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Allan, Willian. History, genre, text. in Classical Literature. A very short introduction.
Oxford: Oxford University Press, 2014, pp. 01-16. Tradução de Adriane Duarte.

1. História, Gêneros, Transmissão textual

Dar um breve panorama da história da literatura clássica, cuja duração pode ser
estimada em cerca de 1200 anos (c. 750 a.C. a 500 d.C.), pode parecer uma loucura
completa. A título de comparação, os participantes do "Grande Campeonato inglês de
resumo da obra de Proust", esquete do Monty Python,1 dispunham de um total de 15
segundos para sintetizar apenas sete livros. No entanto, deve-se tentar, já que uma ideia
da matéria será útil mais adiante, quando forem abordados com maior detalhe os
principais gêneros da literatura clássica.

A periodização usual da literatura clássica- grosso modo, período arcaico,


clássico, helenístico e imperial, para a literatura grega; republicano e imperial, para a
latina (retomaremos essa nomenclatura adiante)- reproduz as divisões usuais da história
antiga. Não é incomum que as periodizações literária e histórica andem juntas no estudo
de uma literatura específica (inglesa, francesa, alemã, etc), já que se costuma pensar que
mudanças históricas podem ser rastreadas por meio das obras literárias.

Naturalmente, toda periodização não passa de uma construção artificial, criada


por estudiosos após os fatos. Não é possível, na verdade, traçar uma linha divisória
clara entre períodos, quer literários, quer históricos, já que eles se interpenetram. Mas
feito o alerta (i.e, desde que sejamos cuidadosos para não apagar as continuidades entre
os períodos, ou sugerir que há pouca mudança em uma época dada, ou reduzir o sentido
de um texto específico à expressão de uma perspectiva supostamente "arcaica" ou
"neroniana", etc), a divisão usual em períodos pode ser útil. Afinal, formas literárias
mudam com o passar tempo e estão relacionadas a transformações políticas e culturais
mais amplas, de modo que algum esforço para traçar esses movimentos e definir
aspectos particulares é tanto desejável, quanto conveniente.

Além de rótulos úteis para fenômenos que se estendem no tempo, termos


histórico-literários também podem sinalizar diferenças significativas em temas e
interesses centrais a mais de um período- compare, por exemplo, a gama de ideias que

1
O esquete (All-England Summarize Proust Competition) está disponível online no You tube:
https://www.youtube.com/watch?v=IScaIp2fVIw. (Nota da tradutora)
2

suscitam os termos "romantismo" ou "vitoriano" na literatura inglesa. A tarefa do


estudioso se torna mais fácil quando o surgimento de um novo movimento literário é
proclamado pelos próprios escritores, como em III a.C, quando o poeta grego Calímaco
produz o manifesto de uma literatura erudita e sofisticada, inaugurando o que se
costuma denominar estética "helenística" ou "alexandrina". Mas mesmo quando os
escritores não demonstram o mesmo grau de consciência, pode-se rastrear em
retrospecto a emergência de movimentos característicos, mesmo que a alegada ruptura
com o passado seja frequentemente exagerada, quer pelos próprios escritores, quer por
críticos posteriores. A observação irônica de Virginia Woolf ("Em ou cerca de 10 de
dezembro de 1910, a natureza humana mudou", em Mr. Bennet and Mrs. Brown, 1924)
expressa bem tanto a tentação quanto o risco de apontar rupturas radicais entre épocas.

Qualquer síntese dos períodos literários clássicos será por vezes percebida como
um curso intensivo de história antiga, mas eu prefiro pensar nisso como uma vantagem:
afinal, a literatura sempre tem suas raízes na realidade de seu tempo, mesmo quando o
ultrapassa. A ficção fantástica antiga, por exemplo, testemunha às avessas os limites do
conhecimento que os antigos tinham do mundo, do mesmo modo como a ficção
científica moderna tem se ocupado de desenvolvimentos tecnológicos e políticos há
mais de um século. Grandes obras literárias podem ser de algum modo "atemporais",
mas não é possível entender a literatura clássica (ou qualquer outra) sem um
conhecimento mínimo de seu contexto histórico original.

Ao colapso da cultura micênica, por volta de 1200 a.C., seguiram-se vários


séculos da história grega nos quais a arte da escrita era desconhecida, mas a poesia oral
e as narrativas de vários tipos floresceram. No início do século oitavo a.C., os gregos
adaptaram o alfabeto fenício à sua própria língua, o que deu início à tradição da
"literatura grega" (i.e, o registro de textos escritos). Por um acaso da história, a
redescoberta da escrita coincidiu com o gênio de Homero, cujos grandes épicos, Ilíada e
Odisseia (c. 725-700 a.C.), não são só as maiores obras da literatura clássica, mas
também as mais antigas- imagine a literatura inglesa começando, ao estilo Big Bang,
com Shakespeare! O período que vai da primeira edição dos jogos Olímpicos (776 a.C.)
até o fim das Guerras Médicas (479 a.C) 2 é denominado convencionalmente época
Arcaica, mas a palavra "arcaico" não deve ser considerada sinônimo de "primitivo",

2
Guerras em que os Persas e seus aliados invadiram a Grécia, comandados primeiro por Dario (490 a.C.),
depois por seu filho Xerxes (480 a.C.). Em ambas as ocasiões foram derrotados. Nota da tradutora.
3

uma vez que esse é um dos períodos mais dinâmicos e experimentais da literatura grega-
tanto a poesia épica, quanto a lírica, que foram preservadas, estão entre as mais
impressionantes e sofisticadas já escritas. A época arcaica foi também um período de
expansão e colonização, em que as cidades gregas enviaram comerciantes e colonos por
todo o Mediterrâneo, espalhando-se desde Massalia (atual Marseille) até Naucratis, no
Egito (a mais de 80 km Nilo abaixo). Sua energia e diversidade cultural refletiu-se nos
principais escritores do período, originários de todas as partes do mundo em que o grego
era falado.

Em contraste, a literatura do período Clássico (479-323 a.C.), que vai desde a


derrota da Pérsia até a morte de Alexandre, o Grande, é dominada por uma cidade que
está acima de todas: Atenas. A vitória dos gregos sobre o descomunal exército invasor
persa, além de inflar seu senso de superioridade sobre os "bárbaros" (i.e, não-gregos),
também permitiu aos atenienses manipular em nome de seus próprios interesses uma
aliança originalmente defensiva (a Liga Délica, formada para repelir eventuais ataques
persas), transformando-a em um instrumento do império ateniense. A riqueza do
império, combinada com uma cultura abertamente democrática, atraiu intelectuais e
artistas de todo o mundo grego, fazendo de Atenas o epicentro da cultura grega, "a
escola da Hélade", como Péricles a denomina em seu elogio à cidade (Tucídides,
História da Guerra do Peloponeso, II.41). Formas literárias floresceram em volta dos
espaços públicos de performance da democracia ateniense: tragédia e comédia, nos
festivais dramáticos patrocinados pela cidade; oratória, nos tribunais e assembleias;
historiografia, entre políticos e intelectuais interessados em entender (entre outras
coisas) porque a Grécia alcançara a vitória nas Guerras Médicas ou porque Atenas fora
derrotada por Esparta na Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.). A importância cultural
de Atenas sobreviveu à derrota para Esparta no fim do século quinto a.C., assim como a
sua democracia, e o quarto século testemunhou o aparecimento de grandes obras,
especialmente nos gêneros da prosa: oratória, história e filosofia (pouca poesia
sobreviveu). A exemplo da literatura "arcaica", é importante não confundir "clássico"
com "conservador" ou "insípido": os melhores autores do período clássico são
verdadeiramente revolucionários e influenciaram grande parte do drama, poesia e prosa
dos séculos seguintes.

O período Helenístico (323-31 a.C.), que vai da morte de Alexandre, o Grande,


até a vitória de Otávio sobre Marco Antonio e Cleópatra VII do Egito na batalha de
4

Ácio, testemunhou uma enorme expansão da cultura grega (e, consequentemente, greco-
romana). As campanhas de Alexandre levaram-no tão longe quanto o Golfo pérsico,
Índia e Afeganistão, e seus generais herdaram reinos variados, sendo o mais duradouro
o dos Ptolomeus, no Egito. Ptolomeu I fundou a Biblioteca e o Museu de Alexandria, a
primeira com o intuito de reunir e catalogar todo texto literário escrito em grego, a
última como um centro de pesquisa para estudiosos de todos os campos das artes e das
ciências. Seus sucessores mantiveram o patrocínio de ambas as instituições, e em um
ambiente tão ostentosamente marcado pelo conhecimento e fartamente subsidiado
surgiu um movimento literário novo que fundiu literatura e instrução como nunca antes.
As características do estilo "alexandrino" são erudição e refinamento. Seu guru, o poeta
e estudioso Calímaco, proclamou: "eu não canto nada que não esteja atestado". A
literatura precedente também era alusiva e inventiva, mas agora o repertório do poeta se
tornava mais aberto e autoconsciente, e a inovação ainda mais valorizada. Enquanto
alguns autores ficaram atolados em equívocos enfadonhos e futilidades astuciosas (os
poemas de Nicandro sobre as várias espécies de veneno e seus antídotos, por exemplo,
bastam para causar arrepios), os melhores escritores do período valeram-se de seu
conhecimento para revigorar formas literárias banalizadas (vejam-se as transformações
operadas na épica por Calímaco e Apolônio) ou criar novas, engenhosas (como a
invenção da poesia pastoral por Teócrito).

Até agora, nosso foco esteve sobre a literatura grega. Embora Roma tenha sido
fundada (de acordo com fontes antigas) em 753 a.C., nenhum registro da literatura
latina subsistiu antes de meados do século terceiro a.C.. Assim os primeiros séculos do
período republicano (509-31 a.C.),3 que vai da expulsão do último rei de Roma,
Tarquínio, o Soberbo, e a proclamação do regime republicano de governo até a
derrocada desse sistema em meio às guerras civis do primeiro século a.C., são em
termos literários uma página em branco. A mais antiga literatura latina preservada- a
épica de Lívio Andronico, Névio, Ênio, as tragédias de Ênio e Pacúvio, as comédias de
Plauto e Terêncio (essas últimas constituem os únicos textos preservados na íntegra)-
revela que, como no caso da literatura grega "arcaica", devemos ficar alertas para não
confundir "antigo" com "tosco, mal-acabado". Essas obras, compostas por volta de 240-

3
Há outras divisões possíveis para história da literatura latina, como por exemplo: fase primitiva (753-
250 a.C), da qual não se tem registro; fase helênica (250-81 a.C.); fase clássica (81 a.C.-68 d.C.); fase
pós-clássica (68-476 d.C.). Cf. Martins, Paulo. Literatura Latina. Curitiba: Iesde, 2009, p. 24. Nota da
tradutora.
5

130 a.C., refletem não apenas o estupendo sucesso militar romano durante esse período,
que fez de Roma a maior potência do mundo mediterrânico, mas também a sua relação
com os modelos literários gregos, marcada por ambição e criatividade. Ênio, por
exemplo, apresentava-se como a reencarnação de Homero, o símbolo maior da
transferência cultural da Grécia para Roma.

Ao adaptar os gêneros literários gregos a novos públicos e interesses, e combiná-


los com as tradições itálicas nativas, esses primeiros escritores deram início ao
processo, continuado por todos os autores latinos subsequentes, de "romanização".
Quando a Grécia caiu sob o domínio romano em 146 a.C., a influência da sua literatura
e cultura sobre Roma cresceu ainda mais, a ponto de um político e escritor
contemporâneo, Catão, tirar proveito da angústia popular em torno desse filo-helenismo
ao contrapor-lhe uma persona absurda, que retomasse a simplicidade romana- os
escritos de Catão revelam familiaridade com a literatura grega, mas ele percebeu que
havia vantagem política em apelar ao desprezo romano pela afetação dos gregos, que
eram também no momento seus súditos. A maioria dos autores romanos, contudo,
estava mais aberta a reconhecer sua dívida com a tradição grega. A intensidade dessa
interação cultural está bem expressa no paradoxo intencional de Horácio: "Grécia, uma
vez cativa, cativou seu rude conquistador e trouxe as artes ao rústico Lácio!" (Epístolas,
II.1.156-7). Em outras palavras, a expansão militar romana propiciou também o seu
enriquecimento cultural. O centro da criatividade literária (primeiro Atenas, depois
Alexandria) estava agora em Roma. Embora nenhum dos principais escritores do
período republicano fosse nascido em Roma, todos eles foram para lá em busca de
patrocínio, público e sucesso.

Nas últimas décadas da República, cobiça e egoísmo destruíram a prosperidade


do estado, assim líderes militares, como Cesar e Pompeu, Otávio e Marco Antônio,
lançaram mão de violência sem precedentes contra seus concidadãos. A literatura do
período luta para conferir sentido ao caos e ataques mordazes contra a ambição política
proliferam em Lucrécio, Catulo e Salústio. Muitas das maiores figuras da literatura
latina vivenciaram a passagem do colapso da República para ditadura, e suas obras
(especialmente as de Cícero, Virgílio e Horácio) trazem reflexões profundas não só
sobre o impacto da guerra civil, bem como sobre o sistema imperial a que as guerras
civis deram origem. Otávio (63 a.C.-14 d.C.) garantiu o poder para si com a batalha de
Ácio (31 a.C.) e, em 27 a.C., intitulou-se "Augusto" (conotando autoridade religiosa e
6

política), tornando-se o primeiro imperador e implementando o sistema imperial cuja


natureza revolucionária e tirânica procurou disfarçar com inteligência ao autoproclamar-
se o restaurador da República.

A Época de Augusto (44a.C.-17d.C.), que vai do assassinato de Julio Cesar (e a


ascensão de seu herdeiro Otávio, então com 19 anos) até a morte do poeta Ovídio, cobre
a violenta transição da República para o Império. Seus extraordinários autores (Virgílio,
Horácio, Tibulo, Propércio, Ovídio e Lívio) intermediavam a relação entre literatura e
poder com intuição notável, sendo que sua maior qualidade está na reflexão, por vezes
perturbadora, sobre o passado recente. É natural que cada um desses escritores tenha
reagido ao novo regime de maneira particular e que suas respostas tenham evoluído com
o tempo, à medida em que o sistema imperial também evoluía, de modo que não há
uma única literatura "augustana". Assim, há uma enorme diferença entre as primeiras
obras de Virgílio e Horácio, datadas de 30a.C., quando a sociedade romana ainda estava
cindida (sem que estivesse claro o fim da disputa ou quem sairia vencedor), e as obras
de Ovídio, escritas a partir de 16a.C., momento em que Augusto e seu poder estão
consolidados.

Os poetas augustanos empenham-se para rivalizar com os clássicos gregos:


Virgílio reivindica o manto de Homero, Horácio é o novo Alceu (sem deixar de lado
outros tantos líricos gregos) e Propércio alega ser o novo Calímaco. A exemplo do
termo "clássico", a conotação de "augustano" (assim como no período da literatura
inglesa)4 como "comedido" ou "harmonioso" traz o risco de apagar a natureza
revolucionária dessas obras. De fato a ousadia e ambição desses escritores é mais visível
na maneira como eles respondem às transformações da própria sociedade romana,
incluindo sua recusa, por vezes, a celebrá-la.

A enorme qualidade da literatura praticada no final da República e na época de


Augusto fez com que fosse identificada tradicionalmente como a era de ouro da
literatura latina, seguida pela era de prata do primeiro Império (17-130d.C.). Contudo,
essa nomenclatura, com sua implicação de valor, saiu de moda faz tempo, e, de qualquer
modo, ela subestima o sucesso de muitos escritores do Império na adaptação às novas
circunstâncias: o poeta épico Lucano, o romancista Petrônio, o satirista Juvenal e o

4
A denominação remete à literatura praticada na Inglaterra nos séculos XVII e XVIII, de inspiração
clássica, e cujos principais expoentes são Pope e Swift. Nota da tradutora.
7

historiador Tácito são páreo para qualquer um de seus antecessores. Como é de se


esperar, a principal preocupação de toda a literatura latina imperial é o relacionamento
entre o escritor e o imperador, que está no mesmo patamar da que ocupa a relação entre
o escritor e o passado literário. Augusto exilou Ovídio no Mar Negro em 8d.C. e baniu
sua apimentada poesia amorosa da biblioteca do Palatino; Tibério (que reinou de 14 a
37) induziu o historiador Cremutius Cordus, que era favorável à república, a cometer
suicídio e queimou seus livros; enquanto Nero (54-68) obrigou Lucano, Petrônio e
Sêneca (seu preceptor e conselheiro) a se matarem. Domiciano (81-96) era
particularmente paranoico e despótico e foi alvo do ataque de Tácito, Plínio e Juvenal-
mas a uma distância segura, depois da morte do imperador e do fim de sua dinastia. É
fácil para nós olhar com desprezo a bajulação de escritores como Estácio e Plínio, com
seus panegíricos dos imperadores reinantes; afinal o conformismo nunca é tão sexy
quanto a revolta. Mas sua decisão de cooperar com o sistema é compreensível e torna
ainda mais impressionantes as polêmicas anti-império de Lucano e as análises mordazes
que Tácito fez da história romana desde Augusto.

A literatura grega do período imperial é marcada pela mesma preocupação em


relação ao poder de Roma. O filo-helenismo dos imperadores romanos como Adriano
(117-138) e Marco Aurélio (161-180) encorajou o renascimento da literatura grega sob
patrocínio romano, já que a elite romana no poder estava ansiosa em associar-se ao
prestígio da cultura grega e os gregos cultos estavam contentes em proporcionar isso a
eles. Embora grande parte da literatura grega supérstite do período imperial esteja
marcada por um classicismo artificial e uma perspectiva romântica dos velhos bons
tempos em que a Grécia era autônoma politicamente, os melhores escritores romperam
com essa nostalgia paralisante e responderam com mais criatividade ao poder romano e
à literatura latina. As vidas paralelas, de Plutarco, por exemplo, em que a biografia de
um grego célebre é emparelhada com a de um romano cuja vida lhe é comparável em
termos de vícios e virtudes (Alexandre, o Grande com Julio Cesar; Demóstenes com
Cícero, etc), rompe com estereótipos culturais de ambos os lados, lembrando aos
romanos que os gregos também podiam se destacar como guerreiros e estadistas e, não
apenas estetas decadentes, e mostrando aos gregos que os romanos criaram uma vida
cultural própria e sofisticada, sendo mais do que milicos filistinos.

A literatura da Antiguidade tardia (que vai de meados do século terceiro em


diante) reflete não apenas a fragmentação do Império romano, que sentia cada vez mais
8

a pressão das fronteiras, mas também a consolidação do cristianismo como religião


oficial. Produz-se ainda literatura clássica de alta qualidade- a épica grega de Quinto
Esmirneu e Nono; a poesia latina de Ausônio, Claudiano e Prudêncio; a história romana
de Amiano Marcelino (grego, mas que escrevia em latim)-, mas o predomínio do
cristianismo marca uma guinada na tradição literária ocidental. Entretanto, embora
muitos clérigos fossem hostis à cultura clássica (pagã)- "Os mesmos lábios não podem
tecer elogios tanto para Júpiter quanto para Cristo", declarou Gregório, o Grande, por
exemplo-, a cultura clássica não foi simplesmente substituída pelo cristianismo, mas
amplamente absorvida por ele e adaptada aos seus fins. Assim, as obras dos pais
fundadores da Igreja, Ambrósio, Jerônimo e Agostinho, são profundamente devedoras
de seu conhecimento da literatura clássica. Enquanto vários eventos almejam fazer jus
ao título de "fim do mundo clássico"- sendo o saque de Roma pelos Visigodos, em 410,
o mais icônico, já que, desde o ataque dos gauleses em 390a.C., a cidade não caía na
mão de estrangeiros-, devemos tomar o cuidado de não deixar que o familiar modelo
"declínio e queda" apague as continuidades, especialmente no estudo dos textos
clássicos, quando o mundo clássico da antiguidade tardia transformou-se em
comunidades à órbita da igreja católica romana, na parte ocidental do Império, e
Bizâncio, na oriental.

Com um currículo com cerca de 1200 anos de história literária, é chegada a hora
de dispensar mais atenção para um dos aspectos mais característicos da literatura
clássica, notadamente o seu bem desenvolvido senso de gênero. É claro que o gênero de
uma obra literária permanece ainda hoje um fator relevante: nós também distinguimos
grandes categorias de poesia, prosa, drama, mas também subgêneros (especialmente no
romance, que é, no momento, a forma literária mais popular): policial, histórico, ficção
científica... O mesmo vale para outras mídias, como os filmes, por exemplo: drama,
horror, western, etc. Indiscutivelmente, contudo, os autores clássicos estavam ainda
mais conscientes que os seus colegas modernos de que formas e convenções se
adequavam ao gênero que praticavam. Todo texto literário antigo inscreve-se num
gênero específico, mesmo quando está interagindo com outro(s)- como na tragédia
histórica, por exemplo, que vem a ser história escrita no estilo da tragédia. Alguns
teóricos modernos observariam que todo texto pertence a um gênero e que é impossível
não escrever em um: assim, mesmo aqueles escritores que tentam libertar-se das
convenções e criar uma composição esdrúxula ainda são rotulados como literatura
9

"experimental". Pode-se apontar a invenção dos principais gêneros literários e de suas


convenções como a consequência mais impactante da influência da literatura clássica.
Portanto, essa introdução também está organizada em vista dos gêneros, refletindo
assim a sua importância.

O que é gênero, afinal? A primeira observação a ser feita é que gênero não é
uma forma platônica atemporal e imutável, mas a designação de um grupo de textos que
têm em comum certas características- sejam elas na forma, no contexto de performance
ou nos temas- e que as desenvolvem continuamente ao longo do tempo. Por exemplo,
todos os textos que compõem o antigo gênero trágico partilham certos "traços
familiares" (são textos dramáticos escritos em uma elocução poética específica, retratam
o sofrimento humano, trazem deuses interagindo com homens, etc) que nos permitem
identificá-los como um grupo reconhecível. Mas, apesar de certos traços distintivos
caracterizarem cada gênero dado, os limites entre eles são fluídos e frequentemente
rompidos para obtenção de um efeito literário.

Como ainda está claro na literatura e cinema modernos, um gênero traz


embutidos certos códigos, valores e expectativas. Ele cria um mundo próprio, ajudando
o autor a comunicar-se com o público, como quando ele preserva ou quebra convenções
de gênero e, com isso, cria efeitos variados. A razão de os gêneros interessarem aos
escritores está no fato de eles lhes proporcionarem uma estrutura e algo a ser
preenchido, ao mesmo tempo que oferecem ao público o prazer da diversão familiar e
engenhosa que decorre deles. Os melhores escritores preservam o que julgam necessário
das formas tradicionais e depois as renovam, deixando no gênero a sua própria marca e
transformando-o para os escritores e públicos vindouros. Em outras palavras, gênero é
uma fonte de dinamismo e criatividade, e nunca uma camisa de força, a menos que o
escritor careça de imaginação e criatividade.

Todo escritor antigo sabia quem eram os principais expoentes do gênero que
praticava e tinha por objetivo rivalizar com seus predecessores e, até mesmo, superá-
los. As palavras-chave, entre os antigos, para designar esse processo de interação com o
passado literário são imitatio ("imitação") e aemulatio ("emulação", "competição").
Imitação não implica cópia servil, mas adaptação criativa da tradição- a escrita ficcional
hoje ainda envolve a reelaboração da literatura anterior, já que escritores costumam ser
também leitores aficionados. Naturalmente, competir com grandes escritores do passado
10

é negócio arriscado- ou, nas palavras de Horácio: "Quem quer que tente rivalizar com
Píndaro expõe-se a um voo tão arriscado quanto o de Ícaro" (Odes, IV.2.1-4,
parafraseado)- , mas o que caracteriza os melhores escritores da antiguidade é a sua
resposta às grandes obras do passado à luz do presente.

A literatura clássica caracteriza-se pela hierarquização dos gêneros, considerados


"elevados" (como épica, tragédia, história), de um lado, e "baixos" (como comédia,
sátira, mimo e epigrama), do outro. "Elevado" e "baixo" descrevem quão séria a matéria
tratada é, quão imponente a linguagem, quão nobre a dicção, etc. Muitos dos gêneros
classificados como "baixos" se contrapõem e polemizam com as formas "elevadas", de
modo que comediógrafos, por exemplo, zombam da tragédia, apresentando-a como
artificial e pomposa, visando com isso afirmar seu próprio valor; da mesma forma a
sátira ridiculariza a pretensão da épica e da filosofia (entre outros gêneros) de
proporcionar normas sensatas para a vida. Por fim, é surpreendente que certos gêneros
perdurem mais do que outros: a elegia erótica romana floresceu por apenas meio século,
enquanto que a épica sempre esteve lá, e sempre mudando. Conclusão: só é possível
entender com propriedade um texto literário antigo, caso se leve em conta em que
estágio ele está em vista da "evolução" do gênero a que pertence e como ele se relaciona
com as convenções herdadas e as transforma.

Para concluir essa introdução, vamos examinar como os textos clássicos


chegaram até nós. A maioria absoluta das obras produzidas na antiguidade perdeu-se
(ao menos 90%): assim, por exemplo, das 900 tragédias (por baixo) escritas durante o
século V a.C. para o principal festival dramático de Atenas, que era anual, somente 31
sobreviveram na íntegra, i.e, menos de 3% do gênero mais prestigioso e popular da
Atenas clássica. Algumas perdas são mais sérias do que outras: poucos perderiam o
sono em razão dos louvores a um papagaio e a um mosquito, de Dio Crisóstomos, não
terem sido preservados. E os caprichos que cercam o que sobreviveu são cruéis: temos
só sete tragédias de Sófocles (de um total de 120 ou mais), mas no mínimo 1600 cartas
de Libânio, um retórico grego de IVd.C., prova (se é que é preciso uma) que o universo
é regido pelo acaso e que a vida não é justa.

Textos antigos, completos e fragmentados, chegaram até nós ou através de uma


sucessão contínua de cópias (tradução manuscrita), ou por meio de papiros antigos que
foram descobertos recentemente. Como os demais textos desde a invenção da imprensa,
11

no século XV, os clássicos foram transcritos à mão, por copistas especializados (em
geral, escravos), que se empenharam ao máximo para produzir uma cópia exata do
"original" de que dispunham. 5 Ainda assim, na medida em que os textos eram copiados
e recopiados, era natural que erros se infiltrassem neles, especialmente porque os
documentos antigos, que não apresentavam separação entre as palavras e quase não
eram pontuados, eram muito menos legíveis que os modernos, especialmente os
impressos. Uma das tarefas dos classicistas é localizar e corrigir esses erros.6

A sobrevivência da literatura clássica, então, é a história de um processo


longuíssimo e gradual de seleção e redução, na medida em que cada vez menos textos
eram lidos e recopiados. Certos fatores contribuíram para esse processo, alguns
propositais, outros, acidentais. Entre os primeiros, os mais importantes foram: a seleção
para integrar o programa escolar (se um texto era tido como difícil do ponto de vista
linguístico ou moralmente impróprio, por exemplo, já havia um problema); a
dependência de antologias ou coletâneas que destacavam trechos (re)conhecidos (como
os atuais Dicionários de Citações), o que levou à perda das obras completas; a
influência dos cânones acadêmicos, i.e, das listas dos melhores autores de cada gênero
como a dos nove poetas líricos ou dos três maiores tragediógrafos, que, por sua vez,
inspirou a escolha de textos para os programas escolares; e, finalmente, o mais
intangível deles, o gosto do público e a percepção de qualidade, pois, como Horácio diz,
"a existência de poetas medíocres, nem homens, nem deuses, nem livreiros aceitarão"
(Arte poética, 372-3). Outros fatores nada tinham a ver com a com a literatura em si:
traças que devoram livros, fungos, e o incêndio de bibliotecas, como, por exemplo,
quando a Grande Biblioteca de Alexandria, com seu meio milhão de rolos de papiro, foi
reduzida a cinzas durante o ataque de Julio Cesar contra a cidade em 48a.C.

Mais adiante outros gargalos intervieram, como a mudança da forma física do


texto, do rolo de papiro para o mais prático códice, mais afim ao nosso livro. Essa
transição, que teve início no final de Id.C. e completou-se em fins de IVd.C., teve por
consequência que apenas as obras copiadas nesse novo formato tiveram uma chance
justa de sobrevivência. O formato do códice era particularmente do agrado dos cristãos,

5
Escritores antigos não deixavam manuscritos ou anotações de próprio punho, assim, os copistas partiam
dos manuscritos que tinham à mão, por sua vez cópias de outros manuscritos... Nota da tradutora.
6
Essa é a atribuição do editor de textos, encarregado de examinar e comparar os manuscritos e papiros,
bem como as edições impressas pregressas de uma determinada obra, com o intuito de aprimorar seu
texto. A edição textual está no coração da filologia clássica. Nota da tradutora.
12

o que nos leva a nosso último obstáculo, a censura e negligência cristã. Devemos, no
entanto, evitar ser muito duros com os cristãos, já que eles reconheceram a qualidade
dos textos pagãos e empregaram meios engenhosos para torná-los aceitáveis- por
exemplo, através da promoção de uma leitura alegórica à luz da doutrina cristã, como
quando a quarta Écloga de Virgílio foi lida como o prenúncio do nascimento de Cristo.
E é graças às bibliotecas dos mosteiros e catedrais durante a Idade Média, bem como
aos filósofos e estudiosos islâmicos do mesmo período, que devemos a preservação dos
próprios textos, até sua redescoberta no Renascimento, do qual foi o estopim.

Por sorte, alguns acasos da história são felizes, e novos textos clássicos, quase
sempre preservados como fragmentos papiráceos em montes de escombros do Egito,
ainda estão sendo descobertos e publicados. Assim, recentemente assistiu-se a
publicação de obras anteriormente desconhecidas dos grandes poetas gregos Safo e
Arquíloco (cujos inéditos foram editados em 2004 e 2005 respectivamente). E novas
tecnologias, como o exame multi-espectral de imagem, possibilitou a leitura de textos
antes ilegíveis, como os escritos em rolos de papiro danificados pelo fogo, carbonizados
pela erupção do Vesúvio em 79d.C. Novas descobertas e abordagens desse tipo
continuam transformando nossa concepção da literatura clássica.