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POR

WILLIANS DIAS

CAPOEIRA CHEGA A SER RELIGIÃO


COM SEUS MÁRTIRES E HERÓIS

RIO DE JANEIRO
AGOSTO / 1997

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AGRADECIMENTO

Agradeço ao meu amigo Roberto “Orelhinha” por ter me


apresentado à capoeira; ao Mestre Poeira que acompanhei por
tantos anos, e assim somou para meu aprendizado com seus
conselhos; ao Mestre Neco Pelourinho por ter me apresentado a
capoeira angola; ao Mestre Moraes por tudo que nos ensinou
quando ainda éramos do GCAP; ao Mestre Braga e ao meu amigo
Manoel que abriu as portas do seu espaço na Av. Passos nº. 34
Centro do RJ, não só para mim mas para todos do GCAP-RJ . E
assim me inspirando-me a inteligência e levando-me a enfrentar
meus desafios e não apenas a ter cultura informativa. Não se
calando sobre seus conhecimentos, mas transmitindo como
experiência de vida, pois as informações são arquivadas na
memória e as experiências são cravadas no coração..

“BONS PROFESSORES SÃO MESTRES TEMPORÁRIOS, PROFESSORES


FASCINANTES SÃO MESTRES INESQUECÍVEIS”.

“O PIOR CÁRCERE NÃO É O QUE APRISIONA O CORPO, MAS O QUE


ASFIXIA E ALGEMA A EMOÇÃO”.

(AUGUSTO CURY)

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A palavra religião é por vezes usada como sinônimo de fé ou crença,
mas a religião difere da crença pessoal na medida em que tem um
aspecto público. As maiorias das religiões têm comportamentos
organizados, incluindo as congregações para orações, hierarquias
sacerdotais, lugares sagrados, e/ou escrituras.

Acadêmicos que estudam o assunto têm dividido as religiões em


três categorias amplas: religiões mundiais, um termo que se refere
às crenças transculturais e internacionais, religiões indígenas, que se
refere à grupos religiosos menores e específicos de uma
determinada cultura, e os novos movimentos religiosos, que se
referem a crenças recente desenvolvidas.

O desenvolvimento da religião assumiu diferente formas em


diferentes culturas, Algumas religiões colocam maior ênfase na
crença, enquanto outras enfatizam a prática. Algumas religiões
focam na experiência subjetiva do individuo religioso, enquanto
outras consideram as atividades da comunidade como mais
importantes. Algumas religiões afirmam serem universais,
acreditando que suas leis e cosmologia são obrigatórias para todos,
enquanto outras se destinam a serem praticada apenas por um
grupo localizado. A religião muitas vezes faz uso da música,
meditação e da arte. Em muitos lugares tem sido associada com
instituições públicas, como educação, família, governo. Poder e
política.

Uma das teorias mais influentes da religião atualmente é o


construtivismo social, que diz que a religião é um conceito moderno,
sugerindo que toda prática espiritual e adoração segue um modelo
semelhante ao do cristianismo; o construtivismo social sugere que a
religião, como um conceito, tem sido aplicada de forma inadequada
para culturas não ocidentais.

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Quando em 1980 ao procurar artigos falando de dos Mestres de
Capoeira, naquela época não encontrei nada se referindo aos
antigos praticantes dela, rara era às vezes, encontrada em revistas
de Arte Marciais e não as específicas de Capoeira, por tanto só
tinha algo atual e com poucas informações. Não era como hoje
com a Internet que é só colocarmos o nome de um mestre no
Google que temos fotos e históricos completos deles.

Dei inicio a minha procura por matérias em jornais, revistas e


filmagens em Museus, sebos ( Rio de Janeiro ) e por aonde eu ia à
visita, tanto a passeio como para participar de alguma roda de
capoeira, mas selecionei as que eu achei interessante com suas
publicações mais antigas, sei que muito do que aqui se encontra já
devem tê-las, mas eu as publico como uma realização pessoal, em
um tempo, que para nós eram poucos os que tinham acesso a algo
em relação daqueles que tanto fizeram para que hoje tivéssemos a
Capoeira sendo praticada no mundo todo, mesmo que não seja
por eles levada, mas com certeza foi por alguns discípulos de um
deles aqui postado em alguma matéria.

Mesmo não sendo um livro e só algo pessoal, xerocado e


encardenado por mim para ser presenteado para poucos que eu
considero amigo, amante ou praticante de Capoeira, eu estou
muito feliz em compartilhar um pouco do que eu consegui ajuntar
em meu pequeno acervo pessoal.

Willians

Contato:penninhasoangola@hotmail.com

021-997230834

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DIÁRIO DE NOTÍCIAS, RJ, 15 DE ABRIL DE 1956

NA CAPOEIRA O SEGREDO DO ATAQUE ESTÁ NA


“DANÇA”

Muitos dizem que a capoeira não é luta, é apenas uma


dança. Mas é nesta dança que está o verdadeiro segredo
do ataque e da defesa, ainda não igualados em outros
tipos de lutas. Quem nos diz isto é Vicente Pastinha, o
mais respeitado capoeirista da Bahia, não obstante os
seus 70 anos. Juntamente com os capoeiristas
Canjiquinha, João Grande, Bigodinho, João Pequeno,
Almiro e Vivaldo, Mestre Pastinha fez ontem, uma
exibição à Imprensa de sua arte no terraço do Hotel
Glória. O Grupo acaba de regressar de Porto Alegre,
numa excursão promovida pelo Lóide Aéreo Brasileiro,
em combinação com o Departamento de Turismo de
Salvador. Além dessa parte folclórica, seis lindas
morenas encarregam-se de reafirmar em plagas o
prestigio da beleza da mulher Baiana. Durante a exibição
da capoeira, Mestre Pastinha de fora, prestava ao
repórter algumas explicações: - Há tantos passos
diferentes que um homem só não pode apresentá-los.
Além disso, cada jogador tem sua manha diferente. O
golpe principal é o improviso. Em certo momento os
jogadores apertaram as mãos, e o repórter quis saber se
aquilo era comprimento. “E – respondeu-nos – mais isso

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tudo é falsidade; Mestre Pastinha joga capoeira desde os
10 anos, e é fundador do “Centro Esportivo de Capoeira
Angola”, de Salvador BA, do qual fazem parte os
componentes do grupo. Quando alguém perguntou se
ele não jogava, não se fez de rogado: tirou o paletó e
saltou no meio da roda.

Os capoeiristas jogam no centro de uma roda, formada


pelos ritmistas e cantores. Os principais instrumentos
são o berimbau e pandeiro, também conhecidos como
gunga e bode. Para percutir o berimbau, que mais se
assemelha a um arco indígena, são usadas uma vareta e
uma moeda de 400 réis. Os outros instrumentos,
secundários, são o reco-reco, viola, castanholas e agogô.
As letras das cantigas são igualmente pitorescas:

Iê contaram a minha mulher/ Que capoeira me venceu/


ela bateu pé firme/ jurou: isso não aconteceu/ Quando
eu entro você sai / quando eu saio você entra/ nunca vi
mulher danada/ que não fosse ciumenta. Nesta altura o
cantor virou-se e disse: - Isso é uma verdade.

O louvar é cantado pelo coro: E viva meu Deus/ e viva


meu Mestre/ ele é Mestre meu/ ele é cabeceiro.

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DIÁRIO DE NOTÍCIAS, RJ, 15 DE ABRIL DE
1956

NA CAPOEIRA O SEGREDO DO ATAQUE


ESTÁ NA “DANÇA”

Em seguida, o ritmo acelera: Cala a boca,


moleque/ moleque é tu/ dá, dá, dá no
nêgo/ Ô no nêgo você não dá/ esse nêgo é
danado/ esse nego é valente/ esse nego é
o cão. E é nesta altura que os dois
jogadores que até então estavam se
estudando, abaixados, plantam as mãos
no chão e dão início á capoeira
propriamente dita. A regra principal, só
podem atingir o adversário com os pés.

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Mestre Pastinha com uma das mãos no chão e corpo no ar, é
o mais conhecido capoeirista da Bahia. Com seus 70 anos de
idade e 60 de capoeira, mostra que ainda está em forma.

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JORNAL DO BRASIL, RJ. 15 DE ABRIL DE 1959

CAPOEIRISTAS BAIANOS DERAM “SHOW” NO HOTEL


GLÓRIA SOB DIREÇÃO DO VELHO MESTRE PASTINHA

Ao som de pandeiro, berimbau, reco-reco e outros


instrumentos típicos, seis capoeiristas baianos do grupo
do famoso Mestre Pastinha (setenta anos de idade e
mais de meio século de pernadas) ofereceram ontem na
varanda do Hotel Glória um autêntico “show” de rabos-
de-arraia, numa verdadeira representação coreográfica
de técnica de luta criada pelos negros africanos.

Mestre Pastinha, que é diretor e Professor do Centro


Esportivo de Capoeira Angola, em Salvador, afirmou ao
JORNAL DO BRASIL que na capoeira tudo é falsidade
quando o camarada menos espera está no chão. Por isso
todo capoeira é desconfiado.

Os capoeiristas são Mestre Pastinha, Canjiquinha, João 1,


João 2, Bigodinho , Camafêu e Almiro.

Mestre Pastinha não bebe álcool e luta capoeira desde


pequenino. Diz ele que ninguém queria ensinar capoeira
(seus alunos dizem que ele nunca ensina o pulo do gato),
mas afinal ele conseguiu fundar a sua Escola que hoje
tem muitos alunos e cobra 450 cruzeiros por mês (três
aulas por semana). Sabe mais de 100 golpes e afirma
categórico todos eles são tão perigosos (ou até mais) do

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que rabo de arraias ou cabeçada. SETENTA ANOS
GINGANDO.

”O Brasil disse que sim/ O Japão disse que não/ duas


esquadras poderosas /vai brigar co alemão./ O Brasil
tem dois mil homens/ pra pegar no pau furado/ eu não
sou palha de cana/ pra morrer asfixiado.Ou então;

“Dá, dá , dá no nego

O no nego você não dá (repete três vezes)

Esse nego é valente

Esse nego é danado

Esse nego é o cão

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FOLHA DE SÃO PAULO, 28 DE MAIO DE 1958

DITADO PELO SOM DOS BERIMBAUS; O JOGO DA


CAPOEIRA DE ANGOLA

Os toques do primitivo instrumento servem até para


indicar a presença de estranhos. – Modalidade de luta
tradicional, em que uso dos pés e da cabeça supera de
longe o das mãos – “Capoeiras” famosos, dos quais
dizia “terem o corpo fechado”

SALVADOR, 11 (via VARIG) – Reide “Brasil Norte-Sul”, da


reportagem das folhas no jipe nacional DEW – WEMAG.
– “Sinhazinha que vende aí? Vendo arroz do Maranhão;
Meu sinhô mando vende; Na terra do Salomão”.

Mestre Pastinha tirava as chulas de fundamento, de


cócoras, ao lado de seu “adversário”, de fronte dos
berimbaus, enquanto o coro responde: - “E, ê, aruandê
camarado; Galo canto; E, ê, galo canto, camarado...” Os
lutadores, de cócoras, saltitam, talvez rezando suas
“rezas fortes”, para livrar de bala, emboscada, ou faca;
chegam, depois, ao centro da roda, virando o corpo
sobre as mãos e começam o gingado, que é ao mesmo
tempo uma guarda e um passo de dança, e a luta
principia.

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OS TOQUES DO BERIMBAU

O berimbau é que dita o jogo. Se tocar “São Bento Grande”, o


jogo é ligeiro, se toca “São Bento Pequeno” o jogo é “samba
da capoeira”. Tocando “Banguela”, é “jogo de dentro”, com
faca, enquanto no “Santa Maria” é toque para o “hino da
capoeira”, e no toque de “Amazonas” o jogo é médio. Para o
“jogo de baixo” o toque é “Iuna” e os berimbaus tocam
“Cavalaria”, como toque de aviso, quando se aproxima
alguém não ligado a roda.

O berimbau é o principal instrumento da luta da capoeira.


Antigamente era usado o “berimbau de boca”, uma corda de
cipó “timbó” num arco, no qual a boca era a caixa de
ressonância e a percussão se fazia com uma faca sobre a
corda. Hoje, é usado o “berimbau de barriga” constituído por
uma vara de pau “pombo”, que mantém em tensão um arame
de aço. A caixa de ressonância é uma pequena cabaça unida
ao arame por um barbante. A vareta produz o som seguindo-
se as modulações com uma moeda de vintém, e com maior ou
menor aproximação da boca da cabaça è barriga. A mão
direita, que segura a vareta entre o polegar e o indicador,
segura também o caxixi, com os dedos médio e anular. Dessa
forma, cada pancada da vareta sobre a corda é acompanhada
pelo som seco do ca xixi. Este instrumento é uma pequena
cesta de bambu contendo sementes de Ticum, e fechada, na
base, com casca de cabaça. O reco-reco, um grande gomo de
bambu com incisões transversais, sobre as quais se passa um
pedaço de madeira, e o conhecido pandeiro, completam a
orquestra, ara acompanhamento da capoeira.

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O JOGO DA CAPOEIRA

A capoeira trazida para o Brasil (e vingou em toda a região do Recôncavo


Baiano) pelos negros vindos de Angola, possivelmente guerreiros. Na
capoeira os pés e a cabeça tem a maior importância, passando as aos para
um plano secundário, tornando-se uma luta eficiente contra os europeus,
habituados a empregar quase exclusivamente as mãos em suas lutas de
defesa e ataque. Terá sido esse, aliás, o principal motivo da repressão
Policial que a capoeira sofreu nos tempos dos senhores de engenho. Os
negros, entretanto, não demoraram a encontrar uma solução: da mesma
maneira que souberam camuflar a sua religião com a de seus senhores,
fantasiaram também a capoeira, introduzindo pantomimas mímicas a
danças, acompanhadas de música. Formavam rodas em que lutadores se
exercitavam ao som dos berimbaus de boca e de palmas, e os senhores e as
sinhás, gostavam de apreciá-los. E assim, brincando, vingo essa bela
modalidade de luta na Bahia. Os capoeiristas da velha-guarda, entretanto,
conservam ainda como Mestre Pastinha, a autenticidade original do jogo,
feito à base de agilidade e esperteza.

BERIMBAU DE BOCA

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FOLHA DE SÃO PAULO, 28 DE MAIO DE 1958.

DITADO PELO SOM DOS BERIMBAUS O JOGO DE CAPOEIRA ANGOLA

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A idade não impede que Vicente Pastinha continue a lutar como um garoto

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DIARIO DE NOTICIAS – PORTO ALEGRE – 10/3/1959

VEM A PORTO ALEGRE A AUTÊNTICA BAHIA: CAPOEIRA E ARTE POPULAR

Juntamente com as “carrancas” do Rio São Francisco, será apresentado os


maiores jogadores de capoeira da Bahia.

SALVADOR, março de Giênio Peres, nosso enviado especial. – Juntamente


com as famosas <carrancas> do Rio São Francisco, com as peças de arte
popular da Bahia, a exposição de gravuras e de poesia ilustrada, irá a Porto
Alegre, também uma equipe composta dos mais famosos jogadores de
capoeira, de Salvador, para demonstrações em praça pública na capital dos
pampas.

A viagem dos capoeiristas baianos está praticamente assentada graças a


boa vontade encontrada pela Diretoria de Turismo de Salvador, junto ao
mais famoso dos Mestres da capoeira, Pastinha, que com mais de sessenta
anos de idade dirige e atua em sua Academia de Angola. Deste núcleo de
ensino e exercício da capoeira irão cerca de 10 jogadores, autênticos
bailarinos e expoentes da capoeira na Bahia, juntamente com os músicos e
instrumentos típicos necessários as demonstrações.

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