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FACULDADE DE TECNOLOGIA E CIÊNCIAS – FTC

CURSO DE GADUAÇÃO EM PSICOLOGIA


ESTRATÉGIAS DE ENFRENTAMENTO E SUPORTE SOCIAL

ANÁLISE DE CONCEITOS E CONTEXTOS DE VIOLÊNCIA SIMBÓLICA


CONTRA CLASSES SOCIAIS DESPRIVILEGIADAS

SONIA RIBEIRO DE BRITO

VITÓRIA DA CONQUISTA, 2018/1


SONIA RIBEIRO DE BRITO

ANÁLISE DE CONCEITOS E CONTEXTOS DE VIOLÊNCIA SIMBÓLICA


CONTRA CLASSES SOCIAIS DESPRIVILEGIADAS

Trabalho apresentado como avaliação


parcial da disciplina Estratégias de
Enfrentamento e Suporte Social I, sob
a orientação do professor Manoel
Lima Acioli Neto.

Vitória da Conquista, 2018/1


1. INTRODUÇÃO

Segundo Gergen (2008), “a Psicologia é usualmente definida como ciência do


comportamento humano e a Psicologia Social como aquele ramo da Psicologia que
estuda as interações humanas [...] a fim de descrever e explicar a interação social”.
Os objeto de estudo deste trabalho é o documentário ‘A 13ª Emenda’, (Ava
DuVernay, EUA, 2016) ,o qual discute o trecho da Constituição estadunidense que lhe
nomeia. As referências contextuais contidas no documentário foram analisadas com
base no texto de Ignácio Martín-Baró, intitulado ‘O papel do psicólogo’, o qual objetiva
trazer uma discussão acerca do fazer psicológico quanto a conscientização dos direitos
identitários pessoais e sociais visando romper as condições opressivas de seu cenário e,
também, de parte do livro ‘A ralé brasileira’ de Jessé Souza, a saber os capítulos que
dissertam sobre ‘O mito brasileiro e o encobrimento da desigualdade’, o qual engloba
‘A construção do mito da brasilidade’ e ‘O senso comum e a justificação da
desigualdade’.

2. A 13ª EMENDA

Este documentário de Ava DuVernay discute a questão que envolve o


encarceramento em massa de uma classe racial e social específica da população dos
Estados Unidos, o enredo do documentário se desenrola no formato de um percurso
histórico que demonstra o crescimento exacerbado da população carcerária através dos
anos. Tal obra deixa bem claro preconceito velado, disfarçado de guerra às drogas, na
qual o abuso de drogas é tratado como problema criminal ao invés de um problema de
saúde pública.
Durante o desenrolar do documentário é possível conhecer as visões que cada
chefe de Estado que passou pelo comando dos Estados Unidos tiveram sobre a questão
da adição e do tráfico de drogas, bem como as medidas que adotaram para combatê-los.
Combate que, na verdade, foi utilizado como argumento de campanha política, forçando
um heroísmo contra a imagem preconceituosa de monstruosidade criada e associada aos
negros e latinos, principalmente aqueles envolvidos com o uso de substâncias
psicoativas.
Cada mandato governamental cuidava de acrescentar motivos para que a
população temesse a classe de cor e desprivilegiada, associando atos de violência
sexual, física e de ataques ao bem-estar da sociedade. Isso para que a imagem de
heroísmo de cada candidato influenciasse os resultados das eleições a medida que os
políticos que mais demonstrassem agressividade no trato com essas “ameaças á
sociedade” eram os candidatos ideias para governar a nação.
Ou seja, toda uma população foi dizimada através de exclusão social, negação de
direitos, violência tanto física quanto simbólica, negação de humanidade,
encarceramento por motivos insignificantes que geraram afastamento da família, entre
outros tipos de coerção e hostilidade.

3. A RALÉ BRASILEIRA

Para compor a análise do documentário A 13ª Emenda utilizamos parte do livro


‘A ralé brasileira’, de Jessé Souza.A introdução do livro destejá esclarece o propósito de
discussão que irá se desenvolver ao longo dos capítulos que o compõe. O autor inicia
desmistificando a crença altamente difundida na sociedade atual de que os problemas do
país são totalmente conhecidos esquematizados e, ainda o de que a desigualdade que
nos aflige é um problema advindo de tempos longínquos, o que impossibilita sua
resolução por já vir arraigado por gerações e gerações (SOUZA, 2009, p. 15).
Tal visão, segundo o autor, possibilita um processo por ele designado de
naturalização da desigualdade social, como se, por acompanhar a sociedade há muito
tempo, a disparidade entre classes já tivesse se tornado um traço social inerente do
nosso povo. Essa naturalização causa um sentimento de desamparo e de impotência, já
que aqueles que chegam e passam pelo poder dificilmente se esmeram em tentativas de
mudar essa crença tão sólida de aceitação da desigualdade (SOUZA, 2009, p. 15).
Isso porque essa sociedade desigual é um ótimo material para que se mantenham
em funcionamento os mais diversos jogos de dominação que mantém ativo o sistema
economicista, o qual segundo Souza (2015, p. 109) é a crença explícita ou implícita de
que o comportamento humano em sociedade é explicado unicamente por estímulos
econômicos”.
O sistema economicista basicamente desconsidera as características não
econômicas associadas a realidade social das classes, como as condições sociais,
emocionais, culturais e morais que são inerentes a existência humana (SOUZA, 2009, p.
18).
3.1 A CONSTRUÇÃO DO MITO DA “BRASILIDADE”

Souza (2015, p. 29) traz a discussão o conceito de ‘mito nacional’, o qual é por
ele descrito como “a forma moderna para a produção de um sentimento de
‘solidariedade coletiva’, ou seja, por um sentimento de que ‘estamos todos no mesmo
barco’ e que, juntos, formamos uma unidade”. O mito brasileiro então é caracterizado
por aqueles dizeres que todos nós já pronunciamos ou ouvimos de alguém durante a
vida, como ‘brasileiro é o povo da alegria, da hospitalidade, do futebol, da emoção, da
espontaneidade’ e tantas coisas mais.
Esse mito parece-nos algo que tenta fazer um contraponto com a racionalidade,
como se o fato de questionar e avaliar criticamente não fizesse parte da nossa
nacionalidade. O que é muito conveniente aos interesses políticos e econômicos das
classes governantes com seus interesses políticos e econômicos sempre colocados à
frente dos interesses sociais.
Souza (2015, p. 30) faz uma comparação interessante do mito nacional com os
objetivos das religiões em outros tempos em que tinham mais influência política, assim

“... o mito nacional substitui, em grande medida, aquilo que, em


épocas passadas, era produzido pelas grandes religiões mundiais,
como fonte de solidariedade coletiva. A identidade nacional é, desse
modo, uma espécie de mito moderno é uma transfiguração da
realidade de modo a provê-la de “sentido” moral e espiritual para os
indivíduos e grupos sociais que compõe uma sociedade particular”.

Souza (2015, p. 31) traz ainda que o termo DNA “simbólico” da sociedade, o
qual caracteriza as unidades em que se medem o desenvolvimento e/ou o bom
funcionamento do país enquanto nação. Fica bem destacado que a crença enraizada do
economicismo teve grande influência sobre a maneira como se avalia o
desenvolvimento do país.
O Brasil hoje se mede em unidades econômicas, por exemplo, em PIB ou renda
per capita, enquanto outros países se avaliam em termos de qualidade de vida, garantia
de direitos ou pela maneira como recebe os imigrantes.
O desafio a que o autor se propõe é esclarecer o motivo pelo qual o nosso DNA
nacional sob tais bases e não sob outras bases como as citadas de outros países, sendo
que esse DNA é construído historicamente. Então, a forma mais eficaz e conseguir
alcançar esse objetivo seriam a busca e a análise de fatores e acontecimentos
influenciaram a construção desse DNA.

3.2. SENSO COMUM E JUSTIFICAÇÃO DA DESIGUALDADE

Neste capítulo Souza (2015, p. 41) descreve o senso comum como sendo a forma
como as pessoas comuns dão sentido às suas vidas e ações cotidianas. E, vista a
deficiência no esclarecimento da população quanto aos conceitos que compõe os fatores
necessários para o bom funcionamento de uma sociedade, o senso comum vem
preencher as lacunas deixadas por essa deficiência de conhecimento.
Acontece que o senso comum tão espalhado e reforçado na sociedade nos
impede de avançar quanto a questionamentos da ordem da gênese dos problemas da
desigualdade social e nos faz ver o conflito como se fosse o próprio mal, não o caminho
para o esclarecimento faz com que a chamada “ideologia espontânea” apoie a
continuidade de todos os privilégios de classe (SOUZA, 2015, p. 42).
Nessa perspectiva, o senso comum ocupa uma função dupla, visto que ao mesmo
tempo em que nos possibilita domínio de conhecimentos necessários à vida diária,
também reforça o poder dominante e permite a perpetuação dos padrões deturpados de
funcionamento social (p 42).

4. O PAPEL DO PSICÓLOGO

Também o artigo intitulado ‘O papel do psicólogo’ de Ignácio Martín-Baró


servirá de base para a análise do documentário já citado. O autor do texto visa levantar a
discussão da atuação do psicólogo centro-americano [não deixa de ser válido para
todos] acerca de contextos e situações problemáticas, ainda que não seja diretamente
convocado, enquanto profissional e classe para a resolução dos mesmos (SOUZA, 2009,
p. 15).
Martin-Baró (1996, p. 7-8) afirma que no momento da construção da identidade
profissional e o desenho do papel a ser desempenhado enquanto psicólogo é mais
importante conhecer e analisar a situação histórica do povo e de suas necessidades do
que o estabelecimento do âmbito especificamente no campo laboral ou científico. Sendo
assim, essa construção se baseia em 03 pilares fundamentais, a saber, a injustiça
estrutural, a luta revolucionária e a conversão das nações em satélites dos Estados
Unidos. Por recorte metodológico e visando uma correlação com o documentário
analisado, escolhemos falar apenas dos dois primeiros citados.
A questão da injustiça estrutural se caracteriza por uma maior parte do povo
centro-americano que tem seus direitos essenciais sendo oferecidos de forma
insatisfatória ou mesmo negados e em contraste a essa realidade possuir uma
superabundância entre as minorias oligárquicas, o que denota uma violação dos direitos
humanos (MARTIN-BARÓ,1996, p. 7-8).
Quanto à luta revolucionária, esta é caracterizada pela situação de guerra ou
quase-guerra que tece o plano de fundo centro-americano, situação que, somada a
miséria cultural formam um corpus mais completamente passível de análise. A região
centro-americana, nos últimos anos, devidos aos fatores citados vive uma estratificação
econômica, pendendo para o retrocesso além de um crescente processo de militarização
(MARTIN-BARÓ,1996, p. 10).
Diante de tal situação, coube o questionamento muito pertinente feito por Marc
Richelle, em 1968 “para que psicólogos?”, ao qual Didier Deleulle respondeu:

A Psicologia oferecia uma solução alternativa para os conflitos


sociais: tratava-se de mudar o indivíduo preservando a ordem social
ou, no melhor dos casos, gerando a ilusão de que, talvez, ao mudar o
indivíduo, também mudaria a ordem social, como se a sociedade fosse
apenas uma somatória de indivíduos [grifo nosso] (DELEULE, 1972
apud MARTIN-BARÓ, 1996, p. 12)

Martin-Baró considera dar algum certo crédito a essa opinião, haja vista que a
atuação dos profissionais de Psicologia da região dava atenção predominante, quiçá
exclusiva aos setores mais privilegiados. Trabalhando no sentido de fazer parecer que
que o contexto social fazia parte de uma natureza imutável a qual os indivíduos
deveriam enfrentar com resiliência, resolvendo seus problemas subjetivos provocados
pelo contexto social de modo individual. Assim, a psicologia estaria trabalhando à
serviço da manutenção da ordem estabelecida, acompanhando o ritmo de todas as outras
profissões que assim atuavam (MARTIN-BARÓ,1996, p. 13).
Ainda segundo Martin-Baró (1996, p. 15-16) a melhor maneira então de se
traçar o caminho oposto é examinar criticamente o papel do psicólogo através da visita
às raízes históricas da própria Psicologia, desviando o olhar analítico do psicólogo do
mero comportamento observável e redirigí-lo para à consciência de si mesmo. À medida
que esse processo acontece, tornando as pessoas mais conscientes de si mesmas,
enquanto indivíduo e membros de uma sociedade eles tornam-se , através de uma
melhora em sua capacidade de decodificação do mundo, aptos a captar as estruturas
opressoras e desumanizantes e, de posse dessa nova consciência formada criticamente
adquire

“...a possibilidade de uma nova práxis que, por sua vez, possibilita
novas formas de consciência... A pessoa começa a se descobrir em seu
domínio sobre a natureza, em sua ação transformadora das coisas, em
seu papel ativo nas relações com os demais. Tudo isso lhe permite não
só descobrir as raízes do que é, mas também o horizonte do que pode
chegar a ser. Assim, a recuperação de sua memória histórica oferece a
base para uma determinação mais autônoma de seu futuro”
(MARTIN-BARÓ,1996, p. 16).

A discussão levantada por Martin-baró traz a conclusão de que, ainda que o


sicólogo não seja convocado a atuar diretamente nas situações problemáticas
fundamentais, é dele o papel de realizar as intervenções necessárias nos processos
subjetivos que sustentam e facultam as estruturas de injustiça, situando novas rotas para
substituir hábitos opressão e violência por outros novos ajustadamente saudáveis. Cabe
ainda ao psicólogo contribuir com a formação da identidade tanto pessoal quanto
coletiva dos indivíduos.

5.ANÁLISE E CONEXÃO DE CONCEITOS ENTRE AS PRODUÇÕES


9.REFERÊNCIAS

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