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FAC 2 bem Nor , REESE UU rece ny Vly cme fasts dine) a Poy wuabrtlowy ole ashy Worrs Vp Ore frm de Hye Fee ep AD agi Fhe wrhirre i etna Csr, Ka em 5 Vad very Beiter Paulo Alcantara Gomes Vieeriver José Henvigue Vins de Paiva Coordenadore de Foran de Citucia ¢ Cultura Myrian Daueiberg EDITORA UPR) Dirstora — Weloisa Buarque de Holanda Eclitare-asiitome Lica Cancdo Coordenadara de produgie Ava Carico Conselbo Editorial ieoisa Buarque de Hiollanda (Presiden), Carlos Lees, Fernando Labo Carneiro, Flora Susskind, Gilberro Velho, Margarida de Soura Neves ESP /UER, BIBLIOTEC, Introdugdo Critica & Sociologia Brasileira Gurrremo Ramos Hi do ge (ne (e Trower glen teens) os A bnisadiy Toh, ae He, 2, Warr bie © Ui ue ie nestbin, > diay KO Gu 6 ve dy pee 4 in We wat, GAN de kN Se fer Eprrora UFRJ 1995 WEY Copyright by © Clélia Guerreiro Ramos Fiche Caralogrifica daborada pela Divisio de Processamento Técnico - SIBYUFRJ RI7Si Ramos, Alberto Guerreiro, 1982 Introdugio critica & sociologia brasileira J Alberto Guetseiro Ramos. Rio de janeiro: Editora UFRJ, 1995. 292 pa M4 X 21 em. (série Terceita Margem) ‘Apéndices 15 p. 1. Sociologia - Brasil 2, Sociologia Escudo © Ensino. 1. Treo. DD 301.0981 ISBN 85-7108-128-X on ce QU Vi Revisdo invodugdo crea & socologia brasieta / Joserce Babo . 0181) R175) Projeto Gréfico ¢ Editoragio Elewinica Alice Brivo vwisogon46246 - 1uo00080852 Bipiotece do IESP Universidade Federal do Rio de Janeiro Forum de Cigncia ¢ Culeura Edicora UFRJ ‘Av, Pasteur, 250/sala 106 - Rio de Janeiro CEP: 2295-900 Tel: (021) 295 1595 1035/36/37 Fax: (021) 295 1397 € 295 2346 MP resto Uns Jt Roi FESP/UERI — Bipinr Sumdrio Da Sociologia em Mangas de Camisa & ‘Tiinica Inconsicil do Saber Cliwis Brigagto © Negro Como Lugar Joe! Rufino dos Santos Preficio PRIMEIRA PARTE Critica da Sociologia Brasileira I - Notas para um estudo erftico da sociologia no Brasil I ~ Critica ¢ autoeritica mM - Ni IV - A dinimica da sociedade politica no Brasil alismo ¢ xenofobia V - Esforgas de tcorizagio da realidade nacional politicamente orientados, de 1870 aos nossos dias 1 - Os republicanos de 1870 I -O movimento positvisea LIL - Sylvio Romero e a sociologie da sociedade republicana IV ~ Os idetlogos da ordem e progreso VA revolugdo da clasie média VI -& revolugéo de 1930 VIT - Conclszo 19 31 35. 49 55 59 79 81 83 86 89 95 96 99 SEGUNDA PARTE ‘TERCEIRA PARTE. Carsitha Brasileira do Aprendiz. de Sociblogo Documentos de uma Sociologia Milivante (preficio a uma sociologia nacional) 1 ~ Patologia social do “branco” brasileiro 215 I~ Nota explicativa 103 11 - © negro desde dentro 241 IIL - Politica de relagées de rage no Brasil 249 Tl - Sociologia enlatada versus sociologia dinamica 105 III - A sociologia como instrumento de TV = O ensino da sociologia no Brasil, Tl - “sa descida aos infernos” se Aa oes uum caso de geragio espontinea? 11 V ~ Para uma sociologia "em mangas de camisa” 131 ANEXo. VI - Meditagéo para os sociélogos em flor 137 O Tema da Transplantagio na Sociologia Brasileira VIL - A industrializagio como categoria sociolégica 143 Enceléquias na ineerprecacso an VIII - © problema da pesquisa socidloga no Brasil 151 IX - Para uma aurocritica da sociologia brasileira 157 X = © problema do negro na sociologia brasileira 163 Ganiter geral da sociologia ¢ da anerepologia no Brasil 164 -Histiria sincera dos estudos sobre 0 negro no Brasil 168 -Syivio Romero € « mesicagem 169 L ~Buclides da Cunha € 2 metigagem im 1880/06) speioTeea “Alberto Torres € a mesticagem 176 . + Oliveira Viana, arianicante 179 Nina Rodvigues,apologicen do branco 183, =O negro como tema 187 Sociologia do negys, idevlogia da brancira 190 ~Pasiado ¢ presente da nova fase 202 f Da Sociologia em Mangas de Camisa 2 Tunica Inconsisil do Saber Clovis Brigagiot Em cottespondéncia mantida ao longo de mais de quinze anos (1966/82) com 0 Professor Guerreiro Ramos, volta e meia trocé- vamos idéias sobre a oportunidade da reedigao de sua obra. Diante da minha insisténcia, justificando a relevancia de seu trabalho intelectual, iniciado nos anos 30 e terminado com sua morte em 6 de abril de 1982, em uma de suas cartas (16/7/80), ele me Minha presence agendy € chet de vide e excitante © sme exige um bocado de rablho. Asim vamos congelar a idea de reedig6es. Principalmente, penso que os artigos aque publiquei na Revie do Service Piblco nfo merecem neahuma republicacio, Reromando seus contatos comi o Brasil, ap6s o fim de seu exilio nos EUA, levantei novamente o assunto, em uma de nossas ‘conversas no Rio (1981), sobre a oportunidade da reedicéo de sua obra. Guerreiro Ramos, com sua fina ¢ ardil ironia, olhou-me nos olhos ¢ respondeu: “meu querido, hoje, estou aqui nessa janela, olhando vocés passarem...” [e rindo} *...estou em outra... InTRODUGAO CRITICS A SOCIOLOGIA BRASILEIRA minhas obras passadas jd nfo me dizem nada... a nfo ser aquele sentimento de dever cumprido”. No entanto, com o convite feito pela Universidade Federal de Santa Catarina de criar 0 Programa Académico ¢ de Pesquisa em Plancjamento Governamental (iniciado em 12/05/1980), GR voltava a se debrucar sobre temas brasileiros e me solicitava que © ajudasse a coletar artigos e livros que Ihe fossem dteis na tarefa de reingressar na discusséo sociolégica brasileira.’ Era, pois, uma demonstragio viva de que Guerreiro Ramos tencionava voltar a arregagat a8 mangas e teiniciar a sanha de reflecir ¢ atuar na realidade brasileira, sua paixio. “Sou homem que penso o Brasil € quatro horas por dia”, dizia, Com sua stibita morte, em 1982, retomei o “Plano para a Reedicéo da Obra de A. Guerreiro Ramos” (28/11/1985), cole- tando antigas edigées de livros e de textos (inéditos ou publicados em Separatas de Revistas que ja nao mais existem), ajudado pela familia, por amigos ¢ discipulos? Acreditava ser imprescindivel )e do publico em geral, uma das mais profundas ¢ inteligentes obras do pensamento social brasileiro Pensar o Brasil, ém particular, ¢ as cigncias sociais, em geral, como o fez Guerreiro Ramos & sem diivida alguma, revelar as novas geragéies um pensamento, nao sé brasileiramente original, mas universalmente inovador e sofisticado. Guerreiro € um desses raros pensadores, de milicincia de cempo integral fora da horda, que fer uso dos instrumentos intelectuais de forma concundente colocar em mos dos novos profissionais (das ciéncias soci e fecunda, além de possuir uma clegincia e clareza textual incon- fundiveis. Para ele, as cigncias sociais no podiam existir extempo- saneamente: tanto em termos de época e de tempo de intervencio, como do método que GR empregava: enraizado nas teorias clés- cas ecientficas, mas sem o formalismo consular € o positivismo ‘enlatado” © provinciano, que combatia e criticava incansavel- mente. Nao ha diivida de que o pensamento de GR encontrava-se A frente de sua prépria época. 10 oe Da SocioLosia Em Mancas DE Casita. ‘Abra de GR, em seu conjunto e particularmente as que agora selecionamos para o piblico (como as mais caracteristicas de seu pensamento), continua a desafiar o tempo, desde a sua primeira aparigao, para transformar-se em instrumento de anélise da contemporaneidade e de sua transformacéo. Acreditamos que a reedigio de sua obra resgatard 0 valor e a qualidade de uma das mais importantes contribuigées do pensa- mento sociolégico, inicialmente limitado 20 Brasil (¢ um tanto & ‘América Latina) e, 2 partir de seu extlio nos Estados Unidos, difundida ¢ espalhada por outros cantos do mundo. Penso que, no momento em que 0 Brasil, como também o sistema interna- ional, reclamam revisdes ¢ rearticulagées dos mapas cognitivos, reeditar Guerreiro Ramos significa recompor o “elo matticial” que faltava no encadeamento dessa rica tradigo do pensamento crftico, que une © ubiquo 20 utépico, o local ao global, Gk represent uma “eda 48 in ferttos*-ro-senti ‘sacudir os deménios "consulares” da socio- logia convencional e, ao mesmo tempo, é uma subida aos céus, pela acuidade © beleza dos critérios tedricos ¢ metodolégicos elaborados por ele, desde a primeira edigio da Cartitha brasileira de aprendiz: de sociélogo (1* edigéo em 1954 e depois reeditada como Introdugto critica & sociologia brasileira, em 1957) até a A Nova citneia das organizacées, sua tiltima obra. Seu pluralismo ¢ 0 da estirpe que aponta mudangas ¢ transfor- mages nas ciéncias sociaif (“buscar a superagio da ciéncia social rnos moldes institucionais &universitivios em que se encontra”) ‘nas politicas governamentais e da sociedade. Sem jamais esquectt 1 Brasil ¢ seu povo, GR eleva-se ao plano das categorias como a Nipper parentética do homem em relacio as organizacées”, “paradigma paracconémico” (paradigma que delimita a econo- mia de mercado ¢ abrange essa e outras formas sociais), “teoria da 1 vida humana associativa”, “globalidade dos recursos dos siste- ‘mas eonémicos ¢ ecoldgicos” @ Pela primeira vez, a sociologia inaugurada por GR, aqui no Brasil, € colocada em seu devido lugar, quer pela sua instru- YAbines Om CHUN GL, al = THe eee InvrropugAo Cxtrics A SocioLocia BkasiLeina ‘mentalidade teérica, como também pela sua insergéo no contexto da sociedade brasileira, Sua atualidade deve-se ao fato de que os atributos cientificos de GR, sobre a sociologia ¢ a sociedade, continuam como arcabougos que influenciam comportamentos, atitudes ¢ habitos até os nossos dias. Esquematicamente, poderiamos dividir a obra de GR em quatro partes: ¢ I-- Teoria Sociolégica ‘A abordagem de GR, como cle proprio definiu, foi a de construir uma atitude eritica da cigncia e da cultura importadas, bem como o exercicio ¢ 0 adestramento sistemtico, necessérios para habilirar 0 individuo a resistir 8 massificagio de sua conduta € As press6es sociais organizadas Menciono dois livros essenciais, hoje considerados classicos da literatura sociolbgica brasileira Introdugao critica & sociologia brasileira, 1957, Rio de Janeiro, Editora ANDES Ltda. Trata-se de um texto de formagio fundamental sobre a “Arvore genealdgica” do pensamento mais original da sociologia brasileira, Nele GR rece o flo condutor das raizes do pensamento sociolégico nacional. Historicamence, ele & indispensivel para reorientar 0 estudo sistemitico da sociologia brasileira. O livro divide-se em és partes: 14) “Critica da Sociologia Brasileira” (sendo importan- tlssimo 0 Capitulo V, “Esforcos de teorizagao da realidade nacional politicamente orientados de 1870 aos nossos dias”; 2#) Cartilha Brasileira do Aprendiz de Sociélogo (titulo da primeira edigdo, em 1954)°; 34) Documentos de uma Sociologia Militante (de onde surge, pela primeira vez, a critica avassaladora sobre a “patologia social do “branco’ brasileiro”). Nesta reedigio, resgatamos um texto que, estou seguro, & precursor da Cartilha (de 1954) e da Introdugao (de 1957). Trata- se do “Tema da Transplantacio na Sociologia Brasileira” (efrulo redigido & mio pelo proprio GR no texto, Separate da Revista Servigo Social, Ano XIV, n® 74 — Séo Paulo, 1954, pp. 73-95) 12 yas we model dele Plo hen. Y yen Da Soctbiocin a Mances Dt Cre “e que reaparece aqui como Anexo, Os leitores poderio pereeber ‘o que se espera ganhar com esta discusséo: “um método de estudo da realidade histérico-social, de cardter cientifico, E, aliés, mais importante © dominio deste método do que a simples aceitacio, ‘em tetmos definitivos, de uma interpretagio da realidade histé- rico-social num dado momento, ainda que objetiva. Até porque, sendo eminentemente dindmica esta realidade, nenhuma interpre- tacéo pode pretender-se definitiva’(p. 73) A Redugito sociolégica, 1965, Rio de Janciro, Editora Tempo Brasileiro, Inicialmente a Reducdo sociolégica (introducio ao estudo da azo sociolégica) foi langada em 1958, no perfodo de sua intensa atuagio no Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB). Considerada a obra clissica da sociologia brasileira, merecen- do uma edigéo em espanhol pela Fondo de Cultura Econémica (México, 1959), reve uma enorme repercussio nacional, com intimeras avaliagoes deyintelectuais de todos os matizes tebricos € politicos brasileiro. i Redugao, pode-se afitmar, € a mais original contribuicéo d¥ GR para a formulagio de um desenvol- vimento nacional, despertando novas atitudes métodos politicos Combatente da alienagio sociolégica no Brasil (assim como ‘Wright Mills, em sua Jmaginacao sociolégica, editado no Brasil em 1965, também combarera a alienagio nos EUA), a Redugao repudia a tentativa de tornar a sociologia ume ciéncia elitista € aponta para a necessidade de democratizar © saber sociolégico, instrumento substancial para a formulagio ¢ execugio de trans- formagées sociais, I Organizacio e Acéo Politica Cabe aqui mencionar trés livros-chaves que despertario grande inceresse do leitor pelas suas brilhantes ¢, diriamos, atuais andlises politicas 13 INTRODUGAO CRITICA A SOCIOLOGIA BRASILEIRA O Problema nacional do Brasil, 1960, Rio de Janeiro, Editora Saga. E um guia politico-social que abrange varias realidades brasi- eiras ¢ suas perspectivas, em fungio dos grandes temas nacionais da época. Dois textos merecem a atencio pela reflexio inovadora: "A Ideologia da Seguranca Nacional’ (anteriormente editado pelo ISEB em 1957) e "Condigées Sociais do Poder” (cambém editado pelo ISEB). A Crise do poder no Brasil, 1961, Rio de Janeiro, Zahar Editores. E um cléssico, em termos de andlise politica de conjuntura € que reflere uma luta entre a “ordem” politica conservadora ¢ a “ordem” ceformista e popular no Brasil, Militante, GR reine, 20 sabor dos acontecimentos que marcaram a vids politica do Brasil, nos anos 60, ensaios verdadeiramente irretocaveis pela sua pers- picécia c estilo limpido e transparente, Como que prevendo nuvens ‘autoritérias que viriam com 0 Golpe Militar de 1964, cabe assi- nalar dois ensaios sobre a reniincia do entio Presidente Janio Quadros ¢ a uajetdria politica de Leonel Brizola. Mito e verdade da revolugao brasileira, 1963, Rio de Janeiro, Zahar Editores. (© mais fascinante livro de GR, polémico, visiondrio, escrito também no contexto pré-Golpe: é uma contundente e arrasadora critica de politicos da esquerda brasileira, especialmente sobre 0 Par- tido Comunista Brasileiro, Parafraseando a famosa peca teatral de Ionesco, O Rinoceronte, GR passa a limpo (ver em especial 6 capitulo VIL, “Revolugéo Brasileira ou Jornada de Otrios?"), com fina ironia ¢ clareza de anilise, as tendéncias ¢ 05 sinto- mss do processo politico as portas do Golpe Militar de 31 de margo de 64. ebrica e politica sobre as forgas e grupos intelectuais € 14 Da SOCIOLOGIA EM MANGAS DE Canusa, IIL, Discursos, Ensaios e Artigos Esta parte seria constivuida por uma antologia organizada, « partir do soguinte rotciro: 1, Artigos publicados em sua coluna do jornal Utkima Hora, no periodo entre 1959 ¢ 1962, em que GR, além de escrever sobre a conjuntura brasileira, também analisa 2 vida € o sistema organizacional nos Estados Unidos, Unio Soviética, Franga ¢ China (paises que visitou como convidado oficial ¢ como confe- rencista), cujo valor € ainda indiscutivel pela atualidade e acuidade de suas observagbes. So aproximadamente quarenta artigos para uma prévia selegio. 2. Trés Discursos como Delegado Brasileiro na II Comissio, da XVI Assembléia Geral das Nagbes Unidas, New York, 1961 3. Discursos Parlamentares (Agosto de 1963-Abril de 1964), Didtio do Congresso Nacional, Brasilia. A relaio de trinta pronunciamentos selecionados sobre temas politicos nacionais € intemnacionais, até o seu tiltimo discurso no dia 16 de Abril, quando perdeu seus direitos politicos ¢ foi cassado pelo Governo Militar. 4, Quatorze artigos publicados no Jornal do Brasil, entre 1978 © 1981, desde o primeiro (“0 Momento Maquiavélico Brasileiro”, 2/10/78) aré o iimo (“Imagens da Hiscoriografia Bras 27112181), escritos no contexto da abertura politica e & luz de sua teoria da delimitagao dos sistemas sociais. 5. Dois ensaios publicados pela Universidade Federal de Santa Catarina, Programa Académico e de Pesquisa em Planejamento governamental: —“O Modelo Econémico Brasileiro (Apreciacio & luz da teoria da delimitagio dos sistemas sociais)", 1980; “Consideragées sobre 0 Modelo Alocativo do Governo 1980. 6. Artigo inédivo, “Commerce, Development, Protectionism, Terms of Trade”, s/d ¢ local de publicacio, 4 paginas. 7. Artigo inédito, “Curtigio ou Reinvengio do Brasil”, 1982. gt Brasileiro’ 1s INTRODUCAO CRIFICA A SOCIOLOGIA BRASILEIRA IV, Depoimentos, Testemunhos e Correspondéncia ‘Uma antologia com depoimentos ¢ testemunhos de amigos, incelectuais, discipulos que conviveram com Guerreiro Ramos, cem diversas fuses de sua vida, a partir do material de seu de- poimento dado a0 CPDOCIFGY, em 9/6/81. Existe também uma farta correspondéncia de Guerreiro Ramos para amigos ¢ exalunos no Brasil, principalmente durante seu exilio nos Estados Unidos, na School of Public Administeation, University of Southern California, entre 1966 e 1982. |A presente teedigio tem inicio com a Introdupdo ert sociologia brasileira porque representa nfo um aspecto exonolé- ¢gico de sua obra, mas a raiz mesma sobre 0 pensamento sociolé- gico brasileiro. Hoje, graces Editora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em particular aos Professores Wanderley Guilherme dos Santos ¢ Heloisa Buarque de Hollands, iniciamos recdigio da obra de Guerreiro Ramos. Notas (1) Cientista politico € escritor, foi aluno do Professor Guerreico Ramos na’ Escola Brasileira de Administragio Publica/FGV, quando tornaram-se amigos. Atualmente & Disetor-adjunto do Centro de Estudos Norte-americanos (Conjunto Universtério Candido Mendes), Professor-eonvidado da Fundagio Escola de Sociologia ¢ Politica de Sao Paulo (Programa de Pés-graduagto cm Politica Internacional) e Professor-convidade do Mestrado de Direico de Integracio da UERJ/Paculdade de (2) Inicialmente, me pedia com urgéncia que the enviasse os artigos de Wanderley G. dos Santos, “A Imaginagéo Politico- Social Brasileira" (DADOS 2/3) *Ralzes da Imaginagio Politica Brasileira” (DADOS, 7, 1970) (G) Cabe aqui assinalar, além da assisténcia e estimulo de Clelia Guerreiro Ramos e de sua filha Eliane G. Ramos, 0 apoio de Adbias do Nascimento, Gerardo Mello Mourdo, Nanci Valadares de Carvalho, Wilson Pizza, Lucia Lippi Gées'de Paula ce, particularmente, da agente literéria Ana Maria Santcito, pela 16 6) Da SocioLocia EM Mancas DE CaMisa, sua dedicagio, 20 longo de dez anos, para encontrar editora que publiase aaa de GR. Mais reentemene cone com apie dda bacharel em economia da Faculdade de Citacias Politicas Econémicas do Rio de Janciro (Candido Mendes), Renata Leite Pinco do Nascimento, que acaba de defender sua tese (detembro de 1968), “A Construgio Inteleccual de A, Guerreiro Ramos”, ‘Devo muito aos trabalhos de levancamento bibliogréfico reuni- dor yor Freeico Lasee da Cana, T982,"Leramamento Bibliogréfico”, Simpésio “Guerreiro Ramos: Resgetando uma Obra”, Fundagio Gevilio Vargas/Escola Brasileira de Adminis- tragio Pablica, Rio de Janeiro, Outubro; Ramon M. Garcia, 1983, "A Vida de um guerrero... com sabedoria e senso de hhumor: uma sinopse da obra de Guerreiro Ramos". Revista de Administracdo Publica, Vol. 17, ° 1, janlmargo, pp. 107-125, Em sua sinopse, Ramon Gareia diz que seu dislogo com GR compreende quatro momentos interligados: 2) um fildrofe da ago; b} um arguto tedrico do Estado, ou melhor, ur ctiativo | ‘© empenhado ide6loge da cultura; c) um homem que sempre ‘exibiu um sentido de vida alramente deseavolvido, isto & um senso de justigae tice, e, cima de cudo, um senso estético do ‘mundo, enextricavelmente inerligado & sua prépria compre- ensfo dos assuntos humanos; d) finalmente, um homem que sempre teve um grande’controle sobre as palavras (ao invés de ser dominado por elas), que, na maior parte do tempo, articulava, 1 idéiasalramente inteligentes, mas que, como todo e qualquer ser ‘humano, emitia, de acordo com as circunstincias, observasées bem-humoradas ¢ cristes, serenas e agressivas, benignas cusccas(p. 109}; Liz Ant6no Alves Soares, 1993, A Socoogia critica de Guerreiro Ramos, Rio de Janeiro, Editora Copy & Are. Cabe aqui uma nota. Sabe-se queo titulo dado por GR, Cartilba brasileira do aprendiz de socslogo,tinka como um dos alvos © entéo jovem antropélogo Datci Ribeiro, Por ocasiao do II Con- gresso Latino-americano de Sociologia (Si0 Peulo, 1953), GR, na qualidade de presidente da Comissio de Estrucuras Nacionais ¢ Regionals, foi atacado por suas posigdes consideradas revoli- Condi Em 1986, procs d remio no Rio de Jandy fo 16¢ Congresso Latino-americano de Sociologia (organizado pelo Prot Theotnio des Stns o endo Vee Governor fo Rio, Prof. Darci Ribeiro, veio a pablico, numa de suas atitudes 17 SEE Ee EEE REEL EEE © InTRODUGAO Cririca A SOCIOLOGIA BRasiLeta {generosamente bem tipicas, dizer que tina uma divida para com Guerreiro Ramos, afirmando a corretas posigdes deGR e fazendo ‘uma autocrtica de seus erros, diance de um publico (que inclufa © entio homem forte do regime da FNL da Nicarégua, Toma, Borge), que, tlver, no soubesse da antiga polémica que man- tiveram no passado. Em entrevista dada a um jornal-rabléide em 1994, 0 atual residence da Repiilica (entio candidato), Femando Henrique Cardoso, respondendo 2 uma pergunta da entrevistadora sobre a importincia do ISEB, afirmou categoricamente que a Redugdo socioligica era © mais importance livro de sociologia brasileira aque ele jé tinka lid. 18 O Negro Como Lugar Joel Rufino dos Santos Assim como somos mais brasileicos consumindo Guarand 20 invés de Coca-Cal, tcidos Bangu a0 invés de tecidos ingleses, devemos produsit consumir a nossa sociologia a0 invés de consumir @ dos outros. Quando Guerreiro Ramos disse isso a um repérter da Uhsima Hora, corria 0 ano de 1956. Esse nacionalismo que hoje — mas sé hoje — parece ingénuo, pertencia ao conteiido de idéias daquela fase histérica. Se fosse vivo e quisesse compreender o nacionalismo que vincou a toralidade do seu pensamento e milicincia politica, Dastaria 2 Guerreiro Ramos aplicar o seu “approach faseolégico”: ods esrutare econdmica ¢ culuroldgica condicions cea comespondente eeneo de problems, © qual s6 se aera fa medida em que & referida estrutura se transforma fescologicament. ‘Nacionalistas foram 0 pernambucano MCP, do jovem Paulo Freire, o CPC da UNE, a Histéria Nova, 0 cinema juvenil de Glauber Rocha e Paulo Emilio, os autos de Guarnieri e Boal, os ensaios de Carlos Estevam Martins, Ferreira Gullar e tantos outros que tiveram tempo, mais tarde, de se arrepender. (Meu pai, por i InvTRODUGAD CRETICA A SOCIOLOGIA BRasiLetan exemplo, um modesto funcionécio piblico que nunca leu Guer- reiro Ramos nem freqtientou o ISEB, morreu sem por uma gota da bebida imperialista na boca). A sindrome do Guatand era, pois, tum dado de conjuntura — podia manifestar-se srefégamente pelo Auto dos 99%, que imortalizou 0 CPC, ou sisudamente pela filosofia de Vieira Pinto’ Nessa atmosfera é que Guerreiro Ramos dispos-se, com certa pretensio, a introduzir.a sociologia nacional brasileira, admitindo como precursores apenas Silvio Romero, Pontes de Miranda ¢ Oliveira Viana. Sua obra pretendia ser um trabalho cientifico a partir de Hegel, do jovem Marx e dos culturaliscas — Dilthey & frente — ancorada 20 mesmo tempo no compromisso com a particular circunstincia nacional. Seu programa de trabalho se desdobraria em trés etapas: 1 ~ a eaboragfo de um mérodo de anise, suscetivel de ser utilzado na avaliagio do valor objetivo do produro ineleetual, como integragSo do significado das obras nos fatos, ¢ nao como proeza ou afirmagéo meramente indivi- duals 2— a revisio ertca de nossa produsfo intelectual realizada, até aqui, & haz dos ftos da vida brasileira: 8 — «© eximalo da auo-andie, como insrumeaco de purgasio Ae equivocos e vicios meneas ede ajustamento do produtor ineleceual &s propensbes da realidade.? Guerreizo Ramos se torna uma figura piblica af por 1954, Era entéo professor da EBAP (Escola Brasileira de Administragio Piiblica) da Fundacio Geuilio Vargas, membro da Comissio Nacional do Bem-estar Social e co-fundador do IBESP (Insticuto Brasileiro de Economia, Sociologia e Politica). Bram ele ¢ Helio Jaguaribe os intelectusis mais destacados do Grupo de Itatiaia, quase todos os funcionétios ou assessores do governo Vargs, empenhados no estudo, pesquisa ¢ planejamento do que chama- vam realidade nacional. Em 1956, refeitos do suicidio que a todos desnorteara, €0 Grupo de Iratiaia que funda, com algumas adesbes de fora, ¢ da mesma densidade intelectual, aliés, o ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros). Criado por ato do governo Café exit Filho, contririo ao campo varguista, demorou o ISEB se na orientagio cepalina, desenvolvimentista, do governo 20 (© Negro Come Luean, Kubitschek. Ai por 1957, contudo, jé funcionava a todo vapor como “fébrica de ideologia”’. desenvolvimentismo pertencia também, portanto, a0 con- tetido de idéias da segunda metade dos anos cingllenta. Jun- taram-se no mesmo barco hegelianos como Roland Cotbisier, marxistas como Wereck Sodré ¢ liberais conservadores como Roberto Campos. Naquela salada desenvolvimentista nio é di- ficil, contudo, isolar o pensamento de Guerreiro Ramos, Pata comecar, diferentemente de Werneck Sodré ou Hidlio Jaguaribe, por exemplo, sua adesio as teses cepalinas — sobretudo nas formulagées de Ratil Prebisch — foi total. A.CEPAL, como se sabe, tinha o propésito de tornar a politica © 0 pensamento econdmico dos paises latino-americanos fatores operatives do seu desenvolvimento. Guerreiro deduziu dal a-ne~ cessidade de uma “sociologia em mangas de camisa” que, pata iluscrar, nas atividades de aconselhamento nao perdesse de vista as disponibilidades de renda nacional e que, néo descurando 0 significado econémico do seu trabalho, caminhasse para uma inerdisciplinaridade, © contrétio dessa sociologia critica, redui- diz, como postulariaadiante, era “Sociologia enlatada” ou consular ou simplesmente transplantada, por vezes rebugada, como em Arthur Ramos ¢ Gilberto Freyre, num ecletismo conciliador. Nao hresicou, portanto, em investir contra os que pensavam a sociedade brasileira a partir de doutrinas importadas, mesmo quando hes reconhecia alguma inceligéncia — um Tobias Barreto, um Pontes de Miranda, um Pinto Ferzeira, um Mitio Lins, o doctor seraphicus da sociologia brasileira — especialistas, segundo cle, em opor prei . Sua simpatia, por outro lado, com ressalvas crticas, ia para os que haviam pensado a nagao brasileira,” ou a sua possibilidade, com angtstia — Euclides da Cunha, Alberto Torres, Manuel Bonfim, Caio Prado.... Com os anos, tornou-se cada vez mais impaciente com o que the pareciam pormenorizagoes e estudas de comunidade, recomendando aos aprendizes de socidlogos se dedicarem de preferéncia aos estudos globais — as tarefas do desenvolvimento nfo podiam esperar —y 2 aprdss 21 ck tal oe, sas a0s fatos socit InTRoDUGAO Cafrica A SOCIOLOGIA BRASILEHA esquecendo-se de que esses estudos globais eram exatamente ‘os mais propicios aos doutrinarismos que temia. Numa pala- ‘yra, Guerteiro via a sociologia como serva do desenvolvimento «¢ nessa visio residem tanto a grandeza quanto a miséria do seu pensamento. Guerreiro Ramos 6, pois, assim como Vieira Pinto, Roland Corbisier e outros isebeanios um pensador datado, Para que reedité- Jo hoje? Hé um acento de boa e velha tragédia na forca que ele € parte da sua geragéo fizeram para realizar um modelo de capi- talismo nacional, com Estado forte, no instante mesmo em que © processo de substituigio de importagSes chegava ao fim ¢ ‘montava-se a infra-estrutura necessiria ao crescimento pela via da internacionalizagio. Os tempos que se abriram com © governo Kubitschek, a que 0 ISEB nacionalista pretendia inocentemente servir, veriam a vit6ria de Roberto Campos (e num certo sentido também de Hlio Jaguaribe), 0 mais empedernido dos represen- tantes da ala diteita do Grupo de Itatiaia. Trinta anos depois, descobrimos qud Guerreiro Ramos tem algo de Policarpo Quares- ‘mat nada do que desejou para o Brasil deu certo; emigrando para 6s Estados Unidos a0 menos escapou do fuzilamento.’ / ‘Mas Guerreiro Ramos € também, basicamente, um caso de fidelidade & sua tircunstancia — de ética, numa palavra, Costu- mava citar Graciliano: “quem no tem vergonha na cara néo pode ser sociélogo” Gracilano Ramos, em outras galaveas formulow um portulado fundameneal ds flosofa contempordines segundo © qual, quando n6s assumimos volunraramence o que nos condiciona,transformamos a esteiteta em profandidade. {4} A assuncio do Brasil sera, portanco, nessa ordem de iddis, a condigéo prévia, necessiria, para descobsi-lo Claro esté que essa ética — uma pessoa como um pais s6 se conhece quando se reconhece — tem suas ralzes te6ricas: os notérios Hegel (sobretudo 0 da Fenomenologia do espirit, o joven Mang, Sartre ¢ um pensador, hoje esquecido, G. Balandier” (a que Ortiz acrescentaria Fanon, assinalando o parentesco de suas idéias ¢ intuigdes com um dos papas do ISEB, Vieira Pinto’. Esses 22 (© Necro Como Lucan, autores lhe deram, relativamente acabadas, as categorias de tota- lidade (a nagio como roralidade), alienacéo, situagéo colonial, identidade nacional, inautencidade, “projeto” etc. Idéias ngo getminam, porém, se 0 terreno néo é fércil. Vivi amos 0 apogeu da democracia populist. Hi muitas definig6es de populismo, mas pode-se trabalhar com aquela que o dé, suma- riamente, como a forma polftica assumida pela sociedade de ‘massas na América Latina, constante de medidas concretas de governo, de uma ideologia, de uma estrarégia de desenvolvimento social e de uma linguagem. Das quatro modalidades em que se desdobrou entre nds? — queremismo gerulista (1945/50), trabalhismo (1950/54), juscelinismo (1955/60) e janguismo (1961/64) —, Guerreiro Ramos s6 teria dificuldade em se com- por com o juscelinismo. Estava dada a pauta para o seu labor social6gico, encontrara © nicho perfeito para a sua sociolégia correspondente a0 Guarand fibrica Bangu. Por que um cientista social do porte de Guerreiro Ramos andou esquecido? A explicagio convencional é que hotwve nos Uiltimos quarenta anos um forte deslocamento das relag5es de classe entre nds e, conseqiientemente, mudou a pauta sociolé- gica. (Também Nelson Werneck Sodré, brilhante historiador ¢ mestre de uma geragio inteira, quase sucumbit a esse desloca- mento). H, contudo, uma explicagio menos Sbvia: 08 peniadores populistas jaaem sob a montanha da modernizacéo tiunfante, Creio haver, na arualidade, dois conjuntos de interpretagio do nosso processo politico, que, embora nao antagénicos, disputam a supremacia no soi-disant campo progressista. 14) Para os intérpretes situados no interior da ordem moderna (inclusive no ugar da classe operéria), © populismo nada mais foi que uma etapa na histéria das relagbes entre as classes sociais no Brasil. © fim do populismo (com 0 golpe de 64) terd sido 0 comego da etapa da luca de classes explicita. Essa etapa (em que nos encontramos) chegaré também um dia aos seus limites, quando 0 agusamento das suas contradigées instalard a democracia socials, poencialmente anunciada por certos elementos das 23 PEE eee eee INTRODUGAD ChIFICA A SOCIOLOGIA BRASTLEIRA ‘tapas precedentes (0 intervencionismo estatal, os esbogos de planificagio econémica, a politica de massas, certos valores cul- turais etc.). Essa avaliagéo, com poucas nuances, que serviu de teoria & gerasao guerrilheira que a partir de 1968 se deftontou com a ditadura militar. E constitui, com um pouco mais de sofisticagdo, o balizamento teérico do atual Partido dos Traba- thadores (PT). 28) A outra maneira de ver, oposta a essa, comega concordando que a democracia populina foi uma etapa vencida do desenvolvi- mento social ¢ politico do pats, mas discorda de que tivéssemos entrado — salvo no plano do desejo — numa etapa subseqiiente de aprofundamento da luta de classes. Em certos limites essa luta nio teria deixado de ocorrer, era mesmo previsivel naguele momen- 40 histbrico, mas nem por isso o socialismo deixava de ser uma teleologia. Generosa teleologia, como dizia Guerreiro Ramos, mas teleologia. Pois o que, efetivamente, aconteceu no Brasil, pés- 64, foi o aprofundamento da contradigéo entre ordens, ou estados lassificados (nas ordens moderna e oligiérquica) versus desclassi- ficados (ordem do povo). ‘0 socidlogo Guerreiro Ramos se inscreve na base dessa segun- da mancira de wer. © marxismo nfo passou para ele, sobretudo nos tlkimos anos de vida, de uma “idéia fora do lugar”. Para usar ‘uma expresso da moda, ele foi um pensador seminal da demo- cracia populista. Nao se pode garantir que ele estava certo, nem 0s outros; mas digi-se a seu favor que a democracia populista & a nossa tinica linhagem politico- ‘mos sumariamente, como costumam fazer 08 convictos da mo- dernidade — de direita ou de esquerda —, ou nos valemos dela pata claborar novas estratégias de justica social na atualidade. colégica original. Ou a negar Em 1952, um dos irmaos de James Baldwin foi destratado no Exército por um oficial branco. James, preocupado com a depres- so em que 0 rapaz cafra, escreveu-the uma carta: o racismo se baseia no medo; quando o racisca branco se depara com um negro do € um individuo humano que ele vé, mas uma criagéo da sua mente, um pesadelo — “above all you must take care not to step 24 * Se © Necno Come Lucan, inside his nightmare”), Entrar naquele pesadelo era tornar-se um ctioulo (nigger). Pela mesma época, Guerreiro Ramos chegava a idéntica conclusio no Brasil: 0 problema do negro € sintoma de patologia do branco, © "probleme do negro", ral como colocado na socologia brasileira, €, lux de uma pscandlise sociol6gia, um ato de -mé-fé ou um equivoeo, ces equivocos6 podect sr desfeico por meio da tomada de eonsciéncia pelo nosso branco ou. pelo nosso negro, culeralmente embranquecido, de sua slienagio, de sua enfermidede psicldgics, Para tanto, 05 documentos de nossa sécio-anttopotogia do negro devern ser considerados como materiaseltnicos. " ‘© primeiro daqueles equivocos cra a nogio enlatada, biolégica, de raca. Sob o signo desta categoria, fortemente impregnada de conotagdes depressivas, ¢ que trabalharam Nina Rodrigues, a0 dobrar do século, ¢ 0 Oliveira Viana de: Raga ¢ assimilagio, Ne~ nhum dos dois haviam feito ciéncia, em que pese a inteligéncia do segundo, pois essa é um espirito, uma atitude militante de compreensio de uma circunstancia historicamente pré-industrial como foramos até a Segunda Guerra. Nem importava que a nogéo de raga fosse substitufda, desde Gilberto Freyre, pelas de cultura, aculturaco e mudanga social — nossa antropologia permanecia quietista ¢ enlatada. A cculturagio, escreveu, supse © valer mais ® de ume culera em face a outra, do mesmo modo como a super- oridade de certs ragas em face de outras, suposta pela anvropologia racist, (n] Por outro lado, esta entro- pologia, quando se corna price ou “aplicada” (applicd anthropology"), parece tender 2 considerar a mudanga s0- cial em seus aspectos puramente superestruturas, justi- ficando a mudenga social por intermédio de agéncias edu- ‘acionas e sanivdias, antes que mediante a aleracko das bass econdmiease politica da comunidade. Na visio de Guerreiro Ramos o desenvolvimento econdmico 6 pois, a régua eo compasso que desenhariam tanto as idéias como. as agbes politicas corretas a favor da justica social. Guerreiro no hesitou, por exemplo, em esposar 0 conceito de cultura auténtica, por oposicio & transplantada — discutivel jé em 1950 —, como 25 Welt Treropugto CuImica & SOCIOLOGIA BRASILEIRA ‘ao se fez de rogado em sugerir aos negros pobres que trocassem 08 terreiros pelo protestantismo ou 0 carolicismo, “tragos mais operatives na nossa incipiente estrurura capitalista’ Guerreiro no chegou, obviamente, « negar a vertente cultural — simbélica, dirfamos hoje — das probleméticas negra ¢ indige- ra, Sua recusa em cedé-tas a0 dominio da ancropologia — uma classe de estudos que, sintomaticamente, se desenvolvia mais nos ‘estados de maior presenga negra — teve, ao menos, win mérito: promover o negro a problema nacional. Essa ¢, ali, a base da sua critica aos predecessores Nina Rodrigues, Arthur Ramos ¢ Oscar Freyre que equipara, em nulidade cientifica, com certo exagero, a Debret, Kidder ¢ outros descritivos. Ou se considerava o negro como protagonist social e politico ou nada. Isso significa que Guerreiro negava a vertente psicolégica do racismo? Nao, ao contrério, Em mais de uma ocasifo, ele eratou de se explicar: A partir desta situasio vital (negro ¢ povo no Brasil sio sinénimos), 0 problema efetivo do negro no Brasil é esen- ialmente pscoldgico e secundariamente econdmico, Ex- plico-me: Desde que se define o negro como um ingredi- ente normal da papulagao do pat, como pov brasileiro carece de significacio falado problema do negro puramente econémico, destacsdo do problema geral das clases des favorecidas ou do pauperismo. O negro povo no Brasil" ‘Ao invés, porranto, de negritude, povidede, E possivel que se fosse vivo hoje, Guerreiro investisse contra a nossa sociologia de corte norte-americano, que se esmera em medir 0 “lugar do ‘negro no mercado de trabalho”, com a mesma impaciéncia com que investi contra a “antropologia da negritude” do seu tempo. E que so ambas intiveis para promover, na sua ética, o desenvol- vimento ¢ completar a nacio. Os estudos sobre 0 negro € a questio racial avangaram muito hos anos apés a sua morte, é verdade, mas no o bastante para superar 0 duplo paradoxo em que Guerreiro Ramos se debateu: no ha ragas, mas hd revelagdes raciais; ¢ negro é povo, mas hé negritude € nao povidade, 26 © Necro Como Lucan Para complicar, havia ainda um terceiro dilema, esse pessoal: se a reivindicagio de negritude € um obstéculo & conclusio da znagdo, como afirmar o Niger sim? A salda de Guerreiro Ramos foi esposar radicalmente o termo afirmativo da contradigéo — sou negro —e de ld, desse lugar assumido, olhar outra ver o problema: Sou negro, idemifice como mex o corpo em que o meu cotd inser, atibuo & aia cor a sascebilidade de set valovzado extoicamente consideo « minha condigio &- ia como um dos supores do meu orgulho pessoal — ee a tods urna propodéutic socolégics, todo tam ponto de putida para a daboragio de uma hermeneutic da seuasio do negro no Bra Guerreiro no era preto retinco, pertencia Aquela faixa de rmestigos escuros em que a “raga” é escolha do fregués. A sua foi ser negro. (A partir de que momento ¢ levado por que ciscuns- tncias, ele prdprio nunca revelou, embora admitisse infliéncias do Teatro Experimental do Negro ¢ do Grande Negro, como Nelson Rodrigues batizou Abdias do Nascimento). Dessa assungfo, ele extraiu as seguintes conseqiiéncias légicas: Eno, em primeito luge, perecbo & sficitncia postin, do séco-antropélogo braileiro, quando cata do problema do negro no Brasil. Enefo, eaxergo o que hi de ultajance sa atiude de quem trea 0 negro como um ser gue vale enguanto "sculurado". Ene, identifica 0 equvoco etno- centriso do "branco” brasileiro ao sublinhar a presence do regio mesmo quando perficamente identiicado com ele pela culars. Eno, dscortino a precaiedade hstrica da brancura como valor. Entio,convertoa“branco" brasileiro, téfrego de identficegéo coos 0 patio ettico europeu num caso de patologia socal. Entio, passa a considera © reco brasil, dvido de embranquccer se embarayindo com 2 prépra pel, também como tr prcologicamente dividido, Eno, dscobre-s-me alegiinidade de caborsr uma esti socal de que seja um ingredientepostvo a cor negra. Endo, afigur-se-me postvel uma tocilogia cent fica das relagies tneat. Ente, compreendo que a eolugio do que, na socioogia bra, se chama o "problema do negro", seria uma sociedade em gue toder fem brance Endo eapactome para negarvalidade a eta wligia.® 27 Inrropugho Cafrica A SOCIOLOGIA BRASILEIRA Para Guerreiro Ramos, pois, negro néo é uma raca, nem exatamente uma condigio fenotipica, mes um topo Iégico, insti- tuido simultaneamente pela cor, pela cultura popular nacional, pela consciéncia da negritude como valor ¢ pela estética social negra. Um individuo preto de qualquer classe, como também um. mulato intelectual ou um branco nacionalista (por exemplo) podem ocupar esse lugar e dele, finalmente, visualisar 0 verdadeiro Brasil. Como nao lembrar a clissica definiggo de Clévis Moura — branco, no Brasil, ¢ todo individuo que escolheu a cor dos colonizadores para se espelhar, negro 0 contrétio? Enquanto a sociologia modernizante busca, num trabalho de Sisifo, descrever o lugar do negro na sociedade brasileira, 0 socié- logo populista Guerreiro Ramos descobri que o negro ele préprio. um lugar de onde descrever 0 Brasil, Penso ser essa idéia — 0 negro como lugar — a mais original contribuigéo de Guerreiro Ramos & compreensio do dilema nacional. Na certa, nfio é uma idéia agradavel aos militantes da luta organizada contra o racismo, que preferem vé-la como tarefa exclusiva da raga negra (sic). contudo, a tinica capaz de promover a paixio de ser negro a questo nacional. Notas (1) GUERREIRO RAMOS, Alberto. Introdupio erttica a sociologia brasileina. Rio de Janeiro: Andes, 1957, p.17. (2) Ver VIEIRA PINTO, Alvaro. Conscitncia ¢ realidade nacional, Rio de Janeiro: ISEB, 1960. Ideologia ¢ desenvolvimento nacional. Rio de Janeiro: ISEB, 1959. (3) GUERREIRO RAMOS, Alberto, Introdupto erttiea a sociologia Brasileira. Rio de Janeiro: Andes, 1957, p.30, (4) Ver TOLEDO, Caio Navarro. ISEB: fibrice de ideologia. Sio Paulo: Acica, 1977. (5) Alusio metaférica ao triste fim de Policarpo Quaresma, (6) GUERREIRO RAMOS, Alberto. Introdugio erttica a socilogia brasileira, Rio de Janeiro: Andes, 1957, p.33. 28 a See ee ‘© Nero Como Lucan, (7) Para os diagnésticos de Balandies, ver G. BALANDIER, “Contribution & une sociologie de la Dépendance”. Cahiers Inrernasionasee de Sociologia, n* XII, 1952 (8) ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional Sao Paulo: Brasiliense, 1985. (9) Ver IANNI, Octavio. O Colapso do populism. Rio de Janeiro: Civilizagio Brasileira, 1990; © Sociologia da socilogia, S40 Paulo: Arica, 1989, p.8. (10) APUD LEEMING, David. James Baldwin, New York: Alfred A. Knopf, 1994, (11) GUERREIRO RAMOS, Alberto. Introdugdo erftica & sociologia brasileira. Rio de Janeiro: Andes, 1957, p.155. (12) Em negrito no original (13) Idem, idem, p.126, (14) Idem, idem, p. 157. (15) Idem, idem, p.157. 29 Prefitcio O presente livro contém o texto integral da Cartilha brasileira do aprendic de sociblogo € mais outros estudos publicados em diferences daras. ‘A demanda crescente da Cartilha, impondo a sua reedi¢io, dé-me esta oportunidade de reunir num sé volume os trabalhos esparsos em que procedi & eritica da sociologia no Brasil. Esta Introdugéo é como poderd verificar o Jeitor, um conjunto de estudos afins, todos inspirados pelo propésito de reorientar © trabalho sociolégico em nosso pafs, num sentido pragmético. Julgo-me compensado de todos os 6nus das atitudes polémicas que fi obrigado a asstumir durante o periodo em que escrevi os trabalhos reunidos neste volume. ‘A répida propagacio das idéias contidas nestes escritos de- monstra, no meu modo de entender, que elas exprimiram um estado de espirivo generalizado entre aqueles que estio vivendo as tendéncias mais auténticas de nosso pais. icici em 1953 € hoje ” oficial, até ha bem O processo da “sociologia” oficial que uma rarefa publica. As teses da “sociologi InyRODUGAO ERITICA A SOCIOLOGIA BRASILEIRA pouco dominantes, gragas 20 despoliciamento cientifico vigente fem nosso meio, si hoje clandestinas. Nao ultrapassam 0 ambito de agencias oficiais que funcionam como tiltimo reduto de conhecidos profiteurs até recéntemente travestidos de “socié- logos”, “antropélogos” ¢ “etndlogos”, © que faz, hoje, de mais sério no dominio das ciéncias sociais é sob as vistas do publico e com a sua participacio e aprovagio. ‘Mas creio estar superada a fase polémica da sociologia na- ional. Documenta este livro um momento dessa fase. Diante de nés, o horizonte ¢ largo. Guerreiro Ramos Rio Setembro, 1956 32 Primeira PARTE Critica da Sociologia Brasileira ‘The fundamental problem, therefore, of the social science is to find the lawe according to which any stave of society producer the state which suecedees it and takes its place Job Stuart Mill, A System of Logic, VIX. § 2. i isthe whole which produces che whole, rather chan any part a part Jone Sinare Mill, A Systern of Logic, VI, V, § 6. i : I- Notas para um Estudo Critico da Sociologia no Brasil A compreensio objetiva de uma sociedade nacional é resultado de um processo histérico, Nao salta da cabesa de ninguém, por ‘mera inspiragdo ou vontade, nem é epistemologicamente possivel, nna auséncia de certos fatores reais, A objetividade do conhecimento histérico-sociolégico, como todos sabem, difere largamente da objetividade do conhecimento fisico-matemético. No conhecimento do étomo ou da célula incide cescassa interferéncia do contexto histérico-sociolégico do pesqui- sador, mas, no conhecimento dos fatos sociais, essa interferéncia é iniludivel. Sendo © homem um “ser em situagio” ou um ser historicamente construido, io se dé para ele aquela circunstincia, suposta por Descartes ¢ Emile Durkheim, em que um eu se defzonta com a realidade histérico-social, como se esta fosse sus- cetivel de ser apanhada, em sua esséncia, por um pensamento soberano, liberto de julgamentos de valor, de pré-nogées ¢ mesmo de tendenciosidade. Na verdade, no dominio da realidade histérico-social, 0 sujeito pensante ¢ 0 objeto se compenetram ou sio faces de um mesmo CrIrica Da SocioLocta Brasitenra ferémeno, Isto ndo quer dizer que a objetividade seja impossivel naquele dominio. Quer dizer que cla se define em termos de perspectiva e que, portanto, dadas vitias explicagées de um mesmo fato, a mais objetiva é a que alcanga maior niimero de aspectos, Eaquela em fungGo da qual se torna perceptivel a infra-estrutura € 0 caréter residual, tributério ou ideolégico das outras; € aquela que traduz a verorialidade ou ditecdo t6nica, ou dominance, dos acontecimentos. A objetividade é, assim, algo que nao se conquista de uma vez por todas no dominio da realidade histérico-social, ¢ se atinge sempre dentro de limites ‘A sociologia, tal como se sem praticado entre nds ém muito escassa margem, representa uma efetiva indugio de processos € tendéncias da sociedade brasileira ou inscrumento de sua autocompreensio. ‘A comada de consciéncia da situagio da sociologia no Brasil é fato recente na evolugio do nosso pensamento sociolégico, Até data telativamente préxima, careciamos, em nosso meio, das press6es reais que possibilitassem este fato e, por isso, a disciplina sociolégica, no Brasil, estava e esté, ainda, em larga escala, in- capacitada para tomar-se 0 suporte de uma interpretagéo objeriva da sociedade brasileira. Seria necessirio, para tanto, que, in brasileiro se dispusesse a um trabalho cientifico a partir de um ‘compromisso com a sua particular circunstincia nacional. Eso rarissimos os esforgos neste sentido. Imente, 0 socidlogo ‘A ratidade ¢ caréter excepcional destes esforgos se explicam, ali, historicamente. A cultura brasileira no poderia furtar-se & légica da situagéo colonial. Pais descoberto e formado por coloni- ago, teria de percorrer forgosamente rodas as fases do proceso colonial. Assim, a raridade daquele compromisso € sociologica- mente ordinaria ¢ compreensivel, rendo em vista a légica da situagio colonial em que 2 exploracio econdmica st aliam ourras formas complementares de dependéncia, como a assimilagio, a aculturagio, a asociagio, E preciso nowar que é apenas de grau e wel bWhebtyebe sf eylBb fawn, sAfclemsee, we Hee’) b eo bre Heep 7 36 het how f cos Yel dete S I- Novas para um Bstupo Crimico... ‘do de natureza a diferenga entre situago colonial ¢ certas formas de paz, como a pax lusa, a pax britinica, a pax ianque, em relagéo 20 nosso pals AA situasio colonial, posta em questio hoje por sociélogos & economistas, ¢ entendida como um complexo, uma totaidade que JimpGe certo tipo de evolugao e de psicologia coletiva as populages colonizadas. Um dos trasos desta psicologia coletiva ¢ a depen- Uni, ceo binghisme, a dupicdade pcoligiea, condisoe ‘que tornam limizadissima a possbilidade de uma identificagio da personldade do colonizado com a sua circunstincia hist6tico~ imediara. (A PMe TO TA ‘A reotientacio da evolugéo ¢ 2 transformagio da pte Aoletiva dos palses colonizados, independentemente de alteragbes acroscbpicas de suas estrututas, sé0, portanto, nessa ordem de idéias, impossiveis. Als esta reorientagéo e tas alteragbes ideais ¢ reais se dio, simultancamente, em processo cotl A disciplina sociolégica, no Brasil e nos paises de formacéo semelhante, como os da América Latina, tem evoluido até agora, segundo influéncias exégenas que impediam, neles, 0 desenvolvi- mento de um pensamento cientifico auténtico ou em estreita correspondéncia com as circunstincias particulates desses paises. Assim, a disciplina sociolégica nesses paises se constitui de glosas de atitudes, posigées doutringrias ¢ formulas de salvacio produ- idas alhures, ou ilustra menos o esforgo do socidlogo para compreender a sua sociedade, do que para se informar da producio dos socidlogos estrangeiros. Nio é sem alguma arbitrariedade que se pode tomar a data de 1878,cm que Benjamin Constant fundow a “Sociedade Positivista” do Rio de Janeiro, como aquela em que se iniciam, no Brasil, os estudos academicamente definides como do dominio da disciplina sociolégica. A luz de nossa perspectiva atual, esses setenta ¢ seis anos’ de trabalho sociolégico, correspondentes a mais ou menos trés geracées, ostentam os defeitos que @ seguir discriminasci. ‘Como se vera mais adiante, a descoberta ¢ a critica de tais defeivos 1ndo implicam 2 adogéo de uma posi¢éo normativa de minha parte, 37 CREFICA DA SOCIOLOGIA BRASIEEIRA ‘mas passaram a ser possiveis a partir do horizonte que nos abre 0 presente momento da vida brasileira ¢ mundial. ‘SIMETRIA ESINCRETISMO - Via de regra, o sociélogo indigena esté sempre disposto a adotar literalmente © que nos centros europeus © norte-americanos se apresenta como mais avangade. E como- vente, mesmo, 0 esforgo do profissional brasileiro ¢ de paises de formagio semelhance a0 seu, a fim de colocar-se up to date com @ produgio sociolégica dos paises lideres da’ culeura ocidental. Dat decorte que a disciplina sociolégica, tal come se espelha em noss0s livros, se transforma, no curso do tempo, 20 compasso das mu dangas que se verificam conjuntamente nas sociologias européi norte-americana. Ha em nossa disciplina sociolégica uma espécie de “falar cor- reto”, semelhante ao dos cultores da lingua pura que renunciam, por exempls, aos critérios comunitérios, vivos, de correcéo, em favor dos critérios artificias, importados. Assim como para esses puristas brasileiro, falar certo ¢ falar como falam os portugueses ‘em Portugal, uma arte dificil que s6 alcanga a minoria dos que ‘conhecem as regras de colocagio de pronomes ¢ da crase, induzidas do falar lusitano, do mesmo modo se pretende praticar a soctologia no Brasil, de maneiga hipercorreta, literalmente tal como no exte- riot. As orientagbes e cendéncias aparecem aqui, simetricamente, sna mesma ordem em que sutgem lé, Nossos adeptos de Comte sio sucedidos por spenceristas, estes por durkheimianos e tardistas € assim por diante. Mas, nio é s6 simetrismo que se discerne na sucesso dos nossos estudos sociolégicos. também sincretismo, pois 0s nossos autores estio sempre dispostos a fazer aqui a con- ciliagao de doutrinas que, nos proprios paises de origem, sio incompativeis. Um dos nossos mais eminentes sociélogos escteveu ‘mesmo: “Cada ver mais me convengo de que as incompatibilidades metodolégicas se reduzem 2 questées de nomenclatura”. O simetrismo € 0 sincretismo tornaram-se mais nitidos desde que comecaram a ser editados, entre nds, compéndios de socio- logia. Et todos eles, apresentam-se justapostos os sistemas euro- cus € norte-americanos, na suposigao de que existe uma verdade sociolégica resultante da “conciliagio” das vérias correntes, 38 Soria I Noras para um Esrupo Cririco.. Esse simettismo, aliés, se registra em todos os campos da cultura brasileira, Sylvio Romero, ao escrever a sua Historia da Literatura Brasileira, observou que “a literatura no Brasil, .. €em toda a América, tem sido um processo de adaptagio de idéias européias 3s sociedades do continente”, marcada de “servilismo mental”, Sylvio Romero verberava mesmo o fato: “N&o é mais do que ter lido por acaso Zola, ou Daudet, ot Rollinot, ¢ atirar com les & cara do pats, como se tudo estivesse - Docnarismo - Consiste na adogio extensiva de argumentos de autotidade na discussio sociolégica, ou em certa tendéncia a dis- ccutir ow avaliar fatos através da mera justaposigio de textos de aucores prestigiosos. Este dogmatismo é notério em atitudes fran camente apologéticas, como a dos positiviscas em geral, para os quais as receitas dos nossos males estariam compendiadas por ‘Augusto Comte. E na reagio a este dogmatismo se apelou mesmo para outro dogmatismo. Sylvio Romero, que foi um caso de bifrontismo, pois exprimiu e adorou tendéncias contraditérias, em suma de suas obras contra os positivistas, depois de afirmar que “a lei maxima de todos os fendmenos do mundo fisico, a lei de evolugio”, era devida a0 “genio” de Herbere Spencer, aconselha aos sectatios do naturalismo evolucionista “que se organizem tam- bbém em um centro de ago e propaganda e procurem reagir, pelo jornal, pelo livro, pela conferéncia, pela ligfo oral, contra 0 neo- jjesnitismo que nos invade”, neojesuitismo que ele identifica com °° positivismo. De resto, 0 proselitismo & ousrance é sempre 0 companheiro inseparvel dos dogmatismos. Outro auror a quem Sylvio Romero aderiu entusiasticamente foi 0 que chamou, certa vex, 0 “divino Buckle”. Manifestagio que lembra ourra da mesma natureza, esta de Tobias Barreto, que escreveu: “A Alemanha € a minha loucura, 0 meu fraco intelectual”. Mas, talvez 0 vulto de nossas ciéncias sociais que foi mais vitima do dogmatismo tenha sido Nina Rodrigues. Toda a sua obra sobre o negro no Brasil € elaborada a partir de um ato de fé na santidade © na veracidade da ciéncia social curopéia. Pode este autor fornecer abundante material para um estudo de caso do “dogmatismo” no trabalho. sociolégico. 39 Cica DA SocIOLOGIA BuasiLEnna ‘Menos nitido, mas igualmence efetivo, 0 dogmatismo continua a incidir em obras sociolégicas atuais, principalmente naquelas ‘cujos autores excelem em mostrar-se ajustados literalmente 20 que nos centros curopeus ou norte-americanos se considera como ortodoxo. Dapurivismo - Decorre diretamente do dogmatismo. Desde que se empresta aos sistemas estrangeiros o caréter de validade absoluta, eles passam a ser tomados como pontos de partida para a explicagio dos fatos da vida brasileira. Houve Fempo, por exemplo, em que se tentou explicar a evolugio do Brasil & luz das leis gerais da evolugio. © positivista Luiz Pereira Barreto, referindo-se & queda de um gabinete conservador, escrevia em 1874 (Vide As Trés flosofias): "No momento em que a socie- dade brasileira cessa, oficialmente, de ser tedloga para enttar no pleno regime da metafisica...” Atualmente este dedutivismo € perceptivel em trabalhos de socidlogos brasileitos aficionados do marxismo. Principalmence quando tentam explicar os nossos problemas politicos e juridico- sociais, muitos 0 fazem segundo estudos marxistas aplicados @ paises estrangeiros, ou segundo aplicagio mecinica das caegorias marxistas. Procedimenco este, diga-se logo, que contratia a s- séncia do marxismo, mas que assinala a forga do impacto da situagio colonial na psicologia do colonizado. A caracteristica do dedutivismo ¢ a abstragio da contingéncia histérica, € a identificacio do presente do nosso pais com o pre- sente de paises outros em fase superior de desenvolvimento ou, de qualquer modo, de formacio histérica diferente da nossa. O dedutivismo, referéncia basica de uma teoria equivoca da tealidade brasileira, € 0 principio mesmo de nossa sociologia educacional ¢ de nossa sociologia politico-administrativa, ambas orientadas por «titérios induzidos da experitncia de outros povos. Nossos sistemas educacionais ¢ nossos sistemas politico-administrativos se justifi- ‘cam em termos da exceléacia in inseca de certos procedimentos € no de nossas peculiaridades histéricas ¢ naturais. So, via de regea, implantados a partir de uma teoria pré-fabricada, Apre- sentam, por isso, escassa originalidade. 40 i | 1 Norns para um Estuoo Catrico... AuIENAGKO ~ A alienasio da sociologia no Brasil decorre de que cla ndo é em regra, fruto de esforgos rendentes a promover a autodeterminagio de nossa sociedade. Em face desta, 0 socidlogo brasileiro tem realmente assumido uma atirude perfeitamente equi- valente 4 do estrangeito que nos olha a partir de seu contexto nacional ¢ em fungio deste nos interpreta. A lienacio de nossos estudos sociolégicos tornar-se-4 particu- Iarmente visivel para aqueles que adotarem como aspiragSes suas as tendéncias autonomistas da sociedade brasileira, Na verdade, 0 intelectual desplantado ou contemplativo néo poderé alcangar a alienacio, porque esta'se define desde um ponto de vista extra- teérico ou pragmético, desde um querer orientado para a trans- formasio da sociedade. Temo que este modo de ver no coincida com o de muitos leitores. Pois, no € possivel ignorar, hoje, a estreita relagio entre as aspiragées e © conhecimento. Na verdade, s6 0 que atua co- nhece a realidade, como disse Plenge. As posigées quictista- contemplativa ¢ tebrico-pragmatica so inconcilidveis. A primeira tem feito de muitos estudas sociolégicos, no Brasil, obras de belerrismo, de diversionismo ¢, as vezes, modelos de formalismo. A segunda tem suscitado as obras de maior conteido de protestacéo e pragmético, em nosso meio. Tomo para modelo da visio alienada do Brasil uma obra de cariter para-sociolégico que teve extraordindria repercussio na época em que foi publicada, Trata-se de Retrato do Brasil (1928), de Paulo Prado, que exprime, de modo paroxistico, certo sado- masoquismo de nossas camadas letradas para as quais 0 caréter do povo brasileiro esté marcado de notas pejorativas. O brasileiro € povo triste, luxurioso, cobigoso ¢ roméntico, para Paulo Prado; como para outros se caracteriza pelo servilismo © pelos maus costumes ou por caracter(sticas equivalences. ‘Como paradigma da visio integrada do Brasil, elaborada desde uum ponto de vista pragmético e participante, invoco Os Sertdes, de Euclides da Cunha. Ai se confirma aquela observagio do Hans Freyer: “Sé aquele que se acha imerso na realidade social. pode 41 CRMICA Da SOCIOLOGIA BrasiLcina capté-la teoticamente”. Apesar de seus erros de técnica cientifica ¢ de seu tributo ao dedurivismo, Or Sertées (1901) constitui, até esta data, obra nfo excedida como contribuigio tendente a liquidar aquele bilingtismo 2 que me referi, a ambivaléncia psicolégica do brasileiro, ¢ a identificé-lo consigo préprio. Ainda mais, nossa socioantropologia do negro esté toda ela viciada por um tratamento alienado do tema. O negro no Brasil, pals cuja matriz demogrifica mais importante € 0 contingente corado, tem sido visto como algo estranko ou exético na comuni- dade, 0 que sé se explica na base de um equivoco etnocentrismo. Finalmente, em outros campos da vida nacional, a influéncia do trabalho sociolégico tem sido alienante. INAUTENTICIDADE - A inautenticidade € o que resulta de todas as carateristicas anteriores. Com efeito, o trabalho sociolégico, em nosso pals, nfo se estriba em genuinas experiéncias cognitivas. Em larga escala, as categorias € os processos que o sociélogo indigena usa sio recebidos, por cle, pré-fabricados. Nao participando de sua génese, ele domina escassamente tais categorias e processos. © sociélogo brasileiro tem se caracterizado por uma extrema versatlidade, 0 que denota, de certo modo, sua imaturidade. A versatilidade ndo é entretanto, uma caracteristica dos centros de pensamento de grande autenticidade. A sociologia mesma surgi em paises europeus como um pro- duro histérico, Nao possivel compreendé-la senéo como um capitulo da evolugio do pensamento europeu. Um dos seus ava- tares é a nogdo medieval de lei natural, que postulava a existéncia de uma ordem inserida no mundo, a qual poderia ser descoberta pela simples razio humana, ainda que desajudada da fé. Esta cordem natural, entretanto, como observa Troeltsch, implica uma concepsio pattiarcal ou ceolégica do universo, € sio necessirias algumas cenvérias para que ela se laicize totalmente — , 0 que se registra nos séculos XVI e XVII, quando os jusnaturalistas, prin- cipalmence, entendem a natureza como “o fundamento sobre que repousa o mundo fenoménico”, e passam 2 admitir que a “esséncia do homem?” poscula “um determinado esquema de ordem social” 42 1 = Noras rata uM Esrupe Cririco, A razio cumpritia, por meio da investigagio, « pesquisa das formas naturais de convivéncia humana, as quais deveriam reverter as sociedades européias. Por intermédio das teorias que resulram desta especulagio, a burguesia ascendente justificava os seus pro- pésitos de reforma dos estados absolutistas. A Ilustragéo, no século XVIII, erige esta época A categoria de culminagio da histéria, Confrontando-a com épocas passadas € com a situagao de povos da Africa e dos mares do Sul de que entéo se tem noticia, 0 historiégrafo do século XVIII formula uma teoria monolinear do progresso humano em que as épocas se escalonam desde a barbitie até 0 estado racional. A teoria evolucionista de Herbert Spencer e a lei dos trés estados de Augusto Comte esto indiscurivelmente articuladas com estas diregSes do pensamento curopeu. Na Alemanha, além da incidéncia destas correntes, os sistemas sociolégicos incorporam as categorias de organismo e de histria, E € impossivel compreender os sistemas da sociologia germanica fora das pautas da filosofia hegeliana, profundamente alicergada nas vicissitudes da histéria alema. (Ora, os nossos socidlogos tém adotado os sistemas sociolégicos europeus em suas formas terminais e acabadas e, na medida que isto acontece, ndo os compreendem cabalmente, para tanto lhes faltando suporces vivenciais e, muitas vezes, o conhecimento da génese histérica destes sistemas. A sociologia, no Brasil, nao se organizou ainda para uma evolugio em bases préprias, 0 que s6 teria sido possivel se as geragdes de socidlogos se articulassem entre si num trabalho continuo. Como diz Hdlio Jaguaribe, com respeito & evoluggo da filosofia no Brasil, cada geragio repete, desde © marco zero, 0 cesforgo da geracio anterior ¢ vai buscar idéias na Europa ¢, com isto, torna-se impossivel a formacio de uma tradicéo cultural brasileira. No entanto, nos Estados Unidos, a sociologia, apesar de ter partido do positivismo e do evolucionismo, encontrou, em se- guida, um leito proprio de evolugio, € suas transformagées, 43 SS ee TT Se Et EE at EL Cutrica Da SOCIOLOGIA BrasitsiRA diretamente comandadas pelas vicissitudes muito particulares da sociedade norte-americana, no se processam simetricamente em + relagio & Europa. As raz6es disco sio as mesmas que explicam a \ 1 {, Héscolonizasio da economia norce-americana, mais de um século 9 JZ ances da nossa e que nio cabe examinar aqui A presente critica nao ilustra uma posigio normativa em face da disciplina sociolégica no Brasil. Até agora ela tem sido 0 que 3 nio pode deixar de ser, € 0 que habilita, hoje, 0 estudioso a perceber esses defeitos € 0 fato de que esté insctido numa confi- ‘eae econdmico-social que Ihe dé nova perspectiva. O atual } a ge Socidlogo brasileiro nio é feito de argila superior Aquela de que f foram feitos os socidlogos que o antecederam ou que ainda 2 J remanescem. Sua visio diferente dos fatos da vida nacional é ? 2p pitsultado de um proceso histérico. A sociedade brasileira, por g ‘Morca principalmente das suas transformagées materiais, estd alcan- y sando grande capacidade de autodeterminacio e este fato se reflere EF + no plano ideolsgico. Sao as condigées reais da fase atual da sociedade que permicem, hoje, que se inicie, de modo plenamente consciente, o trabalho de formulagio de uma sociologia nacional. E também o presente momento da histéria universal, em que o imperialismo entre em tise e as chamadas ércas atrasadas se empenham no caminho de auto-afirmacio. Nesse ponto, parece oportuno caracterizar 0 que se entende por sociologia nacional A sociologia, como toda cincia, é universal. E um método de pensar, corretamente, os fatos. Este mérodo no é um na Alema- nha, outro na Inglaterra, outro na Franga, outro no Brasil. Eo mesmo em toda a parte. E verdade que a sociologia, em particular, s6 recentemente atingiu plano realmente cientifico, Em sew inicio, ela estava fortemente afetada de etnocentrismo, Quero dizer, os primeizo’s sociélogos, como Comte e Spencer, generalizaram para a socicdade em geral leis e tendéncias tipicas da sociedade particular em que viveram, além de terem tomado a sua prépria sociedade como 44 T= Notas para uM Estupe Crtrico, cespécie de meta do desenvolvimento histérico. De resto, também 105 economistas do século XVIII consideraram como a “economia politica”, universalmence valida, a economia particular dos paises em que viviam, ‘A descoberta da historicidade do pensamento € que veio pos- sibilicar 0 refinamenco cientifico das ciéncias sociais, inclusive da sociologia Mas a universalidade da ciéncia, como téenica de pensar, nfo impede que a sociologia se diferencie nacionalmence. Esta diferen- ciagio da sociologia é incoercivel. Desde que o socidlogo 56 existe nacionalmente, na medida que o seu pensamento seja auténtico, terd de refletir as peculiaridades da circunstincia em que vive. A sociologia se diferencia nacionalmente quanto aos temas e aos problemas de que trata, Desde que determinada sociedade se autodetermine, o trabatho sociol6gico tende ai a perder a disponi- bilidade e a tornar-se instrumento desta autodeterminacée. ‘A sociologia, no Brasil, sera auténtica na medida que cola- borar para a autoconsciéncia nacional, na medida que ganhar em funcionalidade, intencionalidade ¢, conseqtientemente, em organicidade. A crftica sumésia que vem de ser procedida no tem outro propésito senio o de colocar © tema — o da interpretagéo da tealidade nacional — em um nivel que os leitores possamn pensar cooperativamente, De antemio, declaro que, embora convencido do que afirmo, a minha posigéo critica me impede de considerar defini suscetivel de retificagGes. Em resumo, sem a disposicio para empreender a sua autocritica, a sociologia no Brasil nfo poderé realizar a sua tarefa essencial — ‘ade tornar-se uma teoria militante da propria realidade nacional. vos os meus pontos de vista. Assim, tudo 0 que al fica é Reservo para outra oportunidade a exposigio pormenorizada do conceito de'sociologia em que fandamento os meus estudos. Sem desejar, nem de longe, focalizar o assunto aqui, observo, porém, que entendo esta disciplina numa acepcio muito dife- rente da admitida pela maioria dos que, no Brasil, se consideram 45 Chirica Da SOCIOLOGIA BiasitnieA “sociélogos”. A “sociologia”, ral como é academicamente definida, enquanto disciplina sistemético-formal, destigada da economia ¢ da histéria, ¢ que tem como ponto de partida os sistemas de Augusto Comte e Herbert Spencer, € menos uma ciéncia do que tuma ideologia conservadora, Tal “sociologia” se formou num periodo da histéria européia (principalmente francesa ¢ inglesa) fem que © impero revolucionério da classe burguesa arrefece © se transmuta em sentido oposto, pois que aquela classe ascende a0 dominio pritico do poder. Este fato nio se verifica sem conse- giléncias para 0 destino da reoria social. Mas, 20 contrétio, condi- ciona o seu desenvolvimento, fragmentando a teoria social que se vinha formando no século XVIII, em diversas disciplinas espe- cializadas, Essa especializago quanto mais avanga mais contribui pata desviar a atencdo dos estudiosos para os aspectos parciais da sociedade, dificultando-Ihes a sua compreensio global. Além disso, stimula a adogio de processos formais de conhecimento, em detimento dos priticos, os quais constinafam o caracteristico, por cexceléncia, dos epigonos da teoria social do século XVIII, que, em geral, foram ao mesmo tempo teéricos ¢ militantes. Conseqilentemente, parece necessério que a sociologia contem- orinea se procure situar em outra diregio de pensamento: aquela que se artictla com a eradigao mais genuina da teoria social cientifica, tal a que ainda hoje se inspira em Hegel e aproveita as contribuigdes de Marx ¢ do culturalismo, que tem em Dilthey um marco decisivo. No Brasil, um dos fatos que tem condicionado os caracteres negativos da sociologia, anteriormente enunciados, é também uma condicéo estrutural da sociedade: a alianga dos profissionais com as agéncias que se beneficiam da alienagio do pais, principalmente exonémica. A nossa sociologia se dirigiu para o trato de assuntos listantes dos problemas atuais ou de temas estéticos. Estudam-se tribos desaparecidas, a renda de bilro, as lutas de familias, as comunidades, a assimilagio de imigrantes, as rclagées de raga € outros temas, em tese, ¢ nunca de modo pritico Se jf possulmos algumas agéncias aplicadas na formulagio de um pensamento econdmico militante, quase nada equivalente se 46 1 Notas para ox Esrupo Crtrico, registrou no dominio da sociologia. Eis porque se afigura urgente a realizagio de um esforgo vendente a promover o desenvolvimento de uma sociologia nacional, quanto & funcionalidade de suas cogitagées. Bibliografia ANDRADE, Almir de. Formato da secilogia brasileira, Rio de Janciro, 1941, vol. BALANDIER, Georges. “La Situation Coloniale: Approche Théorique”. In Cabicers Insernationasex de Sociologie. 1951, 6° Ano, vol. XU COLLINGWOOD, R. G.. Idea de la Historie, México: Fondo de Culeura Econdmica. 1952, FREYER, Hans, Jntreduccié @ le Sociologia, Madtid, 1945, GOLDMANN, Lucien. Seiences Humaines et Philosophie. Presses Univer. de Prance, 1952. JAGUARIBE, Hélio, “A flosofia no Brasil” In Aspetos da formagto ‘evolugdo do Brail. Rio de Janeiro, 1952. MANNHEIN, Karl. Esays on the Sociology of Knowledge. London Routledge & Kegan Paul Lid. 1952. Principalmente o capieulo deste livro: “Historicamente” MANNONI, O. Pychologie de la Colonisation. Paris: Editions du Sexil, 1950. RAMOS, Guerreiro. © Procexso da secilogia no Brasil. Rio de Janeiro, 1952. : ROMERO, Sylvie. Dousrina contra doutrina: 0 evolucionismo ¢ positivismo no Brasil. * ed, Rio de Janeiro, 1895. “TROBLTSCH, Ernst. The Social Teaching of Christian Churches, New York: Macmillan Co., 1949, 47 I - Critica e Autocrttica A cerftica no Brasil, até a presente data, néo rem ultrapassado, sendo excepcionalmente, 0s limites do impressionismo. Isto de- corre no de alguma incapacidade intrinseca dos nossos criticos, mas das préprias condigdes objetivas do pals. Até bem recente- ‘mente a nossa estrutura econémica ¢ social no suportava as con- seqiiéncias que poderiam resulrar de seu autoconhecimento, pois suas contradig6es eram insoliveis na fase de crescimento em que se encontravam. © trabalho intelectual fei, em conseqiiéncia, dirigido para temas gratwitos ¢, em grande escala, o valor das obras foi considerado & luz de critérios formais ou como expressio da capacidade de proeza dos autores. ‘Assim, 0 que a critica levava principalmente em consideracio, para consagrar as obras, era 0 que elas continham de faganha. Na verdade, este conteido ser sempre elemento positive de toda produgio, mas a sua exagerada valorizagio estimula o individua- lismo e 0 desenraizamento dos autores e, por outro lado, define a indole da critica impressionista q Crmica a SocioLocia Buastueins Um outro aspecto 20 qual a critica, no Brasil, rem atribuido importincia decisiva no julgamento — é o formal. A correcio, a clegincia, a originalidade verbal —o estilo, em suma —, decidiam a carreira dos autores. Houve um momento, entre nés, em que este formalismo atingiu o paroxismo — precisamente na época em que pontificavam criticos como Duque Estrada et caterua Dentro desta otientagio, 0 critico, no Brasil, pode ser um enciclopedisca. Os nossos mais festejados criticos julgavam toda especie de produgto — poesia, ramance, ensaio, histéria, filosofia, ciéncia e arees — , 0 que explica a consagracio, em nosso meio, de muitas obras e pessoas sem mérito objetivo, notadamente no campo cientffico. Quer dizer: a critica no Brasil tem sido, por exceléncia, 0 oficio do diletantismo. © subjerivismo ¢ a fragilidade dos critérios desta espécie de critica se evidenciam em suas flutuag6es de julgamento. A posigo social dos autores importa para essa critica. Autores de pouca voga passam, subitamente, para a galeria dos famosos, se melhoram a sua posigio social, ¢ vice-versa. Autores mediocres sio festejados, em virtude do prestigio de que desfrutam. Nestas condigées, 0 éxito litenério no Brasil, em larga escala, nfo é um éxito puro da inceligncia; € um éxito social Faga-se justiga, Assim procedendo, o critico nacional nao é via de regra, desonesto. E apenas vitima de uma posigio ideolé- sgica, Na verdade, ele nao tem sido assim porque quer, mas porque tem que ser. Além disto, o que disse acima e o que direi a seguir, nfo se aplica indistintamente a todos 0s crticos brasileiros. Hi excegio A regra. Mas hé ainda a ressaltar um aspecto fundamental de nossa critica, © qual explica a sua profuunda alienagao da realidade bra- sileira: € 0 fato de que ela obedece a critérios de julgamento estranhos ou importados. O critico brasileiro esforsou-se sempre, em grande parte, em atuar na sociedade brasileira segundo os modelos estrangeiros, A nossa evolugio intelectual, para ele, devia estar condicionada pela evoluco intelectual de outros_paises: Porcugal, Franga, Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos. Fascina- vva-o 08 “prestigios” desses centros de pensamento. 5o oy a vo vs xf © | Eneramos, porém, numa fase do desenvolvimento do pais em I~ Crimea & Avrocatrica Gy pee que comesa a ser possivel o exercicio da critica objetiva e até da autoctitica. A produgio intelectual no Brasil esta ganhando novo significado. A nossa estrutura écondmica e social, em seu presente estidio, comeca a oferecer 20 trabalho intelectual oportunidade de tornar-se criador, do ponto de vista coletivo. As forgas centriperas, em atuagio na economia brasileira, atingem o trabalho intelectual. € 0 reotientam no sentido da busca da auronomia materiale moral do pais. Este fato se configura mesmo como um fenémeno sgeracional entre os rapazes de vinte ¢ tuinta anos, que estio inici- ando sua carreira de intelectuais. Nao se trata rigorosamente de tuma renascenga. E, antes, um nascimento, Pode-se colocar, entio, 0 problema da critica e da autoctitica em termos objetivos ¢ ciensificos. Para que se implante, entre nés, esta espécie de critica, & necessiria a realizagio de varias tarefas. Esquematicamente, séo elas: 1- a elaboragio de um método de anilise, suscetivel de ser utilizado na avaliagéo do valor objetivo do produto intelectual, com integtacio do significado das obras nos fatos, € mio como procza ou afirmagio meramente individualista; 2.-a revisio critica de nossa producao intelectual, realizada, aré aqui, & luz dos fatos da vida brasileira; 3- o estimulo da auto-anilise, como instrumento de purgagao de equivocos ¢ vicios mentais ¢ de ajustamento do produror inte- lectual as propensbes da realidade. Um método de critica objetiva nfo pode deixar de assimilar as categorias da atual sociologia do conhecimento ¢ de sistemas correlatos. © escudioso poderé extrapolar muitas nogdes daf para ‘© Ambito da critica, como, para falar apenas da nogao fundamental de um método de critica objetiva, a de ideologia, hoje integrando ‘© corpo sistemética da sociologia cientifica. Dentro da orientagio aqui delineada, ser critico é ser capaz de enxergar o significado indireto ou implicito do produto intelectual, ou ser capaz de sur- preender as verdadeiras “forcas motrizes" que “movern” o produto; & em suma, ser apto a vera estreira vinculagio do pensamento com 51 (ChiTIca DA SOCIOLOGIA BRASILEIRA a situasao existencial do pensadar. Impossivel, portanto, 0 exer- cicio da critica objetiva sem profundo conhecimento filoséfico. Fora desta pauta, s6 € possivel 0 esteticismo, o impressionismo, Na medida que as geragGes atuais necessicam reorientar as ativi- ddades inteleccuais, no sentido de alif-las aos farores recentemente cemergidos da tealidade nacional, ¢ que laboram pela autonomia do pais, & preciso rever a produsio cultural ocorrida até aqui, em fungio do significado do presente, Torna-se imprescindivel dis- cemir nas obras dos aurores que nos precederam os significados indiretos, Desta forma, os intelectuais poderio ver quais destas ‘obras encerram uma experitneia cujo conhecimento Ihes poderé sjudar, no momento, no esforgo de integracio do seu pensamento 208 faros ¢ de diregéo das tendéncias dos mesmos, Hi tradighes a cultivar na cultura brasileira. Tradigées que, uma vez estudadas, nos poupam de reabrir caminhos. Fiz uma tentativa, neste sen- tido, quanto mostrei as correntes principais da sociologia brasi- leita (Vide O Proceso da socilogia no Brasil). Naquele ensaio de exftica indireta, patece que ficaram claros certos elementos autén- ticos ¢ esptitios de nossa sociologia. Penso que a critica indireta poderd ditigir-se para todos os campos da cultura brasileira, com As tarefas acima refetidas no poderdo ser realizadas sem que ocorta mudanga de atitude entre os intelectuais. Estas tarefas sio incompativeis.com o individualism. Os critétios de pensamento sio induzidos da realidade concrera, e esta indupio é um exforgo de compreenisio, no qual se estd sujeito a percepgées ilusdrias. Daf a necessidade da autocritica, pela qual o pensador pode libetar-se de equivocos. Mas a autocritica implica também na disposigéo para suportar o debate, porque a indusio dos critérios de pensamento a partir da realidade é trabalho coletivo endo uma faganha indi- vidual, fruto de “inspiragao". E um trabalho coletivo, cuja validade se garante pelo controle de todos, Ora, estes hdbitos se chocam de modo frontal com 08 ainda vigentes em nosso meio, em que cada um se fecha em seu casulo ou em que muitos intelectuais preferem organizar-se em corpo- rages de elogios mtituos 52 TI Crfrica @ AuTocetrica Mas 0 momento que vivemos é polémico. Precisamos, assim, provocar a polémica, pois por nieio dela ¢ possivel liquidar as moedas falses que ainda citculam entre nés, com o seu valor discutivel. ‘Notas (1) Revista Marco, n® 2, fevereiro de 1953. 53 III - Nacionalismo e Xenofobia we ioe 3 t ey ‘Muita gente ainda nfo se deu conta de que nada tem a ver com xenofobia 4 posicéo nacionalista que vem assumindo crescen- temente os intelectuais mais representativos das tendéncias atuais do Brasil, Nao é uma nova moda, como o foi, em grande parte, por exemplo, o movimento modernista de 1922, nem tampouco tum conjunto de manifestagées temperamentais, algo que estivesse acontecendo, como se, por acaso, todos os AntOnio Torres do pals tivessem se reunido. 7 O nacionalismo, na fase atual da vida brasileira, se me permi- tem, é algo ontolégico, é um verdadeiro processo, & um principio que permeia a vida do povo, &, em suma, expressdo da emergéncia Udo ser nacional. 77) brasileira era uma fioglo juridico-insticucional, Alberto Torres e i 95 havia percebido correramente que, em nosso pafs, anagio era algo artificial, imposta de cima para baixo, que néo correspondia a suporres consuetudindrios. Mas néo compreendeu por que isto acontecia. Nao viu que a nagio nio se dé independentemente da | | i | ‘Até recentemente, como jd observata Alberto Torres, a nagio } | % tee I Catrica Da SoctoLOGIA Brasities Aes existéncia de um mercado interno, de um sistema de transportes © comunicagées suscetivel de intetligar todos os recantos do ter- 77 titdrio.fNao viu, em resumo, que a nagio brasilciza sé poderia (/ _veifice®-se, em toda a sua plenitude, com o surgimento de um capitalismo brasileiro. Alberto Torres ndo percebeu o condiciona- mento econémico do fenémeno nacionaf,JEra dos que advogava que © Brasil no deveria jamais desviar-se de sua “vocacéo agri- cola”. Por isso, propés que se formasse a naclo brasileira de cima para baixo, da inteligencia para as emogbes, com a tutela do povo pelas elites nacionalistas. Mas o nacionalismo no tem apenas fundamento psicolégico. Tei também fundamenco econdmico. Na medida que, em nossos dias, surgem no Brasil as componentes objetivas da nagio, que faleavam até hd bem pouco, o nacionalismo se rorna verdadeira- mente um fato sociolégico. esse Faro novo que esté suscitando as transformagées de superestrutura em nosso pais. A nova teoria sociolégica que est sendo formulada por alguns profissionais de vanguarda é a tradu- fo, no plano rebrico, daquele fato; nao é uma invencio arbitréria, Emanifestacio necesséria de transformagées estruturais,e, por isto, cesta teoria se propaga rapidamente, de maneira irresistivel Pela primeira vez, na histéria das idéias em nosso pals, aparece uma teoria sociolégica auténtica, em cujas categorias se reconhe- cem aqueles que estio vivendo 0 que é novo no Brasil Pela primeira ver, em nosso pais, a formacio do sociélogo passa a resultar menos do manuseio de livros estrangeiros do que da indugao dos fatos nacionais, nacuralmente ajudada pela posse do conhecimento bisico da ciéncia social. E assim que adquire pleno sentido a expressio de Graciliano ‘Ramos: “quem nao tem vergonha na cara, nao pode ser socidlogo”. Graciliano Ramos dizia isto, referindo-se a certo “socidlogo” indi- gena, Pode-se, entretanto, enderecar esta frase a outros “sociélogos” nacionais. Alguns anos depois que cla foi pronunciada, reen- contro-a no fundo de minha meméria ¢ percebo ncla toda uma receita a administrar aqueles que desejam alcancar a nova teoria sociolégica brasileira. 56 \ TIT. NactonatisMo # Xenoronia Graciiano Ramos, em outras palavras, formulou um postulado fundamental da filosofla contemporinea, segundo o qual, quando nds assumimos volunrariamente 0 que nos condiciona, transfor- mamos a estreiteza em profundidade. Tratando esta matéria, escreveram Mikel Dufrenne ¢ Paul Ricoeur!: Os pais que eu ao esolhi fo se rornam meus pais 1 seid absoluc.. senéo quando dele pare mim ¢ de mim para eles ge eaabelece um cotrere de pertingncia, © sca pertinéncia mua, decortente di mencs elagida deter minago, € uma oeaifo para & mas fatima comuniaso, ‘Quando soto minha origem como sea sveseequerido, tenho acesso 4 verdadei piedade fia, que pode per rmanceer invulnerivel, eto no édio: nfo posto male romper com 08 meas ps sm romper com uma parte de mim mesmo ¢ abaar-me em mevs fundamentos A assungéo do Brasil seria, portanto, nessa ordem de idéias, a condigao prévia, necesséria, para descobri-lo teoricamente, ‘Nao hesito em dizer que, na raiz da nova teoria sociolégica, std tuma assungio do novo fato sociolégico a que me referia acima, A nnuanga nacionalista desta teoria néo é arbitréria, tem seu funda- mento na realidade empirica concreta. E porque este fundamento existe, pode-se afirmar, sem exagero, que comegamos hoje, no Brasil, a poder exportaridéias sociolégi- «as, Por exemplo, em alguns aspectos, a sociologia anglo-americana std atrasada em relaglo 2 brasileira, Nos Estados Unidas e na In- glacerra ainda se levam a sério a antropologia cultural e a emologia de cardver empitico, enquanto no Brasil ela constitui fendmeno de arcadismo, Também, em nosso pals, os estudos sociolégicos sobre relagées de raga sobrepujam, em qualidade, os norte-americanos. Basta dizer que s6 agora se esté problematizando a brancura nos Estados Unidos (vide o livro de Franklin Frazier,? La Bourgeviie noire), enquanto no Brasil isto j4 se far desde 1950 gragas a0 movimento do Teatro Experimental do Negro, que instalou uma nova visio das relagées de raga em nosso meio, Finalmente, os Estados Unidos nao tém uma teoria sociolégica de andlise macros- cépica ou global, enquanto no Brasil jf a vemos e jé a aplicamos cem larga escala. 57 eee Ma CrIrIcA DA SOCIOLOGIA BRASILEIRA Tudo isto sio fatos. Néo sio sentimentos. Em rais condigses, 0 nosso nacionalismo nio pode ser confundido com xenofobia. Na medida que vivemos este momento verdadeiramente na- cional, no passamos a discernir apenas as falécias dos sistemas socioldgicos estrangeiros: também se revela de maneira nitida a sicuagéo deploravel em que ficam os intelectuais brasileiros, que, até agora, se mantem alheios 20 que esté acorrendo no Brasil No dominio das cigncias socias, esse alheamento é particular~ mente lastimével. Digo mais, ¢ algo dramatico, Pirandeliano® Notas (1) CE. DUFRENNE, M, ¢ RICOEUR, P. Karl Jasper et la Philisophie de l'Bxistence. Bd. du Sevil, 1947. (2) FRAZIER, Franklin, La Bourgeoisie Noire, Plom, Paris, 1955. 6) O Jornal, 117156. 58 IV -A Dinémica da Sociedade Politica no Brasil? ‘A adogio mecanica dos métodos e processos refinados da antropologia ¢ da sociologia enropéias e norte-americanas tem levado grande parte dos profissionais brasileiros do campo dessas disciptinas a um certo descrtivismo casuistico de escasso valor pragmatico, isto é pouco utilizivel como contribuigio para 0 esclarecimento dos principais problemas da sociedade brasileira, Numa reagio contra esse descritivismo casufstico, compreen- sivel até necessério nos paises de estrutura econémica e social plenamente desenvolvida em que os fatores se tornam sutis, esto merecendo cada vex maior apoio do piiblico, no Brasil, as interpretagdes globalistas mais susceriveis de utilizagéo pritica numa sociedade nacional ainda imatura do ponto de vista social € econémico.? Importa isto propriamente menos numa criagio no plano te6- rico, do que nunsa instrumentalizacio critica da ciéncia importada, ‘Comegamos a deixar de refletic simetricamente as mudangas do pensamento cientifico estrangeiro ¢ a valer-nos dele como Crimea na SocioLocia BRASHLEIA ferramenta, numa elaboragio ceérica tendente a permitir a autoconscigncia de nossa sociedade. & ilustrativa desta orientagio, encre outros procedimentos, 0 emprego da sociologia comparada com 0 objetivo de induzir empiricamente modelos ou médulos do curso dos fendmenos sociais, em que os pormenores sio sacrificados em proveito de vistas de conjunto de grande rentabilidade compreensiva. No presente escudo, adota-se esta orientagdo ¢, assim, em sua primeira parte se apresentari um médulo abstrato da dinamica da sociedade politica, induzindo da observagio de ocorréncias his- tdricas efetivas ¢, ainda, aproveicando andlises de ‘Timasheff, principalmente; na segunda parte, médulo com acontecimentos da histéria politica do Brasil De resto, 0 que se espera das anilises sociolégicas orientadas, neste sentido, & uma teoria da sociedade brasileira que sirva de suporte & estrururagio efetiva das tendéncias de autodeterminagio vigentes hoje em nosso pats. No dominio politico, uma interpretacio globalista é um instra- mento de potenciacéo daquelas rendéncias enquanto, de um lado, racionaliza um processo societirio global e, enquanto, de outro lado, contribui para minar os fandamentos psicolégicos e sociais dos grupos que opdem obstéculos a este processo. Nao € fortuito 0 fato de que, em todos os momentos em que numa sociedade se faz imperiosa uma mudanca institucional, recrudescem os esforgas de teorizagéo da realidade social. se invariavelmente esta Na histéria politica do Brasil, ve observagio. Para lembrar, apenas, os momentos mais draméticos, recordem 0s acontecimentos que se registraram, entre nés, em tomo dos anos de 1822, na acasiéo das lutas pela independéncia politica do pats; de 1888, dava da aboliggo da escravatura: de 1889, em que foi proclamado © regime republicano; e de 1930 em que ocorreu a revolugio que, com Vargas & frente, implantou a segunda Republica, Em todos esses momentos, registrou-se, entre rigs, um surto de formulagio de idéias tendentes a just propésitos revolucionérios ou reformistas em jogo. 6o ay ow 7 IVA Dinamica Da Soctepape 64 7 a) ae Hbiya « Uinct Bop oListhiny body Vat te, Todavia, h4 que distinguir dois tipos de teorizaio da realidade social, isto 6, a ideoldgica e a sociolégica ou cientifica. ‘A teorizagio ideoldgica é, necessariamente, sectitia nisto que visa a justificar os interesses particulares de um grupo ou de uma classe. Esta justificacio, evidentemente, pode atingir um alto grau de refinamento, assumindo por veres 0 carter aparente de ciéncia. Os grupos ¢ as classes racionalizam a sua situacéo mol arsenal de nogdes &s quais atribuem a qu: uma validade no plano universal. A worizacio sociolégica, entreranto, consciente da influéncia dos fatores irracionais no pensamento, se aplica na compreensio global da sociedade. Resulta de uma atitude critica ¢ autocritica, radical, interessada em formular uma concepgio configurada da realidade social, atenta 2 todas as tendéncias que a constituem, ‘embora sem prejuizo do reconhecimento de uim sentido dominante do desenvolvimento global da sociedade. E cerro que mesmo esta teorizacio nfo escapa a0 condicionamento histérico-social. Nao existe um posto arquimédico — a imagem é de Karl Jaspers — fora do universo histérico a partir do qual se possa elaborar uma concepcao absolura, definitiva, da sociedade. {As teorias€ os pontos de vista que os contingentes integrantes da sociedade politica podem assumir nio sio infinitos em niimero nem to pouco produtos arbitrérios da vontade humana, mas derivam de siruacées sociais especificas (Mannheim)| A sociologia politica, assumindo © ponto de vista global, € uma ciéncia do conjunto da sociedade politica, uma “ciéncia da toralidade do fenémeno politico” uma sintese dindmica e compreensiva dos diferentes poncos de vista, jamais feita de uma vex por todas, mas sempre aberta a retificagbes, desdobramentos ¢ incorporasées, ‘uma tarefa verdadeiramente interminével, } Dit-se-d que a realizagio de uma sintese desta natureza ¢ teo- ricamente imposstvel, pois suporia a neutralizagio do principio do condicionamento existencial do pensamento. Mas @ iniciagio do socidlogo em certos critérios técnicos da transideologizagéo ou de autocritica lhe possibilita assumir, de 61 CRITIEA mA SOCIOLOGIA BRasitiea mancira experimental, virias posighes partidérias, tendo em vista alcangar o sentido do desenvolvimento progressivo, global, da sociedade. De certo, somente aquele que pode assumir, de modo deliberado, um ponto de vista, “sé 0 que pode escolher”, pode “abragar 0 todo da estrucura social e politica”. As duas espécies de teorizagéo se diferenciam pelo esforgo da transcendéncia ou de transideologizagio que constitui uma (a cientifica) e € escasso na outra ou da mesma é ausente, Esta observagio parece habilitar, distinguir a sociologia cientifica da- quelas ideologias mais avangadas de nossa época — que admitem 2 influéncia dos farores existenciais no pensamento e baseiam sua critica da sociedade na consciéncia destes fatores, mas nio séo suficientemente radicais como a sociologia. A radicalidade da sociologia cientifica se exprime enquanto esca disciplina admite o incessante condicionamento histérico-social dela mesma, de seus conceitos, de seu método e nao apenas da problemética ou dos faros em cujo exame se aplicas enguanto no 4& — absolutiza o primado de nenhum faror (a ecanémico, o racial, 0 geogrifico etc.), mas entende a efetiva preponderincia deste ou daquele faror num determinado periodo como ocasional e re- sultante da dindmica toral do processo societério: «, finalmente, enquanto admite que a esséncia da realidade social é 2 transi- tividade, ou seja, como diz Hermann Heller‘, que ela € “cons- truida dialeticamente” ey’ A possibilidade de uma ‘sociologia cientifica do fendmeno yo4f politico reside nese radicalismo empirco-diaético? que impede 0 GHC, epoca de car nas solugesfws e emereopadas € de ser confundido com o camelor de partido. Decorre do exposto que, do ponto de vista sociolégico, as cortentes politicas no podem ser consideradas apenas quanto 20 seu significado imanente. A andlise sociolégica as argh, eranscen- dendo-as, isto & indagando quais as sicuagées existenciais de que decorrem, que classe ou grapo as representa € em que momento clas aparecem. O que ilumina as correntes politcas € a posigéo na estrutura econémico-social dos que as representam e a época em que eles vivern, 62 TY 4 Dinamicn on SOCteOADE er We a Ora bem na etapa capitalista das sociedades ocidentais as posigées dos grupos so variadas. Com alguma simplificagéo, po- rém, podem ser reduzidas a trés: a de ascensio, a de dominio ¢ a de decadéncia. Cada uma destas posigées condiciona formas especificas de pensamento politico, [As classes ou grupos ascendentes so levados a discernir na estrutura social as virtualidades, as possibilidades de desenvolvi- mento, os aspectos potenciais , assim, assestam a sua mira no vir a set, no futuro. Suas idéias traduzem um impulso renovador de libertagio. Assumem uma atitude eminentemente critica diante do status quo ¢ proclamam a necessidade de fazer da razo 0 critério por exceléncia de apreciagio dos fatos. A razio se tora mesmo um. instrumento de negacdo das instituig6es, nisto que as transcende, revelando a sua precariedade histérica. Se as instituic6es, tal como se apresentam num dado momento, no permitem a realizagao das possibilidades da estrutura social, nada mais sio que formas fagazes de convivéncia, nio rm direito a persistir. Necessariae mente, sio dialéticas as classes ¢ grupos em ascenséo, enquanto concebem a histéria como progresso ¢ este como um incremento da autodeterminagao ou da liberdade. Razao, progresso, liberdade constituem as idéias-chaves da posiggo ascendente. Toda classe ascendente promete, com o advento dos seus ideais, o fim da histéria ow o reino da liberdade ¢ da razo. Neste ponto, perde de vista a dialética infinita da realidade social. ‘As classes ou grupos dominantes tendem a considerar definitivo ‘© estddio atual da estrutura social, Podem admitir defeitos de detalhe desta estrurura, mas no reconhecem a sua provisoriedade. Sao reformistas ou evolucionistas, portanto. Para eles, as leis que presidem ao dinamismo social séo leis naturais ou eternas. Sio antidialéticos ¢ proclamam a necessidade da ordem, identificando ‘esta com 0 esquema social vigente. Tendo conseguido submeter ‘as tendéncias a um enquadramento juridico-institucional, erigem ‘0s modelos (patterns) que adotaram, & categoria de permanentes, naturais. Por um imperativo copolégico, por assim dizer, sio le- vados a uma concepcao quictista, estética, da sociedade. 63 Cutriea Da SoctoLocts BRAsiLEIEA As classes e grupos em declinio, aposentados da eficécia histé- rica ou em processo de aposentadoria da mesma, esforgant-se por voltar 20 passado de que se beneficiavam ou em que eram domi- nantes e idealizam os “bons velhos tempos”, Sua palavra de ordem a recuperagio ou a restauracio. Estas referéncias topolégicas, de certo, ndo esgotam as posigbes que as classes ou grupos podem ocupar na estrutura social, Por exes, ocorcem af situagdes ambiguas. ‘Como situar, por exemplo, a classe média eo lumpenprolesariat, na etapa capitalista das sociedades ocidentais? Quanto & classe média, ela af tem atuado como aliada ora de classes ascendentes, ora de classes dominantes, ora de classes em declinio. Nos periodos em que the ¢ assegurado um nivel de vida mais ‘ou menos estével e em que descortina possibilidades de sobreviver, scja pelas oportunidades de emprego, seja pelo parasitismo, man- tém-se aliada as classes dominantes ou em declinio. Quando se ‘encontra em pauperizaczo progressiva inclina-se para a adogao da ideologia da classe ascendente. © lumpenprolerariat, a méo de obra marginal, 0 rebutalho das ruas, é matéria amorfa de que dispoem as correntes que, de modo ccasional, the asseguram uma vantagem imediata Importa observar ainda que estas posigdes so, 20 mesmo tem- po, posigbes de coexisténcia e de sucesséo. Em qualquer momento podem ser discernidos grupos em uma destas posigSes. Por outro lado, tais posig6es so também fases por que passam as classes sociais, Este tiltimo fato & muito importante, considerando-se a pretensio das classes ascendentes segundo a qual o seu dominio representaria o fim das contradig6es. Ao atingirem a posigio de dominio, as classes ascendentes sfo acometidas das mesmas distorcées volitvas e de capracio do real, caracteristicas das que as precederam e necessariamente se tornamt a referencia de um novo dinamismo dialésico ‘Toda clase nova que toma o lugar da que a dominava anes € obrigeda, pata realizar © seu objetivo, & apresentar oF IVA Dinantca ba Soctemane © seu intetesse como 0 interesce comum de todos os mem: Dros da sociedad isto, para empeegar uma forma ideal, ¢ obrigada a dar a suas idéiae a forma de universalidade, & sprescaci-ls como as dinicas razodvels e universalmente admissiveis (cf. Karl Marx. Ideologie Allemande, Ocnores Philesopbiques, Tomo WW. Costes. 1937), A estrutura do poder esté permanentemente em devenir. Estas referéncias supdem ainda que em toda sociedade podem- se distinguir um centro ¢ uma periferia‘, © centro da sociedade € aqucla sua regido a partir da qual se logra conformar decisiva- mente o complexo social, a partir da qual uma classe ou um grupo pode, como propée Max Weber, “impor a sua vontade na agio comum, mesmo contra a resisténcia dos outros que participam da ago”, ou ainda, na linguagem de Timasheff, “os juizos se trans- mitem & periferia... sem fazer apelo ao mecanismo normal de avaliago de motivos”. © centro, dorado de uma influncia conformadora, estabelece as pautas da sociedade dentro das quais se processam as relagdes de sociabilidade, Mas € preciso norar que nem a periferia é total- mente passiva, nem o centro é homogéneo. As condigées de destruigéo do poder — diz Timasheff — se encontram ranto no centro ativo como na periferia passiva. Se se verificasse permanen- temente a passividade da periferia e a homogeneidade do centro, o dinamismo histérico-social deixaria de ser dialético. Na verdade, pode ocorrer que, durante largo tempo, uma periferia se deixe conformar de modo passivo pelo centro, quando a classe domi- nante logra criar formas de onganizagio social ¢ de cultura de grande representatividade, ou expressivas, mas estes momentos So hiscoricamente fugazess “novos centros potenciais de poder nascem na perifetia’s por forga das préprias transformagées obje- tivas da sociedade, surgem condutas coletivas cisméticas, polé- micas, adotadas por classes ou grupos em ascensio que pretendem importar um novo esquema de convivéncia social. Estas classes ou grupos cismiticos ndo sé neutralizam a influéncia conformadora do centro, como, exprimindo as virtualidades hist6ricas, minam progressivamente os suportes psicolégicos e sociais do centro. De os = carts Ay at, ae by Cameca pa Sociotocu Bassin certo modo poderiamos valer-nos de uma imagem de Mare. As classes ascendentes alcangam 0 centro ativo pela cpopéia ou pela tragédia, mas € sempre uma farsa que marca o perfodo final do seu dominio. / ‘Também se processa no centro uma diferenciasio progressiva. Diz Maurice Duverger que todo centro ¢dividido contra si mesmo ¢ permanece cindido em duas metades: centro-esquerda ¢ centro- direita. Uma fragio do centro, por seus suportes objetivos, se trans- forma em sua esquerda ¢ assim se alia as clases ascendentes no propésito de uansformar qualitativamente 0 complexo social global. A outra frasio se caracteriza mais nitidamente como con- servadora ou reacionétia. Em sua origem, a classe ou geupo dominanre justfica seu poder pela fungio social geral que exerce e que necessariamente suscita @ adesao dos individuos da periferia. Isto acontece porque, no inci, seu interese¢ sinda, na verdade,lgado to inceresse comum de todas a8 outas lasses no domi antes esinds nfo pode, ob a presto da sncgascondigbes, transformar-se em inceresse de uma csseparticulat (cf. K Marx, Idolgie alemande, Etigho cirada) © poder, portanto a influéncia conformadora do centeo, se bascia inicialmente na adesio da periferia que, pela forca da re- peti¢éo e do hibito, se transmuta em automatismo. A conduta coleriva, uma vez organizada, passa a oferecer resistencia & mu- danga. Eis porque, mesmo depois que uma classe dominante deixa de representar uma fungo social geral ainda consegue, pela manipulagio dos reflexos condicionados, impedir, durante algum tempo, que a perferia atinja a consciéncia hicida das contradigées existentes, A auromatizagio das condutas pelos reflexos condicionados se alia ainda um outro fenémeno complementar — a “coisificagéo” das relagdes humanas sob a forma de ordem, sociedade, de um cosmos hipostasiado, independente dos individuos, que se pre- sume sujeito 2 leis inexoriveis. E 0 que Timasheff chama de objetivagdo e Marx de alienacao. Esta nogia slienada ou objetiva da sociedade € 0 pressuposto de toda forma de positvismo sacio~ oo (0 irtteemdel tnd te bete he Vim He IV- A Dinamica pa Socinpane .. égico. O poder, diria Karl Marx, ndo aparece aos individuos ‘como seu préprio poder associado, mas como uma forga estranha, ‘exterior, de que no conhecem nem a origem nem a diresdo, que cles no podem mais dominar, pois ¢ uma forga independente do querer ¢ do desenvolvimento humano. ‘A domesticagio ideolégica das classes submetidas as mantém na condigio de forgas em si, ¢ somente quando as contradigées se agudisam clas passam a perceber as virtualidades do processo social, assumem a sua teleologia ¢ se tornam classes para si, Resca, finalmente, 20 ultimar esta descrigio suméria do médulo geral do movimento da sociedade politica, advertir quefno con- texto capitalista, a dinémica das relagbes de poder nio se explica em termos de psicologia individual ou mesmo coletiva, mas pelas transformagbes materiais, pelas transformagées das relagies de produsio, as quais condicionam a ascensio, 0 dominio ¢ a deca- déncia das classes ¢ grupos social, A infra-estrutura da sociedade politica € sociedade coondmica or outro lado, nenhuma forma de organizacio politica € transcendente & histéria. Todas elas, a longo prazo, so insustentéveis. A evolugio politica do Brasil é uma ilustragio destas referencias conceituais, £ ficil verificar que a classe latifundiéria, hoje em processo de perda crescente de representatividade politica, cujo poder ¢ atualmente maior do que sua importincia econdmica, isco {gragas a uma certa usurpagio histérica, teve no Brasil a sua fase de ascensio, dominio ¢ decadéncia. Como classe ascendente fez «a independéncia do pais, em 1822, ¢ organizou o Estado nacional. esquerda tio logo se diferenciou como uma classe para si do capitalismo portugues, ¢ contra este lutou. Foi classe domi- nante, € assim ocupou o centro da sociedade politica nacional, de 1822 a 1930, data em que se toma perceptivel o seu declinio, imposto pela ascenséo de nossa burguesia industrial. E nestes dias ji se descortina como possivel uma alianga (que parece esbogada na tilima eleicéo presidencial de 1955) do proletatiado com a burguesia industrial numa luta conera os seus inimigos comuns. Foi a o7 6 biel 1 Uerrtetn feb oe fingpase, CRInTcA Ds SOCIOLOGIA Brasitenea £ Entre esses inimigos comuns, € necessério esclarecer, s6 se coloca a classe lavifundidria enquanto, perseguindo vantagens de seu interesse imediaco ¢ exclusive, permanega aliada de certas forgas econémicas externas, ou resista A ampliagio da area de comer- Gializagio de nossos produtos. ‘A configuragio de uma classe proletéria na histéria politica do Brasil € um fato tardio, quase de nossos dias, Até recentemente, néo existiam no pais as condigSes objetivas que permitissem 0 aparecimento desta classe, pois faltava-nos, para tanto, um mi- imo de diferenciacio das atividades produtivas para nao falar no escasso volume das atividades produtivas existentes no dominio manufatureiro. Nao é sendo na década de 1870-1880 que comegam a destacar- se da agricultura as atividades manufatureiras. Antes, 0 que se observa no pals € um arquipélago de nédulos econdmicos (Fa vendas) mais ou menos fechados, dentro dos quais a populagéo produz e consome diretamente quase tudo o de que necessita, inclusive bens manufacuradas. © desenvolvimento industrial do Brasil depois daquela década, até 1930, consiste principalmente ‘em destacar da lavoura a produgio manufacurcira através da cria- ‘gio de pequenas empresas. ‘A melhoria de nossas relagées de intercimbio com o exterior, que se observa na segunda metade do século passado, ¢ expressa io s6 no aumento da demanda de nossos produtos tropicais como na elevagio de seus precos, provoca o incremento da divisio social do trabalho, isto é, obriga a agricultura a especializar-se na pro- uso para satisfazer a procura externa. Para se ter um idéia dessa melhoria, basta observar que enquanto a quantidade média ex- portada de café subiu de 88.667 toncladas no periodo de 1839-44 para 165.114 toneladas no periodo de 1869-74, 0 valor médio anual da exportagio do referido produto aumentou, de um periodo 2 outro, de Cr$ 18.271.000,00 para Cr$ 91.098,000,00. Além disto, o pais reve saldos positivos no comércio externo de 1860 @ 1929, Nestas condigées muicas atividades que eram tealizadas no interior das fazendas passavam a ser dat alijadas, surgindo assim a produgéo manufacuceira para o mercado interno que comeca a 68 TVA DINAMICA DA SOCIEDADE .. fotmar-se em virtude da ruptura dos antigos quadros da economia natural, pela comercializacio. © nosso prolerariado haveria de surgir de elementos oriundos da massa de escravos e da plebe rural circunjacente as Fazendas, na medida que no processo de divisio social do trabalho fosse permi- tido o aparecimento de atividades que deixavam de ser realizadas pelas unidades econémicas aurdnomas, Este procesio de abertura do complexo rural”, que permite a migeacéo de farores (mio-de- obra € capitais) do campo para as cidades, ainda hoje € uma importante referéncia dinimica da economia brasileira. ‘Acé recentemente, a debilidade do nosso capitalismo nio per- mitia a radicalizagio dos inceresses da classe proletéria. Até 1888, data da abolisio do cativeiro, a populacao ativa intermedidria entre os grandes proprietirios de terra e os grandes comerciantes € 2 mio-de-obra servil escrava era macigamente afetada de paupe- rismo. Nao havia, assim, como extremar as reivindicagées de um proletariado, de que apenas rudimentos eram perceptiveis, As episédicas revolias de escravos, a revolta dos cabanas (1833! 1836), a dos balaios (1838/1841) e a dos praiciros (1842/1849), embora de cardter popular bastante radical, foram movimentos de significacio local, acontecimentos isolados, nao suscetiveis de corporificar um idedrio ou um estado de espirito duravel; foram reagdes esporddicas da estrutura econémica € social que nfo che- garam a ameacé-la em seus delineamentos essenciais ¢ que a classe dominante logo conjurou, Inexistindo, até 1888, uma indistria brasileira, um mercado nacional ¢ seus respectivos suportes materiais, ndo pode, entio surgir uma classe operiria unificada, ¢ os grupos populares lucaram por objetivos contingentes ou se deixaram arrastar pelo misticismo em episédios como o de Ant6nio Conselheiro, que foi estudado por Euclides da Cunha em Os Sereées. Escrevendo na iiltima década do séeulo XIX, dizia Sylvio Romero que “a classe mais pobre que existe no pats ¢ justamente 1 que corresponde & burguesia na Europa’. B explicava: Economicamente, somos uns nagio embrionéia je snsis importante indastra€ ainda uma lavoursrudimentar, 69 Trt Cxfrica Da SoctoLocia Baasiteina ‘extensiva servida ontem por dois mithoes de escravos e, ho, por trabulhadores nacionais © milharer de colonos de procedéncia européia, cem vezes mais felizes do que na mie patria. O eapitalismo nacional é-exiguo, quare mesquinho, Em sigor todo o pais &siads uma vasa feitoria, uma vetdadsita colénia, explorads pelo capital eutopeu sob 2 forma de comércio ¢ sob a forma de empresas. ‘A populagio em geal, fica pequena excegZo de alguns fazendeitos.senhores de engenbo, negociantes ¢ herdeiras de capitalists mais ou menos desempenhados, & em sua maioria pobre; mas slo os pobres da india: no sio os proletiioe no sentido cocialeta; porque no sio operitios rurais ow fabris. Se, pois, hd pauperismo ¢ da nagio imteea.? Nas trés décadas do sécilo XX acentua-se a expansio do mer- «ado interno, como se poder4 concluir no exame do crescimento das atividades industriais. Em 1850 no unhamos estabeleci- entos fabris ¢ eram em niimero de 50 as firmas industriais, af inclusive dezenas de salineiras. Em 1889, contavam-se apenas 626 estabelecimentas industriais no Brasil. Nos vinte € cinco anos posteriores, foram instalados mais 6.946 novos estabelecimentos industiais; mas no perfodo de 1915-1919 surgiram aqui 5.940 empresas industriais novas. O valor da produgio industrial atin- git, em 1889, a Cr$ 211,000,000; em 1907, a Cr$ 741.536.0005 em 1914, a CxS 1,500.000.000, enquanto em 1920 montou a Cr8 2,989,176.281. Disto resuleava naturalmente um apreciével au- ‘mento dos contingentes de rabalhadores industriais quyem 1889, (0) ceram 54,169; em 1907, eram 150.841 ¢ passaram 2 275.512 em 1920, uando se realizot 0 segundo censo industrial. Todavia, as transformagées por que passa a economia brasileira, nese perlodo, ‘embora relativamente considerdveis, nfo propiciam ainda a for- magio de um verdadeiro proletariado, por duas raz6es principais. Em primeiro lugar porque esses operirios urbanos, em sua quase totalidade, nada mais sto que ex-camp6nios adestrados em tarefas industriais, carecentes de consciéncia profissional, Em segundo lugar, por que aquelas empresas econdmicas em sua grande maio- ria no representam sendo pequenos empreendimentos, em cujo mbito as religées entre partes © operdrios, grosso modo, no 0) Sach dy WS 70 FO tue thee ¢ lene Wn rene a IV - A DINAMICA DA SociEDADE assumiam ainda o cardter de relagbes entre classes ¢ transcortiam diretamente de mancira nio-formal e paternalista, Enquanto essas condig6es duraram, a classe média ceve de ser necessariamente a classe eminentemente politica. Desde cedo, no Brasil, se formou uma classe média relativa- mente vultosa, pois o regime escravo se constituiu num fator que diffcultava o encaminhamento da mao-de-obra livre para ativi- ' dades produtivas. Para se ter uma idéia da pressio do elemento livre’ considere-se a populacao do pais em 1850 e 1872. Naquele ano, para um total de 8.020.000 habitantes havia 2.500.000 escravos ¢ 5.520.000 pessoas livres. Em 1872, para um total de 10.112.061 habirantes, 1.510.806 eram escravos e 8.601.255 eram livres. Esse avultado contingente livre de nossa populagéo no podia deixar de ser como foi, interessado nas reformas que.am- pliassem as oportunidades de emprego. A classe média do Brasil & uma espécie de vanguarda de todos os movimentos revolucionérios durante a fase colonial. Na fase imperial, alia-se freqUentemente a movimentos progressistas, € a proclamagio da Repiiblica, em 1889, é, em larga margem, a ulti- magio de um processo em que tomou parte decisiva. Durante a fase republicana de nossa histéria, a classe média exprime, através de varios movimentos, os percalcos que resultam de diferenciagao da produgéo no Brasil, através de atitudes duiplices, acomodaticias lumas vezes, subversivas outras vezes, ¢, atualmente, com a cres- ccente politizagio do proletariado ¢ da burguesia industrial ela se inclina para a adogéo de tendéncias direcisras, Mas apesar de suas oscilagbes, a classe média, aliada 20 pro- cesso de expansio industrial no Brasil, na medida que se avoluma, exprime, no plano politico ¢ de modo crescente, até 1930, as tendéncias dominantes do processo de desenvolvimento da socie- dade brasileira ‘A Campanha Civilista de Rui Barbosa em 1910, a Reagio Republicana em 1921, as quarteladas de 1922 ¢ 1924, a Coluna Prestes, a Alianga Liberal € a Revolusio de Outubro de 1930, todos movimentos portadores de reivindicagdes de feigao mera- 7 O wer (ee fey ¢ kaw 89 CCrerica BA SOCIOLOGIA BRASILEIRA, mente liberal, sio marcos da revolusio da classe média contra as oligarquias latiftindio-mercantis. Antes da Revolugio de Outubro de 1930, o pais se encontrava ainda decisivamente dominado pelas oligarquias ligadas a inte- resses do latifiindio ¢ da burguesia mercantil, embora ai se delineasse, nitidamente, uma burguesia industrial. Uma certa plas- ticidade da estrutura politico-partidaria dominante permitia que, através de compromissos ¢ concess6es rectprocas, 2s classes mais atuantes (a latifiindio mercantil, a industrial e a média) encontras- sem, de qualquer forma, um modus vivendi. Até 1930, nenhurn movimento pol classe média, Luis Carlos Prestes, 0 atual Secretirio Geral do Partido Comunista, quando participou da Revolugio de 1924, no era comunista e durante os anos que passou foragido no interior do Brasil, comandando 4 sua famosa Coluna, expressivos contin- gentes da nossa pequena burguesia viam nele 0 Cavaleiro da Esperanga, um simbolo de protestagéo da classe média, em luta contra a exploracio oligirquica e plurocrética. E significative que até Plinio Salgado, o introdutor do fascismo no Brasil em 1932 e atual chefe do Partido de Representacio Popular, tenha se referido com simpatia 4 Coluna Prestes, em seu romance O Cavaleiro de Jtararé, publicado em 1933fNa década de 1920-1930, a vanguar- da de nossos movimentos politicos € assumida por elementos da de importincia ultrapassa a perspectiva da classe média e principalmente por uma ala revolucionétia das forcas armadas cuja presenga facilmente se identifica nos movi- mentos subversivos de 1922, 1924 1930, e no chamado “tenentismo”. A popularidade da Revolugio de 1930 ¢ a relativa facilidade com que se venceram as forcas governistas estio a mos- trar a escassa contradigao entre os inceresses das virias classes que, confundidas como povo, se opuseram as oligarquias dominantes, Depois de 1930, fortificam-se as tendéncias econémicas © so- ciais mal-enquadradas no sistema anteriormente dominante, ¢ elas se traduzem na expansio da produgio para o mercado interno no incremento da produgio de bens capital. A crise mundial de 1929, provocando 4 queda do valor de nossas exportasées, repercute 72 : IVA Dinanica ba SociED ADS favoravelmente em nossa economia, pois que impulsionou o pats para produzir incernamente grande parte dos bens que eram im- portados. Algumas cifras dao idéia precisa desta crise externa, No qiingiiénio de 1925/1929, exporcamos 10.413.701 toneladas no valor de 440.946.000 (libras ouro), No qiiingiignio de 1935/ 1939, exportamos 17.280.000 toneladas no valor de 190.841.000 (libras ouro). Baixava assim a remuncragio dos fatores empregados na agricultura. Enquanto isto, os fatores empregados na inddstia recebiam cada vez melhor remunerasio. Se igualarmos a 100 0 valor médio dos produros agricolas primérios no qitingtiénio de 1925/29, verificaremos que eles descem para 86 no qilingliénio de 1940/44. Enquanto isto, e procedendo de modo idéntico, verfi- camos que, de um periodo a outro, respectivamente, o valor médio unitério dos produtos bésicos da industria sobe de 100 a:201. Nestas condigoes 2 produgio industrial cresce de modo acelerado. Medida em termos de ferro ¢ ago, a produgio de bens de capital, ‘no ano de 1932, crescera em comparacéo com a de 1928, em 60 por cento. A participacéo de maquinaria no valor total das impor- tagées segue a seguinte linha ascendente: 1920-10%; 1930-14%; 1938-23%; 1952-29%, Na década de 1930 se inicia o declinio da burguesia latifiindio- mercantil como classe dominante, pois, que, forsada pela conjun- tua internacional desfavordvel, comega a perder suas antigas po- sigdes no centro do poder em beneficio dos interesses da burguesia industrial. Nao se deve, entretanto, exagerar, nese perfodo de 1930/1940, a tensdo entre aquelas duas classes. Mesmo hoje, entre uma € outra, h4 menos polaridade do que ambigiiidade?, motivo porque as lutas politicas aré agora sio ainda marcadas de escassa nitider ideolégica. E que 2 confusio esté nos fatos mesmos, nisto que, para mencionar apenas um dado, o nosso capitalismo indus- trial vem se formando de significatives recursos provenientes = 3S. coincidindo com freqiiéncia em nossos homens de negécios, o industrial ¢ o latifus {0 wansparece, sobretudo, na conduta politica do partido majoritdrio do Brasil, o Partido Social Democratico. O presidente YS frotret & fal vw rf 73 Tee ERICA DA SOCIOLOGIA BRAsILEIA Gexilio Vargas, em cujos perfodos governamentais mais se de- senvolveu a inddistria, era um criador de gado. Um insuficiente deslinde dos interesses do | indistria € o que explica decisivamente o Golpe de 1937, que instalou o Estado Novo, chefiado por Vargas. A bragos com 0 imperativo de reorientar os investimentos para a produgio desti- nada 20 consumo interno, 2 burguesia latifundiria ¢ a industrial careciam de um ordenamento politico-estatal que garantisse esta transigéo sem grandes percalgos. Era necessirio dar um sentido ais intervencionista a0 Estado ¢ eliminar os obstéculos que di- ficultavam o pleno funcionamento de um meccado interno, Por isso foi possivel 0 Golpe de 1937. © chamado Estado Novo (1937/ 1945) foi assim uma ditadura da hibrida burguesia nacional ‘A ambigilidade dialética é ainda hoje discernivel nas relagées entre aquelas classes, embora tendendo a transmutar-se em verda- deira polaridade com o desenvolvimento econdmico. Na década de 1930-1940, comeca a delinear-se como forga politica 0 proletariado brasileizo que, em nossos dias, constitui a base eleitoral de um dos maiores partidos do Brasil: 0 Partido ‘Trabalhista Brasileiro. No més seguinte 20 da vitria da Revo- lucio, em 26 de novembro de 1930 (decreto 19.443), criou-se 0 Ministério do Trabalho, Industria e Comércio; em fevereiro de 1931 instituiu-se 0 Departamento Nacional do Trabalho; em margo do mesmo ano regulou-se a sindicalizagio das classes pa- tronais e operitias. Desde uma lei de 5 de janeiro de 1907, era permitida a organizacio de sindicatos operdrios, mas s6 a partir de 1931 se inicia, entre nés, a estruturacéo sindical das classes. ‘As lutas eletorais posteriores & deposicio de Geuilio Vargas em 29 de outubro de 1945 exprimem de modo crescente o amadure- cimento do proletariado brasileiro, sobretudo no meio urbano. E esse contingente que garante a eleigio de Vargas como senador em 1945, a sua reeleicio & Presidéncia da Republica em 1950 «, bem assim que, através das eleigbes de 1955, di a vit6ria ao candidato a Presidéncia da Republica cujo programa parece mais coadunar- indio e da v4 BO ee ated ett i IV- A Dinamica ba Sociepane Nos tiltimos vinte e cinco anos, @ pequena burguesia tem sido cooprada pela direita politica, principalmente pelo integralismo (versio brasileira do fascismo), fundado em 1932, extinto em 1937 e reaparecido em 1945, sob o nome de Partido de Representacio Popular, Nos quadros deste partido ¢, desde 1945, também da chamada Unio Demoerética Nacional e, ainda, do pequeno Par- sido Democrata Cristio, até o presente, a classe média no Brasil & groso modo, uma forca reaciondria domesticada por uma ideo- logia reformista € moralista. Um contingente minoticério desta classe se distribui entre os partidos da esquerda, af inclusive 0 clandestino Partido Comunista do Brasil, cujos quadros se cons- tiruem significativamente de elementos pequeno-burgueses."” (© observador estrangeiro que examinat a trajetdria das idéias politicas que caracterizam os diversos momentos de nossas trans- formagées de classe constatari que elas sio, invariavelmente, to- madas da Europa e algumas vezes dos Estados Unidos. Alguém jé viu nisso um flagrante do “espirito de imitagio” do brasileizo, Entreranto, do ponto de vista sociolégico, aquelas idéias s6 podem ser corretamente explicadas tendo em vista a sua funcionalidade, ‘As doutrinas, na luta partidéria no Brasil, tem servido para camu- flar as intengSes ¢ os propésitos, ¢ a compreensio do seu sentido existencial ¢ néo meramente légico requer que o analista as trans- cenda, apreciando as conexées objetivas dos que delas se utilizam, Quando, por exemplo, a nossa classe latifundidria se empenha na lura pela independéncia do pais, apela de fato para as iddias em voga na Europa, Com efeito, observa um historiador (Caio Prado Jinior) que, 40 elaborarem em 1823 um projeeo de Constiesig, foram os consticuines braicizos buscar seus modelos nas insti tuigber da Epoca, inglesae frances, nesta prinipalmence, « nos princpias flosdfcos do Conrato social de J. J Rousseau, Ers uma homenagem as doutrinss entio em ‘oga. As idéias do sistema politico adorado por nosso legis- Iadores consieuconais exprimiam, na Europa, as reivin- dicagGer do Teresi Bxado, especialmente da burguesia comercial industial, contra a nobreea Feudal, a clase dos propri-tiroe. Até certo ponco, € 0 conrétio que se dé no 7S Chrrice Da SOCIOLOGIA BRASILEIRA Brasil, Sto aqui os propriecirios rursis que as adotam contra 1 burguceia mercantil dagui e do Reino. © que houve fo apenas uma simples coineidéacia dos meios a serem empre- sgados para fins diversos. Qual era o problema dos legis- es palitias © ec0- micas do regime colonial pola estrucura de um estado nacional. Ors, at idéiar centrais dos sistemas politicos e Floséticos que orientam 2 revolugfo do Velho Mundo eram justamente estat: liberdade econémica esoberania nacional Adoraram-nas, por iso, 08 consticuintes de 1823, porque coincidiam perfeitamente com eeus propésitos, porgue se adaptavam come luvas — feicas as devids corregbes, de que ‘fo se exqueceram — 20 caso que tinham sob as visas; € ‘também porque toda aculeura intelectual brasileira da epoca 8 formars na filosfia francesa do século XVII. Por iso, na falta de um sistema original, que nfo estavam evidence- Tadores beasileios? Substcuic as ces mente em condigSes de produair, apegam-se 0s nossos cons: tituinees a elas, Fazendo mats ots menos 0 que jérealinara (© Cédigo Napolesnico, adaprando & sociedade burguesa do século XIX 08 principiae do direeo civil oman.” Carecendo a sociedade brasileira de pautas institucionais sufi- cientemente dotadas de conteiido consuetudinério, os grupos ¢ facgBes eram forgados a apelar para as férmulas feitas, as quais, na verdade, instrumentalizavam segundo os seus propésitos. A sociedade brasileira, integrante que é da periferia da chamada civilizagio ocidental, néo pode furtar-se & influéncia da cultura € das sociedades dominantes nesta civlizagio, Este condicionamento cultural, estreitamente vinculado ao imperialismo econdmico, sé € neutralizavel quando sio atingidas condicdes objetivas detetmi- nadas que apenas recentemente se configuram em nosso pais. Notas ® @ 8 Primeira de uma série de conferéncias sobre assuntos brasi- leiros realizadas pelo aucor, em Paris, em dezembro de 1955, sob 0s auspicios do Instituto de Altos Estudos da América Latina da Universidade de Paris Para maior esclarecimento sobre o ponto de vista globalista, vide nesta obra: Cartilha brasileira do aprendiz de sociélogo. Vide MANNHEIM, Kad. Idealogia y utopia. México, 1941. 76 EE ee ea @ 6) ) ” @) 0 (19) a) 77 TV -A Diisawics D4 Socmpane ... Cf. HELLER, Hermann, Teoria del Estado, México, 1947. CE. GURVITCH, Georges. “Hyper-Empirisme Dialectique”. In Cahiers Interationancx de Sovologie. 1953. vol. XV. Sobte as nogies de centro © periferia, cf. TIMASHEFF, Archives de philosophic du droit et sociologie juridique, 1936, Il, Consulte-se também, Candido Anténio Mendes de Almeida, Posibilidade da sociologia politica, Rio de Ja- neito, 1954. (Os mais aurorizados estudos sobre a desintegragio do com- plexo rural no Brasil io devidosa Igndcio Rangel e Gillerco aim, Cf. as conferéncias desses autores sobre desenvolvi- mento econémico do Brasil, mimeografadas pelo Instituto Brasileiro de Economia, Sociologia e Politica, em 1955, ROMERO, Sylvio. O Evalucionismo eo positivismo no Brasil Rio de Janeiro, 1895, p. XLVL Para uma inteligencia dos termes polatidade e ambigtidade, cf. GURVITCH, G. “Hyper-Empirisme Dialectique”, artigo nos Cahiers internationaus de soielegie, 1953. vol. XV. (© Partido Comunista do Brasil, acualmente elandestino, em escasse expresso proletiria. Em 1947, quando este Partido funcionava legalmente, 0s seus adeptas somavam cerca de 200.000. Atualmence deve ser menor © niimero dos comu- nistas fichados no Partido. CE PRADO JUNIOR, Caio. Evolupao politica do Brasil So Paulo, 1953, p. 51. V - Bsforcos de Teorizagito da Realidade Nacional Politicamente Orientados, de 1870 aos Nossos Dias? wo wee : gre ne Nos métados de agio social ¢ politica de nossas elites, desde a Independéncie até os tempos da Repiblica, Oliveira Viana fez notar a incidéncia do que chamou de idealisme utdpice. Essas ira Viana, ceriam acreditado na eficcia imnente de teorias ¢ instiruig6es européias e norte-americanas, ‘¢ as transplantaram para @ nosso pais certas dos seus efeitos Be- nélicos. Segundo 6 socidlogo Hluminense, os que assim fizeram, teriam agido sem bom senso ou com ingenuidade ¢, portanto, elites, na critica de Ol poderiam ter tide outro comportamento se nao se tivessem deixado empolgar pelo prestigio daquelas teorias ¢ instituigbes. A obra de Oliveira Viana, na parte que diz respeito & critica de nossas elites, ¢ certamente, 0 méximo de objetividade que, até agora, 03 estudes sociolégicos atingiram, entre nésfDe fato, a a¢io de nossas elites deixa perceber que elas pretenderam, em apreciével scala, dominar os fatos da vida nacional através da exemplaridade das idéias e das instituig6es. Teriam elas a conviegio de que os cidadios, sob o impacto dos exemplos, seriam induzidos a alterar a sua pols Pavece, entretanto, que Oliveira Viana viu aqui ea then a 4 Hpity > eh — tneepel— * PEL No Brasil, as priticas ideal 1 abfemprealadas wenden po Ma ee Critica pa SOctOLOGIA BRASILEIRA oa oe smeia verdade; nfo a verdade toda, Isto porgueaquela cond it es,{menos decorréncia ‘nada de idealista-utdpica foi, muitas vezes,t aia yng wn xen pags» cfu inmperatvarente de recorter a fim de racionalitas 98 ie ivindicagbes de grupos ¢ facgoes atzelados justificar interesses ¢ re ee ts cendéncias nem sempre ilegicimas da 5 a as priticas idealistco-udpicas nem sem~ escimenro vegetative do a revisio. “Assim, é provavel que pre renham contrariado o proceso de erie 8 +e © tema do idealismo urdpico esta pedir, hoje, uma Fe raido leva a crer que of Sales Torres Homem, 05 aoe Ss a i ‘utépicos tipicos, na insinuaca iv os Ra Barboss os re ogi muito eierente da doe wopicos Viana, tenham uma psicologia muito oni Mateos, Pelo menos, quanto 3 atitude em face dos m i ts uns e outros se dstinguem, Os primelios pos malt sngoes, viram, nas teor! werosas que tenham sido as suas intengoes, VIER as genomes de lore da oes sia Sm tltapassa, porém, os inceresses das clases socials gus sees tava. Os aitimos iam mais além, pretendendo 2 supressio Sos fociais, 0 milenium sertestre neg itico-utépicas estiveram quase vas da evolugio da sociedade. & nrativas de teorizacio da reali- ido de possibilitar sua melhor institucionais, fo que parece evidente nas varias dade nacional, ofientadas no se conformacio ou de dominar 0 proc dade nacional. co extas veneativas que procurarci estudar, sem conrudo Pre> Cee a iis exsn, Minha pocupaso fot esses esforgas ¢, registrando 0 seu Sgnifeade nos coments em Gque surgiram, ganhar maior compreensio do desta sociedade brasileira (© presente estudo constant dos s I - Os republicanos de 1870: II - © movimento positvistas IIT - Sylvio Romero ¢ a sociologia ‘eso de crescimento da socie~ eguintes capiculos: da sociedade republicanas 80 LV - Bsrongos pi TEORIZAGLO DA REALIDADE, IV - Os idedlogos da ordem e progresso; V - A revolugio da classe médias VI - A revolugao de 1930; VII - Conclusao, I- Os Republicanos de 1870 Em varios momentos crticos de nossa histOria se registram tais esforsos. Um dos primeiros é 0 Manifesto de 1870 do Partido Republicano, Trata-se de um documento cuja plena inteligéncia s6 Epossivel a partic das condigées concretas de vida naquela época Na data de 1870, ja eram bastante nitidas certas contradigoes entre as instituigdes vigentes e novas forgas produtivas que buscavam 0 seu curso normal numa forma de organizacio nfo escravocrata = Uma considerivel massa de cidadsos livres, mal-ajustados num sistema em que quase s6 havia lugar para senhores e escravos, | carecia de posicéo ¢ fungio na sociedade, Para se ter uma idéia da pressio politica do elemento livre, compare a populagio do pals fem 1850 ¢ em 1872. Naquele ano, para um total de 8.020.000 habitantes, havia 2.500.000 escravos ¢ 5.520.000 pessoas livres Em 1872, para um toral de 10.112.061 habicantes, 1.510.806 ceram eseravos ¢ 8.601.255 eram livres. Além de outros, este fator demogréfico agia no sentido da ruprura do sistema agrério fey Branco, jé suscitava a resistencia do setoFTatifundiério Tals contradigées se refletiam nos quadros politicos, e deman- davam a alteragéo do exquema das instiuigées em cuje funcio- hamento se assegurava o predomfnio dos fazendeiros. Os latifun- didrios garantiam 0 primado dos seus interesses principalmente arravés do Senado Vitalicio, do Conselho de Estado, da central ragio politico-administrativa, do Poder Moderador e sua prer- rogativa de irresponsabilidade ¢ de dissolugéo da Cimara. O manifesto de 1870 representa uma sistematizagéo dos pontos de estrangulamento que devem ser desfeitos, a fim de que scjam liberadas as novas tendéncias objetivas da sociedade imperial. E a teoria politica da realidade nacional naquele momento. 6 Ide by bY ow ar trSeMweds fb Weetrry _excravoctata e, portanto, do estimulo a indgsssiglizagio do pats, a qual, de resto, estava em proceso e, se(eison atarifa Alves Cninica pa SocioLosia Brasterans Diz 0 Manifesto: (© privilégi, em todas as suas relagbes com 2 socie~ dade — aal & cin sincese, 2 formula socal ¢ politica do nosso Pais — privilégio de eligto, privlégio de raga. pri- Vilégio de sabedoria, privilégio de posigo, isto é, codas as disingSes arbtriras © odiasas que exlam no scio da soci- tedade civil ¢ politica a monstruosa supetioridade de um sobre todos ou a de alguns sobre muicos, ‘Acie descquilbvio de forges esa pressfo atrofadora, deve 6 nosso Pais a sua deeadéacia moral, a sua desorgani- ragio administativa © as perrurbagSes econdmicas, que lamesgam devorar 0 futuro depots de haverem arruinado © presente ‘A sociedade brasileira, apés meio século de exiséncia ‘como coletividade nacional independente, encontta- hoje, apesir disso, em face do problema da sua organizagio po- Iiica, como se agora surgisse do caos nacional © documento passa, depois, a incidir em um por um dos aspectos do regime imperial assinalados anteriormence. Refere-se ao “vicio orginico das instieuigées, deficientes para garantir democracia e unicamente eficazes para perpetuar o prestigio ¢ a forsa do poder absoluto” da “vontade de um homem”; proclama que “no podem constituir, de nenhuum modo, 2 legitima repre sentagio do Pais”, “uma ciara de deputados demissivel & yon rade do soberano e um senado vitalicio & escolha do soberano”: ainda, que o “regime da federagio baseado na independéncia recfproca das provincias... 60 nico capaz de manter a comunho da familia brasileira Bfetivamente, esta teorizasio da realidade nacional de 1870 no pode ser dita GenueaE uma interpretagio politicamente orien- tada segundo o ponto dé vista daqueles serores da classe média que, nna sociedade imperial, comegam a cer acesso na esfera de decisio politica: o setor dos profssionaisliberais. Dos 56 assinantes do Manifesto sé um se declara fazendeiros quatorze se declaram advogados; cinco se declaram engenheiros; nove se declaram nédicos; quatro se declaram jornalistas; sete se declarant’ nego- ciantes; dois se declaram professores;trés se declaram empregados \ puiblicos; um se declara capiraliscas ¢ os dee restantes néo declaram We % a / aarividade. Note-se como 0 Manifesto quase ynvliese 4 tavongos oe TronzA¢H0 94 ReastoADe ne gent ncia sobre 0 aspecto propriamente econ6mico da sociedade brasileira Naquele ‘momento, o miximo de consciéncia possivel que se poderia pedir ‘aos quadros liberais da classe média era o da necessidade de reajustamento politico-zdminitrativo de modo a que pudesse ad- ‘quirir posigio ¢ fungio na sociedade um aprecidvel excedente de cidadaos Tres classe latifundidria ainda tinha fungdes positivas 2 cumprir ¢ a indiscria nacional de entio apenas se iniciava,? Ni parece uma observagio dotada de absoluta propriedade de que os republicanos de 1870 tenham sido idealistas-wtdpicos. Esta observagio decorre talvez de uma consideragio do aspecto puramente verbal do seu comportamento, sugerido obviamente pot idéias e instiuigbes de palses de grande prestigio na época, Todavia, 0 comportamenso efetivo desses politicos nada tinha de ucépico; era pragmatico, sendo a parafemélia vocabular’ que tusaram mera camuflagem de concretos interesses © propésitos. I - O Movimento Positivista Fotam, entretanto, os postivistas que, pela primeira ver, entre nds, colocaram com toda clareza o problema da formulagao de uma teoria da sociedade brasileira como fundamento da acao pol sGdial,O primelro estado posicivista que aparece aqui jé mani oInteresse dos adeptos de Comte pelos problemas nacionais. pripTratase de A Exravidio no Brasil, de aucoria de Francisco José wae? Brandio, editado em Bruxelas no ano de 1865. A Sociedade Positivista, fundada em 1878 (5 de setembro) se tornou logo um céntro ponderivel de difusto de idéias. Por sua vez, 08 positivistas também atuaram atraves do Partido Republicano, Diversos foram 0s adeptos brasileiros de Comte que procuraram formular uma concepsao unitéria do pais. Um deles, Anibal FaleSo, publicou em 1883 um optsculo intitulado Férmula da civilizagio brasileira, a qual consistiria no “prolongamento americano da civilizagéo ibé- rica, a que cada vez mais se assimilardo, até a reunificasio total, 0s Indios € os negros importados, ou os seus descendentes.” Mas dentte 0s aficionados da igreja comtista, € a Teixeirg Mendes que se deve um esforgo mais sério da formulagae de uma > (rrAB He, ans apres, o UsdersgpA_ 0) Fa deny re Pareto Taree Chtrica 0% SOCIOLOGIA BRASILIA reoria do Brasil. Estd exposta no optiscul6, Glee escrito em 1881. Af Teixeira Mendes se rept fismo” da geragioda Independéncia, 2 inexisténcia, nese momento, de “uma teoria positiva de governa”. Segundo ele, o erro de José Bonificio, e dos outros prégonos de 1822 — erro que consistiu em do se ter assegurado “a supressio da hereditariedade monérquica, ‘tornando a sucessio dependence da escolha do ditador, sancionada pelo voto nacional” — , poderia cer sido reparado se a “falta de uma teoria cientifica no constituisse um obsticulo permanente, insuperdvel, a qualquer visdo clara das necessidades politica”. ‘A concepcao positivista do Brasil se caracteriza pelo seu carter normativo. Partindo de um conceito de sociedade normal, os seus ‘adeptos se preocupam de preferéncia em sublinhar 0 que concre- tamente Ihes patece diserepante em fungio dos seus padvdes. Na teoria positivista do Brasil, h4 que distinguir dois aspectos: as teses gerais e 0 programa, Os positiviscas adotaram literalmente sistema de Comte e, nestas condigées, a eles se aplicam todas as ismofE. perceprivel, hoje, restrigbes que se fazem hoje 20 po | que o sistema de Comte reflete as condigdes peculiares do mo- mento e da sociedade em que ele viveu, implicando ainda uma © teoria da hist6ria que atribuia & sociedade européia a categoria | de teferencia bisa do desenvolvimento, ambi, um conesito abstrato de sociedade, pois a tanto corresponde 0 pensamento sociolégico que ndo percebe que ndo existe a sociedade, mas ares sociedades, cada uma das quais com as suas leis pat Abstraindo «ais leis parciculares e 0 condicionamento his- t6rico-social da psicologia humana, os nossos positivistas admi- tiam a possibilidade da transformacié da sociedade através do esdlaecimenro mental dos homens. Neste sentido, dia Tebseira Mendes que 0 7 n/n nil ey irom oh todos os dominios inferiores da atividade humana, deve introducit-se hoje aas artes superiores que sistemativam a madificasSe da sociedade ¢ do homem — a politica © a moral. O fldsofajassimilou, inventou e demonstra cons: traindo a sociologia e a mora; rests convencer e persuade os homens pela propaganda, que tarda regencragio mental Ya ¢ key hw % " heat BAMA Milde 9 aa Ww ae) { infrake | “OUAGX Proneos m ronaacio on Reno. ae s « moral primeir e, como consegilénca lta, a reforma policies das sciedades humana Numa visio, por assim dizer apocaliptica da histéria, conce- biam 0 que chamavam de “época normal”, que descreviam como aquela em que o planeta se ha de compor de pequenos Estados livres em toda acepsio do terme, porque cada homem cumprid conscientemente 1s deveres exigidos pela siuagio social, todas a¢ pétriae formario uma vasta confederagio cujo lago serd exclsiva- mente moral, em virtude da uniformidade das conviegSes, ‘ da sincrpia dos esforgos ¢ da simpatia de todas 26 alas. Indiscutivelmente, enquanto doutrindtios, os nossos positivistas cram utépicos. Todavia o programa de medidas que preconizavam para o problema brasileiro, em muicos aspectos, apresentava cunho pritico, do ponto de vista da classe social a que majoritariamente pertenciam,/Tais eram, por exemplo, medidas como: a supressio da hereditariedade mondrquica, a supressio da religiso de Estado, a promulgasio de instituigdes civis que assegurassem a liberdade de pensamento, a aboligao da escravatura, E, enquanto a tec positivista se rornou um suporte ideolégico destas reivindicagées, deu expresséo a genufnas tendénclas da sociedade nacional e contui- buiu para a superacio de contradigées nelas vigentes, Mas nem o préprio éxito dos positivistas nos primeiros anos do regime republicana thes possibilitou a realizacio do que havia de extravagante em seu programa. Cerca de dois meses depois da proclamagio da Repablica, os positivistas apresentam a0 povo as Bases de uma constituigdo poltrico-ditatorial federativa para a Repii- blica brasileira, em que Se preconizava a atribuigio do governo federal a um dirador, em consondncia com a seguintes regras: © ditador atual continuard a ter aquele gue or aconteci- rmentos fizeram esponraneamente sutgit,enquanto nfo 1e- runciarlivremente a0 posto em que se acha. Se © mesmo ditador jd iver completado 56 anos deveré, apds 2 apro- vagio destas bases, indicar 0 seu sucessor, 2 fim de ser a cescolha sancionada, em caso de remincia ou morce, pels capitas dos escados brasileiros. Entretanto, apesar da relativa influéncia dos proséitos da dou- trina ¢ de scus simpatizantes, a proposta ficou no papel, 85 Crenica pa Socioroaia Brastueina III - Sylvio Romero e a Sociologia da Sociedade Republicana Nio s6 pela agio de presenca que teve em sua época, como polemista,critico e politico, Sylvio Romero merece um lugar nesta seqiiéncia, mas porque, depois de Teixeira Mendes, foi ele quem a seguir procurou sempre respaldar a sua atuagio numa teoria da sociedade brasileira. Em 1886, dizia Sylvio Romero: ‘A teotia da histéxia de um povo parece me que deve s ampla comprocaiva, a pont de fermecee ama expicagio completa de sis marcha evolutva, Deve apoderarse de todos 08 Fico, firma sobre cles para cclarecer o segredo do passado e abrir largas perspostivas na dingo do futuro (6 grifo & meu E prosseguindo nesta ordem de indagacdes escreveu estas pa- lavras plenamente vélidas ainda em nossos dias: “Todo qualquer problema hisérco... hé de ter no Brail duss fas principsis: uma geral © outa panicular, urna influenciada pelo momento europeu eoutra pelo meio racional, uma que deve aender 20 que vai pelo grande mundo ¢ outea que deve verifier © que pode sr aplicad © ctitico sergipano nunca chegou a formular uma teoria con- figurada do Brasil, tendo deixado esparsos em virias obras os ‘elementos desta. Tentou, é verdade, o empreendimento de cujo plano pode apenas esbosar as linhas gerais em seu optisculo O, Brasil social. Nao & assim, fécil carefa expor as suas idéias até porque, as vezes, io contradiebrias. Para guardar a coeréncia deste ‘stud, tratarei apenas dos trabalhos do critico realizados com 0 ‘objetivo de fundamentar uma ago politica Impressionado com os acontecimentes politicos ocorridos nos primeiros anos da Republica, especialmente com a atuagio de Floriano Peixoto, viu na presidencislismo da Consticuigéo de 91 a fonte de nossos males, e em oito cartas a0 Conselheito Rui Barbosa (reunidas depois na obra Parlamentarismo e presidencia- lismo na Repiiblica do Brasil fer a defesa das insticuig6es parla- mentares, discutindo o assunto em cese, através da exposicio das 86 eee V ~ Esroxcos Of ThORIZAGKO DA REALIDADE, vantagens do parlamentarismo e dos defeitos do presidencialismo. um panfleto que terd realizado na época uma funcao positiva pelo seu valor como protestagio contra a hipertrofia das poderes presidenciais. ‘Todavia, um trabalho posterior de Sylvio Romero jé apresenta grande importincia como documento interpretativo da vida poli- tica nos primeiros anos da Reptiblica. Refiro-me 2 introdugio do livro O Evolucionismo e 0 Positivismo no Brasil, editado em 1894. Al procura 0 eritico a “Iei socioldgica que vai presidindo” & génese © & formagio das principais correntes de opiniao, com 0 objetivo de contribuir “para a oriencagao dos espfritas”. E esta provavel- ‘mente. primeira meditagio sociol6gica sobre os partidos politicas na Repiblica Sylvio Romero, numa grande intuicao sociolégica, tira todo partido da crt politica aque asin de que parcpactem plena conscincia da rentabilidade ciencfica desta aticude experimental. | Diz ele: [No Brasil epreenease agora ua dees dramas rom que nee a todas as gerages ¢ dado pretenciae. © erboroae dle um cone, 4 queda de instieaigies quate quatro vexs seculaes, pois que essa é a verdadcta data do governo régio no Brasil levantar de novasorganisagSes, de waves férensas, de noves doutioas, com seus moldes e suas ne- cessdades novas, cudo ito consizal para os socklogos © amadores de estos de pscologix popular um momento (© nosso autor disceme naquela fase da evolugéo constitucional do pais os seguintes partidos: 0 mondrquico, restaurador, ou neo- caramuns, 0 socialista; 0 jacobino; 0 militar; e © positivist, De cada um traca a génese e dé uma cabal interpretacio sociolégica. tinge, porém, 0 méximo de lucides 2o tratar do partido socalisa Encaminhando a sua interpretagdo, pergunta-se: Corresponde 2 criagio de um partido prolectio na Brasil a necssidadese aspiragis indivi, sendo de todo ‘9 povo, ao rienoe de sma grande clase da sociedade? Possuimos jf nds aqui as condigies,rodat as condigbee indispenciveis exsténcia de wm proletarede plc, pro- pondo lat ¢ projtes de eivindiagbex? 87 Se ete telecine ttt Cammca DA SocioLOaia BRasiLenta “Infeliamente, nao”, € a sua resposta. Conclui pela “artficio- sidade do movimento”. E explica: Beonomcarnente somos uma ndGlo embrionéti, euja mai importante indGstria €sinds uma lavoura rudiment, «xtensva servida oncem por dots miles de escravose hoje por trabalhadoresnacionsis ¢algumas dezenas de milhares de colonos de procedéncia européia, com vezes mas flizes do que na mie pitra, Que socialism stio deve sar dat nesses durentos anos © captalome nacinalé exigue, quase rmesquinho, Em rigor todo 0 pais € sinds uma vasa fecoria, uma werdadeira colbnia,explorada pelo capital curopeu sob a forma de comércio e sob a forma de empresas, A populagio, em geral, fita a pequena excegio de alguns farendeitos, serhores de engenho, negociantes © herdeiros de capitalists, mais ou menos desempenhados, & ‘em sta maioria pobre: mat so 0s pobre: de ind. 08 proletiios no sentido sacalits; porque nio sio ope- ‘ios ruras ou Fabris, Sey pois, h& paupersmo & da nagio Sem divida, uma resposta de grande categoria sociolégica, Sylvio Romero, realmente, aqui nos dé uma das chaves para a compreenséo dos movimentos politicos de fases e movimentas que, at hoje, tém refletido os percalgos e as vicissitudes de uma classe meédia em busca de enquadramento social, Aquele partido era estruturalmente impossivel numa estrucura em que a uma burgue- sia latifundidria mercantil s6 se opunha, com alguma consciéncia de seus interesses, uma incipiente classe média, aqucle contingente de pessoas “diplomadas e vestidas de casaca”, @ mundo dos médicos sem clinica, dos advogados sem cliencela, dos padres ser vigaraias, dos engenhelros sem ‘empresa e xem obra, dos professores sem dscipuls, dos escttores, dos jormalists, dor liertos sem Isitores, dos artistas sem pablico, dos magistrados sem juizados ou a6 «om eles, dos Funcionéros publicos eal remunctados. Isto é, observa Romero: “a classe mais pobre que existe no pais € justamente a que corresponde & burguesia da Europa’. Além disto, Romero vé 0 desenvolvimento dialético do opera- lado politico, pois a tanto o leva sua convicgio de que a sociedade 88 Ve Dea setts 4 wily oh Tse, (he, 1, V Esrongos be Teonizacho ba Reatibane. ta A Mathie de dips HCio- CMB, “evolui normalmente, segue um ritmo de desenvolvimento deter- inado pela lei de causagio, que outra coisa nio é mais do que @ constancia sistemética e infalivel de uma determinada cadeia de antecedentes ¢ conseqtlentes”. Em conseqiiéncia, apesar de cons- fatar, naquele momento, um estado “onde todas as classes jazem amorfas cindistintas”, “onde a opinigo publica nao tem disciplina, ‘nem orientagio segura, racional”, afirma que nosso operariado (quareo estado”) chegaré a “crescer em forca”, “ha de emancipar- se € florecer como poderoso fator” e “fari bem em organizar-se” Ainda no dominio da vida politica no Brasil, Sylvio Romero exprimia uma contradigao que nos nossos dias se torna uma das diffculdades fundamentais a ser vencida no ajustamento da orga- nizago partidétia as necessidades de deschvolvimento do pats, este sentido, observa Romero, em seu estudo As Oligarguias e sua elassificapio (1908), que “nao temos sistema de doutrinas”, e-“até 8 grandes nomes” se submetiam aos “patrdes”, aos chefes de cla “Com quem esté o sr. Pena? Com o blocoeo Pinheiro Machado ‘ou com © Jodo Pinheiro ¢ Carlos Peixoto? Com que esté o st. Rui? Com o Nilo Pecanha ou com o Backer, com o Severino Vieira ou com 0 José Matcelino?” E fandamentou suas criticas, demorando-se na discriminagio dos varios tipos de oligarquia, “férmulas bastardas de organizagio politico-social” que predominavam nos Estados da Unio, desde © “aciolismo” no Norte ao “castithismo positivéide” no Sul. IV- Os Idedlogos da Order e Progresso Sylvio Romero faleceu em 1914, um ano decisivo em nossa evolugéo econémica ¢ social, que registra o infcio da T Grande Guerra cujos reflexos em nosso pais se tornam accleradores do seu progresso. Estimuladas por uma conjuntura internacional fa- vordvel (declinio da importagio e da concorréncia estrangeira, esultante da force queda do cimbio) acentuam-se as tendéncias centripetas da economia nacional que jé vinham se esbosando desde 1880-1890 que se exprimiam através da expansio do mercado © da industria do pais. Até 1889, havia somente 626 estabelecimensos industriais no Brasil. Nos vinte e cinco anos 89 Ht Patt, diced, ipo: We antacr . bepemronD hy my fry; Onmrica Da SocioLocia Brasineita V = EStOnGOS bt THORIZAGLO BA RUALIDADE.. posteriores foram instalados mais 6.946 novos estabelecimentos industriais; mas no perfodo de 1915-1919 surgiram aqui 5.940 «empresas industriais novas. O valor da produgio industrial atingi em 1920 a 3.000.000 de contos, enquanto em 1914 era de 1.350.000 contos. Disto resulrava, naturalmente, um aprecidvel aumento dos contingentes de trabalhadores industriais que, em 1907, exam 150.841 ¢ passaram @ 275.512 em 1920, quando se rellizou 0 segund® censo industria Antepunha-se, porém, a estas tendéncias, graves obstéculos que urgia liqiidar. Um deles consistia no controle de ramos impor- tantes do nosso comércio interno como exterior por estrangeiros. Na capital do pais e nas mais importantes cidades do litoral, o fato cra particularmente ostensivo, tendo 0 portugués excluido pratica- mente o brasileiro das atividades comerciais, Dizia-se existir na Junta Comercial do Rio contratos de casas comerciais em que os ‘seus sécios se obrigavam a néo admitir empregados brasleiros, Favorecia a este predominio a grande imprensa do Rio, na époce, praticamente nas mios da colénia portuguesa Esta situagéo, aliés, vinha sendo denunciada desde longa data Em 1849, Timandro (Sales Torres Homem) em seu panfleto, O Libelo do povo, deplorava que 0 comércio pertencesse 0 auvido de portugucses, que enchem e desnacionalizam a5 capicas de nossas provincias markimas, e que mensil- ‘mente se reerucam com cents ¢centas de reéin-chegades, (8 qusis vém sinda mingoae nossa civiizag. E Paul Adam, em seu livro editado em 1914, Les Visages aie Brésil, escrevia Em pleno século XX, eines ou quarenea mil negocian- tes portugusies; protegidos por uma legslagio por certo que em dematia liberal, espeitadara do individuo e de seus aos, infigem a vinee e cinco mithdes de braileirs estas dificuldadese safimentos, wma polities ineiramente fivo- rivel 20 comerciante, 8 sua liberdade absolute, aos seus planos de exploraci. Um marco famoso da literatura contra 0 portugués no Brasil é ainda 0 livro de Antonio Torres, Ar Razoens da Inconfydencia (1925). 90 Foram essas circunstancias que presidicam, a partir do final da década de 1910-20, alguns expressivos esforcos de teorizacio dos problemas brasileitos. A mola destes esforsos ¢ Alvaro Bomilcar da Cu s-dligs, ainda vive hoje, com oitenta anos de idade. Em Gide 1919, lear, associado a Jackson de Figueiredo, Miguel ustTegésilo, J. de Almeida Magalhies, Tasso da Silveira, José Candido Andr Alberto Deodato ¢ outros, funda aqui Propaganda Nativisse, *sociedade de carter eminentemente "Gift Cujo programa se inscrevem, entre outtos, os seguin- tes propésitos: ~ wabalhar pela emancipacio intelectual, financeita e econd- mica do Brasil, liberrando-o da opressio estrangeira em que se encontra: nacionalizagéo absolura da imprensa e do comércio a retalho; + despertar no espitito do Povo Brasileiro 0 sentimento e as idéias de solidariedade entre as nagdes americanas, combarendo, conseqilentemente, a influéncia da modema civilizacéo européia, caajas quest6es socials sio diferences das que se imp&em ao critério do nosso continente; defender o projeto legislative que estabelece a obrigato- riedade para as casas comerciais estrangeiras de terem pelo menos dois tergos de empregados brasileiros natos; - trabalhar para que seja vedado ao estrangeiro o exercicio de cargos eletivos ¢ empregos piiblicos, mesmo quando se trate de individuos naturalizados; = propugnar pela medida legislativa que limita a0 estrangei ro a capacidade aquisitiva de bens imév = provocar a teivindicagio dos direitos do proletariado de acordo com a orientagéo nacionalistas ~ adogio do principio de igualdade das racas; ~ organizagio do Teatro Nacional Brasileiro, Por iniciativa deste mesmo grupo, funda-se a Agio Social Na- cionalista (reconhecida de utilidade piblica pelo ‘Geers n® 4.191, de 1671171920) cujo programa insiste em pontos como: naciona- oI { pede, lizagio do comércio; nacionalizacao da imprensa politica; naciona- lizagio da cosceagem e da pesca; regulamentagao do crabalho; aproximagao do Brasil as reptiblicas americanas, em especial, subcontinentais, por uma sé politica de concérdia, de respeito e de reciprocidade de interesses. Para se aquilatar a repercussio desta entidade basta referit que recebera o apoio do Partido Republicano, e em 1921 federaram= se 20 seu Diretério 50 associagses. A Agéo Social Nacionalista tinha como presidente de honra Epirscié Pessoa, como presidente efetivo © conde Afonso Celso, e quatro vice-presidentes: Justo ‘Chermont, Camilo Prates, Frederico Villar ¢ Alvaro Bomilcar. © chamado Movimento Modernista, cujos primeiros sinais se registram nos anos de 19 ¢ 20 ¢ que toma corpo em 1922, seri no plano literdrio o reflexo dos fatores reais que explicam a Propa- ganda Nativista ¢ a Agio Social Nacionalista. Mas infelizmente temos que deixar de lado este aspecto. O que importa ¢ assinalar que aquelas iniciativas tiveram 0 seu suporte ceérico em estudos publicados nos periddicos Brasileae Gil Blase, principalmente, em te8s livros A Politica no Brasil ou o Nacionalismo radical, de Alvato Bomilear, constituido de estudos escritos, em sua maioria, por volta de 1917, mas editado em 1920; Macionalisma econbmico (1917), de Nicolau José Debané; © Do Nacionalismo na bora presente (1921), de Jackson de Figueiredo.* Estas obras procuram justficar os pontos dos programas ante- tiormente referidos, exprimindo, em larga margem, mais por intuigéo do que mediante pura intelectualizasio, tendéncias reais da sociedade brasileira naquele momento. Elas exprimem, assim, 8 consciéncia mais ou menos difusa de tas tendéncias antes que tuma interpreta¢io academicamente organizada. A nuanga i tiva destas obras é, por exemple, ilustrada em palavras como estas de Alvaro Bomilear: “A critica social se funda nos faros € nos sentimentos”. Ou ainda: “A sociologia... se fiz mais pela inducio psicoligica do que pelo relativismo efémero dos acontecimentos.” Nicolau Debané, que foi cénsul do Brasil no Egito, por virios anos, focaliza a “situagio geral do nosso comércio, nos mercados 92 Mae Artate a retells tlle pyreaT tar yan V - Bstoncos bu TroRizagho DA REAUIDADE, mundiais ¢ em particular no Oriente”. Dizia entio que “alo existe tum comércio nacional brasileiro”, Textualmente: [Nao existe cométcio brasiciro de exportagio; nfo existe comércio brasileiro de imporagio; no existe comércio brasileiro interior. Todo comérei feito no Bratilé feito por ‘estrangcros; todos os lucros do cométcio, sea interior, seja deexporacio, que se eferuam, slo grangeados pelos estan sgciros. © Brasil se depaupers por filts de um comércio nacional de exportgio, por aio auferir of lueros da venda de seus produtos que 36 poderiam alimentar a sua vide, O Brasil s¢ depaupera por falea de um comércio braileiro incerior, por perder, em cada momento ¢ em cada operagio comercial, emborarealizada por brasisitos, embora realize dda na zona mais remota de interior do pats, a maior parte do seu dinheiro, 0 qual ganho por ertangeiros,é eemetida para o esteangeiro, E Jackson de Figueiredo, advertindo que jamais poderia causar espanto a “quem conhecer as condigées atuais da nossa vida social principalmente no Rio” que “o nosso nacionalismo vise, ances do mais, esclarecer aos portugueses qual deve ser 0 seu papel”, assim resume 0 seu pensamento: © verdadcito nacionalismo brasileiro € aquele que, amano a contribugio do tabs de qualquer exangsiro, ‘em nossa pai, quer que este estangeiro jamais esquega que 0 povo braileio € 0 nico que aqui pode ter situagio privilepiads, jamais esquesa que & aqui cio estrangeiro ‘quando ainda © somos em sua patria. E, sobretudo, por specialisms ras hitdriee, impéem soe poraguesse aqui domiciiados que rambém jamais eaquesam que so strangeiros, tanto quanto 0 francts, alemo, o japonts Este grupo se mantém atuante durante varios anos e, em 1955, ainda € a sua diretriz que preside a fundaglo, no Rio, da Academia Brasileira de Ciéncias Econémicas, Politicas ¢ Sociais, com 0 objetivo de, entre ourras coisas, realizar estudos que permicam orientar os interesses econémicos, politicos e sociais do Brasil, dela participando Artur Bernardes, seu presidente de honra, Afonso Pena Jinior, Francisco de Campos, Mario Brant, Epitacio Pessoa, Afonso Celso, Lacerda de Almeida, Nicolau Debané, Alvaro Bomilear e ourr jomilcar € outros. ; que arSecute 4 93 S Eee fans ree ie tet ee a ee AD ee Chimica pa SocioLocia Brasiuems Ao mesmo tempo em que de 1919 a 1925 se registram estes esforcos de estruturagio de idéias destinadas a criar uma cons- cigneia politica dos interesses nacionais, verificam-se varias ocorréncias que déo uma ilustragio dramética do desajustamento da organizagao politico-partidéria as condigdes reais do pais. Estes anos correspondem a dois periodos governamentais — o de Epiticio Pessoa e o de Artur Bernardes — marcados por aprecidvel inquietagao social ¢ até por convulsdes de porte. Na ctipuls das sgremiagSes partidarias, iniciava-se, no ano de 1921, a chamada Reagio Republicana, sob o pretexto de oposi¢éo & candidatura ‘Artur Bernardes. No governo deste, as correntes oposicionistas de todo o pais se coligam com 0 nome de Alianga Libertadora, Diferentes e &s vezes contraditérios movimentos parecem indicar uum estado de tensio entre forgas maleontidas no arcabougo insti- tucional do pats. Funda-se o Partido Comunista em 1922, ano em que se amotinam a Escola Militar ¢ 0 Forte de Copacabana, ireupgbes trabalhadas pelos mesmos fatores que promovern a revo- luggo de julho de 1924, em Sio Paulo, de larga aceitacio piblica, apesar de dominada. E neste ambiente, por sua navureza propicia A meditacéo so- ciolgica, que um grupo de “escritores da geracdo nascida com a Reptiblica” decide proceder a um “inquérito” com o propésito de fixar “no tempo © no espaco © Pensamento ¢ a Consciéncia da Nacionaidade Braslend™, « de qi Teseou a obra colevai A ‘Margem da Histéria da Repiblica (Rio, 1924). Eram eles: A Carhciro Leio, Celso Vieira, Gilberto Amado, Jonathas Serrano, José Anténio Nogueira, Nuno Pinheiro, Oliveita Viana, Pontes de Miranda, Ronald de Carvalho, Tasso da Silveira, Tristao de Athaide, Vicente Licinio Cardoso. ‘Animados por um vago desejo de compreender 0 Brasil, mas sem objetivos concretos marcados para aleangar, 0 que nfo acon- tecia com os grupos anteriores, esses escrtores refletem, de modo mais ou menos ingénuo, as tendéncias centriperas de autode- terminagio aruantes na sociedade brasileira naquela época. Eles ‘exprimem com categorias conceituais inadequadas uma percepgio ingénua dos fatos, © que nfo poderia deixar de acontecer, a maioria 24 | *O, Tea * 2 } 16H) Godot Aydin pe ory 1A v. psroncos ve'THGun6ho 04 Rent DAbE deles carecendo do que Freyer chamaria a participagao volitiva no acontecer social, Transpdem assim as quest6es para o plano puro da especulagio. Na Conclusio do livro diz-se: Em nenfum momento, raves, de nossa hist, foi Go neeessrio pensar o Brasil, como atualmence, A nenhuma geragio mais do que nossa tert cabido a responsabilidad de sustentar 0 primado do epirte (0 gifo & meu) E de fato, apesar das diferentes orientagSes que revelam, quase todos parecem adotar uma concep¢io psicologistica do processo hiseérico-social, a qual admite a possibilidade da transformagio da sociedade pelo esclarecimento mental, intelectual ¢ moral e muitas vveres uma certa crenga na salvagio pelas elites. Faltando-lhes a percep¢io de contingtncia histérico-social da psicologia indi- vidual ¢ coletiva, pretendiam “a pacificagio dos espiritos” através de “atos de inteligéncia e de fe". O documento insiste, neste ponto, quando fala coletivamente. Afirmam que procuram “reagir pelo progresso dentro da ordem... por isso que © caminho para andar ‘mais ligeiro é aquele que evita os desatinos das correrias revolu- iondrias perigosas ¢ intempestivas”. Estas limirag6es existenciais, centretanto, nio lhes impedem de diagnosticar com acerto muitos dos nossos males, Sobretudo trés deles sio felizes neste ponto: A. Carneiro Leio, Gilberto Amado ¢ Oliveira Viana, Alids 05 intelec- uals que comparecem nesta obra vivem um momento literétio modernisea, cujo estado de espfrito, como j& lembrow alguém, pode ser definido por esta sentenga de um participante do mesmo: “Nés nio sabemos precisamente 0 que queremos, mas sebemos 0 que nfo queremos’. V—A Revolucao da Classe Média Nio seria possivel, realmente, naqueles anos, atingirse a uma ‘concepgio configurada da sociedade brasileira, pois que, para tanto, faltavam condigSes objerivas. A compreensio ¢ 0 domfnio das forgas deste contexto econémico ¢ social ultrapassam as idéias € as coordenadas tedricas em que se estribava a agéo politica até 1930. Os revolucionérios de outubro de 1930, logo apés a romada do poder, inqueridos a que vinham, revelaram a sua perplexidade 95 bow [Np gr. ache oO Crtmica pa SocioLoGtA BRASILENA despreparagao reérica e passaram a invocat um “espitito revolu- ciondtio” que nao sabiam definic. Um observador inceligente deste faco escreveu: A confusto comou conta do pais todo, Ninguém se explicava diance do pats estonreado, A medida que os ideres. revoltcionéris filavam, a confasie aumencava. A eneevis- praia de sentido da cealdadesesucei umas i OuTas vopelando seus propeios autores. O jogo de palavras tmarashavam os homens, Pelo ques lin, diariamente, nos jornais, flava se sabendo que otal “spi revolucionéri’ fra honeste € nio fata pola peo VI- A Revolugio de 1930 ‘A revolugio de 1930 promoveu, entretanto, mudancas de sinal positivo na vida politico-partdaria do pais, pelo menos em decor- réncia dos seguintes fatos: a) abriu lugar nos quadros dirigentes para considerdveis contingentes da classe médias b) iniciou a insti- tucionalizagio das forcas ccondmicas, através da sindicalizagios @) iniciow o processo de liquidagio, no govemno federal, da hege- monia de uns poucos Estados em detrimento dos restantes; d) firmou o principio da intervencio do Estado na economia, embora sob a forma de um “dirigismo” desconexo ¢ as veres cabtico. (© periodo de 1930 a 1937 ¢ assinalado por um extraordinério esforgo de teorizagio politica da realidade nacional, no qual se discetnem as seguintes diresbes: a) uma direcdo académico-normativa na qual incluo aqueles que se caracterizaram pela adogio de uma concepsio psicoldgica do processo social, na linha de que se acreditava possivelasalvagio da sociedade através da cutela das massas exercida pelos mais tesclarecidos, ou através da transformagéo do caréter do povo, pela educagao; 'b) uma dirego indutiva, na qual incluo aqueles que, quase sempre desprovidos de instrumensos merodolégicos de rigor cien- tifico, conseguiram, apesas disco, captar alguns aspectos essenciais dos acontecimentos (Martins de Almeida, Oliveira Viana, Azevedo Amaral, Virginio Santa Rosa etc.) 96 V - Esroncos 8 Teontzagho DA REALIDADE ©) uma directo pragmético-partidéria, na qual incluo as obras ¢ documentos que expuseram as diretrizes do Integralismo Brasi- leico (fundado em 1932) ¢ do Partido Comunista do Brasil, desde 1935 orientado por Luis Carlos Preses. Seria necessétio examinar pormenorizadamente as diferentes nnuangas de cada uma descas direg6es. Infeliemente, néo posso faze- lo aqui, dados os limites deste estudo. Mas, as seguintes obser- vvagdes podem ser feitas sobre estas diregSes em conjunto: 4) estas diregdes reflerem a necessidade de transformagéo dos métodos € processos politicos, por forca do relativamente alto grat de diferenciagao das classes sociais. No perfodo de 1930 a 1937 se | delineiam os dados do problema politico do pais, até hoje insol- vido ¢ que persiste diante de nés: 0 problema da liquidacio da politica de clientela, acravés da estrucuracio ideolégica dos inte- resses das classes sociais no Brasil b) de nenhum dos esforcos acima mencionados resultou a | formulaco de uma ideologia orginica da realidade nacional que tefletisse a disegio dominance do processo de desenvolvimento da | sociedade brasileira, a despeiro de contribuigées fragmentérias, j neste sentido, &s vezes importantes. Os fatores fundamentais que constituem a infra-estrucura dos movimentos e dos esforgos de teorizacio politica de 1930 a 1937 (@ diferenciagio social das classes pela expansio industrial ¢ a ak | reorientagio de economia brasileira no sentido de um amplo mercado interno ¢, portanto, anticolonial) tornam-se cada vez mais ponderdveis de 1937 até os dias presentes, valendo destacar o papel | positivo, neste processo, da IT Grande Guerra e da correlata crise | L do imperialismo. ‘Aatual crise de nossa organizagio politico-partidéria decorre do fato de que ela nao ultrapassou aquelas direces formadas entre 1930 ¢ 1937 c, portanto, do seu desajustamento aos fatores obje- tivos que configuram a realidade brasileira. A superagio desta crise se obterd, conseqiientemente, na medida que se encaminharem as forsas politicas no sentido da tendéncia dominante do processo de desenvolvimento do pais. See Woo pred lia nt, pied @ oy Arcee lnes ae Cririca Da SocioLoGta Brastuira | if was, VII Concluséo pee Em conclusio podem ser inferidos da presente anilise suméria, ‘5 seguintes enunciados: I ~ Cada uma das tentativas de teorizacio politica realizadas no Brasil, a partir de 1870, tem refletido o grau de consciéncia possivel, no momento em que aparecem, dos fatores configurativos da tealidade nacional. Tudo levaa erer que o idealismo utdpico que se pretende ver em tais tentativas seja mais aparence do que eferivo. TI ~ Os republicanos de 1870 e os positivistas, situacional- mente impedidos de ver, com nitides, as contradigdes econé- micas da época em que atuaram, exprimiram, em termos prepon- derantemente politicos, as aspiragSes de um estrato superior da classe média. IIL - Este estrato, aliado 20 processo de expansfo industrial do Brasil, na medida que se avoluma, exprime, no plano politico e de modo crescente, as tendéncias dominantes do processo de desen- volvimento da sociedade nacional. IV —O golpe de 1889; Sylvio Romero, no perfado republicano; a Campanha Civilista de Rui Barbosa, em 1910; os movimentos revolucionérios de 1922 e 1924; a Coluna Prestes ¢ 1930 séo [Sa da revolugio da classe média contra a burguesia latifun- V —Denenhum dos esforgos de teorizagéo politica registrados no Brasil até a presente dara resulrou a formulagio de uma ideo logia orginica da realidade brasileira apra a cornar-se o suporte de uma agdo politica de verdadeiro sentido nacional. Notas (1) Conferéncia pronunciada pelo autor na Faculdade de Filo sofa de Sto Paulo, nur das seer do I Cangeesso Bes fctera lin de Sociologia, seaado a cpt! bandelnave, de 21 tA 2.27 de junho de 1955. srr Telia expresivo da idologia do exaro spfperior da classe médig na década de 1870-1880, 0 opiisculo fe Tobins Barto, Yh Dine em mange decom, pre 98 —_ a V - Esrongas bt TEORIZAGAO OA REALIDADE.. rnunciado em setembro de 1877, por ocasso da inauguragéo do Clube Popular Bscadense. (G)_ Por esta época (1921), Jackson de Figueiredo jd havia fun- dado no Rio 0 Centto Dom Vital. Em agosto de 1921 publicava-se o primeizo ntimero da revista A Ordems drigida por Jackson, em cujo artigo de Fundo, *Nosso Programa", disa-se: *..faremos cudo quanto um catélico pode e deve fazer contra o bastard espirito do cosmopolitismo, que é talver o favor principal do nosso ceticismo social, até 0 provente, A mando ardensemente as uadig6es cristis, que hherdamos da nossa ascendéncia européis, nfo concorreremos rrunca para am movimento de édio contra 0 escrangeiro csaropes, sea de que nacionslidade for, mas isto nfo impe- dlrd que wudo fagames para que scja um fato& autonomia do brasileiro em sua prépria rera, para que a ditesdo intelectual ¢ politica da nagio tenha eardter positivamente brasileiro. £ preciso que em rodos os dominios de nossa vida se Faga sentir a autoridade do esptito nacional” Bibliografia ALMEIDA, Martine de. Brasil errado, 2 ed., Rio de Janeiro, 1953. BASTOS, Abguar. Pretes ¢ a revolugao social, Rio de Janeiro, 1946. BOEHRER, Georg C.. 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Companhia Edicora Nacional, 1939, 100 SEGUNDA PARTE Cartilba Brasileira do Aprendiz de Socidlogo (Preficio a uma Sociologia N: nal) Nossa existéncia esti toda subordinada a uns rantos principios clementarse de crtétio, que al- ‘gums observam par hair, e muitos desprezams se alguém os records, atalha-se que sio banais, mas @ arce da vida prcicaassenta sobre esas banalidades, «as devordens da sociedad e dos homens resultam de que os esquecemos Freqientemente. Alberto Torres I- Nota Explicativa ‘A necessidade de rebater a agressio de que fui alvo no IT Congresso Latino-americano de Sociologia, por parte de congres- sistas brasileiros em desacordo com as recomendagées que all defendi, na qualidade de presidente da Comissao de Estruturas Nacionais e Regionais, serviu-me de excitante para, a despeito de minhas ocupagoes absorventes, escrever uma série de nove artigos dominicais, no Didrio de Noticias desta capital, no perfodo de 26/7153 a 4/10/53, em que parece terem ficado claramente expressas algumas tendéncias fundamentais da presente fase da sociedade brasileira. Estou sinceramente convencido disto, por forga das clogiientes demonstragées de apoio que recebi, vindas de pessoas ¢ entidades da maior circunspecio moral e intelectual. Estio entee elas a Faculdade Fluminense de Filosofia, cujo Con- selho Técnico-administrativo me enderegou um voto congra- tulatério, 0 préprio Diario de Noticias, O Diério, de Belo Horizonte, ¢ a revista Marco, editada por um grupo de alunos da Faculdade Nacional de Filosofia, ¢ para a qual aqueles nove artigos, que chamou de “sensacionais”, “pelo seu caréter revolu- een ttt eee CCARTILHA BRASILEIRA BO APRENOIZ Be SoctoLoce ciondtio, passario a constituir uma referéncia hist6rica na evolugio da sociologia no Brasil”. Cumpre-me agradecer, nesta oportuni- dade, o simpético rodapé que, sobre 0 “caso”, escreveu 0 histo~ riador ¢ crtico Nelson Werneck Sodré, no Correio Paulistano, 0 apoio irrestrito que mereci do ministro Ernesto Claudino e de ‘outras pessoas, cujo nome no menciono aqui por nao ter delas autorizagao espontanea neste sentido, Registro, ainda, com satis- facio, as palavras finais de um editorial de O Popular, assinado pelo ilustre senador Domingos Vellasco: Nao queremos diver gue os sociélogos latino-ame- ricanos estejam a servigo do atrso de seus pales, mat apenas sliencar que cles & preocuparam mais com a d+ cussio de reorias, mais ou menos académicis, relegando a um plano secundério problemas sociais que fnteressam fan damencalmence& vida do povo. Recearam roca no assunt. Salvou-os, porém, a coragem da Comissto de Exrarutas Nacionais e Regionais com as suzsrecomendagies,Jé uma conslo, Finalmente, ndo menos demonstrative da ampla tepercussio das diretrizes que defendi foi o discurso com que o professor Buclides Mesquita, organizador do I Congresso de Sociologia, realizado no Parand, 0 inaugurou, e em que tive a honra de ver intestritamente aplaudida a minha posigio na sociologia brasi- leira. Pois ali afirmou o professor Euclides Mesquita: “E tempo de abandonarmos 0 que um sociélogo brasileiro chamou, com pro- Priedade, de sociolagia enlatada”. Encontraré o leitor, neste trabalho, a seqiléncia daqueles arti- 0, parcialmente reclaborados e enriquecidos de notas de rodapé. (O tema da 6* recomendacio — relagbes de raga — foi tratado em capitulo especial, com 0 pormenor que estava a requerer, A intengio do titulo — Carilba brasileira do aprendiz. de sociblogo — é facilmente perceprivel. 104 II Sociologia Enlatada versus Sociologia Dindmica tints ce My g pt Pm) Po inky he Meee, ee ko (Amelhor maneira de fazer ciéncia é partir da vida ou ainda, a Sarde ecestdads He reponder aos desafos da relidade Seguindo esta regra, proponho-me a tratat, aqui, dos proble- mas da sociologia brasileira pelo aprofundamento’da andlise de ‘um caso ocorrido no II Congresso Latino-americano de Sociologia, realizado no Rio e em Sao Paulo, entre 10 ¢ 17 de julho de 1953. Na qualidade de presidente da Comissio de Estruturas Nacionais ‘e Regionais, submeti & apreciagao daquele certame um documento ‘que continha as seguintes recomendacée: 1+ as solugdes dos problemas sociais dos palses latino-ameri- canos devem ser propostas tendo em vista as condigées efetivas de = ‘suas estruturas nacionais e regionais, sendo desaconselhdvel a trans- plantagao literal de medidas adotadas em paises plenamente f desenvolvidos; a > WT neo Prete ple eces CAG Gee ‘28 ~ 2 ofganizagio do ensino da sociologia nos palses latino- americanos deve obedecer a0 propésito fundamental de contribuir > ~\ para a emancipagio culrural dos discentes, equipando-os de ins- a : of nS 33 Cantina Brasiusis DO APRENDIZ DE SociOLOGO atuténtico, os problemas das estruturas nacionais ¢ regionais a que se vineulam; § 4 trumentos intelectuais que os capacicem a interpretar, de modo 34 — no exercicio de atividades de aconselhamento, os socié- 3 logos latino-americanos nao devem perder de vista as disponibi- « lidades da renda nacional de seus paises, necessétias para suportar © 0 encargos decorrentes das medidas propostas; 4 — no estidio atual de desenvolvimento das nagées latino- americanas ¢ ein face das suas necessidades cada vez maiores de investimentos em bens de produgio, € desaconselhdvel aplicar recursos na pritica de pesquisas sobre minudéncias da vida social, devendo se estimular a formulagio de incerpretagbes genéricas dos aspectos global e parciais das escrururas nacionais ¢ regionais; 5* = 0 trabalho sociolégico deve cer sempre em vista que a melhotia das condigdes de vida das populagdes esti condicionada a0 desenvolvimento industrial das estrururas nacionais ¢ regionais; ~ é francamente desaconselhavel que trabalho sociolégico, direta ou indiretamente, concribua para a pessisténcia, nas nagbes latino-americanas, de estilos de comportamento de caréter pré- lecrado, Ao contrétio, no que concerne &s populages indigenas ou afto-americanas, 0 socidlogos devem aplicar-se no estudo ¢ na proposigio de mecanismos de integragio social que apressem a incoxporagio desses contingentes humanos na atual estrutura eco- rnOmica ¢ culcural dos paises latino-americanos: 7 ~ na utilizagio da metodologia sociolégica, 0s socidlogos deverm ter em vista que as exigincias de precisio ¢ refinamento decottem do nivel de desenvolvimento das estruturas nacionais regionais. Portanto, dos paises latino-americanos, 0s métodos processos de pesquisa devem coadunar-se com of seus recursos ‘econdmicos ¢ de pessoal técnico e com o nivel cultural genético de suas populagdes. Todavia, essas teses foram ruidosamence desaprovadas, por 22 votos contra 9, com o agravante ainda de 0 autor deste estudo ter sido francamente agredido com demonstragdes de ddio e desa- prego por um dos seus opositores. E significative assinalar que as 106 TT = Sociotocia ENLATADA vunsus opinides contrérias aqueles enunciados foram coordenadas por congressistas brasileros. Ora, como se depreenders da leitura das recomendagbes, 0 que se tinha em vista era encorajar os esforgos para a prética, nos paises latino-americanos, de uma sociologia que refletisse os seus proble- mas; era estimular se corcassem os cordées umbilicais que cém tornado esta disciplina um subproduro aborsicio do pensamento socioldgico europeu e norre-americano. Assim, a atitude do plendrio em face daquelas teses serviu para dar um flagrance de que hoje, no Brasil pelo menos, se distinguem, ‘com clareza, entre outras, duas correntes de pensamento sociolé- ¢gico: uma corrente que pode ser chamada, como ja propus certa vet, de “consular”, visto que, por muitos aspectos, pode ser con- siderada como um episédio da expansio cultural dos paises da Europa e dos Estados Unidos: ¢ outra que, embora aproveitando 4 experiéncia acumulada do trabalho sociol6gico universal, est procurando servir-se dele como inserumento de autoconhecimento ¢ desenvolvimento das escruturas nacionais ¢ regionais. As propo- sigdes acima enunciadas pretendem represencar esta corrente A esséncia de toda sociologia aucéntica & directa 01 mente, um propésito salvador e de reconstrugao social” Por inspira-se numa experiéncia comunitaria vivida pelo sociélogo, ent fungio da qual adquire sentido, Desvinculada de uma realidade humana efetiva, a sociologia € um avividade hae da mesma nacureza do pif-paf. Quem diz vida, diz robleme A ena [A esséncia da vida é a sta problematicidade incessantel Dat, na medida que 0 sOcidlogo exercita vitalmente a sua disciplina, € forgosamente levado a entrelagar 0 seu pensamento como a sua citcunstincia nacional ou regional. Mas a formagio do socidlogo brasileiro ou latino-americano consiste, via de regra, num adestramento para o conformismo, para a disponibilidade da inceliggncia em face das teorias. Ele aprende a receber prontas as solugées, e quando se defronta com um problema de seu ambiente, tenta resolvé-lo confrontando textos, apelando para as reccitas em que se abeberou nos compéndios. 107 (Cantina BHASILEIA DO APRENDIZ Bi: SOCOLOGO Adestrado para pensar por pensamentos feitos, vorna-se fre- qilentemente, quanto aos sentimentos ¢ & voligio, um répétizeun isto é, sente por sentimentos feitos, quer por vontades feitas, como diria Péguy. Abram-se 05 nossos compéndios de sociologia. Um ou outro foge & regra: em geral, cada um deles traz de tudo, arrola autores ¢ sistemas, sem proporcionar ao aprendiz. um eritétio diretivo de critica, Como quem insinua: o educando que procure a verdade sociolégica, tirando um bocadinho daqui, outro bocadinho dali Pois esses compéndios de que falo, a quase rotalidade dos que se escrevem nestas bandas, supdem esta enormidade: que existe uma verdade sociolégica, eterna, imurivel, au-deld da contingencia historica, resultante da média agregativa de todos os sistemas.? Portanto, incapacitam 0 estudante para 0 exercicio funcional de wma atitude sociolégica. Por outro lado, outta espécie de vicio mental é patente cm grande niimero de nossas obras sociolégicas. O socidlogo indfgena pparte, quase sempre, de um sistema importado, ao qual dé validade absoluta ¢ se filia incondicionalmente. O mal vem de origem. Sempre aqui tivemos positivistas, hacckelistas, evolucionistas outras espécies de aficionados 2 outrance. E quando se apresenta © socidlogo patricio a alguém, a pergunta vem logo: que escola 0 senhor segue? Além de “consular”, esta é uma sociologia que pode ser dita enlatada, visto que € consumida como uma verdadeira conserva cultural. Nestas condigées, assume-se, entre nés, em face dos métodos © ptodutos do trabalho sociolégico no exterior, uma atitude apologética. Tudo que de lé vem € ortodoxo, excelente, imisivel, Nio se acordou ainda para o faro de que os meios ¢ resultados do trabalho sociolégico slo condicionados por escruturas nacionais ou regionais. Afirma-se a eficicia imanente das transplantagées. Nao se assume uma posicio sociolégica na discussio da sociologia. De modo que, muitas vezes, os certames ou reuniées ditos de socié- Jogos se resurnem em pronunciamentos idélatras e até mesmo de 108 y veo = e Ned ae intrepides pattidtica, como daqueles que consideram a necessidade de adotar procedimentos metodolégicos simplificados, num pais ‘subdesenvolvido, uma diminuicao dos brios nacionais. Jé assist, num congresso de sociologia, & queda de uma proposta sociologi- camente correta, em virtude de rer-se invocado os brios patriéticos dos presentes. Este exemplarismo é um dos aspectos do que se pode chamar a “doenca infantil” da sociologia nos palses coloniais, doenga que toma a disciplina referida uma “gesticulagio”, vazia de signifi- cados, um ato em oco, uma acho iluséria, mas capaz de savisfezer 2 certos individuos. “gesticulance” satisfaz-se em fingir a acéo que anela cometer, ‘mas nao comete realmente} Hi, pois, no que concerne ao comportamento de grande parte dos socidlogos de paises como o Brasil, uma patologia da normali- dade, Desde que, em suas posturas mentais, é generalizado aquele taco culturologicamente mérbido, passa o mesmo a ser normal. Entre eles, eremos também de levara sério as ficgbes para vivermos «em paz, Se ousarmos ser sensatos, estamos perdidos, nao nostoleram. Esta € a doenga infantil da sociologia no Brasil. Néo a creio, entretanto, incurivel. O proprio faco de ser capaz de fazer 0 seu exame de consciéncia a encaminha para a maturidade. Um indicio de que estou certo € 0 que se passa com o pensamento econdmico latino-americano. Sob os auspicios de um organismo com a CEPAL, realiza-se a descolonizagio do economista latino-americano, € a contribuigéo de brasileiros para esta mudanga & das mais ilustres. Notas (1) Em confirmagéo, © estudioso poderd verficar como, por cexemplo, Augusto Comte € levado & idéia da citncia socio ligica, através da meditagio do problema francés de sua época, ¢ secundariamente do problema europeu. (Vide Curso de Filsofia Posirioa). Kinda a este propésito, observe se como uma posigio renovadora no campo da sociologia, como a de Karl Mannheim, relate um propésito de quem procura solugGes para uma crise, 109 CCanriusta Baste @ 8 Ika 80 Apaesans oF Sock Este mado de ver foi aids, proclamado sem rebugos, porn, ddos mais destacados vultos de nossas cincias sociais, Archur Ramos, que disse: “Cada vez mais me convengo de que as incompatibilidades metodolégicas se reduzem a questo de nomenclarura” (O Negro brasileiro, 3* edicfo, 1953), Este mesmo ecletismo conciliador & patente na obra da figura de maior prestigio nas letra sociol6gicas do pais em nosso diss, Gilberto Preyre. Vide especialmente Casa- grande 8 senzala, Emprego o termo “gesticulagéo” em seu sentido téenico, cal como usado por Lazar ¢ Karl Mannheim, Lazar refere-se 20 tipo de “crianga gesticulance” que se satisfiz. com gestos quando outros lutam por objetivos concretos. Lewin re- porta-se ao caso de uma crianga imbecil que deseja langar tuma bola a longs distancia e, ainda que alo venka conse- guido, se sensi saiseita porque encontrou um substicuivo ro vigoroso movimento que realizou. Determinadas conf ‘guragbes coleivas podem ser favorivels & propagasio desta enfermidade, No Brasil, muito da atividade intelectual & mera “gesticulagio”, ou expressio de esforges de “adultos gesticulantes", Para maior desenvolvimento deste tema, vide Karl Mannheim, Libertad y planificacién social. México, 1946, 110 III — A Sociologia como Instrumento de Autodeterminagiio Foi o seguinte 0 texto que precedia as recomendagdes subme- tidas & apreciagio do plendrio do II Congresso Latino-americano de Sociologia pela Comissio que tive a honra de presidir e que tratava do tema “estruturas nacionais € regionais”: © desenvolvimento de um pensamento auténtico, na csfera da sociologia ltino-amercana, depende da medida fm que os que ala se dedicam sejam capazes de pereeber ‘do proceso de crescimento dos seus 1 tes pri Asim, pate que o tbalho sciogieo s rome um faror operativo nas sociedades latino-americanas, € preciso gue itgre na realidad eco evil dai Gur cada vee masse efre em vines vide colt Embora a vsicloga como cnc, sja um 8, ve fase que ase difeenia quanto aos temas e reemas de que wat Tstdifrenciago€imposa peas dvenidades de esr | turaecondmien social dos pues ¢ dove ser tanto is cetimalada quanto male desojem of socidlogos latino-ame- slcanas tomar-se dics 4s coletvidades de que participa ayn 4 Eyring (Careritasa Baasinsina Do Amend pf SocioLoco Pode-se aficrnar, com a categoria de verdadelea lei, que as essruturas naciomais e tegionais configuradas de modo anilogo correspoadem idénticor problemas e dficuldades Sem estibar-se na compreensio das peculiaridades cstruturais de nagéo e regido, o trabalho sociolégico ests cexposto a confundir oF esptitos, a acentuar os equivocos em vee de tornar-se, como deve, um meio de erlarecimento © de autoconscidncia das sociedades ‘A promogio da avroconsciéncia de cada sociedade latino-americana deve constr o dever primacial dos seus capcetvos socidlogos ‘Acé a presente dara, tem-te pratcado extensamente, J entre nb, tanaplancagéeslierss de métodos de ago ¢ de sisremas insttucionais de areas alramente desenvolvidas, ‘como se cles fossem dotador de uma eficicia imanente. ‘A ago social sobre as condigbes objetivas das estruraras nacionais ¢ regionals nfo deve obedecer a arquétipos ou & modelos considerados excelentes em si mesmos, mas deve cemergi, de modo dindmico, da relagio interaciva entre © pensamento © os Faroe Em todos os pass lavno-americanos se registra uma conadigio ene a vida comunitta ¢ a instcuigbes, 26 uti em sa naira, tém sido recebidasacabodas, resale tances mais de um proceso revolutva do que evolutivo Nesascondiges, si ines ndo funcionam, mul tas vees, de modo a dae curso is possibildades de deen volvimenco dos pale aino-smeicanes, mas, 20 contrtio, tanto quanto sm vgincia.a dficulrarese desenvolvimenco, Passarei daqui por diante a analisar, de modo pormenotizado, cada uma das recomendagées que defendi, A primeira delas estava assim redigida: 1 As solugses dos problemas so americanos devem ser propostas tendo em vista as condigBes cfetivas de suas estrururasn conzelhivl a eansplanragio literal de medidas adotadas em paises plenamente desenvolvides. dos pates latino cionais¢regionas, sendo desa- Admito que se trata, verdadeiramente, de uma sentenga digna do Marques de Maric, pela sua evidéncia. Nao é mau, porém, que os congressos adotem verdades & moda de Maticé. B, aliés, 0 que corte com freqiiéncia, Raramente os congressos aprovam pronun- ciamentos que nao estio na expectativa da maioria dos seus 112 TIT = A Socioroein come INSTRUMENTO. membros. Os documentos finais dos congressos, via de regra, se constituem predominantemente de lugares-comuns em curso entre especiaistas. A senrenga acaciana, acima transcrita, se justificaria, portanto, por este prisma. Mas ainda, porque iniciava uma série de sete, © porque, no meio latino-americano, & justamente 0 contrétio que se pratica, ordinariamente, Ver-se-&, pelo comentério das outras recomendagées, que a recomendaséo em paura era necesséria no contexto, onde valia como simples introducio a um tema central. Mas no apenas por isto. No que concemne & sociedade bra- sileira, rem cabimento 2 repetida condenagio das tendéncias, transplantativas, Tais cendéncias presidiram & formagio histérica do pais, ¢, em nossos dias, mantém-se vigorosas. A sociologia dos contexcos coloniais tem na transplantagio 0 sei tema por txccléncia. Dat 3 impOrEnCH da quero para 0 socidlogo Tatino-americano que pretenda assumir um ponto de vista dinimico em face da realidade social. Toda a organizagio instivucional dos paises latino-americanos padece de um defeito fundamental ¢ que consiste em ser manictadora do desenvolvi- mento orginico das estruturas nacionais e regionais. Nasceram os paises lasino-americanos sob o signo da transplan tagéo cultural.) Suas insticuigbes no so produto da evolugio. Foram para li transferidas nas suas formas terminais. Em cada nagio latine-americana se configura 0 que, com Spengler, pode ser chamado de pseudomorfose, termo com que se refere aos casos em que uma velha culkura estranha impera sobre um pafs com tanta forca que a culeura jovem, autéctone, néo consegue respirar liveemente ¢ nio logra constituir formas expressivas, puras ¢ pe- culiares, nem sequer chegar ao pleno desenvolvimento de sua consciéncia propria, Os pases descobertos e colonizados, como o Brasil, estio sujeitos a esta deformagio cultural.” Sao, extensamente, pseudomor- foses, no sentido que seus aparatos institucionais, recortados & imagem ¢ semelhanga dos de paises de grande prestigio cultural, 3 | CCARTILA BRASILEIRA DO APRENDIZ DE SOCIOLOGO nndo resultaram da evolugéo propriamente, da claboragéo interna do processo de crescimento orginico destes paises, mas de transplantagées# A pseudomorfose assinala 0 impacto de forte interferéncia histérica, ou seja, a situacio de um povo cujo desenvolvimento normal é perturbado por um choque com outro povo jé configurado sob a forma do que Danilevski chama de tipo histérico-cultural. Quando os portugueses descobriram o Brasil, nossas tribos nao tinham atingido uma tipicidade hist6rico-cultural* consistence, como acanteceu com as populagGes mexicanas peruanas. O Brasil era. um rertitério sobre o qual viviam desligadas ou em conflito varias tribos. Estas no consticulam um povo, 0 que s6 teria sido possivel pela confederagio. Assim, o colonizador operou sobre um territério historicamente abstrato, nfo se deparou com a resistencia de uma individualidade histérica planamente constitu(da. Ha in- dicios de queno século XV, eno princfpio doXVI, os Tupi-Guarani, tendo expulsado as ourras nag6es indigenas da costa brasileira e af se estabelecido, estivessem jé envolvides num processo que os levaria a incegrar-se, de modo confederativo, numa dnica indivi- dualidade histérica. Afirmam os americanistas que eles teriam sido dotados de aprecidvel capacidade para “assimilarem eragos de cul- turas diferentes da sua e também para “tupinizarem” os povos estranhos & sua raga”> Mas a verdade € que aos portugueses foi relativamente ficil varrer os obstéculos humanos oferecidos aos seus propésitos de exploragio. faro que descjo assinalar ¢ © seguinte: 0 colonizador, no Brasil, nfo encontrou povo, como encontrou no México, no Peru, na India. Encontrou um “material ernogréfico”, uma “espécie de matéria inorginica” de que dispés segundo seus propésitos. Ope- rou em espago historicamente vazio, que passou a ser ocupado por portugueses ¢ afticanos, os contingentes fundamentais formativos de nossa populacio, uns ¢ outros alienigenas. Esse conjunto de alienigenas nao constitufa um povo no Brasil, ¢ aos seus descen- dentes faltaram, durante muito tempo, condicées para se tornar povo, Em 1822, quando o Brasil se declara independente de Portugal, © povo brasileiro era menos uma efetiva realidade f Hos Uy i aand de de U4 ee trecialsbaos tas cates edeasaaae ete. me jeito é ainda historica do que uma ficgio cémoda. © povo br: hhoje uma entidade historica im statu nascendi. A nao ser a lingua, todas as condigdes decisivas, propiciadoras da maturidade do nosso ovo, surgiram depois de 1822, entre elas: o sistema de transportes e comunicagSes extensivo 20 territério brasileiro, e um mercado nacional, —_ 1822 éa data da independéncia de um rerritério e nfo de uma Inagfo. Aqui a idéia da nagio precedeu ao faco da nagio mesma, entendida esta como vivencia de uma comunidade de estilo de vida eLhistérica. [As instituig6es vigentes no Brasil, até 1822, do ponto de vista sociolégico, eram excrescéncia, muito embora para o colonizador tivessem sido excelente arma de manutengio e preservario de uma estrutura de poder. A unidade do Brasil, conseguiu-a Portugal, gracas a0 artificial vecido de instituigées com que vestiu a nossa realidade, “verdadeiro compressor que nivelou o terreno”. © ano de 1822 inaugura a fase em que as geragSes de brasileitos deveria caber © mister ciclépico de criar instituigdes para uma naga em ser. Foi neste momento (1822) que se apresentou a0 brasileiro © “problema nacional” do seu pais. Quero dizer, a conquista da inde- pendéncia politica pelo Brasil impunha aos brasileiros a necessida- de de rever ¢ reformat as instituigées instaladas aqui pelo portugués, uma vez que clas obedeciam a um propésito predatério, explorador e eminentemente fiscal; impunha-lhes, conseqiientemente, a ne- cessidade de Era esta uma circunstincia problemética que desafiava a capa- cidade de compreensio ¢ imaginago das elites da Independéncia, Os velhos pafses no tiveram problema nacional desta ordem, como assinalou Alberto Torres, porque suas instituigées se for- maram lenta ¢ demoradamente, por meio de um proceso mais esforco eriador no campo social. evolutivo que sevolutivo Estas elites inauguram novo periodo de formacio pseudo- meérfica do pais. Nao podiam deixar de comportar-se como se comportaram, isto é, nao podiam superar a contingéncia de sua 11s