ela me perguntou abraçando os ursinhos em cima da cama.

Não pude deixar de sorrir, mas não era um sorriso feliz. Era triste pensar nessa divisão que
existia na vida deles. Eu queria que Adrian resolvesse os problemas com a megera e que tudo isso
pudesse ficar no passado. Tenho certeza que era o que Patrícia queria também.

- Ah não se preocupe querida – eu disse me abaixando ao nível dela – sei que eles entendem.

Hanna abriu os braços e se lançou sobre mim, afundando a cabecinha nos meus cabelos.

- Laura eu estou tão feliz, mas não é só por causa do papai – ela me disse ainda sem me olhar.

- Não querida? E porque você está tão feliz assim? – eu disse fazendo cosquinhas nela.
Ela ajeitou os cabelos bagunçados com as mãos e suspirou.

- Eu sempre quis uma mãe, sabia?

Engoli em seco todo o bolo de sentimentalismo que surgiu dentro de mim. Suspirei
profundamente, encarando seus olhinhos amendoados. Sorri.

- Eu não me lembro da mamãe – ela continuou – quer dizer, eu lembro um pouco. Mas ás vezes é tão
difícil lembrar. Papai me deu um retrato dela. Ele disse que quando estivesse difícil de lembrar eu
poderia olhar a fotografia.

Senti as lagrimas se formarem lá no fundo da minha garganta e as engoli, afastando dos


olhos.

- É uma boa coisa Hanna. Assim você pode se lembrar de todos os detalhes da sua mãe.

Ela pensou por um instante e depois sorriu com toda a sua inocência.

- Você pode ser a minha mãe se você quiser!

Laura, Laura! Terreno perigoso, muito perigoso. Controle seus sentimentos! Não seja
estupida. Adrian já deixou muito, muito claro que não é por esse caminho que as coisas seguirão –
eu disse mentalmente.

- Eu não posso ser sua mãe Hanna – comecei devagar – porque você já tem uma mãe, mesmo
morando no céu. Mas – continuei sorrindo – eu posso ser uma amiga muito, muito especial para você!
Com que você sempre poderá contar.

- Uma amiga quase mãe? – ela insistiu.

Sorri, vencida.

- Sim querida, quase mãe!

- Ótimo porque uma quase mãe é melhor que nenhuma mãe.

Deixei Hanna na cozinha com Elza. Banho tomado, cabelo penteado, pijama vestido, e subi
para o quarto de Adrian.

Ele estava na cama. Cabelos molhados, penteados para trás, camiseta regata branca e uma
calça de exercícios. Collin aconchegado em seu peito, folheando um livro colorido. Parei no batente
da porta e sorri.

- O que acha de se juntar á dois homens elegantes na cama? – Adrian brincou.

- Parece um bom convite – respondi.

Deite-me ao lado de Collin, deixando-o entre nós dois.


- É uma história de piratas – Collin me disse – papai conta muito bem. Ele faz a voz do pirata de um
olho só ficar engraçada.

- Ah eu tenho certeza que faz Collin.

Algumas paginas mais tarde, Hanna entrou, segurando uma bandeja cheia de bolo de
chocolate.

- Oba! Oba! Oba! – ela dizia olhando para os pedaços.

- Não pense que irá comer besteiras todos os dias. Certo, mocinha? – Adrian disse sentando-se e
arrumando Collin – estamos abrindo uma exceção hoje.

Ela bufou, mas concordou, assentindo enquanto mastigava o bolo.

- Papai você sabia que Laura topou ser minha quase mãe?

Tossi, engasgada com o bolo de chocolate. Adrian riu alto, não sei se de mim ou de Hanna.

- É mesmo?

- Sim.

- Ela disse “quase mãe” porque eu já tenho a mamãe no céu – Hanna explicou.

- Isso mesmo anjinho, você tem a mamãe no céu.

- Laura você quer ser minha mamãe também? – Collin perguntou.

Estávamos ali, em uma daquelas situações difíceis que casais com filhos tem e nós nem
éramos um casal, propriamente dito. Encarei os olhos verdes de Collin, tão claros e delicados.

- Laura eu também quero que você seja minha mãe – John disse aparecendo na porta – mas acho que
ninguém vai acreditar, então você pode ser a minha prima sexy do Canadá – ele brincou – ou você
pode ser a namorada jovem, muito jovem do meu velho pai.

Sorri.

- Bobo!

Adrian não sorriu. Pareceu mastigar o bolo por tempo demais, encarando John. Olhou no
relógio.

- Um pouco cedo para um boêmio principiante – brincou.

- Sabe como é, estou cansado das mesmas garotas – John brincou de volta – pensei em dormir mais
cedo. Acho que é uma crise de saudades de casa. Se não passar, me interne!

Eu podia ver um pequeno sorriso se formar nos lábios de Adrian, acompanhado pelo sorriso
torto de John. Era engraçado e intenso como os dois se relacionavam. Quase como irmãos.

John girou nos calcanhares e se afastou da porta. Colocou a cabeça de volta no batente um
segundo depois.

- Sr. Galagher – ele disse – Acha que ainda consegue tocar guitarra?

Adrian levantou uma sobrancelha. Não sorriu, mas o sorriso estava ali, em seus olhos,
admirando o filho na porta.

- Dizem que é como andar de bicicleta.

- Será que a gente podia praticar um pouco amanhã? – John concluiu.

- Claro filho. Quando você quiser.

John sorriu. Era um sorriso falso e sem humor, mas o sorriso verdadeiro também estava ali,
em seus olhos.

- Ah e pai. É bom estar em casa.

***

Acordei com Hanna e Collin em minha cama. Sentei-me devagar, para não despertá-los e
fiquei observando enquanto dormiam. Eu estava feliz, mas havia uma sensação ruim, bem lá no fundo
do meu peito que me dizia que amanhã eu teria que deixa-los e eu não estava preparado para isso.

Procurei por Laura no quarto de hospedes, mas não a encontrei. Desci as escadas e escutei
vozes na cozinha. Três vozes, distintas e conhecidas, rindo e brincando em uma linguagem que eu não
entendia. Sorri – eu precisava aprender esse maldito português logo, ou meu filho acabaria
colocando Laura contra mim.

- Eu agradeceria se todos pudéssemos falar em um idioma comum – praguejei pegando uma xicara e
enchendo de café – eu odeio ser insultado em línguas estrangeiras pela manhã.

- Nós estamos no Brasil – Laura começou – portanto não é exatamente uma linguagem estrangeira.

- Muito boa Laurinha! – John concluiu.

Levantei uma sobrancelha para ele, em silencio, e concentrei meu olhar em Laura.

- Bom dia Srta. Soares – eu disse provocativo.

- Bom dia Sr. Galagher – ela respondeu.


Nossos olhares estavam fixos um no outro. Não era fácil esconder tanta atração,
especialmente se eu não estava disposto a fingir. Não para John, nem para Elza. Meu filho já era um
homem. Além disso, ele já tinha me visto com outras mulheres.

Caminhei até Laura, encostada no balcão de refeições, John estava do outro lado, sentado
sobre uma banqueta, comendo um pedaço de pão doce.

Parei na frente de Laura, perto demais, vendo-a sem jeito, sem entender. Levei a mão até seu
rosto, e a puxei para mim, pela nuca. Mordendo seu lábio inferior e trazendo seu corpo para o meu
com a outra mão.

- Adrian! – ela xingou.

Apertei minha boca na dela, mordendo seus lábios, brincando com ela.

- Adrian – ela repetiu, tentando se soltar.

- O que foi amor? Acha mesmo que ele não sabia? – eu ri alto – anjo, você é ingênua demais para o
seu próprio bem.

- Ok pai – John me disse levantando para pegar uma maçã – já provou seu ponto. Você é o macho
alfa soberano.

Beijei o rosto de Laura e a apertei contra o meu peito.

- É sempre um prazer esclarecer as coisas pra você Johnny.

John sorriu – era um apelido antigo, de quando ele ainda era criança. Era um pequeno elo
com o passado. Fazia muito tempo que eu não o chamava assim.

- Papai? – Collin chamou lá de cima.

Eu estava me virando para ir vê-lo quando Laura tocou meu braço com a mão.

- Eu vou vê-los. Aproveite o café de macho com a sua cria.

Fiquei encarando-a sumir pelo corredor, com a caneca de café na mão.

- Sério Sr. Galagher, essa sua cara de bobo quando olha para ela é engraçada.

- Que cara de bobo garoto? Perdeu a noção do perigo? Acha que só porque tem quase – eu frisei bem
– a minha altura pode falar comigo como se eu fosse seu um dos seus amigos?

Não era uma bronca de verdade. Era uma brincadeira mascarada de bronca. John me
conhecia o suficiente para saber disso. Ele sabia que no fundo eu só queria tirar a atenção do
verdadeiro foco – Laura.

- você é pai – John me disse.


Ele abriu a porta que dava para o jardim. E saiu pela calçada.

- O que eu sou garoto insolente?

- Um dos meus amigos – ele disse com aquele maldito sorriso que fazia meu coração derreter – um
dos melhores. Está entre os cinco mais.

Sorri sem querer.

- E pai – ele continuou, já de costas para mim – ela é uma garota legal. Não estraga essa, ok?

Atirei uma uva em suas costas, em cheio, entre as omoplatas.

- Por acaso você anda falando com o Alex, garoto? – brinquei.

- Algumas vezes.

- Pois eu vou cancelar sua conta de telefone celular.

Eu tinha mandado construir um pequeno estúdio no quintal, quando John aprendeu as


primeiras notas. Ele estava indo até lá, eu sabia disso. Eu havia dito que tocaria com ele. Era um
pequeno momento entre pai e filho. Era o jeito dele de reclamar um pouco da minha atenção. Não era
fácil, tendo dois irmãos tão pequenos. John acabava sempre negligenciado. Hoje eu não faria isso. Já
que eu tinha Laura comigo, eu me dedicaria á ele.

Terminei meu café e caminhei até a o estúdio. John estava sentado com a velha guitarra no
colo. Era a que ele havia pedido que eu trouxesse. A que ele mais amava. Uma guitarra que eu havia
comprado muito tempo atrás. Fechei a porta e me sentei no sofá ouvindo-o tocar.

Era uma melodia conhecida, “Red House”. Uma musica que eu costumava tocar para ele
quando era pequeno, antes de Hanna nascer. Eu havia negligenciado muito meu casamento, mas por
mais que fosse jovem e imaturo, meus erros com John nunca foram por falta de amor. Eu o havia
amado desde o primeiro choro. Desde o primeiro sorriso. Quando encarei aqueles pequenos olhinhos
amendoados na vitrine do berçário, eu soube que não poderia amar nada mais no mundo do que eu o
amava. E foi exatamente assim com Hanna, anos mais tarde e com Collin também, mesmo não sendo
meu.

- Então pai – ele interrompeu meus pensamentos. Abri os olhos e o encarei.

- Hendrix* ficaria orgulhoso.

Ele não disse nada. Continuou tocando, mas seus olhos estavam cheios de orgulho por ter o
talento reconhecido.

Ficamos ali por um longo tempo, ouvindo a musica ecoar pelas paredes, curtindo o
momento, em silencio. Os dois. Nós não éramos homens de muitas palavras, mas nosso silencio era
confortador.
Depois de algum tempo, John cortou o silencio entre nós.

- Vovó anda meio triste pai – ele me disse – meio calada. Encontrei-a chorando outro dia. Ela estava
com uma foto da mamãe nas mãos.

Senti meu peito se apertar. Pensar em Patrícia ainda me fazia sofrer. Era um erro que eu não
podia consertar, por mais que tentasse.

Suspirei, encarando os olhos do meu filho. Eu sabia que ele sofria tanto quanto eu.

*Jimi Hendrix - James Marshall "Jimi" Hendrix foi um guitarrista, cantor e compositor norte-
americano. É o melhor e maior guitarrista da história do rock, e um dos mais importantes e influentes
músicos de sua era, em diferentes diversos gêneros musicais.

- Eu queria que as coisas tivessem sido diferentes filho – eu disse – eu realmente queria. Queria ter
sido um marido melhor. Um pai melhor.

- Acho que você vai ter seus pedidos atendidos, Sr. Galagher – ele me disse erguendo a sobrancelha
exatamente como eu fazia.

Eu sabia que ele falava de Laura, mas não sabia como explicar á ele que eu não estava
disponível para isso. Eu não queria outro casamento. Outra esposa infeliz, suportando minhas manias
e meu gênio ruim. Eu gostava de ser apenas eu . Gostava de mandar em minha casa e em minha vida.
Eu não era bom em dividir as coisas.

- Não estraga essa, ok pai? – ele repetiu – sério! Não estraga.

- Acho que você fala demais porque só sabe tocar essa maldita música – eu disse encerrando o
assunto.

John sorriu. Um riso alegre e aberto, alto, realmente feliz.

- Me deixa dar uma volta na sua moto que eu toco o que você quiser – ele provocou.

- Faça dezoito anos e tenha uma habilitação e eu te deixo dirigir o que você quiser – eu disse, vendo
seus olhos se acenderem – menos o meu Porsche – conclui.

- Essa é uma coisa que me faria voltar á Holanda, Sr. Galagher.

- Minha moto? – perguntei.

- Não. Seu Porsche.

Hanna entrou pela porta como o pequeno furacão que era.

- Papai! Papai! Papai! – ela disse pulando sobre mim.

- Sim anjo. Diga.


- Vovó está aí.

Eu não queria entrega-los. Não estava preparado ainda. Eu havia rezado a noite toda para
que Margarida só aparecesse no final da tarde. Eu queria aproveitar o ultimo dia com eles. Queria
aproveitar cada minuto.

Olhei para John e ele para mim – nós dois sabíamos exatamente o quanto custava mais uma
separação.

Peguei Hanna no colo e saí para o jardim. Laura estava sentada no deck da piscina com
Collin, Margarida em pé, observando.

- Bom dia Margarida – eu disse.

- Bom dia Adrian.

- Pensei que viria mais tarde – continuei – eu havia prometido á Hanna que brincaríamos na piscina.

Margarida me analisou por alguns segundos. Olhos pesados, profundos. Havia algo diferente
ali. Algo que eu não conseguia decifrar. Ela não parecia mais a mesma mulher forte e poderosa,
disposta a brigar por tudo e todos. Desde que eu a havia visto, no dia em que chegamos, eu havia
percebido algo diferente nela. Ela encarou Hanna, demorando-se por um tempo longo demais. Correu
os olhos até Laura e Collin. John a puxou em um abraço.

- Bom dia Bom dia Sra. Tavares – ele disse beijando sua testa – faz um lindo dia hoje, não acha?

Ela sorriu.

- Acho sim, pequeno Sr. Galagher. Acho que faz um lindo dia.

Sua cabeça pendeu levemente contra o peito de John e eu quis entender o que havia de
errado. Eu não tinha nada contra ela. Nada além do fato de ela querer roubar meus filhos de mim. Eu
nunca quis afastá-los dela. Nunca quis que se esquecessem da mãe ou da família dela.

- Papai eu não quero ir embora – Collin choramingou.

- Mas você precisa filhote. Sua avó deve ter algum compromisso, por isso veio busca-los – eu disse
baixando até ele.

- Na verdade – Margarida interrompeu – eu não vim buscar as crianças. Vim convidar Laura para
almoçar.

Meus olhos correram direto para Laura e os dela para mim – nenhum de nós fazia ideia do
que isso significava.
Capítulo 14

Encarei os olhos de Adrian porque, sinceramente, eu não sabia se queria ouvir o que a tal
Margarida queria me dizer.

E lá estava o fantasma do meu dedo podre para a felicidade, rondando minha vida
novamente.

- Então Laura – ela disse, dirigindo-se diretamente á mim e em português – almoça comigo?

- Bem – comecei rezando para que Adrian ou qualquer um me ajudasse a terminar a frase – não sei se
seria possível. Adrian e eu temos alguns negocio á resolver – conclui.

Os olhos amendoados de Adrian eram confusos quando ele começou a falar.

- Acho que – ele disse mais lento do que o costume – acho que seria bom Laura. Eu posso resolver
os – ele fez mais uma pausa para que tentássemos conversar nas entrelinhas – os assuntos que
discutiríamos hoje.

Não tínhamos assunto nenhum para discutir hoje! – só para esclarecer.

- Então – eu disse ainda olhando mais para ele do que para Margarida – acho que seria bom – não
tinha certeza, mas não sabia como dizer o contrário.

- Ótimo! – Margarida disse passando os olhos entre Adrian e eu – podemos ir? Eu queria algum
tempo para conversarmos.

- Claro! – eu disse me levantando – vou me vestir e podemos ir.

Subi as escadas meio sem saber o que pensar. Era estranho almoçar com a mãe da ex-esposa
do meu seja lá o que for que fossemos. Vesti um jeans e uma blusa de botões. Calcei sandálias de
saltos altos e amarrei meu cabelo em um coque folgado. Estava terminando de passar o rímel, quando
Adrian entrou e fechou a porta do banheiro.

- Laura – ele disse atrás de mim, seu reflexo preocupado no espelho – não faço ideia do que
Margarida quer. Realmente não faço.

Virei-me de frente para ele. Eu sabia que ele estava nervoso. Se era difícil para mim, para
ele era pior. Ele suspirou e continuou.

- Quero que tome cuidado com essa conversa. John me disse que ela demonstrou interesse em nossa
relação. Não sei como ela reagiria se soubesse de algo.

Sorri.

- Não se preocupe Sr. Galagher. Tudo que a Sra. Tavares saberá é que eu trabalho com o senhor, e
nada mais. Sigilo é um direito do cliente, caso não se lembre.
Adrian sorriu, prensando-me contra a bancada da pia. Sua boca passeando pelo meu
pescoço, arrepiando minha pele. Ele mordeu todo o caminho até minha boca e puxou meu lábio
inferior entre os seus.

- Hum – ele gemeu – o sabor do profissionalismo te deixa ainda mais gostosa, minha linda advogada.

Cruzei meus braços em suas costas, por baixo dos braços, puxando-o para mim. Adrian
apertou o ritmo do beijo, invadindo minha boca com sua língua. Arrancando um gemido involuntário
do fundo da minha garganta. Suas mãos na base da minha coluna.

- Acho melhor pararmos por aqui, Sr. Galagher, ou a pobre mulher vai morrer de fome.

Adrian sorriu.

- Se tiver qualquer problema, amor, ligue em meu celular e eu resolvo. Não se deixe intimidar por
Margarida. Ela pode ser bem arrogante quando deseja.

Quando saí pela porta, eu estava num misto de desespero e excitação pelo que ouviria. Seria
interessante ouvir alguém que não gostava, admirava ou queria ir para a cama com Adrian falar dele.

Entramos em um carro com motorista e saímos pelas ruas da cidade. O motorista parou em
frente ao restaurante Fasano, nos Jardins. Eu não conhecia, obvio, quando saí do Brasil, meu salario
mensal mal pagava um almoço no Fasano.

Descemos do carro e nos sentamos em uma mesa.

- O que gosta de comer, Laura? – ela me perguntou.

- Não tenho restrições quanto á comida – eu respondi – eu realmente como de tudo. Tem algo á me
recomendar?

Eu queria ser simpática. Não queria começar minha relação com a mulher parecendo sisuda
e chata. Eu nem tinha motivos para isso, ela havia sido simpática comigo desde que nos conhecemos.

- Neste caso – ela continuou – tenho sim. Ela indicou um prato no cardápio e eu li – minha filha
adorava este.

Era um prato com cogumelos. Parecia uma ótima opção.

- Parece bom – eu disse e sorri.

- Sei que pode parecer um pouco ridículo recomendar algo á você algo que Patrícia gostava, mas
acredite, ela tinha um gosto apurado.

Margarida sorriu sem humor. Eu podia sentir a dor e o sofrimento por trás das suas
palavras.

- Não vejo porque seria ridículo – eu disse fechando o cardápio – se é um bom prato, então, ficarei
feliz em experimentar.

- Fico feliz que pense assim. Não queria que Adrian apagasse minha filha da vida dos seus filhos. Sei
que você pode ajuda-lo com isso.

Era uma preocupação genuína. Eu podia compreender perfeitamente as razões que a levaram
a ter esse medo. Eu sabia da traição, mesmo que não fosse por Adrian.

- Não penso que ele tenha essa intenção, Margarida – eu disse.

- O quanto você sabe da relação de Adrian com minha filha, Laura? – ela me perguntou.

Pensei por um tempo curto, o suficiente para dizer a coisa certa, sem me complicar depois.

- Sei o suficiente.

- Então sabe que ele a traiu repetidas vezes. Sabe que a deixava sozinha repetidas noites. Que era
agressivo e que sempre deixou claro o quanto era machista e retrogrado. E deve saber também, que
bem – ela parou a frase no meio procurando pelas palavras certas – o relacionamento íntimo deles
era um pouco – mais uma pausa – intenso demais.

Senti o rubor correr por minhas faces. Eu sabia de algumas dessas coisas, imaginava outras,
mas ouvir dela era bem desconfortável.

- Tenho certeza de que ele não age assim com os filhos.

- Esse Adrian que eu vi nos últimos dias, Laura, é completamente desconhecido para mim. Resta
saber qual dos dois é o verdadeiro Adrian.

Bebi um gole do vinho.

- Bem, eu o conheço á pouco tempo – continuei – mas não o vejo tendo nenhuma dessas atitudes com
os filhos. Sei que ele os ama muito.

- Eu tenho acompanhado muitos dos relacionamentos de Adrian desde a morte de Patrícia – ela disse
mudando de assunto – devo dizer que a senhorita não se parece com nenhuma das possíveis
namoradas.

- Não sou namorada de Adrian, Margarida – eu disse taxativa.

- E porque não é?

Wow! Pergunta interessante! – porque eu não sou? Ah, sim, porque Adrian Van Galagher
não tem relacionamentos.

- Não sei o que pensa que está acontecendo, mas posso garantir – comecei e fui interrompida.

Margarida cobriu minha mão com a sua sem me dar tempo de impedir.
- Eu penso que você conseguiu em algumas semanas, uma mudança que Patrícia tentou por anos.

Engoli o vinho de uma vez, sentindo o álcool queimar minha garganta em seu caminho de
ida. Eu queria sorrir, meu coração se enchendo de algo perigoso. Foco Laura, foco!

Nossos pratos chegaram e nos fizeram adiar a conversa por um momento. Dei a primeira
garfada em meu medalhão com cogumelos.

- Acho que sua filha tinha realmente muito bom gosto para comida – eu disse sorrindo e tentando uma
trégua em nosso assunto complexo.

Margarida deu uma garfada em seu salmão e bebeu o vinho.

- Adrian está apaixonado por você, Laura. Eu teria que ser muito cega para não perceber.

Engasguei. Tossi. Cobrindo minha boca com o guardanapo de linho. Sentindo as lágrimas
aparecerem pelo engasgo. Bebi meia taça do vinho em uma única golada.

- E eu diria, pela sua reação, que também está apaixonada por ele.

Limpei a garganta. Limpei a boca com o guardanapo e respirei fundo.

- Margarida – comecei – Adrian e eu não vamos por esse caminho. Eu realmente o admiro muito –
tentei parecer confiável –sei que ele gosta do meu trabalho, mas não acho que as coisas sejam assim.

Margarida suspirou profundamente, abriu a bolsa e retirou alguns papeis. Entregou-os á


mim.

Peguei as folhas e comecei a ler. Eram exames. Vários e vários exames que eu não conhecia.
Pareciam muito específicos.

- Patrícia tinha uma doença – ela me disse – ela era portadora da doença de Von Recklinghausen*.

Fiquei em silencio. Eu não conhecia a doença, sabia apenas que ela tivera um tumor na
cabeça inoperável e que morreu por isso. Encarei os nomes no alto das folhas e eles não eram de
Patrícia, eram de Margarida Maria Tavares.

- Essa doença é hereditária – Margarida esclareceu – e agora eu fui contemplada com o meu quinhão
dessa herança. É uma neurofibromatose, Laura. Ela pode causar tumores diversos pelo sistema
nervoso.

- Oh meu Deus – eu disse baixinho – sinto muito Margarida. Eu realmente sinto.

*Von Recklinghausen – As neurofibromatoses, também conhecidas como Doença de Von


Recklinghausen, são doenças genéticas autossômicas dominantes que têm em comum o surgimento de
tumores benignos múltiplos no sistema nervoso. As neurofibromatoses são de evolução progressiva e
imprevisível.

Eu sentia mesmo. Não pensava que ninguém merecia saber que poderia desenvolver um
tumor em algum lugar do sistema nervoso e ficar entrevado ou morrer. E pior, que não havia nada que
se pudesse fazer para evitar.

Analisei melhor os exames, constatando alguns pontos.

- Como pode ver, eu estou doente – ela concluiu – tenho um tumor na espinha. Eu provavelmente não
vou mais poder andar em alguns meses.

Eu não sabia o que dizer. Era um daqueles momentos em que não sabemos como fazer a
pessoa sentir-se melhor sem mentir, e Margarida não me parecia o tipo que gostava de mentiras.

- Adrian não sabe de nada disso – constatei.

- Não ele não sabe. Ele nem mesmo sabe que Patrícia tinha essa doença. Os médicos não associaram
o tumor á doença na época, porque ninguém em nossa família havia desenvolvido o problema. Ou
pelo menos não que soubéssemos.

- Margarida. Sei que a medicina está evoluindo rapidamente. Quem sabe em alguns anos não seja
possível reverter o quadro.

Eu queria dizer algo que a deixasse mais animada.

- Não estou preocupada comigo Laura. Eu sou uma mulher velha. Mais dia, menos dia eu não iria
mesmo poder andar – ela disse sem pesar. Não parecia mesmo preocupada com o problema – Eu tive
muito medo que meus netos tivessem a mesma falta de sorte da mãe deles, Laura. A razão para eu tê-
los segurado no Brasil foi essa.

Oh meu Deus! Então era isso! Não era dinheiro. Nem raiva ou mágoa. Na verdade não tinha
nada á ver com Adrian – ela estava preocupada com os netos.

- Sei que deveria ter conversado com Adrian – ela começou, tirando as palavras da minha boca –
mas você deve entender que aquele homem que eu conheci não era exatamente o que eu esperava
para criar meus netos sozinhos. Eu esperei que a morte de Patrícia amadurecesse Adrian, mas isso
foi lento demais. Ele não estava preparado para enfrentar um problema como esse. Agora que ele tem
você – ela me disse, segurando minha mão novamente – sei que você o ajudará nesta tarefa
complicada.

Engoli as palavras de Margarida com medo de que viria seguir. Era uma pergunta para a
qual eu não saberia se gostaria da resposta. Mesmo assim, perguntei.

- Está tudo bem com as crianças?

Margarida respirou fundo, fazendo a saliva travar em minha garganta.


- John Albert e Hanna tem genes fortes. Parece que o sangue dos Van Galagher é realmente ruim.

Era uma piada, mas nós duas não rimos.

- E Collin?

Minha mente passava e repassava a imagem daqueles lindos olhinhos claros e eu queria
chorar antes mesmo de saber.

- Collin não teve a mesma sorte.

Soltei os papéis sobre a mesa, vendo-os espalharem-se sobre o tampo, sentindo as primeiras
lagrimas brotarem.

- Ah não, Laura, não se preocupe. Collin está bem. Ele não tem indícios de tumores. Tem um
crescimento normal. O que acontece é que foram encontradas algumas células anômalas, elas podem
indicar que ele é portador da doença. Isso não significa que ele irá desenvolver algo ou quando irá
desenvolver.

Eu não conseguia parar de chorar, sentindo as lágrimas virem mais e mais rápido para fora
dos meus olhos. Eu não podia crer que depois de todo o sofrimento que aquele pequeno garotinho
tinha passado ele ainda teria que enfrentar tudo isso.

- Entende porque eu os queria aqui? – ela me perguntou – eu queria protege-los. Queria ter certeza de
que tudo estava bem.

Assenti.

- Eu não queria entregar Collin para Adrian porque não sabia se ele realmente se comprometeria com
os tratamentos preventivos dele. Eu tive medo que ele apenas os entregasse á uma babá e continuasse
vivendo sua vida, como fez, durante todo o casamento.

Fazia certo sentido. Se eu conhecesse esse Adrian á quem ela se referia, eu teria pensado o
mesmo. Não era como uma briga por herança ou coisa assim – eles eram os netos dela, eram tudo
que restou da sua única filha.

Sorri.

- Eu compreendo.

- Nesses últimos dias, Laura, esse novo homem que eu conheci, bem, acho que ele tem o direito de
criar os filhos e o fará muito melhor que uma pobre velha entrevada em uma cadeira de rodas.

Toquei sua mão com a minha.

- Vou desistir da guarde Collin – ela me disse – mas vou fazer isso com uma condição.

Continuei escutando, enquanto estendia-os de volta para ela.


- Quero que Adrian se case com você.

Derrubei as folhas dentro do prato de salmão de Margarida.

- Oh Deus! – exclamei – me desculpe Margarida.

Margarida sorriu.

- Não se preocupe, o almoço era o menos importante. Eu só queria que soubesse o que eu tinha em
mente antes de Adrian. Eu não quero força-la á nada Laura, mas preciso de garantias sobre o futuro
dos meus netos.

- Margarida de tudo que eu podia se quer pensar em ouvir, isso definitivamente, não está nem perto.
Não sei nem o que dizer. Como advogada de Adrian – comecei, mas ela me interrompeu.

- Como advogada do Sr. Galagher eu, sinceramente, não sei o que deve pensar á respeito do que eu
lhe disse, mas e como mulher, Laura? Eu não sou cega, sei que Adrian é um homem muito bonito,
envolvente, poderoso. O que pensa de se casar com ele?

- Eu não sei. Não pensei no assunto – menti – eu realmente não pensei em nada do tipo com Adrian –
menti de novo – como eu lhe disse, nosso relacionamento é profissional – mentira, mentira, mentira.

Uma avalanche de mentiras, revirando o pouco de comida que eu tinha colocado para
dentro.

- Se me disser que não quer Laura. Que não deseja nem de longe ser a Sra. Galagher, eu não vou
dizer nada e veremos o que fazer no caso de Collin. Hanna e John podem voltar á Holanda quando
quiserem. Não quero ser acusada de sequestro interparental, nem de retenção indevida. Você só
precisa me dizer que não Laura.

Eu não disse nada. Não poderia.

***

Parei em frente ao Parque Villa Lobos horas depois de sair com Margarida. Minha cabeça
girava tanto que eu quase não conseguia ter um pensamento coerente – Collin estava doente. Meu
menininho. Meu garotinho tão pequeno e frágil. Meu bebê. Eu faria qualquer coisa por ele!
Qualquer coisa! Mas casar? Ela simplesmente queria que eu me casasse.

Estacionei o carro e desci. Encostei-me ao capô, deslizando as mãos pelos cabelos – eu


nem sabia como entrar em casa encarar Laura.

Peguei o celular no bolso e disquei.


- Então, como anda o clima nos trópicos? – Alex respondeu assim que atendeu.

- Quente, meu amigo, o clima anda quente. Eu diria que é quase como uma erupção do Vesúvio e eu,
me sinto como Pompéia.

Alex sorriu.

- Não me diga que a megera criou algum tipo de problema – ele me disse – se for isso eu pego um
voo agora mesmo e vou até aí chutar a bunda dela com o código civil.

Cocei minha barba – porque era o que eu fazia quando estava nervoso.

- Collin está doente Alex.

- Oh meu Deus Adrian! O que ele tem? Algo que possamos fazer? Você precisa de mim?

Suspirei – meu amigo, sempre ao meu lado.

- Por enquanto, nada que possamos fazer, mas vou mover os céus e o inferno até encontrar algo que
garanta uma vida perfeita para o meu filho.

- Minhas suspeitas á respeito de Patrícia estavam corretas?

- Sim.

- Sinto muito Adrian. Eu realmente sinto. Você sabe como eu queria estar errado.

- Tem mais – continuei – Ela quer que eu me case Alex – eu disse de uma vez.

- Quem? Laura?

- Margarida.

- Oi? Acho que não entendi. Margarida quer se casar com você?

Suspirei – eu odiava explicar as coisas.

- Não seja ridículo Alex. Margarida quer que eu me case com Laura.

- Wow – ele disse – tiro certeiro.

- Não é uma brincadeira Alexander – corrigi – Margarida exige que eu me case com Laura para ter a
guarda de Collin. Esta é a condição dela. Sem briga, sem tribunal.

Alex ficou em silencio por tempo demais. Eu podia ouvir sua respiração no telefone, mas
ele não disse nada. Alexander me conhecia muito bem, ninguém melhor que ele sabia o que o
casamento significava para mim. Eu não queria me casar. Eu havia jurado sobre o tumulo de Patrícia
que não me casaria mais.
- Seria algo tão ruim assim se casar com Laura? – ele disse de repente.

Repassei as palavras em minha mente sem dizer nada. Respirei fundo, soltando o ar dos
pulmões bem devagar.

Era uma coisa ruim me casar com Laura? Laura era uma garota gentil, inteligente. Muito
bonita. Seria um sacrifício tê-la ao meu lado?

Sorri – Ela certamente tornaria os intermináveis jantares chatos em algo mais divertido.

Eu poderia preparar um bom acordo para ela. Ela sairia desse acordo financeiramente
tranquila, e isso certamente encerraria qualquer tipo de boato sobre seu passado. Ser a Sra. Adrian
Van Galagher limparia qualquer mancha da imprensa jogada sobre ela. E, além disso, ela ainda me
livraria de mulheres como Clair. Eu poderia conversar com Laura, acertar os detalhes desse acordo.
Talvez acabasse por ajudar nós dois. E eu poderia cuidar de Collin muito melhor. Eu poderia leva-lo
á qualquer médico, pagar qualquer tratamento. Eu poderia garantir o melhor á ele.

- Tem razão Alex – eu disse por fim – isso pode ser uma coisa boa. Quer dizer, um acordo
interessante para nós dois. Ela pode me devolver meus filhos e eu posso resolver todo o seu futuro.
Não vejo como não possa dar certo.

Alex suspirou.

- Não era bem o que eu tinha em mente, mas o que eu sei não é? – ele disse irônico.

- Não estou entendendo Alexander, seja mais direto.

- Adrian só não se esqueça do que eu já lhe pedi.

Bufei.

- Não magoar Laura, porque ela é doce e meiga e não merece. Eu já sei disso tudo Alexander. Estou
cansado de ouvir de você e de John. É exatamente por isso que vou assegurar os direitos de Laura em
um contrato pré-nupcial.

- Ah meu amigo. Você é tão inteligente e ás vezes faz-se de burro, mas tudo bem, não estou aqui para
lhe julgar. O que quer que eu faça como seu advogado, Sr. Galagher? Já que como amigo você não
quer me escutar.

- Quero que prepare um bom acordo. Que seja generoso. Mande-me ainda hoje e eu o revisarei antes
de falar com Laura.

- E de quanto tempo deve ser esse acordo?

As palavras entraram por meus ouvidos e trouxeram um turbilhão de emoções á mim.


Quanto tempo? Quanto tempo eu queria com Laura? Cenas da ultima noite passando em minha
mente como um filme. Eu queria um prazo?
Afastei os pensamentos da minha mente. Não era real. Isso não era um casamento real. Não
era como se estivéssemos apaixonados. Isso era um acordo. Era algo necessário para que eu tivesse
Collin.

- Coloque dois anos como prazo. É o que eu preciso para regularizar toda a situação de Collin.

- Mando o documento em trinta minutos.

Trinta minutos foi mais ou menos o tempo que levei para voltar até minha casa. Entrei em
meu escritório e fechei a porta. Não demorou muito para que Alexander me mandasse o documento.
Revisei o algumas vezes. Era uma quantia considerável em ações da minha companhia. Um milhão e
meio de euros em dinheiro para despesas emergências. Uma propriedade em Amsterdã, a casa do
Brasil, entre outros bens de menor valor. Era um bom acordo.

Inclui uma clausula sobre fidelidade. Eu queria ter certeza de que, apesar de ser um acordo,
Laura se comportaria como minha esposa. Eu não poderia lidar com o contrario. Eu não saberia
como reagir.

Li a ultima parte com pesar. Era uma clausula sobre herdeiros. Ela dizia que eu teria o
direito de guarda absoluta, caso viéssemos a ter um filho – o que não aconteceria – porque, se
houvesse alguma possibilidade de eu ter outro filho, não abriria mão dele, como não abri de nenhum
dos três. E dizia também que, caso eu morresse, Laura teria a guarda absoluta dos meus filhos, mas
Alexander ainda responderia pela herança deles.

Eu não me importava com isso por dois motivos, não pretendia morrer em tão pouco tempo,
e não conhecia ninguém melhor para cuidar dos meus filhos do que ela e ninguém melhor para cuidar
do meu dinheiro do que ele.

Imprimi o documento, deixei o sobre a mesa e caminhei pelo corredor. Encontrei Laura
saindo do quarto de Hanna.

- Pronto! Estão todos dormindo – ela me disse sorrindo – quer dizer, menos John. Acho que ele saiu.

Sorri.

- Laura – eu disse calmamente – precisamos conversar.

Ela suspirou.

- Sim. Eu sei.

- Venha até o escritório.

Caminhamos até o meu escritório. Entramos. Fechei a porta e ela se sentou em uma poltrona.
Eu acendi um cigarro e soprei a fumaça pela janela.

- Não precisa fazer isso se não quiser – eu disse sem encará-la – você realmente não precisa. Nós
podemos seguir pelo caminho legal.

Laura ficou em silencio por um tempo. Seus pensamentos estavam longe.

- Quero que saiba que, caso aceite, teria um prazo – expliquei – não precisa ser definitivo. Você não
precisa estar nessa situação para sempre. Seria um acordo bem estruturado.

Ela continuava me encarando sem dizer nada.

- Quero que seja bom para você Laura. Que seja um bom acordo, um acordo justo.

Eu me aproximei dela e baixei ao seu nível, segurando suas mãos entre as minhas.

- Não seria muito diferente do que temos hoje, amor, eu só precisaria que usasse uma aliança com o
meu nome por algum tempo.

- Um acordo? – ela me perguntou – com um prazo?

Eu não conseguia saber se o que se passava dentro dela. Não sabia o que ela achava disso
tudo.

- Exato.

- E o que aconteceria se algum de nós quebrasse o acordo?

- Teríamos uma multa, mas não acho que isso aconteceria. Eu estou disposto á fazer o que for preciso
para que esse acordo funcione. Quero meus filhos mais que qualquer coisa no mundo.

- Quanto tempo? – ela me perguntou dando um trago em meu cigarro.

- Dois anos.

- Você redigiu um documento? – ela continuou e soltou a fumaça.

Peguei as folhas sobre a mesa e entreguei a ela.

- Nenhum ponto sem nó para Adrian Van Galagher.

- Nunca anjo.

Ela correu os olhos pelo documento.

- Algumas coisas são necessárias legalmente, você sabe.

Eu não queria que ela se magoasse pela cláusula sobre filhos. Depois de um tempo ela
colocou os papéis de volta sobre a mesa.

- Só tenho uma ressalva.

- Diga.
- Não quero que esse contrato mude nada entre nós. Nós combinamos que deixaríamos as coisas
acontecerem. Quero que continue sendo assim, sem obrigatoriedades.

Aproximei-me dela novamente, encarando seus olhos.

- Não pretendo mudar as coisas, Laura, estou muito – disse traçando o contorno do espaço entre seu
polegar e o indicador com meus dedos – muito satisfeito com o que tem sido.

- Então eu preciso de uma caneta, Sr. Galagher. E acho que preciso de um anel.
Capítulo 15

Deixei Adrian no chuveiro e fui até a cozinha. Bebi um pouco de refrigerante e comi um
pedaço de torta de frango. Eu não havia comido nada desde o almoço e sentia meu estomago urrando
de fome.

Subi as escadas e não resisti. Entrei no quarto de Collin. Aproximei-me da cama. Ele estava
ali, dormindo um sono tão profundo. Os olhinhos fechados, bochechas vermelhar pela pressão do
travesseiro, sugando a chupeta sem parar. Ajoelhei-me e sentei-me sobre os tornozelos, correndo a
mão sobre seus cabelinhos.

“Vou cuidar de você anjinho” – eu disse em pensamento para ele – “Sei que não teve sua
mãe por perto, mas ela vai olhar por nós lá do céu e vai me ajudar a ser uma boa mãe para você”.

Eu podia sentir as lagrimas começando a cair.

“Vamos mostrar ao cabeça dura do seu pai que ter uma família pode ser uma coisa boa”

Eu estava dividida entre as lagrimas e um pequeno sorriso que se formava em meus lábios –
me casar. Eu iria me casar com Adrian Van Galagher. Isso era algo com o que eu não podia
sequer sonhar.

Fechei meus olhos e pensei no acordo que tinha acabado de firmar. Uma parte de mim
queria a oportunidade de ter Adrian, mesmo que fosse por um tempo e de maneira limitada. Outra
parte de mim gritava desesperada em alto e bom som que eu havia me vendido, exatamente como
todas as garotas estupidas das capas de revista que eu condenava.

Beijei o topo da cabecinha de Collin, sentindo seu cheirinho de colônia de bebê se espalhar
por minhas narinas. Eu sabia que era um caminho perigoso. Que me deixar levar por Adrian ou pelas
crianças era um caminho direto ao sofrimento, mas eu queria um pouquinho daquela felicidade.
Queria experimentar o que significava ter uma família também. Viver por alguém além de mim
mesma. E então a conclusão explodiu sobre mim como uma bomba – Não era pelo dinheiro. Não era
pelo poder ou pela fama de Adrian Van Galagher. Eu queria o homem por trás de tudo aquilo. Queria
ele. Queria Collin e Hanna. Eu queria aquele café da manhã com John falando bobagens e desafiando
o pai. Eu queria risadas e mãozinhas sujas de bala em minhas camisas de seda. Era isso.

“Espero que você esteja feliz com isso tudo” – eu disse mentalmente, analisando a foto da
garota dos olhos verdes com um Collin bebê nos braços – “Eu quero cuidar deles, Patrícia. Dos
quatro. Sei que as coisas não foram tão fáceis para você” – continuei sentindo meu coração pesar –
“Prometo que vou ama-los e não vou deixa-los se esquecerem de você”.

Suspirei fundo, traçando o rosto da moça com a ponta do meu dedo – “Ajude-me a vencer
aquela armadura do nosso pirata”.

Sorri para mim mesma. Era estranho conversar com alguém sobre o que eu sentia por
Adrian, mas parecia fácil falar com ela. Eu não sentia ciúmes ou qualquer coisa assim á respeito de
Patrícia. Eu sentia pesar. Era triste saber o que a vida reservou á ela. Eu não queria apaga-la da
memória de nenhum deles.

Estava ajeitando o cobertor sobre Collin, quando senti o peso das mãos de Adrian em meus
ombros e deixei minha cabeça cair para trás, apoiando-me em suas pernas.

- Ele vai ficar bem – Adrian me disse, mas acho que era mais para ele mesmo do que para mim.

- Nós vamos garantir que isso aconteça – conclui.

Ele me ergueu, levantando-me e abraçando-me pela cintura, de costas para seu peito. Beijou
minha clavícula com carinho e deixou o rosto ali, na curva do meu pescoço.

- Ás vezes eu acho que você é mesmo um anjo, Laura.

Sorri.

- Nem sempre, Sr. Galagher. Nem sempre.

- O que só torna as coisas muito mais interessantes – ele brincou.

Virei-me de frente para ele e o beijei. Suave, deixando que ele aumentasse o ritmo do beijo
devagar.

- o que acha de sairmos um pouco esta noite? – Adrian me perguntou – é nossa ultima noite no Brasil,
pensei em exibir minha noiva pelas ruas de São Paulo.

Sorri.

- Acho que eu é quem deveria pensar em exibi-lo, Sr. Galagher.

Adrian estreitou os olhos em um sorriso que me fez lembrar John.

- Seria um prazer.

Coloquei um vestido vermelho de seda, um pouco acima do joelho. Ele caía justo sobre meu
corpo e ressaltava um pouco minhas curvas. Era um vestido sexy.

- Anjo é a ultima coisa em que consigo pensar quando eu a vejo nesse vestido, Laura – Adrian
sussurrou em meu ouvido, parando bem atrás de mim.

Ele estava de calça social escura. Camisa branca, sem gravata. Mangas dobradas até os
antebraços, exibindo parte das tatuagens que eu amava tanto. Seus cabelos estavam arrumados
displicentemente para trás, sem gel, apenas ajeitados com as mãos. Ele parecia tão jovem. Pendurei-
me em seu pescoço, aspirando seu perfume para dentro de mim.

- Eu amo o seu cheiro – sussurrei contra sua pele.


Adrian segurou meu queixo com a ponta dos dedos, traçando o contorno dos meus lábios
com a mão livre. Não sorriu. Seus olhos estavam pesados de sentimento, mas ele não disse nada.

- Você é uma mulher perigosa, Srta. Soares – ele me disse com a boca tão próxima á minha, que eu
sentia seu hálito em meu rosto – é preciso manter os olhos bem abertos para não perder o controle.

Eu sorri. Não era um sorriso de humor, era um sorriso de sedução – ele nem fazia ideia de
como eu queria que ele perdesse o controle.

- Acho que deveríamos ir de uma vez, ou vou acabar com meu vestido todo amassado – eu disse
dando um beijo suave em seus lábios – e a noiva de Adrian Van Galagher não deve andar por aí com
vestidos amassados.

Ele me virou de costas, com as mãos espalmadas em cada lado do meu quadril, corpo
pressionado contra o meu. A boca colada em meu ouvido, nariz fazendo cocegas em minha pele.

- Hoje eu quero foder você com esse vestido, futura Sra. Galagher.

Engoli a saliva que se formou em minha boca toda de uma vez.

- Será um prazer satisfazê-lo.

Saímos para o jardim para encontrar um carro diferente. Era uma Limousine preta. Tinha um
motorista ao lado dela.

- Precisamos mesmo de tudo isso, Adrian? – perguntei achando graça.

Ele fez sinal para que o motorista abrisse a porta para mim e nós entramos. Sentamos um ao
lado do outro dentro do carro.

- Este é o nosso primeiro encontro Srta. Soares, não me faça perder o jeito – ele disse fingindo-se de
sério.

Sorri.

- Ok. Mas acho que, em geral, os homens impressionam as mulheres antes do pedido de casamento –
brinquei.

Ele me puxou para perto de si, segurando meu rosto e beijando minha boca devagar,
escorregando até meu pescoço, arrastando ondas elétricas por onde passava.

- Bem, Srta. Soares, esta é a diferença do que a experiência faz com os homens. Não desejo
impressioná-la. Desejo deixa-la sem palavras – sua mão subindo por minha coxa, até a renda da
calcinha – Sem ar – seus dedos se aproximando mais de mim até que eu soltei um gemido abafado –
sem chão.

Ele estava bem próximo do êxito, eu não tinha mais palavras, mas eu não iria dizer isso á
ele.
Paramos no estacionamento de um Shopping Center e Adrian desceu, dando a mão para que
eu descesse também. Havia uma moça com um terno preto nos esperando. Era uma moça bonita e
bem maquiada.

- Sr. Galagher, senhorita – ela disse sorrindo gentilmente – é um prazer tê-los em nossa loja. Se
puderem me acompanhar.

Circulamos até um elevador que não era publico. Subimos dois andares e a porta se abriu.
Estávamos dentro de uma loja. Ela estava fechada. As luzes apagadas. Eu podia sentir meu coração
martelar contra o peito. Estava ansiosa. Apertei a mão de Adrian na minha e ele repousou a mão livre
sobre meu ombro, deixando-me mais calma.

As luzes se acenderam e ele alcançou outro de seus passos, deixar-me sem ar – era uma loja
da Tiffany & Co.*

- Oh meu Deus Adrian – eu disse tapando a boca com as mãos.

- Você me disse mais cedo que precisava de um anel – ele me disse – bem, eu pensei a respeito e
cheguei à conclusão de que você tinha razão.

Meus olhos corriam pelas muitas joias expostas nas bancadas, sem quase conseguir respirar,
vendo o brilho dos diamantes refletirem em todas as cores do arco íris.

- O que quiser – ele disse em meu ouvido – é seu.

A moça sorriu para mim, indicando com as mãos uma parte especifica da loja, decorada
com objetos de noivas. Tinha uma liga branca, e um pequeno buquê de flores, arrumado junto á uma
grinalda.

*Tiffany & Co. – Joalheria norte americana. Tem sido a joalheria mais importante do mundo e a referência do design norte americano.

- Venha senhorita, vou mostrar-lhe nossos melhores anéis de noivado.

Anel de noivado – a palavra ressoando em meus ouvidos, revirando meu estomago de um


jeito bom e assustador ao mesmo tempo.

Eu me sentei em uma cadeira e ela expos vários modelos de anéis com diamantes imensos á
minha frente. Eu não podia deixar de pensar que um anel daqueles poderia pagar o meu aluguel
vitalício em Amsterdã.

Não Laura! – forcei-me a pensar – Não mais!


Meus olhos pousaram em um com um grande diamante no centro. Era uma pedra quadrada,
emoldurada por outros diamantes menores, presos por garras com um desenho intrincado que me
fazia pensar em renda. Era um anel absolutamente inacreditável.

- Acho que deveria experimentar este – Adrian disse, estendendo o anel para mim – espero que
tenhamos acertado no tamanho.

Coloquei o anel no dedo, vendo-o deslizar perfeitamente.

- Como sabia o tamanho? – eu perguntei curiosa, encarando o anel em meu dedo.

- Digamos que eu mexi em algumas coisas suas, enquanto você se banhava, amor, espero que não
tenha ficado brava.

Brava? Gato, eu nunca mais ficaria brava em toda a minha vida depois de provar esse
anel no dedo! – pensei.

Sorri.

- Nenhum ponto sem nó para o Sr. Galagher – eu disse.

Adrian sorriu, tirando o anel do meu dedo.

- Nunca – ele me disse e entregou o anel a vendedora – vamos levar este.

Saí do shopping sem o anel. Adrian o estava carregando em uma sacolinha azul clara.

Entramos no carro e seguimos para outro ponto – o Terraço Itália.

Sorri.

- Adrian! – exclamei.

- Achei que minha noiva merecia um jantar com vista panorâmica. Já que não estamos em Roterdã,
isso é o mais próximo que posso chegar do Euromast, anjo – ele disse dando a mão que eu saísse do
carro – eu diria que este é o Euromast de São Paulo.

Subimos até o restaurante, na cobertura. Era uma noite agradável e Adrian levou-me até o
terraço. Eu estava contemplando a cidade, sentindo-a sobre meus pés, quando ele alcançou o terceiro
passo da noite – deixar-me sem chão.

Ele se ajoelhou ao meus pés e desfez o laço branco da caixinha azul. Abriu-a expondo a
joia.

- Sei que temos nossas particularidades, Srta. Soares, mas nenhuma garota deve ficar sem seu pedido
de casamento.

Eu sorri como uma boba vendo-o ali, aos meus pés, querendo desesperadamente que tudo
fosse mais que um acordo.

- Daria me a honra de chama-la de minha esposa?

As lagrimas fechavam minha garganta, fazendo-me derreter ali, encostada na sacada.

- sim – eu disse e nada era mais verdadeiro que isso.

***

Eu estava encarando Laura de frente para mim no banco da Limousine. O anel brilhando em
seu dedo anelar. Suspirei. Havia tantos sentimentos dentro de mim que eu nem conseguia entender.
Era um misto de coisas e sensações e alguns medos. Eu tinha medo do fracasso e tinha medo do êxito,
porque acabaria, infalivelmente, me levando ao fracasso.

Afastei os pensamentos de mim e estreitei os olhos para Laura.

- Venha até aqui Laura – eu disse autoritário, exigindo meu direito sobre ela.

Ela veio. Os olhos vidrados nos meus. Achegou-se para sentar-se ao meu lado e eu a segurei
em frente á mim, correndo a mão por suas pernas nuas até a calcinha de renda. Laura gemeu e
colocou as mãos sobre o encosto atrás de mim, debruçando-se para mim. O painel que separava o
motorista estava fechado. Tínhamos vidros escuros e eu não tinha intenção de esperar até chegarmos.

Puxei sua calcinha para baixo, deixando-a cair por suas pernas.

- Agora se sente sobre mim – eu disse sem tirar os olhos dos dela.

Ela sentou-se. As pernas abertas sobre minha cintura, deixando-me duro de imediato.
Segurei-a com força, forçando-a contra mim para que percebesse como eu a queria.

- Quer mesmo fazer isso aqui, Adrian? – ela me perguntou.

- Eu disse que iria foder você com esse vestido, lembra-se?

- Uhum – ela disse contra os meus lábios.

- É exatamente o que eu pretendo fazer.

Abri o botão e baixei o zíper da minha calça. Laura soltou os botões da minha camisa,
escorregando as mãos em meu peito, até minha cueca, tocando-me sobre o tecido fino. Segurei seu
rosto entre minhas mãos, apertando o beijo, mordendo seus lábios, sugando sua língua dentro da
minha boca, arrancando gemidos dela.

Ela baixou o elástico da minha cueca, deixando-me exposto, tocando suas mãos em minha
pele sensível. Gemi, erguendo-a o suficiente para encaixa-la sobre mim, puxando-a para baixo, sobre
mim, sentindo sua carne apertar contra minha extensão rígida. Eu podia sentir meu corpo latejar de
desejo. Laura estava quente, úmida, sedenta de mim. Ela me beijava e se movia sobre mim com
pressa.

- Ah amor – eu gemi contra sua boca – desse jeito você vai me convencer á te dar um diamante por
dia, juro.

Ela sorriu, mas não cortou o contato das nossas bocas, gemendo e arfando, até que eu pude
senti-la soltar o corpo sobre o meu, deixando os espasmos levarem-me com eles, explodindo em
êxtase dentro dela. Segurei seu quadril forte, apertando-me contra ela, tendo tudo mais profundo,
encaixando-me mais.

Laura sorriu contra o meu pescoço.

- Algum dia essas loucuras vão acabar? – ela me perguntou.

- Espero que não amor – eu disse – acredite eu tenho muita criatividade.

Chegamos a casa em silencio, fazendo o mínimo de barulho possível. Laura subiu as escadas
segurando as sandálias nas mãos. Ajudei-a se despir e deitar, abraçada á mim, cabeça contra meu
peito nu, respirando em minha pele. Fechei os olhos e me deixei ir.

Acordei pouco depois das oito da manhã. Laura ainda dormia.

- Precisamos acordar amor – eu disse suave, beijando sua testa – temos que fazer certo anúncio á três
pestinhas e nos preparar para voltarmos para casa.

Laura se espreguiçou, beijando meu peito e mordiscando minha pele.

- Oh meu Deus! Eu dormiria por um dia inteiro.

- Eu não duvido – eu disse – nunca vi ninguém gostar tanto de ficar na cama como você.

Laura jogou a perna sobre as minhas, enlaçando-me contra ela.

- Posso pensar em tantas coisas para fazer em uma cama com você, Sr. Galagher, que demoraríamos
pelo menos um mês para podermos levantar.

Sorri.

- Sinto informa-la, senhorita, que sua lua de mel inclui duas crianças e um adolescente chato, não sei
se seriamos capazes de tanto tempo sozinhos.

Laura sorriu.

- Porque meu Deus? Porque de todos os homens incríveis que eu encontrei em minha vida imaginaria,
o Senhor me mandou justo um pai?
Levantei-a da cama comigo e a puxei para o chuveiro. Tomamos um banho rápido e nos
vestimos. Andamos pelo corredor e paramos em frente ás portas das crianças.

- Você acorda a garota e eu acordo os garotos – eu disse á ela.

Entrei no quarto de Collin e beijei sua testa.

- Hey filhote, vamos tomar café com o papai?

Ele abriu os olhinhos meio sem entender. Sorriu e assentiu esfregando os olhinhos.

Peguei nos braços, com o pijaminha do Barney e o coloquei de lado, encaixado em minha cintura.

- O que acha de acordarmos o John?

Ele sorriu.

Caminhei com ele até o final do corredor. Abri a porta e encontrei John esticado na cama.
De costas. Cabelo despenteado, coberta embolada sobre a cintura. Sorri – Deus esse garoto me fazia
sentir velho!

Coloquei Collin sobre a cama, ajudando-o a caminhar até as costas de John. Ele se sentou
ali.

- Vamos cavalinho! Ele disse pulando – vamos!

John fungou.

- Algumas pessoas dessa casa precisam de mais horas de sono, sabia Sr. Galagher? – praguejou.

- Algumas pessoas dessa casa têm anúncios importantes á fazer e não esperam fazê-lo mais de uma
vez – praguejei de volta.

Ele se virou, fazendo Collin cair ao seu lado sorrindo.

- Vamos filho – eu disse pegando Collin no colo novamente – é um dia importante.

Ele esfregou os olhos e bocejou.

- Vai se casar com Laura? – ele me perguntou – porque isso explicaria o fato dos dois terem chegado
de madrugada, de Limousine e tentando não fazer barulho, mas sorrindo como idiotas.

Tentei reprimir o sorriso, fazendo John sorrir.

- Cesta! E John Albert marca de novo.

- Anda garoto! Levanta e venha fingir que isso é uma novidade para você.

Deixei John brigando com as cobertas e desci com Collin de cavalinho em minhas costas.
Laura estava preparando leite com chocolate para Hanna, que estava sentada sobre a bancada da
cozinha, batendo as perninhas em sua camisola cor de rosa.

- Papai, é verdade que vamos voltar para casa hoje? – ela disse sorridente.

- Vou conversar com a vovó e decidiremos como fazer.

- Oba! Eu vou ver o Chucrutinho! – Ela exclamou erguendo os braços.

- Vamos pedir ao tio Alex para se encarregar de levar o Chucrute de volta á nossa casa, anjo,
prometo.

- Eu posso falar com ele? – ela pediu – estou com saudades do tio Alex! O bebê dele já nasceu?

- Ainda não – respondi.

- Ótimo porque eu prometi que estaria com ele quando isso acontecesse – ela disse como se fosse
realmente importante – ele me disse que tem medo de hospitais. E eu disse a ele que seguraria a sua
mão.

Laura sorriu.

- Você é uma garota muito corajosa! – ela disse á Hanna – sei que Alex vai amar segurar sua mão. E
você ainda vai poder ensinar várias coisas de menina á Louise.

- Sim! – Hanna concordou empolgada.

- Sr. Galagher – John disse entrando na cozinha – Sra. Galagher – cumprimentou Laura.

Ela me olhou se entender.

- O que eu posso fazer? – me defendi – o garoto é bom! Deveria trabalhar na polícia.

Ele beijou Hanna e Collin e caminhou até Laura. Parou e a puxou em um abraço que ela não
se negou a dar.

- Seja bem vinda e parabéns, mas – ele disse levantando um dedo – depois não diga que eu não
avisei. O cara é velho – ele disse sério – e cheio de manias. Você deveria trocar por um modelo
mais novo.

- Laura sorriu, dando um soco de leve no peito de John.

- Garoto bobo! Seu pai não e velho – ela disse com os olhos encarando os meus.

Mordi um pedaço da minha maçã e respondi.

- Viu garoto? Agora, se não se importa, você já pode soltar a minha garota.

Ele soltou, pegando um pedaço de bolo e enchendo uma xicara com café.
- Papai a Laura pode ir com a gente para casa? – Hanna perguntou inocente.

Coloquei Collin ao lado dela na bancada.

- Vocês gostariam que Laura morasse conosco? – perguntei.

Eles assentiram.

- E o que achariam se o papai namorasse Laura?

- Eu acharia muito legal – Hanna disse limpando a boca – porque teríamos outra garota em casa. E eu
poderia fazer muitas tranças.

Laura sorriu.

- E você, filho? – perguntei á Collin.

Ele não disse nada, apenas assentiu, como se não fosse nada demais e então falou.

- Acho que você deveria beijar a Laura papai – Collin falou – como a garota de cabelos amarelos
que John beijou na praça.

Sorri.

- E como foi esse beijo, filhote?

- Na boca ué, como os adultos se beijam.

Estiquei o braço e chamei Laura. Ela veio até mim sorrindo. Eu a abracei e segurei seu rosto
entre as mãos. Toquei meus lábios nos dela.

- Pronto filho, agora Laura já é minha namorada.

- Não pai – Hanna me disse – você precisa abrir a boca e fingir que está mastigando uma bala.

John soltou uma gargalhada e acabei sorrindo também.

- Prometo que vou treinar mais, querida.


Capítulo 16

Deixei Adrian com as crianças e resolvi dar um passeio sozinha. Eu precisava de um tempo
para colocar as coisas em ordem na minha mente. Era coisa demais para tempo de menos.

Adrian insistiu que eu usasse o motorista, mas consegui convencê-lo de que podia me virar
pelas ruas de São Paulo sem ajuda.

Vesti um jeans e uma blusinha de alcinhas finas, com uma camisa xadrez por cima. Eu
queria parecer uma garota normal. Não queria ser a noiva do milionário. Calcei meus tênis e passei
pelo portão depois de me despedir das crianças. John veio caminhando comigo até a calçada.

- Vai dar a notícia á sua família? – ele me perguntou – porque tenho certeza que se for isso, o Sr.
Galagher ali é quem deveria ir fazer o pedido – brincou.

- Na verdade John – comecei mesmo sem saber como explicar – é meio complicado.

- E o que não é? – ele brincou dando de ombros.

- Minha família não é bem um modelo de conduta – confessei.

- A minha também não Laura, acredite. A diferença é que por aqui todos sabem como fingir.

Sorri e ele sorriu comigo.

- Se precisar de ajuda com algo – ele disse e pegou o celular das minhas mãos – vou anotar meu
telefone, ok? Pode me ligar mesmo que não queira que o abominável homem das neves saiba.

Sorri mais, porque o apelido era realmente bom, e peguei meu celular de volta com o
contato de John anotado.

- Pode deixar.

- Sério, Laura. Pode contar comigo sempre que quiser e para o que quiser – ele sorriu e depois deu
de ombros – já que vai mesmo entrar para essa família, pelo menos posso te ajudar a sobreviver.

John me deu um beijo na testa e entrou. Eu caminhei pela calçada até encontrar um taxi. Dei
sinal e o motorista parou – eu não iria pegar um ônibus lotado até a Zona Norte com um uma pequena
fortuna pendurada no dedo.

A viagem demorou quase uma hora. Era um dia típico de transito caótico em São Paulo. Eu
não estava chateada com isso. Para ser sincera, eu estava feliz. Era bom respirar o ar poluído da
minha terra uma vez mais. Eu estava com mais saudades do que imaginava.

Quando o motorista parou em frente á casa de portão alto eu suspirei fundo. Fazia tanto
tempo. Eu nem mesmo sabia o que iria encontrar.

Paguei a corrida e desci. Toquei a campainha sentindo meu coração martelar. Pingo veio
até mim mais devagar do que costumava andar quando eu o deixei.

- Hey garotão – eu disse coçando sua cabeça marrom – você engordou um bocado! Ainda se lembra
de mim?

O cachorro abanou o rabo peludo para um e lado e para o outro me mostrando que sua
memória estava melhor que sua condição física.

- Vá chamar a vovó! – eu disse dando um tapinha em sua cabeça peluda.

Não demorou mais que meio segundo para que ela aparecesse no corredor estreito. Tapou
a boca com a mão, derrubando a colher de pau que carregava. Meu rosto se iluminou assim que a viu.

- Será que ainda tem bolo de fubá para uma pobre repatriada? – brinquei.

Vovó sorriu. Pegou a colher do chão e caminhou até o portão. Enfiou a mão no bolso do
avental e pegou a chave. Abriu o portão e eu me lancei sobre ela.

- Laurinha, meu amor! Como você está bonita! Eu nem sei o que dizer!

Quando nos separamos, meu rosto molhado de lágrimas refletia o dela, igualmente
molhado. Era tão bom sentir o cheiro de roupa limpa dela. O toque macio da sua pele. O aroma de
camomila dos cabelos. Eu tinha tantas lembranças boas.

- Quase morri de saudades, vovó.

- Entre! – ela me disse – e não se preocupe, sua mãe não mora aqui á algum tempo. Na verdade eu
nem mesmo sei por onde ela anda no momento – e completou – você sabe como sua mãe é.

Eu sorri. Primeiro porque eu sabia exatamente como mamãe era e segundo porque era
muito bom saber que ela não estava em casa. Eu havia adiado tanto minha visita á casa da minha avó
justamente porque não queria encontra-la e principalmente porque não queria encontrar meu
padrasto.

Chegamos á cozinha e o cheiro da comida invadiu meus sentidos como um soco no


estomago.
- Vovó que delícia! Ah meu Deus como eu senti falta do seu tempero!

Vovó sorriu enquanto partia um pedaço de bolo para mim. Pegou um copo e encheu com
café da garrafa térmica – outra coisa que eu não via a muito tempo – e me serviu.

- Como estão as coisas por aqui, vovó? – eu perguntei – como a senhora está?

- Tudo bem agora querida. Passamos maus bocados, sua mãe e eu. Você sabe como o Xavier era. Sua
mãe tem as culpas dela, mas a maior bobagem foi se apaixonar por aquele homem, você sabe.

Eu sabia. Sabia muito bem. Tinha algumas marcas no corpo para comprovar que havia
entendido na prática o quanto Xavier era ruim, mas o “era” soou estranho para mim.

- Como assim “era”? – eu perguntei.

- Ah querida já faz mais de dois anos. Ele se foi. Graças aos céus!

- Oh meu Deus! Ele morreu? – eu disse alto demais e tapando a boca, arrancando alguns latidos de
Pingo.

- Afogado.

- Jesus! – continuei espantada – que coisa horrível. Até mesmo para ele.

- Sim, foi horrível – vovó continuou a história – ele saiu para pescar com alguns amigos e acabou
bebendo, o que não era novidade – ela disse fazendo careta – e então aconteceu. O destino sempre
cobra seu preço, querida.

- E mamãe? Deve ter sofrido muito.

- Sofreu. Apesar de tudo ela o amava. Para ter sacrificado você como fez.

Eu podia sentir o pesar nos olhos de vovó. Ela nunca havia perdoado completamente
mamãe por tudo que fez. Ao meu pai e depois á mim. Mamãe era inconsequente, leviana, mas amava
Xavier mais do que amava a si mesma.

- Xavier foi dado como desaparecido por dois dias. Os bombeiros procuraram por ele
incansavelmente. Sua mãe tinha esperanças, mas eu já sabia que não viria coisa boa desse
desaparecimento. Na tarde do segundo dia, um mergulhador do corpo de bombeiros o encontrou.
Estava com o pé preso em alguns galhos no fundo da represa. Sua mãe ficou arrasada.

- Puxa! Que coisa horrível.


Eu podia odiar Xavier com todas as minhas forças, mas eu não desejava uma morte assim á
ninguém. Era cruel e triste e era especialmente cruel e triste com quem ficava, no caso, minha mãe
maluca.

- O velório foi rápido e com o caixão fechado. Sua mãe chorou por uma semana inteira. Eu pensei
que teria problemas com ela. Então na semana seguinte ela saiu do quarto com uma mochila nas
costas. Sentou-se aí nesse lugar e me disse que iria embora. Eu perguntei para onde ela ia, mas ela
disse que não sabia. Tive medo de que fosse procurar por você e fiquei muito feliz em não ter
passado sua direção á ela.

Vovó acabou de mexer a panela no fogo e sentou-se comigo. Pegou uma xicara encheu de
café para ela mesma.

- Você sabe que amo sua mãe Laurinha – ela disse com pesar – mas eu desisti dela á muito tempo.
Dalva não merece minha preocupação – ela colocou a mão sobre a minha, acariciando – a única
coisa boa que ela fez foi você. Agora vamos parar de falar de coisas ruins e me conte de você! Está
tão linda e radiante! Está com cara de apaixonada.

Respirei fundo – vovó me conhecia bem demais para que eu pudesse esconder o que quer
que fosse dela, mesmo assim, eu precisava ir com calma.

- Vovó – comecei com a voz meio tremula – eu estou noiva.

- Oh meu Deus que noticia maravilhosa! Querida, que felicidade em ouvir isso!

Respirei fundo novamente.

- Não exatamente o que parece, vovó – continuei – é meio que um acordo.

- Acordo? Algo á ver com a sua permanência na Holanda? Sabe que pode voltar agora que estou
sozinha, querida. Não precisa se casar se não quiser realmente.

- Não é que eu não queira realmente – tentei explicar me enrolando ainda mais – é meio complicado
de explicar vovó.

Minha avó me encarou por um longo tempo. Olhos experientes sobre mim, analisando a
situação. Deixei que ela percebesse meus sentimentos. Meus medos. Minhas duvidas. Vovó e Hans
eram as duas únicas pessoas que eu tinha no mundo e eu não queria mentir para nenhum dos dois.

- Você está apaixonada por ele – ela constatou bem rápido – disso não tenho duvidas.

- Adrian é um homem complicado vovó. Ele tem uma vida complicada.


- Mas colocou esse anel aqui no seu dedo – ela continuou a constatação e eu assenti – então devo
supor que ele sente o mesmo por você.

- Ás vezes acho que sente algo por mim, outras penso que sou apenas a tábua de salvação.

- Salvação para quê?

- Os filhos.

- Hum – vovó resmungou – ele tem filhos.

- Três.

- Não perde tempo o tal Adrian – vovó brincou – ele não deve ser um velho gagá ou você não estaria
com essa carinha de apaixonada.

Sorri.

- Acredite, ele está longe de ser velho e gagá.

- E porque você seria a tabua de salvação, Laurinha?

- Porque ele está brigando judicialmente pela guarda com filhos com a ex sogra. A esposa dele
faleceu á alguns anos – expliquei – e a tal Margarida impôs a condição de que nos casássemos para
entregar a guarda do caçula que ela detém.

- E qual é o proposito dessa tal Margarida? Sim, porque me parece estranho querer dar a guarda dos
netos á uma desconhecida.

- Nem eu sei – confessei – ela disse que Adrian é um novo homem quando está comigo e, bem, ela
está doente.

- E quando eu penso que nossa novela irá acabar, Laurinha volta com novos capítulos – vovó
brincou.

- Não sei o que fazer – confessei deixando o riso morrer rápido demais.

- Porque você o ama e tem medo de que ele não sinta o mesmo.

Não respondi, mexendo no bolo á minha frente com o garfo, sem conseguir encontrar as
palavras certas.

- Não é pelo dinheiro vovó. Juro que não é. Na hora me pareceu um acordo bobo, mas depois eu
pensei um pouco e entendi que poderia ser uma maneira de estar mais tempo perto dele. Esse negócio
de amor é complicado. A senhora sabe – continuei soltando o ar dos pulmões devagar – depois de
tudo que aconteceu.

Vovó me abraçou. Seu corpo gordinho abrigando o meu com carinho e cuidado. Ela beijou
minha testa e eu pude sentir que sorria. Afastou-se um pouco e secou minhas lagrimas com a ponta do
avental.

- Esse Adrian deve ser especial querida. Ou você não teria se apaixonado assim – ela sorriu mais
antes de continuar – eu conheço minha menina e sei que ela é dura na queda – parou e pensou,
deixando o rosto serio novamente – não deixe que o passado á torne dura demais. Não permita que
essas cicatrizes todas na sua vida tão curta levem a sua doçura e a sua esperança.

Eu sorri, afundando meu rosto em seu ombro, sentindo mais do perfume dela.

- Ah vovó eu tive tanta saudade! A senhora sempre sabe a coisa certa á dizer.

- Agora me diga, quando eu vou conhecer o seu Adrian?

O telefone tocou em meu bolso no instante em que vovó falava. Peguei e encarei o numero
na tela sorrindo.

- Acho que não vai demorar muito vovó.

***

Aproveite que Laura havia saído e fui até a casa de Margarida. Eu precisava acertar algumas
coisas com ela e não podia mais postergar. Nossa conversa sobre o casamento havia sido curta
demais e eu estava tão em choque que não consegui prolongar.

Assim que meu carro parou em frente ao portão, ele se abriu. Estacionei e desci, caminhando
pelo gramado até a porta.

- Dona Margarida o espera no escritório, Sr. Galagher.

Caminhei até lá. Eu conhecia a casa.

- Bom dia Margarida – eu disse cumprimentando-a.


- Bom dia, Adrian – ela me respondeu – sente-se. Precisamos conversar.

Eu me sentei. Cruzei as pernas e coloquei os punhos sobre a mesa. Esperei que ela
começasse.

- Sei que ficou admirado com minha atitude. Acredite, eu pensei muito sobre isso. Não sabia o que
fazer em relação ás crianças. Eu preciso de mais tempo para me cuidar. Não pretendo morrer cedo –
ela brincou, mas não foi uma piada de humor verdadeiro.

Eu conhecia Margarida bem demais para saber que ela estava com medo. Ela era uma
mulher forte que ficou viúva cedo e aprendeu a lidar com tudo sozinha. Pensar em ficar em uma
cadeira de rodas era apavorante para pessoas como ela e como eu – Margarida e eu éramos muito
mais parecidos do que eu gostaria.

- Margarida – comecei usando um tom baixo, amistoso – sabe que se precisar de algo, pode contar
comigo. Não estou falando apenas de dinheiro. Sei que você não precisa do meu dinheiro, mas se
precisar ir á Europa. Se existir algum tratamento fora, eu ficaria feliz em ajudar.

Era sincero. Eu queria mesmo fazer algo por ela. Eu havia tentado fazer o que pude com
Patrícia e não foi suficiente, quem sabe eu poderia ajudar Margarida e Collin.

Margarida soltou o ar dos pulmões com força, baixando um pouco o olhar.

- Me desculpe por tê-lo culpado pela morte da minha filha, Adrian. Não foi justo.

Soltei o ar dos pulmões com força também.

- Não estou livre de toda a culpa. Sei que poderia ter cuidado melhor dela, como eu prometi á você
tanto tempo atrás.

- Laura parece uma boa garota – ela disse mudando de assunto.

- Laura é uma boa garota. Muito melhor do que eu merecia.

Ela pensou, encarando-me por um tempo. Tocou a mão sobre as minhas – era a primeira
vez em um longo tempo em que Margarida me tocava.

- Faça por merecer – ela disse com a sombra de um sorriso nos lábios – e agora vamos á parte
prática. Meus advogados prepararam um documento.

Ela me entregou os papeis e começou a lê-los comigo em voz alta.


- Em primeiro lugar, não quero aquele homem perto de Collin.

Ela se referia ao pai biológico dele. Eu não tinha nenhuma objeção quanto ao pedido de
Margarida, no que dependesse de mim, ele nunca chegaria perto do meu filho.

- Não se preocupe, eu não pretendo permitir que ele se aproxime do meu filho – eu disse á ela.

- Em segundo lugar, quero garantias de que se casará mesmo com Laura. Não me venha com tramóias
jurídicas, Adrian, eu conheço você bem demais. Não sou boba, sei que provavelmente existe um
acordo entre você e Laura, mas sei também que você está apaixonado por ela – ela fez uma pausa,
mas não me deixou responder – nem tente fingir que não está.

Reprimi um sorriso – nenhum ponto sem nó para Margarida Tavares também. Era uma
disputa boa.

- Prometa que vai colocar cabresto em John. Não o quero cometendo o mesmo erro que você e
Patrícia! E prometa que vai cuidar bem da minha garotinha. Sei o quanto é difícil para uma garotinha
crescer sem a mãe, Adrian.

Sorri com mais humor.

- Não se preocupe, vou colocar John Albert no lugar dele, prometo. E prometo que vou fazer o
possível para minimizar a falta que Patrícia fará na vida de todos eles. Eu nunca quis que eles se
esquecessem da mãe, Margarida. Nunca quis me esquecer dela.

Respirei pesadamente, sentindo o peso da saudade que eu sentia da minha garota bonita.

- A vida continua Adrian – Margarida disse como se percebesse meus sentimentos – Patrícia ficaria
feliz em vê-lo seguir em frente.

Depois de assinar os papéis e me despedir, já dentro do carro, peguei o telefone e disquei


o numero de Laura, eu estava preocupado com a falta de notícias. Ela atendeu no terceiro toque.

- Oi amor – comecei – tudo bem com você?

- Sim, estou com a minha avó – ela disse com a voz tranquila.

- E eu vou poder conhecê-la em algum momento, ou você está com vergonha de me apresentar? –
brinquei e Laura sorriu.

- Bobo! Porque eu teria vergonha do homem mais incrível e sexy do mundo?

Sorri.
- Ótimo! Passe o endereço.

- Você não vai encontrar sozinho! São Paulo é maior que Roterdã, sabia? – brincou.

- Tudo bem, amor, eu tenho um guia particular. Acho que o pequeno conquistador ficará feliz em
conhecer sua avó.

Recebi a mensagem de texto com o endereço pouco antes de estacionar em frente ao meu
portão. Disquei o numero de John.

- Filho, preciso que me ajude com uma coisa. Pode vir aqui fora?

John apareceu no portão alguns segundos depois. Ajeitando os cabelos com as mãos.

- Que houve, Sr, Galagher? Á quem vamos matar essa manhã? – brincou.

- Entra – eu disse destravando a porta – vamos conhecer a avó de Laura.

Entrei no carro e John sentou-se ao meu lado, no banco da frente. Eu não estava bem certo
se era uma boa coisa chegar lá com um garoto que mais parecia meu irmão caçula do que meu filho,
mas eu precisava da ajuda dele.

- Você vai ter que me dizer o caminho filho – pedi – sabe que não conheço São Paulo. E vai ter que
me dar uma ajudazinha com a língua – confessei.

John sorriu, enquanto ajeitava o cinto de segurança.

- Tudo bem, Sr. Galagher. Podemos até fingir que sou seu primo, se isso te deixar menos nervoso.

- Quem disse que eu estou nervoso, garoto? – perguntei sério – acha que estou nervoso? Não seja
bobo! Eu não estou nervoso.

John abafou o riso, olhando para á frente, com aquela cara de deboche de sempre dele.

- Ahan – ele resmungou – eu entendo pai. Não se preocupe. Eu te salvo, ok? Você fica me devendo
uma.

Dirigi em silencio. Era um silencio ruim. Pesado. Eu estava mesmo nervoso, mas não iria
dizer isso á John. O garoto andava muito seguro de si ultimamente e alguém precisava coloca-lo de
volta no lugar dele.

- Acho que é no final da rua pai. Laura disse que era uma casa amarela.
Parei o carro ao lado do meio fio. Desliguei o motor, mas não desci.

- Ah relaxa pai! – John brincou – você é um cara bonitão e rico. Relaxa.

Eu sabia que ele estava brincando e sabia que a brincadeira era verdade. Eu era um homem
atraente. Era rico e importante. Eu era um dos melhores partidos da Holanda e isso era inegável, mas
por alguma razão, eu não queria que a avó de Laura me visse assim. Eu queria que ela visse o
Adrian. Que visse o homem por trás da fama e do dinheiro. Eu queria mesmo que ela gostasse de
mim e eu nem sabia por que queria isso!

“Isso é um acordo Adrian” – repeti para mim mesmo – “A opinião dela não faz
diferença. É apenas um acordo”.

John tocou a campainha e Laura veio até nós no instante seguinte. Eu tentava parecer o
menos formal possível. Não queria que a pobre senhora me achasse um esnobe. Eu estava de jeans e
camiseta e botas de couro. Alisei meus cabelos para trás tentando não parecer nervoso demais.

- Olá Adrian! – Laura me disse ficando nas pontas dos pés para me beijar.

Beijei-a e ela segurou em minha mão.

- Vem, vamos entrar.

Era uma casa simples. Muito, muito diferente de todas as casas em que eu já havia entrado.
Patrícia era uma garota rica. Margarida morava em uma mansão em um dos bairros mais caros de
São Paulo. Ela havia mandado a filha estudar na Europa porque queria uma boa formação para ela.
Laura não era como Patrícia. Sua história de vida era tão diferente. Ela havia fugido para a Holanda
em busca de uma nova vida. Sem dinheiro, nem posses.

John caminhava sorridente á nossa frente. Não parecia se importar com nada – pelo menos
meu filho não era um esnobe elitista com o avô.

Uma senhora de cabelos grisalhos e avental veio ao nosso encontro. Sorriu para John que
se lançou nos braços dela como se a conhecesse.

Meu filho beijou a bochecha da mulher arrancando-lhe um sorriso – conquistadorzinho


safado, esse meu filho!

A mulher disse algo á John que eu não compreendi, mas que o fez sorrir.

- Ela está dizendo que John é um jovem muito bonito – Laura me traduziu – acho que ainda não
entendeu que é seu filho – ela constatou sorrindo.
Eu falava muito pouco português e compreendia muito pouco também, mas eu precisava
usar tudo que tinha para não ficar de fora dos acontecimentos.

- Sou Adrian Van Galagher – eu disse estendendo a mão – é um prazer conhece-la.

A senhora sorriu para mim e eu pude sentir a doçura iminente em seu sorriso. era tão
acolhedor e carinhoso. Ela abriu os braços e me puxou para dentro deles, fazendo-me baixar um
pouco o corpo para que minha altura ficasse igual a dela.

- Sou Guilhermina e o prazer é meu, querido – foi o que compreendi de tudo que ela falou enquanto
me abraçava.

- Vovó está dizendo que agora sabe á quem John puxou. E está dizendo também que entende porque
eu resolvi me casar – ela disse rindo – e o que mais ela disse eu não vou traduzir porque é
constrangedor!

John riu e Laura riu e eu acabei rindo, mesmo sem entender.

A senhora me pegou pela mão e me colocou sentado em uma cadeira. Pegou café de uma
tipo de garrafa e me ofereceu. Aceitei.

Levei o copo á boca e dei a primeira golada. Estava meio frio e fraco e muito, muito doce,
mas eu sorri e agradeci.

John gesticulava e sorria e fazia algum tipo de piada enquanto eu só o observava – o


garoto deveria seguir a carreira política!

- Prova pai – ele me disse entregando-me um pratinho de bolo – esse é o melhor bolo que já provei
na vida.

Encarei o pedaço de bolo amarelo em frente pensando no gosto estranho do café. Respirei
fundo e dei uma garfada, deixando a massa adocicada se desfazer em minha boca.

- Oh – exclamei – isso é mesmo muito bom.

Era diferente de tudo que eu já tinha provado. Era suave e delicado e cremoso e parecia
derreter na minha boca. Bom, muito bom.

Dei mais uma garfada encarando o olhar curioso de John.

- Falei que você ia gostar – ele me provocou.

- Vovó faz bolos para vender, Adrian – Laura explicou – foi assim que ela me criou.
Pensei por um segundo, tentando compreender como alguém conseguia sobreviver apenas
da venda de bolos em casa. Essa era uma realidade que eu não conhecia. Eu sabia como era viver
com pouco, já havia passado por isso quando rompi com meu pai, mas o pouco que eu conhecia
estava longe, bem longe disso. Sorri.

- Pois eu a contrataria com exclusividade e contrato vitalício – brinquei e esperei que Laura
traduzisse.

Dona Guilhermina sorriu e veio até mim. Segurou meu rosto entre as mãos como se eu
fosse um menino. Eu sentia falta disso. Sentia falta de ser só o Adrian e a avó de Laura me fazia
lembrar mamãe. Respirei fundo, sentindo o toque gentil dela.

- Vovó disse que trabalharia de graça para você e que você é muito bonito, mas que ela não gosta das
tatuagens.

Acabei sorrindo e John e Laura sorriram também.

Continuamos nosso bolo perdidos em conversas em mais idiomas do que parecia possível.
Laura traduzia tudo que se falava em português para o inglês para que eu pudesse compreender e
John falava em neerlandês quando queria fazer alguma piadinha secreta. Eu tentava me virar entre os
dois sem parecer que era estupido para a pobre senhora.

Depois de alguns pedaços de bolo e xicaras daquele liquido turvo e doce que nem de longe
parecia com o café que eu costumava tomar pelas manhãs, eu encarei o relógio preocupado. Já
passava das duas da tarde e nosso voo sairia ás seis. Depois de acertar tudo com Margarida, eu tinha
pressa em levar meus filhos para casa.

- Laura, sei que faz tempo que não vê sua avó, mas eu comprei passagens para as seis horas.
Desculpe amor, não sabia que você viria aqui.

Laura sorriu.

- Tudo bem, Adrian, era uma visita rápida. Vovó sabe disso.

- pode me ajudar, amor? – pedi a Laura – eu gostaria de falar com sua avó.

- Claro.

Levantei-me e aproximei-me de Dona Guilhermina. Segurei suas mãos. Comecei falando


em inglês e esperando que Laura me traduzisse.

- Eu agradeço muito por ter cuidado tão bem de Laura, Dona Guilhermina. Eu sei o quanto é difícil
criar uma criança sozinho – eu queria que ela entendesse o quanto eu a admirava – quero que saiba
que Laura é uma garota incrível. Eu não conheço nenhuma melhor – eu disse sorrindo e Laura sorria
junto enquanto repetia as palavras em português – vou fazer o melhor que puder para honrar com
meus compromissos e fazê-la feliz.

Dona Guilhermina me abraçou, impedindo-me de continuar.

- Vovó disse que você está se saindo bem por enquanto – Laura repetiu sorridente.

Quando deixamos a casa simples no subúrbio da cidade eu me sentia mais leve. A vinda ao
Brasil havia sido muito melhor do que eu podia imaginar e eu estava confiante de que as coisas
começariam a melhorar daqui para frente. Eu estava disposto á fazer minha parte, queria que tudo
desse certo.

Quando o avião decolou de volta para Roterdã, fechei meus olhos e pude descansar. Eu
estava voltando com meu coração completo, não havia mais pedaços dele espalhados por aí e Laura
parecia ser a melhor cola que eu havia encontrado.
Capítulo 17

Acordei sentindo um peso diferente em minha mão. Abri os olhos para encontrar um
diamante gigantesco, brilhando ali. Sorri, tirando o cabelo do rosto para apreciar melhor minha
aliança.

Suspirei profundamente, tendo tantos sentimentos diferentes dentro de mim que nem sabia o
que fazer. Estava me espreguiçando na cama, quando ouvi batidas suaves na porta.

- Senhora? – uma voz diferente chamou – o Senhor Galagher pediu que a despertássemos.

Adrian não estava na cama e a suíte estava silenciosa. Sentei-me na cama.

- Pode entrar – eu disse para a voz que eu não conhecia.

Uma senhora com idade para ser minha mãe entrou. Ela tinha os cabelos claros ainda mais
claros pelo grisalho e um rosto bondoso.

- Sou Martina – ela me disse enquanto colocava uma bandeja de café na cama – espero que eu tenha
acertado nas preferencias da senhora, já o que Sr. Galagher não nos deu tempo para nos
conhecermos.

Ela sorriu e eu sorri também, encarando a bela bandeja com torradas e omelete de batatas,
frutas, suco e uma xicara de café.

- Martina se você continuar me tratando assim vou engordar. Isso sim! – respondi rindo do banquete.

- Vou avisar á Elena que a senhora está terminando o café e já irá descer – Martina me disse.

Pensei por um segundo, dando uma golada no café.

- Quem é Elena?

- Ah a Srta. Elena cuida dos eventos que o Sr. Galagher organiza. Ela faz isso á algum tempo.
Imagino que o senhor tenha lhe falado á respeito.

“Na verdade não, ele não falou” – pensei, mas não disse nada. Limitei-me a sorrir.

- Sim, ele me disse algo á respeito – menti – diga á ela que se quiser, pode subir. Assim não precisa
me esperar.

- Certamente senhora – Martina respondeu – Quanto á escola das crianças, Karol agendou algumas
entrevistas. Uma delas para hoje, logo antes do almoço. John pediu que lhe avisasse que saiu com o
Sr. Persen, mas que volta com tempo para ir á entrevista com a senhora.

Oh meu Deus! – Foi tudo que minha mente processou – Então essa era a vida de uma
esposa de Adrian Van Galagher – Suspirei – E eu feliz porque tinha ganhado um diamante!
Suspirei e depois sorri.

- Ok. Martina. Muito obrigada por tudo. Juro que tentarei dar conta.

Martina sorriu.

- Nem vou perguntar á senhora o que devo preparar para o almoço e jantar. Vou deixa-la habituar-se
á rotina da casa primeiro.

- Martina, já gosto muito de você! – brinquei e ela saiu sorrindo.

Estava mastigando o primeiro pedaço da minha omelete, quando uma moça de cabelos
avermelhados entrou. Era jovem e bonita, mas tinha um ar profissional. Ela parou na porta e sorriu.

- Bom dia Srta. Soares. O Sr. Galagher me pediu que viesse discutir com a senhorita os detalhes do
jantar de sexta e pediu também que iniciássemos com os preparativos do casamento.

Tossi. Engasgada com minha omelete – Ok. Eu sabia que me casaria, mas não sabia que
seria assim, tão rápido.

Ela colocou os papeis sobre a mesinha e caminhou até a cama.

- A senhorita está bem? – perguntou enquanto eu tossia.

- Sim – respondi sentindo as lagrimas em meus olhos – só me afoguei.

- Entendo – ela disse sorrindo – Adrian Van Galagher é um pouco – ela parou na palavra, tentando
encontrar um adjetivo educado – eloquente e decidido quando deseja algo.

Eu sorri.

- Apenas um pouco.

Elena sorriu.

- Claro.

- Ah proposito, sou Laura – eu disse – pode me chamar de Laura.

Estendi a mão e Elena a segurou gentilmente.

- É um prazer conhece-la, Laura. E, á proposito, desejo toda a felicidade do mundo – ela me disse
encarando o diamante em meu dedo – imagino que tenha sido um amor fulminante. Para que o Sr.
Galagher tenha finalmente decidido terminar com seus dias de solteirice.

Era uma piada. Uma piada gentil. Sorri, mas não era um sorriso verdadeiro. Eu sabia que
amor não exatamente o que unia Adrian á mim. Isso era um acordo. Um acordo estranho e
complicado de lidar. Um acordo que eu queria que fosse eterno, mas que tinha um prazo para acabar.
Suspirei, bebendo um gole do café para disfarçar.
- Você sabe como Adrian é – brinquei imitando sua polidez – eloquente e decidido – e completei –
como uma mula empacada.

Elena sorriu, mesmo sem entender a piada, e eu decidi que gostava dela.

- Vamos aos nossos negócios, Elena – eu disse afastando a bandeja de café – de que se trata esse
jantar de sexta?

- Um jantar de noivado, Laura. Sr. Galagher quer apresenta-la á sociedade Holandesa. Não seria de
bom tom que não o fizéssemos antes que a noticia do casamento corresse á mídia.

- Entendo.

- Algum problema para você?

- Não – respondi – perfeito para mim. Não tenho problemas com isso.

- Preciso que me passe sua lista de convidados – ela continuou – e que me diga que tipo de avento
deseja. Se quer algo mais suntuoso ou mais campestre. Eu pensei em fazer o jantar aqui mesmo na
mansão e pensei em realizar a festa do casamento no salão do Waldorf.

Ela falava e falava e minha mente viajava nas palavras “Jantar de Noivado” e
“Casamento”. Tudo que eu queria era Adrian e as crianças. Alex e Hans e minha avó. Eu não tinha
ninguém mais com quem quisesse dividir isso tudo. Queria um casamento simples e romântico, á
beira de um lago. Queria pensar em caminhar para o meu marido com pétalas de flores espalhadas
pelo chão. Queria um sol suave sob nossas cabeças e uma brisa fresca brincando com meu vestido.
Eu não queria uma festa. Eu não queria mídia ou sociedade. Eu queria realidade, e isso eu não
poderia ter. Eu tinha o homem dos meus sonhos, mas tinha também um acordo e eu precisava cumpri-
lo.

- O que acha que Adrian preferiria? – perguntei.

Elena pensou por alguns instantes, como se repassasse tudo em sua mente.

- Bem, penso que o Sr. Galagher preferiria algo suntuoso. Podemos inclusive reservar uma ala do
Museu Van Gogh. Vejo o Sr. Galagher em uma recepção mais moderna e elegante, nada muito
provinciano. Além disso, ele é um apreciador de Van Gogh, doou algumas obras ao museu. Sei que
seria realmente um prazer aos administradores, poderem sediar o casamento.

Suspirei – eu estava realmente dando um salto no escuro, só tinha medo de que não
tivesse agua lá no fundo e eu batesse com a cabeça no concreto.

- Parece perfeito para mim, Elena – menti, mas menti sorrindo convincentemente.

- Quanto á decoração? – ela me perguntou.

- Não faço ideia – respondi – mas Sei que você pensará em algo realmente incrível.
Ela me encarou meio sem entender por um longo tempo.

- Realmente não quer escolher a decoração do seu casamento, Laura? Porque eu tenho certeza, pela
maneira como Adrian Van Galagher fala de você, que se você desejasse girassóis amarelos ele
mandaria buscar.

Sorri, sentindo uma pontinha de dor lá no fundo do meu peito – sim, ele buscaria, mas era
por Collin, e não por mim.

- Eu realmente não me importo com as flores, Elena – eu disse sinceramente – só quero que seja uma
festa agradável. Não entendo muito de festas assim, nem me lembro de ter ido á algum casamento
legal, então, ficaria feliz que você cuidasse de tudo.

Elena sorriu, repousando a mão sobre a minha.

- Será uma festa maravilhosa, eu prometo.

Ela estava se preparando para sair quando John apareceu na porta.

- Vem Alex, ela ainda nem se levantou – ele disse sentando-se na cama comigo e me dando um beijo
na bochecha.

- Sra. Galagher, Sra. Galagher, a senhora precisa aprender que o dia do seu marido costuma ter pelo
menos trinta horas. Estamos quase atrasados para a entrevista em minha nova escola. E lembre-se, a
senhora é minha nova mãe.

Sorri.

- Ele não é meu marido ainda – respondi – então acho que posso dormir um pouco mais.

- Ainda – completou Alex beijando minha testa.

Elena se despediu e saiu. Alex e John saíram em seguida para que eu me vestisse. Tomei
uma ducha e vesti uma calça social e uma camisa de seda. Calcei meus saltos e prendi o cabelo em
um coque. Peguei meus óculos escuros e minha bolsa e desci.

Hanna e Collin me esperavam na sala, embolados com um Bulldog acinzentado e gordo.


John e Alex riam de algo pela janela.

- Laurinha, se quiser, posso acompanha-la – Alex ofereceu – eu tinha uma audiência em Haia que foi
cancelada, estou livre.

Encarei as crianças no chão, rolando e rindo enquanto o cão tentava lamber seus rostos e
pensei que eu realmente precisava de um curso intensivo sobre maternidade.

Suspirei.

- Seria ótimo Alex.


Saímos da nova escola de John atrasados para o almoço.

- O que acha de mandarmos as crianças para casa com Harold e você fazer uma surpresa para seu
noivo? – Alex propôs – John pode acompanha-los.

Sorri.

- Esses olhinhos e esse sorriso bobo me dizem que eu tive uma boa ideia. E sim, vou cobrar por isso
em um momento oportuno. Lembre-se, Alex Persen nunca se esquece de cobrar um favor!

John riu alto e Alex o acompanhou.

- Não entendi – afirmei.

- Ah Laura, ele é um garoto bobo. Não se preocupe.

Chegamos ao escritório de Adrian alguns minutos mais tarde, Alex e eu.

- Bom dia Karol – Alex falou e eu sorri para ela.

- Ah Alex, que bom que está aqui! – ela respondeu – Alissa estava mesmo á sua procura. Ela está
com o Sr. Galagher.

Senti um bolo de bílis subir esôfago acima – Deus alguém precisava ensinar uma lição á
essa garota oportunista!

Respirei fundo, acertando meus passos determinados, controlando o sangue a se espalhar,


quente, pelo meu rosto. Passei pela porta e encarei Alissa sentada na cadeira de Adrian. Ele estava
em pé, fumando um cigarro perto da janela. Os dois riam animadamente.

- Laura! – ela me disse sorridente – desculpe por usar a cadeira do seu noivo – a palavra soando
estranha em sua voz – mas como vê, minha condição exige um pouco mais de conforto.

Sorri, fingindo humor.

- Não se preocupe Alissa – eu disse chegando até Adrian, minhas mãos brincando em sua gravata,
sentindo seus braços prenderem-se ao redor de mim – não me importo que use a cadeira do meu
noivo – demorei-me na palavra, puxando a boca de Adrian para a minha – como pode ver, tenho tudo
de Adrian que podia querer.

Eu podia ouvir o som da saliva em sua boca, sendo engolida á contragosto e quase, quase
gargalhei. Ao invés disso sorri para Adrian.

- Vim ver se gostaria de almoçar comigo, Adrian – eu disse com minha voz mais sensual – senti sua
falta na cama hoje de manhã.

Adrian sorriu. Ele sabia que era um misto de provocação e sinceridade e estava se
divertindo com isso.
- O que não é mentira – Alex completou beijando Alissa – ela nem tinha saído da cama quando eu
cheguei.

Os olhos de Adrian passaram de curiosos a escuros e assustadores em uma fração de


segundo. E senti um arrepio percorrer minha espinha.

Alissa fingiu dar um tapa no ombro de Alex.

- E posso saber o que o senhor estava fazendo na cama de Laura? – Ela perguntou piorando a
situação.

- Eu não estava na cama baby – ele disse sem perceber o tamanho do problema que havia causado –
estava no quarto.

Adrian se soltou de mim como se eu desse choque. Ele acendeu outro cigarro e voltou-se
para a janela.

- Eu gostaria de saber em que momento exatamente você deixou de trabalhar, para estar em meu
quarto, com minha esposa, Alexander.

Alex suspirou, percebendo a mudança em Adrian e meu desespero iminente. Eu me encostei


na mesa do outro lado, sem saber o que fazer.

- Não seja idiota Adrian! Eu não estava em seu quarto com sua esposa. Passamos pelo quarto,
quando Elena estava lá – ele consertou – John e eu, para avisar á Laura sobre o horário da reunião
com o colégio.

- Entendo – Adrian disse. Sua voz soava fria e cortante, como a lamina de uma espada samurai.

Seus olhos pararam nos meus e eu tentei demonstrar o mais de veracidade possível.

- Alex me ajudou com as crianças – afirmei – eu não sabia exatamente o que fazer. Nunca fui á uma
reunião de colégio.

Adrian caminhou até mim. Prensando-me contra a mesa com seu corpo, sua mão firme
parada em meu quadril. Deu um trago no cigarro e o apagou no cinzeiro, soltando a fumaça para
cima. Sua voz ainda era gelada quando ele falou, mas tinha uma nota potente de sensualidade e
luxuria, ele tomava posse de mim, marcava seu território. Seus lábios brincando próximos ao lóbulo
da minha orelha.

- Desculpe-me amor – ele disse, arrepiando minha pele com seu hálito quente – eu não achei que ir á
uma reunião de colégio fosse algo difícil para uma advogada tão brilhante.

Ele segurou meu queixo e mordeu meu lábio. Não era um gesto carinhoso, era agressivo e
possessivo, mas eu estava derretida em seus braços, sentindo a onda de poder sibilante ao redor de
Adrian Van Galagher. Não importava o que ele dissesse, soava como erótico e delicioso em meus
ouvidos, embora fosse um aviso silencioso de que eu deveria ter mais cuidado.
- Da próxima vez em que precisar de ajuda com meus filhos, espero que peça á mim – ele disse
entrelaçando os dedos nos meus e puxando-me ao seu lado – agora vamos almoçar, amor, tenho
certeza de que Alex e sua noiva têm assuntos importantes á resolver.

***

Ciúme borbulhava em meu peito como lava quando eu entrei em casa naquela tarde. Passei
pelo gramado sem dizer uma palavra. Hanna e Collin brincavam no jardim com Martina. Subi as
escadas degrau por degrau. Entrei na suíte e ouvi o som do chuveiro ligado. Esperei. Soltei minha
gravata e tirei o paletó. Retirei as abotoaduras e a camisa de dentro da calça. Abri os botões. Esperei
que o som do chuveiro cessasse. Caminhei até o banheiro para encontrar Laura nua, pele molhada,
cheirando a sabonete de calêndula. Os cabelos presos para cima de maneira desarrumada. Corri os
olhos por seu corpo, sentindo minha fúria se converter em luxuria, crua e pesada, transbordando
sentimentos que eu não conseguia controlar. Cheguei até ela em poucos passos, minha mão pesada
sobre seu ombro, sustentando-a de frente para mim, sua proximidade nublando meus sentidos.

- Nunca mais me desafie – sibilei.

Ela piscou algumas vezes, talvez porque não entendesse, talvez porque tivesse medo. Eu não
me importava.

- Do que exatamente estamos falando, Adrian? – ela perguntou com a voz firme, soando provocadora.

- Eu não vou admitir esse tipo de coisa Laura. Eu já fui claro com você sobre isso.

- O que? – ela provocou – o que você não vai admitir? Que seu filho entre em nosso quarto? Que
traga o seu melhor amigo junto? Enquanto eu estou vestida e conversando sobre o nosso casamento
com uma mulher que você mandou aqui? Seja especifico sobre o que, exatamente, não vai admitir. Sr.
Galagher. Porque aí eu posso me comportar de maneira apropriada para sua futura esposa de
mentira!

Eu não me importava que ela gritasse comigo, que fosse provocativa. Eu gostava. Achava
sexy como inferno a maneira como Laura me tirava do sério. O que me incomodou foi o final da
frase. “Me comportar de maneira apropriada” e “esposa de mentira”. Eu podia ver Patrícia em
minha frente, tendo uma de suas crises, exigindo que eu me comportasse como seu marido. Afrouxei o
aperto em seu ombro, vendo a marca avermelhada da minha brutalidade em sua pele clara. Eu me
afastei, virando-me de costas e saindo. Eu precisava ficar longe, recobrar minha sobriedade.

- Não tente me manipular – eu disse já do quarto – eu não vou admitir esse tipo de joguinhos, Laura.
Acredite, eu conheço todos eles. Quando se tem um casamento de merda por mais de dez anos,
aprendemos a reconhecer esse tipo de manipulação barata.

Eu podia ouvir os passos dela se aproximando, rápidos. Não me virei.


- Eu não sou Patrícia, Adrian – ela sibilou com mais ódio do que eu gostaria de ter causado – eu não
vou trair você.

As últimas palavras batendo em mim como um soco, forte, espalhando-se em meu rosto.
Traição. Ela sabia da traição.

- Quem contou a você? – perguntei ignorando todo o resto.

Laura pensou. Pensou. Irritando-me mais.

- Deixe-me ver se adivinho. Alexander Persen.

- Não seja bobo Adrian, ele me contou com a intenção de que eu te compreendesse melhor! – ela
continuou – não transforme tudo em uma coisa ruim.

- O que mais ele contou? – esbravejei – Que eu fui um imbecil? Que aceitei uma mulher adultera de
volta á minha casa? Que crio um filho que não é meu? Ou será que ele também contou que matei meu
irmão caçula atropelado e minha mãe de desgosto. Diga Laura, o que mais Persen te contou?

Ela parou. Olhos focados nos meus, impedindo-me de desviar. Eu podia ver seu peito subir
e descer, comprimindo seus seios contra o sultien de renda. Eu podia esperar um tapa, um grito, mas
não podia esperar o que veio.

Laura esticou o braço e sua mão tocou meu rosto devagar, cheia de sentimento, calma,
tateando toda a extensão da minha bochecha, descendo em minha mandíbula, escorregando em meu
peito pelos botões abertos da camisa.

- Acha que eu penso que você é imbecil porque perdoou sua esposa? – ela me perguntou e eu não
respondi – acha que penso que é imbecil porque ama uma criança que não nasceu com seus genes?

Eu podia sentir seu toque acalmando meu peito, meu coração. Enchendo-me de algo estranho
e quente. Um sentimento forte demais. Permaneci imóvel.

- Você é o homem mais incrível que eu conheço Adrian – ela sussurrou contra minha pele, seus
lábios tocando meu peito suavemente, enquanto ela me envolvia pela cintura em seus braços – eu não
poderia querer ninguém mais do que quero você. Tudo bem que você tem um gênio terrível – ela
brincou. Seu sorriso fazendo cocegas em mim – mas ainda assim eu não mudaria nada em você.

Não resisti. Desarmado por sua doçura. Envolvido por seu carinho. Perdido em seus braços.
Livrei-me da camisa, puxando-a para mim, apertando-a contra meu corpo.

Minha boca procurando pela sua, enquanto eu a conduzia até a cama. Livrei-me das minhas
roupas, sem pressa, sentindo suas mãos percorrerem minha pele, explorarem meu corpo. Sua boca
recebendo minha língua, sugando-a, mordendo meus lábios, meu queixo, meu pescoço. Deitei-me
sobre ela, encaixando meu corpo. Eu não queria um transa. Não queria fodê-la. Eu queria fazer amor
com ela. Queria que ela sentisse o que eu sentia agora. Queria trasbordar esse calor que ela me dava
de volta pra ela.
Laura tentou dizer algo, que eu silenciei com um dedo. Meus olhos nos dela. Não tinha nada
que precisássemos falar. Nada á dizer. Nada a contar. Nada importava. Coloquei-me dentro dela
devagar, sentindo sua carne abrigar a minha, ouvindo um gemido baixo sair de sua garganta. Meus
movimentos aumentando com os dela, meu corpo sentindo o dela, minha boca em sua boca, até que
nada era suficiente. Forte, profundo, mais e mais. Eu me consumia em Laura e ela se entregava, até
que caí sobre ela, cansado, ofegante, sentindo nossos corpos trêmulos, ondularem.

Laura acariciou meu cabelo suado, beijando minha cabeça, apertando-me contra ela.

- Quando eu penso que não poderia ficar melhor, Sr. Galagher, o senhor me surpreende – ela brincou.

- Excelência é a alma do negócio, Srta. Soares – respondi, girando meu corpo e colocando-a sobre
mim.

Laura sorriu, beijando minha boca devagar.

- O que acha de um jantar não muito convencional com a aqueles três pestinhas lá em baixo? –
perguntei.

- Eu adoraria Sr. Galagher.

- Então arrume-se enquanto eu cuido dos pequenos – eu disse – á proposito – continuei fechando o
zíper da minha calça – precisamos contratar uma babá, Srta. Soares. Eu gostaria que minha noiva
tivesse suficiente tempo livre para sanar minhas próprias necessidades.

Laura pulou da cama e pendurou-se em meu pescoço, ainda nua, cheirando á meu perfume.
Puxou minha boca para a sua e eu retribui o beijo, profundo, sensual, forte.

- Sanar suas necessidades me enche de prazer, Sr. Galagher – ela disse sorrindo – e mande Hanna
aqui que eu cuido dela. Coisa de meninas.

Usei todo o meu autocontrole para deixa-la no quarto e descer as escadas. Peguei Collin no
colo, e chamei Hanna.

- Anjo – eu disse a ela – Laura vai ajuda-la a se vestir. Suba e vá até o quarto do papai que ela está
te esperando para ajuda-la com o banho.

Não precisei falar mais nada. Hanna correu escada à cima feliz e saltitando de degrau em
degrau. Subi as escadas com Collin pendurado nas minha costas. Parei em frente à porta de John e
bati.

- Filho? – chamei.

- A porta está aberta, Sr. Galagher, pode entrar.

Coloquei Collin no chão e entrei.

- Vista-se. Vamos comer algo fora com Laura.


John sorriu. Um sorriso sarcástico que me fazia arrepender-me de tê-lo convidado.

- E o poderoso Sr. Galagher, agrada a noivinha novamente – ele brincou – não estou te reconhecendo
pai. Serio.

Sorri, fechando a janela do quarto e puxando a cortina.

- Achei que você gostava de Laura – constatei.

- Ah eu gosto pai, relaxa. E olha, não te reconhecer é uma coisa boa – ele disse se levantando – eu
não curtia muito o velho Galagher. Ele era rabugento e chato demais. Prefiro o novo Galagher sabe, o
apaixonado.

- Quem disse á você que eu estou apaixonado, garoto? Andou bebendo? – eu disse fingindo-me de
sério, sem entender bem o incomodo que isso me causava. Eu não estava apaixonado.

John passou por mim, tirando a camisa e a calça e caminhando até seu banheiro.

- Pai – ele me disse concentrado – entenda. Existem coisas que são obvias, e não precisam ser ditas,
como por exemplo, o fato de que o sol sempre nasce, mesmo que nós não o vejamos e coisas que não
são obvias, e que precisam ser explicadas, como o fato de que, na verdade o céu não é azul. Você é
como o sol pai. Obvio demais.

Arremessei a bola de basquete em sua direção e ele se esquivou.

- Apresse-se e vista algo decente.

- Ah não se preocupe Sr. Galagher – ele me disse sorrindo – eu vou me esforçar para não ficar mais
bonito que você. Prometo. Afinal, nós não queremos que a garota desista do casamento.

Cuidei de Collin e voltei para o quarto. Laura estava sentada na poltrona. Hanna entre suas
pernas, enquanto ela penteava seus cabelos. Laura usava um vestido claro. O tecido era fluido e
destacava sua pele delicada.

Ela terminou e Hanna se levantou, exibindo sua trança recém-feita.

- Estou bonita papai? – ela me perguntou.

- Linda, anjo – eu disse e beijei sua testa.

Caminhei até Laura e beijei sua boca suavemente.

- Você também está linda, amor. Só me dê um minuto e eu me arrumo também.

Saí do chuveiro e vesti jeans e uma camisa. Penteei os cabelos e saí para o quarto. Laura
estava na cama, com Collin e Hanna de cada um de seus lados e John na poltrona, pés sobre a
mesinha, divertindo-se em me ver.
- Agora a família Galagher está completa – ele brincou.

- Adrian você deveria dar um corretivo nesse garoto insolente – Laura brincou.

- Eu vou amor – eu disse – amanhã mesmo vou cancelar o deposito da mesada dele.

- Ah não Sr. Galagher! Aí não pode! Você sabe, eu preciso de grana. Ah e por falar nisso – ele disse
serio – favor rever os valores e converte-los novamente para euros. A vida em Roterdã está pela
hora da morte. Você precisa ver.

Sorri.

- Eu vejo garoto! Sou eu quem paga as suas contas.

Laura riu alto enquanto ajudava as crianças a irem lá para baixo.

Entramos no Loui’s algum tempo depois. Eu não precisava mais me preocupar se alguém
iria me fotografar ao lado de Laura ou não. Na verdade, eu ficaria grato se alguém o fizesse, seria
mais fácil de fazer Margarida ver que eu estava falando sério.

John sentou-se com Laura e as crianças em uma das mesas perto da porta, enquanto eu me
dirigi ao balcão para fazer o nosso pedido. Voltei algum tempo depois com as bandejas cheias.

Fiquei observando meus filhos ali, perto de mim, ao alcance das minhas mãos. Eu não
conseguia pensar em algo que pudesse ser melhor do que estar ali, ao lado deles. Laura sorria,
enquanto ajudava Collin com o cachorro quente, sujando as mãos de queijo para alimentar o meu
filho.

- Tirou a sorte grande, hein, Sr. Galagher – John disse baixinho, batendo o ombro no meu – vovô vai
adorar conhecer essa aí – ele disse esticando a sobrancelha em direção á Laura – Talvez ele até
repense o fato de que, como é mesmo? “Você estragou sua vida quando jogou sua carreira fora
para se casar com mamãe”

- Não seja bobo filho. Eu não joguei nada fora – corrigi – não teria feito nada diferente.

John sorriu, mas não disse mais nada por um pequeno espaço de tempo. Quando falou de
novo, sua voz não tinha nenhum traço de sarcasmo. Seus olhos encaravam Laura rindo com Hanna e
Collin.

- Acho que ela gosta de você pai. Eu não entendo, mas acho que ela gosta.

Eu sorri, mas também não disse mais nada. Pensei que eu era mesmo um imbecil por não
valoriza-la mais. Que essa garota era a melhor coisa que tinha me acontecido depois de ser pai.
Pensei em como eu tinha sorte e em como queria continuar tendo.

Suspirei – talvez eu pudesse convencê-la á transformar esses dois anos em vinte ou trinta,
quem sabe?
Capítulo 18

Na quarta á tarde, passei em meu antigo escritório para ver Hans. Eu precisava resolver uma
série de coisas antes do bendito jantar de sexta – meu jantar de noivado.

Entrei e cumprimentei Luce, nossa secretária.

- Laura! – ela disse levantando-se para me abraçar – Oh meu Deus! Tenho que confessar que você
virou minha heroína!

Sorri.

- Luce, nem sei se te pergunto por que – brinquei.

- Como assim? – ela disse indignada – qualquer uma que consiga enfiar uma aliança no dedo de
Adrian Van Galagher merece toda a minha admiração!

- Especialmente se ela não pretendia fazer isso – Hans disse vindo pelo corredor.

Abracei-o.

- Diga que não está chateado comigo – pedi.

- Pelo quê? – ele perguntou – por se casar com o segundo homem mais importante da Holanda? Um
que só perde para o rei? Ah não se preocupe, Laura eu posso lidar com isso!

Sorri.

- Isso ainda me assusta.

- Venha, vamos conversar em meu escritório. Mia te espera lá.

Entrei no escritório de Hans, sentindo uma onda de familiaridade se espalhar por mim.
Sentei-me em uma das cadeiras e deixei que Mia pulasse em meu colo. Alisando seu pelo macio.

- Explique-me como você passou de advogada assistente á noiva em menos de um mês. Porque em
minha idade, Laurinha, nós temos dificuldade em aceitar esses rompantes amorosos como coisas
boas.

Suspirei – eu não conseguiria mesmo esconder nada de Hans e nem pretendia.

- Não é exatamente amor Hans – comecei.

- Engraçado porque esse beijo não me deixa muitas duvidas – ele disse me entregando o jornal.

Abri na pagina que ele indicou. Era uma foto de Adrian comigo. Estávamos encostados no
carro. Ele segurava-me pela cintura e sua boca estava colada na minha. Era um beijo apaixonado, ou
parecia, pelo menos.
Fechei o jornal e suspirei.

- É um acordo Hans. Um acordo pela guarda de um dos filhos dele. O caçula.

Hans levantou uma sobrancelha para mim sem entender.

- Eu sei, parece idiota – constatei – eu me sinto mesmo idiota quando penso, mas é o que é. Um
acordo. Não posso dizer que é uma acordo ruim.

- Tenho certeza disso – Hans constatou – você não parece muito interessada em se livrar das garras
de Van Galagher querida.

- Não é isso Hans – ou é? – essa foi à condição da ex-sogra. Ela propôs que eu me casasse com
Adrian, em troca da guarda do filho caçula.

- E, claro, ele não poderia simplesmente entrar com um pedido de restituição de guarda. Precisava
casar-se com uma garota de classe media apenas para poupar uma briga judicial, dentre as muitas
que ele enfrenta todos os dias.

Deixei minha cabeça pender contras as palmas das minhas mãos.

- Falando assim parece idiota.

- É idiota querida – Hans constatou – eu só não entendi que tipo de idiotice é. Quero saber o quanto
essa idiotice vai te magoar. Você sabe exatamente quem é Adrian Van Galagher, Laura? – Hans me
perguntou.

Neguei com a cabeça. Eu não sabia muito á respeito dele. Sabia apenas o que Alex e
Margarida haviam me contado e depois do episodio idiota com a tal garota do vestido vermelho, eu
não havia procurado mais nada sobre ele na internet.

- Adrian Van Galagher ganha dinheiro com manobras arriscadas no mercado financeiro Laura. Ele
compra empresas falidas e as vende em partes. Ele destrói os grandes para dominar os pequenos. É o
que ele faz. Não é completamente ilegal, mas também não é muito ético.

Pensei por um tempo. Não era realmente ilegal. Antiético? Talvez. Isso era um problema
para mim? Não exatamente. Não era como se eu fosse uma profunda conhecedora de direito
empresarial ou mercado financeiro – permaneci em silencio.

- Agora o que não faz sentido para mim – Hans continuou – é que um homem acostumado á brigas
ferrenhas em tribunais, prefira casar-se em um acordo ao invés de simplesmente brigar pelo filho.
Alexander Persen é o melhor advogado da Holanda, não acho que seria um problema para Van
Galagher reaver a guarda dos filhos.

- Hans. Existem muitas coisas nisso tudo. Coisas confusas – tentei consertar tudo, mas parecia mais
enrolada á cada palavra – Adrian. Ele. Ele. É complicado.
- Imagino – Hans disse sarcasticamente – Só espero que saiba o que está fazendo Laura. Você nunca
me pareceu o tipo que se vende por alguns milhares de euros.

Suspirei profundamente. Não era pelo dinheiro. Realmente não era. Era por Collin. Não
era? O garoto precisava do pai e o pai precisava dele. Era isso. Era uma boa ação. Eu queria ajudar
– Minha cabeça dava voltas em torno do inadmissível. Eu negava e fingia, mas era para mim mesma.
Eu não queria admitir. Eu não podia. Se eu admitisse uma vez, então eu seria tragada nessa espiral de
sentimentos. Minha respiração de repente estava mais difícil, mais tensa.

Eu não tinha muitos amigos na vida. Não tinha ninguém em quem eu pudesse confiar, ou
alguém com quem eu pudesse desabafar. Meu único amigo era Hans. Ele era o cara para quem eu
sempre corria quando algo dava errado. De uma gripe, a um aborto. E lá estávamos nós novamente.

- Eu estou apaixonada por ele Hans – confessei com medo das palavras que saiam da minha boca.

Hans se levantou e me abraçou, deixando minha cabeça pender contra seu peito.

- Isso eu já sabia querida – ele disse acariciando meu queixo – o que eu quero saber é o que Van
Galagher pretende com você. Ele pode ser o dono da Holanda, eu nem me importo. Ele pode ser o
canalha safado que alguns dizem, ou o anjo salvador que outros dizem, não me diz respeito, mas ele
não pode brincar com a minha garota.

Ele ergueu meu rosto e encarou meus olhos marejados.

- Se ele fizer isso eu vou até aquela mansão e chuto a bunda rica dele. Juro.

Sorri.

- Hans você é o melhor quase pai que uma garota poderia ter!

Quinta feira chegou mais rápido do que eu imanei. Eu havia acabado de acertar a
contratação de uma babá para Collin e Hanna quando vi John sentado no deck, perto do lago. Peguei
duas garrafas de soda e caminhei até ele. Sentei-me ao seu lado e entreguei-lhe uma das garrafas.

- Eu preferia cerveja, mas tudo bem, isso vai servir – ele me disse batendo sua garrafa na minha.

- Eu não seria uma madrasta responsável se deixasse você beber cerveja.

John sorriu, dando uma golada no refrigerante.

- Estranho não é? – ele me perguntou – essa de madrasta. Nunca pensei que eu realmente fosse ter
uma.

- Eu tive um padrasto – confessei a ele – o cara era um imbecil.

John sorriu.

- Já tive mais sorte que você então.


Suspirei profundamente, observando o sol fraco de primavera brilhar na água clara do lago.

- Tudo bem para você? – perguntei – sabe, essa coisa toda de acordo. Eu entrando na vida de vocês
assim tão rápido. Não quero invadir nada John. Eu sei como é difícil ter alguém que não é realmente
parte da família fingindo que é.

John bebeu um gole da soda. Deixou a garrafa ao seu lado. Atirou a tampinha na água,
vendo-a quicar algumas vezes. Sorriu.

- Sabe Laura. Eu lembro exatamente da minha mãe. Não preciso de nenhuma foto, como Hanna e
Collin. Eu me lembro dos olhos dela, e do seu sorriso. Eu me lembro do cheiro do seu cabelo e de
como ela me beijava todos os dias antes de dormir. Eu sinto falta dela todos os dias.

Eu podia sentir a umidade aumentar em meus olhos consideravelmente. Funguei um pouco


para evitar chorar. Eu não queria uma cena. Queria estar forte para ele. Ampará-lo.

John suspirou e sorriu de repente, passando o braço pelo meu ombro e me puxando para ele.
Beijou minha testa.

- Mamãe teria gostado de ver o Sr. Galagher com você.

Sorri, deixando uma pequena lagrima correr.

- Ah não vai chorar Laura. Nós não temos uma garota em casa á muito tempo. Hanna não conta. Não
sou muito bom com essas coisas.

Limpei meus olhos com as mãos e beijei sua bochecha.

- Você é um garoto incrível, John.

- Não o suficiente para merecer uma cerveja, mas tudo bem. Eu posso lidar com isso. E respondendo
á sua pergunta, nova Sra. Galagher, eu estou bem com isso. Estou feliz que você tenha entrado em
nossas vidas. Meus irmãos precisavam que alguém colocasse um cabresto no Sr. Galagher.

- Eu não coloquei um cabresto no seu pai! – me defendi.

- Isso! – ele me disse – continue fingindo que não. Ele não lida bem com cabrestos. É como meu
potro. Precisa achar que está no comando.

- John! – eu disse indignada.

- E quanto ao acordo – ele continuou – é a coisa mais idiota que eu já ouvi, sério, mas se vocês ficam
mais felizes fingindo que isso é realmente um acordo, tudo bem para mim.

Ficamos ali, curtindo os raios fracos do sol em nossa pele, tomando nossa soda. John era um
garoto incrível. Não. Ele não era um garoto. Era um homem. Jovem demais para sua maturidade. Ele
era um amigo. E eu estava feliz que me aceitasse.
Entrei pouco mais de uma hora depois. Martina havia tirado o uniforme das crianças e elas
estavam na cozinha, terminando o café. Sentei-me ao lado de Hanna.

- Vamos fazer o dever antes de o papai chegar? – eu disse á ela.

- Você me ajuda Laura?

- Claro, querida. Nós podemos usar a mesinha da sala. Assim o Chucrute e Mia podem participar.

Estávamos sentados no tapete, ao redor da mesinha. Hanna com os cadernos abertos e Collin
colorindo um livro de desenhos, quando o Juiz Reign passou pela porta.

- Vovô! – Hanna gritou e correu até ele.

O juiz a pegou nos braços e caminhou até nós. Ele não cumprimentou Collin.

- Srta. Soares – ele me cumprimentou – é um prazer encontra-la novamente.

Havia uma nota de desconfiança em sua voz. Algo que eu não sabia como interpretar.

- Se eu não viesse ver com meus próprios olhos, não acreditaria. Então o inconsequente do meu filho,
realmente decidiu ser um homem de família.

Eu me levantei para cumprimentar o Juiz. Collin permaneceu sentado, olhos na folha de


papel. Eu queria pegá-lo no colo. Sentia um dever estranho de proteção. Estendi a mão para o Juiz.

- É um prazer revê-lo também Juiz Reign – eu disse.

Soltei sua mão e peguei Collin nos braços. Beijei sua testa e ele se aconchegou em meu
peito.

Eu sabia que deveria ignorar o comentário sobre Adrian. Eu sabia que os dois não eram os
melhores amigos do mundo, mas ele criticar Adrian me incomodava. Não resisti.

- Sinceramente, Juiz Reign. Não vejo Adrian de outra maneira, que não um homem de família.

- Ah querida, isso provavelmente se dá ao fato de que você acabou de conhecê-lo. Meu filho é um
grande manipulador. Ele é especialista em tirar proveito das situações – ele disse colocando Hanna
no chão e sentando-se em uma das poltronas – Eu posso compreender perfeitamente. Você é uma
jovem promissora. É inteligente e muito bonita.

- Fico feliz que aprove minha escolha, pai – Adrian disse beijando minha testa e pegando Collin em
seus braços.

Eu não o havia visto entrar, então eu não sabia qual parte da conversa ele havia ouvido, mas
eu estava feliz que Adrian estivesse em casa.

- Filhote – ele disse para Collin – o que acha de atirar pedrinhas no lago com John?
Collin sorriu.

- Ótimo! Hanna vai com você até lá. John vai cuidar de você enquanto o pai e Laura conversam com
o vovô.

Hanna levou Collin pela mão. Ficamos nós três ali. Adrian sentou-se no sofá e deu-me a
mão para que me sentasse ao seu lado.

- Gostaria de um café pai? Ou veio apenas conferir se dessa vez eu fiz uma boa escolha? – Adrian
provocou.

A mão de Adrian estava em minha perna. Firme, sobre o meu joelho. Era um gesto protetor.
Ele queria deixar claro que eu pertencia á ele. Recostei-me mais perto dele, deixando minha cabeça
pender suavemente em seu ombro.

- Eu gostaria de um café sim, meu filho – o Juiz rebateu – afinal nós não falamos desde quando
mesmo? Acho que desde que você perdeu seus filhos.

- Amor – ele disse beijando minha têmpora – você poderia pedir á Martina para providenciar um
café para nós três?

Sorri.

- Claro Adrian.

Eu me levantei e saí. Martina já havia preparado o café e o estava colocando em uma


bandeja. Esperei que ela terminasse e a segui até a sala. Ela colocou a bandeja na mesinha e serviu
Adrian e o pai. Eu estava passando por Adrian quando o juiz continuou a conversa.

- Então Laura, o que você acha dessa fixação do meu filho por uma criança que nem mesmo tem o
nosso sangue? – ele me perguntou em um tom arrogante.

Eu podia ver Adrian apertar o maxilar com tanta força que surgia uma veia azul em sua
têmpora. Repousei minhas mãos sobre seus ombros.

- Acho admirável que ele ame uma criança como filho, mesmo que não existam laços consanguíneos
– eu disse firme.

O juiz deu uma golada no café e colocou a xicara na mesa novamente.

- Sabe que o garoto irá dividir a herança da nossa família com seus futuros filhos, não sabe querida?

Respirei fundo, soltando o ar pela boca – eu estava irritada. Muito. Furiosa. E eu precisava
me controlar porque era exatamente o que o Juiz queria – fazer-me perder a calma.

Sorri.

- Não vejo problema, Juiz Reign. Eu não saberia dizer de que tamanho é a fortuna do meu futuro
marido, mas tenho certeza de que não temos problemas financeiros iminentes. Quanto á herança, pelo
pouco que sei, foi conquistada com as habilidades de Adrian, então acho que ele é quem deve decidir
com quem dividir ou não.

- É uma excelente advogada de defesa, Srta. Soares. Eu sempre soube disso. E me chame de Albert.
Acho mais apropriado, já que se casará com meu filho.

Eu sorri em resposta. Não era um sorriso sincero, mas era um sorriso necessário.

- Se não se importam, vou cuidar das crianças. Está ficando tarde.

***

Quando meu pai cruzou a sala em direção á saída, eu só pude agradecer. Não gostava de
suas visitas. Não que eu me importasse de qualquer maneira com o que ele pensava á meu respeito –
suas opiniões já haviam deixado de importar muito tempo atrás. O que me incomodava era a maneira
como ele tratava Collin. Eu odiava que ele fizesse distinção entre os meus filhos. Eu contaria a
Collin, eventualmente, que ele não tinha o meu sangue. Eventualmente, quando chegasse a hora. Essa
não era a hora.

Subi as escadas sentindo meus ombros pesados pela conversa e meu coração leve pela
atitude de Laura. Ela havia desafiado meu pai. E isso não era uma coisa fácil. Eu mesmo havia
passado tempo demais aceitando suas opiniões distorcidas á respeito da vida, por puro medo de
desafia-lo. Ela não tinha medo. Era forte e corajosa. Minha garota.

Entrei em meu quarto em busca dela, mas não a encontrei. Caminhei pelo corredor e a houve
murmurando uma musica bem baixinho. Eu não conhecia a musica, parecia ser em português.

- Durma bem anjinho – eu a ouvi dizer e então entrei.

Laura bateu com o nariz em meu peito, bem no momento em que passei pela porta. Eu a
segurei em meus braços.

- Isso está virando uma rotina Sr. Galagher – ela brincou.

- Mas desta vez eu a segurei – respondi – e não pretendo solta-la.

Laura sorriu, cruzando os braços em minhas costas, por baixo dos meus braços.

- Ótimo – ela me disse encarando meus olhos – eu não queria mesmo que me soltasse.

Encarei por um longo tempo, eu queria aproveitar cada segundo.

- Obrigada por me defender – eu disse beijando sua testa – foi muito corajoso. Não é qualquer um
que enfrenta o poderoso Juiz Reign.

- Ah não tem problema, minha reputação já não é lá essas coisas mesmo.

- Vem amor – eu disse puxando-a pelo corredor – vou cuidar da minha garota.

Entramos em nosso quarto e eu encostei a porta. Enchi a banheira e entrei com ela, deixando
a água morna relaxar nossos corpos, beijando suas costas suavemente.

- Adrian – ela perguntou de repente – será sempre assim?

- Não anjo, ás vezes vamos tomar banho no chuveiro mesmo. Eu sou um homem ocupado – brinquei.

- Não seu bobo – ela me corrigiu – nós dois. Nosso relacionamento. Será sempre assim?

Suspirei profundamente.

- Provavelmente não. Em um mês ou dois, você estará fingindo dor de cabeça e eu estarei inventando
reuniões de trabalho.

- Que horror Adrian! Como você é pessimista!

- Não sou pessimista amor, sou realista. Acredite, eu já passei por essa situação.

Laura suspirou profundamente.

- Bem, então, acho que devemos ficar felizes que temos que suportar isso por apenas dois anos.

Ela sorriu, mas não era um sorriso feliz. Eu também não estava feliz. Sentimentos estranhos
perturbavam minha alma. Apertei-a mais forte contra mim.

- Amor, vamos só aproveitar enquanto tudo está bem – eu disse descansando minha boca na curva do
seu pescoço.

- Acho uma ótima ideia, Sr. Galagher.

Laura adormeceu algum tempo depois. Eu me levantei, vesti uma calça de elástico e me
servi de uma dose de uísque. Fui até a janela. Abri a porta de correr e saí para a varanda. Era uma
noite fria, mas eu não me importava. Sentei na cadeira e acendi um cigarro – Amanhã eu estaria
noivo.

Dei um trago no cigarro e deixei a fumaça se espalhar ao redor de mim devagar. Minha
mente voava entre o passado e presente. Eu tinha medo de cometer os mesmos erros. Tinha medo de
frustrar Laura como havia frustrado Patrícia. Patrícia.

Não isso não iria acontecer – chacoalhei minha cabeça, tentando afastar as bobagens da
minha mente, enquanto saboreava minha bebida – Laura não era Patrícia. Ela não esperava de mim o
que Patrícia esperava. O que nós tínhamos era um acordo.
Um acordo era uma coisa boa. Não havia surpresas. Nós sabíamos exatamente o que esperar
um do outro. Não sabíamos? Então porque eu me incomodava tanto em pensar nisso como um
acordo? Porque eu sentia tanto ciúme? Ela não era minha. Ela ia seguir com a vida dela em algum
tempo. Ia conhecer outra pessoa. Um cara com quem pudesse se casar de verdade. Um cara que iria
tocá-la e beija-la de verdade – apertei minhas mãos em punho – Um cara que iria amá-la. Um cara
gentil e bom. Um cara como Alexander.

Atirei o copo o mais longe que consegui, acertando o tronco da castanheira. Ele se partiu em
centenas de pedaços de vidro – ela poderia ser de outro algum dia, mas hoje, hoje ela era minha.

Entrei. Fechei a porta e tirei minha calça. Levantei as cobertas e encaixei meu corpo no de
Laura, por trás, enfiando minha mão dentro da sua calcinha, tocando-a. pressionando meu corpo no
dela, sentindo sua excitação aumentar. Eu estava pronto. Duro. Excitado. Eu queria possuí-la.

Baixei minha cueca e encaixei-me próximo a sua entrada, sentindo o calor da sua pele.

- Adrian – ela balbuciou – não acredito que você quer mesmo fazer isso agora – constatou.

Forcei minha entrada, tocando-a devagar com uma mão e apertando a carne da lateral do seu
quadril com a outra. Encostei minha boca em seu ouvido, traçando a curva da sua orelha com a minha
língua.

- Você nem faz ideia de como eu quero, amor. Nem faz ideia.
Capítulo 19

Eu estava terminando meu café, quando Martina me chamou.

- Srta. Soares. Entrega para a senhorita.

Encontrei um homem de terno na porta. Ele tinha uma grande caixa nas mãos. Peguei-a e
assinei o protocolo de recebimento. Subi as escadas e entrei em meu quarto. Coloquei a caixa sobre
a cama e a abri. O conteúdo estava coberto por papel de seda branco.

Soltei o papel com cuidado para encontrar um vestido dobrado. O tecido era leve e fluído,
claro, quase branco. Havia pequenos detalhes de ramos de flores, em um tom suavemente mais
escuro. Era delicado, discretamente transparente e muito, muito elegante. Era perfeito.

Embaixo do vestido havia um par de sandálias de salto alto e um bilhete dobrado. Abri para
encontrar a caligrafia de Adrian Van Galagher.

“Amor,

Nao tenho duvidas de acertei no tamanho, afinal, eu passei boa parte da noite passada assegurando-
me de conhecer cada detalhe do seu corpo.

Espero que goste e o use para mim nesta noite especial.

A.”

Li e reli o papel sorrindo como uma idiota. Ele conseguia! Ele sempre conseguia me deixar
com esse sorriso bobo preso nos lábios.

Passei o que restou do dia ansiosa, sentindo como se meu coração não coubesse mais dentro
do meu tórax. Inflado, grande, leve, como se eu pudesse voar.

Adrian havia insistido para que eu passasse o dia em um SPA ou coisa do tipo, mas eu não
queria. Queria ficar aqui, em nosso quarto, sentindo a presença dele, seu perfume na roupa de cama.
Eu estava vivendo um momento único, e, por mais que fosse um acordo, o que eu estava sentindo não
era. Era forte e real. Eu estava assustada, mas estava envolvida demais para dar um passo atrás.

Martina e a Lila, a nova babá, haviam se encarregado de cuidar das crianças e Adrian havia
decidido que se eu não queria um SPA, então ele deixaria o quarto todo para mim e se arrumaria no
quarto de John.

Eu não discuti, queria mesmo um tempo á sós. Queria relaxar e me preparar para a noite. Eu
não estava acostumada a ter esse tipo de regalias, um dia todo na cama, mas com pouco mais de uma
semana sendo mãe e esposa em tempo integral, eu comecei a perceber que a vida de advogada não
era tão dura quanto eu imaginava.

Pouco antes das oito da noite, eu estava pronta. Ajeitei algumas mechas dos meus cabelos
caindo pelos ombros e encarei a figura no espelho. Sorri – eu estava bonita. Bonita, elegante e
delicada, como a noiva de Adrian Van Galagher deveria ser.

Uma musica suave tocava, vinda do andar de baixo. Eu podia escutar as pessoas
conversando. E podia sentir meu coração apertar – meus nervos pareciam feitos de gelatina.

Desci as escadas devagar, apoiando a mão no corrimão para me segurar. E então, tudo se
acalmou, não havia nada mais além dele. Ele virou-se para mim e sorriu.

- Senhores, eu lhes apresento minha bela noiva Laura Soares – Adrian disse.

Ele caminhou até mim e estendeu a mão. Estava usando um smoking preto. Seus cabelos bem
penteados para trás. Eu segurei sua mão estendida e deixei que ele me conduzisse pelos últimos
degraus, enquanto as pessoas nos aplaudiam.

Adrian beijou minha mão, sobre o anel de noivado. Era um beijo discreto, mas seus olhos
ardiam como brasas sob minha pele. Ele tinha um poder sobre mim e meus desejos que eu nem havia
imaginado ser possível.

Eu vi Hans encostado em uma das pilastras da sala, parecia desconfortável em seu traje.
Sorri, mas não consegui caminhar até ele.

- Vem amor – Adrian me disse, puxando-me para o lado oposto – quero que conheça a princesa.

Eu sabia quem era a princesa da Holanda, obviamente, o rosto dela estava em pelo menos
um tabloide á cada dia, com as mais diversas manchetes, mas como mera mortal comum de um país
presidencialista, eu nunca havia realmente chegado perto de uma princesa.

Ela era elegante e delicada. Bonita de um jeito discreto. Muito bem vestida. A princesa não
estava sozinha, ao seu lado, a garota loura do vestido vermelho, sorria para mim.

Eu sabia o que Adrian queria. Ele queria deixar claro para mim, que a tal garota não
significava nada para ele. Sorri de volta para ela.

- Princesa – Adrian cumprimentou com uma pequena reverencia – esta é Laura, minha futura esposa.

Eu imitei sua reverencia. Não sabia ao certo o que fazer. Estender a mão? Abraçar?
Chamar de majestade? Não era algo para o quê eu estivesse preparada. Esse não era o meu mundo,
pelo menos até agora.

- E está é Clair – ele disse indicando a moça da foto.

- É um prazer conhecê-la, Laura – ela disse – Adrian precisava mesmo de alguém em sua vida. Já era
hora de se apaixonar novamente.

Senti um golpe duro no fundo do coração – não era paixão – mas sorri mesmo assim.

- É m prazer conhece-la também, Clair – eu disse á ela.

Nós caminhamos pela sala, cumprimentando as pessoas. Em sua maioria, pessoas que eu só
conhecia das capas dos tabloides. Toda a sociedade holandesa estava lá, incluindo, obviamente,
Alissa.

Fiz o máximo que pude para fugir dela. Eu não queria nenhum tipo de cena hoje. Não queria
que nada estragasse meu momento.

- Você está se saindo muito bem, Sra. Galagher – John cochichou em meu ouvido quando passamos
por ele – continue assim por mais uma ou duas horas.

Sorri e estiquei a sobrancelha para ele – fazia parte do meu papel, por mais que eu não
quisesse.

Um homem aproximou-se de nós e cumprimentou Adrian

- Adrian! Quanto tempo! Eu tive que vir até aqui e conhecer sua bela e jovem noiva – ele disse
sorrindo e estendendo a mão para mim. Agora entendo porque você decidiu se casar – seus lábios
tocaram a pele fina da minha mão – eu faria o mesmo. Sou Jens.

A mão de Adrian em minha cintura ficou mais firme, forte. Seus dedos apertados contra a
minha carne, mantendo-me ali, nem um centímetro longe do seu corpo.

- Sou Laura. É um prazer.

Adrian estreitou os olhos, encarando o homem á nossa frente. Ele era bonito. Atraente. Da
idade de Adrian ou um pouco mais jovem. Tinha encantadores olhos azuis escuros. Uma boca bem
delineada, corpo esguio, atlético. Eu podia ver a pequena veiazinha azul pulsando na têmpora do meu
noivo. Retirei minha mão da de Jens e a coloquei sobre o peito de Adrian, na lapela do smoking.
Beijei seu rosto suavemente.

- Acho que está errado Jens. Eu é que tenho muita sorte por ter encontrado Adrian. Não me vejo com
homem algum além dele.

Adrian não disse nada. Permaneceu em silencio. Punhos cerrados, olhos estreitos, mas a
pequena veia em sua têmpora não estava mais lá. Descansei meu rosto contra seu peito.

- Amor eu gostaria de cumprimentar Hans – falei de depois de alguns instantes de silencio.

Ele beijou minha testa, demorando a boca em minha pele.

- Claro amor – ele disse devagar – já que Jens veio apenas para conhecê-la, penso que sua tarefa já
está completa.
Eu nem conhecia o tal Jens. Não sabia quem ele era, mas eu jamais conseguiria falar com
alguém daquele jeito, naquele tom. Aquele era o tom Adrian Van Galagher de falar e eu não conhecia
ninguém além dele capaz de usá-lo com tanta maestria.

- Hans! – eu disse pendurando-me em seu pescoço.

Hans me segurou em um abraço.

- Hans esse é, ao que parece – eu disse com a mão no ombro de Adrian – meu noivo, o Sr. Galagher.

Adrian estendeu a mão para Hans.

- É um prazer conhece-lo Sr. Andersen. Laura tem muito carinho pelo senhor.

- Eu não tive filhos, Sr. Galagher. Não tive esse prazer, mas o destino me deu Laura. Eu a amo como
se fosse minha filha. O senhor deve imaginar como me preocupo com ela. Espero que a faça feliz.

Era uma ameaça silenciosa de Hans. O tipo de ameaça que Adrian não costumava tolerar.
Senti o sangue gelar em minhas veias.

Contrariando meus pensamentos, Adrian sorriu. Beijou minha testa e me aconchegou em seu
peito.

- Não pretendo desapontá-lo, Sr. Andersen. Não se preocupe.

O quarteto de cordas tocava uma musica suave, romântica.

- O que acha de termos nossa primeira dança, amor? – Adrian me perguntou.

- Seria um prazer, Sr. Galagher.

Adrian me puxou junto dele, minha cabeça recostada contra seu peito. Uma mão contra
minhas costas, a outra, segurando a minha junto ao seu peito. Nossos corpos encontrando um ritmo só
nosso. Novamente, não existia nada além de Adrian e eu. Foi assim por mais tempo do que eu podia
pensar em dançar com alguém. Até que Alexander aproximou-se de nós.

- Então você vai monopolizar a Laurinha a noite toda? – Alex brincou – acho que seria justo que ela
dançasse pelo menos uma musica com um cara legal como eu.

E então, em uma fração de segundos, a veiazinha azul estava lá de volta, pulsando apertada
em sua pele.

Adrian parou de se movimentar, ainda apertando-me contra ele, sua mão protetora em minha
cintura.

- E você não julga justo que eu deseje minha noiva apenas para mim, Alexander, meu amigo?

- Não seja rabugento e ciumento – Alex disse separando-me de Adrian – pelo menos esta noite, tente
ser um cara legal.

Alexander segurou minha mão e puxou-me junto á ele com uma mão firme em minhas costas.
Adrian afastou-se contrariado, os olhos fuzilando Alex e eu. Ele nos observava dançar de longe, mas
seus olhos não nos deixavam nem um minuto se quer.

- Quero que saiba que, apesar de saber dos termos – Alex disse contra o meu ouvido – eu realmente
espero que você e Adrian sejam felizes – ele fez uma pausa e encarou Adrian sem sorrir – mas se não
forem, Laura, quero que saiba que eu estou aqui.

Sorri.

- Obrigado. É bom saber que posso contar com você.

Alex encarou meus olhos dessa vez. Seu rosto era sincero, doce, gentil.

- Eu estou falando sério quando digo isso. Adrian é meu melhor amigo, e é por isso que eu o conheço
bem. Ele tem essa tendência a dominar tudo e todos. Não quero que ele faça isso com você. Eu nem
sei exatamente porque, mas acredite, eu realmente gosto muito de você. Eu sei lá, eu sinto como se –
ele parou a frase e fez uma cara engraçada – por mais idiota que possa parecer, eu sinto que é meu
dever cuidar de você.

Recostei minha cabeça em seu ombro. Era estranho, mas eu entendia exatamente o que ele
queria dizer. Havia algo entre Alexander e eu. Um laço profundo. Algo que eu não conseguia
explicar, mas que sentia como verdadeiro.

- E que garota não ficaria feliz em ter Alexander Persen como seu protetor – brinquei.

- Bem, dentre todas, acho que aquela loura alta ali não anda muito feliz com a escolha que fez – ele
brincou erguendo uma sobrancelha na direção de Alissa.

- Ah isso deve ser por causa do bebê Alex – eu o animei – acredite isso mexe com os hormônios da
gente! Pense em todo aquele peso em seu corpo e se imagine sendo sugado de dentro para fora –
brinquei – é mais ou menos assim.

Alex sorriu.

- Nem quero ver quando Louise nascer então! Acho que vou acabar me esquecendo de como se faz
sexo.

Ri mais alto do que gostaria.

- Ah não se preocupe. Dizem que é como andar de bicicleta.

- Cara – John disse se aproximando de nós no intervalo de uma musica – se eu fosse você devolveria
logo a garota, e reforçaria meu seguro de vida – ele brincou – tem um homem ali do lado com cara de
quem mataria você com a espátula do patê.
Beijei Alex no rosto e segurei na mão de John.

- Vamos melhorar o humor do seu pai.

***

Eu estava irritado. Contrariado. E eu odiava me sentir assim. Dei a ultima golada em meu
uísque enquanto John trouxe Laura até mim. Ela sorriu, segurando a lapela do meu smoking e tocou
seus lábios nos meus.

- Sabia que você está muito, muito sexy com esse olhar de quem vai matar alguém? – ela brincou.

- Conte-me a piada, Laura – eu pedi autoritário – eu quero rir também. Vocês dois pareciam bem
felizes.

- Não seja rabugento. Era uma bobagem.

As mãos de Laura brincavam em meu peito. Eu não a abracei. Mantive minhas mãos dentro
dos bolsos das minhas calças. Se ela achava que me faria esquecer seu pequeno episodio com
Alexander manipulando meus desejos, ela estava errada.

- Diga-me – insisti sem humor.

Laura fungou irritada.

- Sabia que você consegue ser insuportável, quando quer? – perguntou.

- Apenas diga-me o que ele disse que a fez rir tão espontaneamente e seguiremos com a nossa noite.

- Era uma bobagem, dentro de um contexto. Fora dele vai parecer outra coisa e eu realmente quero
evitar interpretações equivocadas.

- E você supõe que eu não tenha condições de entender o contexto da piadinha de vocês dois –
constatei.

- Ok! – ela disse tirando as mãos de mim – você venceu. Você sempre vence, não é?

- Posso dizer que tenho mais vitorias do que derrotas em minha longa ficha de ações.

- Alexander disse que está com problemas com Alissa. Problemas de relacionamento – ela me disse
a contragosto – e eu lhe disse que deveria ser por causa do bebê. Eu disse que a gravidez mexe com
os hormônios femininos.

- Sim.
- E ele me disse que então acabaria por se esquecer como se faz sexo.

Meus olhos correram até Alexander. Maldito conquistadorzinho barato. Então era isso, ele
estava fazendo piadinhas sobre sexo com minha noiva.

- Espero que se lembre que nosso contrato tem uma clausula de fidelidade – constatei – acredite,
você não conseguiria pagar a multa.

Laura suspirou. Era um suspiro triste, de quem desiste. Não era o que eu queria. Eu queria
que ela estivesse feliz. Queria que fosse uma noite feliz para nós dois. Puxei o ar para dentro dos
pulmões e me preparei para dizer algo que pudesse ajudar a consertar minha frase infeliz, mas ela
não me deixou continuar.

- Não se preocupe, Sr. Galagher. Em momento algum eu vou esquecer que isso se trata de um acordo,
e também não vou esquecer os termos desse acordo.

Ela disse isso e virou-se para ir para longe de mim. Olhos tristes, sem brilho. Senti como se
algo apertasse meu coração de dentro para fora – eu não iria afastá-la de mim. Não iria fazer isso
novamente.

Segurei-a pelo pulso, girando-a e puxando-a para mim. Cruzei suas mãos ao redor da minha
cintura e segurei seu rosto entre minhas mãos. Beijei-a devagar, puxando seu lábio inferior entre os
meus. Tateando com a minha língua, até que ela não ofereceu mais resistência. Beijei-a mais, mais
profundo, sugando sua língua para a minha boca, apertando seu corpo no meu. Eu não pedi desculpas.
Não podia me desculpar por dizer a verdade, mas queria que ela soubesse que apesar da verdade,
existia muito mais coisas que não estavam naquele pedaço de papel.

Descansei seu rosto sobre meu peito e alisei seus cabelos com a ponta dos meus dedos.

- Então Pai – John me disse interrompendo nosso momento – tudo bem se eu tirar a garota pra dançar
ou você vai rosnar para mim também?

Levantei uma sobrancelha, e dei um leve sorriso, beijando o topo da cabeça de Laura.

- Não acho que você ofereça suficiente perigo para que eu precise marcar meu território aqui –
brinquei.

- Continue pensando assim, velho, e em um ou dois anos eu terei vencido sua marca de playboy
holandês.

- Não será uma tarefa impossível – Laura disse dando um tapinha nas costas de John – O grande Sr.
Galagher está aposentado! Não está, Sr. Galagher?

- Com toda a certeza amor – eu respondi – agora vá até lá e deixe esse garoto se exibir com a mulher
mais linda da festa.

Quando os dois se afastaram eu percebi que o sorriso dela deixava meu coração em paz. E
eu estava descobrindo que gostava de ter o meu coração em paz.

- Papai, papai! – Hanna disse segurando-se em mim – eu quero comer mais um pedaço de torta e Lila
disse que eu não posso – ela reclamou.

- E porque ela disse que você não pode, Hanna? Explique-me – perguntei.

Eu conhecia minha filha, aliás, eu conhecia os três. Eles tinham muito mais de mim do que
eu gostaria. Três pequenos manipuladores criados para conquistar o mundo, mas não comigo. Eu
sabia conhecia todos os truques.

Hanna pensou um pouco e depois bufou, cruzando as mãozinhas sobre o peito.

- Porque ela disse que três pedaços eram suficientes e que eu acabaria tendo dor de barriga amanhã –
ela disse desanimada – mas eu juro que não vou ter papai.

Peguei Hanna no colo, enquanto ela me abraçava pelo pescoço.

- Anjo eu acho que Lila tem toda razão. Acho que três pedaços de qualquer coisa são suficientes para
uma garotinha do seu tamanho.

- Mas papai – ela tentou argumentar.

- Se você se comportar hoje eu prometo que a levarei para passear amanhã. E podemos comer
cachorro quente. O que acha?

Hanna sorriu e eu a aconcheguei em meus braços, levando-a pelo salão até onde a babá
estava com Collin. Seus bracinhos presos ao redor do meu pescoço, suas perninhas ao redor da
minha cintura, perdidas em um mar de tule cor de rosa.

- Papai eu estou tão feliz – ela me disse de repente.

- Que bom que está feliz anjo – respondi beijando sua testa.

- Você está feliz papai? – ela me perguntou.

Meus olhos correram para a garota no vestido florido. Linda, dançando nos braços do meu
filho. Seus cabelos castanhos ondulando em volta do seu pescoço. Ela riu de algo que John disse,
baixando o rosto contra seu ombro.

Sim! Eu estava feliz. Estranhamente feliz. Desconfortavelmente feliz. Eu não conhecia muito
desse sentimento. Era algo perturbador e confortável ao mesmo tempo. Sorri.

- Se você está feliz, então eu estou feliz, anjo.

Quando todos se foram e estávamos apenas Laura e eu, eu a peguei pela mão.

- Quero lhe mostrar uma coisa – eu disse saindo com ela para o jardim.
Eu sentia tantas coisas diferentes que nem sabia pelo que deveria me deixar guiar. Eu queria
me redimir com ela por ter tocado no assunto do acordo. Eu não queria que ela se lembrasse dele. Na
verdade, tudo que eu queria era que pudéssemos esquecer que isso era um acordo. Eu queria me
entregar. Tinha muito, muito medo. Tinha medo de sofrer e tinha medo de fazê-la sofrer. Eu não era
muito bom com sentimentos, mas tudo que eu sabia era que eu queria tentar. Então fechei os olhos da
razão e só deixei que a emoção me levasse.

Caminhei com ela pelo jardim, passei pela garagem e avistei o estúdio. A porta estava
trancada. Peguei a chave em meu bolso e abri.

- Uau – ela me disse assim que acendi a luz – lugar legal.

Sorri. Não era um lugar legal. Era mal decorado e velho. Tinha um sofá cama que ficava no
apartamento que Alex que eu dividíamos na época da faculdade, e alguns móveis do meu antigo
quarto de solteiro, na casa dos meus pais. Tinha um pôster do Led Zeppelin* e alguns carrinhos em
miniatura que eram de Lucian. Suspirei. Fazia tempo que eu não entrava aqui.

- Não precisa me agradar amor, o lugar é um lixo, eu sei – constatei.

- Eu discordo – ela disse tirando a sandália e sentando-se no velho sofá – acho que tem muita
personalidade. Acho que, na verdade, isso é muito mais a sua cara do que o seu escritório no
Katendrecht.

Sorri, sentando-me ao lado dela e desfrouxando minha gravata.

- Acho que a senhorita pode ter razão, Srta. Soares.

Cruzei as mãos na nuca e coloquei os pés descalços sobre a mesinha, em cima de um velho
livro de direito constitucional.

*Led Zeppelin – foi uma banda britânica de rock, formada em Londres em setembro de 1968. A banda consistia no guitarrista Jimmy
Page, o vocalista Robert Plant, o baixista e tecladista John Paul Jones e o baterista John Bonham.

- Eu costumava vir aqui quando queria fugir da vida – eu comecei sem encara-la – esse é o meu
refugio. Um dos poucos lugares em que eu posso ser eu mesmo.

Laura se aproximou mais, descansando a cabeça em meu peito.

- E porque você me trouxe até o seu refugio, Sr. Galagher? – ela me perguntou curiosa, os olhos
brilhando.

- Eu te trouxe aqui, porque aqui não sou o Sr. Galagher – continuei – aqui eu sou apenas Adrian. Sem
disfarces. Apenas o garoto que curtia rock e tocava guitarra. Aquele das camisetas velhas que gosta
de cachorro quente e cerveja no estilo alemão*.
Laura ergueu a saia do vestido e sentou-se sobre minha cintura, ajeitando as pernas de cada
lado do meu quadril, desabotoando os botões da minha camisa.

- Se você me trouxe até aqui, devo supor que não quer fugir de mim – ela constatou.

Meus olhos estavam nos dela, perdidos na imensidão castanha e profunda. Eu não queria
admitir certas coisas, mas queria tanto que ela me compreendesse. Eu queria que ela pudesse ler nas
entrelinhas e esperava realmente que ela o fizesse.

Laura beijou minha boca, demorando-se nos meus lábios, tocando com sua língua, seu corpo
despertando meu desejo, ali, colado ao meu. Suspirei.

- Eu te trouxe aqui amor, porque não quero mais fugir. Nem de você, nem de nada.

Ela sorriu. Aquele sorriso genuíno que enchia meu coração de algo estranhamente bom.
Esticou os braços para cima e esperou que eu deslizasse o vestido para fora de seu corpo. Tirou
minha camisa e soltou o fecho do sultien. Eu a vi despir-se devagar, aproveitando cada segundo da
sua presença.

- Pois saiba que eu gosto muito, muito mesmo de rock – ela disse beijando meu pescoço – e de
guitarras e cerveja no estilo alemão – beijou a tatuagem sobre minha clavícula – e principalmente, eu
gosto muito desse garoto aqui.

* Cerveja no estilo alemão – referência á maneira como alguns alemães costumam tomar cerveja, em temperatura ambiente e não
gelada.
Capítulo 20

Três semanas mais tarde, eu estava em frente ao espelho, admirando meu vestido de noiva.

- Acha que seu pai vai gostar? – eu perguntei á John.

Eu não tinha muitas pessoas com quem dividir esse momento. Minha mãe não era exatamente
o tipo de pessoa que eu queria que soubesse que eu me casaria com um milionário europeu e minha
avozinha não estava em condições de vir á Holanda apenas para me ajudar com um vestido de noiva,
mas eu tinha John. Ele havia se tornado muito mais que um enteado. Éramos amigos. Parceiros no
crime, confidentes. Eu podia até tentar ser mãe para Hanna e Collin, mas com John era diferente. Nos
éramos como iguais. Ele me protegia e eu o protegia.

Ele se aproximou e parou atrás de mim no espelho, suas mãos segurando minha cintura, seu
rosto apoiado na curva do meu pescoço.

- Acho que você é a garota mais linda que já vi e se ele não gostar, baby, você pode esperar mais um
mês e meio e eu me caso com você.

Sorri e John sorriu também.

- Se o velho sabe que eu digo essas bobagens para você ele vai se assegurar que eu não complete
dezoito anos, madrasta.

- Sabe que eu não gosto quando você me chama de madrasta! – reclamei – faz com que eu me sinta
velha, feia e rabugenta!

John ajeitou a franja para trás, arrancando um pequeno suspiro da garota que me ajudava
com o vestido.

- Madrastas são sexys Laurinha! Você deveria assistir mais televisão. Ultimamente as madrastas
sofreram uma remodelagem – ele brincou.

- Eu não tenho muito tempo para televisão John Albert. Caso você não saiba eu tenho dois filhos
postiços pequenos e um marido rabugento.

-Ah eu entendo perfeitamente, Sra. Galagher. Eu durmo no quarto ao lado, lembra-se?

- John! – praguejei.

John desviou da luva que joguei nele sorrindo.

- Eu sou um cara sincero, Laura, você sabe.

Seguimos de trem para Amsterdã, John e eu, sentados perto dos degraus, vendo a paisagem
correr pela abertura de vidro da porta.
Ele estendeu o braço e me puxou para dentro, abracei-o pela cintura.

- Sabe Laura, eu nunca tive alguém assim.

- Assim como? Meio maluca, que curte andar de trem ao invés de dirigir um Mercedes do ano? Ou
assim estranha que cantarola musicas em espanhol enquanto prepara o jantar?

John sorriu. Não era um sorriso divertido e debochado como ele costumava ter. Era um
sorriso sincero, profundo, cheio de sentimentos.

- Não sua boba. Alguém assim, com quem eu realmente pudesse contar. Alguém para dividir a carga,
sabe? Não tem sido fácil desde que mamãe morreu. O velho parece forte, mas ele sempre precisa que
alguém esteja ali, nos bastidores.

Eu o abracei mais forte – eu sabia exatamente como ele se sentia. Eu não havia perdido
minha mãe, mas ela não era exatamente o tipo de mãe que espera o filho chegar da escola com
biscoitos e chocolate quente. Eu sabia exatamente á que carga ele se referia. Era difícil cuidar de si
mesmo sem ter ninguém com quem dividir as experiências. E ele tinha razão sobre Adrian. Adrian
era forte e poderoso quando era o Sr. Galagher, mas quando ele tinha que ser só o Adrian, o pai, o
marido, o filho, aí ele era inseguro e dependente. Ele precisava que alguém o apoiasse.

- Você sempre vai poder contar comigo, John – eu disse beijando sua bochecha.

- E você comigo. Juro que chuto as bolas dele se ele te magoar.

- As bolas não – brinquei – chute as canelas. Eu preciso menos das canelas do que das bolas dele.

- Eca! Que coisa horrível de se falar para um garoto – John brincou fingindo nojo – eu sou virgem,
sabia?

Sorri.

- Eu também sou sincera ué.

Pouco tempo depois, estávamos em Amsterdã, entregando a chave do meu antigo


apartamento ao senhorio. Adrian e as crianças estavam nos esperando para o almoço, depois de
visitarem a Casa da Anne Frank. Mandei que o caminho seguisse com minha pequena mudança para
Roterdã na frente. Eu queria um tempo em família.

As ultimas semanas haviam passado rápido demais. Eu ainda custava a acreditar que estava
realmente prestes á acontecer – eu iria mesmo me casar com Adrian Van Galagher, meu pirata
arrogante.

Caminhei pelas ruas da minha antiga cidade sentindo uma pontinha de saudade. Eu podia não
ter nascido em Amsterdã, mas eu a havia escolhido como lar á muito tempo.

Passei pela esquina em que tinha me chocado com Adrian, pouco mais de um mês atrás e
sorri. Eu não poderia nem sonhar com o que a vida havia me reservado, naquela época.

- Acreditaria se eu te contasse uma historia engraçada? – perguntei a John.

- Sou todo ouvidos – ele respondeu.

- Eu e seu pai nos trombamos exatamente aqui, alguns dias antes de nos conhecermos de fato.

John sorriu, mostrando um letreiro imaginário com as mãos.

- E assim começa a historia de amor de Adrian e Laura Van Galagher.

- Seu bobo! Não deboche da minha historia!

- Isso é clichê Laura! Você tem que concordar comigo que esbarrões e tropeços já viraram moda
nesses romancezinhos que vocês mulheres leem suspirando.

- Eu não leio romances suspirando! – reclamei – eu nem mesmo leio romances! Eu leio livros
profissionais. Coisas sobre direito.

- Ahan – ele brincou – eu sei. Vi aquele livro de direito com o escocês fortão de kilt* abraçando uma
mocinha indefesa na capa.

- John! – praguejei.

- Ah me desculpe – ele disse rindo – eu não sabia que era um segredo.

- Aquele livro nem era meu – me defendi – era de Lila e eu nem gosto de livros com escoceses. Eu
prefiro os com piratas holandeses – brinquei.

- Sério Laura, essa sua paixonite pelo velho beira a doença mental.

*Kilt - é um saiote masculino, pregueado na parte de trás, trespassado na parte da frente, de comprimento da cintura até aos joelhos e
sem o uso da cueca. Na Escócia, é feito tradicionalmente de tecido de lã e com padrões de tartã, sendo utilizado por guerreiros e
batedores dos clãs, cada clã possuindo o seu próprio tartã. Era o traje típico de homens e jovens das montanhas escocesas do Século
XVI.

Continuamos caminhando, rindo e brincando, mas assim que eu o vi, meus olhos pararam em
Adrian, abaixado, amarrando os sapatos de Collin. Ele estava absolutamente maravilhoso de
camiseta azul marinho e jeans claros. Suspirei.

- E o mundo todo acabou para Laura Soares – John brincou – fim da historia.
Apressei o passo e me atirei nos braços de Adrian.

- Senti saudades – eu disse sem me importar se iria parecer ridícula ou não.

Eu não me importava mais. Desde o dia no estúdio, nós estávamos realmente tentando.
Adrian não fugia mais de mim. Não fugia mais dos seus próprios sentimentos. Eu podia senti-lo um
pouco mais perto a cada dia. Um pouco mais meu á cada abraço. E nada me deixava mais feliz.

Ele me apertou contra seu peito. Beijando o topo da minha cabeça.

- Isso é muito bom Sra. Galagher – ele me disse. Havia começado á me chamar assim depois da noite
no estúdio. Eu não era mais a Srta. Soares, era a Sra. Galagher agora – porque eu pensei que
acabaria aceitando a oferta desse aspirante á Don Juan e me trocaria por um modelo mais novo.

Sorri.

- Eu prefiro os clássicos.

- Papai eu estou com fome – Collin reclamou.

- Eu também papai. Nós podemos comer agora? – Hanna completou.

- É claro. Nós podemos sim – Adrian respondeu pegando Collin nos braços – vamos perguntar á
Laura onde podemos comer, já que ela conhece muito melhor o Jordaan do que nós.

- Nós podemos comer sanduiche de filé com queijo gouda! – eu disse sentindo a saliva aumentar em
minha boca – eu simplesmente amo filé com queijo.

Adrian sorriu.

- Ah eu me lembro disso, Sra. Galagher.

Corei, lembrando-me da nossa primeira vez e disfarcei sorrindo.

- Dada a cor das suas bochechas, juro que não quero nem saber a historia do tal sanduiche. Eu já fui
traumatizado demais por um dia só. Se continuar assim vou precisar de uma psicanalista. Loura e
sexy, de espartilho vermelho – John brincou.

Adrian estreitou os olhos para ele e eu sorri.

- Dramático como uma velha virgem espanhola – brinquei.

Descemos a rua em direção á lanchonete que eu mais gostava em Amsterdã. Nós nos
sentamos em uma das mesinhas do lado de fora, na beira da calçada. Era um dia de sol na Holanda e
as ruas estavam animadas e felizes. Adrian entrou para pegar os sanduiches e eu fiquei ali, brincando
com as crianças.

Poucos minutos depois ele voltou, carregando uma bandeja cheia de comida. Distribuímos
um para cada e Collin ajeitou-se em meu colo para que eu o alimentasse. Assim que abri o embrulho
o aroma da gordura do queijo bateu como um soco na boca do meu estomago. Não tive tempo para
mais nada além de descer Collin e me debruçar sobre a lata de lixo.

Não era elegante, mas eu não podia evitar. O vomito veio tão forte que agradeci aos céus
por Adrian ser rápido o suficiente para segurar meu cabelo para fora do caminho.

- Isso é terrível – eu disse meio zonza – me desculpe.

Adrian riu.

- Por vomitar? Por respingar em meus sapatos? Ou por quase arrastar a mesa junto com você? – ele
brincou.

- Por tudo. Não é nada sexy ver a noiva vomitando – constatei.

- Eu disse que esse sanduiche era quase uma bomba nuclear, amor. Você não quis me ouvir.

Ele ajudou a me levantar e pegou uma toalhinha de boca de dentro da mochila de Collin.
Molhou-a com a agua da garrafa e limpou meu rosto.

- Desculpe, nós não temos toalhinhas umedecidas cheirosas aqui. Vai ter que se contentar com agua
mesmo.

Sorri.

- Me desculpe – repeti – isso é terrível. Eu não tenho me sentido muito bem nos últimos dias. Devo
ter pegado alguma virose ou coisa assim.

- Não se preocupe amor, essa não foi a coisa mais nojenta que eu presenciei. Acredite. Eu sou pai de
três filhos.

Eu me sentia fraca e sem coragem, mas mesmo assim continuei sorrindo como uma idiota.

- Papai a Laura está dodói? – Collin perguntou – ela vai ter que tomar injeção?

- Acho que não será preciso filho – Adrian respondeu – Laura só precisa descansar um pouco. Nós
vamos para casa e ela vai descansar para ficar melhor logo e comeremos algo lá em casa, tudo bem?

Collin assenti e nós nos levantamos.

- Hey, eu vou levar meu sanduiche – John disse pegando o embrulho – se vocês não se importam eu
estou com fome e isso está delicioso.

- Eca John – Hanna reclamou – a Laura acabou de vomitar!

John deu uma mordida no sanduiche.

- Ela não vomitou neste aqui – ele disse indicando o sanduiche – o que significa que ele está perfeito
para o consumo e seria um desperdício não consumir. Sabia que o desperdício é a grande cólera da
humanidade.

- Blá, blá, blá – Adrian brincou – coma logo essa bomba de colesterol e aproveite seu metabolismo
de dezoito anos. Ele não será assim para sempre.

Eu sorri – essa era minha família, e eu não poderia ter escolhido uma melhor.

***

Laura passou o que restou do dia na cama. Estava pálida e sem animo para nada. Tomou um
pouco de chá e comeu alguns biscoitos e mais nada. Depois de colocar as crianças na cama eu desci
para a cozinha e peguei uma bandeja. Coloquei um prato de sopa e um copo de suco de laranja nela.
Coloquei também dois bombons de cereja e subi.

Abri a porta e encontrei-a repassando os canais de televisão com o controle remoto.

- John me disse que preciso ver mais televisão – ela afirmou.

- E, claro, a opinião de John é algo que não pode ser dispensado – brinquei.

- Ele me disse que as madrastas foram remodeladas e que agora são jovens e sexys. Eu preciso ver
isso – ela disse sorrindo.

Peguei o controle e coloquei no canal em que passava uma série de televisão nova, sobre
contos de fadas remodelados.

- Você será uma madrasta jovem e sexy, não precisa se preocupar com isso, mas, se quiser, era desta
série que John falava.

Sentei-me ao lado dela na cama e arrumei a bandeja sobre suas pernas.

- Você precisa comer algo – eu disse ajeitando uma almofada trás das costas dela.

- Não estou com fome Adrian. Na verdade ainda me sinto mal. Zonza e enjoada.

- E é por isso que precisa comer. Se não comer nada, não vai melhorar. Vamos lá, ou você come, ou
vou tratar de você como faço com Collin – brinquei.

- Hum! Isso pode ser interessante! – ela brincou – eu gostaria de ver você tentar.

- Você nem faz ideia de como eu posso ser persuasivo, Sra. Galagher.

- Tente – ela provocou.


Cheguei mais perto dela, tocando sua orelha com meus lábios, devagar, percorrendo o
contorno suavemente, arrepiando a pele do seu pescoço.

- Se você não comer tudo que tem nesta bandeja, minha doce noiva, vou dormir no escritório até o
dia do nosso casamento – eu disse e me afastei.

- Não é justo! – ela xingou – não era desse tipo de convencimento que eu estava falando! Isso é golpe
baixo.

- Quando terminar o jantar você me chama e volto.

Saí do quarto sob uma chuva de protestos de Laura. Eu estava sorrindo quando entrei em
meu escritório. Sentei em minha cadeira e acendi um cigarro, folheando o jornal aleatoriamente. Não
demorou muito para que meu celular apitasse.

Havia uma mensagem de Laura.

“Pronto Sr. Galagher. O senhor venceu novamente. Pode mandar buscar o prato. P.S.
Não se atreva a não dormir nesse quarto”

Fechei o jornal e apaguei o cigarro no cinzeiro. Subi as escadas e abri a porta do quarto.

- Muito bem. Assim mesmo, obedecendo ordens e sendo sensata – brinquei – eu acho que estou
fazendo um trabalho com a senhora.

- Bobo – ela me disse sorrindo – assim eu me sinto um poodle.

Tirei a bandeja de cima dela e a encarei por um segundo. Linda, mesmo doente. Beijei sua
testa, e brinquei com uma mecha do seu cabelo, colocando-o atrás da orelha. Beijei sua bochecha e
segui até sua boca. Demorando-me ali, sentindo a maciez dos seus lábios contra os meus.

Eu queria dizer tanta coisa á ela, mas não sabia como começar. Eu não era um homem de
sentimentalismos. Eu não costumava expressar meus sentimentos. Fechei os olhos e esperei que ela
percebesse o que eu queria dizer com aquele silencio. Sentindo seus lábios nos meus, acariciando
seu rosto entre minhas mãos.

- Adrian – ela me disse de repente, sem me afastar, quase como se não quisesse que eu ouvisse – eu
amo você.

Senti como se o mundo todo girasse ao redor de mim. Como se tudo se perdesse em uma
espiral de sentimentos. Eu mal podia respirar. Eu podia sentir cada célula do meu corpo responder,
eu queria responder, mas minha mandíbula parecia colada. Meus dentes estavam presos uns nos
outros. Soltei o ar de um única vez, incapaz de deixar qualquer som sair da minha boca.

Laura sorriu.

- Sabe que essa é a forma mais encantadora de alguém não responder á um “eu te amo”? – ela me
disse.

Sorri, porque não tinha nada mais que eu pudesse fazer.

- Tudo bem amor – ela me disse beijando minha bochecha – eu sei que você vai me dizer o que sente
quando chegar a sua hora – ela fez uma pausa e encarou meus olhos, acariciando a linha da minha
barba – e eu sei que será na hora certa.

Acordei na manhã seguinte e me preparei para trabalhar. Eu tinha uma reunião com alguns
investidores em um caso grande na Alemanha. Eu não falava alemão, mas Alexander falava e iria me
acompanhar. E eu estava grato por tê-lo ao meu lado, mais uma vez.

Laura ainda estava na cama. Ainda indisposta. Saí do banheiro de cueca boxer e sentei-me
na beira da cama.

- Se você não melhorar até quando eu voltar da reunião, vou leva-la á um hospital amor. Não quero
que enfraqueça e acabe adoecendo mais.

- E eu estou bem – ela me disse, mas não era verdade – vou melhorar logo. Eu devo ter pegado algum
tipo de virose ou coisa assim. Não sou de ficar doente.

- E é exatamente porque você não é de ficar doente, que vamos procurar atendimento medico.

- Não – ela disse fazendo manhã – eu não preciso de um medico. Eu preciso de você. Se você ficar
aqui, na cama comigo, eu juro que melhoro.

Ela ergueu as cobertas e bateu na cama para que eu me sentasse ao seu lado. Encarei-a
descabelada, usando uma camiseta branca larga de algodão e uma calça de flanela com carneirinhos
sorridentes desenhados e sorri também – Deus essa garota conseguia ficar sexy até usando isso!

- Tentador amor – brinquei encarando a os animais desenhados no tecido – mas eu realmente preciso
trabalhar.

Me vesti enquanto ela protestava debaixo das cobertas. Beijei sua boca e me despedi. Entrei
no Porsche e segui para o escritório.

Quando cheguei Alexander já estava com os alemães em nossa sala de reuniões.


Conversamos por algumas horas, enquanto eu lhes explicava minhas intenções para um grupo de
empresas navais escandinavas que eu pretendia adquirir. Era um negocio vantajoso. Algo que
acrescentaria alguns milhões de euros e muito poder de decisão sobre o rumo do meu pais. Eu
gostava do poder. Gostava de ser o dono da bola, o cara que decide. Eu era como um leão. Sorri
para mim mesmo diante da comparação, enquanto caminhava de volta para o meu escritório – meses
atrás, uma importante revista de economia havia publicado uma matéria comigo. O titulo era “O leão
de Roterdã”, fazendo uma alusão ao símbolo do meu país. Eu gostava de ser o leão de Roterdã. Eu
era muito bom nisso.

- Então, como vão Laura e as crianças? – Alexander me perguntou assim que deixou os alemães na
recepção e retornou para o meu escritório.

- As crianças vão bem. Laura está um pouco indisposta.

- Ah nem me fale de mulheres indispostas – Alexander brincou – se Louise não nascer logo acho que
Alissa e eu vamos nos matar – ele disse dando um tiro imaginário em sua própria cabeça.

Eu sorri.

- Sei exatamente como se sente – eu disse acendendo um cigarro – passei por isso algumas vezes.
Mulheres são criaturas complicadas, meu amigo – eu disse tragando o cigarro – deveriam ter um
curso regular sobre como entende-las. Hoje, por exemplo, eu deixei a bela Laura descabelada e com
uma calça de carneirinhos fazendo birra sobre a minha cama.

Alexander riu.

- Ah aqueles carneirinhos sorridentes são medonhos – ele constatou.

Meus olhos estreitaram no mesmo instante. Algo se rompendo dentro de mim, um zumbido
perturbados em meus tímpanos – como ele sabia?

Soltei a fumaça devagar, deixando-a se espalhar ao redor do meu rosto. Levantei-me e


encostei na mesa, cruzando os braços sobre o peito.

- Diga-me Alexander, em que momento você viu Laura usando esse pijama? Uma vez que ele estava
na casa dela, em Amsterdã.
Capítulo 21

Eu ainda me sentia meio zonza, mas decidi que era hora de me levantar e estar menos
destruída para quando Adrian voltasse. Eu queria aproveitar á tarde com ele.

Levantei e tomei um banho. Vesti um jeans e uma camiseta. Calcei meus tênis e estava
prendendo meu cabelo quando escutei uma movimentação diferente lá em baixo. As crianças estavam
na escola, então eu sabia que não eram elas. Corri.

Encontrei Adrian furioso, discutindo sobre algo com Alex. John entre eles, mantendo-os
afastados.

- Acha que eu sou idiota Alexander? – ele rosnava.

- Acho! – Alex rebatia – acho que é um idiota se não confia em mim – ele praguejava – eu até posso
entender que você tenha desconfianças sobre Laura, afinal, você mal a conhece e tem seus fantasmas,
mas desconfiar de mim? Como você pode desconfiar de mim! Ninguém esteve tantas vezes ao seu
lado como eu! Ninguém segurou a barra com você como eu. Acha que eu faria isso? Que trairia você
debaixo do seu nariz assim? Você só pode ser um imbecil! Ou maluco!

Desci mais alguns degraus, tentando entender a conversa, assim que ouvi meu nome.

- Porque ele desconfiaria de mim? – perguntei meio atordoada – o que eu fiz?

Adrian desviou os olhos para os meus. Raiva, ódio, magoa, era tudo que eu via ali. Ele
caminhou até mim, enquanto eu descia os últimos degraus. Sua figura altiva em minha frente, fazendo-
me sentir ainda mais baixa. Não era o meu Adrian, era o Sr. Galagher ali, ou pior, era um Sr.
Galagher que eu nem mesmo podia reconhecer.

- Você quase me convenceu com seu discurso apaixonado, doce Laurinha – ele debochou – Juro. Eu
quase acreditei.

- Não se atreva a descontar nela as suas frustrações! – Alexander xingou.

Adrian agarrou-me pelo pulso. Forte, fazendo-me reclamar. Ele não afrouxou o aperto,
arrastou-me pela sala até próximo á Alex e me jogou em cima dele. Dei alguns passos para trás até
que Alex me segurou pelos ombros.

- Seu estupido! – praguejei – pode me dizer o que houve pelo menos?

- O que houve? – ele perguntou furioso – o que houve Srta. Soares, é que a mentirinha de vocês dois
veio á tona.

- Ele é um idiota Laura – me disse Alexander – Enfiou na cabeça dura dele que eu e você temos algo
além do que ele sabe! – Alex respondeu para mim, mas era nos olhos de Adrian que ele olhava – ele
é uma merda de garoto mimado! É isso que ele é! Acha que pode pisar nas pessoas quando elas o
desagradam! Ele sempre faz isso. Cansa-se do jogo pega a bola e entra em casa. Não se importa com
ninguém.

- Pode levar a bola para você quando quiser – Adrian praguejou acendendo um cigarro – eu não
gosto de restos.

Eu podia sentir o sangue borbulhar dentro de mim. Podia senti-lo fluir rápido em minhas
veias.

- É isso que eu sou? Um maldito brinquedo para você? Então você se cansou e resolveu que não quer
mais? Seu filho da puta arrogante! – gritei.

Adrian caminhou até mais perto de mim, altivo, arrogante.

- E o que você pensou, doce Laurinha, que eu iria me apaixonar por você? Que poderia chegar a
ama-la?

Eu o encarava sentindo meu peito doer. Era como se alguém tivesse arrancado meu coração
e estivesse sapateando sobre ele. Eu nem conseguia me defender. Senti as primeiras lagrimas
forçando-se em meus olhos e traguei todas para dentro – eu não iria chorar.

- Pois eu tenho uma novidade para você, minha querida noiva, isso é um acordo. É apenas isso. Eu
nunca quis que fosse diferente. Precisava do meu filho aqui, e eu faria qualquer coisa por ele. Você
foi o que eu precisei fazer. Um efeito colateral.

Forcei para me soltar do aperto de Alexander, mas ele não permitiu.

- Não! – ele advertiu baixinho – é exatamente o que ele quer. Magoar você. Fazê-la perder a calma.
Não entre no jogo dele.

- Isso! Não entre no meu jogo. Pegue seu amante e saia. Não temos mais nada á conversar. Quanto
aos termos do contrato que você assinou, meus advogados a procurarão – ele fez uma pausa e atirou
o cigarro pela janela – outros advogados, claro, este não faz parte mais do meu quadro de
funcionários.

John permanecia parado, olhos focados em Adrian, punhos cerrados. Eu não queria que ele
estivesse ali. Não o queria vendo aquela cena. Busquei seus olhos na tentativa silenciosa de que ele
compreendesse que nada daquilo era verdade. Que eu não tinha feito nada que justificasse aquela
cena.

- Pegue suas coisas e saia – Adrian disse uma vez mais – eu não quero vê-la mais em minha casa.
Não quero vê-la perto dos meus filhos.

Respirei fundo, tentando concentrar minha mente em algo coerente. Eu sentia tudo girar.
Ordenei minha respiração e virei-me de volta para a escada.

- Se é o que o senhor deseja, Sr. Galagher, o senhor terá. O senhor sempre tem o que quer, não é?
Adrian não respondeu. Permaneceu de costas para mim. Subi as escadas o mais rápido que
consegui. Peguei uma valise grande e coloquei o máximo das minhas coisas que consegui. Joguei
sobre o ombro e peguei Mia nos braços. Desci as escadas sentindo como se carregasse o mundo todo
em minhas costas.

Parei no ultimo degrau, perto de onde Adrian permanecia, de costas, postura rígida, mãos
cerradas em punho.

- Adrian – eu chamei e ele se virou.

Seus olhos eram vazios. Perdidos. Eu podia ver pequenos fragmentos do Adrian que eu
amava ali, perdidos naquele mar de arrogância, suspensos dentro da mascara do implacável Sr.
Galagher.

- Eu quero que você saiba que tudo que eu disse ontem era verdade. Quero que saiba que tudo que eu
senti não foi parte do acordo. Eu espero que não seja tarde demais quando você perceber que está
cometendo um erro.

Ele pensou por um segundo, o verdadeiro Adrian faiscando ali dentro. Rezei para que ele
tivesse força de sair. Para que ele pelo menos me permitisse entender do que eu estava sendo
acusada, mas eu não tive sorte. O pirata arrogante estava no controle.

- Eu não cometo erros, Srta. Soares. Alguns equívocos, ás vezes, mas nenhum erro.

Senti a primeira lágrima cair, quente, sobre a pele da maçã do meu rosto. Era a primeira, de
muitas que eu não podia mais segurar. Dei as costas para ele.

- Se Laura vai sair, eu vou com ela – John disse depois de permanecer em silencio.

- Não seja ridículo – Adrian praguejou – eu sou seu pai e ela não é nada sua. Você é menor, faz o que
eu disser para fazer.

- Tente me impedir, Sr. Galagher – John provocou – eu só não vou agora porque quero esperar meus
irmãos voltarem do colégio para cuidar deles. Eu não vou deixa-los sozinhos com o senhor. Não vou
deixar que encha a cabeça dele com as suas merdas.

- Eu só preciso de um telefonema John. Só um telefone á policia e você volta para minha casa como o
garoto bobo e inconsequente que é. Saia se quiser, você vai voltar antes do anoitecer.

Eu podia ver raiva latejando nos olhos de John. Eles eram escuros e profundos, assustadores
demais para o garoto doce que ele era.

- Faça isso, papai e amanhã mesmo todos os jornais saberão que Collin não é seu filho! É disso que
você foge, não é? Da traição da mamãe? De se trocado? Deixado de lado? De não ser o centro das
atenções? Pois bem, Sr. Galagher, eu tenho uma novidade para o senhor. O senhor não é o centro do
universo – ele se afastou de Adrian e se aproximou de mim – e respondendo á sua pergunta, Laura é
minha amiga. Sabe o que é o que é um amigo, Sr. Galagher? É alguém como Alex sempre foi para o
senhor. Alguém que aguenta as suas merdas. Alguém que está segurando seu ombro enquanto o senhor
chora vendo o caixão da sua esposa se afundar na terra. Alguém que fica com o terno babado e sujo
de ajudar a alimentar os seus filhos. Alguém que dorme sentado ao lado de um berço porque o bebe
que dorme lá dentro acabou de perder a mãe! É isso, Sr. Galagher. Isso é o que um amigo faz. E se o
senhor não aprendeu a valorizar isso, eu sinto muito, mas seu mundo distorcido não me interessa.

Eu estava sem ar – Deus do céu o garoto sabia exatamente em que pontos atirar! Eu não
tinha mais duvidas nenhuma do quanto ele se parecia com o pai.

Eu não estava feliz com isso. Não os queria brigando, mas não conseguia pensar em nada
que eu pudesse dizer para ajudar. Deixei a casa de Adrian de cabeça erguida. Eu havia entrado pela
porta da frente, como noiva dele e deixaria a casa da mesma maneira. Parei perto da porta e retirei o
anel de noivado do meu dedo, deixando-o sobre o parapeito da janela. Eu não queria levar nada dali
que não fosse meu.

Sentei no banco do conversível e deixei que as lágrimas todas viessem á tona. Alex
descansou a mão sobre meu joelho.

Seguimos para fora da propriedade de Adrian em silencio. Alexander com o pé afundado no


acelerador do carro.

Eu sentia que o mundo havia me prendido em uma bolha e que tudo que acontecia ao redor
não era exatamente comigo. Eu não conseguia entender em que momento meu conto de fadas
transformou-se em uma historia de terror. Eu havia dormido com meu príncipe e despertado com a
bruxa má do oeste.

- Ele vai se acalmar Laura. Ele faz essas coisas ás vezes, fica irritado e desconta nas pessoas
erradas. Não é a primeira vez que eu o vejo ter uma crise dessas – Alex disse puxando conversa
depois de um tempo.

Limpei meus olhos com as costas das mãos. Engoli as lagrimas que estavam presas na
garganta e soltei o ar devagar.

- Eu nunca mais quero saber de Adrian Van Galagher, Alex. Eu não quero saber das suas crises ou do
seu gênio ruim. Eu não quero saber se ele estava certo ou errado. Ele morreu para mim e eu vou
enterra-lo, não importa quanto tempo demore.

- Não diga isso Laura. Não é o que você quer dizer, eu sei como são essas coisas. Dê um tempo.

- Eu vou dar um tempo. Vou dar um tempo para mim mesma, eu vou me recuperar. Não será a
primeira vez que eu caio Alex. Eu já me levantei de coisas piores, vou me levantar de Adrian Van
Galagher.

***
Eu fiquei parado onde estava. Olhos perdidos na janela, vendo minha vida se despedaçar uma
vez mais. Engoli as palavras de John sem responder. Eu não queria responder. Não queria me
arrepender de algo que pudesse dizer ao meu filho. Havia outras coisas nas quais eu precisava me
concentrar.

Eu precisava pensar no que diria a Hanna e a Collin quando voltassem para casa. Ao
contrário do que John pensava, eu não queria criar uma cena. Eu não queria que eles soubessem da
traição e Laura. Meus filhos não mereciam sofrer mais esse golpe. Eu precisava pensar.

Entrei em meu escritório, enchi um copo com uísque e sentei-me em minha poltrona. Era uma
tarde ridiculamente ensolarada, em comparação á como eu me sentia. Eu era um furacão de emoções
distorcidas. Raiva. Ódio. Medo. Amor. Culpa. Tudo se revirava em minha mente mais e mais rápido
até que eu pensei que não fosse suportar. Afrouxei o nó da gravata e abri o primeiro botão da camisa.
Fechei os olhos e tentei concentrar minha respiração – ela havia me traído. Ela e ele.

Desde quando estavam juntos? Será que ela tinha intenções de continuar com ele depois
que nos casássemos? Não. Era um acordo. Eu sabia disso. Ela sabia também. Sabia dos termos.
Talvez ela tivesse a intenção de ficar com ele quando o acordo acabasse. Desde que voltamos de São
Paulo, ela não havia saído sozinha. Não havia possibilidade de ter se encontrado com ele de
qualquer maneira. Então não era exatamente uma traição. Porque, então, isso me incomodava tanto?
Porque ela havia me trocado? John tinha razão? Eu era mesmo um egocêntrico?

Soltei o ar de uma vez e engoli, sentindo o liquido queimar minha garganta – não importavam
quais eram os termos ou as condições, ela havia me traído, e com meu melhor amigo. E isso era
algo que eu não podia apagar.

Levantei, peguei a chave do carro e saí.

Parei em frente ao portão do colégio e pedi para levar meus filhos mais cedo. Eu queria ter
um tempo com eles. Precisava me focar no que era realmente importante. Eu não podia permitir que
uma mulher qualquer me fizesse esquecer o que realmente importava – meus filhos.

- O que aconteceu papai? – Hanna me perguntou assim que me viu.

- Nada anjo, eu quero apenas conversar com vocês dois um pouco.

- Cadê a Laura papai? – Collin perguntou.

- É sobre a Laura que vamos conversar filhote. Nós vamos tomar um sorvete e vamos conversar ok?

Eles assentiram e eu os coloquei dentro do carro. Alguns minutos depois eu parei o carro em
uma pequena praça no centro, entre grandes prédios de escritórios. Comprei dois potes de sorvete.
Deixei que eles se acomodassem no banco. Destampei os potes e entreguei-os á cada um dos meus
filhos.
Eles sorriram. Pareciam felizes. Balançando os pezinhos para lá e para cá no banco,
levando colheradas do creme gelado á boca. Eu não sabia como começar. Não sabia o que dizer. Era
como se todo o tempo difícil, depois da morte de Patrícia, estivesse de volta, me assombrando.

Eu podia me ver no corredor daquele hospital, saindo de dentro da unidade de tratamento


intensivo com a pior noticia do mundo para dar aos meus filhos. Eu podia ver John sentado no banco
de ferro, cabeça apoiada sobre as mãos, olhos fechados, esperando que eu lhe dissesse que a mãe o
havia deixado para sempre. Eu podia ver os olhinhos perdidos de Hanna enquanto via o caixão ser
baixado para dentro da cova. Fechei os olhos e inspirei devagar, deixando o ar encher os meus
pulmões e soltando. Abri os olhos novamente.

Pensei por um instante, encarando a estátua á minha frente. Era uma estatua famosa, sempre
cheia de turistas registrando á visita ao “Homem sem Coração”. O nome correto era “Cidade
Destruída” *, não tinha nada á ver com o coração ou não nesse sentido, pelo menos, mas ninguém se
importava muito. Ele era o homem sem coração e isso parecia bastar. Pensei que eu me parecia muito
com ele. Eu era o homem sem coração. Ninguém se importava tanto em conhecer a realidade, em
perguntar o que eu sentia, do que se tratava. Sabiam apenas que eu era “Adrian Van Galagher, o
homem sem coração”.

Suspirei – eu faria como ele. Eu me levantaria, ainda que tivessem, de fato, levado meu
coração embora uma vez mais.

Corri os olhos pelo porto, encarando o por do sol lá no horizonte – eu era como Roterdã, me
reconstruiria novamente após esse bombardeio.

- Papai você disse que iria falar de Laura. Quero saber o quê? – Hanna insistiu, interrompendo meus
pensamentos – Ela vai ter um bebê? Porque quando as pessoas se casam, elas têm bebês, não tem?

*Cidade Destruída – É o nome dado á uma escultura de Zadkine (artista plástico). A estátua fica no centro de Roterdã e simboliza o
sofrimento da guerra. É um homem com os braços levados ao céu, em desespero por ter o coração arrancado. Ela simboliza o orgulho
holandês á resistência á Hitler. Simboliza a frase: “Nós nos levantaremos, mesmo que arranquem nosso coração”.

Sorri sem humor – Não Laura não teria um bebê. Não teria um bebê meu, pelo menos.

- Não exatamente anjo – comecei – Laura terá que se afastar de nós por um tempo.

- Não! – Hanna retrucou – Não quero que ela se vá. Eu não quero papai! Não é justo!

Eu podia perceber as primeiras lagrimas se formando em seus olhinhos cor de mel, mas não
era ela que me preocupava, era Collin. Ele baixou a cabecinha e permaneceu em silencio. Não disse
nada. Não perguntou. Não chorou.
- É necessário, filha – tentei explicar – são coisas de adultos. O papai e Laura não vão mais ficar
juntos.

- Mas papai, Laura é minha amiga! Eu gosto dela e ela gosta muito de mim! E ela prometeu que
cuidaria de mim! Eu não quero que ela se vá.

Suspirei – eu não queria também. Não queria nada disso. Eu queria voltar no tempo e
apagar Laura das nossas vidas para que ela não tivesse que nos deixar.

- Sei que parece uma coisa ruim anjo – continuei – mas não se preocupe, nós vamos superar. Nós já
superamos muitas coisas juntos, não é? – perguntei.

Hanna assentiu tristemente.

- Nós superamos a perda da mamãe.

- E agora a mamãe é uma lembrança boa, não é verdade? – continuei.

Assentiu novamente.

Collin deixou o sorvete no banco, de repente, ele não parecia mais uma coisa boa. Cruzou as
mãozinhas sobre o colo.

- Papai nós podemos ir? – ele me perguntou – não quero mais sorvete.

Peguei meu filho no colo. Tão pequeno ainda, e com uma carga tão pesada de sofrimentos.
Acariciei seus cabelinhos castanhos, beijei o topo da sua cabeça, aconchegando-o em meus braços.
Collin agarrou-me pelo pescoço, sua respiração quente na pele do meu pescoço.

- Eu nunca vou te deixar filhote – eu disse por que sabia o que se passava em sua cabecinha.

Collin sentia que havia sido deixado mais uma vez e eu não podia permitir que ele pensasse
que isso era culpa dele. Ele havia sido o que menos sentiu a morte da mãe, mas era o que menos tinha
boas lembranças dela. Patrícia era uma parte tão pequena da vida dele que não havia o que lembrar.
Ele não tinha sentido o amor da mãe.

- Eu vou estar sempre ao seu lado. Sempre meu filho – suspirei profundamente e soltei o ar dos
pulmões – você é meu bebê. Não importa o que as pessoas digam ou o que tenhamos que enfrentar,
nós vamos fazer isso juntos. O papai sempre vai amar você.

Senti suas mãozinhas mais suaves em meu pescoço, menos tensas e entendi que havia me
compreendido.

Levantei-me com ele nos braços e segui de volta para o carro, com Hanna ao meu lado.

Minha casa parecia tão fria e silenciosa agora que não sentia nenhum prazer em entrar.
Encontrei Lila na cozinha.

- Sr. Galagher, Martina me disse que Laura não voltará para casa – ela me perguntou meio sem jeito,
evitando palavras desconfortáveis perto das crianças – eu gostaria de saber como devo proceder.

- Você foi contratada para cuidar dos meus filhos, Lila, e não de Laura. Deve proceder da mesma
maneira que sempre procedeu, cuidando deles.

Era grosseiro, eu sabia disso, mas eu esperava que fosse o suficiente para encerrar qualquer
pergunta idiota sobre Laura ou nosso relacionamento.

Passei pela sala e vi o diamante brilhando no parapeito da janela. Peguei o anel e o apertei
contra minha mão fechada, subindo as escadas.

Entrei em meu quarto e fechei a porta. Sentei-me na poltrona e fiquei girando o pequeno
pedaço de platina nos dedos – eu era um idiota. Um idiota completo e absoluto. Burro. Mais uma
vez, traído.

O que tinha de errado comigo, afinal? Eu não era suficiente? Não era bom o suficiente?

Atirei o anel pela janela com tanta força que ele se perdeu dentro do lago. Não fazia
diferença, ele não voltaria mais para o dedo dela de qualquer jeito.

Levantei tirei a roupa e tomei um banho rápido. Penteei meu cabelo. Vesti um jeans e uma
camisa de botões escura. Calcei os sapatos e vesti uma jaqueta de couro preto por cima. Borrifei um
pouco de colônia e saí.

Entrei no Porsche disposto á ter uma noite das antigas. Eu iria me divertir sem ela. Ela não
era a única mulher do mundo e definitivamente, eu não perderia mais tempo pensando nessa
bobagem. Se ela era tão importante para Alexander, que ele fizesse bom proveito dela afinal, eu tinha
tido meu tempo. Tinha satisfeito meus desejos, era isso, uma garota bonita que ficou em minha cama
por um tempo. Agora era hora de passar á outra.

Parei o carro em frente á uma boate que eu costumava ir. Era um bom lugar, discreto,
elegante. Só a nata da sociedade holandesa. Era o que eu precisava, uma garota do meu mundo, uma
que eu pudesse comprar com algo material. Uma que não exigisse um telefonema pela manhã.

Entrei, correndo meus olhos pelo lugar – eu precisava encontrar minha presa. Precisava
caçar. Sentir a adrenalina correndo nas veias novamente.

Sentei-me no bar e pedi um uísque duplo.

- Veja se não é o grande Sr. Galagher – uma voz feminina disse atrás de mim – achei que estaria em
casa com sua noiva.

Eu me virei para encontrar Charlotte, filha de um dos meus contatos de negócios. O pai de
Charlotte era um corretor da bolsa, nós sempre negociávamos coisas juntos. Era um bom homem.
Honesto, justo, leal, mas ele não fazia ideia de quem a filha era. Charlotte era uma garota bonita.
Muito bonita. Cabelos claros e ondulados, corpo bonito, olhos azuis, e um instinto quase mortal para
dar o golpe do baú. Eu sabia o que ela queria e ela sabia que eu não daria isso á ela, mesmo assim,
nós sempre jogávamos esse jogo quando nos encontrávamos.

- Como pode ver, achou errado – eu disse sorrindo.

Ainda não estava preparado para dar a noticia do rompimento. Eu precisava entender
melhor em que isso implicaria em relação á Collin. Eu não podia correr nenhum risco. Eu havia
decidido pensar no assunto por um tempo e conversar com meus advogados antes de dar a noticia. Eu
sabia que Alexander manteria o segredo, porque o conhecia bem demais, apesar tudo, Alexander era
um homem justo e ele amava Collin, como eu amava.

Charlotte se aproximou mais, parando de frente para mim, entre minhas pernas, que se
abriram para acomodá-la. Pegou o copo e deu um gole no meu de uísque.

- E isso significa que você está de volta ao jogo – ela constatou.

Bebi o que sobrou do uísque no copo e o coloquei no balcão, deixando minhas mãos sobre
os joelhos, raspando os dedos na barra do vestido curto dela devagar.

- Isto significa que eu nunca saí do jogo, anjo.

Não demorou muito tempo para que eu estivesse no apartamento de Charlotte. Eu não a
levaria para minha casa. Não com meus filhos lá. Também não iria com ela á um motel, não era fácil
despistar repórteres e curiosos e eu não queria um escândalo. Charlotte era o tipo de mulher que
passava invisível em minha vida. Era como eu gostava.

Ela acendeu a luz da sala e preparou uma bebida para nós. Eu podia vê-la esforçando-se
para me seduzir e quase podia sorrir – ela não precisava me seduzir, isso era sexo casual. Era só o
que era e para isso eu não precisava ser seduzido.

Apoiei meu corpo contra o balcão que dividia a sala da cozinha, cruzei os braços sobre o
peito.

- Tira a roupa para mim – eu disse com os olhos focados nos dela.

Eu não estava para beijos e carícias. Não era o era o objetivo. E eu não iria fingir para ela e
menos ainda para mim. Eu estava no comando. Charlotte sempre soube disso.

- Adrian, o mandão de sempre – ela disse fazendo manha – você deveria me convencer.

- Não preciso convencer você. Você já sabe que não se arrependerá.

Charlotte sorriu, descendo o zíper do vestido. Deixando-o cair á seus pés, revelando um
conjunto de lingerie de renda vermelha. Passei a língua sobre os lábios – eu não podia negar que ela
era uma garota muito, muito sexy.
Tirei minha jaqueta e deixei a sobre o balcão. Charlotte se aproximou e começou a
desabotoar os botões da minha camisa. Eu não me movi, deixei que ela fizesse o que queria com o
meu corpo. Estendi o pulso para que ela soltasse o botão de uma manga, depois da outra, sem tocá-la.
Ela tirou minha camisa, deixando a sobre o balcão também.

Segurei-a pelos cabelos, puxando-os todos em meu punho e girando-a de costas, apertando
seu corpo contra o meu para que ela sentisse que eu estava pronto.

- Ai – Charlotte reclamou – você poderia ser um pouco mais gentil.

Enfiei a mão na parte da frente da sua calcinha, tocando-a devagar. Corri minha boca na
pele do seu ombro, até o pescoço, parando perto da orelha, falando baixinho.

- Eu não sou gentil. Não sou seu namorado e não serei. Isto é o que nós podemos ter. Você só precisa
me dizer que não quer e eu vou embora.

Ela não disse nada, e eu supus pelo seu gemido que ela não esperava que eu fosse embora.

Caminhei com ela até o quarto e deitei-a na cama. Tirei minha calça, enquanto ela se livrava
da lingerie. Por uma fração de segundo, outra pessoa tomou o lugar de Charlotte. Eu a vi sorrir para
mim, com seus lindos olhos castanhos. Pisquei algumas vezes para mandar a lembrança embora. Ela
não foi. Fechei os olhos e deslizei a mão pelos cabelos.

Laura. Eu podia ver o rosto de Laura. O Corpo de Laura. Podia ouvir a sua voz, o seu riso.
Eu podia até sentir o perfume de Laura.

- Algum problema, Adrian? – Charlotte perguntou.

- Nenhum. Acho que bebi demais, só isso – eu disse e ajoelhei na cama, entre as pernas dela.

Comecei a beijar o corpo de Charlotte, mas não era o dela que eu queria. Se eu fechasse
meus olhos era Laura quem estava comigo. Parecia errado, estranho, desconexo. Insisti, apertando
meu corpo contra o de Charlotte.

Ela abriu a gaveta do criado e pegou uma embalagem de preservativo. Abriu com os dentes
segurou entre os dedos, oferecendo-me.

E então minha mente virou uma confusão completa. Eu podia ouvir as palavras de Hanna
“Quando as pessoas casam, elas têm bebês”. Pensei em Patrícia. Em como era sexo com amor. Em
como era não ter que me preocupar se a relação geraria uma vida. Eu quis cada um dos meus filhos.
Eu os fiz com amor. Passei muito tempo tentando esquecer essa diferença, mas Laura havia lembrado
e agora eu não conseguia mais esquecer.

Eu não queria Charlotte, eu queria um pedaço de carne para me aliviar e isso, minhas
próprias mãos poderiam me dar, e sem efeitos colaterais.

Afastei-me. Vesti minha calça novamente.


- Não posso fazer isso com você Charlotte – confessei.

- Claro que pode. Eu estou aqui por vontade própria, sabia? – ela brincou.

- Não, você não está. Você está aqui porque acha que algum dia vai me convencer de que podemos
ter mais do que isso, mas não é verdade.

- Adrian. Não estou te reconhecendo. Você nunca foi do tipo que se preocupa com os efeitos
colaterais das suas transas.

Sorri saindo do quarto com Charlotte atrás de mim.

- Acho que a velha frase “Ás pessoas mudam” enfim surtiu efeito em mim, anjo.

Charlotte fechou o roupão e sorriu.

- É, a garota tem mesmo sorte – ela me disse – tirou você da pista de vez.

Engoli as palavras dela como pequenos cacos de vidro, mas não disse nada. Vesti minha
jaqueta e beijei a testa de Charlotte.

- Desculpe – eu disse sinceramente – acho que estraguei a sua noite.

Ela me abraçou, demorando as mãos sobre o meu peito.

- Sabe Adrian, talvez você esteja certo e eu errada. Acho que a frase está começando a surtir efeito
em mim também.

Sorri.

- Isso é uma coisa boa.

- Espero que sim – ela disse me soltando – boa sorte na sua nova vida. Você só precisa para de
tentar ser um cara que você não é. Não há problema em sentir, Adrian, sentimentos são coisas boas.
Capítulo 22

Alexander parou o carro em frente á um prédio elegante. Eu não conhecia o lugar.

- Vem Laurinha, vou cuidar de você esta noite.

Ele estava visivelmente entristecido. Os lindos olhos esverdeados eram distantes e sofridos.
Não brilhavam como costumavam brilhar de costume. Não era justo. Adrian não podia ter feito isso
comigo, não podia ter feito isso com Alex.

Encarei a entrada do prédio por um instante. Eu não queria entrar. Não queria ter que
encontrar Alissa. Eu não estava forte o suficiente para não deixar que as farpas de Alissa me
atingissem e eu tinha medo de que isso pudesse magoar Alexander ainda mais.

- Não Alex. Eu prefiro voltar para Amsterdã. Eu não quero atrapalhar a sua vida, você tem um bebe á
caminho. Tem que cuidar de Alissa e da sua vida. Deixe-me na estação e eu volto pra Amsterdã com
Mia.

Sorri, mas era um sorriso sem humor, forçado. Um sorriso que dizia “Não se preocupe, está
doendo, mas eu vou me curar”.

Alex sorriu.

- Ah não Laura, não se preocupe, Alissa não mora comigo.

Encarei-o confusa.

-Não?

- Não. Ela acha meu apartamento pequeno e mofado, como ela mesma diz, e preferiu ficar na casa
dos pais até que terminem a reforma da nossa casa.

Afinal, eu não era a única com problemas – levantei uma sobrancelha para ele sem entender
direito.

- Acho que por essa noite está bem então. Amanha bem cedo eu volto para Amsterdã.

Alex abriu a porta do carro e pegou minha bolsa. Passou o braço me torno dos meus ombros
e me conduziu para dentro.

Era um apartamento claro, moderno, elegante – não tinha nada de pequeno e mofado, diga-
se de passagem. Tudo se parecia com Alexander lá dentro. Era aconchegante e iluminado, como Alex
costumava ser. Ele deixou minha bolsa sobre um banco na entrada e eu coloquei Mia no chão. Alex
me abraçou. Um abraço profundo, cheio de sentimentos. Afundei minha cabeça em seu peito, sentindo
o beijar suavemente minha testa.

- Você não fez nada de errado, Laura, nem eu. Não vamos permitir que ele faça isso tudo parecer
errado. Eu não – ele estava se abrindo, deixando os sentimentos virem á tona – eu não. Eu nunca faria
isso. Eu não faria. Eu não trairia Adrian. Eu não sou esse cara.

- Sei que não é – eu disse erguendo a cabeça e tocando meu nariz em seu queixo – eu nunca achei que
você pudesse fazer algo assim. Nunca vi nossa amizade dessa maneira, Alex.

Ele pensou por algum tempo. Os olhos claros perdidos dentro dos meus. Nossos corpos
estavam tão próximos como era possível. Não era sexual. Era um entendimento tão profundo. Eu
sentia como se tivesse conhecido Alex a vida toda. Era como um reencontro.

- Você sabe que é uma garota linda, não sabe? – não respondi – sabe que atrairia qualquer homem.
Você sabe que me atraiu muito quando eu a conheci, mas, não sei explicar Laura. Eu só. Só senti que
não deveria ficar longe. Eu juro que não dei nenhuma razão para que Adrian pensasse que – ele
pensou na escolha das palavras – que – eu o interrompi.

- Que nós dois estávamos transando pelas costas dele – conclui.

- É – ele disse sorrindo e me soltando – eu estava pensando em uma maneira bonita de dizer, mas é
basicamente isso que ele pensa.

- E porque ele pensa isso Alex? – perguntei – porque pela manhã não havia nada de errado. O que
aconteceu?

Os olhos de Alexander baixaram um pouco, encontrando as tabuas do assoalho de madeira.


Permaneceram ali por algum tempo. Ele suspirou, soltando todo o ar de uma vez.

- É nessa parte que entra a minha culpa – ele me disse derrotado.

Segurei-o pela mão e caminhei com ele até o grande sofá em forma de L no centro da sala.
Sentei-me e o puxei para o meu lado. Alex sentou-se, deixando o rosto cair entre as mãos.

Alisei seu cabelo curto para trás, acariciando sua cabeça.

- Não importa o que tenha sido, tenho certeza de que você não quis que nada disso tivesse
acontecido, Alex, não se preocupe.

- Ele estava falando de você . Estávamos falando de garotas, na verdade, um papo bobo de amigos.
Ele fez um comentário sobre sua calça de carneirinhos e eu não resisti e fiz uma piada. Deveria ter
ficado quieto. Eu nem sei por que disse aquilo, era um a bobagem. Eu nem lembrava que ele não
sabia que eu tinha ido á sua casa naquela noite. Foi um erro não termos dito nada á ele. Na época eu
quis que ele ficasse satisfeito com a sua competência, não que você não tenha, é só que, bem, é só
que eu estou mais acostumado com essas coisas. Eu sou mais experiente.

Alex falava sem parar, enrolando-se mais e mais nas palavras e justificativas. Ele tinha
razão quando disse que deveríamos ter contado á Adrian. Realmente deveríamos. Ter escondido dele
só deu razão para que ele pensasse que algo foi feito ás suas costas. Havia sido uma completa
idiotice esconder, mas era algo que tínhamos acordado juntos, Alex e eu. Eu tinha tanta culpa quanto
ele.

- Está tudo bem Alex – eu disse por fim, porque não havia nada que pudéssemos fazer mesmo.

- Não, não está Laurinha. Eu prejudiquei você, mesmo sem querer. Eu sou meio impulsivo na maioria
das vezes, acabo morrendo pela boca. Sinceridade demais. Juro que tentei explicar. Eu tentei contar
exatamente o que houve naquela noite. Eu tentei dizer que vi você por acaso, que não era nada como
um encontro, que eu quis apenas ajudar no caso das crianças. Ele não quis me ouvir. Ou melhor, ele
até ouviu, mas só absorveu o que quis. Você o conhece.

Alex sorriu sem humor. Eu o conhecia o suficiente para saber que era sincero. Alex era
sempre sincero, era o cara legal. O cara gentil. Ele era o príncipe, incapaz de magoar ou ferir de
proposito. Esse era Adrian, o que sabia usar as palavras para ferir. Alex não, ele era o cara gentil,
sincero demais para o próprio bem. Sorri.

- Não importa. Ele deveria ter confiado em você. É como você disse na sala da casa dele, ele podia
até desconfiar de mim porque me conhece á pouco tempo, mas ele conhece você á tanto tempo,
deveria saber que você não faria isso.

Alexander virou a cabeça e deixou-a cair em meu colo. Continuei fazendo cafuné em seus
cabelos macios.

- Isso tudo tem á ver com Patrícia. Adrian finge que superou a traição. Ele finge que superou a perda,
mas não é verdade. Ele se culpa muito por tudo e a traição de Patrícia foi um golpe duro demais. As
coisas que ela disse á ele quando foi embora de casa com as crianças destruíram ele. Ela foi dura
demais. Estava magoada, Laura. Não era o que ela queria realmente dizer. Ela não pensava daquele
jeito.

Continuei acariciando seus cabelos em silencio. Não havia muito que eu pudesse fazer. Eu
não conhecia o passado de Adrian como Alex conhecia. Eu nem mesmo havia conhecido Patrícia.
Tudo que eu sabia dela era o que Adrian, Margarida e Alexander me diziam e cada um me falava de
uma Patrícia diferente.

Quando cheguei á Holanda, tanto tempo atrás, eu comprei um pequeno bibelô de porcelana,
um daqueles tradicionais holandeses com um garoto e uma garota se beijando e um moinho de fundo.
Era lindo e delicado e eu o deixava sobre a mesinha de cabeceira de qualquer lugar em que eu
dormisse. Ele me acompanhou nos albergues e hotéis até que eu o levei para minha primeira casa.
Um dia, esbarrei nele sem querer e ele caiu no chão. Quebrou-se inteiro. Eu podia ter comprado um
novo, mas gostava daquele, era como um marco na minha vida, então eu o consertei. Eu colei todas
as pequenas partes com cola de contato e deixei que secasse. Meu bibelô ficou lindo novamente.
Muitas pessoas nem percebiam as linhas e marcas em sua superfície.

Adrian era como o meu bibelô. Muitas pessoas não reparavam, mas ele estava quebrado.
Marcado por cicatrizes profundas demais. Nunca mais seria inteiro, nunca mais seria completo.
Sempre faltaria uma peça, por menor que fosse.
Houve um momento em que eu pensei ser capaz de conserta-lo, mas eu estava enganada.

Alex virou a cabeça de lado, encarando meus olhos perdidos nas lembranças.

- Eu deveria estar te consolando – ele me disse ajeitando-se em meu colo – mas acho que não sou
muito bom nisso. Vou ser um péssimo pai! – brincou – minha filha vai vir com os joelhos ralados e
eu vou chorar mais que ela!

Sorri com mais vontade dessa vez.

- Você será um ótimo pai. Louise tem muita sorte! E você é muito bom em consolar, acredite, eu não
poderia querer outra pessoa me consolando. Eu não sou muito boa em deixar as pessoas me
consolarem – confessei.

Ficamos ali, eu meio deitada, meio sentada, e Alex meio apoiado, meio deitado em meu
colo. Não falamos de muitas coisas mais. O riso foi morrendo na mesma velocidade em que os fatos
iam revivendo em minha mente. Eu não fazia ideia de como seguir em frente, de para onde deveria ir.
Pensei no que Collin estaria fazendo agora. Meu menininho. Eu havia me apegado á ele rápido
demais. Hanna. Minha garotinha que ficaria com os cabelinhos sem tranças. Não teríamos mais um
dia de meninas, nem falaríamos mais de príncipes encantados e contos de fadas. Não existiam contos
de fadas, pelo menos não para mim. E ainda tinha John. Eu não poderia permitir que ele se colocasse
contra o pai. Ele não podia tomar partido em uma briga que não era dele. Eu não faria isso.

Deveria ter ido devagar, deveria tantas coisas. Deveria ter deixado Adrian do lado de fora.
Deveria tê-lo impedido naquele dia no parque. Deveria ter seguido meus instintos de sobrevivência e
me afastado. Deveria, mas não fiz. E tudo que eu tinha agora era esse grande rombo do tamanho de
uma cratera na lua.

- Vou arrumar a cama para você, Laura – Alex disse de repente – Eu sei que você está doente e,
depois de tudo isso, o mínimo que eu posso fazer é cuidar de você.

Ele se levantou e eu me levantei junto com ele. Ele seguiu para a suíte com a minha mala na
mão.

- Alex eu não vou ficar com o seu quarto! – discordei – não é justo. Você teve um dia péssimo
também, merece descansar. Eu fico com o sofá.

- Não estamos em negociação, Srta. Soares – ele brincou.

- Eu sou menor que você, vou ficar confortável no sofá.

- Suas considerações foram rejeitadas pelo júri, senhorita – Alex disse.

- É sério Alex, eu sou mesmo menor. Acredite! Eu já dormi em lugares piores que esse seu incrível
sofá de design assinado.

Repito – ele disse serio – não estamos em negociação. E só pra constar, o sofá não é assinado, mas
obrigado por validar o meu bom gosto. Agora tome um banho que eu vou preparar algo para que você
possa comer.

- Não estou com fome, Alex – confessei.

- Imagino que não, mas isso também não está em negociação.

Sorri e ele sorriu de volta. Um sorriso carinhoso, mas ainda triste. Decidi que ia permitir
que ele cuidasse de mim, se havia possibilidade de que isso trouxesse seu sorriso verdadeiro de
volta.

Saí do chuveiro alguns minutos depois, de calça de ginastica e uma blusinha de alças. Mia já
havia aceitado a oferta de Alex á tempos – estava esticada sobre a cama, apreciando a vista da
janela. Prendi o cabelo em um rabo de cavalo frouxo e caminhei de volta para a cozinha. Alex
cozinhava algo. Cheirava bem.

- Macarrão – ele disse antes que eu perguntasse – ao molho pesto. É uma das poucas coisas que eu
sei fazer, Laurinha. Não sou muito bom na cozinha. É isso, ou macarrão instantâneo.

- Macarrão ao molho pesto parece ótimo para mim, mesmo sem fome, embora eu tenha recorrido á
macarrão instantâneo muitas vezes. Eu poderia escrever um livro inteirinho de variações de
macarrão instantâneo – brinquei.

- Eu ficaria feliz em receber um exemplar – Alex disse brincando também.

Eu me sentei sobre o balcão de pedra e ele ficou em pé. Comemos nosso macarrão sem
encontrar muitas palavras para dividir.

- Amanhã eu volto para Amsterdã Alex – confessei – preciso começar a reconstruir o estrago.
Preciso falar com Hans e voltar a trabalhar. Minhas contas não vão se pagar sozinhas.

- Amanhã eu vou ao escritório de Adrian. Preciso organizar minhas coisas e encerrar alguns assuntos
pendentes. Ele pode ser um garoto mimado, mas eu não sou. Vou concluir minhas responsabilidades.
Esta noite também vou revisar o seu contrato com ele. Tenho certeza de que você não precisa se
preocupar, financeiramente, quero dizer. Adrian não pode provar a traição, o que significa que, na
verdade, ele quebrou o contrato. Você não tem que se preocupar com dinheiro, Laura.

- Não quero o dinheiro dele – eu respondi sem humor – eu nunca quis. Nunca tive dinheiro mesmo,
não ter novamente, não muda nada.

- Mesmo assim, como seu advogado – ele brincou – não vou deixa-la ser lesada pelos caprichos de
Adrian Van Galagher. Eu vou cuidar disso e se você não quiser o dinheiro, nós doamos para a
caridade – ele concluiu.

- Não quero vê-lo Alex.

- Você não irá. Eu cuido de tudo. Vou fazer uma procuração e você passará as responsabilidades á
mim.

Ao contrário do que eu pensava, dormi. Não demorou praticamente tempo nenhum para que
eu simplesmente desabasse de sono nos travesseiros de Alexander Persen. Foi um sono profundo,
exausto, sem sonhos.

- Então é isso que eu encontro ao voltar para minha casa! – eu escutei lá no fundo da minha mente.

Era um grito histérico, com uma voz que eu conhecia. Esforcei meu cérebro a voltar a
trabalhar e abri os olhos devagar – Alissa.

Ela estava parada, em frente á cama, olhos frios e cortantes como gelo dividindo-se entre
Alex e eu. Ele estava de calça. Peito nu, exibindo algumas tatuagens escuras em contraste á sua pele
clara. Cabelos despenteados, boca cheia de espuma. Olhos arregalados tentando explicar o
inexplicável.

- Oh meu Deus, não! – eu gritei assim que a historia fez sentido – eu dormi aqui sozinha! Juro Alissa!

- Então era isso, Alexander? – ela perguntou furiosa – toda a sua mudança! Toda a sua falta de
interesse em mim e no nosso casamento! Toda a sua falta de interesse em Louise!

- Hey, calma! Eu nunca estive sem interesse por Louise! Você não pode dizer isso!

- Claro! Por que para você tudo o que eu sou agora é a caixa que carga sua preciosa cria! Porque o
seu amor, o seu interesse, o seu desejo estavam ali – ela disse apontando para mim que já estava em
pé, agradecida por estar vestida.

- Você está louca Alissa! – Alexander gritou enquanto eu tentava uma maneira de sair do quarto – só
pode estar falando de você mesma e não de mim! Acha que eu não sei o quanto se arrependeu de ter
dado aquele furo e engravidado? Acha que eu não sei que não sou seu tipo de homem? Você achou o
quê? Achou que só porque eu iria me casar com você iria ficar babando aos pés do seu pai por um
lugar na empresa dele? Achou que iria me convencer a ser outra pessoa?

Minha cabeça doía. Meu estomago revirava. Eu sentia como se estivesse em uma casa
barco, num dia de mar revolto. Caminhei meio sem equilíbrio até as portas duplas, rezando para que
eles me permitissem ficar de fora da discussão.

- E você – Alissa disse apontando para mim – não podia se contentar em ter Adrian? Tinha que
querer o outro também? O que você tem pelo amor de Deus garota? Olhe para você! Tão provinciana
e medíocre com esse ar de autossuficiência!

Eu podia sentir o meu sangue latino gritar em cada uma das minhas veias, pequenas e
grandes. Eu sabia que a garota estava grávida e que ela tinha lá seu fundo de razão, afinal, eu estava
na cama do noivo dela, mas eu já estava tão no limite da minha razão que não pude me conter. Soltei
o ar dos pulmões devagar, tomando um pouco de folego para não cair.

- Não Alissa, esta é você! A garota que, apesar de estar carregando um bebê de um aí dentro, fica se
derretendo sobre o outro! Essa não sou eu, essa é você!

- Alex, você vai permitir que ela fale comigo assim? – ela provocou.

Alexander limpou a boca na beirada do lençol.

- Não posso dizer que ela está errada.

Alissa sentou-se na cama, fazendo a cena da pobre grávida indefesa.

- Oh meu Deus é muito pior do que eu imaginava! Vocês dois estão tentando fazer parecer que eu
estou errada quando na verdade eu acabo de pegar os dois na cama!

Alex sentou-se ao lado dela, segurou suas mãos gentilmente. Eu ainda queria voar na
garganta dela, então achei deveria deixa-los ali, sozinhos, e fui para a sala. Aproveitei para colocar
um agasalho e calçar meus tênis. Mia aconchegou-se ao meu lado, olhos preguiçosos me diziam que
ela não fazia ideia da enrascada em que eu nos tinha metido.

- Baby não diga isso. Você não nos pegou na cama. Você pegou Laura dormindo e eu no banheiro,
escovando os dentes. Não seja infantil. Nós não dormimos juntos. Eu nem dormi na verdade – eu
podia ouvi-lo tentar faze-la entender a verdade – eu estava trabalhando no processo que vou mover
contra Adrian, baby. Você sabia disso, eu expliquei á você tudo ontem.

- Por telefone Alexander! Você me avisou por telefone que seu melhor amigo achava que você estava
dormindo com Laura! Eu chego á sua casa de manhã e o que eu vejo? Laura! Na sua cama!

- Alissa não seja infantil! – Alexander praguejou – você parece estar procurando por uma razão.

- Uma razão para quê, Alexander? – ela provocou – uma razão para deixar você?

- Baby não diga isso. Eu não quero perder você. Eu já perdi tudo. Eu já perdi meu emprego, já perdi
meu melhor amigo. Eu não posso perder vocês duas.

Eu estava mal. Pior ainda do que na noite anterior. Eu não só tinha destruído a minha vida,
como tinha arrastado Alexander comigo pelo caminho.

- E o que você pretende fazer? Porque sem dinheiro não vamos conseguir dar uma vida decente para
Louise. Ou você espera que eu trabalhe e deixe Louise em uma creche qualquer?

A voz de Alissa me enjoava mais e mais á cada palavra – Deus como um cara como
Alexander Persen pôde se envolver com essa criatura?

- Não Alissa. Eu não espero que você volte a trabalhar agora. Eu entendo que a responsabilidade é
minha. Eu vou encontrar algo. Você sabe que eu vou. Eu sou muito bom no que eu faço.

Ouvi a movimentação no quarto e me preparei, encostada no balcão da cozinha, com Mia em


um braço, e bolsa no outro. Alissa veio gritando pela porta com Alexander logo atrás dela.
- Eu não me importo com o que quer que seja que você vai fazer! Eu não vou ficar de favor na casa
do meu pai com um bebe recém nascido! Droga de vida! Droga de momento em que eu me envolvi
com um fracassado!

Apertei Mia em meu braço para não enfiar a mão na cara de Alissa naquele momento. Ela
não fazia ideia do homem que ela tinha ao lado dela. Ela não o merecia.

- E eu não quero mais ver essa garota aqui! Eu não quero mais vê-la perto de mim ou do meu bebê.
Se você quer ser o cara das boas ações ou se você quer manter a sua amante por perto, leve ela para
a casa do inútil do seu pai!

Alex permaneceu parado, postura firme, mãos ao lado do corpo. Punhos cerrados. Olhos
concentrados. Não parecia o Alex que eu costumava ver. Era alguém frio, calculando o próximo
passo.

- Saia da minha casa – ele disse devagar.

Alissa olhou primeiro para mim e depois de volta para ele. Ela parecia não entender o que
estava acontecendo.

- Desculpe? – ela perguntou.

- Saia da minha casa – ele repetiu – você não tem respeito por mim, nem pelas pessoas que eu amo.
Saia da minha casa.

- Você está terminando comigo? – ela perguntou incrédula – por causa dela? – e apontou para mim.

- Não Alissa, eu estou terminando com você porque eu não suporto mais fingir que isso vai dar certo
algum dia. Eu tentei. Eu quis. Eu realmente quis muito que isso desse certo. Eu queria muito dar um
lar diferente do que eu tive para minha filha, mas eu não posso mais. Não consigo mais. Eu estou te
dizendo que vou acertar todas as arestas da minha vida e que você era a maior delas.

- Você não pode estar falando sério! – ela disse com os olhos arregalados – e Louise?

- Louise sempre será minha filha e eu a farei saber o quanto eu a amo.

- Alex – ela tentou uma vez mais.

- Saia.

Alissa passou pela porta como um foguete. E eu, instintivamente, fui atrás dela. Eu não
poderia deixar a garota sair por aí desembestada como estava e naquele estado – eu sabia melhor do
que ninguém o quanto isso tudo poderia terminar mal.

- Alissa! – chamei, mas ela continuou pelo corredor.

Corri. Eu não estava carregando nenhum peso adicional, então, alcancei-a antes que
chegasse ao elevador.
- Espera – eu disse com a mão no ombro dela.

Ela encarou minha mão em seu ombro como se fosse algo sujo, mas eu não me importei, eu
não estava nem aí para o que ela pensava ou não á meu respeito, mas eu me importava com o que iria
acontecer com o bebê dentro da barriga dela. Podia ser egoísta da minha parte, mas era a realidade.
Eu faria qualquer coisa para salvar o bebê de Alexander.

- o que você quer? – ela me perguntou furiosa – você já ganhou tudo!

Suspirei – era mais fácil falar com Hanna e até com Mia, do que falar com Alissa.

- O que foi que eu ganhei Alissa? Caso você não tenha entendido, eu até agora só posso computar
perdas.

A porta do elevador se abriu e ela entrou. Entrei junto. Eu pelo menos iria tentar acalmá-la
para que pudesse voltar para casa em segurança.

- Você tem o grande Sr. Galagher aos seus pés – ela começou gesticulando para mim – e agora tem o
fiel escudeiro também. Até aquelas três pestinhas você conseguiu convencer. Sério, você deveria dar
cursos por aí, faria um grande sucesso.

Respirei fundo – concentre-se Laura. Concentre-se. Pense em Alex. Pense em Alex.

- Alissa Adrian e eu terminamos. E Alex – comecei, mas ela não me deixou terminar.

- E Alex correria uma maratona, descalço no gelo, se você pedisse. O que mais você pode querer?

- Eu amo Adrian, Alissa – tentei insistir.

Alissa encostou-se emburrada como uma criança, no batente da porta do elevador, fazendo-a
permanecer aberta, deixando as pessoas esperando.

- Ah Laura, não seja ingênua! É claro que você ama – ela disse dando ênfase á ultima palavra,
usando-a como se fosse um jogo – o que há em Adrian Van Galagher para não se amar?

Eu estava irritada. Cruzando a linha tênue da paciência para o desespero, para não dar umas
boas chineladas na bunda de Alissa. Minha avó costumava dizer que chinelada e canja de galinha
curavam tudo! O que uma não resolvia, a outra cuidava.

- Alissa dê licença para que as pessoas possam usar o elevador – pedi gentilmente.

- Eles que esperem. Eu não me importo.

Contei até três mentalmente.

- Por favor, Alissa, vamos conversar ali fora – eu disse indicando uma pequena praça em frente ao
apartamento de Alex – Hum – insisti – por favor?
- Ok!

Ela saiu á contragosto e eu pude perceber um ou outro olhar de agradecimento dirigido á


mim – acho que eu não era uma pessoa tão terrível assim, afinal.

Alissa não foi á praça, como eu havia pedido, ao invés disso ela apertou o alarme de um
belo carro de luxo e entrou. Eu fui junto e fiquei na janela.

- Você não deveria sair por aí dirigindo alterada. Você deveria pensar no seu bebê – pontuei.

- E quem é você para me dizer como eu devo ou não seguir com a minha vida? – ela retrucou.

Pensei alguns segundos na resposta, sentindo as palavras arranharem o que já estava


sangrando.

- Eu sou alguém que já se arrependeu de uma bobagem como essa e que não pode mudar o passado.

Alissa pensou um pouco. As mãos sobre o volante. Cabeça descansando sobre elas.
Respirou fundo. E eu pude ver que tinha absorvido o que eu disse.

- É isso? – ela me perguntou de repente – você também está preocupada com a preciosa cria aqui
dentro?

Assustei tanto com o tom que ela usou para se referir á filha que nem consegui responder.

- Não se preocupe, Laurinha – ela disse debochando – eu vou me preocupar com a pequena Louise.
Eu vou fazer tudo que eu puder para que a pequena Louise tenha uma ótima vida.

Alissa arrancou com o carro e eu fiquei ali, em estado de choque, pensando que se eu tinha
alguma duvida de que ela era completamente maluca, as duvidas tinham sido sanadas agora.
Capítulo 23

Esperei o dia amanhecer encarando a janela aberta do meu quarto. Eu não havia cochilado
mais do que algumas poucas horas e isso não parecia um problema – eu estava sem sono.

Observei quando John sentou-se no deck, apreciando os primeiros raios de sol. Decidi que
era hora de ter uma conversa difícil com ele. Eu estava adiando isso demais.

Vesti uma camiseta e saí. Pés descalços na grama molhada, caminhando até o meu filho.

- Bom dia filho – eu disse antes de me sentar ao lado dele.

- Deve ter sido boa para o senhor, Sr. Galagher – ele disse sem humor – eu vi quando saiu.

- Você viu quando eu cheguei? – perguntei atirando uma pedrinha no lago.

Era algo que eu o tinha ensinado a fazer. Uma coisa que fazíamos juntos. Eu não podia
permitir que nosso vínculo se rompesse. Que John se afastasse de mim novamente.

- Não. Eu estava com dor de cabeça. Tomei um comprimido e dormi.

- Eu voltei para casa antes da meia noite, filho. Não tinha nada lá fora que eu quisesse.

John suspirou, mas não me perguntou nada. Ele estava magoado e eu queria fazê-lo entender.

- John você já é um homem, quero falar com você de homem para homem.

Ele virou-se para mim devagar, os olhos encarando os meus. Eu podia me ver neles.

- Filho você sabe que eu amava muito a sua mãe – não esperei que ele respondesse, eu precisava
falar – você também sabe que eu errei muito com ela.

- Você vai cometer os mesmos erros com Laura, pai. Você vai acabar jogando ela nos braços do
Alex, como você fez com mamãe e aquele cara.

Engoli as palavras dele sentindo minha garganta doer.

- John, eu não posso perdoar o que ela fez.

- Pois é pai, você também não podia perdoar mamãe e quando decidiu que podia, era tarde.

Engoli mais uma vez.

- John as coisas são mais complicadas do que isso. Eu e sua mãe tínhamos uma historia. Tínhamos
vocês. Eu precisava cuidar dela, era minha obrigação. Nós acabamos de conhecer Laura.

- Pai – ele me disse serio – você disse que eu sou um homem e que conversaria comigo como um,
então eu vou te tratar assim. Você nunca amou mamãe como você ama Laura. Eu não sou bobo pai, eu
vejo as coisas. Eu via a sua cara de bobo olhando para ela.

Permaneci em silencio, sem encarar os olhos do meu filho.

- Você babava nela o tempo todo pai. Eu sei que Laura é uma garota linda e jovem e que qualquer
cara ficaria feliz com uma mulher como ela, mas não é só isso com você. Você a ama de verdade. Só
que não quer admitir. Isso é covardia pai. E você me ensinou a não ser covarde.

Atirei mais uma pedrinha no lago. Eu estava contrariado e triste. Podia sentir a dor em cada
respiração, mas eu estava orgulhoso. Enfim, eu tinha feito algo de bom – John era meu melhor
projeto.

- E o que você acha que eu devo fazer John? – perguntei.

Eu queria que ele se abrisse comigo, que me visse como um amigo. Queria ouvir o que ele
tinha á dizer. Ele tinha crescido tanto. Tinha demonstrado isso quando se colocou ao lado dos irmãos
no meu lugar. Quando assumiu a responsabilidade de ser o pai para que eu pudesse ser o marido
traído. Ele merecia um voto de confiança. Talvez ele tivesse mais coisas á me oferecer do que eu
pensava.

- Acho que a primeira coisa que você deve fazer é conversar com Alex, pai. Acho que você foi um
imbecil ontem, com ele e com Laura, mas acho que a primeira coisa a ser consertada é a sua amizade
com ele.

Atirei mais uma pedrinha, deixando-a quicar. Não fazia nem vinte e quatro horas que eu e
Alex havíamos brigado, e eu já precisava de um conselho dele. Um conselho dele, para me ajudar a
resolver a briga com ele. Irônico.

- Pai – John interrompeu meus pensamentos – ninguém nunca vai amar a gente como o tio Alex.

As últimas palavras bateram como um soco em meu peito – Tio Alex. John chamava Alex
assim. Ele dizia que, já que Patrícia e eu não tínhamos irmãos, Alex era o seu único tio. E ele era,
meu irmão. Eu precisava pelo menos falar com ele. Precisa pelo menos ouvi-lo.

- Obrigado filho – eu disse deixando minha mão sobre seu ombro – eu precisava do conselho de um
cara sensato – brinquei, mas não era tão brincadeira assim.

John me abraçou.

- Até que você não é tão arrogante assim, pai.

Deixei John na cozinha, tomando café com os irmãos. Eu tinha decidido que eles poderiam
perder um dia de aulas e ficarem em casa. Eles precisavam de um tempo para que pudessem se
recuperar dos últimos acontecimentos.

Cheguei ao meu escritório cedo. Entrei dando apenas um aceno de cabeça ás pessoas que
encontrei – eu queria evitar qualquer comentário, ou pergunta. Não tive dificuldade, meus
funcionários me conheciam suficientemente bem para não insistir em contato visual.

- Bom dia Karol – eu disse ao entrar – assim que Alexander chegar, diga á ele que eu quero vê-lo.

- O Sr. Persen já está em sua sala, Sr. Galagher – Karol disse meio desconcertada.

Respirei fundo antes de abrir a porta da minha sala – seria uma conversa difícil.

Entrei. Alexander estava lá, de costas para mim. Mãos cruzadas nas costas, encarando
Roterdã lá embaixo. Virou-se assim que fechei a porta.

Caminhei até ele, deixando minha pasta sobre a mesa.

- Alexander, nós precisamos conversar.

- Sim, precisamos – ele me disse entregando-me algumas folhas impressas.

Peguei-as. Dei uma olhada rápida. Era um processo, eu sabia, conhecia bem. Li o nome no
alto da folha. Adrian Van Galagher – ótimo, era um processo contra mim.

- O que é isto? – eu perguntei, embora já imaginasse.

- Como advogado da Srta. Soares, eu o estou processando. Rompimento de contrato, calúnia e


difamação, danos morais e materiais, entre outros.

Respirei fundo. Tentando manter a calma.

- Trata-se disto então? – perguntei – meu dinheiro.

- Trata-se de atingi-lo onde dói. E nada é mais importante para você do que o seu império, Sr. Leão
de Roterdã.

Ele estava ironizando. Estava com raiva e tinha suas razões, mas ele não estava certo. Eu os
tinha pegado em algum tipo de rede de mentiras e era ele quem tinha coisas á me explicar. Eu queria
dar uma chance á ele. Queria que pudéssemos conversar, mas havia percebido que seria difícil.

- Alex – tentei mais uma vez – nós precisamos conversar.

- É o que nós estamos fazendo, Adrian.

- Você não pode ser advogado de Laura, você é meu advogado – insisti – além disso, não é
necessário nenhum tipo de processo. Eu vou arcar com minhas obrigações contratuais. Você só
precisa me dizer o que eu devo fazer.

- Consulte seus advogados quanto á sua conduta, Adrian. Caso não lembre você me demitiu ontem.
Eu não esqueci e por isso vim mais cedo. Eu precisava deixar minha sala em ordem para quem quer
que seja o substituto.

- Alex não seja tão intransigente.


- Eu não sou. Você sabe, ou melhor, você deveria saber. Achei que durante esses quase vinte anos de
amizade eu tinha deixado claro á você quem eu sou, mas não estou mais certo disso.

Eu estava irritado. Alexander não me deixava falar. Eu estava ficando nervoso, perdendo a
linha – o filho da puta transava com a minha noiva, pelas minhas costas, e ainda se sentia
injustiçado!

- Isso é tudo Alexander? – perguntei irritado, arrogante, parando em frente á ele e aproveitando meus
centímetros á mais.

- Não.

Eu não pude me defender, não tive tempo, tudo que pude sentir foi o punho fechado de
Alexander batendo forte contra o meu nariz. Caí, como um garoto apanhando na escola, de costas.
Minhas costas batendo forte contra a parede. Tentei abrir os olhos, mas a dor ainda era forte, aguda.
Meus olhos lacrimejavam contra a minha vontade.

Alexander sempre foi bom de briga, era magro e esguio, mas era rápido e forte, eu sabia
disso, já o tinha visto em ação outras vezes.

Abri finalmente os olhos, sentindo o liquido pegajoso escorrer até meu lábio. Limpei com as
costas das mãos, sentindo o gosto metálico em minha boca. Tateei o local do golpe com a mão. Eu
tinha um osso quebrado no nariz, com certeza. E tinha um corte na parte inferior do olho esquerdo –
filho da puta desgraçado.

Levantei, recuperando minha postura. Alexander abria e fechava a mão – ele tinha quebrado
meu nariz, mas tinha quebrado a mão junto. Quase pude rir.

- Isto é tudo? Repeti a pergunta.

- Sim – ele me disse saindo – por enquanto.

Assim que Alexander saiu eu soquei a parede. Não queria me arrepender de mais nada. Não
podia simplesmente sair socando as pessoas por aí. Eu não era mais um garoto de colégio brigando
com o amigo por causa da garota.

Fui até o banheiro e lavei meu rosto. Olhei no espelho, encarando os ferimentos. O inchaço
no meu nariz começava a aparecer e o sangue a jorrar. Enfiei um chumaço de papel higiênico nele.
Eu podia ver o indicio de um hematoma abaixo do meu olho, perto do corte.

Sequei o rosto e esperei que o sangramento fosse contido. Tirei a gravata e dobrei a camisa
até os cotovelos. Ela estava suja de sangue no punho e eu não queria parecer pior do que já estava.
Arrumei o cabelo e coloquei meus óculos escuros. Saí sem dizer nada. Não havia o que dizer.
Provavelmente Karol havia ouvido o barulho.

Voltei para minha casa antes do almoço. Meus filhos estavam brincando no jardim. Tentei
passar despercebido e subi para o meu quarto. Funcionou com Hanna e Collin, mas não com John.
Ele entrou no quarto alguns minutos depois de mim. Eu estava trocando minha roupa.

- Ele te acertou em cheio, hein pai – John brincou rindo.

- Esse é o seu tio, o cara legal – eu disse apontando para o meu rosto – e eu nem mesmo revidei! –
conclui.

Ele me encarou serio por um tempo analisando o estrago no meu rosto. Depois sorriu e
atirou a toalha de rosto para mim.

- Você mereceu pai, eu teria feito o mesmo – e sorriu – agora limpe esse nariz que tá escorrendo
sangue aí.

John saiu do quarto e eu acabei sorrindo e sentindo a dor de movimentar o rosto – o filho da
puta tinha destruído meu rosto.

- Pai? – escutei John me chamando pelo corredor.

- Sim? – eu respondi assim que vesti a calça de exercício.

- Alissa, está lá embaixo.

- Já vou descer filho. Peça a ela para me esperar.

- Rápido, hein, pai! – ele constatou – pensei que demoraria mais um pouco.

- Não entendi John – eu disse, embora não fosse uma verdade completa.

Ele estreitou as sobrancelhas para mim, depois arqueou uma – é eu não era bom em fingir
para John.

Desci as escadas devagar. Alissa estava na sala, andando de um lado para o outro. Eu era
bom em interpretar pessoas e eu sabia que aquilo não era desespero real. Ela queria parecer nervosa,
desesperada. Eu já imaginava onde toda a conversa iria nos levar, mas ela merecia ser ouvida,
afinal, assim como eu, ela havia sido traída.

- Boa tarde Alissa – eu disse assim que ela virou-se para mim.

Ela não respondeu, correu até mim e atirou-se nos meus braços. Abracei. Não que eu
achasse que ela precisava ser consolada – eu já havia percebido que Alissa não amava realmente
Alexander – mas eu era educado, e não faria isso com ela.

- Adrian você não sabe como eu estou – ela começou choramingando – eu passei na casa do Alex
hoje de manhã e – ela fez uma pausa para chorar – eu os encontrei na cama!

Ou Alexander era realmente burro demais ou Alissa estava mentindo em algum ponto desta
historia toda. Porque levar a amante para a própria casa e coloca-la na cama que você divide com
outra mulher é o cúmulo da estupidez que um cara poderia cometer! E Alexander era um cara esperto.
Não disse nada. Esperei que ela continuasse, enquanto eu acariciava seu cabelo devagar.

- Eles. Eles – ela queria dar ênfase aos fatos – eles estavam lá.

- Nus? – perguntei por que não resisti.

- Não – ela disse meio ofendida – ela estava na cama dele. Ah Adrian você não imagina as
barbaridades que ele me disse!

- Alissa você não deveria ter se exposto á isso. Você sabia que os dois estavam juntos – eu disse
devagar – você precisa pensar em Louise.

- Louise! Louise! Todo mundo só se preocupa com ela! E eu? – ela perguntou – eu preciso de um
pouco de atenção! E afeto!

Oh Deus, não! Por favor, me diga que eu não vou ter que ficar aqui com a cara inchada e
sangrando escutando a rainha do drama choramingar porque o mundo não gira em torno dela! –
fiz uma prece silenciosa.

- Hey querida – eu disse devagar, aconchegando ela em meu peito – não é verdade. Eu estou
preocupado com você. Só estou dizendo que você precisa se cuidar. Você está tão perto de terminar
a gravidez, não vai querer causar um problema para você e para o seu bebê. Não pode passar por
esses rompantes de sentimentos.

Não era sincero, nem genuíno, mas Alissa não se importava. Ela queria atenção. E se era o
que eu precisava fazer para manter Louise segura, então eu faria.

Ela finalmente levantou os olhos e encarou meu rosto machucado.

- Oh meu Deus, Adrian! Você foi assaltado? Sequestro relâmpago? O meu Deus esse mundo está
perdido – constatou.

- Não Alissa. Eu não fui assaltado ou qualquer coisa assim – eu disse sem vontade – eu tive um
encontro não muito amistoso com Alexander.

- Alex fez isso?

Assenti.

- Adrian você deveria ir á uma delegacia!

- Está tudo bem Alissa. Não é nada demais.

- Como não é nada demais? Aquele boçal destruiu o seu rosto!

Ela tentava alisar meu rosto com a mão e eu tentava me esquivar sendo gentil e delicado –
era um jogo difícil.
Eu podia não estar mais com Laura. E podia ter sido traído por Alexander, mas eu não faria
o mesmo. Eu não tinha intenção nenhuma em permitir que Alissa tivesse esse tipo de pensamento.

- Venha – eu disse conduzindo-a – vamos ao meu escritório e você me conta exatamente o que viu.

Alissa assentiu sem reclamar. Entrei com ela no escritório e fechei a porta. Eu não queria
que meus filhos a vissem alisando meu rosto e tivessem alguma ideia errada. Laura havia acabado de
sair das nossas vidas, eu não queria que pensassem que eu a havia substituído assim tão rápido.

- Diga-me querida, o que houve exatamente esta manhã, no apartamento de Alexander.

- Eu cheguei lá e entrei. Bem eu tenho a chave, claro – ela começou – fui direto para o quarto. Eu
queria acordar Alex, mas ele não estava na cama. Laura estava! Ela estava dormindo nos meus
lençóis Adrian. Foi horrível!

- E Alexander?

- Estava no banheiro.

- Não estavam dormindo juntos então – constatei.

- Não quando eu cheguei! Mas, Deus sabe lá, o que fizeram a noite toda!

Eu estava me irritando mais e mais a cada minuto do meu dia. Não era só Deus quem sabia o
que os dois poderiam ter feito naquele maldito apartamento! Eu tinha ideia não muito vaga também.

Respirei devagar, controlando meus nervos. Eu não queria que ela percebesse o efeito que
surtia em mim.

- Querida – comecei – eu sei o quanto deve estar doendo, mas você precisa seguir em frente. Talvez
o casamento não fosse realmente o melhor para vocês.

- Eu sei – ela me disse baixinho – talvez não fosse mesmo.

- Então. Pense em seu bebê. Hum? – eu disse sorrindo – logo, logo você terá Louise nos braços e,
acredite isso irá compensar todo o resto. Eu digo com conhecimento de causa.

- Adrian você é o melhor pai do mundo – ela disse atirando-se sobre mim novamente – queria que
Alexander fosse como você. Oh meu Deus se eu pudesse voltar no tempo. Quer dizer, não que eu não
quisesse Louise, mas eu podia ter feito uma escolha melhor de pai.

Não era verdade. Nada do que ela dizia. E eu não era burro. Eu não era, nem de longe, o
melhor pai do mundo e Alexander era um cara incrível com crianças. Ele havia sido melhor pai do
que eu em muitos momentos. Eu podia estar magoado com ele e tinha um rombo no rosto que não me
deixava esquecer isso, mas eu não gostava de ouvi-la dizer essas coisas sobre ele.

- E agora, ele nem mesmo tem um emprego. O que eu vou fazer? Vou ficar na casa do meu pai até
quando? Sabe Adrian, papai não vai aceitar bem isso tudo. Ele vai me culpar, vai dizer que me
avisou e todas aquelas coisas que os pais dizem. Oh meu Deus!

Respirei fundo novamente. O nariz dela fazia cocegas em meu pescoço e não era de um
modo bom.

- Eu vou cuidar disso Alissa – eu disse na tentativa de encerrar o assunto – eu vou cuidar para que
não falte nada á você ou Louise. Não se preocupe. Não precisa pedir nada ao seu pai. Diga do que
precisa, e eu providencio.

Ela sorriu. Alissa nem mesmo queria á mim. Ela queria o meu dinheiro, sempre foi sobre o
meu dinheiro. Ela não se importava com quem Alexander teria que dormir ou não, desde que o
dinheiro que entrasse fosse suficiente para que ela continuasse levando a vida que gostava.

- Agora venha – eu disse me afastando e levando-a pela mão – eu vou levar você até sua casa, e
Harold levará seu carro. Não é seguro você continuar dirigindo por aí com esta barriga tão grande.

Ela assentiu, já havia conseguido o que veio buscar mesmo.

Abri a porta do Porsche e a ajudei a entrar. Subi a capota – porque a ultima coisa que eu
precisava era de uma foto minha com a cara estourada em todos os jornais amanha, e com Alissa, no
banco do passageiro.

Parei o carro em frente à casa dos pais dela alguns minutos depois.

- Agora você precisa entrar e contar ao seu pai que o noivado acabou, querida – eu disse – quanto
mais esperar, pior será.

- Eu sei – ela disse encostando a cabeça em meu peito novamente.

- E não se preocupe com dinheiro. Vou cuidar de você e de Louise.

- Ah Adrian, você é um gentleman.

Alissa disse isso e tocou os lábios nos meus. Não foi exatamente um beijo e não sei o que
ela esperava em reação, mas eu não me movi. Também não me afastei, não queria parecer
indelicado. Depois de algum tempo ela se afastou.

- Depois que Louise nascer – ela começou – eu terei mais tempo. Vou poder voltar a ser eu mesma,
fazer as coisas que fazia antes.

- Claro que vai – concordei sem vontade porque não me lembrava de nada importante que ela fazia
antes de estar grávida.

- E aí nós podemos – ela fez uma pausa, pensando nas palavras e me deixando assustado – podemos
tentar seguir em frente. Quero dizer, eu posso ser uma boa mãe.

Engoli em seco – nem em um milhão de anos essa mulher iria ficar perto dos meus filhos!
- Alissa você sabe que eu a considero muito, não sabe?

- Sim – ela disse sorrindo.

- Alexander é meu amigo, meu melhor amigo. Ainda que ele tenha me traído, eu nunca faria o mesmo.
Você e ele tem uma historia longa e complicada demais.

Fui taxativo. Não tinha como enrolar e eu não queria fazer isso. Não queria que ela pensasse
que isso poderia acontecer em algum momento, porque não era verdade.

Alissa bufou contrariada. Desceu do carro sem me encarar.

- Vamos dar um tempo ás coisas – ela disse já do lado de fora do carro.

- Isso – concordei – com o tempo as coisas se acertarão.

Saí o mais rápido que consegui. Eu estava ainda pior. Sentindo-me estranho, sujo. Eu estava
acostumado á mulheres que queriam meu dinheiro, isso não era uma novidade, mas hoje, me fez mal.
Eu podia sentir o perfume dela dentro do meu carro e isso me enjoava. Alise os cabelos para trás,
sentindo asco da minha própria pele. Minha boca. Ela havia me beijado – ou quase isso – e pela
primeira vez eu me senti mal por isso.

Adrian Van Galagher, sentindo se mal por ser beijado por uma mulher bonita! Comecei a
achar que Charlotte tinha razão – Laura havia me estragado!

Laura! De novo, ali, em minha mente. Serpenteando pelo meu carro, espalhando seu perfume.

Afundei o pé no acelerador, sentindo o ciúme corroer minhas veias devagar. Ela havia
dormido com ele! Será que ela já havia me esquecido? Será que não sentia mais atração por mim?
Será que era fingimento? Não importava, eu iria descobrir!

Estacionei em frente ao prédio de Alexander. O prédio não tinha garagem e eu não encontrei
o carro dele no estacionamento de rua em que ele costumava deixar. Talvez ele não estivesse em
casa. Talvez tivessem saído.

Entrei. Passei pela portaria e apenas cumprimentei o segurança. Eu sempre ia ao apartamento


de Alexander, não era uma novidade.

Toquei a campainha. No segundo toque Laura abriu a porta. Meus olhos encontraram os dela
assim que a viram. Lindos olhos castanhos, meus olhos castanhos. Ela parecia ainda mais bonita.

Laura deixou o a caneca cair, estilhaçando-se em vários pedaços, respingando chá em minha
calça. Tentou fechar a porta num impulso, mas eu não permiti. Cobri sua mão com a minha, enquanto
fazia uma varredura do local. Silencioso e vazio, ela estava sozinha. Entrei.

- Oh meu Deus, Adrian! Você está bem? – ela perguntou encarando meu rosto.

Respirei devagar. Eu não queria contar a ela sobre a briga. Não conseguia organizar minha
mente na verdade. Eu não sabia o que dizer.

- O que você quer Adrian? – ela me perguntou tentando soar firme, mas eu podia sentir a pequena
ondulação em sua voz.

Eu não respondi novamente. Havia pensando em muitas coisas para dizer. Muitas coisas
para exigir, mas nada fazia mais sentido. Eu não queria nada. Nada além dela.

Cruzei o espaço entre nós dois em poucas passadas. Rápidas e longas o suficiente para
encostar Laura na parede de tijolos da sala. Encaixei meu corpo no dela e enfiei minha perna entre as
suas, minha coxa mantendo-as aberta, segurei suas mãos abertas, de cada um dos lados da sua
cabeça, seus dedos entrelaçados nos meus.

Senti o aroma do seu hálito assim que ela soltou o ar dos pulmões e perdi o pouco de
sanidade que ainda tinha – eu queria Laura. Eu queria agora e eu conseguia tudo que queria. Sempre.

Apertei minha boca na dela, duro, forte. Não era um beijo carinhoso. Mordi seu lábio
inferior, sentindo o gosto metálico se espalhar em nossas bocas. Eu não sabia de quem era o sangue,
e não me importava – o gosto de Laura era o melhor que eu já havia sentido.

Subi minha coxa o suficiente para senti-la mais, sob o tecido fino da calça de ginastica.

- Adrian – era um misto de protesto e gemido. Eu não ia parar.

- Diz que me esqueceu! – eu exigi – diz que alguém faz você se sentir assim!

- Adrian – ela disse tendendo mais para o gemido, do que para o protesto.

- Amor eu te quero tanto – eu disse sugando sua língua para a minha boca, aprofundando nosso beijo
– tanto. Não acredito no que você fez. Você não podia. – desabafei.

E então ela me afastou, soltando as mãos e empurrando meu peito com força.

- Não! – ela xingou – o que você pensa que está fazendo? Foi você quem terminou comigo! Vai
embora Adrian!

- Por quê? – perguntei enfurecido – porque agora você é dele? – insisti – Quer dizer que você podia
ser dele quando era minha, mas não pode ser minha quando é dele?

Mais uma vez, eu não pude desviar do tapa. Para a minha sorte, Laura não batia tão bem
quanto Alex, então além do ardor no meu rosto já machucado, tudo que eu senti foi mágoa. O
desprezo dela era como uma bomba de mágoa dentro do meu peito – ela não me queria.

Virei de costas sem dizer nada e saí. Eu precisava ficar longe dessa garota ou ela ia
terminar de me destruir.
Capítulo 24

Eu estava sentada no sofá, cabeça caída contra as mãos no maior acesso de choro, quando
Alex entrou. Eu podia sentir cada musculo do meu corpo tremendo.

- Laura! O que houve baby? – ele perguntou ajoelhando-se á minha frente.

Não respondi de imediato, eu não conseguia falar. Estava nervosa demais, sentindo ainda a
presença de Adrian aqui.

- Pelo amor de Deus Laura, não me diga que – não o deixei continuar.

- Ele esteve aqui – eu disse chorando.

Alex bufou – soltando o ar dos pulmões de uma vez.

- Eu imaginei que isso poderia acontecer. Só não achei que fosse tão rápido – Alex pensou por um
instante – não me diga que ele fez algo estupido.

- Não – respondi recobrando um pouco de calma – mas eu quase fiz.

- Hey, baby – ele disse me puxando para o seu lado – não se preocupe, eu vou proteger você.

Tentei segurar em sua mão e Alexander a puxou de volta. Percebi o ferimento no mesmo
instante, fazendo a ligação mental.

- Não me diga que você – eu comecei e ele não me deixou terminar.

- Eu meio que soquei a cara dele.

Sorri.

- Sua mão parece melhor que o rosto dele, apesar de tudo – brinquei.

- Essa era a intenção, baby – ele disse sorrindo, mas o sorriso murchou rápido de mais – eu estive
com Alissa. Por isso acabei demorando á voltar. Eu cheguei bem cedo lá, ela não estava. Esperei.
Então eu vi quando ela chegou com Adrian e imaginei que isso pudesse acontecer.

Eu mal podia acreditar na rapidez da garota – nem esperou o lençol esfriar e já estava lá,
em cima de Adrian. Senti meu estomago revirar.

- Eu achei que deveria procura-la depois de tudo que houve aqui – Alex continuou sem humor –
Achei que ela merecia uma chance, por tudo que vivemos. Eu não queria que terminássemos assim.

- Acho que a conversa não seguiu exatamente como você planejou – constatei.

- Não. Alissa me disse algumas coisas ruins. Estava chateada e magoada. Pelo que pude perceber ela
não tinha conseguido de Adrian o que esperava.
Ele parecia triste, mas parecia conformado. Eu ainda não tinha entendido se Alexander
sempre soube quem era Alissa, e fingia por causa do bebê; ou se ele fingia que estava menos
magoado do que na verdade estava. Eu não estaria tão calma no lugar dele.

- Agora me diga o que ele queria com você? Não me diga que tem algo á ver com o processo.

Suspirei.

- Pegue a caixa de primeiros socorros primeiro e eu conto o que você quiser depois. Precisamos
cuidar da sua mão.

Alexander levantou-se e entrou no quarto. Voltou alguns minutos depois, sem camisa e com
uma caixinha vermelha nas mãos. Sentou-se no sofá e colocou a mão sobre meu colo.

- Vamos ver os seus dotes – ele brincou.

Limpei com uma gaze úmida em água boricada e analisei o ferimento.

- Acho que não quebrou – constatei – ou já estaria inchada.

- Acho que não mesmo. A dor está melhorando. Enfim, a cabeça de Adrian Van Galagher não é tão
dura assim – ele disse abrindo e fechando os dedos e constatando que os movimentos estavam todos
bem.

Passei antisséptico e envolvi com uma faixa limpa, pregando com esparadrapo.

- O que ele queria aqui, Laura? – Alex me perguntou.

Suspirei – era uma coisa complicada de confessar. Como eu diria á ele que Adrian queria
sexo?

Alex estreitou a sobrancelha para mim e eu soltei o ar dos pulmões de uma vez, admitindo
mentalmente o problema e esperando que ele compreendesse.

- Ele só queria provar que estava no comando. Queria provar que as coisas eram como ele queria –
eu disse por fim, rezando para que ele pudesse ler nas entrelinhas.

- Sexo – Alex disse lendo meus pensamentos – ou coisa do tipo.

- Coisa do tipo.

Alexander segurou minha cabeça entre as suas mãos, analisando meus olhos.

- Sei que vai parecer idiota da minha parte, mas eu não seria seu amigo se não te fizesse pensar – ele
começou – Adrian gosta muito, muito de você Laura. Acredite, eu o conheço o suficiente para saber
disso. Eu poderia apostar que ele ama você.

As palavras apertando mais e mais meu coração, fazendo a vontade de chorar aumentar. Eu
podia sentir ainda o toque dele, o perfume dele. Eu podia sentir a sensação dos seus lábios nos meus.
Seu corpo contra o meu.

Oh Deus! – Eu podia realmente sentir Adrian em cada célula do meu corpo.

- Tem muitas coisas que Adrian van Galagher precisa aprender antes de amar alguém, Alex.

Alexander sorriu. Um sorriso genuíno e divertido.

- É, o pobre Sr. Galagher nem imagina em que problema se meteu.

- Ele nem faz ideia – eu disse sorrindo.

- Bem, Srta. Soares pegue suas coisas que nós vamos passear! – Alex disse levantando-se e indo
para o quarto. Voltou usando jeans e uma camiseta.

- E aonde nós vamos?

- Vamos encontrar um lugar mais tranquilo para a senhorita descansar. Eu não quero que fique aqui
sozinha porque eu terei que fazer uma pequena viagem.

- Eu posso me virar Alex – eu disse – de verdade. Estou bem. Posso me virar. Na verdade, eu
preciso! Preciso encontrar um lugar para mim e Mia.

- Tenho uma ideia melhor. Vamos. Pegue suas coisas que eu levo Mia.

Paramos em minha antiga rua, algum tempo depois. Eu pude perceber que meu apartamento
já estava ocupado. Suspirei triste – eu tinha esperanças que talvez pudesse reocupa-lo.

Alexander desceu do carro e abriu a porta para que eu descesse. Pegou minha mala no banco
de traz e eu desci com Mia no colo.

- Aonde vamos? – eu perguntei.

- Vou lhe apresentar o velho Sr. Persen. Mas não se iluda, ele não é tão bonito como o filho.

Sorri.

- Tenho certeza de que isso não seria possível – eu disse abraçando-o pela cintura.

Alex bateu na porta, primeiro, e em seguida entrou.

- Pai? – ele chamou.

Continuamos seguindo pela sala e atravessamos uma cozinha pequena, mas muito limpa e
organizada. O cheiro de algo doce e caramelizado golpeou meu estomago e me fez salivar. A porta
estava aberta e os fundos da casa davam para um canal. Era um pequeno canal secundário, vazio,
exceto pelos patos e marrecos que nadavam despreocupados. Havia um homem de cabelos grisalhos
sentado em uma cadeira.
Alexander aproximou-se dele e o beijou no topo da cabeça.

- Como estão as coisas hoje, Sr. Persen? – ele perguntou.

- Estou muito bem, meu filho – o homem respondeu – eu fiz torta de maçã, se sua namorada estiver
com fome.

E então o homem virou os olhos para mim e parou, encarando-me por alguns instantes. Eu
podia perceber que havia algo de errado com o Sr. Persen. Seus olhos pareciam tão distantes e
perdidos. Ele me olhava, mas parecia não me ver.

- Dalva! – ele disse de repente – você chegou!

Dei um passo para trás meio sem entender – Dalva era um nome que eu não ouvia á muito
tempo!

- Não pai – Alexander corrigiu – está é Laura. E Laura é minha amiga, e não minha namorada.

Estendi a mão, esperando que ele me cumprimentasse. O Sr. Persen coçou a cabeça,
passando-a pela testa devagar.

- Desculpe-me Laura, eu ás vezes tenho dificuldades para separar o passado do presente.

- Papai tem Alzheimer, Laurinha, mas ele é um cara ótimo.

Segurei a mão do Sr. Persen que retribuiu carinhosamente.

- Muito prazer, eu sou Vrijg.

- Muito prazer – eu respondi.

- Pai – Alexander disse com as mãos no ombro do pai – Laura vai passar uns tempos aqui com o
senhor, tudo bem?

Eu estava me preparando para dizer que não, quando o Sr. Persen sorriu e levantando-se da
cadeira, me segurou em um abraço, acariciando minhas costas gentilmente.

- Ah querida, será um honra! Terei com quem conversar! Sabe – ele disse com a mão no meu ombro,
levando-me para dentro – eu passo tempo demais sozinho. Sei que ninguém quer um velho bobo e
doente por perto, mas eu ainda tenho muito á contribuir – ele disse sorrindo.

E eu sorri de volta – Não consegui dizer que não aceitava. Eu precisava mesmo de um lugar,
isso eu não podia negar, e o Sr. Persen era gentil demais para ser magoado.

- Venha querida – ele me disse puxando uma cadeira – darei a você um pedaço da minha torta e você
nunca mais irá embora!

Sorri e esperei que ele me servisse – eu queria mesmo experimentar a tal torta. Peguei o
garfo e tirei o primeiro pedaço da torta, quentinha, soltando fumaça. Coloquei na boca e parei,
sentindo o sabor se espalhar devagar em minha boca.

Alexander, sentado sobre o braço do sofá sorria de mim.

- Oh meu Deus, Sr. Persen! – eu disse em êxtase.

- Ele sempre convence todo mundo com essa torta – Alexander pontuou.

- É minha especialidade – o Sr. Persen disse.

Terminamos a torta e Alexander foi comigo até o quarto de visitas. Era um quarto pequeno,
com uma janela de duas folhas que dava para o canal. Era um quarto agradável, daqueles em que
você se sente em casa, desde o primeiro dia.

- Laura eu trouxe você aqui porque preciso ir á Bélgica – Alex começou – eu tenho alguns assuntos
para resolver por lá. Caso você não saiba – ele me disse forçando o sotaque francês – eu sou Belga.

Sorri.

- Isso explica o seu charme – brinquei.

- Entre outras coisas – ele respondeu brincando também. E depois ficou sério novamente – eu recebi
uma proposta de emprego por lá, algum tempo atrás. Era algo que me interessava muito, mas na
época não interessou á Alissa, então eu recusei. Ontem eu liguei para um amigo no parlamento e ele
me disse que a vaga ainda era minha, se eu quiser.

Senti meu coração diminuir um pouquinho com as palavras de Alexander. Eu não podia crer
que ele ia me deixar. Era egoísta e eu sabia disso, mas não queria que Alexander fosse. Suspirei.

- Hey! – ele disse sorrindo – isso é uma coisa boa baby, eu não vou deixa-la aqui! Eu terei um cargo
importante, precisarei de uma assistente.

O sorriso nasceu em meu rosto sem querer.

- Na Bélgica? – perguntei.

- Sim baby, você vai amar Bruxelas! Acredite em mim, é uma cidade linda e tem os melhores doces
do mundo todo! Nós vamos encontrar um lugar legal e vamos recomeçar.

Eu o abracei apertado. Ainda não sabia se queria me mudar para a Bélgica. Não sabia nem o
que faria quando o dia amanhecesse, mas eu sabia que não poderia ter encontrado um cara mais legal.

Alexander me deixou algumas horas mais tarde. Ele tinha uma passagem no trem expresso
para Bruxelas no ultimo horário. Tomei um banho e vesti um agasalho de moletom. Saí de volta para
o pequeno quintal. O Sr. Persen estava em sua cadeira, acariciando Mia em seu colo.

- Ah desculpe, Sr. Persen – eu disse me aproximando – eu nem perguntei ao senhor, se estava tudo
bem eu trazer minha gata para cá. Eu posso pedir á um amigo para cuidar dela, o senhor não precisa
se preocupar.

- De maneira alguma, Laurinha – ele disse com o mesmo tom que Alexander costumava usar. Era
terno e doce e me fazia sentir amada – eu e essa mocinha já nos tornamos amigos. Será um prazer
receber duas garotas tão belas em minha casa.

Sorri, descansando minha mão sobre Mia, acariciando suas costas, enquanto o Sr. Persen
acariciava suas orelhas.

- Faz muito tempo que eu não cuido de ninguém Laura – ele continuou – ás vezes acho que foi por
isso que eu adoeci. Eu tenho dificuldades ás vezes – ele disse entristecido – Não lembro muito das
coisas que deveria lembrar. E já te peço desculpas de antemão.

- Não se preocupe Sr. Persen! Nós vamos nos dar muito bem, tenho certeza – eu disse e era verdade
– eu não queria dar trabalho ao senhor e nem ao Alex. Eu é que preciso me desculpar. Acabei me
tornando um peso para todo mundo. Prometo que amanhã mesmo eu volto ao meu antigo emprego e
logo, logo o senhor se livra de mim e dessa bola de pelos – brinquei.

- Não faça isso! Não me deixe tão rápido. Espere alguns dias. Eu sinto que você precisa de alguns
dias de descanso e paz.

Era verdade, eu não podia negar então sorri.

- Você é a primeira garota que Alexander traz á minha casa – ele constatou – imagino que seja
especial para ele.

- Bem, acho que descobrimos que somos especiais um para o outro – eu disse depois de pensar por
alguns segundos.

- Ele merece alguém que o ame de verdade – Sr. Persen disse com os olhos perdidos nas águas do
canal – a garota loura não o ama.

Fiquei em um impasse. Eu não sabia se contava algo sobre a situação de Alex á ele ou se
fingia não saber. Era estranho, mas assim como com Alex, eu sentia que conhecia o Sr. Persen á
muitos anos.

- Ele vai encontrar alguém que o ame, Sr. Persen – eu disse por fim, optando por omitir uma parte
dos fatos – alguém especial como Alex, merece realmente alguém que o ame muito.

- Mas esse alguém não será você – ele constatou.

Suspirei.

- Não desse jeito.

O Sr. Persen desviou os olhos do canal e os cravou em mim, límpidos olhos azuis, como o
céu de primavera. Ele era um homem sensível, percebia as sutilezas fácil demais.

- E quem é o seu cavaleiro, doce Laura?

Pensei por um tempo, desviando meus olhos, e encarando o canal também – aquele canal
fazia a gente pensar na vida, isso era inegável. O vai e vem das águas brilhando com o sol era
muito, muito revelador.

- Acho que ele está mais para o cavalo do que para o cavaleiro nesse momento, Sr. Persen –
brinquei, mas era uma meia verdade.

Sr. Persen sorriu. Um riso alegre, divertindo-se com as minhas bobagens.

- E eu conheço esse cavaleiro rebaixado á montaria?

- Adrian Van Galagher – eu disse.

Não era um segredo e eu não via problema algum em contar ao Sr. Persen. Na verdade era
bom falar com ele. Ele era alguém que via os fatos de fora, talvez pudesse clarear meus pensamentos.

- Bom garoto, o Adrian – ele disse como se visse outra pessoa no lugar do Adrian Van Galagher que
eu conhecia – um jovem esforçado. Você fez uma boa escolha, Laura – ele me disse e eu fiquei meio
sem entender – a garota o fez sofrer muito. Ele merece alguém que cure o coração dele.

Eu ouvia e ouvia e não podia deixar de pensar mais do que gostaria nas palavras do Sr.
Persen.

- Adrian está me devendo uma partida de xadrez – ele me disse sorrindo – acredita que dá ultima vez
eu ganhei? – ele coçou a cabeça – eu ainda me pergunto se ele me deixa vencer de proposito! – e
encarou o canal novamente – bom garoto, o Adrian.

Ficamos ali, pensando na vida, olhando o movimento da cidade ao fundo, enquanto a tarde
começava a cair. As noites ainda estavam frias e quando o vento começou a soprar mais forte, ajudei
o Sr. Persen á entrar. Ele cozinhou uma sopa de batatas com pão caseiro para nós dois. Eu já me
sentia melhor. Estava faminta. Não havia comido muito nos últimos dias e o meu estomago roncava
tanto que eu tive medo que ele percebesse.

***

Dirigi até a fazenda. Eu precisava de um tempo longe de tudo, de todos. Eu precisava


pensar. Precisava colocar minha cabeça no lugar. Na verdade eu precisava de um conselho de
Alexander, mas eu não podia pedir, então teria que pensar sozinho. Encontrar a solução sozinho. Eu
estava sozinho.
Estacionei o carro e entrei. A tarde começava a cair. Assim que passei pela sala, Brigith
veio me cumprimentar.

- Sr. Galagher! – ela disse surpresa – o senhor não avisou que viria. Não preparei nada para recebê-
lo. As crianças estão com o senhor?

Eu poderia ter respondido que não era da conta dela, e que eu iria a minha própria fazenda
quando quisesse, mas eu não queria mais agir assim. Eu estava cheio de problemas por causa do meu
gênio e se queria começar a resolvê-los, esse era o primeiro ponto.

- Não se preocupe Brigith, eu não pretendia almoçar. E as crianças não vieram comigo. Eu preciso
de um tempo sozinho.

Ela sorriu. Brigith estava comigo á muitos anos. Ela estava comigo desde antes da fazenda
ser minha, quando ainda era dos meus pais. Eu havia herdado a fazenda e Brigith com ela. Ela me
conhecia desde criança. Havia feito muitos biscoitos para mim e para Lucian.

Brigith havia ficado viúva á alguns anos, mas ela ainda coordenava a fazenda melhor que
qualquer capataz que eu já tive. Ela amava aquele lugar tanto quanto eu.

- Vou preparar alguns biscoitos para que o senhor leve para as minhas crianças – ela disse sorridente
– e vou deixar algo pronto no fogão á lenha. Assim o senhor pode comer quando tiver fome.

Sorri e dei um aceno de cabeça. Subi para o meu quarto. Tirei o sapato e vesti minhas botas
de montaria. Abri o celular e disquei. John atendeu no segundo toque.

- Filho – comecei – tudo bem se eu te pedir um favor?

- Ih! Pelo jeito a loura aguada encheu mais o seu saco do que eu pensei – ele brincou – mas diga lá,
Sr. Galagher, o que eu posso fazer pelo senhor hoje?

- Eu estou na fazenda John. Preciso de um tempo sozinho. Volto pra casa amanhã. Tudo bem?

Ele pensou por um tempo, analisando a situação.

- Tem certeza que não quer companhia? – ele me disse por fim – eu posso pedir ao Harold para me
levar, pai. Os pirralhos vão ficar bem com Lila e a Martina.

Não pude deixar de sorrir com a preocupação dele. Meu garotinho.

- Não filho. Tudo bem mesmo. Acho que um tempo sozinho me fará bem. Eu só quero que você cuide
das coisas por aí. Sabe que pode me chamar se precisar de algo. Em menos de uma hora eu estou de
volta.

- Relaxa pai. Tudo certo por aqui. Vou chamar umas garotas e dar uma festa na sua sala. Nada
demais, um pouco de bebida e outras coisas ilícitas.

- Claro – eu disse rindo – chegue perto de qualquer coisa parecida e esqueça seu presente de
aniversário.

- E pai – ele disse serio, meio baixo, como se não quisesse realmente que eu ouvisse – eu te amo.

Deixei o telefone cair. Não pude responder. Eu amava John mais do que a mim mesmo. Eu
faria qualquer coisa por ele, para ele. Então porque eu simplesmente não disse isso?

Suspirei fundo e desci as escadas. Caminhei até o estabulo entrei na baia Chuvisco estava
lá, me encarando com os seus grandes olhos negros.

John havia escolhido o nome dele por causa das pintas. Ele era branco, todo manchado de
negro, quase como um dálmata. John me disse que ele parecia com o chuvisco do inverno, só que ao
contrário.

Quando minha Ginger morreu, tudo que eu pude guardar dela foi o Chuvisco. Ginger não
teve outros filhotes, Chuvisco era único.

Cheguei perto dele devagar. Mostrei a maçã em minha mão e me aproximei. Ele era um cara
arisco. Chuvisco e eu éramos parecidos de muitas maneiras.

- Hey garotão – eu disse alisando seu pelo macio, escorregando minha mão ao longo do seu dorso –
senti sua falta.

Chuvisco comeu a maçã em uma mordida. E cuspiu o que não queria, de volta em minha
camiseta. Limpei os restos de maçã mastigada de mim e ele relinchou.

- Rindo de mim, não é? – eu disse ajeitando a sela em suas costas – vamos ver como se comporta
quando eu estiver no comando – brinquei.

Terminei de arrumar a sela e saí com Chuvisco para o gramado. Assim que eu o montei,
Chuvisco correu. Deixei que ele me guiasse, mais longe, mais rápido, sentindo o vento bater contra o
meu rosto. Eu podia sentir pouco á pouco, minhas inquietações diminuírem, meu coração desapertar,
se acalmar.

Chuvisco parou á beira do rio. Eu desci e o puxei para que pudesse se refrescar. Sentei-me
ao lado dele. Observando o sol se pôr. Tantas coisas passavam em minha mente. Tantas lembranças.

Suspirei, lembrando o passado. Eu quase podia ver Lucian correndo de mim á beira do rio.
Eu quase podia ouvir a sua risada fácil. Ele me admirava tanto. Tudo que eu fazia, Lucian copiava.
Ele era muito, muito melhor do que eu. Era doce e gentil. Fechei os olhos, sentindo o calor dos
últimos raios do sol.

- Hey companheiro – eu disse para ninguém – sinto a sua falta, sabia? Não tem um único dia em que
eu não pense em você. Queria que estivesse aqui agora – suspirei, sentindo minha garganta fechar –
queria poder te pedir um conselho. Não sei o que faço, cara – eu confessei. Não esperava uma
resposta, ou pelo menos meu lado racional não esperava – tem tantas coisas que eu queria mudar.
O vento soprou forte contra o meu rosto, bagunçando o meu cabelo e espalhando folhas ao
redor de mim. Encarei a tela do celular. John me lembrava de Lucian. Era forte e gentil ao mesmo
tempo. Tão pronto á ajudar ás pessoas sem esperar nada em troca. Naturalmente bom.

Porque eu simplesmente não disse a ele que eu o amava? Porque eu simplesmente não
conseguia demonstrar o que sentia? Do que eu tinha tanto medo afinal?

Eu era melhor em dizer que o amava quando ele estava longe. Agora que ele estava aqui,
perto, ao meu alcance, eu hesitava.

Senti meu coração apertar – eu precisava melhorar. Precisa ser o pai que os meus filhos
mereciam ter. Eu precisava começar o meu processo de cura. Uma cura verdadeira, profunda. Eu
havia enterrado coisas demais sem que as tivesse deixado morrer primeiro. Elas eram como os
zumbis saídos dos filmes que o meu filho assistia, perseguindo-me por todos os lugares. Eu precisava
deixa-las morrer.

Levantei, montei Chuvisco novamente, mas eu estava no controle agora. Deixei-o em sua
baia e voltei para casa. Subi as escadas devagar. Entrei no quarto, tirei a roupa, suja da montaria.
Abri o chuveiro. Deixei que a agua quente levasse uma parte das minhas preocupações.

Vesti uma bermuda velha e uma camiseta. Sentei na cama. Acendi um cigarro. Eu podia
ouvir os grilos lá fora. Fechei os olhos, liberando minha mente, deixando-a calma, tranquila.

Peguei o celular e disquei.

- Filho – eu comecei antes que ele dissesse qualquer uma das gracinhas que sempre dizia – eu te amo
e prometo que ser o pai que você merece.

John não respondeu de imediato. Ficou respirando contra o telefone e eu esperando para
ouvir sua voz.

- Ah pai, para – ele me disse de repente – desse jeito eu vou acabar chorando!

Desliguei o telefone sorrindo. Era um riso profundo, feliz – eu tinha sorte! Eu tinha três
lindos filhos esperando pelo meu amor e tinha um grande amigo que merecia um voto de confiança.
Eu precisava encontrar um jeito de falar com Alexander sem que terminássemos nos engalfinhando
como dois garotos de rua. Eu precisava dele ao meu lado. Alex era parte da minha vida, eu não sabia
como seguir sem ele. Quanto a Laura. Laura era um problema maior. Eu precisava reaprender a amar,
mas eu precisava principalmente reaprender a deixar que me amassem.
Capítulo 25

Acordei cedo e me vesti. Quando saí do quarto, o cheiro de café fresco me golpeou o
estomago.

- Bom dia Sr. Persen – eu disse assim que o vi, arrumando alguns pãezinhos em uma cesta – o senhor
acordou cedo!

- Ah eu gosto de pegar a primeira fornada de pães, Laurinha – ele me disse – são feitos com mais
cuidado que os outros.

Ele encheu uma caneca com café e me ofereceu um pãozinho coberto de açúcar. Aceitei.

- Vou dar uma saída, Sr. Persen – eu disse mordendo o pãozinho – preciso saber se ainda tenho um
emprego.

- Volta para almoçar comigo? – ele perguntou sentando-se na outra cadeira e servindo-se de café.

- Hoje, vou deixa-lo sozinho – eu disse terminando meu café – mas prometo que vamos jantar juntos.
E podemos jogar uma partida de xadrez, se o senhor quiser, é claro.

Os olhos azuis do Sr. Persen acenderam-se como luzes e eu sorri.

- Oh isso seria maravilhoso, querida! Vou espera-la ansioso.

Cheguei ao escritório de Hans pouco mais de uma hora depois – seria uma conversa difícil.
Entrei direto, eu não queria falar com ninguém. Bati na porta.

- Hans? – perguntei – posso entrar.

- Claro Laura, entre.

Entrei com a cabeça baixa. Olhos no chão. Sentei na cadeira e deixei meus braços caírem
contra a mesa. Minha cabeça caiu contra os antebraços.

- Hans Adrian e eu terminamos – eu disse de uma vez. Não sabia outra maneira de começar a
conversa.

- Eu sei – ele me disse.

- Sabe? – perguntei sem entender.

Hans não respondeu. Abriu o jornal na coluna social – maldita coluna social.

Havia duas fotos separadas por uma espécie de raio. Elas ocupavam metade da folha. Em
uma delas eu aparecia abraçada á Alex numa pose muito, muito intima. Não era a realidade, mas para
quem olhava a foto, parecíamos realmente amantes. Na outra, uma loura alta entrava no carro de
Adrian. O titulo da matéria era: “Há algo de Podre no Reino da Holanda”.

Bufei, fechando o jornal – era uma coisa horrível para se dizer do fim do relacionamento
de alguém. Era cruel e leviano. E o que mais me incomodava era saber que quem publicou nem
mesmo sabia o que estava acontecendo. E ainda tinha aquela foto. Maldita foto horrorosa!

Então ele não tinha demorado muito para me substituir.

- Eu não fiz isso Hans – eu disse encarando-o – eu não trai Adrian ou coisa assim. Alexander e eu
somos apenas amigos.

- Sei que não – Hans me respondeu – eu sei que você o ama. O que eu não sei é como as coisas
acabaram assim.

- Adrian acha que Alexander e eu temos um caso. Uma bobagem que Alex disse o fez pensar isso, e
ele não nos deu a chance de explicar o contrario.

Hans levantou-se e me abraçou gentilmente. Eu retribuí no mesmo instante. Era bom me


sentir amada, ser compreendida sem ser censurada.

-Não se preocupe querida, as coisas se acertam. Elas sempre se acertam.

Eu não queria chorar. Estava determinada á não fazer a cena da mocinha desesperada, mas
não pude. Assim que deixei meu rosto cair contra o paletó de Hans eu desabei, colocando tudo para
fora. Eram coisas demais. Lembranças demais. Tristezas demais. Hans apenas me apoiou. Não
perguntou nem falou nada. Depois de um tempo, quando eu consegui parar e me desgrudar dele, Hans
encostou contra a mesa, em minha frente.

- Precisa de um lugar para ficar? – ele me disse – sabe que pode ficar comigo, sem problemas, até
encontrarmos um lugar para você.

Eu sabia. Hans nunca me abandonaria. Ele era assim, meu protetor gratuitamente, desde
sempre.

- Tudo bem por enquanto Hans. Eu estou com o pai do Persen. Estou no Jordaan mesmo que é um
lugar que eu amo – parei a frase e suspirei – acha que tudo bem se eu voltar a trabalhar aqui? Quer
dizer, se o escândalo não for grande demais.

Hans sorriu.

- Ah são coisas diferentes Laura. Isso não é exatamente um escândalo profissional, relacionamentos
começam e acabam todos os dias. Além disso, eu não deixaria minha garota na mão. De jeito
nenhum!

- Então, amanhã estou de volta Sr. Andersen. Acho que consigo terminar alguns casos que deixei
parados – eu disse determinada.
Hans tinha um almoço com clientes então eu o deixei e saí pela cidade. Era um dia de folga
e eu queria aproveitar. Queria comprar um par de sapatos novos e comer batata frita no cone com
muito molho – ou seja, eu queria trazer a velha Laura de volta.

Meu telefone tocou assim que saí do prédio. Olhei para a tela e sorri. Era John. Ele havia
colocado uma foto em que me abraçava por trás e beijava meu rosto como sua imagem de toque.
Atendi.

- Veja se não é o homem mais incrível do mundo todo me ligando á essa hora da manhã! – brinquei –
deve ser meu dia de sorte.

John riu alto contra o telefone.

- Tem razão, deve ser seu dia de sorte porque tem outro cara lindo aqui ao lado, querendo falar com
você.

Gelei na hora, sem conseguir dizer nada.

- Relaxa Laura, é só o Collin.

Sorri – eu estava morrendo de saudades de Collin!

- Laura! – ele gritou contra o telefone – eu estou com saudades. Quando você vem me ver?

- Ainda não sei querido – eu respondi um pouco triste demais – mas eu prometo que vou assim que
puder.

- Eu vou pedir ao papai para me levar para te ver. Eu quero que você veja o meu caminhão novo. Ele
é vermelho e tem uma luzinha que acende na frente – ele falava e falava e eu sentia o meu coração
encher de alegria – ele tem um controle que a gente pode apertar e aí ele anda sozinho!

Senti a primeira lágrima correr e a limpei com as costas das mãos.

- Agora chega pirralho – ouvi a voz de John próxima ao telefone – eu preciso falar com a Laura.
Coisa de adultos. Vai brincar na piscina com Hanna.

- Até logo Laura! – ele me disse – eu te amo.

- Também te amo amorzinho – eu respondi sentindo outra lagrima rolar.

- Se me disser que está chorando eu vou ficar deprimido – John brincou – é só o pirralho! Calma!
Você ainda o verá muitas vezes. Não se preocupe.

Sorri.

- John você tem o dom de me fazer sorrir! – eu disse á ele.

- Ah isso é ótimo. Dizem que se a gente consegue fazer uma garota sorrir, a gente consegue qualquer
coisa dela.

- Não deixa de ser verdade – eu respondi – diga vai, o que você quer de mim?

- Quero um endereço. Eu quero ver você hoje.

- Não estou em Roterdã John.

- Imagino que não, mas a Holanda não é tão grande assim, acho que consigo te encontrar para o
almoço.

Parei e analisei por um segundo.

- Ah vamos Laura! – ele insistiu – não tem nenhuma chance de eu me reportar ao velho Sr. Galagher,
juro!

- Ok John! Encontre-me na entrada nordeste do Vondelpark* - e completei – eu quero me entupir de


batata frita com molho tártaro!

- Parece um bom plano para mim! – ele disse e desligou.

Caminhei até a linha do Tram, entrei e me sentei. Segui para o parque apreciando a
paisagem da cidade – eu nunca me cansaria de Amsterdã.

Entrei no parque e me sentei na grama. Deitei de costas, com as pernas ainda dobradas,
olhos fechados sob a lente dos óculos escuros, sentindo o sol na minha pele. O parque era
absolutamente lindo na primavera. As flores estavam mostrando suas cores por toda parte. O lugar
estava cheio de pessoas e cães. Eles corriam felizes e latiam em busca das suas bolinhas e bastões.

John chegou sem fazer barulho e sentou-se ao meu lado.

- É um lindo dia no reino da Holanda, não acha? – abri meus olhos assim que ouvi a sua voz – eu
discordo que haja algo de podre por aqui – brincou.

- Você viu o jornal, devo supor.

- Eu e toda a Holanda, incluindo o Sr. Galagher, provavelmente.

- Eu odeio tabloides! – confessei e John riu.

*Vondelpark - É um parque de Amsterdã, nos Países Baixos, cujo nome é uma homenagem ao escritor Joost van den Vondel, que viveu
no século XVII.
- E olha que você ficou pouco mais de um mês na mira deles! Eu estou á quase dezoito anos.

Não respondi. Ele tinha razão. Eu estava reclamando de algo com o que ele havia convivido
a vida toda. John era um Galagher, ele não podia fugir disso. Estaria sempre em evidencia onde quer
que fosse.

As pessoas passam boa parte da vida buscando fama e reconhecimento público, mas não tem
ideia do que vem junto, nesse pacote. Não é uma coisa boa acordar pela manhã e abrir um jornal para
encontrar uma foto sua usada, de proposito, de maneira errada.

- Então – ele disse depois de um tempo – estou esperando nossa pequena avalanche de batatas fritas
e molho.

Ele se levantou e me deu a mão, puxando-me para ficar em pé. Passou a mão em volta do
meu ombro e seguimos até um dos quiosques de comida do parque.

Em frente ao quiosque, havia um deck e algumas mesinhas que se projetavam sobre um dos
lagos. Era um lugar agradável. Eu me sentei, enquanto John foi buscar o nosso almoço. Voltou com
dois cones gigantes de papel, cheios de batatas fritas engorduradas e cobertas de molho e dois
refrigerantes. Era uma coisa difícil de não amar. A combinação fritura + molho + batata era
simplesmente perfeita.

Comemos nossa batata e rimos de todas as pessoas e situações engraçadas que víamos,
sempre em português, para que ninguém nos entendesse. E eu quase engasguei com a minha batata
quando ele começou a comparar as pessoas com seus cães.

- Não quero que você vá embora – eu disse quando terminamos nossa refeição.

- Esse é o meu efeito sobre as mulheres – ele disse fazendo piada – todas querem John Galagher.

Bati em seu ombro de leve e ele me abraçou.

- Ah não se preocupe Laura, você não vai se livrar tão fácil de nós. Os pirralhos querem vê-la. Vou
conversar com o abominável homem das neves e convencê-lo a me deixar trazê-los até aqui.

Sorri – Não tinha nada que eu quisesse mais! Na verdade tinha, mas isso eu não poderia
ter.

Cheguei á casa do Sr. Persen no final da tarde. Eu havia trazido uma torta folhada de
morangos para nós dois – era um dos doces que eu mais amava. Entrei. Chamei por ele.

- Sr. Persen?

- Estou aqui fora, querida! – ele respondeu do quintal.

Coloquei a torta sobre a bancada da pia e abri a embalagem. Cortei dois pedaços e
entreguei um á ele. Sentei-me no degrau da porta da cozinha ao seu lado e dei a primeira garfada.
- Teve um bom dia? – ele me perguntou.

- Tive sim! Eu encontrei alguém que amo muito. Alguém de quem eu estava com saudades.

- Adrian? – ele me perguntou.

- O filho dele.

Sr. Persen sorriu.

- Filhos são uma dádiva Dalva. Eles são o que sobra de bom depois que o amor acaba. Eu não soube
da existência de Alexander por muito tempo. Quando ele veio para mim já era quase um homem.
Tentei recuperar o tempo perdido como pude, mas ele sempre soube que eu o amava. O que eu
realmente sinto é por não ter podido criar a minha filha. Porque você não a trouxe como prometeu,
Dalva?

Pensei por um tempo sem saber se deveria ou não corrigi-lo. Depois sorri. Não me
importava que ele me chamasse por qualquer nome, embora fosse engraçado que entre todos os
nomes do mundo, ele me chamasse assim.

- Eu acho que o senhor fez um ótimo trabalho, não se preocupe. Alexander o ama muito – completei
deixando a historia do nome para lá.

- Ele foi tudo o que restou para mim depois que vocês se foram Dalva – Sr. Persen insistiu.

Não resisti.

- Sr. persen, porque o senhor me chama de Dalva?

Ele me encarou por um tempo. Os olhos perdidos, tentando entender as coisas. Deu uma
garfada na torta.

- Você não é Dalva! – constatou – é Laura, a amiga de Alexander!

- Isso! – respondi

Ele sorriu, comendo mais um pedaço da torta.

- Posso perguntar mais uma coisa ao senhor? – perguntei.

- Claro querida!

- Quem é Dalva?

Sr. Persen deixou a torta sobre o colo. Encarou o canal por um tempo longo. Suspirou.

- Dalva era a mulher que eu amava. Estou esperando que ela traga minha filha para mim até hoje. Eu
as deixei no Brasil, muito tempo atrás.
A ultima coisa que ouvi foi o som do prato caindo das minhas mãos de encontro ao piso
cerâmico do degrau. Tudo ficou escuro e eu não me lembro de mais nada.

***

Pela primeira vez em muitos anos, eu consegui dormir mais de quatro horas seguidas.
Levantei-me, tomei uma ducha e me vesti. Desci as escadas e encontrei Brigith na cozinha. Sentei, me
servi de um pouco de café e alguns biscoitos.

- Bom dia Brigith – eu disse assim que ela me olhou – teve uma boa noite de sono?

Ela sorriu. Eu não era um homem de muitas palavras, pelo menos ultimamente.

- Sim! Dormi muito bem, Sr. Galagher. Tivemos uma noite muito agradável, o senhor não acha?

- De fato – eu disse dando mais uma golada no café e abrindo o jornal – sabe que pode me chamar de
Adrian, não é Brigith? Afinal, você me conhece á algum tempo – brinquei.

Ela não respondeu nada. Limitou-se á sorrir.

Meus olhos pararam na imagem no mesmo instante em que a viram. Ela estava lá, abraçada á
Alexander, sorria. Não era um sorriso feliz, era um dos sorrisos que ela dava quando queria
convencer as pessoas de que estava bem. A mão sobre o ombro dela era a mesma que ele havia
usado tantas vezes comigo. Era um tipo de abraço que dizia: “Não importa o quê, eu estou aqui”.
Não era romântico. Não era sexual. Era carinhoso e gentil, eu podia ver isso na foto, mas ninguém
mais podia. Ninguém o conhecia como eu. Não era justo com ele, nem era justo com ela. Esse mundo
sujo em que eu vivia não era para eles. Já a minha foto, essa era real. Era suja, mesquinha e real. Eu
realmente estava colocando uma mulher qualquer dentro do meu carro.

Suspirei – Eu era mesmo um grande monte de merda.

- Não o vejo fazendo uma coisa dessas – Brigith disse encarando o jornal – eu me lembro da
primeira vez em que o senhor o trouxe aqui. Ele é como um tipo de anjo ou coisa assim – ela disse e
sorriu.

- Um anjo que quase quebrou meu nariz – constatei arqueando a sobrancelha para ela.

- Adrian – ela me disse – sabe que eu o amo como se fosse meu filho, certo?

Assenti.

- Pois saiba que eu já quis lhe dar umas belas palmadas muitas vezes.

Sorri.
- Isso é algum tipo de complô do mundo contra mim? – brinquei – até você Brigith? Daqui á pouco
vão querer me colocar em um corredor polonês* para me castigar.

Brigith sorriu, entregando-me um pote cheio de biscoitos enfeitados com glacê.

- Para as minhas crianças – ela me disse.

Entrei em meu carro, como o pote de biscoitos ao meu lado. Eu estava preocupado com
aquela notícia. Eu não me importava com o que ela dizia, não fazia diferença, mas eu me preocupava
com o que Margarida pensaria quando visse a notícia. É claro que Collin estava aqui, estava ao meu
lado. Não seria fácil tirá-lo daqui á força, mas eu não queria isso. Nunca quis, desde o começo.
Cogitei ligar para ela, mas tive medo de que, se eu desse importância á noticia, ela assumisse ainda
mais ares de verdadeira.

Coloquei o celular sobre o console do carro e liguei o sistema de comunicação. Alexander


atendeu pouco antes de cair. Não disse nada, então eu comecei.

- Alex nós precisamos conversar – eu disse e esperei.

- Não creio que será possível – ele disse depois de um tempo.

- Ah cara, pelo amor de Deus! Até quando você vai me tratar como se não me conhecesse? -
desabafei irritado – você me conhece! Sabe como eu sou! E vamos combinar que não foi uma
situação fácil, Alexander!

Ele não dizia nada, então eu resolvi continuar, porque pelo menos ele iria me ouvir.

- Alex você sabe o quanto eu sou ciumento. E com Laura, Ah Alex! Você sabe o quanto eu – as
palavras morreram em minha boca, meio sem querer sair.

- O quanto você ama Laura? – ele disse finalmente – é claro que eu sei! E é exatamente porque eu te
conheço e porque eu sei que você deveria ter me escutado. Deveria ter me deixado explicar. Seu
babaca arrogante e estupido – ele xingou.

*Corredor Polonês - Ou corredor da morte é uma forma de castigo físico em que um indivíduo deve passar correndo entre duas fileiras
de pessoas que lhe executam agressões físicas.

Eu não me importava, se ele estava me xingando era porque havia parado de me tratar como
se eu fosse um desconhecido, e isso já era melhor do que nada.

- Tem outra coisa Alex – eu disse por que precisava dele ao meu lado nisso. Eu não conhecia
ninguém melhor do que ele – aquela noticia no jornal – não citei a noticia na esperança de que ele a
tivesse visto e me poupasse de explicar – se Margarida souber.

Parei a frase por ali. Eu não sabia o que fazer. Não sabia como agir e que passos eu deveria
seguir. Eu queria cuidar do meu filho. Eu já havia marcado um médico especialista em doenças
genéticas para avalia-lo. Eu não podia simplesmente perder Collin agora.

- Maldito folhetim! – Alex disse – me fez parecer uma merda de oportunista!

Ele ficou calado por um tempo e eu imaginei que estava pensando na própria situação.

- Não vamos permitir que Alissa use isso contra você – eu disse – eu prometi que vou dar Louise
para você, e eu vou.

Alexander ainda estava em silencio. Provavelmente analisando os fatos. Era o que ele fazia
– pensava. Enquanto eu agia como um imbecil impulsivo em mais de noventa por cento das vezes.

- Eu vou conversar com Laura. Vou ver o que ela acha Adrian. Vou propor que entremos em um tipo
de acordo. Uma fachada ou algo assim, até que sua situação em relação á Collin se resolva.

- Eu posso falar com ela – disse e em seguida me arrependi.

- Ela não quer ver você Adrian.

Engoli as palavras sentindo o peso que elas tinham – ela não queria me ver. Não queria
nem mesmo me ver. Eu tinha conseguido transformar uma coisa boa em uma merda completa – Era
minha especialidade.

- E você? – eu perguntei – pelo menos você vai conversar comigo? Vou vê-lo no escritório amanhã?
Sabe que eu não pretendo colocar ninguém no seu lugar, não sabe?

- É melhor você começar a pensar em alguém Adrian – ele me disse devagar – eu vou ajuda-lo com
Collin, mas não vou mais voltar a trabalhar para você.

Apertei minhas mãos contra o volante, sentindo a costura de couro em minha pele – Merda!
Merda! Merda! Ele queria me fazer implorar.

- Alex eu já disse que estava errado, ok? Já pedi perdão. Já disse que preciso de você. Não sei mais
o que fazer.

- Adrian – ele começou – não tem nada á ver com a sua maldita impulsividade. Minha vida está uma
merda completa, caso não tenha percebido – ele debochou – eu preciso de um tempo. Preciso de um
tempo de você e preciso de um tempo de Alissa. E eu não vou conseguir isso na Holanda.

- Como assim, na Holanda? – eu não sabia se queria uma resposta.

- Eu estou em Bruxelas – ele me disse confirmando minhas duvidas.

- O trabalho com a ONU – constatei sem querer.

- Sim.
Eu não poderia culpa-lo ou me entristecer porque ele estava seguindo seu destino. Isso era
parte importante de amar alguém. Quando se que ama alguém, se quer a pessoa feliz. Alexander não
era um homem de negócios. Ele era bom, como seria bom com qualquer coisa que decidisse fazer,
porque simplesmente ele era dedicado e inteligente, mas ele não gostava daquele mundo. Não era o
mundo dele. Ele tinha outras ambições. Queria salvar o mundo. Queria fazer a diferença.

- Bem, não posso dizer nada além de que a causa humanitária levou meu melhor advogado – brinquei
– espero que ela não tenha levado meu melhor amigo.

Alexander não respondeu. Ele estava realmente magoado. Eu havia desconfiado dele e isso
era algo eu não conseguiria mudar facilmente.

- Você volta para Roterdã? – perguntei.

- Sim. Eu vou ajuda-lo com Collin, conforme prometi. Depois eu volto para Bruxelas,
definitivamente.

Estacionei o carro e desci. Hanna e Collin, que estavam na piscina, saíram correndo até
mim. Ajoelhei no gramado e os abracei.

- Papai eu falei com Laura hoje! – Collin me disse com sua inocência infantil – ela disse que está
com saudades de mim!

Queria que ela dissesse algo parecido para mim também! – pensei, mas não disse nada.
Apenas sorri.

- Que bom filhote! – eu disse á ele.

- Papai o que aconteceu com o seu rosto? – Hanna me perguntou.

Sorri.

- Nada demais filha. O papai caiu, foi só isso.

- Ah coitadinho – ela disse beijando o curativo sobre o meu rosto – eu vou cuidar de você papai.

- Obrigada anjo, eu preciso muito dos seus cuidados. Vou vestir algo melhor e desço para que você
possa cuidar de mim, ok?

Hanna assentiu e eu me levantei. Antes que eu pudesse me afastar ela continuou.

- Acha que nós podemos chamar a Laura para vir aqui em casa? – Hanna me perguntou.

- Acho que Laura está um pouco ocupada, querida – eu disse tentando me esquivar das perguntas –
mas vamos pensar em alguma coisa. Quando o tio Alex voltar.

Foi o suficiente. Uma resposta. Uma possibilidade. Era o que eles queriam. Entrei em casa e
subi. Martina estava terminando de fazer a cama de John.
- Onde John está Martina? – eu perguntei e ela demorou a responder – ele foi ver Laura – conclui.

- O senhor sabe que John não me ouve – ela se justificou – eu disse que o senhor não iria concordar.

Sorri.

- Tudo bem Martina, John sabe o que faz – eu disse com a mão sobre seu ombro – além disso, não é
como se Laura fosse proibida aos moradores desta casa.

Segui para o meu quarto, diante do olhar curioso de Martina – eu devia ser mesmo um cara
terrível, porque quando tentava ser gentil, todo mundo me olhava com espanto.

Vesti uma sunga e um calção de banho por cima – eu não iria ficar desfilando de roupa de
banho na frente da babá. Conferi o hematoma em meu rosto. Amarelado nas bordas e ainda roxo no
centro, mas estava melhorando. O corte não sangrava mais. Eu quase podia respirar sem sentir dor
novamente – era um bom começo.

Passei pelo deck em silencio. Cumprimentei Lyla com um aceno de cabeça. Eu estava
acostumado a ser olhado, admirado, cobiçado, mas não era algo que eu queria agora. Eu queria me
sentar e curtir os meus filhos. Eu estava perdendo todo mundo que amava, ficando cada vez mais
sozinho, eu não queria ser desejado, eu precisava ser amado. E o olhar que a garota me lançou não
estava ajudando. Tentei ignorar, me amaldiçoando mentalmente por não ter colocado uma camiseta.

Sentei-me em uma espreguiçadeira, colocando os óculos escuros de volta em meu rosto.


Cruzei os braços sobre o peito, ouvindo os gritos histéricos das crianças na piscina. Não demorou
muito para que eu sentisse o peso de Hanna sobre minha barriga. Ele estava montada sobre mim,
perninhas estendidas de cada um dos lados do meu corpo, molhando-me todo. Abaixou a cabeça
perto do meu rosto, respingando água do cabelo sobre as lentes dos meus óculos.

Tirei os óculos e deixei sobre a mesinha. Sorri, encarando seus olhinhos cor amendoados.

- Papai você é tão lindo! – ela me disse.

- Sou mesmo? – eu perguntei sorrindo.

- Você parece um príncipe de contos de fadas! – ela completou – A Laura pode ser a sua princesa!

Suspirei – ela poderia, se eu não fosse tão imbecil!

- Mas você já é a minha princesa – eu disse fazendo cocegas nela – eu não preciso de outra! Além
disso, anjo, a Laura está chateada com o papai.

Hanna pensou por alguns segundos. Arrumou os cabelos, coçou o nariz.

- Mas pai – ela continuou – eu acho que você pode conversar com ela. Sabe, no filme da Bela e a
Fera a Bela também está com raiva da Fera, mas ela perdoa porque eles se amam. Pai, o amor vence
tudo – ela me disse eu sorri mais – é verdade! Está escrito no meu livro das princesas.
Talvez eu fosse mesmo parecido com a Fera. Arrogante e estupido para não revelar o medo
de ser rejeitado. Suspirei – Talvez, só talvez o livro das princesas não fosse tão bobo como eu
julgava!
Capítulo 26

Acordei sentindo minha cabeça latejar. Respirei devagar sem abrir os olhos e tentei levar á
mão á testa. Tentei, quando puxei o braço senti uma dor aguda nas costas da mão.

- Ai – reclamei.

Abri os olhos para encontrar um acesso venoso ali, mandando algo transparente para dentro
das minhas veias e um grampo, preso ao meu dedo indicador. Analisei o ambiente, meio zonza. Era
um quarto de hospital. Era um lugar bonito, claro, cheirando a éter, como todo hospital. A cama era
tão confortável como poderia ser uma maca hospitalar, mas não se parecia nem de longe com o
hospital publico que eu conhecia.

Minha cabeça ainda latejava forte. Ergui a mão livre e passei pela minha cabeça, buscando
o local da dor. Bem atrás, perto da nuca, havia um ponto de inchaço. Dolorido, muito dolorido.
Tentei refazer os últimos acontecimentos em minha mente – Meu pai! Deus do céu, meu pai! Eu não
havia confirmado nada com o Sr. Persen, mas dado o tamanho das coincidências, eu não conseguia
pensar em nada além daquilo.

Meu pai – o som das palavras ainda parecia estranho.

Se o Sr. Persen era meu pai, então significava que Alex – Oh meu deus! – Alexander era meu
irmão? Meu Deus, meu Deus, meu Deus!

Minha cabeça doía – muito. E eu nem conseguia entender se era pela queda ou pela
revelação.

Antes que eu pudesse tocar a campainha de emergência e chamar alguém, um homem entrou
de jaleco branco. Era um senhor de cabelos grisalhos. Um pouco mais velho que Adrian. Elegante e
com ar gentil. Ele carregava uma prancheta nas mãos.

- Oh vejo que acordou! – ele disse sorrindo – o que é ótimo porque precisamos conversar.

Sorri, mas era um sorriso de gentileza. Eu estava nervosa, odiava hospitais. Estava sozinha
e presa aquela cama. Eu podia sentir minha respiração ficando mais e mais difícil. Eu me lembrava
de tantas coisas ruins da ultima vez em que estive em uma cama como essa que fosse o que fosse eu
não queria conversar com aquele médico.

Ele se aproximou mais um pouco e checou a tela do monitor cardíaco. Parecia normal para
mim, mas nunca se sabe, eu já me preparava para que ele se sentasse ali e me dissesse que eu tinha
poucos dias de vida, ou poucos meses, na melhor das hipóteses, mas eu não podia nunca me preparar
para as palavras que vieram á seguir.

- Sou o Dr. Perkins – ele começou – é um prazer finalmente conhecê-la de fato.

Dr. Perkins sorriu mais uma vez e deixou a prancheta sobre a lateral da minha cama.
- Bem Laura – ele continuou – apesar de não ter tomado as vitaminas necessárias, eu quero deixa-la
tranquila quanto ao desenvolvimento do embrião, mas o desmaio indicou uma deficiência grande de
ferro, e isso é muito preocupante no inicio da gestação.

Eu simplesmente parei entre as palavras “embrião” e “gestação” não entendia nada além
delas. Todo o resto parecia árabe.

Pisquei algumas vezes sem conseguir responder. Levantei o olhar para a prancheta e
confirmei meu nome ali. Laura Soares.

Respirei algumas vezes, tentando fazer o teto parar de girar, mas ele se recusava. Dr.
Perkins colocou a mão espalmada sobre minha testa.

- Sente-se bem Laura? – ele me perguntou e eu lutei para não desmaiar novamente.

Respirei devagar. Olhos fechados. Concentrada.

- Estou bem doutor – eu respondi assim que me senti melhor – só não entendi o que o senhor me
disse.

- Oh meu Deus – ele disse sorrindo – você não sabia! – constatou – que péssima maneira de dar uma
noticia! Desculpe minha falta de tato, Laura, eu acabo de pegar o seu prontuário e como o seu marido
estava ansioso por vê-la, achei que já tivessem contato á vocês a novidade.

Meu marido? – pronto o teto rodava novamente.

A camareira entrou com uma bandeja nas mãos, interrompendo o Dr. Perkins.

- Muito bem. Tome seu chá, enquanto eu lhe explico tudo e tenho certeza que a sensação de desmaio
irá diminuir.

Eu me sentei, enquanto o doutor levantava mais a cama e esperei que a camareira arrumasse
a mesinha sobre meu colo. Eu estava com fome. Sentia meu estomago reclamar. Abri um pacotinho de
bolachas e dei uma dentada.

Dr. Perkins segurou minha mão do acesso e sorriu.

- Você está grávida, querida. Entre a quinta e a sexta semana de gestação, provavelmente.

Ele pegou a prancheta e me mostrou uma imagem de ultrassonografia. Era um círculo


pequeno, com uma manchinha dentro. Eu conhecia aquilo. Já tinha passado por tudo isso. O que eu
não conseguia compreender era como isso havia acontecido.

- Dr. Perkins – eu comecei – alguns anos atrás eu sofri um aborto. Na época, o medico que me
atendeu disse que eu não poderia mais engravidar. Eu não entendo.

Dr. Perkins sorriu.


- Bem Laura, eu sou médico á mais de quinze anos e posso lhe dizer, sem sombra de duvidas, que já
vi alguns milagres acontecendo.

Soltei o ar dos pulmões devagar, controlando a respiração e bebendo um gole de chá.

- E não se preocupe que está tudo perfeitamente dentro da normalidade com o seu bebê – Dr. Perkins
me tranquilizou – vê essa marca aqui – ele apontou uma linha esbranquiçada próxima ao circulo –
bem, isso é o que sobrou da cicatriz que você teve em consequência do aborto. Seu embrião
encontrou uma maneira de se fixar, não se preocupe. É claro que é muito cedo para que eu possa lhe
dar garantias, mas não vejo nada com que precisemos nos preocupar.

Ele pegou a prancheta de volta e começou a escrever e escrever nela.

- Bem, não tenho porque mantê-la aqui, mas vou lhe dar algumas recomendações e pedir que faça
repouso absoluto de pelo menos uma semana. Por causa da sua cabeça, e não do bebê – ele explicou
– e espero que comece a tomar suas vitaminas e a se alimentar muito bem. Vou passar um suplemento
de ferro, mas a alimentação ainda será sua melhor arma para vencer a anemia.

Ele arrumou alguns papéis sobre a mesinha ao lado da minha cama.

- Aqui está a sua alta – ele disse colocando uma ultima folha sobre a mesa – e agora acho que posso
chamar o Sr. Galagher – e completou – antes que eu precise interna-lo também de tanta ansiedade!

Pensei. Pensei. Pensei, encarando o relógio de parede á minha frente – Um bebê. Deus! Um
bebê – o sorriso nasceu meio sem querer – Um bebê.

E então o sorriso murchou rápido demais – Um bebê de Adrian Van Galagher.

As cláusulas do contrato passando como um filme em minha mente.

“Se tivermos um filho, é claro que a guarda será minha, mas isso é apenas uma formalidade,
Laura, já que não teremos um bebê” – as palavras de Adrian batendo contra mim como tapas.

Oh meu Deus ele vai tirar o meu bebê de mim! – pensei, sentindo o sangue gelar em minhas
veias.

Minha boca estava preparada para gritar que não! Que eu não queria que ele entrasse que eu
não queria que soubesse. Que eu não queria vê-lo – eu nem sabia o que ele estava fazendo ali! –
quando a porta se abriu e Adrian entrou.

Ele caminhou até a cama em silencio, olhar preocupado, cara de quem não tinha dormido
muito. Parou ao lado do Dr. Perkins e então eu surtei. Não pude mais controlar meus instintos
protetores – eu iria proteger o meu bebê!

- Saia daqui! – eu gritava – Saia! Saia! Você não tem o direito de estar aqui! Você não tem!

Gritei tão alto que assustei á todos, incluindo um enfermeiro que passava pelo corredor e
entrou correndo, esperando uma cena de luta ou coisa assim.

Era o que eu queria. Um escândalo. Adrian odiava escândalos, então eu esperava que fosse
embora logo, mas ele não foi.

- Laura! Laura! Ele gritava mais alto do que eu. Pare! Pare! Você não pode ficar assim, amor. Precisa
se acalmar!

Acalmar? Amor? – eu não queria me acalmar, queria que ele fosse embora. Que sumisse e
me deixasse sozinha com o meu bebê. Meu bebê! Meu bebê! Não dele!

- Vá embora Adrian! – eu chorava e gritava – Vai! Vai! – gesticulava. Eu queria ter certeza que o Dr.
Perkins não conseguiria contar a ele sobre o bebê.

- Laura! – Adrian gritou – pelo amor de Deus se acalme.

E o bip do meu monitor ficou mais e mais rápido e então eu não vi mais nada novamente.

Acordei sentindo alguém segurar minha mão e abri os olhos depressa – Alex.

Sorri, soltando ar dos pulmões de uma vez. Havia uma enfermeira mexendo no meu soro.

- Está mais calma, Srta. Soares? – ela me perguntou.

Encarei os olhos esverdeados de Alexander sorrindo para mim.

- Agora vou ficar bem! – eu disse apertando sua mão contra a minha – meu anjo da guarda está aqui.

A enfermeira sorriu e demorou mais tempo do que o necessário, analisando meu anjo, ali
sentado, em seu belo terno claro e camisa azul marinho.

- Isso é muito bom – ela respondeu ainda sorrindo – porque não podemos lhe dar um calmante.

Ficamos sozinhos, Alex e eu. Havia tanto á dizer. Tanto a contar. Eu nem sabia por onde
começar. Tracei meus dedos pelos dedos dele, sentindo seu toque macio, gentil, carinhoso. Brinquei
com meus dedos em sua mão sem dizer nada, até que ele disse.

- Minha irmãzinha.

Eu sorri.

- Parece brincadeira, não parece? Acho que precisamos de um teste de DNA – brinquei.

Alex sorriu, levando minha mão até sua boca e tocando os lábios ali, devagar.

- Não precisamos.

- Precisamos ter certeza Alex – continuei – talvez seja apenas uma coincidência. Existem muitas
Dalvas em São Paulo.
Alexander sorriu.

- Eu soube ontem, Laura. Estava esperando o momento certo para contar á você. Eu não queria
simplesmente te entregar uma folha de resultado de um exame. Parece que cheguei tarde.

- Quando você soube?

- Quando papai chamou você de Dalva – ele começou – Eu fiz uma pesquisa para Adrian, depois da
proposta de Margarida. Uma pesquisa sobre o seu passado. Ele queria ter certeza de que não teria
problemas em relação á sua família, ou coisa assim. Então, quando papai chamou você de Dalva,
imaginei que não era apenas uma coincidência e cruzei os pontos da historia toda. Então eu peguei
um fio de cabelo seu em meu banheiro e pedi o teste. Desculpe ter feito isso sem lhe dizer, mas eu
não queria que você tivesse uma falsa esperança.

Fiquei encarando Alexander por um segundo. Ele não se parecia em nada comigo. Tinha a
pele muito mais clara do que a minha, tinha uma boca rosada e angelical. Incríveis olhos
esverdeados. Sorri novamente.

- Parece que papai andou diversificando a coisa toda por aí.

Alex sorriu.

- Parece que sim.

- Isso será difícil de explicar.

- Um pouco, mas eu não me importo. Eu era um cara meio solitário até alguns dias atrás. Primeiro eu
tinha apenas minha mãe, depois da morte dela, eu só tinha papai – Alexander tocou minha barriga
com a sua mão. Quente e gentil, por cima da camisola do hospital. Acariciou toda a região
calmamente, em silencio – parece que agora eu ganhei uma família de verdade.

Eu o puxei para perto, abraçando-o apertado, descansando meu rosto em seu peito. Era
engraçado como agora tudo fazia sentido. Eu havia amado Alexander desde o inicio. Desde o
primeiro encontro as coisas eram tão fáceis entre nós. Eu sempre pensei que parecíamos nos
conhecer de outras vidas. Acho que não eram outras vidas afinal.

Alex era meu irmão! – eu mal podia crer.

Era um momento feliz. Daqueles em que eu começava a ter medo de que algo acabaria mal.
Eu não era boa com momentos felizes, eles sempre terminavam da maneira errada! Suspirei – eu não
conseguia esquecer a ameaça iminente.

- Ele vai querer tirar o meu bebê de mim, Alex – choraminguei – não é justo.

Alexander sorriu, beijando minha testa.

- Ele não vai. Acredite, eu sei que não vai – ele disse cobrindo minha mão com a sua – mas, caso ele
tente, nós não vamos permitir. Você confia em mim? – ele me perguntou.

Sorri – eu não confiava em ninguém mais do que confiava em Alexander Persen, meu irmão.

Eu tinha a sensação de que estava com cara de boba, sorrindo feito uma idiota, mas eu não
conseguia parar. Irmão, pai, bebê – era coisa demais para um dia só.

***

Eu não queria deixa-la. Não podia se quer pensar nisso. Eu havia ficado ali, com ela o
tempo todo, Sr. Persen e eu. Esperando uma notícia, temendo pelo pior.

Eu sentia meu coração martelar tão forte que pensei que quem não aguentaria seria eu. Então
eu saí para pegar um café.

Quando o Sr. persen me ligou eu simplesmente entrei em modo automático. Vesti um jeans e
entrei no carro. Não conseguia pensar. Não conseguia processar nada. Tudo que vinha á minha mente
era Patrícia. O hospital, as crises, as sessões de tratamento, os desmaios, as quedas – não era
possível! Tinha que ser uma piada de mau gosto do destino! – eu não podia crer que passaria por
tudo isso novamente.

Tudo que o Sr. Persen conseguiu me dizer foi que estavam conversando e ela simplesmente
desmaiou. Desmaiou e bateu a cabeça contra o piso.

Laura estava desacordada quando eu cheguei. Peguei a nos braços o mais rápido que pude e
acomodei-a no banco de trás, com o Sr. Persen segurando sua cabeça.

- Sr. persen, pode ser que ela convulsione – eu avisei – se isso acontecer o senhor Precisa me avisar.

Eu tinha experiência demais com tudo isso. Eu sabia o que fazer. Eu tinha feito tantas vezes.
Eu tinha segurado o rosto de Patrícia tantas vezes para que ela não se afogasse. Tinha limpado, tinha
cuidado, tinha protegido e mesmo assim ela não estava mais aqui.

Deus não permita que Laura esteja doente. Não tire minha Laura de mim!

Eu não era um homem religioso. Não me lembro de ter ido á uma igreja depois do meu
casamento, mas eu não conseguia pensar em mais nada além de rezar agora. Eu rezava e rezava e
esperava profundamente que Deus ouvisse o meu desespero.

Chegamos ao hospital no menor espaço de tempo possível. Eu abri a porta e peguei Laura
nos braços. Entrei correndo com ela, passando por todas as portas, chamando por um médico
desesperadamente.

Eu não sou um homem de escândalos. Eu os evito ao máximo, mas eu não conseguia me


controlar. Eu queria chorar e queria gritar. Eu queria acordar do pesadelo, mas eu não conseguia.

Coloquei-a sobre a maca e deixei que a levassem pelo corredor da emergência, afastando
Laura de mim.

Escorei-me perto da porta. Mão sobre a testa. Olhos fechados. Respirei devagar.

- Tenha calma Adrian – Sr. Persen me disse – não deve ser nada sério. Ele chegou bem. Talvez seja
apenas uma queda de pressão. Laura come como um passarinho! Provavelmente é uma fraqueza de
mulher, nada demais.

Podia ser. Podia ser apenas uma indisposição, ela já estava indisposta dias atrás. Podia ser
uma virose forte, mas podia ser um tumor. Podia ser câncer. Podia ser um acidente vascular cerebral.
Podia ser tanta coisa e minha mente não processava nada de bom. Eu não estava calmo e não ficaria
calmo até que Laura tivesse á salvo, ao meu lado.

Sentei no banco de metal do corredor. Eu estava desesperado, não sabia mais o que fazer,
nem a quem recorrer. Abri o telefone.

- Alex – eu chamei antes que ele pudesse dizer qualquer coisa – eu sei que você me odeia e que não
pretende me perdoar, mas eu preciso de você aqui.

Meu desespero deveria estar saltando ás palavras, porque Alexander não discutiu. Não
questionou.

- Onde você está? – ele me perguntou.

- Estou no hospital. Com Laura.

- Chego aí o mais rápido que puder. Já estou pegando as chaves.

Eu não conseguia esperar. Eu precisava de noticias. Precisava saber dela. Levantei e fui até
o posto de enfermagem.

- Eu preciso saber como minha esposa está – eu disse mais autoritário do que gostaria.

- O medico conversará com o senhor assim que a trouxerem da tomográfica – a enfermeira me disse
mal humorada – o senhor precisa esperar.

- Tomografia? Porque tomografia? Ela não caiu nem da própria altura! Ela estava sentada! Apenas
bateu a cabeça! – eu gesticulava tentando explicar mais á mim mesmo do que á ela – Porque ela
precisa de uma tomografia?

- Senhor – ela repetiu deixando-me mais irritado – não tenho informações sobre a paciente. Tudo que
posso dizer é que o doutor á está examinando. Quando tivermos noticias o senhor será avisado.

Voltei para o banco, Sr. Persen não estava. Havia ido buscar um café. Ela estava fazendo
uma tomografia. Tomografia. Por quê? Só podia ter algo errado com a cabeça dela! Só podia!
Senti a mão sobre meu ombro e soube na hora de quem era. Eu nem podia imaginar como
precisava dele aqui, até ele chegar. Meu coração se acalmou no momento exato em que eu encontrei
os olhos de Alexander. Soltei o ar dos pulmões que eu nem sabia que estava segurando.

- O que houve? – ele me perguntou serio.

- Ela caiu. Estava conversando com seu pai em casa e simplesmente desmaiou. Seu pai tentou falar
com você, mas como seu celular não estava com área, ele me ligou – Alexander sentou-se no banco
de metal ao meu lado e eu deixei minha cabeça cair contra minhas mãos – Alex eu sei que sou um
imbecil filho da puta, mas eu não posso perdê-la. Eu realmente não posso. Eu preciso dela. Eu faço
qualquer coisa, Alex, qualquer coisa.

- Comece se acalmando – Alexander disse ainda sério – antes que precisemos interna-lo também.

Respirei fundo. Eu havia perdido tudo que mais amava por ser impulsivo demais. Alexander
estava certo, eu precisava me acalmar. Precisaria estar centrado quando Laura pudesse me ver. Eu
precisava conversar com ela, dizer o quanto lamentava.

Alexander sentou-se ao meu lado e me entregou uma pasta de plástico com alguns papéis
dentro.

Encarei a pasta em minha mão sem entender.

- Uma prova – ele disse – material e circunstancial de que Laura e eu não temos, nem teremos, um
caso.

- Alex eu não disse que precisava de uma prova. Eu queria apenas conversar com você – eu respondi
sem olhar os documentos.

- Quando eu quis lhe explicar você me chamou de traidor e disse que não se misturar com traidores.
Expulsou-me da empresa que eu o ajudei a construir e foi bruto e estupido com a minha irmã, na
minha frente. Sei que muitas vezes você me magoou Adrian, e eu o perdoei, mas duvidar da minha
lealdade é algo que eu não posso esquecer. Talvez eu consiga seguir em frente e espero que
possamos ter uma convivência respeitosa, mas não espere mais minha amizade.

Eu ouvi cada uma das palavras dele. Eu processei todas que eu pude, magoado, ferido, mas
merecendo cada uma delas. O que eu não conseguia entender era de onde vinha essa irmã! De que
maldita irmã Alexander falava?

Abri a pasta e folheei os documentos devagar. Havia documentos de Laura. Coisas que eu
mesmo o havia mandado pesquisar. E no final de tudo, havia uma folha de exame. Era um exame de
paternidade. Os requerentes eram Alexander De Corninck Persen e Laura Soares.

Meus olhos passaram e repassaram o resultado muitas vezes, sem que pudessem
compreender.

- Laura e eu somos irmãos por parte de pai – Alexander disse por fim – é isso que o exame prova.
- O pai dela – eu disse refazendo o caminho da historia em minha mente – é o seu pai?

- Exato.

- Então a tal garota que o deixou – continuei e Alexander me interrompeu.

- Dalva – ele disse – era sim, a mãe de Laura.

- Oh Deus! – eu disse alisando meu cabelo para trás.

Sorri.

- É sério mesmo? – confirmei ainda rindo.

Alexander tentou permanecer sério, mas foi traído pelo próprio sorriso, sufocado em um
limpar de garganta.

- Ao que parece.

Eu não sabia o que dizer. Eu queria abraça-lo e dizer que isso era incrível e eu adoraria que
ele fosse, de fato, parte da família que eu pretendia construir, mas esse não era o momento. Eu
precisava primeiro desfazer as merdas do passado. Precisava que Alexander voltasse a confiar em
mim, que voltasse a ser o meu melhor amigo, então eu me calei.

Antes que pudéssemos dizer qualquer coisa á mais, uma enfermeira apareceu no corredor.

- Quem é da família da Srta. Soares? – ela perguntou.

- Nós somos – eu respondi antes que Alex tivesse tempo de dizer qualquer coisa – Sou o marido dela
e Alexander o irmão.

- Bem, o Dr. Perkins mandou chamar o senhor – ela disse olhando para mim – A paciente já está no
quarto e o doutor irá explicar-lhes tudo o que devem fazer daqui para frente – ela dirigiu-se para
Alexander em seguida – o senhor pode esperar até que o Sr. Galagher retorne e então pode vê-la
também.

Alexander sorriu para a enfermeira e se dirigiu á mim.

- Tudo bem. Vou encontrar papai e espero até que você volte – ele me disse serio – Não faça
nenhuma bobagem.

Caminhei pelo corredor ao lado da enfermeira. Nervoso, estralando um a um, todos os meus
dedos. Paramos em frente á uma porta. Ela estava entreaberta.

- O senhor pode entrar, se quiser, Sr. Galagher. O Dr. Perkins está com sua esposa.

Respirei fundo e abri a porta devagar. Laura estava lá. Meus olhos foram para os dela no
mesmo instante. Soltei o ar dos pulmões de uma vez, sentindo o peso do desespero diminuir – ela
estava bem. Estava falando e sorrindo, então ela estava bem. Pelo menos por agora.

Eu quis dizer que sentia a falta dela. Que estava arrependido e que nada me faria mais feliz
do que ter ela em minha vida novamente. Eu estava preparado para implorar e ouvir todas as
condições que ela pudesse impor, mas eu não estava preparado para o que aconteceu – Laura me
olhou e gritou. Gritou alto e forte.

- Saia daqui! – ela gritava – Saia! Saia! Você não tem o direito de estar aqui! Você não tem!

Eu não soube como reagir. Tentei me aproximar, mas quanto mais perto eu tentava chegar,
mais alto ela gritava. Eu não queria isso. Eu não queria uma briga. Eu queria dizer que não podia
viver sem ela. Queria dizer que não importava o quê, eu faria por ela. Ela não me deixou nem ao
menos tocar em sua perna.

- Laura! Laura! – Tentei gritar mais alto que ela – Pare! Pare! Você não pode ficar assim, amor.
Precisa se acalmar!

Ela me encarava como se visse outra pessoa em meu lugar. Um monstro. Ou talvez ela só
estivesse certa. Baixei a cabeça e tentei me controlar. Eu não queria desistir.

- Vá embora Adrian! – ela chorava e gritava – Vai! Vai! – gesticulava.

- Laura! – Adrian gritou – pelo amor de Deus se acalme.

Eu não sabia o que fazer e a julgar pela cara do médico, nem ele. Eu não conseguia entender
o que havia causado aquela reação em Laura. Eu sabia que ela estava magoada comigo e que não me
queria mais, mas Laura não era uma louca irracional.

Não tive tempo de entender nada. Laura desmaiou e eu corri para seu lado na cama. Ela
estava lá, inerte. Olhos cerrados, mãos largadas ao lado do corpo. Eu podia sentir uma avalanche de
sentimentos sendo revirados dentro de mim. Segurei sua mão com cuidado, sentindo meu peito
apertar, minha respiração ficar difícil.

- Não se preocupe, Sr. Galagher – Dr. Perkins me disse – isso é perfeitamente normal no estado de
Laura. Ela ficou abalada com a noticia. Dê um tempo á ela e ela entenderá tudo melhor.

Eu não conseguia encarar o medico. Uma parte de mim não queria saber o que Laura tinha e
essa parte estava no controle agora.

Beijei sua testa suavemente.

- Amor, eu vou cuidar de você – eu disse próximo ao seu ouvido – não se preocupe com nada. Nós
vamos vencer o que quer que seja e eu vou me redimir. Eu juro.

Por um momento, eu nem lembrava que o medico ainda estava ali. Eu só conseguia pensar
em Laura. Minha Laura ali, deitada naquela cama. E tudo que eu possuía não era suficiente para tirá-
la dali. Minha menina valente.
- Porque não me espera lá fora, Sr. Galagher? – o médico me disse – vou cuidar dela e já saio para
conversar com o senhor.

Concordei com um aceno de cabeça e saí, fechando a porta atrás de mim.

- O que houve? – Alexander me perguntou nervoso – eu estava voltando com papai quando ouvi os
gritos dela ecoando pelo corredor.

Suspirei.

- Ela simplesmente surtou quando me viu. Não me deixou nem falar – fiz uma pausa e deixei o ar sair
dos pulmões devagar – acho que desta vez eu estraguei tudo mesmo, Alex.

Alexander me encarou por alguns segundos, lutando contra os próprios sentimentos e então
colocou mão sobre meu ombro.

- Se você quiser mesmo ela de volta – ele disse sincero – terá que aprender a ter paciência. Ir
devagar. Esperar o tempo dela. Faça isso e as coisas poderão ser resolvidas – ele esboçou um
pequeno sorriso – Agora me dê licença que eu preciso ver a minha irmãzinha.

Alexander entrou e o Dr. Perkins saiu.

- Venha Sr. Galagher, vamos até minha sala e conversaremos.

Minha respiração estava inconstante, difícil. Eu podia sentir o suor se formando nas palmas
das minhas mãos, minha glote se fechando – eu não queria saber. Eu não estava preparado para
enfrentar tudo de novo, para ver minha Laura sofrer. Respirei fundo – eu precisava. Eu precisava ser
forte. Precisava apoia-la. Precisava cuidar dela.

Entrei na sala do médico e sentei-me na cadeira do outro lado da mesa. Dr. Perkins sentou-
se e cruzou as mãos sobre a mesa. Antes que ele dissesse qualquer coisa eu comecei a falar. Eu
precisava.

- Doutor, não importa o que seja, eu quero que o senhor saiba que vou dispor de qualquer recurso por
ela. Se existe algum tratamento especifico. Algum tratamento novo fora da Holanda, basta que o
senhor me diga o que fazer e eu faço.

Dr. Perkins esperou que eu falasse, serio, olhos focados em mim. Quando eu terminei ele
sorriu.

- Não se preocupe Sr. Galagher, o que Laura tem se curará em pouco mais de trinta semanas, não há
com quem se preocupar.

Estreitei os olhos sem entender – que maldita doença era essa que tinha prazo de
validade?

- Laura está grávida – ele disse por fim, como se fosse algo perfeitamente normal – parabéns, o
senhor será pai novamente.

Congelei por um segundo, encarando o detalhe de gesso no teto. Pisquei. Pisquei. Forçando
minha visão a permanecer clara, mas não obtive sucesso, o verde claro foi ficando turvo, mais turvo,
enquanto a voz do Dr. Perkins se distanciava.

- Adrian? – ele falava – Adrian?

Suas mãos estavam em minha nuca, forçando minha cabeça para baixo.

- Tente levantar a cabeça – ele dizia – vamos! Force para cima enquanto eu forço para baixo, assim
você não vai desmaiar.

Devagar, o sangue foi fluindo melhor, minha respiração se tornando ritmada novamente. A
sala voltou a ter a cor clara de sempre. Suspirei.

- O senhor me disse que – comecei meio sem acreditar – Laura vai ter um bebê?

- Exatamente, Sr. Galagher. Laura não está doente. Está gravida. Ela desmaiou por causa da gravidez.
Talvez alguma emoção forte tenha desencadeado o desmaio, como aconteceu agora á pouco. Ela tem
uma deficiência de ferro bem seria, que precisa ser observada de perto, mas não vejo outro problema
qualquer.

Ele falava e falava e falava e eu havia parado em “bebê”. Um bebê. Outro bebê. Outro
filho. Eu teria outro filho. Deus do céu eu teria outro filho! Com Laura. Minha Laura.

Sorri como um idiota, sem conseguir encarar o Dr. Perkins.

De tudo que Laura podia sonhar. De tudo que ela podia querer, eu havia dado á ela o
impossível.

Lembrei-me do dia em que corri atrás dela e a encontrei mirando o mar. Lembrei-me de
apertá-la contra os meus braços e perguntar se ela queria um bebê. Lembrei-me da tristeza em seus
olhos por não poder conceber um filho. E lembrei-me principalmente do sentimento estranho que
surgiu dentro de mim. Um sentimento forte e quase irreconhecível de querer dar isso á ela. Eu quis,
desde aquele momento, que Laura concebesse um filho meu.

Sorri novamente, incapaz de manter minha boca reta – Deus, eu havia conseguido!

Respirei fundo e tomei uma decisão. Se eu não estava disposto a abrir mão de Laura antes,
agora eu definitivamente não faria isso. Eu estava acostumado a correr atrás do que eu queria. A ter
meus desejos saciados, mas agora, era mais do que isso. Eu queria mais do que ter Laura para mim.
Eu queria ser dela. Queria entregar á ela o meu coração e solidificar a nossa família. Nossa família,
porque agora nós já não éramos mais um casal, éramos uma família.
Epílogo

Alexander e eu descemos do carro em frente á casa do Sr. Persen. Encarei a porta e tentando
controlar as emoções que surgiam em mim. Não era fácil encarar essa parte da minha vida. Eu havia
passado tempo demais á procura dele. Havia sofrido demais, esperado demais, desejado demais,
para saber que o homem por quem eu cruzei metade do mundo, estava ali, no final da rua.

Quando eu era criança, me lembro de fantasiar e sonhar que meu pai viria me buscar.
Depois que vovó me contou a verdade sobre minha mãe e ele, eu cheguei a pensar que um dia meus
sonhos pudessem se tornar realidade, mas nada aconteceu por tempo demais.

Houve um tempo em que pensei que ele estivesse morto ou doente demais para procurar por
mim e então eu decidi procurar por ele. Depois de toda a minha procura e de encontrar Hans, eu
decidi que ele era uma pagina virada na minha vida. Que se ele não se importava, eu não me
importaria mais.

Agora eu estava ali, parada em frente a soleira da porta da casa do meu pai, sem saber se
queria ou não entrar.

Alexander passou o braço pelos meus ombros como se compreendesse. Abriu a porta
devagar.

Sr. Persen estava ali, sentado em sua poltrona. Levantou-se assim que nos viu. Ele segurava
movia as mãos uma na outra nervosamente. Eu podia ver que queria sorrir, mas ele não sabia como.
Era um encontro estranho, cheio de sentimentos bons e ruins.

- Laura – ele disse simplesmente e parou.

Respirei fundo primeiro, sem conseguir dizer nada. A palavra “Pai” não parecia caber ali.

- Como se sente? – Sr. Persen continuou.

- Estou bem – eu disse dando mais alguns passos para dentro – minha cabeça ainda dói um pouco,
mas ficarei bem.

Eu podia sentir a ansiedade do Sr. Persen como uma nuvem espessa entre nós, misturando-se
com a minha. Ele não tentou me abraçar. Era um velho homem holandês e eu sabia como eles eram.
Eu não me aproximei mais também. Ficamos nos olhando, encarando os olhos um do outro, como se
pudéssemos compreender o que se passava dentro de cada um.

Alexander permanecer ali, parado ao meu lado, sendo minha fortaleza.

- Venha para o quarto, querida! – Sr. Persen disse depois de um tempo que pareceu longo demais –
você precisa descansar.

Ele estendeu a mão e eu a segurei. Eu precisava mesmo descansar e eu não podia


simplesmente esquecer o quanto o Sr. Persen havia sido gentil comigo, mesmo sem saber quem eu
era.

Entramos no quarto que eu ocupava na casa do Sr. Persen. Ele estava todo limpo e com
cheiro de lavanda. Alexander puxou as cobertas e eu me ajeitei na cama, meio sentada, apoiada nas
almofadas.

- Vou deixa-la descansar – Sr. Persen me disse com o olhar triste – se precisar de algo basta chamar.

Ele fechou a porta e Alexander sentou-se ao meu lado na cama.

- Dê um tempo e as coisas se ajeitam – ele me disse e eu sorri – todas elas – concluiu dando um
tapinha sobre as costas da minha mão.

Fiquei encarando o canal pela janela do quarto. Era estranho como eu me sentia mais á
vontade na casa do Sr. Persen quando não tínhamos nenhuma ligação sanguínea. Agora parecia
estranho e eu me sentia meio intrusa. Alisei os pelos macios de Mia que já havia pulado sobre o meu
colo.

- Vou até a farmácia e resolver algumas coisas que preciso e volto o mais rápido que puder –
Alexander me disse depois de alguns minutos – acha que fica bem sozinha com o velho lobo do mar?
– brincou.

Sorri e assenti.

- Acho que fico sim.

Alexander beijou minha testa e saiu. Fiquei um tempo na mesma posição, apreciando o vai e
vem das aguas lá fora, vendo o movimento das casas barco. Depois de algum tempo, acabei
adormecendo.

Não sei por quanto tempo dormi, mas acordei com uma leve batida na porta.

- Laura, querida. Está acordada? Posso entrar? – Sr. Persen chamou da porta.

- Claro. Pode entrar sim.

Sr. Persen passou pela porta com uma bandeja nas mãos. Eu podia sentir o cheiro de torta de
maçã se espalhando pelo ambiente. Ele tinha uma caixa branca de madeira, debaixo da bandeja.
Deixou a caixa aos meus pés, montou a bandeja sobre meu colo e destampou a xícara, misturando o
aroma do caramelo da torta com o aroma de ervas do chá. Era delicioso e confortável.

Uma garoa fina começou a cair lá fora, agitando as aguas do canal. Sr. Persen fecheou o
vidro da janela e voltou a sentou-se e puxou a poltrona para mais perto da cama. Esperou que eu
comesse a torta com paciência. Seus olhos eram gentis e cheios de carinho nos meus.

Coloquei o ultimo pedaço de torta na boca, pensando que com ele, acabaria nosso silencio.
Nós dois tínhamos muito que conversar e eu não poderia mais postergar isso.

Quando terminei, de mastigar e dei a ultima golada no chá, Sr. Persen retirou a bandeja e
pegou a caixa de madeira. Colocou sobre o meu colo e a abriu. Dentro, havia varias coisas. Pedaços
de papel com bilhetes, velhas fotografias.

- Eu conheci a mãe de Alexander em uma festa. Ela era uma jovem doce e gentil. Alexander tem
muito dela nele. A mesma doçura, o mesmo carisma. Eu me apaixonei imediatamente.

Os olhos dele não estavam mais nos meus, estavam perdidos em algum ponto do passado
que ele não podia mais encontrar.

- Eu pensava em me casar com ela. Poucas semanas, e eu já pensava em me casar com ela. Eu sabia
que Seléne era belga, mas não sabia que ela pretendia voltar á Bélgica tão cedo. Acordei em uma
manhã sem ela na cama. Havia um pedaço de papel na escrivaninha.

Ele pegou a carta, escrita em francês e me entregou. Eu não á li, não era necessário de
qualquer maneira. O que ele queria era dividir comigo uma parte do passado.

- Nunca mais soube dela. Não sabia onde procurar. Cheguei á ir á Bruxelas e tentar saber algo sobre
seu paradeiro, mas não a encontrei.

Ele respirava profundamente, como se as lembranças ainda o magoassem.

- Eu nunca soube de Alexander. Nunca soube que tinha um filho, até que ele bateu em minha porta. Já
era quase um homem e havia pouco que eu pudesse fazer para recuperar esse tempo. Tudo que eu
tenho é essa fotografia.

Ele me entregou uma fotografia envelhecida, em preto e branco. Havia uma moça bonita de
cabelos lisos e escuros com um bebê nos braços. Na parte de trás havia o nome de Alexander e uma
data.

- Ele me deu essa fotografia e esta outra carta quando chegou aqui com uma pequena mala nas mãos.

Entreguei a fotografia ao Sr. Persen e continuei ouvindo a história.

- Seléne não tinha família. Quando descobriu o câncer já estava em um estado avançado e então ela
preparou Alexander para vir ao meu encontro. Ele bateu em minha porta pouco mais de uma semana
depois do funeral da mãe.

- Sinto muito – eu disse sinceramente.

- Eu conheci sua mãe pouco mais de um ano antes de Alexander chegar aqui. Eu havia decidido
passar as férias no Brasil e depois de Seléne, achei que enfim havia encontrado o amor da minha
vida.

Respirei fundo, sentindo o pesar do Sr. persen.


- eu fiquei com sua mãe no Brasil por quase seis meses. Depois desse tempo, precisava voltar para a
Holanda para ajeitar tudo e esperar que ela viesse comigo para cá. Poucos dias antes de eu viajar,
ela me contou que esperava você. Eu não era mais um menino e ser pai era um grande sonho para
mim. Voltei para casa feliz e ansioso por sua chegada. Eu contava os dias para que pudéssemos
enfim ser uma família. Sei que nada justifica o fato de eu não ter ido encontra-la, mas quero que veja
uma coisa.

Ele pegou outra carta e entregou em minha mão. Eu reconheci a caligrafia na hora – era uma
carta da minha mãe.

Corri os olhos pelos parágrafos sentindo minha cabeça latejar mais e mais a cada linha.

Na carta, ela dizia basicamente que havia perdido o bebê e que precisava de mais dinheiro
para o hospital.

- Cinco anos depois dessa carta, eu recebi outra.

Ele me entregou mais uma carta. Dentro dela havia uma fotografia minha. Encarei a
garotinha na foto. Cabelos compridos presos em dois rabinhos, vestidinho de bolinha, sentada no
meio fio, em frente á casa da minha avó. Naquela época, eu não fazia ideia de que em algum lugar do
mundo, meu pai me veria.

Na carta da fotografia, minha mãe dizia que havia mentido por medo de um namorado
abusivo. Ela pedia socorro e dizia que queria ir embora para a Holanda.

- Eu juntei todas as minhas economias e mandei para sua mãe. Eu esperava que ela viesse em
algumas semanas, mas ela nunca veio. Tentei encontra-la de todas as maneiras possíveis, cheguei á ir
ao Brasil, mas não encontrei nenhuma pista de vocês duas.

Eu lembrava que foi mais ou menos quando eu tinha cinco anos que nos mudamos para a
casa da vovó, Sr. Persen não poderia ter nos encontrado, ele nem fazia ideia de onde vovó morava.

Respirei fundo, deixando os pensamentos se ordenarem em minha mente. Ele não havia me
abandonado. Ele passou cinco anos pensando que eu não havia nascido e outros vinte e um sem saber
o que havia acontecido comigo. Era triste. Era muito triste.

Sr. Persen tocou sua mão sobre a minha.

- Sei que não posso pedir á você que me veja como pai. Faz tanto tempo – ele disse mirando a janela
– eu nem sei nada sobre você.

Eu não sabia o que dizer. Eu sentia coisas estranhas e sentimentos desconhecidos. Eu tinha
um carinho grande pelo Sr. Persen, mas era realmente difícil que a palavras “pai” saísse da minha
boca. Eu não queria dizer que não, mas eu não podia dizer que sim.

- Só tenho um pedido á lhe fazer, minha filha – Sr. Persen disse com minha mão entre as suas – me dê
uma chance de ser o pai que você merece. Eu prometo que vou fazer o meu melhor.
Sorri, e beijei seu rosto suavemente.

Eu não precisava ter pressa. Nós tínhamos a vida toda para encontrarmos o que minha mãe
havia nos roubado. Aconcheguei nas almofadas e encarei a chuva fina pela janela, não havia nenhum
outro lugar para que eu quisesse ir naquela hora. Aquele era, enfim, meu lugar no mundo. Eu havia
passado quase cinco anos no lugar certo sem saber que a felicidade estava ali, tão perto.

***

Depois que saí do hospital, eu precisava de um tempo para pensar. Precisava organizar
meus pensamentos, acalmar meu coração, minha mente. Eu precisava de Laura. Minha Laura. Tudo
que eu queria era estar sentado ao lado dela naquela maldita poltrona desconfortável, folheando
algumas revistas, vendo-a sorrir enquanto planejávamos de cor seriam as paredes do quartinho do
nosso bebê, mas ela não queria isso. E eu nem podia dizer que ela não tinha razão.

Dirigi de volta para Roterdã porque tinha certeza de Alex cuidaria bem dela. Eu precisava
organizar as coisas em minha mente e em minha vida para poder dedicar á Laura e ao nosso bebê
todo o tempo que fosse necessário. Agora que Alex não estava mais comigo na empresa, eu não tinha
com quem contar.

Burro! Estupido! E impulsivo! – e por causa disso, eu estava sozinho.

Estacionei ainda bem cedo em frente á minha casa. Desci do carro e sentei-me no deck. Eu
não tinha certeza se queria falar com alguém, ainda estava processando tudo em minha mente.

Fechei os olhos, sentindo o calor dos primeiros raios de sol em meu rosto. Eu podia ouvir a
aproximação. Sabia quem era pelos passos despreocupados e arrastados. Sorri. John sentou-se ao
meu lado alguns minutos mais tarde.

- Não estava na farra – ele disse simplesmente – ou não estaria com essa cara de que precisa me
contar algo terrível.

- Nem tão terrível assim – brinquei.

Abri os olhos e comtemplei o rosto do meu filho com outros olhos. Ele era um homem
incrível. Eu tinha orgulho de ter participado de tudo de algum jeito.

John era a prova viva de que eu poderia fazer algo bom, certo. Eu queria que o bebê fosse
como meu John, forte e decidido. E algo me dizia que tendo os genes de Laura misturados aos meus,
isso aconteceria infalivelmente. Sorri.

- Vamos ter outro bebê – eu disse finalmente.


Esperei pela reação dele por mais tempo do que eu gostaria. John ficou calado, encarando
as aguas calmas do lado, pensando, sem demonstrar muitas coisas. Quando eu estava á ponto de
desistir ele abriu a boca em um sorriso largo.

- Isso é terrível pai – ele disse, mas o sorriso em seu rosto o denunciou do contrário – agora que
estávamos quase nos livrando do último.

Acabei rindo com ele.

- Você os ama! – eu disse dando um soco de leve em seu ombro – e vai amar o bebê de Laura ainda
mais.
Ele se deitou contra o deck de madeira, mãos cruzadas atrás da cabeça, sorriso calmo descansando nos lábios. Fechou os
olhos.

- Pai? – ele disse devagar, como se não tivesse acabado de descobrir que teria outro irmão – se for um menino, eu acho que deveríamos
chamar de Lucian, como seu irmão. Acho que o tio Lucian ficaria feliz.

Engoli o bolo que se formou em minha garganta, mas não pude conter as lagrimas que chegaram em seguida. Eu não queria
mais ser o Adrian que não sentia nada. Havia tantas coisas que eu queria sentir.

- Ah para pai! Assim eu vou acabar chorando também.

O movimento feio espontâneo quando o puxei para mim e o abracei. John e eu não fazíamos o tipo sentimental, mas eu não
senti resistência alguma por parte dele. Meu filho deixou o rosto pender contra o meu ombro. Seguro, abrigado em meus braços, como
quando era um bebe. Pensei que não havia nada mais no mundo que eu pudesse querer. Deveria haver algo de bom em mim para que eu
recebesse tanta felicidade.

Naquela hora, com John em meus braços mais uma vez, eu fiz outra promessa. Prometi que resgataria o velho Adrian de volta.
Prometi que nunca mais deixaria que as coisas realmente importantes ficassem em segundo plano. Eu tinha a felicidade em minhas mãos
e eu não a deixaria escapar por entre os dedos. Eu a manteria ali, dentro do meu abraço, tão perto.
Extra

John Galagher

Quando papai se levantou e caminhou de volta para dentro de casa, meu coração era um
misto de sentimentos confusos, mas eu estava em paz. Eu estava feliz porque nunca havia me sentido
tão próximo do meu pai como me sentia naquele momento. Eu era forte, havia aprendido com a vida a
ser assim, mas a força era apenas uma barreira. Uma casca, em volta do que eu realmente era – um
garoto.

Eu fiquei ali, admirando os raios do sol da manhã banhar as águas do lago, vendo a luz se
dissipar em pequenos pedaços, como vidro quebrado no chão.

Houve um tempo, logo que minha mãe nos deixou, em que eu pensava que minha vida nunca
mais se consertaria. Eu pensava que mamãe seria um pedaço faltando que não permitia que os outros
se colassem novamente. Eu já não pensava mais assim.

Hoje, depois de tudo que passamos, de tudo que vivemos, eu tinha certeza de que tudo
poderia se consertar.

Minha mãe não era mais um pedaço faltando. Ela era uma lembrança doce e boa. Algo que
me fazia bem. Não mais algo que faltava. Nós havíamos aprendido a ser uma família novamente.

Durante os primeiros dias que passei no Brasil, eu pensei que papai nunca mais nos
buscaria. Pensei que ele ficaria feliz por finalmente poder viver a vida como quisesse, sem três
crianças para atrapalhar. Eu estava errado. E estar errado me deixava muito feliz.

Sorri como um bobo para o horizonte – mais um bebê! Nós teríamos mais um bebê em
casa!

Eu estava preocupado com minha avó. Estava preocupado com Laura e com o tio Alex. Eu
estava preocupado comigo mesmo e toda a pressão do vestibular. Eu nem mesmo havia contado ao
meu pai que não pretendia seguir a mesma carreira que ele, mas eu não podia deixar de ficar feliz por
saber que teríamos mais um bebê em casa.

Levantei, limpei as folhas secas da minha roupa e caminhei de volta para dentro de casa.
Subi as escadas devagar. Abri a porta do quarto e fiquei parado ali, por alguns segundos, vendo
Collin dormir. Ele era o nosso bebê, mas em breve seria o irmão mais velho de alguém e eu o
ajudaria a ser o melhor irmão mais velho que o bebê poderia ter.
Em Breve no Wattpad...

Ainda mais perto

Capítulo 1

Algumas semanas depois, Alexander estacionava o carro em frente ao meu novo endereço.

Sr. Persen e ele haviam insistido muito para que eu ficasse no Jordaan ou para que pelo
menos voltasse para Roterdã e ficasse com Alexander até o bebê nascer. Eu não quis fazer nem uma
coisa, nem outra. Eu morava sozinha á tanto tempo, que já sentia falta de comer os meus sanduíches
gordurosos e beber leite direto da caixinha. Eu precisava da minha velha individualidade de volta.

- Tem mesmo certeza de que quer ficar aí? – Alex perguntou uma última vez, carregando uma
pequena pilha de caixas de papelão.

Dei uma olhada em volta de tudo, apreciando meu novo ponto preferido de Amsterdã.

- Tenho! – afirmei resignada enquanto mirava a arcada de entrada do complexo.

Abri a porta, passei pelo corredor de acesso e parei em frente ao jardim do Begijnhof*. Eu
havia me apaixonado por aquele lugar desde a primeira visita. Não era fácil encontrar uma casa vaga
ali, mas isso fazia parte da pequena porção de coisas que começavam á dar certo na minha vida.

- Não acredito que você não gosta daqui! – pontuei dando uma volta completa em torno do jardim –
olha como é calmo e tranquilo! É perfeito!

- Se você acha – Alex me disse cético – para mim o importante é que fica próximo da casa do papai
então podemos chegar aqui rápido, caso você precise.

- Então! – eu disse sorrindo – é o lugar perfeito!

Eu estava animada, convencida de que seria um recomeço perfeito na minha vida recém-
conturbada. Já havia resolvido as coisas com Hans e voltaria a trabalhar em breve, o que era ótimo!
E ainda estaria á apenas alguns quarteirões da casa do Sr. Persen e de Alexander, que havia
resolvido passar um tempo em Amsterdã.

Eu não tinha móveis. Havia alugado o apartamento no Jordaan mobiliado então minha
mudança era pequena. Algumas caixas e Mia – era tudo que eu tinha no mundo.

Girei a chave na maçaneta da porta e entrei. Era um sobrado pequeno, com uma sala e uma
cozinha separadas por um balcão, que também servia de mesa e um lavabo de duas peças. No andar
de cima, um quarto de tamanho razoável e um banheiro completo terminavam o que agora seria minha
casa.
Era tudo pintado com um tom de azul bem claro e havia um papel de parede á meia altura,
cheio de flores pequenas e rosadas. Era uma casa que deixaria qualquer avó enlouquecida de
felicidade, não era exatamente o apartamento que uma moça de vinte e poucos anos decoraria.

- Sabe que eu poderia conseguir um apartamento bem melhor para você no meu prédio, não sabe? –
Alexander me disse levantando a sobrancelha para os móveis antigos do lugar – você é quase uma
milionária agora! – brincou.

Eu o abracei e o beijei no rosto, fechando a porta atrás de nós.

- Sabe que eu não quero o dinheiro dele, não sabe? – imitei-o.

- Talvez você não queira agora, mas minha função como seu advogado é garantir que seus direitos
serão respeitados.

Respirei fundo – eu não queria uma briga judicial com Adrian por dinheiro porque eu queria
ainda menos uma briga judicial com Adrian por causa do meu bebê.

Sentei no sofá e deixei que Mia explorasse seu novo lar. Alexander sentou-se ao meu lado.

- Sei que é difícil – ele disse passando o braço em volta do meu pescoço. Deixei meu rosto pender
contra seu peito – mas tudo vai se resolver.

Eu estava me preparando para responder, quando a campainha soou. Levantei e fui atender.

Havia uma senhora de cabelos grisalhos presos em um coque em minha porta. Destranquei e
sorri.

Ela sorriu de volta e me cumprimentou em holandês.

- Boa tarde – eu respondi ainda em holandês – eu sou Laura, a nova moradora.

Os olhos da senhora correram direto para Alexander, esparramado em meu sofá, com Mia
em seu colo.

- Ah este é Alexander, meu irmão – eu disse logo, antes que a mulher tivesse alguma ideia errada
sobre ele.

Eu conhecia as regras para morar em Begijnhof, elas eram muito claras. Nada homens para
pernoitar. As visitas masculinas deviam ser rápidas e não se podia receber namorados ali.

A mulher sorriu mais, voltando os olhos para mim novamente.

- Sou Frida – ela me disse estendendo a mão – sou sua vizinha e a responsável pelo lugar. Vim até
aqui para ver se a senhorita precisa de algo.

Estiquei a mão e a cumprimentei no momento em que senti as mãos de Alexander sobre meus
ombros.
- Sou Alexander Persen – ele disse sorrindo – fico feliz em saber que minha irmã terá uma vizinha
tão prestativa.

Algo nos olhos da pobre mulher me dizia que ela havia sido pega pelo olhar “príncipe” do
meu irmãozinho.

Sorri.

- Obrigada Frida, mas por enquanto acho que estamos bem. Alex vai me ajudar a desempacotar as
coisas e fará as instalações. Não sou muito boa com instalações elétricas – brinquei para melhorar o
clima, afinal, a mulher era meu novo senhorio – se não estiver ocupada, poderíamos tomar um chá
amanhã á tarde – e completei – tenho certeza de que até amanhã tudo estará no lugar!

Frida sorriu e correu os olhos de mim para Alexander e dele de volta para mim.

- Vejo que a gentileza é algo de família! É muito bom saber que teremos uma jovem tão educada
conosco.

Eu sorri polidamente, fechando a porta com cuidado assim que ela saiu. Alexander caiu na
risada no minuto seguinte.

- Se eu tinha alguma preocupação em deixa-la sozinha, morreu no olhar fulminante da secretária do


Hitler – brincou jogando-se no sofá novamente.

Reprimi o riso.

- Hey, você deveria me ajudar a ajeitar tudo isso aqui, sabia? – brinquei – e não fale mal da minha
mais nova melhor amiga.

O que restou do dia, Alexander e eu passamos nos dedicando a transformar o pequeno


espaço em algo habitável. Ele guardava as coisas grandes e eu as pequenas. Dobrei, ajeitei, limpei,
tirei o pó, enquanto ele fazia funcionar o novo aparelho de televisão de tela plana que ele havia
insistido em me dar de presente pela casa nova. Já tinha começado a escurecer quando terminamos
tudo.

- Eu comeria uma vaca inteira – ele disse jogando-se em meu sofá novamente – mas cuspiria os
cascos e talvez os chifres. Sabe como é, me parece indigesto.

- Eu comeria uma cabra – completei – mas deixaria a cabeça de lado, provavelmente.

Começamos a rir no instante seguinte.

- O que acha de um jantar? Poderíamos sair e comemorar seu novo endereço, já que aqui não sou
bem vindo depois do anoitecer – Alex brincou se levantando – estarei no portão ás oito.

- Combinado Sr. Persen!

Alexander saiu e eu subi para experimentar meu mais novo banheiro. Tirei a roupa e abri o
chuveiro. Entrei debaixo do feixe de água agradecendo pelo aquecimento á gás que Alex havia
arrumado – seria bem útil no próximo inverno.

Vesti um vestido de tecido leve que combinava com o clima e com a maneira como eu me
sentia. Eu estava leve. Leve e feliz. O vestido era azul marinho e tinha uma faixa que amarrava na
cintura. Quando fui dar o laço, percebi que ele já estava um pouquinho menor. Minha silhueta estava
ligeiramente mais rechonchuda, mas eu estava muito feliz – tudo que eu queria era ver minha barriga
crescer logo.

Penteei os cabelos e os deixei soltos, caindo sobre meus ombros. Borrifei um pouco de
perfume e calcei minhas sandálias de salto plataforma. Quando peguei o casaco e a bolsa, já eram
oito horas.

Desci as escadas cantarolando feliz. Fechei a porta e caminhei pelo corredor que dava
acesso á rua. Quando abri a porta do complexo, Alexander já estava lá, parado em frente ao Audi que
eu amava. Braços cruzados sobre o corpo em uma calça social escura e camisa branca, dobrada até
os antebraços, mostrando algumas das suas tatuagens. Ele sorriu com aquele sorriso que derretia
qualquer iceberg em um raio de 50 quilômetros e eu pensei que Alissa não fazia ideia da sorte que
estava desperdiçando.

- Alex você sabe que é bonito – eu comecei – mas acredite, dessa vez você se superou!

Ele sorriu e abriu a porta do carro para mim. Deu a volta e sentou-se do outro lado.

- Alissa é uma boba de te deixar por aí solteiro.

Alexander suspirou e eu me arrependi no mesmo instante por ter tocado no assunto.

- É complicado Laura. Eu tentei muito. Eu realmente tentei o máximo que pude – ele disse apertando
os dedos em volta do volante – Alissa quer um homem que eu não consigo ser. Eu não sou o tipo
ambicioso e sem escrúpulos que faz qualquer coisa por dinheiro.

Suspirei – se eu não tivesse aparecido, as coisas seriam mais fáceis para ele.

- E não pense que você tem alguma culpa nisso – ele disse como se lesse meus pensamentos – Alissa
e eu já não estávamos bem muito antes de Louise se quer pensar em existir. Na verdade, nós só
insistimos em tudo porque Alissa engravidou.

Afundei meu corpo no banco de couro do Audi e acabei caindo na risada.

- Dedo podre para o amor deve ser uma especialidade dos Persen – brinquei ainda rindo.

Alexander caiu na gargalhada junto comigo.

- Só pode. Nosso DNA!

Alexander dirigiu até a parte alta de Amsterdã, mais afastada do porto. Era uma das regiões
mais caras da cidade e as ruas eram cercadas por parques e lojas de grifes famosas.

Eu não costumava ir aquela parte da cidade porque simplesmente estava fora das minhas
posses. Ainda precisava me acostumar que Alexander era um homem rico.

Paramos em frente á um restaurante elegante. O letreiro na porta estava escrito em francês.

Assim que paramos, um manobrista abriu minha porta e ofereceu a mão para que eu saísse
do carro. Alexander desceu, correu as mãos pelo cabelo e sorriu.

- Para minha irmãzinha, apenas o melhor.

Acabei sorrindo também. Não porque o restaurante era chique ou caro, mas porque eu o
tinha ao meu lado – tudo parecia mais fácil com Alexander ali.

Entramos no restaurante de braços dados. O maitrê nos mostrou uma mesa no fim do salão.

O lugar era ainda mais suntuoso e elegante do lado de dentro, do que parecia de fora e eu
comecei a julgar que meu vestido não havia sido uma escolha tão boa.

Eu estava caminhando pelo corredor quando precisei desviar de outro garçom com uma
bandeja. Acabei esbarrando no homem sentado á mesa.

- Desculpe! – eu disse usando meu holandês ruim.

Ele virou-se rapidamente e eu precisei apoiar-me contra o braço de Alexander para não cair
– Adrian Van Galagher estava ali, na minha frente, apesar de todas as minhas tentativas de fugir dele,
ali estava quem eu, um dia, havia pensado ser o homem da minha vida.

Os olhos de Adrian se detiveram nos meus por tempo demais. Tempo que de repente
pareceu correr em minha mente como um filme. Ele estava exatamente como eu me lembrava dele.
Bonito, elegante, sexy. Seus olhos estreitos ainda tinham a mesma nota de mistério que os faziam
querer ser desvendados. Sua boca continuava sem sorriso, firme e contraída em seu rosto sério.

- Laura – ele disse fazendo meu coração derreter.

Respirei fundo, afundando as lembranças em minha mente, minha mão livre tocando minha
barriga sem querer. Retomei minha postura e ergui o queixo.

- Sr. Galagher – devolvi o cumprimento como se ele não significasse nada para mim e então deixei
meus olhos se perderem na mulher ao lado dele sem dizer nada.

*Begijnhof – é um dos mais antigos pátios internos da cidade de Amsterdam. Um grupo de


edifícios históricos, formado principalmente por residências particulares, com uma praça no
centro. Como o nome sugere, era originalmente um Béguinage, um tipo de convento para mulheres
que se entregavam ao serviço da igreja sem fazer os votos freiras. No Begijnhof não moram
homens, nem mulheres casadas, apenas viúvas e mulheres solteiras. É, ainda hoje, um local de
retiro e paz e abriga a Igreja Escondida, um símbolo da cidade de Amsterdam.

***

O telefone em meu colo havia tocado até cair na caixa de mensagens. Eu já havia perdido a
conta de quantas vezes havia tentado ligar, desde que a deixei no hospital. Quatro semanas. Quatro
semanas e ela não havia atendido nenhum dos meus telefonemas.

Girei minha cadeira para a janela de vidro e acendi um cigarro, soprando a fumaça ao meu
redor, encarando o movimento do porto lá embaixo. Eu estava preocupado com ela, com o meu filho,
com Collin, com Margarida, com Alexander e com Louise. Eu havia conseguido transformar o que
parecia um novo rumo, em um emaranhado de pontas soltas que agora eu teria que unir.

Dei um trago no cigarro, recostei meu corpo contra o couro macio da cadeira e fechei os
olhos. Eu precisava encontrar uma maneira de tirar Louise de Alissa assim que nascesse. Ela não
seria uma boa influencia para o bebê e Alexander merecia que eu fizesse isso. Não apenas pela nossa
amizade e por tudo que ele já havia feito por mim, mas pela desconfiança idiota que acabou nos
colocando em lados opostos de uma ação judicial pela primeira vez.

Eu também precisava resolver as coisas com Margarida, já que Laura era algo que eu não
poderia resolver tão fácil. Encarei o maço de folhas de papel sobre minha mesa com todas as
exigências que provavelmente Alexander fazia em seu nome.

Não era pelo dinheiro. Eu não me importava em pagar o que quer que fosse que ela
quisesse. Ela tinha o meu filho no ventre e teria uma boa parte de tudo que era meu de um jeito ou de
outro. Eu não me importava com o dinheiro. Teria dado tudo á ela se ela me pedisse. O que me
importava era aquele maldito processo.

O que eles estavam pensando? Que se uniriam contra mim agora que haviam descoberto
que eram irmãos? Que poderiam simplesmente me dizer o que fazer e que eu iria assistir? – eu não
fazia o tipo que aceitava imposições. Eu era o tipo que decidia.

Amassei uma á uma as folhas e as arremessei em meu cesto de lixo, no canto da sala. Dei o
ultimo trago no cigarro e o apaguei em meu cinzeiro de cristal.

Peguei o telefone irritado.

- Karol onde está a maldita candidata? – perguntei pela quinta vez.

- Ela ligou avisando que teve uma audiência de emergência Sr. Galagher. Pediu que remarcássemos,
mas o senhor não quis.

Praguejei mentalmente contra o telefone.

- E essa audiência tem alguma precisão de fim? – ironizei.

- Ela pediu mais uma hora. Acabou de telefonar. Está em Amsterdã ainda, mas disse que já está
acabando e vem direto para cá.

Encarei o relógio em meu pulso. Eram seis e meia da tarde e eu não havia comido nada o
dia todo. Estava faminto e cansado e queria chegar logo em casa e vestir uma calça de elástico e
brincar com meus filhos.

- Pois diga a Srta. Importante que se ainda quiser um emprego, eu a espero em exatos cinquenta e
cinco minutos no Fontaine. Se ela não conseguir chegar no horário, diga que nem precisa se
justificar.

Desliguei o telefone e me levantei. Fui até o banheiro, lavei o rosto, ajeitei o cabelo e
peguei minhas chaves. Passei por Karol.

- Sabe que não precisa ficar até a hora que eu estiver aqui, não sabe Karol?

Era meu jeito, nem um pouco delicado, mas já conhecido por ela, de dizer que ela podia ir
embora e descansar.

Karol sorriu.

- Achei melhor esperar até que o senhor recebesse a Srta. Stein, Sr. Galagher.

Levantei uma sobrancelha para ela, sem entender que o “melhor” se referia a me ajudar com
a tal advogada ou protege-la de mim.

- Então agora vá para casa Karol. Harold pode leva-la. Eu estou de carro.

- Obrigada Sr. Galagher.

Karol trabalhava comigo á muitos anos. Ela me conhecia o suficiente para saber como eu
era e sabia que esse era meu jeito de pedir desculpas por ela passar do horário. Em todos esses anos
ela esteve ao meu lado, aguentando minhas merdas e cuidando de tudo para mim. Fiz uma nota mental
de aumentar o salario dela já no próximo mês.

Entrei no elevador e desci até a garagem. Apertei o alarme do Porsche e entrei. Eu não
estava ansioso por encontrar advogado algum. Eu não queria outro. Eu queria Alexander, de volta
comigo nos negócios. Eu queria sua segurança e sua paciência e queria seu jogo de cintura que
sempre resolvia tudo. Eu queria, mas ele não queria mais.

Respirei fundo e conectei o celular ao carro. Disquei para casa. Martina atendeu no segundo
toque.
- Residencia do Sr. Galagher, Martina falando.

- Sou eu Martina – eu disse logo – John está em casa?

- Está sim Sr. Galagher. Acabou de chegar. Vou passar para ele.

- Fala Sr. Galagher – meu filho disse alguns minutos depois – um pouco tarde, não está?

- Diga-me você – respondi – até onde sei suas aulas terminaram á três horas. Não vejo como poderia
demorar três horas e meia para alguém percorrer alguns quarteirões.

- Simples – ele disse debochado – faça isso acompanhado por uma bela morena de olhos azuis.

Reprimi o sorriso porque ele ainda precisava saber quem mandava nisso tudo. Pigarreei um
pouco para disfarçar melhor, mas não achava que o tinha convencido.

- Filho – continuei – estou ligando para avisar que não vou jantar em casa – e antes que ele tivesse
qualquer ideia errada completei – tenho um jantar de negócios. Vou entrevistar alguém para o lugar
de Alexander.

John demorou um tempo para responder. Eu sabia que ele não queria ninguém no lugar de
Alexander. Ele tinha esperanças de que tudo voltasse á ser como antes e eu não podia culpa-lo. Eu
queria o mesmo.

- Tudo bem pai. Martina está dando comida para os pirralhos. Vou comer qualquer coisa e estudar
um pouco.

- Isso. Faça isso, filho. Não devo demorar.

Ele estava preocupado com os exames finais. Havia feito um ano quase inteiro no Brasil e
isso poderia dificultar as coisas na escola de Roterdã. Ele não queria ficar para trás da turma. Era
dedicado e esforçado e eu havia preparado o premio perfeito para quando ele terminasse os exames.

Quando eu fiz dezoito anos, eu dirigia um sedan velho que queimava mais óleo que todos os
petroleiros do porto juntos. Eu queria que John tivesse um carro bom. Um do qual ele se orgulhasse.

Dirigi pela estrada sem querer me prender ás lembranças. Por mais que eu não quisesse,
elas vinham á minha mente uma á uma, sem que eu pudesse controlar. Antes dela, Amsterdã era
apenas uma cidade pequena e cheia de turistas que eu tentava evitar. Agora, tudo ali me fazia lembra-
la. Laura. Minha Laura. Eu não conseguia ignorar o fato de que estaria um pouco mais perto dela,
nem que fosse durante um maldito jantar de negócios.

Parei meu carro em frente ao restaurante e deixei que o manobrista o levasse. Ajeitei meu
terno e caminhei até a entrada.

- Sr. Galagher, é um prazer recebe-lo – a moça me disse assim que cheguei á entrada – venha, vou
acompanha-lo até uma mesa.
Caminhei com ela pelo salão. Eu gostava da comida e gostava do ambiente do Fontaine. Era
um lugar reservado e isso era perfeito para uma reunião de negócios.

- O senhor espera por alguém? – a moça perguntou – ou vai jantar sozinho?

- Espero uma pessoa. O sobrenome é Stein.

Ela assentiu e indicou a mesa para mim. Era uma mesa boa, no meio do salão. Era suficiente
para que eu me misturasse ás pessoas e não tivesse minha foto em nenhum jornal ao lado de outra
mulher. Eu não conhecia á tal Stein, então tinha que jogar com todas as possibilidades.

Joanne Stein chegou pouco mais de quarenta minutos depois do horário que eu havia dado á
Karol. Conferi o relógio antes de me levantar e indicar a cadeira á minha frente á ela.

Ela era uma mulher muito bonita e atraente. Tinha olhos incrivelmente azuis que
contrastavam com a pele bronzeada, ainda que artificialmente. Os cabelos, lisos e escuros, estavam
presos em um coque desarrumado. Ela tinha um ar cansado e eu quase me senti mal por ter insistido
em manter nossa reunião.

- Desculpe pelo atraso, Sr. Galagher, um cliente meu teve problemas e precisou de ajuda. Eu não
podia dizer que não.

Era uma coisa boa, afinal, se ela não deixava os clientes na mão, não me deixaria também.

- Sente-se – eu disse indicando o lugar – vamos deixar os contratempos de lado e conversar.

Ela sorriu e se acomodou. Abriu a pasta de documentos e me entregou uma pasta de plástico
com seu curriculum. Eu o abri e dei uma olhada na incrível coleção de especializações e casos que a
moça havia ganhado. Ela era um pouco mais jovem que eu. Eu julgaria por volta de trinta e cinco
anos ou um pouco menos.

- É um serviço um pouco desgastante – comecei enquanto liamos o cardápio – tem disponibilidade


para viajar, Srta. Stein?

Ela era jovem e bonita e a ultima coisa que eu precisava era de um namorado ciumento
atrapalhando meus negócios.

- Tenho sim, Sr. Galagher. Não tenho problemas com isso. Eu tenho um filho de cinco anos, mas
tenho uma excelente babá que me acompanha desde que Trevor nasceu.

Bom. Centrada. Com filhos. O que ajudava a torna-la mais centrada ainda. Agora restava
saber onde estava o marido.

- A senhorita é casada? – perguntei taxativo.

- Sou viúva. Á pouco mais de um ano.

- Sinto muito.
Eu sentia mesmo. Sabia como era difícil criar um filho sozinho, e eu era milionário. Com
certeza as coisas eram um pouco mais difíceis para a pobre mulher. Por isso ela trabalhava tanto.

- Obrigada – ela respondeu – nós já estamos melhor. Foi uma surpresa, mas superamos juntos,
Trevor e eu.

Esbocei um pequeno sorriso gentil, mas eu não queria transformar nossa conversa em
lamentações sobre o passado e a viuvez. Eu precisava de um advogado e o estado civil dela era
praticamente irrelevante.

Nossa comida chegou e o garçom serviu o vinho branco em minha taça. Aprovei e ele serviu
a Srta. Stein. Ela tentou recusar, mas minha regra de “se come comigo, bebe comigo” ainda valia.

Dei a primeira garfada em meu filé de peixe, enquanto a moça falava e falava sobre toda a
experiência internacional que tinha. Estava quase no meio do prato, quando o cotovelo de alguém se
chocou contra mim, bem no meio das omoplatas. Virei-me no mesmo instante, incrédulo com o som
da voz que ouvia.

Ela estava ali, na minha frente. Os cabelos soltos emoldurando seu rosto bonito e delicado,
espalhando seu perfume pelo ar. O corpo, um pouco mais arredondado do que eu lembrava e eu sabia
exatamente por que.

Desde a última vez em que havíamos nos encontrado naquele hospital, eu fantasiava em
como seria quando nos víssemos novamente. Eu tinha certeza de que seria forte e de que não deixaria
transparecer quaisquer que fossem os sentimentos que ela despertasse em mim. Eu estava irritado por
ela não querer falar comigo e queria tanto ignora-la que quase perdi o folego – eu nunca seria
indiferente á ela. Não importava o que acontecesse ou quanto tempo passasse, Laura, minha Laura,
teria um pedaço do meu coração do qual eu não tinha mais controle.

Estiquei o braço para apoiá-la, mas ela se segurou em Alexander.

- Laura – eu disse por que não sabia o que mais dizer.

Sua mão livre tocou a barriga devagar, bem ali, onde meu filho estava e eu senti meu
coração se despedaçar um pouco mais.

- Sr. Galagher – ela respondeu firme, forte, segura. Como sempre tentava ser.

Corri os olhos pelo caminho que os dela haviam feito e parei em Stein, ali, sentado comigo
no restaurante.

- Esta é a Srta. Stein – eu disse antes que alguém pudesse interpretar de outra maneira nosso encontro
– ela é advogada.

- Sou candidata á uma vaga de emprego na empresa do Sr. Galagher – ela disse estendendo a mão
para Laura.
Era um cumprimento formal que deixava claro o que estava acontecendo ali. Stein havia
percebido muito mais do que Laura e eu dissemos e isso á havia colocado alguns passos á frente de
qualquer outro candidato. Ela era esperta.

- Sou Laura Soares – Laura disse apertando a mão da moça – espero que tenha sucesso. Vamos Alex?
– ela disse como se quisesse fugir rápido de mim.

- Claro! – ele respondeu segurando em sua mão – tenha um bom jantar Adrian – me cumprimentou –
senhorita – repetiu o cumprimento.

Stein não perguntou nada sobre Laura ou sobre o clima estranho que havia entre Persen e eu.
Ela era uma mulher inteligente. Eu não disse nada também, mas qualquer coisa que aconteceu depois
do encontro eu não me lembraria. Minha mente estava focada na moça de vestido azul, sorrindo
nervosamente e fingindo ser feliz, enquanto carregava meu filho e meu coração com ela.

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