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TRANSLADANDO O ENSINO DE CIÊNCIAS NA PERSPECTIVA DA

EDUCAÇÃO INCLUSIVA: UMA PROPOSTA PARA O ENSINO DE


QUÍMICA E FÍSICA

Fábio Alexandre Santos1


Gerado Freire Junior2
Luciana Maria de Souza Macêdo3

Introdução

O processo de inclusão escolar de alunos com necessidades educacionais especiais nas escolas
regulares é um grande desafio para as diversas áreas do conhecimento, a exemplo do ensino de
ciências. O alvorecer de legislações que florescem um novo horizonte, assegurando à todos as
condições de acesso e permanência na escola, antepondo o avanço na legislação, encontra-se as
dificuldades existentes nas escolas regulares, no que diz respeito à Educação Inclusiva. Fatores que
transitam desde as estruturas físicas a estigmas incorporados no ser dos seus sujeitos despontam como
uma barreira a se romper para que possamos trilhar no caminho da inclusão.
A Educação Inclusiva é uma área de ensino que proporciona um tipo de escola capaz de
acolher as diferenças em ambiente multicultural, observando cada aluno como um ser único e detentor
de particularidades que apresentam um ritmo único no processo de evolução nos faz perceber a
necessidade de considerar suas peculiaridades para que possamos promover práticas de ensino que
visem despertar e desenvolver sua capacidade cognitiva.
O ensino de química e física é uma área nova que vem pesquisar metodologias que permitam
romper estigmas relacionados a tais disciplinas consideradas por muitos alunos complexas para serem
compreendidas, principalmente na educação básica. Fato que a cada dia vem distanciado os discentes
destas disciplinas uma barreira que por meio de práticas metodológicas aplicadas coerentemente
podem contribuir de forma mais significativa para o aprendizado.
Partindo deste pressuposto o trabalho em tela teve como objetivo, despertar nos participantes
o interesse em desenvolver estratégias metodológicas que permitam trabalhar com pessoas com
deficiência visual, garantindo um ensino eficaz, onde todos ao discentes possam compartilhar do
mesmo material, contribuindo para a implantação real de uma escola inclusiva.

1 Mestrando em Ensino de Ciências, Universidade Estadual da paraíba, Secretaria de Educação de Pernambuco


2 Especialista, Secretaria de Educação de Pernambuco
3 Mestre em ensino de Ciências e Educação Matemática, Universidade Regional do Cariri
Para tanto, utilizamos uma metodologia dinâmica de modo a promover reflexões sobre esta
temática, onde os discentes foram instigados a saírem da zona de conforto das aulas puramente
expositivas e partirem para navegar em águas mais profundas do conhecimento, lançando em um
novo mar de entrelaçar diferenças, buscado formas de auxiliar o próximo de forma que o aprendizado
seja disseminado entre todos, com mediação que permitam romper paradigmas e façam brotar um
novo olhar sobre as diferenças.
A inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais é uma realidade nas escolas
brasileiras e para promover um sistema de ensino inclusivo é necessário à efetivação de ações que
subsidiem práticas pedagógicas capazes de atender as necessidades humanas. Referindo-se à alunos
com deficiência visual, observamos a dificuldade durante o processo educativo pela escassez de
materiais adequados nas escolas regulares. Concernente ao ensino das ciências da natureza,
adaptações nos materiais didáticos são condições necessárias para melhorar o processo de ensino e
aprendizagem de tais alunos. Buscando sanar essas limitações, torna-se necessário que o professor
disponibilize materiais alternativos capazes de estimular o aluno a conhecer o conteúdo dado a partir
da percepção tátil, facilitando a discriminação de detalhes dos gráficos, imagens, etc.

Referencial Teórico

No Brasil a Constituição Federal de 1988, em seu Art. 205, diz que todos têm direito à
Educação e no Art. 208. complementa afirmando que é dever do estado garantir o atendimento
educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino.
A LDB – Lei das Diretrizes e Base da Educação Nacional, nº. 9.394/2006, se ajusta a legislação
federal e vem garantir que o acesso e a permanência das pessoas com necessidades educativas
especiais aconteçam preferencialmente nas redes do ensino regular.
A Educação Inclusiva vem ganhando espaço no contexto escolar. Com a divulgação e,
consequentemente a tomada de conhecimento das leis que dão suporte as pessoas deficientes ao
ingressarem na escola, é cada vez maior as matriculas de pessoas deficientes. Neste contexto, se faz
necessário repensar os procedimentos didáticos dos professores, bem como a sua formação inicial e
principalmente a continuada, haja vista que muitos dos docentes existentes na escola não obtiveram
na sua formação inicial preparação para trabalhar com pessoas com deficiência.
A escola inclusiva se apresenta como um oceano a ser desvendado, com seus mistérios a serem
descobertos, um mundo fascinante que desabrocha aos olhos daqueles que se permitem adentrar neste
universo, cheio de possibilidades, proporcionando aos neófitos novos desafios e perspectivas na
educação de todos os sujeitos envolvidos.
O aluno com deficiência, sendo um sujeito social, vem se beneficiar com as inúmeras
mediações, as quais são feitas nas relações sociais e interpessoais estabelecidas no convívio do espaço
escolar, marcadas pelos conflitos e contradições da vida em sociedade.
Segundo Marta Kohl Oliveira(1997),
a concepção de Vygotsky sobre as relações entre desenvolvimento e aprendizado, e
particularmente sobre a zona de desenvolvimento proximal, estabelece forte ligação
entre o processo de desenvolvimento e a relação do individuo com seu ambiente
sócio-cultural e com sua situação de organismo que não se desenvolve plenamente
sem o suporte de outros indivíduos de sua espécie. (p. 61).
As limitações que os alunos com deficiência apresentam tendem a se tornar uma barreira no
seu aprendizado. Diniz (2012, p. 60) afirma que “se pressuponha que o deficiente seria uma pessoa
tão potencialmente produtiva como o não deficiente, sendo apenas necessária a retirada das barreiras
para o desenvolvimento de suas capacidades”.
Segundo Araújo (2014), a escola sempre está na vanguarda das mudanças que ocorre na
sociedade contemporânea. Dentre estas inovações, um dos seus maiores desafios atualmente está em
cumprir com eficiência a inclusão de deficientes, desenvolvendo um projeto de educação para todos.
De acordo com Mantoan (1997), a inclusão se torna uma oportunidade um catalisador para a
construção de um sistema democrático melhor e mais humano.
A educação cientifica também afeta as atitudes dos alunos na vida social fora da sala
de aula e os seus aprendizados. As atitudes com respeito as implicações sociais da
ciência, habitualmente canalizadas pelas relações entre ciências, tecnologia e
sociedade, exigem que o aluno adote posições com respeito aos usos sociais da
ciência e suas consequências, valorizando problemas como a relação entre ciência e
mudança social, com suas implicações não apenas ideológicas. (POZO; CRESPO,
2009, p. 39).
Quando buscamos uma aprendizagem eficaz a motivação é essencial para que os sujeitos
envolvidos no processo de ensino aprendizagem tenham estimulo para buscar desvendar o
conhecimento.

Metodologia

Ao tratar da metodologia da pesquisa inicialmente apresentamos o sujeito da pesquisa, a


instituição e os instrumentos metodológicos.
Desenvolvemos uma pesquisa qualitativa que, segundo Minayo (1993), é particularmente
adequada ao estudo da experiência humana, já que os métodos qualitativos concentram-se no todo
dessa experiência e o sentido atribuído pelos indivíduos que a vivem, permitindo uma compreensão
mais ampla e um insight mais profundo a respeito dos comportamentos humanos complexos.
Participaram do desenvolvimento do trabalho alunos do 1º ano do Ensino Médio da Escola
Dr. João Alfredo, escola centenária fundada em 1905, localizada na cidade de Goiana/PE.
Após ser ministrado o conteúdo sobre Modelos Atômicos, no qual conceitos de química e
física se mesclam, com abordagem teórica e aplicação de exercícios. Foi proposto aos alunos que
produzissem modelos atômicos que demonstrassem a teoria apresentada na sala de aula e tais modelos
fossem utilizados para trabalhar com alunos deficientes visuais.
A sala foi dividida em grupos os quais cada um responderia sobre um modelo: Dalton,
Rutherford, Thomson e Borh
A escola não possui estudante cegos e tais modelos produzidos foi levado ao instituto dos
cegos da Paraíba par que os discentes cegos pudessem avaliar tais modelos.

Resultados e Discussão

Os grupos formados desenvolveram e apresentaram cada qual o seu modelo sob sua optica,
sendo direcionados a explicar tais conteúdos a estudantes cegos. Onde por meio de tais modelos os
discentes cegos obtivessem a maior percepção sobre tais conteúdo.
O primeiro grupo apresentou o modelo atômico de Dalton (figura 1), para tanto utilizaram
bolas de gude para explicar tal modelo, representando uma esfera maciça e indivisível como afirmava
Dalton.

Figura 1: modelo atômico de Dalton


Fonte: arquivo do autor.
O modelo representado por meio de bolas de isopor e bolinhas de gude vem simbolizar com
eficácia, pois segundo os alunos cegos a percepção é semelhante ao que eles obtém por meio da voz
do professor e como eles visualizam mentalmente a explicação.
O segundo grupo apresentou o modelo atômico de Thomson (figura 2), descrito como uma
esfera incrustada de elétrons.
Figura 2: modelo atômico de Thomson
Fonte: arquivo do autor.
Este modelo simbolizado por bolas de isopor, contem miçangas que simbolizam as cargas
positivas e as cargas negativas que estão incrustados foram representadas por meio de um sulco. Fato
de suma importância para a percepção dos alunos DV.
O terceiro grupo demonstrou o modelo atômico de Rutherford (figura 3), no qual tal modelo
representa os elétrons girando em torno de um núcleo.

Figura 3: modelo atômico de Rutherford


Fonte: arquivo do autor.
Para retratar tal modelo os alunos confeccionaram com bolas de isopor de diferentes tamanhos
e arame de ferro. O modelo descreve com satisfação a representação mental que os alunos DV obtém
no decorrer da explanação do conteúdo.
O quarto grupo representou o modelo atômico de Bohr (figura 4), no qual o elétron ao receber
energia salta para uma camada mais externa e ao retornar ele libera tal energia na forma de luz.

Figura 4: modelo atômico de Bohr


Fonte: arquivo do autor.
Tal modelo foi confeccionado com lata de leite, bloco de madeira e um pequeno motor que
quando ligado promove a sensação de uma transição de elétrons nos sulco existente na lata de leite.
A motivação em produzir tais modelos que pudessem ajudar a compreensão da disciplina por
meio de alunos cegos e consequentemente o feedback por meio dos alunos deficientes visuais foi de
grande valia para que o trabalho obtivesse êxito.

Conclusões

A pesquisa realizada nos proporcionou uma visão mais ampla relacionada a relação ensino
aprendizagem e a convivência entre alunos com e sem deficiência, a motivação quando prevalece
proporciona a todos os sujeitos o mecanismo necessário para buscar soluções que visem um bem
comum. A relação conteúdo vivenciado e pratica, obteve um aprimoramento quando desafiados a
colaborar na disseminação do conhecimento e desta forma obter uma escola inclusiva onde seus
sujeitos estejam todos na busca pelo mesmo objetivo: uma significativa aprendizagem.

Referências

ARAÚJO, Iêda da Silva. Inclusão de alunos surdos na escola regular do município de alagoinha-Pb.
2014 – Guarabira, TCCTrabalho de conclusão de curso de licenciatura em Pedagogia. UEPB. 34p

BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de


1996. Brasília, 1996. Disponível em: . Acesso em: 08 mai. 2015.

______. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Parâmetros Curriculares


Nacionais: adaptações curriculares – estratégias para a educação de alunos com necessidades
educativas especiais. Brasília: MEC, 1999.

MANTOAN, Maria Tereza Egler. Ser ou estar, eis a questão: explicando o déficit intelectual. Rio
de Janeiro: WVA, 1997.

OLIVEIRA, Marta Kohl de. Vygotsky: Aprendizado e Desenvolvimento Histórico. 4ª Edição. São
Paulo: Editora Scipione, 1997.

DINIZ, Debora. O que é deficiência. São Paulo; Brasiliense, 2007. Coleção primeiros passos; 324.

MINAYO, Maria Cecília de Souza. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde.


– 14.ed. – São Paulo. Hucitec 2014.

CHASSOT, Attico. Alfabetização Científica: uma possibilidade para a inclusão social.


Revista Brasileira de Educação, jan./fev./mar/abr., n 22, 89-100, 2003.

POZO, J. I.; CRESPO, M. A. G.. A Aprendizagem e o Ensino de Ciências: do conhecimento


cotidiano ao conhecimento científico. 5. Ed. Porto Alegre: Artmed, 2009.