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YOGA: Origem e sentido religioso


Roberto Simões

Mestrando em Ciência da Religião

robertossimoes@uol.com.br

Introdução.

Entender adequadamente o que é o yoga requer, assim como qualquer estudo


acadêmico na ciência da religião, compreender a totalidade de seu objeto de estudo e não
apenas suas partes; percebê-lo vivo e em transformação, e aventurar-se verdadeiramente no
entendimento de seu sistema de atos, doutrinas, comunidades e experiências1. No entanto,
achamos importante “limpar o terreno” do conceito popular do yoga atual e, contextualizá-lo na
sua história antiga e medieval para compreendê-lo contemporaneamente.

A prática do yoga ganhou popularidade no ocidente – estima-se que 20 milhões de


cidadãos norte-americanos o pratiquem2. Portanto, resgatar as origens de sua história, filosofia
e religiosidade se fazem necessários. Pois, como bem disse Carl Gustav Jung, podemos (nós,
ocidentais) aprender muito com o yoga, mas não devemos praticá-lo “sem mais nem menos”,
pois faremos “mau uso dele” se não entendermos quem somos e o que é o yoga
primeiramente3.

História.

O início do yoga nos remonta a uma Índia pré-ariana, da tradição nativa dos drávidas4.
Este povo parece ter florescido como grande civilização às margens do Vale do rio Indo,
semelhantes em grandeza com outros povos de seu tempo, como os egípcios, no Nilo e os
sumerianos, no Tigre e Eufrates.

O território dravidiano foi invadido por um povo guerreiro, conhecido como ariano por
volta de 1500-1200 a.C., ocupando suas duas grandes capitais, Harappa e Mohenjo Daro 5.
Acredita-se que um tipo de yoga já era praticado pelos drávidas ou povo harappiano.
Escavações arqueológicas no Vale do rio Indo (atual Paquistão) encontraram sinetes de barro
cozido com uma figura muito semelhante ao deus tutelar do yoga – Shiva – sentado em
padmasana (postura clássica de yogues em meditação)6. Era uma prática religiosa voltada
para a concentração mental, controle da respiração, adoração ritualística e cânticos. Seus
objetivos principais eram a invocação, a visualização e a união mística com inúmeras

1
Cf.GRESCHAT (2006).
2
FEUERSTEIN (2005), p.13.
3
JUNG (1982), p.57.
4
ELIADE (2001), p.296.
5
GULMINI (2002), p.24.
6
GULMINI (2002), p.23.
2

divindades7. Como a religião védica dos arianos (poder dominante) não aceitava esse “proto-
yoga”, ele foi sumariamente considerado um sistema religioso heterodoxo pelos brâmanes, a
alta casta dos sacerdotes arianos8.

Mas, assim como o fez com o budismo centenas de anos mais tarde, a religião
bramânica (hoje considerada como hinduísmo), absorveu o yoga como parte de sua própria
“filosofia”9 ao longo dos tempos. No entanto, o hinduísmo além de incluir o yoga em sua cultura
e doutrina, o considerou na forma de um novo dársana10, lit. “ponto de vista”11. Com o passar
do tempo, uma quantidade admirável de hibridismos foram realizadas com o “proto-yoga”
dravidiano, e estas transformações deram origem às inúmeras escolas do yoga no mundo que
conhecemos hoje. Algumas mais devocionais (bhakti), outras mais filosóficas (jnana), há ainda
as de valor “ação social” mais efetivo (karma), as mais contemplativas e introspectivas (raja) e
outras de cunho somático mais evidente, como o caso do tantra-yoga - tradição esta que deu
origem a escola yoguica mais difundida do ocidente, o hatha-yoga.

Mesmo com essa aparente diversidade de comunidades, sistemas de atos, todas


professam a mesma doutrina: os aforismos de Patanjali, que comentaremos mais a frente.
Devido à sua origem ancestral – não encontramos registro escrito de nenhum tipo de yoga na
tradição ariana, sendo, portanto, uma herança de um povo bem mais antigo - o yoga sempre
fez parte da religiosidade popular dos indianos e, muitas vezes, os yogues foram considerados
como uma espécie de místicos ou magos, com poderes de cura, feitiços, benzeções e
adivinhações12.

Sistema yoga.

Historicamente o yoga foi investigado de diversas maneiras ao longo dos tempos:


religião , arte14, filosofia15, técnica ou método espiritual16, ordem ou seita mística17 e até
13

mesmo ciência18. Antes de qualquer coisa, o sistema yoguico foi desenvolvido com o mesmo
intuito de muitas religiões: conceder ao ser humano seu poder criativo (kaivalya) através do
desenvolvimento comportamental e cognitivo, pautado na experiência mística do corpo, com a
conseqüente aquisição da paz, da alegria e da bem-aventurança (ananda) e, oferecendo um
sentido19 à existência de seus adeptos.

7
FEUERSTEIN (2005), p.19
8
ZIMMER (2000), p.67.
9
Coloco aqui filosofia entre aspas, pois o conceito ocidental de filosofia não corresponde corretamente, pois na Índia a filosofia
deve conduzir seu adepto a um estado divino e está, portanto, ligado estreitamente a religião (Cf. ZIMMER, 2000, p.52).
10
Um dos seis sistemas clássicos da grande tradição hindu.
11
ZIMMER (2000), p.419.
12
FEUERSTEIN (2004), p.25, p.34.
13
Cf. JUNG (1982).
14
IYENGAR (2001), p.218.
15
ZIMMER (2000), p.34.
16
Cf. TAIMNI (2001); ELIADE (2001), p.20; p.295-8.
17
ELIADE (2001), p.296.
18
IYENGAR (2001), p.12. Cf. TAIMNI (2001).
19
PINTO (2009).
3

Nos antigos versos dos Vedas20, especificamente o RigVeda, que data de 1900 a.C.,
encontramos indícios de ascetas cabeludos, “vestidos de ar” (nus) e que nada diziam; ao
contrário dos brâmanes, que raspavam suas cabeças, andavam com vestes sacerdotais e
pronunciavam os hinos sagrados da “palavra revelada” (lit. Vedas). Este fato nos evidencia
algo curioso, o início de um período de aceitação das práticas yoguicas autóctones com os
rituais arianos (bramânicos).

O documento mais antigo que trata especificamente daquilo que entendemos como
yoga hoje, ficou conhecido como Yoga-Sutras de Patanjali, como citamos anteriormente. Os
Sutras de Patanjali correspondem a uma coletânea de 196 aforismos que definem o que é o
yoga, os passos do aspirante a yogue e qual o seu principal objetivo para aquisição de
kaivalya: a paralisação voluntária das modificações mentais21. O yoga acredita que o mundo
em que vivemos é uma ilusão (maya) criada pela nossa mente incessante em produzir
pensamentos (vrittis) que, por isso obscurece nosso verdadeiro Ser (atman). E, só quando
conseguimos parar de nos identificarmos com nossos pensamentos-emoções-memórias, a
partir da prática introspectiva da meditação, é que perceberemos nossa verdadeira natureza: o
yogue aí experimenta o samadhi (experiência místico-religiosa). Enquanto isso não ocorrer
viveremos imersos no “senso-comum” de um mundo de aparências (samsara)22.

Esses aforismos foram divididos em quatro livros ou capítulos e, possuem sua datação
bastante questionável. No entanto, foi estabelecido que os três primeiros livros
correspondessem ao século II a.C. e, tudo indica que seu último livro data de 700 anos mais
tarde, no século V d.C.23. Foram compilados por Patanjali, um mítico filósofo, médico e
gramático indiano, que não idealizou o yoga, mas o codificou e o elaborou em oito passos
distintos, conhecidos como Asthanga-Yoga, Yoga Real (Raja-Yoga) ou ainda o Yoga-clássico.
Os seus quatro livros possuem influência direta de outras religiões, como a do jainismo,
samkhya, xamanismo, budismo e religiosidades populares, assim como, os influenciaram
mutuamente no decorrer da história também24.

Yoga e religião.

Definir yoga é uma tarefa árdua. Genericamente podemos nos voltar ao significado da
palavra sânscrita: yuj, que significa ligar, juntar. Nos dicionários geralmente ele aparece como
25
sistema mítico-filosófico da Índia que busca a união com uma divindade ou ainda, uma série
de exercícios físicos e mentais que possuem como objetivo a junção do Self com Deus26. No
catolicismo, o termo equivalente pode estar ligado à mística-cristã, para os muçulmanos temos
o sufismo, e para os judeus a cabala. Sendo assim, sob uma perspectiva mais estreita, o yoga

20
A mais antiga grande narrativa universal registrada pela escrita.
21
Cf.GULMINI (2002).
22
Para um aprofundamento maior na filosofia yoguica Cf.TAIMNI (2001).
23
ZIMMER (2000), p.203-4.
24
Cf. ZIMMER (2000); Cf.ELIADE (2001); Cf.GULMINI (2002).
25
DA CUNHA (1999), p.445.
26
Cambridge Advanced Leaner´s Dictionary (2010).
4

poderia ser considerado a via mística da religião hindu. No entanto, não devemos nos esquecer
que o yoga historicamente é anterior à chegada da religião bramânica (invasão ariana),
portanto, a doutrina do yoga já existia e não poderia ser a sua seita mística (ao menos não em
sua origem).

Atualmente, percebemos certo receio e negligencia por parte de alguns adeptos e


estudiosos em pensar o yoga como uma expressão religiosa contemporaneamente. Isso se
justifica, talvez, pelo caminho histórico do yoga no ocidente. Ele (o yoga) nos foi apresentado
pela primeira vez pelo fogue Swami Vivekananda, discípulo de Bhagavan Sri Ramakrishna, no
1º Parlamento Mundial das Religiões, em Chicago, no ano de 1893. Em seu pronunciamento,
Vivekananda descreve o yoga como uma espécie de “religião universal”27. No início de sua fala
no Parlamento, ele descreve essa “religião universal” como a manifestação da potencialidade
divina do ser humano, sendo esta a finalidade da vida, ou seja, o sentido Último do homem e
da mulher para ser livre realmente (kaivalya). E o meio, segundo Vivekananda, para ser
alcançar essa meta é através da prática yoguica: seja pelo Karma-yoga (ação), Bhakti-yoga
(culto), Hatha28 e Raja-yoga (domínio do corpo-mente) ou pelo Jnana-yoga (estudo filosófico) –
“por um, mais de um ou por todos esses meios” o ser humano manifesta sua “divindade
interior” e nisso consiste a religião; ou seja, “doutrinas, dogmas, rituais, livros, templos ou
imagens são apenas particularidades secundárias”29, religião é algo maior que transcende as
organizações que a representa, nos diz Vivekananda sobre yoga-religião.

Interessante notar que quase um século mais tarde, essa definição de religião é
retomada pela cultura Nova Era, que interpreta as instituições e doutrinas religiosas como
universais também: “todas as tradições religiosas possuem os mesmos pressupostos em
entender o mundo”30 relatam alguns de seus adeptos. Mesma postura adotada pelo yogue
Vivekananda em 1893, na posição de representante da religião hindu, quando discursou sobre
o yoga no Parlamento das Religiões.

É, portanto, nessa conjuntura que atualmente (re)surge muitas “novas” religiões,


embebidas da religiosidade oriental para uma boa parcela do mundo ocidental, que parecem
ter “desencantado-se” com suas próprias tradições religiosas. O yoga então passar a existir
autonomamente, fora dos ditames hinduístas e, consolida-se como mais uma “alternativa” em
explicar e entender o mundo e o ser humano 31,32. Kenneth Liberman, refletindo
contemporaneamente a “autenticidade” do hatha-yoga, desmonta a idéia de um yoga original e
imaculado. O autor defende que o hatha-yoga é uma prática espiritual construída e

27
Cf.VIVEKANANDA (2007).
28
Apesar de Vivekananda não dar muita importância ao Hatha-yoga, esta tradição é considerada como o meio que prepara o
yogue para o Raja-yoga, haja vista Hatha-yoga Pradipika e o Gheranda-samhita, Cf.SOUTO (2000); (2002).
29
VIVEKANANDA (2007), p.1.
30
CONTEPOMI (1999), p.130-148; CAROZZI (1999), p.154.
31
CONTEPOMI (1999), p.134.
32
Muitas vezes pautados em pseudociências.
5

desenvolvida com origem na Idade Média (séc. X-XII) e influenciado pelo islamismo,
cristianismo primitivo, ciência moderna e do movimento Nova Era33.

Infelizmente não dispomos de espaço aqui para nos estendermos mais sobre as
origens e motivos da Nova Era34, mas talvez seja lícito supor pelo exposto acima, o porquê de
muitos yogólogos fugirem das relações yoga-religião hoje em dia. No entanto, isso vem de
forma tímida se transformando. O editor de uma revista norte-americana (Yoga Journal) assina
um artigo com a seguinte pergunta: “Se o yoga não é religião, é o que então?”. Ele mesmo
contesta: “É um hobby, fitness, um esporte, uma atividade recreacional apenas?”35.

O dicionário de Métodos de Medicina-Alternativa descreve o yoga como uma prática


religiosa ou quase-religiosa36. Eliade e Couliano incluem o yoga em seu Dicionário das
Religiões dentro do bojo do hinduísmo, como um “conjunto de técnicas” que compõem base
filosófica, como mais um dársana, que sustentam essa religião37. Jung, em um de seus livros
intitulado Psicologia e Religião Oriental dedica um capítulo inteiro à discussão do yoga e suas
repercussões comportamentais e fisiológicas 38. Em Teorias da Personalidade de James
Fadiman e Robert Frager, o yoga também ocupa destaque especial ao lado de outras religiões
orientais, como o zen-budismo e seitas místicas, como o sufismo, além de psicanalistas
renomados como Freud, Jung, Adler, Reich, Pearls, James, Skinner, Rogers e Maslow para se
39
entender a psique dos seres humanos . Antônio Geraldo da Cunha, em seu dicionário de
etimologia, salienta que, a partir do século XIX, tanto em português quanto nas demais línguas
ocidentais, o vocábulo yoga tem adquirido uma “nova vitalidade” graças à disseminação das
doutrinas filosófico-religiosas do oriente40. Numa recente publicação (2008) sobre yoga,
intitulada Yoga in the Modern World, Contemporary Perspectives, Singleton e Byrne refletem
sobre o papel que hoje o yoga representa em nosso mundo, por isso acreditamos ser prudente
reproduzir os comentários de resenha publicada na REVER por Pamela Siegel e Nelson Filice
de Barros concernentes às perspectivas contemporâneas sobre o yoga no mundo moderno:

“(O livro de Singleton e Byrne) é muito importante tanto para temas do campo
da saúde quanto da religião porque oferece um olhar crítico do yoga que, a princípio,
pode desencantar analistas românticos. Fica claro após a leitura que, apesar do
inegável bem-estar que a prática do Yoga proporciona ao praticante, tem se tornado um
regime de fitness, uma espécie de filosofia incorporada, que exibe certo grau de
41
ansiedade e ambivalência sobre a unidade inerente da mente, do corpo e do espírito.”

Talvez, esses dados reflitam já indícios de uma mudança de panorama frente ao yoga,
ao menos por parte de alguns estudiosos e adeptos em repensar não a sua filosofia, mas o

33
LIBERMAN, K. (2008), p.100-17.
34
Cf.CAROZZI (1999).
35
CATALFO (2010).
36
A Dictionary of Alternative-Medicine Methods em www.babylon.com/free-dictionaries/health/alternative-medicine acessado
09/03/2010.
37
ELIADE & COULIANO (2009), p.177.
38
JUNG (1982), p.52-60.
39
FADIMAN & FRAGER (1979), p.316-38.
40
DA CUNHA (1999), p.445.
41
SIEGEL & de BARROS (2009).
6

papel que ele esteja representando em nosso contexto cultural do séc.XXI. No entanto, a
resposta que mais encontramos para a mesma pergunta anterior (o que é de fato o yoga
hoje?), geralmente refere-se a um yoga configurado como um sistema “filosófico-prático”.
Colocamos entre aspas, pois esse termo não nos esclarece muito. É como se intitular um
“católico não-praticante” às avessas. Ou seja, o “católico não-praticante”, não comunga sua
religião, mas se afirma um religioso convicto; já o yogue, muitas vezes, mantém uma prática
diária, com seus pujas (oferendas), mantras, orações, devoções a santidades, mestres e
hibridismos com outras religiões, mas não considera essa sua prática diária como religiosa.
Este fato se dá, muito provavelmente pelo paradigma de confundir religião com organizações
religiosas e, não entender bem o que é religião em todo o seu espectro42.

Por sistema filosófico, no entanto, o senso-comum pretende interpelar que o yoga


possui uma base sólida de pensamento, que não é apenas uma série de posturas físicas e
exercícios respiratórios; que se apresenta alicerçado por um conhecimento como o do
samkhya (o samkhya é uma religião!) – por isso, é muito comum localizarmos a expressão
samkhya-yoga como parte de um único complexo filosófico e religioso. Mas, qual religião que
não possui uma filosofia? O próprio samkhya, pertence a uma filosofia metafísica fundada por
um santo semi-mítico, conhecido por Kapila. Além disso, ambos (yoga e samkhya) possuem
em sua origem distante, estreitos laços à outra religião ainda mais antiga, o jainismo 43. A
tradição religiosa judaico-cristã, o islã, os budistas e até os pajés ianomâmis, também possuem
uma filosofia intrínseca às suas práticas, isso não é privilégio do yoga hoje.

E, por “prático”, muitos atribuem a todo o lineamento de conduta ético-moral (yamas e


niyamas), posturas físicas (ásana), exercícios respiratórios (pranayama), abstenção dos
sentidos (prathyahara), foco da atenção (dharana), concentração (dharana), meditação
(dhyana) e experiência religiosa (samadhi) que compõem o sadhana44 do yogue (asthanga
yoga de Patanjali). Mas, qual a religião sobrevive sem um sistema de atos solidamente
estabelecidos? Toda prática dita religiosa está alicerçada em uma doutrina filosófica, em uma
prática, reúne uma comunidade e culmina e sobrevive pela experiência religiosa-mística que
produz. Todos esses fatos são integrantes do complexo religioso intitulado hoje como yoga
também.

Por outro lado, definir religião também é algo complexo. A própria palavra vem de latim
religio, que designou regligare (amarrar, interromper o cotidiano, abrir um intervalo), religare
(ligar-se novamente) e/ou relegere (prestar atenção aos detalhes)45. Em nossa busca em
responder a pergunta: o que é o yoga além da resposta vaga “filosofia-prática”, continua sua
jornada na etimologia da própria palavra religião e suas denominações. Yoga também pode ser
analisado como que interrompendo o cotidiano (maya) de seu adepto, assim como, ligando-o

42
Para um entendimento melhor aconselhamos o artigo de revisão de Ênio Pinto (2009) publicado na REVER, onde o autor
esclarece os conceitos de espiritualidade e religiosidade.
43
ZIMMER (2000), p.203.
44
Caminho espiritual de um sadhaka (praticante de yoga).
45
http://en.wikipedia.org/wiki/Religion#Etymology. Acessado 02/06/2010.
7

novamente com sua “essência imortal” (atman) e focando a sua atenção ao presente, base da
prática meditativa (dhyana).

Na ciência da religião, possuímos alguns “quesitos” que classificam uma manifestação


humana como religiosa e apresentaremos algumas referências, apenas a título de exemplos
tipológicos. Toda religião possui:

1. Emoção46: aqui o yoga é bem específico na ligação do sentir em suas práticas, e


como o “sentir” produzido na prática meditativa está alicerçado com nossas emoções e
pensamentos intrinsecamente47;

GHS,7:14-15. Contemplar dentro do coração. Encher-se de êxtase por tal


contemplação, derramando lágrimas de felicidade e absorvendo-se pela emoção. Isto
48
conduz ao samádhi e a manomani-avastha.

2. Presença de entes sobrenaturais49: podemos citar Shiva, o próprio deus criador do


yoga, além de Ishvara e a presença de muitas outras referencias sobre-humanas na doutrina e
mitologia yoguica;

3. Rituais50: todas as escolas de yoga (bhakti, jnana, hatha, raja, karma) possuem os
seus;

51
4. Mitos : o Hatha-yoga aceita o Vedanta, e nos textos vedantinos podemos encontrar
alguns mitos a título de exemplos, dentre uma centena de outros;

5. Símbolos52: a sílaba sagrada “Om” é o mais conhecido deles;

6. Agentes religiosos53: possuímos neste terreno alguns milhares de professores e


mestres de yoga espalhados pelo mundo afora e, só na cidade de São Paulo, formam-se mais
de 100 yogues por ano em centros, escolas, instituições e universidades, que edificarão suas
práticas em “espaços holísticos” e disseminarão a tantos outros a doutrina yoguica também;

7. Crenças54: exemplos é que não falta, o conceito da alma imortal, chackras, prana e
da reencarnação é apenas alguns deles;

8. Espaços e templos55: para se ter uma idéia, há mais escolas de yoga na cidade de
São Paulo do que templos budistas em todo o estado.

46
WIEBE (1998), p.16; PYYSIAINEN (2003), p.78-142; CRUZ (2004), p.30-7; Cf. ÁVILA (2007).
47
ZIMMER (2000), p.397: “(...) ainda que a meta seja aquela do (hatha) iogue (sic) meditativo, a maneira de aproximar-se não é a
da negação, é a da afirmação. (...) Nesse caso, o candidato à sabedoria não busca atalhos para evitar a esfera das paixões –
reprimindo-as em seu interior e fechando seus olhos para suas manifestações exteriores (...). Muito pelo contrário, o herói (vira)
tântrico passa diretamente através da esfera de maior perigo.”
48
SOUTO (2002), p.203.
49
WIEBE (1998), p.19; QUEIROZ (1991), p.28; USARSKI (2002); CRUZ (2004), p.30-7; ÁVILA (2007), p.14.
50
QUEIROZ (1991), p.28; PYYSIAINEN (2003), p.78-142; CRUZ (2004), p.30-7; ÁVILA (2007), p.14.
51
CRUZ (2004), p.30-7; ÁVILA (2007), p.16, quando se refere a “linguagem simbólica”.
52
GEERTZ (1989), p.104-5; USARSKI (2002); CRUZ (2004), p.30-7; ÁVILA (2007), p.14, p.16.
53
Cf.QUEIROZ (1991);
54
WIEBE (1998), p.34; USARSKI (2002); CRUZ (2004), p.30-7; ÁVILA (2007), p.14.
55
ÁVILA (2007), p.16, quando se refere à religião “vivida não só na própria intimidade, mas compartilhada com outros”.
8

O yoga transcende em muito as simples posturas físicas ensinadas nas escolas de


hatha-yoga atualmente. E, o que defendemos aqui, não está em “provar” que o yoga é religião,
mas apenas salientar da possibilidade de se pensar e estudar o yoga contemporâneo
transcendendo seu caráter histórico, utilitário, funcional, na acepção de boa forma física ou
diminuição do estresse e prevenção de doenças apenas.

Além disso, entendemos que o yoga hoje não ocupa o mesmo espaço social que há
quatro mil anos atrás, na época dos drávidas e arianos. Encontramos, talvez, resquícios dessa
manifestação bramânica do yoga atualmente na cultura vaishnava56. Porém, muitos adeptos do
yoga hoje, não expressam sua religiosidade de nenhuma outra forma que não seja por meio de
sua prática exclusivamente yoguica diária, muitas vezes pessoal, outras em grupo, mas
sempre adotando princípios éticos e morais que norteiam suas vidas diretamente dos
aforismos de Patanjali: como o da não-violência, da prática meditativa após uma série de
posturas físicas e respiratórios, da entrega a Deus (Ishvara), de uma vida com uma maior
presença mental no presente e com responsabilidade com o meio em que se vive, por
exemplo; além de inúmeras outras expressões e festividades, como o dos satsangs57. A prática
exclusiva do yoga, com ou sem hibridismos de outra religião, vem dando sentido criativo a
muitos praticantes hoje em dia e, sentido à vida sempre foi o pilar mais importante de todas as
religiões já desenvolvidas no mundo58.

Para se ter um pequeno panorama do que queremos ilustrar, todo o ano ocorre o
“Yoga pela Paz”, encontro organizado por praticantes e yogues do Brasil e do mundo que
reúnem milhares de pessoas em quatro dias nas principais capitais brasileiras, onde realizam
workshops, vivências, participam de diversas práticas de yoga e finaliza sempre num grande
encontro ao ar livre onde celebram sua religiosidade através da oração, do canto, da música,
sempre no “espírito” do yoga como expressão religiosa. Podemos mencionar ainda, as
inúmeras associações, alianças, federações e outras entidades que defendem e professam o
yoga como uma “filosofia religiosa”. Houve, inclusive, há alguns anos atrás, uma comissão de
yogues e adeptos que lutaram pela liberdade de ministrar aulas, cursos e formações de
professores de yoga no Brasil frente ao Congresso Nacional, contra uma lei que tramita
almejando definir o yoga como atividade física apenas e, portanto, sob lei do estatuto do
Conselho Federal de Educação Física (CONFEF). Esta lei ainda está em tramitação, porém, o
yoga hoje, ao lado, da capoeira, por exemplo, impetraram e ganharam uma ação judicial para o
exercício livre de seus métodos sem fiscalização de nenhum órgão federal, contanto, que seja
praticado exclusivamente de cunho filosófico-religioso59. Por isso, levantamos a questão da
prática yoguica como expressão religiosa não só por cientistas e yogues, mas também agora

56
Cf.OLIVEIRA (2009).
57
Sat vem da palavra satya, que significa Verdade e sangha, significa família, grupo afim. Portanto, satsangha, define-se por um
encontro de pessoas afins que se reúnem para meditar, cantar mantras e celebrar o seu caminho espiritual pelo yoga.
58
Cf.FRANKL (1991); PINTO (2009).
59
Projeto de Lei Nº 7.370/2002, de autoria do deputado Luiz Antônio Fleury (PTB/SP), que acrescenta parágrafo único ao art. 2º da
Lei 9.696, de 1º de setembro de 1998, dispondo que não estão sujeitos à fiscalização dos Conselhos Regionais de Educação Física
os profissionais de dança, artes marciais e yoga.
9

protegida por lei e com definições bem claras de seu exercício. Estudar e praticar o yoga não
pode separar-se da religiosidade que lhe é intrínseca60.

Este fato, de pensar contemporaneamente o yoga como religião, de forma alguma


discrimina ou considera como menor o yoga. Muito pelo contrário, essa distinção, como bem
mostrou Jung61 e o yogue Vivekananda, pode resgatar a essência62 do yoga como expressão
legítima da busca religiosa do ser humano em um mundo secularizado (era kali-yuga). Pois, o
yoga conseguiu atingir certo status de científico por conta de sua contribuição no diálogo entre
ciência e religião, principalmente no campo da medicina integrativa e complementar 63. Não
existem tantas expressões religiosas no mundo que se entrelaçaram tão bem com a ciência do
que a meditação, base nevrálgica do yoga. No entanto, há uma aura mágica em torno do
caráter terapêutico do yoga, que é importante, mas não é o seu fim. O yoga pode ser lido pela
ótica científica, mas não só para produzir saúde e servir como terapia ou fitness, mas de
desenvolver um conhecer, um sentido de vida criador para quem o pratica também.

Bibliografia.
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CAROZZI, M.J. (org). A Nova Era no MERCOSUL, Petrópolis, Vozes, 1999.

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CRUZ, E.R. A persistência dos deuses: religião, cultura e natureza. São Paulo: UNESP,
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60
Cf. ÁVILA (2007), p.13; PINTO (2009) quando pensamos religião como o que dá sentido último na vida das pessoas.
61
JUNG (1982), p.54-5.
62
Emprego aqui o termo “essência” no sentido de seu real objetivo expostos por Patanjali.
63
Existe hoje uma infinidade de centros de pesquisa no mundo tendo a meditação, característica fundamental do yoga, como
objeto de estudo.
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