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Rev BrasCarla

Patrícia Crescimento
Silva do Desenvolv Hum. 2007;17(1):136-145
Vale Zucoloto PESQUISA
Rev Bras Crescimento Desenvolv ORIGINAL
Hum. 2007;17(1):136-145
RESEARCH ORIGINAL

O MÉDICO HIGIENISTA NA ESCOLA: AS ORIGENS HISTÓRICAS DA


MEDICALIZAÇÃO DO FRACASSO ESCOLAR*

THE HIGIENIST DOCTOR IN THE SCHOOL: HISTORICAL ORIGINS OF THE


MEDICALIZATION OF SCHOOL FAILURE

Patrícia Carla Silva do Vale Zucoloto**

Zucoloto PCSd, Patto MHS. O médico higienista na escola: as origens históricas da medicalização
do fracasso escolar. Rev Bras Crescimento Desenvolv Hum 2007 17(1):136-145.

Resumo: A presente pesquisa teve como objetivo investigar a história das explicações das difi-
culdades de escolarização das crianças das classes populares, em especial a versão que patologiza
o fenômeno, através da análise de conteúdo do discurso médico sobre as concepções de higiene
pública e de higiene escolar e do papel do médico na escola nas teses inaugurais da Faculdade
de Medicina da Bahia na segunda metade do século XIX. Foram submetidas a análise de conteúdo
cinco teses que traziam a questão da higiene das escolas em seus títulos e compreendiam o
período histórico de 1869 a 1898, ou seja, o período correspondente à passagem do Império
para a República. Os resultados dessa análise foram objeto de uma análise contextual, ou seja,
foi realizada a sua inserção no momento histórico em que foram produzidos, tendo em vista a
interpretação do conteúdo levantado. Verificou-se que as origens históricas da patologização
dos problemas de escolarização das crianças das classes populares estão na defesa da importância
da medicina para a escola, importância da presença médica nesta instituição e na concepção
preconceituosa de povo brasileiro, central nas teorias adotadas pelos médicos. Concluiu-se que
nas primeiras teses médicas sobre instituições escolares estão presentes prescrições que vão se
concretizar pouco mais tarde na história da educação brasileira, como é o caso da inspeção
médica na escola. Trata-se da constituição de um discurso médico sobre a educação que vai ser
aprofundado e concretizado em teorias e ações ao longo do século XX.

Palavras-chave: Saúde escolar. Higiene escolar. Psicologia escolar. História da psicologia.


Fracasso escolar. Medicalização. Patologização.

INTRODUÇÃO dificuldades de escolarização das crianças das


classes populares, têm sua origem na baixa
O presente artigo se refere à pesquisa acer- qualidade de ensino da escola pública brasileira,
ca das origens históricas do discurso da me- no descompromisso do Estado com a educação
dicalização do fracasso escolar das crianças das do povo, nas políticas públicas educacionais que
classes populares. são feitas de maneira autoritária e desrespeitam
Para vários pesquisadores no campo da professores e alunos, no preconceito existente
educação 1-4, o fracasso escolar, que se refere às para com o aluno pobre e sua família, enfim na

*
Artigo baseado em parte da dissertação de mestrado da Profa. Ms Patrícia Carla Silva do Vale Zucoloto realizada
sob orientação da Profa. Dra. Maria Helena Souza Patto, apresentada ao Programa de Pós-graduação em Psicologia
Escolar e do Desenvolvimento Humano do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.
**
Profa. Substituta do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade
Federal da Bahia (UFBA). Rua Cael, 113. Apto. 102. Acupe de Brotas. CEP: 40290-490. Salvador –BA. E-mail:
patriciavz@ig.com.br.

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reprodução no cotidiano da escola dos conflitos Profissionais como psicólogos, fonoaudió-


inerentes à sociedade de classes, através de logos, psicopedagogos, entre outros, adotaram o
práticas e relações escolares que produzem as di- modelo médico, o que levou autores como
ficuldades de escolarização. Collares e Moysés2 a sugerirem a substituição
Tendo como pressuposto que a escola é do termo “medicalização” por outro mais abran-
uma instituição social que reproduz o conflito de gente, qual seja, “patologização” das dificuldades
classes da sociedade que a inclui e, desse modo, de escolarização.
a compreensão das relações escola-sociedade de Moysés4 refere-se a duas versões principais
classes é o pano de fundo que permite um outro da patologização das dificuldades de escolari-
entendimento do que se passa nas escolas públicas zação que permanecem até hoje: o fracasso esco-
de ensino fundamental: a sua dimensão política1. lar considerado como conseqüência da desnutri-
Parte-se, portanto, de uma postura crítica à ção, o que é atribuído mais freqüentemente às
psicologia que desconhece a realidade escolar e crianças das classes populares e o fracasso escolar
atribui a causa dos problemas de escolarização considerado como resultado da existência de
às crianças e suas famílias, explicando o fracasso disfunções neurológicas, tais como os distúrbios
escolar como conseqüência de deficiências de aprendizagem, a hiperatividade, a disfunção
biopsicológicas individuais. cerebral mínima, a dislexia.
A história das explicações do fracasso Collares e Moysés2 apresentam resultados
escolar tem demonstrado a relação entre o dis- de pesquisas que invalidam a relação de
curso científico que explica o fenômeno e a ideo- causalidade entre desnutrição e fracasso escolar
logia dominante, de acordo com a qual só obtêm e que podem ser resumidos em dois argumentos
sucesso os mais aptos, os mais capazes, culpando contrários a esta crença: as crianças que chegam
os alunos pobres e suas famílias, justificando assim às escolas públicas são portadoras de desnutrição
a desigualdade social e ignorando os determinantes leve, de primeiro grau, sem alterações no cérebro
escolares e políticos das dificuldades de esco- e em sua capacidade de aprender, por outro lado,
larização1. Dentre as explicações para o fracasso a alfabetização é um processo que requer o uso
escolar, se destacam aquelas que atribuem das funções intelectuais superiores simples diante
patologias às crianças que não aprendem ou não do potencial cognitivo do ser humano.
se comportam conforme a expectativa da escola: Com relação às “disfunções neurológicas”
as explicações medicalizantes ou patologizantes. ou “distúrbios de aprendizagem”, essas autoras
Medicalizar o fracasso escolar é interpretar demonstram que há uma longa trajetória de mitos,
o desempenho escolar do aluno que contraria estórias criadas, fatos reais que são perdidos ou
aquilo que a instituição espera dele em termos de omitidos naquilo que denominam a história real
comportamento ou de rendimento como sintoma e não-contada dos “distúrbios de aprendizagem”.
de uma doença localizada no indivíduo, cujas Questionam a existência desses “distúrbios” pela
causas devem ser diagnosticadas. falta de comprovação científica, uma vez que
A perspectiva da medicalização do fracasso argumentam que mesmo após cem anos de terem
escolar persiste hoje no cotidiano da escola e sido aventados pela primeira vez por um oftalmo-
atribui patologias às crianças das classes popu- logista inglês, nada foi comprovado. Sendo essas
lares com dificuldades de escolarização, culpa- pretensas doenças neurológicas jamais compro-
bilizando-as por suas dificuldades, a despeito de vadas devido à inexistência de critérios diagnósti-
pesquisas1,4-6 que põem em questão as relações cos claros e precisos como exige a própria ciência
causais entre distúrbios físicos e psicológicos, de neurológica, conservando conceitos vagos e
um lado, e rendimento escolar, de outro, e que, abrangentes demais7 (p. 29). A patologização da
colocando o foco nos fatores intra-escolares e educação consiste em um reducionismo biológico,
dando voz às crianças provenientes das classes que é explicar a situação e o destino de indivíduos
populares, mostram que elas são, em sua grande e grupos através de suas características indivi-
maioria, crianças capazes de aprender. duais, desse modo esconde os determinantes polí-

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ticos e pedagógicos do fracasso escolar, isentando de controle das diversas epidemias no Rio de
de responsabilidades o sistema social vigente e a Janeiro, e a escola era “apenas mais um lugar onde
instituição escolar. Como decorrência dessa se reunia gente, que precisava ser fiscalizado, igua-
concepção, é o indivíduo o maior responsável por lando-se a tantos outros locais onde isso acontecia,
sua condição de vida e destino, as circunstâncias sem nenhuma primazia”. (p. 88). Depois de 1900,
sociais e políticas teriam influência mínima. é que a questão da higiene escolar ganha impulso,
A psicologia aderiu ao modelo médico de “culminando em sua institucionalização, na década
atendimento da queixa escolar e esta continua de 10, em alguns estados brasileiros”. (p. 88).
sendo a psicologia hegemônica, visto que a A origem de um discurso científico brasi-
psicologia escolar tradicional ainda explica o leiro mais independente dos setores hegemônicos
fracasso escolar pela via da patologização e, desse e umbilicalmente ligados aos grupos agrários está
modo, as explicações patologizantes do fracasso no século XIX, de acordo com Schwarcz (1993)14.
escolar continuam generalizadas na cultura Com a transferência da Corte portuguesa para o
escolar3. O discurso pregnante é o da deficiência Brasil em 1808, foram criadas instituições cul-
ou da doença, os professores explicam que os turais como as Faculdades de Medicina da Bahia
alunos não aprendem porque são incapazes, e do Rio de Janeiro, as Faculdades de Direito em
deficientes ou doentes mentais2 Essas crenças dos Pernambuco e em São Paulo, os Institutos Históri-
professores geram a demanda por profissionais cos e Geográficos e os Museus Etnográficos.
de saúde e tornam possíveis as condições para Essas instituições possibilitaram a reunião dos
que a prática do psicólogo escolar na chave da primeiros cientistas brasileiros, leitores da
psicopatologia continue a proliferar no âmbito produção científica européia, principalmente.
do atendimento ao escolar. Diante da constatação Dentre esses cientistas, destacaram-se os médicos
que a medicalização do fracasso escolar está em e o papel que a medicina desempenhou na
pleno curso, surgiu a importância de investigar sociedade brasileira na segunda metade do século
as origens históricas desta medicalização, pergun- XIX e no período da 1ª República.
tando-se sobre o papel que o discurso médico Gondra9 afirma que, na segunda metade
exerceu na construção dessa perspectiva de do século XIX, a medicina tem sua órbita de
explicação das dificuldades de escolarização. interesse e competência ampliada, e o campo
Lima8 investigou a constituição histórica educacional emerge como campo conformado
do discurso médico sobre a Saúde Escolar no pelo discurso médico, uma vez que os médicos
estado de São Paulo e identifica a higiene escolar passam a definir regras para a organização e
como primeiro constituinte desse discurso. A funcionamento da educação escolar.
higiene escolar resultou, segundo esse autor, da Não há consenso, porém, entre historiado-
interseção de três doutrinas: res da medicina e da educação sobre a presença
efetiva dos médicos no corpo social durante o
“a da polícia médica, pela inspetoria das Império. Gondra9 e Freire Costa10 defendem que
condições de saúde dos envolvidos com o ensino; a presença médica na sociedade com esse objetivo
a do sanitarismo, pela prescrição a respeito da de higienização social teria ocorrido no Império,
salubridade dos locais de ensino; a da pueri- portanto no século XIX. Por sua vez, Lima 8,
cultura, pela difusão de regras de viver para Stephanou11 e Patto12 afirmam que apenas no sé-
professores e alunos e interferência em favor de culo XX teve início a inserção efetiva dos médicos
uma pedagogia mais “fisiológica”, isto é, mais na sociedade brasileira.
adequada aos corpos escolares aos quais se Todos os autores concordam, por outro
aplicasse”. (p. 85) lado, que ao ampliar os espaços de sua compe-
tência, a medicina gerou o fenômeno descrito
Segundo Lima8, as primeiras interferências como medicalização da sociedade, embora
do Estado brasileiro em relação à questão da saú- discordem quanto ao período em que se dá a
de nas escolas, a partir de 1850, foram tentativas presença dos médicos na gestão social.

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A medicalização da sociedade brasileira, pela questão educacional com o objetivo de que


de acordo com Freire Costa10, refere-se ao fato através da educação poderia ser produzido um
de que a Medicina e o Estado firmaram um homem e uma sociedade regenerados. A idéia de
compromisso de higienização das cidades e das regeneração do povo brasileiro através da edu-
populações, pois o Estado reconheceu que a cação em uma escola higiênica diz respeito à
ordem e o progresso sociais dependiam da influência das “teorias” raciais no pensamento
higienização destas. médico a partir de 1870. Essas “teorias” (dar-
Os médicos, influenciados pela literatura winismo social e evolucionismo) procuravam
européia, voltaram-se para a realidade da falta explicar as desigualdades sociais como desi-
de higiene urbana e começaram a tratá-la em teses gualdades naturais, decorrentes de diferenças
apresentadas às Faculdades de Medicina a partir biológicas entre as raças e coube aos intelectuais
de meados do século XIX. É neste contexto que brasileiros uma interpretação própria dessas
surgem as teses de doutoramento defendidas nas “teorias”. (cf. 14).
Faculdades de Medicina, tendo como tema a Com o objetivo de dar continuidade à inves-
higiene escolar. tigação das origens históricas e à compreensão das
A partir do estudo das teses sobre higiene condições de produção dessa versão medicalizante
dos colégios da Faculdade de Medicina do Rio da escola, que está na origem da patologização
de Janeiro, que tratavam de estabelecimentos de dos problemas de escolarização, em geral, e das
ensino que recebiam os filhos da elite, nos quais crianças das classes populares, em particular, a
os alunos passavam a viver longe de suas famílias, presente pesquisa procurou analisar o discurso
Freire Costa10 concluiu que a estratégia de distan- médico sobre a escola nas teses inaugurais da
ciamento do jovem do seu núcleo familiar fazia Faculdade de Medicina da Bahia na segunda
parte da apropriação médica da infância e da metade do século XIX. Esse artigo se deterá sobre
desqualificação das famílias coloniais, correspon- os objetivos específicos de investigar, nas teses
dendo à estratégia de medicalização do espaço selecionadas, as concepções de higiene pública e
urbano. (p. 180). de higiene escolar e do papel do médico na escola.
Gondra13 investigou as representações mé-
dicas acerca da educação e concluiu que um
determinado modelo de organização escolar foi MÉTODO
gestado no interior da ordem médica no século
XIX, baseando-se em diversas fontes+, dentre as Tendo esse objetivo, fomos às origens da
quais se destacam as teses médicas do Rio de ciência médica brasileira, mais precisamente,
Janeiro que abordam questões educacionais. A garimpamos os primeiros documentos aqui pro-
partir da sua análise, afirma que a educação duzidos sobre a escola brasileira no meio médico,
estava ligada ao projeto civilizatório ocidental, os quais foram as teses inaugurais para obtenção
pois para os médicos higienistas era necessário do grau de doutor nos cursos médicos da Bahia e
formar o homem, dominando a natureza na qual Rio de Janeiro, particularmente aquelas que
se encontrava inscrito e domando a sua própria tratavam da higiene das escolas.
natureza. Evidencia que a educação era a medida Escolhemos trabalhar com as teses inau-
e o remédio para o objetivo de “instaurar uma gurais da Faculdade de Medicina da Bahia
ordem civilizada nos trópicos”. (p. 410). Constata (FAMEB) porque as teses sobre higiene escolar
a presença do interesse privilegiado dos médicos presentes na Faculdade de Medicina do Rio de

+
Gondra13 baseou-se na leitura da “legislação médica no século XIX, das memórias históricas das instituições e de
alguns personagens do campo médico, de incursões tópicas em relatórios de Ministros dos Negócios do Império e de
professores, relatos de viajantes estrangeiros, jornais, boletins e fontes literárias, bem como do levantamento exaustivo
das teses defendidas junto à FMRJ no período referido, tendo sido este último, seguido de uma dupla seleção, sendo
a primeira recortada pelo critério de uma medicina preocupada com aspectos sociais, e a segunda, de uma medicina
preocupada com aspectos educacionais.” (p. 408).

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Janeiro abordavam a higiene dos colégios As cinco teses compreendem o período que
destinada aos filhos das elites brasileiras e nosso se estende de 1869 a 1898, sendo que da 1ª para
interesse era pela escola pública e além do mais, a 2ª tese, há um intervalo de 16 anos (1869 para
estas já haviam sido analisadas por Freire 1885). As três primeiras localizam-se no período
Costa10 e Gondra9. Outro fator que contribuiu do Segundo Império. A 4ª e a 5ª (1895; 1898)
para esta escolha foi que havia um grande inte- correspondem ao início da Primeira República.
resse pela higiene pública por parte dos médicos O discurso presente nas teses carrega a influência
baianos, como observou Schwarcz14, e desse das questões do contexto social, político e
interesse surgiram teses de doutoramento e um econômico de cada época.
predomínio de artigos sobre esse tema na revista As teses tratam predominantemente das
da Faculdade de Medicina da Bahia: a Gazeta escolas primárias destinadas ao ensino público,
Medica da Bahia. porém algumas também se referem a colégios
A análise das teses teve como referência o mé- internos e a primeira tese fala exclusivamente
todo de análise de conteúdo proposto por Bardin15, desses colégios pagos destinados aos filhos da
tendo seguido duas etapas: a pré-análise, que com- elite econômica. Essa primeira tese foi mantida
preende a preparação do material a ser analisado, no corpo de documentos a ser analisado porque o
e a análise de conteúdo propriamente dita. fato de não tratar das escolas públicas pode ser
Foram selecionadas dentre as teses da entendido como evidência de que faltavam de fato
FAMEB aquelas que portavam em seus títulos a escolas para o povo, como é demonstrado na
referência explícita a questão da higiene das esco- literatura sobre a época.21,22.
las constituindo assim o corpus a ser analisado, O discurso nas teses é articulado do seguin-
de acordo com os critérios de exaustividade, te modo: primeiro procura-se definir o tema esco-
segundo a qual tivemos em conta todos os do- lhido e justificar a sua importância; em seguida,
cumentos desses acervos e de pertinência, de o próprio tema é desenvolvido e durante a
acordo com a qual foram selecionados os docu- apresentação das prescrições higiênicas, a maior
mentos adequados ao objetivo da análise. parte dos autores procura, por comparação, re-
Dez teses foram selecionadas inicialmente fletir sobre a realidade da educação brasileira,
e compreendiam o extenso período de 1869 a 1930. particularmente a baiana.
Dado o longo período histórico abrangido, optou- As teses circulam por diversos temas rela-
se por trabalhar com as cinco primeiras, cionados à higiene das escolas. Os temas abran-
correspondendo ao período de 1869 a 1898, a fim gem desde prescrições higiênicas quanto à
de melhor compreender as idéias produzidas no escolha do terreno e à construção do prédio
período de passagem do Império para a República. escolar até a concepção de educação, de escola,
Foram analisadas as seguintes teses de de método de ensino, do papel do professor e do
doutoramento da Faculdade de Medicina da Bahia: papel da família e do Estado. Abordam predomi-
Silva16; Collet17; Marques18; Lobo19 e Patury 20. nantemente aspectos da estrutura física e do
funcionamento das escolas, à luz das exigências
higiênicas a serem seguidas.
RESULTADOS Descreveremos a seguir as concepções de
higiene pública, de higiene escolar e do papel
A análise das teses nos conduziu à organi- do médico higienista na escola presentes nas
zação do conteúdo concernente às concepções teses.
presentes nas mesmas em dez aspectos referentes
aos objetivos específicos, dentre os quais apre- As concepções de higiene pública e de higiene
sentaremos nesse artigo as concepções de higiene escolar
pública e de higiene escolar e as concepções do
papel do médico na escola (o médico higienista A higiene escolar é contextualizada como
escolar e a inspeção médica na escola). pertencente ao tema maior da higiene pública ou

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higiene geral. A concepção de higiene geral está Comparece em algumas teses uma crítica
presente nas teses de 1869, 1885 e 1898; as de- às escolas baianas e mais, à situação em que a
mais definem exclusivamente a higiene escolar educação do povo se encontra no país.
ou higiene pedagógica. Marques18 defende que o movimento pela
Na tese de 1869, a higiene pública é definida higiene escolar produzirá uma revolução social,
como prevenção de doenças. Na tese de 1885, definida como o “interesse pela educação pública
comparece também a concepção de higiene como carente das leis hygienicas”. (p. 37)
preservação da saúde do corpo e do espírito. A Em 1898, na quinta tese, a importância da
tese de 1898, no entanto, concebe a higiene como higiene escolar para o Brasil refere-se ao intuito
a “magna questão” que soluciona o “problema de aperfeiçoamento da raça, denotando a influência
social”, mas não o explicita e defende que sua das “teorias” raciais no pensamento médico. São
aplicação seja considerada urgente no Brasil. objetivos da higiene escolar, de acordo com
Vários são os nomes dados a higiene Patury20: regenerar o caráter, combater os vícios,
escolar nas teses: desde “hygiene dos colégios”, nulificar os interesses individuais e transformá-los
na tese de 1869 até “hygiene pedagógica”, na tese em interesses coletivos, incutir o cumprimento do
de 1886; passando pelas teses de 1885, 1895 e dever e o amor ao trabalho, criar o sentimento
1898, nas quais é denominada “hygiene escholar”. nacional, aperfeiçoar a raça. Afirma que para a
Nas duas primeiras teses (1869, 1885), a construção de uma pátria feliz, forte e instruída, é
higiene é uma necessidade das escolas em geral, preciso que se tenha um povo bem educado.
a fim de evitar o adoecimento das crianças. É,
portanto, uma preocupação com a saúde pública, As concepções do papel do médico na escola: o
com a prevenção de doenças, com a propagação médico higienista escolar e a inspeção médica
de epidemias, o que se justifica na época, levando na escola
em consideração a realidade baiana.
A partir da terceira tese, de Marques, no Enquanto na primeira tese, comparece uma
ano de 188618, a concepção de higiene escolar se menção geral da relação da medicina com a
dirige para o objetivo de elevar a nação brasileira escola, a partir da segunda tese, por exemplo, em
à altura das nações civilizadas através da escola Collet, em 188517, defende-se a importância de
higiênica, desse modo a higiene escolar não é mais uma fiscalização rigorosa nas escolas para
uma preocupação vaga com a atenção ao bem- prevenir a eclosão de doenças, que são geradas
estar e à formação da geração nascente e com o pela negligência para com a higiene. Aparece
futuro do país. Surge uma preocupação concreta também a denúncia da falta da inspeção médica
com as crianças e jovens considerados como o nas escolas e colégios no Brasil.
“gérmen do futuro cidadão” e, portanto, também A partir da quarta tese, em 1895, a figura
como a força motriz de todo progresso da nação. do médico inspetor escolar vai ter seu papel
Esta preocupação vai se revelar no projeto de definido: este deve atentar para a prevenção e
escola higiênica. controle de doenças e “perversões” nos alunos,
De acordo com Lobo19, a escola higiênica através da verificação das condições higiênicas das
pode resolver o “mais difficil problema social: o escolas pela avaliação dos seus aspectos estruturais
de preparar a geração que surge para com patrio- e funcionais e das condições físicas dos alunos.
tismo corrigir os erros do presente, que não são O médico inspetor escolar deve ser for-
poucos, e elevar a patria à altura que ella merece mado através do estudo de diversos saberes,
no quadro das nações civilisadas”. (p. 1). dentre eles a organização do trabalho pedagógico.
As teses afirmam a responsabilidade da A idéia de fiscalização das condições esco-
escola de criar cidadãos vigorosos e denunciam lares inclui a atenção a aspectos morais, desde a
que no Brasil ocorre o contrário: a escola cria moralidade dos professores e “dirigentes” da “ca-
seres deformados e raquíticos, pois não obedece sa de educação” até à condenação do uso de
às prescrições higiênicas. castigos sem moderação ou prudência por parte

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dos mestres, como também a condenação da nalidade. As críticas à imitação de idéias es-
ocorrência do “onanismo” e da pederastia entre trangeiras, no entanto, limitam-se a adaptações
os discípulos. Por exemplo: Silva, em 186916 e materiais, em vista das diferenças climáticas entre
Collet, em 188517 recomendam que haja vigilância os países-modelo e o Brasil. Além disso, há re-
por parte dos professores em relação aos alunos ferência a trabalhos nacionais, entre os quais se
para evitar que ocorra o “onanismo” ou “hábitos destacam os Pareceres de Rui Barbosa (1882-
solitários” e a pederastia, também denominada 1883), segundo Patto (comunicação pessoal) estes
“actos de immoralidade” que comprometeriam a textos referentes ao projeto educacional de Refor-
saúde dos alunos. ma do Ensino Primário e Secundário elaborados
pelo então deputado baiano eram longos, deta-
lhados e ricos de citações de trabalhos e expe-
DISCUSSÃO riências de autores europeus e norte-americanos.
Por isso, esses documentos funcionaram como
As cinco teses inaugurais da Faculdade de mediadores entre as idéias estrangeiras sobre edu-
Medicina da Bahia sobre a higiene das escolas e cação e higiene escolar e os médicos brasileiros.
colégios configuram um momento de constituição Essas teses veiculam um discurso nor-
de um discurso médico sobre a educação e sobre matizador, prescrevem um modelo ideal de escola
a escola centrado numa concepção de escola como de acordo com a ciência da higiene. Para que esse
instituição higiênica. modelo se efetive, a higiene escolar precisa estar
Nesse momento da história brasileira, os presente em todas as dimensões da escola: a
médicos viam as escolas como lugares coletivos estrutura física (localização, construção do prédio
que contribuíam para a gênese e a disseminação escolar, dimensão das salas de aula, cubagem do
de doenças que assolavam as cidades brasileiras. ar, dimensão das mobílias, etc.), as relações esco-
E, de fato, as condições sanitárias e higiênicas lares e o próprio método de ensino. Nas minúcias
da Bahia eram precárias: em Salvador, por exem- das prescrições, encontra-se um desejo de controle
plo, não havia rede de esgotos e a população fi- absoluto. Ou seja, um projeto inovador de discipli-
cava sujeita a moléstias infecto-contagiosas e a namento do corpo social por meio da prevenção
epidemias. Tavares23 relata que as mais graves de desvios físicos, intelectuais e morais de crian-
epidemias foram as de febre amarela e cólera dos ças e adolescentes.
anos de 1850 e 1855, as quais fizeram milhares Os médicos denunciam que o maior proble-
de vítimas na Bahia. Estes eram problemas de ma das escolas brasileiras era sua inadequação
higiene pública para os quais os médicos higiênica. As recomendações referem-se princi-
brasileiros não estavam indiferentes. palmente a prevenção das doenças, objetivo que
É verdade também que, como apontam se tornou obsessão da medicina depois das des-
vários autores24, 25 estava presente entre eles um cobertas de Pasteur e Koch.
forte desejo de serem europeus, ou seja, os nossos A primeira tese trata da colaboração que a
“homens de sciencia” participavam do que esses medicina pode dar à escola enquanto instituição
autores chamaram de “feitiço do transoceanismo” abstrata e portanto, descontextualizado da reali-
ou “bovarysmo”. As teses analisadas repetem os dade baiana. Mas, a partir da segunda a situação
mesmos conteúdos, como se os autores houves- das escolas brasileiras começa a ser mencionada
sem lido os mesmos manuais de higiene escolar, para tornar-se tema a partir da terceira. Nota-se,
o que de fato se confirma no levantamento de então, todo um empenho em prescrever medidas
autores e obras citadas. É vasta a literatura estran- de higienização das escolas alheio à realidade
geira referida e as teses são ricas em citações em brasileira de falta de escolas e de uma política
língua estrangeira, principalmente de autores educacional, de professores mal remunerados e
franceses. O discurso é constituído com base em mal formados e de descaso do Estado brasileiro
trabalhos científicos realizados em outros países, para com a educação do povo.
embora já haja expressão do desejo de origi- No Império, a educação pública foi rele-

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gada ao plano das leis apenas, pois na prática Nas primeiras teses médicas sobre insti-
muito pouco foi realizado21. Havia poucas escolas tuições escolares, estão presentes prescrições que
de ensino elementar no Brasil, portanto havia uma vão se concretizar pouco mais tarde na história
grande massa analfabeta. De acordo com as da educação brasileira, como é o caso da inspeção
estatísticas citadas por Lourenço Filho, “as esco- médica na escola. Ou seja, trata-se da constituição
las primárias, em número de 15.561, reuniam, de um discurso médico sobre a educação que vai
em 1878, 175 mil alunos”. Da população livre ser aprofundado e concretizado em teorias e ações
em todo o país, cerca de nove milhões de habi- ao longo do século XX. Exemplo disto são os
tantes, os alunos representavam apenas 2% desta discursos do médico Miguel Couto, presidente
população; o recenseamento de 1870 registrara perpétuo desde 1913 da Academia Nacional de
um índice de analfabetos de 78% na população Medicina, nos quais a educação é definida como
de 15 anos e mais21 (p. 382). o problema nacional por excelência. A criação
Como se sabe, um sistema educacional do Serviço de Inspeção Médica Escolar da Cidade
unificado no Brasil só começaria a tomar corpo do Rio de Janeiro em 1910, cujo primeiro diretor
mais de meio século depois, quando da criação foi Moncorvo Filho, médico do Instituto de
do primeiro Ministério de Educação em 1930. Proteção e Assistência à Infância do Rio de
Podem ser localizadas as origens históricas Janeiro, fundado em 18898. Em São Paulo, já em
da medicalização dos problemas de escolarização 1890 teve início a Inspeção Médica Escolar.
das crianças das classes populares na defesa da Porém, o Serviço de Inspeção Médica Escolar,
importância da medicina para a escola, impor- ligado ao governo do estado de São Paulo, só foi
tância da presença médica nesta instituição e na criado em 1911. Nos estados da Bahia, Pernam-
concepção preconceituosa de povo brasileiro, buco e Minas Gerais foram criados serviços
central nas teorias adotadas pelos médicos. semelhantes em 1913, no Paraná e em Santa
Nessas teses médicas, a concepção de povo Catarina em 19188.
brasileiro está perpassada pelas “teorias raciais”, Os médicos começam a marcar presença
o que torna possível afirmar que a desvalorização não só nas escolas públicas, mas no corpo docente
dos integrantes das classes populares está na das Escolas Normais realizando a formação dos
origem da crença de que os pobres e não-brancos profissionais da educação1. Na década de 30, o
são, em geral, incapazes de escolarização. No médico e antropólogo Arthur Ramos, discípulo
discurso médico e educacional, poucos anos de Nina Rodrigues na Faculdade de Medicina da
depois da produção dessas teses, o uso de termos Bahia, criou clínicas e centros de higiene mental
negativos para designá-los e para explicar sua escolar e produziu o primeiro livro sobre proble-
exclusão escolar e sua inclusão social marginal mas de aprendizagem escolar: A creança proble-
já está instalado: ma (1939), dando relevo à questão das crianças
que “não aprendiam” que vinha sendo tratada
Nos documentos oficiais, na imprensa, nos desde a década de 20 pela classe médica, na
relatórios e pareceres dos especialistas vai-se perspectiva da patologização.
constituindo um vasto rol de termos infamantes Patto1 afirma que no início do século XX
para designar os pobres: degenerados, anor- a determinação dos “anormais” e sua segregação
mais, selvagens, ignorantes, incivilizados, feios, já era uma prática social de competência médica
desordeiros, rudes, grevistas, incapazes, pregui- e evidencia que muitos médicos “tiveram uma
çosos, boêmios, anarquistas, brutos, irrespon- participação decisiva na constituição teórica e
sáveis, desregrados, perniciosos, bêbados, instrumental da psicologia educacional, direcio-
farristas, decaídos, nocivos, arruaceiros, deso- nando-a, para a aquisição de uma identidade
cupados, marginais, deletérios, animalescos, baseada no modelo médico.” (p. 63)
simiescos, medíocres, sujos, libertinos, trapa- De acordo com Moysés4, a Medicina exer-
ceiros, parasitas, vadios, viciados, ladrões, ceu um papel fundamental na construção das
criminosos. (26, p. 184) doenças do não-aprender, criando a demanda por

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serviços de saúde especializados e firmando-se a educação escolar e na defesa da presença médica


como instituição competente e responsável pela para fiscalizar e garantir a saúde dos educandos.
resolução de problemas.
Segundo esta médica pediatra e pesqui-
sadora, não foi a ampliação do acesso à escola AGRADECIMENTOS
pública das crianças das classes populares que
gerou a medicalização da aprendizagem e da não- Agradeço à professora Maria Helena S.
aprendizagem, pois a medicina afirmava a priori Patto pela orientação e às professoras Maria
que “as crianças das classes trabalhadoras são Aparecida A. Moysés, Marina Massimi e a
mais debilitadas, mal nutridas, doentes etc. e, por- Sandra M. Sawaya pela interlocução. Agradeço
tanto, irão apresentar problemas na escolariza- ainda às professoras Dinorah Castro e Nádia
ção, a menos que haja uma atuação médica”. (p. Rocha pela introdução à riqueza das teses médicas
299). Sendo assim, as queixas escolares em da Faculdade de Medicina da Bahia. A Rodolfo
relação às crianças da rede pública de ensino são Teixeira, médico e pesquisador da História da
“problemas, em sua grande maioria, decorrentes Medicina da Bahia, pelas valiosas referências
da esfera temporal, política e social em que históricas. À Zilda, aos funcionários do Memorial
vivem”, ou seja, referentes a “sua inserção social da Medicina e da Biblioteca Pública da Bahia, a
e da decorrente qualidade de suas vidas, (...) de Caio César Tourinho e Antônio do Vale Filho pela
sua historicidade, como homens”. (p. 126). solicitude em auxiliar os pesquisadores. A
Esta patologização das dificuldades de esco- Rodrigo Barban Zucoloto pelo incentivo à
larização persiste até hoje, como já falamos e teve produção científica. A Capes pelo financiamento
início nas primeiras aproximações da medicina com desta pesquisa.

Abstract: The present research study aimed to investigate the historical origin of explanations
for school difficulties of children of low socioeconomic status, specially the version that gives
a pathologic meaning to the phenomenon, through the analysis of the medical discourse about
the definitions of public hygiene and school hygiene and of the doctor’s role in the school. The
actual research investigated the medical discourse about the school in five Inaugural Theses of
the School of Medicine of Bahia under the theme “Hygiene of schools”. The theses were from
the historical period comprehended between 1869 and 1898, which corresponds to Brazil’s
transition from an Empire to a Republic. A contextual analysis of the results was carried out by
means of their insertion into the historical period in which they were produced. The analysis
investigated the theoretical and practical bases of these thoughts. The analysis of discourse content
was performed using Bardin (1977)’s method of content analysis. It could be verified that the
historical origin of the medical concept of school problems faced by children of low socioeconomic
status is in the defense of the importance of the medical presence in the school and in the prejudiced
view of the Brazilian people that was adopted by the medical staff at that period. It was concluded
from the five theses that ideas that will gain strength later in the history of Brazilian education, as
the “medicalization” of school difficulties, are already there. This is the case of medical inspection
in school, constituting a medical discourse about education that will be deepened and implemented
by means of theories and actions throughout the 20th century.

Key words: School health. School hygiene. School psychology. School difficulties. History of
psychology. Medicalization.

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Recebido em 06/11/2006
Aprovado em 13/12/2006

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