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CHARTIER, Roger. A história cultural: entre práticas e representações. Trad.

Maria
Manuela Galhardo. Lisboa: Difusão Editorial, 1988. p. 13-67

FICHAMENTO

INTRODUÇÃO: Por uma sociologia histórica das práticas culturais

Origem dos ensaios: insatisfação com a história cultural da França:


“O presente livro, composto por oito ensaios publicados entre 1982 e 1986, constitui-se como
resposta à insatisfação sentida frente à história cultural francesa dos anos 60 e 70, entendida
na sua dupla vertente da história das mentalidades e história serial, quantitativa”. (p. 13)
O prestígio da disciplina de história estava ameaçado:
“Ora é precisamente essa posição, baseada na primazia do estudo das conjunturas econômicas
e demográficas ou das estruturas sociais, que as ciências sociais mais recentemente
institucionalizadas tentam abalar nos anos 60”. (p. 14).
Desafios:
“[...] puseram em causa os seus objetos - desviando a atenção das hierarquias para as relações,
das posições para as representações – e as suas certezas metodológicas -consideradas mal
fundadas quando confrontadas com as novas exigências teóricas.”. (p. 14).
As respostas dos historiadores:
“Puseram em pratica uma estratégia de captação, colocando-se nas primeiras linhas
desbravadas por outros. Dai a emergência de novos objectos no seio das questões históricas.
[...]. Daí, corolariamente, o retorno a uma das inspirações fundadoras dos primeiros Annales
dos anos 30 [...]”. (p. 14).
Surgiu a história das mentalidades:
“Sob a designação de história das mentalidades ou de psicologia histórica delimitava-se um
novo campo, distinto tanto da antiga história intelectual literária como da hegemônica história
econômica e social”. (p. 15).
“O presente livro pretende ilustrar (discretamente, atendendo a que não é esse o seu objecto)
uma outra maneira de pensar as evoluções e oposições intelectuais”. (p. 16).
Objeto da história cultural:
“A história cultural, tal como entendemos, tem por principal objeto identificar o modo como
diferentes lugares e momentos uma determinada realidade social é construída, pensada, dada a
ler. Uma tarefa deste tipo supõe vários caminhos. ”. (p. 17).
“As representações do mundo social assim construídas, embora aspirem a universalidade de
um diagnostico fundado na razão, são sempre determinadas pelos interesses de grupo que as
forjam. Dai, para cada caso, o necessário relacionamento dos discursos proferidos com a
posição de quem os utiliza.”. (p. 17).
“As percepções do social não são de forma alguma discursos neutros”. (p. 17).

Emile Durkheim e Marcel Mauss:


“[As] representações [podem ser consideradas] como as matrizes de discursos e de praticas
diferenciadas — mesmo as representações colectivas mais elevadas só tem uma existência,
isto é, só o são verdadeiramente a partir do momento em que comandam actos”. (p.18).
“Desta forma, pode pensar-se uma história cultural do social que torne por objeto a
compreensão das formas e dos motivos ou, por outras palavras, das representações do mundo
social que, à revelia dos actores sociais, traduzem as suas posições e interesses objectivamente
confrontados e que, paralelamente, descrevem a sociedade tão como pensam que ela é, ou
como gostaria que fosse”. (p. 19).
O conceito de representação:
“Propomos que se tome o conceito de representação num sentido mais particular e
historicamente mais determinado”. (p. 20).
Representação com relação simbólica:
“A relação de representação – entendida, deste modo, como relacionamento de uma imagem
presente e de um objeto ausente, valendo aquela por este, por lhe estar conforme – modela
toda a teoria do signo que comanda o pensamento clássico e encontra a sua elaboração mais
complexa com os lógicos de Port-Royal”. (p. 21).
Representação confundida com imaginação (pode ser falsa):
“Assim deturpada, a representação transforma-se em máquina de fabrico de respeito e de
submissão, num instrumento que produz constrangimento interiorizado, que é necessário onde
quer que falte o possível recurso a uma violência imediata”. (p. 22).
Contribuições da história cultural para a estrutura social:
“É no processo de longa duração, de erradicação e de monopolização da violência, que é
necessário inscrever a importância crescente adquirida pelas lutas de representações, onde o
que está em logo é a ordenação, logo a hierarquização da própria estrutura social”. (p. 23).

A necessidade de uma teoria da leitura capaz de compreender a apropriação dos


discursos:
“É sabido como Paul Ricoeur quis construir essa teoria da leitura apoiando-se, por um lado,
na fenomenologia do ato de ler; por outro, na estética da recepção”. (p. 24).
“As modalidades do agir e do pensar, como escreve Paul Ricoeur, devem ser sempre
remetidas para os laços de interdependência que regulam as relações entre os indivíduos e que
são moldados, de diferentes maneiras em diferentes situações, pelas estruturas do poder”. (p.
25, grifos meus).
“A apropriação, tal como a entendemos, tem por objetivo uma história social das
interpretações, remetidas para as suas determinações fundamentais (que são sociais,
institucionais, culturais) e inscritas nas práticas específicas que as produzem”. (p. 26, grifos
meus).
“Representação, prática, apropriação: é a partir destas três noções que este livro é construído”.
(p. 27).
“[...] esta história [história cultural] deve ser entendida como o estudo dos processos com os
quais se constrói um sentido”. (p. 27, grifos meus).

CAPÍTULO I

 História intelectual e história das mentalidades: uma dupla reavaliação

“Equacionar os problemas da história intelectual constitui tarefa embaraçosa por múltiplas


razões. A primeira prende-se com o próprio vocabulário.” (p. 29).
“A incerteza e a dispersão do vocabulário de designação remetem, sem sombra de dívida, para
essas lutas intradisciplinares ou interdisciplinares cujas configurações são próprias de cada
campo de formas intelectuais e onde o que esta em jogo e uma posição de hegemonia que e,
antes de mais, a hegemonia de um léxico.” (p. 31).

 Os primeiros Annales e a História intelectual


“Para Febvre, pensar a história intelectual e, antes de mais, reagir perante os escritos que, na
sua época, dela se reclamam.” (p. 32).
O esforço para pensar a relação das ideias (ou das ideologias) e da realidade social através de
categorias que não as de influência ou do determinismo é a segunda preocupação expressa por
Febvre já antes de 1914.” (p. 33).
Crítica às ideias separadas da vida social:
“Contra a história intelectual da época, a crítica é, portanto, dupla: por isola as ideias ou os
sistemas de pensamento das condições que permitiram a sua produção, porque os separa
radicalmente das formas de vida social, essa história desencarnada institui um universo de
abstrações onde o pensamento surge como não tendo limites, já que sem qualquer
dependência.”. (p. 34).
“Assim sendo, e cada um à sua maneira, tomaram as suas distância relativamente à noções
que até então sustentavam implicitamente todos os trabalhos de história intelectual, a saber:
1. O postulado de uma relação consciente e transparente;
2. A atribuição da criação intelectual (ou estética) unicamente à capacidade de invenção
individual, logo à sua liberdade [...]”. (p. 35).
3. “A explicação das concordâncias detectadas entre as várias produções intelectuais [...]
e das influências [...].” (p. 36).

“A utensilagem vale pela civilização que soube forjá-la; vale pela época que a utiliza; não
vale pela eternidade, nem pela humanidade: nem sequer pelo curso restrito de uma evolução
interna de uma civilização.” (p. 36, grifos meus).
“Apesar desta limitação, de natureza teórica, é bem claro que a posição dos historiadores da
primeira geração dos Annales pesou fortemente na evolução da historia intelectual francesa.
Ela fez deslocar, com efeito, o próprio conjunto de questões: doravante o que Importa
compreender não são já as audácias do passado, mas muito mais os limites do pensável. A
uma história intelectual das inteligências sem rédeas e das ideias sem suporte opõe-se uma
historia das representações coletivas, das utensilagens e das categorias intelectuais disponíveis
e partilhadas em determinada época.” (p. 40).

 História das mentalidades / História das ideias

Concepções mais ou menos comuns aos praticantes da história das mentalidades:


“Antes de mais, a definição da palavra: “a mentalidade de um individuo, mesmo que se trate
de um grande homem, e justamente o que ele cem de comum com outros homens do seu
tempo” ou então “o nível da historia das mentalidades e o do quotidiano e do automático, e
aquilo que escapa aos sujeitos individuais da historia porque revelador do conteúdo impessoal
do seu pensamento” (ambas as definições são de J. Le Goff). É assim constituído como
objecto histórico fundamental algo que é exatamente o contrário do objecto da historia
intelectual clássica: a ideia, construção consciente de um espírito individual, opõe-se, passo a
passo, a mentalidade sempre colectiva que rege as representações e juízos dos sujeitos sociais,
sem que estes o saibam.” (p. 41).
Adaptação dos métodos usados pelos historiadores tradicionais:
“Quando, nos anos 60, a história intelectual emerge como o domínio mais frequentado e mais
inovador da historia, fá-lo retomando, para as transpor, as problemáticas e as metodologias
que asseguraram o sucesso da historia socioeconômica.” (p. 43).
“Daí a releitura e o reemprego de fontes classicamente utilizadas em história social (por
exemplo, os arquivos notariais), dai também a invenção de novas fontes proprias para restituir
as maneiras de pensar ou de sentir.” (p. 44)
Semelhanças metodológicas:
“A primeira é a das durações”. (p. 44);
“A segunda herança problemática que coube a história cultural tem a ver com a maneira de
conceber as relações entre os grupos sociais e os níveis culturais.” (p. 45).
“E sobre estes fundamentos-metodológicos, afirmados ou inconscientes, que a historia das
mentalidades se desenvolveu na historiografia francesa desde ha uma quinzena de anos. Ela
respondia, bem melhor do que a história intelectual, as novas tomadas de consciência dos
historiadores franceses.”. (p. 45, grifos meus).
“O debate aqui estabelecido atinge mesmo a definição da historia intelectual, e portanto a
constituição do seu objecto próprio.” (p. 48).
A proposta de uma história social das ideias, as divergências e riscos de reducionismos:
“O primeiro e sociológico, reconduzindo o significado das ideias a sua qualificação social,
seja esta dada pela posição dos indivíduos, pela dos meios que eles produzem ou pelo campo
social da sua recepção.” (p. 49).
“Mais recentemente, a critica dirigida a historia social das ideias visou um outro alvo e
denunciou uma outra forma de reducionismo, a saber, não já a redução de uma ideia ou de
uma ideologia as suas condoais de produção ou de recepção, mas a assimilação, que e uma
coisificação, dos conteúdos do pensamento a objectos culturais.” (p. 50).
“Longe de se encontrar esgotada, a historia intelectual (entendida como a análise do
‘trabalho’, em cada caso específica, realizada sobre um dado material ideológico) incorpora o
terreno dos pensamentos populares que parecia constituir, por excelência, o domínio
reservado da historia quantificada. Entre historia das mentalidades e historia das ideias, as
relações devem, portanto, ser pensadas de maneira infinitamente mais complexa do que a
comum aos historiadores Franceses dos anos sessenta.” (p. 53).

 Questionar as delimitações

“Estas distinções primordiais, expressas na maioria das vezes através de pares de oposições
(erudito/popular, criação/consumo, realidade/ficção, etc,)” (p. 54).
Pouco a pouco, os historiadores tomaram consciência de que as categorias, que estruturavam
o campo da sua analise (com uma evidencia tal que passava a maior parte das vezes
despercebida), eram elas próprias - tal como aquelas que eram objecto da história - o produto
de divisões móveis e temporárias. (p. 54).
É preciso reavaliar as distinções:
1. primeira divisão tradicional: “a cultura da maioria” x “a intelectualidade dos pensamentos
do topo” (p. 54).
2. a oposição entre criação e consumo, entre produção e recepção;
“Definido como uma «outra produção», o consumo cultural, por exemplo a leitura de um
texto, pode assim escapar a passividade que tradicionalmente lhe é atribuída. Ler, olhar ou
escutar são, efectivamente, uma serie de atitudes intelectuais que — longe de submeterem o
consumidor a toda-poderosa mensagem ideologia e/ou estética que supostamente o deve
modelar — permitem na verdade a reapropriação, o desvio, a desconfiança ou resistência,
Essa constatação deve levar a repensar totalmente a relação entre um público designado como
popular e os produtos historicamente diversos (livros e imagens, sermões e discursos,
canções, fotonovelas ou emissões de televisão) proposto para o seu consume.” (p. 61-60).
Intenção do leitor:
“[...] é necessário relembrar que todo o texto e o produto de uma leitura, uma construção do
seu leitor: este não toma nem o lugar do autor nem um lugar de autor. Inventa nos textos uma
coisa diferente daquilo que era a ‘intenção’ deles.” (p. 61).
3. “Mas qual o estatuto desses textos múltiplos que a história intelectual toma como objeto de
análise? Tradicionalmente, é a sua própria função que supostamente lhes confere uma
unidade: todos eles, com efeito, constituíam representações de um real que se esforçariam por
aprender sob modalidades diversas, filosóficas ou literárias.” (p. 62).
“O texto, literário ou documental, não pode nunca anular-se como texto, ou seja, como um
sistema construído consoante categorias, esquemas de percepção e de apreciação, regras de
funcionamento, que remetem para as suas próprias condições de produção.” (p. 63).
“O real assume assim um novo sentido: aquilo que é real, efetivamente, não é (ou não é
apenas) a realidade visada pelo texto, mas a própria maneira como ele a cria, na historicidade
da sua produção e na internacionalidade da sua escrita.” (p. 63).

 Conclusão?

A tarefa do historiador:
“O historiador procura localizar e interpretar tempo realmente o artefacto num campo em. que
se intersectam duas linhas.” (p. 63).
“Ler um texto ou decifrar um sistema de pensamento consiste, pois, em considerar
conjuntamente essas diferentes questões que constituem, na sua articulação, o que pode ser
considerado como o próprio objecto da historia intelectual.” (p. 64)
Os problemas dos conceitos de objecto intelectual e cultura:
Conceito de objecto intelectual:
“São, portanto, as relações com os objectos que os constituem, de forma específica para cada
caso e segundo composições e distribuições sempre singulares. A história intelectual não deve
cair na armadilha das palavras que podem dar a ilusão de que os vários campos de discursos
ou de praticas são constituídos de uma vez por todas, delimitando objectos cujos contornos,
ou mesmo os conteúdos, não variam; pelo contrario, deve estabelecer como centrais as
descontinuidades que fazem com que se designem, se admiram e se avaliem, sob formas
diferentes ou contraditórias, consoante as épocas, os saberes e os actos.” (p. 65).
O conceito de cultura:
Não separar os conceitos de cultura, economia e social, como faziam os historiadores
quantitativistas:
“Na verdade, é preciso pensar como todas as relações, incluindo as que designamos. por
relações econômicas ou sociais, se organizam de acordo com lógicas que põem em jogo, em
aero, os esquemas de percepção e de apreciação dos diferentes sujeitos sociais, logo as
representações constitutivas daquilo que poderá ser denominado uma ‘cultura’, seja esta
comum ao conjunto de uma sociedade ou própria de um determinado grupo.” (p. 66).
Não restringir o conceito de cultura a produções intelectuais elitizadas:
“Pensar de outro modo a cultura, e por consequência o próprio campo da historia intelectual,
exige concebê-la como um conjunto de significações que se enunciam nos discursos ou nos
comportamentos aparentemente menos culturais.” (p. 66).

CATEGORIAS DO TEXTO

 Representação
São os sentidos da realidade descritos por um determinado grupo específico ou pessoas
singulares que influenciam seus atos. São sempre determinadas pelos interesses e à posição do
grupo/indivíduo.

 Prática

É o ato de fazer reconhecer uma identidade social.

 Apropriação

É a maneira como os textos ou discursos afetam o leitor e a partir desse novo conhecimento e
dos sentidos dados ao texto, o leitor assume uma nova postura diante do mundo.

 Leitor

Aquele que dá novas significações aos textos, as práticas, os sentidos, quais ele interpreta e se
apropria são históricas e variam dependendo da sociedade e da cultura.

 Assimilação

Tomar os conteúdos do pensamento e objetos culturais sem questioná-los ou contextualizá-


los.
 Símbolo

Uma imagem ou signo que possui um significado para determinado grupo social.

 Cultura

Conjunto de significações, hábitos, costumes que se enunciam nos discursos ou nos


comportamentos de um grupo social. Deve ser analisado de forma relacionada à economia e
sociedade.

 Desvio