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A Cooperação Internacional brasileira com o continente africano no governo Lula (2003-2010)

Henrique Gerken Brasil

Resumo

Um dos pontos mais destacados da Política Externa Brasileira do governo Luis Inácio Lula da
Silva (2003-2010) foi a valorização das relações externas com o continente africano. Em
pesquisa recente, analisei essa política externa em diferentes perspectivas, as quais denominei de
dimensões: dimensão política; econômica; e cooperativa. Neste trabalho, pretende-se concentrar
a análise na dimensão cooperativa dessas relações externas, ou seja, na cooperação internacional
brasileira em relação ao continente africano.
A cooperação internacional entre Brasil e África não é nova, assim como as relações externas,
mas ganhou fôlego ao longo dos dois governo de Lula. As principais áreas de cooperação, tanto
antes como nesse período, foram as áreas de agricultura, educação e saúde. Além disso, os países
africanos de língua portuguesa (PALOPs) concentram o maior número de projetos de
cooperação, mas durante o governo Lula, outros países africanos passam a receber projetos de
cooperação.
A cooperação entre Brasil e África se insere dentro do campo da chamada Cooperação Sul-Sul,
diferenciando-se da chamada Ajuda Oficial ao Desenvolvimento (AOD) e da Cooperação
Internacional para o Desenvolvimento (CID), uma vez que aquela ocorre entre países em
desenvolvimento, baseada em horizontalidade, reciprocidade e benefícios comuns. A cooperação
com países africanos vem desde a década de 1960, mas apenas em 1987 que o governo brasileiro
cria a Agência Brasileira de Cooperação (ABC) – sob a guarda do Ministério das Relações
Exteriores (MRE) – que passa a coordenar as ações de cooperação brasileira, tanto no papel de
receptor quanto de doador. A ABC enfatiza o papel solidário brasileiro na cooperação Sul-Sul,
considerando o aspecto “demand-driven” dos projetos, ou seja, parte da iniciativa africana, no
caso, de estabelecer uma cooperação, além do aspecto de não exigir condicionalidades para a sua
execução.
O orçamento para o cooperação internacional brasileiro teve um aumento gradativo ao longo do
tempo, chegando ao auge em 2010, ainda durante o governo Lula, passando a diminuir a partir
do governo Dilma Rousseff. É interessante notar, no entanto, que países africanos respondem
pela maior parte de projetos e de orçamentos da agência. Além disso, o impulso orçamentário da
ABC ocorre de forma notável no segundo mandato do presidente Lula, ao mesmo tempo que 77
novos funcionários concursados são admitidos na agência.
Desse modo, ao fim do governo Lula, o Brasil tinha Acordos de Cooperação com 35 países
africanos, e mais de 460 projetos foram implementados ao longo do período, de curto e de longo
prazo. A concentração dos projetos ainda fica com os PALOPs – mais da metade dos projetos –,
mas é notável a expansão de países recipientes, chegando a 40, uma clara expansão em relação a
anos anteriores. De modo similar, as áreas cobertas por esses projetos se concentram em
agricultura, saúde e educação, mas outros setores também testemunham crescimento, como Meio
Ambiente, Administração Pública, Cidades, Desenvolvimento Social, Cultura, Esporte e
Indústria e Comércio.
Apesar do discurso brasileiros de solidariedade e horizontalidade na cooperação internacional, os
projetos de cooperação estão fortemente ligados à política externa. Durante o governo Lula, sua
diplomacia presidencial foi fator fundamental para o crescimento das relações com o continente
africano, com a iniciativa de empreender diversas viagens e de abrir novas embaixadas no
continente africano, o que seguramente abriu e melhorou canais de comunicação, facilitando a
chegada de demandas africanas por cooperação.
Este trabalho, portanto, busca jogar luz nas iniciativas brasileiras de cooperação internacional em
relação aos países africanos, com o objetivo de apontar não apenas as ações de sucesso mas
também apresentar problemas, uma vez que não houve continuidade dessas ações após o governo
Lula.