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LOUVOR,

ADORAÇÃO
LITURGIA

R U B EM AMORESE
PRt FAC : C D í ' NE L S ON BOMUCA R
LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA
Louvor, Adoração e Liturgia é um livro para adoradores sinceros, que
querem rever sua prática devocional, seja íntima, familiar ou litúrgíca.
Rubem Amorese nos desafia a uma adoração que comece "no quarto",
em referência à recomendação de Jesus: "entra no teu quarto e,
fechada a porta..." Aabordagem parte do aspecto pessoal, concentra-se
no ambiente doméstico e, então, culmina com o culto público e litúrgico
na igreja.
* ARTEEADO RAÇÃO
* EMOÇÕES E ADORAÇÃO
* ADORAÇÃO PESSOAL
* ADORAÇÃO NAFAMÍLIA
* LOUVOR NA IGREJA
* LITURGIA

Editora Ultimato
l moi'õe'1, , expressão.
beleza, prazer... Esses termos funcionam
como mediadores de realidades tanto
importantes quanto difi<-e j de explicar.
Abrem passagem para um jardim
interno da alma; aquele lugar secreto
que gostamos de visitar, mas com cujo
cam inho nem sempre acertamos;
aquele "mundo" só nosso, onde muitas
vezes temos experiências personalíssi­
mas e, de certa forma, intransferíveis,
inenarráveis, inefáveis. Refiro-me à
dimensão íntima e estética da experiên­
cia do amor de Deus. Em outras pala­
vras, toda tentativa de volta ao jardim,
toda busca de religação com Ele mesmo
se torna uma experiência linda e
deliciosa.
Penso que foi da vontade do Criador
que todo gozo e fruição do prazer
:
ético fossem associados ao seu amor
e reconhecidos como dádiva sua. Esse
reconhecimento, que chamamos de
gratidão, está na origem da verdadeira
adoração. Não será por isso que o
salmista nos convida a adorar ao Senhor
na beleza de
RUBEM A M O R E S E

LOUVOR,
ADORAÇÃO
E LITURGIA

Editora Ultimato
Viçosa, MG
LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA
Categoria: Espiritualidade / Igreja / Vida cristã

Copyright © 2004, Rubem Amorese

Primeira Edição: Dezembro de 2004

Revisão: Bernadete Ribeiro

Projeto Gráfico: Editora Ultimato

Capa: Magno Paganelli

Ficha catalográfica preparada pela Seção de Catalogação


e Classificação da Biblioteca Central da UFV

Amorese, Rubem Martins, 1951-


A524L
2004 Louvor, adoração e liturgia / Rubem Amorese. — Viçosa, M G :
Ultimato, 2004.
176p.
Inclui bibliografia

ISBN 85-86539-76-7
1. Louvora Deus. 2. Adoração (Religião). 3- Liturgia. I. Título.

C D D . 20.ed. 248.3

Pu b l ic a d o no B r a s il c o m a u t o r iz a ç ã o
e c o m t o d o s o s d ir e ito s r e s e r v a d o s pela

Editora Ultimato Ltd a


C aixa Postal 43
36570-000 Viçosa, MG
Telefone: 31 3891-3149 — Fax: 31 3891-1557
www.ultimato.com.br

11 3 a im pressão
Dedico este livro à Ana e ao Estêvão, parceiros de louvor.
Artistas já são.
Adoradores também.
Tudo em formação, no entanto, graças a Deus.
Mantenham-se aprendizes, meus filhos.
Aprendam mais que eu.
Porque, em matéria de adoração, transformação é o alvo.
Bendito e inalcançável.
Descanso, talvez, na glória.
*
S umário

P re fá c io 11
In tro d u ç ã o 15
1. D e fin içõ e s N ecessárias 21
2. A rte e A d o ra ç ã o 29
3. Em o çõ es e A d o ra ç ã o 35
4. A d o ra ç ã o Pessoal 61
5. A d o ra ç ã o na Fam ília 85
6. Lo u v o r na Igre ja 91
7. L itu rg ia 119
8. Lo a d lit 163
N o ta s 165
B ib lio g ra fia 171
Pu r i f i c a ç ã o

Venho à tua casa, meu Senhor,


Entro em teus átrios com temor;
Preciso tanto compreender por que razão
Desejas ter meu coração.

Chego à tua casa sem saber


Se hás de aceitar meu bem-querer,
Pois, de conflitos e pecados, meu cantar
Macularia o teu altar.

Ai, meu Senhor!


Faze meu louvor
Purificar-se em teu altar.
Em teu altar.
. Separa a dor
Da acusação,
Liberta-me com teu perdão,
Com teu perdão;
Liberta a minha adoração,
Adoração.
Trago-te um culto racional,
De corpo inteiro, integral,
Um sacrifício vivo, santo e passional,
Ações de graça e contrição.

Se me julgares, meu Senhor,


Nada direi em meu favor,
Pois sei que nada em minha vida restará;
E a casa em terra cairá.

Traze, meu Senhor,


Transformação:
Aceita a minha adoração.
Adoração;
Dá-me o ardor
Da devoção;
Dá-me, em tua casa, o teu favor.
0 teu favor:
Recebe um pobre pecador,
Um pecador.*

Letra minha e música de Toninho Zemuner.


Prefácio

AAeu querido amigo Rubem Amorese rraz uma rica contribuição


para a igreja brasileira com Louvor, Adoração e Liturgia. Suas
observações inteligentes e seu pensamento claro revelam uma visão
madura no que diz respeito à aplicação e vivência de cada leitor
em seu próprio contexto.
Temos à disposição um instigante livro que não despreza a
tradição nem o novo, que pode ser apreciado em todos os seus
capítulos e possibilita ao leitor interagir com a mente e o coração
do autor.
12 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

O texto deixa transparecer um momento pessoal de serenida­


de, um coração apascentado, devocional, uma espiritualidade sau­
dável e saborosa. Encoraja-nos a uma adoração mais íntima, de­
safiadora, que comece na privacidade “do quarto”, com repercus­
são na família e nos ritos externos da liturgia, que devem refletir
a nossa transformação interior, em espírito e em verdade.
O autor mostra uma preocupação pertinente com as raízes e
razoes do coração, e com o que devemos aprender e reter para
nossa prática pessoal e comunitária. Nestes tempos de confusão,
precisamos ter uma visão saudável da liturgia, que não engesse
nem tire a liberdade de expressão na adoração ou no culto públi­
co, antes lhes dê ainda mais significado.
Ao contrário de tantos outros livros que exploram mais as
posturas do adorador ou modelos que aportam em nosso Brasil e
são absorvidos sem avaliação criteriosa e bíblica, Louvor, Adora­
ção e Liturgia nos ajuda a construir uma teologia da adoração.
Apresenta as bases que devem nortear nossas expressões e mani­
festações pessoais e comunitárias.
Nas últimas décadas tivemos o crescimento de expressões mais
espontâneas na adoração pessoal e pública, a queda de preconcei­
tos quanto a estilos de música, instrumentos, expressão corporal,
e mais participação congregacional. Mesmo assim, vínhamos sendo
reducionistas em nossa compreensão, entendendo louvor como
música ou expressão artística somente. Além disso, tínhamos e
airtda temos o chamado “serviço de culto”, em que as pessoas
apenas “assistem”, em vez de participar ativamente.
Perdemos tam bém m uito de nossas raízes, alicerces e
referenciais da Palavra de Deus, descuidando-nos dos conteúdos
teológico e poético em nossa adoração cantada. Este livro é um
resgate de muitos valores fundamentais no louvor e na adoração,
e preenche uma lacuna no universo de livros escritos sobre esses
assuntos em português.
PREFÁCIO > 13

Cada capítulo ajuda-nos a entender e construir uma teologia


mais devocional da adoração, em que se busca a prática de forma
íntima, familiar e litúrgica. Essa teologia se baseia no desenvolvi­
mento de um relacionamento e conhecimento pessoal do Deus
Triúno, fazendo da adoração o resultado de expressões do cora­
ção que revelam esse relacionamento.
Temos aqui muitas ferramentas para, com discernimento e
sabedoria, retermos o que é bom de tantas práticas e manifesta­
ções na adoração. Nada mecânico, pois sempre nos convida à
profundidade da mente e do coração do Deus que queremos e
precisamos adorar. Ações de graça, intercessão, celebração, con­
fissão, confirmação, consagração, comunhão, são alguns dos cati­
vantes tópicos abordados para uma liturgia que expressa e traz
um pouco mais da manifestação da glória de Deus! Que o Senhor
seja louvado, adorado e engrandecido entre nós!
Nelson Bomilcar
Introdução

P o r que mais um livro sobre louvor e adoração? Essa pergunra


pode estar na mente de quem o folheia numa estante de livraria,
ou de quem lê, na Internet, uma chamada ao seu título. Para essa
questão, gostaria de oferecer duas respostas: uma curta e outra
extensa.
A resposta curta é que dispomos de pouco material, em língua
portuguesa, sobre uma teologia do louvor e da adoração. Já temos
boa literatura sobre a prática do louvor eclesiástico, envolvendo
técnicas, idéias, sugestões e cuidados. (Apresento uma bibliogra­
fia ao final deste livro.) No entanto, sobre o que chamarei de “as
razões do coração”, quando precisei de material de consulta, senti
falta. Talvez exista em meio a outros temas teológicos, mas
não tratado separadamente e com uma abordagem dirigida ao
ministro de louvor de nossos tempos.
i6 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

A resposta extensa envolve a percepção de que vivemos um


momento de explosão da prática eclesiástica do louvor. Parece
que com o crescimento da participação dos jovens nas igrejas houve
uma espécie de liberação litúrgica, que muito enriqueceu a ex­
pressão do louvor. Essa expressão se difundiu de tal forma, nos
últimos quarenta anos, que se incorporaram novas formas, novos
instrumentos, novas linguagens, e tudo se fez novo; tudo se fez
mutante. Um destaque para as mulheres, que, em grande parte,
chegaram aos púlpitos por esse caminho.
Houve tensão, num primeiro momento. O órgão lutou para
manter seu espaço elitista e solene contra a alegre guitarra, popu­
lar e barulhenta. O coral e suas partituras indecifráveis ao leigo
perderam espaço para os “dirigentes de louvor” acompanhados
de back vocais microfonados.
O pastor perdeu o sono com as disputas a respeito do volume
do som, da irreverência da bateria, das vestimentas de moças e
rapazes, dos trejeitos sensuais que o ritmo produzia nos dirigen­
tes, dos ritmos importados “do mundo” (leia-se rock e samba) e
assim por diante.
Aos poucos, no entanto, as coisas começam a se acomodar.
Já se vêem cultos solenes — em que a guitarra não entra — ,
idealizados exclusivamente para atender aos mais tradicionalistas.
Mas esses cultos convivem com “louvorzÕes”, abertos a todos,
nos quais o ritmo é quase “bate-estaca” e o som é moderno
(leia-se ensurdecedor). Em algumas igrejas começa a existir
espaço para todos.
Passada a primeira onda, naturalmente conflituosa, começa-se
a buscar o que de melhor cada modelo pode oferecer a essa igreja
pluralista, obrigada a conviver com disparidades e antagonismos.
Isso se faz harmonizando as diversas tendências num mesmo
culto, como sinal de tolerância e respeito mútuo. Já não são
incomuns os cultos solenes em que guitarra, baixo e bateria são
INTRODUÇÃO > 17

bem-vindos. Onde isso ainda não é possível, criam-se espaços


alternativos para vanguardistas, tradicionalistas e reacionários.
Mas surgem algumas dificuldades. Elas vêm exatamente do
exercício crítico, exigido pelos novos tempos. São problemas re­
lacionados à necessidade de “reter o que é bom” de tantas propos­
tas de expressão litúrgica. Como selecionar o que realmente con­
tribui para a adoração na igreja e deixar de lado os modismos, os
estrelismos, os “enlatados” estrangeiros, as “forçaçoes de barra”
dos mundanismos travestidos de gospel e até mesmo a transfor­
mação do louvor em mercado sem alma e os cargos de ministro
em cabide de emprego eclesiástico? A chave da questão está na
palavra discernimento. Mais do que nunca, na história da igreja,
precisamos de sabedoria. Devemos buscá-la em Deus, humilde e
diligentemente.
Terminando a resposta extensa à pergunta sobre o porquê des­
te livro, diríamos que nos propomos a contribuir com pensamen­
tos e idéias que ajudem, com a graça de Deus, àqueles que dese­
jam discernir sua própria realidade eclesiástica. Nesse sentido,
esperamos que o que se segue seja útil tanto a ministros1 de lou­
vor como a adoradores sinceros, desejosos de rever sua prática
devocional, seja íntima, familiar ou litúrgica.
Quando usamos a expressão “teologia do louvor e da adoração”
pode parecer que a palavra teologia diz respeito a assuntos difíceis,
teóricos e reservados a pastores e acadêmicos. Essa nao é a
intenção. Uso a palavra teologia como sinônimo de “experiência
de relacionamento com Deus”, ou seja, refiro-me àquele apren­
dizado que só tem quem experimenta, quem dedica tempo a
conhecer. Teo-logos quer dizer “conhecimento de Deus”. É verda­
de que muito se pode aprender de Deus nos livros e compêndios.
Mas não devemos ficar nos livros, nem mesmo apenas na Bíblia.
Precisamos trabalhar esse conhecimento de forma pessoal e
doméstica, e depois praticá-lo na vida diária. Chamo isso de
i8 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

“teologia devocional” . Nesse sentido, teologia é um conjunto de


conhecimentos sobre Deus, advindo da convivência com ele, da
busca sincera e contínua de um relacionamento íntimo com o
Altíssimo, sempre estribado em sua Palavra e direcionado para os
irmãos e para o próximo. Prazer e dever de todo crente.
Nossa reflexão começa com algumas definições básicas de lou­
vor, de adoração e das expressões litúrgicas e artísticas envolvidas.
Em seguida, tentamos descobrir alguns princípios bíblicos da
adoração, para associá-los à arte, enquanto meio de expressão
emocional, relacionada ao louvor, em três ambientes. Primeiro, o
pessoal, que chamamos de “quarto”, em referência à recomendação
de Jesus: “entra no teu quarto, e fechada a porta...”. Crescendo
do privado para o público, meditamos sobre o nível doméstico, e
culminamos com o culto público e litúrgico propriamente dito.
Para tratar da dimensão pública da adoração, empregamos os
conceitos de drama e expressão, tentando resgatar, com eles, a
coerência entre os conteúdos dramatizados e seus referenciais
bíblicos, além de seu papel sistêmico no culto, considerando
ser a arte engajada uma arte “a serviço” do culto. Neste ponto,
visitamos rapidamente alguns conceitos trabalhados no meu livro
Celebração do Evangelho.2
No capítulo final, ao abordar a liturgia propriamente dita, ten­
tamos “pensar alto” a respeito dos aspectos teóricos e práticos da
construção da ordem semântica do culto, ou seja, do que cada
elemento litúrgico expressa (quer dizer), isoladamente ou em con­
jugação com outros, em termos de significados.
INTRODUÇÃO > 19

kkk
O tom que eu gostaria de dar aos escritos que se seguem é
o de pensamentos, no sentido de compartilhar com meus irmãos
ministros, de todas as idades, o que sinto e penso sobre esse
grande tema. Na verdade, eu preferiria estar falando ao vivo. E o
tenho feito, sentado numa roda de Escola Dominical, por alguns
semestres. Nesse clima mais pessoal, fica mais fácil mostrar o
coração pelo tom da voz, pela expressão não-verbal. E revelar que
se algum dia ele foi crítico e ácido, Deus sabe, já não o é mais;
que se já foi incendiário, tornou-se bombeiro; que da confortável
posição de ovelha, foi “demovido” a pastor, dos menores; que o
filho exigente tornou-se pai aflito. Por escrito, o coração desapa­
rece. Tentei cobrir o assunto, mas sei que não consegui. Não me
importo; importo-me com o que escrevi, pois retrata a minha
caminhada. Outros terão ido mais longe.
Confesso, desde já, que não sou especialista no tema, embora
traga alguma experiência de músico instrumental, corista e diri­
gente de louvor. Experiência de amador, como de qualquer “anti­
go de igreja”. E falo apenas a partir dessa experiência, associada a
algumas leituras.
Portanto, leitor, receba os pensamentos que se seguem como
minha forma pessoal de ver esses assuntos. Retorno ao tema mais
de vinte anos após a primeira edição do Celebração do Evangelho.
Sem dúvida, você perceberá o peso dos cabelos brancos sobre
minha pena.
Minha oração é que estes singelos pensamentos ajudem a
igreja brasileira, neste momento paradoxal de sua existência:
exuberante em sua liturgia e sofrida em sua teologia.
capítulo i

Definições Necessárias

A s primeiras coisas primeiro. É assim que convém começar,


assentando alguns conceitos que nos permitam caminhar sobre
bases comuns de entendimento. Poderá parecer desnecessário a
alguns, mas a pluralidade de referências e de experiências que
permeiam o espaço cristão, hoje em dia, recomendam um
nivelamento básico. Basta-nos, para isso, definir quatro concei­
tos: teologia, louvor, adoração e liturgia.

TEOLOGIA

A definição clássica de teologia aponta para um conjunto


de conhecimentos, para um repositório, para um patrimônio,
22 < lo uvo r, A d o r a ç ã o e Liturgia

enfim, sobre Deus. A palavra teo, vinda do grego, refere-se a Deus


e o termo logos, da mesma origem, refere-se a “compreensão”,
“entendimento”.
A palavra gnosis, também do grego, significa “saber”, “conhe­
cimento”. Dela se intitulou um capítulo da filosofia, chamado de
gnoseologia, ou seja, a ciência do conhecimento (alguns a cha­
mam de teoria do conhecimento). Houve, ao longo da história,
aqueles que imaginavam poder alcançar o entendimento de Deus
a partir de práticas ascéticas e leituras secretas. Eram os gnósticos.
A esse pensamento, os apóstolos — Pedro em particular — con­
trapunham um conhecimento mais dinâmico, mais relacional,
mais vivencial; e usavam, para diferenciar, a palavra epignose, que
quer dizer “pleno conhecimento”. Em suas epístolas, Pedro fala
daquele que, salvo pela fé em Cristo — revelação encarnada de
Deus — , passa a andar em seus passos e, como ele, a cultivar, em
obediência e fé, um relacionamento íntimo e filial com Deus.
É nesse sentido que nos propomos caminhar: na direção de
um entendimento mais completo, coletivo e contemporâneo da
adoração ao Senhor. Não se trata de apresentar algo pronto e
acabado, como comida já digerida, mas de propostas de “ação de
conhecimento”, propostas de caminhos de experimentação. Ex­
perimentar o Senhor? Sim, certamente. Sem isso, nossa teologia é
míope, distante, intelectual, acadêmica, vazia e estéril — gnóstica.
Essa é a idéia que o apóstolo Paulo transmite em 1 Coríntios
3/10. A metáfora de uma construção, para a qual ele lança o fun­
damento, na esperança de que sobre este outros edifiquem.
Teologia que salva e edifica é aquela que, saindo dos livros, se
encarna na vivência concreta da igreja; aquela que se revela na
dinâmica da vida, em seus eixos vertical e horizontal. Aqui, já
estamos com o apóstolo João, em sua primeira carta (4.20).
Parece-lhe impossível dissociar a relação vertical, com Deus,
das suas horizontalizaçÕes, com os homens. O apóstolo chega
DEFINIÇÕES NECESSÁRIAS > 23

à veemência de chamar de mentirosa essa “verticalização” de quem


diz amar a Deus e, ainda assim, odeia a seu irmão. Somos compe­
lidos a compreender que o símbolo da cruz bem se aplica à tarefa
teológica (de conhecer a Deus). Composta de dois eixos, a estaca
e a trave, a cruz não existe sem ambos.
Compreendendo a metáfora da cruz, não se pode chamar de
teologia qualquer movimento isolado, seja no eixo horizontal,
em direção ao próximo, seja no eixo vertical, em direção a Deus.
São necessários os dois eixos que se cruzam, pois Deus nos legou
um mandamento que se resume nessas duas dimensões: amar a
Deus, acima de todas as coisas, sem nos esquecer do próximo.
Aquilo que se desvia dessa ação prática e comunitária é deficien­
te; de certa forma, é mentiroso, ainda que sincero, no sentido de
que a verdade não é plena, não é completa, e o conhecimento
ainda não é, na linguagem de Pedro, “epignose” (pleno conheci­
mento), em contraposição aos gnósticos.
Sir Edwyn Hoskyns aconselhava: “enterre-se num dicionário
para então subir à presença de Deus”. Compreende-se sua idéia
de que o estudo profundo das Escrituras habilitaria o leitor a uma
devoção mais informada. No entanto, edificando sobre seus fun­
damentos, acrescentaríamos a trave da cruz: “enterre-se num li­
vro sobre louvor e adoração para então convidar seus irmãos a
subirem juntos à presença de Deus”.
Teologia será, para nós, uma tarefa de aprendizado (gnose)
que se exercita coletiva e participativamente, tanto no caminho
vertical (a estaca da cruz) de buscar a Deus quanto no horizontal
(a trave da cruz) de viver em santidade e serviço. Um movimento
leva ao outro, com idas e vindas que só terminarão na glória. O
estar com Deus nos dá as condições para, saindo do nosso quarto,
viver a vida que decorre da contemplação de sua santidade. E essa
vida se manifesta no amor fraternal, no exercício da devoção que
se materializa no serviço ao próximo. Porque, como dizia Tiago,
24 < l o u v o r , a d o r a ç ã o e litu rg ia

“a religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é


esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo
guardar-se incontaminado do mundo”.1

LOUVOR

A palavra louvor quer dizer, no seu uso comum, “elogio”. Re-


fere-se à expressão individual ou coletiva de reconhecimento das
qualidades de uma pessoa. Normalmente, está associada a grati­
dão. Usado de forma corriqueira, o termo louvor aponta para
algum feito marcante da pessoa ou para alguma característica sua
que tenha beneficiado um grupo ou uma pessoa. Dessa forma, o
pai pode louvar o filho por ter passado numa prova difícil, ou por
alguma virtude incomum, como o ser estudioso. Também o filho
pode louvar o pai por ser amoroso ou provedor. Nada mais co­
mum e corriqueiro em nosso cotidiano.
Quando se refere a Deus, em sua forma triúna ou particulari­
zado em alguma pessoa da Trindade, a palavra louvor assume
conotação teológica. Nessa acepção, a palavra passa a ser entendi­
da de duas formas possíveis: como “elogio” ou como “prática
litúrgica” . Como elogio, o louvor nada mais é que a expressão,
individual ou coletiva, de reconhecimento do que Deus é e faz.
Nesse processo, íntimo ou coletivo, de manifestação, o coração
humano salienta a santidade, bondade, fidelidade e misericórdia
de Deus, seja como propriedades marcantes de seu eterno ser,
seja como resultado de experiências recentes. Louvor, aqui, é um
sentimento que se expressa, se exterioriza. E o ato de dizer a Deus
o que sentimos e pensamos a seu respeito. Embora ocorra tam­
bém liturgicamente, não requer manifestação exterior alguma.
Pode acontecer apenas no coração devoto.
Hoje em dia já não se faz a distinção entre louvor e ação de
graças. Mas vale o registro de que o louvor reconhece e elogia o
DEFINIÇÕES NECESSÁRIAS > 25

que Deus é e faz. Fala de suas virtudes e qualidades, manifestadas


nos seus poderosos feitos. Já a ação de graças se refere ao que ele
fez por nós. Assim, agradecemos a Deus pelo que ele nos faz e 0
louvamos pelo que ele é.
Na sua acepção litúrgica, a palavra louvor assume a conotação
de um ritual complexo, que pode ocupar momentos de uma cele­
bração ou envolver todo o culto. Neste último caso, é conhecido
como culto de louvor, ou 0 moderno “louvorzão”. Nesse sentido,
a palavra significa, em grande parte das igrejas contemporâneas,
um período da reunião (ou toda ela) em que predominam a músi­
ca e as expressões artísticas destinadas a engrandecer o Senhor. Os
conteúdos variam pouco e envolvem segmentos tais como invoca­
ção, contrição, súplica e ação de graças. Mas predominam as ex­
pressões de exaltação às qualidades amorosas de Deus, associadas a
manifestações de compromisso pessoal e votos de santidade ou
guerra espiritual.

A doração

A palavra adoração traz conotações mais íntimas e afetivas, que


apontam para expressões de amor (ágape). Ela não se materializa
em liturgia, embora esteja na gênese do louvor e da liturgia. A
adoração, assim como o amor, não se vê. O que aparece é seu
resultado exterior, como expressão dramática da intimidade. Suas
exteriorizações comportamentais são de difícil reconhecimento.
Num mesmo momento, um dança e outro se ajoelha; um canta e
outro chora; um levanta as mãos e outro as cruza no peito. No
entanto, quando adoram, todos amam, todos se expressam, todos
oferecem sacrifício, todos se transformam nesse momento de ver­
dade íntima, pessoal e, muitas vezes, coletiva.
A adoração não é dirigida a semelhantes, como no caso do
louvor a um filho. Só pode ser entendida em relação a uma
26 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

divindade — no caso do cristianismo, a Deus. Talvez possamos


conceituá-la a partir de um mosaico de sentimentos, posturas e
atitudes, todos ligados uns aos outros. Portanto, diríamos que
significa, entre outras coisas, paz e segurança; lembrando o bem-
estar que sente a criança desmamada nos braços de sua mãe;2
contemplação de Deus, na beleza de sua santidade; admiração e
respeito da criatura diante do Criador; quietude contemplativa, di­
ante do seu mistério; celebração da vida, envolvendo gratidão e
alegre fruição do “jardim” em que ele nos pôs, para viver em
sintonia consigo mesmo; excitação dos afetos e exercício de amor
ativo em direção a Deus e às suas criaturas. Misteriosamente, a
adoração tem sempre o sinal positivo da exultação, mesmo em
tempos de dor e sofrimento. Nada, nem mesmo a tribulação,
pode conter a alma emfesta com “adufes, danças e címbalos sono­
ros e retumbantes.
Em resumo, diríamos que a adoração acontece na dimensão
do coração e requer um profundo “estar-de-bem” com Deus, o
que vale dizer que a criatura aceita e concorda, sem reservas, com
o que Deus é e faz. A adoração acontece na proporção inversa
dessas reservas. Quanto maiores as reservas, maiores os impedi­
mentos, as barreiras internas à adoração. Elas acontecem, geral­
mente, quando o que Deus está fazendo ou permitindo nos causa
dor, como, por exemplo, sua amorosa e necessária disciplina.

LITURGIA

A palavra liturgia vem do grego leitourgia, que quer dizer “fun­


ção pública”, também ligada ao serviço prestado aos deuses. Ado­
tado pelo latim medieval, o termo virou liturgia, significando culto
público.
Na adoração secreta, pessoal, a liturgia não faz sentido, pois a
organização das ações não requer uma ordem formal. Esta se faz
DEFINIÇÕES NECESSÁRIAS > 27

necessária quando outras pessoas passam a ser envolvidas no


processo. Assim, a liturgia nada mais é que uma ordem emprega­
da ao culto público, de forma a evitar o caos que reinaria caso ela
não existisse. No início da igreja cristã, ela surge rudimentar, nas
reuniões dominicais nos lares, apropriando-se de elementos do
culto judaico. Aos poucos, com o aparecimento das igrejas,
adquire elaboração mais complexa e formal, chegando a ter sua
ordem publicada.3 Essa ordem acaba por estender-se ao calendá­
rio anual de atividades da igreja.
Como em qualquer planejamento de atividades coletivas, 0
sentido do que se faz é importante. A liturgia tem sua importância
no culto por sua função de dar sentido, de ordenar compreensi-
velmente as diversas etapas e os ritos que compõem um ritual.
Veremos que uma liturgia mal elaborada pode conspirar contra a
beleza da celebração e prejudicar a compreensão e a participação
no culto, tornando-o truncado e cansativo. Uma liturgia bem
elaborada considera aspectos tanto devocionais quando de comu­
nicação; tanto 0 conteúdo quanto a forma; tanto a informalidade
quanto a reverência. A liturgia deve ser fluida como uma frase:
com sujeito, verbo e predicado.
Vale mencionar ainda o caráter funcional da organização
litúrgica. Ou seja, ela deve ser elaborada no sentido de facilitar os
propósitos da celebração comunitária. Em particular, ela deve ser
avaliada pela maneira como cumpre ou não três funções princi­
pais: 1) confirmação das crenças do grupo; 2) reforço dos seus al­
vos (adoração, comunhão e ministério) e 3) reforço da identi­
dade comunitária e da cultura particular do grupo.4 Esse últi­
mo item quer dizer que há uma maneira particular a cada igreja
de expressão cúltica (que pode ter erros e acertos), e é dentro
desse referencial que precisam ser avaliadas as atividade práticas.
Veremos que a arte na igreja, em particular a música eclesiástica,
diferentemente da música artística, é serva da teologia e serva
28 < l o u v o r , a d o r a ç ã o e litu rg ia

da igreja. Assim como a liturgia, ela também é funcional


portanto, deve cumprir as três funções mencionadas.
capítulo 2

A rte e A doração

E comum nos perguntarmos sobre as características que nos


diferenciam dos animais irracionais. O dom da razão sempre apa­
rece como resposta mais óbvia, logo relativizada por quem gosta
de estender o debate. Alguém logo dirá que os golfinhos têm uma
inteligência impressionante. E a conversa pode se animar, se um
outro alguém perguntar em que medida os golfinhos têm consci­
ência de si mesmos e do meio em que vivem. Aqueles que gostam
de definições mais claras objetarão que somente o homem é ca­
paz de olhar para si mesmo, para o meio em que vive, para o seu
Criador e... agradecer.
Como não concordar com estes últimos? Ainda que a discussão
possa prosseguir em muitas direções interessantes, é possível sair
30 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

dela, como quem desce do ônibus porque chegou ao seu ponto. E


a capacidade de gratidão consciente pode ser o nosso ponto, entre
tantas outras que nos diferenciam dos animais. Por que essa capa­
cidade, em particular? Por que não a capacidade de amar ou odi­
ar, de escolher, de optar, de decidir, ou mesmo a capacidade de
refrear uma ação instintiva? Aí está, poderia ser qualquer uma
dessas, pois são todas reveladoras dessa mesma e misteriosa habi­
litação que nos veio com o sopro divino.
Escolhemos a gratidão como representante do grupo da consci­
ência, por dois motivos. O primeiro é a importância que as Escri­
turas lhe dão. O apóstolo Paulo é um exemplo. Ele concentra-se
nela ao definir dois tipos de relacionamento com Deus: o daque­
les que, tendo tido o conhecimento de sua existência, o reconhe­
ceram como Deus — e lhe deram graças — e o dos demais, que
menosprezaram o dom da gratidão, ao preferirem a idolatria, cur­
vando-se diante de aves, quadrúpedes e répteis.1
O segundo motivo nos leva de volta ao tema da adoração. A
gratidão, entendida como dom de Deus a todos os homens, habi­
lidade tão importante que, para Paulo, se transforma em elemento
de juízo, talvez seja, de todas as competências da consciência hu­
mana, aquela que traga maior carga de bênção ou de maldição. Isso
porque essa competência em particular, conforme o pensamento
do apóstolo, traz em si mesma imensa carga de responsabilidade,
aquela que separa seres humanos de seres não-humanos; seres hu­
manos que adoram o Criador de seres humanos que adoram a
criatura. Neste último grupo, estão aqueles que adoram a si mes­
mos e, em sua idolatria, colocam-se no centro do universo.
Egolátricos, cauterizaram o próprio coração e já não entendem de
gratidão. Suas almas perderam a “elasticidade” necessária ao reco­
nhecim ento da graça. Tornaram -se, por esse m ecanism o
obscurecedor de corações, embrutecidos e incapacitados para a
verdadeira adoração.2
ARTE E ADORAÇÃO > 31

Essas pessoas perdem a capacidade de apreciar grande parte


das sutilezas com que o Criador esperou nos alegrar, em seus
impulsos amorosos. De fato, para nos dar prazer, Deus nos pre­
senteou com alimento, vestuário, abrigo, água, luz, calor, chei­
ros, sons, sensações táteis e com os sensores que nos permitem ter
acesso a essas realidades e apreciá-las: nossos cinco sentidos. Por
meio deles, podemos nos deliciar com o sabor dos alimentos, nos
confortar com uma roupa quentinha, nos regozijar com uma ca­
bana na floresta, saciar a sede com a água cristalina, nos aquecer
numa lareira, desmaiar com o perfume de uma florada de dama-
da-noite, apreciar uma música especial ou mesmo ler um texto
em braile — e sentir muito, muito prazer, porque tudo isso é
muito gostoso.
Tenho a impressão de que o Criador terminou sua obra dando
ao homem a capacidade de perceber a beleza. Tecnicamente fa­
lando, Deus deu-nos o dom da estética. Aquinhoou o homem
com o sentido duplo de perceber e expressar o belo, de forma que
ele pudesse, num primeiro momento, aquilatar, admirado, a
principal dimensão de todo o seu amor, derramado na criação:
a beleza. Trata-se de uma capacidade indissociável do dom da
gratidão. Por mais que o homem se negue tal fato, sem gratidão,
o belo se torna feio; o sublime se torna grosseiro; o sagrado se
torna profano. Toda vez que o homem caído, ainda que natu­
ral e instintivamente, aprecia algo bom e belo, e se dá conta
disso, revela um resquício de gratidão que o faz adorador, ain­
da que não o admita. O rebelde precisa, muitas vezes, atribuir
aquele estado da alma a alguma coisa que não seja o Criador,
pois a gratidão latente o impulsiona a adorar. Então, ele opta
por adorar a criatura. Gratidão e rebelião têm tudo a ver com
arte e adoração.
Quando o ser humano reconhece o Criador na criação e
conscientemente lhe dá graças, deixa de lutar contra sua própria
32 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

constituição para viver, voluntariamente, um segundo momento:


aquele sublime estado de alma em que a percepção e a expressão
do belo se ligam à adoração pela via da ação de graças. Ao ser
impactado por essa dimensão do sagrado, o belo, a criatura retorna
ao jardim de Deus e o enxerga de novo (como nunca deveria ter
deixado de ser) como santuário. Cheio de temor e felicidade, ele
já não pode conter sua admiração e exclama, junto com o salmista:
“e no seu templo tudo diz: Glória”.3

EMOÇÕES

No lidar com o belo, normalmente o homem sente a necessi­


dade de se expressar adequadamente, ou seja, com uma lingua­
gem apropriada ao seu modo de perceber essa dimensão do jardim
de Deus. Se o que ele sabe apreciar e expressar (isso equivale aos
seus dons perceptivos e expressivos) tem a ver com sons, ele faz
música ou ritmo, ele canta, ele toca, ele dança. Se sua expressão
tem a ver com a luz (imagens), ele pinta um quadro, constrói
vitrais, faz a iluminação de uma peça teatral. Se tem a ver com
sólidos, ele faz uma escultura ou planeja uma ambientação
arquitetônica. E de todas essas maneiras ele usa seu dom de per­
ceber e expressar emoções.
Ao nos capacitar para apreciar, imitar e criar beleza, o Criador
associou a essa dimensão da alma humana sensações poderosas e
indescritíveis. Essas sensações têm tal poder de nos mover o
íntimo que freqüentemente nos levam às lágrimas. Seu poder
de evocar outros sentimentos, até então ocultos ou esquecidos
a nós mesmos, é imenso. A palavra que se costuma usar para esses
momentos sublimes é “arrebatamento” — como se fôssemos
seqüestrados do m undo com um e transportados para uma
dimensão de sonhos, plena de harmonia e sutilezas. Estamos
falando do mundo das boas emoções.
ARTE E ADORAÇÃO > 33

Com efeito, toda a arte humana é, ao mesmo tempo, percepção


e expressão emocional, por meio de linguagem apropriada, ambas
dons de Deus às suas criaturas; ambas marcas indeléveis do Cria­
dor. Capacitação, por um lado, para gozar as múltiplas manifes­
tações do seu amor. Habilitação, por outro, para retribuir em
forma de afetuosa ação de graças. Devoção. Adoração. Nem o
mais empedernido dos idólatras presenteia a divindade de sua
devoção com o que considera feio.
Mais que isso, no entanto, ao nos habilitar para perceber e
expressar o belo, Deus nos presenteou também com o prazer a ele
associado. O belo infunde no espírito humano o sentimento de
prazer. E por eles, o belo e o prazer, Deus nos propõe a fruição e
o gozo como os elementos motores do relacionamento da nossa
alma com ele mesmo. A fruição é o mecanismo pelo qual o espí­
rito humano absorve e aprecia o belo. Com o desuso do termo,
talvez o compreendamos melhor com a gíria que o substituiu:
“curtição”. Preferimos “desfrutar”. De igual modo, o gozo é o
mecanismo de experimentar o prazer. O empobrecimento da lín­
gua traduziu essa expressão para o mesmo verbo-gíria: “curtir”.
Ficamos com “deliciar-se”, pois o prazer sempre delicia. Resu­
mindo, ao “curtir” a presença de Deus, estamos desfrutando do
belo e nos deliciando com o prazer.
Pode parecer que resolvemos brincar com palavras. Mas esses
termos, como ferramentas conceituais, funcionam como media­
dores de realidades tanto importantes quanto difíceis de explicar.
Por eles, abrimos passagem para um jardim interno da alma; aquele
lugar secreto que gostamos de visitar, mas com cujo caminho
nem sempre acertamos; aquele “mundo” só nosso, onde, muitas
vezes sem querer, temos experiências personalíssimas e, de certa
forma, intransferíveis, inenarráveis, inefáveis. Estou me referin­
do, novamente, à dimensão íntima e estética da experiência do
amor de Deus. Dizendo de outra forma, aprouve ao Altíssimo,
34 < Lo u v o r , a d o r a ç ã o e litu rgia

pelo fato de que nossa alma veio dele,4 que toda tentativa de volta
ao jardim, toda busca genuína e afetuosa de religação com ele
mesmo se constituísse em experiência linda e deliciosa.
Fruição e gozo, então, apresentam-se como experiências
emocionais que nos ajudam a compreender as íntimas ligações
entre a arte e a adoração. Tenho a impressão de que foi da vonta­
de do Criador que todo gozo e fruição do prazer estético fossem
associados ao seu amor e reconhecidos como dádiva sua. Esse
reconhecimento que, fazendo eco ao apóstolo Paulo, chamamos
de gratidão, como sentimento subjacente a toda experiência
espiritual genuína, está na origem da verdadeira adoração. Não
será por isso que o salmista nos convida a adorar ao Senhor na
beleza de sua santidade?5
capítulo 3

Emoções e A doração

S e é verdade que Deus nos fez seres emotivos e que roda a arte
humana envolve percepção e expressão emocional, então será
importante examinar, por um outro ângulo, a relação entre nos­
sas emoções e nossa adoração.
Já vimos que a expressão artística envolve, basicamente, ex­
pressão emocional. Com essa percepção, associamos a expressão
do belo à adoração, uma vez que jamais um adorador, por perdi­
do que se encontre, apresenta à divindade, qualquer que ela seja,
algo feio. Talvez caiba aqui o princípio que sustenta o comando
de Moisés, em Deuteronômio 6, de amar a Deus de todo o
coração e de toda a alma. São termos que falam das emoções,
de intensidade; também de inteireza, pela repetição daquele “todo”.
36 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

No entanto, diferentemente dos deuses sem vida, dos ídolos, o


nosso Deus, em Jesus Cristo, acrescenta ao mandamento a
racionalidade: “de todo o entendimento”. Parece que não basta,
ao Deus verdadeiro, o culto, a oferenda ou o sacrifício, quando
acontecem sem a compreensão dos significados envolvidos. Tra­
duzindo, para Deus, é preciso que saibamos o que estamos fazen­
do, de modo a fazermos o que lhe agrada.
Ainda conversaremos sobre o entendimento, quando aplicado
à coerência entre os gestos, ritos e rituais e os significados que
desejamos expressar a Deus. Essa coerência faz parte do nosso
culto racional. No momento, cabe buscar harmonia entre o que
oferecemos e o que verdadeiramente agrada ao Senhor, no âmbi­
to de nossas emoções, por serem fonte poderosa de erros e acer­
tos. A recomendação de Jesus de que nosso amor a Deus se dê de
todo o nosso entendimento1 há de recair, portanto, também so­
bre a qualidade afetiva do belo que apresentamos ao Senhor. Tal­
vez valha a pena estender um pouco este assunto.
Certa vez, ao discorrer sobre a tradição dos anciãos (de lavar as
mãos antes de comer), Jesus convocou o povo ao entendimento,
dizendo: “Ouvi e entendei”.2 Então ele passou a citar as palavras
do próprio Deus, proferidas por intermédio do profeta Isaías,
dizendo: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração
está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas
que são preceitos de homens”.
De que são acusados os adoradores dessa passagem? Primeiro
de hipocrisia,3 manifesta claramente por uma dissociação entre
os lábios e o coração: aqueles honram, mas este está longe. Se­
gundo, de falsidade (desonestidade intelectual), por ensinarem
uma doutrina que lhes traria vantagens e honras pessoais.
Essa dissociação entre os atos e o coração é tão comum entre
os seres humanos que todos nós aprendemos a identificá-la. O
amante percebe, em pouco tempo, que as palavras que ouve são
EMOÇÕES E ADORAÇÃO > 37

vazias — chamadas de palavras fáceis. O pai distingue claramente


quando o filho é sincero. A mãe percebe, mais que ninguém, os
tortuosos caminhos que separam o coração dos lábios, das atitu­
des e das ações do filho. Muito disso pode ser creditado à nossa
condição de pecadores, aquele triste querer fazer o bem e perce­
ber que se fez o mal. Graças a Deus por Jesus Cristo, exclamava
Paulo.
Muito disso, também, tem origem emocional.
Que solução via Jesus para a incoerência dos fariseus e escribas?
Que remédio propunha o Senhor, por intermédio de Isaías, ao
dizer: “vinde e arrazoemos”?4 Acho que ambos estão dizendo algo
assim: “deixem a razão lhes falar, vamos raciocinar juntos”.
No entanto, temos uma surpresa na seqüência do texto de
Mateus. Jesus prossegue em sua defesa, revelando que a incoe­
rência, na verdade, é aparente. Ao ensinar o povo, dizendo que o
que contamina o homem não é o que entra pela boca, mas o que
dela sai, porque provém do coração, ele passa a mostrar que há,
sim, uma terrível e secreta coerência entre a boca (representando
as atitudes humanas) e o coração (representando a fonte de nos­
sas emoções). E a boca segue o coração, ainda que nem sempre se
perceba. Muitas vezes, nem mesmo nós o percebemos, porque
nosso coração é enganoso.5
Jesus conclui seu ensinamento dizendo que Deus sempre vê a
verdade, e que essa verdade, que é a verdadeira ligação entre o
coração e a boca, pode estar adorando a Deus ou não. No caso de
não estar, o que a boca fala é como fonte de água amarga: conta­
mina o homem. Ainda que, aparentemente, esse adorador o este­
ja honrando, o que brota do seu coração o tornará impuro diante
de Deus, contaminado.
Se juntarmos essas duas abordagens, ou seja, a de Isaías e a
de Jesus, teremos a seguinte proposta: para tratar essa aparente
separação entre os lábios e o coração, precisamos compreender as
38 < lo u v o r , A d o r a ç ã o e litu rgia

razões do coração. Sim, chegamos à conclusão de que a “matriz” de


nossa adoração está no coração, sede de nossas emoções. E o cora­
ção tem sua lógica, seus motivos, suas histórias, suas razões. En­
tão, adorar com todo o entendimento requer o discernimento do
nosso coração.
Jamais conseguiremos adorar apenas com a mente, pois, em­
bora ela nos dê direção, não tem a energia e a inspiração de um
fogoso cavalo alazão, que é a emoção. No entanto, se esse cavalo
corre solto, pode perder-se no campo e, assim, não chegar a lugar
nenhum ou acabar sendo encabrestado por alguém mais esperto.
Talvez a sabedoria consista em fazer o entendimento montar nes­
se cavalo e, gentilmente, direcionar sua imensa força e vitalidade
para Deus.

PAZ COM DEUS

Jesus veio ao mundo para nos salvar. Salvar de quê? De uma


profunda alienação, ocorrida no Éden e reproduzida entre os que,
“em Adão”, pecaram. Essa alienação de Deus, levada a cabo, ter­
mina em morte.
Esses pensamentos nos trazem de volta à nossa passagem sobre
a adoração contaminada pelo coração, com um elemento novo: a
proposta de solução, o remédio para esse mal, encarnada no Filho
de Deus. E que proposta é essa? Salvar-nos da alienação mortal
que nos acomete. E como podemos ser salvos desse mal? Deixan­
do Jesus curar nosso coração, que é a fonte da contaminação.
Talvez seja por isso que ainda ecoam suas palavras amorosas, atra­
vés dos séculos: “Filho meu, dá-me o teu coração”. Não é por
outro motivo que os mandamentos se resumem à busca de uma
cura completa de nossos afetos em relação Deus e aos nossos se­
melhantes, sempre “de todo o teu coração”.
EMOÇÕES E ADORAÇÃO > 39

Sim, Jesus propunha nada mais, nada menos que a conversão


de nosso coração. Não seria essa a solução para aqueles adoradores
que honravam com os lábios, mas tinham o coração distante?
Não seria essa a solução para aqueles escribas e fariseus, que pen­
savam estar adorando ao ensinar doutrinas contaminadas? Sim, a
mudança do coração muda tudo. A fonte passa a jorrar água cris­
talina. O louvor passa a ser “fruto de lábios que confessam o seu
nome”,6 como que a significar que provém de um coração rege­
nerado.
Portanto, o primeiro passo para que nossa boca, coerentemen­
te com nosso coração, honre ao Senhor, é que ela revele a salvação
que Cristo oferece a esse coração. Sem isso, nada se faz, pois não
estaremos edificando a casa sobre fundamento verdadeiro. Esta­
remos, ainda, vivendo como zumbis, vivos-mortos, dedicados a
fazer a vontade da carne e dos pensamentos, segundo o curso
deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito
que agora atua nos filhos da desobediência.7 Sem a vida que Deus
nos dá, juntamente com Cristo, nada se faz, nada se constrói. É
absolutamente necessário, por óbvio que pareça dizer, que o
adorador creia em Deus, saiba que ele existe, submeta-se ao seu
senhorio e entenda que ele é o único prêmio (galardão) para os
que o buscam. Porque sem fé é impossível agradar a Deus.8
Tendo entrado pela Porta e recebido a adoção de filhos, que
nos ensina e habilita, pelo Espírito, a clamar: “Aba, Pai”, somos
colocados, então, no caminho estreito, o difícil caminho que leva
à cruz e à vida. E é nessa condição que passamos a dirigir nossa
atenção para alguns aspectos de nosso trato com a adoração, espe­
cialmente aqueles que envolvem a manifestação artística, a mani­
festação das emoções, a manifestação do coração. Não será sobre
isso que Paulo fala em Romanos 5.1? Seu ensino ali se mostra
especialmente precioso à nossa compreensão das razoes do cora­
ção, em relação à adoração. O apóstolo nos está dizendo que a
40 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

justificação, mediante a fé, produz um estado de desarmamento


do coração: paz com Deus.

TRIBULAÇÃO

A seqüência do referido ensino paulino fala de dor. Fala de


gloriar-se (exultar) na esperança da glória de Deus; fala de firme­
za, para não esmorecer; fala de exultação em meio à tribulação.
Sim, Paulo nos ensina sobre a alegria em meio ao sofrimento. A
partir de sua experiência pessoal, ele discorre sobre uma esperan­
ça que não nos decepcionará, porque tem origem no amor de
Deus, derramado em nosso coração. Por que uma palavra assim,
tão difícil, ao recém-convertido? Por que trazemos nós, agora,
esta palavra ao adorador?
Aí está um princípio básico da adoração, que precisa ser com­
preendido e aprendido, com toda a diligência: a dor mexe com o
coração. As privações e provações, muito mais que ao nosso inte­
lecto, são armadilhas emocionais. Não é no campo da razão que o
barco do adorador começa a fazer água, mas no afetivo. Não é
por meio de um bom argumento teológico que o diabo nos rouba
a “paz com Deus” sobre a qual Paulo fala, mas pelo ressentimen­
to. Precisamos explicar isso melhor.
Muito daquela incoerência (ou pior, da insuspeita coerência)
entre o coração e a boca, condenada por Jesus, pode advir de
desleixo, de esfriamento do nosso amor, de descuido com a nossa
devoção em tempos de paz. Nossa atenção é atraída para as coisas
do cotidiano e deixamos de lado aquela consciência da presença
amorosa de Deus. Aos poucos, vamos perdendo a percepção dos
seus gestos mais sutis. Trata-se do já referido processo de
embrutecimento espiritual a que Paulo se refere em Romanos 1.
Com o tempo, nesse caminho, já não reconhecemos sua provi­
dência, seu livramento, suas bênçãos mais miraculosas. E por
EMOÇÕES E ADORAÇÃO > 41

essas coisas também já não o glorificamos como Deus, nem lhe


damos graças. Dizemos que o nosso emprego foi conseguido com
muito suor e competência, que a nossa casa foi comprada com
nosso dinheiro, que o nosso cargo na empresa está “na razão dire­
ta dos investimentos educacionais que fizemos em nós mesmos”,
que o nosso cântico do domingo é um favor que fazemos a Deus
e que ele faz muito bem se o aceitar de bom grado. E o que
outrora foi um coração grato e devoto agora é qualquer outra
coisa, menos adorador.
Há também o perigo que nos ronda em tempos de guerra. É a
ameaça escondida nas tribulações a que Paulo se refere em Roma­
nos 5. A dor de uma traição, de uma desfeita, de um acidente
grave ou de uma perda nos desorienta, nos lança em profundo
luto. Sabemos bastante sobre a dor do sofrimento, pessoal ou
coletivo. Essa dor pode de tal forma ocupar nosso coração, nossos
pensamentos, nossa busca de uma solução, de uma saída, de um
conforto, que corremos o risco de nos esquecer de Deus ou de
blasfemar contra ele, sem perceber. Certos “por quê?” em nossa
vida são legítima necessidade de compreensão; outros, porém,
revelam revolta.
E em nossa dor deixamos de perseverar na fé, ainda que não a
neguemos verbalmente. Essa falta de perseverança nos vem na
forma de desânimo, de apatia espiritual, de desesperança, de ren­
dição. Dizemos em nosso coração, como o povo de Deus, no
exílio, ao saber que Jerusalém havia sido queimada: “Os nossos
ossos se secaram, e pereceu a nossa esperança; estamos de todo
exterminados”.9 Antigos e experimentados adoradores, que su­
cumbiram às pedras do caminho estreito e foram transformados
em semelhança de ossos secos.
Em muitos casos, nossa fé, nossa doutrina, nossas convicções
não se alteram, a princípio. Mas levanta-se a nuvem negra
da melancolia sobre o nosso coração. Em depressão espiritual,
42 < l o u v o r , a d o r a ç ã o e litu rgia

perdemos a energia, a força e a vitalidade espirituais. N ão


dizemos nem fazemos nada de errado. Apenas nosso cavalo
alazão se transformou em pangaré.
No entanto, a tribulação não é tão letal para o adorador quan­
to o ressentimento. Este é igualmente perigoso, mas, por sua na­
tureza profunda, é mais sutil e traiçoeiro, pois nem sempre tem
uma causa clara e visível, como uma doença, um desemprego,
uma perda. Está ligado, também, à tribulação, mas acontece no
recôndito da alma. Contamina o lençol freático da vida, as águas
subterrâneas, e, em vez de secar a fonte da adoração, como nos
outros casos, apenas lhe muda a composição da água, agora amar­
ga e barrenta.

A ADORAÇÃO DE JONAS

Se o caso de Jonas não fosse dramático, seria engraçado. Envi­


ado a Nínive para clamar contra ela por sua malícia, ele foge da
presença de Deus para Társis. Por que Jonas foge? Porque seu
coração, de alguma forma que nos escapa na narrativa, não “está
de bem” com Deus. Vale notar que todo o relato focaliza sua fuga
a partir da ordem de visitar Nínive. Não somos informados a
respeito das atividades anteriores de Jonas. Interessa ao texto sa­
grado nos dizer que, ao ser enviado a Nínive, ele tenta fugir da
presença do Senhor.
Conhecemos a história do mar bravio, o sono estranhamente
pesado do profeta, o desespero dos tripulantes do barco, sua con­
fissão, homem ao mar, o grande peixe. Do ventre do peixe,10 ele
diz: “Quando dentro em mim desfalecia a minha alma, eu me
lembrei do Senhor; e subiu a ti a minha oração...”11 Ele prosse­
gue, interessantemente, assim: “Mas com a voz do agradecimen­
to eu te oferecerei sacrifício; o que votei pagarei”.12
EMOÇÕES E ADORAÇÃO > 43

As palavras usadas pelo profeta nessa oração, considerando o


momento por ele vivido, revelam muito de seu coração. O fugi­
tivo é levado, por circunstâncias dramáticas, a uma situação de
grande intensidade emocional. A primeira reação é a de negar a
realidade, por meio de um sono profundo e depressivo. Confron­
tado com a conseqüência da sua omissão, a ponto de levar à mor­
te seus companheiros de viagem, ele confessa e pede que o jo­
guem ao mar. Quem sabe, dessa forma ele atingirá o Altíssimo.
Guerra é guerra. Mas como causar dor em um ser tão poderoso?
Como mostrar-lhe toda a sua revolta, todo o seu ressentimento?
Eventualmente, esse ressentimento, manifesto em forma de vio­
lenta ira, nem sequer lhe é consciente!
Esse estado de alma é muito mais comum do que se aceita
admitir. Normalmente acontece nas relações de liderança. Vale
para filhos e pais, esposas e maridos, ovelhas e pastores, funcioná­
rios e chefias, e, por incrível que possa parecer, para crentes em
relação a Deus. Em algum momento das relações verticais (que
ocorre toda vez que a função de liderança ou autoridade é exercida),
ocorrem certos descompassos entre o líder e o liderado. Esses
descompassos são naturais. Talvez, inevitáveis. Por força do exer­
cício da função, o líder precisa ter os olhos levantados para discernir
o plano estratégico ou tático. Se baixar os olhos para as questões
operacionais, ele perde muito do seu poder de conduzir, de apon­
tar caminhos.
Explicando melhor, o pai, a mae, o pastor, o chefe, seja quem
for, homem ou mulher, adulto ou jovem, quando são investidos
de função de liderança e a assumem, começam logo a agir de
forma diferente do seu jeito pessoal de ser. As tarefas passam a ser
(às vezes imperceptivelmente) divididas entre cabeça e membros;
partes do mesmo corpo que precisa buscar, com a maior eficiên­
cia possível, atingir seus objetivos.
44 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LíTURGIA

O grupo de jovens sofre muito enquanto não percebe isso e


não elege seu presidente. As senhoras da igreja também. Mas,
dado o passo, as tarefas se dividem: planejamento e execução. E
verdade que os executores podem participar do planejamento e
vice-versa. Mas as atribuições só serão eficientes se retirarem a
pessoa de outras tarefas para poder se dedicar mais àquela. Nesse
momento, aqueles que são investidos de liderança passam a olhar
para o grande plano e a identificar facilidades, obstáculos, com­
petências, ameaças e outros elementos do cenário em que o gru­
po precisa se movimentar. E sua missão, também, organizar e
distribuir as tarefas, de forma que o grupo atue em harmonia e
sem desperdício de energia.
Já os membros, encarregados da execução, ao receberem suas
atribuições procurarão agir de modo especializado, buscando exe­
cutar, da melhor forma possível, suas tarefas.
Essa divisão de funções produz uma situação de autoridade e
submissão que se sustenta por dois caminhos alternativos: ou pelo
poder — quando a liderança tem meios de compelir seus lidera­
dos a cooperar eficientemente, mesmo que esses não o queiram
— , que pode advir de uma eleição, de ser o patrão, o herdeiro do
trono ou o mais forte da turma, ou pela submissão voluntária dos
liderados, que reconhecem o valor e o objetivo da função que
exercem. Este é o sentido bíblico da temida palavra submissão:
quando alguém, reconhecendo a importância da missão, subme­
te-se às suas lideranças.
Falávamos de descompassos naturais que podem acontecer entre
líderes e liderados quando iniciamos essa digressão sobre o caso
de Jonas. Eles existem, entre outros motivos, porque o líder não é
somente líder, mas também membro do grupo e mantém rela­
ções pessoais com seus liderados. A mãe não é somente mãe, mas
também membro da família, amiga, confidente; eventualmente,
está no banco de trás do carro que o filho dirige. Assim também,
EMOÇÕES E ADORAÇÃO > 45

o liderado não é somente liderado, mas participa, em maior ou


menor grau, das decisões da liderança. Ele não é apenas um exe­
cutor de ordens, como um soldado raso de uma corporação mili­
tar. Mais que isso, é uma pessoa, que mantém relações pessoais e
afetivas com os demais e com a liderança, que pode ser sua mãe,
seu pai, sua professora.
Os descompassos surgem quando a liderança, imbuída de sua
missão, levanta demais o olhar e perde a capacidade de atender às
necessidades particulares dos liderados. Esse é um problema
muito comum entre os atarefados pastores de igreja que se carac­
terizam como líderes socioemocionais. É o caso da mãe e do pai,
quando se deixam tomar por atividades excessivas. Mas quero
focalizar o lado “Jo n as” da questão. D essa perspectiva, o
descompasso aparece quando ele não percebe que a liderança pre­
cisa manter o olhar levantado para o geral, por força de sua fun­
ção, e que essa atitude é funcional, é necessária. Quem não gosta­
ria de ter um chefe dando-lhe total atenção? Quem não gostaria
que seu pai olhasse mais para ele do que para os outros irmãos?
Quem não gostaria que seu pastor entendesse seus mais ocultos
sentimentos de ovelha? Quem não gostaria que esses líderes
parassem tudo o que estão fazendo para lhes dar a atenção que
merecem?
Essa última pergunta já é visivelmente irônica, como o leitor
pode muito bem notar. A intenção é mostrar o descompasso em
sua versão “disfuncional”; é revelar um estado de alma do tipo
“Jonas”, como joio a nascer no meio do trigo. Nesse momento, o
liderado precisa tomar cuidado com o seu coração. Se ele come­
çar a lutar por essa “merecida” atenção, de duas uma: ou sairá
magoado, por não consegui-la, ou comprometerá a divisão de
tarefas a que nos referíamos, e o grupo se tornará deficiente, por
culpa do líder, que, “inexplicavelmente”, se desviou de suas fun­
ções, ou seja, tornou-se “disfuncional”.
46 < LOUVOR, A D O R A ÇÃ O E LITURGIA

Vale ampliar um pouco mais esses pensamentos, de forma a


clarear a idéia. Pensemos numa classe de aula, como exemplo. O
professor discorre sobre o Egito Antigo, para seus alunos, que
participam ativamente da aula. Mas um determinado aluno se vê
como amigo pessoal do professor. Eventualmente, esse foi o mai­
or motivo que o levou a se matricular naquela matéria. Talvez,
também, por afinidade intelectual. Gosta muito de história.
A partir dessas afinidades, esse aluno exagera em sua partici­
pação. Faz muitas perguntas e, a todo momento, atrai o professor
para discussões particulares, sobre temas secundários, que não
contribuem muito para o desenvolvimento da lição. E levanta o
tom da voz, sem permitir interrupção, quando outros alunos
tentam participar ou trazer a conversa de volta ao eixo.
Esse professor está com um problema muito comum nas mãos.
Por um lado, ao deixar-se monopolizar pelo aluno amigo, corre o
risco de perder a classe, de tornar-se um mau professor. A missão
da classe será deficientemente cumprida. Por outro lado, se não
souber trazer esse aluno para a classe, poderá perdê-lo como alu­
no — e como amigo.
O aluno, representando toda espécie de liderados, se não per­
ceber o que está fazendo e que o professor, naquele momento, é
mais líder que amigo, por força do exercício da divisão de tarefas,
causará muitos problemas ao professor, à classe e a si mesmo. Do
professor, ele estará exigindo uma atenção indevida; da classe,
estará roubando o direito à matéria e de também participar; e a si
mesmo, estará abrindo espaço para o ressentimento.
A situação que apresentamos pode se prolongar por muito tem­
po, se não for resolvida com sabedoria por ambas ou por alguma
das partes. A tendência do professor, dependendo de sua índole,
pode ser bajular o aluno, na esperança de que ele se torne mais
cooperativo em classe. Estará, então, chocando ovo de áspide.
Pode desconsiderá-lo, dando-lhe um gelo ostensivo, na esperança
Em o ç õ e s e a d o r a ç ã o > 47

de que ele perceba a situação. Corre o risco de perder o aluno e o


amigo. Pode repreendê-lo, com brandura, seja em público, seja
em particular. Maiores chances de sucesso. No entanto, é impor­
tante que compreendam, os dois, a síndrome de Jonas.
Normalmente, o que se faz é nada. Vai-se “tocando” a classe,
até o final do semestre, na esperança de que, com o tempo, as
pessoas amadureçam. Na maioria das relações líder-liderado, é o
que acontece: nada. Nesse caso, o liderado, não percebendo a
situação, começa a se ressentir. Passa a enviar mensagens mais
vigorosas ao líder, com o objetivo de lhe mostrar que não está
concordando, que não está gostando, que não está submisso. Es­
sas mensagens, por seu caráter emocionalmente carregado, nor­
malmente sao desmedidas e disfuncionais. Ou seja, tiram com­
pletamente a razão do liderado. Não é o jeito de resolver a ques­
tão, entre seres inteligentes. Isso é o que pensa o líder, ao ser
incomodado. Cheio de razão, esse líder, se não contra-ataca, se
retrai. Aumenta o gelo. Temos aí uma breve descrição de um
processo possível de ira filial, conjugal, funcional etc. Síndrome
de Jonas. Do lado deste, cresce uma ira difusa, muitas vezes sem
explicação, sem entendimento, que se manifesta em forma de
murmuração ou depressão. Ressentimento. Em casos mais ativos,
da murmuração o Jonas parte para o ataque, em forma de sabota­
gem, traição ou chantagem emocional. Se Judas partiu para a
sabotagem e traição, tenho a impressão de que a chantagem foi o
expediente do profeta.
— Joguem-me ao mar! — É a recomendação suicida repleta
de autocomiseração de quem quer magoar. Chegamos ao extre­
mo do ressentimento do liderado. No caso, já não importa se é
preciso morrer para chamar a atenção, para fazer prevalecer sua
opinião e vontade. Não importa se faço mal a mim mesmo. Se ele
tiver um mínimo de amor por mim, sofrerá.
48 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

A esta altura, o leitor pode estar perguntando: não estamos


um pouco longe do nosso tema central, adoração? Afirmo que
não. Estamos no cerne da questão “emoções e adoração”. Toda
essa digressão sobre a questão da liderança nos ajudará a nos colo­
car na pele de Jonas, para compreender nosso lado da questão,
em relação a Deus. Pobre Jonas! Humano, ele oscila entre a má­
goa e a ação de graças. São dois pólos auto-excludentes. A mágoa
advém do inconformismo com aquilo que nos acontece, com a
forma como somos tratados; da discordância dos métodos de Deus.
Num momento, Jonas orienta seus companheiros de infortúnio a
jogá-lo ao mar. Noutro, já no ventre do grande peixe, ele diz que
“com a voz do agradecimento, eu te oferecerei sacrifício” . Talvez,
também por causa desse sinal de arrependimento, Deus o tenha
reabilitado como profeta. Mais uma chance para Jonas.
Passemos à interessante seqüência do relato bíblico. Aprendida
a dura lição, Jonas atende à segunda palavra de Deus, vai e prega
a subversão de Nínive. Os ninivitas, do mais humilde escravo ao
rei, se arrependem e se cobrem de pano de saco. Vendo Deus o
arrependimento do povo, suspende o castigo. Sentindo-se
desautorizado, Jonas, desgostoso, fica irado.13 N a tradução
corrigida de Almeida, ele “ficou todo ressentido” . E, pedindo
a morte, revela que seu ressentimento permanece o mesmo
de antigamente, pois Deus continua agindo da forma que ele
desaprova.
A palavra que o profeta recebe de D eus, em meio à sua
dor — que agora se coloca como obstáculo à sua capacidade
de adorar — , é: “é razoável essa tua ira?” É razoável esse teu
ressentimento?
Certamente, o ressentimento com Deus é forte obstáculo à
adoração, porque é a anti-matéria da adoração. E acontece na
alma, não sendo de fácil diagnóstico para o próprio crente. Disse­
mos em nossa conceituação de adoração que, diferentemente do
EMOÇÕES E ADORAÇÃO >49

louvor, ela acontece no nível dos afetos, da alma. Envolve,


portanto, elementos contemplativos, de admiração, de afetuosa
excitação, de paz, de profunda harmonia com o que Deus é e
completa concordância com o que ele faz.
Essa concordância deve resistir aos tempos de tribulação. Esta
é a lição do apóstolo Paulo, quando fala de exultação nas tribula­
ções. Ele está dizendo que é possível enfrentar a dor sem, no en­
tanto, ser acometido da síndrome de Jonas. E possível permane­
cer adorador em meio ao sofrimento. E essa compreensão é chave
para a nossa vida espiritual, pois percebemos que a adoração é
uma atitude que envolve um estado de espírito, uma condição
emocional, da alma, que irradia efeitos para todas as demais ins­
tâncias da vida. Estamos falando, novamente, da fonte de águas
do nosso jardim.

JERUSALÉM, JERUSALÉM!

Jerusalém, Jerusalém!
Por que tantas desfeitas?
Por que tanto rejeitas
Quem só quer o teu bem?
Qiianto eu quis, sob as asas,
Qual galinha aos pintinhos,
Recolher de tuas casas
E salvar teus fdhinhos!
Jerusalém, Jerusalém!
Como tenho te amado!
Quis andar ao teu lado,
Tefazer tanto bem!
Quanto eu quis, sob as asas,
Qual galinha aos pintinhos,
50 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

Recolher de tuas casas


E salvar teus filhinhos!
Jerusalém, Jerusalém!
Voltarei novamente;
Me dirás diferente:
“E bendito o que vem”.
Minha amada Salém,
Deixa o orgulho falaz;
Te ofereço minha paz,
E a teus filhos também.
Jerusalém, Jerusalém!
Jerusalém.14

DE JONAS AJÓ

Talvez a adoração seja o centro do universo. Estou pensando


na impressionante declaração de Paulo aos efésios, de que a mis­
teriosa vontade de Deus, agora desvendada, era fazer convergir
em Cristo, na dispensação da plenitude dos tempos, todas as coi­
sas, tanto as do céu como as da terra.15 Uma convergência cósmi­
ca que aconteceu no Filho, “para o louvor da sua glória” .16 Como
que a dizer que os sacrifícios que com lágrimas o Filho ofereceu,
quando humilhado entre nós, definem, resumem e consumam
todo o propósito relacional da criação. E, para que esse padrão
relacional prevaleça, Deus colocou todas as liberdades, vontades
e exercícios de autodeterminação sob seus pés, fazendo-o, em se­
guida, o cabeça sobre todas essas esferas da consciência, para que,
ao se fazer corpo seu, a igreja exale, com o mesmo espírito de
adoração, o louvor da glória do Pai, como bem o fez o Filho. E “o
deu à igreja”, conclui o apóstolo dos gentios,17 “a qual é o seu
corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as cousas”.
Em o ç õ e s e a d o r a ç ã o > 51

Sim, o centro do universo consciente pode ser localizado na


possibilidade, na capacidade, na ação de adoração. Do ponto de
vista das forças cósmicas em jogo, referidas por Paulo no trecho
citado, como principados e potestades, tudo será feito para indu­
zir a uma adoração idolátrica. Tudo vale para desviar os olhares
do Criador em direção à criatura. Talvez porque o homem não
pode viver sem um objeto de devoção. Ele há de adorar o Senhor
ou algum ídolo. Neutralidade não faz parte de sua constituição.
Não lhe é dada.
Estamos trabalhando, porém, sob o pressuposto de uma fé
crista. Falamos a cristãos, razão por que não nos desviaremos para
o estudo da idolatria. Interessa-nos, objetivamente, compreender
os processos afetivos de expressão de amor a Deus, bem como
seus impedimentos. Sendo o belo uma forma de expressão emotiva,
já incluímos as manifestações artísticas como parte desse proces­
so. Arte e adoração caminham muito bem juntas.
Se Jonas nos chama a atenção para as armadilhas emocionais
que solapam a adoração, em Jó encontramos o outro lado da
moeda. Basta-nos o capítulo primeiro para entendermos que todo
o embate entre Deus e Satanás gravita em torno das possibilida­
des reais de adoração de um homem machucado. Assim como
Jonas, Jó foi atingido pela dor. E o pressuposto satânico é que, em
face da dor, o coração daquele homem mude, e suas fontes pas­
sem a jorrar águas amargas. Talvez até amaldiçoe seu Deus, antes
de morrer. Mas o texto nos relata um desfecho diferente: de sua
condição de humilhação e desespero, Jó adora o Senhor e diz:
“Nu saí do ventre de minha mãe, e nu voltarei; o Senhor o deu, e
o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor!”18
Considero, para nossos propósitos, o verso 22 igualmente
importante, pois revela que o coração de Jó mostrou-se muito
diferente do de Jonas: “Em tudo isto Jó não pecou, nem atribuiu
a Deus falta alguma”. Estamos diante de uma situação difícil, na
52 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

qual a criatura mantém seus laços intactos com o Criador, em


meio à tribulação. Meu entendimento do texto de Colossenses
2.15, em que Paulo narra o triunfo de Cristo na cruz, que expõe
os principados e as potestades ao desprezo público, relaciona-se
com essa qualidade do coração de Jó, prefigurando a vitória do
Cordeiro — a vitória da adoração sobre o ressentimento, do amor
sobre a amargura.
Entendo que esse fenômeno não é inteiramente compreensí­
vel aos anjos. Não faz parte de sua experiência vivencial, assim
como não fazia parte da experiência vivencial do Filho, anterior­
mente à encarnação. E nisso ele aprendeu, como diz o autor de
Hebreus.
Os anjos caídos jamais adoram a Deus. Já aqueles que perma­
necem leais a Deus, adoram-no na inocência de quem não pro­
vou o pecado. Restou a nós, parte caída da consciência criada,
uma capacidade que desnorteia os seres angelicais: a habilidade
emocional de, mesmo após a corrupção da própria vida (Jó era
um pecador), mesmo na condição de profunda dor, elevar as mãos
aos céus e dizer: “pai, tudo permanece como antes entre nós; te
louvo por tudo o que és e fazes, ainda que me doa e que eu não
compreenda”.

EMBATES REAIS

Certa vez encontrei uma jovem que sonhava com um bom


casamento. Talvez por causa de sua seriedade com o assunto, os
pretendentes não se apresentavam. Desanimada, ela se pergunta­
va se Deus não traria seu Isaque. Na conversa, eu sugeri que ela
poderia passar o resto da vida solteira. Poderia “ficar para titia”.
Sim, eu sei que peguei pesado. Mas eu estava com Jonas e Jó na
cabeça. Muita gente, de todas as raças, crenças e condições soci­
ais, “fica para titio”. E a pergunta que se coloca imediatamente é:
Em o ç õ e s e a d o r a ç ã o > 53

“o que você fará com isso?” Se você passar o resto da vida sem ter
o que muitas outras pessoas têm, como ficará seu coração em
relação a Deus? Deixará que, com o tempo, suas águas se tornem
amargas? Desejará morrer, só para que ele sofra (pois sabe que
ele se importa com você, senão a artimanha seria uma tolice)?
Gritará, na primeira oportunidade: “Joguem-me ao mar!”?
Pode não ser um casamento sonhado, mas um emprego,
para a maioria das pessoas, mais essencial, mais vital qut um
relacionamento afetivo. O que você fará se perder seu emprego?
E se demorar a arranjar outro? E se ficar desempregado por três
anos? Com que coração você irá à igreja no domingo? Ou não
irá?
Essas dores que atingem a tanta gente servem para trazer à
tona certos argumentos e razões que costumamos usar conosco
sem perceber. São as razoes do coração. Normalmente, não vêm à
tona. Ficam encardidas na alma. Traduzidas em palavras, elas di­
zem, primeiro, que eu creio em Deus, na sua providência e que
ele está cuidando de tudo; segundo, que se não tenho algo de que
preciso é porque ele não quis me dar, pois se quisesse teria me
dado; terceiro, se fico ressentido com isso, estou no meu direito,
pois até eu, que não sou Deus, sou capaz de perceber que certas
necessidades são legítimas.
A prevalecer essa lógica, dividiríamos o mundo entre adoradores
e não-adoradores. Os não-adoradores são aqueles que sofrem. Os
adoradores são os “abençoados”, aqueles a quem o Pai dá tudo o
de que precisam (ou pensam que precisam). Claro, referimo-nos
àqueles que reconhecem e dão graças.
É interessante notar, todavia, que o mundo não se divide
assim. Com o apóstolo Paulo, aprendemos que o mundo se
divide entre os que, tendo tido o conhecimento de Deus, glo­
rificaram-no ou não como Deus e lhe deram ou não graças,
independentemente de sofrimento ou bonança.
54 < l o u v o r , a d o r a ç ã o e litu rgia

Daí a necessidade de entendimento. Retomamos a palavra de


Jesus: “e com todo o teu entendimento”. A razoabilidade que
faltou a Jonas. Com entendimento, podemos, em tempos de paz,
planejar os tempos de guerra. Responda, em tempos de paz, as
questões dos tempos de guerra. Isso é importante, pois tempos de
sofrimento não são bons momentos para decidir o que fazer. São
momentos para fazer o que já está decidido.
C .S. Lewis, em uma das suas histórias interplanetárias,19
conta que seu personagem Ransom terá de escalar uma alta
montanha na superfície de Malacandra (Marte). Trata-se de uma
escalada perigosa, porque as pessoas, a partir de certa altura, com
a falta de ar, começam a ter alucinações, visões, miragens e
tentações tais que acabam por sucumbir, seja numa queda, seja
por se perderem. Pouquíssimos são os que conseguem chegar ao
outro lado. Ransom, sabendo do que o espera, dedica bom
tempo, no pé da montanha, a planejar a escalada. Estabelece para
si mesmo regras de ação e coisas que não fará, decisões que já
estão tomadas. Repassa-as à exaustão, de forma que, decoradas
minuciosamente, lhe venham à mente na hora do aturdimento e
da confusão. Feito isso, começa a escalada. Quando a falta de ar e
a escuridão da noite provocarem loucura, encontrarão um homem
preparado.
De repente, certas alternativas lhe parecem muito lógicas, cer­
tos caminhos muito mais fáceis. Como não havia pensado nisso?
Mas se lembra das decisões tomadas no momento em que ele
tinha “juízo”. E difícil manter as decisões tomadas “em tese”,
quando somente agora ele vê com a clareza de quem vive a situa­
ção concreta, somente agora as opções são reais. Mas C.S. Lewis
nos mostra como seu herói, à custa de renúncias, segue o plano à
risca — e se salva!
De volta à sabedoria paulina, em Romanos 5 percebemos,
agora com mais clareza, o que o apóstolo quer dizer com a
EMOÇÕES E ADORAÇÃO > 55

enigmática expressão: “a tribulação produz perseverança; e a


perseverança, experiência; e a experiência, esperança”.20 Sim, uma
vez a salvo, do outro lado do desfiladeiro, graças à nossa
perseverança, percebem os que agora adquirim os preciosa
experiência. E podemos dizer, também, a quem nos for dado
ministrar louvor e adoração que podemos nos transformar em
“escaladores de montanhas”, em gente treinada a não se deixar
enganar pelo espírito do ressentimento; que vale a pena investir
em aprendizado, em fortalecimento das emoções, em cingir-se de
toda a armadura de Deus, para podermos resistir no dia mau,21
no dia das ciladas.
E claro que podemos decidir hoje, ao pé da montanha, em
tempos de paz, que escolhemos adorar a Deus quando ele nos
abençoar e que “vamos pensar” quando a tribulação vier. Sim, é
uma decisão que pode ser tomada agora. Ou não; podemos deci­
dir que haveremos de louvá-lo em qualquer circunstância e nos
preparar para isso. Sabe qual é a pior decisão? Deixar para decidir
na hora da tribulação. Nessa hora, as alucinações provenientes do
ar rarefeito e as dificuldades de achar o caminho no escuro aca­
bam conosco.
As relações horizontais — a trave da cruz — merecem atenção
especial. Nem sempre notamos que os melindres, os rancores, as
mágoas e suscetibilidades, nesse eixo, também podem turvar as
nossas águas. As ligações entre o veitical e o horizontal permane­
cem, como vasos comunicantes. Um contamina o outro.
Assim, se dizemos que amamos a Deus de todo o coração, mas
temos problemas insolúveis com algum irmão, como diz João,
todo cuidado é pouco, pois há uma armadilha em andamento. O
problema pode ser do irmão, que não quer reconciliação. Isso
pode ser discernido em oração e resolvido diante de Deus, para
que não se transforme, também, em armadilha. Mas, não sendo
esse 0 caso, vale continuar. Se digo que estou bem com Deus,
56 < LOUVOR, A D O R A ÇÃ O E LITURGIA

mas estou ressentido com meu pai, minha mãe, meu pastor ou
meu líder e não me disponho a resolver a situação, devo tomar
cuidado, pois há “mentira” se instalando.
Essas situações têm tudo a ver com adoração. Talvez seja sufi­
ciente nos lembrar da recomendação de Jesus: “deixa perante o
altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; e,
então, voltando, faze a tua oferta” .22 Profundo conhecedor da
alma humana, o Mestre sabia mais que João a respeito das “men­
tiras sinceras” — aquelas mentiras que crescem como ervas dani­
nhas em nossa vida e nas quais, muitas vezes, passamos a acredi­
tar. Por isso as chamo de sinceras. No entanto, quantas delas não
têm um pingo de legitimidade, razão, verdade. São as ilusões da
montanha.
Quantos ministros de louvor e adoração se esquecem disso.
Apresentam-se diante do povo como sacerdotes de turbantes
encardidos.23

ELI, ELI!
Quando a provação nos acomete, tendemos a ficar aturdidos e
confusos. Usando a metáfora da montanha, quando o ar torna-se
rarefeito, nosso pensamento perde a clareza. Quando um piloto
de avião entra em nuvens carregadas, obriga-se a confiar nos ins­
trumentos de navegação. A impressão de que está indo para baixo
ou para cima não pode prevalecer sobre o que dizem os apare­
lhos. Se ele preferir confiar em seu tímpano, poderá se chocar
com uma montanha.
Insisto na necessidade que todos temos de nos fortalecer emo­
cionalmente, com todo o entendimento, “para podermos resistir
no dia mau”. Nesse sentido, uma questão prática que permanece
refere-se às possibilidades de “virar o jogo” dos nossos sentimen­
tos na hora da dor. Não será fantasia, romantismo espiritual, essa
EM OÇÕES E A D O R A ÇÃ O > 57

idéia de nos prepararmos antes da “escalada”? De aprendermos a


usar os instrumentos de navegação antes de levantar vôo?
Sem pretender muita profundidade interpretativa, apresento
um salmo de minha estimação no trato dessa matéria. É o Salmo
22, do qual evito discutir a autoria espiritual: se Davi, profetica­
mente, “ouviu” as palavras de Jesus na cruz, ou se Jesus as “reco­
nheceu”, como consumando-se em sua hora de tribulação. O fato
é que esse salmo é messiânico e só se torna plenamente concreto
na bendita cruz. Portanto, peço permissão para localizar a cena
na cruz. Essas palavras podem muito bem estar nos lábios de Davi
ou no coração de cada um de nós.
Interessa-nos perceber que essa oração revela uma trajetória
da alma, um caminho emocional, com dramáticas oscilações —
momentos de gloriosos altos e perigosos baixos, próprios das
ambigüidades que acometem o coração sofrido — , movimentos
pendulares entre a dúvida e a certeza; entre a fé e a descrença;
entre a adoração, que se expressa em louvor, e o ressentimento,
que murmura e pergunta: “por quê?” sem querer resposta.
Toda a cena é de drama profundo. Pudera! A tribulação acon­
tece no seu exponencial máximo: um homem bom sendo injusta­
mente crucificado. O sentimento natural correspondente ao mo­
mento seria da indignação pessoal de um injustiçado. Portanto,
cabe legítimo ressentimento. Contra quem? Contra o povo? (Veio
para o que era seu, mas os seus não o receberam.) Contra as
autoridades eclesiásticas invejosas? Contra o fraco Pilatos? Ou,
no caso de um crente, que tem sua vida nas mãos do Pai, contra
Deus?
O texto não nos deixa em dúvida. Jesus se dirige a Deus. E
começa com uma palavra de inconformismo, não exatamente com
sua situação, pois sabe que veio para isso, mas em relação ao sen­
timento de desamparo, de abandono, de confusão.
58 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

Um primeiro sinal de que o condicionamento anterior está


presente e que Jesus “olha para os instrumentos do avião” aparece
nos versos 3 a 5. Em meio à sua justa lamúria, ele pára e diz:
“contudo, tu és santo, entronizado entre os louvores de Israel.
Nossos pais confiaram em ti; confiaram, e os livraste. A ti clama­
ram e se livraram; confiaram em ti e não foram confundidos”.
“Confusão” é a palavra usada para essa situação, significando de­
cepção. Paulo diz em Romanos 5.5 que “a esperança não confun­
de” . Não acaba em decepção. E decepção é uma palavra de gran­
de carga emocional.
No entanto, rapidamente Jesus dá uma guinada (v. 6), ao
comparar sua situação naquela cruz com aquela descrita pelo
salmista. “Ai de mim. N ão tive a sorte dos meus pais. Todos
eles se deram bem na vida, mas eu... bem, eu sou verme, e não
hom em ...” Pensamentos turvados por sugestões demoníacas
de amargura e ressentimento. A síndrome de Jonas, buscando
espaço no coração combalido.
Nova reação (v. 9). Aqui Jesus mistura doxologia com súplica,
confissões de fé com pedido de socorro. Também há espaço para
a narrativa, pela qual se descreve o que Jesus está percebendo de
tudo o que acontece, interna e externamente. Essa descrição da
opressão, da tentação, da ação dos guardas, do seu estado emoci­
onal estende-se até o verso 18, quando ele volta a falar com o Pai,
em forma de súplica, até o verso 21, quando se percebe nítida
mudança no discurso.
Jesus termina o verso 21 com uma virada de ânimo, uma
mudança de alma. D á a impressão de que percebe o que está
acontecendo com seu coração. Parece discernir o gosto amargo
da fonte que vem do coração. Ouvindo as próprias palavras e
sabendo que “a boca fala do que está cheio o coração”, e que isso
é o que contamina o homem, mesmo na condição de penúria
física e emocional em que se encontra ele muda o coração.
EMOÇÕES E ADORAÇÃO >59

Supomos a mudança de alma a partir do mesmo princípio das


razoes do coração. Seu discurso agora há de lhe valer a vitória
da cruz, a maior vitória jamais obtida contra o ressentimento,
contra as forças anti-adoração que atuam sobre a criação
consciente:24
A meus irmãos declararei o teu nome; cantar-te-ei louvores no
meio da congregação; vós que temeis o Senhor, louvai-o;
glorificai-o, vós todos, descendência de Jacó; reverenciai-o, vos
todos, posteridade de Israel. Pois não desprezou, nem abominou a
dor do aflito, nem ocultou dele o rosto, mas o ouviu, quando lhe
gritou por socorro. De ti vem o meu louvor na grande congrega­
ção; cumprirei os meus votos na presença dos que o temem. Os
sofredores hão de comer e fartar-se; louvarão o Senhor os que o
buscam. Viva para sempre o vosso coração. Lembrar-se-ão do
Senhor e a ele se converterão os confins da terra; perante ele se
prostrarão todas as famílias das nações. Pois do Senhor é o reino,
é ele quem governa as nações. Todos os opulentos da terra hão
de comer e adorar, e todos os que descem ao pó se prostrarão
perante ele, até aquele que não pode preservar a própria vida
[como eu]. A posteridade o servirá; falar-se-á do Senhor à
geração vindoura. Hão de vir anunciar a justiça dele; ao povo
que há de nascer, contarão que foi ele quem o fez. (w. 22-31.)

Encerro esse exemplo chamando a atenção para as palavras


acima e seu significado emocional, não-lógico, ilógico, até.
Parece loucura. Certamente, é uma daquelas loucuras da cruz.
Tudo o que Jesus afirma nesse momento parece ridiculamente
irreal. Para um homem pendurado na cruz, que morrerá em pou­
cas horas, não há sentido em cantar “louvores a Deus no meio da
congregação”, não há sentido em recomendar a seus irmãos que
louvem, glorifiquem e reverenciem o Senhor. E pura agressão aos
fatos, é dar murro em ponta de faca dizer que Deus não despre­
zou nem abominou a dor do aflito, mas que o ouviu quando lhe
6o < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

gritou por socorro. Pode ele, em sã consciência, dizer isso de si


mesmo nessa hora?
A situação fica mais dramática ainda quando ele passa, sutil­
mente, a dizer palavras de concordância, de harmonização — de
adoração, enfim — a Deus, exaltando sua soberania, seu poder,
sua majestade.
Afinal, o que está acontecendo aqui?
Meu entendimento é que Jesus volta ao que “aprendeu” das
noites de vigília, nos dias de jejum e oração, nas leituras sagradas,
nas conversas com o Pai. O ar tornou-se rarefeito, no alto da mon­
tanha; é hora de seguir as decisões já tomadas, para não se deixar
enganar pelos sentimentos. E ele entrega-se novamente nas mãos
do Pai. Percebe-se que, aos poucos, suas palavras se tornam doces e
serenas, como que a revelar a vitória da alma sobre o ressentimen­
to. Agora, como Jó, ele pode dizer antes de morrer: “Pai, nada
mudou entre nós”.
Uma palavra final sobre esse assunto aos ministros de louvor.
Assim como a vitória do Filho abre portas para muitos, pois, na
linguagem de Isaías 53, “pelos pecadores intercedeu”, assim tam­
bém sua derrota teria sido trágica para toda a humanidade. Al­
guns acham que Deus, em Cristo, não correu esse risco. Entendo
que o risco era real e que não se tratava de uma encenação.
Qualquer pessoa que, colocando-se em submissão a Cristo,
quiser seguir seus caminhos há de enfrentar o mesmo tipo de luta
do coração. Uma luta que a princípio não aparece. Durante mui­
to tempo, pode não se refletir nas palavras e no comportamento,
mas lá estará, surda, penosa e solitária. Uma luta contra si mes­
mo, contra sentimentos eventualmente justos, mas destruidores
de sacerdócios. Para esses, já em agonia antecipada, Jesus oferece
uma palavra igualmente desconcertante, que apresento na forma
de uma paráfrase aplicada: “tende bom ânimo, eu venci a amar­
gura e o ressentimento”.
capítulo 4

A doração Pessoal

C O N T R IÇ Ã O
Eis-me aqui,
Meu Senhor,
Venho te adorar;
Se sofri,
M inha dor
Quero te ofertar.

Se esqueci
Teu favor,
Quero retornar.
Quero aqui,
E onde for,
Tudo te entregar.
62 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

Agora que achei o teu altar


L á fora cansei demais!
Minora o sofrer do meu penar,
Consola-me com tua paz.

Se ofendi
Meu irmão,
Venho confessar;
Se retive
O perdão,
Dá-me o perdoar.

Sei que em ti
Todo o amor
H á de triunfar;
Deixo aqui
Meu louvor,
Sobre o teu altar.1

U rn a das grandes carências do povo de Deus hoje em dia é a


falta de vida devocional, sem a qual todo louvor, toda adoração se
torna superficial e deficiente. É como encontrar um amigo de vez
em quando. A amizade permanece, mas a intimidade não é pro­
funda, por falta de conhecimento, de troca de idéias, de conversa.
Muitas vezes mantemos amizades desse tipo por muitos anos, e
isso é bom. Mas não é o ideal, pois são amizades superficiais,
embora haja grande simpatia.
Como aprofundar uma amizade, de modo a torná-la mais
satisfatória, mais íntima? Somente cultivando-a. Cultivar uma
amizade significa investir nela, isto é, investir tempo em proximi­
dade, conversas significativas, abertura da vida, dos segredos, das
coisas pessoais. Com o tempo, um sabe tudo do outro.
ADORAÇÃO PESSOAL > 63

Vida devocional com Deus é um processo de estreitamento da


amizade espiritual. E por esse mecanismo que nos aproximamos
dele, para conhecê-lo, para falar de nossas coisas e ouvir as suas.

“ENTRA NO TEU QUARTO”

Pergunta: Deus espera adoração de suas criaturas? Resposta:


Mais que isso, Deus procura verdadeiros adoradores.
Pergunta: Com o entender isso? Não parece presunção do
Altíssimo? Resposta: O que é presunção? É uma atitude devido à
qual se pode dizer: “Você não está com essa ‘bola toda’”. Veja
Jesus “presunçoso”: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e
sobrecarregados...”; “aquele, porém, que beber da água que eu
lhe der nunca mais terá sede...”; “Contudo, não quereis vir a
mim para terdes vida”.
Os fariseus achavam que tudo isso era imensa presunção de
Jesus. E pegavam em pedras para o matar. No entanto, sabemos
que não era, pois ele dizia de si mesmo simplesmente a verdade.
Ou seja, ele “estava com aquela bola toda”. Presunção é achar que
se está, e não estar. Portanto, não é presunção de Deus esperar de
suas criaturas adoração.
Pergunta: Nesse caso, se não é por orgulho nem vaidade, qual
é o objetivo de Deus ao esperar nossa adoração? Para que ele
precisa dela?
Eis a verdadeira questão. Aqui chegamos ao ponto central
desse tema. E a resposta tem três pontos:
1. Ele “precisa” contar com a nossa vontade,
2. para fazer-nos seus filhos, amigos, ministros, confidentes, e
3. fazer-nos capazes de suportar disciplina e crescimento, de
forma a herdar superior galardão.
Repare que todo o relacionamento proposto por Deus e por
Jesus na Bíblia se dá por meio de convites. Alguns são bem
64 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

lacônicos: “Segue-me!” Outros, mais elaborados: “Eis que estou à


porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei
em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo.”2 Mas Deus jamais
invade. Sempre aguarda um convite, uma aceitação, um chama­
do. A razão disso é que ele respeita as regras da própria criação.
Ele nos fez seres capazes de escolher. E deseja se relacionar com
seres livres, que escolham sua amizade, com as exigências e ex­
pectativas de reciprocidade e exclusividade envolvidas.
Sim, todo o arcabouço do que conhecemos por “reino de Deus”
se firma na devoção, uma disposição voluntária do homem de
oferecer-se, devotar-se, como forma adequada de amar a Deus e
de submeter-se ao seu senhorio. Assim também nossas relações
horizontais, quando marcadas pelo reino, hão de se dar pelo vín­
culo do amor voluntário e sacrificial. Ao amar nosso próximo,
estaremos oferecendo nossa devoção ao Senhor, na forma da op­
ção contínua de amar, com suas respectivas renúncias, em vez de
tentar dominar, pelo poder. O domínio foi a opção de Satanás e
seus seguidores, mesmo que disfarcem sua prepotência dizendo:
“fiz isso por amor” (afirmação sempre associada a tragédias).
Deus precisa contar com a nossa devoção, com o convite que
lhe façamos, para poder atuar em nossa vida. Ele espera que ore­
mos: “Venha o teu reino; seja feita a tua vontade em minha vida,
como ela é feita nos céus”. Mas para que ele espera por nossa
decisão? Esse é o segundo ponto.
A partir da aceitação do convite para entrar em nossa casa e
cear conosco, abre-se um imenso espaço para que entremos, tam­
bém, em sua casa, e assim se estabeleça o espaço da construção da
amizade com Deus. Como se faz essa “aproximação” de Deus?
Por meio de intimidade, amizade com ele. E isso se dá num am­
biente que chamo de “quarto”. E quando você se coloca “tranca­
do no seu quarto” que essa amizade cresce. É ali a mina d’água
que se transformará em um rio.
ADORAÇÃO PESSOAL >65

Já podemos perceber que a “necessidade” de adoração de Deus


não tem nada a ver com suas necessidades divinas. O objetivo
dela, além de permitir ao Senhor gozar nosso amor e intimidade,
é deixá-lo nos ver crescer como pessoas. Ele sabe, sem presunção,
que não há outro caminho melhor, mais satisfatório e seguro de
amadurecimento. Faz parte da própria ordem da criação. Fomos
criados para ele. E somente nele nos tornamos plenos. Não será
esse o sentido daquele trecho misterioso da oração sacerdotal de
Jesus, em João 17.21 (“a fim de que todos sejam um; e como és
tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós...”)?
Mas há ainda um modo como esse amadurecimento se dá. A
“disciplina e admoestação do Senhor”.3 É a intimidade do Se­
nhor, sua amizade, que nos mantém dispostos a suportar as dores
do crescimento. E o objetivo da adoração é fazer-nos crescer na
imagem e semelhança do Filho. Essa é a resposta à pergunta ini­
cial. Deus “precisa” de nossa adoração porque, por seu poder
conformador, deseja nos tornar em tudo parecidos com seu Filho
unigénito, de modo a transformar-nos em irmãos mais novos dele
e fazê-lo “primogênito entre muitos irmãos”.4 E o caminho não é
fácil. Paulo o resume de forma poética em Filipenses 2:
Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo
Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como
usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou,
assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de
homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se
humilhou, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz.

O resultado, o galardão a que nos referimos, que Deus quer


nos dar pela eternidade, talvez resumido num nome novo, fica
claro na seqüência do mesmo poema: “Pelo que também Deus o
exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo
nome”.
66 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

Sabemos que, se com ele sofrermos, com ele também reinaremos.


Tudo começa com a aceitação da recomendação de Jesus em
Mateus 6.6: “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e,
fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai,
que vê em secreto, te recompensará”.

OS TESOUROS DO QUARTO

Em que consiste a recompensa a que Jesus se refere (“e teu Pai,


que está em secreto; te recompensará”)? O que pode acontecer
no quarto, em secreto, que interesse ao tema do louvor, da adora­
ção e da liturgia?
Acredito que esse não seja o ambiente para a liturgia, uma vez
que o que acontece no quarto não precisa de organização formal.
Ali acontece a forma mais direta de adoração que podemos ter —
mais direta e mais íntima. E na intimidade a liturgia se torna
desnecessária, senão impeditiva. No entanto, o mesmo não se
pode dizer do louvor e da adoração. O quarto é o lugar por exce­
lência para isso, é a nascente do que chamaremos de “rio do san­
tuário”. E no quarto que nasce toda a adoração e todo o louvor,
por mais formal e litúrgico que possa parecer em uma grande
igreja. Vale a pena nos determos um pouco nesse aspecto. E com
cuidado, pois estamos próximos do “nervo do dente”.
Essa pergunta, sobre a que recompensa Jesus estaria se referin­
do, pode ter uma resposta curta e outra longa. Mais uma vez,
comecemos pela resposta curta, para depois nos alongarmos no
que chamarei de “conversa a três”, a ser mantida no quarto.
Para a resposta curta, poderíamos dizer que o quarto é o
lugar onde pode acontecer a reconciliação com D eus, pela
adoração pessoal. Tendo refletido sobre a síndrome de Jonas,
sabem os que o ressentim ento é empecilho à adoração. É no
ADORAÇÃO PESSOAL > 67

quarto que colocam os no altar de D eus nossos conflitos e


pecados. É transformando em santuário o que era um espaço
comum, em secreto o que era um espaço público, que reco­
lhemos o que nos é mais importante na vida e levamos para
esse lugar, agora sagrado, pois ali estará o nosso Pai, que está
em secreto.
Então, passamos a tratar de pecados, culpas e ressentimentos,
em relação a Deus e a nossos irmãos. Mais tarde, quando for a
hora da oração pública, da música eclesiástica, do louvor litúrgico,
todas essas coisas já terão sido apresentadas a ele, no quarto. Já
teremos orado pelos inimigos e desafetos, já teremos ajustado nossa
vontade à de Deus, já teremos alcançado vitória sobre o diabo, o
pecado, a carne e sobre o nosso eu, com suas racionalizações, e o
mundo, com suas fôrmas.
Vale lembrar, com o exemplo de Jesus, que a luta da cruz se
vence no Getsêmani. Ou seja, as grandes lutas da adoração públi­
ca — seus embaraços, suas acusações sobre legitimidade e sinceri­
dade — , pelas quais todo adorador sempre passará, são vencidas
antecipadamente, no quarto. Deixar para enfrentá-las no templo,
no púlpito, é temeridade; é como se Jesus tivesse partido para a
cruz sem ter tido seu tempo de Getsêmani.
Ainda buscando uma resposta resumida, diríamos que o quar­
to é a nascente do santuário; sem quarto, a adoração familiar é
triste e a liturgia pública, pobre.
Ministros sem experiência de quarto não vão muito além de
“artistas litúrgicos” . Eventualmente, têm seu valor, pois muitos
ministram com sincera devoção. No entanto, eu os vejo como
soldados rasos do reino, normalmente jovens (seja na idade, seja
na fé), fortes, animados, idealistas, desejosos de virar o mundo de
cabeça para baixo (não são assim os soldados enviados para a guer­
ra?) e... vulneráveis — prontos para levar o primeiro tiro. Esses
animados soldados da adoração, quando lhes falta tempo de quarto,
68 < LOUVOR, A D O R A ÇÃ O E LITURGIA

m ostram -se especialm ente vulneráveis ao desânim o (em


contraposição à longanimidade que o quarto lhes daria), ao res­
sentim ento (em contraposição à virtude da fortaleza), à
insubmissão (“pobre pai, líder, pastor, não sabem de nada!”), à
volubilidade (“cantos de sereia” eclesiásticos, doutrinários e
denominacionais, esoterismos, anjos, “rabos-de-saia” etc.), ao de­
sejo de ser servido...
Paulo nos alerta, em Efésios 4.12-14, sobre a imperiosa neces­
sidade de que esses valorosos — todavia vulneráveis — soldados
sejam amadurecidos e aperfeiçoados, de forma a se tornarem ex­
perimentados ministros:5
[...] com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempe­
nho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que
todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do
filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da
plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos,
agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo
vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com
que induzem ao erro.

É no quarto que nascem os ministérios. É no quarto que rece­


bemos de Cristo as habilitações carismáticas para fazermos sua
vontade, para servirmos a Deus e ao próxim o, ainda que
sacrificialmente. O quarto é o lugar dos dons do Espírito, de
onde surgem os ministérios; é ali que surgirá a profunda sensação
do sagrado, na presença de Deus, que nos dará a devida dimensão
de nossas posturas pessoais e prioridades de vida.
Sim, “teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” com esse
crescimento, com esse amadurecimento na fé, com esse caminhar
na direção da estatura de Cristo. Como tem sido difícil às pessoas
de nosso tempo, modernas, apressadas e superficiais, encontrar o
caminho para o quarto. Talvez por isso valha a pena a resposta
ADORAÇÃO PESSOAL > 69

mais longa. U m a conversa sobre os “diálogos a três” , como


disciplina espiritual contra a alienação e minoridade espirituais.
Passemos à resposta mais longa, sobre a recompensa do quarto
(e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará).

DIÁLOGOS A TRÊS

Talvez a maior preocupação dos pais em relação à vida devociunal


dos filhos esteja ligada à sua capacidade de personalizar sua fé. Per­
cebe-se logo que essa não é uma inquietação só dos pais, mas tam­
bém de pastores e líderes. A pergunta é a mesma: quando será que
essa criança (seja um filho pequeno, seja um filho na fé) se tornará
capaz de andar com as próprias pernas? Quando será que meu filho
dará sinais de que recebe pessoalmente os sermões, entendendo
que Deus está falando com ele e não com os outros? Quando se
tornará capaz de aplicar essas mensagens e ensinamentos à própria
vida, tomar decisões, converter caminhos, de modo a deixar-se trans­
formar por elas? Quando passará a se alimentar espiritualmente
sozinho, buscando nas Escrituras e em livros seu próprio sustento
espiritual? Quando passará a orar direta e pessoal mente a Deus?
Quando começará a responder diretamente diante dele pelas deci­
sões éticas que toma?
O pai, a mãe, o pastor ou o líder espiritual aguardam esse
momento, que tem acontecido cada vez mais tarde na vida dos
“filhos”. Parece que a menoridade espiritual tem acompanhado o
alongamento da adolescência de hoje. Ficamos à espera dos sinais
de que podemos descansar, na certeza de que nossos filhos já são
capazes de se negar prazeres inconvenientes, de dar a razão de sua
fé, de evangelizar, de ensinar, de ministrar a partir de sua própria
relação íntima e pessoal com Deus.
Chamo de menoridade espiritual esse tempo em que os filhos
precisam da tutela dos pais, por serem espiritualmente incapazes,
70 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

ou relativamente incapazes. C om o na vida civil, ainda não


podem ser responsabilizados por seus atos. Seu pai ou tutor
precisa lhes dizer o que fazer, o que não fazer, como pensar, sen­
tir, caminhar etc. Nesse sentido, a menoridade não corresponde,
necessariamente, à faixa etária da pessoa. H á muitos menores
espirituais de cabelos brancos em nossas igrejas. Muitos pais que
nem podem sonhar com essas coisas para seu filhos, porque não
as têm eles mesmos.
Richard Foster prefere falar de superficialidade. Mas está pre­
ocupado com o mesmo fenômeno. Inicia seu livro Celebração da
Disciplina com a seguinte afirmação:
A superficialidade é a maldição de nosso tempo. A doutrina da
satisfação instantânea é, antes de tudo, um problema espiritual.
A necessidade urgente hoje não é de um maior número de pes­
soas inteligentes, ou dotadas, mas de pessoas profundas. As dis­
ciplinas clássicas da vida espiritual convidam-nos a passar do
viver na superfície para o viver nas profundezas. Elas nos cha­
mam para explorar os recônditos interiores do reino espiritual.6

Outro conceito associado a superficialidade ou menoridade é


o de “alienação espiritual”. A alienação é própria da “infância”,
mas indesejável na vida adulta. O alienado percebe a vida pelos
olhos, pelo discernimento de outrem. Percebemos que, no trato
com seus discípulos, Jesus falava disso, ao dizer que já não queria
tratar com eles como com servos, mas com amigos.7 Por um pou­
co, é necessário que o pai pegue o filho pela mão e o conduza.
Mas o alvo, o desejável, é que ele aprenda a discernir seu próprio
caminho. A partir de então, torna-se amigo do pai.
Sendo muitos desses menores gente ligada às artes, acabam
por assumir cargos de ministração de louvor e adoração, seja como
instrumentistas, dançarinos, coreógrafos etc., seja mesmo como
dirigentes. A dificuldade de discernir essa menoridade também
ADORAÇÃO PESSOAL > 71

traz embaraços à ação pastoral, no sentido de escolher quem deve e


quem não deve ministrar à igreja.
Talvez uma abordagem menos discriminatória fosse ajudar
a todos no caminho da maturidade. Entretanto, nem sempre é
possível, pois as pessoas têm seu próprio tempo, seu próprio
passo. De resto, nenhum de nós alcançará, nesta vida, plena
maturidade.
No entanto, será útil uma breve reflexão sobre duas discipli­
nas espirituais, que nos ajude a crescer na direção da personalização
da fé, na direção da tão desejada maturidade espiritual. Trata-se
da oração e da meditação, como atividades a ser desenvolvidas no
quarto. Não é o caso de fazer distinção entre elas, mas de associá-
las, para falar sobre uma das experiências mais preciosas da vida
cristã, que só acontece nesse espaço de intimidade, que chama­
mos de quarto, mas que pode ser qualquer lugar tranquilo, de
isolamento. No entanto, tem de ser no quarto, nunca fora dele.
Trata-se do diálogo a três, um diálogo a ser desenvolvido entre
você, sua alma e Deus.
É interessante notar que um dos personagens bíblicos que mais
falam desses momentos de comunhão com Deus é Davi. Talvez
ele tenha aprendido muito com sua vida de pastor, isolado no
campo, com suas ovelhas. Naquela solitude, terá desenvolvido
uma peculiar capacidade de introspecção. Também percebemos
outras pessoas, como Elias e Jesus, buscando jardins, desertos,
cavernas, onde pudessem se recolher para falar com Deus. Ficam
como metáforas de quartos para nós. Mas é importante também
chamar a atenção para o fato de que Davi era um poeta, um
músico, e que as palavras louvor e adoração não encontram me­
lhor esconderijo do que seu coração. Em Davi, essa ação litúrgica,
pública, exuberante, diante do que ele chamava de “grande con­
gregação”, estava sempre associada a momentos de profunda
introspecção. A intimidade com Deus, associada à cerimônia
72 < l o u v o r , a d o r a ç ã o e litu rgia

pública, como que a nos ensinar que a manifestação eclesiástica


tem seu legítimo nascedouro no quarto.
Em contraponto ao isolamento, ao deserto, figuram as multi­
dões. Trata-se de um tema muito recorrente nos evangelhos, espe­
cialmente em Lucas. As multidões sempre aparecem como obstá­
culo às pessoas que querem “ter um rosto” para Jesus. É o caso da
mulher que tocou em suas vestes, do cego Bartimeu, do paralíti­
co que precisou ser descido por cordas. Sempre aquela agitação,
aquele mundaréu de gente impedindo um contato tranqüilo en­
tre o crente necessitado e Jesus. E este, sempre atento a essas ne­
cessidades particulares, percebeu o toque da mulher, mandou
chamar Bartimeu e curou o paralítico.
Com Jesus ressurreto, as multidões se adaptaram. Em nossos
dias, passam a ser multidões modernas. São alvoroços internos.
Nossa alma fica atribulada, agitada, incapaz de assentar e desen­
volver uma conversa significativa com quem quer que seja, mui­
to menos com Jesus. Os tumultos das ansiedades, das exigências
sociais, do “aproveitar a vida” ao máximo, dos compromissos,
das atividades — tudo substitui com folga as multidões que
cercavam Jesus. M as com a agravante de que podem ser
levado até mesmo para os desertos, quartos, montanhas ou
cavernas.
As com em orações dos cem anos de nascim ento de
Krishnamurti, guru oriental, celebradas em 2004, trouxeram gran­
de exposição das filosofias que ele pregou. Interessa-nos notar
que muito do seu ensino envolve técnicas para o trato dessas “mul­
tidões”. Tanto a doutrina ioga quanto a zen propõem formas de
anulação do pensamento, que é visto, com suas vozes e ansieda­
des, como empecilho à verdadeira paz. Esses ensinamentos pre­
tendem desmascarar os mecanismos do pensamento, que man­
têm nossa alma presa, colada ao eu, ao “ego psicológico”, como
ADORAÇÃO PESSOAL > 73

dizem. Sem esse distanciamento, sem esse calar do pensamento,


não é possível uma verdadeira harmonização com o cosmo.
Não se conversa com a “alma colada”, pois ela se mostra
indistinta da pessoa; é preciso separar-se dela, como ensinava
o famoso guru.
Essa sabedoria oriental é verdadeira. H á realmente grande
necessidade de solitude e de conversa interior, em especial nos
dias de hoje. N o entanto, a im pressão que tenho é que
Krishnamurri não propõe exatamente uma conversa, mas o silên­
cio da mente, de modo a permitir que nosso interior se harmoni­
ze com as vibrações cósmicas do belo e do bem. Nisso, as tradi­
ções milenares se distanciam, pois tanto o judaísmo quanto o
cristianismo propõem, como disciplina espiritual, conversas sig­
nificativas a três: eu (meu “ego psicológico”, como denominam
os orientais), minha alma e Deus. Ou seja, na tradição cristã não
se anula a cognição.
Se pudéssemos fazer uma visita a Davi, num de seus muitos
momentos de retiro, certamente o ouviríamos falar sozinho. E
talvez ele dissesse: “Por que estás abatida, ó minha alma? Por que
te perturbas dentro em mim? Espera em Deus, pois ainda o lou­
varei, a ele, meu auxílio e Deus meu”.8
Comparando Krishnamurti com Davi, percebo muitas seme­
lhanças de propósitos, como que a denotar que os antigos conhe­
ciam as necessidades do coração humano e os caminhos para por-
se em contato com ele. Davi, acostumado ao deserto, à vida no
campo, aprendeu muito sobre a solitude (diferente da solidão,
que dói na alma sem diálogo). Porém sua solitude não é total­
mente silenciosa; ele aprendeu a conversar com sua alma. Mas
não mantinha conversas apenas a dois. Sempre incluía um tercei­
ro — Deus. Vejo grande vantagem nisso, pois jamais a solidão
conduziu Davi por caminhos perdidos, caminhos do engano. A
Palavra que ele havia guardado no coração, bem como a presença
74 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

do próprio Deus, agora lhe seriam guia e companhia nessa


conversa com sua alma.
De fato, na dinâmica vida interior do poeta, ora ele se dirigia
à sua alma, ora a Deus. A ela, ele dizia: “Por que estás abatida, ó
minha alma? Por que te perturbas dentro em mim? Espera em
Deus, pois ainda o louvarei” (SI 42.5). A seqüência dessa conver­
sa íntima envolve o Senhor —- “lembro-me, portanto, de ti, nas
terras do Jordão” (SI 42.6) —-, a quem Davi afirma: “fiz calar e
sossegar a minha alma; como a criança desmamada se aquieta
nos braços de sua mãe, como essa criança é a minha alma para
comigo” (SI 131.2).
Nossa geração, tendo desaprendido esse diálogo interno, abre
mão de uma das mais ricas disciplinas cristãs, a oração meditativa,
e a deixa para quem medita sem orar, buscando, quase instintiva­
mente, sobreviver em um mundo tecnológico.
Sem ela, sem o desenvolvimento dessa capacidade de cultivar
um profundo e significativo diálogo a três, dificilmente uma ex­
periência nova, como uma exortação ou um ensino, serão incor­
porados à nossa vida como algo genuinamente nosso, pessoal.
Dificilmente, experimentaremos a contrição, o arrependimento,
a expressão de gratidão, a mudança de rumo da conversão. Esses
fenômenos espirituais só acontecem lá no fundo, lá no secreto,
onde Deus está. Na superficialidade, temos o fogo de palha. Gente
que é levada de um lado para outro como folhas ao vento. Gente
que não cresceu; gente que padece de menoridade espiritual.
Crianças que vivem pela fé dos pais, pelas orações dos pais, pelas
ordens dos pais. Ministros que sobem ao púlpito sem ter nada do
“quarto” para apresentar a Deus. Contentam-se em “se apresen­
tar” aos irmãos. Sem liderança, pois o líder é aquele que conhece
o caminho. Sem unção, pois a unção vem de Deus e da sua inti­
midade. Animadores litúrgicos. Soldados rasos.
ADORAÇÃO PESSOAL > 75

Sim, precisamos, mais que nunca, calar as multidões internas


para poder falar e ouvir o que realmente importa. Para metabolizar
nossa vida espiritual pela adoração pessoal secreta. As metáforas
para esse processo são muitas nas Escrituras. Já falamos das mul­
tidões, dos desertos, dos jardins. Poderíamos mencionar as mon­
tanhas a que Moisés subiu ou a caverna de Elias.9
Qualquer que seja a imagem, é importante ressaltar que,
diferentemente da experiência do esvaziamento da mente, para
falar com Deus é preciso interagir com ele, por meio de contem­
plação e audição. Na correria da vida, vamos pegando uma lição
aqui, outra ali, fazendo orações etc., mas raramente “meditamos
na sua lei”, raramente nos quedamos a conversar diretamente com
ele.
Quantos idosos, gente antiga de igreja, que, dado o tempo
transcorrido, poderíam ter uma profunda intimidade com Deus,
ainda o mantêm distante e impessoal. Falam com ele cerimonio­
samente, formalmente, como quem se dirige a uma autoridade
secular. Ou seja, com todo o tempo que tiveram, jamais passaram
da sala de visitas para a cozinha, ambiente menos formal da casa,
ou mesmo para o quarto da intimidade. Por quê? Resposta curta:
Porque não quiseram. Resposta longa: Porque não dedicaram tem­
po e atenção a contemplar e ouvir. Foram impedidos, a vida toda,
por tumultos da alma. Tumultos de toda natureza, que funciona­
ram como uma grande avenida engarrafada, onde é impossível
estar calmo e tranqüilo; onde é impossível ouvir algo além de
buzinas, apitos e gritos. Barulhos que não nos permitem ouvir as
vozes suaves e mansas de Deus e da sua alma.
Se tomarmos o caso de Elias, como contraponto ao de Davi,
veremos que ele leva para sua caverna10 uma imensidão de obstá­
culos à audição de Deus. Em especial o ressentimento, sobre o
qual já discorremos, sério empecilho à adoração.
76 < LOUVOR, A D O R A ÇÃ O E LITURGIA

Para nós, pessoas modernas, não é diferente: são traumas, ódi­


os, melindres, ressentimentos e rancores (que têm sua voz e seu
discurso próprios, e falam alto!), tristezas profundas, perdão reti­
do, revolta, pressa, agitação da vida, falação (muita gente falando,
aconselhando, dando palpite na nossa vida), compromissos em
excesso, aulas, palestras, estudos bíblicos em demasia — tudo
para não ouvir as vozes de dentro.

Três p a sso s

A título de exemplificação, para ajudar a quem tenha dificul­


dade de prosseguir sem visualizar o processo, poderíamos dividir
esses diálogos em três passos fundamentais. Você pode experi­
mentar, como exercício.
Entre no seu quarto. Pode ser seu quarto mesmo, ou um jar­
dim, um monte, um lugar onde possa passar bom tempo em si­
lêncio e oração. Comece a aquietar seu coração. Técnicas de res­
piração podem ajudar. Também o jejum, que tem a propriedade
de serenar nossos processos internos, inclusive os cerebrais. Peça
a Deus sua presença, sua voz, sua ajuda para esse momento de
conversa; convide-o a participar desse momento íntimo, único,
sagrado. Um verdadeiro momento de adoração. Eis os três pas­
sos, resumidamente.

1. Uma vez sereno, concentre-se em sua alma e pergunte-lhe:


“Como vai?” Provavelmente, não terá respostas verbais, com
palavras (próprias do pensamento), mas com sensações,
emoções e sentimentos — tente “ouvi-los” . Ela lhe dirá:
“Medo”, “inveja”, “ansiedade”, “desânimo”, “abatimento”,
contusão , duvida , conflito , desejo , alegria ,
“exultação”, “gratidão” etc. Concentre-se em apenas um
desses sentimentos, o mais proeminente, e tente perguntar-se
ADORAÇÃO PESSOAL > 77

sobre o porquê. Você estará se perguntando: “Por que estás


abatida, ó minha alma?” E um bom momento para se con­
centrar em algum sonho, ou sonhos recorrentes, aqueles
que têm voltado frequentemente e aos quais você não tem
podido (ou querido) dar atenção. “Se formos capazes de
dar ouvidos aos nossos sonhos...”,11 diz Foster, descobrire­
mos muita coisa a nosso próprio respeito.
2. O segundo passo é perguntar-se: “H á uma palavra na
Palavra do Senhor para isto?” Ou seja, o que eu poderia
dizer à minha alma, no sentido de exortá-la, com seguran­
ça, sobre o que eu sei a respeito do Senhor, sobre o que sua
palavra pode trazer de luz a respeito desse tema? Converse
com ela sobre essa palavra e exorte-a. Atenção: trate-a com­
passivamente, como se fosse outra pessoa. Há pessoas que
massacram tudo, até sua própria alma; é hora de ter com­
paixão dela. Não se trata de autocomiseração, mas de não
estragar o exercício com excesso de rigidez e autocobranças.
O importante nesse momento é a fidelidade à Palavra de
Deus, pois ela não lhe permitirá a auto-indulgência, o
descaminho.
3. Isso feito, como terceiro passo dirija-se a Deus, novamente,
apresente-lhe essa conversa (o salmo 131 é um exemplo) e
peça ajuda para caminhar. Talvez seja hora do voto, como
acordo, a exemplo dos acordos que acontecem nos “juízos
de pequenas causas”, entre o crente e sua alma, diante de
Deus. Quando nos propomos um voto, precisamos ser es­
pecíficos e mensuráveis. Explico: é difícil avaliar uma reso­
lução do tipo: “serei atencioso com minha esposa”; talvez
seja preferível: “levarei minha esposa para jantar pelo me­
nos uma vez por semana”. O voto tem a propriedade de
desestabilizar as coisas “mal-paradas” de nossa vida; com
78 < LOUVOR, A D O R A Ç Ã O E LITURGIA

ele, como ato de fé, informado pela Palavra, arrancamos da


situação que estamos para alguma outra coisa; podemos
nem bem saber aonde vamos, mas damos um passo, um
precioso passo.

E x e rcício
Pode parecer ainda insuficiente para alguns. Tentemos, então,
um outro exercício, usando a imaginação, como porta para a
oração meditativa. Vamos brincar de ser crianças, com sua fértil
capacidade de criar histórias e situações, para com elas construir
seu mundo. Essas brincadeiras, chamadas de lúdicas, são mais
importantes na formação psicológica e emocional de uma pessoa
do que podemos imaginar.
Por exemplo, imagine-se criança crescida, diante do texto
de Lucas 22.31-34. Aí, né, você era Jesus, e eu era Pedro (seu
ego e sua alm a): aí, a gente ia um tiro de pedra mais adiante
(v. 41), e tem uma reunião a três. Aí, Satanás pede para lhe
peneirar. Que peneira será essa? Como Jesus lhe defende? Aí
você era Jesus. Depois Jesus volta e fala com Pedro. Como
Pedro reage?
Percebe a “conversa” se iniciando? O importante nessa hora é
a consciência de que estamos em oração e que Deus é bem-vindo,
seja na pessoa do seu Espírito, seja pela sua Palavra, que não nos
deixa à deriva, ao sabor de nosso próprio coração enganoso.
Sabemos que qualquer tema ou sentimento pode ser a base
para nossa conversa a três. Não é necessário que a conversa come­
ce com as informações sutis da alma. Podemos, um dia, começar
com fatos bíblicos, com uma leitura que nos tenha chamado a
atenção; outro dia, com fatos ou acontecimentos no trabalho, na
família, coisas que requeiram definições nossas, posicionamentos
íntimos, éticos, de rumos a tomar etc.
A d o r açã o pesso al > 79

Tomemos um texto bíblico como exemplo. Leia a passagem


do cego Bartimeu em Marcos 10.46-52. Agora, vamos ao nosso
exercício. Façamos a mesma brincadeira com o caso Bartimeu.
Para facilitar, forneço alguns temas para seu “aí, né...”:
> A multidão se acotovelando;
> Perceba como a “multidão” lhe atrapalha, agora, a chegar a
Jesus. Que multidão é essa, no seu caso? Que sentimentos lhe
causam? Apatia, desânimo, desencorajamento, timidez, tristeza?
“Esse jogo eu não gosto de jogar, pois nunca chega a minha vez”?
> Raiva: eu tomo o brinquedo; vou lá e grito mais alto que
todo mundo; eu tenho direito (preste atenção no timbre e na
altura de sua voz; o que isso quer dizer?); Jesus vai ter que me
ouvir, senão...;

> Quando Jesus conhecer meu charme, na certa vai me dar


um cargo de discípulo, e eu vou crescer na carreira de apóstolo;
> Os repressores (v. 48): como lidar com o bom senso das
conveniências sociais, as repressões anulantes dos invejosos e
autoritários, e a coragem de persistir num objetivo?
> Os falsos amigos;

> Jesus perguntando: “O que queres que eu te faça?” Nesse


momento, você já estará incluindo Deus na conversa, e é hora de
tentar responder, pedindo-lhe que o ajude a encontrar respostas
claras.

> A sua resposta: uma boa medida é dá-la por escrito, de


forma que você se lembre dela mais tarde; escreva coisas íntimas
e verdadeiras.
Como se vê, não é um exercício complicado. Pode parecer
difícil, a princípio, pois não temos o costume de falar sozinhos,
de m editar produtivam ente. O mais que conseguim os são
8o < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

devaneios que não levam a nada. E achamos que é melhor ler um


livro ou ver televisão. Em oração, temos o hábito de falar, pedir,
interceder e encerrar, como num discurso. Mas não sabemos muito
bem nos aquietar na presença de Deus, com a disposição de ou­
vir, entendendo que a verdadeira oração também ouve.
Uma coisa pode ficar assentada: não se atribui menoridade
espiritual a alguém versado nessas disciplinas, nessas práticas
devocionais.

Jejum: alvorada da alma


Há momentos em que o nosso exercício nos leva a impasses.
As dificuldades existem; dificuldade de concentração, de ouvir
Deus no turbilhão dos acontecimentos, de discernir a mensagem
de nossa alma e muitas outras. Mas existe uma dificuldade, em
especial, que precisamos abordar. E o exercício com o texto do
Bartimeu nos ajuda nisso. Trata-se da dificuldade de discernir
caminhos. Repare que, quando o cego consegue vencer todas as
barreiras para apresentar-se diante de Jesus, confronta-se com um
momento inesperado, aquele em que Jesus lhe pergunta: “Que
queres que eu te faça?” (Mc 10.46ss). O momento que se segue é
de extrema importância, pois parece que Jesus está buscando, lá
no fundo da alma de Bartimeu, mais que um desejo; ele busca
uma esperança, uma visão; ele busca sua fé. Como que a dizer:
“Bartimeu, o que você vê?”
Nosso recolhimento espiritual no quarto tem o objetivo, entre
outros, de nos permitir responder a perguntas como essas. No
entanto, não é incomum não podermos responder de pronto.
Vale lembrar a situação difícil em que é lançado o profeta Ezequiel,
na visão do vale de ossos secos.12 Pelo relato, o profeta é levado
àquele vale pelo Espírito, que o faz andar entre os ossos, para
depois apresentar-lhe a pergunta difícil: “Acaso poderão reviver
esses ossos?” Uma pergunta que certamente o bom senso do
ADORAÇÃO PESSOAL > 81

profeta manteria não-aberta, não-formulada. Pessoas de juízo não


se fazem tais perguntas. Talvez por isso o Espírito tenha tomado a
iniciativa de instalar a crise no profeta.
E humano e muito comum não termos clareza do que quere­
mos, do que devemos fazer. Às vezes não nos ocorre nem a orien­
tação da Palavra de Deus para situações confusas. É nesse mo­
mento que o jejum pode nos ajudar. Não pretendemos aqui um
estudo sobre o jejum, como prática espiritual, mas apenas trrzê-
lo para dentro do quarto, para nos ajudar num momento de difí­
cil discernimento. Não sabemos responder a perguntas confusas,
porque temos dúvidas.
> nossa alma pende entre opções possíveis;
> nossa alma pende entre opções possíveis e impossíveis;
> nossa alma não tem clareza sobre o que deveria pedir;
> nossa alma não sabe; simplesmente não sabe.

Muito dessa dificuldade acontece quando nossa alma presen­


cia uma luta entre a mente, que nos apresenta o dever, e o cora­
ção, que traz o desejar. Como fazer para saber a resposta? A má
notícia é que o saber a resposta é o de menos; a força para vivê-la,
uma vez descoberta, é que requer jejum. Quando o coração luta
contra a mente, o jejum (com Deus) pode nos ajudar, porque o
de que mais precisamos nesse momento é força para a renúncia.
Ao se instalarem nossos desejos, tendemos a nos tornar infelizes,
por não tê-los atendidos. No entanto, nem todo desejo, nem tudo
o que nos é lícito nos convém. E nossa mente, informada pela
Palavra de Deus, aguçada pelo seu Espírito, nos convence disso.
Resta a luta, a grande dificuldade de fazer a escolha certa,
pois está implícita em cada escolha pelo menos uma renúncia.
Optar é renunciar. Optar pelo que achamos certo em troca do
que gostaríamos é escolher a dor da renúncia do que gostaríamos.
82 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

Onde encontrar a força, a energia, para fazer a escolha e arcar


com suas conseqüências? No quarto, certamente, diante de Deus
e fortalecidos por seu amor.
O resultado da escolha certa é poeticamente descrito por Pau­
lo, quando afirma que, ao apresentarmos ao Pai nossas necessida­
des, com orações, súplicas e ações de graças, “a paz de Cristo, que
excede todo entendimento, guardará os vossos corações e as vos­
sas mentes em Cristo Jesus” (Fp 4.7).
Reparou, leitor, nas palavras de Paulo, a referência a coração e
mente?
Conheço pessoas que passaram a noite lutando, e a resposta
veio ao alvorecer. O exemplo bíblico, emblemático, é Jacó, que
amanheceu lutando por discernimento, por paz no coração em
relação ao seu iminente reencontro com Esaú.13 A batalha íntima
foi tão grande que, como resultado, seu nome foi mudado para
Israel porque lutou com Deus e prevaleceu.
O jejum é meio de graça; tempo precioso e belo, de Deus,
para quem pode e quer dele dispor. Vamos precisar do jejum se
quisermos viver intensamente a vida interior, a vida no Espírito,
diferente da vida extrovertida e combativa que vive o apressado e
superficial homem moderno.

JE JU M
É o querer de quem não quer,
É o saber na indecisão,
E adorar com o coração,
No silêncio em que estiver.
É saber que somos um,
Mesmo quando estamos sós,
Desatando antigos nós,
No mistério do jejum.
ADORAÇÃO PESSOAL > 83

E calar na confusão,
E falar com a própria alma;
Perguntar com toda a calma,
O porquê da agitação.
Que na calma Deus se faça,
N a solitude incomum,
D a oração com jejum,
Misterioso meio de graça.N
capítulo 5

A doração na Família

Nocapítulo anterior, meditamos sobre a adoração pessoal, que


deve acontecer no secreto. Disse que ali está a nascente do rio.
Qualquer outra instância de adoração será diferente, tanto em
sua intimidade quanto em sua formalidade, porque os outros
âmbitos de adoração envolverão outras pessoas. Precisarão, por­
tanto, de alguma organização, para não se transformar em confu­
são. A essa organização, que pode ser mínima ou complexa, cha­
maremos de liturgia. De qualquer modo, vale lembrar que todas
as demais instâncias do louvor e da adoração trarão as marcas
do que chamamos, anteriormente, de “quarto”, incluindo as
marcas da falta dele, porque é dele que provêm os corações
que se expressam liturgicamente.
86 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

N ão ouso dizer que não seja possível ao coração crente


aquecer-se durante um culto ou celebração. Frequentemente
chegamos à casa de Deus um tanto frios, desanimados, distraídos
ou preocupados, enfim, trazendo nossas “multidões”, que tentam
nos impedir de ter um rosto para Deus. Todos temos a experiên­
cia de milagres que aconteceram em nosso coração, seja por uma
leitura bíblica, seja por um cântico, uma ministração, um olhar.
No entanto, não nos iludamos: não é essa a situação desejável.
Isso é manifestação da misericórdia de Deus. O desejável é que
tragamos, ao altar público, uma “amizade” cultivada no secreto,
a amizade individual, resultante do relacionamento íntimo e
pessoal com Deus. O caminho normal, desejável, é do quarto
para o santuário.
É nesse sentido que o quarto “contamina” as outras instâncias:
a adoração em família, ou culto doméstico, e a eclesiástica, ou
culto público. Em particular, o ministro deve cuidar zelosamente
dessa ordem dos acontecimentos. Porque, se chega à casa do Se­
nhor frio, sobrecarregado, despreparado, como há de levar seus
irmãos a uma adoração significativa? Sobre esse assunto, há temas
importantes a abordar, em especial a questão da integridade da
vida do ministro de louvor e adoração, aquela linha não partida,
que liga o quarto ao santuário, em seu cotidiano. Conversaremos
a esse respeito mais adiante, quando falarmos do culto público.
Por hora, vale lembrar que a adoração em família já deve
trazer as marcas do quarto. É a instância coletiva mais próxima
dele e talvez, por isso, a mais problemática, delicada, a meu ver. É
uma experiência que traz potencial de grande bênção ou grande
destruição, por vários motivos.
O primeiro motivo é a singela constatação de que os partici­
pantes desse culto nem sempre ali estão voluntariamente, como,
em geral, na igreja. Sejam os filhos, seja um dos cônjuges, é pos­
sível que alguns dos membros da família não tenham chegado
ADORAÇÃO NA FAMÍLIA > 87

para a reunião de bom grado. Ou ali estão por constrangimento,


ou por costume, ou por ato autoritário dos pais, do cônjuge.
H á pessoas que, sutilmente, passam do estado de não desejar
para o de não tolerar aquele momento. Os motivos podem ser
vários! Uns, porque não creem; outros, porque não têm tempo,
não acham importante, não gostam de se expor, estão magoados
com outros etc.
Muitas vezes, ao exercer autoritariamente a iniciativa de reali­
zar o culto doméstico, os pais acabam por provocar rejeição, o
que gera, em vez de louvor, cansaço, desânimo e enfado. E a
distinção entre a liderança paterna e o autoritarismo “eclesiásti­
co” pode ser difícil de se perceber.
Que fazer? Ah, quanta graça se faz necessária, nos dias contur­
bados de hoje, em que as programações e os horários são tão
variados, para se conseguir, além de um tempo bom para todos,
também um coração disposto de todos. Em especial, quando os
filhos crescem e começam a ter agenda própria.

k k k

Abro parêntesis.
Para term inar esse raciocínio, gostaria de apresentar um
pensam ento paralelo.
Não há dúvida de que o culto doméstico é a primeira e mais
importante experiência de adoração coletiva da vida de uma pes­
soa. Momento bendito de recolhimento, atenção, trocas, alegria,
risos e choros, música, aprendizado e oração no seio da família.
Experiência que será lembrada como “na casa de meu pai” pelo
filho adulto. Jamais será esquecida; jamais perderá seu poder de
influência; jamais se desvinculará da correspondente promessa:
“...e ainda quando for velho, não se desviará...”1
No entanto, parece que essa experiência está fadada, talvez
exatamente por sua importância, a ser combatida de todas as
88 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

formas. Já não são comuns famílias em que perdurem os pais


naturais; menos comum é os dois pais servirem ao Senhor; me­
nos comum ainda é terem o desejo de cultuar, domesticamente,
ao Senhor em moldes regulares. Que dirá serem capazes de atrair
os demais membros da família para esse momento?
E na tentativa de contribuir com essa questão tão central do
reino que abro este parêntesis. E apresento duas “razões de esta­
do”, duas sugestões estratégicas, para que esse momento precioso
não seja apagado da experiência e da memória da Igreja, em nossa
geração. A primeira, é que o casal não obrigue seus filhos ao culto
doméstico, mas que os lidere, os atraia, os seduza a esse momen­
to. Pior que um eventual fracasso da iniciativa é a insensibilização
das crianças contra ela, como se as vacinássemos contra o Senhor.
No entanto, não será com formalidade, desinteresse ou antipática
rotina que se conseguirá sua atenção e adesão. E preciso competir
com a televisão, com o computador e com os joguinhos eletrôni­
cos, usando as “armas da luz”. Imagino que, se o casal tomar a
iniciativa ostensiva, e criar um momento bom, atraente e verda­
deiro de adoração doméstica, e o sustentar contra eventuais dis­
trações e interesses conflitantes, conseguirá vitória. Difícil, en­
tão, será a disciplina para sustentar, sem esmorecer, o interesse, a
devoção, a regularidade.
A segunda sugestão, dirijo-a aos jovens ainda não casados, e é
pré-requisito para a primeira. Como se recolherão no Senhor duas
pessoas que não compartilham da mesma fé, da mesma devoção?
Não estou falando de religião. Estou falando do nosso assunto
central: louvor, adoração e liturgia. Como sonhar com o culto
doméstico em família, se ele não fez parte do seu projeto de
casamento? Aquele rostinho bonito abre a boca num grande
bocejo, quando você propõe um momento a dois de devoção?
Ah, sim, casou-se na esperança de que, com o tempo e com o
seu testemunho, Deus transformasse o coração de seu cônjuge? E
ADORAÇÃO NA FAMÍLIA > 89

que testemunho deu, ao abrir mão de “casar” a experiência mais


íntima, mais cara de sua vida? Ou será que isso não é coisa para
fazer parte da união? Pensamos em afinidades sociais, econômi­
cas, de educação, familiares, mas deixamos de fora as afinidades
espirituais? Se seu Deus lhe é tão íntimo, por que não precisa ser
incluído nos projetos existenciais que pretendem desenvolver a
dois? Não precisa ser incluído na caminhada? Ou será que nem
caminhada existe? O que antigamente chamávamos de casamen­
to transformou-se em um juntar de vidas, “enquanto der”? Bem,
neste caso, já não precisamos nem sequer falar em culto domésti­
co, não é? Não teria sentido prático.
Peço desculpa, leitor, pela exortação veemente. Se não é
para você, passe por cima e siga em frente, sem me querer mal.
Faço-a com o coração no reino e buscando jovens corações
sensíveis. Quem sabe a semente encontrará um terreno fértil e
já preparado?
Fecho parêntesis.
k k k

Em muitas famílias, toda a experiência de percepção emocional


do belo se resume ao rádio de pilha e seus sucessores, como o
walkman, o diskman etc. Em outras, já podemos falar de expres­
são, e a arte em família avança para aulas de música e suas cobran­
ças. Nesse nível, já temos a aparição de talentos e aptidões, por
influência da família. No entanto, o ambiente de louvor e adora­
ção é inigualável para fornecer às crianças no âmbito familiar o
incentivo, o encorajamento, as experiências de música em grupo.
Pesquisa recente realizada na Escola de Música de Brasília, insti­
tuição pública de renome internacional, indica que mais da
metade dos alunos provêm de lares evangélicos. Interessante
indicador. Quem sabe, um dia, esse indicador se estenderá às
artes plásticas e cênicas?
go < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

Quando, em nome de Jesus, as barreiras são transpostas e o


tempo de louvor e adoração domésticos se instala, o hábito se
firma e todos se ajustam ao horário, então temos aí um afluente
do “rio do santuário”. A verdadeira escola de profetas (como cha­
mam o seminário), nascedouro de ministros do reino (como um
seminário jamais se arvorará a ser).
Bem aventurada a família que consegue, mercê de muita
graça, passar aos seus filhos o que aprendeu no quarto, fazendo
da expressão artística veículo de expressão da alma e tendo a
adoração semi-pública como herança bendita.2
capítulo 6

Louvor na Igreja

C O N ST R U Ç Ã O

Com estas minhas mãos


Trabalharei;
E tu te alegrarás
Com o que farei.
Com estas minhas mãos
Construirei
O lar que habitarás;
Serás meu rei.
92 < Lo u v o r , a d o r a ç ã o e litu rgia

Não só com minhas mãos


Trabalharei;
Os dons que tu me dás,
Ministrarei;
E, junto aos meus irmãos,
Desfrutarei
Do lar que ali farás;
Disso bem sei.

Sim, por caminhos sãos


Caminharei;
E tu me ajudarás
Com a tua Lei;
Pois meus esforços vãos
Dispensarei,
E forte me farás;
Te seguirei.

E quando as minhas mãos


Que te ofertei
J á não puderem mais,
Descansarei.
Com este coração
Te cantarei;
No escuro luz serás,
Não temerei.1

Nossa caminhada começa no quarto e deságua no santuário.


Do mais secreto para o mais público. Do mais pessoal para o mais
comunitário. Por essa ordem natural da caminhada, chegamos à
casa de Deus com nossa família, para o culto que a ele é devido e
que o nosso coração anseia por prestar. Estamos excitados, em
LOUVOR NA IGREJA > 93

especial, porque na igreja podemos adorar de forma diferente,


compartilhada, juntamente com outros irmãos, que certamente
trarão suas vidas, também, agregando riqueza e beleza ao evento.
Chegam os à casa de D eus trazendo nossas experiências
solitárias e familiares, um sentimento de proximidade íntima
do Senhor, que haveremos de compartilhar com outros irmãos,
e deles receber e perceber com o viveram a sem ana com o
Senhor.
Todos trazemos alguma coisa. Podemos não perceber, mas
chegamos com nossas mochilas de peregrinos carregadas da vida
que vivemos. Carregadas de bons e maus conteúdos. Pesados e
leves. Úteis e inúteis. Alguns de nós chegamos dispostos a
esparramá-los no altar de Deus. Outros, sem disposição de abrir
suas mochilas, porque nem as percebem penduradas em suas cos­
tas. São um peso, é verdade, e alguns se dão conta disso, “cansa­
dos e sobrecarregados” que estão, mas não têm a consciência de
que esse é o lugar para uma revisão de seu conteúdo; de que essa
é a hora de aliviar o peso, de avaliar a utilidade de cada “peça”, de
deixar algum irmão ajudá-lo a carregá-la ou simplesmente se
livrar dela, entregando-a ao Senhor.
Muitas vezes, temos a impressão de que nossa ida à igreja se
resume em um curto trajeto de casa ao lugar onde congregamos.
Para alguns, confortavelmente assentados em seu carro; para ou­
tros, nem tanto, pois precisam pegar um ônibus ou metrô. Sem
falar naqueles que percorrem a pé grandes distâncias para chegar
à igreja. No entanto, a trajetória que nos interessa é muito mais
complexa. E tão invisível quanto importante. O leitor já perce­
beu que estamos falando de uma caminhada que começa em nos­
so quarto, muitas vezes ao pé da cama, e termina no culto públi­
co de louvor e adoração. Uma trajetória impossível de ser mapeada
completamente, mas sobre a qual nos interessa meditar.
94 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

DO QUARTO PARA 0 SANTUÁRIO

CANTO DE AM OR
Estou buscando, agora, o teu altar.
Sim, teu olhar, meu Senhor!
Meu coração te adora, quer te louvar;
Trago-te um canto de amor

Canto: santo, santo, santo tu és, Senhor;


Canto tanto quanto posso ofertar.
Canto a vida que tu queres me dar,
Canto a casa que me vais preparar,
Canto enquanto me derramo em louvor.

Aceita a canção
Do meu coração,
Aceita a canção de amor, Senhor;
Transforma o que for,
No meu coração,
Recebe o meu canto de amor.2

Como sabemos que tudo começa no quarto — entendido aqui,


para quem começou a leitura neste capítulo, como um lugar se­
creto, onde Deus está e onde podemos manter conversas a três
(nós, nossa alma e ele) — , tudo começa também de forma abso­
lutamente informal. E onde temos nossa primeira experiência de
casamento entre a informalidade e a reverência. No quarto, so­
mos todos amadores; somos leigos também. Não há profissio­
nais, nem sacerdotes, nem pastores, nem ministros, nem títulos,
nem terno e gravata. Ali usamos pijama, e basta o nome pelo qual
nos chamou nosso pai. Simples pessoas, amadoras e leigas, diante
do Pai que nos conhece pelo apelido da infância, mas nos chama
por nome e sobrenome.
l o u v o r n a ig r e ja > 95

Uma das primeiras experiências de habilitação da igreja para a


atuação pública aconteceu no quarto, então chamado de Cenáculo.
Depois da ascensão de Jesus, os discípulos se reuniram em um
aposento para orar. O texto de Atos 1.14 diz que “perseveravam
unânimes, em oração”. Era um grupo de cristãos humildes e uni­
do, aguardando em secreto o cumprimento da promessa de un­
ção para testemunhar.3 Receberiam poder ao descer sobre eles o
Espírito Santo, para serem testemunhas de Jesus. E a promessa se
cumpriu, estando eles “reunidos no mesmo lugar”.4 Assim nas­
ceu a igreja cristã, na forma como a conhecemos hoje, pronta
para transformar o mundo.
Como haveria ela de transformar o mundo? Pela mensagem
transformadora e reconciliadora do evangelho, da qual se fez
ministra. Com que ferramentas? Com que instrumentos? Com
os dons e carismas do Espírito Santo, enviado por Cristo, que
a habilitaria a cumprir a sua missão. Com que conceitos e
mensagens? Fazendo-se corpo daquele que a tudo enche, Corpo
de Cristo.5
N a verdade, essas perguntas requerem, para uma resposta
consistente, um tratado sobre a natureza e a missão da Igreja de
Cristo. Contentamo-nos com uma breve reflexão sobre a dimen­
são pública da celebração do evangelho de Cristo. Vale dizer que
os discípulos, daquele momento em diante, viveriam para cele­
brar. A expressão “celebração do evangelho” é uma das muitas
formas possíveis de se resumir a complexa missão da igreja
evangélica.6 Como agora estamos na instância coletiva do louvor
e da adoração, parece apropriado compreendê-los no contexto
dramático que a celebração encerra.

O se n tid o d e ce le b ra çã o
Qual é a missão da Igreja?
Dando uma redação conveniente à resposta, diríamos que
96 < LOUVOR, A D O R A ÇÃ O E LITURGIA

a missão da Igreja é celebrar a multiforme sabedoria de Deus


revelada no Evangelho. Se exam inarm os o texto de Efésios
4.11-16, diremos que essa celebração envolve algumas funções
básicas, a saber:
> o anúncio do evangelho;
> o aperfeiçoamento dos santos;
> o desempenho cristão;
> a promoção da maturidade dos santos;
> a edificação da igreja.

Nesse sentido, considerando os dons estruturais sobre os quais


Paulo discorre, torna-se possível, a partir do mesmo texto, inferir
a missão do ministro: equipar os santos para o desempenho cris­
tão; facilitar ao corpo o exercício de suas funções. Isso nos traz de
volta ao nosso assunto, com a percepção de que o desempenho da
igreja é influenciado pelo desempenho do ministro.
Já mencionamos que a passagem do quarto para o santuário
introduz, progressivamente, a necessidade da liturgia. Na adora­
ção em família, ela é quase imperceptível, mas já existe na forma
de organização, horários e divisão de tarefas e responsabilidades.
Agora, no âmbito público, a liturgia surge como necessidade de
ordenação do culto. Caminhemos um pouco mais na compreen­
são da celebração litúrgica.
Celebração é uma expressão que envolve conotações dramáti­
cas. Isso quer dizer que dramatizamos estados interiores, como
crenças, atitudes, expressões de louvor e adoração, contrição, ar­
rependimento, fé etc. Dramatizar, por sua vez, quer dizer trazer
para o corpo, exteriorizar, expressar. Simplificando, dramatizar
significa dizer, seja com palavras, seja de forma mais complexa,
como é o caso de um processional ou uma dança. Assim, celebrar
também é expressar.
LOUVOR NA IGREJA > 97

Ao resumir as funções essenciais da Igreja ao termo celebração,


estamos dizendo que a celebração do evangelho envolve vários
tipos de experiências. Entre eles, citamos:
> rituais (dramatização de conteúdos e segmentos de
significados);
> transmissivos (transmissão da boa nova dentro da
celebração da boa nova);
> educacionais (doutrina, liturgia, ensino, exemplos etc.);
> catárticos (extravasamento, purificação, arrependimento,
reconciliação etc.);
> de controle (admoestativos, exortativos e proféticos).

Celebrar é dramatizar; é viver e reviver, por meio de gestos,


ritos, rituais e artefatos simbólicos, os conteúdos do evangelho.
Esses conteúdos poderiam ser resumidos, numa extrema simpli­
ficação, em: 1) a iniciativa revelada de Deus, graça, e 2) a resposta
esperada do homem, graças.
No contexto desses dois conteúdos, tudo se torna parecido
com o ato de escrever uma carta (uma “carta litúrgica”). Ela será
melhor compreendida se certas regras de concatenação de assun­
tos e idéias forem seguidas. Também a sintaxe das frases, a devida
conjugação de verbos e as regências devem ser respeitadas. Certas
coisas primeiro, outras, depois, de forma a tornar seu conteúdo
didático e compreensível aos celebrantes.
Toda celebração se encaixa dentro do espírito de adoração,
pois todo culto deve ser de adoração. Ou seja, o culto requer
corações devotos e gratos. O louvor, dentro desse contexto,
mostra-se elemento importante. No entanto, ele não se resume
a música. Pode expressar-se por testemunhos, dança, leituras, po­
esia, palavras de exortação, salmos, reflexão bíblica (mensagem) e
também música congregacional, coral, instrumental etc.
98 < LOUVOR, A D O R A ÇÃ O E LITURGIA

Modernamente, o louvor tem sido entendido como uma parte,


um segmento litúrgico do culto, e não como sinônimo de adora­
ção. Não é um clima de elogio ou glorificação a Deus, mas um
momento dedicado a isso. Nessa acepção, o culto de adoração
contém um período de louvor.
Essa distinção é tão importante quanto o conhecimento de
função sintática para a escrita. Ao estudar nossa língua, por exem­
plo, aprendemos que não se separa verbo de predicado por vírgu­
la. Assim, também, muitos erros sintáticos podem ser evitados ao
se “redigir” a liturgia, sabendo-se conjugar seus elementos consti­
tuintes. E todos ganham com isso em potencial de participação.
Todos se tornam mais co-celebrantes.
Trataremos desse assunto no último capítulo. Por ora, vale
lembrar que, se certos conteúdos já existem no culto, não preci­
sam se repetir no louvor. Já um louvor que não faz parte de um
culto pode ter partes deste, como o ensino, a exortação, a profe­
cia ou a admoestação. O bom senso deve predominar.

C e le b ra çã o e in te g rid a d e
A adoração como celebração, por assumir formas dramáticas,
tem sempre o inevitável caráter relacional. Adoração é uma for­
ma de relacionamento. Não somente entre os participantes, que
celebram conteúdos que “falam ” de com unhão, fam ília,
fraternidade e bem-querer, mas também com Deus, de quem nos
fazemos filhos e com quem, no culto e fora dele, desejamos nos
relacionar. De fato, a celebração cúltica sempre se manifesta como
alguma forma de diálogo com Deus. Há o momento de dizer e o
momento de ouvir. Portanto, reproduz em âmbito coletivo as
experiências do quarto.
Assim como a ordem de Moisés em Deuteronômio, repetida
por Jesus ao falar sobre o grande mandamento, acentua a
Lo u v o r n a ig r e j a > 99

integralidade, repetindo as palavras “todo”, “toda” (de todo o teu


coração, de toda a tua alma), o apóstolo Paulo, ao falar sobre o
culto, também tem em mente essa integralidade. No entanto, no
pensamento paulino ela assume a forma de integridade. A mu­
dança é pequena, pois integridade também propõe inteireza, ao
responder à graça de Deus. Reflitamos sobre sua admoestação em
Romanos 12.1,2, que diz:
Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que
apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a
Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com
este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente,
para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita von­
tade de Deus.

A recomendação de que apresentemos nossos corpos tem toda


a conotação de inteireza. Nos dias de hoje, ele diria: “toda a sua
consciência”, ou: “toda a sua identidade”, “tudo o que você é e
faz”. Apresente sua profissão, suas habilidades, seus dons, suas
aptidões, seus amigos, sua família, seu tempo de lazer, a forma
como você dirige no trânsito — apresente tudo isso a Deus como
sacrifício vivo. Não um sacrifício contrariado, custoso, de pena,
de tristeza, de sofrimento, de autoflagelação, mas vivo, para a
vida, com alegria; um incenso cheiroso, exclusivo e que agrade a
Deus. Isso será o seu culto inteligente, de quem sabe o que Deus
deseja e o oferece a ele.
É inevitável o pensamento que nos leva de volta ao quarto.
Não há como oferecer a Deus tais riquezas se não tivermos a
certeza do que ele as quer, e não há como fazer tais sacrifícios
com alegria (pois escolhas sempre envolvem renúncias) se não for
por amor. A nossa afeição por Deus, cultivada no quarto, nos fará
felizes em vê-lo feliz conosco, por meio de seu Filho. Então, com­
pleta-se, nessa compreensão de culto, todo o ciclo que nasce no
ío o < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

quarto e se derrama no santuário. Um culto racional, integral, de


corpo inteiro, sem retenção de nada, sem armários escuros, sem
coisas guardadas.
Vale um parêntesis para assinalar que estamos falando, de
passagem, do nascedouro da ética pessoal, que tem sido definida
como o caráter habitual de ser ou a forma de pensar de uma
pessoa. Assim, a ética poderia traduzir-se por modo ou forma
de vida, no sentido mais profundo da palavra, compreendendo
as disposições da pessoa na vida, seu caráter, suas atitudes, seus
costumes e sua moral.
O verdadeiro adorador procura conduzir-se diante de Deus e
de seus semelhantes da forma mais correta e graciosa possível,
pois esses dois eixos estão intimamente ligados em seu culto, na
simbologia da estaca (vertical) e da trave (horizontal) da cruz.
Integralidade é isso: produzir o máximo possível de ligações
entre a vida e o culto. Ora, o que aqui chamamos de vida envolve
os relacionamentos, os negócios, as decisões, a moralidade; as ati­
tudes e os comportamentos na vida em família, na comunidade,
no trabalho, no trânsito etc. E ética é a “arte de bem-viver” em
todos esses cenários, a partir de suas normas e costumes. Como o
adorador busca a sabedoria do Senhor em seus momentos de de­
voção pessoal, há de se portar eticamente, com toda a espontanei­
dade, por razões íntimas, e não por medo de rejeição, crítica,
castigo ou qualquer outro tipo de punição.
Ele é ético porque, voluntariamente, escolhe os melhores ca­
minhos do ponto de vista do convívio. E para isso, muitas vezes,
se obriga a renúncias dolorosas, que oferece7 ao Senhor como in­
censo suave. Seus únicos atritos sociais estarão naquelas áreas em
que lhe são exigidos, pelo grupo, comportamentos e atitudes que
contrariem sua consciência cristã. Quanto a esse aspecto, haverá
de lembrar-se que “o servo não é maior do que seu senhor” .
LOUVOR NA IGREJA > 101

Ao chegarmos para o culto público, trazemos nossas vidas;


trazemos a vida toda. Essa é a idéia de Paulo e de Jesus. Fica
mais claro, nas palavras de Jesus, a integralidade do coração; e
nas de Paulo, a integridade do coração. Falemos um pouco
sobre isso.
Imagine um cordão que una cada dia, cada gesto, cada ação,
cada decisão no trabalho, no trânsito, na conversa do cafezinho,
ou seja, cada minuto de sua vida ao culto do domingo. Você teria
como imagem um leque de cordões, em que milhares de pontas
separadas convergem para um só ponto: o culto. Como numa
grande teia de aranha, todas as linhas longitudinais convergem
para um centro. E assim que imagino a expressão “apresenteis os
vossos corpos”. O que trago ao culto é a minha vida, no sentido
de ser a vida por mim vivida.
Agora, imagine que um fio desses esteja partido, em algum
lugar, entre a semana e o domingo, por exemplo. Ao mexer na
ponta do domingo, nada se mexe no outro extremo da semana.
Essa linha perdeu sua integridade. Está partida. A conexão entre
o fato da semana e o culto do domingo (ou do quarto, no secreto)
se perdeu.
Essa perda de integridade não é incomum. Diríamos, até mes­
mo, que é humana. Não somos computadores para tanta rigidez.
No entanto, quando muitas linhas começam a se partir, podemos
dizer que há perda de integridade em nossa vida. Revela-se uma
tendência de descaso, de desleixo com essa inteireza das linhas, de
modo que, no momento do nosso culto, já não fazemos a ligação
entre a adoração ao Senhor e a vida que levamos. Portanto, deixa­
mos de trazer aqueles fatos, feitos, omissões, pecados, conflitos e
fraquezas. A tendência é que o nosso culto se torne menos dra­
mático, menos intenso, menos necessitado, menos ávido de Deus,
porque já não sentimos precisar tanto dele. Já não imploramos
perdão, força, ajuda, misericórdia. Já não agradecemos tanto, pois
102 < LOUVOR, A D O R A ÇÃ O E LITURGIA

já não nos lembramos de livramentos, de sua ação nas pequenas


coisas.
Nossos propósitos se tornam irrelevantes. Não temos tanto a
melhorar, a buscar, a vencer. Precisamos de pouca transformação,
talvez uma melhoria aqui, outra ali, e estaremos bem.
Apresentar os nossos corpos, a nossa vida toda e toda a nossa
vida, no ato da adoração é essencial para um relacionamento pro­
fundo e significativo com Deus. A adoração íntegra é uma expe­
riência a ser cultivada, sob pena de nos apresentarmos diante do
Senhor com mãos sujas, como nos exorta Isaías,8 ou magoados
com nosso irmão, como nos sugere Jesus.9 Marcas de cisão, de
ruptura, de falta de integridade do nosso louvor.

E x p re ssã o , o fe rta e tra n sfo rm a ç ã o


A adoração íntegra e integral, seja na dimensão singela e restri­
ta do quarto, seja na complexa formalidade do culto, se este for
genuíno, há de repercutir em nosso coração na forma de três expe­
riências básicas: a expressão, a oferta e a transformação.10 Nesse sen­
tido, pode-se dizer que não há possibilidade de alguém sair de
um momento de culto incólume, não atingido, não modificado
em alguma coisa. Não é comum. Pode acontecer ao adorador
distraído, seja por problemas, seja pela falta deles; ao adorador
que não adora, aquele de quem Jesus dizia: “Este povo honra-me
com os lábios, mas o seu coração está longe de mim”.
Já refletimos sobre esse caminho entre o coração e a boca,
quando falamos sobre as razões do coração. Talvez nem devamos
chamar esses momentos de adoração, pois a verdadeira adoração
é uma experiência tão marcante que, mesmo em meio a muita
serenidade e paz, as três experiências estão presentes, atingindo,
modelando nosso coração. Na verdade, elas constituem, elas são
ingredientes do culto genuíno.
LOUVOR NA IGREJA > 103

Expressão
A primeira dessas experiências, a expressão, é componente
básico do drama envolvido na celebração. Gestos, ritos e rituais
são níveis de complexidade dessas expressões humanas. Mesmo
que não notemos, eles “dizem” alguma coisa a Deus, aos demais e
a nós mesmos. São formas de expressão cultural, pelas quais
celebramos conteúdos de fé.
O gesto pode ser entendido como uma interjeição da alma.
Simples como um levantar-se para cantar, fechar os olhos para
orar ou levantar as mãos durante um cântico. Um conjunto de
gestos, organizados em torno de um significado, pode ser chama­
do de rito. Form a de expressão mais complexa, como um
processional ou uma imersão nas águas. A forma mais complexa é
o ritual, que se vale de ritos para “redigir uma carta complexa”, a
exemplo de um casamento ou de um culto.
A expressão envolve falas, dizeres, afirmações de fé e de
propósitos, louvores, arte, em que nossa vida, nossos problemas,
nosso pecado ou nossa gratidão são apresentados a Deus, na
perspectiva de seu favor. Expressar é fundamental ao culto. E
o momento em que muitos sentimentos e situações se tornam
claros a nós mesmos, pelo simples fato de estarmos formulando,
em pensamento ou em palavras, nossa dor, alegria, súplica ou
intercessão. Seja no íntimo diálogo a três, seja no âmbito do
culto público e solene, não é possível, nem salutar, deixar de
expressar.
Pode, sim, acontecer a quem deixa de vigiar que as formas de
expressão se enrijeçam e percam seu sentido para os participan­
tes. Nesse caso, acontece que, ao cantar, já não louvam; ao orar, já
não se dirigem a Deus; ao chorar, é apenas por terem sido tocados
pela música.
Também aqui cabe o alerta sobre a integridade. Pode acon­
tecer que cheguemos à presença do Senhor sem nossa vida,
104 < l o u v o r , a d o r a ç à o e litu rgia

sem nossas lutas, vitórias e derrotas. Assim, nossa expressão,


para podermos prosseguir, se torna oca e vazia. Apenas formas
decoradas, sem alegria, sem vida.
É o momento em que a mágica encontra espaço em nosso
culto. Falo disso no Celebração do Evangelho. Pelo fato de termos
deixado de lado os conteúdos da nossa expressão, ficamos só com
as formas vazias. E podemos imaginar, por falta de entendimen­
to, por já não estarmos apresentando a Deus um culto racional,
que essas formas nos trarão algum tipo de benefício, de bênção. É
triste quando, na seqüência desse esvaziamento, às vezes por gera­
ções, pessoas imaginam que, quanto mais sofrido e aborrecido
for o culto, maior será a nossa recompensa; quanto maior for a
nossa oferta, maior a gratidão de Deus; quanto mais alto cantar­
mos, melhor Deus nos ouvirá; quanto mais emocionados ficar­
mos, maiores as transformações. Grande engano. Trata-se de uma
perspectiva mágica do culto. Há pouco de Deus nisso. Sem inte­
gridade, sem trazermos nossa vida para ser aberta e repensada na
presença de Deus; sem os conteúdos que as formas sugerem, aca­
bamos com ritos vazios e sem significado racional. É hora de ou­
virmos a palavra de Deus em Isaías: “Vinde, pois, e arrazoemos”.11
Tradução: “Fala sério!”

Oferta
A segunda experiência básica da adoração genuína é a oferta.
Trata-se de uma forma de expressão, mas com características pe­
culiares. A oferta envolve um estado especial do coração, ao qual
somente o Espírito de Deus pode nos conduzir, chamado de de­
voção. O coração devoto é aquele que oferece. Mais que isso, ele
oferece sacrifício.
Contra as autoflagelações inúteis12 e os holocaustos,13 o após­
tolo Paulo nos recomenda que apresentemos a Deus ofertas
LOUVOR NA IGREJA > 105

pacíficas; em suas palavras, um “sacrifício vivo, santo e agradável a


Deus”.14 Em lugar de tentar comprar a Deus com barganhas, do
tipo: “se 0 Senhor me der essa graça, subirei as escadarias da
Penha de joelhos”, é o momento de bons propósitos, generosos e
gratos, baseados no entendimento; é o momento das conversões,
dos votos consoantes com sua vontade; é o momento das decisões
de mudar, de ajustar-se, de consagrar-se, de renunciar, de tomar a
cruz. Esse é o culto racional a que Paulo se refere. Tempo de adora­
ção é tempo de oferta.
É temerário julgar conservos, mas certos servos já não escon­
dem sua falta de compreensão dessas coisas, tendo atraído para si
mesmos as ofertas. Já não as oferecem; recebem-nas na forma de
elogios e louvores. Já não rejeitam o idolatramento de suaspersonas;
aceitam a imagem de “grandes servos de Deus”. Muitos, sem que­
rer, tornam-se vítimas da sedução da mídia, da exposição a gran­
des públicos. Ao se tornarem populares, astros, deixam-se louvar.
Alguns chegam a pensar que são ou têm algo do que lhes dizem
os fãs. E a armadilha se fecha: recebem, ao invés de ofertar.
Tragédia ministerial, na certa.

Transformação
A terceira experiência que a adoração (ou culto) verdadeira pro­
duz é milagrosa. Somos, de alguma forma, transformados. Já não
somos os mesmos. Agora parecemo-nos mais um pouco com Je­
sus, na semelhança de sua obediência. Agora temos uma paz que
guarda nosso coração e nossa mente; agora temos mais sabedoria
para o trato com as coisas que estão na “outra ponta do cordão”, lá
na semana; agora temos mais esperança e alegria. Agora somos ca­
pazes até mesmo de nos gloriar nas tribulações e dizer a Deus: “Nada
mudou entre nós”. A adoração genuína produz transformação,
“metamorfoo”.
106 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

O belo instrumental
Essas três experiências devem ser conhecidas e reconhecidas
por adoradores dirigidos e por adoradores-ministros. Em especial
aos ministros de louvor, acresce a necessidade de propiciar à con­
gregação tais experiências. É quando entra a arte, como expressão
emocional do belo. E por meio do belo que o sublime se manifes­
ta e expressa. Deus é belo, sua santidade é bela, e tudo o que dele
vem deve ser reconhecido assim. Ao perceber sua beleza, tende­
mos a expressá-la, imitativamente, em adoração. É quando acon­
tece o encontro entre o racional e o emocional. Nesse espaço de
culto, o profeta-poeta favorece o momento do belo, de forma que
o povo tenha canais seguros de expressão afetiva.
Nesse momento, é importante saber que a arte não deve ser
concebida como pura, descomprometida, entendida como “arte
pela arte”. A arte no culto é serva da liturgia. Ela serve a propósi­
tos definidos. Daí entender-se a arte litúrgica como arte instru­
mental. Ela envolve grande dose de prazer, pois o belo produz
prazer. Mas não deve se esgotar nele, pois deve expressar, tam­
bém, o dever. Ela não é material de consumo próprio, pois reme­
te de volta para o Criador do belo, de onde ela provém.
Como serva, a arte se torna (como foi na sua primeira mani­
festação sobre a terra e como deveria continuar a ser) elemento
integrante do louvor, contribuindo com a dimensão emocional,
característica da adoração. A consciência desse fato levará o ministro
a organizar racionalmente a liturgia e a exortar seus irmãos, com
palavras de sabedoria, de modo a evitar que a arte, como ferra­
menta de louvor, se perca e se esgote no consumo do belo.
Talvez seja o caso de explicar melhor. Ao cantarmos, por exem­
plo: “Quão formoso és, Rei do universo; tua glória enche a terra
e enche os céus...”,15 é natural que nos entreguemos à beleza da
melodia, da harmonia e das palavras. E assim que a arte funciona
em nossas almas. Estamos expressando o belo, em adoração.
LOUVOR NA IGREJA > 107

No entanto, a beleza do cântico pode nos preparar uma cilada.


Corremos o risco de sentirmos a “formosura da música” e não do
“Rei do universo” . De fato, a relação que estabelecemos com a
música é imediata e irracional (quando ela toca as cordas do nos­
so coração), pois o clima é, corretamente, emocional — estamos
cantando congregacionalmente, acompanhados de instrumentos
que criam todo um clima propício à expressão da alma. O risco,
entretanto, é que percamos a dimensão funcional de oferta. Se
isso acontece em nosso coração, trocamos a graça da transforma­
ção por um momento de emoção. Se apenas consumimos a bele­
za da música, ainda que com lágrimas nos olhos, ficamos com a
forma, mas perdemos o poder transformador do conteúdo.
No entanto, se a beleza do cântico nos conduz, com a ajuda do
ministro, ao gozo e fruição da beleza da santidade de Deus, então
nosso culto racional terá fechado seu ciclo, e a arte, instrumental
que é, cumprido sua função. Harmonizados em seus papéis,
corações e mentes gozam a beleza de Deus, com linguagem
apropriada — a linguagem da alma.

A expressão de Jonas
Com efeito, o cristão consciente chega ao culto de adoração
disposto a responder afirmativamente à antiga ordem de Moisés,
repetida por Cristo: “Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o
teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de
toda a tua força.16
Jesus cita o início do shema (em hebraico, “ouve!”) de
Deuteronômio 6. O shema era citado toda manhã e tarde, em
todos os lares do povo de Deus, para lembrar uma adoração inte­
gral, que envolve a consciência da iniciativa de amor de Deus que
se materializou em uma aliança, selada com sangue. Repete o
“todo”, designando totalidade do ser e indicando, também, que
podemos ter prazer nele.
io 8 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

Portanto, o adorador deve prestar toda a atenção ao acréscimo de


Jesus: “com todo o entendimento”. É esse elemento adicional à
experiência afetiva da adoração (em especial na hora da arte) que
integra a emoção à função, ao aspecto do serviço e do propósito de
adorar.
Não é qualquer derramar que interessa a Deus, mas o derra­
mar do serviço, daquele que quer saber sua vontade, que quer
conformar-se a ela, na experiência tríplice da expressão, da oferta e
da transformação, que é o culto racional de Romanos 12.
Entende-se por sentimentalismo o fenômeno em que o choro,
a emoção ou a paixão não são acompanhados da oferta, do servi­
ço, por não terem apoio racional; são, portanto, inconseqüentes,
infrutíferos, estéreis; não geram transformação. Na verdade, exa­
minados de perto, não são ofertas, mas um bem disfarçado (tal­
vez mentira sincera) culto de si mesmo, importando somente que
“o que eu estou sentindo é lindo”. Esse tipo de êxtase é chamado,
no Antigo Testamento, de graça barata, pois não se sustenta por
mais que alguns instantes e logo cai no esquecimento, não dei­
xando vestígios.
É possível estar na presença de Deus, num culto só com
expressão, sem oferta ou transformação? A resposta é sim.
Revisitemos o livro de Jonas, agora para estudar a expressão que
resulta de seus sentimentos, do coração ressentido, conforme
anteriormente constatado. Leia Jonas 4.1-5:
Com isso, desgostou-se Jonas extremamente e ficou irado. E
orou ao Senhor e disse: Ah! Senhor! Não foi isso o que eu disse,
estando ainda na minha terra? Por isso, me adiantei, fugindo
paraTársis, pois sabia que és Deus clemente, e misericordioso, e
tardio em irar-se, e grande em benignidade, e que te arrependes
do mal. Peço-te, pois, ó Senhor, tira-me a vida, porque melhor
me é morrer do que viver. E disse o Senhor: É razoável essa
tua ira? Então, Jonas saiu da cidade, e assentou-se ao oriente
LOUVOR NA IGREJA > 109

da mesma, e ali fez uma enramada, e repousou debaixo dela,


à sombra, até ver o que aconteceria à cidade.

O trágico “louvor” de um crente sincero. E razoável esse teu


ressentimento, que traz à tua boca palavras corretas e justas a
meu respeito, mas com o “sinal trocado”?
A expressão que aqui presenciamos está racionalmente correta.
Diz o que é verdadeiro de Deus — misericordioso, tardio em
irar-se, grande em benignidade e que se arrepende do mal — ,
mas vem de um coração que deseja a morte. Esquecido dos votos
feitos no ventre do grande peixe. Tão ressentido que não respon­
de à exortação de Deus. Essa exortação é o ensejo da oferta, que
infelizmente não acontece.
Inspirado ao arrependimento pelo próprio Deus, que lhe dá
atenção especial, o profeta pode muito bem trazer para o “quar­
to” daquela enramada suas recentes experiências marítimas, acom­
panhadas das correspondentes lições, dos votos feitos, dos propó­
sitos renovados, que lhe abriram renovadas oportunidades. Mas
nada disso acontece, porque seu coração está amargurado, e dele
a expressão não contém oferta nem sinal de transformação.
Fica à espreita, aguardando os efeitos de suas chantagens. Profeta
mimado?
Entretanto, a conversa sobre o profeta nos aponta um outro
lado do triste quadro. Talvez seja possível um olhar misericordio­
so sobre o confuso e humano coração de Jonas. Um coração que
luta consigo mesmo, que luta desesperadamente contra suas
ambigüidades.
Olho para Jonas e percebo, pela redação que ele dá à sua quei­
xa, pelas palavras com as quais extravasa seu coração, que ele
conhece o Senhor. Pudera! Tem experiências próprias com sua
misericórdia. Assim, ao se derramar em lamúrias, acaba revelan­
do esse conhecimento. Com o coração triste, diz lindas coisas
iio < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

sobre o Senhor, ao próprio Senhor. E isso é louvor, de acordo com


nossas definições. Um louvor torto, comprometido, chorado,
magoado. Imagino até o tom da voz; um timbre mais alto que o
normal, a veia saltada na testa. Mas é louvor. Pobre Jonas! O regis­
tro ficou para nos ensinar.
Embora o louvor tenha existido, seu objetivo primário no pro­
pósito divino (nos transformar) não foi cumprido. Talvez seja o
caso de dizer que é melhor do que nada — não sei — porque,
enquanto o profeta estiver celebrando, “se dizendo” esses conteú­
dos, ainda que com tristeza, há esperança para ele. Mas no mo­
mento, não tendo havido oferta, comprometem-se as transforma­
ções. Deus sabe.

Ministros e sacerdotes
Uma palavra final, unindo na pessoa do ministro de louvor e
adoração nossas reflexões sobre instrumentalidade e integridade
sacerdotal.
Temos dito que a arte no culto é instrumental. Também o é o
ministro de louvor. Ambos servem ao propósito da adoração, que
se manifesta em louvor; ambos são vasos, utensílios apropriados a
esse objetivo. Ao ministro, vaso racional, exorta-se que use com
“todo o seu entendimento” o elemento não-cognitivo, a arte, na
condução do culto, momento expressivo, devocional (de oferta)
e transformador.
Esta meditação não seria completa se não fizéssemos rápida
passagem de Jonas ao sumo sacerdote Josué;17 da dimensão pura­
mente humana para um vislumbre do cenário espiritual em que a
adoração e o louvor acontecem. Essa percepção, ainda que na
forma de um rápido olhar, pode ajudar os sacerdotes de hoje a
discernirem a natureza e as implicações de suas lutas ministeriais.
Sim, lutas ministeriais. A ministração do louvor, a liderança
do povo na adoração a Deus é uma luta. E o campo de batalha,
LOUVOR NA IGREJA > íll

muitas vezes, é a vida do ministro, porque ele se transformou em


alvo preferencial. Explico.
Quando falamos sobre os tesouros do quarto, eu disse que
vejo ministros sem experiência de quarto como soldados rasos do
reino, prontos para levar o primeiro tiro. Dissemos então que,
quando a esses soldados da adoração falta tempo de quarto, eles
tornam-se vulneráveis a diversos tipos de ataque. O pior deles
talvez seja o da acusação — acusação de falta de integridade.
Quando examinamos a cena de Zacarias 3, vemos que o sumo
sacerdote Josué é apresentado diante do anjo do Senhor, sob forte
acusação de Satanás. Certamente, entre outras coisas, o acusador
está dizendo: “Se puxarmos as ‘pontas dos cordões’ da vida deste
ministro, veremos que muitos deles estão partidos; não movi­
mentarão a outra ponta, lá no seu cotidiano. Há pecados não
confessados, encobertos. Há desobediência sustentada. H á má­
goas não resolvidas, melindres, insubmissão a autoridades, res­
sentimentos contra irmãos ou mesmo contra Deus. Como pode,
Altíssimo, alguém ministrar louvor, nesse estado? Falta-lhe, por­
tanto, autoridade; ele não reúne as credenciais mínimas para exer­
cer essa função; está aqui indevidamente. Entrega-me este minis­
tro para que eu o peneire como o trigo, e verás que ele é dos
meus . 18

Mas a cena se desenrola, e a defesa vem, com segurança. O


anjo do Senhor, aqui chamado de Senhor, talvez em alusão ao
próprio Cristo, repreende Satanás e o faz calar. Segue-se a defesa
do sacerdote.
Primeiro, o anjo fala de eleição e graça, dizendo que ali está o
mesmo Senhor que escolheu Jerusalém, uma cidade que nada
tinha de si mesma para agradar ao Senhor, mas que por ele foi
amada graciosamente. O amor do Senhor por ele nada tem a ver
com seus pecados ou com sua santidade; ele foi amado antes
de qualquer consciência de redenção. Isso se chama graça. Urna
112 < LOUVOR, A D O R A ÇÃ O E LITURGIA

graça dispendiosa, sacrificial, que se propõe a morrer por um


rebelde, para resgatá-lo de sua rebeldia e seu pecado.
Em seguida, faz calar Satanás, porque o “tição foi tirado do
fogo”, como que a dizer que aquele coração que queimava na
Babilônia da vida, no exílio do pecado, foi resgatado, e as vestes
sujas da iniqüidade agora, por sua graça, são trocadas. E o sacer­
dote é vestido de finos trajes, como que a indicar a restauração da
dignidade dos servos remidos do Senhor. Provável alusão às vesti­
duras brancas, com as quais os remidos serão vestidos, vestes la­
vadas no sangue do Cordeiro.
O próximo passo é purificar a consciência desse combalido
sacerdote, por meio do símbolo de um turbante novo e limpo.
Por um lado, sua mente já não busca as coisas impuras, mas aque­
las lá do alto. Já não deseja levantar mãos sujas para o santuário,
mas mãos santas. Por outro lado, já não há lugar para se intimidar
com as acusações. Em especial porque agora, mesmo sabendo
que de si mesmo nada poderá fazer, tem o coração que o Senhor
busca em seus servos: curva-se diante do anjo um coração contrito
e arrependido.
Apresentada a defesa, o anjo se dirige ao sacerdote. Nesse
momento, convém nos colocarmos na pele de Josué, de modo a
nos apropriar dessa tremenda visão; seja da defesa que o anjo faz
do nosso ministério, seja da palavra que nos dirige, palavra de
solene admoestação, seguida de promessa. E a palavra do anjo é a
seguinte: “Se andares nos meus caminhos e observares os meus
preceitos, também tu julgarás a minha casa e guardarás os meus
átrios, e te darei livre acesso entre estes que aqui se encontram”.19
Trata-se de uma admoestação responsabilizadora, pois se
apresenta com condicionais. “Se” . Uma palavra de Deus, na
cerimônia de promoção do soldado raso a oficial. Agora formado
na escola superior de guerra espiritual, aprendeu, por meio de
LOUVOR NA IGREJA >113

sofrimentos, sobre serviço anônimo (oferecido no quarto e não


no santuário), sobre integralidade (de todo o coração), sobre
integridade (apresentando sua vida toda, por sacrifício vivo,
santo e agradável a Deus), sobre a força na fraqueza, sobre
exultação nas tribulações.
Sim, a esse ministro-sacerdote, a quem terá sido dito na véspe­
ra da provação: “tu, pois, quando te recuperares, fortalece os teus
irmãos”,20 a ele o anjo do Senhor promete o discernimento neces­
sário para julgar 0 seu povo, a autoridade de guardião do santuá­
rio, e 0 livre acesso às regiões celestiais.21
Dissemos que a ministração de louvor envolve muitas lutas.
Que 0 jovem não se engane sobre isso; muito além da honra do
cargo, há uma cruz pesada a carregar. E 0 soldado, simples
adorador, agora acumulando a função de ministro, se transforma
em alvo preferencial. Satanás bem sabe que atingindo os cabeças
desarticulará todo o batalhão. Atingido o pastor, suas ovelhas se
dispersam . N ão fosse o anjo do Senhor, os danos seriam
irreparáveis.
Não será por isso que Paulo termina sua carta eclesiológica,
aos Efésios, recomendando-nos tomar toda a armadura de Deus
para podermos resistir às ciladas, às armadilhas do diabo, para
podermos enfrentar o dia mau? E onde consigo essa armadura?
No vestiário atrás do púlpito? Sim, certamente, se ele for trans­
formado em quarto, em Getsêmani. As grandes batalhas da cruz
se vencem na véspera, no Getsêmani. E são batalhas do coração e
da alma, pois as escaramuças se dão em torno de integridade de
vida. Santidade é a palavra-desafio.

A INTEGRIDADE POSSÍVEL

Para terminar nossa transição do quarto para o santuário,


ocorre-me uma imagem de tudo o que temos falado, em especial
114 < l o u v o r , a d o r a ç ã o e litu rgia

das imensas dificuldades apontadas, quando pensamos em uma


adoração íntegra e integral. Trata-se de uma metáfora, que nos
ajuda a perceber como Deus nos vê: com verdade e amor.22 Pelo
lado da verdade, Deus não vê aparências; por isso não há como
enganá-lo, como iludi-lo com nosso culto superficial e apressado,
com nosso desleixo, com falta de ensaio, de preparo. Por outro
lado, ele nos ama e quer nos ajudar, para que cresçamos em tudo
isso, porque deseja nosso bem.
Imaginemos uma audição de fim de ano dos alunos de uma
escola secundária. Para comemorar o encerramento do ano leti­
vo, os pais são convidados para assistir à apresentação do coral de
formandos, da banda de rock, do grupo teatral ou da orquestra da
escola. E um tempo de animação, nervosismo, pais, tios, avós,
gente arrumada, câmeras e flashes...
Sabemos como são essas apresentações. Lembramo-nos, de­
pois de muito tempo, do nervosismo de nossos filhos, sobrinhos
ou netos. Vale pela festa, pela celebração da vida, nessa idade.
Animamo-nos a participar de uma espécie de rito de passagem,
mesmo sabendo que a qualidade das apresentações não será pro­
fissional; nem pode ser. São meninos e meninas, que nem tive­
ram o tempo necessário para o aprimoramento, pois ensaiaram
em pleno período de provas finais.
Em alguns casos, passamos o semestre inteiro ouvindo aquela
clarineta praticando no quarto. Em outros, nem um sinal de que
há algo em andamento, a não ser pelos compromissos para os
quais temos de levá-los, fora do horário normal das aulas. Claro
que sabemos o que estão preparando, mas ainda assim é segredo.
O momento da apresentação é o fenômeno que nos interessa
observar. Aplicando a metáfora, é a hora do culto, e nós os pais
estamos, de alguma forma, na posição de Deus.
Sim, a primeira observação que se pode fazer é que existe
uma grande quantidade de públicos para aquela apresentação,
LOUVOR NA IGREJA > 115

mas o público preferencial são os pais, É para eles que se planejou


aquele momento. No entanto, percebe-se que na mente dos me­
ninos e meninas há outros destinatários, secundários, mas impor­
tantes. Um deles, é formado pelos próprios alunos. Muitas vezes
são um público crítico e exigente, em especial em relação à pró­
pria performance e à dos companheiros. Outro público é formado
pelos professores não envolvidos na festa; o professor de matemá­
tica, por exemplo, que quase os reprovou. Outro, ainda, com­
põe-se dos diretores da escola, cujo gabinete freqüentaram, espo­
radicamente. Parece que a alguns precisam provar alguma coisa.
A outros, querem agradar, ou deles se despedir. Mas a fonte mai­
or de todo o nervosismo está ali no escuro, ocupando as poltronas
centrais — os pais.
Pensando no culto, a relação me parece adequada e reveladora:
de filhos para pais. Pais amorosos e compreensivos, plenamente
dispostos a relevar as imperfeições da apresentação, entendendo-
a como uma homenagem (louvor) que seus filhos, de forma
amadora, lhes prestam. Não estão ali para exigir nada, criticar
nada; tiraram a noite para festejar, para se alegrar (e sofrer) com
tod a a fam ília, nesse m om ento im portan te da vida dos
circunspectos formandos.
No entanto, por conhecerem bem os seus filhos, os pais sabem
discernir as gafes da apresentação, aqueles imprevistos e falhas
comuns a todas elas. Muitas são perfeitamente previsíveis, consi­
derando tratar-se de crianças. Outras são resultado de falta de
preparo, falta de empenho, ou mesmo de desleixo de alguns. Os
pais que têm mais de um filho na apresentação são capazes de
distinguir que, enquanto alguns se esmeram, sem, contudo,
obter bom desempenho, outros, brilhantes e bem dotados,
brincam irresponsavelmente. Enquanto alguns oferecem o
melhor de si e até põem em risco a qualidade da apresentação,
de tão nervosos que ficam, outros parecem quase desejar que
n6 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

as coisas vão mal, eventualmente comprometendo todo o esforço


coletivo.
Sentados na poltrona, os pais se entreolham e dizem: “uma
hora, precisamos conversar sobre isso; precisamos ajudar nosso
filho a superar essa angústia, ou esse desmazelo”. Faz parte da
caminhada.
Não convém alongar esses pensamentos incômodos. As possi­
bilidades de análise que a metáfora nos abre são tantas quantos
são os corações que participam do evento. Dariam um livro. Mas
o leitor saberá prosseguir, com aplicações pertinentes ao seu caso
concreto.
De uma coisa já sabemos: nosso culto a Deus jamais será per­
feito. Trará, inevitavelmente, as marcas da nossa imperfeição de
amadores. M á notícia, nesse mister: nem os “profissionais” se
salvam, pois não existe profissional da adoração. Somos todos,
na melhor das hipóteses, meros amadores, pois o que conta é
o coração.
Como pai, Deus está disposto a nos ajudar em nossa “apresen­
tação”. Não por vaidade, mas, como já dissemos, por querer o
nosso bem. Se puder, se for aceito, nos ajudará no planejamento,
na inspiração do belo, na forma adequada ao que se deseja ex­
pressar, nas preparações, nos ensaios, no grande momento de cul­
to. Quem sabe o nervosismo desapareça se ele se sentar ao nosso
lado e tocar a clarineta conosco? Quando Deus sai do escuro, da
posição de platéia; quando se envolve com a nossa apresentação,
ao ponto de ensaiar e tocar conosco, rompe-se o espaço da forma­
lidade, o medo da crítica distante, e tudo se transforma em ínti­
ma celebração. Pai e filhos, juntos, expressando dramática e har­
moniosamente o amor que os une.
Essa deliciosa parceria também nos resgata de nossa equivoca­
da posição de público-alvo do culto. Já nem nos passará pela ca­
beça que essa apresentação devesse agradar a nós. No entanto,
LOUVOR NA IGREJA > 117

encerrado o culto, as avaliações têm seu lugar. É hora de revisar


tudo o que aconteceu, pensando nas falhas e nos bons momen­
tos, mas sempre tentando perceber as coisas da perspectiva do
pai-participante. D a próxima vez será melhor: instrumentos mais
afinados, participantes mais entrosados, técnica mais esmerada
e... corações mais devotos (veja a transformação em andamento).
E esse pensamento agradará a todos, em especial ao Pai.
capítulo 7

L it u r g ia

C A N TA N D O OS DIAS

Como a criança que canta


Uma canção de prazer,
A minh’alma vem bendizer
Tua graça santa.

A vida toda me encanta;


Lutas, trabalho ou lazer,
Mesmo a dor que ela irá trazer
Teu amor espanta.
120 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

Conto o dia que vai,


Presente do Pai
Na sua aliança;
Conto a noite também,
Descanso que vem;
Repouso e esperança.

Como a criança que conta


Coisas do dia aos seus pais,
Canto os dias que tu me dás,
Pois isso é o que conta.1

Todo ministro de louvor e adoração é um artista. Pelo menos,


deveria ser, pois o culto perde muito quando sobe ao púlpito um
burocrata. É que este não tem a sensibilidade necessária para fa­
zer um belo arranjo das flores que tem nas mãos. Claro, essas
flores são os elementos constituintes do culto a ser celebrado, e o
arranjo é o belo a ser ofertado.
Por que não? Não é somente colocar numa folha de papel uma
ou duas orações, três ou quatro cânticos, uma antífona ou leitura
responsiva da Bíblia e pronto? Qualquer um pode fazer isso. Bas­
ta subir lá e seguir o papel.
Essa observação simplista me lembra um comerciante que de­
cidiu construir seu próprio prédio em um bairro onde tinha seu
negócio. A quadra já estava bem urbanizada, e seu terreno desto­
ava, pois era o único espaço vazio no elegante conjunto de
edificações.
Ouvi-o dizer: “Vou economizar com engenheiros e arquite­
tos. Quem não é capaz de construir um pequeno prédio de lojas?
Basta cavar, fazer as fundações com ferro e concreto, subir as
vigas, contratar um ou dois daqueles imensos caminhões de con­
creto, formar os dois pisos de laje, fechar as paredes com tijolos e
LITURGIA > 121

está pronto. Aí, é só dar o acabamento: portas, janelas, pintura.


Preciso de engenheiro, de arquiteto para quê?”
Sabe que ele construiu o pequeno prédio? E o fez tão rápido
que nem teve sua obra embargada pela administração municipal.
Mas ficou horrorosa! Que pena! Uma espécie de caixote de alve­
naria, erguido no meio de prédios bonitos e funcionais. Na hora
do uso, ele percebeu que o seu barato saiu muito caro. Nem as
tomadas estavam no lugar certo. Sem falar em ventilação, luz,
encanamentos. Remenda daqui, remenda dali e, de horroroso, o
prédio foi ficando também perigoso.
Bem, o burocrata leva vantagem sobre esse dirigente-constru­
tor, pois pelo menos planeja. E o planejamento o ajuda a não
misturar os elementos sem um sentido, sem um propósito, como
parece fazer o nosso prático questionador.
Não é fácil ensinar arte. Impossível, para quem não a tem,
como é o nosso caso. Eis a razão por que este capítulo final se
contentará com alguns pensamentos que se esperam úteis a um
ministro-artista, na esperança de que ele saiba fazer bonitos bu­
quês de flores. Embora esteja fora do nosso alcance e propósito
ensinar sobre arranjos litúrgicos, por envolverem esse elemento
artístico, é possível fornecer ao artista as flores e as funções que
cumprirão, em cada momento. Com esses elementos, ele terá mais
facilidade de dar asas à sua criatividade.

FLORES E INCENSO

Arranjo de flores é uma boa imagem para um culto, ainda


mais se for perfumado. Normalmente, esse detalhe só é perceptí­
vel a quem por ele se interessa. Visualmente, já é atrativo. Mas
ainda pode guardar boas sensações para quem chega perto e sente
o seu aroma.
122 < LOUVOR, A D O R A ÇÃ O E LITURGIA

H á momentos em que a idéia do perfume de incenso se


associa, em minha mente, ao perfume de flores. Se pudesse
escolher entre velas aromáticas queimando sobre um altar e
um grande buquê de flores do campo, escolheria a segunda
alternativa, pois além de cheirosas, são cheias de vida. E o
incenso só oferece o prazer olfativo.
Esse pensamento nos permite uma comparação entre um
incenso que se queima e um buquê de flores que retrata a glória
da criação. Ambos produzem o prazer do belo. Um, pela beleza
associada ao odor que o incenso desprende ao ser queimado,
metáfora apropriada do sacrifício; outro, pela beleza visual,
muitas vezes sem cheiro algum, outras vezes exalando perfume
característico.
Flores e incenso são matérias-primas da adoração. E o minis­
tro encarregado deve saber conjugar, com sensibilidade, esses dois
estados de alma, sempre presentes no culto público. Diante do
altar, apresentam-se corações dispostos a ofertar o belo ao Se­
nhor. No entanto, muitos queimam como incenso, pois é o esta­
do de sua alma, é o que trazem das tribulações de seu cotidiano.
Outros trazem flores de gratidão e alegria. E se sentam lado a
lado, para cultuar ao mesmo Deus.
Como fazer isso? Como conjugar flores e incenso? Ou estamos
alegres ou estamos tristes! Se estamos alegres, cantamos louvores;
se estamos sofrendo, fazemos oração.2 Não pode ser diferente.
Parece que estamos ouvindo de novo o nosso comerciante-
construtor, com suas dificuldades emocionais. Ele pode desperdi­
çar mais um culto, por não ter capacidade de perceber e trabalhar
as razoes do coração de seus irmãos. O resumo do que ele diz e faz
é simples: se ele próprio está sofrendo, o culto é “incenso”; se ele
está alegre, o culto é “buquê de flores”. Isso, considerando que
está correto no propósito de cultuar, qualquer que seja seu
coração, pois ele pode alegar ao pastor que “hoje não está em
LITURGIA > 123

condições de adorar, muito menos de ministrar louvor”. Mas não,


ele segue em frente. Sobe ao altar para ministrar aos seus irmãos,
seja com flores, seja com incenso no coração. Infelizmente, não é
capaz de ir além de sua visão prática da vida. No entanto, graças
a Deus, por sua fidelidade. Muitas vezes, ministros-artistas não
são tão fiéis. Em geral, os artistas são, por sua índole, por sua
sensibilidade, mais instáveis e temperamentais.
Mas veja, leitor, que já não estamos falando da síndrome de
Jonas; ao contrário, estamos abordando o assunto da perspectiva
em que se diz a Deus, seja com alegria, seja com prantos: “nada mudou
entre nós”.
As variações possíveis de estado de espírito, entre as flores e o
incenso, são sutilezas importantes. Não há apenas preto ou bran­
co. Há uma graduação contínua, não discreta, entre um e outro,
passando por infinitos tons de cinza. No entanto, saber lidar com
essas informações — que podem chegar ao ministro na forma de
lágrimas na primeira fila, notícias de última hora, informações
no boletim, manifestações da congregação etc. — é uma arte e é
algo muito importante, além do necessário coração pastoral.
O que vale ressaltar aqui é que o dirigente-artista é tão
mais feliz em sua condução quanto conseguir “expressar” ,
liturgicamente, o que o povo traz naquele momento. Para isso,
pode precisar misturar, em sua oferta de cheiro suave, o incenso e
as flores. E possível? Sim, sem dúvida. Não há sutileza de alma
estranha ao Senhor; não há variação de ânimo inadequada ao
altar. Não há lágrima sincera ou riso incontido que não caibam
no culto a Deus. Não há por que se envergonhar de um ou de
outro. Nem há por que reprimir um em consideração ao outro.
Ambos louvam, com coração devoto. Ambos esperam a aceitação
do Pai. Ambos se achegam, na certeza de serem recebidos. Incen­
so e flores se aproximam, num mesmo culto, e adoram.
124 < l o u v o r , a d o r a ç ã o e litu rg ia

INTIMIDADE, INFORMALIDADE E ORDEM

O arranjo que se oferece ao Senhor é tão complexo quanto as


almas que se achegam ao altar. Está longe de se esgotar na dualidade
incenso/flores; sofrimento/alegria. Há outra dimensão importan­
te a ser conjugada pelo ministro-poeta — aquela estabelecida pelo
eixo entre o quarto e o santuário. No quarto, tudo é intimidade,
tudo é informalidade. Não há necessidade de uma ordem litúrgica,
pois estamos sozinhos com Deus. Já no culto público, a intimida­
de e a informalidade podem conspirar contra a ordem.
Há quem pense que o ensino bíblico que diz: “onde está o
Espírito do Senhor, aí há liberdade”,3 autoriza o cancelamento ou
a minimização da necessidade de ordem no culto. Nos cultos em
que esse pensamento predomina, cresce a informalidade e, não
poucas vezes, alarga-se o espaço da intimidade. Surge, então, um
dilema, nem sempre corretamente percebido, desafiando a capa­
cidade de discernimento do ministro — o aumento do espaço
destinado à manifestação de intimidade pessoal ou familiar, em
detrimento das necessidades coletivas, pode comprometer o clima
de reverência e, em situações extremas, atrapalhar o culto. O tema
já preocupava o apóstolo Paulo, quando as manifestações espontâ­
neas de línguas e profecia conturbavam o culto da igreja de Corinto.4
Por outro lado, é importante reconhecer que há intimidade le­
gítima e desejável, proveniente da experiência de quarto. Sem
alguma intimidade, o culto pode transformar-se em cerimônia
formal e sem alma. O cheiro suave, no caso, será apenas o da
mobília antiga. De fato, não se concebe estar na presença do Pai,
com quem temos cultivado momentos cálidos e afetivos, sem uma
dose de informalidade. E impossível tratá-lo, de uma hora para a
outra, com a pompa e distância com que nos apresentaríamos
diante do presidente da República. Deus é muito maior que
litu r g ia > 125

qualquer autoridade, mas há o detalhe de que prefere ser tratado


como pai.
Eis o dilema, que desafia nosso bom senso litúrgico. Seria o
caso de se padronizar um meio-termo? Nem tanto ao céu, nem
tanto à terra? Talvez essa solução simplificadora funcione em par­
te dos casos. No entanto, é importante ter em mente que a padro­
nização inibe a criatividade. Os formatos de culto copiados de
uma igreja para outra estão mais para moda do que para criação.
É claro que podemos aproveitar as experiências dos outros. Mas
não nos deixemos iludir: a moda-, como produto de consumo, se
parece com a arte, mas é impositora de rigidez e falta de sensibi­
lidade, ao contrário da arte, que traz e celebra a liberdade.
No caso litúrgico, a arte traz liberdade responsável e instru­
mental. Mesmo estando restrita aos propósitos a que serve, voa
livre, muito acima dos formulários e enlatados, porque sabe ex­
pressar, com a linguagem disponível (música, dança, coreografia,
gestos, ritos, multimídia etc.), o que o povo traz na alma.
A resposta adequada não existe pronta. Tem de ser obtida no
momento, a partir dos elementos que se apresentam. Daí a neces­
sidade de que o ministro de louvor seja mais que um burocrata
ou um animador. Deve ter alma de pastor (mesmo que leigo);
quem sabe um poeta-profeta; um servo com experiência de quar­
to e de santuário, capaz de transitar nesse eixo; uma alma sensível
e sensibilizadora; um sacerdote experiente (ou com coração apren­
diz). Talvez seja por isso que não se concebe — a não ser em
congressos e solenidades que reúnam muitas igrejas — um mi­
nistro de fora da comunidade. Não se importam ministros de
louvor e adoração com sucesso, porque, para que sua ministração
seja genuína e eficaz, ele precisa conhecer a alma do seu povo, o
ethos da comunidade, isto é, o seu jeito de ser, os seus valores, o
que ela considera importante e o que rejeita.
126 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

Seja no que se refere ao aspecto da oferta do belo, seja no que


toca aos elem entos de celebração (p ed agógicos, rituais,
transmissivos, catárticos, admoestativos, exortativos e proféticos),
arte e discernimento devem andar juntos. É verdade que as pa­
dronizações nos trazem segurança. E confortante poder prever e
planejar tudo o que vai acontecer num culto. Quanto mais for­
mal o pretendemos, menos medo temos dos imprevistos. No en­
tanto, mais distantes nos colocamos da liberdade, da intimidade e
das intervenções do próprio Deus. Quanto mais formal planeja­
mos a liturgia, menos diálogo permitimos, menos informalidade
é aceita e menos intimidade é exposta. Menos coração e menos
alma, provavelmente. É preciso conjugar, com sabedoria, esses
pesos e medidas tão subjetivos, de forma a obter o melhor arranjo
possível, considerando o gosto do Pai e as flores disponíveis na
comunidade a que servimos.
Teremos chegado à conclusão de que a reverência expulsa a
alma e o coração? Não penso assim. Penso que a sabedoria consis­
te em perceber e fazer arranjos com flores e incenso; com as opor­
tunidades, carências e exigências de cada momento. Para cada
propósito, há um adequado “arranjo” cúltico. Ou melhor, mui­
tos arranjos possíveis, limitados apenas pela capacidade criativa
do ministro-artista.
Um compartilhar de vida que aquece os corações em uma reu­
nião de jovens pode não ser adequado em uma cerimônia de ca­
samento, assim como pode não ser o melhor “arranjo” escalar o
organista para o culto da primavera, nos jardins externos da igre­
ja, obrigando todos a refrear a leveza de espírito inspirada pelas
flores, danças, flautas e tambores, para o “momento litúrgico”
(vejo que me tornei irônico).
Penso na necessidade do discernimento, que pode transfor­
mar liberdade em sabedoria. A diferença não é desprezível.
LITURGIA > 127

UM ENXERTO
Tendo trabalhado elementos mais subjetivos do culto, como a
imagem de corações que trazem flores, em natural tensão com
corações que queimam incenso, é hora de emergir para a prática,
a parte mais exterior da celebração, e pensar em elementos
programáticos disponíveis para a composição dos referidos arran­
jos litúrgicos.
Encerro esta parte enxertando neste tronco um breve texto já
publicado, na esperança de que ele cumpra o papel de síntese e
exortação. Foi escrito enquanto preparávamos este livro. Portan­
to, flui da mesma fonte. Mas se apresenta em formato compacto,
considerando o espaço e objetivo da publicação. Foi intitulado
Sacrifício Vivo, em alusão ao texto de Romanos.

Sacrifício Vivo
Os ministros de louvor e adoração são pessoas especiais. Muitos
deles não sabem disso e pagam alto preço. Temos visto a ascen­
são e queda de muitos. Em especial nestes últimos anos, marca­
dos pelos conjuntos musicais jovens e pela progressiva abertura
de espaço na liturgia das igrejas para o chamado “ministério de
louvor”. Quando caem, não perdem apenas seus postos minis­
teriais. Comprometem também família, igreja, irmãos, amigos.
E não são muitos os que conseguem restaurar seu sacerdócio.
Esse paradoxo começa a chamar a atenção. Parece um fenômeno
digno de estudo, pois a sensação que se tem, tanto no meio
evangélico, mais visível, quanto no católico carismático, é a de
que os casos se multiplicam. Ao mesmo tempo em que igrejas
chegam a se notabilizar por essa ênfase litúrgica, contando com
estrelas de fama internacional, graças àTV, à indústria fonográfica
e, agora, ao DVD, cresce a legião de “anjos caídos”.
Lembram um pouco a triste história de pastores famosos e “ele­
trônicos”. E talvez tenham em comum a excessiva exposição da
vida pessoal e familiar, e as armadilhas do carisma, da fama e do
poder.
i 38 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

momento da igreja ou sobre o tema do sermão, por exemplo),


seja porque não dá importância a esse tipo de análise, passam-lhe
transparentes tanto a tem ática quanto o coração d o povo.
Resta-lhe o meio-termo, automático e seguro, para não errar
— quando ele tem bom senso. Mas perde-se na força do que a
congregação poderia expressar a Deus.
Quanta coisa a pensar sobre tão pequeno elemento litúrgico!
Quanta realidade particular foi deixada de fora nessa limitada
abordagem! Que fique, esperamos, o essencial: os elementos
litúrgicos têm sua função “sintática” e “semântica” no contexto
do momento do grupo e no momento litúrgico. Seria tolice
tentar um tratado sobre o assunto. E preferível confiar na sensibi­
lidade, no discernimento e na diligência dos ministros.

In v o c a ç ã o
O elemento invocação tem outro sentido no eixo congre-
gação-Deus. Se no convite à adoração estamos convocando o
povo a dispor o coração a olhar para D eus, na invocação
estamos suplicando a Deus que olhe para nós. E importante,
pois, que já estejamos todos juntos nessa tarefa.
Alguma confusão se faz entre esse elemento e o do chamado
ao culto, talvez por serem peças iniciais e iniciantes. Por exemplo,
não é incomum se iniciar o culto com uma oração de invocação.
No caso, teremos pulado o convite ao culto e já iniciado com a
invocação. Não há mal nisso. Mas o caráter didático se compro­
mete um pouco se, nesse momento de invocação, entoa-se um
cântico do tipo “Vamos adorar a Deus/ Vamos invocar seu nome”.
Como a própria letra diz, o cântico melhor se ajusta ao convite ao
culto. Seria preferível algo como “Vem, Espírito de Deus,/ Vem
sobre nós”.
De fato, a confusão não é grave, mas a compreensão da sutil
diferença entre os dois momentos pode ser rica, em termos de seu
LITURGIA > 139

aproveitamento. E é tão simples quanto saber, num processo


comunicativo, responderás questões: “quem” diz “o quê”, “quan­
do”, “a quem” e “com que objetivo”.
A invocação pode ser feita por meio de um cântico? Sim,
desde que a letra seja apropriada a expressar 0 momento. Pode
ser feita por um prelúdio? É mais difícil imaginar esse arranjo,
uma vez que o solo instrumental soaria como um convite à
congregação, mas um prelúdio coral, com letra adequada, já
caberia.
A compreensão do momento também ajuda aos demais parti­
cipantes. Por exemplo, imaginemos que, após um cântico de con­
vite ao culto, o dirigente peça a um irmão que faça uma oração.
O ideal é que ele encomende o teor dessa oração. Mas, não o
fazendo, o participante poderá assumir que é o momento de
invocação, uma vez que não cabe orar à congregação. Nesse
sentido, sua sensibilidade deve conduzi-lo para que não inclua
em sua oração tudo o que lhe possa vir à mente. Ele imaginará
que haverá momento adequado para confissão, contrição, súplica
por problemas pessoais, familiares e do grupo, etc. Portanto, sua
oração deverá ser afinada ao máximo pelo momento do culto e,
eventualmente, pelo momento do grupo.
Um exemplo de falta de compreensão dessa lógica é o irmão,
pressionado por acontecimentos pessoais ou familiares, ajustar sua
oração a esses temas. O resultado é uma oração pessoal, muitas
vezes feita na primeira pessoa do singular, versando sobre proble­
mas pessoais ou familiares, dos quais a igreja toma conhecimento
naquela hora. Deus ouve essas orações? Claro que sim, mas não é
esse o melhor momento litúrgico.
A compreensão dessa lógica do encadeamento de temas, que
chamamos de “arranjo de flores” ou “arranjo litúrgico”, abençoa a
toda a igreja.
140 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

D o x o lo g ia
O vocábulo grego dóxa quer dizer crença. A doxologia é um
momento em que a igreja expressa sua “opinião” a respeito de
Deus. É momento de declarações de fé, de celebração de conteú­
dos seguros e imutáveis da nossa fé.
A tradição da igreja cristã tem associado esse momento à mú­
sica. Mas não é um tempo incompatível com uma antífona, com
uma leitura bíblica específica ou com a recitação de uma declara­
ção de fé ou parte do catecismo adotado pela igreja.
No exemplo da Igreja Metodista, a doxologia aparece como
uma declaração de fé inserida no elemento confissão, exercendo
o papel de afirmar ao crente que seu coração está seguro em Deus
e que sua oferta não será desprezada.
Esse elemento litúrgico pode ser inserido no período de cânticos
ou apresentar-se como um hino preparatório para outro momen­
to, como o da edificação. O fato é que a doxologia pode ser arran­
jada tanto como um momento separado e razoavelmente extenso
da liturgia quanto como parte de outro elemento. No entanto,
não se deve esquecer seu conteúdo e caráter: afirmar e confirmar
crenças e conteúdos doutrinários. Diferentemente de momentos
de súplica, confissão, intercessão e mesmo ensino, o momento da
doxologia é essencialmente afirmativo, declarativo.
H á momentos especiais na vida da igreja em que nos lembra­
mos da doxologia, com seu papel afirmativo e confirmador. São
momentos de luta, de cisão, de confusão doutrinária, de grande
esforço evangelístico ou de sofrimento coletivo. Em tempos as­
sim, em que ficamos todos aturdidos e desorientados, a inserção
de um elemento doxológico, com destaque no culto, pode produ­
zir grande ânimo nos corações abatidos. Ele tem a propriedade de
restabelecer o norte, de trazer à lembrança aspectos básicos da fé,
que não mudam com nossas dificuldades. Há grande conforto em
ter a doxologia como instrumento para o culto e para os corações.
LITURGIA > 141

Le itu ra re sp o n siv a o u a n tifo n a l


A leitura bíblica cabe em diversos momentos do culto. Tem seu
papel instrutivo e confirmador das crenças. Mas pode também ser
meio de voz. O texto adequado pode dizer 0 que o povo diria
naquele momento, seja uma súplica, seja uma afirmação doxológica,
seja uma palavra de contrição, seja um cântico.
A forma responsiva ou antifonal é uma alternativa interessan­
te para dramatizar a idéia de que 0 povo se une em uma declara­
ção, um pedido ou mesmo um lamento. Tem o significado subje­
tivo de unanimidade. Para reforçar esse significado, usa-se a lei­
tura em uníssono, quando todos lêem o mesmo texto, sem
alternações.
É um forte instrumento emocional, capaz de unir, reunir, agre­
gar, uniformizar os corações, e produzir um confortante senti­
mento de pertencimento. O fenômeno da inclusão psicológica se
dá pela adesão ao conteúdo afirmado.
Algumas combinações são possíveis: a leitura pode ocorrer
juntamente com o ofertório, com momentos silenciosos em
casamentos, batismos, consagrações etc. Pode haver música
instrumental de fundo, a critério do oficiante — a sensibilidade
artística deve evitar a competição sonora entre a música e a leitura.

A ç ã o d e g ra ç a s
O m om ento de ação de graças tem com o referência o
reconhecimento do que Deus fez, faz e fará. É uma forma de lou­
vor. No entanto, a rigor, semanticamente, distingue-se deste por
uma sutileza. A ação de graças refere-se aos feitos de Deus: gratidão
pela graça; o louvor, por sua vez, liga-se mais ao que ele é: seus
atributos, sua grandeza e majestade. É muito comum tomar-se
um pelo outro, dando-se graças por sua justiça ou misericórdia,
por exemplo. Não há grandes prejuízos.
142 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

Esse elemento tem a propriedade de ensejar uma espécie de


afinação emocional do cultuante. Trata diretamente do ponto
central da adoração, quando toca no que divide a humanidade
em duas partes, segundo o entendimento do apóstolo Paulo: “Não
o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças” .7
Se tomarmos o verbo glorificar, usado por Paulo, por “louvar”,
teremos a dupla louvor e ação de graças juntos, na mesma frase,
predispondo o crente a vencer a “síndrome de Jonas” e mergulhar
na predisposição de Jó. Portanto, vemos a importância desse ele­
mento litúrgico, indispensável em qualquer arranjo.
Duas razões do coração podem conspirar contra esse processo
de afinação emocional. A primeira advém da síndrome do consu­
midor. O homem moderno está se acostumando a exigir, a consu­
mir, a pagar por serviços. Se leva esse coração para a adoração,
corre o risco de achar que é consumidor dos serviços de Deus
e de seus representantes. Seu pastor se transform a, quase
imperceptivelmente, aos seus olhos, num prestador de serviços
espirituais, pelos quais ele paga com suas ofertas. E exige
qualidade.
A segunda conspiração advém das razoes de um coração in­
grato. Ingratidão é uma praga, um pecado tão comum quanto
insidioso. Descrevo-o como uma miopia da alma, um compro­
metimento de suas percepções em relação ao que recebe. Ela só é
capaz de olhar para si mesma. É soberba, insubmissa, rebelde e
idólatra. Acometido desse mal, o coração torna-se, progressiva­
mente, incapacitado para a verdadeira adoração, pois é tomado
de imensa estupidez, ao ponto de tirar os olhos do Criador e se
curvar diante da criatura.8 Prefere atribuir os movimentos miste­
riosos de sua vida a entidades impessoais, como o destino ou os
astros — talvez porque essas entidades não sejam tão exigentes de
reciprocidade como o Senhor, não “peguem no nosso pé”.
LITURGIA > 143

A ação de graças pode se repetir ao longo do culto. Pode ter


seu momento solene e também estar presente em outros elemen­
tos, seja como tema, seja explicitamente. Até mesmo em momen­
tos de contrição, confissão e súplicas ela cabe, porque o reconhe­
cimento dos feitos de Deus no passado nos infunde esperança, fé
e portanto, força para esperar no Senhor.
Esse elemento litúrgico se expressa de múltiplas formas. Ca­
bem cânticos, testemunhos, participações vocais (com letra), lei­
turas, salmos, poesias etc. Talvez não caibam elementos não-
cognitivos isolados, como o solo instrumental e a coreografia. No
entanto, estes podem compor combinações. Por exemplo, podem
estar presentes na oração silenciosa, eventualmente dedicada à
ação de graças individual.

INGRATIDÃO
Me perdoa essa falta de jeito,
Esse ar de razão.
Me perdoa eu chegar sem defeito,
E ficar sem paixão.

Lá no fundo a verdade é uma só:


Isso tudo te dá muito dó,
Pois bem sabes, Senhor,
M al disfarço 0 pavor
De ser só.

Me perdoa te olhar desse jeito,


Sem muita emoção.
Me perdoa esse ar rarefeito
Quando pego tua mão.

Lá no fundo a verdade é uma só:


144 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

Já esqueci o que sabia de cor:


Que me chamas co’a dor
De quem ama e, então,
Me perdoas a ingratidão.9

Louvor
O momento de louvor tem como referência o que Deus é:
seus atributos (bondade, santidade, justiça, misericórdia, amor,
imutabilidade etc.) e características que se relacionam diretamen­
te a nós, tais como sua paternidade, sua providência, sua propos­
ta redentora, por meio do Filho, e sua atuação na igreja, por meio
do seu Espírito.
O termo louvor tem tido entendimentos diferentes. Para uns
significa música na igreja; para outros, a parte do culto em que se
louva a Deus; para outros, ainda, uma disposição do coração.
Talvez seja tudo isso. No entanto, é importante ter em mente
que, juntamente com a ação de graças, esse elemento produz,
enseja, permite a afinação emocional do cultuante. Deve ser en­
tendido assim, no arranjo litúrgico, de forma a funcionar como o
tempero do alimento. Bem dosado, dá o sabor certo a todos os
outros componentes; faltando este, toda a refeição fica insossa.
Juntamente com a ação de graças, o louvor pode ser elemento
único do culto, tal a sua centralidade e o seu poder expressivo.
Afinal, quando nos reunimos, só não pode faltar o olhar para
cima, reconhecido e grato. Outros elementos já não subsistiriam
independentemente. Por exemplo, seria triste um ofertório sem
louvor e ação de graças.
Embora seja ingrediente necessário em toda receita, o louvor,
seja na forma, seja no conteúdo, tem algumas incompatibilida­
des. O bom senso há de apontá-las. A título de exemplo, quando
tomado como conteúdo, ou seja, o “espírito de louvor” no cora­
ção da congregação, incompatibiliza-se com a leitura de salmos
LITURGIA > 145

imprecatórios (que falam em vingança, matança etc.), hinos de


guerra ou mensagens admoestatórias (broncas pastorais). Surge
uma espécie de tensão semântica nessas situações. Normalmente,
neste último caso, o espírito de louvor dá lugar ao de temor. Tan­
to a admoestação quanto o correspondente temor devem ter seu
lugar em toda família.10 E não me espantarei se o momento ensejar
um novo e inesperado elemento litúrgico, caracterizado por cin­
zas e panos de saco, como aconteceu com os ninivitas.
Já como momento litúrgico, o louvor torna preferíveis aque­
les conteúdos dirigidos diretamente a Deus, expressando-lhe nossa
apreciação. Embora não seja grave, podemos exemplificar com a
inadequação de cânticos cujas letras digam: “Vamos adorar a Deus”
ou “É bom te ver por aqui”. São conteúdos horizontais, ou seja,
dirigem-se aos irmãos. Portanto, são mais apropriados para o ele­
mento convite ao culto, ou m esm o para a celebração da
fraternidade, um momento de congraçamento.

T U N Ã O M ERECES

Não épor causa da tua justiça,


Ou retitude do teu coração,
Que 0 Senhor te guiou pela mão,
E aqui te trouxe e livrou da cobiça.

Não é por prêmio de fidelidade,


Pois, na verdade, és de dura cerviz;
Não te envergonhas do “fizporque quis”,
(fiuando em Horebe mostraste maldade.

Tu não mereces, não.


Fiz isso por teus pais
(Pois creram eu ser capaz)
Jacó, Isaque e Abraão.
146 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

Não sejas sábio aos teus próprios olhos,


Pois és mais tolo se te ensoberbeces;
Porque “eu mereço, afinal”, em tuas preces
Te deixa à míngua do vinho e dos óleos.

M as te abençoo e te entrego esta terra,


E aqui te cubro de bens e alegrias,
Para saberes, ao fim de teus dias,
Que estive perto, e lutei tua guerra.11

In te rce ssã o
Com o elemento intercessão, abre-se o espaço para olharmos
para fora de nós mesmos. E quando trazemos no coração o que
não nos pertence ou não nos toca de perto. Trata-se de um movi­
mento espiritual de grande valor, uma vez que trabalha nosso
egoísmo nato. A capacidade de chorar com os que choram e
alegrar-se com os que se alegram nos tira do centro, nos leva para
fora de nós mesmos. Ajuda-nos a empenhar nossas vontades
diante do Pai e a nos dedicar a buscar nele respostas e soluções
para dificuldades que não são exclusivamente nossas. Portanto, a
intercessão é antídoto para o egoísmo, para a ingratidão e para a
síndrome do consumidor.12
Trata-se de um exercício espiritual indispensável ao culto, pois
tem a propriedade dupla de nos ensinar a olhar para fora de nós
mesmos e de trazer para dentro do nosso coração, em formato de
hospitalidade, fatos, personagens, autoridades, problemas, irmãos
e tantas outras coisas externas ao nosso interesse imediato. A in­
tercessão exercita nosso coração no altruísmo. Ensina-nos a pres­
tar atenção nas coisas que interessam a Deus e a pedir por elas.
Ajuda-nos a ampliar nossa capacidade relacional, a estender o al­
cance de nosso amor, a nos envolver com nosso irmão de tal for­
ma a suplicar por ele, como se suplicássemos por nós mesmos.
LITURGIA > 147

A intercessão cria e amplia um canal de comunicação entre


nosso coração e a realidade externa que nos cerca. Move-nos a
modificá-la, na direção da vontade de Deus; a pedir-lhe que, tam­
bém para essas realidades, sua vontade se estabeleça soberana:
“venha o teu reino sobre elas, faça-se a tua vontade”; usa-me para
isto, se quiseres.
Vale notar a oração inicial de Neemias por Jerusalém e seu
povo. Rapidamente, o copeiro do rei passa a expressar-se,
intercessoriamente, na primeira pessoa do plural: nós.13 Esse
movimento do coração é precioso ao Senhor. A alma já não pede
por terceiros, mas inclui-se, associa-se, empenha-se.
Elemento litúrgico que se consuma na oração, a intercessão
pode assumir, no entanto, a forma de leitura apropriada ou mú­
sica específica. Também há espaço para artes cênicas e coreografi­
as. A arte aqui é bem-vinda, como sempre.

G ra ça e b ê n ção
E um momento litúrgico de formato bem uniforme e caracte­
riza-se por um movimento da congregação em direção a Deus.
Esse drama se realiza ficando-se em pé, ou caminhando-se em
direção ao altar, ou os dois, dependendo do espaço e das dificul­
dades de locomoção. Importa que o crente faça o gesto significa­
tivo: saia de sua posição normal e apresente-se, de forma corpo­
ralmente visível, diante do Senhor em busca de uma graça ou
para oferecer ação de graças. Isso é celebração.
Também aqui a oração é a forma mais comum. Realiza-se,
normalmente, por uma intercessão pastoral.
Não cabem variações de formato, a não ser, talvez, a música de
fundo durante a oração ou algum número durante o precessional
dos crentes em direção ao púlpito.
Cuidado especial se deve ter com a música, pois ela não pode
competir, no volume do som, com as palavras do oficiante. Assim
148 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

sendo, tanto o volume dessa música quanto a técnica usada


(dedilhados e arpejos, por exemplo) devem ser bem avaliados. Nor­
malmente os sons contínuos de cordas ou de órgão são mais ade­
quados, pois não interferem no entendimento do que se fala.

C o n triç ã o
Já temos dito que a contrição é um precioso estado de alma
diante do Senhor. Aqui, como elemento litúrgico, estimula-se,
formalmente, essa disposição do coração. É um momento em que
se experimenta a graça de Deus, pois a contrição não é natural ao
homem caído. Basicamente, contém os sentimentos de arrependi­
mento e rendição diante de Deus, por percebermos, admitirmos e
nos entristecermos com o fato de que somos e fazemos o que sabe­
mos que não devemos, o que não lhe agrada. Resolvidos de forma
espiritualmente saudável, esses conflitos nos impulsionam à con­
fissão e à súplica do perdão, que nos trará a paz com Deus, com
nosso próximo e conosco mesmo.
A contrição é um fenômeno tão em extinção quanto o pecado.
Portanto, é necessário que o ministro trabalhe a realidade do pe­
cado e da cruz de forma que o ensino envolvido na celebração da
contrição tenha sentido para o crente de hoje. A esse respeito,
Rômulo Corrêa, escrevendo à lista de discussão “Alma Masculi­
na”, na internet, afirma:
Porque o pecado não é pós-moderno. É medieval. Pós-moder-
no é neurose, psicose, depressão, dupla-personalidade, até insô­
nia. Essas coisas nós temos. Mas pecado mesmo virou uma peça
empoeirada nas estantes dos livros de teologia sistemática do sé­
culo passado. Ficou reservado àqueles minutos no culto quando
o pastor nos convida a fazer uma auto-análise e mesmo assim
ainda ficamos com um branco na mente sem saber o que pensar.

A ser verdadeira a constatação acima, será preferível que o


crente se esqueça de contrição, arrependimento e confissão, e
Litu r g ia > 149

marque uma hora com seu analista. Mas sabemos que não é
assim que se resolvem os problemas da alma. Portanto, o ensino
deve trazer a celebração da contrição para seu lugar no culto, sob
pena de nos tornarmos ingratos.
A contrição é anterior à confissão, à qual está intimamente
ligada. Simplificando, a contrição produz a confissão. Se é preci­
osa ao Senhor a confissão dos pecados,14 mais ainda serão as ra­
zões do coração que levaram a ela. E essas razões são aquelas do
“coração compungido e contrito” a que Davi se referia:
Pois não te comprazes em sacrifícios; do contrário, eu tos daria:
e não te agradas de holocaustos. Sacrifícios agradáveis a Deus
são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito, não
o desprezarás, ó Deus.15
A forma desse elemento litúrgico é variada. No documento da
Igreja Metodista, anteriormente transcrito, ele não existe de for­
ma isolada. Aparece como confissão. Talvez por se entender que
esta seja mais objetiva, não correspondendo a estados da alma, e
sim à objetivação, à ação deles resultante. Mas onde existe tem a
forma de um chamado, da criação de um momento de oração
silenciosa, leitura inspirativa, cântico confirmador e promessa.
E momento de interlúdio, de coro, de música inspiradora,
que cabem antes, durante ou depois desse período de recolhi­
mento. Normalmente se associa a uma oração pastoral de confis­
são, a um hino em que o perdão de Deus é assegurado e a uma
leitura que contenha promessas do Senhor.

C o n fis s ã o
O elemento litúrgico confissão normalmente vem associado ao
da contrição. São quase sinônimos. A separação aqui tem propó­
sitos didáticos apenas. E que o momento da contrição requer do
ministro oficiante a condução à tranqüilidade, ao silêncio, ao re­
colhimento, por ser um momento íntimo. Assim, a arte há de
150 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

colaborar nesse sentido, adequando o ritmo e o tom da música e,


eventualmente, de outras formas de expressão ao clima apropriado.
Já o elemento confissão permite, além do recolhimento, mani­
festações públicas e expressões coletivas, como uma oração audí­
vel, um cântico de confissão, uma peça coral, um número musical,
encenação apropriada etc.
Mais que isso, o período de confissão pode ensejar movimen­
tações na sala, se o povo for estimulado a orar com outros, a
confessar-se a algum irmão “antes de trazer ao altar a sua oferta”.
O conteúdo da confissão também pode variar em amplitude.
Devidamente instruída, a congregação pode expressar nesse mo­
mento precioso mais do que seus atos e omissões pecaminosos. É
tempo também para abertura de vida, para compartilhamento do
que somos e do que não somos. É tempo para falar da nossa
história, da nossa vida, das nossas fraquezas. Há grande poder
curativo nessa amplitude de confissão. Quem sabe seja esse o en­
tendimento de Tiago: “Confessai, pois, os vossos pecados uns aos
outros e orai uns pelos outros, para serdes curados. Muito pode,
por sua eficácia, a súplica do justo”.16
No entanto, deve-se ter cuidado quanto à condução desse
momento, caso haja opção por torná-lo mais amplo e comunitá­
rio. Diferentemente do momento da contrição, esse espaço per­
mite a vazão de impulsos contraproducentes, tais como o de “con­
tar histórias”, o que acaba não tendo fim nem dando espaço para
outros compartilhamentos; ou o impulso de exibicionismo espi­
ritual, com “sinal trocado”, como, por exemplo: “Vejam como
sou mau!”; ou o da “autoflagelação exibicionista”; ou o da “vaidade
mórbida”, e tantos outros.
Uma solução simples é colocar em cada grupo uma pessoa
experiente, capaz de liderar o processo, para conduzi-lo a bom
termo, no tempo de que se dispõe.
LITURGIA > 151

C o n firm a ç ã o
O momento de confirmação expressa a resposta de Deus a
um gesto de fé da parte da congregação. Normalmente, após
decisões impulsivas ou de fé, sofremos do que os comunicadores
chamam de dissonância cognitiva. Trata-se de uma espécie de
ansiedade em relação à atitude arrojada. Ficamos como que a
nos perguntar sobre o acerto da mesma.
Lembramo-nos de João Batista enviando seus discípulos a
Jesus para perguntar se era ele mesmo, se seu discernimento ha­
via sido correto.
Quanto maior for o gesto, o passo, tanto maior será essa
ansiedade. Nesse sentido, muitos dos elementos litúrgicos ensejam
passos no escuro, que geram essa dissonância. É nesse sentido
que a confirmação, vinda da parte do Senhor, nos tranqüiliza e
nos restitui a serenidade e a paz. E como se o pai dissesse ao filho
que ele agiu bem em situação complicada; que seu gesto foi devi­
damente compreendido e que sua fé será levada em conta.
A confirmação, como a bênção apostólica, é um momento
essencialmente sacerdotal ou pastoral, pois ministra da parte de
Deus. Num culto em que se oferta, na direção congregação-Deus,
a confirmação inverte 0 sentido, para que Deus responda com
aceitação.
N o entanto, não é incomum esse elemento ser expressado a
partir de uma leitura bíblica ou de um cântico com letra adequa­
da a dizer o que o momento requer. Embora seja ação de nature­
za pastoral, pode se expressar de múltiplas formas artísticas.
No documento metodista, a confirmação faz parte do mo­
mento de confissão. Faz sentido, pois, por meio de leitura bíblica,
cântico (coral, congregacional, conjunto, solo etc.), assegura-se
ao crente a eficácia de sua confissão e a fidelidade de Deus, sem­
pre pronto a perdoar.
152 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

C o n sa g ra ç ã o
Diante do perdão de Deus, o coração do salmista se pergunta:
“que darei ao Senhor”?17 Este é o resultado da contrição e da
confissão, uma vez aceitas por Deus: voto e oferta em ação de
graças. E a resposta que o próprio salmista dá é consagração pes­
soal, na forma de votos e propósitos.
Esse elemento pode se expressar de forma íntima ou pública.
A forma mais íntima é a oração silenciosa. No entanto, para ambas
o cântico congregacional se aplica bem. Também cabem canto
coral, participação especial etc.
Há outra forma de consagração: aquela em que o ministro
encomenda a Deus um missionário, um ministro, um ponto de
pregação, as ofertas e os dízimos etc. Tipicamente, é um momen­
to alegre e de oferta (sacrifício vivo). Cabem danças, participação
infantil, coreografia, músicas, bandas e tudo o mais.
Um elemento que constrange muitos pastores é o da consa­
gração das ofertas. É o momento litúrgico em que o oficiante
procede à coleta e à sua consagração. Em muitos casos, nesse
momento não há coleta, mas apenas sua consagração, uma vez
que, pelo costume local, as ofertas tenham sido depositadas no
gazofilácio.18 Esse momento, compreensivelmente, causa em
muitos pastores a tensão de parecer que se confunde a igreja com
um empreendimento econômico, lastimável tendência a se fir­
mar e confirmar em nosso tempo. Não querendo ser confundi­
dos, muitos pastores abrem mão, ou relaxam nesse ponto, o que
se torna igualmente lastimável, pois o conteúdo de significação a
ser celebrado por esse rito é da mais alta relevância e ensina muito
aos neófitos19 e às crianças. Em particular, sedimenta dois seg­
mentos de significado bíblico: que desprezamos e destronamos a
Mamom na casa de Deus e em nossa vida; e que as transforma­
ções, as alegrias e os motivos de gratidão que trazemos são tão
LITURGIA > 153

concretos quanto o nosso dinheiro. Estamos dizendo que “a tua


graça é melhor que a vida”, melhor que a segurança e o conforto
que Mamom pode nos oferecer.
Esses dois componentes semânticos do drama da oferta não
devem ser ocultados por timidez alguma, sob pena de deserdarmos
nossos filhos dos “testemunhos, e estatutos, e juízos que o Se­
nhor, nosso Deus, nos ordenou”?20
Nesse momento de ofertório e consagração, a arte tem papel
preponderante, no sentido de agregar ao drama o caráter de
alegria e devoção. É momento de celebrar a alegria da salvação e a
gratidão. É hora de dizer, por todos os “meios prazerosos do belo”,
que “tudo vem de ti, Senhor; e do que é teu te damos”. E hora de
dizer: “em ti, nós também venceremos o mundo”.

AÇÃO D E GRAÇAS
Amo 0 Senhor,
Porque me ouviu;
D a morte me livrou.
Laços de dor,
Tristezas mil,
Sua graça derrotou.
Volta, ó minha alma, então,
Ao teu abrigo,
Pois estendeu sua mão,
E foi contigo.
Invocarei
Sua salvação,
Sua taça tomarei.
Devotarei
Meu coração,
Meus votos cumprirei.
154 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

Que lhe darei


Por seu favor,
Em minha perturbação?
Derramarei
Graça e louvor,
N a sua congregação.21

S e g u ra n ç a
Esse é um elemento que normalmente acompanha outros ri­
tos. Ele expressa um sentimento profundo em relação a Deus,
proveniente de nossos exercícios de fé. Tem a propriedade de tra­
zer o coração das tribulações e ansiedades de volta para seu eixo
central: a soberania, o cuidado e a providência de Deus. Ele é
rocha.
A segurança se expressa por meio de leitura bíblica apropriada,
cântico, poesia, testemunho etc. Aceita artes cênicas, coreografi­
as, músicas e o que mais nossa criatividade produzir.
Em algumas liturgias, segurança é um momento independen­
te. Em tempos de dificuldades, traz conforto e fortaleza. Nesse
momento, a arte tem a propriedade de agregar as sugestões apro­
priadas ao coração vacilante e à alma temerosa. O efeito é conhe­
cido inclusive no mundo secular, quando se cantam marchas e
hinos patrióticos, diante de desafios e guerras. Nosso Hino Naci­
onal retrata bem o desejo de seus autores de infundir segurança e
coragem no povo. Lembra o inesquecível Castelo Forte, de Lutero:

Castelo forte é nosso Deus,


Espada e bom escudo;
Com seu poder defende os seus
Em todo o transe agudo.
Com fúria pertinaz
Persegue Satanás,
LITURGIA > 155

Com ânimo cruel; í


Astuto e mui rebel, ^ id i
Igual não há na terra.
A força do homem nada faz,
Sozinho está perdido;
M as nosso Deus socorro traz,
Em seu Filho escolhido.
Sabeis quem é? Jesus,
O que venceu na cruz,
Senhor dos altos céus;
E, sendo, 0 próprio Deus,
Triunfa na batalha.
Se nos quisessem devorar
Demônios não contados,
Não poderiam dominar,
nem ver-nos assustados.
O príncipe do mal,
Com seu plano infernal,
J á condenado está;
Vencido cairá
Por uma só palavra.
De Deus 0 verbo ficará,
Sabemos com certeza,
E nada nos perturbará,
Com Cristo por defesa.
Se temos de perder
Família, bens, prazer,
Se tudo se acabar
E a morte nos chegar,
Com ele reinaremos!
156 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

Na igreja, a celebração do elemento segurança remete sempre


à adoração do Senhor, pois expressa, em qualquer circunstância:
“Não a nós, Senhor, não a nós; mas ao teu nome dá glória”, pois,
“ao ouvir tua voz, nada temerei”.

Le itu ra b íb lica
A leitura bíblica se dissemina por todo o culto. No entanto,
pode aparecer como item separado, que prepara a mensagem.
Nesse sentido, essa leitura se harmoniza com a mensagem a ser
proferida no encontro. Não é necessário que seja imediatamente
anterior ao sermão ou estudo, mas é desejável que lhe faça refe­
rência, seja explicitamente, seja pelo costume.
Esse momento pode ter fundo musical apropriado, embora
isso não seja comum. Pode ser realizado por meio de leitura
uníssona ou responsiva.
Não há muito a dizer sobre esse elemento, do ponto de vista
da criatividade. Talvez apenas a lembrança de que uma boa leitu­
ra requer preparo. Raros são aqueles que não tropeçam numa
leitura à primeira vista. Seja numa palavra, seja na entonação,
seja na “música” que o sentido dá às frases. O belo, por singelo
que possa parecer, pode passar por uma boa preparação da leitu­
ra. Um texto bem compreendido, quanto à significação do que
está sendo dito, quanto à formação de sua estrutura e quanto à
sua pontuação, há de abençoar a igreja. Por imaginarmos que “já
aprendemos a ler”, deixamos de lado o preparo desse momento.
E a leitura bíblica, muitas vezes, torna-se simplesmente feia.

M e n sa g e m
Esse é um elemento litúrgico de primeira grandeza nas igrejas
reformadas, que têm a exposição da Palavra como ponto culmi­
nante do culto. Entendem que esse é o momento em que Deus
fala de forma mais explícita, e também que a instrução na Palavra
LITURGIA > 157

é o principal meio de crescimento sadio da fé. De fato, o louvor


edifica a alma e predispõe o espírito, mas o crescimento advém de
laboriosa meditação na Palavra, de cuidadoso estudo, muitas ve­
zes requerendo tempo e diligência. Um problema para a geração
do instantâneo, da ginástica passiva, do entretenimento, lazer e
diversão a qualquer preço.
Constata-se que os pastores modernos não se têm preocupado
em fazer desse momento também uma expressão estética, um
momento bonito. O que se tem visto são sermões e estudos base­
ados na Bíblia, preocupados (ou nao) com a correção doutriná­
ria, mas sem a intenção de fazê-los belos. E raro hoje em dia um
pastor se preocupar em preparar um belo sermão. Vale a pena
pensar, nesse momento, no poder de comunicação que certos
filmes e peças chamadas multimídia detêm. Em plena era da
tecnologia, mal saímos do papel e lápis na elaboração e apresenta­
ção da Palavra de Deus. Qual é a diferença? A tecnologia pode
ajudar a agregar o belo a essas “mensagens”.
Nesse sentido, é surpreendentemente inovador o texto
metodista sobre o culto, pois admite diversas formas de apresen­
tação da mensagem: “A mensagem da Palavra de Deus, além da
forma de sermão, poderá ser diálogo programado, drama, jogral,
filme, testemunhos etc.”
Não é fácil produzir uma apresentação multimídia para cada
sermão ou estudo a ser ministrado. No entanto, para momentos
especiais, isso poderia ser desenvolvido. Também não seria difícil
para o pregador juntar-se aos artistas e ministros de louvor da
igreja para dar asas à criatividade, no sentido de associar música à
mensagem. Eventualmente, cabe alguma projeção de imagens,
quando há o recurso. Nem sempre nos damos conta do poder
que uma trilha sonora bem feita tem sobre a mensagem de um
filme ou novela. Basta prestar atenção e veremos o quanto temos
perdido, no sentido de agregar o belo a esse elemento litúrgico.
158 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

Normalmente, a mensagem se divide em exposição e exórdio


(consagração, no texto medotista). E claro que a homilética22 iria
mais fundo, dividindo-a em muitos outros componentes. Mas
interessa ao ministro de louvor perceber a distinção entre o
momento de argumentação bíblica e o chamado a uma resposta
por parte da congregação. Todo bom sermão “espera” e pede uma
resposta; esse é o momento do exórdio.
A não ser que se decida tentar nossa sugestão de se produzir
uma trilha sonora para o sermão, este não tem convivido com
música. Confesso que já vi alguns filmes e testemunhos, mas nunca
jogral, drama ou diálogo programado, a não ser em cultos natali­
nos ou de Páscoa. É mais comum a entrada sutil da música como
suporte ao exórdio. Anuncia-se, assim, o momento culminante
do sermão, que se mistura com boa dose de emoção. Se há o
apelo à consagração (termo genérico para essa resposta), cabe a
m úsica de fundo. N ão é incom um a congregação cantar,
pianíssimo, Eu venho como estou, ou Eis-me aqui, meu Senhor.
Deve-se tomar cuidado para não acontecer que, por equívoco
dos músicos, o mensageiro seja constrangido e encerrar antes da
hora, ao ouvir a “sugestão” de que está na hora do exórdio.
O fato é que se tem receio de ousar nesse momento. Como
poderia crescer em beleza e envolvimento a mensagem associada
à arte! Faltam-nos, talvez, criatividade e ousadia. Gente capaz não
falta.
Uma palavra sobre a arte da mensagem propriamente dita.
Imagino que deva agradar a todos os “públicos” uma mensagem
esteticamente atrativa. Não se deve trocar a forma pelo conteúdo;
um sermão plasticamente arrebatador, mas de conteúdo duvido­
so. No entanto, a diferença entre um belo sermão e outro en­
fadonho pode ser “da água para o vinho” . Uma palavra séria
não precisa ser enfadonha, nem mal preparada, nem pobre em
LITURGIA > 159

ilustrações, nem feia. E não nos deixemos iludir: assim como o


belo é importante em todas as artes litúrgicas, mais ainda o será
quando aplicado à exposição das Escrituras.
Em que consiste um belo sermão, uma bela exposição da Pala­
vra? Bem, deixo a resposta com aqueles ministros que dedicam
sua vida a pregar. Eles saberão responder. No entanto, a eles (e a
mim também) vale perguntar: têm-se preocupado com a beleza
de suas mensagens? Bem sabemos que, neste caso de “expressão”,
o público prioritário não é Deus, mas a congregação, pois é pala­
vra de Deus para o povo. Porém, ao pregar, o mensageiro deve
desejar oferecer o belo também ao seu Senhor. Como na misteri­
osa parábola do administrador infiel,23 ele deve representar seu
senhor como se este mesmo estivesse falando. Quem sabe não é
hora de um “sopro novo” em nossa homilética? Sermões
substanciosos, bem preparados, doutrinariamente corretos, even­
tualmente associados a recursos artísticos e... bonitos de se ouvir
e gostosos de se receber!

O ra ç ã o
Assim como a leitura bíblica, a oração faz parte de muitos
outros momentos do culto. Talvez possa ser entendida até como o
tom do culto: um culto em diapasão de oração, quando tudo o
que ali se faz pode ser entendido como oração. No entanto, ela se
justifica, muitas vezes, como elemento litúrgico independente.
Cabe, por exemplo, na invocação, no momento de graça e bên­
ção ou na contrição.
Colocada após a mensagem, a oração vem exercer a função de
resposta à Palavra de Deus. Realiza-se silenciosa ou audivelmente.
Quando audível, pode ser proferida por um membro, pelo pró­
prio oficiante ou mesmo pela congregação, seja em uníssono, seja
responsivamente, como quando se recita a oração do Pai Nosso.
i6 o < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

H á muito espaço para criação em relação a esse elemento. Pode


ser feita em grupos, na forma de jogral, livremente em frases com­
plementares, por versos, com música improvisada (como fazem
os ortodoxos) etc.

B ên ção a p o stó lic a


Elemento de natureza pastoral-sacerdotal, a benção apostólica tem
o sentido de despedir o povo, de enviá-lo de volta à sua vida diária,
levando no coração a inspiração e o fortalecimento dos momentos
passados na presença do Senhor.
Por sua natureza sacerdotal, não cabe, como começa a aconte­
cer, a primeira pessoa do plural — nós (Que Deus nos abençoe).
Não é falha grave, claro. É compreensível que o pastor queira se
incluir na bênção de Deus. Mas o pressuposto das mãos levanta­
das, voltadas para o povo (um gesto dramático que celebra o con­
teúdo da transmissão de energia) é que o sacerdote fala em nome
de Deus, o qual abençoa o povo. Portanto, o correto, salvo me­
lhor juízo, seria: “Que Deus vos abençoe” (ou, mais coloquial,
“Que Deus os abençoe”; ou, ainda: “Que Deus abençoe vocês”).
Que ele olhe para vós (ou para vocês).24
A arte mais comum nesse caso é a música instrumental, ou co­
ral, que começa pianíssimo para crescer ao término da bênção, na
forma de um poslúdio. Quando a despedida se dá por um cântico
da congregação, o movimento é o mesmo, e o povo, habituado,
irrompe o cântico após a bênção.

D e sp e d id a
A despedida costuma ter muitas variações. Pode ser uma pala­
vra pastoral, em tom coloquial e amistoso, um convite para o
próximo evento, ou mesmo uma lembrança a respeito da progra­
mação da semana. Neste caso, por causa da palavra, a música há
LITURGIA > 161

de manter-se de fundo e instrumental. Encerrada a palavra, cabe


um poslúdio, no mesmo formato do prelúdio.
Muitos dirigentes incluem nesse momento avisos, apresentação
dos visitantes ou brincadeiras, o que pode causar uma ruptura
em ocional. Em que pese o caráter afável da inform alidade,
em muitos casos em que a mensagem tenha calado fundo nos
corações, surge, quase imperceptivelmente, uma tensão entre os
dois climas, sendo que o segundo passa a ter o efeito de arrancar
a semente plantada. Talvez estejamos exagerando na sutileza.
Talvez o dirigente tenha discernimento para julgar se deve ou não
quebrar o clima do sermão. Deus sabe.
Diante do problema, talvez seja preferível acompanhar o
m odelo m etodista apresentado, que coloca os anúncios em
momento um pouco anterior à bênção, despedida e poslúdio, e
recomenda moderação, talvez exatamente por ter em vista a
questão que aqui nos preocupa:
Os anúncios que expressam verdadeiramente a vida e obra da
Igreja (cultos, batismos, casamentos, falecimentos, etc.) encon­
tram lugar na ordem do culto. Todavia, deverão ser feitos com
objetividade, discrição e no menor tempo possível — no máxi­
mo em 5 minutos. Outros avisos são publicados em boletim ou
afixados em lugar público designado para esse fim.25

Outra solução seria deslocar os avisos, conversas e apresenta­


ções para um momento anterior à mensagem, talvez próximo ao
ofertório, quando a participação infantil, freqüentemente esti­
mulada, traz o clima de saudável informalidade. A música, sendo
desejável, pode trazer os corações de volta à concentração para a
mensagem.
No entanto, em muitos casos a despedida é mais litúrgica e
formal. Compõe-se de música instrumental, ou coral, com uma
canção específica de despedida, ou uma doxologia. Em outros
162 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

casos, insere-se a recitação coletiva da oração do Pai Nosso,


com música ao fundo, ou o cântico do conhecido Tríplice
Amém.

T U A BÊN ÇÃ O
Com tua bênção despede, Senhor,
Estes que agora aos seus lares se vão;
D á que levemos tua graça e amor,
Sim, aos que sofrem, sem teto e sem pão.

Dá, tua bênção, ó Senhor,


Aos que agora já se vão;
Que levemos graça e amor,
Aos que sofrem, sem ter pão.26
capítulo 8

Loadlit

Louvor,Adoração e Liturgia permitem uma sigla interessante:


LOADLIT. “Parece nome de remédio”, me disse alguém. “Uma
pomada barata”, disse outro. “Um genérico, para ser passado no
coração do adorador contundido”, acrescentou outro, aliviando
um pouco.
Ai, ai. Aí está a criatividade. No caso, inventando bobagens,
só para me deixar inseguro.
Registro as brincadeiras dos irmãos, no entanto, como ensejo
para uma palavra final. De volta aos meus botões, depois da brin­
cadeira, pensei: bem que poderia ser, seria bom que fosse. E arre­
matei: queira Deus que, tendo chegado a este ponto das nossas
i 64 < l o u v o r , a d o r a ç ã o e litu rgia

reflexões, o leitor tenha recebido este conjunto de pensamentos


como Loadlit para sua vida pessoal e ministerial.
Imediatamente, tive o impulso de apagar tudo, temendo que
você interpretasse essas palavras como presunção. Mas deixei. Fica
em forma de oração. Sabemos do que Deus é capaz.
Notas

Introdução
1. Usarei as palavras ministro, artista e dirigente sempre no masculino,
como manda a regra da generalização, mas não faço acepção de
gênero nesta matéria. Uma das características dessa nova igreja que
louva é o fato de ter sido abençoada por ministras de louvor e
adoração, que são bem-vindas, sem restrição alguma.
2. AMORESE, Rubem Martins. Celebração do evangelho. Viçosa, MG:
Ultimato, 1995.
i6 6 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

Capítulo i
1. Tiago 1.27.
2. Salmo 131.
3. Transcrevo, mais adiante, no tópico "Um enxerto", uma dessas liturgias
publicadas.
4. Ver HUSTAD, Donald P. Jubilate: A Música na Igreja. São Paulo: Vida
Nova, 1991. Capítulo 2: "Música sacra: uma arte funcional".

CAPÍTULO 2
1. Romanos 1.21-23: "Porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o
glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram
nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração
insensato. Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos e mudaram a
glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem
corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis".
2. Alusão a Romanos 1.21.
3. Salmo 29.9b.
4. É de Santo Agostinho a expressão que nos inspira: "Criastes-nos para
vós, e nossa alma só encontra descanso quando repousa em vós".
5. Salmo 96.9.

CAPÍTULO 3
1. Mateus 22.37.
2. Mateus 15.10b.
3. Mateus 15.7.
4. Isaías 1.18.
5. Jeremias 17.9.
6. Hebreus 13.15.
7. Efésios 2.2,3, paráfrase.
8. Hebreus 11.6.
9. Ezequiel 37.11.
10. Jonas 2.
11. Jonas 2.7.
12. Jonas 2.9.
NOTAS > 167

13. Jonas 4.1.


14. Letra e música minhas.
15. Efésios 1.10.
16. Este é 0 refrão que ocorre três vezes nessa introdução em que Paulo
descreve a atuação redentora do Pai (w. 3-6), do Filho (vv. 6-13a) e do
Espírito Santo (13b-14).
17. Efésios 1.22,23.
18. Jó 1. 21.
19. LEWIS, C. S. Longe do planeta silencioso. Umuarama, PR: Livros Co-
Lab, 1979.
20. Romanos 5.3,4.
21. Efésios 6.13.
22. Mateus 5.24.
23. Zacarias 3.5.
24. Apresento meu entendimento desse momento no capítulo "A batalha
da cruz", do meu livro Meta-História.

CAPÍTULO 4
1. Letra minha e música de Toninho Zemuner.
2. Apocalipse 3.20.
3. Efésios 6.4.
4. Romanos 8.29.
5. Confira o texto que insiro, adiante, sob o título "Um enxerto".
6. FOSTER, Richard. Celebração da disciplina; o caminho do crescimento
espiritual. São Paulo: Editora Vida, 1983. p. 9
7. João 15.15.
8. Salmos 42.5; 43.5.
9. 1 Reis 19.11-13.
10. 1 Reis 19.9.
11. FOSTER, Richard. Op. cit.
12. Ezequiel 37.
13. Gênesis 32.22-32.
14. Letra minha e música de Toninho Zemuner. Publicada no CD Corpo &
Alma. Brasília: Igreja Presbiteriana do Planalto, 2004.
i6 8 < LOUVOR, ADORAÇÃO E LITURGIA

Capítulo 5
1. Provérbios 22.6.
2. Deuteronômio 6.4-9; 20-25.

CAPÍTULO 6
1. Letra minha e música de Toninho Zemuner.
2. Letra minha e música de Toninho Zemuner.
3. Atos 1.8.
4. Atos 2.1.
5. Efésios 1.22,23.
6. Abordo aqui, resumidamente, um tema ao qual dedico o livro
Celebração do Evangelho.
7. Confira adiante a oferta, como experiência básica da adoração
genuína, juntamente com a expressão e a transformação.
8. Isaías 1.10-17.
9. Mateus 5.23-26.
10. HUSTAD, Donald P. Op. cit. pp. 72-85.
11. Isaías 1.18.
12. 1 Reis 18.28.
13. Mateus 9.13.
14. Comparar Romanos 12.1 com Hebreus 13.15,16.
15. "Maravilhoso", de Benedito Carlos Gomes.
16. Marcos 12.30.
17. Zacarias 3.
18. Uma alusão a Lucas 22.31,32.
19. Zc 3.7.
20. Lucas 22.32.
21. Associo esta expressão: "e te darei livre acesso entre estes que aqui se
encontram" àquela de Paulo em Efésios 2.6: "e nos fez assentar nos
lugares celestiais em Cristo Jesus". Confira também Efésios 1.20,21.
22. Uso a recomendação de Efésios 4.15, que se refere ao relacionamento
na igreja, para inferir, a forma como o próprio Deus se relaciona
conosco.
NOTAS > 169

Ca p ít u l o 7
1. Letra minha e música de Toninho Zemuner.
2. Tiago 5.13.
3. 2 Coríntios 3.17.
4. 1 Coríntios 14.
5. AMORESE, Rubem Martins. Sacrifício vivo. Ultimato, Viçosa: MG,
n. 288, maio-jun. 2004.
6. CONFEDERAÇÃO Evangélica do Brasil. Hinário evangélico com ritual.
7. Romanos 1.21.
8. Uma alusão a Romanos 1.22,23.
9. Letra e música minhas.
10. Confira Deuteronômio 9.4-8, em que Moisés diz pesadas palavras
admoestatórias ao povo, reprovando sua soberba. Em Jonas 3.5-10
percebemos o temor como forma de adoração, reconhecido por Deus
como legítimo e salutar.
11. Letra e música minhas.
12. Confira o elemento programático "ação de graças".
13. Neemias 1.6-11.
14. 1 João 1.9.
15. Salmo 51.16,17.
16. Tiago 5.16.
17. Salmo 116.12.
18. O gazofilácio é aquela peça de mobília, de diversos formatos, onde os
fiéis depositam suas ofertas. Às vezes tem formato de cofre; outras,
parece apenas uma caixa com ranhura em cima. Normalmente, é
colocado à porta da igreja, para facilitar (e incentivar) o acesso.
19. Gente nova na fé ou na igreja, incluindo os recém-convertidos.
20. Deuteronômio 6.20. Observe-se que não faço aqui apologia do dízimo,
na forma da lei mosaica, mas sim da oferta de gratidão e liberdade,
conforme cada um tenha proposto no seu coração.
21. Letra minha e música de Toninho Zemuner.
22. Disciplina que pesquisa e ensina as formas mais eficientes e belas de se
produzir e proferir um discurso ou sermão.
23. Lucas 16.
24. Números 6.22-27.
25. CONFEDERAÇÃO Evangélica do Brasil. Hinário evangélico com ritual.
26. Letra e música minhas.
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CORRÊA, Ricardo M. O ofício do adorador. Praia Grande, SP: Hosana,


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FILHO, João A. Souza. Ministério de louvor, revolução na vida da Igreja.
Belo Horizonte: Betânia, 1999.
FILHO, João A. Souza. O louvor e a edificação da Igreja. Belo Horizonte:
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ZSCHECH, Darlene. Adoração extravagante. Belo Horizonte: Editora Atos,
2003.
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1

Rubem Martins Amorese, casado,


dois filhos, é consultor legislativo no
Senado Federal e presbítero na
Igreja Presbiteriana do Planalto.
É autor de, entre outros, icabode— da
m ente de Cristo à consciência m oderna
e M eta-História— a história p o r trás da
história da salvação.