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Estrutura Argumental em Morfologia Distribuída

Ana Paula SCHER (USP/FAPESP)


Alessandro Boechat de MEDEIROS (USP/FAPESP)
Rafael Dias MINUSSI (USP/CNPq)

1. Introdução

Este trabalho tem como meta propor, numa teoria não-lexicalista como a da
Morfologia Distribuída, uma maneira de codificar a estrutura argumental dos verbos da
língua portuguesa. Mais especificamente, trataremos do seguinte conjunto de casos: a)
alternância causativo-incoativa, como em (1); verbos inergativos e transitivos sem
alternância (mas com mudança de estado do objeto), como em (2); verbos transitivos
cujo complemento introduz um “caminho” sobre o qual o evento se dá, como (3); e, por
fim, verbos de estado, como (4).

(1) a. O João ferveu o leite.


b. O leite ferveu.
(2) a. O João gritou.
b. O João pintou o muro.
(3) a. O João leu um livro.
b. O João andou a extensão daquela pista
(4) a. O João possui uma casa em Ubatuba.

O texto a seguir tem a seguinte organização. Na seção 2, apresentamos


brevemente o modelo da Morfologia Distribuída; na seção 3, fazemos uma ampla
discussão sobre outras teorias de estrutura argumental e justificamos nossas opções
neste trabalho; na seção 4, propomos uma alternativa de abordagem para as questões
levantadas ao longo da discussão da seção 3; a seção 5 traz alguns comentários à guisa
de conclusão.

2. Background teórico: Morfologia Distribuída

A MD é um dos desenvolvimentos recentes da Teoria da Gramática Gerativa;


sendo assim, ela se caracteriza como uma teoria sobre a arquitetura da faculdade da
linguagem. Foi proposta no início da década de 1990, por Morris Halle e Alec Marantz,
tendo como principais trabalhos de origem: Halle e Marantz (1993), Halle (1997) e
Marantz (1997).
São três as propriedades que definem a MD:
a. Inserção tardia (Late Insertion): A teoria assume que categorias sintáticas são
puramente abstratas, não possuindo conteúdo fonológico. Apenas depois da sintaxe,
elas recebem traços fonológicos, por meio de regras que associam sons aos nós
terminais da derivação. Essas regras são chamadas de itens de vocabulário, e
caracterizam um processo chamado spell-out.
b. Subespecificação dos itens de vocabulário (Underspecification of Vocabulary Items):
as expressões fonológicas não precisam ser completamente especificadas para as
posições sintáticas onde elas podem ser inseridas. Apenas os morfemas (nós da
estrutura sintática) são totalmente especificados em relação ao seu conteúdo.
c. Estrutura sintática hierárquica em toda a derivação (Syntactic Hierarchic Structure
“all the way down”): implica que processos sintáticos e morfológicos respeitam os
mesmos tipos de estruturas de constituintes. Não há a necessidade de derivações ou
processos pré-sintáticos.
A teoria também se baseia em três listas (Marantz 1997), acessadas em diferentes
pontos da derivação sintática:
a. A Lista 1 (lista de traços morfossintáticos) contém as raízes e os morfemas abstratos.
Os morfemas abstratos são terminais sintáticos que possuem apenas traços sintático-
semânticos, não fonológicos. Atualmente, existe uma grande discussão sobre a
natureza das raízes na MD. Para Embick e Noyer (2004), as raízes são definidas
como complexos de traços fonológicos e, em alguns casos, traços diacríticos não-
fonológicos. Enquanto os traços que criam os morfemas abstratos são universais, as
raízes são combinações específicas de som e de significado. As raízes sempre
ocorrem numa relação local com um núcleo funcional definidor de categoria, ou seja,
as raízes, por si só, não possuem categoria gramatical determinada.
b. A Lista 2 (Vocabulário), segundo Embick e Noyer (2004), contém os itens de
vocabulário, ou seja, a expressão fonológica dos morfemas abstratos e as regras
necessárias para combinar o material fonológico ao resultado da derivação
morfossintática.
c. A Lista 3 (Enciclopédia) é uma lista de informação enciclopédica que deve ser
consultada para que se estabeleça o significado de uma raiz em determinado contexto
sintático. Por exemplo, a raiz do nome gato, √gat-, pode remeter a um felino peludo,
animal que gosta de leite, animal que caça rato, etc.; ou pode remeter a um
emaranhado de fios clandestino que pode levar a um curto-circuito, etc. Em outras
palavras, a Enciclopédia é uma lista de expressões idiomáticas da língua.

A opção pela Morfologia Distribuída

Nesta subseção, traremos algumas razões que nos levaram à escolha de um


modelo não-lexicalista neste e em outros trabalhos.
A primeira razão diz respeito à dificuldade de definir teoricamente a noção de
palavra, fato esse ressaltado por Marantz (1997). Esse autor rebate a afirmação de que
as palavras são o lugar de variados tipos de idiossincrasia e afirma que os domínios de
aplicação de “regras fonológicas lexicais”, de significados especiais (idiossincráticos) e
de correspondências aparentemente especiais entre estrutura e significado, que
deveriam, assumindo a Hipótese Lexicalista, coincidir na palavra, de fato, não
coincidem nela. Tomemos, por exemplo, um nome composto do hebraico: beyt-sefer
(literalmente: casa-livro, significando ‘escola’). Várias noções de palavra podem ser
utilizadas para definir esse composto: (i) palavra prosódica, se levarmos em
consideração a perda de acento do composto; (ii) palavra morfológica ou sintática, se
separarmos os compostos formados com uma raiz dos que são formados por duas raízes
e (iii) palavra morfológica, se utilizarmos a noção de morfologia não-concatenativa
(aquela em que não há processos de afixação) para explicar a não ocorrência de
compostos formados com verbos no hebraico. Além disso, temos nesse composto um
único conceito ‘escola’ formado por dois elementos.
A segunda razão está relacionada ao fato de que, no modelo da MD, há apenas um
componente gerativo, de modo que não há necessidade do uso de operações lexicais
especiais (do tipo assemble features, como em Chomsky 1997, por exemplo) diferentes
das operações sintáticas de concatenar e mover (Chomsky 1995); tampouco, são
necessários princípios que relacionem estrutura morfológica e estrutura sintática, como
o princípio do espelho (discutido em Baker 1985); ou regras de linking, que definem
como os argumentos dos verbos são projetados na sintaxe (ver, por exemplo, Levin &
Rappaport-Hovav 1986; Levin 1999, para um conjunto de propostas que necessita de
tais regras).
A terceira razão está relacionada à inserção tardia e ao princípio do subconjunto.
Nessa teoria, podemos explicar de maneira elegante o fato de uma mesma forma poder
aparecer em diversos contextos sintáticos. Por meio da inserção tardia e do princípio do
subconjunto, podemos explicar, por exemplo, o fato de uma terminação como -do do
particípio passado no português (Medeiros 2008) aparecer em diversos contextos
sintáticos (tempos verbais compostos, voz passiva, adjetivos, substantivos, etc.). É a
possibilidade de inserção tardia do material fonológico para a forma -do,
subespecificada para os contextos sintáticos listados entre parênteses, que dá conta do
fenômeno apontado.
A quarta razão para a utilização da MD está ligada a uma premissa da teoria: as
raízes presentes na Lista 1 não possuem categoria gramatical. Esse fato nos sugere que
uma raiz pode ser um nome, um adjetivo e/ou um verbo. Tal fato está de acordo com a
estrutura de algumas línguas semíticas, entre elas o hebraico. A língua hebraica possui
um conjunto de raízes e padrões vocálicos que as categorizam. Estamos considerando,
nesta pesquisa, que os padrões vocálicos devem, portanto, desempenhar o papel dos
núcleos categorizadores: v, n e a. Observemos alguns dados adaptados de Arad (2004):

(5) √gdl (Raiz)


Padrão Vocálico Palavra formada
a. CaCaC (v) gadal (crescer)
b. CiCCeC (v) gidel (elevar, criar, cultivar (padrão causativo))
c. hiCCiC (v) higdil (aumentar)
d. CaCoC (a) gadol (grande)
e. CoCeC (n) godel (tamanho)
f. miCCaC (n) migdal (torre)
g. CCuCa (n) gdula (grandiosidade)
h. CCiCa (n) gidla (crescimento)

Percebemos que a raiz √gdl pode entrar em padrões vocálicos verbais, nominais e
adjetivais e que também pode entrar em mais de um padrão de mesma categoria, se, por
exemplo, considerarmos apenas a formação de nomes. Preliminarmente, se nossas
observações estão corretas, o fato de a mesma raiz se enquadrar em mais de um padrão
categorial pode sugerir que a raiz é selecionada pelo padrão e não o contrário. No
entanto, qualquer conclusão é prematura.
Esse fato está diretamente relacionado com o objetivo amplo desta pesquisa, que é
discutir a estrutura argumental dentro da Morfologia Distribuída. Algumas pesquisas,
fundamentadas no modelo da MD, discutem os dados da língua hebraica, apresentados
em (5): (i) a informação sobre a estrutura argumental está localizada nas raízes ou nos
núcleos categorizadores?; (ii) as raízes fazem algum tipo de seleção?; (iii) as raízes
possuem algum tipo de grade temática ou quadro de subcategorização?
Questões semelhantes norteiam esta pesquisa, que analisará os dados do português
brasileiro, como já foi apontado anteriormente.

3. Um histórico das propostas de estrutura argumental

3.1 A visão tradicional: Teoria GB e minimalismo lexicalista

Na visão herdada da teoria GB dos anos oitenta – que se mantém, sem grandes
modificações, no Programa Minimalista dos anos noventa e dois mil –, os itens lexicais
trazem, em sua representação no léxico, grades temáticas. Nelas, todas as informações
associadas ao item lexical, relevantes para a sintaxe (como sua categoria gramatical e
sua seleção de argumentos e papéis temáticos a eles associados), estão explicitadas.
Uma vez que grupos de verbos se comportam, sintaticamente, de modos muitas
vezes semelhantes, a teoria procurou estabelecer inventários de papéis temáticos, que
forneceriam uma generalização sobre os itens lexicais. Os típicos papéis temáticos que
encontramos na literatura são: Agente, Beneficiário, Tema, Experienciador, Alvo,
Paciente etc. Verbos como destruir, construir, chutar, matar, por exemplo, teriam, nessa
visão, grades bastante semelhantes, pois compartilham a mesma categoria sintática e
selecionam dois argumentos nominais que recebem os mesmos papéis temáticos. É
esperado, pois, que as estruturas sintáticas em que ocorrem sejam as mesmas.
Além dos papéis temáticos, a teoria precisa recorrer a certos princípios que
relacionem a informação contida nos itens com as estruturas sintáticas em que ocorrem.
Na teoria GB, temos o Princípio da Projeção, que, numa das formulações que Chomsky
dá (Chomsky 1981, p. 29), diz, grosso modo, que a informação lexical, em particular a
que está contida na grade temática, tem que estar sintaticamente representada. A teoria
também precisa garantir que na estrutura sintática não encontremos mais ou menos
argumentos que os pedidos pelos itens lexicais. O Critério Teta (Chomsky 1981, p. 36)
procura fazer isso.
Para explicar regularidades observadas nas posições sintáticas de argumentos com
os mesmos papéis temáticos, a teoria lança mão de duas hipóteses: i) a UTAH1 (Baker
1988), que propõe que argumentos que recebem os mesmos papéis temáticos ocuparão
as mesmas posições sintáticas no nível da Estrutura Profunda; e (ii) as hierarquias de
papéis temáticos (vários autores), que procuram estabelecer a posição (em última
análise, a função) sintática tipicamente associada a cada papel temático.
Na visão da teoria GB isso esgota a discussão sobre estrutura argumental e
representação sintática dos argumentos. Entretanto, esse conjunto de propostas traz
diversos problemas e deixa inúmeras perguntas sem resposta, a saber:
a. Quantos são e quais são os papéis temáticos que a teoria assume existirem para
serem atribuídos? Não há consenso sobre nenhum dos dois pontos, e os inventários
propostos deixam inúmeras lacunas.
b. Numa teoria baseada em grades temáticas, quantas entradas devem existir para o
verbo correr, por exemplo? Aparentemente, três: uma inergativa, em que o sujeito é

1
Universal Theta Assignment Hypothesis (Hipótese da Atribuição Universal de Papéis Temáticos).
agente (João correu na praia ontem); uma inacusativa, em que o sujeito é um tema
(A pedra correu até a porta); uma transitiva, com um sujeito agente e um objeto
direto que denota uma espécie de percurso, cujo papel temático não é fácil de
estabelecer considerando os inventários de que dispomos (João correu um
quilômetro); e uma causativa, com um sujeito agente e um objeto direto que parece
um agente com menos controle da situação (João correu o ladrão de sua casa). Essa
solução não é obviamente ruim, uma vez que o verbo correr, nas três situações, tem
mais ou menos o mesmo conteúdo enciclopédico?
c. As alternâncias dativa, locativa, de verbos psicológicos, etc., colocam diversos
problemas para a UTAH, pois os mesmos papéis temáticos podem ocorrer em
posições diferentes na estrutura profunda. Alguns autores, para preservar a UTAH
nos casos de alternância, criam novos papéis temáticos (por exemplo, Pesetsky 1995
para os verbos psicológicos), afirmando que os alternantes não compartilham, de
fato, os mesmos papéis. Mas a questão é: se podemos inventar papéis novos sempre
que convém, como falsear uma explicação baseada neles?
d. As hierarquias temáticas (assim como a UTAH) somente constatam regularidades
entre posições sintáticas e papéis temáticos. Não são explicativas.
e. Teorias lexicalistas, como a teoria GB, baseadas em papéis temáticos/semânticos, são
essencialmente descritivas. Não estudam os significados dos verbos/predicados e as
eventualidades que eles denotam; daí se limitarem a fazer descrições de propriedades
idiossincráticas.
f. Teorias lexicalistas baseadas em papéis temáticos recorrem à UTAH e a hierarquias
temáticas para explicar como os argumentos são projetados na sintaxe e as
regularidades verificadas nas línguas do mundo. Como veremos a seguir, teorias que
decompõem sintaticamente o verbo em estruturas de evento explicam a mesma coisa
sem precisar de semelhantes recursos.
Tendo em vista os problemas apresentados acima, neste trabalho evitaremos
visões projecionistas e baseadas em papéis temáticos. Na seção a seguir, falaremos um
pouco sobre como a Morfologia Distribuída vem tratando a questão.

3.2 Estrutura argumental em Morfologia Distribuída

Nas primeiras versões da teoria da Morfologia Distribuída, as raízes dos verbos


são licenciadas em determinados contextos sintáticos, envolvendo determinados tipos de
argumentos e núcleos funcionais com atribuições específicas. O licenciamento decorre
da compatibilidade entre certas propriedades semânticas das raízes e o significado
veiculado pelas estruturas sintáticas em que serão inseridas. Um exemplo de tratamento
da estrutura argumental nesses termos é feito por Marantz (1997), onde o autor propõe
que raízes sejam acategoriais, sendo sua categoria estabelecida pelo contexto
funcional/sintático em que ela está inserida. Marantz também propõe que existam pelo
menos dois núcleos funcionais verbalizadores, um transitivo e um incoativo/inacusativo.
O primeiro abre uma posição de especificador para o argumento causador; o segundo
não cria essa posição. A raiz do verbo destroy, por exemplo, teria, na proposta, uma
semântica mínima que a licenciaria em um contexto funcional que introduz argumento
externo agente, mas não num contexto funcional que não projeta tal posição. Na
proposta, o que licencia a raiz nesse contexto é o fato de que ela denota uma mudança
de estado externamente causada (Levin e Rappaport-Hovav 1995).
(6) vP
3
DP v’
The army 3
v √DESTROY
3
√DESTROY- the city

Como a raiz é acategorial, pode ocorrer em outro contexto sintático, como o


nominal. No exemplo abaixo, o genitivo expressa a relação temática esperada (de agente
ou causador externo), tendo em vista a semântica associada à raiz.

(7) DP (the army’s destruction of the city)


2
The army D’
3
D √DESTROY
’s 3
√DESTROY- the city

Já uma raiz como a do verbo grow, por denotar uma mudança de estado
internamente causada, pode ocorrer no contexto inacusativo/incoativo em (8), abaixo,
no contexto transitivo/causativo, semelhante a (6), assumindo uma interpretação em que
alguém cria as condições para que a mudança de estado interna se dê (uma espécie de
causação secundária), mas não em contextos como (7), como se vê pela impossibilidade
de (9) a seguir.

(8) vP
3
v √GROW
3
√GROW- tomatoes

(9) *DP (*John’s growth of tomatoes)


2
John D’
3
D √GROW
’s 3
√GROW- tomatoes

A razão para não haver a nominalização John’s growth of tomatoes (e a estrutura


acima) é a seguinte: grow só pode ser interpretado como externamente causado no
contexto – sintático – do verbalizador transitivo. Em (9), não existe esse contexto, e a
construção é bloqueada por uma incompatibilidade semântica entre a raiz e tal estrutura.
Observe-se que uma abordagem lexicalista, que assume haver duas entradas no
léxico listadas para as duas versões, transitiva e intransitiva, do verbo grow, precisa
explicar por que a nominalização com a terminação -th só pode se formar a partir de sua
versão intransitiva. A abordagem sintática de Marantz não sofre do mesmo mal.
Nos últimos anos, a pesquisa realizada dentro do arcabouço teórico da Morfologia
Distribuída tem apresentado algumas propostas interessantes para a questão da
representação da estrutura argumental associada aos verbos. Duas de suas
características-chave são: (a) eliminar a necessidade de hierarquias temáticas ou regras
de linking, que estabelecem, nas visões tradicionais, as posições sintáticas ocupadas
pelos argumentos de um predicado, e (b) apostar na idéia de que os papéis dos
argumentos, qualquer que seja sua natureza, são epifenômenos das posições que
ocupam em uma estrutura de predicados (ou de eventos) mais complexa, sintaticamente
representada.
De um modo geral, na linha do que foi discutido acima, autores como Harley
(2008), Lin (2004), Cuervo (2003), entre outros, vêm trabalhando com a ideia de que
certos núcleos funcionais são introdutores de argumentos externos e que os vezinhos
têm sabores aspectuais (funcionam como os operadores DO, BE, CAUSE, BECOME,
etc., da semântica formal tradicional). Pylkkänen (2002) amplia a discussão sobre
núcleos introdutores de argumentos e desenvolve uma complexa proposta baseada em
compatibilidades semânticas entre núcleos funcionais que compõem os VPs e em um
tratamento neo-davidsoniano (Parsons 1990) para a interpretação dos argumentos na
estrutura do VP. Parece natural que, havendo tantos núcleos funcionais introdutores de
argumentos, aposte-se numa abordagem neo-davidsoniana para a questão da relação
entre os argumentos e a eventualidade associada ao VP.
Em proposta recente, Marantz (2006, 2007) procura reduzir o número de
vezinhos, assumindo que os verbos dinâmicos possuem somente um vezinho introdutor
de atividade e que a interpretação final do VP decorre de propriedades configuracionais
entre as subeventualidades que compõem a semântica (e a sintaxe) do predicado. Na
proposta também há type-shiftings, nos quais argumentos sofrem mudança de tipo
semântico (de entidade para evento) e passam a compor a estrutura de evento denotada
pelo VP.
Na proposta que apresentaremos a seguir, combinaremos as principais idéias dos
autores discutidos bem brevemente nos três últimos parágrafos e de outros autores, não
alinhados com a MD, que serão mencionados no momento oportuno.
.

4. Uma nova proposta para estrutura de eventos

4.1 Os pressupostos

Nesta nova proposta que começaremos a descrever a seguir, vamos assumir o


seguinte conjunto de pressupostos: (a) Os papéis dos argumentos dos verbos são
aspectuais (ver, entre outros, Ramchand 2008; Borer 2005; Arad 1996; Tenny 1994) e o
tratamento deve ser neo-davidsoniano (Parsons 1990); (b) A estrutura não é projetada
dos itens lexicais – os itens lexicais (raízes acategoriais) é que são licenciados em
determinadas estruturas de evento e negociam seu significado com elas (Harley e Noyer
1998; Marantz 2001, 2007; Goldberg 1995); (c) Como consequência de (b), os papéis
dos argumentos são definidos por suas posições em relação aos núcleos funcionais ou à
raiz dentro da estrutura sintática do vP (Hale e Keyser 1993; Marantz 1997); (d) Os
verbalizadores (Marantz 1997) têm, pelo menos, três “sabores” (Harley 2008): estados
(BE), processos incoativos (GO) e atividades ou eventos (ver Ramchand 2008; Lin
2004; Cuervo 2003); (e) As derivações se dão por fases (Chomsky 1999), conforme
proposta de Marantz (2001).
Uma vez que assumimos que as raízes são licenciadas em estruturas sintáticas – e
não que as projetam – é preciso explicar a distribuição das mesmas nos diversos
contextos sintáticos em que ocorrem. Preliminarmente, proporemos que a
presença/ausência de duas propriedades combinadas tem como efeito a ocorrência ou
não de determinada raiz em determinado contexto. Representaremos isso por meio de
uma matriz com os traços [±DIN, ±CAUS]. A propriedade DIN dirá que uma raiz
associa-se tipicamente a uma eventualidade dinâmica (não-estativa); a propriedade
CAUS dirá que a raiz associa-se tipicamente a uma eventualidade causada dentro de
uma estrutura de evento. Uma raiz com essa propriedade também poderá, na nossa
proposta, predicar, ou seja, ocorrerá numa estrutura em que está combinada diretamente
a um DP, e será interpretada como uma predicação para esse DP. O sintagma resultante
do merge da raiz com o DP é verbalizado por um vezinho. O vezinho que se acrescenta
a tal estrutura introduz uma eventualidade que será interpretada como causadora da
eventualidade mais encaixada (Marantz 2006), representada pelo sintagma raiz. As
raízes sem a propriedade CAUS (raízes [–CAUS]) se combinarão diretamente ao
vezinho, funcionando como modificadores adverbiais (de modo) para eventualidades
dinâmicas ou como nomeadores de estados (quando uma raiz não dinâmica combina-se
com um vezinho estativo e cria um verbo transitivo que denota um estado).
Nas seções abaixo, apresentamos como as ideias acima podem ser aplicadas a um
conjunto de verbos. As propostas ainda dão seus primeiros passos.

4.1.1 Verbos de alternância causativo-incoativa

Listamos em (10), a seguir, alguns exemplos de verbos que sofrem a alternância


causativo-incoativa:

(10) ferver, abrir, rasgar, afundar, fechar, quebrar, girar, rodar, rolar, (escorregar),
(correr), (chegar), etc.

Tomando as estruturas propostas por Marantz (2007), assumiremos que verbos de


alternância causativo-incoativo têm uma estrutura causativa na qual um vezinho
introduz uma eventualidade causadora e o sintagma raiz introduz outra eventualidade,
estativa ou dinâmica, que é causada. A alternância se explica pela possibilidade de se
introduzir um argumento originador na estrutura por meio de um núcleo funcional, Voz
(Kratzer 1996; Chomsky 1995; Pylkkänen 2002), anexado acima do vP. A anexação do
núcleo cria uma posição (especificador) para o argumento externo e dispara a operação
de identificação de evento (ver Kratzer 1996), que identifica o evento introduzido pelo v
com o evento introduzido pelo próprio núcleo de Voz. O exemplo (11) ilustra a estrutura
sintática associada ao verbo ferver e esboça o cálculo semântico correspondente (à
maneira neo-davidsoniana de Parsons (1990), ainda que os papéis envolvidos sejam
aspectuais, não temáticos), considerando os argumentos envolvidos:
(11) Voz-P = λe.[ORIG(o-guarda, e) & (s)[fervido(s) & TEMA (a-porta, s) & CAUS(e, s)]]
2
DP Voz' = λx.λe.[ORIG(x, e) & (s)[aberto(s) & TEMA (a-porta, s) & CAUS(e, s)]]
o guarda 2
Voz vP = λe.(s)[aberto(s) & TEMA (a-porta, s) & CAUS(e, s
3
v √P = λs.[aberto(s) & TEMA (a-porta, s)]
3
DP √abr-
a porta

A estrutura (11) é bieventiva: o vezinho denota um evento causador, não


especificado, e o sintagma raiz denota uma eventualidade causada. A raiz do verbo tem,
na nossa proposta, a propriedade [+CAUS] e combina-se diretamente com o DP em
(11), estabelecendo, assim, uma relação de predicação. Em alguns casos, a raiz denota
um estado: ferver, abrir, rasgar, afundar, fechar, quebrar etc. Tais raízes servem,
tipicamente, à formação de passivas de estado alvo (ver Kratzer 2001; Embick 2001), e
teriam a matriz de traços [–DIN, +CAUS]. Em outros casos, a raiz denota um evento
dinâmico, temporalmente homomórfico à atividade causadora: girar, rodar etc. A matriz
associada a tais raízes é [+DIN, +CAUS].
Mas o que nos leva a afirmar que temos duas eventualidades nos verbos de
alternância? Em casos como os do verbo abrir, em que o estado atingido (aberto) é
claramente reversível, podemos usar advérbios temporais que modificam diferentes
eventualidades dentro da estrutura. Por exemplo, em o guarda abriu a porta em dois
minutos, o advérbio modifica a atividade causadora, que termina quando o estado
“aberto” é atingido. Já em o guarda abriu a porta por alguns minutos, temos uma
situação em que porta se manteve aberta por alguns minutos (o guarda a manteve aberta
por alguns minutos), e o advérbio estabelece uma duração para o estado (aberto) da
porta. Observa-se que o cálculo semântico proposto para (11) contém duas
eventualidades representadas pelas variáveis eventivas s e e. O advérbio em dois
minutos toma a eventualidade representada por e, gerando a seguinte expressão lógica
(após a anexação do núcleo flexional de tempo passado, que atribui quantificação
existencial ao evento causador): (e)[ORIG(o-guarda, e) & em-dois-minutos(e) &
(s)[fervido(s) & TEMA (a-porta, s) & CAUS(e, s) & t(e) < ts]]. Por sua vez, o advérbio
por alguns minutos toma a eventualidade representada por s, gerando a seguinte
expressão lógica, após a anexação, na estrutura, de um núcleo introdutor de tempo:
(e)[ORIG(o-guarda, e) & (s)[fervido(s) & TEMA (a-porta, s) & CAUS(e, s) & por-
alguns-minutos(s) & t(e) < ts]]. Na expressão, ts denota o tempo da fala.
O mesmo raciocínio vale para frases como o João girou a bola atrás da porta.
Teríamos as seguintes expressões lógicas para as duas interpretações: (e)[ORIG(o-
João, e) & (e')[girar(e') & UNDERGOER (a-bola, e') & CAUS(e, e') & atrás-da-
porta(e') & t(e) < ts]] para a primeira leitura e (e)[ORIG(o-João, e) & atrás-da-porta(e)
& (e')[girar(e') & UNDERGOER (a-bola, e') & CAUS(e, e') & t(e) < ts]] para a
segunda leitura.

4.1.2 Verbos inergativos


Para os verbos inergativos como gritar, propomos que as raízes tenham a seguinte
especificação na matriz sugerida anteriormente: [+DIN, –CAUS]. Uma vez que não traz
a propriedade CAUS, não predica, não é licenciada em um contexto em que está
combinada diretamente com um DP (complemento); denota, pois, um modo, e combina-
se diretamente com o verbalizador, funcionando como um modificador adverbial. Uma
vez que a raiz denota um modo de agir, ela deve ser licenciada sempre em contextos que
contenham um núcleo Voz, que projeta uma posição de sujeito, interpretado como
originador. Exemplos de verbos inergativos bastante conhecidos na literatura (ver, entre
outros, Hale e Keyser 2002) são: cantar, gritar, pular, dançar, trabalhar etc. Na
estrutura abaixo, apresentamos a posição ocupada pela raiz dentro da estrutura e o
cálculo semântico correspondente.

(12) Voz-P = λe.[gritar(e) & ORIG(o-João, e)]


3
DP Voz' = λe.λx.[gritar(e) & ORIG(x, e)]
o João 3
Voz vP = λe.[gritar(e)]
3
v √grit-

4.1.3 Verbos transitivos sem alternância

Algumas eventualidades/atividades produzem mudança de estado em entidades.


Exemplos de verbos que denotam tais tipos de eventos/atividades são pintar, varrer, etc.
Não há, com esses verbos, expressões como *o muro pintou, *a sala varreu, etc.
Seguindo Marantz (2007), propomos, na estrutura (13) a seguir, que o DP complemento
se combina diretamente com o nó que se compõe da raiz e do vezinho. Assumimos que
as raízes de verbos como pintar, varrer, etc., são dinâmicas (denotam atividades), mas
não causadas – são, de fato, eventos causadores de mudança de estado (uma outra
eventualidade) em indivíduos. Ou seja, dentro da nossa matriz de traços, trazem a
seguinte especificação, que é a mesma especificação dos verbos inergativos: [+DIN, –
CAUS].

(13) Voz-P
3
DP Voz'
o João 3
Voz vP
qp
v DP
3 5
v √pint- o muro

Isso não quer dizer que não haja um estado atingido envolvido na estrutura de
evento associada ao verbo. A questão é que o estado atingido não é denotado pela raiz
do verbo. Teríamos o seguinte cálculo semântico associado a (13) acima:
(14) Voz-P = λx.λe.[pintar(e) & ORIG(o-João, e) & (s)[TEMA (o-muro, s) & CAUS(e, s)]]
3
DP Voz' = λx.λe.[pintar(e) & ORIG(x, e) & (s)[TEMA (o-muro, s) & CAUS(e, s)]]
o João 3
Voz vP = λe.[pintar(e) & (s)[TEMA (o-muro, s) & CAUS(e, s)]]
qp
v DP
3 5
v √pint- o muro

Em (14), o estado atingido não está especificado, mas tem que ser um estado
compatível com a atividade de pintar. É importante salientar que não estamos
assumindo que na semântica da raiz encontramos todos os componentes (evento e
estado) da expressão acima. Dentro de uma proposta de derivação por fases como a que
encontramos em Marantz (2001), Arad (2003) e Marvin (2002), a semântica das raízes é
negociada no ambiente sintático criado pelo primeiro categorizador – no caso em
questão, o vezinho; o que quer dizer que os elementos envolvidos nesse ambiente, como
o DP complemento interno ao vP, influenciam no significado alcançado pelo vP – ou,
melhor, especificam o significado da raiz. Note-se que o tipo de complemento vai dizer
se temos um evento de criação (João pintou um quadro) ou não (João pintou o muro).
Assumimos, pois, que a presença do DP dentro do vP faz com que o significado da raiz
passe a incluir, nos casos aqui discutidos, um estado atingido, do qual a entidade
denotada pelo DP é tema.
Podemos observar que, ao assumirmos que a interpretação do vP é bieventiva,
explicamos o fato de haver advérbios modificando uma ou outra das eventualidades que
compõem a estrutura de evento do vP. Por exemplo, em João pintou muito bem o muro,
o advérbio pode modificar tanto a atividade como o estado atingido (o resultado ficou
bom); em João pintou o muro com pinceladas largas, o advérbio modifica somente a
atividade.
Parece claro, pois, que a presença/ausência de um complemento, e o tipo de
complemento que ocorre no vP, têm efeito na interpretação do verbo. Nas situações em
que o verbo pintar é usado intransitivamente (como em João pinta muito bem), o vP
será monoeventivo, com uma estrutura como a de gritar acima, a locução adverbial
muito bem modificando não-ambiguamente a atividade. Nesse caso, por não haver um
DP complemento, o significado da raiz não inclui um estado atingido, limitando-se a
especificar determinado tipo de atividade.
Há verbos em que o complemento não sofre mudança de estado nem se desloca no
espaço. É o caso de verbos como ler ou empurrar. Em João leu um livro, o
complemento não muda de estado com a atividade; somente estabelece uma espécie de
percurso para a atividade. Propomos que, como nos casos anteriores, a raiz do verbo é
do tipo [+DIN, –CAUS], e, portanto, não introduz uma eventualidade causada e predica.
A diferença entre esse verbo e os anteriores é que, nos outros casos, a presença do
complemento produz, no vP, uma leitura onde há um subevento que tem como
argumento o complemento do verbo; para o verbo ler não há subevento; o complemento
introduz uma função que vamos chamar de caminho (ver, entre outros, Tenny 1994),
função que relaciona um evento a uma entidade, estabelecendo um homomorfismo entre
a extensão espacial da entidade (o livro) e a duração da atividade (de ler) em questão.
(15) Voz-P = λe.[ler(e) & CAMINHO(e, o-livro) & ORIG(o-João, e)]
3
D Voz' = λx.λe.[ler(e) & CAMINHO(e, o-livro) & ORIG(x, e)]
o João 3
Voz vP = λe.[ler(e) & CAMINHO(e, o-livro)]
qp
v DP
3 5
v √le- o livro

A mesma função caminho ocorreria em alguns verbos de movimento com


complemento, como na frase o João andou um quilômetro.
Como vemos, a despeito das diferentes interpretações que um verbo transitivo,
eventivo e não-alternante possa ter, assumimos as mesmas estruturas sintáticas para
todos, com o complemento anexado ao v – e não interno ao sintagma raiz, como ocorre
nos verbos de alternância causativo-incoativa discutidos na primeira seção deste
trabalho. Portanto, não estamos assumindo que a todo tipo de interpretação ou estrutura
de evento associada a um verbo corresponderá um tipo de estrutura sintática. Mas isso
não que dizer que a estrutura sintática não reflita certas propriedades das estruturas de
evento. Por exemplo, enquanto os verbos desta seção podem envolver uma
subeventualidade causada ou não, os verbos alternantes necessariamente envolvem uma
subeventualidade causada, que está associada à raiz do verbo. Nossa matriz de traços,
com o traço [+CAUS] procura dar conta dessa característica.

4.1.4 Verbos de alternância inacusativa-inergativa

O verbo correr pode ter sujeitos não-animados, como em A pedra correu (morro
abaixo), que, de acordo com o que sabemos sobre o mundo, não podem ser
iniciadores/originadores de eventos; o movimento deles é necessariamente causado e é
possível causativizar a estrutura. Vejamos os exemplos abaixo:

(16) O monitor correu a lista de presenças na sala.


(17) Pedro correu a porta atrás de Joana.

Quando o argumento do verbo é um ente animado e há um sintagma preposicional


que indica algum lugar onde o sujeito do verbo está ao final do processo, a estrutura
também pode ser causativizada, como é o caso de O João correu o inquilino do
apartamento.
Em algumas línguas com dois auxiliares para tempos perfeitos, como o italiano, o
verbo correr toma o auxiliar de inacusativo (essere) quando o argumento do verbo é um
ente animado e há um PP que indica um ponto final para o movimento. Além disso,
nesse contexto é possível haver cliticização com ne-, outro conhecido indicador de
inacusatividade, segundo a literatura. Isso sugere que o sintagma preposicional presente
na estrutura de alguma forma “atrai” o argumento do verbo para o interior do sintagma
verbal, fazendo o verbo comportar-se como inacusativo.
O verbo correr, portanto, comporta-se como verbo inergativo quando tem um
sujeito animado e não tem um sintagma preposicional que estabeleça um ponto final (ou
inicial; ver Borer 2005) para o trajeto; mas se comporta como um verbo inacusativo (e
de alternância causativo-incoativa) quando o sujeito é não-animado ou há um sintagma
preposicional que estabelece um ponto final para o movimento denotado pelo verbo, um
lugar alcançado.
Como explicar, com a matriz de traços apresentada acima, que a raiz do verbo
correr ocorra em estruturas de evento tão diversas?
Adotando a mesma matriz de traços que vimos assumindo desde o início,
propomos que a raiz do verbo correr tenha a seguinte especificação de traços: [+ DIN, α
CAUS]. Aqui, α indica que a raiz não é especificada para o traço de causação; o sinal é
especificado pelo contexto em que a raiz ocorre: nos causativos e inacusativos: [+DIN,
+CAUS]; nos outros: [+DIN, –CAUS], e funciona como modificador adverbial do
vezinho.
Portanto, certas raízes podem ser subespecificadas quanto a uma ou outra das
propriedades semânticas da matriz, o que explica seu comportamento mais livre entre
diversas estruturas.

4.1.5 Verbos inacusativos

Como sabemos, há verbos exclusivamente inacusativos: nascer, morrer, chegar


etc. As propostas até o momento discutidas não conseguem dar conta de verbos
inacusativos que não ocorrem em estruturas de alternância causativo-incoativa. Se
assumíssemos que as raízes desses verbos ocorrem em (11) acima, não explicaríamos
seu comportamento; esperaríamos transitivizações dos mesmos. Então, como explicar
seu comportamento? Assumiremos um segundo vezinho, com um “sabor” distinto do
vezinho que usamos até o momento em nossas análises. Esse vezinho é incoativo, de
processo, e colocaremos nele, para diferenciá-lo do anterior, o subescrito GO (Cuervo
2003), que, se não é combinado com um vezinho eventivo de que vimos falando até o
momento, não pode ser causativizado. Com esse novo primitivo, a estrutura de um
verbo como chegar é a seguinte:

(18) vP
3
DP √P
o João 3
vGO √cheg-

Nessa proposta, a raiz deve ser do tipo [+DIN, –CAUS], e não estabelece uma
predicação para o seu argumento. Ela funciona como modificadora de um vezinho de
processo (incoativo). Como a eventualidade introduzida pelo vezinho é incoativa, ela
não pode identificar-se com a eventualidade introduzida pelo núcleo de Voz – ou seja, a
operação de identificação de evento que possibilita a anexação de um núcleo de Voz à
estrutura não é permitida aqui. Isso explicaria o fato de tais verbos não serem verbos de
alternância causativo-incoativa.
Entretanto, algumas coisas ficam por explicar. A matriz, com as distinções
propostas, não explica porque a raiz de um verbo como nascer não ocorre em uma
estrutura de evento monoeventiva, como a do verbo gritar em (12). Outra questão que
se coloca é a seguinte: por alguma razão, o verbo chegar pode ser causativizado quando
se anexa a ele um PP que indica um movimento com ponto final: João chegou a cadeira
para o lado. Como explicar essas coisas?
As respostas para essas questões ficam para trabalhos futuros.

4.1.6 Verbos de estado

O último grupo de verbos de que trataremos neste breve trabalho é o dos verbos
de estado transitivos. Eles teriam raízes com a matriz [–DIN, –CAUS].
Em nossa proposta, há um vezinho que introduz estado (BE) e que se combina
diretamente com a raiz, a qual dá nome ao estado que ele introduz. Uma vez que a raiz
não estabelece uma predicação, a única maneira de introduzir um argumento externo é
através de um núcleo de Voz. O argumento externo será interpretado como tema ou
portador do estado em questão. O complemento faz parte da descrição do estado
(Ramchand 2008), sendo, aqui, interno ao sintagma raiz.

(19) Voz-P = λs.[possuir-uma-casa (s) & TEMA(o-João, s)]


2
DP Voz' = λx.λs.[possuir-uma-casa (s) & TEMA(x, s)]
o João 2
Voz vP = λs.[possuir-uma-casa (s)]
3
vBE √P
3
√possu- DP
uma casa

5. Comentários finais

Como se pode notar, as propostas ainda são preliminares. Consideramos somente


um pequeno conjunto de verbos e mesmo esses nos trazem certos problemas que
precisam ser resolvidos. Mas entendemos que as orientações do trabalho estão
basicamente corretas, e investiremos algo mais na melhoria das propostas.

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