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Perer Burke O que é historia cultural? Tradugao: Senecio Goes pe Pauta F Introducéo ; A hust6nia cultural, outrora uma Cinderela entre as E disciplinas, desprezada por suas irmas mais bem-su- : cedidas, foi redescoberta nos anos 1970, como sugere a lista cronolégica das publicagdes ao final deste vo- lume. Desde entao vem desfrutando de uma renova~ so, sobretudo no mundo académico — a histéria apresentada na televisio, pelo menos na Gra-Breta- nha, continua sendo em sua maior parte militar, po- fe litca e, em menor extensdo, social. Para alguém, como eu, que vem praticando a diseiplina hé cerca de 40 anos. essa renovagio de interesse € extremamente gratificante. mas ainda exige uma explicagao. O propésito deste livro é exatamente explicar nido apenas a redescoberta, mas também 0 que é his t6nia cultural, ou melhor: o que os historiadores cul- turais fazem. Para isso, dedica-se as diferengas. aos de- bates e conflitos, mas também aos interesses e tradiges compartilhados. Assim, tenta-se aqui combinar duas abordagens opostas. embora complementares: uma delas interna, preocupada em resolver os sucessivos problemas no interior da disciplina, ¢ outra externa relacionando o que os historiadores fazem ao tempo em que vivem. 8 Oqueenistons cutruraL? ‘A abordagem inrerna trata da presente renovagio da his- t6na cultural como uma reagdo as tentativas anteriores de es- tudar o passado que derxavam de fora algo ao mesmo tempo dificil e umportante de se compreender. De acordo com e: ponto de vista, 0 historiador cultural abarca artes do passado que outros historiadores nao conseguem alcangar. A énfase em “culturas” intemras oferece uma saida para a atual frag- mentagio da disciplina em especialistas de histéna de popula- io. diplomacia, mulheres. idéias, negécios. guerra e assim por diante. A abordagem externa, ou viséo de fora, também tem algo a oferecer. Em prumeiro lugar. vincula a ascensio da histéria cultural a uma “virada cultural” mais ampla em termos de cigncta politica, geografia, economua, psicologia, antropologia ¢ “estudos culturais” Houve um deslocamento nessas discipli- nas, pelo menos entre uma munorta de académicos, que passa- ram da suposigio de uma racionalidade imutavel (a teoria da escolha racional em eleigées ou em atos de consumo, por exem- plo) para um interesse crescente nos valores defendidos por grupos particulares em locais e periodos especificos. ‘Um sinal dos tempos é a conversio do cientista politico norte-amenicano Samuel P. Huntington A idéia de que, no mundo de hoje, as distingdes culturass so mais importantes que as politicas e econdmicas, de modo que, desde o fim da Guerra Fria, o que vemos néo é tanto um conflito internacional de inte- “choque de awvilizagdes’. Outro indicador do clima intelectual é 0 sucesso internacional dos estudos culturais. Na Riissia da década de 1990, por exemplo, a Kul'turologija (como Ié se chama) tornou-se disciplina obrigat6ria nos cursos superiores, particularmente preocupada com a dentidade russa ‘e muitas vezes ministrada por ex-professores de marxismo-le- ninismo, que antes tinham uma interpretacio econdmica da his- t6ria ¢ se converteram a uma interpretagio cultural.! Intxooucio 9 Essa virada cultural é, cla mesma, parte da hist6ria cultural da ulnma geragio. Fora do dominio académico, est ligada a uma mudanga na percepgio manifestada em expressdes cada vez mais comuns, como “cultura da pobreza”. “cultura do medo”, “cultura das armas”, “cultura dos adolescentes” ou “cultura corporativa” (ver p.45) e também nas chamadas “guerras de culturas” nos Estados Unidos ¢ no debate sobre o “multiculturalismo” em muttos pafses. Diversas pessoas atual- mente falam de “cultura” a respeito de situagSes cotidianas que hé 20 ow 30 anos terram merecido o substantivo “sociedade” Como sugere a popularidade de expressdes como essas, é cada vez mais dificil dizer 0 que nao faz parte da “cultura”. O estudo de hist6ria néo é excegio a essa tendéncia geral. O que é histéria cultural? A pergunta foi feita publicamente hd mais de uum século, em 1897, por um histonador alemao pioneiro e de certo modo também um dissidente, Karl Lamprecht. Para 0 ber ou para o mal, a questio ainda espera uma resposta defini- tiva, Nos itumos tempos, foram apresentadas aos leitores his- ténias culturais da Jongevidade, do pénus, do arame farpado e da masturbagio. As fronteiras do tema certamente se ampliaram, mas esta ficando cada vez mais dificil dizer exatamente 0 que elas encerram. ‘Uma solusio para o problema da definicao de histénia cul- tural poderia ser deslocar a atengio dos objetos para os métodos de estudo. Aqu: também, no entanto, 0 que encontramos é va- niedade e controvérsia. Alguns histoniadores culturais traba- Tham intuitivamente, como Jacob Burckhardt declarou fazer. Poucos tentam usar métodos quantitativos. Alguns descrevem seu trabalho em termos de uma procura de significado, outros focalizam as préticas ¢ as representacdes. Alguns véern seu ob- jetivo como essencialmente descritwvo, ou acreditam que a his téria cultural, como a histéria politica, pode e deve ser apresen- tada como uma narrativa, to Oqur estonia current? O terreno comum dos historiadores culeurais pode ser des- crito como a preocupagie com o simbélico ¢ suas interpreta- sbes. Simbolos, conscientes ou nao, podem ser encontrados em todos os lugares, da arte a vida cotidiana, mas a abordagem do passado em termos de simbolismo é apenas uma entre outras. Uma histéria cultural das calgas, por exemplo, é diferente de uma histéria econdmuca sobre o mesmo tema, assim como uma histéria cultural do Parlamento seria diversa de uma hist6ria politica da mesma instituigao. Nessa situagdo confusa (segundo aqueles que a desapro- vam) ou de didlogo (para aqueles que a julgam estumulante}, © caminho mais sabio pode ser adaptar a epigrama de Jean- Paul Sartre sobre a humanidade e declarar que, embora a hustéria cultural no tenha esséncia, ela possui uma historia prépria. As atrwidades de fer ¢ escrever sobre o passado esto to presas a0 tempo quanto out ocasionalmence comentértos sobre a histéria cultural da hs- téria cultural, tratando-a como exemplo de uma tradicao da cultura em perpétua transformasio, constantemente adap- tada a novas circunstancias Para ser um pouco mais preciso. o trabalho individual dos historiadores culturais precisa ser localizado em uma das dife- rentes teadi cionais. A importdneia da tradigio germanica, do final do século XVII em diante, ficard evidente nas paginas que se seguem — embora a auséneia relativa de uma contribuigéo alema de peso para esse tipo de histéria nos diltmos 50 anos constitua um problema a ser tratado por um futuro historiador cultural. A tradigao holandesa pode ser vista como um produto da alemé: mas continuou a florescer: No mundo de lingua inglesa, ocorre um contraste significativo entre a tradigio da América do Norte de interesse pela hist téncia a ela. De modo semelhante, por muttos anos os antropé- \s. Portanto, este livro fara culturais. geralmente definidas em termos na- 1a cultural ¢ a tradicio mglesa, de resis- I Istkooucan x3 logos britanicos descreveram a si mesmos como “sociats”, en: quanto seus colegas norte-amenicanos se denominaram “cultu- ais. No caso da historia cultural, foram acima de tudo os norte-americanos — especialmente os descendentes dos im grantes de lingua alema, de Peter Gay a Carl Schorske — que assumiram a tradigao alema, transformando-a durante esse processo. A ligagao entre o interesse americano pela cultura ea tradicio da imigragao parece ser munto prdxima. Se assim for, a histérta cultural na Inglaterra deverd ter um grande futuro. A tradicdo francesa é distinta. entre outras coisas, por evitar otermo “cultura” — pelo menos até época bem recente —e por dingir 0 foco, em ver. disso, para civilisation. mentalités collecti- ves e imaginaire social. Hi trés ou quatro geracBes os historia- dores associados a revista Annales vém fazendo uma série nots vel de contribuicdes importantes nesse campo: para a histéria das mentalidades, sensibilidades ou “representagées coletivas” nna época de Marc Bloch ¢ Lucien Febvre: para a histénia da cul- tura matenal (crvilisation matérielle), na época de Fernand Braudel; ¢ para a hist6na das mentalidades (de novo) e da una~ ganagao social, na época de Jacques Le Goff, Emmanuel Le Roy Ladunie ¢ Alain Corbin. A permanente criatividade de uma es- cola de historiadores durante és ou quatro geracGes é to noté- vel que requer uma explicagio historica. Minha hipétese, se é que ela tem importéncia, é que os lideres cram suficientemente carisméticos para atrair seguidores talentosos, mas também abertos 0 bastante para deixé-los se desenvolver a seu modo. Essa tradicio distinta estava associada ao que se pode chamar de “resisténcia” ao estilo alemao de hist6ria cultural (embora 0 en- tusiasmo de Febvre por Johan Huizinga meresa ser mencio- nado}. Tal resisténeia parece estar sendo rompida & proporcéo que a tradigao historiografica francesa se torna menos visivel Como na histéna da cultura em geral, veremos, nas préxi- mas paginas, que movimentos ou tendéncias muitas vezes che- a2 Gaur enisronia cutrunat? gam a.um fim abrupto nao por esgotarem seu potencial, mas porque foram suplantados pelos concorrentes. Esses concorren- tes, 08 “fils”, pode-se dizer, normalmente exageram a dife- renga entre sua prépria abordagem ea de seus pais e mies, dei- xando para a geragio seguinte a tarefa de perceber que seus avés intelectuais eram, afinal, capazes de ter alguns insights. ‘Come historiador cultural que ha anos vem pondo em pré- tuca varias das diferentes abordagens discutidas nas préximas paginas — hist6ria social da cultura clevada e da cultura popu- lat antropologia hist6rica e hist6na da performance —, gosta~ ria de dizer, como Edith Piaf. “je ne regrette rien’, e acho que todas esas abordagens continuam a produzir msights, Os capitulos que se seguem rio tratar. em ordem cronol6- gica, de algumas das prinaapais maneiras pelas quaus a hust6ria cultural costumava ser, & sera, pode ou deve ser escrita no fu- turo, Ao discutir exemplos concretos. tente: — a medida que meu conhecimento parcial de um campo fragmentado permite —atingir uma espécie de equilibrio entre diferentes periodos hustéricos, partes do mundo e departamentos académicos. in- cluindo 05 de arte, axquitetura, geografia, literatura, muisica e cigncia, além do departamento de “histéria”’ (O preco dessa decisio for omitir necessanramente boa parcela do estumulante trabalho mais atual, grande parte dele realizado por amigos e colegas meus. No entanto, quero detxar claro desde Jogo que ha aqui um levantamento de tendéncias ilustradas por meio de exemplos, e nao uma tentativa de listar ou discutir todos os melhores trabalhos produzidos pela tiltima geragio. Os estudos citados no texto so apresentados com a data da publicagio original.” Quando, nas obras citadas em notas, nko ‘AS obras mencionadas no texto que jé se encontram traduzidas para o por- rugués averam seu titulo axado de acordo com a tradugio, para facilicar a Intmoougio 33 aparecer o lugar da publicagio, este € sempre Londres. As infor mages sobre termos téentcos ¢ pessoas mencionadas no texto podem ser encontradas no indice. tdenuificagio e consulta, Manteve-se no entanto a data da publicagio ongi- nal, tendo em vista a perspectava cronolégica seguida pelo autor. (NT) A Grande Tradicao A histéria cultural nao é uma descoberta ou invengio nova. Ja era praticada na Alemanha com esse nome (Kulturgeschichte) hd mais de 200 anos. Antes disso havia histérias separadas da filosofia, pintura, litera- tura, quimica, jinguagem e assim por diante. A partir cle 1780, encontramos histérias da cultura humana ou de determinadas regides ou nagies.! No século XIX, 0 termo Culture, ou Kultur, for empregado com freqiiéncia cada vez, maior na Ingla~ terra ema Alemanha (os franceses preferiam falar em crvilisation). Assim, © poeta Matthew Arnold publi- cou Culture and Anarchy em 1869, ¢ 0 antropélogo Edward Tylor, Primitrve Culture em 1871, enquanto na Alemanha da década de 1870 um amargo con‘lito entre Igreja ¢ Estado tornou-se conhecido como “a luta pela cultura” (Kulturkampf, ou, como dizemos hoje, “guerra cultural” * Em um capitulo breve como este hé espaco ape- nas para esbogar a histéria da histéria cultural, to- mando algumas das linhas principais e mostrando como elas se entrelagam. A histéria pode ser dividida em quatro fases: a fase “clissica”. a fase da “hist6ria social da arte”, que comegou na década de 1930: a des- coberta da histéria da cultura popular, na década de 5 36 O cur éssroma currunat? 1960; ¢ a “nova histéria cultural”, que sera discutida em capitu- los posteriores. Entretanto, é bom ter em mente que as divisdes entre essas fases no eram tao claras, na época, quanto se cos- tuma lembrar apés 0 acontecimento. ¢iré se mostrar uma série de semelhangas ou continurdades entre novos ¢ velhos estilos quando for apropriado. Historia cultural classica Retratos de uma época © periodo entre 1800 e 1950 for uma etapa que poderia se chamar de histéria cultural “cléssica”. Usando a frase cunhada pelo critico inglés ER. Leavis para deserever o ro- mance, podemos falar de uma “grande tradicao", Essa tradi- go inchuu classicos como A cultura do Renascimento na Iidlia, do historiador suigo Jacob Burckhardt, publicado pela primeira vez em 1860, e Outono da Idade Média (1919), do historiador holandés Johan Huizinga. dots livros que conti- nuam valendo a pena les. Em ambos esta implicita a idéia de que o historiadar pinta o “retrato de uma época”, para citar 0 subtitulo de um terceiro cléssico, Victorian England (1936), de G.M. Young, Esse periodo também poderia ser chamado de “clissico” no sentido de que foi um tempo em que os historsadores culturats concentravam-se na histéria dos classicos, um “cinone” de obras-primas da arte, literatura, filosofia, ciéncia e assim por diante. Burckhardt e Huizinga tanto eram artistas amadores como amantes da arte, e davam inicio a seus famosos livros para entender certas obras, colocando-as em seu contexto his- t6rico: as pinturas dos irmios van Eyck, no caso de Hurzinga, ¢ as de Rafael. no caso de Burckhardt.> A.cranoE THaDIGio. 17 A diferenca entre esses académucos ¢ os historiadores espe- cializados em arte ou literatura era que os historiadores culra- rats estavam particularmente preocupados com as conexdes entre as diferentes artes. Eles discutiam essas conexGes em ter- mos da relagio entre as diferentes artes e 0 que muitas vezes era chamado, seguindo Hegel outros filésofos, 0 “espirito da época” ou Zeitgeist. Dessa forma, alguns hustoriadores alemies consideravam o que faziam Geistesgeschichte, termo que muitas vezes é tradu- zido por “histéria do espirito” ou “histéria da mente”. mas que também pode ser expresso por “histéria da cultura”, Seus pra~ ticantes “liam” pinturas, poemas etc. especificos, como evidén- 1as da cultura e do periodo em que foram produzidos. Ao fazer 1sso, ampliavam a 1déia de hermenéunca, a arte da interpreta- cio. O termo “hermenéutica” se referia originalmente a inter- pretages de textos, especialmente da Biblia, mas no século XIX foi ampliado para incluir a interpretagio de artefatos e agies. Certamente nao por acaso que os maiores historiadores culturais do periodo, Jacob Burckhardt e Johan Huizinga, em- bora académicos profissionais tenham escrito seus livros prin- cipalmente para o grande pablico. Nem é por acaso que a hist6~ ia cultural tenha se desenvolvido no mundo de lingua alema antes da unificagao da Alemanha, quando a nagio era uma co- munidade cultural, mais do que politica, ou que a histéria cul- tural e a histéria politica tenham sido vistas como alternativas ‘ou mesmo opostas. Na Priissia, entretanto. a histéria politica era dominante. A histéria cultural foi descartada pelos seguido- res de Leopold von Ranke, considerada marginal ou amadoris- ‘ica, jd que no era baseada em documentos oficiais dos arqui- vos € nao ajudava na tarefa de construgao do Estado.* Em seu trabalho académico, Burckhardt variava ampla- mente, comegando na Grécia Antiga, passando pelos primeiros séculos cristios e pelo Renascumento italiano ¢ chegando ao 38 Que ésisromta curtunat? mundo do pintor flamengo Peter Paul Rubens. Deu relativa- mente pouca énfase a histé evocar uma cultura passada e salientar 0 que chamou de seus elementos “recorrentes. constantes e tipicos”. Trabalhava in- turtivamente, mergulhando na arte ¢ na literatura do periodo que estava estudando e produzindo generalizagées que ilus- trava com exemplos, anedotas e citagies, apresentados em sua prosa vigorosa, Em seu livro mais famoso, por exemplo, Burckhardt des- creveu o que chamou de individualismo, competttividade, auto- conscigncia e modernidade na arte, literatura, filosofia e até na politica da Itélia renascentista. Em Histdrta cultural da Grécia, publicado postumamente, Burckhardt voltou a esse tema. mar- cando o lugar da luta (egom) na vida da Grécia Antiga, na guerra, na politica ena mtisica, assim como nas corridas de car ros ou nos Jogos Olimpicos. Enquanto 0 primeiro livro enfau- zava o desenvolvimento do mdividuo. 0 dltimo salientava a tensdo entre, de um lado, 0 que 0 autor chama de “individua- lismo incorrigivel” e a parxao pela fama e, de outro, a exigéncia de que o individuo se subordine a cidade. Huizinga também pesquisou extensamente, da India an- tiga ao Oadente, da Franca no século xit cultura holandesa no século XVII ¢ os Estados Unidos de seus dias. Foi ao mesmo ia dos acontecimentos, preferindo A.ctawe THanicao 19 sentimentos caracteristicos de uma época e suas expressdes ow incorporagéies nas obras de literatura ¢ arte. O hustoriador, sugeria ele, descobre esses padrdes de cultura estudando “temas”, “simbolos”, “sentumentos" e “formas”. As formas ou as regras culturais eram importantes para Huizinga tanto na vida como no trabalho, ¢ ele achava que a “ausénaia de um sen- tido de forma", como ele chamou, impedia-o de gostar da lite- Tatura norte-americana.> O livro Outono da Idade Média coloca em pratica as reco- mendagies que cle fazia em seus ensaios prograidticos. Estava preocupado com os ideais de vida, como a fidalguia. Tratava de temas como 0 sentido do declinio, o lugar do simbolismo na arte ¢ no pensamento do final do periodo medieval e de senti- mentos como o medo da morte, O livro atribut um lugar cen- tral as formas ou padrées de comportamento. Segundo Hur- zinga, “a mente apaixonada e violenta daquele tempo” precisava de uma estrutura de formalidade. Como a piedade, 0 amor € a guerra cram ritualizados, estetizados ¢ submetidos a regras. Nesse perfodo, “cada acontecimento e cada aco ainda estavam ncorporados a formas expressivas e solenes, que os elevavam a dignidade de um nitwal” Pode-se dizer que a abordagem de Huizinga & histénia cul- tural era essencialmente morfoldgica. Estava preocupado com 0 tempo eritico da interpretacéo de Burckhardt sobre o Renas- i camento — que, segundo ele, a separava mutto radicalmente da Idade Média — e seguidor de seu método, Em um ensaio publi- cado em 1915. Huizinga discutia uma variedade de ideais de vida, visées da idade de ouro. por exemplo, 0 culto do cavalher~ E rismo ou o ideal classico, de tio forte apelo para as elites euro- estilo de toda uma cultura, bem como com o estilo de pinturas © poemas individuais. Esse programa para a hustéria cultural nao era to abstrato quanto pode parecer quando brevemente resuumido. “Que tipo de idéia podemos formar de uma época”. escreveu certa vez Huizinga, “se no vemos pessoa alguma nela? Se 66 pudermos péias entre a Renascenca ¢ a Revolugao Francesa. Em outro ensaio. publicado em 1929, Huizinga declarava que o prinapal objetivo do histoniador cultural era retratar pa~ drdes de cultura, em outras palavras, descrever os pensamentos fazer relatos generalizados. vamos apresentar apenas um de- serto a que chamamos de histéria.” De fato, Outono da idade ‘Média fervilha de individuos, do poeta picaresco Frangois Villon a0 mistico Hemrich Suso. do pregador popular Olivier Maillard 20 Que érustona cutrurat? 20 cronista da corte Georges Chastellain. A prosa é sensual, atenta a sons, como os dos sinos e dos tambores, e as imagens visuais, © livro é uma obra-prima literdmia ao estilo fin-de-sid- cle, além de um cléssico de histéria Da sociologia « histéria da arte Algumnas das maiores contriburgées a histéria cultural desse pe- riodo. especialmente na Alemanha, vieram de académicos que no trabalhavam nos departamentos de histéria, © socislogo Max Weber publicou uma obra famosa, A ética protestante e 0 espirito do capitalism (1904), em que analisa as raizes culeu- ais do que chamou de “sistema econémico dominante na Europa Ocidental e na América”. O ensaio de Weber poderia igualmente se chamar “Capitalismo e cultura do protestan- smo” ou “Protestantismo ¢ cultura do capitalismoa” O ponto central do texto era, essenciaimente. apresentar uma explicagéo cultural para a mudanga econémica. Weber acentuava o papel do ethos ou sistema de valor protestante, es- pecialmente a idéia de “chamada”, na acumulagio de capital e na ascensio do comércio e da indtistria em grande escala. Em outro estudo, Weber argumentou que o etlos do confucio- rismo, assim como o do catolicismo, era hostil ao capitalismo (cle teria fieado surpreso ao saber da ascensio econdmuca dos “tigres asidincos”). Na geracio seguinte, outro saciéloge alemao, Norbert Elias, um segudor de Weber em certos aspects, escreveu um estudo. O processo civilizador (1939), que é essencial- mente uma hist6ria cultural. Ele também utilizou Mal- estar na crvilizago (1930), de Freud, que argumenta que a cultura exige sacrificios do individuo nas esferas do sexo da agressividade. AaaNpeTRADIcho 21 ‘Apoiado na pesquisa de Huizinga sobre “a mente apaixo- nada e violenta daquele tempo”, Elias dirigiu o foco para a his- s6ria dos modos 8 mesa, a fim de mostrar o desenvolvimento gradual do autocontrole ou do controle sobre as emogies nas cortes da Europa Oadental, ligando o que ele chamou de “pres- ses sociais pelo autocontrole” entre os séculos XV e XVIII & centralizacio do Estado e & submissio ou domesticasio de uma nobreza guerreira Elias afitmava escrever sobre a “civilizagio”.e néo sobre a cultura, sobre “a superfiae da existéncia humana”, e ndo sobre suas profundezas, sobre a hustéria do garfo e do lengo. e nao sobre a histéria do espirito humano. De qualquer forma, ele deu uma importante contribuigio para 0 estudo do que hoje pode ser descrito como “a cultura do autocontrole” ‘Uma das figuras mais originais ¢ em iluma anélise mais influentes da histéna cultural no estilo alemfo nao seguu qualquer carretra académica, Aby Warburg era um homem de recursos préprios, filho de banqueiro, que deixou sua heranga para o irmao mais novo em troca de uma mesada suficiente- mente grande para comprar todos os livros de que precisasse —e cle acabou precisando de muitos, jf que seus interesses ex- tensos incluam filosofia, psicologia e antropologia. bem como histéria cultural do Oaidente, desde a Gréca antiga até 0 sé- culo XVII. Seu principal objenvo era contribuir para uma “rciéncia da cultura” geral (Kulturwissenschaft),evitando o que chamou de “policia de fronvetra” nos limites entre as disapli- nas académicas. Warburg era um grande admurador de Burckhardt e de suas “certeiras generalizagSes intuitivas”. mas seu préprio tra- balho era mais rico e fragmentado. Convencido de que “Deus ”, preferit escrever ensatos sobre aspectos parti- culares do Renascimento italiano, e nao sobre o que chamou de " grande objetivo de uma sintese da historia cultural” * War- estd no detalhe’ 22 OOUre ssvoRa currunat? burg estava particularmente interessado na tradicdo cléssica e em suas transformagées a longo prazo. Ao estudar essa tradi- sfo, dingru o foco para os esquemas ou as férmulas culturais perceptivas, os gestos que expressam emoges particulares, por exemplo, ou a maneira pela qual poetas e pintores representa- vam o vento no abelo de uma moga ‘A idéia do esquema mostrou hustonnadores culturais e outros. Os psicélogos afirmam que & umpossivel perceber ou lembrar de qualquer coisa sem esque- mas, Aiguns filésofos concordam. Karl Popper argumentou que é impossivel observar a natureza adequadamente sem tuma hipétese para testar, um principto de selecio que permita que o observador veja um padrao, endo uma barafunda. De maneira semelhante, Hans-Georg Gadamer alirmava que ain- terpretagio de textos dependia do que le chamava de Vo~ rurteil, em outras palavras. "preconceito”, ou, mais precisa mente, “pré-julgamento” (Os estudiosos da literatura caminharam em dirego seme- Ihante. Em Literatura européia e Idade Média Latina (1948), livro dedicado a memaéria de Warburg, Ernst-Robert Curtius demonstrou a importancia duradoura de topot retéricos ou lu gares-comuns tais como paisagem ideal, o mundo de cabeca para barxo ou a metéfora do “livro da natureza” O estudo de William Tindall sobre John Bunyan (discutido no capitulo 5. P-L17-18) é outro exemplo de um estudo de textos que se con- centra em esquemas, Mas certamente for na obra de Ernst Gombrich que aidéia de esquema cultural de forma mais completa se desenvolveu. Gombrich, que escreveu a biografia intelectual de Warburg, também langou mao da psicologia experimental e da filosofia de Popper: Em Arte e ilusio (1960), 0 tema central era a rela se muito estimulante para entre o que cle chamava, alternativamente, de "verdade ¢ este- retipo”, “formula e experiéncia”. ou “esquema e correcio” AGRANDETRADIGAO 23 Dessa forma, ele descreveu a ascensio do naturalismo na antiga arte grega como a “acumulagio gradual de corregSes gragas ‘observacao da realidade” As inovagies culturais so muitas vezes obra de pequenos grupos, mais que de individuos. A importancia de Aby Warburg, nao decorre apenas de seus ensatos. por mais brilhantes que sejam, mas também de sua posigao central em um grupo de es- tudiosos que costumavam se encontrar em sua biblioteca, em Hamburgo, niicleo do que depois veto a ser o Instituto War- burg, Entre esses estudiosos, unidos por meio do mteresse pela histor1a dos simbolos e pela tradicao clissica, estavam o filésofo Ernst Casstrer, autor de Filosofia das formas simbélicas (1923- 9), ¢ os historiadores da arte Fritz Saxl, Edgar Wind e Erwin Panofsky. Panofsky, por exempio, escreveu um ensaio cléssico sobre a imterpretagéo de imagens, uma hermenéutica visual que dis- tunguia “iconografia” (a interpretagio do tema da Liltima Ceta, por exemplo) de “iconologia”, mais ampla, que desvela a visa de mundo de uma cultura ou grupo social “conden- sada em uma obra”? Outro exemplo famoso da abordagem iconolégica, escrito mais tarde na carrera de Panofsky, for sta provocadora conferéncia “Arquttetura gética e escoldstica” (1951). Essa conferéncia é exemplar em seu foco explicito ¢ es entre diferentes domi- consciente sobre as possivers conex nios culturars Panofsky partia da observacao de que a arquitetura gética € a filosofia escolistica associada a Tomés de Aquino haviam. surgido ao mesmo tempo. nos séculos XII e XIH, e no mesmo. lugar. em Paris ou seus arredores. Os dots movimentos se de- senvolveram em paralelo. No entanto, o objetivo da conferén- cia nao era simplesmente tragar uma comparacio entre arqui~ tetura ¢ filosofia. Panofsky também defendia a existéncia de uma cone @o entre os dors movimentos 34 O our é msroata cucrunaL? Ele discutia essa conexiio nfo em termos de “espfrito da época”, porém, mais precisamente, em termos da difusao, da fi- {osofia para a arquitetura, do que ele chama de “habito mental”, tum conjunto de suposigSes sobre a necessidade de organizacio ransparente e de reconciliagéo das contradicées. Sabedor de que podenia ser acusado —e foi, na verdade — de mero espe- culador, Panofsky se agarrou a um “fragmento de prova”, uma observacio registrada em um album de desenhos sobre dois ar- quitetos que mantiveram uma “disputa”, mostrando assim “que pelo menos alguns dos arquitetos franceses do século XIII Pensavam e agiam em termos estritamente escolésticos” A grande didspora Na época em que sua conferncia sobre a arquitetura gética € escoldstica for apresentada, Panofsky morava nos Estados Unidos havia alguns anos. Quando Hitler chegou ao poder, em 1933, Aby Warburg havia morrido, mas os outros estudiosos associados a seu Instituto se refugiararn no exterior. O préprio. Instituto, sob ameaga, porque seu fundador era judeu, fo1 trans- ferido — ou, pode-se dizer, “traduzido” — para Londres. junto com Saxl e Wind, enquanto Cassirer. como Panofaky — e Ernst Kantorowtcz, outro estudioso preocupado com a histéria dos simbolos —, for parar nos Estados Unidos. Para os dois paises hospedeiros, para a histéria cultural em geral ca histéria da arte em particular, essa mudanga teve conseqiténcias mutto impor- tantes. O episédio é uma parcela essencial da histéria da grande digspora da década de 1930, de residentes da Europa Central, a maior parcela deles judeus, incluindo cientistas, escritores, ma- sicos ¢ também académicos. Além disso, também ilustra um dos temas favoritos de Warburg, o da transmissio e transfor- magio das tradigdes culturats AGRANDETRADIGAO a5 Nos Estados Unidos do comeco do século Xx, a palavra~ chave era “civilizagio”, mais que “cultura”, como no livro de Charles e Mary Beard, The Rise of American Civilization (1927). Nessa época comegaram os cursos sobre “civilizagio”, gracas ao movimento conhecido como “nova hist6n1a”.em que 08 Beards e outros historiadores radicais estavam envolvidos. No Columbia College. por exemplo, na década de 1920, havia uum curso obrigatério para alunos do primeito ano sobre ewvili~ zacao contempornea. Em meados do século, muttas untversi- dades norte-americanas exigiam cursos em “cvvilizaio ociden- ia breve do mundo ocidental tal’, mais ou menos uma hist dos gregos antigos até o presente. “de Platao 8 Oran’ ‘No plano da pesquisa, por outro lado. uma tradigio norte- americana mais forte, ou pelo menos mais visivel que a da his~ t6ria cultural, era a “historia das idéias”, exemplificada pelo livro de Perry Miller, The New England Mind (1939), ¢ pelo circulo de Arthur Lovejoy na Universidade Johns Hoplans, centrado no Journal of the History of Ideas, fundado em 1940 como um projeto interdisciplinar para vincular filosofia, litera~ tura e histéria. Na Gra-Bretanha da década de 1930 estava se escrevendo ‘uma histéria intelectual e cultural geralmente fora dos depar- tamentos de histdria. Entre as contribuigdes mais importantes dadas a essa tradigao estd o livro de Basil Willey, The Seven- teenth-Century Background (1934), “estudos sobre o pensa- mento da época”, escrito por um professor de inglés e apre- sentado como “panorama” para a literatura; o de E.M.W. Tillyard, The Elizabethan World Picture (1943), outra contri- buigdo da Faculdade de Inglés de Cambridge: e 0 livro de G.M. Young, Victorian England (1936), obra de um amador de muito talento. As principais excegdes & énfase sobre as idéias foram 0 livro de Christopher Dawson. The Making of Europe (1932), 26 Oquee stoma cururat? escrito num perfodo em que o autor era “conferencista em hus- t6nta da cultura” na Universidade de Exeter; os muitos volumes de Estudos de histéria (1934-61), de Arnold Toynbee. focali- zando 21 “civilizagées” independentes e escritos pelo diretor do Royal Institute of International Affaws: e o estudo monumen- tal do bioquimuco Joseph Needham, Sciertce and Civilization in China, planejado na década de 1930, embora 0 primeiro vo- lume s6 viesse a aparecer em 1954. Vale a pena observar que uma das raras contribuigées explicitas & historia cultural publi- cada na Gra-Bretanha em meados do século Xx fot escrita por um aentista, Como nos Estados Unidos, a grande didspora for impor- tante para a ascensdo da histéria cultural na Gra-Bretanha, assim como da hist6ria da arte, da sociologia e de certos estilos de Filosofia. Como exemplo dos efeitos do encontro, pode-se citar o caso de Frances Yates. uma estudiosa muito inglesa ¢ on- ginalmente especialista em Shakespeare. Um encontro de jantar no final da década de 1930 teve como conseqiiéncia sua entrada no circalo Warburg, num momento em que. como disse ela mais tarde, “estudiosos instigantes e uma biblioteca inspiradora haviam acabado de chegar da Alemanha” Yates fot “imiciada na técnica warburgutana de usar aspectos visuats como evidéncias Iustoricas". Seu interesse por estudos ocultos— neoplator mégica, cabala — foi outro resultado do encontro.®” A diéspora também incluiu um grupo de marxistas preo- cupados com a relagio entre cultura ¢ sociedade. Cultura e sociedade Nos Estados Unidos, como na Gra-Bretanha, mesmo antes da grande diéspora ja era evidente um certo interesse pela relacao entre cultura e sociedade. Exemplo pioneiro de uma histéria so- AGGRaNDE TRADICAO 27 cial da cultura so 0s Beard, casal que ocupa um importante lugar na histéria do radicalismo norte-americano. Quando era aluno de Oxford, Charles Beard ajudou a fundar o Ruskin Hall, para dar a classe operéria acesso a educacao superior (muito apropriadamente essa instituigao, que na época era conhecida como Ruskin College. foi o bergo do movimento History Workshop). De volta aos Estados Unidos, Beard se tornou co- nhecido por seu controverso estudo An Economic Inter- pretation of the Constitution of the United States (1913). Juntamente com a esposa Mary Ritter Beard, importante sufragista e defensora dos estudos sobre as mulheres, Charles Beard escreveu The Rise of American Civilization (1927), que apresentava uma mnterpretagio econémica e social para as mu- dangas culturais. O capitulo final sobre“a Era da Maquina”, por exemplo, discutta o papel do automével na difusio dos valores urbanos e dos “estimulos mentais estereotipados”, 9 patronato das artes por milionérios. a énfase pratica e popular da ciéncia norte-americana ¢ a ascensio do jazz. fato é que a chegada de um grupo de académicos emigra- dos da Europa Central fez com que os estudiosos britanicos € norte-americanos tomassem uma consciéncia mais aguda da relagao entre cultura e sociedade. No caso bnitanico, um papel crucial for desempenhado por trés htingaros: 0 sociélogo Kar! Mannheim, seu amigo Arnold Hauser ¢ 0 historiador de arte Frederick Antal." Os trés haviam sido membros de um grupo de discussao, ou “circulo dominical”. que unha como centra © critico Georg Lukécs ¢ que se encontrava durante a Primeira Guerra Mundial. Todos migraram para a Inglaterra na década de 1930, Mannheim passou de uma cétedra em Frankfurt para uma posigéo de conferencista na London School of Economic: Antal. de uma cétedra na Europa Central para a fungio de con- ferencista no Courtauld Institute, e Hauser tornou-se um escri- tor sem emprego fixo. 28 O que enisroua cutrunan? Mannheim, mais um admirador de Marx que marxista em sentido estrito, tinha particular interesse na socialogta do co- nhecimento, que ele abordava de uma forma histérica, estu- dando por exemplo a mentalidade dos conservadores alemies. Quando morou na Alemanha, eve alguma influéncia intelec- tual sobre duas figuras jé mencionadas neste capitulo, Norbert Elias e Erwin Panofsky, embora este tiltimo tenha abandonado a perspectiva social. Em seus livros e artigos. Antal tratava a cultura como ex- pressiio ou mesmo como “reflexo” da sociedade. Ele encarava a arte da Florenca renascentista como reflexo da visio de mundo da burguesia, ¢ achava William Hogarth interessante porque “sua arte revela ...as visdes eos gostos de uma ampla parcela da sociedade” *? Entre os discipulos britanicos de Antal esto Fran- cis Klingender, autor de Art and the Industrial Revolution (1947), Anthony Blunt, famoso como historiador da arte mutto antes de se tornar um noténo espiio, e John Berger, que tam- bém abordava a arte a partir de uma perspectiva social. J& Arnold Hauser, um marxista mais convencional, for muito importante na divulgagio da abordagem do grupo ao escrever Histérta social da arte (1951), vinculando estreita- mente a cultura aos conflitos e mudancas sociais e econdmi- cos, ¢ discutindo, por exemplo. “as lutas de classe na Itdlia ao final da Idade Média”, “o Romantismo como movimento da classe média”, e a relagio entre a “era do nema” ea “crise do capitalismo” Klingender, Blunt e Berger devem ser vistos nao como simples casos de influéncia hiingara, mas sim como “assimila~ do” ou encontros culturais. Por um Iado, havia o problema da resisténcia cultural, que levou Mannheim a se quevxar da dift culdade de transplantar ou “tradwzir" a sociologia para a Gi Bretanha. Por outro. alguns circulos intelectuais jé estavam preparados para receber suas 1déias. Um pequeno grupo de m- GRANDE TRADIGAO 39 telectuais marxistas britdnicos foi muito ativo nas décadas de 1930 e 1940, tanto dentro como fora da academia. Roy Pascal, professor de alemao em Birmingham de 1939 a 1969, escreveu sobre a hustéria social da literatura. Aeschylus and Athens (1941), famoso eseudo sobre drama e soaiedade escrito pelo clas- sicista George Thomson, foi claramente inspirado em Marx. Joseph Needham usou sma estrutura marxista para seu Scienice and Civilization in China. ER. Leavis, autor de The Great Tradition (1948), também estava profundamente mteressado na relagio entre a cultura e seu ambiente. Sua énfase na idéia de que a literatura dependia de “uma cultura social e de uma arte do viver” deve menos a Marx que & nostalgia pelas “comunidades orgiinicas” tradici nais. No entanto, nao € dificil combinar uma abordagem “leavi- sita” com a marxista, como fez Raymond Williams em The Long Revolution (1961), livro que discutia a histéria social do teatro e em que, além disso, fo1 cunhada a famosa expresso “estrucuras de sentimento” A descoberta do povo Aadéia de “cultura popular” ou Volkskultur se originou no mes- mo lugar e momento que ade “hist6na cultural”: na Alemanha do final do século XVI. CangGes ¢ contos populares, dangas, r- tuais, artes ¢ oficios foram descobertos pelos intelectuais de classe média nessa época."? No entanto, a histéria da cultura po- pular for derxada aos amantes de antigitidades, folcloristas e an- tropéloges, $6 na década de 1960 um grupo de historiadores acad@micos passou a estudé-la ‘Um dos primeiros exemplos, publicado em 1959. foi His- téria soctal do jazz, escrito por “Francis Newton”, um dos pseudénimos de Eric Hobsbawm. Como seria de se esperar de 30 Oque ersten currunat? um famoso historiador econémice e social, o autor discutia ndo apenas a miisica, mas também seu ptiblico, abordando o jazz como negdcio e forma de provesto politico e social. Ele concluia gue 0 jazz exemplificava a situagio “em que uma miisica popu- lar ndo submerge, mas se mantém no ambiente da moderna ct- vilizagio urbana e industrial” Repleto de observacdes perspica~ zes sobre a histéria da cultura popular. esse livro jamais causou. no mundo acadérmico, o impacto que merecia O mais influente dos estudos feitos na década de 1960 for A formagio da classe operdria inglesa (1963), de Edward ‘Thompson. Nesse livro, Thompson nao se limita a analisar 0 papel desempenhado pelas mudangas econémicas e politrcas na formagao de classe, mas examina o [ugar da cultura popular nesse processo. Seu livro inclus desert es vigorosas dos rituais de iniciagio de artestos. do lugar das feiras na “vida cultural dos pobres”, do simbolismo dos alimentos e da rconografia das agi- tages sociats, indo de bandeiras e pedacos de pao presos a um pau até o enforcamento de effigies de pessoas odiadas. Foram analisadas poestas em dialeto, para chegar ao que Thompson descreveu — na expresso de Raymond Williams — como “a estrutura de sentimento da classe trabalhadora” A religido me- todista recebia grande atengio, do estilo de pregagio laica as imagens dos hinos, com énfase especial no deslocamento de “energias emocionais ¢ espirituais” que eram “confiscadas a servico da Igreja” A influénia de Thompson sobre historiadores mats jovens foi munto grande. Ela é Sbvia no movimento “History Work- shop”, fundado na década de 1960 sob a lideranca de Raphael Samuel, que dava aulas no Ruskin College em Oxford (um centro para alunos mais velhos, da classe trabalhadora). Ele or- ganizou muitas conferéncias, que preferia chamar de work- shops, fundou uma revista, History Workshop, e. com seus intimeros artigos e semunrios, inspirou muttas pessoas a escre- A GRANDE TRADICAO 32 ver histéria (inclusive histéria cultural) “a partir de barxo”. O carismatico Thompson também inspirou historiadores da cul- tura popular, desde a Alemanha até a india (ver p.136-7) Por que uma preocupagao com a histéria da cultura popu- lar surgru nese momento? Existem, como sempre. duas expli- cages principais, a “interna” ea “externa”. Os que estio der tro se véem reagindo as deficiéncias de abordagens anteriores, especialmente a histéria cultural em que as pessoas comuns si0 derxadas de fora, ¢& hist6ria politica e econémica em que a cul- tura é deixada de fora. Eles também tendem a se ver: ¢ 8 sua rede, como os tintcos snovadores, e raramente percebem as ten déncias paralelas em outras partes da disciplina, quanto mais, em outras disciplinas ou no mundo exterior & academia (Os de fora tendem a ver um quadro mais amplo, a obser- var que na Gri-Bretanha, por exemplo. a ascensio da hist6ria da cultura popular na década de 1960 counaidiu com a ascensio dos “estudos culturais”. seguindo o modelo do Centro de Estu~ dos Culturais Contempordneos, na Universidade de Birming- ham, dirigido por Stuart Hall. O sucesso internacional do mo- vimento pré-estudos culturais sugere que ele atendeu a uma demanda, correspondeu a uma critica & énfase sobre a alta cul- tura tradicional dada pelas escoias ¢ universidades. ¢ também, satisfez.a necessidade de entender o cambiante mundo de mer- cadorias, publicidade e televisao. Como a grande tradigio a abordagem marxista, a historia da cultura popular colocou problemas que foram ficando cada vez mais aparentes ao longo dos anos. Tats problemas sero dis- cutidos no préximo capitulo.