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O QUE É ÉTICA CRISTÃ

INTRODUÇÃO

“É correto mentir a fim de salvar uma vida? A pergunta postula um conflito em


normas éticas. Contar a verdade é mais importante do que salvar vidas? O que você
faria? Todos os pontos de vista éticos têm a ver com perguntas éticas fundamentais.
Existem normas éticas válidas? Se existem, quantas são? E se existirem muitas
normas éticas, o que se faz quando duas delas entram em conflito? A pessoa conta
uma mentira para salvar uma vida, ou sacrifica uma vida para salvar a verdade?”

Assim, como vivemos em uma época onde os conceitos pós-modernos


relativizam as doutrinas cristãs, é relevante identificarmos os principais fundamentos da
Ética Cristã a fim de aperfeiçoar nossa vida de comunhão com Deus e testemunho
cristão a sociedade (Mt 513,14).

“O estudante de Teologia precisa estudar Ética, pois quando dissociada de


sua base teológica, a Ética Cristã se toma nada mais do que um ideal humanístico.
Ética Cristã e a Teologia estão orgânica e inseparavelmente relacionadas, pois Deus é
a base de toda a moralidade cristã. Em relação à teologia bíblica, a Ética Cristã coopera
com estudos bíblicos, estabelecendo o conteúdo ético da Bíblia. Coopera com a
História Eclesiástica, examinando a ênfase ética da igreja através dos séculos.
Coopera com a Homilética, proclamando mensagens de caráter ético. Coopera com 0
Aconselhamento Pastoral, reduzindo ansiedades e frustrações (ao tratar do senso de
culpa moral). Coopera com Missões, preparando homens para enfrentar questões
morais nos campos missionários. Coopera com a Educação Cristã, incluindo e levando
à realização verdades éticas.”

“A ética não é uma ciência empírica preocupada em explicar as práticas


morais existentes, mas uma disciplina normativa, interessada com a verdade ou
falsidade das crenças morais.”

“É a investigação no campo da conduta ideal, bem como sobre as regras e


teorias que a governam. A ética, o homem distanciado de Deus por sua incredulidade
e seus pecados, a estuda, entende e até se propõe a observá-la, mas não consegue,
por estar subjugado pelo seu eu, pelos vícios, pelo mundo, pelo pecado (Rm 2.15-19).
Já os servos de Deus, pelo Espírito Santo que neles habita, triunfam sobre o pecado
(Rm 8.2).”
“Em muitos aspectos a ética está muito mais ligada à religião do que à ciência
social; e a tradição judaico-cristã é uma das principais fontes históricas da herança
moral do Ocidente.”
I. O CONCEITO DE ÉTICA CRISTÃ
1. Definição Geral. A palavra "ética" possui origem no vocábulo grego
“ethos”, que significa ”costumes" ou "hábitos". No latim, o termo usado se corresponde
a “mos” (moral), no sentido de "normas" ou "regras".
“O termo ethos geralmente se refere aos valores operacionais de uma dada
sociedade ou grupo operacional. O ethos cristão, dessa forma, seria uma rede de
valores operacionais centrados no conceito de amor conforme definido pelas
Escrituras.”
“Ética é, na prática, a conduta ideal e reta esperada de cada indivíduo. Na
teoria, é o estudo dos deveres do indivíduo, isolado ou em grupo, visando a exata
conceituação do que é certo e do que é errado. Reiterando, Ética Cristã é o conjunto
de regras de conduta, para o cristão, tendo por fundamento a Palavra de Deus. Para
nós, crentes em Jesus, o certo e o errado devem ter como base a Bíblia Sagrada, a
nossa “regra de fé e prática”.
“Podemos definir ética como o esforço inteligente para descobrir critérios ou
padrões para tomar decisões. Para decidir, estamos sempre fazendo julgamentos
morais. Quando a pessoa pergunta, de maneira séria e pessoal: Por que considero
esta ação certa e esta outra errada? Que valores pessoais me fazem decidir dessa
maneira?, significa que a ação é o resultado de uma reflexão baseada em critérios
conscientes de valor; ultrapassou o nível de costume, tradição. Não é porque
determinada atitude é uma tradição, ela é correta. Determinadas leis nem sempre
significam o modo mais certo de agir. Por isso, necessitamos de uma compreensão
ética para evitar erros comuns de raciocínio ético, tais como: o erro de reduzir a
moralidade cristã a um mero conjunto de regras; o erro de permitir o interesse próprio
num julgamento moral; o erro de enfatizar pequenas questões éticas em detrimento de
questões de maior importância; o erro de divorciar religião, de ética; o erro de substituir
conduta por contemplação ética.”
“A ética trata do bem (isso é, dos valores e virtudes que devemos cultivar) e
do direito (isso é, de quais devem ser as nossas obrigações morais). Ela avalia pontos
de vista alternativos do que é o bem e o direito; explora caminhos para alcançarmos o
conhecimento moral de que necessitamos; indaga por que devemos agir com correção
e, a partir daí, conduz a problemas morais práticos, que estimulam a assim pensarmos
prioritariamente.”
2. Ética e Moral. Enquanto ciência, a ÉTICA pode ser entendida como a
área da filosofia que investiga os fundamentos da moral adotada por uma sociedade. A
MORAL refere-se ao comportamento social em relação às regras estabelecidas. Essas
regras podem variar de uma cultura para outra, podendo sofrer variadas e sistemáticas
alterações.
3. Ética Cristã. Tem como objetivo indicar a conduta ideal para a retidão do
comportamento cristão. O fundamento moral da Ética Cristã são as Escrituras Sagradas.
Por isso, sua natureza não se altera nem se relativiza.
Segundo o teólogo americano L. S. Keyser, a Ética Cristã é a "ciência que
trata das origens, princípios e práticas do que é certo e do que é errado à luz das Santas
Escrituras, em adição à luz da razão e da natureza". O teólogo Emil Brunner assim a
define: "Ciência da conduta humana, determinada pela conduta divina". Já o professor
de Ética Cristã do Seminário Batista de Louisville, EUA, H. H. Namette, assim se
expressa: “A ética cristã é uma explanação sistemática do exemplo e ensino morais de
Jesus aplicados à vida total do indivíduo na sociedade e realizados com o auxílio do
Espírito Santo".
4. Princípios da Ética Cristã. O Deus Trino é santo e imutável (Ml 3.6),
assim como a Sua Palavra (Mt 24.35), por isso, os princípios ético-cristãos que derivam
das Escrituras são imutáveis e divinos.

II. FUNDAMENTOS DA ÉTICA CRISTÃ


1. O Decálogo. Os Dez Mandamentos são preceitos éticos que fazem parte
da lei moral de Deus (Êx 20.1-17). São 4 verticais (relação do homem para com Deus)
e 6 horizontais (relação do homem para com o homem – Mt 7.12; Lc 6.31). Jesus
ensinou que os dez mandamentos resumem-se nestes dois: amar a Deus e amar o
próximo (Mt 22.37-39).

Se o estudo da ética está subordinado à apreciação da conduta humana, ele


é, acima de tudo, uma observação do exercício da vida diária, da prática do que é justo
e reto movido pela obediência às Escrituras. Não pense que os dez mandamentos
foram abolidos com a chegada do Evangelho. Ao contrário, a ética cristã está baseada
no Decálogo, coroada pelo amor e graça de Deus. Jesus é a expressão máxima de
inauguração deste novo procedimento ao lançar o foco de atenção para o interior do
homem, buscando nele o que poderia haver de mais precioso, um coração puro.
Quando isto não era possível, Ele mesmo operava o milagre da regeneração cumprindo
a razão única de sua manifestação em carne: “Eu vim para que tenham vida...”.

2. Os profetas. A mensagem dos profetas do Antigo Testamento tem uma


imensa influência ética para os segui- dores de Jesus, abarcando as esferas morais (Jr
17.1-11; Ml 1.6-14; 2.10-16), sociais (Is 58. Mq 2.1-5) e espirituais (Jr 31.31,32; Jl 2.28-
32).
“Que o ensino moral dos profetas é teocêntrico, torna-se perfeitamente claro
pela maneira característica de falar de si mesmos como chamados e comissionados
por Deus para serem seus porta-vozes e se dirigirem a Israel em seu nome. Não
obstante Amós, Oseias, Miqueias e Isaías serem algumas vezes designados como “os
profetas éticos do oitavo século”, por causa de sua ênfase especial à exigência divina
de conduta reta por parte de seus adoradores, estes profetas estavam longe de se
interessarem mais pela ética do que pela religião. O seu ensino ético, apesar de muito
importante, era praticamente acidental, visto que eram antes de tudo profetas
religiosos. Como declara o professor Snaith, “a insistência deles na conduta reta era
religiosa em sua origem, e em sua raiz não era outra coisa senão religiosa”.
“Se os profetas estão em harmonia com o Código da Aliança, ao derivarem
sua moralidade das convicções acerca da natureza de Deus, foram além do Código
em dois pontos importantes, que influíram em seus ensinos morais. Em primeiro lugar,
refletiram um monoteísmo mais plenamente desenvolvido, e em segundo lugar
estavam convencidos de que a suprema exigência que Deus faz ao homem é de
justiça.”
“Os profetas frequentemente se referem à justiça que Deus exige de Israel
em termos de sua obrigação de fidelidade à Aliança.”

3. Os Evangelhos. Os seguidores de Cristo são convocados a viverem as


doutrinas do Evangelho e a adotarem a ética e a moral do Reino de Deus como estilo
de vida (Fp 3.17-19).

4. O Sermão do Monte. Este sermão contém princípios do mais alto ideal


moral. Nele são reveladas a ética e a moral do Reino de Deus em questões como: a ira,
o adultério, o divórcio, o juramento, a vingança e o amor (Mt 5-22.28,32,37,39,44);
também aborda a esmola, a oração e os jejuns (Mt 6.1,5,16); passando pela questão do
prejulgamento, dos falsos profetas e dos alicerces espirituais (Mt 7.1,15,24-27).

5. As Epístolas Paulinas e Gerais. As Epístolas Paulinas, bem como as


gerais, trazem ensinamentos aprofundados sobre a nossa relação com Deus (Rm
12.1,2; Hb 13.7-17), com o Estado (Rm 13.1-7; 1 Pe 2.11-17), com o próximo (Rm 13.8-
10; 14.1-12; 1 Jo 3.11-24), a injustiça social (Tg 2.1-13; 5.1-6), a questão da sexualidade
cristã e do casamento (1 Co 6.12-20; 1 Co 7.10-24).
III. CHAMADOS A VIVER ETICAMENTE

“O ser humano, principalmente na pós-modernidade, enfrenta uma série de


problemas éticos, alguns relacionados à vida e sua sobrevivência, outros relacionados
à sexualidade, à economia, à ecologia e outras áreas. Cada situação vivenciada pelas
pessoas as envolve com questionamentos e decisões a tomar, que as confronta com
suas convicções morais e religiosas. Existe sua consciência moral, formada através
dos anos, que admite ou não certos comportamentos. As pessoas também
desenvolvem hábitos, pela repetição de determinados atos, hábitos que as levam a
tomar atitudes espontâneas e naturais em algumas situações. Por outro lado, há as leis
que governam o país e a sociedade que, se ultrapassadas, levam as pessoas às
sanções; as leis existem para obrigar as pessoas a fazerem o que é correto e evitarem
o que é mau, prejudicial a elas e aos outros. As normas religiosas também foram
instituídas para ajudar as pessoas a se conduzirem de modo coerente às suas crenças.
Para os cristãos existe a Bíblia, regra de fé e prática. Dizemos que, quando um cristão
desobedece aos mandamentos contidos na Palavra de Deus, está cometendo pecado.”

1. “Não cobiçarás coisas más.” Infelizmente, ainda hoje, pseudocristãos


cobiçam os prazeres do mundo. Assim, preferem o hedonismo e a escravidão do pecado
a cumprirem a lei moral do Pai.
2. “Não vos tornei idólatras.” O ato de idolatria não consiste apenas na
adoração de uma imagem. Falsos cristãos desprovidos da ética das Escrituras adoram
o dinheiro e os bens materiais.
3. “Não nos prostituamos.” A imoralidade encabeça a lista das obras da
carne: "prostituição, impureza, lascívia" (Gl 5.19). Muitos, em nome da "graça barata‫״‬,
justificam a imoralidade e a sensualidade em suas vidas.
CONCLUSÃO

A Bíblia Sagrada é o fundamento para o viver ético-moral dos cristãos. É a


única regra infalível de fé e de conduta para a Igreja (2 Tm 3.16). Portanto, em tempos
de ataque ideológicos contra a cultura judaico-cristã, a Igreja não deve furtar-se de ser
o “sal da terra” e a “luz do mundo” em pleno século XXI (Mt 5.13,14).

A Ética possui seus valores absolutos, como vida, liberdade, deveres, que são válidos
para qualquer povo, em qualquer tempo e em qualquer sociedade. Os valores éticos ou morais
possuem uma característica básica: não aperfeiçoam a pessoa numa única dimensão, ou seja,
apenas em suas necessidades biológicas, ou psicológicas, ou afetivas; eles buscam o
aperfeiçoamento em todas as dimensões da criatura humana. Os valores morais vão influenciar
o projeto último da vida, pois estimulam uma liberdade responsável que conduz a própria história
da pessoa. Azpitarte assim exemplifica a sua afirmativa: alguém pode ser um “expert” em
economia, isto é, possuir altos valores técnicos e científicos; entretanto, também pode ser um
ladrão, isto é, seus valores morais são nulos. Não basta conhecer os males morais; é preciso
decidir evitá-los. Somente os valores éticos qualificam uma conduta de boa ou má; os outros não
lhe conferem essa dignidade. Por isso, os valores morais são aqueles que tomam a pessoa
autenticamente humana. “Se os valores estéticos despertam sentimentos sedutores e de
admiração, e os valores amorosos uma atitude de encantamento, a resposta específica que o
valor ético provoca é a experiência da obrigação” (Azpitarte).

“De posse de uma Ética Cristã bem fundamentada e estruturada, os cristãos estão
aptos a tomar decisões em diversos setores da vida; estão aptos a imitir opiniões quanto a
controvérsias éticas relacionadas a diversos problemas que enfrentam no dia-a-dia; estão aptos
a compreender e a viver conforme a vontade de Deus para suas vidas. Somente assim,
conscientiza- dos, podemos transformar a realidade que nos circunda, podemos fazer a diferença
no meio em que vivemos, podemos proclamar a verdade e a vida que é Jesus Cristo.”

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