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EAD CLARETIANO

Educação à Distância Centro Universitário

ISIDORO DA SILVA LEITE - 1104501

A FÉ QUE OUSA FALAR

COMENTÁRIOS

Centro Universitário Claretiano


Teologia
Atividades Complementares - Livro
Jairo da Mota Bastos

SÃO PAULO
2014
1. Introdução

Este livro, provocador já por seu título, apresenta uma séria


discussão sobre temas polêmicos, há muito abraçados e defendidos pela
Igreja Católica. Entre eles, destaco a anacrônica e rígida hierarquia
eclesiástica, as discussões em torno da manutenção do celibato clerical e
o abuso de menores por membros da instituição. O autor, um sacerdote, a
todos esses temas os examina e comenta sob a luz do bom senso.

2. Comentários Gerais

Inicialmente, o autor mostra a dificuldade de alguém se posicionar


contra alguma tradição cristalizada da Igreja. Entre outros motivos
elencados estão a característica do não igualitarismo na Igreja e o modelo
organizacional adotado: as estruturas eclesiais são medievais,
demonstrando a forte influência dos costumes feudais.
Como exemplo dessa estrutura feudal, que se torna visível nos
diversos rituais ainda presentes, o autor cita o ritual da ordenação
sacerdotal: cada candidato à ordenação sacerdotal tem seu nome
pronunciado por um diácono e deve responder "presente" (em latim
"adsum"= estou presente; aqui estou). Após a imposição das mãos pelo
bispo e pelo clero presente, cada ordenando se ajoelha aos pés do bispo,
fazendo-lhe e a seus sucessores a promessa de respeito e obediência.
Ressalte-se: obediência ao superior hierárquico, não à Instituição.
E sugere, muito bravamente, que talvez já seja o momento de o
laicato dizer, juntamente com os candidatos, em voz firme e forte:
"Adsum". Estamos presentes e prontos a ofertar nossos talentos e
nossas capacidades para levar avante a missão da Igreja, esperando
sermos tratados como adultos ao mesmo tempo em que proferimos nossa
promessa de obediência, lealdade e fidelidade ao evangelho, à nossa
consciência e à nossa Igreja.
Em seguida, surge o tema do clericalismo, que ocorre entre os
bispos e sacerdotes, quando passam a dar preferência aos privilégios e
direitos em lugar de agirem e de atuarem como discípulos no batismo de
Jesus. Esse assunto tornou-se destaque, novamente, nas palavras de
nosso Papa Francisco, quando em um encontro com seminaristas e jovens
sacerdotes, monges e monjas assim disse:
“Me duele ver a curas o monjas con autos último modelo… ¡No
se puede! Mejor ir en bicicleta o usar un auto más humilde; piensen en
los chicos que se mueren de hambre!”, dijo el sumo pontífice a los
futuros sacerdotes y monjas, a quienes pidió ser alegres y no tener
“cara de vinagreta”.1

Existe uma realidade que ainda não foi percebida pelas autoridades
da Igreja: hoje há católicos leigos mestres ou doutores ouvindo a homilia
de um sacerdote. O que significa isso? Os ouvintes não estão ouvindo
apenas com seus corações e ouvidos; estão ouvindo também com suas
mentes educadas. E querem ouvir uma boa pregação para adultos,
rejeitando com incredulidade os pronunciamentos dogmáticos ou
doutrinários que não estejam embasados em fontes teológicas e
escriturais. Não aceitam e se entristecem ao receber clichês a seus
questionamentos.
O grande tema é a impossibilidade prática de algum crente -
clérigo ou não - poder duvidar ou questionar para ver esclarecida alguma
dúvida ou solicitar qual a base escritural ou teológica que dá sustentação
a algumas práticas ou ritos ou "dogmas estruturais" amplamente
disseminadas e praticadas pela Igreja.
O autor, como norte-americano que é, está motivado pelos graves
acontecimentos envolvendo bispos e padres de sua nação, na década de
1990, quando estourou nos EUA o maior escândalo da igreja católica
americana: as notícias dos abusos sexuais causados pelos sacerdotes,
com o acobertamento da questão por parte de seus bispos. Aqui no Brasil
esses problemas, aparentemente, não são tão graves, mas, lá, houve uma
grita geral por parte da sociedade americana. Aqui, ou não são tão
graves, ou ainda há um acobertamento geral sobre o tema, de tal forma
que a grande imprensa não os divulgou.
E ele percebe, tristemente, que a forma como a Igreja reagiu a
esses escândalos foi completamente coerente com sua estrutura feudal:
protegendo, negando e com uma série de tentativas de construção de
“muros” para a proteção da reputação, da autoridade e dos recursos da
instituição.

1
http://elcomercio.pe/actualidad/1600620/noticia-papa-francisco-me-duele-ver-curas-monjas-autos-ultimo-
modelo?ft=grid
3. Comentário Final e Conclusão

Apesar de já estarmos, praticamente, na metade da segunda


década do século XXI, a Igreja Católica ainda é, indiscutivelmente, um dos
últimos sistemas feudais do Ocidente. Uma portentosa mostra dessa
estrutura pode ser visualizada e ficou patente à época em que surgiu o
escândalo do abuso sexual de menores, por parte do clero norte-
americano. A resposta dos bispos à crise de abuso sexual por parte do
clero tornou-se o centro das atenções. Como eles reagiram ao escândalo?
Da única forma que “sabiam”, da única maneira que podiam. Os bispos e
outras autoridades da Igreja reagiram ao escândalo do único modo
permitido por sua cultura feudal: com segredo, negação e uma série de
esforços de bloqueio para proteger a reputação, a autoridade e os
recursos da instituição. Embora trágica e repreensível, sua resposta foi
coerente com o modo pelo qual os sistemas feudais operam.
O autor discorre sobre esta e outras questões que instigam a Igreja
contemporânea, abordando o papel do laicato em desafiar uma Igreja
feudal a ser transparente, a prestar contas e a iluminar seus escaninhos
escuros e tenebrosos. Despertados para sua dignidade e responsabilidade
como membros plenos da Igreja, iguais e adultos, os leigos católicos estão
tomando a palavra e ousando falar a autoridades eclesiais há muito
acostumadas à estrutura feudal e à cega obediência hierárquica.

4. Bibliografia

COZZENS, D. A fé que ousa falar. São Paulo: Loyola, 2006.