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Gaudêncio Frigotto

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Educação e a crise
Frigotto, Gaudêncio
Educação e a crise do capitalismo real / Gaudêncio Frigotto.
- 6. ed. - São Paulo: Cortez, 2010.
do capitalismo real
ISBN 978-85-249-1616-8

1. Desemprego 2. Educação profissional 3. Sociologia educa-


cional4. Trabalho e classes trabalhadoras - Educação L Título.
6a edição

10-05930 CDD-370.113

índices para catálogo sistemático:

1. Crise do trabalho: Efeitos da educação 370.113

@CDRTEZ
~EDITOR~
EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL
Gaudêncio Frigotto

Capa:aeroestúdio
Preparação de originais: Elisabeth S. Matar
Revisão: Maria de Lourdes de Almeida
Composição: Linea Editora Ltda.
Coordenação editorial: Danilo A. Q. Morales

Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou duplicada sem autorização
expressa do autor e do editor. Em memória ao meu velho pai Miguel Domingos, de
quem guardo imensa saudade.
© 1995 by Gaudêncio Frigotto À lrma que, com dignidade, luta por ver reconhecidos
seus direitos de mulher camponesa e que me dá força nos
pequenos e grandes embates.
Direitos para esta edição
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Rua Monte Alegre, 1074 - Perdizes
construção humana e intelectual.
05014-001- São Paulo - SP À Giovana, Larissa e Alexandra que me asseguram sem
Tel.: (11) 3864-0111 Fax: (11) 3864-4290 dizê-Ia, que é preciso ter utopia, pois nela reside a esperan-
E-mail: cortez@cortezeditora.com.br
ça de um novo modo de fazer a aventura humana.
www.cortezeditora.com.br Às Sandras e aos Eribertos, símbolos de uma nova cons-
ciência que emerge das classes populares historicamente
Impresso no Brasil- setembro de 2010
silenciadas pela violência, arbítrio e exclusão social.
lêCDRTEZ
'5EDITORA

Sumário

,'i Ias 9

Pr fácio 11

Introdução..................................................................................... 17

I. A EDUCAÇÃO COMO CAMPO SOCIAL DE DISPUTA


HEGEMÔNICA...................................................................... 27
1. A segmentação e fragmentação como estratégias da
subordinação dos processos educativos ao capital... 32
2. A educação alçada a capital humano - uma
esfera específica das teorias de desenvolvimento...... 43
3. Os homens de negócio, a sociedade do conhecimento
e o fim da sociedade do trabalho................................. 56

11. NATUREZA, ESPECIFICIDADE E CUSTOS HUMANOS


DA CRISE DOS ANOS 1970-1990 63
1. Natureza e especificidade da crise: o esgotamento
do Estado de Bem-Estar e do modelo fordista de
acumulação e regulação social., :..................... 66
1.1 A natureza estrutural da crise 67
1.2 A especificidade da crise do Estado de Bem-Estar
e do modelo fordista de regulação social............ 73
2. Os caminhos alternativos de enfrentamento da crise.. 83
3. Os custos sociais e humanos da alternativa
neoconservadora , 89
8 GAUD~NClO FRIGOTTO
~CDRTEZ
~EDITOR~ 9

11I. O FIM DA SOCIEDADE DO TRABALHO E A NÃO


CENTRALIDADE DO TRABALHO NA VIDA
HUMANA............................................................................... 97
1. A crise da sociedade do trabalho e a não
centralidade do trabalho............................................... 98
1.1 Claus Offe e a tese da perda da centralidade
do trabalho na vida social...................................... 102
1.2 Adam Schaff e o anúncio do fim do trabalho Siglas
abstrato na sociedade inÍormática 106
1.3 Robert Kurz e o colapso da modernização:
a crise do trabalho abstrato.................................... 110
2. Da compreensão da crítica da centralidade do ANPEd Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em
trabalho à crítica da crítica 114 Educação
BlO Banco Interamericano de Desenvolvimento
IV. EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO HUMANA: AJUSTE
NEOCONSERVADOR E ALTERNATIVA BIRO Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento
DEMOCRÁTICA.................................................................... 144 CAM Computer Aided Manufacturing

1. Os apologetas da sociedade do conhecimento e os CBAl Comissão Brasileiro-Americano de Educação Industrial


homens de negócio blefam e apostam no cinismo? 146 COA Computer Aided Design
2. Formação e qualificação abstrata e polivalente e CEPAL Comissão Econômica para a América Latina e Caribe
a defesa do Estado mínimo: a nova (de)limitação CESIT Centro de Estudos Sindicais e Economia do Trabalho
do campo educativo na lógica da exclusão 149 (Universidade Estadual de Campinas - SP)
3. A formação humana unitária e politécnica: CIAC Centro Integrado de Atenção à Criança
o horizonte dos processos educativos que se CIEP Centro Integrado de Educação Pública
articulam aos interesses da classe trabalhadora 182 INTERFOR Centro Interamericano de Pesquisa e Documentação
3.1 Escola unitária e politécnica: a formação na sobre Formação Profissional
óptica da emancipação humana............................ 184 CNI Confederação Nacional da Indústria
3.2 A dilatação da esfera pública: da resistência CNPq Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
à alternativa política ao neoconservadorismo Tecnológico
na educação.............................................................. 194 OOEPLAN Companhia do Desenvolvimento do Planalto Central
CRUB Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras
V. CONCLUSÃO 207 CUT Central Única dos Trabalhadores
FIESP Federação das Indústrias do Estado de São Paulo
Referências bibliográficas............................................................ 221
FMI Fundo Monetário Internacional
taCDRTEZ
10 GAUDtNClO FRIGOnO ~EDITORr:l 11

GAIT Acordo Geral de Tarifas e Comércio


IBAD Instituto Brasileiro de Ação Democrática
IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
IEDI Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial
IEL Instituto Euvaldo Lodi
lliL Instituto Herbert Levy
IPES Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais Prefácio
LDB Lei de Diretrizes e Bases
OEA Organização dos Estados Americanos
OIT Organização Internacional do Trabalho
ONU Organização das Nações Unidas
Os socialistas estão aqui para lembrar ao mundo que em
OREALC Oficina Regional de Educación para America Latina y primeiro lugar devem vir as pessoas e não a produção. As
Caribe pessoas não podem ser sacrificadas. Nem tipos especiais de
PNUD Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento pessoas - os espertos, os fortes, os ambiciosos, os belos,
aquelas que podem um dia vir a fazer grandes coisas - nem
PT Partido dos Trabalhadores
qualquer outra. Especialmente aquelas que são apenas pessoas
SENAC Serviço Nacional da Aprendizagem Comercial
comuns (...). É delas que trata o socialismo; são elas que o
SENAI Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial socialismo defende. O futuro do socialismo assenta-se no fato
TWI Trainning Within Industry de que continua tão necessário quanto antes, embora os argu-
mentos a seu favor não sejam os mesmos em muitos aspectos.
UNESCO Organização das Nações Unidas para a Educação,
A sua defesa assenta-se no fato de que o capitalismo ainda cria
Ciência e Cultura
contradições e problemas que não consegue resolver e que
USAID United States Aid Internacional Development gera tanto a desigualdade (que pode ser atenuada através de
reformas moderadas) como a desumanidade (que não pode
ser atenuada).

ERIC HOBSBAWM (1992b)

/\ pígrafe de Hobsbawm é apropriada para começar estas


I 11'('V 'S palavras sobre o novo livro de Gaudêncio Frigotto. Não
IIII( 'nc porque o historiador inglês constitui urna das referências
111'1'111, nentes (tácitas ou explícitas) desta obra, mas também
!lI )I'q LI o seu conteúdo resume três das principais razões que
111' (')'1 tam a estimulante reflexão teórica aqui proposta pelo
1111101' do presente volume. Primeiramente, a necessidade de
12 GAUD~NClO FRIGOnO II>UCAÇAo E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 13

pensar as condições históricas que dão origem à profunda cri- nnlidade (ou irracionalidade) que encerram os enfoques do
se que atravessa hoje o capitalismo real, ultrapassando as visões 1)' capital humano no atual contexto de profundas mudanças

apologéticas e apocalípticas. Em segundo lugar, a opção por vividas pelas sociedades de classe neste fim de século. A espe-
realizar essa tarefa partindo de uma reflexão rigorosamente dfi idade da crise estrutural que atravessa hoje o capitalismo
crítica desde a perspectiva do materialismo histórico; um ma- tra! é o marco no qual cobram materialidade as perspectivas
terialismo histórico renovado e capaz de reformular-se ele liis utidas por Gaudêncio neste novo livro.
próprio à luz do colapso do socialismo soviético e da queda dos De fato, o contexto mais amplo da reestruturação capita-
regimes comunistas da Europa Oriental. Por último, embora Iisla contemporânea no plano político, econômico, jurídico e
certamente não menos importante, o livro de Frigotto propõe \. lucacional funciona como um enquadramento iniludível
um enorme desafio ético: pensar e compreender a crise do ca- pura avançar tanto na crítica teórica aos enfoques apologéticos
pitalismo desde um renovado enfoque socialista como forma cln ociedade pós-industrial, quanto para recusar as saídas
de contribuir para a construção de uma sociedade democrática in ividualistas e místicas que acabam defendendo os intelec-
e radicalmente igualitária, fundamentada nos direitos e que I~I is apocalípticos. Educação e a crise do capitalismo real é um
respeite as diferenças, a diversidade, uma sociedade - segun- Ii v 1'0 para ser lido à luz da atual hegemonia dos regimes neo-
do Hobsbawm - de pessoas comuns, das maiorias, justamen- Iil crais e neoconservadores (tanto na América Latina quanto
te aquelas condenadas pelo mercado à mais absoluta miséria. ('lI um número nada desprezível dos países do Primeiro
Este livro, de alguma forma, é a continuação mais eloquen- Mundo), e reconhecendo as novas condições materiais e cul-
te de A produtividade da escola improdutiva, texto que ainda hoje lu rais criadas a partir da crise do regime de acumulação for-
continua sendo de consulta obrigatória para aqueles que de- di ta, de seus Estados de Bem-Estar e da própria reorganiza-
~'J (ou desorganização) da classe operária que é derivada de
senvolvem pesquisas na área de Educação e Trabalho. Essa linha
I,) l processo.
de continuidade entre duas obras separadas por uma década
constitui, ao mesmo tempo, um dado alentador e trágico. Alen- E aqui cobra sentido a dupla tarefa crítica à qual se propõe
tador, porque Frigotto continua discutindo de forma clara e l'rigotto.
decidida os enfoques economicistas que reduzem a educação Em primeiro lugar, discutir as novas concepções do "ca-
a um mero fator de produção, a "capital humano". Trágica, pital humano" que se respaldam na suposta legitimidade das
porque ainda hoje esta última perspectiva continua expandin- I' es do fim da história e das ideologias, segundo as quais (e
do-se com novas roupagens, com inéditas e sedutoras máscaras nfortunadamente) o mundo é e será para sempre capitalista. A
que convencem, inclusive, muitos intelectuais que as combatiam r' usa de tais perspectivas conduz o autor a discutir a validade
no passado. Tal continuidade entre ambos os trabalhos não deve 1<s posições que as caracterizam no plano educacional. Prigot-
nos fazer pensar que, em seu novo livro, Frigotto limita-se a to analisa assim três categorias básicas no discurso neoliberal
denunciar que" o velho" ainda não morreu e que" o novo" é dos homens de negócio, dos organismos internacionais, das
apenas uma armadilha que encobre um status quo imune ao burocracias governamentais conservadoras e dos intelectuais
passar do tempo. Justamente um dos valores mais destacados r onvertidos: "sociedade do conhecimento", "educação para
deste trabalho reside em que o autor pretende discutir a racio- n ompetitividade" e "formação abstrata e polivalente".
14 GAUDÊNClO FRIGOTTO II)UCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL
15

Em segundo lugar, realiza uma crítica não menos radical o novo livro de Gaudêncio
ajuda-nos a pensar que é pos-
aos enfoques defendidos por três autores que, desde ópticas slvel "renascer das cinzas", que é possível e necessário lutar
não convergentes e diferenciados ainda da trivialidade que I or um mundo mais justo e igualitário. Simplesmente, porque
caracteriza os admiradores do capitalismo pós-industrial, n história ainda não terminou.
"acabam silenciando ou eliminando os grupos ou classes so-
ciais fundamentais e os movimentos com eles articulados como
Pablo Gentili
sujeitos da história, (o qual os conduz), ironicamente, a refor-
çar a tese do fim da história": Adam Schaff, ela us Offe e Robert Rio de Janeiro, maio de 1995.
Kurz.
No contexto de um capitalismo transformado, e não por
isso mesmo excludente e discriminador, Frigotto desenvolve
uma minuciosa análise marxista da educação. Enfoque mar-
xista que, na medida em que é aplicado a ele próprio, refor-
mula-se e enriquece-se. Logo, de certa forma, este livro difere
da citada obra A produtividade da escola improdutiva. O leitor
encontrará aqui novos conceitos, novos percursos teóricos,
novas perguntas e também, certamente, novas respostas a
velhas perguntas.
Por último, este livro possui um inestimável valor político.
Ele contribui com um conjunto de ideias relevantes no campo
da ação política e, ao mesmo tempo, está inspirado na necessi-
dade de profundar, defender e ampliar as experiências demo-
cráticas de resistência e oposição ao programa de ajuste neoli-
beral existentes em nossos países. No plano educacional, a~
reflexões de Frigotto inserem-se e inspiram-se em uma multi-
plicidade de experiências alternativas de gestão que foram (e
estão sendo) desenvolvidas no Brasil por administrações po-
pulares: Porto Alegre, Belo Horizonte, Angra dos Reis e muitas
outras que constituem hoje um modelo de gestão eficiente e
democrática de uma política educacional pública e de qualida-
de. Tais experiências inspiram o autor deste livro e são uma
referência tácita ao longo de todos os capítulos que compõem
o presente volume.
~CDRTEZ
~EDITORR 17

Introdução

É difícil, mesmo para aqueles que transformaram o mar-


xismo (de Marx) de teoria da história e profunda ontologia em
doutrina ou crença, não reconhecer o colapso do socialismo
realmente existente e a necessidade de questionar pressupostos
teóricos e estratégias políticas que tomaram como referência o
pensamento e a obra de Marx e Engels. Isto, todavia, não sig-
nifica, como veicula a ideologia hoje hegemônica, que o proje-
to socialista é uma quimera do passado, a teoria histórica de
Marx e Engels está morta e, finalmente, a humanidade aprendeu
a respeitar as leis da liberdade natural do mercado, da livre concor-
rência e que, portanto, o capitalismo é a forma de organização
social definitiva e desejável da humanidade.
Este livro, que trata das relações trabalho-educação dentro
das profundas transformações deste final de século, por razões
éticas, teóricas e políticas, é um esforço de remar contra a cor-
rente. Primeiramente, sustentamos que o capitalismo deste final
de século enfrenta sua crise estrutural mais profunda e sua
perversa recomposição vem se materializando nas inúmeras
formas de violência, exclusão e barbárie. É preciso, pois, mostrar,
sem concessões, a crise e o colapso do capitalismo real. Em se-
gundo lugar, entendemos que as concepções ontológicas e
teóricas do processo histórico elaboradas por Marx e Engels e
desenvolvidas por outros marxistas como Gramsci, continuam
sendo a base que nos permite uma análise radical para desven-
18 GAUDÊNClO FRIGOnO I1 HIC AÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 19

dar a natureza e especificidade das relações capitalistas hoje e, A segunda razão é explicitada por Paola Manacorda (1984),
especificamente, da problemática do trabalho e da educação. 11) < firmar que uma teoria não deve ser abandonada porque
Base, também, para, na expressão de Eric Hobsbawm, renascer "11 frcnta problemas novos. Uma teoria é superada quando não
das cinzas e construir uma alternativa socialista efetivamente 1('11) capacidade de nos ajudar a analisar estes problemas. Neste
democrática de relações sociais. 1111rticular, uma vez mais, Jameson qualifica a natureza da crise
Temos clareza de que no plano teórico este trabalho en- ,10 marxismo. As crises do paradigma marxista sempre ocorreram
frenta a tensão mais crucial. No presente, este embate dá-se cvatamente nos momentos em que seu objeto de estudo fundamental
tanto com a avassaladora ideologia neoliberal ou neoconserva- o capitalismo - parecia estar mudando de aparência, ou passando
dora, que tem no mercado o deus regulador do conjunto das !,ur mutações imprevistas e imprevisíveis. (Jameson, 1994, p. 66)
relações sociais, quanto com determinadas posturas pós-mo- Por fim, cabe insistir na tarefa da esquerda, particularmen-
dernistas que, ao negarem a razão histórico-dialética, o devenir 1\' dos socialistas, de não aderir ao pragmatismo do capitalismo
histórico e de elos de universalidade humana, acabam reifican- \ I 1 ' globaliza sua forma de extração de mais-valia e redefine
do o momentâneo, o transitório, o efêmero e a capilaridade do li, formas de exclusão. Pelo contrário, como assinala Anderson
micro, do local e do circunstancial. A "utopia, por este caminho, (19 5), os que lutam para superar as relações capitalistas de
fica esmaecida e com ela, a ação política. Dá-se, também, de produção da existência, por serem essencialmente excludentes,
forma mais complexa, como veremos ao longo do texto, com \ I 'vem aprender da direita a não transgredir princípios ideoló-
posturas de pensadores de tradição marxista, mas cujas análises I' i os e teóricos. O autor adverte-nos de que, na década de 1940,
acabam trabalhando mais o plano lógico e racionalista que Ilc yek era uma voz isolada quando postulava a restrição à li-
efetivamente o plano histórico da realidade. /) .rdade e à democracia como fundamentais para o sucesso
Três razões de ordem teórica e ético-política nos animam capitalista. Trinta anos depois suas teses são a base da onda
a prosseguir a análise da educação em suas relações com a n ioiiberal que avassala o mundo. Neste sentido, ao mesmo
produção material (economia) e, mais amplamente, com a pro- l 'mpo que devemos combater teórica e politicamente a tese do
dução ideológica e simbólica (ideias, valores, concepções, co- 11'1 rcado como regulador das relações humanas mostrando sua

nhecimentos etc.) no terreno do marxismo. Isto não nos exime i n apacidade de regular direitos fundamentais (saúde, educação,
da necessidade de dialogar e debater com contribuições que, .ultura etc.), necessitamos afirmar a democracia como valor
não pertencendo a esta tradição teórica ou até combatendo-a, universal e a solidariedade como base da utopia socialista.
são valiosas e indispensáveis para a compreensão da proble- O pressuposto fundamental da análise materialista histó-
mática aqui analisada. ri a é de que os fatos sociais não são descolados de uma mate-
A primeira, nos é sintetizada por Jameson (1994) quando rialidade objetiva e subjetiva e, portanto, a construção do conhe-
nos lembra que" o marxismo é a ciência do capitalismo" e, por- i mento histórico implica o esforço de abstração e teorização do
tanto, não podemos postular sua morte se o seu objeto não de- movimento dialético (conflitante, contraditório, mediado) da
sapareceu. Ao contrário, diz o autor, o marxismo é a única teoria r alidade. Trata-se de um esforço de ir à raiz das determinações
( I az de pensar o capitalismo dentro de uma perspectiva his- múltiplas e diversas (nem todas igualmente importantes) que
Inri n dial êtica evitando reducionismos, não sendo, todavia, onstituem determinado fenômeno. Apreender as determina-
11111111' '\' t 'R r ducionismos e à reificação conceitual. ções do núcleo fundamental de um fenômeno, sem o que este
20 GAUDtNClO FRIGOnO 111111
AI,
Ao I fi CRISE DO CAPITALISMO REAL 21

fenômeno não se constituiria, é o exercício por excelência da 1I1II11pitalhumano" disseminou-se, sendo rapidamente absor-
teorização histórica de ascender do empírico - contextualiza- li 1.,p '10' países do "Terceiro Mundo". No Brasil e, mais am-
do, particularizado e, de início, para o pensamento, caótico - ao I 1111H'nl" n.a América Latina, fez escola. É no final da década
concreto pensado ou conhecimento. Conhecimento que, por ser I. I%() lU os programas de pós-graduação em educação e as
histórico e complexo e por limites do sujeito que conhece, é I I. IlId \(I -s d educação introduzem nos seus currículos a dis-
sempre relativo.
'I"11.1H'on mia da Educação.
A educação no Brasil, particularmente nas décadas de 1960 ()f •i t do economicismo na política educacional, refor-
I'
e 1970, de prática social que se define pelo desenvolvimento de
1III1IlI.11id logia do regime militar, se expressaram, negati-
conhecimentos, habilidades, atitudes, concepções e valores
11111'1111', I' várias formas: pelo desmantelamento da escola
articulados às necessidades e interesses das diferentes classes
I 111"111I' rcf rço da educação como "negócio"; pelo dualismo
e grupos sociais, foi reduzida, pelo economicismo, a mero fator
1'11 1I11111'1'inlizava uma quantidade e qualidade de serviços
de produção - "capital humano". Asceticamente abstraída das
101111111 unnts diversos para as classes trabalhadoras e classe
relações de poder, passa a definir-se como uma técnica de pre-
.1111111111111,'; p 10 tecnicismo e fragmentação que diluíram e
parar recursos humanos para o processo de produção. Essa
concepção de educação como "fator econômico" vai consti- I 11111'11im ' 1' o processo de conhecimento; pela proletarização
tuir-se numa espécie de fetiche, um poder em si que, uma vez 111111'11',1
1Irio público ete. Efeitos que perduram e, em muitos
I 'I' " Ilgrnvam.
adquirido, independentemente das relações de força e de clas-
se, é capaz de operar o "milagre" da equalização social, econô- 111, Inos depois, num contexto da crise do Estado de
mica e política entre indivíduos, grupos, classes e nações. 111I 1111 011 do modelo fordista de regulação social que sus-
N o livro A produtividade da escola improdutiva: um (reiexame Itlllll ti pn 11'-0 de acumulação do capitalismo nos últimos
das relações entre educação e estrutura econômica capitalista (Pri- I" 1"' 11111 11110' dos mecanismos de reestruturação econômi-
gotto, 1984), buscamos analisar: os pressupostos e estrutura , 111,111 illIll I 'Ia exclusão, este trabalho busca, fundamental-
interna da "teoria do capital humano"; as condições históricas 11 1111 1111111,',11' duas ordens de questões.
no capitalismo monopolista que demandaram, produziram e I11li 11' i r'< inaliza que as novas demandas de educação
configuraram este conjunto de ideias, conceitos e doutrina que, 111111.ldll I 01' diferentes documentos dos novos senhores do
ao mesmo tempo, ocultam seus fundamentos; a mecanicidade ",{II IIMI, B10, BIRO - e seus representantes regionais
das análises que buscam vincular ou desvincular linearmente I I I', 1., )"'RLAC - baseadas nas categorias sociedade do
a educação do processo de produção; as consequências do 11/1'1,/',11'/1/11, uualidade total, educação para a competitividade,jor-
economicismo no plano político-educacional brasileiro; e, por expressam os limites das concepções
, ,1,11, /11I111 li poliualente,
fim, os elementos teóricos e político-práticos de "inversão de I li 11111díl (') i tal humano e as redefinem sob novas bases.
sinal" esboçado pela sociedade brasileira, materializado na I 1111\11'1I!i"ltod mudança das categorias e a necessidade de
luta por um projeto educativo- articulado aos interesses dos 111 I 111111\11LIreza excludente das relações sociais, especifi-
trabalhadores. ItI 11 1111'11\1/1contradições que o capital e os homens de ne-
Formulada no bojo das teorias do desenvolvimento nos "li 1111I 111 n.te encontram para adequar a educação aos
centros mais avançados do capitalismo monopolista, a "teoria 111,'11' I',. líxplicita, de igual modo, um espaço de contra-
22 GAUDfNCIO FRIGOTTO IIIUCAÇAo E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 23

dição dentro do qual é possível desenvolver uma alternativa fi i ntes para posturas analíticas e políticas neoanárquicas,
de sociedade e de educação democráticas que concorrem para 1\' 'a tológicas ou irracionalistas. A concepção dialética de reali-
a emancipação humana. t lide humano-social, enquanto uma teoria da história, parece,
A segunda centra-se na apreensão crítica das teses do fim Ii I speito das profecias de seu fim, constituir-se no horizonte
da sociedade do trabalho e na perda da centralidade do traba- I olítica e humanamente mais pertinente. Por certo, não sem
lho como categoria de análise das relações sociais. Esta ordem dvsafios, limites e riscos.
de questões se apresenta como uma problematização teórica Dentro desta compreensão, o primeiro capítulo demarca,
para aqueles que têm no trabalho, nas suas diversas formas ni ialmente, a concepção de educação como prática social que
históricas, uma categoria central na compreensão das relações (' define, nos múltiplos espaços da sociedade, na articulação
sociais e, entre estas, os processos e as relações educativas. I'om os interesses econômicos, políticos e culturais dos grupos
O pressuposto do qual partimos neste trabalho é que estas l)tl classes sociais. A educação é, pois, compreendida como
duas ordens de questões diferem e, de um modo geral, são 1'1 imento constituído e constituinte crucial de luta hegemônica.
conflitantes, mas que, paradoxalmente, se articulam, se reforçam I';xpomos, em seguida, de forma sucinta, os dilemas e as estra-
e se identificam em alguns aspectos, como é o caso da ideia de I ~gias da burguesia para subordinar a educação à esfera priva-
sociedade do conhecimento e do desaparecimento das classes tlu do capital. Detemo-nos, sobretudo, na apreensão da crítica
sociais. Ambas, por caminhos diversos, se desenvolvem a par- S oncepções de educação dominantes na década de 1970 no
tir da apreensão que fazem da crise do Estado de Bem-Estar ou, llrasil e no movimento de inversão, resultante dos embates da
mais amplamente, da crise do capitalismo e do socialismo real d \ ada de 1980, tendo como um dos eixos centrais de análise a
nestas últimas décadas (anos 1970/1990). rutegoria trabalho. Por fim, nesta introdução, demarcamos as
O trabalho é estruturado em quatro capítulos. Na realida- luas ordens de questões teórica e político-prática, acima refe-
de, na ordem de construção da análise, o vértice do conjunto ri Ias, que se colocam para aqueles que buscam entender as
da problemática aqui discutida encontra-se no segundo capí- r .lações sociais e os processos educatívos tendo o trabalho
tulo, que trata da natureza estrutural da crise do capitalismo, li I mano como categoria central.
dos traços conjunturais específicos que a mesma assume a O terceiro capítulo discute a tese do fim da sociedade do
partir dos anos 1970, das alternativas político-sociais de enfren- . Irabalho, face à reestruturação econômico-social e política den-
tamento da crise e dos custos humanos diferenciados da mesma. 11"0 de uma nova base técnica e as derivações que se extraem
A análise se delineia pela compreensão de que a tese do fim da (I .sta tese sobre o trabalho enquanto categoria sociológica de
história, de Fukuyama, seus pressupostos e corolários, que nnálise, e o fim das classes sociais. Partimos de trabalhos pon-
parte da dedução da crise do socialismo real como prova defi- luais de Claus Offe, Adam Schaff e Robert Kurz, autores com
nitiva da impossibilidade de substituir o "livre mercado" capi- trajetória teórico-intelectual e política bastante diversa, mas que
talista por qualquer outro tipo de relação social, apenas encobre I ar diferentes caminhos apontam o fim da sociedade do traba-
a crise desta forma de organização social, mas não a suprime, lho e com ela, das classes sociais fundamentais. Buscamos,
nem a minimiza. De outra parte, por mais cruel que seja a for- inicialmente, contextualizar estes trabalhos, publicados origi-
ma assumida atualmente pela exclusão social e dominância das nariamente na Alemanha no final da década de 1980 e início de
políticas neoliberais ou neoconservadoras, não são razões su- I 90, tanto em relação à produção mais ampla dos autores,
24 GAUDÊNClO FRIGOnO 1111! AÇAo E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 25

quanto à sua perspectiva eurocêntrica. Realçamos, em seguida, I nntradições engendram, para além de sua negatividade, urna
os argumentos básicos sobre a crise da sociedade do trabalho tividade que pode ser politicamente capturada pelas forças
111 ll-ji

e a não centralidade do trabalho enquanto categoria explicativa I'ol'l1.prometidas com a efetiva emancipação humana. A classe

das relações sociais. Por fim, neste capítulo, debatemos critica- .lominante brasileira, pela sua postura prática em face do pro-
mente, em Schaff, o determinismo tecnológico, em Offe, o redu cio- I' 'H '0 constituinte e de definição da Lei de Diretrizes e Bases da

nismo da categoria trabalho e, em Kurz, o mecanicismo das relações I':ducação Nacional e, agora, na revisão constitucional revela
sociais e sua perspectiva irracionalista. Dos três, apontamos o 'lu \ é, corno se referiu Marx aos alemães na Contribuição à cri-
silenciamento ou a eliminação dos grupos ou classes sociais 11mda filosofia do direito de Regel, coetânea "filosófica" no dis-
fundamentais e os movimentos a eles articulados corno sujeitos I li r O sobre a modernidade, mas não é "coetânea histórica",
da história. Corno consequência, mostramos que estas análises, num mesmo da burguesia dos centros hegemônicos do capita-
com nuances diversas e mais claramente em Kurz, acabam, I H1'l10. Na prática evidencia sua matriz cultural escravocrata,
ironicamente, reforçando a tese do fim da história. O horizonte nligárquica, elitista e despótica.
da travessia para o socialismo fica esmaecido em perspectivas Poderia ser afirmado o mesmo, ou pelo menos em parte,
utópicas de cunho religioso e escatológico, corno nos mostra rum relação a certas forças de "esquerda" que reduzem o Esta-
Rayrnond Williams. do ao governo e se fixam na trincheira da resistência, na pers-
O quarto e último capítulo debate as bases conceituais e jll' tiva do quanto pior melhor ou em posturas irracionalistas.

políticas da perspectiva neoliberal ou neoconservadora de t ) mbate contra-hegemônico traz a exigência da construção de


educação para ajusta-Ia ao processo de redefinição do novo 1 1111 a alternativa que tenha a democracia corno o valor funda-

padrão de acumulação e à alternativa democrática. No plano 111 .ntal.

teórico, às categorias de sociedade do conhecimento, qualidade total, Na conclusão, buscou-se demarcar algumas questões cen-
flexibilidade, participação, formação abstrata e polivalente que os lI'. is do trabalho no seu conjunto. Reitera-se que a problemáti-
homens de negócio e os intelectuais a eles articulados utilizam 1,1 xplicitada pelos homens de negócio, pelos apologetas da so-
para expressar o tipo de demanda de educação e formação I'i .dade do conhecimento ou pelos críticos da sociedade do
profissional, são contrapostas as categorias de escola unitária, Irnbalho, por tratar-se de formas específicas e diferenciadas de
educação eformação humana omnilateral, tecnológica ou politécnica, . \' irnpreender a crise do capitalismo deste final de século, em
expressando as demandas dos grupos sociais que constituem .u limites, também de forma diferenciada, explicitam contra-
a classe trabalhadora. No plano político prático, à tese do Esta- li ões que ajudam a qualificar, tanto o debate teórico, quanto
do mínimo, da regulação da educação pelo mercado, e aos ll-l alternativas políticas, numa perspectiva democrática. O li-
processos de descentralização autoritária, é apresentada a al- mite destas análises está, sobretudo, no puro e simples oculta-
ternativa da ampliação da esfera pública e, portanto, da demo- m nto das relações de poder e exclusão social, no primeiro caso,
cratização do Estado pela ação orgânica e transparente da so- ou mediante a supressão das classes e grupos sociais no emba-
ciedade civil. I ontra-hegemônico, no segundo. Neste último caso, também,
Ressaltamos, nesta análise, que a "nova qualidade" de O trabalho, de categoria histórico-ontológica, fica reduzido à
formação humana demandada pelos homens de negócio sinaliza sua forma fenomênica ou às determinações das relações sociais
o desenvolvimento de urna materialidade histórico-social cujas .apitalistas.
--- --- -------- -

CORTEZ
26 GAUDÊNClO FRIGOnO EDITORA 27

Vale ressaltar que esta análise é síntese de um processo de


reflexão desta última década e base para prosseguir a pesquisa
nesta área com ênfase nas mediações histórico-empíricas. Vários
interlocutores estão presentes nesta trajetória e de diferentes
formas. Trata-se, portanto, de uma apreensão individual de um
amplo esforço coletivo. Neste esforço ressalto os fecundos de-
bates e intercâmbios no GT Trabalho-Educação da Associação
I
Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd),
especialmente com Miguel G. Arroyo, Ramón Pena Castro,
Paolo Nosella, Maria Aparecida Ciavatta Franco, Lucília Ma-
chado, Acácia Kuenzer, Nilton B. Ficher, Iracy Picanço, Eunice A educação como campo social
Schilling Trein, Celso Ferretti e, nos últimos anos, Pablo Genti-
li que prefacia este trabalho. Destaco, também, os debates com de disputa hegemônica
os mestrandos dos programas de pós-graduação da Universi-
dade Federal Fluminense durante os cursos que ministrei e os
doutorandos da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo,
da Universidade Federal de Minas Gerais e Universidade Fe-
deral do Rio de Janeiro, pelo intercâmbio em frequentes e in- A educação, quando apreendida no plano das determina-
tensos seminários ou debates. Registro um especial agradeci- \'0 's e relações sociais e, portanto, ela mesma constituída e
mento a Floriano Paulo Corrêa Sobrinho, que digitou a versão 1'( lI1 tituinte destas relações, apresenta-se historicamente como

final do texto, e a Vera Maria de Almeida Corrêa pela compe- 11m ampo da disputa hegemônica. Esta disputa dá-se na pers-

tente leitura crítica dos originais. Nunca é demais lembrar, to- I ( tiva de articular as concepções, a organização dos processos
davia, que os posicionamentos e limites das análises aqui t' do conteúdos educativos na escola e, mais amplamente, nas

apresentadas devem ser debitados ao autor. ,Ii f rentes esferas da vida social, aos interesses de classe.

Cabe, finalmente, registrar que parte da pesquisa efetiva- Neste trabalho, elegemos como foco principal de preo-
da para a elaboração deste trabalho resultou, em sua primeira "li ação retomar algumas questões no âmbito das relações
versão, na tese para professor titular na disciplina de Economia I'IH,. sociedade, processo produtivo, processo de trabalho e
Política da Educação na Universidade Federal Fluminense e t' lucação ou qualificação humana que têm sido tratadas por
contou com o apoio do CNPq. 111 rentes campos do conhecimento: Economia, Economia da
I'; 1ucação, Sociologia, Sociologia do Trabalho, Psicologia Social
t' " própria Filosofia etc. Embora nossa ênfase seja no âmbito
Gaudêncio Frigotto
tltl Economia da Educação, é impossível eliminar a necessária
Rio de Janeiro, maio de 1995.
1'(,1 ção que mantém com os demais campos disciplinares. Ou

I 'j ,não há razões de ordem epistemológica para fixar frontei-


I' rs rígidas, já que todos estes campos, mesmo reconhecendo
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28 GAUD~NCIO FRIGOnO I111I1A~" For Evaluation
E A CRISEDO Only.
CAPITALISMO REAL 29

que sua especificidade não pode ser negada, têm como objeto azer valer os próprios interesses econômicos, políticos e cultu-
de análise e compreensão o homem em suas relações e práticas is. (Gryzybowski, 1986, p. 41-2)
1",

sociais.
imediato, este embate aparece repleto de sutilezas, cujo
No seu âmbito mais amplo, são questões que buscam
I 1'( I \o
de tomar-se o movimento da realidade na sua imedia-
apreender a função social dos diversos processos educativos na
111 .Iode fenomênica ou no plano político-jurídico e ideológico,
produção e reprodução das relações sociais. No plano mais es-
I 11I1l( I S ndo a própria realidade concreta. Por este ardil, acaba-se
pecífico, tratam das relações entre a estrutura econômico-social,
t nnfundindo os processos históricos que mudam, às vezes
o processo de produção, as mudanças tecnológicas, o processo
Iuufundamente, a estrutura social, os processos produtivos, a
e divisão do trabalho, produção e reprodução da força de tra-
,I I '50 e o conteúdo do trabalho, os processos educativos e as
balho e os processos educativos ou de formação humana.
IIII 111 a de reprodução da força de trabalho, como necessidades

Além da reprodução, numa escala ampliada, das múltiplas ha- til' I" f uncionalização das relações sociais dominantes com as

bilidades sem as quais a atividade produtiva não poderia ser II Illlif rmações fundamentais que mudam e alteram a nature-
realizada, o complexo sistema educacional da sociedade é tam- I li -stas relações.
bém responsável pela produção e reprodução da estrutura de Por diferen:tes caminhos de caráter determinista e meca-
valores dentro da qual os indivíduos definem seus próprios I\I,!:.,I" este risco assume um caráter mais crucial na medida
objetivos e fins específicos. As relações sociais de produção ca-
1'111 qu se tomam as mudanças tecnológicas e "das formas da
pitalistas não se perpetuam automaticamente. (Mészáros, 1981,
H'i.,bilidade capitalista" - reais e profundas -, como a su-
I
p.260)
IU"\l - O tout court destas relações sociais capitalistas. 1

Na perspectiva das classes dominantes, historicamente, Neste sentido, ao contrário do que postula o ideário liberal
a educação dos diferentes grupos sociais de trabalhadores deve ,111, si o, o longo processo de passagem do feudalismo para o
dar-se a fim de habilitá-los técnica, social e ideologicamente I 'ma capitalista não representou a superação de uma socie-
para o trabalho. Trata-se de subordinar a função social da ,IIHI ' marcada pela opressão, servilismo e desigualdade de
educação de forma controlada para responder às demandas III1 S \ por uma sociedade livre e igualitária. A superação do

do capital. 1'1 vilismo e da escravidão não foram pressupostos para a abo-

Na perspectiva dos grupos sociais que constituem, espe- I '.to da sociedade classista, mas condição necessária para que
II nova sociedade capitalista pudesse, sob uma igualdade jurí-
cialmente, a classe trabalhadora,
,I i " formal e, portanto, legal (certamente não legítima), instau-
a educação é, antes de mais nada, desenvolvimento de poten- I I" t S bases das relações econômicas, políticas e ideológicas de
cialidades e a apropriação de "saber social" (conjunto de conhe-
cimentos e habilidades, atitudes e valores que são produzidos
I. orno veremos ao longo deste trabalho e como analisam diferentes autores,
pelas classes, em uma situação histórica dada de relações para
Williams (1984) e R. P. Castro (1992 e 1994) entre outros, este determinismo
dar conta de seus interesses e necessidades). Trata-se de buscar, 11111 I~l em tomar-se a tecnologia como uma variável, um fator independente e
na educação, conhecimentos e habilidades que permitam uma I1I11 1101110 aos interesses de classe e às relações de poder e, portanto, como algo
melhor compreensão da realidade e envolva a capacidade de 1'1II'IIS ·oeia!.
11111fll, "01 A CRISE DO CAPITALISMO REAL 31
30 GAUDÊNCIO FRIGOnO

uma nova sociedade de classes. O mercado, sob as relações das 1II blls das teses do fim das classes, do surgimento da socie-
classes fundamentais capital! trabalho, de um lado, constitui-se 111111,' harmônica e igualitária do conhecimento e do mundo
no locus fetichizado, por excelência, onde todos os agentes eco- ll'l hlstórico. Por este "borramento" lógico das classes sociais
IIllh 1-' perdendo aquilo que K. Kosik define como sendo
nômicos e sociais supostamente se igualam e podem tomar suas
decisões livres, e o contrato, de outro, na mistificação legal da
() ritério objetivo para a distinção entre mutações estruturais
garantia do cumprimento das escolhas "igualitárias e livres". - que mudam o caráter da ordem social- e mutações deriva-
A perspectiva crítica mais atual e radical da falsidade dA " secundárias, que modificam a ordem social, sem porém
deste pressuposto e a explicitação da natureza classista, exclu- mudar essencialmente seu caráter. (Kosik, 1986, p. 105)
dente e alienadora da sociedade capitalista, na sua gênese e na
N plano da concepção da realidade histórica não estamos,
sua "anatomia" geral, é, ainda, sem dúvida, a obra de Marx e
11111' I Iiante de um embate novo, mas apenas de questões e pro-
Engels, particularmente O capital (não importa o descaso dos
Id"1111 que assumem um conteúdo histórico específico dentro
adeptos do mundo "pós-histórico"). Nesta crítica explicita-se
d" novas formas da sociabilidade capitalista. Na verdade, são
tanto o caráter de positividade da revolução burguesa nas re-
'IIH' 1- s que engendram um velho debate travado, não apenas
lações de produção e políticas, na ruptura das visões metafísi-
1111 J1 bito da economia clássica liberal (Adam Smith e Stuart
cas teocêntricas de conhecimento, e um amplo desenvolvimen-
~I 11) 'clássica marxista (Marx e Engels), mas, mais amplamen-
to da ciência moderna, quanto o caráter de negatividade pela
II II{) onjunto do pensamento que embasa o ideário da socie-
I
cristalização de uma nova relação classista e, portanto, de ex-
dnd \ apitalista e das perspectivas que lhe são antagônicas.
ploração e alienação.'
I or esta razão, podemos perceber que a explicitação do
As análises de E. Hobsbawm e de Francisco de Oliveira
11111 'i ocial da educação, ou especificamente da relação entre
(que retomaremos adiante) nos ajudam, ao mesmo tempo, a 't I 1'0 sso de produção e os processos educativos ou de forma-
perceber o equívoco das teses do quanto pior melhor, na pers- I dO humana, vem marcada por concepções conflitantes e, so-
pectiva de superação da forma capitalista de relações sociais, Illi'llldo, antagônicas. Desde os Manuscritos filosóficos de 1844 e
como entender que tal superação somente pode ser construída H I longo de sua obra, ao referir-se aos fundadores da economia
mediante a ação política, nas vísceras mesmo da contradição I 1I 'si a liberal ou aos apologetas das relações sociais da socie-
capitalista, mediante o fortalecimento e ampliação democrática dll I' capitalista nascente, Marx insiste em mostrar que suas
da esfera pública. Nesta perspectiva não se abrem espaços nem 11'1 1" entações explicitam como se produz dentro da relação
para o voluntarismo, nem para o otimismo ingênuo ou deter- 1111 italista, mas não como se produz esta própria relação:
minismo da revolução tecnológica. Este determinismo tem estado
A economia política parte do facto da propriedade privada. Não
o explica. Concebe o processo material da propriedade privada,
2. Não cabe aqui retomar esta análise não só pela razão de que a obra de Marx como ele ocorre na realidade, em fórmulas gerais e abstractas,
e Engels nunca esteve, talvez, a preços tão baixos - síndrome da queda do muro
que em seguida lhes servem de leis, não compreendem tais leis,
de Berlim e do colapso do socialismo real - mas, também, porque é abundante a
isto é, não demonstram como elas derivam da essência da pro-
literatura no campo econômico, sociológico, político e educacional que faz este
resgate. priedade privada. (Marx, 1964, p. 157-8)
33
32 GAUD~NClO FRIGOnO 111111AÇ Ao E A CRISE DO CAPITALISMO REAL

Ao elidir as determinações que produzem as relações so- 1" 'l'I iva clássica liberal ou neoliberal, é explicitada pela con-
ciais capitalistas, estas passam a ser concebidas como naturais 'l'pÇ~O de que a sociedade é constituída por fatores onde, em
e, portanto, independentes da ação dos homens. A tese do d,'ll'nninado período, um destes fatores é o fundamental e
mundo pós-histórico (Fukuyama, 1992, p. 101) constitui-se hoje ,I, 'I .rminante, como por exemplo, a economia, e em outros será
na explicitação mais anacrônica, vulgar, perversa e cínica da I Iiolítica, a religião (ver Kosik, 1986, p. 99-108). Por esta pers-

saída neoconservadora da naturalização do mercado como o 1I 'I'Liva,o trabalho, a tecnologia, a educação são concebidos
"deus" regulador do conjunto das relações e necessidades , '11\) fatores. A educação e a formação humana terão como
humano-sociais. Illl'ito definido r as necessidades, as demandas do processo de
li \I mulação de capital sob as diferentes formas históricas de
Neste texto introdutório, cujo objetivo é o de, ao situar a
'H'i. bilidade que assumir. Ou seja, reguladas e subordinadas
natureza histórica desse embate, apreender a problematicidade
que o mesmo engendra nas formas atuais da sociabilidade I li ,11 sfera privada, e à sua reprodução.
capitalista, vamos situar: os dilemas da burguesia nascente Numa perspectiva histórica de análise, Marx e Engels, e a
sobre a questão educativa; a estratégia reiterativa da segmen- " II ola marxista, de um modo geral, concebem a realidade social

tação e do dualismo como forma de subordinar os processos 'H110 uma estrutura, uma totalidade de relações onde, em sua

educativos aos interesses da reprodução das relações sociais unidade diversa, o conjunto de relações sociais e econômicas,
capitalistas; e o caráter perverso desta subordinação na reali- I or erem imperativas na produção da vida material dos seres
dade brasileira. Em seguida, vamos sinalizar o contexto em que humanos, constituem-se na base a partir da qual se estrutura e
a educação é alçada ao status de capital humano, elemento espe- I' ondiciona a vida social no seu conjunto. Como, em diferen-

cífico da teoria conservadora do desenvolvimento, e os cami- . 11', momentos, estes autores insistem, o caráter fundamental
nhos que assumiu a crítica a esta perspectiva no campo educa- ,I 18 relações sociais de produção não confere às mesmas a de-
cional, no Brasil. Por fim, vamos expor a natureza das questões I nição única e isolada das demais determinações. As relações
apresentadas como desafio teórico e político-prático na relação "I'onômicas são, antes de tudo, relações sociais e, enquanto tais,
trabalho-educação, e a "nova" função social dos sistemas edu- "111endram todas as demais. O ser humano que atua na repro-
cativos diante das novas formas assumidas pelas relações sociais I I \I ão de sua vida material o faz enquanto uma totalidade
de produção num contexto de crise do modelo de desenvolvi- I' i ofísica, cultural, política, ideológica etc.
mento que sustentou o processo de acumulação capitalista nos O trabalho, nesta perspectiva, não se reduz a "fator", mas
últimos cinquenta anos. ", por excelência, a forma mediante a qual o homem produz
I, condições de existência, a história, o mundo propriamen-

li' humano, ou seja, o próprio ser humano. Trata-se de uma


1. A segmentação e fragmentação como estratégias da l' lt goria ontológica e econômica fundamental. A educação
subordinação dos processos educativos ao capital t.imbém não é reduzida a fator, mas é concebida como uma
I r tica social, uma atividade humana e histórica que se define
Na sua formulação mais geral, a análise das relações entre 110conjunto das relações sociais, no embate dos grupos ou
o processo de produção e as práticas educativas, desde a pers- '1 ses sociais, sendo ela mesma forma específica de relação
34 GAUDtNClO FRIGOnO 11111 A Ao E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 35

social. O sujeito dos processos educativos aqui é o homem e li', transforma o trabalho de criador da vida humana em alie-
suas múltiplas e históricas necessidades (materiais, biológicas, u.idc r da vida do trabalhador.
psíquicas, afetivas, estéticas, lúdicas). A luta é justamente para Ao tratar da função social e da crise da educação, no in-
que a qualificação humana não seja subordinada às leis do II.dor da crise do capitalismo contemporâneo e de suas insti-
mercado e à sua adaptabilidade e funcionalidade, seja sob a Illiçõ s. Mészáros, de forma clara, situa a questão central
forma de adestramento e treinamento estreito da imagem do 111\' 1 iante a qual podemos analisar o confronto das perspectivas
mono domestificável dos esquemas tayloristas, seja na forma da illlma:
polivalência e formação abstrata, formação geral ou policogni-
ção reclamadas pelos modernos homens de negócio (Veblen, 1918) e essas instituições - inclusive as educacionais - foram feitas
e os organismos que os representam. para os homens, ou se os homens devem continuar a servir às
relações sociais de produção alienadas - é esse o verdadeiro
A qualificação humana diz respeito ao desenvolvimento
tema do debate. (Mészáros, 1981, P: 272)
de condições físicas, mentais, afetivas, estéticas e lúdicas do ser
humano (condições omnilaterais) capazes de ampliar a capaci- O caráter subordinado das práticas educativas aos interes-
dade de trabalho na produção dos valores de uso em geral como \'H I capital historicamente toma formas e conteúdos diversos,
condição de satisfação das múltiplas necessidades do ser hu- 1111 .apitalismo nascente, no capitalismo monopolista e no ca-
mano no seu devenir histórico. Está, pois, no plano dos direitos Illt.liismo transnacional ou na economia globalizada. Em boa
que não podem ser mercantilizados e, quando isso ocorre, 111\' lida, a literatura nos revela as formas específicas desta su-
agride-se elementarmente a própria condição humana. hordinação e não é objetivo deste trabalho expô-Ias. Cabe,
Por ser o trabalho o pressuposto fundante do devenir Itil 'nas, registrar que o caráter explícito desta subordinação é
humano, ele é o princípio educativo e, portanto, é fundamental 111' LI ma clara diferenciação da educação ou formação humana

que todo o ser humano, desde a mais tenra idade, socialize este 1'11 rn as classes dirigentes e a classe trabalhadora.
pressuposto. É desta compreensão do trabalho como-criador Esta subordinação nem sempre é de fácil dissimulação ao
da realidade humana (não enquanto visão moralizante, peda- IIIII!; do desenvolvimento do sistema capitalista. Assim, por
gogista) que Marx e Engels postulam a união do trabalho ma- II r 'r ntes maneiras, o caráter contraditório das relações sociais
nual, industrial, produtivo, com O trabalho intelectual. Nem l'rll italistas pode ser explicitado no âmbito das relações entre
Marx nem Engels definem a forma e o conteúdo que esta cate- I o iedade e os processos educativos, ou destes com o proces-

goria antediluviana (como eles próprios lembram) vai assumir I1 produtivo. Isto nos indica, de um lado, que o capital é pri-
historicamente. Na base da análise do seu tempo histórico e na (lI ciro de sua contradição, de seus limites de concepção
perspectiva do avanço tecnológico e, portanto, da potenciação (1I',)gmentária) da realidade, portanto não é onisciente e, de
das forças produtivas, apontam a hipótese da superação do Ili IIro, que é confrontado por interesses da classe trabalhadora
trabalho manual acabrunhador e a possibilidade da redução 'lu' lhe são antagônicos.
do trabalho sob o mundo da necessidade e a dilatação do mun- No plano histórico mais distante, o inventário das posições
do da liberdade. Esta possibilidade, na sua forma mais plena, tllll r os fundadores do liberalismo clássico e entre os iluminis-
implica a supressão da relação capitalista que, dominantemen- 111 inaliza como a questão da educação na perspectiva da
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II UCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 37
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subordinação das relações capitalistas é, ao mesmo tempo, í'Í'tas, e no bojo da estruturação originária do conceito de
necessária e problemática. Há, de um lado, a necessidade de deologia como sendo a ciência das ideias, expõe como natural a
que a reprodução da força de trabalho seja moldada, forjada, existência de uma escola e de uma formação dualista. Defende
fabrica da para a disciplina e subordinação das novas relações In mbém como natural, a subordinação do ensino e qualificação
de produção mas, ao mesmo tempo, há a necessidade de esta- \18s classes trabalhadoras às necessidades imediatas da produ-
belecer uma distinção clara com as formas servis e escravocra- ~'iio, enquanto os filhos das classes dirigentes deveriam ser
tas do ancien régime.
I r parados para governar:
Antes mesmo da consolidação dos sistemas de ensino, em
1757, Voltaire recomendava ao rei da Prússia que a canalha não Os homens de classe operária têm desde cedo necessidade do
era digna de ser esclarecida: trabalho de seus filhos. Essas crianças precisam adquirir desde
cedo o conhecimento e sobretudo o hábito e a tradição do traba-
A canalha (as massas) é indigna de ser esclarecida (...) é essencial lho penoso a que se destinam. Não podem, portanto, perder
que haja cozinheiros ignorantes (...) e o que é de lei é que o povo tempo nas escolas. (...) Os filhos da classe erudita, ao contrário,
seja guiado e não seja instruído. (apud Arroyo, 1987, p. 75) podem dedicar-se a estudar durante muito tempo; têm muitas
coisas para aprender para alcançar o que se espera deles no fu-
Em contrapartida, na mesma época, Diderot fazia a reco- turo. (...) Esses são fatos que não dependem de qualquer vonta-
mendação à imperatriz da Prússia, defendendo a instrução para de humana; decorrem necessariamente da própria natureza dos
todos. Rousseau, embora com uma perspectiva de condenação homens e da sociedade: ninguém está em condições de mudá-Ias.
à ciência e ao progresso técnico, por confundir, como mostrará Portanto trata-se de dados invariáveis dos quais devemos partir.
mais tarde Marx, a forma histórica capitalista de produção e (Desttut, 1908)
utilização da ciência e das máquinas, com o próprio progresso
técnico, coloca-se numa perspectiva oposta à de Voltaire e rom- Desttut conclui que todo Estado bem administrado deve
pe com os ideais da Ilustração (Nosella, 1977, p. 34-5). As refe- providenciar dois tipos de sistema de instrução totalmente
rências de Smith de uma instrução em doses homeopáticas e, um I1istintos.'
século mais tarde J. Mill (1848), de uma educação nacional das Marx e Engels, embora não tenham efetivado uma análise
crianças das classes trabalhadoras para o cultivo do bom senso I'Kpecífica da questão educacional, em diferentes momentos
e que tudo o mais é "sobretudo decorativo", caminham na I riticam a perspectiva unilateral da subordinação da escola ao
mesma direção. capital sob as relações capitalistas e os mecanismos de burla às
Na medida, todavia, em que o sistema capitalista se soli- I n rcas conquistas dos trabalhadores contempladas nas cláusu-
difica e os sistemas educacionais se estruturam, assume nitidez 1.1Ssobre educação nas leis fabris. Em suas obras, em diferentes
a defesa da universalização dualista, segmentada: escola disci- m mentos, delineiam-se as bases filosóficas de uma concepção
plinadora e adestradora para os filhos dos trabalhadores e es- ornnilateral de educação e de qualificação humana, inscrita no
cola formativa para os filhos das classes dirigentes.
Desttut de Tracy, no final do século XVIII e alvorecer do 3. Para uma análise do dilema que enfrenta a burguesia na organização dos
século XIX, no contexto das concepções naturalistas e organi- lltllcrnaseducacionais, ver Arroyo (1987).
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II UCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL

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horizonte da instauração de novas relações sociais dentro de âmara dos Deputados, com a obrigatoriedade real apenas até
urna nova sociedade.' o quinto ano de escolaridade. Aproximadamente sete milhões
Nos séculos XIX e XX, particularmente nos países euro- li crianças estão fora da escola, mais de vinte milhões de anal-
peus, ocorrem reformas educacionais, mudanças de perspecti- Ic betos absolutos e 80% da população com uma alfabetização
vas pedagógicas, massificação e elevação dos níveis de escola- precária. As razões desta perversidade são de várias ordens.
rização. Entre as três mudanças mais significativas deste final 1\ pontamos aqui apenas o horizonte por onde entendemos as
de século, apontadas por Hobsbawm (1992b), urna é a da cres- li terminações mais estruturais.
cente intelectualização e, portanto, de elevação dos patamares Num primeiro plano situam-se o fato de sermos uma so-
educacionais em todo o mundo. De forma cada vez mais dissi- iedade que definiu sua independência pelas mãos do coloni-
mulada, todavia, o desenvolvimento dos sistemas de ensino zador. Herdamos, pois, urna matriz cultural bastante peculiar,
solidificaram urna estrutura dualista e segmentada que perdu- onde o colonizado se identifica com o colonizador. Apagam-se
ra até o presente, ainda que de forma diferenciada, em contex- l raízes ou são renegadas. Perfilamos urna relação de submis-
tos específicos nas diferentes formações sociais capitalistas." H~o. No passado mais remoto, essa submissão se dava em rela-
Paradoxalmente, é da França já no ocaso do século XX - '50 aos conquistadores e colonizadores. Hoje, continuamos a
contrastando com o ideário da Revolução Burguesa que há mais H 'r colonizados mediante a integração subordinada ao grande
de dois séculos proclamava a defesa da escola pública, gratui- .apital. Não só somos a sociedade que mais retardou a liberta-
ta, universal e laica -, que nos chegam as análises sociológicas ção dos escravos, corno pertencemos àquelas que os analistas
mais agudas que demonstram o caráter dominantemente re- Hituam corno de Terceiro Mundo.
produtor, dualista e classista da educação, com Bourdieau e A Revolução de 1930, embora explicite mudanças e re-
Passeron (1975), Baudelot e Establet (1971) e Establet (1987). formas significativas no plano do Estado, da economia e da
A análise da educação no Brasil- desde o Império e a sua I olítica, não constituiu efetivamente urna ruptura com as
"boa sociedade" às démarches da República Velha e até os dias v lhas oligarquias. A elite industrial que se forjou nos anos
atuais da República - nos traça um quadro de extrema perver- 1920 e após 1930 é frágil e dependente das oligarquias agrárias.
sidade. Somente em 1930 se efetiva um esforço para a criação ligarquias que, corno apontam as análises de Bosi (1992),
de um sistema nacional de educação, mas chegamos em 1993 Villas (1991), Weffort (1992) entre outros, têm a capacidade de
colocando no texto da nova LDB, barganhada e aprovada na manter a desarticulação entre o político e o social (democracia
política e profunda exclusão social) e de defender a moderni-
lade e, ao mesmo tempo, de manejar, sem remorsos, a chiba-
4. A perspectiva de Marx e Engels sobre a questão educacional pode ser
ta senhorial.
apreendida em Marx e Engels, Textos sobre educação e ensino (1983);M. Manacorda,
Marx e a pedagogia moderna (1991b); e Nogueira, Educação, saber, produção em Marx e Mantém-se, até hoje, urna cultura que escamoteia os con-
Engels (1990). flitos, as crises, embora a sociedade viva em crises e em confli-
5. Vários textos da história da educação nos explicitam as mudanças das tos. Sob o paternalismo e clientelismo, dilui-se o conflito capi-
perspectivas pedagógicas e organizacionais dos sistemas educacionais a partir do
século XVII - Luzuriaga (1971), M. Manacorda (1989), Suchodolsky (1984) e Sa-
tal-trabalho, minimiza-se a desigualdade social e a profunda
viani (1988). discriminação racial. Faz-se a apologia da conciliação e da har-
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40 GAUD~NClO FRIGOTTO FDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL
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monia "balofa". O próprio sistema intelectual dominante de- t conteceu em 1930 com as propostas da Aliança Liberal no
senvolve-se com uma postura marcante de desenraizamento. plano educacional, insiste Candido, foi reprodução dos meca-
No plano econômico, esta matriz explícita-se, como nos nismos dos privilégios. Não se tratava, portanto, de uma revo-
indica Francisco de Oliveira, no uso dilapidador do fundo I ução educacional, mas de uma reforma ampla, e, no que con-
público. O Estado é estrutura do como uma espécie de deus me ao grosso da população, a situação pouco se alterou.
[anus que tem uma dupla face: uma privada e a outra pública,
Nós sabemos que (ao contrário do que pensavam aqueles liberais)
que atua em função desta. Historicamente, tem se constituído
as reformas na educação não geram mudanças essenciais na
no grande fiador de uma burguesia oligárquica, protegendo
sociedade porque não modificam a sua estrutura e o saber con-
latifúndios improdutivos, terra como mercado de reserva,
tinua mais ou menos como privilégio. (Candido, 1984, p. 28)
subsídios sem retorno e especulação financeira. Os incentivos
fiscais constituem-se na ampliação de subsídios do fundo pú- Para Candido, o único país que realizou uma revolução
blico ao enriquecimento fácil e rápido de restritos grupos. Uma I o campo educacional na América Latina foi Cuba, porque fez
burguesia que sabe ser competente quando apoiada no fundo lima verdadeira revolução social."
público. Nesta relação misturam-se jogo de influências, forma-
Na década de 1950 e início da década de 1960, esboçou-se,
ção de quadrilhas de corrupção no âmago do aparelho do Es-
na sociedade brasileira, em todos os âmbitos, um movimento
tado, nepotismo e usura.
li ue apontava para reformas de base e para a implantação de uma
No plano político, como analisa Debrum no ensaio A conci-
sociedade menos submissa ao grande capital transnacional, às
liação e outras estratégias (1983), desde a independênciaaté hoje
oligarquias e, portanto, mais democrática. Este movimento
se alternam as estratégias da conciliação conservadora, do auto-
-nvolveu grupos importantes da sociedade: movimentos de
ritarismo e do apelo, no plano do discurso, ao ideário liberal.
ultura popular, de erradicação do analfabetismo, de educação
Há, contudo, sinais de rompimentos com esta tradição. As I opular, cinema novo, teatro popular, movimento estudantil e,
marúfestações e démarches que culminaram com o julgamento no plano político-econômico, um projeto que procurava romper
e afastamento de Collor, explicitam um tecido de sociedade que m a relação de submissão unilateral ao capital transnacional.
tem novas forças e atores sociais em jogo, sinalizando uma nova n se processo foi abruptamente interrompido pelo golpe cioil-mi-
direção. Estes novos atores sociais (novo sindicalismo, movi- liiar de 1964.7
mentos sociais urbanos, movimentos do campo, movimentos
das minorias), como veremos adiante, redefinem a relação Es-
6. Uma visão geral da história da educação no Brasil nos é dada por Romanelli
tado-sociedade sob novas bases.
(1990). No plano da incorporação das teorias e concepções educacionais e do ajus-
No plano educacional, mostra-nos A. Candido, que até le da educação ao golpe militar, ver Saviani (1988a e 1988b).
mesmo as propostas de reformas localizadas e de caráter mais 7. A leitura mais apressada deste movimento o reduz a uma espécie de quar-
liberal na década de 1920, como as de Lourenço Filho no Ceará telada quando, na verdade, tratou-se de um movimento cuja raiz mais profunda
Hl' plotava na matriz de um projeto conservador das elites que, para defender seus
em 1924, a de Francisco Campos em Minas Gerais em 1927 e a
privilégios, o latifúndio e a exclusão social recorrem, de tempos em tempos, à tu-
de Fernando de Azevedo, no então Distrito Federal em 1928, u-la dos quartéis. Os organismos intelectuais coletivos deste movimento tinham
tiveram ferrenha resistência, especialmente da Igreja. O que NeLI laboratório no IPES, CONCLAP e IBAD.
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GAUD~NClO FRIGOnO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL
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o que é aparentemente estranho, mas, posto na matriz analfabetismo para aqueles que lutam por uma efetiva de-
Ilt
cultural das elites dirigentes brasileiras já referidas, compreen- mocracia no Brasil.
sível pela sua extrema funcionalidade, é que sem conseguir a Veremos, adiante, como os novos sujeitos sociais vão se
universalização da escola básica, já a partir do final dos anos constituindo no tecido da sociedade brasileira, influenciando a
1930, sob a tutela e subsídio do Estado foi montado um eficien- r ilação entre Estado e sociedade, materializando, no campo
te e amplo sistema de comunicação de massa, de início com a , I ucacional, um embate de natureza muito diversa dos emba-
radiodifusão e, mais tarde, sob as sombras do regime militar, dos anos 1930 e mesmo dos anos 1950 neste âmbito.
as redes de televisão. O monopólio (global) da mídia, em par-
ticular da televisão, constituiu, como o entende Pasolini (1990),
um verdadeiro poder fascista.
2. A educação alçada a capital humano - uma esfera específica
Os dados de expansão do sistema educacional e de entra-
da e permanência na escola e do acesso à televisão nos indicam
das teorias de desenvolvimento
uma progressão aritmética no caso da escola e geométrica no
caso da TV.Para se ter uma ideia, em relação ao primeiro grau, Como assinalamos anteriormente, embora a relação entre
em 1960 o país tinha 86,7 mil estabelecimentos e em 1988, 28 o processo econômico-social e a educação já esti~esse presente
anos depois, passou para 190,4 mil. No mesmo ano 0,9% dos na escola clássica liberal (Adam Smith, Stuart Mill), a constru-
domicílios dos grandes centros urbanos tinham aparelho de TV <,'50 de um corpus teórico dentro de um campo disciplinar-
e vinte anos depois, em 1980, esse número progrediu para mais I~onomia da Educação - que define a educação como fator de
de 6 vezes, 55,9 e, em 1989, para 72,6, oito vezes mais. O mesmo I rodução, se explicita somente no contexto das teorias do .de-
IBGE mostra que nestes mesmos domicílios, em 1989, 56,1% s nvolvimento, mais especificamente na teoria da moderniza-
tinham filtro de água em casa, 56,1% geladeira, e 72,6% dis- (,50, após a Segunda Guerra Mundial.
punham de aparelho de TV (IBGE, PNAD, 1989).8
A teoria do capital humano é uma esfera particular da teoria do
Ao contrário do que ocorreu na Europa, onde o sistema desenvolvimento, marcada pelo contexto em que foi produzida,
de comunicação de massa se desenvolveu em uma sociedade uma das expressões ideológicas dominantes desse período. A
amplamente escolarizada, no Brasil universalizou-se rapida- teoria do desenvolvimento, geral e abrangente, pelas suas carac-
mente, onde a maior parte da população é analfabeta ou se- terísticas e pela problemática abordada, é muito mais uma teori.a
mianalfabeta. Por certo a luta pelo controle democrático da da modernização do que uma teoria explicativa do desenvolvi-
mídia é hoje um desafio tão importante quanto a erradicação mento capitalista, isto é, das bases materiais e das condições
sociais em que assenta o processo de produção e reprodução das
formações sociais capitalistas. (Grzybowski et alii, 1986, p. 12)
8. Vários trabalhos analisam os meios de comunicação social e seu significado
político e cultural, como Sodré (1990, 1991), Miceli (1972). Para a análise do signi-
A construção sistemática desta "teoria" deu-se no grupo
ficado social, político e cultural da relação entre o sistema educacional inconcluso
e precário e a universalização do acesso à mídia no Brasil após os anos 1950, ver de estudos do desenvolvimento coordenados por Theodoro
Mazione, M. c., Educação e meios de comunicação de masca: escola, indústria cultural chultznos Estados Unidos, na década de 1950. O enigma para
e hegemonia burguesa no Brasil. a equipe de Schultz era descobrir o "germe", a "bactéria", o
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A CRISE DO CAPITALISMO REAL 45

fator que pudesse explicar, para além dos usuais fatores A (ní- mento e eliminação das desigualdades, não pelo incentivo ao
vel de tecnologia), K (insumos de capital) e L (insumos de mão conflito de classes, mas pela equalização do acesso à escola e
de obra), dentro da fórmula geral neoclássica de Cobb Douglas, pelo alto investimento em educação (Simonsen, 1969). O Mobral,
as variações do desenvolvimento e subdesenvolvimento entre de triste memória, foi a grande obra, em matéria de educação,
os países. Schultz notabiliza-se com a "descoberta" do fator H, que Simonsen criou e deixou corno legado.
a partir da qual elabora um livro sintetizando a "teoria" do
Dois aspectos básicos ocupam a literatura que aborda a
capital humano, que lhe valeu o prêmio Nobel de Economia educação corno capital humano, desde o início, internamente
em 1968 (Schultz, 1973). No Brasil, esta teoria é rapidamente conflitantes. O primeiro é a tentativa do ponto de vista macro
alçada ao plano das teorias do desenvolvimento e da equaliza-
e microeconômico de se mensurar o impacto da educação sobre
ção social no contexto do milagre econômico.
o desenvolvimento. O pomo de discórdia aqui é de ordem
A idéia-chave é de que a um acréscimo marginal de ins- metodológica e não de concepção. No plano da literatura inter-
trução, treinamento e educação, corresponde um acréscimo nacional destacamos, na perspectiva macro, os estudos de
marginal de capacidade de produção. Ou seja, a ideia de capi- Harbinson e Myers (1964) e no plano nacional, os de Langoni
tal humano é urna "quantidade" ou um grau de educação e de (1974) e Simonsen (1969), que tentaram mensurar o impacto da
qualificação, tornado corno índicativo de um determinado vo- educação de forma agregada no desenvolvimento ou desenvol-
lume de conhecimentos, habilidades e atitudes adquiridas, que ver métodos de projeções e de previsão de necessidades de mão
funcionam corno potencializadoras da capacidade de trabalho de obra e nível de instrução, corno manpower approach. No pla-
e de produção. Desta suposição deriva-se que o investimento no micro, a ênfase é na análise de custo, taxa de retorno, cus-
em capital humano é um dos mais rentáveis, tanto no plano to-benefício, análises de oferta e demanda etc. Blaug (1972) e
geral do desenvolvimento das nações, quanto no plano da Becker (1964) são dois dos principais representantes interna-
mobilidade individual. cionais e C. Castro (1971,1976), no Brasil.
A disseminação da "teoria" do capital humano, corno O segundo aspecto básico, o mais importante para o que
panaceia da solução das desigualdades entre países desenvol- nos interessa na discussão que faremos adiante, centra-se no
vidos e subdesenvolvidos e entre os indivíduos, foi rápida nos debate sobre o pressuposto básico e mais amplo da "teoria",
países latino-americanos e de Terceiro Mundo, mediante os que é da educação ser produtora de capacidade de trabalho. A
organismos internacionais (BID, BIRD, OIT, UNESCO, PMI, questão básica é, pois, corno e que tipo de educação é gerador
USAID, UNICEP) e regionais (CEPAL, CINTERFOR), que re- de diferentes capacidades de trabalho e, por extensão, da pro-
presentam dominantemente a visão e os interesses do capita- dutividade e da renda.
lismo integrado ao grande capital.
Aqui, urna vez mais, sem romper com a matriz conceptual
É na crença nesta mágica solução, ao largo das relações de (da metafísica da cultura, diria Kosik, 1986), o embate é sobre
poder na sociedade, que um dos mais ilustres representantes o que de fato produz a capacidade de potenciar trabalho e o
da escola econômica neoclássica no Brasil, Mário H. Simonsen, que a escola efetivamente desenvolve: conhecimento e habili-
no final da década de 1960 e início de 1970, pregava ao mundo dades técnicas específicas ou determinados valores e atitudes
que o Brasil tinha encontrado seu caminho para o desenvolvi- funcionais ao mundo da produção. Os estudos dos economistas
GAUDÊNClO FRIGOTTO 47
46 EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL

(neoclássicos) tendem a valorizar o primeiro aspecto, enquan- caráter circular e positivista da teoria do capital humano e a ex-
to os sociólogos (funcionalistas), o segundo. Parsons (1961) e plicitação das condições históricas, no interior do capitalismo
Dreben (1968) são dois representantes da sociologia funciona- monopolista. que a produz. Por fim, um debate com as diferen-
list~ que desenvolveram amplas análises enfatizando que a tes perspectivas "críticas" da "teoria" do capital humano no
maior produtividade se dá pelo desenvolvimento de atitudes ampo educacional e suas implicações político-práticas para a
adequadas e funcionais ao mundo do trabalho. Autores como organização da educação que se articula aos interesses da(s)
Bowles (1972) e Gintis (1971), conhecidos como radicais ameri- lasse(s) trabalhadora(s) (Frigotto, 1984).
canos, por suas análises terem uma inspiração marxista, enfati-
Sobre este aspecto, buscamos mostrar que a questão não
zam os aspectos do disciplinamento e das atitudes, focalizando
se situa, como as análises insistiam, na perspectiva de um linear
não apenas a questão da funcionalidade, mas sobretudo da
vínculo reprodutivista que tornava a escola um locus por exce-
reprodução dos interesses do capital.
lência produtor de mais-valia relativa (Rossi, 1978; Galvan,
O conjunto de postulados básicos da teoria do capital 1979) ou da tese do desvínculo que postulava que o capital
humano teve profunda influência nos (des)caminhos da con-
prescinde da escola (Salm, 1980). A escola é uma instituição
cepção, políticas e práticas educativas no Brasil, sobretudo, na
social que mediante suas práticas no campo do conhecimento,
fase mais dura do golpe militar de 1964, anos 1968 a 1975.
valores, atitudes e, mesmo, por sua desqualificação, articula
No plano da política, de forma autocrática, o economicis- determinados interesses e desarticula outros. No plano especi-
mo serviu às forças promotoras do golpe, da base conceptual e ficamente econômico, movimenta uma fatia do "fundo público"
técnica à estratégia de ajustar a educação ao tipo de opção por que se constitui em pressuposto de investimentos produtivos.
um capitalismo associado e subordinado ao grande capital. A
O Programa de Merenda Escolar exemplifica, de forma clara, a
reforma universitária de 1968 e, sobretudo, a Lei de Diretrizes
relação de enormes somas de recursos desse fundo que, como
e Bases da Educação Nacional, de 1971, corporificam a essência
demonstra Gianotti (1983, p. 268-275), mesmo sendo uma exie-
deste ajuste.
rioridade do capital, cumprem uma função crucial na realização
A crítica à teoria do capital humano no plano internacional
da mais-valia.
e n~cional ~ão é recente. É ampla e bastante completa. No pla-
Uma síntese densa da trajetória da construção e desconstrução
no internacional, além das análises anteriormente indicadas de
Bowles e Gintis, destacaria os trabalhos de Camoy (1987), La- da teoria do capital humano, no Brasil, nos anos 1980, é realizada
barca (1977), Finkel (1977 e 1990) e Hirchen e Kohler (1987). No na tese de doutoramento por Luiz C. Basilio (1993).
plano nacional, este debate desenvolve-se no interior do movi- Este mesmo debate, no contexto da crítica à matriz con-
mento de redemocratização da sociedade brasileira. Desta- ceptual que embasava as políticas e a organização da educação
cam-se os trabalhos de Rossi (1978), Galvan (1979), Salm (1980) nos longos anos da ditadura, está fortemente presente nas aná-
e Arapiraca (1982). lises da Sociologia da Educação, realizadas por Cunha (1975,
O objeto de tese de doutorado que desenvolvemos no 1977), Warde (1979) e Paiva (1973); na administração e gestão
início dos anos 1980, publicado com o título A produtividade da educacional, Felix (1984) e Paro (1986); e, no plano mais amplo
escola improdutiva, tem como eixo central de análise, a crítica ao da Filosofia, Cury (1981) e Savianí (1980, 1986, 1989).
48 GAUDtNCIO FRIGOnO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 49

Nos anos 1980, não só os debates dos educadores (Con- go da influência comunista. Atualmente reedita-se, como pa-
ferências Brasileiras de Educação, reuniões científicas anuais naceia para resolver (aumentar) a penalização dos aproxima-
da ANPEd, seminários regionais de pesquisa), mas também as damente cinco milhões de meninos e meninas que sobrevivem
publicações, sinalizavam que a crítica, para ser efetiva, não nas ruas.
basta engendrar a denúncia e a resistência, mas necessita abrir A óptica instrumentalista e pragmática, na vertente de ade-
perspectivas para as alternativas. O lema básico da Primeira quação ao mercado de trabalho, é desenvolvida nos anos 1940
Conferência Brasileira de Educação (São Paulo, 1980) foi: in- com a criação da rede de escolas técnicas industriais e agrícolas,
verter o sinal. Neste processo de inversão de sinal, as análises SENAI e SENAC e, posteriormente, com a Lei n. 5.692/71,
dos movimentos sociais e os próprios movimentos fecundam ainda em vigor, com várias modificações, que define a profis-
e ampliam a compreensão do educativo. Primeiramente se sionalização compulsória no primeiro e segundo graus. Mani-
ampliam as análises que buscam entender os processos edu- festa-se, esta última, numa perspectiva pedagogista do apren-
cativos que se dão no conjunto das relações e lutas sociais e, der-fazendo, muito em voga para justificar as escolas-produção.
então, a problemática da escola é apreendida em sua relação No Capítulo IV mostraremos que esta perspectiva instrumen-
com estas lutas. talista e imediatista continuam sendo a dominante, ainda que
No âmbito da educação, o trabalho, na perspectiva mar- os homens de negócio defendam uma formação e qualificação
xista de categoria ontológica e econômica central, constitui-se, geral, abstrata e polivalente.
ao mesmo tempo, em um dos eixos mais debatidos tanto para Além do pensamento de Marx, debatido em alguns cursos
a crítica da perspectiva economicista, instrumentalista e mora- de pós-graduação (poucos), as obras de autores como Hobsbawm
lizante de educação e qualificação, como na sinalização de que (1981e 1987),Thompson (1989e 1991),Gramsci (1978),Vázquez
tipo de concepção de educação e de qualificação humana se (1977), Schaff (1990), Manacorda (1990 e 1991), Braverman
articula às lutas e interesses das classes populares." (1977), Gorz (1980), Coriat (1989 e 1994) e Enguita (1989, 1991),
A perspectiva moralista e higiênica do trabalho desenvol- entre outros, vão ter uma significativa influência para as análi-
veu-se, no Brasil, desde o século passado, inicialmente as Es- ses da relação trabalho-educação no final da década de 1980 e
colas de Artes e Ofícios, para os desvalidos da sorte. Mais tarde, início da década de 1990. Embora a leitura dominante, como
nos anos 1930, foi reiterada pela Igreja Católica com o apoio do mostra Arroyo (1991), venha demarcada por uma perspectiva
governo Vargas, nos círculos operários, como antídoto ao peri- pessimista e de negatividade do trabalho e uma consequente
fixação na tese da resistência, há um salto qualitativo na análise
pedagógica. De outra parte, a crescente e fecunda aproximação
9. É importante registrar que, ao falarmos dos interesses populares, não nos
filiamos na perspectiva daqueles que tomam como sendo estes interesses as misti-
dos pesquisadores em educação, através dos programas de
ficações impostas à classe trabalhadora pelos aparelhos de hegemonia, sobretudo a pós-graduação e mediante a Associação Nacional de Pesquisa
mídia. As mistificações populístas do saber popular, por vezes, têm um efeito polí- e Pós-Graduação em Educação (ANPEd), com as Ciências So-
tico tão perverso quanto aqueles que negam, in limine, a existência de um saber nas
ciais permitiu uma abertura de análise. Esta aproximação
classes populares. Penso que as análises de Gramsci sobre a questão do "senso co-
mum" (1978a) e de Kosik (1986) sobre pseudoconcreticidade e" a metafísica da vida
deu-se, sobretudo, no âmbito da História, Sociologia, Ciência
cotidiana", são balizarnentos fundamentais para não se cair nesta armadilha. Política, Economia e, em menor proporção, na Antropologia.
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EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL

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Esta última, todavia, parece penetrar no campo educativo por lidade teórica" do debate sobre trabalho-educação mediante
seu elo menos denso para a compreensão da educação no âm- uma homogeneização do discurso e a não historicização da
bito das relações sociais. Aparece, muitas vezes, como reificação categoria valor-trabalho e capital-trabalho (Frigotto) e de outro
do singular, do diferente e da particularidade em contraposição explicita, no plano histórico mais amplo (Nosella e Arroyo) e
às análises de caráter mais estrutural. no plano das relações de produção atuais (Gomez e Arruda),
como esta relação se produz.
O campo educativo, dominantemente aprisionado no pla-
no pedagógico escolar, alarga seu locus para o plano do conjun- Na mesma época, e dentro da mesma perspectiva, Kuenzer
to das práticas e relações sociais, e a educação, como apontamos (1987) faz um amplo balanço da relação trabalho-educação no
anteriormente, passa a ser concebida como uma prática consti- Brasil. Este inventário resulta, ao mesmo tempo, do esforço de
tuída e constituinte destas relações sociais. Arroyo, um dos aprofundamento teórico e de definição de diretrizes políticas
educadores que mais tem contribuído neste período para a alternativas à tradição economicista dominante.
apreensão do educativo no tecido das relações sociais, ao exa- A segunda coletânea, organizada por Silva (1991),Trabalho,
minar como historicamente o mundo da produção se constitui educação e prática social: por uma teoria da formação humana, expõe
num espaço onde tanto a burguesia busca fabricar e formar o análises que focalizam a contradição da negatividade e da po-
trabalhador que lhe convém, como este luta, mediante suas sitividade do trabalho sob as relações capitalistas de produção
organizações, para superar os processos de alienação, indaga: (Thompson, Manacorda, Lerena, Enguita, Silva, Arroyo); o
sentido do trabalho como princípio educativo em Gramsci
Se é aí que a burguesia e as classes trabalhadoras colocam o locus (Nosella) e as bases do embate da concepção e prática educati-
do educativo, por que a história da pedagogia teima em situá-Ia, va, na perspectiva de uma formação humana dentro dos inte-
e até exclusivamente, na escola? (Arroyo, 1987, p. 91) resses unidimensionais do capital e da luta por uma formação
omnilateral ou politécnica na óptica dos interesses dos trabalha-
O trabalho de Kuenzer (1985), A pedagogia da fábrica: as dores (Frigotto).
relações de produção e a educação do trabalhador, inaugura, no âm-
Ao mesmo tempo que este debate se delineia no âmbito
bito educacional, a busca de se apreender, no tecido complexo
da construção teórica, exercita-se no plano do embate político
e diferenciado do mundo da produção e do trabalho, os pro-
e organizativo da educação, tanto no contexto do processo
cessos educativos em embate. O número de pesquisas, espe-
constituinte, quanto no processo de elaboração e definição da
cialmente dissertações e teses, que seguem esta perspectiva tem
nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que está
se ampliado significativamente.
em gestação desde 1988. A luta, no plano das diretrizes e no
Três trabalhos, sendo dois coletâneas, apreendem, na dé- plano das bases (condições de concretização das diretrizes),
cada de 1980, o movimento de inversão do eixo na apreensão dá-se dentro de um tecido social e cultural onde as elites diri-
da relação educação, escola-trabalho para trabalho-educação. gentes fazem o discurso da modernidade, mas estão prenhes
Uma primeira coletânea, Trabalho e conhecimento: dilemas das práticas escravocratas, esta mentais e oligárquicas. Como
na educação do trabalhador (Frigotto, 1987), com textos de Arroyo, nos mostra Francisco de Oliveira (1992), Collor é a expressão
Arruda, Gomez e Nosella, de um lado identifica a "superficia- paradigmática da falsificação da modernidade.
52 GAUDÊNClO FRIGOnO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 53

o início dos anos 1990 sinaliza, ao mesmo tempo, um ção, O trabalho de Rodrigues, A educação politécnica no Brasil:
processo de aprofundamento da relação trabalho-educação, um concepção em construção (1984-1992),nos permite, de forma densa,
aumento significativo de pesquisadores da área que se preo- apreender as diferentes nuances do debate sobre esta questão e
cupam com essa temática'? e a busca, tanto no plano teórico, o tecido de realidade do qual tais análises emanam.
como no plano político organizativo, da rediscussão da função Este debate crítico nos auxilia, hoje, a perceber que o res-
social da escola no conjunto das lutas pela efetiva democrati- gate das concepções marxistas de formação humana politécni-
zação da sociedade brasileira. ca ou omnilateral emerge no terreno das contradições do capi-
Em relação à concepção da escola, o eixo básico centra-se talismo neste final de século. O risco que se pode correr neste
na questão da escola unitária, formação tecnológica ou politécni- campo é o mesmo para o qual Francisco de Oliveira chama
ca e no aprofundamento do sentido é das implicações políti- atenção em relação à análise econômica, que é o de transformar
co-práticas de tomar-se o trabalho como princípio educativo. a teoria marxista de crítica ao capitalismo em modelo ou aplicada
Trata-se de uma perspectiva que demarca, como explicitaremos para resolver problemas operativos de política econômica= Esta ten-
mais detalhadamente no último capítulo, uma clara contrapo- dência certamente tem se manifestado de diferentes modos em
sição às teses do neoconservadorismo que, definindo o merca- relação à concepção de politecnia. No âmbito do esquerdismo,
do como o sujeito regulador da concepção e da organização da transformou-se em bandeira de palanque ou em novo jargão
educação, tende a etemizar a concepção instrumentalista, dua- da moda e, no âmbito da burocracia e tecnocracia do MEC e
dos organismos, instituições ou intelectuais zeladores da "for-
lista, fragmentária, imediatista e interesseira de formação huma-
mação" que convém aos homens de negócio, em uma perspectiva
na. Inúmeros trabalhos expõem este debate, entre eles, Macha-
que ameaça acabar o que sefez e vem fazendo de bom em termos de
do (1989, 1992), Kuenzer (1989, 1991, 1992), Saviani (1988, 1989),
formação técnico-profissional.
Frigotto (1991a), Nosella (1992, 1993), Warde (1993), Market
(1992) e Rodrigues (1993). A partir de 1990, uma nova categoria é incorporada ao
debate da relação trabalho-educação: a tecnologia. Este tema
O trabalho de Nosella sobre A escola de Gramsci (1992),pela
tem tido sido enfatizado nas reuniões anuais da ANPEd, nas
influência que Gramsci teve na área desde o início da década de
Conferências Brasileiras de Educação e na participação da área
1980 e pelo nível de aprofundamento atingido em relação à
nas duas últimas reuniões de SBPC (1992 e 1993). Os debates
questão da escola unitária, educação tecnológica, enquanto an-
estão expostos em três coletâneas e outros trabalhos publicados
títese à visão interesseira e imediatista dos homens de negócio, é o
isoladamente em diferentes espaços.
que mais avança neste debate. Trata-se de um esforço de precisar
A primeira coletânea, Sistemas educacionais e novas iecnolo-
questões que vêm carregadas de ambiguidade. Na mesma dire-
gias, reúne textos de educadores que examinam a natureza e o
impacto das novas tecnologias sobre a sociedade, o trabalho e
10.José dos Santos Rodrigues, ao levantar a participação das reuniões anuais a educação (Tempo Brasileiro, n. 105, jul. 1991).
da ANPEd, desde 1989, mostra que no conjunto dos treze grupos de trabalho
institucionalizados na (ANPEd), o GT trabalho-educação, neste período, agre-
gava a participação de mais de 20% do total de participantes (Rodrigues, 1993, 11.Verentrevista de Francisco de Oliveira, "Marxismo não é modelo, é crítica",
p.23-24). Folha de S.Paulo, 13 jun. 1993.
54 GAUDÊNCIO FRIGOnO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 55

A segunda coletânea reúne textos de sociólogos, economis- abstrata, à policognição ou polivalência e vê corno desintegra-
tas e cientistas políticos, trabalhando casos específicos do im- dora a perspectiva da formação politécnica.
pacto das novas tecnologias sobre o trabalho, o sindicalismo e
As análises de Machado e Neves, assinaladas anteriormen-
a formação dos trabalhadores (Educação & Sociedade, abro 1992).
te, são também trabalhadas pelas contribuições de outros pes-
Finalmente, a terceira coletânea, Trabalho-educação, conden- quisadores da área de Ciências Sociais que participaram dos
sa um esforço conjunto de reflexão de sociólogos e educadores debates neste período com os educadores. Destaco as análises
na compreensão da natureza da nova base tecnológica e seu de Nádya Castro (1992), R. P. Castro (1994), Helena Hirata (1991,
impacto sobre o processo de trabalho e a formação humana 1993 e 1994), M. Salerno (1992 e 1994), Freyssenet (1992 e 1993),
(vários autores, Papirus, 1992).
Ferretti (1994) e Coraggio (1993).
Este esforço de trabalho conjunto, se de um lado nos tem Este rápido balanço da crítica ao reducionismo economi-
ajudado a avançar sobre as perspectivas mistificadoras da cista consubstanciado na educação pela "teoria do capital hu-
ciência e da tecnologia, tornadas corno variáveis suprassociais, mano", corno salientamos, teve corno eixo central a categoria
e as visões pessimistas e catastróficas, de outro tem permitido trabalho. Por esta via não só o educativo é concebido corno
apreender as tensões das análises em relação à educação. Des- tendo seu locus no conjunto das relações e práticas sociais, corno
ta terceira coletânea destacamos os trabalhos de Machado a escola, enquanto aparelho de luta hegemônica, passa a ser
(1992), Magda Neves (1992) e Rezende Pinto (1992). entendida não corno reflexo das relações sociais, aparelho ape-
A análise de Machado sobre as mudanças tecnológicas e a nas reprodutor das relações dominantes, mas ela mesma cons-
educação da classe trabalhadora enfatiza, sobretudo, a natureza da tituinte das relações sociais. No plano da análise crítica isto
qualificação numa perspectiva marxista e a especificidade da significou, ao mesmo tempo, urna superação da visão simples-
nova base técnica do processo de produção. O trabalho de mente reprodutora da escola e da educação, discutido no âm-
Magda Neves tensiona as análises homogeneizadoras sobre as bito da Economia da Educação, a visão conspiratória de Rossi
novas tecnologias e mostra, mediante suas pesquisas, que na e Galvan, ou aparelho ideológico descolado da base material,
realidade brasileira convivem formas tayloristas, fordistas e corno analisa Salm (1980).12 Ou seja, rompeu-se com a visão que
pós-fordistas de organização e gestão do trabalho. Ao ressaltar busca apreender o vínculo ou a falta de vínculo linear dos pro-
o caráter social das novas tecnologias, Neves nos mostra que a cessos educativos com o sistema produtivo, para situá-los no
positividade ou negatividade da nova base técnica está inscri-
ta nas relações de força concretas no plano político, econômico
e cultural mais amplo. O terceiro trabalho de Rezende Pinto, 12. É nítida, nestas análises, a influência da leitura althusseriana da teoria
marxista de ideologia, onde a mesma é apreendida de forma descolada da base
Pessoas inteligentes trabalhando com máquinas ou máquinas inteli- material. Portanto, não a tomam, ela mesma, como um elemento constitutivo da
gentes substituindo trabalho humano], inscreve-se entre aqueles própria materialidade dos processos sociais. O grande sucesso dos textos althus-
que diagnosticam as demandas da nova base técnica dos seto- serianos e, sobretudo do texto sobre os "aparelhos ideológicos de Estado", e mes-
res de ponta do processo produtivo e busca averiguar corno os mo o sucesso do livro de Bourdieu e Passeron - A reprodução - mais que outros
textos importantes de Bourdieu, se de um lado podem ser interpretados por uma
sistemas educacional e o de formação técnico-profissional po-
espécie de resistência ao aprofundamento das análises, de outro deve-se reconhe-
dem lhes ser funcionais. Por este caminho entende que a for- cer que, na conjuntura do início dos anos 1970,sob a violência da ditadura, assu-
mação para esta nova base técnica tem que tender à formação miam uma espécie de efeito catártico.
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plano das mediações concretas constitutivas dos processos Terceira Revolução Industrial, as mudanças na base técnica da
sociais, onde a estrutura e superestrutura formam, na expressão produção e o impacto sobre o conteúdo do trabalho, divisão do
gramsciana, um bloco histórico. trabalho e qualificação e formação humana nos permitem iden-
Este percurso de duas décadas de construção teórica e de tificar uma problemática que se expõe como desafio teórico e
luta no plano político organizativo da escola, conjunturalmen- político prático para quem tomou como eixo de compreensão
te, teve como espaço de embate o complexo, tortuoso e incon- dos processos educativos e da organização da escola unitária e
cluso processo de "transição" democrática e, dentro dele, o politécnica, a categoria trabalho.
processo de promulgação de uma nova Constituição e uma Este desafio, que neste trabalho buscamos abordar e con-
nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Inúmeros figurar na sua anatomia mais geral e apenas referi-lo aos em-
são os documentos que fazem o balanço do andamento das bates concretos da realidade brasileira e latino-americana, se
démarches deste processo no campo da educação. manifesta em dois níveis diversos de problematicidade sobre
As grandes esperanças alimentadas pelas negociações a a mesma base histórico-material.
partir de um projeto encampando boa parte das lutas históricas O primeiro desafio materializa-se no esforço de atender
dos educadores, com a vitória de Collor e a nova correlação de novas formas de sociabilidade do capital, a um tempo, produ-
forças no Congresso, aumentaram a cada dia sua desfiguração, toras e resultado da crise do "modelo" fordista de desenvolvi-
levando Florestan Fernandes (1992), numa análise deste pro- mento e, portanto, de acumulação, concentração e centralização
cesso, a afirmar que a nova LDB estava sendo mutilada, cor- de capital" que regulou as relações capitalistas no último meio
rendo o risco de se transformar num frankenstein. Como veremos século. O controle e monopólio do progresso técnico e do co-
no último capítulo, as definições que vão se solidificando na nhecimento que está na base desta nova sociabilidade é crucial
nova LDB, pelo que a Câmara aprovou, explicitam claramente na competição intercapitalista e na subordinação do trabalho
o velho dilema da burguesia em matéria da função econômi- ao capital. Mas o conhecimento é também uma força (material)
co-social da educação. Este dilema, entre nós, se apresenta de na concretização dos interesses dos trabalhadores.
um lado pela demanda de ampliação da escola básica e uma Sob este terreno real opera-se a formulação de representa-
nova qualidade da mesma como exigência das necessidades da ções - que não são maquiavélicas, mas expressão da forma
nova base técnica do processo produtivo, dos processos de mesma de conceber a realidade - que no plano político-ideo-
reconversão tecnológica e, de outro, pela dificuldade de liberar lógico se explicitam nas teses da sociedade pós-industrial,
o campo educativo da esfera privada do mercado. pós-capitalista, sociedade global sem classes, fim das ideologias,

13. Labini, embora não seja um autor inscrito na tradição marxista de crítica
3. Os homens de negócio, a sociedade do conhecimento e o fim ao processo de acumulação, nos ajuda a entender o processo de concentração ca-
da sociedade do trabalho pitalista. Para Labini, este processo se dá mediante três formas básicas: "A concen-
tração das unidades de produção (que pode ser chamada de concentração técnica),
a das empresas (concentração econômica) e a das empresas produtoras de bens
Os debates do início da década de 1990 sobre a natureza diferenciados ou grupos de empresas ligados entre si, principalmente por partici-
das novas tecnologias caracterizadas como configuradoras da pação acionária (acumulação financeira)" (Labini, 1972,p. 35).
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sociedade pós-histórica. Como demonstra Gentili (1994), a todavia, alterar-se fundamentalmente as relações sociais que
partir de uma ampla revisão de literatura internacional, estas mascaram.
teses têm como pressuposto que isto resulta de um novo mo- No plano da ordem econômica, os conceitos ou categorias
delo de organização social: a sociedade do conhecimento." pontes são: flexibilidade, participação, trabalho em equipe,
No plano econômico, no nível mundial, este novo modelo competência, competitividade e qualidade total. No plano da
de organização social implica um novo tipo de organização formação humana são: pedagogia da qualidade, multi-habilita- o

industrial, baseada em tecnologia flexível (microeletrônica as- ção, policognição, polivalência e formação abstrata. Nesta pers- o

sociada à informática, microbiologia e novas fontes de energia), pectiva configura-se uma crescente unanimidade do discurso
em contraposição à tecnologia rígida do sistema taylorista e da "modernidade" em defesa da escola básica de qualidade.
fordista e, como consequência, um trabalhador flexível, com Esta mudança de enfoque seria a explicitação real de que
uma nova qualificação humana (Gentili, 1994). a "nova (des)ordem" mundial, sob a égide da sociedade do co-
Dentro desta "nova ordem", os mesmos organismos in- nhecimenio, estaria efetivamente delineando novas relações não
ternacionais (FMI, BID, BIRD, UNESCO, OIT, UNICEF, USAID), classistas, pós-industriais e, portanto, de processos educativos
organismos regionais (CEPAL, CINTERFOR, OREALC), téc- e de formação humana desalienados e não subordinados aos
nicos dos Ministérios da Educação e de instituições ligadas à desígnios do capital? Os homens de negócio mudaram suas con-
formação técnica, empresários e mesmo pesquisadores se- o cepções e seus interesses? Ou estamos diante de transformações
guiam, desde o final da década de 1940, o receituário do CBAI que mudam efetivamente dentro da relação capitalista sem,
para estabelecer os fatores responsáveis pela eficiência de for- contudo, alterar a natureza desta relação? Qual a qualidade ••
mação para o trabalho." a partir da década de 1960, passam a deste novo dilema? Em que base material ele se assenta e que
obedecer o receituário do economicismo e tecnicismo veicula- possibilidades, no plano das contradições, engendra para aque-
dos pela teoria do capital humano que submetem o conjunto les que lutam para liberar a educação da esfera privada, dos
dos processos educativos escolares ao imediatismo da forma-o ·grilhões do capital e mesmo do imperativo mundo da necessida-
ção técnico-profissional restrita. Porém, nos anos 1980, surgem de e situá-Ia no plano da esfera pública e, portanto, protegida
com novos conceitos e categorias que, aparentemente, não do imediatismo interesseiro do mercado capitalista?
apenas superam aquelas perspectivas, como lhes são opostas. O primeiro desafio é, pois, de qualificar a base histórico-so-
Trata-se, na verdade de uma metamorfose de conceitos sem, cial das quais emergem essas novas exigências educativas e de
formação humana - rejuvenescimento da teoria do capital humano
14. Entre os autores trabalhados por Gentili destacamos as análises de Bell
-e de decifrar por que as teses de uma formação geral e abs-
(1973,1980), Toffler (1980, 1973, 1990) e Drucker (1982, 1987). trata, que prepara sujeitos polivalentes, flexíveis e participativos
15. De acordo com Allen e Richars, os fatores responsáveis pela eficiência da aparecem ao mesmo tempo com as perspectivas neoconserva-
formação técnico-profissional são: fator geral (conhecimentos gerais), manual doras de ajuste no campo econômico-social e no campo educa-
(habilidades), específico (conhecimentos científicos básicos das noções tecnológicas),
cional mediante as leis de mercado. Nesta redefinição, expressão
tecnológico (procedimentos técnicos), administrativo (capacidade de avaliar e
organizar) e social (adaptação aos interesses da empresa e dos clientes) (apud dos problemas que as relações capitalistas, sobre uma nova base
Vianna, 1967). científico-técnica enfrentam, quer no seu confronto intercapita-
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GAUD~NClO FRIGOnO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 61

lista na concorrência, quer nas formas renovadas de luta dos Na forma histórica concreta de desenlace desta crise, cujo
trabalhadores, para fixar uma nova base de acumulação, situa-se, conteúdo e custo social e humano têm se apresentado de forma
ao nosso ver, o espaço da luta por alternativas tanto nos proces- diversa em diferentes regiões do mundo, inscreve-se a possibi-
sos quanto no conteúdo do educativo. O terreno de embate está lidade de ampliar o caráter social e público do fantástico pro-
pois, no plano da natureza específica que assumem as relações gresso técnico e sua capacidade de satisfazer necessidades
sociais na sociedade capitalista deste fim de século. humanas e liberar tempo livre, mundo de fruição e de efetiva
Se esta primeira ordem de questões traz exigências novas liberdade, ou aumentar o poder de destruição e ampliar o tem-
de um enfrentamento nos planos teórico e político para não po liberado e aprisionado pela violência e alienação do desem-
correr o risco de deixar sucumbir a análise à unanimidade das prego estrutural e subemprego. Este desenlace comporta menos
aparências na defesa de urna nova qualidade" para a educação
/I profecias e mais sujeitos sociais (coletivos) concretos, agregan-
e a formação, ou a urna posição conspiratória, pessimista e irra- do forças para a positividade que a crise engendra.
cionalista, a segunda ordem de questões se apresenta corno uma A intenção deste trabalho, nos limites de sua elaboração,
espécie de um xeque-mate, em um complicado jogo de xadrez, é de qualificar a natureza destas duas ordens de questões no
para aqueles que tornam o trabalho no seu processo histórico que elas se articulam, no plano teórico e político-prático, com
corno categoria central de análise das relações humano-sociais a educação no seu vesgo neoconservador, cujo sujeito é o mer-
em geral e, especificamente, no campo educacional. cado, na perspectiva neorracionalista ou (ir)racionalista do fim
Aqui, o tensionamento é de outro calibre, quer pelos in- da sociedade do trabalho, fim do trabalho e das classes sociais e,
terlocutores, quer pela leitura que fazem da crise ou da decre- finalmente, na perspectiva alternativa de situarem-se os pro-
tação do fim da sociedade do trabalho e com ela o fim da centra- cessos educativos e a escola no conjunto de forças que elegem
lidade do mesmo corno categoria sociológica de análise, o fim o ser humano corno sujeito social no desenvolvimento omnila-
do trabalho abstrato e com ele o fim das classes sociais funda- teral de suas possibilidades históricas.
mentais. A função social da educação e a formação humana é, Ternos, corno eixo orientador do trabalho, que as diferen-
para esta perspectiva, a de preparar para o tempo livre. tes perspectivas anteriormente expostas decorrem do tipo de
Os interlocutores aqui não são nem os economistas neo- compreensão da crise profunda e do colapso do modelo de
clássicos do capital humano, nem os homens de negócio, mas desenvolvimento que serviu de resposta à Grande Depressão
sociólogos e filósofos filiados a perspectivas críticas na análise do final da década de 1920. Trata-se de um modelo sobre o qual
social. Trata-se das análises sobre o trabalho na vida social sustentou-se o padrão de acumulação capitalistas neste último
deste final de século, corno as de Offe (1989b), Schaff (1990) e meio século e que a literatura o denomina, mais comumente,
Kurz (1992) com os quais dialogaremos a seguir. de modelo keynesiano, Estado de Bem-Estar Social ou Estado-previ-
O enigma a ser decifrado aqui, no horizonte teórico expos-
dência, modelo fordista. Trata-se, corno analisa Francisco de Oli-
veira, de um padrão
to por Francisco de Oliveira (1988b), situa-se, ao nosso ver, na
apreensão da crise do padrão de desenvolvimento dos últimos
que pode ser sintetizado na sistematização de uma esfera públi-
cinquenta anos, calcado na dilatação do fundo público e por essa ca onde, a partir de regras universais e pactadas, o fundo públi-
via a uma tendência de desmercantilização daforça de trabalho. co, em suas diversas formas, passou a ser o pressuposto do fi-
~CDRTEZ
62 GAUDÊNCIO FRIGOnO ~EDITORR 63

nanciamento da acumulação do capital, de um lado, e, de outro,


do financiamento da reprodução da força de trabalho, atingindo
globalmente a população por meio dos gastos sociais (Oliveira,
1988b, p. 20).

No primeiro caso, as visões neoconservadoras apontam


como solução aquilo que historicamente se mostrou como sen- 11
do a raiz do problema: o mercado como regulador do conjunto
das relações sociais. No segundo caso, as visões neorraciona-
listas ou irracionalistas, por fazerem uma análise mais lógica Natureza, especificidade e custos humanos
que histórico-dialética da crise, suprimem os sujeitos sociais
em luta hegemônica e apontam a travessia mediante soluções da crise dos anos 1970-1990
de natureza meramente institucional ou alternativas idealistas
ou "escatológicas". Trata-se de análises de ampla receptividade
e que, no caso brasileiro pelo menos, têm servido para alimen-
tar as perspectivas do "esquerdismo infantil" incapaz de per-
ceber mudanças na relação entre o Estado e a sociedade. Inúmeras são as análises que, de diferentes formas, carac-
terizam a crise deflagrada, em âmbito planetário, a partir de
Um esquerdismo infantil impenitente julga que no fundo a 1970 e cujos fatos mais marcantes se deram no final da década
educação pública, a saúde pública, a previdência social e outras de 1980. Nunca mudou tanta coisa em tão pouco tempo, exclamam
instituições estruturadoras das relações sociais são apenas uma uns; nunca houve tanto fim, sentenciam outros.
ilusão e contribuem para reproduzir o capital. (Oliveira, 1988b,
Para uns, que jogam, como nos lembra Hobsbawm, uma
p.21)
espécie de jogos de soma zero, é o fim das ideologias, do socia-
lismo, das classes sociais, da sociedade do trabalho, da plani-
ficação, da história, e a prova da superioridade dos mecanismos
"naturais" do mercado e, portanto, da necessidade da volta
aos mesmos. Para outros, esta, todavia, não é, como insiste
Hobsbawm, uma apreensão adequada para a crise atual,

exceto por pós-graduados de faculdades de administração que,


de hotéis Hilton espalhados pelo mundo, dão conselhos a paí-
ses do Terceiro Mundo e a países anteriormente socialistas.
(Hobsbawm, 1992a, p. 100)

o que existe, na verdade, é uma crise mais geral do pro-


cesso civilizatório, materializada de um lado pelo colapso do
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For
EDUCAÇÃO Evaluation
E A CRISE DO CAPITALISMOOnly.
REAL

socialismo real e, de outro, pelo esgotamento do mais longo e como nos indica Francisco de Oliveira, (1990, p. 12) o caráter
bem-sucedido período de acumulação capitalista. Há, pois, uma excludente das relações sociais determina que, nestas circuns-
profunda crise do capitalismo hoje existente que apresenta tâncias, o trabalhador lute para manter-se ou para tornar-se
contradições mais agudas. mercadoria.
A problemática crucial de ordem político-econômica e O desemprego estrutural e o subemprego que atingem o
social da crise dos anos 1930 manifestava-se tanto no desem- coração do capitalismo desenvolvido e de forma mais perversa,
prego em massa, quanto na queda brutal das taxas de acumu- porque com frágeis forças de resistência, o Terceiro Mundo e a
lação. Ambos incidiam na reprodução da força de trabalho. degradação ecológica resultam de um movimento de reorgani-
Mais de meio século depois a mesma questão volta à baila, zação e regionalização do capitalismo e da estruturação de um
porém com uma materialidade histórica bem diversa. Como novo regime de acumulação capitalista, sob a égide, como bem
veremos a seguir, na perspectiva que Francisco de Oliveira nos explicita N. Chomsky (1993, p. 6), dos "novos senhores do
apresenta, os longos cinquenta anos de sustentação, mediante mundo" ou "do governo mundial de facto": Fundo Monetário
o fundo público, da acumulação capitalista, onde o financia- Internacional, Banco Mundial, grupo dos sete países mais in-
mento da reprodução da força de trabalho é, entre outros, um dustrializados e o seu Acordo Geral de Tarifas e Comércio
aspecto importante, permitiu ao capital (associado ao Estado) (GATT). Este novo governo mundial tem na privatização do
um longo período de intensa reprodução ampliada e investi- conhecimento e nos processos de exclusão suas armas básicas.
mento pesado no avanço tecnológico. Todavia, neste mesmo Por certo, esta forma de resposta não é nem a única, nem a
período, o jogo de interesses implicados na reprodução. da humanamente desejável.
força de trabalho deslocou, em grande parte, o loeus desta dis- Neste capítulo buscamos, sucintamente, apreender a na-
puta da esfera privada para a esfera pública. tureza e especificidade da crise e dos processos que serviram
O resultado deste processo de intensa acumulação, parti- de enfrentamento às crises cíclicas do capitalismo, que atingem
cularmente nos países capitalistas centrais, foi um profundo seu ápice nos anos 1930, cuja base de sustentação teórica foi o
revolucionamento da base técnica do processo produtivo (Ter- keynesianismo e cujo pressuposto básico, ao contrário das teses
ceira Revolução Industrial), com impactos, positivos e negativos da liberdade absoluta do mercado, implicava tomar como eixo
sobre o trabalho humano. Configuram-se uma nova divisão, a planificação e, portanto, uma pesada intervenção do Estado
mudanças no conteúdo, quantidade e qualidade do trabalho e no processo econômico-social. Interessa-nos, de outra parte,
novas demandas de qualificação humana. . assinalar os custos' humanos diferenciados da crise e as pers-
pectivas de seu enfrentamento.'
O ponto crucial é que o fato de a nova e fantástica base
técnica, potenciadora das forças produtivas, dar-se sob relações
de exclusão social, ao contrário de liberar tempo livre enquan- L Se é uma crise do processo civilizatório, tanto em sua gênese quanto na
to mundo da liberdade, produz tempo de tensão, sofrimento, sua manifestação atual e em suas perspectivas de enfrentamento, o colapso do
ocialismo real e o esgotamento das políticas do Estado de Bem-Estar Social não
preocupação e flagelo do desemprego estrutural e subemprego.
podem, a despeito de suas especificidades, ser separados. Ver, neste sentido,
O trabalho, enquanto força de trabalho, passa a constituir-se Hobsbawm (1992a,P: 3-106).Neste trabalho, limitamo-nos a examinar a crise do
numa preocupação visceral de tal sorte que, perversamente, capitalismo que se manifesta de forma clara desde o início da década de 1970.A
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É no quadro da compreensão da crise, portanto, e sobre- 1.1A natureza estrutural da crise


tudo do que ela impacta sobre o trabalho humano, que pode-
mos enfrentar as questões básicas deste ensaio que se deli- Ao tratar da especificidade do modo de produção capita-
neiam, de um lado, pelas teses de base "neorracionalista" do lista, Marx, particularmente na obra O capital, nos mostra que
fim da sociedade do trabalho e da centralidade do trabalho se trata de um modo social de organização cujo tecido estrutu-
na vida humana, e pelas teses neoconservadoras do mercado ral do conjunto de suas relações sociais tem como objetivo
como instrumento de regulação do conjunto das relações so- central e permanente a maximização da acumulação de capital.
ciais e, de outro, pela relação desta ordem de questões com as Possui, como leis imanentes e necessárias, a acumulação, a
alternativas que se apresentam para a educação e a formação concentração e a centralização. É uma sociedade que produz
humana. para produzir, isto é, somente se interessa por produzir bens
úteis para o consumo enquanto portadores da virtude do lucro,
da mais-valia e, portanto, da acumulação ampliada do capital
1. Natureza e especificidade da crise:o esgotamento do Estado (Beluzzo, 1980).
de Bem-Estar e do modelo fordista de acumulação e regulação A exploração capitalista diferencia-se da exploração dos
social modos de produção precedentes por inscrever-se no próprio
processo social de produção mediante a separação entre a es-
fera econômica e política e pela unificação da produção e apro-
É importante demarcar, neste primeiro item, que a crise priação da mais-valia. Funda-se, pois, numa relação social
dos anos 1970-90 não é uma crise fortuita e meramente con- fundamental, formalmente igualitária, mas histórica e efetiva-
juntural, mas uma manifestação específica de uma crise estru- mente desigual: relação capital/trabalho - proprietários pri-
tural. O que entrou em crise nos anos 1970 constituiu-se em vados dos meios e instrumentos de produção e vendedores de
mecanismo de solução da crise dos anos 1930: as políticas es- força de trabalho."
tatais, mediante o fundo público, financiando o padrão de
acumulação capitalista nos últimos cinquenta anos. A crise não
2. É fundamental que se distinga o trabalho enquanto atividade histórica de
é, portanto, como a explica a ideologia neoliberal, resultado da
autocriação humana (sob as mais diversas bases técnicas), mediante a produção
demasiada interferência do Estado, da garantia de ganhos de de bens materiais enquanto valores de uso, da forma abstrata mercadoria força de
produtividade e da estabilidade dos trabalhadores e das des- trabalho que o mesmo assume sob as relações capitalistas na produção de bens
pesas sociais. Ao contrário, a crise é um elemento constituinte, como valores de troca.

estrutural, do movimento cíclico da acumulação capitalista, Por ser uma dimensão ontológica e histórica de produção de valores de uso,
"o trabalho é um processo de que participam o homem e a na tureza, processo em
assumindo formas específicas que variam de intensidade no que o ser humano, com sua própria ação, impulsiona, regula e controla seu inter-
tempo e no espaço. câmbio material com a natureza como uma de suas forças. Atuando assim sobre a
natureza externa e modificando-a, ao mesmo tempo modifica sua própria nature-
za" (Marx, 1978). Nesta perspectiva, o homem constrói a si mesmo em intercâmbio
base da análise aqui exposta tem como sustentação os trabalhos de Hobsbawm com os demais seres humanos e cria possibilidades novas para seu devenir.
(1992a e 1992b) e F. de Oliveira (1988b, 1992), que abordam a crise do Estado de Enquanto mercadoria, o trabalho torna-se uma força abstrata, sem conteúdo
Bem-Estar Social. concreto, que interessa ao capital como produtora de valores de troca, de mais-vá-
68 GAUDtNCIO FRIGOTTO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 69

o capitalismo tem que engendrar o sujeito livre e igual ante o vivo com o intuito de produzir mercadorias ao menor custo e,
direito, o contrato e a moeda, sem o que não poderia existir sua portanto, condensadoras do máximo de mais-valia. Mas, ao
ação seminal: compra e venda de força de trabalho e apropriação mesmo tempo que o capital necessita que as mercadorias sejam
de valor. Essa liberdade efetiva implica como paralelo seu a monetarizadas, isto é, que seja realizada a mais-valia que con-
igualdade abstrata da cidadania. (O'Donnel, 1981) densam, é um sistema que tende a reproduzir como mercado-
ria a força de trabalho no seu processo reprodutivo global e a
Trata-se de uma ilusória liberdade, na medida em que as
excluir tanto força de tràbalho excedente quanto capitalistas
relações de força e de poder entre capital e trabalho são estru-
(in)concorrentes.
turalmente desiguais. É sob esta ilusão e violência que a ideo-
O caráter contraditório (de crise portanto) do modo de
logia burguesa opera eficazmente na reprodução de seus inte-
produção capitalista explícita-se, historicamente e em formações
resses de classe.
sociais específicas, de formas e conteúdos diversos, porém,
Ao contrário, todavia, do que o clássico ideário liberal ou
inexoravelmente, pela sua própria virtude de potenciar as for-
a morbidez apologética neoliberal apregoam, as "leis históricas" ças produtivas e por sua impossibilidade de romper com as
sob as quais opera o capitalismo não são harmônicas, mas con- relações sociais de exclusão e socializar o resultado do trabalho
traditórias e conflitantes. O caráter contraditório do capitalismo, humano para satisfazer as necessidades sociais coletivas. Para-
que o leva a crises periódicas e a ciclos abruptos e violentos, doxalmente, mesmo com mais de dois terços da humanidade
como o demonstra Marx ao analisar a natureza do capitalismo passando fome ou morrendo de fome, a crise do capital é, hoje,
e a sociedade capitalista nascente, não advém de algo externo, de superacumulação estatalmente regulada. Somente nesta
mas deriva da dominação do capital e exploração do trabalho. perspectiva pode-se entender as políticas do GATT.
Em lugar da suposta tendência ao equilíbrio e à igualda- A crise está, pois, organicamente engendrada na natureza
de dos agentes econômicos, trata-se de um sistema que, pela das relações sociais capitalistas e
concorrência sob forças e poder desiguais, conduz à acumula-
ção, concentração e centralização de capital. Ao capitalista não é nada mais do que a maneira violenta de fazer valer a uni-
interessa produzir o máximo de mercadorias que condensem dade das fases do processo de produção, que se tornam autôno-
o máximo de mais-valia. Para permanecer no "jogo" esta regra mas. (~arx, 1978)
é crucial. Por isso os diferentes competidores buscam, median-
A literatura que analisa a gênese e o desenvolvimento
te a incorporação crescente de ciência e tecnologia no processo
histórico do capitalismo, começando pelas análises de Marx,
de produção, aumentar o capital morto e diminuir o capital
Engels e Rosa de Luxemburgo, nos dá conta que, de tempos em
tempos, o sistema, de forma global, enfrenta crises violentas e
lia. "Os homens, antes de qualquer determinação concreta substancial, transfor- colapsos que não advêm de fatores exógenos, mas justamente
mam-se em mônadas do dispêndio de força de trabalho abstrata. Em agregados do caráter contraditório do processo capitalista de produção.
altamente diferenciados cooperam de forma diretamente social, porém em grau
mais alto de indiferença e alienação recíprocas. Podem satisfazer suas necessidades
As crises de 1914, 1929 e agora a crise que se apresenta de for-
apenas indireta e posteriormente, mediante o processo abstrato de automovirnen- ma brutal dos anos 1970/90, exemplificam estas erupções
to do dinheiro". violentas de um processo de crises cíclicas. Os conteúdos, as
71
70 GAUDÊNClO FRIGOTTO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL

formas, os atores e forças em jogo e a gravidade dos destroços os de planejamento e, portanto, de interferência do Estado na
são diversos no tempo e no espaço. Cabe, pacientemente, per- economia.f
quirir estas especificidades e evidenciá-Ias." Para analisar a crise da sociedade capitalista dos anos 1970
Trata-se, pois, de crises que têm uma mesma gênese es- é necessárbo, portanto, situá-Ia como uma crise com um con-
trutural, mas que cada vez traz uma materialidade específica. teúdo histórico mais complexo e, consequentemente, com uma
Na busca de suplantar a crise o capitalismo vai estabelecendo trama de sujeitos sociais e mediações mais complexa, e reco-
uma sociabilidade onde cada novo elemento que entra para nhecer que seu enfrentarnento ou sua superação engendra a
enfrentá-Ia constitui, no momento seguinte, um novo, compli- possibilidade de processos de destruição e exclusão mais .p~~-
cador.' A entrada do Estado como imposição necessária no versos que os precedentes, embora também existam possibili-
enfrentamento da crise de 1929 foi, ao mesmo tempo, um me- dades de um novo patamar de conquistas da classe trabalha-
canismo de superação da virulência da crise e um agravador dora. A dominância dos processos de reestruturação do
da mesma nas décadas subsequentes. A volta às teses mone- capitalismo, de imediato, nos mostra, como veremos adiante,
taristas e mercantilistas protagonizadas pelo ideário neoliberal uma cota diferenciada, em termos de perspectivas e de custos
explícita a ilusão de que o problema crucial esteja nos proces- humanos, nos países do Cone Norte e nos países do Cone Sul,
como é o caso da América Latina."
3. Metodologicamente é importante registrar que, para não esvaziar a densi- Se é verdade que o colapso abrupto do socialismo real deve
dade das análises de Marx sobre a natureza estrutural da crise no modo de produ- ser debitado a erros brutais dos rumos que a Revolução de 1917
ção capitalista, e transformar a agudez da concepção dialética materialista históri- foi tomando, transformando os dirigentes numa "classe de
ca, na análise da realidade, em dogma e visão mecanicista, é crucial que a análise
burocratas", fixados num poder monolítico, autocrático e vio-
apreenda as mediações, as profundas diferenças do capitalismo atual em relação
ao capitalismo do início do século XVIII.
lento (é só lembrarmos do período estalinista), não podemos
4. Vários trabalhos, partindo das análises de Marx em O capital, sobre as formas esquecer que o mesmo resulta da história da exploração e atra-
mediante as quais o capitalismo enfrenta suas crises cíclicas, abordam esta proble- so daquelas sociedades e, posteriormente, da violência perma-
mática. Gianotti, em um texto sobre as "Formas de sociabilidade capitalista", nente do sistema capitalista mundial. Na visão de Marx, o so-
mostra como na atual fase do capitalismo o capital, para reproduzir-se, necessita
de "formas de produção postas pelo capital como o seu outro e que crescem com
ele". Neste contexto analisa a função do Estado, do fundo público, da riqueza social, S. Certamente, o Estado sempre se constituiu num ator político na consecução
do trabalho improdutivo e a própria natureza das classes sociais (Gianotti, 1983, dos interesses da classe burguesa. Todavia, corno analisa Gramsci (1978),já na dé-
p. 216-99). Francisco de Oliveira, em várias análises, das quais destacamos "O cada de 1920,a complexidade dos processos de acumulação foi desmascarando de
terciário e a divisão social do trabalho" (1981),"O surgimento do antivalor: capital, forma cada vez mais clara a imagem do Estado liberal neutro, árbitro do bem comum.
força de trabalho e fundo público" (1988b, p. 8-28), discute, no primeiro caso, a A atividade econômica, ao contrário de ser resultado de forças livres do mercado e
ideia de que o trabalho improdutivo não é externo, alheio ao trabalho produtivo, de uma racionalidade puramente técnica, resulta, cada vez mais, da atividade po-
mas parte de um mesmo movimento contraditório. No segundo texto, expõe o lítica. Crises econômicas redundam em crises do Estado e vice-versa.
papel central do fundo público na superação da crise dos anos 1930e, portanto, na 6. Diversos trabalhos publicados na década de 1990 que analisam a crise do
definição do padrão de acumulação capitalista dos últimos cinquenta anos, padrão capitalismo reservam uma perspectiva bastante sombria para países como os que
este que, a partir dos anos 1970, entra em crise. Magdof (1978) mostra como a en- constituem a América Latina. Ver, entre outros, Schaff (1990),R. Ronchey (1991),
trada do Estado na economia não se apresentou como uma escolha entre outras R. Blackburn (1992), Furtado (1992), Wright (1983), Boron (1991 e 1994), Gomes
alternativas, mas corno uma imposição. (1992).
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72 GAUDtNClO FRIGOnO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL
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cialismo se iniciaria em condições favoráveis onde a forma Contrastando com a morbidez profética dos apologetas
capitalista de produção tivesse atingido o mais elevado grau do fim da história e da supremacia da forma mercantilista de
de desenvolvimento e contradição (Inglaterra, França ...) e daí relações sociais, um número significativo de intelectuais, com
se expandiria num processo geral de ruptura com o capitalismo. matizes teóricos e ideológicos diversos e conflitantes, nos sina-
Ou seja, a passagem se daria onde o capitalismo, por suas "vir- liza a necessidade de uma outra leitura. Assim é que os trabalhos
tudes" de produção e incapacidade de socialização desta pro- de Blackbum (1992), Hobsbawm (1992b), Alliez (1988), Ander-
dução, exacerbasse as contradições, e não pelo caminho do son (1992),Williams (1984), Callinicos (1992), Kagarlitsky (1993)
quanto pior melhor. Como nos indica Hobsbawm: e Ronchey (1991) interpretam a crise do socialismo como uma
trama de relações mais complexa que a simples auto dissolução
(...) por este prisma, nem o advento de uma ordem social não por inviabilidade histórica e concluem que esta crise não sig-
capitalista, que foi a República Soviética, nem a atual perspecti- nifica que o vitorioso é o capitalismo.
va de sua desintegração, podem ser vistas como fatos isolados, Certamente devemos nos perguntar com G. Steiner "se o
mas sim como sérias mudanças de rumo dentro da configuração chicote numa mão e o cheeseburger na outra, esgotam as alter-
maior da política e da economia mundiais. (Hobsbawm, 1992b,
nativas enfrentadas pela civilização humana".
p.134)

Este encaminhamento nos ajuda a não simplificar a análi-


se e, perante a perplexidade de uma crise profunda do sistema 1.2A especiflcidade da crise do Estado de Bem-Estar e do modelo
mundial e da qual não temos clareza, não caiamos em atitudes fordista de regulação social
e interpretações políticas mórbidas. Profecias mórbidas e cínicas
como as do fim da história de Fukuyama, mediante as quais se A crise de caráter planetário que se explicita particular-
passa a ideia de que o capitalismo, com seu "deus mercado" (o mente nos anos 1970 tem suas raízes bem mais remotas. Con-
bem), finalmente impera absoluto com a morte do socialismo traditoriamente, a crise dos anos 1970 tem na sua gênese as
e do comunismo e, por consequência, da teoria marxista que o estratégias de superação da crise dos anos 1930. As políticas do
inspirou (o mal)? Estado de Bem-Estar e os governos da social-democracia não
tiveram a capacidade de estancar um modelo de desenvolvi-
mento social fundado sobre' a concentração crescente de capital
7. É preciso registrar que, ao contrário da pretensa novidade, a critica externa
e interna à utopia socialista e às formas históricas que buscaram viabilizá-la concre-
e exclusão social. Este modelo de desenvolvimento, com base
tamente, não é nova. Por certo pode-se afirmar que é tão velha quanto a origem do na teorização keynesiana, tem sido caracterizado como sendo
próprio socialismo ou socialismos. As críticas ao socialismo real, sob a hegemonia o modelo jordista e neojordista de produção.
soviética, já no final da década de 1920 eram profundas e duras por Gramsci na
Como analisam vários autores," este modelo define-se por
Itália e, de forma crescente, por inúmeros marxistas e socialistas de diferentes par-
tes do mundo. Uma exemplar documentação destes embates pode ser encontrada diferentes características que podem ser assim sintetizadas:
na coletânea de doze volumes organizada por Eric Hobsbawm, sobre a História do
marxismo, traduzida no Brasil pela Editora Paz e Terra. Uma recuperação destes
debates, incluindo as diferentes visões atuais no Brasil, é feita de forma sistemática 8. Ver, a esse respeito, as análises de Alliez (1988), Lipietz (1988), Coriat (1988),
e bastante exaustiva por José C. Lombardi (1993, p. 121-322). [acobi (1986) e Palloix (1982).
74
GAUDÊNClO FRIGOnO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 7S

a) uma determinada forma de organização do trabalho A segunda fase do sistema fordista entra justamente no
fundada em bases tecnológicas que se pautam por um refina- contexto das teses keynesianas que postulam a intervenção do
mento do sistema de máquinas de caráter rígido, com divisão Estado na economia como forma de evitar o colapso total do
específica do trabalho, um determinado patamar de conheci- sistema. No plano supra-estrutural desenvolve-se a ideia de
mento e uma determinada composição da força de trabalho; Estado-Nação (totalitário ou democrático) e, após a Segunda
b) um determinado regime de acumulação, fundado numa Guerra Mundial, ganha força a ideia de Estado de Bem-Estar
estrutura de relações que buscou compatibilizar produção em Social. É também neste período que os regimes sociais-demo-
grande escala e consumo de massa num determinado nível de cratas se apresentam como "alternativa" ao capitalismo "sel-
lucro; vagem" e aos projetos socialista e comunista. Neste contexto,
como nos mostra Hobsbawm (1992b), o sistema capitalista in-
c) e, por fim, um determinado modo de regulação social
corpora ideias da planificação socialista e principia um quadro
que compreende a base ideológico-política de produção de
de recuperação e de estabilidade. O Estado de Bem-Estar vai
valores, normas, instituições que atuam no plano do controle
desenvolver políticas sociais que visam à estabilidade no em-
das relações sociais gerais, dos conflitos intercapitalistas e nas
prego, políticas de rendas com ganhos de produtividade e de
relações capital-trabalho.
previdência social, incluindo seguro desemprego, bem como
Por um período de aproximadamente 60 anos foi adotado direito à educação, subsídio no transporte etc. O slogan de H.
este modelo de desenvolvimento. Em sua primeira fase, como Ford - nossos operários devem ser também nossos clientes - ca-
expõe Alliez (1988), que vai até 1930, constitui-se num proces- racteriza a estratégia econômica desta segunda fase do fordismo
so de refinamento do sistema de maquinaria analisado por que busca viabilizar a combinação de produção em grande
Marx. Grandes fábricas, decomposição de tarefas na perspecti- escala com consumo de massa.
va taylorista, mão de obra pouco qualificada, gerência científi- As perspectivas de Francisco de Oliveira (1988b) e de E.
ca do trabalho, separação crescente entre a concepção e a exe- Hobsbawm (1992b), diferentes da maior parte das análises,
cução do trabalho etc. O fordismo propriamente dito que se compreendem o surgimento, desenvolvimento e crise do for-
caracteriza por um sistema de máquinas acoplado, aumento dismo e do Estado de Bem-Estar Social ou previdenciário,
intenso de capital morto e da produtividade, produção em dentro de uma dialética em cujo pacto, contraditoriamente, se
grande escala e consumo de massa, tem seu desenvolvimento situou a possibilidade de sustentação do padrão de acumulação
efetivo a partir dos anos 1930 e torna-se um modo social e cultu- capitalista. Este pacto envolve o financiamento, pelo fundo
ral de vida após a Segunda Guerra Mundial. público, do capital privado e, ao mesmo tempo, de forma cres-
A crise de 1929, que é uma crise de superprodução e, por- cente, da reprodução da força de trabalho, aumentando de
tanto, uma ameaça de asfixiamento do sistema que não conse- forma generalizada a assistência da população não por carida-
gue realizar as mercadorias produzidas, determina novas es- de, mas como direito, mediante as políticas sociais de saúde,
tratégias para o enfrentamento da crise. Entre estas estratégias educação, emprego etc.
destacam-se, no plano capitalista, o fascismo, o fordismo e o
(...) o fundo público, em suas diversas formas, passou a ser o
americanismo.
pressuposto do financiamento da acumulação de capital de um
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GAUD~NClO FRIGOnO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 77

lado, e, de outro, do financiamento da reprodução da força de Mais amplamente, mostra-nos desdobramentos que se
trabalho, atingindo globalmente toda a população por meio dos
tecem no plano da materialidade das relações sociais, decor-
gastos sociais. (...) o fundo público é agora, um ex ante das con-
rentes da relação orgânica entre o padrão de acumulação e re-
dições de reprodução de cada capital particular e das condições
produção do capital e a reprodução da força de trabalho, cuja
de vida, em lugar de seu ex posto típico do capitalismo concor-
rencial. (Oliveira, 1988b, p. 8-9)
dissolução não aceita esquemas lógicos, mas depende de forças
materiais reais. As despesas sociais se constituem num salário
Desta relação dialética entre o padrão de financiamento da indireto e permitem, portanto, a liberação do salário direto para
consumo de massa. Tais despesas são cruciais para o aumento
acumulação privada e da reprodução da força de trabalho, ten-
dos mercados de bens de consumo duráveis:
do corno vértice o fundo público, decorrem inúmeras conse-
quências que, tradicionalmente, eram consideradas corno pos- A presença dos fundos públicos, pelo lado desta vez da repro-
síveis apenas dentro do socialismo. Hobsbawm destaca duas: dução da força de trabalho e dos gastos sociais públicos gerais,
a) o capitalismo produziu urna abundância de bens e ser- é estrutural ao capitalismo contemporâneo, e, até prova em
viços e "a maioria das pessoas comuns no Ocidente goza de um contrário, insubstituível. (Oliveira, 1988b, p. 10)
padrão de vida muito além do que se poderia conceber há cin-
quenta anos. E, graças ao Estado de Bem-Estar Social, os pobres No âmbito do caráter contraditório da relação do fundo
público com o financiamento do capital privado e a repro~ução
possuem um abrigo contra os ventos do infortúnio". Por isso,
da força de trabalho, outras consequências fundamentais ad-
indica Hobsbawm, o argumento de que só o socialismo elimina
vêm, tanto na perspectiva do capital quanto do trabalho e que,
a pobreza, o desemprego, neste contexto, enfraqueceu;
face à crise, engendram alternativas com custos sociais e hu-
b) muito do que uma vez foi visto corno típico de urna manos muito diversos.
economia socialista tem, desde os anos 1930, sido cooptado e
Se o desenvolvimento do antivalor, corno o define Francis-
assimilado por sistemas não socialistas, principalmente urna
co de Oliveira (1988b), explicita corno a sociabilidade capitalis-
economia planejada e a propriedade estatal ou pública de in-
ta, mediante o fundo público, amplia urna gama de valores, de
dústrias e serviços". Mesmo com a onda neoconservadora
riqueza social que não se constituem em capital, mas que além
deflagrada por Thatcher, na Inglaterra, e Reagan, nos Estados de subsidiar diretamente o capital privado, favorece-o indire-
Unidos, mostra Hobsbawm que, entre 1980 e 1987, de acordo tamente assumindo grande parte dos custos de reprodução da
com dados do Banco Mundial, foram efetivadas 400 privatiza- força de trabalho, liberando-o para investir no desenvolvimen-
ções, sendo que metade delas apenas em cinco países, um deles to tecnológico, ao mesmo tempo produziu urna imensa gama
o Brasil (Hobsbawm, 1992b, p. 263-4). de bens e serviços públicos corno antimercadorias sociais e urna
A análise de Francisco de Oliveira também destaca a não desmercantilização significativa da reprodução da força de tra-
confirmação das previsões da pauperização: balho. A consequência política, crucial, deste processo é que o
embate por estes direitos se deslocou da esfera privada para a
O que se assiste é uma expansão do consumo de todas as classes esfera pública. Corno veremos a seguir, é neste terreno que se
nos países mais desenvolvidos, e uma renovada e inusitada dá o embate entre as perspectivas neoconservadoras, antide-
expansão do investimento.
mocráticas, e as perspectivas democráticas em face da crise.
78 GAUDtNCIO FRIGOnO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 79

Os limites deste modelo de desenvolvimento se fazem reducionista e simplificadora da contribuição deste autor na
sentir já ao final da década de 1960 com a progressiva satura- crítica mais geral às relações capitalistas e especificamente aos
ção dos mercados internos de bens de consumo duráveis, limites, contradições e alternativas ao Estado de Bem-Estar,
concorrência intercapitalista e crise fiscal e inflacionária que destacamos alguns pontos que têm, positivamente, alimentado
provocou a retração dos investimentos. Desenha-se, então, a o debate crítico.
crise do Estado de Bem-Estar Social, dos próprios regimes A coletânea de dez ensaios e uma longa entrevista, edita-
sociais-democratas e principia-se a defesa à volta das "leis dos por [ohan Keane, reúnem o conjunto mais amplo de análi-
naturais do mercado" mediante as políticas neoliberais, que ses, em diferentes circunstâncias, feitas por Offe nos anos 1970
postulam o Estado Mínimo, fim da estabilidade no emprego e e início dos anos 1980 sobre as contradições, crise, limites e
corte abrupto das despesas previdenciárias e dos gastos, em alternativas ao Estado de Bem-Estar Social (Offe, 1990). Nestes
geral, com as políticas sociais. Este modelo teve nos governos ensaios, Offe expõe os limites intrínsecos e, portanto, estruturais
Thatcher, na Inglaterra e Reagan, nos Estados Unidos suas das políticas do Estado de Bem-Estar Social derivados de suas
âncoras básicas. múltiplas funções conflitivas de atender as necessidades priva-
Inúmeras são as análises que buscam explicar a natureza, das do capital e as demandas sociais e públicas crescentes. Este
contradições e determinações da crise do Estado de Bem-Estar caráter conflitivo se explicita sobretudo mediante a crise fiscal
Social ou Estado assistencial, cuja sintomática se explicita pela que debilita as possibilidades de cumprir suas múltiplas funções
crescente incapacidade de o fundo público financiar a acumu- relativas ao capital privado e às demandas públicas. Explícita-se,
lação privada e manter as políticas sociais de reprodução da também, mediante os problemas de eficácia e de controle da
força de trabalho. Entre estas análises destacamos as de Offe planificação central. Neste âmbito, Offe mostra-nos que a crise
(1989a, 1990), Habermas (1987), O'Connor (1977a) e F. de Oli- também resulta dos problemas de legitimação do Estado de
veira (19886). Bem-Estar.
Neste âmbito, as análises de Habermas e de Offe consti- Por ser uma crise de natureza estrutural, Offe nos mostra
tuem contribuições instigantes cujo teor mais geral se radica que não comporta saídas simples e fáceis. Neste sentido, sina-
na tradição fecunda do legado marxista: a crítica ao Estado e liza três movimentos de resistência e que se põem como alter-
às relações capitalistas na "sua lógica cega e destrutiva de nativas.
autovalorização do capital". Noutros âmbitos, como veremos A primeira, refere-se à perspectiva da "Nova Direita" que
adiante, as análises destes autores, como bem mostra Ander- postula a volta aos controles do mercado, do laissez faire. Para
son (1985), têm afinidades peculiares com as perspectivas Offe, esta alternativa se apresenta problemática, pois os neo-
estruturalistas na sua matriz francesa e, por este caminho, se conservadores não percebem que "o capitalismo está, ao
afastam da tradição marxista de compreensão histórica da mesmo tempo, posto em perigo e possibilitado pelo Estado
realidade social. de Bem-Estar". A segunda alternativa, que não exclui as pers-
Por polemizarmos, no Capítulo III, a questão da tese pos- pectivas da primeira, é o reforço ao corporativismo que busca,
ta por Offe da não centralidade do trabalho como categoria ao mesmo tempo, revigorar os processos de mercado e neu-
sociológica fundamental, para não correr o risco de uma visão tralizar demandas políticas com o intuito de aliviar os proble-
80
GAUDENClO FRIGOTTO DUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 81

mas fiscais. Por diferentes razões, Offe vê este mecanismo no plano teórico, econômico e político-ideológico. Um dos
reforçado, embora também enfrente profundas dificuldades pontos cruciais deste avanço é justamente a compreensão de
advindas dos interesses em confronto que podem gerar pesa- como joga a internacionalização do capital e, outro, a questão
dos desequilíbrios. das classes sociais.
Baseado na análise de que o Estado de Bem-Estar, ao mes- No plano político e econômico a crise se dá nos proces-
mo tempo que tem viabilizado a administração da crise de re- sos de
produção do capital, tem ampliado os espaços de controle da
esfera pública e, portanto, da perda de espaço do campo priva- internacionalização produtiva e financeira da economia capita-
do sobre a vida cotidiana dos cidadãos, Offe aponta a alterna- lista. A regulação keynesiana funcionou enquanto a reprodução
tiva "democrática e socialista". Na entrevista apresentada na do capital, os aumentos de produtividade, a elevação do salário
coletânea, Offe destaca como ponto crucial da estratégia socia- real se circunscreveram aos limites - relativos por certo - da
territorialidade nacional dos processos de interação daqueles
lista o combate ao que Marx aponta como a lógica insaciável
componentes de renda e do produto. (Oliveira, 1988b, P: 12-3)
de autovalorização do capital e de, portanto, um sistema que
não se preocupa com os valores de uso.
Mostra-nos este autor que o processo de internacionaliza-
Este combate implica, para Offe, buscar formas de ampliar ção tirou parte dos ganhos fiscais sem todavia liberar o fundo
os critérios de produção de valores de uso. Neste particular, público de financiar a reprodução do capital e da força de tra-
discorda das lutas pelo pleno emprego, defendendo a ideia de balho.
desenvolvimento de trabalhos desvinculados da lógica "salá-
No plano teórico, a crise do Estado de Bem-Estar é situada,
rio-trabalho", mediante cooperativas. Outros aspectos que
por Francisco de Oliveira, no interior do caráter contraditório
enfatiza são a ampliação dos direitos democráticos, a luta pela
do sistema capitalista e, portanto, da questão dos limites deste
paz, o movimento ecológico, a crítica à modernização predató-
sistema.
ria e a fé cega no avanço tecnológico.
Em toda a sua análise embasada em argumentos sólidos, Ora, a história do desenvolvimento capitalista tem mostrado,
como nos indica Keane na introdução à coletânea, é surpreen- com especial ênfase depois do Welfare State, que os limites do
dente que Offe não considere as implicações da crescente na- sistema capitalista só podem estar na negação de suas categorias
tureza transnacional do capital e a crise global do sistema ca- reais, o capital e a força de trabalho. Neste sentido, a função do
pitalista. fundo público no travejamento estrutural do sistema tem muito
mais a ver com os limites do capitalismo, como desdobramento
A perspectiva desenvolvida por Offe sobre a crise do Es- de suas próprias contradições internas. (Ibidem, p. 12-3)
tado de Bem-Estar, de um modo geral, corrobora as análises de
Hobsbawm e de Francisco de Oliveira, que vêm balizando, Os sinais de esgotamento do modelo de desenvolvimen-
fundamentalmente, esta breve incursão na compreensão da / to fordista, enquanto regime de acumulação e regulação social,
natureza e especificidade da crise dos anos 1970-90. Entende- coincidem, paradoxalmente, com um verdadeiro revolucio-
mos, todavia, que estas últimas, ao mesmo tempo que explici- namento da base técnica do processo produtivo, resultado,
tam melhor muitos dos aspectos abordados por Offe, avançam como se apontou anteriormente, do financiamento direto ao
83
82 GAUDÊNClO FRIGOnO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL

capital privado e indireto na reprodução da força de trabalho A contradição capital-trabalho, neste contexto, assume
pelo fundo público. A microeletrônica associada à informa ti- urna dimensão nova que confere urna especificidade à crise que
zação, a microbiologia e engenharia genética que permitem a abala o sistema oapitalista."
criação de novos materiais e as novas fontes de energia são a
base da substituição de urna tecnologia rígida por urna tecno-
logia flexível. 2. Os caminhos alternativos de enfrentamento da crise
Esta mudança qualitativa da base técnica do processo
produtivo, que a literatura qualifica corno sendo urna nova A compreensão da crise no horizonte teórico, que acaba-
Revolução Industrial permite, de forma sem precedentes, acelerar mos de sinalizar, permite-nos, a um tempo, perceber quais os
o aumento da incorporação de capital morto e a diminuição custos sociais e humanos da alternativa neoliberal de volta aos
crucial, em termos absolutos, do capital vivo no processo pro- mecanismos excludentes do mercado, e igualmente perceber
que a crise do Estado de Bem-Estar carrega consigo uma.posi-
dutivo. Vale registrar que a mudança para urna base técnica de
tividade, cuja concretização política depende da capaCldade
tecnologia flexível, informatizada, embora se dê em grau e
dos sujeitos sociais concretos de manter e ampliar democ~at~-
velocidade diferenciados, é urna tendência do sistema.
camente a esfera pública na disputa dos bens, serviços e direi-
O impacto sobre o conteúdo do trabalho, a divisão do tos conquistados no terreno contraditório deste mesmo Estado
trabalho, a quantidade de trabalho e a qualificação é crucial. Ao
de Bem-Estar.
mesmo tempo que se exige urna elevada qualificação e capaci-
dade de abstração para o grupo de trabalhadores estáveis (mas Importa também observar que o Estado de Bem-Estar e suas
não de todo) cuja exigência é cada vez mais de supervisionar o instituições não são agora o "horizonte intransponível"; para
sistema de máquinas informatizadas (inteligentes!) e a capacida- além dele, bate, latente, um modo social de produção superior.
Resta resolver um problema, intacto. que é o da apropriação dos
de de resolver, rapidamente, problemas, para a grande massa
resultados desse modo social (...) Mas, decididamente, o acesso
de temporários, trabalhadores "precarizados" ou, simplesmen-
e o manejo do fundo público são o nec pltls ultra das formas sociais
te, para o excedente de mão de obra, a questão da qualificação
do futuro. (Oliveira, 1988b, p. 19)
e, no nosso caso de escolarização, não se coloca corno problema
para o mercado. Tanto Oliveira' quanto Hobsbawm reconhecem que até o
Entre as várias estratégias de que o capital se utiliza para presente a apropriação tem se dado dominantemente no senti-
retomar urna nova base de acumulação destacam-se os proces- do da reprodução do capital. Hobsbawm salienta três problemas
sos de reestruturação capitalista que incluem: reconversão que, mesmo sob a égide do Estado de Bem-Estar, se agravaram
tecnológica, organização empresarial, combinação das forças neste último meio século:
de trabalho, estruturas financeiras etc. De outra parte, corno
veremos adiante, as empresas deslocam-se de urna região para 9. Roberto Schwarz, destaca que "pela primeira vez o aumento de produti-
outra saindo dos espaços onde a "classe trabalhadora" é mais vidade está significando dispensa de trabalhadores também em números absolutos,
organizada e historicamente vem acumulando a conquista de ou seja, o capital começa a perder a faculdade de explorar trabalho" (Schwarz, 1992,
direitos. p.11).
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CAPITALISMO REAL 8S

a) a questão ecológica, em face de um processo de desen- Esse tipo de Constituição, que se popularizou na Europa após a
v?~vimento sem limites, atingiu o ponto que pode de fato sig- Carta Alemã de Weimar de 1919, tem pouca durabilidade. Ao
nificar a destruição da biosfera; contrário da mãe das Cartas Magnas democráticas - a Consti-
b) o aumento da distância entre habitantes dos países de- tuição de Filadélfia - que é, como diz o professor James Bucha-
senvolvidos e ricos e dos países pobres. Mostra-nos Hobsbawm man, "política sem romance", as Constituições recentes fazem o
que o "mundo desenvolvido" em 1900 representava um terço "romance da política". Baseiam-se em dois erros: primeiro, a
"arrogância" de que nos fala Hayek, de pensar que o processo
da humanidade e hoje representa apenas 15% a 20%. O PIB dos
político é mais eficaz que o mercado na promoção do desenvol-
países desenvolvidos que era, em 1900, três vezes maior que o
vimento; segundo, a ideia romântica de que o Estado, esse "mais
resto da humanidade, em 1980 era de aproximadamente 12,5
frio dos monstros" como dizia Nietszche, é uma entidade bene-
vezes;
volente e capaz. (Campos, O Globo, 11/7/1993)
c) por fim, o terceiro problema explícita-se no fato de que
A volta às leis puras do mercado retoma, com vigor, as
(...) ao subordinar a humanidade à economia, o capitalismo teses conservadoras dos anos 1940, como as de F. Hayek e, mais
mina e corrói as relações entre seres humanos que formam as
recentemente, as de Friedman que entraram na ordem do dia
sociedades e cria um vácuo moral em que nada conta a não
na década de 1970 como sendo a nova e eficaz estratégia capaz
ser o desejo do indivíduo aqui e agora". (Hobsbawm, 1992b,
p.266-7) de suplantar a crise." Particularmente, as teses de Friedman
sobre o financiamento da educação, como veremos a seguir, são
No olhar vesgo da burguesia, a crise atual, uma vez mais, hoje invocadas para legitimar políticas de descompromisso do
aparece como um desvio das leis "naturais do mercado". A Estado nesta área.
pedra de toque dos neoconservadores está na crítica à exces- Fundamentalmente, a tese neoliberal (que não é unívoca)
siva intervenção e agigantamento do Estado, e postula-se, como postula a retirada do Estado da economia - ideia do Estado
remédio, a volta da "regulação" do mercado e as políticas mínimo; a restrição dos ganhos de produtividade e garantias de
~onetaristas. O ideário neoliberal e neoconservador protago- emprego e estabilidade de emprego; a volta das leis de mercado
nizado por Thatcher e Reagan, malgrado seu insucesso naque- sem restrições; o aumento das taxas de juros para aumentar a
las sociedades, tornou-se a palavra de ordem para o ajusta- poupança e arrefecer o consumo; a diminuição dos impostos
mento (leia-se submissão às regras dos novos senhores do sobre o capital e diminuição dos gastos e receitas públicas e,
mundo e suas instituições: FMI, BIRD, BID etc.) nos países da consequentemente, dos investimentos em políticas sociais."
América Latina e, agora, de forma avassaladora, para o Leste Na realidade, não se trata de uma alternativa para a crise,
Europeu.
mas a busca da recomposição dos mecanismos de reprodução
Um dos representantes mais empedernidos deste olhar do capital pela exacerbação da exclusão social.
vesgo no Brasil, R. Campos, ao criticar, como grande embuste",
/I

/
a tendência intervencionista da Constituição de 1988, percebe
10. Para uma análise das ideias de Hayek e Friedman, ver Bianchetti (1992).
a origem deste mal desde a Constituição de Weimar, em 1919,
11. Para uma análise mais detalhada das teses neoliberais e sua crítica, ver:
na Alemanha.
Villareal (1978), Finkel (1990) e Bianchetti (1992).
86 EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 87
GAUDtNClO FRIGOnO

Uma coisa é ver o mercado como um guia para eficiência eco- Os problemas do globo que hoje pode tornar-se inabitável pelo
nômica. Vero mercado como o único mecanismo de distribuição mero crescimento exponencial em produção e poluição, sem
dos recursos em economia, como veem os fanáticos do reaga- mencionar a capacidade tecnológicade destruição demonstrada
nismo e do thatcherismo ou o Institute of Economic Affairs e pela Guerra do Golfo,e os problemas de um mundo dividido em
outros centros de pensamento ultracapitalista, é inteiramente uma vasta maioria de povos famintos e Estados extraordinaria-
outra. O mercado produz desigualdade tão naturalmente como mente ricos,não podem ser resolvidos desta maneira. Mais cedo
combustíveis fósseis produzem poluição no ar. (Hobsbawm, ou mais tarde exigirão ação sistemática e planejada nacional e
1992b,p. 264) internacionalmente e uma investida contra as fortalezas centrais
da economia de mercado de consumo. Exigirãonão apenas uma
Em relação ao Estado, a questão crucial não é se é um sociedade melhor que a do passado, mas como sempre sustenta-
Estado máximo ou um Estado mínimo, mas qual Estado. Neste ram os socialistas,um tipo diferente de sociedade. (...) É por esse
sentido, Francisco de Oliveira mostra que a perspectiva conser- motivo que o socialismoainda tem um programa 150anos após
vadora, na realidade, não postula reduzir o Estado em todas as o Manifesto de Marx e Engels. É por esse motivo que ainda está
suas faces, mas apenas estreitar ou eliminar sua face pública. no programa. (Hobsbawm, 1992b,p. 269-70)

(...) seu objetivo é dissolver as arenas específicas de confronto e A alternativa que pode incorporar o imenso progresso
negociação, para deixar o espaço aberto a um Estado mínimo, técnico a favor das necessidades e ampliação da liberdade hu-
livre de todas as peias estabelecidas ao nível de cada arena es- mana, malgrado o colapso do socialismo real, continua sendo
pecífica da reprodução do capital. Trata-se de uma verdadeira a do socialismo. As questões que se colocam são: que tipo de
regressão, pois o que é tentado é a manutenção do fundo públi- socialismo e qual o caminho para a travessia? Por certo, sobre
co como pressuposto apenas do capital. (Oliveira, 1988b,p. 25) as tentativas concretas de resposta a estas questões a história
tem lições amargas mas salutares.12
A efetiva alternativa para a crise do Estado de Bem-Estar
A crise do Estado de Bem-Estar e o colapso do socialismo
e do modelo fordista de acumulação, como nos apontam
real parecem mostrar que o caminho de construção do socialis-
Hobsbawm e Oliveira, não é a regressão às leis de mercado e
mo implica um tecido de realidade e de sujeitos políticos que
nem a proposta da social-democracia, pois as estratégias políticas
rompam, desde as vísceras- do regime capitalista mais desen-
que a viabilizaram tinham no fundo público sua razão básica. A
volvido, sua coluna vertebral. A travessia não comporta fórmu-
transnacionalização da economia expõe o limite de elasticidade
las, mas como indicam vários pensadores - F. de Oliveira
do fundo público e sua crescente incapacidade para atender a
(1992), Coutinho (1984 e 1991) e Hobsbawm (1992c) -, exige,
reprodução ampliada do capital e da força de trabalho.
necessariamente, a radicalização da democracia.
Também a perspectiva "de estilos de vida alternativos"
individuais ou em comunidade (Williams, 1984) ou as propos-
tas de regulação social advindas da doutrina social da Igreja 12.Não é propósito deste trabalho analisar as razões históricas do colapso do
socialismo real e sua influência nas alternativas que se apresentam à crise deste
- por mais que se apresentem como uma opção contra o arbí-
final de século. A coletânea organizada por Robin Blackburn (1992), o livro de
trio do mercado, insiste Hobsbawm, não constituem solução Boris Kagarlitsky (1993),entre outros trabalhos, nos permitem apreender tanto as
para os problemas que o mundo enfrenta hoje. raizes históricas do colapso quanto as alternativas em disputa.
EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 89
88 GAUDI:NCIO FRIGOTTO

Ao contrário das teses da direita da sociedade "pós-histó- 3. Os custos sociais e humanos da alternativa neoconservadora
rica, pós-classista" e o império da lei de mercado ou das teses
de uma determinada esquerda que desloca o embate para o Os efeitos do ajuste neoconservador no enfrentamento da
terreno individual, subjetivista ou para uma "razão sensível crise, que significa a definição de um novo modelo de acumu-
(ou cínica)" (Kurz, 1992), como mostram Oliveira (1988b) e lação e regulação social, dentro de um novo reordenamento
Jameson (1994), no embate da travessia não só persistem os mundial, têm como consequência o aumento da exclusão social.
sujeitos sociais clássicos (as classes fundamentais), cuja apreen- A ideia de custos sociais e humanos materializa-se pelo aumento
são demande ir além das aparências imediatas e nacionais, como da miséria absoluta, da fome, da violência, de doenças endê-
a própria sociabilidade capitalista e os interesses que a ela se micas e pelo desemprego e subemprego estrutural que atinge
contrapõem, fazem emergir novos sujeitos políticos. de modo diferenciado os países do Cone Norte e Sul.
Com a crise do sistema fordista de acumulação e regulação
A democracia representativa é o espaço institucional no qual, social agudiza-se a desorganização do mercado mundial e
além das classes e grupos diretamente interessados, intervêm aguça-se a luta intercapitalista, ao mesmo tempo que se busca
outras classes e grupos, constituindo o terreno do público, do um novo reordenamento e regionalização do capitalismo para
que está acima do privado. São pois condições necessárias e
a partilha do mundo. Nesta partilha, o denominado "Grupo
suficientes. Neste sentido, longe de desaparição das classes so-
dos 7", que constitui uma tróica (Gomes, 1992) - Estados Uni-
ciais, tanto a esfera pública como seu corolário, a democracia
dos, Japão e Mercado Comum Europeu -, se é verdade que
representativa, afirmam as classes sociais como expressões co-
estabelecem uma surda e feroz luta de interesses entre si, va-
letivas e sujeitos da história. (Oliveira, 1988b, p. 23)
lem-se dos organismos internacionais que os representam para
A estruturação e ampliação da esfera pública, mediante subjugar o restante do planeta.
uma democracia representativa - no método, na forma e no Noam Chomsky, numa análise sobre os novos senhores da
conteúdo -, é, para Oliveira, o caminho, de dentro dos limites humanidade, mostra que se no início do capitalismo
do "Estado-classista", para contrapor-se à lógica de exclusão
os mercadores e manufatureiros eram os principais arquitetos
do mercado e do capital e para a travessia para o socialismo.
da política de Estado, utilizando seu poder para levar desditas
A trilogia proposta como alternativa, por Oliveira, é: método terríveis aos vastos reinos que subjugavam, em nossa época os
democrático, esfera pública e socialismo. Coutinho, na mesma senhores são, cada vez mais, as corporações supranacionais e as
perspectiva, defende que a luta pela democracia (de massa, instituições financeiras que dominam a economia mundial in-
popular) e pelo socialismo é a mesma coisa: "a democracia não cluindo o comércio internacional. (Chomsky, 1993,p. 6-18)
é um caminho para o socialismo, mas sim o caminho do
socialismo".13 As formas de subjugação se dão por vários mecanismos.
Entre estes destacamos o GATT, dentro do qual se inserem a
imposição das leis de patentes aos países do Terceiro Mundo e
13. Para uma compreensão mais detalhada deste debate referido à realidade
brasileira ver Oliveira (1991),Coutinho (1984e 1994),Weffort (1992), Touraine (1995)
um perverso processo de privatização e monopolização do
e Debrun (1983). conhecimento.
90 EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 91
GAUDÊNClO FRIGOnO

A privatização do conhecimento é, ao mesmo tempo, uma Um passeio a pé por qualquer cidade norte-americana dá forma
forma de aumentar a polarização da riqueza social e do poder humana às estatísticas sobre qualidade de vida, distribuição de
riqueza, pobreza e empregos e outros elementos do "paradoxo
e uma ameaça à própria espécie humana. Em um debate com
de 92". Cada vez mais a produção pode ser deslocada para zonas
cientistas sobre direitos humanos hoje, Norberto Bobbio adver-
de alta repressão e baixos salários, e dirigida a setores privile-
te-nos sobre os riscos da privatização do saber tecnológico.
giados na economia global. (Chomsky, 1993, p. 18)

o conhecimento tornou-se a principal causa e condição neces- Esta mesma análise é feita por Therborn (1988), referin-
sária para o domínio do homem sobre a natureza e sobre os
do-se à realidade europeia. No prólogo de seu livro sobre de-
outros homens. C-.) Os novos direitos que relacionei - como
semprego, enfatiza que "o desemprego converteu-se na praga
o direito de viver num ambiente não poluído, o direito à pri-
vacidade, o direito à integridade do patrimônio genético -
do capitalismo avançado dos anos 1980". A Europa, como ve-
referem-se claramente às ameaças que não derivam da ciência remos no Capítulo III, converteu-se numa verdadeira cortina
como tal, mas do uso que das suas descobertas e aplicações de ferro para impedir a entrada, em seus mercados, dos desen-
fazem aqueles que, com base na força ou no consenso, têm raizados e miseráveis do Terceiro Mundo.
autoridade de tomar decisões obrigatórias para a coletividade. Para a América Latina e o Terceiro Mundo em geral, a
Entre elas se encontram as decisões sobre a ciência. (Bobbio, despeito da sua heterogeneidade e do fato de que dentro do
1991, p. 6) caráter transnacional da economia haja ilhas de prosperidade
e privilégios, os custos humanos assumem proporções alarman-
A reestruturação e reorganização do capitalismo face à tes. As análises da crise atual do capitalismo são de pessimismo
crise, na busca de salvaguardar os processos de maximização quando se referem à situação e perspectivas da América Latina
da acumulação, atingem de forma mais generalizada e brutal
e Terceiro Mundo.
os países do Hemisfério Sul mas, por ser urna crise estrutural
Num balanço da crise do capitalismo na década de 1980,
e por ser protagonizada por corporações transnacionais e pelo
Blackbum nos oferece um retrato do que estão representando as
domínio do capital financeiro, seus efeitos perversos se fazem
regras do ajuste imposto pelos países ricos aos países pobres.
sentir em todas as partes do mundo, inclusive nos tradicionais
países ricos do Hemisfério Norte. Os frutos gerados pelo capitalismo nos anos 1980 não se disso-
De acordo com o US Bureau of the Census, em 1975, 12% ciam de um processo obsceno, que bloqueou as perspectivas de
ou 25,9 milhões de norte-americanos viviam abaixo da linha de um enorme número de pessoas nos países mais pobres - pri-
pobreza. Em 1992, os dados indicam a existência de 14,5% ou meiro por causa das dívidas que contraíram com os países mais
ricos, e, posteriormente, porque os seus produtos foram excluí-
36,9 milhões de norte-americanos abaixo do nível de pobreza.
dos do mercado. Em grande parte do Terceiro Mundo a distri-
(Jornal do Brasil, p. 5, 15 out. 1993).
buição do poder econômico e político não impediu a escassez
Referindo-se a esta realidade dos Estados Unidos, N. quase generalizada de víveres, nem epidemias de doenças curá-
Chomsky mostra que se desenvolve no seu interior o modelo veis. Não raro os movimentos em favor dos pobres, que tentaram
terceiromundista, com ilhas imensamente privilegiadas em se opor a tal estado de coisas, tiveram por resposta a repressão
meio a um mar de miséria e desespero. impiedosa e esquadrões da morte. (Blackburn, 1992, p. 108)
93
GAUDÊNClO FRIGOnO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL
92

inviabiliza qualquer possibilidade de mudanças profundas sem


A explicação mais surpreendente de como na reorganiza-
enfrentar a relação genocida com os "credores".
ção do capitalismo em crise, por seu caráter excludente o capi-
tal, com sua nova base tecnológica, ao contrário de potencializar O balanço de pagamento de 1990 fechou com um deficit total de
a vida humana - extensão das capacidades humanas - pode US$ 3,3 bilhões, financiado pelo acúmulo de atrasados nos pag~-
tornar-se poder destrutivo, vem da OIT: A tecnologia empobrece mentos externos. No entanto, é o próprio Banco Central que di-
o Terceiro Mundo. vulga o fato surpreendente de o Brasil ter pago US$ 7 b~ões de
amortizações, mais US$ 9,7 bilhões de juros aos credores interna-
Praticamente todos os países da América Latina estão
cionais durante 1990, ano da moratória. (...) Na década p~ss:da
submetidos ao ajuste dos centros hegemônicos do capitalismo.
(1980-1989)o Brasil pagou aos credores exte.rn~s US$147,5 ~ilh~es,
Os dados que N. Chomsky apresenta do Banco Mundial indicam sendo US$ 96,8bilhões de juros e US$ 50,6bilhoes de amortízaçoes.
que os países industrializados reduzem as rendas nacionais do Apesar disso, a dívida passou de US$ 64,2 bilhões em 1980 para
sul do planeta em cerca do dobro à ajuda financeira concedida US$115,1 bilhões em 1989. (Arruda, 1992, p. 58-64)
à região. Isto constrói um quadro de profunda perversidade na
relação Norte/Sul: Robert Kurz, ao analisar a situação dos países da América
Latina, nos fala do sacrifício do TerceiroMundo e cita Simon ~1987),
Os programas ditados pelo Fundo Monetário Internacional e para exemplificar a rendição da Argentina ao credo neoliberal:
pelo Banco Mundial já ajudaram a dobrar a brecha entre os
A Argentina tornou-se o caso exemplar. d~ ~a estratégia im-
países ricos e pobres desde 1960. As transferências de recursos
piedosamente praticada de desindustnalizaça~. Ent.re 1?75. e
dos países pobres para os ricos chegaram a mais de US$ 400
1982 a produção industrial caiu 20% e a ocupaçao na mdust~I~,
bilhões entre 1982 e 1990, o equivalente, em valores atuais, a mais
em 40%. Crise de desemprego em massa fez com que a particí-
ou menos seis Planos Marshall "fornecidos pelo sul ao norte".
pação dos salários na renda nacional diminuísse de 49% para
(Chomsky, 1993, p. 18)
32,5%. (Simon, apud Kurz, 1992, p. 175)

Os mecanismos do confisco social dão-se mediante trans- Este quadro, com o governo Menen, radicalizou-.se, c?~S-
ferências por serviços da dívida externa; royalties e especulações tituindo-se o exemplo argentino como um caso paradIgmatlcO
monetárias; perdas por deterioração dos termos de acordos de de que o ajuste neoliberal traz uma receita avassaladora contra
comércio e lucros repartidos pelas multinacionais. as classes trabalhadoras. Trata-se de um modelo para poucos,
A análise sobre a dívida externa e o pagamento dos juros não mais que 30% da população.
da dívida, nos termos que têm sido colocados para o Brasil e Em uma análise sobre as políticas de ajuste para o caso
para os países latino-americanos, inviabiliza qualquer política ·1·
b raSI erro, M . C . C . Soares expõe uma síntese de indicadores
de retomada do desenvolvimento e dilapida de tal forma o que vários organismos nacionais e internacionais apresentam
fundo público que impossibilita a manutenção de serviços que e que mostram o agravamento da pobreza:
são direitos dos cidadãos, como saúde, educação, seguro de-
semprego etc. Os dados analisados por M. Arruda para o caso A taxa de crescimento do PIB caiu de 8,6% nos anos 1970 para
1,7% nos anos 80 e se tornou negativa no início dos 1990; o PIB
brasileiro são de extraordinária clareza para mostrar como se
94
GAUDÊNClO FRIGOnO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 95

per capita em 1990foiinferior ao de 1979;entre 1981e 1990caiu Durante 50 anos o Brasil cresceu mais do que qualquer país do
5,3%; a dívida externa (corroborando os dados de Arruda), a mundo, alcançou uma das taxas de crescimento mais altas, 7%
despeito da maciça transferência de recursos para o exterior, ao ano - a cada dez anos o PIB dobrava. Mas o país fez isso
subiu de US$ 64 para US$ 116bilhões de 1980 a 1989;a percen- acumulando miséria. O crescimento é necessário, mas não sufi-
tagem de brasileiros vivendo abaixo da linha de pobreza passou ciente. (Furtado, Jornal do Brasil, p. 13,3 out. 1993)
de 24% em 1980para 39% em 1988;o salário mínimo real caiu
40% entre 1980e 1989;os salários, que se apropriavam de mais Tomando os países da América Latina no seu conjunto, C.
de 50% da renda nacional no final da década de 1970,passaram Villas (1991) mostra-nos que a aplicação das políticas neoliberais
a deter no início dos anos 1990apenas 35%. (Soares, 1993,p. 12) representaram uma violência brutal sobre a vida da maioria
dos cidadãos destas nações. Nas duas últimas décadas, eviden-
Estes dados mostram que ao lado das ilhas de riqueza e
cia-nos este autor, o número de miseráveis absolutos aumentou
ostentação, aninham-se o abandono infantil, a fome, a miséria,
em 70 milhões. Isto equivale, aproximadamente, a duas vezes
as doenças endêmicas e, consequentemente a morte prematura.
a população total da Argentina.
A ONU, levando em conta a expectativa de vida, as taxas de
A realidade econômico-social que se está produzindo na
mortalidade infantil, a distribuição de renda e o nível educa-
América Latina torna uma das teses básicas da doutrina neoli-
cional da população, classifica o Brasil no septuagésimo país
beral de Hayek - que a desigualdade é fundamental para a
do mundo em qualidade de vida (IstoÉ, p. 13, de 16 a 22 de maio
de 1993). eficiência e produtividade capitalista - uma lastimável profe-
cia que vem se realizando.
O número de crianças abandonadas (meninos de rua) na
Face à lógica da concentração de capital de um lado e, de
América Latina é de aproximadamente dez milhões. Trata-se de
outro, a exclusão crescente, não faltam estudos encomendados
um contingente que tem crescido e que atinge, sobretudo, os
pelos organismos que representam a intelligentzia dos ~rupos
grandes e médios centros urbanos. Misturam-se crianças e jovens
que protagonizam esta realidade. Cinismo? Preocupaçao com
que sobrevivem do trabalho na rua ou que têm a rua como seu
a manutenção da ordem?
"mundo de vida". O documento O trabalho e a rua: crianças e
adolescentes no Brasil urbano dos anos 80 traça um retrato sombrio Em estudo encomendado pelo Clube de Roma ao filósofo
de um contingente de aproximadamente cinco milhões de crian- Adam Schaff (1990), ao analisar o impacto da tecnologia sobre
a economia mundial, a política e os valores, conclui que em face
ças e jovens que trabalham em condições precárias e são vítimas
da atual crise que enfrenta o capitalismo se apresentam duas
de todo o tipo de exploração (Fausto e Cervini, 1992, p. 18-45).
saídas: a democratização e socialização da imensa capacidade
Mais surpreendentes são os dados revelados por J. Mu- científico-técnica a serviço das múltiplas necessidades humanas
zungu, em artigo na revista Globe, que constata a existência, ou o "equilíbrio" mantido mediante a guerra e convulsões so-
ainda hoje, de 15 milhões de escravos no mundo. Destes, 320 ciais. Por ora as políticas do ajuste neoliberal, a Guerra do
mil se encontram no Brasil (Muzungu, 1993, p. 38). Golfo, a violência e a criminalidade nos indicam que existe um
A síntese da lógica da acumulação de riqueza de um lado, decisão em curso.
e da acumulação da miséria de outro, nos últimos 50 anos no Partindo das análises da crise do Estado de Bem-Estar e
Brasil, nos é cruamente exposta por Celso Furtado: perante as tendências desenhadas de reestruturação capitalis-
l
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96
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ta pela exclusão exacerbada, Hobsbawm, após fazer uma ba-


lanço sobre a crise do socialismo, convida-nos a lamentar com
Fukuyama por afirmar que 1989 significava "o fim da história"
e, daí para frente, tudo seria tranquilamente liberal e livre
mercado. "Poucas profecias destinam-se a ter vida mais curta
que esta" (Hobsbawm, 1992a, p. 106). Em seguida, num outro
texto, conclui que "os socialistas estão aqui para lembrar ao
~undo que em primeiro lugar vêm as pessoas e não a produ-
111
çao. As pessoas não podem ser sacrificadas" (Hobsbawm,
1992b, p. 268).

o fim da sociedade do trabalho


e a não central idade do
trabalho na vida humana

Neste terceiro capítulo vamos enfrentar uma das questões


formuladas no Capítulo I como desafio para aqueles que, no
campo social e, no caso específico, educacional, tomam como
categoria central de análise histórica o trabalho.
É no interior da discussão da crise do capitalismo ou mais
amplamente do "processo civilizatório" e do peso que joga a
nova base científico-técnica no processo produtivo, que várias
análises, tendo como campo de observação o espaço onde o
capitalismo mais avançou (em seu caráter positivo, mas também
destrutivo), expõem a crise da sociedade do trabalho e as presu-
míveis "alternativas". Por caminhos diversos, todavia, de uma
forma ou de outra, desembocam na questão do "desapareci-
mento" das classes sociais e no problema da passagem ou supe-
ração do capitalismo.
99
EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL
98 GAUDtNClO FRIGOTTO

pensamento neofrankfurtiano, tomaremos como base um con-


1. A crise da sociedade do trabalho e a não centralidade junto de trabalhos por ele produzidos ou de textos em parceria
do trabalho na coletânea que organizou, traduzida com o título Trabalho e
sociedade: problemas estruturais e perspectivas para o futuro da so-
Tomaremos aqui, pela influência de seus trabalhos no ciedade do trabalho (1989). Trata-se de uma coletânea de textos
Brasil, as análises que Claus Offe, Adam Schaff e Robert Kurz
produzidos na Universidade de Bielefeld, no in!cio da déca~a
derivam da "crise da sociedade do trabalho". de 1980 e originariamente publicados em alemao. Na questao
De Claus Offe interessa-nos discutir, sobretudo, a tese da específica da categoria trabalho, no nosso entender, como ve-
"perda da centralidade do trabalho como categoria sociológica remos adiante, Offe desloca a sua análise do terreno histórico
fundamental para entender a vida social" e as categorias histó- para uma perspectiva de caráter neorracionalista e funcionalis-
rico-analíticas que propõe como substitutas. ta. Isto contrasta, como mostramos no Capítulo II, com a sua
Do pensamento filosófico de Adam Schaff, analisaremos significativa contribuição na crítica e na análise da crise do
a sua compreensão da "nova revolução tecnológica" e a ideia Estado de Bem-Estar.'
do "fim do trabalho" na sua forma de trabalho abstrato, que Adam Schaff é um filósofo polonês, com algumas obras
dela deriva. de peso desenvolvidas dentro da concepção marxist~ de histó-
Por último, um autor menos conhecido no Brasil e mesmo ria e de realidade, como História e verdade (1974), e Lmguagem e
nos meios acadêmicos de seu país, Alemanha, um autodidata, conhecimento (1964). Estas obras caracterizam~se pela densidade
motorista de táxi e membro de um pequeno grupo (alternativo), filosófica e constituem-se em fontes referenciais de uma epis-
Robert Kurz, que, numa obra "ousada" ou de "arrogância des- temologia histórico-dialética.
concertante" (Gianotti, 1993, p. 48) e de amplo sucesso editorial Co'ntrastando com estes textos, no ensaio Sociedade infor-
no nosso país, sustenta a tese do colapso da modernização, mática (1990), publicado originariamente na Alemanha com o
entendida como a forma mercadoria de organização do conjunto título Wohim führt der weg em 1985, Schaff arrisca hipóteses
das relações sociais, incluindo a experiência do socialismo real, arrojadas sem sentir-se na obrigação de trazer muitos argumen-
que denomina de socialismo de caserna. Nesta obra prognosti- tos ou comprovações. Trata-se de um trabalho encomendado,
ca, também, o fim da sociedade do trabalho; do trabalho abstrato como já indicamos, pelo Clube de Roma,' no qual o autor ana-
e, como consequência (lógica), o fim das classes sociais e do
capitalismo. Trata-se de uma análise que chega à mesma con-
1. Ver Offe, c., Capitalismo desorganizado. São Paulo: Brasiliense, 1989;Problemas
clusão de Fukuyama - O fim da história - com sinal trocado, estruturais do Estado capitalista. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984;Contradicciones
como pondera Gianotti em uma perspicaz resenha desta obra. en.el Estado del bienestar. México: Alianza, 1980;"Sistema educacional, sistema ocupa-
cional e política da educação - contribuição à determinação das funções sociais do
Antes de buscarmos explicitar os argumentos básicos das
sistema educacional", Educação & Sociedade, São Paulo, n. 35, 1990.
análises destes três autores, é importante salientar alguns aspec- 2. O Clube de Roma é um organismo que constitui uma espécie de inte/ligen-
tos de contextualização teórico-histórica dos seus trabalhos. tzia, formado por intelectuais e empresários de tradição liberal-conservadora ou
Na discussão da tese da não centralidade do trabalho como progressista que buscam analisar estrategicamente os rum~s que toma o desenvol-
vimento econômico, político e social, no âmbito das relaçoes internacionais,
categoria sociológica de análise de Claus Offe, autor ligado ao
100
GAUDtNCIO FRIGOTTO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 101

lisa o impacto daquilo que denomina a "segunda revolução balho abstrato -, o desaparecimento das classes sociais e as
técnico-industrial" sobre os âmbitos econômico, político-social perspectivas de superação do capitalismo.
e cultural e sobre o indivíduo humano (sentido da vida, estilo
Por fim, na ordem das observações metodológicas prévias,
de vida e a busca de um novo sistema de valores). Neste traba-
destacamos dois aspectos que julgamos pertinentes na intro-
~ho.amplia uma análise que publicou em 1984, cuja edição
dução deste debate.
italiana tem o título Occupazione e lavora ire Ia rivoluzione micra-
eleitronica (1984). O primeiro aspecto diz respeito à necessidade teórica, polí-
tica e mesmo ética, daqueles que, em suas análises, têm busca-
A análise de R. Kurz, exposta no livro O colapso da moder- do na apreensão histórica da categoria trabalho o eixo para a
nização: da derrocada do socialismo de caserna à crise da economia compreensão das relações sociais e práticas educativas visando
mundial (1992), situa-se no vértice de um debate que apreende, a estabelecer um debate crítico sobre as questões postas pelos
de um lado, as interpretações sobre a derrocada do socialismo trabalhos anteriormente assinalados. Para a área de educação,
real e, de outro, as conclusões sobre a vitória e supremacia o aprofundamento destas questões é crucial, na medida em que
definitiva (enfim!) do sistema capitalista. Como indica R. o eixo do trabalho como princípio educativo, na perspectiva de
Schwarz na apresentação da obra, Kurz "arrisca uma leitura Marx e, posteriormente, de Gramsci, tem balizado, em grande
inesperada dos fatos". Sustenta a tese de que a crise do Leste parte, tanto o embate teórico, quanto o embate político prático
Europeu é apenas a segunda etapa (a primeira foi protagoni- das últimas duas décadas no Brasil."
zada pelo "Terceiro Mundo") da crise da sociedade das merca- O segundo aspecto, de ordem mais geral, relaciona-se ao
dorias; já que socialismo real (ou de caserna) e capitalismo, sob tensionamento que as análises acima trazem, no âmbito epis-
formas diferentes, eram regidos por este sistema. A crise é, temológico, teórico e político, para aqueles que, não por con-
portanto, da forma mercadoria e começa, agora, sua fase final fissão de fé, mas por um processo de aprofundamento e de
no coração do próprio capitalismo avançado. O livro de Kurz radicalidade na análise do real, desembocaram na concepção
foi originariamente publicado na Alemanha em 1991. Diferen- materialista histórica formulada por Marx e Engels e buscam,
temente dos outros dois autores, Kurz não tem nenhum outro por esta concepção, apreender as múltiplas determinações e
trabalho traduzido e publicado no Brasil. mediações que constituem as estruturas necessárias da realidade
Os três trabalhos têm como base de análise, fundamental- social e, ao mesmo tempo, uma determinada ontologia social.
mente, o "Primeiro Mundo", embora Schaff e Kurz se refiram Konder (1992), em relação a este último aspecto, conclui
especificamente ao "Terceiro Mundo" e, coincidentemente, os seu perspicaz livro - O futuro dafilosofia da práxis: o pensamento
três foram publicados originariamente na Alemanha. As moti- de Marx no século XXI - com duas advertências extraídas, como
vações que dão origem aos estudos são diversas, assim como
sãhod~ve~sas as análises. Todavia, o que nos interessa é que os 3. Esta afirmação pode ser confirmada pelo volume de publicações, teses,
tres dao enfase, em seus estudos, à crise da sociedade do trabalho. dissertações e artigos produzidos sobre o tema na área de educação. Para um ba-
Daí derivam análises que também têm perspectivas diversas, lanço da relevância que a questão do trabalho assumiu nas análises do campo
educacional, ver José dos Santos Rodrigues, A educação politécnica no Brasil: concepção
mas os três abordam a crise do trabalho assalariado - do tra- em construção (1984-1992),dissertação de mestrado, UFF, 1993.
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EDUCAÇÃO For
EA CRISEEvaluation Only.
DO CAPITALISMO REAL 103

ele a denomina, de "duas expressões extraordinariamente agu-


portanto, enquanto conceito fundamental para apreender as
das da filosofia da práxis" - Karel Kosik e Antonio Gramsci.
relações sociais, deriva de observações cotidianas, enquetes
Ambas se aplicam ao contexto dos trabalhos que iremos analisar.
Registramos, todavia, a de Gramsci, apenas por ser a que tem diversas, pesquisas e argumentos de caráter histórico, que lhe
uma direta relação metodológica com este trabalho: indicam estar a sociedade do trabalho em crise.'
Três argumentos iniciais são explicitados para sinalizar a
Na discussão científica,já que se supõe que o que interessa seja crise da sociedade do trabalho.
a busca da verdade e o progresso da ciência,demonstra ser mais
Começando pelo prefácio da coletânea, Offe vale-se de
"avançado" aquele que adota o ponto de vista segundo o qual
um texto do ministro do Trabalho e da Ordem Social da Ale-
o adversário pode expressar uma exigência que deve ser incor-
porada, ainda que, como um momento subordinado, à sua manha, cujo título é O trabalho continua, para afirmar que "isso
própria construção. (Gramsci,apud Konder, 1992, p. 140) só pode ser interpretado (da mesma forma que a visita de
saúde em moribundos) como um sintoma da crise da socieda-
Esta advertência ganha um significado mais crucial pelo de do trabalho".
fato de que os interlocutores que discutem a problemática da Um segundo argumento, corroborado por inúmeras aná-
crise da sociedade do trabalho, do fim da centralidade desta lises de autores anteriormente mencionados, é que, embora a
categoria na análise social e do próprio fim do trabalho abstrato, produção econômica de bens e serviços cresça em pequena
não são, como apontamos anteriormente, os teóricos do capital monta, os dados evidenciam uma capacidade decrescente do
humano das décadas de 1960 e 1970 ou os apologetas da socieda- mercado de trabalho para absorver trabalhadores. Mas, para
de do conhecimento das décadas de 1980 e 1990, que revisitam e Offe, mesmo que isso não ocorresse, a crise da sociedade do
vestem com novas roupagens esta mesma "teoria". Trata-se de
trabalho se fundaria na "perda da qualidade subjetiva de cen-
autores inscritos ou na tradição crítica da Escola de Frankfurt
tro organizador das atividades humanas, da autoestima e das
ou em outras perspectivas da tradição marxista. Há que se qua-
referências sociais, assim como das orientações morais".
lificar, todavia, em que medida esta tradição não é falseada.
Por fim, neste nível de argumentação, a crise da sociedade
Orientado por estas observações, inicialmente busco expor,
do trabalho estaria evidenciada pela profunda diferenciação
de forma sucinta, os argumentos dos autores na forma mais
interna dos que têm trabalho remunerado contratual.
original possível. Em seguida, estabelecerei uma discussão
crítica com os mesmos. Da crise da sociedade do trabalho, Offe deriva a perda do
caráter explicativo fundamental do trabalho como categoria

1.1 Claus Offe e a tese da perda da centralidade do trabalho 4. Por crise entende o autor como sendo urna situação na qual repentinamen-
na vida social te instituições tradicionais e evidências incontestáveis tornam-se controvers~s,
onde inesperadamente surgem dificuldades de relevância fundament~l, onde nao
se sabe o que vai acontecer. "Sociedade do trabalho" é urna expressao cunh~da
A argumentação que embasa a tese de Offe sobre a perda por Dahrendorf para referir-se à visão da sociologia clássica (Weber e Durk~el~)
da centralidade do trabalho enquanto categoria sociológica e, que tem no trabalho a categoria explicativa central e é tornada como referência
por Offe.
104
GAUDtNClO FRIGOnO EDUCAÇÃO E A CRISEDO CAPITALISMO REAL 105

sociológica. A argumentação de Offe se desenvolve mostrando dade é muito grande e não permite critérios similares de pro-
por que o trabalho empiricamente se torna um objeto central dutividade e racionalidade técnica.
dos clássicos e por que, hoje, a Sociologia deve fundar seu
Outra dúvida levantada por Offe é sobre a validade da
objeto em novas categorias. O fato de o trabalho constituir-se,
centralidade do trabalho para quem tem trabalho remunerado.
como o concebe Marx, "uma eterna necessidade natural da vida
Os mecanismos de ordem moral onde" o trabalho poderia ser
social" não pode levar-nos a ignorar, segundo Offe, as transfor-
normatizado como obrigação, no âmbito da integração social
mações profundas de sua divisão, organização, fragmentação
ou instalado como imposição, no âmbito de integração sistêmi-
e racionalidade daí derivada.
ca" não se sustentam hoje para organizar a vida pessoal, espe-
O que explica, de acordo com Offe, o fato de o trabalho ter cialmente para os países de capitalismo avançado. Para Offe, o
sido a categoria central nas análises dos clássicos deve-se a elemento de integração fica invalidado pela tendência ao ano-
razões objetivas do mesmo terem assumido posição estratégica nimato dos indivíduos nestas sociedades e o de imposição,
entre o fim do século XVIII e término da Primeira Guerra Mun- diluído pelas garantias do seguro desemprego das políticas do
dial. Esse dado estratégico adviria do processo de diferenciação Estado de Bem-Estar.
que o trabalho vai assumindo na superação da sociedade esta-
O conjunto de trabalhos mencionados por Offe que descre-
mental e na estruturação da sociedade capitalista, o surgimen-
vem diferentes dimensões da fragmentação e diferenciação dos
to do proletariado e as contradições da racionalidade técnica
que trabalham e a produção de uma certa cultura do "não tra-
do processo de trabalho que visa a subjugar a natureza em
balho", pelos grupos de desempregados, o conduz à suposi~ão
função das necessidades humanas e da racionalidade econômi-
ca burguesa: de que "a consciência social não mais pode ser reconstruída
como consciência de classe" e, portanto, a Sociologia deve bus-
É exatamente esse amplo poder macrossociológico determinan- car outras categorias básicas para construir seu objeto.
te do fato social do trabalho (assalariado) e das contradições da
racionalidade empresarial e social que o comanda, que agora se Se a consciência social não mais pode ser reconstruída como
torna sociologicamente questionável. (Offe, 1984, p. 16) consciência de classe, a cultura cognitiva não mais pode ser re-
ferenciada ao desenvolvimento das forças produtivas, o sistema
Ampliando a argumentação acima, observa que as pesqui- político não mais se atém às condições de produção e ~a sup~-
sas da Sociologia industrial abandonaram o tema do trabalho ração dos conflitos distributivos, e se a sociedade nao mais
e este se reduz a "uma variável dependente de políticas de problematiza através de indagações que possam ser respon~idas
humanização". A pesquisa se desloca para as "bordas" da es- pelas categorias de escassez e de ocupação, então surge ev~de~-
temente a necessidade de um sistema de coordenadas conceituais
fera do trabalho, para temas como a família, papéis do sexo,
com o qual seria possível cartografar as esferas da realidade
saúde etc. Serve-se Offe, todavia, das análises macrossocioló-
social não plenamente determinadas pelo âmbito do trabalho e
gicas sobre o surgimento da "sociedade pós-industrial de ser-
da produção. (Offe, 1984, p. 34)
viços" para mostrar que a referência unitária do trabalho se
dilui. As atividades do setor secundário (industrial) diminuem O caminho percorrido por Offe leva-o a apoiar-se num
e se deslocam para o âmbito dos serviços, onde a heterogenei- referencial que não é da Sociologia clássica mas, como ele rnes-
106
GAUDÊNClO FRIGOnO
EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 107

mo expõe, de uma teoria "que vá além da esfera do trabalho".


eletrônica e a revolução técnico-industrial a ela associada (...).
Esta escolha é explícita ao afirmar que:
A revolução da microbiologia com sua componente resultante,
Habermas apresenta em sua "teoria da ação comunicativa", uma
a engenharia genética (...) e a revolução energética" (Schaff,
proposta teórica fundamentada na história da teoria social, e que 1990, p. 23).
satisfaz essas necessidades. Afastando-se decidida e controver- Essa tríade traz uma mudança qualitativa em relação à
samente dos paradigmas da teoria dos conflitos, Habermas Primeira Revolução Industrial. Enquanto esta, por um período
constrói a estrutura e a dinâmica das sociedades modernas não de aproximadamente dois séculos de inventos, possibilitou
como um antagonismo autoenraizado na esfera da produção, dilatar e substituir de forma fantástica a força física do homem,
mas como a colisão entre os "subsistemas da ação objetivamen- a segunda a
te racional", mediatizados pelo dinheiro e pelo poder, e um
"espaço vital (lebenswelt) auto determinado (eigensinni)" pelo que estamos assistindo agora consiste em que as capacidades
outro lado. (Offe, 1984, p. 34) intelectuais do homem são ampliadas e inclusive substituídas
por autômatos, que eliminam com êxito crescente o trabalho
Finalmente, as categorias gerais que Offe define como humano na produção e nos serviços. (Schaff, 1990, p. 22)
substitutivas da categoria trabalho, para fundar o objeto da
Sociologia não mais na perspectiva das contradições e conflitos, Ambas significaram saltos qualitativos." Todavia, para
mas na teoria da ação comunicativa, são o espaço vital, o modo de Schaff a primeira revolução conduziu a diversas facilidades e
vida e o cotidiano. No plano mais concreto, estas categorias se a um enorme incremento na produtividade do trabalho huma-
explicitam em temáticas como "a família, os papéis dos sexos, no, enquanto a segunda, por suas consequências, aspira a eli-
o comportamento divergente, a interação da administração minação deste.
estatal com seus clientes etc." (Offe, 1984, p. 18) Para Schaff a transformação revolucionária da ciência e da
técnica, que traz modificações na produção e nos serviços, "deve
necessariamente produzir mudanças nas relações sociais".
1.2Adam Schaff e o anúncio do fim do trabalho abstrato na No plano econômico, o impacto mais profundo é a redução.
sociedade informática da demanda de trabalho humano e o consequente acirramento
do desemprego estrutural. Esta tendência, segundo Schaff, é
A análise de Schaff no texto Sociedade informática (1990)
busca apreender e dimensionar o profundo impacto daquilo 5. A definição do número de "revoluções industriais" e a sua própria defi-
que o autor chama de Segunda Revolução Industrial, sobre a nição, não são temas sobre os quais exista concordância tranquila. Raymond
Williams (1984, p. 99), em uma análise crítica ao próprio conceito de Revolução
formação econômica, política e cultural da sociedade e sobre o
Industrial, nos indica que a literatura sobre o tema mormente apresenta-nos uma
indivíduo, o sentido e estilo de vida e sistema de valores. Esta classificação de três revoluções industriais. Uma primeira que vai de 1760 a 1840,
"Segunda Revolução Industrial" resulta de uma tríade que / cujo marco identificador é a máquina a vapor. Uma segunda, que vai de 1860 a
muda qualitativamente a base técnica do processo produtivo e 1910,cujos marcos básicos são diferentes formas de energia, mormente derivadas
do petróleo e da eletricidade. Por fim, a terceira, cujos marcos iniciais se dão na
afeta as relações sociais no seu conjunto: "a revolução micro-
década de 1950, com a energia nuclear, rnicroeletrônica e microbiologia.
109
108 GAUDtNClO FRIGOTTO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL

suprassistêmica e a solução não pode advir mediante o tradi- memorando supracitado, conclui que esta sociedade não po-
cional auxílio desemprego. Para o autor, o problema será crucial derá prescindir da planificação:
quando a redução da jornada de trabalho se aproximar ao nível
o descobrimento histórico do período posterior à Segunda
zero para grándes massas. Nesta situação haveria um custo Guerra Mundial é que o destino econômico da nação pode ser
onde" o tempo livre se converteria em carga psíquica. Produz-se, dirigido. (...) A essência desta direção é a planificação. O requi-
de fato, uma 'poluição' de tempo livre". sito democrático é a planificação a cargo de corporações públicas
A saída para essa tendência, encontrada por Schaff, seria para o bem geral. (...) O objetivo será a direção consciente e ra-
a substituição do trabalho tradicional- trabalho remunerado cional da vida econômica através de instituições planificadoras
-. por atividades que dessem "sentido à vida" - "ainda que submetidas ao controle democrático. (p. 40)
seJa somente para assegurar o bem-estar psíquico dos homens
Ao analisar o impacto da Revolução Tecnológica, Schaff
que não trabalham".6 A operacionalização desta perspectiva
precisa qual o tipo de trabalho desaparecerá e as consequências
poderia vir mediante o tipo de estratégia postulada pelo me-
em termos das classes sociais. Diferentemente de Claus Offe,
morando sobre The Triple Revolution, elaborada por um comitê
ressalva a dimensão ontológica do trabalho. O que desapare-
especial do The Santa Barbara Center of the Study of Democra-
tic Institutions em 1964, que recomenda: cerá é

o trabalho que consiste no emprego da própria capacidade em


Instamos que a sociedade, através das instituições jurídicas e
troca de um determinado salário ou equivalente sob a forma do
governamentais apropriadas, se comprometam sem reservas a
preço recebido pelo fruto do trabalho de alguém. (...) Para evitar
proporcionar, por direito, um rendimento a todo o indivíduo e
erros de interpretação, devemos salientar que a eliminação do
a toda a família. (p. 35)7
trabalho (no sentido tradicional da palavra) não significa o de-
saparecimento da atividade humana, que pode adquirir as for-
. Esta sociedade futura, para Schaff, não será nem o capita-
mas das mais diversas ocupações. (p. 42) .
lismo, nem o socialismo, na forma como os conhecemos até
hoje. Por falta de outra denominação melhor, sugere que se Partindo do pressuposto do fim do trabalho na sua forma
denomine de economia coletivista. Partindo uma vez mais do de trabalho abstrato, Schaff conclui, também, pelo fim das
classes sociais fundamentais:
6. Enquanto a fórmula keynesiana em face do desemprego em massa dos
anos 1930 defendia que o Estado deveria empregar trabalhadores nem que fosse
É pois um fato que o trabalho, no sentido tradicional da palavra,
para abrir e fechar buracos para manter o emprego e a demanda agregada, aqui a desaparecerá paulatinamente e com ele o homem trabalhador,
busca do trabalho não remunerado visa ao equilíbrio psíquico. Isto seria a solução e, portanto, também a classe trabalhadora. (...) Como dissemos,
em uma SOCiedade que faz do tempo livre tempo escravizado? Adiante retomare- pode ser que ocorram mudanças de caráter socialista. Estas
mos esta questão. poriam fim à propriedade privada dos meios de produção e dos
7. Em face dos dados que analisamos no Capítulo II sobre a especificidade serviços em larga escala e, consequentemente, também à classe
da cnse e os custos humanos da reorganização do capitalismo, os "conselhos" do
capitalista, o que corresponderia a uma modificação radical da
The Santa Barbara Center, mencionados por Schaff, lembram os conselhos dos
confessores aos renitentes pecadores! estrutura social. (p. 43)
110
GAUDt:NCIO FRIGOTTO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 111

No plano político, coerente com os pressupostos que ado- dade dos problemas que aborda, transcende o escopo deste
ta, admite mudanças profundas. O problema crucial neste trabalho. Buscamos, tanto neste item corno no debate a seguir,
campo é o da democracia. Esta demanda a necessidade de apreender a tese central de seu trabalho relacionada com a
elevar-se a consciência social. Neste particular, Schaff destaca crise da sociedade do trabalho e do trabalho abstrato, a questão
o papel primordial da educação. Importante, também, é a aná- das classes sociais e a perspectiva que apresenta para a supe-
lise que faz da relação Estado e sociedade. A questão Estado ou ração da sociedade regida pela forma mercadoria de relações
não Estado e a contraposição do universal e do particular são, sociais.
para Schaff, falsos dilemas.
A tese básica do autor é a de que a modernização consti-
tuída pela forma mercadoria de relações sociais entra numa
Estado ou governo local, dado que o dilema é a rigor apenas
crise qualitativamente diferente das crises cíclicas e está no
aparente, deve ser superado pela fórmula centralismo mais
governo local. A solução, portanto, segue o sentido de comple- horizonte do colapso. A peculiaridade da tese de Kurz é que a
mentaridade e não o espírito dos contrários que se excluem forma mercadoria de produção e de relação social inclui a so-
mutuamente. (p. 68) ciedade capitalista regida (mais ou menos) pela liberdade das
regras de mercado e o socialismo real - socialismo de caserna,
Finalmente, no plano cultural e do indivíduo, as mudanças corno o denomina -, que foi incapaz de romper com o trabalho
tecnológicas caminham, para o autor, no sentido da produção abstrato, mas apenas o regulou pelo estatismo.
do cidadão do mundo, do homem universal. Este hemo unioer- Esta tese, por si e pelos argumentos que utiliza, traz à tona
salis também caminhará à procura de um novo estilo e modo um longo debate que, corno apontamos no Capítulo lI, longe
de vida que se desloca do homo laborans para o homo ludens. Isto de ser novo, tem a idade do próprio capitalismo e das propos-
implicará urna nova ética e, portanto, novos valores. tas socialistas.
Pela sociedade informâiica, embora não se garanta automa- No tocante à questão do trabalho, das classes sociais e da
ticamente o "paraíso", percebe Schaff as condições objetivas perspectiva da ruptura do capitalismo, a análise de Kurz apos-
para o homem produzir-se e autocriar-se livre da maldição ta deterministicamente na agonia e no fim do trabalho abstrato,
bíblica do "ganharás o pão com o Suor de teu rosto". Esta tare- da mercadoria força de trabalho e, corno consequência lógica,
fa, marca da pela utopia, conclui, só poderá resultar do homem o fim das classes sociais. Embora não torne corno argumento
enquanto ser social, isto é, corno resultado do conjunto de re- imediato as características específicas da "revolução tecnológi-
lações sociais.
ca" para desenhar a agonia do trabalho abstrato, de forma
media ta as torna, na medida em que debita esta crise ao avan-
ço das forças produtivas.
1.3Robert Kurz e o colapso da modernização: a crise do trabalho O questionamento mais geral que Kurz apresenta, é sobre
abstrato a lógica do éthos da sociedade do trabalho. Entendida corno socie-
dade do trabalho sob a forma mercadoria, trabalho abstrato,
A análise de Kurz, "que arrisca urna leitura inesperada dos portanto, postula que esta sociedade não pode ser tornada como
fatos", marcadamente irracionalista, pela amplitude e diversi- "um estado fundamental ontológico da humanidade". É justa-
113
GAUD~NCIO FRIGOTTO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL
112

Por este caminho busca aquilo que indica ser um dilema


mente a forma mercadoria do trabalho e do trabalhador abs-
trato, sem referência concreta, fetichizada na forma alienada do da teoria de Marx que não foi até o presente superad? Este
dinheiro e cujo objetivo é a produção de mais dinheiro, que dilema se explicita de um lado na afirmação do movimento
define a essência do capitalismo e que, para o autor, o socialis- operário enquànto posição de trab~lhad~~, posição de classe e
mo real não rompeu. Pelo contrário, para Kurz, de outro, pela crítica da economia política que desmascara
justamente a classe trabalhadora (o proletariado), n~o con:o
em nenhum outro lugar, esse éthos protestante do homem abs- sendo uma categoria ontológica, mas como categona social
trato de trabalho dentro de uma sociedade transformada numa construída historicamente. Neste sentido conclui que
máquina de trabalho, declarada por Max Weber como caracterís-
tica constitutiva ideológica e histórica do capitalismo, foi posto do mesmo modo que se excluem a antologia do trabalho e a
em prática com mais fervor e rigor do que no movimento operá- crítica do trabalho abstrato, excluem-se, também, a posição do
rio nas formações sociais do socialismo real. (Kurz, 1992, p. 25) trabalhador e a crítica da vida do trabalhador. (p. 71)

Para expor a essência da forma mercadoria, o autor recor- O que está cada dia mais evidente para Kurz é a tese ce~-
re a Marx quando mostra que a mesma é uma forma histórica tral de Marx - contradição entre o avanço das forças produti-
que inverte a lógica da necessidade. O que importa não é pro- vas e o caráter opaco das relações sociais de produçã~. ~ mo-
duzir bens úteis enquanto "valores de uso", algo imposto im- vimento letal desta contradição se efetivaria pela mediação da
perativamente para o ser humano enquanto ser de necessidades. concorrência capitalista que iria
O que importa é produzir bens como valor de troca, uma ati-
vidade que traz em si a própria finalidade: alcançar, inevitavelmente, mediante o desenvolvimento ininter-
rupto das forças produtivas, o ponto de uma "aboliçã~ .do tra-
Os recursos humanos e materiais (força de trabalho, instrumen- balho", isto é, do trabalho de produção abstrato, repetltlvo,. so-
tos, máquinas, matérias-primas) deixam de ser simples compo- mente destinado a criar valores; com isso, no entanto, supnme
nentes do metabolismo entre os homens e a natureza, que servem também sua razão de ser, fazendo obsoleta a si mesma. (...) A
para a satisfação das necessidades. Passam a servir, apenas, para concorrência trabalha, sem saber e sem querer, na destruição do
a autorreflexão tautológica do dinheiro como "mais dinheiro". seu próprio fundamento. (p. 80-81)
Necessidades sensíveis somente podem ser satisfeitas, portanto,
pela produção não sensível de mais-valia, que se impõe cega- Nesta perspectiva, Kurz lembra uma das teses de Marx
mente como produção abstrata, em empreendimentos indus- desenvolvida na crítica à economia política burguesa segundo
triais, de lucro. (Kurz, 1992, p. 28)
a qual
O conflito básico da modernização, insiste Kurz, a concorrência no sistema produtor de mercadorias era histori-
camente necessária para iniciar, numa forma a princípio ainda
não é aquele entre trabalho e não trabalho, como sempre supôs
inconsciente e fetichista, a emancipação humana dos fundamen-
o marxismo ingênuo do movimento operário da luta de classes,
tos puramente naturais do trabalho como "labor", como sofri-
mas sim aquele entre o conteúdo social e a forma social, incons-
ciente, do próprio trabalho. (p. 43) mento, como "suor de teu rosto". (p. 79)
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GAUD~NClO FRIGOTTO 115
EDUCAÇÃO CRISE DO CAPITALISMO REAL

A questão intrigante na análise de Kurz e que veremos a


uma problemática teórica e socialmente candente. De o~tra
seguir, é de que ao mesmo tempo em que incita à luta para o
parte trazem elementos de diagnóstico da fase atual do capita-
rompimento da forma mercadoria de relações sociais de alie-
lismo, particularmente sobre o trabalho humano, de extrema
nação, este embate fica sem o sujeito clássico - a classe traba-
relevância político-social e, portanto, para o~ processo~ ed~c~-
lhadora que admite já não existir enquanto tal. Esta questão fica
tivos que se dão nos diferentes espaços, movimentos e ~n.shtU1-
ainda mais problemática quando assinala que a ruptura, a su-
ções da sociedade. Este diagnóstico, sobre o qual as analises se
peração da crise e a instauração de uma nova sociedade, não
multiplicam, pode ser explicitado, no âmbito do trabalho, por
se farão por esquemas administrativos estatistas, mas por um
indicações como as de Alain Touraine:
"consciente movimento social (...) movimento que teria que
derrubar, com violência maior ou menor, também esses apara- Na era industrial o trabalho era considerado o centro do mundo.
tos". Não descarta, ressalvadas as diferenças históricas, a forma Ele catalisava ao mesmo tempo a vida das pessoas e a estrutura
das clássicas revoluções burguesas. Na sua utopia "prognosti- da sociedade. Isso acabou: o trabalho mudou e, de repente,_ o
ca um final não feliz, marcado pela violência". "mundo do trabalho", ou o que resta dele, mantém uma relaçao
Kurz atribui às Ciências Sociais especial relevância no problemática com o mundo tout court. (Touraine, 1993, p. 31;
esforço para elevar-se a consciência social crítica. Em face do tradução nossa)
caráter destrutivo, violento e excludente da sociedade das
mercadorias e sua razão abstrata universal, postula a emergên- As dificuldades e discordâncias com as abordagens acima
cia de uma razão sensível. Formar-se-ia, por esta "razão sensível", representadas não residem fundamentalmente no plano feno-
um sujeito social e político para deflagrar a ruptura? mênico dos dados que, como nos adverte Kosik (19_86), ,revela
e esconde a realidade, mas no plano interpretativo. Nao ha como
negar mudanças profundas no conteúdo, na divisão, na quan-
tidade e qualidade de trabalho demandad~ no processo pro-
2. Da compreensão da crítica da centralidade do trabalho à
dutivo da fase atual do capitalismo. Todavia, parece-nos p~o-
crítica da crítica
blemático deduzir da crise do trabalho no interior das relaçoes
capitalistas de produção e das mud~ças de sua natureza, a
Os referenciais se tornam velhos quando não
têm mais capacidade explicativa e não porque perda da centralidade do mesmo na VIda humana. .. .,
esses se enfrentam com problemas novos. A análise de Claus Offe, com todas as ressalvas positivas Ja
PAOLA MANACORDA
apontadas para o debate contemporâneo, ao dis:~tir a.proble,-
mática do trabalho, afasta-se das perspectivas cnt~cas ligad~s :
concepção materialista histórica de análise da realidade SOCIal.
Nesta seção buscaremos levantar algumas questões e
contra-argumentações das ideias anteriormente expostas. Os
autores, como já assinalamos, não se situam num mesmo ter- 8 Por materialismo histórico entendemos, como explícita M. Manacorda
reno teórico e nem mesmo, na maioria das vezes, empírico-his- (1991a, .P: 97), lia expressão imediata
. " da Iuta con tra
ra oo iIdeologismo e a falsa "cons-
tórico. Todos eles, todavia, têm o mérito de trazer ao debate "A • domínante: na realidade em Marx, se trata, antes de tudo, de um modismo,
ctertcra " r " to" Ou
que reduza toda a separação entre matéria e espírito, entre ser e pensamen .
116
GAUDENC/O FRIGOTTO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 117

É importante registrar que a Escola de Frankfurt desen-


no contexto da crise do marxismo ocidental, nos ensaios Con-
volve-se dentro de urna vertente da tradição marxista denomi-
siderações sobre o marxismo ocidental (1976), posteriormente em
nada por M. Lõwy (1990, p. 139) marxismo racionalista, cuja
A crise da crise do marxismo (1985), onde faz urna autocrítica por
densa tradição vem desde os anos 1930, com escritos de
não ter incluído no primeiro urna análise da obra de Habermas
Horkheimer, Marcuse e, após a Segunda Guerra Mundial, com
e, finalmente, no seu mais recente trabalho publicado no Brasil,
trabalhos de Adorno. Atualmente, os autores mais expressivos
O fim da história: de Hegel a Fukuyama (1992), é a mais abrangen-
vinculados a esta escola são os neofrankfurtianos Habermas e
te e consistente. A compreensão positiva e, ao mesmo tempo
Offe, com urna densa produção. Habermas propõe-se um pro-
crítica, da obra de Habermas, autor com quem Offe trabalha há
jeto de reconstrução do materialismo histórico.
longos anos, mais especificamente, nos ajuda a qualificar melhor
Offe reconhece sua dívida para com a tradição marxista a natureza deste debate.
numa entrevista dada a David Held e J. Keane, em Londres, em
No balanço da crítica do marxismo ocidental, Anderson
1982, afirmando que no passado se considerava antes de tudo
mostra que, à exceção de Gramsci, o marxismo ocidental cami-
e acima de tudo marxista, mas que atualmente, mesmo que isto
nha por um abandono ao internacionalismo e no contexto das
lhe traga situações embaraçosas, defende urna postura meto-
derrotas dos movimentos operários desloca-se do trabalho
dológica eclética nas Ciências Sociais.
empírico-histórico e sua vinculação com os partidos e sindica-
tos para o âmbito da academia. Dominam as temáticas da su-
Estou convencido de que não existe nas Ciências Sociais contem-
perestrutura e um embate de discurso. O marxismo, neste
porâneas um paradigma singular suficientemente desenvolvido
e coerente para que se possa prescindir de outros paradigmas. terreno, não só cai na armadilha estruturalista como neste cam-
(...) O ecletismo é certamente legítimo dentro da Sociologia teó- po é derrotado. Os sinais de retorno à tradição clássica estão,
rica e empírica, se com isso quisermos indicar uma disposição para Anderson, no mundo anglo-americano e nórdico.
para aprender tanto da tradição marxista como das tradições A análise sobre o edifício teórico de Habermas é, ao mesmo
que incluem weberianos, durkheimianos e outros. (Offe, 1990, tempo, realçada pela sua densidade e abrangência, quanto por
p.258)
duras críticas. Ao referir-se ao programa de Habermas de "re-
construir o materialismo histórico", Anderson salienta: .
Na perspectiva em que situamos este debate entendemos
que a análise que Perry Anderson faz da Escola de Frankfurt , A escala e o perfil arquitetõnico do edifício teórico resultante
- sintetizando investigações epistemológicas, sociológicas,
políticas, culturais e éticas em um único programa de pesquisa
como lembra Gianotti ao discutir a teoria do valor: "Por certo, uma teoria do valor
talvez não tenha utilidade para todos aqueles que apenas tratam de calcular a - não possuem nenhum equivalente efetivo na filosofia con-
renda nacional. (...) Mas para todos nós que, além de estarmos interessados no temporânea, de qualquer inspiração. O ponto de partida para
funcionamento do capital, indagamos ainda as condições de seu vir-a-ser que, qualquer avaliação da obra de Habermas deveria compreender
portanto, propomos uma concepção de ciência que investiga tanto o funcionamen- adequadamente a superioridade dessa façanha. As ideias que se
~oquanto os modos de constituição do fenômeno, a análise do valor surge como a entrelaçam para formar o seu sistema filosófico precisam, con-
uruca capaz de emprestar inteligibilidade às categorias com que o sistema labora
na sua superfície" (Gianotti, 1983,p. 227).
tudo, ser situadas com alguns parâmetros comparativos. (An-
derson, 1985,p. 70)
119
EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL
118 GAUDÊNCIO FRIGOnO

A questão teórica mais pontual que nos interessa na aná-


A~ si~á-Io como o "principal herdeiro do tema hegeliano lise da centralidade do trabalho e onde Offe se situa sobre esta
da reahza~ao plena d~ razão" e ao mostrar as saídas que Ha- questão, relaciona-se à proximidade de muitas coordenadas do
berma~ da para a cnse da sociedade capitalista, Anderson pensamento de Habermas ao estruturalismo francês. O ponto
conclui que, politicamente, assume hoje posições similares às crucial desta proximidade, que situa Habermas no
que Hegel assumia no seu tempo.
limiar entre o marxismo e o não marxismo foi o seu argumento
A c.orrespondência entre as duas arquitetônicas é, com efeito, de que Marx se equivocara ao atribuir uma primazia fundamen-
mais do que formal. Politicamente, com o ajustamento adequa- tal à produção material, na sua definição da humanidade como
do para o tempo decorrido, há uma curiosa semelhança em seus espécie e na sua evolução como história. (Anderson. 1985, p. 70)
resultado~ f~nais. Cada um aceita o mercado da época como a
or~em objetiva de qualquer vida econômica moderna, embora Anderson observa sucessivos deslocamentos do corpo
assmaland~ as suas disfunções sociais, para as quais não parece teórico de Habermas para contestar a primazia da produção
haver remédio estrutural. Cada um aceita o Estado do dia como material, partindo da noção genérica de interação social em con-
a for~a necessária de liberdade subjetiva e adverte contra as traposição à economia, deslocando-se para a centralidade da
ten~ah.vas de avançar para além dela, na direção de formas mais comunicação e esta cada vez mais identificada com a linguagem.
r~dI~aI~de autodeterminação. A República Federal está a alguma
distância da Prússia pós-Reforma, mas a adesão de Habermas à o terceiro estágio foi então atribuir a primazia total das funções
democracia parlamentar é historicamente tão convencional para comunicativas sobre as produtivas, na definição da humanidade
o seu tempo quanto a de Hegel à monarquia constitucional. Não e desenvolvimento histórico: ou seja, nos termos de Habermas,
leva a maiores esperanças de transformação de baixo para cima. da "linguagem" sobre o "trabalho". Já na época de Knowledge
(Anderson, 1992, p. 78)9 and Human Interests, Habermas declarou - cunhando uma nota
vechiana - que "o que nos destaca da natureza é a única coisa
cuja natureza podemos conhecer: a linguagem". (Anderson, 1985,
9. ~ tônica de. um desenraizamento com os movimentos políticos e de uma
p.71)
apreensao do movimento empírico-histórico pelo marxismo ocidental e em parti-
cular pela tradição da Escola de Frankfurt, explicitados na análise de Anderson
persistem em trabalhos recentes de Habermas e sobre temas candentes. Comen- do se sabe dos violentos retrocessos sociais - dos quais as mulheres originárias
tando o mais rec~nte trabalho de Haberrnas, traduzido no Brasil, Passado como fu- da parte oriental são as principais vítimas, ao lado dos aposentados, dos artistas,
turo (Te~po_Brasllelro, 1993), que trata de temas sobre a queda do muro de Berlim, imigrantes e estudantes. Quanto ao desemprego disfarçado, as dezenas de milhões
a re~mÍIcaç~o da Alemanha, a Guerra do Golfo, a reunificação europeia e o novo de desempregados estruturais mantidos ou não pelo Estado alemão não servem
cenano_histonco, E. Sader critica a frieza das respostas dadas por Habermas sobre para que faça qualquer tipo de comparação". Sader conclui, e é isto que nos inte-
temas tao candentes. "Se ele se alarmou com as 2.000 ações militares contra Bagdá ressa chamar atenção mais que tudo, que "ao longo de suas respostas Habermas
e com os ataques dos skud contra Israel, de forma ingênua reconhece o papel da dá a impressão de querer mais adequar-se aos juízos de uma consciência kantiana
ONU, que autOrIZOUos aliados a empregar meios militares quando o ' . do que intervir para alterar a realidade que, supostamente, deve índígná-lo Suas
P' d C '11 _ ,propno
erez e ue ar, entao secretário-geral da entidade, se sentiu sumamente vexado palavras são excessivamente mansas, mesmo quando revelam forte condenação.
pela ,for~a como as Nações Unidas foram atropeladas pelos Estados Unidos no (...) Justamente ele, que tantas contribuições já deu para a construção de uma esfe-
eplso~JO . Sader mostra ainda que Habermas, quando perguntado sobre o que os ra pública e para a denúncía da modernidade incompleta e da falsidade das teorias
alemaes orientais perderam com a reunificação, cita apenas alguns filmes anti
da pós-modernidade" (Sader, 1993, p. 3).
e programas editoriais dos anos 1950. Fala do desemprego disfarçado etc., "qll:~~
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120
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EDUCAÇÃO E AFor Evaluation
CRISE DO Only.
CAPITALISMO REAL 121

Offe, corno analisamos na seção anterior, torna corno ho-


fica o mundo e se modifica a si mesmo. Produz objetos e, para-
rizonte teórico substitutivo à concepção marxista da fundamen-
lelamente, altera sua própria maneira de estar na realidade ob-
talidade das relações sociais de produção material, a teoria da jetiva e de percebê-Ia. E - o que é fundamental - faz a sua
ação comunicativa de Habermas.
própria história. "Toda a chamada história mundial- assegura
Corno nos aponta M. Manacorda (1991b, p. 96-7), Me é um Marx - não é senão a produção do homem pelo trabalho hu-
neofrankfurtiano que se filia à perspectiva de oposição às cate- mano". (Konder, 1992, p. 105)11
gorias econômicas marxianas corno elementos fundamentais
ordenadores da vida social (as relações de produção, relações Os argumentos de Offe, todavia, são bastante frágeis no
de trabalho), deslocando tal fundamentalidade para o plano da plano dos dados empírico-históricos, dentro da ótica que assu-
política e do sujeito, enfatizando "a família, os negócios, o Esta- me. Mesmo se nos fixarmos numa visão eurocêntrica, nada
do, a escola, definidos corno princípios organizativos fundamen- parece indicar que para as grandes massas de trabalhadores, o
trabalho entendido corno emprego, venda da força de trabalho,
tais". Por esta via sobrepõe e contrapõe política à economia e o
político aparece centrado na individualização dos conflitos.'? esteja ausente corno algo fundamental do espaço =.
do modo
de vida, do cotidiano. O Estado de Bem-Estar dos regImes so-
A consequência imediata do abandono das relações de
ciais-democratas, cujo argumento para mostrar que ofere~e
produção material da existência, enquanto relações sociais,
relações, portanto, entre os homens, leva Offe a afastar-se da segurança de sobrevivência aos trabalha~o:es é de que estana
dimensão histórica e ontológica do trabalho e do trabalho en- superada a ideia quem trabalha não tem direito a comer - corno
mostramos no capítulo anterior, embora tenha representado
quanto valor de uso que, sob diferentes formas concretas, torna
o homem artífice de seu devenir, e a fixar-se na forma do tra- significativos ganhos para os trabalhadore.s, ~ão representou o
balho assalariado, forma mercadoria, ainda que, criticamente. desaparecimento da crise estrutural do capitalismo, mas apenas
urna forma de resposta à crise dos anos 1930. Talvez se Offe,
Ao desconsiderar a dimensão ontológica do trabalho (que
que em vários trabalhos critica o Estado assist.enc.ial, levasse
é sempre histórica) mascara-se, corno nos mostra Konder ao
estas críticas às últimas consequências, corno indicamos nas
expor o pensamento marxiano, que pelo trabalho
análises de Hobsbawm, de Oliveira e Therborn, não afirmaria
o sujeito humano se contrapõe e se afirma como sujeito, num
com tanta segurança que o trabalho, mesmo na sua forma mer-
movimento realizado para dominar a realidade objetiva: mo di- cadoria, não faz hoje parte das preocupações do trabalhador.
Ao criticar as perspectivas atuais de luta pelo pleno em-
prego corno algo que se afasta das lutas originais da cla~se
10. Sobre esta questão, M. Manacorda nos lembra: "Em Marx são sempre os
trabalhadora contra o "salário-emprego" e indicando o trabalho
homens - os sujeitos - que entram em relações determinadas entre eles. Faz até
sorrir encontrar hoje - em alguns neomarxistas - essa afirmação de Marx como
uma descoberta (dos sujeitos) em oposição à matéria de Marx. Esses neomarxistas
11. Para um aprofundamento da concepção ontológica do traba~o. e_para
nos admoestam que as crises das instituições e dos processos econômicos são
evitar o erro de confundir as mudanças do conteúdo do trabalho, a divisão do
produtos das intervenções dos homens", e se propõem a "elaborar uma luta de
trabalho, a gestão do trabalho e, mesmo, a superação do trabalho, sob a forma
classe das teorias" ou de "reconstruir uma unidade dialética entre objetividade e
mercadoria de relações sociais, com o trabalho em geral como cnador da Vida
subjetividade, entre teoria e coisas práticas. E tudo isso, dizem, para ir além de
Marx" (Manacorda, 1991a,p. 96). humana, sugerimos a leitura de Lukács (1978 e 1979), Kosik (1986), Konder
(1992).
122
GAUD~NCIO FRIGOnO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 123

cooperativo como alternativa, Offe contradiz duplamente o cação. A crise do Estado social-democrata, a mudança da base
argumento de que o trabalho já não ocupa o espaço vital dos técnica do processo produtivo que poupa e dispensa trabalha-
:,rab~~adores, p~~meiro admitindo que existe uma luta pelo dores coincidiu (e não por acaso) com um surto de "asilados e
salano-trabalho , segundo porque a alternativa do trabalho exilados" econômicos.
cooperativo, que reconhece como forma democrática e socia- De acordo com dados publicados no Jornal do Brasil, em
lista de trabalho, também é trabalho. (Offe, 1990, p. 299) 1961 os imigrantes representavam apenas 1,2% da população
. ,P~lo contrário, tomando algumas das fontes - jornais e da Alemanha. Hoje, 32 anos depois, representam 8%. A pro-
periódicos - que Offe utiliza para concluir que o trabalho não gressão é geométrica. Em 1987 foram 57 mil pedidos de asilo
se constitui em categoria sociológica fundamental, podemos econômico; em 1992, 438 mil (Jornal do Brasil, p. 20, 29 maio
mostrar que a Europa, em face do desemprego estrutural que 1993).
a atormenta, especialmente a partir da crise do Estado de
Bem-Estar que se agrava no final da década de 1970 e em face Alemãs ocidentais retrocedem 40 anos. Alemãs perguntam se
estão velhas e exigem o direito ao trabalho (Jornal do Brasil, 11
da pr~ssã? de desempregados do Terceiro Mundo que buscam,
ago.1991).
no Primeiro Mundo, asilo econômico, vem estruturando uma
A paciência dos suíços com os imigrantes acabou em abril de
verdadeira cortina de ferro para proteger postos de trabalho:
1987,quando a população aprovou, em plebiscito uma lei que
determina (...) a possibilidade de fechar as fronteiras. Os suíços,
Inglat~rra tent~ ~e tornar inexpugnável. (...) Os britânicos já
como disse o próprio chefe do departamento de refugiados,
garantiram o direito de ser o único país a controlar suas frontei-
Peter Arbens, vivem hoje um estado de pavor de imigrantes (O
ras dentro da Europa unificada (O Globo, 7/7/1991).
Globo, 7/7/1991).
O trigésimo mês consecutivo de crescimento do desemprego,
Itália cria ministério para conter imigração (O Globo, 7/7/1991).
que atmge agora 2,87 milhões de pessoas (10,1%da força de
traba!h~), levou o governo inglês a lançar ontem um pacote Em recente pronunciamento o candidato e virtual novo
econorruco (...) (Jornal do Brasil, 1992).
dirigente máximo da Alemanha, do Partido Social Democrata,
Dias de pânico para moradores ilegais na Alemanha. Cem mil
surpreendeu o mundo com a afirmação de que era necessário
podem ser expulsos pela nova lei. AAlemanha (fora a ex-RDA
proibir a imigração pois esta compromete a identidade alemã.
onde até agora praticamente não há imigrantes) recebeu no ano
passado quase um milhão de pessoas (O Globo, 7/7/1991). Estas manchetes poderiam multiplicar-se várias vezes
expressando não s6 que a exacerbação da distância entre Pri-
. ~m maio de 1993, o Parlamento alemão aprovou lei res- meiro e Terceiro Mundo leva milhões de pessoas a buscarem o
tnngmdo a entrada de estrangeiros no país, que entrou em exílio e asilo econômico nos países mais desenvolvidos, como o
vigor e~ j.ulho ~o mesmo ano, para frear um processo que já agravamento do desemprego no Primeiro Mundo torna a si-
teve mao invertida. A Alemanha, no final do século passado, tuação cada vez mais crítica.
fomentava a saída de seus cidadãos em busca de novas terras. Por trás destas manchetes, todavia, estudos de maior den-
Após a Segunda Guerra Mundial buscou atrair estrangeiros sidade como os de Therborn (1988), revelam-nos uma situação
para os trabalhos pesados, "sujos" e sem exigência de qualifi- de profunda crise também no Primeiro Mundo.
124
GAUD~NCIO FRIGOnO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 125

A leitura dos dados do Quadro 1 indica claramente as operariado europeu, com nível mais elevado de consciência
tendências:
política, é forçado a negociar tanto salários quanto o tempo da
jornada em condições desfavoráveis, já que as empresas mul-
Quadro 1 tinacionais ameaçam sair para outros países ou regiões de alta
Taxa de desemprego em porcentagem da força de trabalho repressão e baixos salários. Hobsbawm (1992c, p. 267), ao sina-
País 1991 1992
lizar que se sacrificam cidades inteiras em nome da lucrativi-
Áustria 10,2 11,3
dade, lembra o filme Roger and Me, que demonstra o drama da
Bélgica 7,7 8,4 cidade de Flint, quando a General Motors fechou suas fábricas.
Canadá 10,3 11,3
O que vem ocorrendo hoje, especialmente na França, exempli-
França 9,9 10,4 fica esta tendência.
Alemanha 6,3 No início dos anos 1990 o governo alemão e de outras
7,0
Holanda 4,4 nações do Mercado Comum Europeu estão propondo aos tra-
4,5
Itália 10,3 balhadores a redução da jornada de trabalho com diminuição
10,6
Japão 2,0 proporcional dos salários.
2,2
Espanha 15,3 14,9 Mais perversos são os indícios das agressões aos exilados
Suécia 3,1 5,2 econômicos, cidadãos de segunda categoria - subclasse - na
Suíça 1,5
3,5 Alemanha, e as pressões que têm começado a aparecer em di-
Inglaterra 8,8 10,1 ferentes países, por parte dos trabalhadores empregados, que
Estados Unidos 6,9 7,4 reclamam por ter que manter, mediante impostos cada vez mais
Fonte: OECD - 1993. In: Jornal do Brasil, p. 20, 13 jun. 1993. pesados, os desempregados.
As análises de Offe corroboram estas tendências, sem,
contudo examiná-Ias mais a fundo. Uma sociologia do trabalho
Esta mesma fonte indica que, no caso da Alemanha, as que atente para as relações sociais de produção marca das pela
taxas de desemprego de 1993 da população economicamente exclusão social crescente, cujo resultado é não apenas o aumen-
ativa são de 10,1%, com uma previsão de 11,3%para 1994. Para to do desemprego estrutural e subemprego mas também de
os pequenos países da Europa, a taxa média era de 12,5% em uma crescente concentração de capital nas mãos de poucos,
1993 e uma projeção de 12,9% para 1994. deveria mostrar que, nesta circunstância, perversamente, o
A revista Futuribles, cujos números 165 e 166 de maio de trabalhador luta para ser mercadoria, já que o fato de ser em-
1992 se atêm ao debate sobre tempo de trabalho, mostra, para- pregado (mesmo sob a forma de mercadoria, é menos dramá-
doxalmente, que, enquanto nos últimos cinquenta anos o avan- tico que o desemprego ou subemprego).
ço das forças produtivas foi fantástico, a jornada de trabalho, Apreendida a problemática anterior de outra forma, como
para o cada vez mais reduzido número de trabalhadores com / a expõe Alliez (1988),o tempo livre, ao contrário de se constituir
emprego estável (não mais de 35%), estagnou, na Europa, ao em mundo de liberdade, de fruição, do lúdico, um novo "modo
redor de 40 horas semanais. Cria-se uma situação em que o de vida", torna-se tempo escravizado, tormento do desempre-
127
126 GAUDÊNCIO FRIGOnO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL

go e subemprego. As estatísticas de desemprego e subemprego trabalhos no setor secundário e a tendência à terceirização se,
do Terceiro Mundo e a precária proteção social dos desempre- por um lado, descrevem efetivamente uma tendência do pro-
gados traduz um quadro mais perverso. cesso produtivo sob uma nova base técnica que destrói, cinde,
A analogia que poderíamos fazer é de que a libertação dos cria ou recria e desloca ocupações, por outro lado, escondem
escravos, em nosso caso com imenso retardamento, que se co- uma compreensão da divisão social do trabalho que "naturaliza"
locou como condição de implantação das relações capitalistas a separação dos níveis produtivos não evidenciando, portanto,
de produção e como elemento ideológico importante para jus- a existência de uma inter-relação necessária entre o processo
tificar a legalidade capitalista, sob o capitalismo não significou imediato de produção e o processo de circulação e consumo.
efetivamente uma libertação. Em certas circunstâncias o "liber- Como nos mostra F. de Oliveira, na análise do terciário e divisão
to", tanto pelas condições objetivas da nova relação de trabalho social do trabalho no contexto do capitalismo atual:
marcada pela cultura escravocrata e acrescida da legalidade
A recuperação da própria noção de divisão social do trabalho
capitalista, como pelas condições subjetivas do próprio escravo,
torna-se possível apenas se abandona o "naturalismo das distin-
caiu numa situação pior que a de escravo, pelo menos na pers-
ções" entre mercadorias e serviços e um certo "moralismo" que
pectiva de sua reprodução material. No Brasil, produziu-se toda
subjaz por trás da utilização dos conceitos de trabalho produti-
uma legislação de violência legal sobre o "liberto", mediante a vo e improdutivo. (Oliveira, 1981, p. 14)
lei de terras que vedava acesso à propriedade rural aos "libertos"
e mediante a "lei da vadiagem". Offe, ao fixar-se dominantemente na descrição fenomêni-
Na moderna sociedade das mercadorias, sob a égide do ca do "mundo do trabalho" e ao não apreender as determinações
capital financeiro, da tecnologia flexível, das máquinas inteli- e mediações constitutivas da nova configuração da divisão
gentes, da robótica e do fantástico campo da microeletrônica, social do trabalho, resultante de uma perspectiva epistemoló-
microbiologia, engenharia genética e novas fontes de energia, gica neorracionalista, acaba, pelo menos neste particular, cons-
a liberação do homem da máquina que o embrutece e, portan- truindo sua análise dentro da ótica dos fatores, cuja crítica
to, tecnologia que tem a virtualidade de liberar o homem para profunda e sintética foi feita por K. Kosik:
um tempo maior para o mundo da liberdade, da criação, do
lúdico, paradoxalmente o escraviza e o subjuga, sob as relações A teoria dos fatores assevera que um fator privilegiado, a eco-
nomia, determina todos os outros - como o Estado, o direito, a
de propriedade privada e de exclusão, ao desemprego e subem-
arte, a política, a moral- mas deixa de lado o problema como
prego. A profundidade da crise consiste exatamente em que a
surge e se configura o complexo social, isto é, a sociedade como
repetição da história, sob estas condições de avanço das forças
formação econômica; e pressupõe a existência de tal formação
produtivas, torna cada vez mais difícil esconder a farsa.
como um fato já dado, como forma exterior ou como campo onde
Os argumentos utilizados por Offe em relação à divisão do um fator privilegiado determina todos os outros. (Kosik, 1986,
trabalho também carecem de maior densidade analítica. Primei- p.104)
ramente, em suas análises, não incorpora a questão da divisão
internacional do trabalho, centrando-se numa perspectiva eu- Na análise de Offe o que vai aparecer é que a formação
rocêntrica. De outra parte, os argumentos da diminuição dos econômica, as relações sociais econômicas, e o trabalho, enquan-
128
GAUD~NC/O FRIGOnO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 129

to relação s~cial e dimensão ontológica, se reduzem a fatores. o trabalho, na sua essência e generalidade, não é atividade labo-
P~rante a cnse das relações sociais econômicas capitalistas e a rativa ou emprego que o homem desempenha e que de retomo,
cnse do t~abalho abstrato, da forma mercadoria força de traba- exerce uma influência sobre a sua psique, o seu habitus e o seu
lho, ~ue. e profunda, e dos mecanismos utilizados para fazer pensamento, isto é, sobre esferas parciais do ser humano. O traba-
face a cnse, sem superá-Ia, por inscreverem-se na perspectiva lho é um processo que permeia todo o ser do homem e constitui a
dos fatores, busca. deslocar o eixo da análise na procura de sua especificidade. Só o pensamento que revelou que no trabalho
outro fator determmante: "sentido da vida" cotidi " algo de essencial acontece para o homem e o seu ser,que descobriu
. " ' I Iano e espa- a íntima, necessária conexão entre os problemas" do que é o tra-
ço vI.tal . Por esse caminho, mesmo que o autor não demonstre
balho" e "quem é o homem", pôde também iniciar a investigação
ter SI~O suyerada, rompida a relação capital-trabalho, relação
científica do trabalho em todas as suas formas e manifestações
de alienação e, portanto, de violência (física e simbólica), que (...) e bem assim a investigação da realidade humana em todas
funda as classes fundamentais, conclui que a "ação ._ as suas formas e manifestações. (Kosik, 1986, p. 178)
. " comUlllca
~,IV~: p~r afas~ar-se da teoria dos conflitos, dá conta melhor da
dinâmica SOCIaldas sociedades modernas". Em suma, a questão crucial em relação à análise de Offe,
É novamente Kosik que nos permite apreender sob que não é que ele não consiga descrever questões do cotidiano da
concepção de trabalho Offe opera sua análise: crise do trabalho e da sociedade do trabalho, particularmente
na realidade europeia. a
problema está no fato de que, ao
Na Soc~ologiado trabalho, na Psicologia do trabalho (...) e nos abandonar a perspectiva ontológica do trabalho, desenvolve
respectIvos conceitos sociológicos, psicológicos e econômicos urna análise que o leva a vários sofismas de composição. O
etc., se examinam e se fixam determinados aspectos do trabalho. mais geral destes sofismas é de que de dados relativos ao pro-
enquanto isso, o problema central- o que é o trabalho _ ou ~ blema crucial e à crise do trabalho enquanto emprego, tarefa,
compr~endi~~ em si mesmo como um pressuposto não analisa- ocupação, deduz a crise do trabalho em geral e daí, a perda de
do e ~:It~acnhcamente (...) ou então é conscientemente afastado sentido do trabalho enquanto categoria sociológica para expli-
da crencia como "problema metafísico" . (...) Em b ora pareça car as relações sociais.
haver nada mais notório e banal do que o trabalho, está demons- A análise de Schaff, mesmo que em diferentes momentos
trado que esta pretensa banalidade e notoriedade se baseiam em possa engendrar um reducionismo do tipo a que Offe chega na
um.eq~í~oco: na representação cotidiana e na sua sistematização análise do trabalho, é explícita em afirmar que a crise e "o fim
s.oclOloglcanão se pensa no trabalho em sua essência e genera- do trabalho" se referem à dimensão do trabalho abstrato, o
lidade, mas sob o termo trabalho se entendem os processos de trabalho sob as relações capitalistas, e não ao trabalho como
trabalho
. ' a o~eraçao
- d e tra balh o, os diversos
. tipos de trabalho atividade humana constitutiva do próprio homem. Schaff, ao
e aSSImpor diante, (Kosik, 1986, p. 177-8) fazer esta referência explícita está se defendendo de críticas a
um trabalho anterior no qual tal ressalva não aparecia." Por
Contrastando com esta perspectiva de trabalho Kosik isto, na obra a que estamos nos referindo aqui, deixa claro que
r~sg~ta o senti~o ontológico de trabalho, sentido este :mpres-
cindfvo] para nao esbarrar no reducionismo da concepção dos
fatores: 12. Trata-se, sobretudo, da crítica de Paola Manacorda, entre outros, ao livro
Occupazione e lavora in Ia riooluzione microelettronica, Milano, Mondatori, 1984.
130
GAUDÊNClO FRIGOnO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 131

a~ afirr~ar O fim do trabalho como emprego sob o capitalismo, desenvolvimento de novas forças produtivas. O que começou a
nao esta se referindo ao fim do trabalho como atividade huma- mudar a partir de 1760 foi todo o conjunto de relações de pro-
na, como processo constitutivo do próprio ser humano. dução, as quais, finalmente, constituíram uma nova ordem social.
A tensão e problemática da análise de Schaff e mais enfa- (Williams, 1984)
ticamente ~~ Kurz, sit~am-se no determinismo tecnológico de
autodestrUlçao do capitalismo. Isto pelo fato, como veremos a Na mesma perspectiva, Ramón Pena Castro mostra-nos o
seguir, de que ambos, cada um ao seu modo, definem o desa- equívoco daquilo que denomina o "fetichismo tecnológico",
par:cimento das classes fundamentais produzidas pela relação que consiste em tratar a ciência e a tecnologia como variáveis
capital-trabalho, sem que a relação social capitalista tenha de- independentes e determinantes, escondendo as relações sociais
saparecido. O nó górdio, uma vez mais, incide na perspectiva que as produzem. Ao tratar da relação trabalho e qualificação
da 'yassa~e~", da ruptura, ou da superação do modo de pro- mostra que este fetichismo se desenvolve dentro do seguinte
duçao ~apItalIsta. Isto fica tão mais complicado à medida que raciocínio: a ciência determina a tecnologia, a tecnologia impõe
as utopias de uma nova sociedade se fundam ou sobre a virtu- o tipo de organização de trabalho, o tipo de organização de
de apologética da "revolução tecnológioa" (Schaff) ou de uma trabalho determina as qualificações e, por extensão, as exigên-
"razão sensível" (Kurz). cias de ensino e da formação humana.
Em relaç~o à análise de Schaff, parece-nos importante
Fica evidente que este raciocínio escamoteia as determinações
mostrar, mediante as contribuições de Raymond Williams
econômico-políticas, omitindo o dado essencial: o desenvolvi-
Ramón Pena Castro e, sobretudo, Paola Manacorda, os riscos mento da ciência e da tecnologia depende dos poderes econô-
do determinismo tecnológico.
micos e políticos. (Castro, R. P., 1992, p. 6)
, .A questão c.entral que precisamos aprofundar é de que as
analIses que se fixam na apreensão das diferentes "revoluções É, todavia, Paola Manacorda (1984) que, dentro da mesma
tecnolóei
ecno ogI.cas "13 no plano descritivo, em seus efeitos positivos perspectiva de Williams e Castro, efetiva críticas diretas ao
ou negatIvos, acabam por borrar a problemática central dos pensamento de Schaff." Inicialmente, a autora ressalta que em-
rr.:ecanismos, das forças sob as quais as mudanças ou "revolu- bora Schaff esteja engajado na luta do fim do trabalho alienado,
çoes tecnológicas", nascem, se difundem e incidem sobre o a utopia que propõe é pouco fundamentada e problemática.
trabalho, os valores, o tempo livre e a vida em seu conjunto. Num primeiro aspecto chama a atenção para o fato de que
as análises das mutações tecnológicas, ao estilo de Schaff, têm
Na verdade, o que se deve dizer é outra coisa. O pleno signifi-
levado a confundir como iguais questões profundamente dis-
cado da revolução industrial não se reduz à introdução e ao
tintas. Há necessidade de distinguir-se a mudança efetiva do
conteúdo do trabalho e as mudanças da organização e divisão
_ .13. Willia,:ns(1984),chama a atenção para o fato de que o conceito de "revolu-
ç~omdustnal ,na sequencia de primeira, segunda e terceira revolução industrial,
50 pode ser tomado dentro de "um significado meramente técnico" do t
To d . ermo. 14. A crítica de Paola Manacorda a Schaff aqui incorporada resulta de urna
o avia, se seguíssemos por este terreno apenas descritivo, possivelmente, teríamos . síntese de seu pensamento no livro Laooro e intelligenza nell'eiã microeleitronica,
que falar em muitas revoluções industriaís.
1984.
133
132 GAUDÊNClO FRIGOnO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL

do trabalho das mudanças das relações sociais de produção. si. Existem modos nocivos e desumanizadores de desenvolver
Schaff cai no erro metodológico de induzir-se das mudanças um determinado trabalho. Isto indica que o problema está na
do conteúdo do trabalho, da organização do trabalho, uma forma de organização e divisão do trabalho, nas relações de
inevitável mudança nas relações sociais de produção. Por esse trabalho sob as relações capitalistas e não na natureza em si do
caminho, igualmente se induz da revolução científico-técnica, trabalho, definida uma vez para sempre. A utopia é, justamen-
sob as relações sociais capitalistas, a revolução tout court. te, romper com a perspectiva utilitarista e da forma valor de-
terminadas pelas relações sociais capitalistas.
Sobre a posição de Schaff do "fim do trabalho", Manacor-
da observa que as conclusões bombásticas da superação do No plano empírico, inúmeros trabalhos recentes, em dife-
trabalho enquanto atividade para satisfazer as necessidades rentes países, tanto ligados à medicina do trabalho quanto a
humanas materiais deriva de uma tradição econômica que se dimensões sociológicas, psicossociais e antropológicas, confir-
nega a ir além dos efeitos visíveis para estudar os mecanismos mam as análises de Manacorda."
que os provocam. Por esse caminho, confundem-se as mudan- No plano epistemológico e teórico, a análise de Schaff
ças do conteúdo, organização, quantidade de trabalho com a sobre a "revolução tecnológica" e o trabalho contrasta com suas
finalidade mesma do trabalho. Neste sentido, vai apontar que análises sobre história e linguagem. Como nos demonstra Ko-
Schaff, por vezes, sobrepõe três finalidades do trabalho: prover sik, não existe uma divisão arbitrária entre mundo da necessi-
a satisfação das necessidades humanas, meio de construir a dade (plano da reprodução material do homem - resolvido
realização da capacidade criativa e o papel de identidade social. pelo trabalho) e mundo da liberdade (espaço de criação pro-
Para Schaff, a primeira dimensão está incorporada pela máqui- priamente humana - desenvolvido no plano da arte).
na e as duas outras, em função desta, sofrem uma profunda
reorientação psicológica e social. A divisão do agir humano em trabalho (esfera da necessidade)
e arte (esfera da liberdade) capta a problemática do trabalho e
É preciso questionar o pressuposto de que as máquinas do não trabalho apenas aproximadamente e apenas sob certos
incorporam quase todo o trabalho entendido como instrumen- aspectos. Esta distinção parte de uma determinada forma histó-
to de satisfação das necessidades humanas. Isto, em última rica do trabalho como de um pressuposto não analisado e,
análise, implica supor que as necessidades, e o trabalho para portanto, aceito acriticamente, sobre cujo fundamento se petri-
satisfazê-Ias, são quantidades finitas. Ora, as necessidades hu- ficou a divisão do trabalho surgida historicamente, em trabalho
manas são históricas e não finitas. O trabalho; enquanto pro-
cesso de criação do homem e de satisfação de suas necessidades, 15. Ver, por exemplo, os estudos de Magda de Almeida Neves, Mudanças
não pode ser considerado finito. Não há, pois, um limite teóri- tecnológicas e os impactos sobre o trabalho e a qualificação profissional (São Paulo, 19:1,
co nem das necessidades, nem das atividades humanas. mimeografado) e As trabalhadoras de Contagem: uma história outra, uma outra hzstorza
(tese de doutorado, USP, 1990); e Roberto Moraes Pessanha. Tecnologia da informação
Por fim, Paola Manacorda também critica a perspectiva de e organização do trabalho (Rio de Janeiro, COPPE, 1992); trata-se de um estudo onde
Schaff de que a automação e a nova "revolução tecnológica" se analisa o emprego de alta tecnologia no processo off-shore de exploração do
acabam com os trabalhos desqualificados, repetitivos e nocivos, petróleo na bacia de Campos (RJ) e as condições precárias de trabalho dos traba-
mostrando que não existem trabalhos nocivos e repetitivos por lhadores, muitos deles com elevada qualificação.
13S
134 GAUDÊNCIO FRIGOnO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL

físico-material e trabalho espiritual. Nesta distinção fica oculta da sociedade do conhecimento e do tecno-economicismo ou tec-
uma ulterior característica essencial da especificidade do traba- nocratismo.
lho como agir humano que não abandona a esfera da necessida- A análise de Kurz, sob a argumentação "bem arrumada",
de mas ao mesmo tempo a supera e cria nela os reais pressupos- própria do discurso estruturalista, que por não enfrentar a
tos da liberdade. A representação do tempo livre como férias trama do enredo das mediações, conflitos e contradições da
organizadas é absolutamente estranha a Marx. É claro que a
materialidade histórica, sempre é bem acabado, nos leva a uma
criação de um tempo livre como dimensão qualitativamente nova
espécie de história sem saída onde o "ex-sujeito explorado",
da vida humana se conjuga com a criação de uma sociedade livre.
a(s) classe(s) trabalhadora(s) expia(m) seu fracasso numa mór-
(Kosik, 1986, p. 188)
bida espera do apocalipse.
Isto nos permite sustentar, de modo inequívoco, que a Tanto Gianotti (1993) quanto F. de Oliveira (1993c), em
criação de "espaço vital" a que se refere Offe ou do mundo duas resenhas onde analisam a obra aqui focalizada - O co-
laudens a que se refere Schaff pressupõe a ruptura das relações lapso da modernização - enfatizam que Kurz reduz a análise
sociais de alienação que transformam o tempo livre (desempre- histórica mediante uma análise lógica, constituindo-se num
go, subemprego) em tormento e não em fruição. O mundo da "dedutivista":
liberdade pressupõe imperativamente a "riqueza" do mundo
da necessidade." Ele deduz das categorias mais gerais do marxismo um movimen-
to da história. Confunde lógica e política. Ele opera um desloca-
A análise de Schaff sobre o papel da tecnologia na supe- mento, que é uma falsificação de Marx, ao colocar a questão do
ração da forma mercadoria de trabalho e, como consequência, fetiche no âmbito da concorrência. (...) O fetiche em Marx não
o desaparecimento da classe trabalhadora não enfrenta a está apenas na concorrência, nem apenas na produção, o fetiche
questão da forma que assumem as classes sociais no capita- está em todo o sistema, está em todo o processo. Por que ele faz
lismo transnacional e sua análise converge com as perspectivas isso? Porque ele precisa abrir mão da classe operária. Elevai tomar
uma tese que está em Habermas, que é o fim da sociedade do
trabalho. (Oliveira, Folha de S.Paulo, p. 6, 13/7 j1993b)
16. Kosik acrescenta urna explicação em nota de rodapé que me parece im-
portante para entender a divisão arbitrária em que incorre Schaff, acima analisada:
"A relação entre necessidade e liberdade é urna relação historicamente condicio-
Somente ignorando os processos históricos complexos,
nada e historicamente variável. É, portanto, perfeitamente coerente, do ponto de diferenciados e produzidos por sujeitos sociais concretos,
vista materialista, que Marx reduza o problema da liberdade à redução do tempo mostram-nos Gianotti e Oliveira, podem levar Kurz a ver no
de trabalho, isto é, à criação de tempo livre, e neste sentido traduza a problemáti- socialismo real uma espécie de fotocópia do capitalismo, sobre-
ca de necessidade e de liberdade na história em relação a tempo de trabalho e
tempo livre. (...) O tempo livre, o tempo que está à nossa disposição, é a própria
tudo na sua forma estatista.
riqueza (destinada) em parte à fruição do produto, em parte à livre manifestação O resultado dos "arranjos lógicos", da teoria da crise do
de urna atividade que não é, corno o trabalho, determinada pela coação de uma capitalismo e o congelamento das classes sociais substituídas por
finalidade exterior que deve ser cumprida e cujo cumprimento é uma necessidade
uma categoria fluida - razão sensível - conduzem-no a uma
natural ou um dever social! corno se queira" (Marx, Theorien iiber de Mehrwert, v. 3,
p. 305; tradução nossa). visão apocalíptica da história, que sequer pode ser incorporada
136
GAUDÊNClO FRIGOTTO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 137

"à tradição 'pessimista' dentro do marxismo (...) ou à tradição Mas o tipo dominante admirado de utopia é de outra na-
racionalista da Escola de Frankfurt" mas acaba sendo o "irra-
tureza:
cionalismo mais idealista dos últimos tempos". (Oliveira, 1993c,
p.57)!7
Não se baseia em um novo sistema como crítica do sistema
existente, nem em uma alternativa cuidadosamente detalhada.
Mesmo percorrendo caminhos diferentes, e ambos se Seu propósito é, por sua vez, produzir desejo. Trata-se de um
opondo ao status quo, as utopias "alternativas" de Schaff e Kurz estímulo criativo para sentir e relacionar de uma maneira dife-
convergem para perspectivas que Williams e Hobsbawm iden- rente, ou para fortalecer e confirmar sentimentos e relações reais
tificam como de influência comunitária e eclesial. que não se encontram na ordem existente e não podem ser vivi-
Williams nos mostra que, face à crise atual da sociedade dos dentro dela. Este tipo de utopia heurística tem muito em
comum com os movimentos que colocam em prática estilos de
capitalista, o pensamento conservador tenta passar a ideia de
vida alternativos individuais ou de pequenas comunidades e,
que toda utopia, especialmente as "utopias sistemáticas't.w é
de modo crucial, com uma tendência importante e provavelmen-
totalitária. A moda deste final de século é de uma falta de uto-
te crescente do pensamento religioso. (Williams, 1984, p. 23)
pia sistemática - o inferno ou vazio organizado. Este vazio se
traduz pela seguinte ideia: Embora Schaff insista na dimensão de homem social for-
mulada por Marx, e Kurz nos fale de um "coletivo" dotado de
(...) a simples tentativa de criar um novo tipo de sociedade, mais
uma consciência crítica, ambos, por caminhos diversos, têm
justa, mais racional e mais humana, conduz, por seus próprios
como pressuposto que a passagem para urna nova ordem, que
processos e impulsos, e entre eles sobretudo o planejamento, ao
evitam chamar de socialista, se dá sem o concurso das classes
oposto: uma ordem mais repressiva, mais arbitrária, mais pa-
dronizada e desumana. (Williams, 1984, p. 21) sociais.
Do lado de Schaff, como vimos, a positividade da revolu-
Essa perspectiva não é senão, diz-nos Williarns, um magní- ção tecnológica levaria ao desaparecimento da classe trabalha-
fico truque. A utopia fundamentada, com todas as suas limitações, dora e, dependendo das circunstâncias, da classe capitalista.
é um poderoso instrumento para romper com as relações sociais Em Kurz, a contradição maximizada entre o avanço das
dominantes. Significa, ao mesmo tempo, uma contestação às forças produtivas e o engessamento das relações sociais, implo-
relações dominantes e um projetar de novas relações sociais. diria tanto a burguesia quanto o proletariado. A resistência se
daria na tecnocracia, burocracia e aparelhos de cunho militar,
17. Para uma visão mais geral da fluidez e dos arranjos da análise de Kurz,
policialesco ou paramilitar (um resíduo do estatismo tanto do
da natureza lógica, metafísica, escatológica e irracional (para ficar em alguns dos capitalismo quanto do socialismo de caserna). Em lugar da
adjetivos utilizados pela crítica) da mesma e de importantes indicações das razões classe trabalhadora, um coletivo dotado de uma "razão sensí-
de seu sucesso no seio da esquerda no Brasil, ver as resenhas do livro de Kurz, O vel" e, portanto, substitui-se a dialética da materialidade das
colapso da modernização, feitas por Luiz Carlos Bresser Pereira, e, especialmente, por
José Artur Gianotti e Francisco de Oliveira, em Novos Estudos CEBRAP, n. 36, p. / relações sociais, com sujeitos sociais, por uma utopia (ir)racio-
46-57, jul. 1993c. nalista ou por um determinismo lógico.
18.A utopia sistemática funda-se a partir da crítica da ordem estabelecida e na O caráter mecanicista da inevitabilidade do colapso do
proposição de estratégias de mudança para uma nova ordem de relações sociais. capitalismo, em Kurz, ou do congelamento dos sujeitos sociais,
138 139
GAUDfNClO FRIGOnO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL

e, portanto, da presença da ação política contra-hegemônica, A "matriz" do determinismo tecnológico em Schaff, o


fica patenteada na imagem que o autor usa para fazer entender dedutivismo e (ir)racionalismo de Kurz, as previsões escatoló-
a lógica do colapso. Kurz compara a lógica inexorável do co- gicas e a falta de um detalhamento mais sistemático das pro-
lapso do capitalismo a um campeonato de futebol. No início há postas alternativas de ambos nos permitem perceber que as
muitos times, mas, à medida que a competição se desenvolve, suas "utopias" se definem pelas de segundo tipo, analisadas
vão sendo eliminados, até que num determinado momento o por Williams.
campeonato inevitavelmente chega ao embate final. O time As classes sociais fundamentais não são um dado que
vencedor, ao derrotar todos fica sem possibilidade de continuar, possa se dissolver por si mesmo. A gênese das classes funda-
pois ao liquidar todos não tem mais com quem competir. Assim mentais hoje existentes se materializa mediante relações sociais
estaria se dando com o capitalismo." e de força que, de um lado, encontram os donos dos meios e
Kurz esquece, entre outras coisas, que o "jogo" das relações instrumentos de produção cujo interesse primordial é a busca
sociais é de outra natureza. Mas mostra ser um observador incessante da acumulação e do lucro e, de outro, aqueles que
desatento do próprio futebol. O fim de um campeonato mun- em relação ao capital se organizam na defesa de seus interesses
dial, certamente, não é o fim (da história) do futebol, mas ape- enquanto vendedores de sua força de trabalho.
nas daquele campeonato. O time vencedor, dependendo das As classes fundamentais originam-se de um processo
regras, pode começar o novo campeonato com alguma vanta- histórico, de urna relação social. Neste sentido, não se pode
gem, mas isto não lhe garante a nova vitória, pois as forças em confundir as mudanças das formas de sociabilidade capitalista,
luta podem ter modificado. isto é, dos mecanismos históricos, dos novos atores e as dife-
No seu novo livro publicado na Alemanha em 1993 e tra- rentes formas e estratégias de refuncionamento do capitalismo
duzido pela Editora Paz e Terra com o título A volta do Potemkin em face das suas crises, e das formas que assumem as classes
(1994), insiste em sua tese irracionalista e pessimistas Ele próprio sociais, com o desaparecimento efetivo das relações capitalistas,
explicita o teor deste novo de trabalho em entrevista à Folha de e, portanto, das classes sociais.
S.Paulo, por ocasião da Feira do Livro de Frankfurt, em 1993: É neste sentido que F. de Oliveira (1987) e Jameson (1994)
nos mostram que o fato da crescente opacidade e, portanto,
Uma nova crítica ao capitalismo não pode mais aproveitar as
dificuldade de apreendermos as classes sociais na sociedade
ideias de luta de classe e poder. Isto está ultrapassado. Mas é
contemporânea, não nos permite pura e simplesmente anunciar
necessária uma terceira alternativa, que não é a de Estado e de
mercado. Estamos num ponto de destruição do sistema de mer- tranquilamente o fim da sociedade de classes.
cado, de destruição social e econômica. E pode ser que entremos
A opacidade da divisão e das relações entre as classes é contem-
num estado de destruição total e que não haja terceira alternati-
poraneamente de tal densidade que o trabalho teórico de dar-lhes
va. (Folha de S.Paulo, p. 4,12/10/1993)
transparência caminha no sentido inverso do movimento da
J história do capitalismo. No sentido de que enquanto o sistema
19. Este exemplo foi desenvolvido por Kurz num debate, em 20/4/1993, na capitalista se afirma sistematicamente enquanto tal, borrando
Universidade Federal Fluminense (RJ), no qual repetia, pela quarta ou quinta vez, ou anulando ou ainda subordinando as formas que o precederam,
a conferência síntese de seu livro para os brasileiros. (Conferência gravada) sendo portanto mais transparente o caráter do sistema em si
140
GAUDtNClO FRIGOTTO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 141

mesmo, o movimento das classes vai em sentido inverso, isto é,


do capitalismo neste final de século e seus mecanis~_os de re-
torna-se mais complexo e difícil reconhecer, enfim, o perfil das
classessociais.Menos que uma simples assimetría ou assíncrona, composição, quanto a crise do trabalho e das condições para-
paradoxal ou geométrica, dos dois movimentos, que permitisse doxais onde o aumento fantástico da potenciação das forças
suas decodíficaçõesparcializadas, trata-se do contrário: é de um produtivas, sob as relações de exclusão, não tenha p~r~itido
movimento de unidade dos contrários. (Oliveira, 1987,p. 10) socializá-Io na qualificação da vida humana. Ao contrano, sob
muitos aspectos não só da classe trabalhadora, mas p~rticular-
[ameson indica que é necessário ir além das aparências e mente desta, a penúria e a exclusão aumentaram. MaIS global-
insistir em categorias marxistas que são tidas como anacrônicas: mente, o caráter destrutivo destas relações põe em risco o
modo de produção, revolução, socialismo e classe social. próprio ecossistema. A análise e as propostas utópicas que ul-
trapassem as perspectivas de Offe, de Sch.affe de ~u~z, enquan-
A globalização, que significou uma crise na produção nacional,
to caminho de ruptura, são cada vez mais necessanas.
e também nas instituições (sic) de uma forçade trabalho nacional
em diminuição, deverá causar o aparecimento de formas inter- A crise da forma mercadoria de trabalho, do trabalho abs-
nacionais de produção, com as correspondentes relações de trato, portanto, não significa o fim da centralidade do t~abalho
classe. (...) É necessário insistir tanto na inevitabilidade desse enquanto processo criador do humano na sua dupla e ID:epa-
novo processo de formação global de classe como também nos rável dimensão de necessidade e liberdade. A superaçao da
dilemas representacionais os quais ele nos confronta atualmen- crise somente se efetivará, pela raiz, mediante um processo de
te. (Tameson,1994,p. 81)
embates concretos que concorram para a negação das relações
sociais de produção fundas na cisão das classes soci~is, p:la
Nas análises de Schaff, de Kurz e mesmo de Offe, prefere-se mercantilização da força de trabalho, em suma, pela alienação,
o atalho da supressão das classes fundamentais, confundindo
Esta travessia não se dará quer pelo concurso, pura e sim-
as formas que as classes e os grupos fundamentais assumem
no capitalismo contemporâneo com a sua desaparição. plesmente, da "revolução tecnológica", quer pela "ação comu-
nicativa" ou pela "razão sensível". Resultará, concr~tamente, ~e
Por esta razão, também, desfazem-se apressadamente da
um embate de forças cuja configuração cada vez mais opaca nao
utopia socialista e das lutas concretas que esta utopia nos indi-
elide sua existência, as classes e grupos sociais, mas os pressupõe.
ca hoje - face à avassaladora ideologia neoliberal- na dila-
tação da esfera pública. A radicalização da luta democrática e neste movimento o con-
trole, "acesso e manejo" do fundo público na dilatação dos di-
O socialismo significa vida garantida: o direito à educação livre reitos e das conquistas das classes subalternas, como nos mostram
e ao cuidado com a saúde; o direito à comunidade e associação; Francisco de Oliveira, Hobsbawm e Anderson, entre outros,
o direito ao trabalho (questão nada irrelevante perante as con- constituem-se no campo de definição da desmercantilização do
dições endêmicas do desemprego pós-moderno) e o direito ao conjunto das relações sociais e o terreno sobre o qual se desenham,
lazer, à cultura e à aposentadoria. (Iameson, 1994,p. 74) como nos assinala Oliveira, as "formas sociais do futuro".
A natureza deste embate tem uma especificidade regional
Para que a teoria se constitua em efetiva força material, a
e "nacional", todavia, os problemas que engendra têm profun-
análise necessita perquirir mais fundo tanto a questão da crise . • - fI •• "
das determmaçoes transnacionais .
143
EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL
142 GAUD~NClO FRIGOnO

se confrontam quer com as formas de "capitalismo selvagem"


o número de organizações internacionais intergovernamentais
cresceu de 151 em 1951 para 280 em 1972 e para 365 em 1984; praticado pelas velhas oligarquias, quer com as form~s do
o número de organizações internacionais não governamentais foi capitalismo "moderno", da participação, do tr~balho ennqu_e-
de 832 para 2.173 em 1972, e mais que dobrou nos doze anos cido, da sociedade do conhecimento e da qualidade total, nao
que se seguiram, atingindo 4.615 em 1984. (Hobsbawm, 1990, só aumentaram em quantidade como engendram uma nova
p.206) qualidade.

A explosão de nacionalismos, especialmente onde o socia-


lismo real predominou até seu" desmoronamento", são, em face
desta realidade, como analisa Anderson, "fogos de artifício".
O horizonte histórico gravita numa outra direção:

o futuro pertence ao conjunto de forças que está ultrapassando


a Nação-Estado. Até agora elas foram capturadas ou impulsio-
nadas pelo capital, uma vez que o internacionalismo, nos últimos
cinquenta anos, mudou de lado. Enquanto a esquerda não con-
seguir retomar a iniciativa nesta área, o atual sistema estará se-
guro. (Anderson, 1992, p. 131)

As implicações dos encaminhamentos aqui expostos para


o embate político, político-sindical e para os processos educa-
tivos que se estruturam nos diversos âmbitos e movimentos da
sociedade e na instituição escolar, são de diferentes ordens.
No próximo capítulo, discutiremos as implicações das
formas de apreensão da crise do capitalismo dos anos 1970-90,
face aos interesses que se confrontam no campo específico das
alternativas de propostas e ações educativas, atendo-nos, par-
ticularmente, ao caso brasileiro. Muito embora estejamos num
recanto tropical definido como "Terceiro Mundo", onde as
relações de exclusão vêm sobredeterminadas pela violência do
capital transnacional e, portanto, os custos humanos são po-
tenciados geometricamente, nem tudo é negatividade. O ine-
quívoco avanço das forças produtivas e as contradições que
daí advêrn, engendram uma positividade que deve e que pode
ser dilatada pela ação política das classes, grupos e movimen-
tos sociais. No caso brasileiro, os sujeitos sociais coletivos que
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144 I@CDRTEZ
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EDUCAÇÃO Only.
A CRISE DO CAPITALISMO REAL 145

certa medida, a concretização de seus próprios interesses; de


outro, porém, decorrem da existência de interesses concretos
antagônicos dos grupos sociais que constituem a classe traba-
lhadora e que tornam o campo educativo, na escola e no con-
junto das instituições e movimentos sociais, um espaço de luta
hegemônica.
IV
O inventário (breve) deste embate, no plano mais geral e
especificamente na realidade brasileira, mostra que na teoria e
na prática não somente se avançou bastante na apreensão de
Educação e formação humana: sua natureza, como ele assume uma especificidade no bojo da
ajuste neoconservador e crise do capitalismo dos anos 1970-90 que expõe questões de-
safiadoras para aqueles que entendem o espaço educativo como
alternativa democrática* um loeus importante da luta e construção da democracia subs-
tantiva. A primeira ordem de questões, como explicitamos ao
final do Capítulo I, liga-se a uma mudança dos homens de
negócio em face da educação e formação humanas e a segunda
A disputa em torno da realidade ou irrealidade do
explícita-se pelas teses do fim da sociedade do trabalho e da
pensamento - isolado da prática - é um problema não centralidade do trabalho, hoje, na apreensão da realidade
puramente escolástico. social.
K. MARX, Tese (9) sobre Feuerbach Partimos do pressuposto de que estas duas ordens de
questões, muite diversas e mesmo, em certo sentido, excluden-
tes no âmbito da análise e de posicionamento político-ideoló-
N? capítulo.introdutório buscamos explícítar que o campo gico, estruturam-se a partir da apreensão que fazem das novas
educatIvo e, mais amplamente, a formação humana tem se formas de sociabilidade capitalista, do papel do progresso téc-
constituí~~, desde o p~oj.etoda burguesia nascente, u~ campo nico e, sobretudo, da crise do modelo de desenvolvimento que
problemático para definir sua natureza e função social. Os di- regulou os processos de acumulação nos últimos cinquenta
lemas - que assumem conteúdos históricos específicos - de- anos. O Capítulo IIbuscou delinear a compreensão que fazemos
corr~m, de um lado, do fato de que a forma parcial (de classe), da crise do capitalismo no seu aspecto estrutural e a sua espe-
mediante a qual a burguesia analisa a realidade, limita, em cificidade neste final de século e, ao mesmo tempo, demarcar
a direção do embate teórico e político por onde as conquistas
* Este capítulo, orig~almente escrito para este livro, foi publicado, com algu- da classe trabalhadora podem se ampliar. A dilatação da esfera
mas ~iferenças em relaçao a esta versão, na coletânea organizada por Pablo A. A. pública e a organização para deter o controle e manejo demo-
Gentil! e Tornas Tadeu da Silva (1994,p. 31-92).
crático do fundo público constituem-se no eixo de luta face ao
146
GAUDÊNCIO FRIGOTTO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 147

neoconservadorismo que busca circunscrevê-los ao domínio festa-se por previsões escatológicas, profecias, culto ao irracio-
privado do capital (tese do Estado mínimo). nalismo e posturas cínicas.
No Capítulo III buscamos trabalhar a segunda ordem de No contexto da discussão que estamos fazendo neste tra-
questões mediante a leitura crítica das teses sobre o fim da so- balho, esta morbidez explícita-se, claramente, como assinalamos
ciedade do trabalho e do trabalho como categoria de análise social, nos capítulos anteriores, nas teses conservadoras do fim da
explicitando os argumentos básicos, o horizonte teórico-histó- história de Fukuyama, tese da sociedade do conhecimento de
rico em que se firmam e algumas de suas consequências no Toffler e, a partir dela, o fim das classes e sobretudo do prole-
plano político-prático.
tariado, sendo este substituído pelo cogniiariado) ou por teses
Neste último capítulo objetivamos explicitar, inicialmente, como as de Kurz - que ironicamente alguns críticos situam
a perspectiva básica dos homens de negócio no campo educativo como o Fukuyama da esquerda - que deduzem da crise" da
e .de f~rmação humana face à crise do modelo fordista de orga- sociedade do trabalho" a autodissolução das classes sociais. No
mzaçao e gestão do trabalho e, portanto, face às novas bases mesmo rastro do fim da sociedade do trabalho e com ela o fim
que a reconversão tecnológica e a redefinição do padrão de do conflito, Offe e Schaff não postulam como novo ator social
acumulação capitalista demandam na reprodução da força de a "razão sensível" de um coletivo indefinido (Kurz), mas o
trabalho. deslocamento para questões como o sentido da vida e da pre-
No plano teórico-histórico, interessa-nos expor o signifi- paração do homem para o mundo do lazer.
cado das teses da formação polivalente e educação geral abstra- Não é difícil, por certo, ao confrontar os processos histó-
ta e sua (des)articulação com a perspectiva do Estado mínimo. ricos específicos com estas profecias, surpreender traços de uma
Em seguida buscaremos discutir o significado e a pertinência espécie de jogo do truco, onde o blefe é uma tática singular, e
teórica e histórica da concepção de educação politécnica e for- nem percebermos um elevado grau de cinismo. Mais explícito
mação humana omnilateral, no plano da luta hegemônica que isto pode tornar-se quando analisamos as perspectivas de edu-
se articula aos interesses da classe trabalhadora, e a defesa e cação e formação humana postuladas pelos homens de negócio
ampliação da esfera pública como condição de possibilidade ou pelos seus mentores intelectuais, assessores e consultores,
de seu efetivo desenvolvimento. em realidades culturais como a brasileira, onde a burguesia se
constituiu mediante uma metamorfose das oligarquias.'

1. Os apologetas da sociedade do conhecimento e os homens de 1. Toffler deduz o fim da divisão do trabalho e das próprias classes sociais
negócio blefam e apostam no cinismo? em decorrência das mudanças do conteúdo e reorganização do processo de traba-
lho, motivadas pela introdução, no processo produtivo, de uma nova base técnica
constituída fundamentalmente pela microeletrônica associada à informatização
Antonio Gramsci nos adverte que face à crise, por esta ) - que exige uma força de trabalho que se ocupa mais com a "cabeça" do que com
manifestar-se no fato de que "o velho não morreu e o novo os braços e força muscular (Toffler,1973, 1980e 1985).
2. O ensaio de F.de Oliveira intitulado Cal/ar: afalsificação da ira (1992)mostra
ainda não pode nascer", é comum surgirem interpretações e
do que é capaz a classe ou classes dominantes brasileiras para manter o apartheid
comportamentos mórbidos. Esta morbidez, mormente, mani- social existente, montado historicamente sobre a violência (econômica, política e
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148 GAUDtNCIO FRIGOTTO For EEvaluation
EDUCAÇÃO Only.
A CRISE DO CAPITALISMO REAL 149

Se é sustentável, todavia, aquilo que Marx e Engels nos de qualificação ou simplesmente fixar-se no plano das perspec-
assinalam em A ideologia alemã, é preciso perquirir o tecido tivas da resistência, nem de se identificar nas novas demandas
histórico-social a partir do qual se explicitam uma determina- dos homens de negócio uma postura dominantemente maquia-
da consciência e determinadas categorias ou necessidades: vélica ou, então, efetivamente uma preocupação humanitária,
mas de disputar concretamente o controle hegemônico do pro-
A causa não está na consciência, mas no ser. gresso técnico, do avanço do conhecimento e da qualificação,
Não no pensamento, mas na vida. arrancá-los da esfera privada e da lógica da exclusão e subme-
tê-los ao controle democrático da esfera pública para potenciar
Este pressuposto nos conduz a um fio condutor na análise a satisfação das necessidades humanas. O eixo aqui não é a
sobre as alternativas educacionais em disputa hegemônica hoje supervalorização da competitividade, da liberdade, da quali-
e pode ser formulado da seguinte forma: o embate que se efe- dade e da eficiência para poucos e a exclusão das maiorias, mas
tiva em torno dos processos educativos e de qualificação hu- a da solidariedade, da igualdade e da democracia.
mana para responder aos interesses ou às necessidades de re-
definição de um novo padrão de reprodução do capital ou do
atendimento das necessidades e interesses da classe ou classes 2. Formação e qualificação abstrata e polivalente e a defesa do
trabalhadoras firma-se sobre uma mesma materialidade, em Estado mínimo: a nova (de)limitação do campo educativo na
profunda transformação, onde o progresso técnico assume um lógica da exclusão
papel crucial, ainda que não exclusivo.
Trata-se de uma relação conflitante e antagônica, por con- O eixo de análise que buscamos esboçar nos permite per-
frontar de um lado as necessidades da reprodução do capital e ceber que a crescente literatura que desenvolve as teses do
de outro, as múltiplas necessidades humanas. Negatividade e surgimento de uma sociedade "pós-industrial", sem classes,
positividade, todavia, teimam em coexistir numa mesma tota- fundada não mais sobre os processos excludentes característicos
lidade e num mesmo processo histórico e sua definição se dá de um processo produtivo transformador da natureza e consu-
pela correlação de força dos diferentes grupos e classes sociais. midor de fontes de energia não renovável, mas de uma economia
O fantástico progresso técnico que tem o poder de dilatar o grau global onde o principal recurso é o conhecimento, o qual não
de satisfação das necessidades humanas e, portanto, da liber- teria limites e estaria ao alcance de todos, opera dentro de um
dade humana, e que tem estado sob a lógica férrea do lucro nível profundamente ideológico e apologético. Este nível de
privado, ampliando a exclusão social, não é uma predestinação formulação, fortemente veiculado pelos organismos internacio-
natural, mas algo produzido historicamente. nais que representam o capitalismo transnacional, inscreve-se
Neste sentido, a questão não é de se negar o progresso no horizonte dos "economistas filantropos" a que Marx se refe-
técnico, o avanço do conhecimento, os processos educativos e re ao discutir a perspectiva que os mesmos têm de educação.

o verdadeiro significado da educação, para os economistas fi-


policial ou parapolicial). Os processos de falsificação, de blefe e o cinismo aparecem lantropos, é a formação de cada operário no maior número
claramente. possível de atividades industriais, de tal sorte que se é despedi-
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EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL
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do de um trabalho pelo emprego de uma máquina nova, ou por ração econômica sob nova.base técnica, lhes possibilite efetivar
uma mudança na divisão do trabalho, possa encontrar uma
a reconversão tecnológica que os torne competitivos no emba-
colocação o mais facilmente possível. (Marx, 1983, p. 81)
te da concorrência intercapitalista.
Em seguida, Marx vai demonstrar como esta filantropia A explicitação de que esta demanda tem caráter orgânico
chocava-se, objetivamente, com a lógica do processo de valori- pode ser apreendida tanto pela ação dos organismos de classe
zação do capital. dos empresários nacionais (CNI, FIESP, IEL) e sua articulação
Se as perspectivas filantrópicas persistem, de várias for- com os organismos internacionais (FMI, BID, BIRD,OIT), quan-
mas, e retomam força no interior do ajuste neoliberal, como a to por uma crescente literatura internacional e nacional que
tese da sociedade do conhecimento que transforma o proleta- analisa a crise do modelo fordista de organização e gestão do
riado em "cognitariado",? elas convivem com demandas que o trabalho, a reorganização mundial da economia e do processo
inventário da literatura internacional e nacional identifica como produtivo e as consequências para a educação e qualificação
um nova "qualidade" da educação escolar e dos processos de da força de trabalho.
qualificação ou requalificação da força de trabalho. Neves (1994), ao analisar as propostas educacionais dos
O que efetivamente mobiliza, no caso brasileiro, com um empresários no Brasil, tomando o final da década de 1980 e
atraso de um século em relação às conquistas da universalização início da década de 1990, mostra que a CNI foi mudando sua
da escola básica na Europa, empresários como A. E. de Moraes, estrutura organizacional para poder situar-se no interior das
?maior "capitão" da indústria nacional, como o apresenta a mudanças que o processo produtivo internacional experimen-
un~~ensa, a bradar, face ao fato de que Coreia, Hong Kong, Japão, ta e os desdobramentos em termos de produtividade, compe-
México, Venezuela têm, respectivamente, 94%, 69%, 96%, 55% titividade, relações de trabalho ete. A CNI criou quatro novos
e 45% dos seus jovens cursando o segundo grau e que este ín- conselhos técnicos permanentes de: política econômica, relações
dice chega a apenas 35% no Brasil: educação, pelo amor de Deus de trabalho e política social, política industrial e desenvolvi-
(A. E. de Moraes, Folha de S.Paulo, p. 2, 20/6/1993). mento tecnológico e de integração internacional. Como destaca
Este "lamento", sem perder o caráter moralista e filantró- Neves, a partir de 1990 a questão educacional passa a fazer
pico que funciona como uma espécie de mea culpa de uma parte permanente do Conselho de Relações de Trabalho e De-
burguesia que ainda cultiva posturas escravocratas e olígárqui- senvolvimento Social.
cas, revela demandas efetivas dos homens de negócio de um Em outra pesquisa sobre a modernização industrial e a ques-
trabalhador com uma nova qualificação que, face à reestrutu- tão dos recursos humanos, C. Salm e A. Fogaça (1991) detectam
que entre as maiores empresas do complexo industrial brasi-
leiro os atributos mais valorizados nos trabalhadores relacio-
3. Uma forte manifestação desta "vocação" filantrópica e moralizante das
elites empresariais, políticas, eclesiásticas e mesmo da "intelectualídado", no Bra- nam-se a conteúdos desenvolvidos pela educação geral. Par-
sil, dá-se mediante a visão de que a escola é o locus por excelência destinado a tindo destes estudos Salm (1992) assinala:
solucionar o problema da violência, dos meninos e jovens infratores, da pobreza,
do subemprego, do mercado informal, do desemprego e hoje, especialmente, dos no intuito de estimular o debate, terminaria arriscando dizer que
desenraizados meninos e meninas de rua.
o capitalismo brasileiro, pelo menos na sua parte menos rude,
153
152 GAUDÊNCIO FRIGOnO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL

menos cartorial, está, pela primeira vez na história deste país, Ao final do século XIX,o empresário Geraldo Mascarenhas
interessado na promoção de transformações radicais em nosso expunha aquilo que era senso comum para a época, decorren-
sistema educacional. (Salm, 1992, p. 100) te da concepção taylorista de homem e de trabalhador e que se
traduziu em políticas educativas e a criação de inúmeras insti-
Gentili (1994), num estudo empírico-analítico sobre Poder tuições educativas organizadas para tal fim,"
econômico, ideologia e educação, envolvendo uma amostra de 28
empresas que introduziram os processos de reconversão tec- o adestramento do homem para o trabalho sempre foi e será
nológíca e de organização do processo produtivo e processo de uma das mais importantes tarefas da administração industrial.
gestão do trabalho na Argentina, identifica uma grande homo- A ela grande atenção tem sido dedicada, como uma das condições
geneidade do discurso empresarial em relação à demanda de essenciais para a conquista da boa produtividade. (Giroletti,
uma nova qualificação e uma "revalorização" da formação 1987, p. 1)
geral. Gentili vai mostrar, todavia, que por trás desta homoge-
No Brasil, a perspectiva do adestramento e do treinamen-
neidade se localizam interesses muito delimitados que conver-
to foi dominante até recentemente. A legislação educacional
gem para aquilo que conforma os trabalhadores às novas ca-
promulgada sob a égide do golpe de 1964 e tendo o economi-
racterísticas do processo produtivo.
cismo como sustentação teórico-ideológica ainda está vigente,
Após uma ampla revisão de bibliografia internacional e
embora profundamente questionada e, em parte, superada es-
alguns textos nacionais sobre produção e qualificação, Paiva
pecialmente nos Estados e municípios onde a gestão educacio-
(1989) chega a indicações muito parecidas:
nal passou a ser controlada por forças políticas democráticas.
Não há dúvida de que as transformações nas estruturas produ- Inúmeros trabalhos de todos os matizes buscam dar conta
tivas e as mudanças tecnológicas colocam à educação novos desta mudança. Em boa parte destas análises observa-se uma
problemas. Mas certamente algo se simplifica. Pela primeira vez óptica apologética, parte desenvolve uma perspectiva que se
existe clareza suficiente de que é sobre a base da formação geral pretende crítica, mas que opera dentro da visão conspiratória.
e sobre patamares elevados de educação formal que a discussão Tem se ampliado, porém, o número de trabalhos que buscam
a respeito da profissionalização começa. E para obter tais obje- apreender o intrincado caminho contraditório das transforma-
tivos o consenso político nunca pôde ser tão amplo, na medida
ções que vêm ocorrendo no mundo e o impacto sobre nossa
em que unifica trabalhadores, empresários e outros setores so-
realidade. Não buscamos, aqui, detalhar os meandros destas
ciais. (Paiva, 1989, p. 63)4
diferentes perspectivas. Fixamo-nos neste último aspecto.
Que transformações da base material são estas que condu- Não compactuando com a tese do quanto pior melhor e com
zem a romper, no plano das concepções, aquilo que parecia mos- as perspectivas apologéticas, parece-nos importante mostrar
trar-se como algo natural- o adestramento do trabalhador?
5. Como vimos no Capítulo I, toda a política de formação profissional e
4. Paiva analisa sobretudo a realidade europeia e americana. Mesmo assim, técnica desde os anos 1940 vinha vincada com a perspectiva do adestramento. Para
chama atenção para a complexidade da questão e para sua heterogeneidade. O que uma compreensão da perspectiva ideológica e pedagógica da formação profissio-
está sinalizando, de acordo com a autora, são tendências. nal, ver Frigotto (1977 e 1983).
.,
154 GAUDÊNClO FRIGOTTO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 155

primeiramente que os novos conceitos abundantemente utili- Os grandes mentores desta veiculação rejuvenescida são
zados pelos homens de negócio e seus assessores - globalização, o Banco Mundial, BID,UNESCO, OIT e os organismos regionais
integração, flexibilidade, competitividade, qualidade total, e nacionais a eles vinculados. Por esta trilha podemos perceber
participação, pedagogia da qualidade e defesa da educação que tanto a integração econômica quanto a valorização da
geral, formação polivalente e "valorização do trabalhador" - educação básica geral para formar trabalhadores com capaci-
são uma imposição das novas formas de sociabilidade capita- dade de abstração, polivalentes, flexíveis e criativos ficam su-
lista tanto para estabelecer um novo padrão de acumulação, bordinadas à lógica do mercado, do capital e, portanto, da di-
quanto para definir as formas concretas de integração dentro ferenciação, segmentação e exclusão. Neste sentido, os dilemas
da nova reorganização da economia mundial. da burguesia em face da educação e qualificação permanecem,
mesmo que efetivamente mude o seu conteúdo histórico e que
A súbita redescoberta e valorização da dimensão humana
as contradições assumam formas mais cruciais.
do trabalhador está muito mais afeta a sinais de limites, pro-
blemas e contradições do capital na busca de redefinir um novo Em relação ao primeiro aspecto, já mostramos no Capítu-
padrão de acumulação com a crise de organização e regulação lo II a natureza da crise do modelo fordista de regulação eco-
fordista, do que a autonegação da forma capitalista de relação nômico-social e as implicações na reestruturação capitalista.
humana. Ou seja, as inovações tecnológicas, como analisamos Retomamos aqui, pela relação mais direta com o debate que
no Capítulo Ill, longe de serem "variáveis independentes", um estabelecemos neste trabalho, algumas dimensões relativas à
poder fetichizado autônomo, estão associadas às relações de reestruturação pós-jordistaB no que ela impacta sobre a organi-
poder político-econômico e, portanto, respondem a demandas zação produtiva, a organização, conteúdo e divisão de trabalho
destas relações." Em seguida, cabe mostrar que o ajuste neoli- e os processos de formação humana.
beral se manifesta no campo educativo e da qualificação por Esta reestruturação assume especificidades diferenciadas
um revisitar e "rejuvenescer" a teoria do capital humano, com entre os países que puderam, por um considerável período
um rosto, agora, mais social? histórico no interior das políticas do Estado de Bem-Estar, "es-
gotar" os ganhos do modelo fordista - elevadas taxas de
acumulação, ganhos de produtividade no emprego e consumo
6. Parodiando Magdof (1978) que, ao discutir a "era do imperialismo", mos-
de massa - dos países, como o Brasil, em que predominou
trava que a intervenção do Estado na economia não era uma escolha, mas uma
imposição para a crise do capitalismo dos anos 1930, a mudança dos capitalistas
aquilo que a literatura denomina de jordismo-perijérico. Nestes
em face do trabalho, à educação básica e à qualificação, na crise dos anos 1970/1990, países não se constituiu efetivamente um mercado com insti-
também não é uma escolha, mas uma imposição. Cabe, para aqueles que buscam tuições e atores sociais sólidos; o que predominou foram rela-
romper a forma capitalista de relações sociais, não desconhecer os limites e as
contradições que os "homens de negócio" enfrentam, para, partindo deles, poten-
cializar os interesses dos trabalhadores e de novas relações sociais. 8. A expressão "pós-fordismo" que sinaliza a tendência da mudança da base
7. Coraggio, numa discussão sobre a Economia y educaciôn. en America Latina, técnica do processo produtivo, dos métodos de gestão da produção, da força de
destaca que" discutir el sentido dei rejuvenecimento de Ia categoria capital humano, trabalho etc., que, na realidade, quer significar um novo paradigma, não pode ser
originariamente propuesta por el economista Theodoro Schultz en los 60, es una tomada como algo homogêneo nem mesmo nos países de capitalismo avançado.
tarea teórica que habrá que emprender si se quiere tener una mayor comprensión Em realidades como a brasileira convivem formas tayloristas, fordistas e "pós-for-
dei processo de recomposición de Ia economia mundial" (Coraggio, 1993,p. 6). distas" de organização do processo produtivo e de gestão da força de trabalho.
156 GAUDÊNClO FRIGOnO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 157

ções tayloristas e, em casos como o brasileiro, associadas ao é incorporada no processo produtivo e quais suas implicações
clientelismo e populismo.? face aos conflitos e luta de classes?
Os novos conceitos relacionados ao processo produtivo, A resposta a estas questões, no seu conjunto ou em alguns
organização do trabalho e qualificação do trabalhador aparecem de seus aspectos, é marcada pela controvérsia e esta tem sua
justamente no processo de reestruturação econômica, num origem, como apontamos acima, no confronto das perspectivas
contexto de crise e acirrada competitividade intercapitalista e apologéticas, conspiratórias e histórico-críticas e mesmo no
de obstáculos sociais e políticos às tradicionais formas de orga- interior de cada uma destas perspectivas.
nização da produção. A integração, a qualidade e a flexibilida- Tomando como referência alguns trabalhos dentro da úl-
de constituem-se nos elementos-chave para dar os saltos de tima perspectiva," podemos depreender, em primeiro lugar,
produtividade e competitividade. que a nova base científico-técnica, ainda que de forma não
A viabilidade para este salto, demarcada por relações de homogênea e no seu aspecto mais geral, permite uma mudan-
poder no plano político-econômico e, portanto, por restrições ça radical, um salto qualitativo em relação à lógica da mecani-
de várias ordens, está inscrita no efetivo acesso à nova base zação e automação derivadas da eletromecânica.
científico-técnica formada pela tríade apresentada por Schaff A máquina a vapor e, mais tarde, a descoberta do petróleo
(1990) e outros autores: microeletrônica, microbiologia e sua e da eletricidade, permitiram potenciar e substituir, em grande
resultante - a engenharia genética e novas fontes de energia. medida, a força física do animal e do trabalhador. A base me-
Neste cenário os grandes grupos econômicos e os organismos cânica e eletromecânica caracteriza-se por um conjunto de
que os representam, "os novos senhores do mundo", ou "o máquinas fixas, com rigidez de programação de sequência e
poder de fato" (FMI, BIRD), empenham-se pelo controle priva- movimentos para produtos padronizados e em grande escala.
do desta nova base científico-técnica. Sob esta base, característica do taylorismo e fordismo, os custos
de mudança são elevadíssimos e, por isso, ficam evidentes os
O quê, de específico, efetivamente, traz a nova base cien-
limites para uma automação flexível.
tífico-técnica que faculta mudanças profundas na produção,
As mudanças da tecnologia com base microeletrônica,
organização e divisão do trabalho e faz os homens de negócio
mediante a informatização e robotização, permitem ampliar a
demandarem mudanças nos processos educativos e de qualifi-
capacidade intelectual associada à produção e mesmo substituir,
cação? Como, concretamente, esta nova base científico-técnica
por autômatos, grande parte das tarefas do trabalhador. Como
nos mostra Castro, "as novas tecnologias (microeletrônicas,
9. Francisco de Oliveira assinala os pré-requisitos para que o mercado se informáticas, químicas e genéticas) se diferenciam das anterio-
constitua efetivamente em uma categoria histórica concreta. "O mercado real e
concreto é um conjunto de instituições saturadas historicamente da força dos
agentes sociais. Ele não é nada mais do que isto. Se isso pode ser traduzido em 10.Para uma discussão detalhada, numa perspectiva crítica da questão acima,
fórmulas e indicadores, depende da densidade histórica dos agentes sociais espe- ver: Coriat (1994, 1988, 1989), Hirata (1993, 1991), Freyssenet (1993, 1992), Boyer
cíficos. Falar de mercado e de força de trabalho no Brasil, com 60 por cento da / (1986),Enguita (1989, 1990, 1991),Atkinson (1987),Janossy (1979),Schmitz e Car-
população no mercado informal, é uma piada. Isto não tem densidade histórica, valho (1988),Salerno (1991,1992), R. P. Castro (1994),Machado (1992)e Machado
não corresponde à categoria teórica que é manipulada nos planos" (1990). e Silmar (1994).
158 GAUDtNCIO FRIGOnO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 159

res pelo predomínio da informação sobre a energia" (Castro, matérias, trabalho vivo, aumentar a produtividade, a qualida-
1994, p. 6). A informação é a "terceira dimensão da matéria, de dos produtos e, consequentemente, o nível de competitivi-
sendo as outras duas energia e massa" (Rubin, 1993, apud dade e de taxa de lucro. Entre estes métodos, a literatura des-
Castro, 1994, p. 40). Os proces-sos microeletrônicos, mediante o taca: just in time e kan ban, que objetivam, mediante a integração
acoplamento de máquinas a computadores e informatização, e flexibilização, a redução do tempo e dos custos de produção
permitem uma alteração radical no uso, controle e transforma- e circulação, programando a produção de acordo com a deman-
ção da informação. Facultam, de outra parte, a flexibilização da; métodos ou sistemas vinculados ao processo de produção
das sequências, de integração, otimização do tempo e do con-
como CAD e CAN e a vinculação de ambos ensejando a inte-
sumo de energia e uma profunda mudança da relação do tra-
gração do projeto com a manufatura; ou, como mostra Salerno
balhador com a máquina."
(1994), outras estratégias menos enfatizadas mas importantes
É, pois, no exame da incorporação deste novo padrão de estruturação e organização das empresas ou entre empresas
tecnológico (reconversão tecnológica) no processo de organi- que concorrem para os objetivos acima. Salerno destaca a joca-
zação da produção e circulação, com novos materiais e proces-
lização, que "consiste em concentrar esforços naquilo que é a
sos, e nova organização, divisão e gestão do trabalho, que po-
vantagem competitiva da empresa"; a descentralização produtiva,
demos identificar o surgimento de um número crescente de
que consiste em deixar de produzir certos componentes e
conceitos-ponte ou jargões - globalização, qualidade total, flexi-
comprá-los de terceiros; definição de projetos específicos, redu-
bilidade, integração, trabalho enriquecido, ciclos de controle de
ção dos níveis hierárquicos etc.
qualidade - que tendem a se tornar senso comum entre os
homens de negócio, e seus assessores, e que ocupam longos de- Na medida em que, como vimos nos Capítulos II e III, o
bates em seminários, simpósios, nos mais diversos âmbitos, fantástico progresso técnico vem demarcado pela lógica priva-
inclusive e, de modo crescente, nas universidades." da da exclusão, este conjunto de métodos e técnicas de organi-
A tradução destes conceitos em termos concretos dá-se zação e gestão do processo produtivo não só se inscreve nesta
mediante métodos que buscam otimizar tempo, espaço, energia, lógica como é um mecanismo de ampliação da mesma. Os
custos humanos são cada vez mais amplos, evidenciados pelo
desemprego estrutural que aumenta, atingindo sobretudo os
11. "A mutação qualitativa consiste no seguinte: todo o progresso produtivo
jovens e os velhos, o emprego precário e a produção, mesmo
realizado até o presente assentava-se na transformação da matéria mediante em-
prego de fontes de energia mais e mais potentes, agora a transformação da matéria no Primeiro Mundo, de cidadãos de segunda classe.
pode ser feita de forma mais rápida, barata e perfeita, graças à utilização de infor- Os sinais do caráter de exclusão da reestruturação capita-
mação codificada, memorizada, por meio de linguagens e sinais que automatizam
saber e saber-fazer humano, com baixos custos de energia e de trabalho vivo"
lista são tão fortes que nos induzem a procurar, para além da
(Castro, 1994, p. 40-1). ênfase apologética da valorização do trabalhador e da sua for-
12. É importante enfatizar que, muitas vezes, estes conceitos, em realidades mação geral e polivalente, qual é seu efetivo sentido políti-
culturais, econômicas e educacionais tão díspares como no caso brasileiro, quer co-prático. Tomados os termos em que a questão é posta pelos
pela existência de um empresariado que teima em não abrir mão de suas origens / organismos internacionais e pelos organismos de classe ou
e métodos oligárquícos. quer por razões de natureza das próprias relações interca-
pitalistas, não refletem, de fato, uma realidade concreta. Neste tipo de realidade o instituições que representam os homens de negócio lembram-nos
risco das visões apologéticas se amplia enormemente. da imagem formulada por Brecht ao dizer que, olhada de lon-
EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 161
160 GAUD~NClO FRIGOnO

ge, a sociedade capitalista parece uma tábua horizontal onde lhes conuémt? A "novidade" reside exatamente no fato de a
todos são situados em condições de igualdade, mas que, olha- crítica incidir no puro e simples adestramento e na proposta da
da de perto, manifesta ser uma gangorra. educação básica geral.
O apelo à valorização, face à reestruturação econômica, A identificação dos atores orgânicos desta investida em
do "fator trabalho", da educação geral e formação polivalente defesa da escola básica e de suas propostas nos permite perce-
foi enfatizado por organismos como OIT, já em meados da ber que a mesma se move dentro de inúmeras contradições e é
década de 1970. Ana Maria Rezende Pinto (1992), em um tra- marcada pela histórica dificuldade e dilemas da burguesia face
balho com título sugestivo, Pessoas inteligentes trabalhando com à educação dos trabalhadores.
máquinas ou máquinas inteligentes substituindo o trabalho humano, O movimento é, ao mesmo tempo de crítica ao Estado, à
examina como vários países desenvolvidos buscaram ajustar ineficiência da escola pública, de cobrança do Estado na manu-
os sistemas educativos e a utilização de outras estratégias tenção da escola e defesa da privatização ou de mecanismos
empresariais, para fazer face às necessidades de um sistema privatizantes. Com algumas pequenas variantes, as preocupa-
produtivo que incorpora crescente mente a nova base tecnoló- ções básicas relativas ao ajustamento da educação aos interesses
gica. Deste exame amplo, incluindo indicações do caso brasi- empresariais são expostas em documentos da FIESP, CNI, IEL,
leiro, no qual constata uma ênfase na demanda de educação SENAI, Instituto Herbert Levy da Gazeta Mercantil, Instituto
geral, conclui: "As mudanças em curso nos sistemas de ensino Liberal, IEDI (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento
examinados parecem sugerir que a produtividade da escola Industrial) ou em documentos de órgãos do governo ou vin-
improdutiva já não é de todo funcional à ordem capitalista" culados a alguma universidade.
(Rezende Pinto, 1992, p. 21).
A FIESP,organismo que expressa as ideias mais conserva-
Na mesma direção, referindo-se às propostas dos empre- doras do empresariado, lamenta-se sobre os riscos de investir
sários, L. W. Neves destaca: na nova base tecnológica face ao fato da falta de mão de obra
especializada e retoma a tese do capital humano:
o empresariado parece estar se dando conta de que o baixo nível
de escolaridade de amplas camadas da população começa a se A carência de pesquisa básica e aplicada, a escassez de mão de
constituir em obstáculo efetivo à reprodução ampliada do capi- obra especializadae a rápida obsolescênciadas inovaçõestomam
tal, em um horizonte que sinaliza para o emprego, em ritmo cada os investimentos em setores de alta tecnologiaos mais arriscados
vez mais acelerado, no Brasil, de novas tecnologias de base mi-
croeletrônica e da informática assim como de métodos mais
racionalizadores de organização da produção e do trabalho, na 13. Especialmente a partir dos anos 1930, podemos perceber que a questão da
atual década. (Neves, 1994,p. 10) educação e, sobretudo, do treinamento e qualificação para moldar e "fabricar" os
trabalhadores é algo que preocupa as lideranças políticas e empresariais. Em rela-
ção às démarches para a criação do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial,
Se a investida dos homens de negócio, em defesa da escola
ver Frigotto (1977). Se nos anos 1930, os empresários tiveram que ser induzidos
básica, dá-se sobretudo a partir do final dos anos 1980, é preci- por Getúlio Vargas para cuidarem da formação profissional, hoje vemos que seus
so ter presente, todavia, que isto não significa que antes disto organismos de classe tomam a iniciativa para fazer valer seus interesses de classe
os mesmos não estivessem atentos em relação à educação que face ao Estado.
162 GAUDÊNClO FRIGOTTO 163
EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL

em um país de industrialização recente como o Brasil. Uma fundamental e competitividade empresarial: uma proposta para o
ênfase maior em tecnologia de ponta deverá ocorrer quando o
gcoerno" Nesta proposta situam a escola básica como um dever
país estiver apto a investir maior parcela de recursos na forma-
fundamental do Estado e apresentam diferentes formas me-
ção de capital humano e P&D. (FIESP,1990)
diante as quais as empresas podem colaborar com o poder
A CNI dispõe de um Instituto - IEL - especificamente público na educação básica e no tipo de educação demandada
encarregado de analisar as tendências e as necessidades do para as empresas.
setor industrial no plano da educação e formação técnico-pro- A investida para se implantarem os critérios empresariais
fissional. Trata-se de um instituto criado em 1969 com o objeti- de eficiência, de "qualidade total", de competitividade em
vo precípuo de funcionar como uma espécie de embaixador áreas incompatíveis com os mesmos, como educação e saúde,
para sensibilizar e envolver as universidades públicas e priva- desenvolve-se hoje dentro do setor "público". O que é, sem
das na defesa das necessidades da indústria nacional. Só no ano dúvida, profundamente problemático é a pressão da perspecti-
de 1992, o IEL elaborou o projeto Pedagogia da Qualidade, com o va neoconservadora para que a escola pública e a universidade
apoio do CNI, SENAI e SESI, coordenou o Encontro Nacional em particular e a área da saúde se estruturem e sejam avaliadas
Indústria-Universidade sobre a Pedagogia da Qualidade (23 e dentro dos parâmetros da "produtividade e eficiência empre-
24 de março de 1992), realizou mais dezesseis encontros esta- sarial". Mais preocupante ainda, quando os próprios dirigentes
duais sobre educação para a qualidade e quinze cursos sobre das universidades públicas aderem às ideias da qualidade 11

qualidade total (relatório do IEL de 1992).


total", sem qualificar esta qualidade."
O IEDI, que reflete mais claramente o ideário dos empre-
sários de mentalidade mais aberta e que se articulam com
14. João Batista Araujo de Oliveira esteve vinculado durante muitos anos à
pesquisadores ligados a institutos de pesquisa ou a universi-
FINEP e, à época da realização do documento, servia a OIT em Genebra. Cláudio
dades, também em 1992, produziu o documento Mudar para de Moura Castro, foi pesquisador do IPEA, coordenador do Programa ECIEL
competir: a nova relação entre competitividade e educação, estratégias (Programa de Estudos Conjuntos de Integração para a América Latina) nos anos
empresariais. Neste documento, após uma análise do esgotamen- 1970 e, à época da elaboração do documento, era diretor dos Programas de For-
mação Técnica da OIT.Os colaboradores, todos eles ou estão ou tiveram passagem
to do modelo fordista de organização da produção e do traba-
em órgãos governamentais - Antônio C. R. Xavier, Cláudio Gomes Colin A.
lho e de caracterizar a especificidade da nova base técnica Macedo, Emílio Marques, Guiomar Namo de Mello, Maria Tereza Infante e Sérgio
vinculada, sobretudo, à microeletrônica e à informática, apon- Costa Ribeiro.
tam a questão educacional, particularmente uma sólida educa- 15. No plano mais geral são exemplos indicativos desta estratégia os debates
ção básica geral, como um elemento crucial à nova estratégia recentemente promovidos pelo CODEPLAN-DF, sobre "Gestão da qualidade:
tecnologia e participação" (CODEPLAN, 1992) e pelo Instituto Nacional de Altos
industrial (IEDI, 1992).
Estudos (INAE) e FINEP (1993).No plano mais específico da educação, evidencia
Com uma mesma perspectiva, mas buscando influenciar esta tendência a relação cada vez mais estreita entre o IEL (Instituto Euvaldo Lodi)
diretamente as políticas educacionais do governo, o Instituto da CNI e o CRUB(Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras). Só em 1992,
o IEL promoveu mais de uma dezena de seminários com diversas universidades.
Herbert Levy da Gazeta Mercantil e a Fundação Bradesco en-
Há universidades que já tem seu "Programa de qualidade total e cornpetitividade".
comendaram a João Batista Araujo de Oliveira e Cláudio de Para uma crítica a este tipo de adesão acrítica ver Chaui (1993), Cano (1992) e
Moura Castro a coordenação de um documento sobre Educação Anderson (1995).
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GAUD~NClO FRIGOTTO EDUCAÇÃO For Evaluation
E A CRISE Only.
DO CAPITALISMO REAL 16S

Ao depurarmos o discurso ideológico que envolve as teses interessar pela apropriação de qualidades sociopsicológicas do
da "valorização humana do trabalhador", a defesa ardorosa da trabalhador coletivo por meio dos chamados sistemas sociotéc-
educação básica que possibilita a formação do cidadão e de um nicos de trabalho em equipes, dos círculos de qualidade etc.
trabalhador polivalente, participativo, flexível e, portanto, com Trata-se de novas formas de gestão da força de trabalho que
~levada capacidade de abstração e decisão, percebemos que visam a garantir a integração do trabalhador aos objetivos da
lst~ decorre ~ais da própria vulnerabilidade que do novo pa- empresa. (R. P. Castro, 1994, p. 43)
drao produtIv.o, altamente integrado. Ao contrário do que
cert~s perspectivas apresentavam na década de 1970,que prog- Os aspectos aqui assinalados revelam que estamos diante
nosticavam a "fábrica automática", autossuficiente, as novas de um processo em que o capital não prescinde do saber do
trabalhador e do saber em trabalho" e é forçado a demandar
tecnologias, ao mesmo tempo que diminuem a necessidade
trabalhadores com um nível de capacitação teórica mais eleva-
quantitativa do trabalho vivo, aumentam a necessidade quali-
tativa do mesmo. do, o que implica mais tempo de escolaridade e de melhor
qualidade. Revelam, de outra parte, que o capital, mediante
Dois aspectos nos ajudam a entender por que o capital depende diferentes mecanismos, busca manter tanto a subordinação do
de trabalhadores com capacidade de abstração e de trabalho em trabalhador quanto a "qualidade" de sua formação. Mas é
equipe. Como nos mostra Salerno, o novo padrão tecnológico também neste processo que se evidenciam os próprios limites
c:lcado em sistemas informáticos projeta o processo de produ- e ambiguidades do ajuste neoconservador e, igualmente, o
çao com modelos de representação do real e não com o real. Estes terreno sobre o qual as forças que lutam por uma democracia
modelos, quando operam, entre outros intervenientes, em face substantiva ou por uma sociedade socialista democrática devem
de uma matéria-prima que não é homogênea, podem apresen- trabalhar. Nesta luta o conhecimento, informação técnica e
t~r problemas que comprometem todo o processo. A intervenção política constituem-se em materialidade alvo de disputa.
direta de um trabalhador com capacidade de análise torna-se
A estratégia mais geral de subordinação dá-se mediante,
crucial para a gestão da variabilidade e dos imprevistos produtivos
(Salerno, 1992, p. 7). como vimos, o mecanismo de exclusão social, materializado no
desemprego estrutural crescente e no emprego precário, tam-
Por serem sistemas altamente integrados, os imprevistos, bém crescente, na contratação de serviços e enfraquecimento
os problemas, não atingem apenas um setor do processo pro- do poder sindical.
dutivo, mas o conjunto, e o trabalhador parcelar do taylorismo O estudo feito por um grupo de pesquisadores america-
constitui-se em entrave. Não basta, pois, que o trabalhador do nos, com a participação de pesquisadores de dezenove outros
"novo tipo" seja capaz de identificar e de resolver os problemas Oaíses, para examinar o sistema de produção da Toyota (toyo-
e os imprevistos, mas de resolvê-los em equipe: tismo), considerado pela literatura como sendo o sistema que

Para enfrentar a "vulnerabilidade" tecnológica, o capital redes-


cobriu a humanidade do trabalhador assalariado que foi igno- 16. Para uma análise da natureza das questões que uma série de pesquisas
buscam evidenciar ao examinar como se explicitam contradições, porosidades e
rada pelo taylorismo. Forçado pela vulnerabilidade e complexi-
lacunas no processo produtivo que depende de um saber que se elabora no espaço
dade de sua base tecno-organizacional o capital passou a se do trabalho, ver Heloisa H. Santos (1992)e N. L. Franzoi (1991).
166 EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 167
GAUDÊNClO FRIGOTTO

origina os processos de "qualidade total", flexibilização, tra- Essa distinção apreende aquilo para o qual a literatura
balho participativo, do qual resultou o livro The machine that crítica tem chamado a atenção em relação a diferentes formas
changed the uiorld (1990), ao mesmo tempo que expõe uma de "polivalência", já que há tipos de atividades polivalentes
perspectiva apologética deste sistema, sintetiza sua lógica que não demandam nenhuma maior qualificação e se trata
e~c~udente: "Trabalhadores em excesso têm que ser expulsos apenas de intensificação do trabalho.'? Evidencia, por outro
rápida e completamente da fábrica para garantir que as inova- lado, a tensão real sobre a qual se dá a formação e qualificação
ções deem certo". humana para estar a serviço da produtividade da empresa quando
No campo da educação e formação, o processo de subordi- esta se vê impelida, para manter-se competitiva, a entrar num
nação busca efetivar-se mediante a delimitação dos conteúdos e processo de reconversão tecnológica."
da gestão do processo educativo. No plano dos conteúdos, a Roberto Boclin, um dos mais destacados dirigentes do
e.du~aç~o geral, abstrata, vem demarcada pela exigência da po- SENAI, que há mais de três décadas trabalha em sintonia fina
lioalência ou de conhecimentos que permitam a "polícognição". na adequação da força de trabalho aos interesses dos empresá-
rios industriais e cuja projeção no plano dos que fazem da
O conceito de polícognição tecnoIógica, que busca explicitar
educação um negócio o alçou a presidente do Conselho Estadual
as demandas emergentes do sistema produtivo capitalista den-
de Educação do Estado do Rio de Janeiro, durante o governo
tro do novo padrão tecnológico, se caracteriza por um conjun-
Moreira Franco, após uma ampla avaliação da crise do modelo
to de conhecimentos que envolvem:
fordista, define o tipo de formação necessária atualmente. Ao
a) domínio dos fundamentos científico-intelectuais subjacentes fazê-lo, explícita. ao nosso ver, como o conceito de polivalência
às diferentes técnicas que caracterizam o processo produtivo e policognição, na perspectiva dos homens de negócio ou de seus
moderno, associado ao desempenho de um especialista em um prepostos, expressam mistificação apologética, necessidades
ramo profissional específico; b) compreensão de um fenômeno efetivas do capital, ambiguidades e contraposição clara com as
em ~roc~sso no que se refere tanto à lógica funcional das máqui- perspectivas que situam o homem e suas necessidades como o
nas mtehgentes como à organização produtiva como um todo; eixo da produção e da formação:
c) responsabilidade, lealdade, criatividade, sensualismo; d)
disposição do trabalhador para colocar seu potencial cognitivo
17. Salerno mostra que é preciso distinguir-se entre "trabalhador multifun-
e comportamental a serviço da produtividade da empresa. (Re-
cional e multiqualificado": "enquanto o primeiro se caracteriza por operar mais de
zende Pinto, 1992,p. 3)
uma máquina com características semelhantes - o que pouco lhe acrescenta em
termos de desenvolvimento e qualificação profissional-, o segundo desenvolve
A autora destaca que o conceito de polivalência é de cunho e incorpora diferentes habilidades e repertórios profissionais" (Salerno, 1992, p.
mais operacional e mostra as exigências demandadas do "novo" 18). Lucilia Machado, numa mesma perspectiva e contrastando à concepção de
trabalhador: polivalência o conceito de politecnia, aponta que a polivalência "não significa
obrigatoriamente intelectualização do trabalho, mesmo tratando-se de equipamen-
tos complexos" (Machado, 1991,p. 53).
boa formação geral, atento, leal, responsável, com capacidade ; 18. A pesquisa sobre Processo de trabalho, sindicato e conhecimento operário no
de perceber um fenômeno em processo, não dominando, porém, contexto da reconversão produtiva - o caso AAU do Uruguai (Garayalde, 1992),é pa-
os fundamentos científico-intelectuais subjacentes às diferentes radigmático para entender-se os dilemas e dificuldades do capital e a importância
técnicas produtivas modernas. (Ibidem, p. 4) do movimento sindical para compreender estes limites.
168
GAUDÊNCIO FRIGOnO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 169

Longe de se pensar na desqualificação da força de trabalho pelo e Bases da Educação Nacional evidenciam, de forma exemplar,
advento da informatização, o que se considera é a formação
este atraso da fração mais numerosa da burguesia e os dilemas
integral do técnico, que de uma certa forma vem a ser a poliva-
dos setores mais avançados desta mesma burguesia. O peso
lência, distinta dos princípios marxistas e ajustada à realidade
dos parlamentares de tradição oligárquica barrou avanços mais
do desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Vem a ser uma
visão teórico-prática que ofereça um aprofundamento do conhe- significativos.
cimento, que possibilite a assimilação dos processos de trabalho Florestan Pernandes, um dos parlamentares que mais se
e que ofereça múltiplas condições de acesso a emprego. A poli- empenhou na defesa das propostas dos educadores progressis-
valência na escola deve aproximar-se da polivalência do trabalho. tas, representados num fórum permanente de 34 instituições
(Boclín, 1992, p. 21) científicas e sindicais da área, reiteradamente tem mostrado
como as forças conservadoras se opunham à promulgação de
Esta delimitação, como reiteramos ao longo deste trabalho, diretrizes e bases que configurassem um amplo reforço à esco-
não se faz sem contradições e conflitos. As inúmeras receitas la pública, laica e unitária. Referindo-se ao processo constituin-
dos "consultores de Recursos Humanos", que anunciam "o que
te Pernandes conclui:
se espera do profissional do ano dois mil", convergem para as
seguintes características: flexibilidade, versatilidade, liderança, A educação nunca foi algo de fundamental no Brasil, e muitos
princípios de moral, orientação global, hora de decisão, comu- esperavam que isso mudasse com a convocação da Assembleia
nicação, habilidade de discernir, equilíbrio físico-emocional (O Nacional Constituinte. Mas a constituição promulgada em 1988,
Globo, p. 42, 11/7/1993). O gerente geral de Recursos Humanos confirmando que a educação é tida como assunto menor, não
da Atlantic vai mais longe na caracterização do profissional do alterou a situação. (Fernandes, 1992)
futuro: "Ter uma boa base de conhecimentos é fundamental. A
cultura traz sensibilidade para gerir. É preciso conhecer expres- Mais tarde, ao examinar o processo de elaboração e defi-
sões da cultura, história, artes, grandes filmes" (Pernando nição da LDB, Pernandes, uma vez mais, mostra como estas
Guimarães, O Globo, p. 44,11/7/1993). forças contradizem na prática o discurso da modernidade.

Esta demanda real de mais conhecimento, mais qualifica- Eu penso que nós havíamos chegado a um projeto de Lei de
ção geral, mais cultura geral se confronta com os limites ime- Diretrizes e Bases da Educação Nacional que poderia ter vigên-
diatos da produção, da estreiteza do mercado e da lógica do cia durante 10 ou 15 anos, até que surgissem discussões para
lucro. No caso brasileiro, o atraso de um século, pelo menos, realizar-se um projeto de lei mais adequado às exigências da
na universalização da escola básica é um dos indicadores do situação histórica brasileira. No entanto, os interesses que se
perfil anacrônico e opaco das nossas elites e um elemento cul- chocaram dentro do Parlamento são tão destrutivos que o pro-
tural que potencia o descompasso do discurso da "modernida- jeto que já havia passado por todas as comissões, e por elas
de" e defesa da educação básica de qualidade, da ação efetiva aprovado, acabou, por manobras principalmente de partidos
destas elites. ultraconservadores - como PDS, PFL e outros - voltando à
deliberação das comissões. E aí surgiram negociações que tor-
O processo constituinte e o longo período de mais de cin- naram o projeto, já com muitas limitações, muito mais precário.
co anos (1989-1995), de debate na definição da Lei de Diretrizes Eu comparo o que aconteceu a um conjunto de decapitações,
EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 171
170 GAUDÉNClO FRIGOTTO

pelas quais a melhor parte de alguns dispositivos ou foi trans-


Esta decepção em relação à proposta de Darcy Ribeiro,
formada ou foi eliminada. (Fernandes, 1992, p. 28) todavia, não era a última. O mesmo projeto que servira de
alívio ao governo Collor está agora servindo ao projeto auto-
As mutilações e subterfúgios que foram se introduzindo crático no campo educativo para o governo Fernando Henrique
no projeto de LDB colocam o campo educacional como um dos Cardoso. Lembrando os velhos métodos da época da ditadura,
espaços onde claramente - como analisam alguns cientistas agora com mais gravidade, os grupos de trabalho formados
sociais - o Estado, enquanto sociedade política (Executivo, dentro do MEC substituem as inúmeras instituições da socie-
Parlamento e Judiciário), não reflete o avanço político-organi- dade civil que durante mais de seis anos debateram e negocia-
zativo da sociedade civil. Um único representante das forças ram uma proposta democrática de LDB. Chegamos, em maio
ultraconservadoras, deputado A. Tinoco, ligado ao grupo de de 1995, com uma proposta de LDB sem a participação da maior
Antônio Carlos Magalhães, apresentou mais de mil e duzentos parte das instituições sociedade já que última síntese é compos-
destaques. O enfraquecimento da escola pública e o reforço às ta pelas propostas do atual Ministério da Educação e do proje-
teses privatistas e mercantilista, em boa medida, se constituem to do senador Darcy Ribeiro. Em ambos os casos foram ouvidas
numa falsa vitória e, portanto, um limite aos próprios interesses pessoas e alijadas as organizações e instituições que compu-
de frações da moderna burguesia. nham o fórum por uma LDB democrática. Mais uma LDB que,
Pelo confronto entre o texto original do deputado Otávio por não expressar os anseios e direitos da sociedade terá, na
Elísio (Projeto de Lei n. 1.258, de 1988), que transformou em prática, vida curta.
forma de projeto de lei as teses básicas de longos anos de de-
Já pela proposta fragmentária e dualista da escola funda-
bate dos educadores em seminários nacionais e regionais, nas
mental podemos ver que os representantes dos homens de negó-
CBEs (Conferências Brasileiras de Educação), reuniões anuais
cio no Congresso, monitorados pelos organismos classistas,
da ANPEd, cuja síntese se explícita na Carta de Goiânia (reunião
esvaziaram os clamores de uma educação fundamental e média
da ANPEd, 1986), e num texto de Saviani (1988), com o projeto
nos moldes do Japão e tigres asiáticos (referências obrigatórias
aprovado na Câmara dos Deputados em maio de 1993, pode-se
nos discursos dos empresários para sinalizar a educação que
perceber que as mutilações a que se refere Florestan Fernandes
deram-se tanto no plano das concepções quanto das bases, con-
dição material e efetiva para que os princípios não redundem do por Darcy Ribeiro, elaborado por ele e um pequeno grupo de assessores, como
em querelas escolásticas. bem mostra F. Fernandes: "Eis que estávamos prestes a sofrer uma decepção
única. Nada menos que o senador Darcy Ribeiro iria tomar a peito de apresentar
No plano conceptual e organizativo, o projeto aprovado um projeto de Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional no Senado. Sua
pela Câmara desvertebra a proposta de escola unitária que com- impaciência não permitiu que a Câmara dos Deputados terminasse o seu trabalho,
preende o ensino Fundamental e Médio. Não só fixa uma "ter- ocasião em que o projeto tramitaria normalmente, no Senado e sofreria transfor-
minalidade" com cinco anos de escolaridade como mantém o mações. Por que essa precipitação? O senador, como representante do PDT, sen-
tiu-se à vontade para aliviar o governo Collor de uma tarefa ingrata. Recebendo
dualísmo entre ensino geral propedêutico e ensino técnico."
suas sugestões (e por essa via os anseias imperativos do ensino privado) e apro-
veitando como lhe pareceu melhor o projeto mencionado, mostrou aquilo que se
poderia chamar de versão sincrética 'oficial' daquela lei" (Fernandes, Folha de S.
19. É preciso registrar que nesta desvertebração as forças conservadoras
Paulo, p. 12,6/11/1992).
tiveram uma surpreendente ajuda mediante o projeto de LDB proposto no Sena-
172 GAUDtNClO FRIGOnO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 173

necessitam dos trabalhadores) ou apelos expostos em documen- o exame mais cuidadoso do tipo de ensino que se oferece
tos de empresários tais como: nestas escolas, mesmo que seja tido como o de melhor qualida-
de, revela-nos que é demarcado pela estreiteza do ajuste ao
Queiramos ou não, estamos em plena era tecnológica. (...) A mercado de trabalho. A concepção das ciências - Física, Quí-
evidência histórica referente às relações entre educação e produ- mica, Matemática, Biologia e Ciências Sociais - é, como mos-
tividade é incontornável. Predominam as altas tecnologias de
tram alguns trabalhos, de natureza escolástica. A seletividade,
produção e informação e nenhum país se arrisca entrar em com-
de outra parte, é total. Há casos em que há uma vaga para 59
petição por mercados internacionais sem haver estabelecido um
candidatos. As evidências estatísticas mostram que o argumen-
sistema educacional onde toda a população, e não só a força de
trabalho, tenha atingido no mínimo 8 a 10 séries de ensino de to de que é para formarem-se técnicos de nível médio necessá-
boa qualidade. (Penteado, 1992, p. 5) rios à incorporação ao mercado de trabalho é falso para o
grupo social que frequenta as escolas técnicas federais."
Na prática, todavia, o que os representantes dos empresá- No plano da formação profissional evidencia-se, ainda
rios aprovaram no Congresso foi a terminalidade aos cinco anos mais claramente, o descompasso entre o discurso e a prática.
de escolaridade. Naturaliza-se assim, o longo e perverso des- Durante o processo constituinte efetivou-se um grande esforço
caso com a educação pública para as classes populares demar- para que aquilo que é inusitado em toda a América Latina - a
cando como patamar possível apenas a alfabetização funcional. formação profissional estar delegada pelo Estado ao absoluto
Ora, isto entra em total contradição com a ideia de uma forma- controle dos empresários - tivesse uma gestão tripartite.
ção abstrata e polivalente capaz de facultar aos futuros traba- Reivindicava-se uma efetiva participação, do Estado e das
lhadores uma capacitação para operarem o sistema produtivo centrais dos trabalhadores. Nada mais daquilo que o ideário
sob a nova base tecnológica. liberal ensina. A mobilização do empresariado e seus prepostos
Mas, ao examinarmos a proposta de educação técnica e foi extraordinária e esta proposta não passou.
profissional veiculada pelos organismos ligados aos empresá- No processo da LDB buscou-se criar, não no Ministério do
rios, direta ou indiretamente, percebemos, mais claramente, o Trabalho - que em matéria de formação profissional quase
limite e estreiteza das elites na luta para ter o controle privado sempre foi um condomínio dos interesses privados - mas no
desta modalidade de ensino, mesmo quando este é mantido Ministério da Educação, um Conselho Nacional de Formação
pelo Estado. A luta destas elites, com o apoio da maior parte Técnico-Profissional com a formação tripartite já assinalada. Esta
das direções das escolas técnicas e setores atrasados do próprio proposta também foi duramente combatida e não aprovada.
magistério e funcionários, é de manter o sistema de ensino Uma outra exemplificação em nível mais específico que
técnico-industrial como um enclave no sistema de educação." mostra o atraso das elites em face até de suas necessidades é a

20. A gestão das escolas técnicas, salvo raras exceções, é profundamente au- 21. Para uma análise sobre a natureza e qualidade do ensino técnico-industrial
tocrática. Esta estrutura se consolidou sobretudo durante a ditadura, e mesmo com ver: Braga (1991), Lopes (1990) e R. J. de Oliveira (1990). Para uma análise da polí-
o processo de redemocratização os professores encontram grande resistência para tica de ensino técnico na última década, sua "melhoria" e expansão, ver Frigotto e
suas lutas até hoje. Ciavatta Franco (1993).
174 GAUD~NClO FRIGOTTO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 175

não aprovação da proposta de liberação dos trabalhadores jo- prática, a descentralização e flexibilização têm se constituído
vens e adultos que trabalham e estudam, por um período de em processos antidemocráticos de delegação a empresas (pú-
duas horas, mantendo-lhes o mesmo salário. Por aí percebemos blicas ou privadas), à "comunidade", aos Estados e aos muni-
qual o efetivo interesse dos empresários para com a educação cípios a manutenção da educação fundamental e média, sem
pública e, também, as dubiedades e conflitos que enfrentam em que se "desentulhe" os mecanismos de financiamento median-
face dos seus interesses. te uma efetiva e democrática reforma tributária. Também, ig-
As posturas político-práticas anteriormente exemplificadas nora-se a tradição clientelista que caracteriza a pequena políti-
encontram sua expressão mais geral na tese do Estado mínimo ca do interior, fortemente controlada por forças rstrógradas.P
e na descentralização (autoritária). Na realidade, como vimos Dentro de uma tradição que apresenta fórmulas mágicas e,
no Capítulo II, a ideia de Estado mínimo significa o Estado portanto, inorgânicas, para resolver a questão educacional
máximo a serviço dos interesses do capital. Postula-se que o (CIEPs, CIACs, programa de qualidade total, construtivismo etc.)
Estado reproduza a força de trabalho com um nível elevado de e que Nosella (1993) identifica como sendo resultado da mega-
formação (formar trabalhadores polivalentes, com capacidade lomania e ganância eleitoreira e, de acordo com Cunha (1991),
de abstração para tomar decisões complexas e rápidas), o que podem advir do eleitorismo, do experimentalismo pedagógico ou do
leva tempo e elevado investimento, mas sem contribuir para o voluntarismo ideológico, a fórmula mais recente junta a ideia dos
fundo público. Esta contradição decorre, por certo, da forma cupons de um dos papas do neoliberalismo, Milton Friedman
parcial como a burguesia apreende a realidade social. (1980)24com a da escola "cooperativa". Na prática cada escola
O desmonte do Estado no Brasil, na sua capacidade de acabaria se tornando um microssistema educacional.
financiar a educação e outros serviços, como a saúde, que são Por esta simbiose, os professores, agora" donos" da esco-
incompatíveis com a lógica do mercado e do lucro, não chegou la, seriam remunerados de acordo com a "produtividade". Esta
até o presente a níveis tão perversos como, por exemplo, na composição vem sendo experimentada, desde o início dos anos
Argentina e Chile, porque há forças sociais organizadas que se 1990, pela prefeitura de Maringá (PR) e tem sido apresentada
contrapõem." como meta salvacionista por governos de alguns Estados e pelo
Como corolário do Estado mínimo este desmonte faz-se próprio governo federal, particularmente por intermédio do
mediante diversos mecanismos. As apologias da esfera privada, MEC. A ênfase deste início do governo F. H. Cardoso é de pre-
da descentralização e da flexibilização, como mecanismos de miar as escolas bem-sucedidas. Uma vez mais a ideia de uma
democratização e de eficiência, são os mais frequentes. Na avaliação rigorosa efetivada por instituições de elevada capa-

22. Os processos de dilapidação do fundo público pelos interesses privados 23. Para uma compreensão dos entraves para a educação pública alojados nos
têm sido tão brutais no Brasil e tão naturalizados, que o Partido dos Trabalhadores microespaços de poder local, ver Leroy (1987).
(PT), a CUT e outras forças de esquerda, que tiveram papel decisivo no destrona- 24. M. Friedman entende que a escola é uma empresa como qualquer outra e
mento de Collor e que estão revelando o tecido podre e corrupto plotado nas vís- deve ser regulada pelo mercado. Sua tese postula que o governo deveria distribuir
ceras do Estado, são criticados pela imprensa - a serviço do conservadorismo "cupons" mediante os quais os pais buscariam no mercado educacional o tipo de
- como espiões criminosos, promotores da desordem. escola que melhor atenda às suas expectativas.
176
GAUDENClO FRIGOnO DUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 177

cidade técnica, em todos os níveis de ensino, revela, ao mesmo mediante convênio, cinquenta mil vagas da CNEC. Este apoio
tempo, urna concepção tecnocrática de avaliação e urna visão permite hoje que a CNEC compre espaço de televisão para
reducionista das diversas e complexas determinações que estão divulgar seu trabalho. Aquilo que foi criado corno um projeto
na base do fracasso escolar.
emergencial transforma-se numa política permanente e cada
aprefeito de Maringá (PR), o primeiro a concretizar esta vez mais ampliada.
"fórmula", foi alçado a urna espécie de embaixador do experi- Na lista infindável de mecanismos de descentralização e
mento no país e até em congressos internacionais. A Fundação flexibilização antidemocráticas nos deparamos com convênios
Getúlio Vargas (RJ)foi convidada a dar respaldo técnico à ideia mais espúrios corno o firmado entre a União, as empreiteiras
e, se possível, generalizá-Ia corno modelo num dos Estados da da construção civil e a Rede Globo de Televisão para urna am-
federação.25
plo projeto de alfabetização. Pelo que a sociedade está desco-
Urna variação desta ideia é o estímulo que o governo vem brindo, mediante as CPls do impeachment e do Congresso Na-
dando à classe média e mesmo às classes populares para que cional, as empreiteiras são especialistas na dilapidação do
organizem nas empresas públicas onde trabalham, tipo Banco fundo público, mas, pelo que sabemos, não têm credenciais no
do Brasil, Petrobras, ou nos bairros e conjuntos habítacíonaís, campo pedagógico-educacional. 26
escolas cooperativas. a
governo, por esta via, dissimula o des- No senso comum que se vem formando sobre os problemas
monte do sistema educacional mediante a ideia de cooperativa. da educação e da saúde, a deslisura tecnocrática tem insistido
A cooperativa de ensino transforma-se, assim, no Programa que estes problemas se devem a um mau gerenciamento e à
Nacional de Cooperativas Escolares com um sistema operacio- falta de acompanhamento e avaliação. Junto a este senso comum
nal desenhado, prevendo a divisão dos cooperados por renda, o ideário neoliberal ou neoconservador vulgariza a ideia de que
profissão, espaço e subsídios dos municípios, estados e gover- o Estado, a esfera pública, é um paquiderme pesado e ineficien-
no federal (ver Cedraz, 1992, p. 29-32). te, incapaz de gerenciar e avaliar adequadamente. Corno con-
Esta estratégia é reforçada mediante o apoio do governo sequência, estão surgindo fundações (empresas ou empreiteiras
federal ao sistema da Campanha Nacional de Escolas da Co- de serviços), muitas delas redefinindo seus objetivos originais,
munidade (CNEC). Em fevereiro de 1993 o governo comprou, que se especializam em gerenciamento e avaliação. Já mencio-
namos o caso da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro.
Paradigmático, para entender-se esse tipo de interrnediação, é
25. A FGV do Rio de Janeiro, em 1990, encarnando a era Collor, fechou unila-
teralmente nove institutos ligados às Ciências Sociais. Entre eles o IESAE (Institu-
também o caso da Fundação Cesgranrio.
to de Estudos Avançados em Educação), considerado pela área entre os melhores A Fundação Cesgranrio surgiu, no período ditatorial, para
centros de pós-graduação do país. Dia após dia, explicita-se como um escritório de realizar e gerenciar o vestibular unificado no Rio de Janeiro.
intermediação de recursos (grande parte deles públicos). A razão de fechar os nove
instit~tos foi. econô~ca. Após seu fechamento, todavia, instalou mais um posto
bancano na mstituíção, ocupando mais da metade do espaço da livraria. Neste
26. Uma análise das distorções pedagógicas e do viés ideológico desta estranha,
momento, sintomaticamente, entra no processo de acompanhamento e avaliação
mas por muitos festejada, parceria, é feita na dissertação de mestrado de Denise
de projetos de "qualidade total" financiados pelo Banco Mundial em âmbito de
Maria Antunes Cordeiro Terra: Por detrás dos tapumes: desvelando o trabalho e a alfabe-
sistemas estaduais de educação.
tização no canteiro de obras. Rio de Janeiro: Universidade Federal Flumínense, 1995.
178 EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 179
GAUDÊNCIO FRIGOTTO

Com o processo de redemocratização da sociedade, as univer- cesso pedagógico, assinalamos o que denominamos de síndro-
sidades públicas passaram a chamar a si a função que lhes me Chiarelli.
compete: definir, o mais democraticamente possível, o acesso O senador Chiarelli, corno pagamento do apoio de cam-
ao ensino superior. Partindo de urna importante ideia debati- panha, recebeu do governo Collor de Mello o Ministério da
da nos meios pedagógicos de se fazer urna avaliação continua- Educação. Em seus primeiros pronunciamentos declarou que
da, a Cesgranrio montou um projeto eivado de generalidades faria urna revolução na educação e tornaria corno inspiração o que
e "chavões", que denominou de Sapiens. Há três anos, tenta ocorrera em Cuba neste campo. Além dos CIACs, postulava
convencer as universidades públicas e o MEC a adotá-Io. Já urna total descentralização, não apenas administrativa, mas
conseguiu urna autorização do MEC para implantar o projeto, também curricular.
experimentalmente, no Estado do Rio de Janeiro. No momen- A expressão mágica - adaptar-se à realidade - foi tornada
to vem se oferecendo ao MEC e se articulando para vender-lhe ao pé da letra. O ministro confundia os sujeitos que conhecem
seus serviços de avaliação e, mais especificamente, o projeto - alunos e o seu saber social - que são (ou deveriam ser)
Sapiens." sempre o ponto de partida necessário do processo de construção
. Na mesma perspectiva de intermediar recursos, a Cesgran- do conhecimento, com o sujeito do conhecimento e sua neces-
no lançou, em 1994,o Projeto de Capacitação de Recursos Humanos sária busca de universalidade, tarefa inequívoca de um projeto
e Fortalecimento Institucional das Entidades Integrantes do Progra- pedagógico da escola.
ma de Atenção a Menores em Circunstâncias Difíceis. O que impor- Pela lógica linear do "adaptar-se à realidade", a escola
ta aqui não é o complicado título do projeto. Poderia ter outro tende a tornar-se urna espécie de bruaca onde tudo cabe e da
nome qualquer. O que importa são os recursos que vai inter- qual tudo se cobra: resolver o problema da pobreza, da fome,
mediar. A primeira parcela de US$ 8 milhões foi liberada pelo do trânsito, da violência etc. Neste período, propôs-se o au-
BID ao programa, através da prefeitura do Rio de Janeiro (ver mento substantivo de disciplinas na escola primária para
Jornal do Brasil, p. 13, 3/11/1993). Por que as universidades atender às diferenças regionais. Exemplar, para entenderem-se
públicas (UFRJ, UFF e UERJ), cuja presença de seus reitores foi os desdobramentos desta perspectiva, é o depoimento de um
anunciada para o lançamento do projeto e que na realidade vão subsecretário Estadual de Educação que se deparou com um
executar parte, pelo menos, da capacitação, não podem receber processo cuja solicitação era de se criar, na escola fundamental,
diretamente da prefeitura os recursos? as disciplinas de suinocultura e avicultura. A justificativa era de
Para caracterizar de forma inequívoca o rumo na contra- que se tratava de urna região onde se criava muito suíno e
mão que toma a política educacional, pela força do atraso de muitos frangos."
representantes das elites, contrariando, corno dissemos, até Todas estas medidas do Poder Executivo constituíam-se
mesmo seus interesses, agora no plano da organização do pro- em mutilações do projeto de LDB encalhado no Senado. E o que
temiam as organizações científicas e sindicais ligadas à educa-
)
27. Para uma análise crítica da proposta Sapiens e dos vínculos que a mesma
busca ter com o poder público, ver: "Sapíens - sabedoria ou novas armadilhas 28. Para uma análise das perspectivas da educação do governo Collor, ver
para o acesso ao ensino superior?" (Frigotto e Ciavatta Franco, 1992). Frigotto, G., Contexto & Educação, Ijuí, n. 24, 1991.
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GAUDtNClO FRIGOTTO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 181

ção, que desde o processo constituinte estruturaram-se num usar a educação e a escolapara dar aos trabalhadores instrumen-
fórum permanente, está ocorrendo. O projeto cai agora na "vala" tos para a luta pela transformação social.Com a queda do muro
comum da revisão constitucional. As forças conservadoras, sob de Berlim e o fracasso do modelo comunista soviético, essa ra-
o argumento de que a Constituição de 1988 foi fortemente dicalização deve desaparecer no Brasil.Mas ainda vai levar ano.
marcada pelas teses do centralismo e do estatismo de inspiração (Ibidem, p. 140)
socialista e agora o socialismo foi liquidado, querem" depurar"
o texto constitucional das referidas influências. Numa conjuntura diversa e adversa às forças comprome-
tidas com a democracia substantiva, as forças conservadoras se
Nada mais claro, nesta perspectiva, do que a "pregação"
articulam para, como mostra Singer Uomal do Brasil, p. 11,
feita por Emane Galvêas - ex-ministro do governo militar _
12/10/1993), implementar a ideia de Estado mínimo e as teses
ao examinar as perspectivas da educação na economia brasilei-
neoliberais.
ra na década de 1990. Tomando como seu mentor (intelectual
Os homens de negócio estão articulados e prontos para fazer
e ideológico) um dos mais competentes compiladores de ideias
valer seus interesses. A FIESP, no âmbito geral, mediante um
reacionárias - Arnaldo Niskier -, ela é paradigmática e, entre
outras coisas, sentencia: documento que expressa suas demandas, monitora os deputa-
dos e senadores conservadores. Os organismos ligados à CNI
Os defensores da educação transformadora atribuem à educação (IEL, SENAI, SENAC) encaminharam, igualmente, um docu-
um caráter essencialmente político. Não mais a educação indi- mento específico ao campo da formação técnico-profissional.
vidualizada, mas a educação coletiva, com politização dos Por esta proposta radicalizam-se o dualismo, a fragmentação e
conteúdos, o debate das questões sociais. Não a união das clas- o controle privado nesta área.
ses, mas a luta de classes para que se chegue à escola única. O que queremos realçar do exposto nesta seção é que a
Enquanto se discute essa fraseologia, na prática a educação se defesa da educação básica para uma formação abstrata e poli-
deteriora e suas perspectivas como instrumento essencial da
valente pelos homens de negócio - condição para uma estratégia
nossa esperada redenção econômica, tornam-se cada vez mais
de qualidade total, flexibilização e trabalho integrado em equi-
sombrias. (Galvêas, 1993, p. 138)
pe - é uma demanda efetiva imposta pela nova base tecnoló-
Galvêas, após um longo retrospecto que discute a educação gico-material do processo de produção. Esta perspectiva sina-
desde Rui Barbosa, influência do positivismo e do marxismo, liza o horizonte e os limites de classe, os dilemas e conflitos em
conclui: face da educação e formação humana que, historicamente, a
burguesia enfrenta. Este horizonte e limites, no caso brasileiro,
A maioria dos teóricos da educação no Brasil é de formação vêm reforçados por uma sobredeterminação do atraso e do
marxista. Por isso mesmo, a crítica que se faz à política educa- caráter oligárquico, parasitário e perversamente excludente das
cional é que ela é influenciada pelo empresariado capitalista, que elites econômicas e políticas. Por outra parte, a natureza da
só pensa na educação do indivíduo para melhorar a produtivi- materialidade histórica das relações capital-trabalho em face
dade de suas empresas e aumentar seus lucros. Um besteiral da nova base científico-técnica, situa o embate contra-hegemô-
inominável. (...) e por isso, deve mudar. Mudar revolucionaria- nico no campo da educação e formação humana, na perspecti-
mente, como se isso fosse possível ou viável. (...) Eles procuram va democrática e socialista, num patamar com uma nova
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EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 183

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qualidade. O conhecimento e sua democratização é uma de- Neste último tópico, primeiramente mostraremos que o
manda inequívoca dos grupos sociais que constituem a classe resgate dos conceitos de escola unitária, formação omnilateral
trabalhadora. elou politécnica, tecnológica-industrial produzidas no interior
da concepção de homem e do processo de "emancipação hu-
mana" em Marx e Engels e posteriormente em Cramsci," que
3. A formação humana unitária e politécnica: o horizonte dos surge na década de 1980 no pensamento educacional brasileiro,
processos educativos que se articulam aos interesses da classe sustenta-se na mesma materialidade histórico-social das rela-
trabalhadora ções sociais de produção e relações políticas de onde emergem
os conceitos de polivalência, policognição, multi-habilitação,
A análise até aqui exposta nos indica que a luta contra-he- formação abstrata, tão caros aos homens de negócio, e, ao mesmo
gemônica tem, concomitantemente, várias tarefas de caráter tempo, demarcam uma perspectiva ético-política de formação
teórico e político-prático. No plano teórico, o embate se define humana numa direção que lhes é antagônica, e que interessa
na crítica aos postulados neoliberais e neoconservadores que, às classes trabalhadoras. Velho e novo, arcaico e moderno, no
no campo da educação, revisitam as perspectivas da teoria do plano histórico, coexistem contraditoriamente.
capital humano e, portanto, do economicismo, dos anos 1970, O segundo aspecto, no plano político, busca assinalar que,
agora com novos conceitos. A educação e o conhecimento são no mesmo período em que frações da burguesia brasileira, como
reduzidos a meros fatores de produção alheios às relações de indicamos anteriormente, atentas às transformações mundiais
poder," e preocupadas com seu destino, redefinem seus organismos de
Ainda no plano teórico impõe-se a tarefa de superar posições classe e criam novos, no âmbito das classes trabalhadoras emer-
que se presumem críticas radicais e de esquerda, mas que por gem um partido de massa (e de classe), um sindicalismo de
sofrerem de uma espécie de "infantilismo teórico-político" aca-
bam reforçando práticas conservadoras. Neste plano, as posturas
quis tas revelam um limite de apreensão teórica que tem como consequência pos-
escatológicas, irracionalistas, neoanárquicas ou mesmo a pura e
turas e ações político-práticas problemáticas. O trabalho de Nunes (1990),na área
simples perspectiva da resistência não nos levam 10nge.30 da educação, ressalvadas as legítimas boas intenções, exemplifica estas perspecti-
vas. Para uma análise das tendências da resistência no plano político mais amplo,
ver Herbert J. de Souza - Como se faz análise de conjuntura - e, no plano educacio-
29. A análise atenta do que se está postulando, em face da reconstrução eco- nal, ver o texto "Revendo os vínculos entre trabalho e educação: elementos materiais
nômica e da reconversão tecnológica a ela articulada, nos mostra que a questão da da formação humana", de Miguel Arroyo, 1991.
qualidade total, da flexibilidade e da competência baliza-se, uma vez mais, sobre
31. Parece-nos crucial alargar a concepção de escola, como é posta por Nosella
o velho debate de "atributos" cognitivos (formação geral, capacidade abstrata,
ao historicizar o pensamento gramsciano:" A noção de 'escola' (...) refere-se a todo
policognição) e atitudinais (identificação com a empresa, capacidade de relaciona-
o tipo de organização cultural para a formação de intelectuais; essas organizações
mento grupal etc.), cujo objetivo fundamental é o aumento da produtividade e de
são criadas e sustentadas historicamente pelas diferentes práticas ou forças produ-
sua apropriação privada. Ver, a este respeito, os textos mencionados de Coraggio
tivas da sociedade" (Nosella, 1992, p. 108). De outra parte, também nos parece
(1992),Finkel (1990).
fundamental o alargamento que, num outro texto, o mesmo autor dá à concepção
30. A elevada aceitação e fixação, por parte de grande número de jovens mi- de formação politécnica ao circunscrevê-Ia no âmbito da tecnologia e do industria-
litantes de esquerda, à "teoria da resistência" ou o apego a perspectivas neoanar- lismo (Nosella, 1993,p. 157-86).
184 GAUDÊNCIO FRIGOnO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 185

"novo tipo", movimentos sociais urbanos e movimentos sociais fazer face às tarefas econômicas, numa perspectiva socialista
no campo que estão redefinindo as relações entre Estado e so- democrática, têm como horizonte permanente dimensões éti-
ciedade em bases diversas da tradição oligárquica, fisiológica co-políticas inequívocas: "os socialistas estão aqui para lembrar
e paternalista. Nesta redefinição aparece claramente o embate ao mundo que em primeiro lugar devem vir as pessoas e não
pelo controle democrático do fundo público e por uma nova a produção" (Hobsbawm, 1992b, p. 268).
função social da educação. Outra característica destas lutas é
Dois conjuntos de categorias - filosófica, pedagógica e
que não se reduzem ao momento econômico-corporativo, mas
politicamente articulados - formaram, na década de 1980, o
contêm elementos ético-políticos.
eixo conceptual em torno do qual se buscou organizar os pro-
Tomando-se os embates em torno das questões, sobretudo cessos educativos no conjunto da sociedade brasileira: a con-
econômicas e sociais no processo constituinte e, para o campo cepção de escola unitária e de educação ou formação humana
específico da educação, os debates em torno da definição da omnilateral, politécnica ou tecnológica. É importante perceber
LDB, o confronto destas forças sociais parece-nos nítido. Por
como estas categorias efetivamente sinalizam um conteúdo
estes embates concretos as perspectivas apologéticas do fim das
histórico em devenir e não são meras elucubrações de visioná-
classes sociais mediante a revolução científica e o surgimento da
rios." Caberia aqui, talvez, lembrar o que Marx sinaliza em face
sociedade do conhecimento não encontram sustentação históri-
das tarefas históricas.
co-empírica. Ao contrário, reiterando o que discutimos espe-
cialmente no Capítulo II, na óptica de análise desenvolvida por É por isso que a humanidade só levanta os problemas que é
F. de Oliveira: as classes sociais capaz de resolver e assim, numa observação atenta, descobrir-se-á
que o próprio problema só surgiu quando as condições materiais
quanto mais parecem desaparecer do campo da visibilidade do
para o resolver já existem, ou estavam, pelo menos, em vias de
confronto privado, tanto mais são requeridas como atores de
aparecer. (Marx, 1983, p. 25)
regulação pública. Isto não é um paradoxo, mas contradição das
classes sociais hodiernas, que é, também, a mesma do fundo
Os elementos analisados anteriormente sobre a natureza
público. (Oliveira, 1993, p. 140)
da nova base técnica mostram-nos que esta, mesmo sob as re-
lações sociais de exclusão vigentes, detêm a virtualidade de
efetiva melhoria da qualidade de vida para todos os seres hu-
3. 7 Escola unitária e politécnica: a formação na óptica da
emancipação humana
32. Já mencionamos, anteriormente, o trabalho de José dos Santos Rodrigues
(1993), que analisou com extrema perspicácia a base histórica, no Brasil, do proces-
Se a luta hegemônica se desenvolve sob uma mesma ma- so de construção da concepção de formação politécnica. Todavia, o modismo ou
terialidade histórica, complexa, conflitante e antagônica, as por vezes o oportunismo, aliados à pobreza de cultura política, têm reduzido estas
alternativas em jogo no campo dos processos educativos se categorias a disputa em itens da legislação ou palavras-pontes, jargões de plata-
forma de palanque de "pregadores" iluministas. Este infantilismo de e~querda
diferenciam tanto pelo processo quanto pelo conteúdo humano
necessitamos combater. O que estamos discutindo aqui é outra coisa. E tentar
e técnico-científico. A educação ou mais amplamente a formação mostrar como, no tecido das relações sociais, estes conceitos explicitam elementos
humana ou mesmo os processos de qualificação específicos para concretos e possibilidades de avanço político-prático.
186 GAUDÊNCIO FRIGOTTO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 187

manos. Esta nova realidade técnico-produtiva, como vimos, num elemento de ação política, é um fato crucial. Neste proces-
não só demanda para aquele conjunto de trabalhadores exigidos so, sem dúvida, desempenha um papel fundamental o trabalho
no processo produtivo bases de conhecimento científico (uni- educativo que se dá, na perspectiva gramsciana, nos diferentes
tárias), cuja universalidade lhes permita resolver problemas e aparelhos de hegemonia. No caso brasileiro, como destacamos
situações diversas, como também visa a um trabalhador capaz no Capítulo I, desenvolvemos nos anos 1940 uma rede de ra-
de consumir bens culturais mais amplos. Os princípios cientí- diodifusão ampla e, a partir dos anos 1970, um dos sistemas de
ficos da nova base técnica são unitários e universais. Sob este televisão mais sofisticados e monopolizados e, inversamente,
ponto de vista a distinção entre setor primário, secundário e foi-se desqualificando a escola pública, particularmente seus
terciário da economia não faz muito sentido. profissionais."
Mesmo em realidades como a brasileira, marcadamente O resgate ou a construção da escola pública unitária, qui-
defasada na produção de conhecimentos básicos e cuja veloci- çá com quase um século de atraso, é um dos problemas básicos
dade e intensidade da reconversão tecnológica são bem meno- a serem enfrentados pela sociedade brasileira, para que a de-
res que nos centros hegemõnicos do capitalismo, até mesmo mocracia tenha condições objetivas de se efetivar. Aqui, a
pelo caráter transnacional assumido pela produção capitalista, questão básica permanece na sua anatomia geral, aquela que
estão dadas condições virtuais claras. há mais de 60 anos colocava Gramsci em relação à ruptura da
O que é necessário desbloquear são os mecanismos de velha escola italiana:
exclusão que deixam à margem das condições mínimas de vida,
em nosso caso, mais da metade da população, e, ao mesmo A luta contra a velha escola era justa, mas a reforma não era uma
tempo, congelam ou retardam o próprio progresso técnico. Ou coisa simples como parecia, não se tratava de esquemas progra-
máticos, mas de homens, e não imediatamente dos homens que
seja, o desbloqueio das condições objetivas e subjetivas para o
são professores, mas de todo o complexo social do qual os ho-
desenvolvimento da omnilateralidade humana, particularmente
mens são expressão. (Gramsci, 1978a)34
para as classes trabalhadoras, entendida como:
Ora, isto significa, como sublinha claramente Nosella ao
o chegar histórico do homem a uma totalidade de capacidades
e, ao mesmo tempo, a uma totalidade de capacidades de consu-
analisar a escola no Brasil dos anos 1980 e os desafios dos anos
mo e gozo, em que se deve considerar sobretudo o usufruir dos 1990, que a construção da escola unitária pressupõe como mate-
bens espirituais (plano cultural e intelectual), além dos materiais. rialidade objetiva e subjetiva o desenvolvimento de um "pro-
(Manacorda, 1991a)
33. Para uma visão sintética do processo de proletarização do magistério, ver
A possibilidade de dilatar a capacidade de consumo não Florestan Fernandes (1991).
se deve, fundamentalmente, à escassez de produção mas, so- 34. A concepção de escola unitária desenvolvida por Gramsci tem sido, no
bretudo, aos mecanismos sociais que impedem a socialização Brasil, trabalhada e apropriada de forma dominantemente a-histórica. A análise
desta produção. que, ao mesmo tempo, evidencia este viés e resgata esta categoria básica numa
perspectiva fecunda é exposta por Paolo Nosella nos textos: A escola de Gramsci
A tomada de consciência, da forma mais ampla possível, (1992)e A modernização da prod ução e da escola no Brasil- o estigma da relação
desta realidade histórica de tal sorte que a mesma se constitua escravocrata (1993).
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CRISE DO Only.
CAPITALISMO REAL 189

jeto de política industrial, moderno, 'original'. Somente nessa que não se reduza a fórmulas, técnicas, mas à capacidade de
perspectiva pode ser encaminhada a questão educacional e o analisar, interpretar, resolver situações novas. Não se trata, pois,
tema da 'escola unitária'" (Nosella, 1993, p. 179). de um conhecimento restrito, um adestramento para uma ta-
Esta forma de apreender a relação da escola com a materia- refa ou função. Neste processo ampliam-se, também, as deman-
lida de social na qual ela se produz nos permite perceber que a das culturais do trabalhador. Estas demandas, todavia, tendem
forma e o conteúdo que assume no seu desenvolvimento não é a ser aprisionadas no limite quantitativo e qualitativo das ne-
algo arbitrário. Neste sentido, na escola, os processos educativos cessidades do capital. O desafio está, sob a base contraditória
não podem ser inventados e, portanto, não dependem de ideias do capital, em dilatar as possibilidades de uma formação tec-
mirabolantes, megalômanas de gênios que dispõem de planos nológica "unitária" para todos.
ou de fórmulas mágicas. Depende de uma construção molecular, Do ponto de vista epistemológico, ou seja, dos processos
orgânica, pari passu com a construção da própria sociedade no de apreensão e construção do conhecimento na realidade his-
conjunto das práticas sociais. Como nos indica Gramsci: tórica, o conceito de escola unitária nos indica que o esforço é no
sentido de identificar os eixos básicos de cada área de conheci-
Criar uma nova cultura não significa apenas fazer individual-
mento que em sua unidade detenham a virtualidade do diver-
mente descobertas "originais", significa também, e sobretudo,
so. O princípio da ciência é, neste sentido, por excelência uni-
difundir criticamente verdades já descobertas, "socializá-Ias"
tário, isto é, síntese do diverso e do múltiplo.
por assim dizer; transformá-Ias, portanto, em base de ações vitais,
em elemento de coordenação e de ordem intelectual e moral. O No plano prático do processo de construção do conheci-
fato de que uma multidão de homens seja conduzida a pensar mento, a concepção de escola unitária, em nossa realidade, im-
coerentemente e de maneira unitária a realidade presente é um plica, ao mesmo tempo, vários desdobramentos. O primeiro
fato "filosófico", bem mais importante e "original" do que a deles é o de distinguir-se entre o processo teórico-prático me-
descoberta por parte de um "gênio filosófico", de uma verdade diante o qual o homem, enquanto um ser social, constrói o co-
que permaneça como patrimônio de pequenos grupos de inte-
nhecimento da realidade, da natureza, do conhecimento em si.
lectuais. (Gramsci, 1978a, p. 13)
Independentemente ou não da escola, os seres humanos
No contexto dos embates que se travam hoje na sociedade acumulam conhecimento. A realidade na sua dimensão social,
brasileira na busca de romper com todas as formas de exclusão cultural, estética, valor ativa etc., historicamente situada, é o
social e, nos interstícios das possibilidades concretas de cons- espaço onde os sujeitos humanos produzem seu conhecimen-
truir-se um industrialismo de novo tipo e processos educativos to. Trata-se de uma realidade "singular e particular". É a par-
não imediatistas que concorram para a formação omnilateral tir desta realidade concreta que se pode organicamente definir
e, portanto, para os processos de emancipação humana, a bus- o "sujeito do conhecimento" e os métodos, as formas de seu
ca do sentido "radical" de escola unitária, no plano do conheci- desenvolvimento. Este, para ser democrático, deve tender à
mento e no plano político-organizativo, é fundamental. universalidade.
/
Os processos de "reconversão tecnológica", como vimos, Há, pois, um duplo equívoco a superar no plano da cons-
colocam aos setores capitalistas que queiram ser competitivos trução de uma escola unitária (democrática). Primeiramente é
a necessidade de um conhecimento no processo de trabalho preciso ter claro que, ao definir-se o conhecimento a ser traba-
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EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 191
190 GAUD~NClO FRIGOTTO For Evaluation Only.

lhado (conteúdos, processos, métodos, técnicas etc.), para ser é, sem dúvida, a reificação do senso comum, do folclórico, da
orgânico, deve ter como ponto de partida a realidade dada dos realidade dada dos desenraizados e excluídos.
sujeitos sociais concretos. A realidade socialmente dada necessita ser elaborada, de-
senvolvida no horizonte de maior universalidade. Democrática
A consciência da criança não é algo "individual" (e muito menos é a escola que é capaz de construir, a partir do dialeto (linguís-
individualizado), é o reflexo da fração da sociedade civil da qual tico, gnoseológico, valorativo, estético, cultural, em suma) uma
participa, das relações tais como elas se concentram na família, ordem mais avançada e, portanto, mais universal."
na vizinhança, na aldeia etc. (Gramsci, 1978a, p. 131)35
Esta forma de conceber a relação da escola com a realida-
Esta realidade é, a um tempo, biológica, social, econômica, de social, ao contrário de dilatar o currículo escolar na lógica
política, cultural, valorativa etc. Não podemos, pois, reduzir da particularidade de cada problema que aparece criando novas
este ponto de partida às dimensões cognitivas, mesmo quando matérias sem base disciplinar orgânica, e portanto, uma forma
arbitrária, coloca o desafio de se identificar os "núcleos unitá-
o problema a ser enfrentado seja de ordem cognitiva e, muito
rios" historicamente necessários dos campos de conhecimento
menos, a uma perspectiva psicologista.
que tratam da societas rerum e societas hominum e que, uma vez
Esse equívoco, ainda que fortemente presente, talvez não
construídos e apropriados concretamente, permitem ao aluno,
seja hoje, no campo educacional, o mais ardiloso. Num contex- ele mesmo, analisar e interpretar as infindáveis questões e
to, de um lado, do exacerbamento do individualismo alimen-
problemas que a realidade apresenta." A lógica de se buscar
tado pela ideologia neoliberal (fetichismo do mercado) e, de criar para cada novo problema uma nova disciplina ou deter-se
outro, pela mistificação do particular, do individual, do subje- na particularidade de cada situação, de cada dialeto, é instaurar
tivo "narcísico desejante" (crise da razão instalada pelo pós-mo- um processo de dispersão e de indisciplina intelectual.
dernismo), como nos mostra Chaui (1993), o risco mais presen-
te é afirmarem-se as condições particulares ponto de partida
num inorgânico ponto de chegada. A síndrome Chiarelli, a que e no tecnicismo e, de outro, pela desvalorização do professor, constituem-se em
limites objetivos na construção da escola unitária.
nos referimos, comum ente é reforçada pelo esquerdismo ou
37. O caráter democrático da escola não consiste na visão de que todas as
por muitos profissionais que aderem acriticamente a pedagogias crianças e jovens devam ter o mesmo atendimento, já que as condições historica-
que seguem o ideário do laissez faire ou ao populismo pedagó- mente dadas são de uma brutal desigualdade. Democrática é a sociedade e a esco-
gico." Uma forma sutil e antidemocrática de relações educativas la que instauram um processo de relações cujo horizonte histórico seja a equaliza-
ção no plano do conjunto de condições necessárias à emancipação humana. E, como
nos mostra Gramsci, "se se quiser criar uma nova camada de intelectuais chegan-
35. A compreensão de homem "como uma série de relações ativas, um pro- do às mais altas especializações, própria de um grupo social que tradicionalmente
cesso" e a natureza humana de cada ser, "o conjunto de relações sociais" construí- não desenvolveu as aptidões adequadas, será preciso superar dificuldades inau-
das no bairro, na aldeia, cidade e, em suma, de todas as "sociedades das quais o ditas" (Gramsci, 1978a,p. 139).
indivíduo pode participar", nos permite precisar que não se trata da realidade de 38. É comum hoje atribuir-se o pouco efeito das campanhas de proteção à
cada indivíduo singular, mas do conjunto de relações sociais dentro das quais cada saúde (sarampo, desidratação, Aids etc.) às deficiências técnicas destas campanhas.
indivíduo produz sua realidade humana (Gramsci, 1978a, p. 38-44). Isso pode ocorrer. Todavia, numa população semianalfabeta ou instruída por
36. O esvaziamento das licenciaturas e da Faculdade de Educação, de um lado, processos de caráter metafísico ou fragmentário, o problema crucial é a incapaci-
produzido pela reforma universitária do regime militar baseada na fragmentação dade desta população de decodificar o significado das mensagens.
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EDUCAÇÃO E For
A CRISEEvaluation 193
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DO CAPITALISMO REAL

A perspectiva da escola unitária, na prática da identificação O caráter unitário diz respeito, também, à ruptura com toda
e organização dos conhecimentos (necessários e não arbitrários), a espécie de dualismo na organização do sistema educacional.
tem inúmeras outras implicações. Dentre estas, destaca-se a "Qualidade total", pedagogia da qualidade etc., na perspectiva
superação das polaridades: conhecimento geral e específico, da emancipação humana, pressupõem a ruptura do velho in-
técnico e político, humanista e técnico, teórico e prático. Trata-se dustrialismo e da modernidade fundados na exacerbação da
de dimensões que, no plano real, se desenvolvem dentro de exclusão social, portanto, nada "original", e a emergência de um
uma mesma totalidade concreta." Tanto a identificação do industrialismo de novo tipo. Sob o industrialismo marcado pela
núcleo necessário de conteúdos, quanto os processos, os méto- exclusão, o campo educativo fica bloqueado quer pelas perspec-
dos, as técnicas não podem ser determinados nem pela; unila- tivas elitistas, quer pelo parâmetro imediatista; utilitarista,
teralidade da teoria (teorismo), nem pela unilateralidade da "interesseiro" e excludente do mercado.
técnica e da prática (tecnicismo, ativismo), mas na unidade Tomando-se a formação qualificação (mesmo na ótica
dialética de ambas, ou seja, na e pela práxis." restrita da produção material), na perspectiva do desenvolvi-
A organização e identificação de núcleos necessários de mento humano nas suas múltiplas dimensões como exigências
conhecimento a serem desenvolvidos têm como exigência um das diferentes necessidades do ser humano, ver-se-a que o es-
trabalho de natureza interdisciplinar. Os recortes da realidade paço mais adequado e prévio para ulterior desenvolvimento é
delimitados, por serem unidade do diverso, engendram na sua efetivamente a democratização da escola básica unitária tecno-
especificidade as "qualidades" ou a materialidade da totalida- lógica e/ ou politécnica de primeiro e segundo graus. A pers-
de. A interdisciplinaridade é, pois, uma característica da reali- pectiva unitária e politécnica demarca a necessidade de rom-
dade. Nas condições históricas objetivas da sociedade capita- per-se, como já assinalamos, com as dicotomizações de
formação geral e específica, humanista e técnica, teórica e prá-
lista, por ser a realidade humana cindida, fragmentada e
alienada, o trabalho interdisciplinar padece de limites materiais tica etc."
objetivos e limites políticos, ideológicos e valorativos." Assim percebida, a formação humana nos explicita que o
efetivo acesso à escola básica unitária, tecnológica ou politécnica,
constitui-se numa exigência para a qualificação da força de tra-
39. Karel Kosik, por certo, é um dos autores que melhor nos ajudam a enten-
balho para o processo social em todas as suas dimensões, ao
der esta dimensão da dialética do real. Ver Kosik, 1986.
mesmo tempo pré-requisito do horizonte teórico e político dos
40. Esta é uma questão crucial. Ela se coloca diametralmente oposta às pers-
pectivas messiânicas que de tempos em tempos elegem determinados métodos processos de formação técnica e profissional mais específicos.v
como salvacionistas. No momento, o construtivismo é uma espécie de "totem"
eleito para extirpar as mazelas do analfabetismo e do fracasso escolar. Na pers-
pectiva em que nos situamos neste debate, vendido como bezerro de ouro, na 42. Para uma ampla análise destas questões no debate da educação brasileira
forma como é mistificado, não passa de uma simulacro, um bezerro de barro. na última década, ver Nereide Saviani: Saber escolar, currículo e didática: problemas
41. A forma mais frequente de como os textos pedagógicos tratam da questão da unidade conteúdo/método no ensino. Tese de doutorado, rue-sr, 1993.
interdisciplinar inscreve-se numa perspectiva vulgar. Aparece como uma espécie 43. Nosella sinaliza-nos que se há um crescente consenso entre aqueles que
de sopa metodológica, como técnica de relacionar conteúdos ou processos educa- analisam a relação trabalho-educação sobre a importância dos elementos subjetivos
cionais. Para uma apreensão da questão do trabalho interdisciplinar como "neces- e objetivos da tecnologia na formação humana, tal consenso ainda se expressa com
sidade e como problema" no plano epistemológico, ver Frigotto (1991 e 1993). timidez: "A tecnologia não apenas apresenta as marcas da subjetividade humana,
EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 195
194 GAUDÊNClO FRIGOnO

3.2 A dilatação da esferapública: da resistência à alternativa política organicamente aos interesses das classes trabalhadoras. Seus
problemas internos, e até seus equívocos que diferentes análise
ao neoconservadorismo na educação
explicitam, não lhes elide sua importância na construção de
uma efetiva alternativa democrática.
A discussão até aqui empreendida na sua perspectiva
teórica e política nos indica que, tanto no plano econômico-so- O sindicalismo também não é novidade. Seu inventário
cial, quanto educacional, o avanço democrático no Brasil en- histórico foi realizado de forma bastante exaustiva. A novidade
gendra, ao mesmo tempo, a necessidade de superação do plano está na emergência de um sindicalismo de "novo tipo"." O
da resistência e a possibilidade de construção de uma alternati- debate sobre as câmaras setoriais nos ajuda a entender os sinais
va ao projeto neoliberal. desta novidade. Francisco de Oliveira, neste debate, qualifica
A direção do embate, na forma poética expressa por Mao a natureza do novo sindicalismo, bem como afirma a positivi-
Tsé-tung (1979), implica a capacidade de se entrar na jaula dos dade da dimensão político-corporativa, qualificando-a no
tigres para apanhar-lhes as crias. Ou, como nos ensina Gramsci, plano histórico concreto."
esta luta contra-hegemônica demanda aguçar a inteligência
Mas não se trata mais do corporativismo intransparente e buro-
para analisar melhor a realidade, ter vontade política e, sobre-
crático de herança fascista que reina no país desde Vargas, onde
tudo, organização. Trata-se, pois, de um embate que se dá no
ninguém representa ninguém. Trata-se é de corporativismo as-
terreno teórico e político-prático, ou seja, no plano da práxis.
sentado em entidades representativas reais e num Estado costu-
Na realidade brasileira, não obstante a gravidade da crise rado na transparência da competição entre as partes. Que fique
do Estado e da sociedade em seu conjunto, (crise econômico- claro: são transparentes as regras de luta política (pois é disto
-social, política e ético-valorativa) diferente dos embates pelas que se trata), seus conteúdos e o poder de barganha de cada
reformas de base do final da década de 1950 e início da década parte. Por outras palavras, o acordo das montadoras inaugura
de 1960, existem hoje forças políticas de "novo tipo". Isto po- as câmaras setoriais como mecanismo capaz de politizar em
de-se evidenciar, pelo menos, em três níveis. sentido forte as relações entre as classes sociais e grupos de in-
teresse, pois publiciza a luta econômica. (Francisco de Oliveira,
Partidos ideológicos não são novidade em nossa história.
Folha de S.Paulo, 1993)
O inventário de seu papel e seus equívocos, em boa parte, está
.feito." A novidade reside na emergência de um partido ideoló-
Por fim, mas não com menor importância, tomam uma
gico de massa - Partido dos Trabalhadores (PT) - vinculado
nova dimensão os movimentos sociais urbanos e do campo.
Aqui também, vários trabalhos expõem as características, na-
individual e coletiva; ela própria nada mais é que a filha de um homem historica-
mente determinada. A tecnologia é a cara do homem" (Nosella, 1993, p. 181).
Nesta mesma perspectiva, Bottomore afirma: "Seria possível dizer que o marxismo 45. Para uma visão da natureza, dificuldades e impasses do "novo" sindica-
é a teoria e prática socialistas de sociedades especificamente tecnológicas. Ou seja, lismo, ver Zanetti (1993).
se o trabalho humano que transforma a natureza e tem em vista objetivos coletivos 46. Antonio Gramsci, em Maquiavel, política e o Estado moderno, ao analisar o
humanos é de importância fundamental para a concepção marxista de práxis, a plano de correlação de força numa determinada conjuntura, mostra-nos que a luta
tecnologia é o produto" (Bottomore, 1988). econômico-corporativa é uma primeira dimensão da consciência de classe (Gramsci,
44. Ver, a este respeito, L. Konder, A derrota da dia/ética (1988). 1978b). Ver também Bobbio e Pasquino, 1992.
196 GAUDÊNCIO FRIGOTTO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 197

tureza e dificuldades destes movimentos: Sader (1988), Olivei- monopólio global (!) da mídia encarrega-se de maximizar o
ra (1987 e 1988a), Jacobi (1986, 1987), Kowarick (1987), Martins arrastão dos jovens infelizes de que nos fala Pasolini, produtos
(1987), Singer e Brant (1980) e Cohn (1982, 1991), entre outros. da exclusão social e apinhados nos subúrbios dos grandes
Na área especificamente educacional vários trabalhos indi- centros urbanos ou utilizar o massacre de crianças da Cande-
cam-nos o papel destes novos atores sociais: Spósito (1984 e lária (Rio de Janeiro, 1993) para incentivar os processos de in-
1993), Manfredi (1986) e Campos (1989, 1992). tervenção autoritária e ignorar o arrastão dos golpes do mer-
Estas diferentes formas de organização e de ação política cado financeiro, do assalto ao património público mediante a
de imediato sinalizam numa direção oposta do ideário dos venda de empresas estatais de forma fraudulenta, e de quadri-
apologetas da sociedade do conhecimento e das teses do fim lhas instaladas no Executivo, Legislativo e Judiciário que trans-
da sociedade do trabalho, que eliminam a priori as classes e formam o fundo, público em um condomínio privado.
conflitos sociais. Também mostram o caráter imobilista, e neste
Pelo lado das forças da esquerda, a falta de um aprofunda-
sentido reacionário, das perspectivas irracionalistas, ao estilo
mento teórico e, consequentemente, de compreensão histórica
de Kurz, que oferecem como substitutivo das classes e grupos
da complexa relação entre estrutura e conjuntura, leva grande
sociais enquanto sujeitos históricos coletivos que lutam pela
parte dessas forças a substituir a análise dialética capaz de
dilatação da esfera pública e da democracia representativa, a
apreender os conflitos e contradições e as armadilhas e possibi-
possibilidade da união dos homens e mulheres de bem, movi-
lidades da travessia, por posturas moralistas, escatológicas e
dos pela razão sensível para lutar contra a burocracia e aparatos
militares e policiais. dogmáticas. Por este terreno desenvolve-se as teses do quanto
pior melhor ou as estratégias voluntaristas e arrogantes."
No plano do embate concreto há desafios que não podem
ser subestimados e que, no caso brasileiro, tomam proporções Um dos equívocos mais frequentes e sérios pelas suas
maiores, de um lado pelo caráter opaco das ações das elites eco- consequências políticas é a postura que amplos setores da es-
nômicas e políticas, historicamente excludentes e violentas e, de
outro, a exígua cultura política de grande parte da esquerda. adotada a estratégia de socializar o produto do trabalho social, a alternativa é a
A tradição escravocrata, oligárquica, paternalista e clien- exclusão da maioria e a manutenção do privilégio de poucos pela violência. O caso
argentino de ajuste neoliberal, retratado por Atílio A. Boron (1991),traz cada dia
telista da elite econômico-política e, em grande parte, da elite
mais clareza de que este modelo que é para poucos, pressupõe a exclusão, a vio-
intelectual do Brasil, faz com que a alternativa da direita de lência e repressão da maioria como estratégias de manutenção da "ordem".
países como Inglaterra e Estados Unidos, de atacar os gastos 48. Em recente ciclo de debates Hugo Zemelman, sociólogo chileno que, por
sociais públicos e propor no lugar do Welfare State, o Estado força do exílio, após o golpe e o assassinato de Allende, foi para o México onde
caritativo e assistencialista - com a possibilidade pior de se trabalha até hoje, lembra que sem o inventário crítico do passado recente dos inte-
lectuais da esquerda sobre suas estratégias políticas, os erros podem voltar a se
mesclar assistencialismo e repressão, como nos mostra Olivei-
repetir. Lembra, de outra parte, que muitos intelectuais latino-americanos que se
ra (1988b, p. 26) - se apresente aqui com mais virulência." O alinhavam às forças de esquerda, negam-se a este inventário e preferem formar o
grupo dos "neoliberais de esquerda", que rapidamente são cooptados pelos orga-
nismos que representam o capital internacional como consultores do "ajuste", nas
47. Adam Schaff, no trabalho que faz para-o Clube de Roma (Sociedade Infor- diferentes áreas (Hugo Zemelman, palestra UFF,22/9/1993). Ver,do mesmo au tor,
mática, 1990, anteriormente mencionado), alerta para o fato de que se não for La democracia latinoamericana: un orden justa y libre, México, 1994.
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198 GAuoENCIO FRIGOTTO EDUCAÇÃO EFor Evaluation
A CRISE Only.
DO CAPITALISMO REAL 199

querda têm ante o Estado e a relação sociedade e Estado. Celso tado no campo da saúde e educação básica nos oferecem um
Furtado debita esta confusão, em grande parte, ao golpe militar quadro perverso. Trata-se de uma violência, incomensuravel-
de 1964: "Os militares tomaram espaço demais para o Estado mente maior que a dos arrastões. Há, pois, que se ampliar o
em tarefas que não eram deles. Por outro lado a luta contra a papel do Estado nestas áreas.
ditadura colocou a sociedade contra o Estado, governo e Esta- As políticas em curso de delegar a empresas privadas,
do se confundiram" Uornal do Brasil, p. 13,3/10/1993). bancos etc., a tarefa de salvar a escola básica e as propostas de
Esta confusão, no plano do debate e da análise, se explici- escolas cooperativas a cargo dos bairros, centros habitacionais
ta pelo erro de fixar-se na perspectiva metafísica do dever ser e ou de empresas (fundações) prestadoras de serviços educacio-
na polarização Estado ou não Estado. Isto funciona como um nais que trafegam recursos públicos são subterfúgios e, portan-
bloqueio para que a questão, politicamente correta - qual Es- to, estratégias antidemocráticas. Bancos, emissoras de rádio e
tado? - seja formulada e debatida. No plano prático, isto se tevê e empresas devem pagar os impostos que lhes cabem. Ao
traduz na defesa de políticas localistas que reforçam formas Estado, cabe gerir democraticamente os recursos. O volume
abertas ou disfarçadas de privatismo em campos que o merca- fantástico de recursos públicos repassados a empresas como a
do não pode democraticamente regular. TV Globo, acrescidos das isenções, em nome de programas
A direção teórica e política que assumimos neste trabalho, educativos que são passados em horários pouco comerciáveis,
na perspectiva das análises, especialmente, de E. Hobsbawm e são uma prática perversa de dilapidar o fundo público sem
de Francisco de Oliveira, nos leva a perceber com eles que a avaliação e controle pela sociedade organizada.
construção de formas sociais efetivamente democráticas (e, por-
Mas aumentar pura e simplesmente o tamanho do Estado
tanto, socialistas) têm como exigência que os sujeitos sociais
na educação e saúde significa pouco se não se alterarem os
coletivos (classes, grupos e movimentos sociais) tenham capaci-
processos de gestão do fundo público. Neste particular a ideia
dade efetiva de ampliar a esfera pública e de ter" acesso e ma-
central é a que expomos no Capítulo III, formulada por Fran-
nejo do fundo público". Isto significa dar transparência à ação
cisco de Oliveira e P. Singer, entre outros, de que o Estado
política e tomar efetivamente público aquilo que historicamente
foi manejado pelo estreito interesse privado do capital. (sociedade política) deve ser permeado pela ação da sociedade
civil organizada. Os processos de gestão necessitam ser demo-
A primeira ideia fundamental a fixar em decorrência des-
cráticos, como indica Francisco de Oliveira, no método, no
sa perspectiva é a de que o "mercado", mesmo onde existe uma
conteúdo e na forma.
materialidade de instituições que lhe dão densidade concreta,
é incapaz de democraticamente atender direitos como os da As teses básicas, em termos de educação, postas no pro-
educação, saúde, habitação e emprego. Direitos não são mer- cesso constituinte e no processo de formulação da LDB, sobre
cantilizáveis. "Em cada uma destas áreas não há nenhuma gestão democrática, afirmam esta direção. As ideias que orien-
possibilidade que o mercado possa prover, nem sequer o míni- tam as mudanças dos critérios de composição e de função dos
mo requisito de acesso aos bens imprescindíveis em questão" Conselhos de Educação (nacional, estadual e municipal) são as
(Anderson, 1995, p. 199). O desmonte do Estado nestas áreas que tiveram maior resistência do aparato burocrático e das
significa desmonte de direitos. Os efeitos do abandono do Es- forças reacionárias e privatistas.
200 GAUDÊNClO FRIGOnO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 201

Uma segunda estratégia, que tem sido utilizada para es- de um subsistema de ensino "tecnológico" que vai da escola
maecer o caráter público da educação, deriva dos processos de básica à pós-graduação. A base da argumentação passa pelo
descentralização e municipalização do ensino. Na forma que ideá rio da teoria do capital humano, atualizada pelas "teses"
se tem processado a delegação de responsabilidade aos Estados da sociedade do conhecimento e da "qualidade total".
e municípios e, por vezes, articulada à iniciativa privada, como A direção da luta democrática não está em desmantelar o
é o caso da expansão do ensino técnico agrícola e industrial, a ensino técnico, mas em transformá-lo na perspectiva da edu-
descentralização e municipalização constituem-se em formas cação tecnológica ou politécnica (de novo tipo), e dentro do
autoritárias e antidemocráticas de gestão educacional. Não se sistema unitário de ensino. Não há razões de ordem econômica
trata aqui de defender o centralismo burocrático e tampouco e menos ainda políticas e éticas para manter-se o dualismo
de se cair na oposição falsa entre o federal, estadual e municipal. atual ou, o que é pior, ampliá-lo.
A questão é de outra natureza. Trata-se de articular estas esferas
Finalmente, dentro do embate de ampliação da esfera
dentro de um projeto unitário e orgânico de educação."
pública e o controle democrático na gestão da formação huma-
Um terceiro aspecto, mais dissimulado de privatização e na, há uma longa travessia no âmbito do ensino técnico profis-
de estreitamento do caráter público da educação, localiza-se no sional. Trata-se de um campo muito articulado a interesses
cerco empreendido pelos homens de negócio - por meio de seus imediatos da classe trabalhadora e em torno do qual mantêm-se
organismos de classe e setores do aparelho burocrático do MEC grandes expectativas, muitas vezes falsas.
e do Ministério do Trabalho - sobre o ensino técnico e a for-
No campo da formação profissional, como assinalamos
mação profissional. Este cerco se prolonga por dentro destas
anteriormente, as forças preocupadas com a efetiva emancipação
instituições por uma tradição autocrática de gestão que se ar-
humana dos trabalhadores, comprometidas com as mudanças
rasta desde a era Vargas até hoje.
estruturais da sociedade brasileira, por entenderem a natureza
Tradicionalmente o sistema de ensino técnico industrial e e características da produção e das relações sociais e políticas
agrícola tem se pautado pelos critérios delimitados do mercado deste final de século, devem defender como a mais adequada
e, não raro, estas escolas e centros que são mais bem dotados
para a qualificação humana, e, em consequência, para a forma-
de recursos públicos neste nível de ensino, transformam seus
ção profissional, a universalização da escola unitária que envol-
espaços numa continuidade das empresas privadas que, de
ve o ensino básico e méclio (atual segundo grau) como um di-
diferentes formas, delas se beneficiam.
reito de toda criança e todo jovem e um dever do Estado.
No processo de definição da LDB, o lobby do ensino técni-
Esta é uma luta na qual está implicada a própria viabili-
co propõe uma radicalização do dualismo, mediante a formação
dade de uma efetiva democracia. Uma tarefa política urgente
é para que os recursos do fundo público que são desviados, em
49. Esta articulação implica a luta contra todas as formas de propostas educa- forma de múltiplos incentivos a empresas lucrativas ou direta-
tivas inorgânicas fundadas na megalomania, no imediatismo eleitoreiro, no experimenta- mente sob a forma de concessões e convênios (bancos, emisso-
lismo e voluntarismo que, por não tomarem a escola e os processos educativos como
ras de televisão, empresas mercantilizadoras de serviços como
expressões orgânicas da sociedade, criam-nos idealista e imaginariamente e lhes
atribuem papéis salvacionistas. A tarefa a implementar não passa pela pirotecnia, Cesgranrio ou uma multiplicidade de ONGs etc.), sejam con-
mas pelo caminho do bom senso, da construtividade e da intervenção orgânica. centrados para o financiamento da escola básica unitária.
202 GAUDtNCIO FRIGOnO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 203

Concomitante a esta luta, há uma gama de demandas reais através de suas organizações políticas e sindicais, devem ter
e de instituições que se ocupam da formação técnicoprofissional informações claras, por exemplo, sobre o tipo de formação que
e necessitam ser submetidas ao mais amplo controle democráti- se efetiva em instituições educativas da Fundação Bradesco,
co. De forma geral, historicamente, o controle da natureza desta Banco do Brasil, ou em programas educativos da Rede Globo.
formação tem ficado nas mãos unilateralmente do capital, através Quem define a filosofia destes programas? Qual o custo? De
de instituições próprias ou instituições que o representam. É da onde são tirados estes recursos? Quem presta conta a quem?
legislação de cunho fascista da era Vargas que se montou no Quem é atendido e quantos?
Brasil um sistema unilateralmente privado de formação profis- N o plano das lutas dos sindicatos, organizações e partidos
sional. Trata-se de uma situação única na América Latina. progressistas deve estar em pauta, também, a reivindicação
A luta imediata da sociedade organizada, dos partidos e da criação de centros públicos de formação profissional, além
dos sindicatos progressistas e dos movimentos sociais é para de buscar-se descobrir espaços ociosos que podem ser poten-
uma transparência sobre o volume de recursos investidos, in- cializados para esta finalidade. A tradição política conserva-
cluídas todas as fontes em instituições como SENAI, SENAC dora brasileira tem um vínculo ainda não suficientemente
etc. Luta que implica a participação do Estado (e um Estado esclarecido com as grandes empreiteiras da construção civil."
efetivamente democrático) e dos trabalhadores, além dos em- Há inúmeros elefantes brancos" cuja preocupação acaba com
/I

presários na gestão dos recursos e na condução política, filosó- a inauguração. Um exemplo claro chega ao conhecimento da
fica e pedagógica da formação profissional. Em síntese, é sociedade brasileira após o massacre de quase uma dezena de
tempo de democratizar estas instituições. Muitos profissionais menores em um único ato brutal no Rio de Janeiro - massa-
que nelas atuam encampam esta perspectiva. cre conhecido como chacina da Candelária. Construiu-se, em
Outro espaço onde a formação profissional se efetiva é no Quintino (RJ), um moderno centro de formação concluído há
interior das próprias empresas. Aqui também há incentivos que cinco anos que pode atender até cinco mil jovens e nunca foi
devem ser democraticamente controlados. Por isso, é déver do utilizado. De quem é a responsabilidade? Não há crime nesta
Estado e pauta de luta democrática dos trabalhadores exercer displicência?
um controle também neste espaço. As empresas podem, esper-
tamente, contabilizar, como gastos em formação profissional,
tipo de formação específica que se faz no chão da fábrica. Trata-se de disputar o
inúmeras atividades que efetivamente não o são. "espaço" que sempre foi domínio do capital e dar-lhes maior transparência. Corno
Os trabalhadores, através de suas organizações políticas e sublinhava G. Giovaninni, um dos dirigentes da CGU, num colóquio de que par-
sindicais, também devem lutar pela orientação político-técnica ticipei em Bologna (1991),o esforço situa-se no sentido de transformar a compe-
tência técnico-profissional, em elemento de negociação política. Não se trata de
da formação. O controle da natureza da formação profissional obscurecer o conflito, como busca a estratégia de gestão japonesa. Trata-se de tra-
dada no chão da empresa, a exemplo do que ocorre hoje na Itália, balhar transparentemente o conflito ..
deve ser pauta de negociação." A sociedade e os trabalhadores, 51. O conhecido esquema Paulo César Farias (caso PC), no início dos anos
1990,e, em seguida, o escândalo da Comissão de Orçamento do Congresso Nacio-
nal, revelado pelo ex-assessor José Carlos Alves dos Santos, começam a explicitar
50.O último contrato coletivo orientado pela central italiana CGU (1993)inclui o tamanho do pântano e a natureza do lodo na relação empreiteiras e políticos
na pauta de negociação a participação efetiva dos trabalhadores na definição do (ministros, senadores, governadores, prefeitos).
207

Conclusão

o pressuposto implícito que orientou a análise deste texto


no plano teórico é de que o desafio para se qualificar a nature-
za e especificidade histórica da crise do capitalismo e das ex-
periências do socialismo (real) implica a capacidade de se
distinguir e, ao mesmo tempo, trabalhar unitariamente as de-
terminações estruturais e o movimento conjuntural, bem como
as mediações necessárias e orgânicas, e as mediações secundá-
rias. O problema está, pois, na capacidade do pensamento, pela
pesquisa e análise, de abstrair o movimento da realidade his-
tórico-social, apreendendo as forças e determinações que o
produz.
A reiteração de aspectos teóricos que julgamos fundamen-
tais do trabalho tem uma intencionalidade para além da for-
malidade do trabalho acadêmico. Faz sentido na medida em
que nela estão implicadas questões de ordem política e ética.
Assim como a teoria quando consegue expor, no plano do co-
nhecimento, a "raiz" das determinações dos fatos históricos, se
constitui em força material e elemento crucial de consciência
crítica e de transformação, as visões apologéticas, irracionalis-
tas e reducionistas da realidade produzem alienação e reificação
do status quo. É, então, na relação entre a atividade teórica e
político-prática que se explicita e qualifica a natureza da práxis
humana.
208 GAUDÊNCIO FRIGOTTO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 209

Partindo deste horizonte teórico e político o esforço que sociais fundamentais, acabam por definir ou reforçar a ideia da
empreendemos nesta análise centra-se, sobretudo, na relação existência de uma única possibilidade de produção da vida
entre trabalho e educação num contexto de crise profunda do humana: as relações sociais capitalistas.
capitalismo, no contexto dos anos 1970-90. Tal escolha resulta A tese do fim da história resulta de uma concepção que
do fato de que especialmente nas últimas décadas, como mos- naturaliza as relações capitalistas onde, portanto, as crises do
tramos no Capítulo I, a reflexão no campo educacional brasi- capitalismo são apenas disfunçõee momentâneas e conjunturais.
leiro deteve-se, sob diferentes concepções, no debate desta re- O colapso do socialismo real é tomado como prova definitiva
lação. Inicialmente na crítica ao economicísmo, explicitado na de que a humanidade encerrou seu devenir no modo de pro-
educação pela teoria do capital humano, que estabelece um redu- dução social capitalista. A tese da sociedade pós-industrial e
cionismo da concepção de trabalho, homem e sociedade e que pós-moderna, expressões de um novo paradigma científico e
balizou as políticas educacionais tecnicistas do regime militar. tecnológico - sociedade do conhecimento -, representaria a su-
Desta crítica emerge a compreensão de que o trabalho enquan- peração das desigualdades pelas formas de regulação social do
to atividade vital, valor de uso, forma do homem produzir-se mercado capitalista. É neste sentido que a "nova" sociedade do
historicamente, transcende a determinação da forma alienada conhecimento - por ser este um bem disponível, supostamen-
de trabalho sob o capitalismo e é a vida da espécie. É vida criando te atingível por todos - tem a capacidade de eliminar as dife-
vida. E é como condição de criação do humano nas suas dimen- renças e desigualdades. O proletariado se transforma em cog-
sões do mundo da necessidade e da liberdade que o trabalho é nitariado. Os conflitos, as relações de poder e de força ficam
princípio educativo. Mesmo sob a forma capitalista, neste sen- zerados malgrado a exacerbação da concentração e centraliza-
tido, o trabalho não é pura negatividade. ção de capital e conhecimento e dos mecanismos de exclusão.
É neste movimento que, em face da crise do capitalismo, Pela perspectiva da crise da "sociedade do trabalho" ou
esta concepção de trabalho e sua relação com os processos do "fim do trabalho", embora os autores pertençam a uma
educativos se defronta, de um lado, com um rejuvenescimento tradição crítica ao capitalismo, os conflitos e antagonismos de
da teoria do capital humano, mediante as perspectivas da socieda- classe também são eliminados sem que a relação capitalista
de do conhecimento, e pedagogia da qualidade total, veiculadas esteja superada.
pelos homens de negócio e instituições transnacionais que os re- Pela perspectiva de Schaff esta superação se efetiva pelas
presentam e, de outro, pelas perspectivas da crise da sociedade virtudes da revolução tecnológica. A nova base científico-técnica
do trabalho. permitiria à humanidade prescindir do trabalho relativo ao
Um primeiro ponto a realçar como síntese, por conter si- mundo da necessidade e liberada para a busca do sentido da
nalizações teóricas e políticas importantes para aqueles que vida transitando do homo studiosus para o homo universalis e para
ética e politicamente estão comprometidos com uma alternati- um novo estilo de vida mediante a superação do homo laborans
va ao neoliberalismo e à forma capitalista de produção da vida pelo homo ludens.
humana, é que as duas perspectivas anteriores, mesmo partin- Independentemente da relevância das reflexões mais am-
do de tradições teóricas e ideológicas diversas e conflitantes, plas de Schaff, neste particular transforma a revolução tecno-
ao eliminarem os sujeitos sociais coletivos, grupos e classes lógica na revolução tout court. Estabelece uma separação arbi-
210 GAUD~NClO FRIGOnO
EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 211

trária entre mundo da necessidade e mundo da liberdade e, vitais do trabalhador, parecem não encontrar hoje sustentação
como consequência, define as necessidades humanas, que são empírica.
históricas, como quantidades finitas.
Face ao desemprego de 22,25% do PEA na Espanha e ín-
Na perspectiva de Offe, não desconhecendo suas contri- dices crescentes em toda a Europa, a tese do Partido Socialista
buições significativas, inclusive para entender a natureza da Espanhol- repartir o trabalho, que se converteu num bem especial-
crise do Estado de Bem-Estar, ao deslocar sua análise do plano mente escasso - vem sendo adotada como diretriz política da
da materialidade das relações sociais de produção, no pressu- maior parte dos governos. O governo alemão está propondo, à
posto da crise da sociedade do trabalho, para a concepção de semelhança da Espanha, um plano de redução dos dias de
interação social, relação intercomunicativa e mundo da linguagem do trabalho e da jornada de trabalho com uma proporcional redu-
projeto teórico de Habermas, também elimina os sujeitos sociais ção dos salários que seria compensada, em parte, por uma
clássicos fundantes da relação capitalista e com eles a perspecti-
ajuda do Estado (Jornal do Brasil, p. 14,6/11/1993).
va do conflito, das relações de poder e de força.
Dos autores com os quais debatemos a crise da sociedade do
A perspectiva que aponta é de cunho individualista, de-
trabalho, Kurz é, sem dúvida, o que positivamente explicita mais
marcada pela categoria modo de vida, onde a preocupação pelo claramente a natureza estrutural da crise do capitalismo e,
trabalho é marginal e substituída por temas como a família, o
negativamente, o viés mecanicista e lógico-estruturalista de
sexo e o meio ambiente.
análise da mesma. A dedução lógica ocupa o lugar da análise
A ênfase da tese da perda da centralidade do trabalho como histórica em diversas das suas conclusões. Os sujeitos sociais,
categoria de compreensão da vida social explica-se, ao nosso grupos e classes são substituídos pela razão sensível. Como re-
ver, em consequência da inflexão teórica que Offe opera em sultado de uma postura irracionalista e pessimista, a alternati-
direção à perspectiva estruturalista como nos aponta P. Ander- va futura para a humanidade é apocalíptica.
son, e como resultado do abandono da perspectiva ontológica
O horizonte da travessia, eliminados os sujeitos históricos
do trabalho. Esta inflexão firma-se, então, na apreensão do
ou secundarizados, fica adscrito ao que Williams e Hobsbawm
trabalho como um fator entre outros.
sinalizam como de utopias religiosas e escatológicas - alter-
Por esta via, as análises empíricas de Offe sobre o trabalho nativas "comunitárias, mas contraditoriamente de cunho indi-
sustentam-se sobre uma perspectiva estática de divisão social vid ualista",
do trabalho que, como analisa Francisco de Oliveira, acaba
A educação, de prática social constituída e constituinte da
naturalizando distinções entre mercadorias e serviços, trabalho
sociedade e, portanto, atividade humana inscrita na luta hege-
produtivo e improdutivo. Nesta rota perde-se, também, a com-
mônica, fica circunscrita ao papel de mudanças de valores para
preensão da divisão internacional do trabalho e o peso recai
a sacietas laudens em Schaff; instrumento de interação social na
sobre uma ótica eurocêntrica.
relação intercomunicativa ou processo de requalificação e adap-
Mas mesmo na perspectiva eurocêntrica e tomando o tabilidade face à mudança da natureza do trabalho sob uma
trabalho na sua forma "mercadoria" ou serviço, as conclusões nova base tecnológica e pelo deslocamento do âmbito primário
a que Offe chegou ao final da década de 1970, mediante as quais e secundário para o campo dos serviços, em Offe; instrumento
argumenta que o trabalho já não faz parte das preocupações para desenvolver a "razão sensível", em Kurz.
212 GAUDÊNCIO FRIGOnO EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 213

o que queremos demarcar é que a ordem de questões le- talista, sintetiza a novidade desta materialidade, agora em
vantadas pelas análises sobre crise do capitalismo e do socia- crise. O capitalismo na sua sociabilidade vai tecendo o seu
lismo real e sobre fim da sociedade do trabalho, tanto no plano outro. E o outro lhe é imposição necessária e inferno. Contra-
das alternativas da crise do capitalismo neste final de século, dição em processo.
quanto nas questões específicas da educação, mesmo sendo O Estado de Bem-Estar, agora em crise, explicita esta con-
diversas, se relaciona com e reforça a tese do "fim da história" tradição enquanto forma de viabilização de um prolongado
e o surgimento da sociedade pós-industrial - a sociedade do padrão de acumulação capitalista e de regulação social, mas
conhecimento. também como afirmação e conquista de direitos sociais, garan-
Mas a história, talvez à semelhança dos deuses, prega suas tias ao trabalhador. Ao trazer ao plano da esfera pública, em
peças. Na lenda sobre quem ganharia o amor de Helena, a grande parte, os processos de reprodução da força de trabalho
mulher mais bela do mundo, a história não acabou em Menelau, e da negociação e afirmação de direitos sociais, o Estado de
o eleito como resultado da esperteza de seu pai Tíndaro. Os Bem-Estar instaura um processo de desmercantilização da força
deuses se encarregaram, movidos por disputas, ódios e vingan- de trabalho. Sua reprodução fica menos unilateralmente deter-
ças, de devolver a Páris, menino abandonado por Príamo e minada pelos critérios imediatos do capital.
Hércula, reis da poderosa e rica Troia, sua verdadeira origem. As classes e os grupos sociais também padecem desta
E, pelos caminhos que só os deuses descobrem, Páris arrebata contradição, todavia não desaparecem, pois seu fundamento
o amor de Helena. material e histórico permanece estruturalmente, ainda que
Aqui, o enredo é de outra natureza. Os deuses descansam diverso no plano histórico empírico. A crise do Estado-nação,
e divertem-se! Os sujeitos são os homens e a tarefa da história (...) enquanto forma de regulação econômico-social, resultante da
é estabelecer a verdade deste mundo. transnacionalização da economia que internacionaliza o capital
Nesta tarefa, as contribuições analíticas de E. Hobsbawm, ~ a classe dominante também coloca a questão da classe traba-
P. Anderson, Francisco de Oliveira e Carlos Nelson Coutinho, lhadora no plano transnacional.
entre outras, em direção antagônica aos profetas do fim da A crise expressa um "empate" de alternativas em disputa.
história e do ideário dos homens de negócio e numa visão também Mais do que nunca os sujeitos sociais fundamentais têm um
diversa dos adeptos da crise da sociedade do trabalho e da papel crucial. As alternativas estão em curso. O retrocesso neo-
eliminação das classes sociais, nos permitem perceber a crise, liberal ou neoconservador, que se sustenta pela exacerbação da
as classes sociais, o Estado, a educação, em suma, o conjunto exclusão e da violência, está clara e avassaladoramente em
das relações e práticas sociais no plano das contradições e da marcha. Seus limites e contradições, mesmo no plano da bur-
luta hegemônica. guesia internacional, todavia, se apresentam cada vez mais
A crise dos anos 1970-90não é nova e nem fortuita, porque contundentes.
é de caráter estrutural, ou seja, inerente, orgânica à forma capi- A alternativa de uma sociedade socialista democrática,
talista de relações sociais. Mas a crise é profundamente nova cujo embate nas condições objetivas presentes tem na radicali-
em sua materialidade atual. A tese de Francisco de Oliveira, do zação da ampliação da esfera pública um elemento crucial, na
surgimento do antivalor como resultado da sociabilidade capi- conjuntura da crise e do colapso do socialismo real, enfrenta
EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 215
214 GAUDÊNClO FRIGOnO

desafios de várias ordens. A falta de utopia da esquerda neste O que muda qualitativamente, como tendência para aque-
contexto sinaliza a precariedade de sua cultura política. Esta les que o processo produtivo necessita, é a passagem de um
precariedade se expressa na incapacidade de inventário histó- trabalhador adestrado para um trabalhador com capacidade
rico-crítico. Por aí surgem as saídas fatalistas, messiânicas e de abstração mais elevada e polivalente. Mas muda sob a lógi-
voluntaristas ou vincadas por atitudes de individualismo nar- ca da exclusão. O limite, o horizonte definidor é o processo
císico, apologia da diferença e do provisório pós-modernista. produtivo demarcado pela naturalização da exclusão. No pla-
Aumentam, também, os intelectuais que, na década de 1960, no ideológico, a sutileza da tese da sociedade do conhecimento
estavam engajados numa luta revolucionária e hoje se transfor- esconde, ao mesmo tempo, a desigualdade entre grupos e clas-
maram em governantes, ministros e assessores friamente téc- ses sociais, o monopólio crescente do conhecimento e, portanto,
nicos e subservientes aos desígnios do capital financeiro inter- a profunda apropriação desigual do mesmo.
nacional. Mas esta mudança expressa também um nível mais eleva-
Este encaminhamento de compreensão da crise que não do de contradição e, portanto, de possibilidade de dilatar os
zera a história nem os sujeitos sociais, por deixar no plano da interesses de uma alternativa que se articule aos interesses da
disputa hegemônica o horizonte do socialismo, tem implicações classe trabalhadora.
pontuais para as alternativas no campo dos processos educa ti- As propostas neoliberais como alternativa no campo edu-
vos que discutimos, especialmente em relação ao Brasil, no cativo expõe os limites do horizonte da burguesia e, em casos
último capítulo. Fixemo-nos em alguns. como o brasileiro, sobredeterminados por uma burguesia atra-
O conteúdo das demandas dos homens de negócio no cam- sada, elitista e despótica. Isto, como vimos, se materializa de
po educativo, estrutural, e ideologicamente, não mudou de forma exemplar no embate em torno da educação no processo
natureza, mas o conteúdo da demanda mudou profundamen- constituinte (1988) e, mais especificamente, no processo em
te e com ele as contradições assumem nova qualidade. O reju- curso há mais de cinco anos da LDB (1989-1995).O discurso da
venescimento da teoria do capital humano é expressão desta modernidade, na prática, esconde o profundo atraso histórico.
mudança de conteúdo histórico. No plano teórico-ideológico a O que vem ocorrendo por inúmeros disfarces, convênios, coo-
óptica economicista e sociologista daquela teoria é alargada perativa etc., é a privatização crescente e o desmonte da escola
pela tese da sociedade do conhecimento. pública.
As categorias de qualidade totaZ,formação abstrata, formação
A alternativa da educação numa perspectiva socialista
polivaZente derivadas daquela tese e elaboradas por sociólogos,
democrática não pode inventar uma realidade supra-histórica.
economistas, psicólogos, engenheiros, pedagogos e filósofos
Ela se gesta no embate contra-hegemônico de dentro desta
sinalizam demandas de um "novo trabalhador" com uma nova
materialidade. No plano teórico, político, filosófico e ético, a
qualificação, com capacidade de elevada abstração, flexível e
perspectiva é de não reduzir os processos educativos a uma
participativo. Esta demanda explicita, por sua vez, a natureza
concepção unidimensional, mas alargá-Ios na perspectiva omni-
da tendência do processo de produção sob a nova base tecno-
lateral e! ou politécnica que expressa as múltiplas necessidades
lógica e no plano da competitividade dentro da reorganização
do humano.
econômica e do novo padrão de valorização.
216 GAUDtNCIO FRIGOTTO
EDUCAÇÃO E A CRISE DO CAPITALISMO REAL 217

Processos educativos de novo tipo implicam necessaria- conflito, no plano da esfera pública. Implica mais sujeitos cole-
mente o desenvolvimento de relações sociais de novo tipo e um tivos com densidade analítica e organizativo-política para dar
industrialismo de novo tipo. O "desempate" não comporta densidade ao embate.
alternativas anacrônicas, pois estas já têm nome: neoliberalismo
Um exemplo, entre outros, de visão equivocada no campo
ou neoconservadorismo.
educacional é a perspectiva de acabar com a formação profis-
Os novos movimentos sociais, partidos e sindicalismo de sional específica e os organismos que a coordenam, por serem
novo tipo e as políticas educacionais que se desenvolvem em de exclusivo controle dos empresários. O problema não é acabar,
várias capitais e inúmeros municípios por estas forças políticas, pois isto agrava um campo problemático e de interesse dos
mesmo com imensos limites e problemas, sinalizam que a al- trabalhadores.
ternativa está em curso no plano político-ideológico, ético e
A luta primeira e fundamental é garantir a escola básica
teórico-prático. O processo constituinte e de definição da LDB,
unitária e pública (primeiro e segundo graus) - dentro de uma
neste sentido, são pródigos em indicações sobre as possibilida-
perspectiva político-pedagógica que parta da diversidade cul-
des e os limites a superar. A própria derrota eminente das or-
tural e social das crianças e jovens - a todos como a mais
ganizações democráticas na aprovação da nova LDB, que em
adequada formação político-profissional. Isto, todavia, não
seus relatórios originais do projeto da Câmara incorporava
elimina a necessidade de formação técnico-profissional mais
enormes avanços em relação a anteriores, mas que pela junção
específica. Um primeiro passo, no plano das condições dadas,
e alquimia autocrática das propostas do Ministério da Educação
é fazer valer (o que perdemos na constituinte e LDB) a gestão
do governo Fernando Henrique Cardoso e da proposta perso-
tripartite - Estado, centrais de trabalhadores e empresários.
nalista do senador Darcy Ribeiro, reedita-se o velho, o dualista
Este parece-nos ser o caminho que permite trazer a disputa pelo
e fragmentário, não será o fim de tudo, mas apenas mais um
controle da qualidade da formação e dos recursos investidos a
entrave.
um plano mais democrático. Este embate pode ser levado até
O ponto crucial para produzir a alternativa ao neolibera- o chão da fábrica, uma vez que somas gigantescas de recursos
lismo no desenlace da crise em todos os âmbitos reside, como deixam de ser recolhidas ao fundo público como incentivo à
vimos, na capacidade de manejo e controle do fundo público e na educação e formação profissional. Os sindicatos, neste particular,
ampliação da esfera pública. O campo educacional, como o da mas não só eles, têm uma luta pontual.
saúde, por serem direitos não mercantilizáveis, demandam o
O mesmo ocorre com a questão da educação técnica de;
máximo, socialmente possível, do Estado democrático.
nível médio, mantida como um enclave num conluio entre
A tradição de um Estado clientelista, paternalista e auto- feudos no interior do Estado, no nível do poder central e da
ritário, no caso brasileiro, obnubila, no presente, amplos setores direção das escolas e dos empresários. Aqui também não se
progressistas e dificulta a superação de uma visão moralista e trata de destruir a educação técnica, mesmo nos limites em que
reducionista de Estado. Isto se manifesta nas perspectivas ma- é desenvolvida. Trata-se, com mais razão, de mudar sua pers-
niqueísta do contra ou a favor do Estado. O problema é de pectiva de gestão e de concepção-político pedagógica. Várias
outra ordem. A possibilidade de avanço alternativo ao neolibe- escolas técnicas experimentam um denso debate e embate in-
ralismo na educação implica trazer o embate, a disputa, o terno com enormes avanços na direção de sua democratização.
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218 GAUDtNClO FRIGOnO
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ric Jameson (1994) de que o marxismo é a única teoria capaz de


A perspectiva da escola unitária pressupõe uma educação tec-
pensar adequadamente o capitalismo numa perspectiva dialé-
nológica como expressão mais avançada e orgânica a um in-
tica, ainda que os marxistas não estejam livres das reificações
dustrialismo de novo tipo.
e que por ser o marxismo a ciência do capitalismo só pode estar
A luta pela construção de uma alternativa socialista de- superado quando esta forma de relação social for superada,
mocrática não pode fixar-se na espera de condições ideais fu-
parece-nos inequívoco.
turas. A história já nos ensinou algo. É embate que se trava "na
Um ponto fundamental a reiterar e a ser demarcado nes-
jaula onde os tigres cuidam de suas crias". No presente, a luta
ta conclusão é que o processo de recomposição do capitalismo
por dilatar a esfera pública, em todos os campos sociais, é uma
em face da crise deste final de século engendra, ao mesmo
luta concreta na dilatação das possibilidades, não suficientes
tempo, um crescente grau de violência, destruição e exclusão
mas necessárias, de um salto qualitativo. O socialismo, como
e uma explicitação da necessidade de sua superação. Ao con-
nos lembra Hobsbawm, ainda continua no programa. Não se
trário do que a ideologia neoliberal tenta passar, o capitalismo
trata de um utopismo, mas de uma radical necessidade para
não é o ~m da história ou a forma desejável e perene de relações
que o humano encontre o espaço efetivo de seu desenvolvimen-
sociais. E apenas o fim da pré-história humana, a da sociedade
to pela eliminação de todas as formas de exclusão.
de classes.
Neste processo de embate a afirmação da escola unitária,
O Estado de Bem-Estar Social como sistema de acumulação
pública e democrática, tem um papel crucial. Nesta luta conta
e regulação social concentrou riqueza, miséria e exclusão. Mas,
menos o fetiche da genialidade de profetas que inventam a
no plano das lutas e contradições, também firmou direitos so-
realidade para si mesmos ou os projetos e programas que ciais para além dos políticos. São estes direitos sociais que o
apenas representam bengalas clientelistas. O que conta é o neoliberalismo procura zerar como forma de restaurar taxas de
avanço orgânico de projetos que sejam expressões efetivas de lucro do capital transnacional sob a égide do capital financeiro.
uma necessidade histórica da sociedade. Apenas estes, parece- A construção democrática do socialismo tem como ponto de
-nos, têm a marca de uma efetiva alternativa histórica. As ex- partida a necessidade de garantir e dilatar, na esfera pública,
periências que mencionamos ao final do Capítulo IV, sem os direitos já alcançados pela luta das classes trabalhadoras
dúvida, inscrevem-se nesta alternativa. Há necessidade de dentro do Estado de Bem-Estar Social. Para além deste patamar,
aprofundá-Ias criticamente, dilatá-Ias e torná-Ias hegemônicas, como nos lembra Francisco de Oliveira (1988b), pulsam as
o que implica a luta concomitante, como condição necessária, novas formas sociais do futuro. Formas estas cuja viabilidade
para construir relações sociais de novo tipo - uma efetiva implica a ação humana organizada. Felizmente, os seres huma-
sociedade socialista. nos continuam construindo a história!
Não há por que abandonar valores e princípios fundamen-
tais e nem transigir teoricamente. Afirmar a liberdade, autono-
mia e a qualidade, sem os princípios da igualdade, democracia e
solidariedade, é firmar-se, como o fazem os neoliberais, na res-
trita liberdade, autonomia e qualidade reguladas pelo mercado
ou pela lei do mais forte. Teoricamente, o argumento de Frede-
~CORTEZ
~EDITORA 221

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Gaudêncio Frigotto nasceu em Antônio
Prado (RS) e reside na cidade do Rio de
WRIGHT, E. O. Clase, crisis y Estado. Madrid: Siglo XXI, 1983. Janeiro desde 1974. Graduado em filosofia e
pedagogia pela atual Unijuí (RS), mestre
ZANETTl, L. O "novo" no sindicaIismo brasileiro: características, impasses
pela Fundação Getúlio Vargas - RJ (1977) e
e desafios. Dissertação (Mestrado) - Fundação Getúlio Vargas, 1993.
doutor pela PUC-SP (1983). Atualmente é
ZEMELMAN, H. Los horizontes de Ia razón II: historia y necesidad de uto- professor no Programa de Pós-graduação
pía. Barcelona: Anthropos, 1991.
em Políticas Públicas e Formação Humana
da UERJ e professor titular (aposentado) da
UFF. Membro do Comitê Diretivo do Conse-
lho Latino-americano de Ciências Sociais
(CLACSO) de 2002 a 2006. Faz parte do
Conselho Acadêmico do Instituto de Pes-
quisa e Cultura Latino-americana (IPECAL)
com sede na Cidade do México. É sócio-
-fundador da ANPEd. Orientou aproximada-
mente 100 dissertações e teses e participou
de mais de 200 bancas de exame de teses e
concurso públicos na área de educação nos
últimos 25 anos. Autor e coautor de mais de
vinte livros e de dezenas de artigos em
revistas nacionais e internacionais. Desta-
cam-se os livros: A produtividade da
escola improdutiva (Cortez, 9a ed.);
Ensino Médio integrado: concepções e
contradições, (Cortez, 2a ed.); Educação e
crise do trabalho: perspectivas de final de
século (org.) (Vozes, 9a ed.); Teoria e
educação no labirinto do capital (org.)
com Maria Ciavatta (Vozes, 2a ed.); Cidada-
nia negada: políticas de exclusão na
educação e no trabalho (org.) (Cortez, 4a
ed.); Mundos do trabalho e aprendiza-
gem, (org.) com Rui Canário e Sônia
Rummert, Lisboa (EducaFormação). Fez
/ parte dos Comitês Científicos do CNPq,
CAPES e FAPERJ e é consultor ad hoc
destas instituições de fomento à pesquisa.
Faz parte do Conselho Editorial de seis
revistas nacionais e uma internacional.