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Insider – Tipo penal trazido pela Lei 10.303/2001, que alterou a Lei 6.

385/1976, introduzindo o
artigo 27-D:

Uso Indevido de Informação Privilegiada

Art. 27-D. Utilizar informação relevante ainda não divulgada ao mercado, de que tenha
conhecimento e da qual deva manter sigilo, capaz de propiciar, para si ou para outrem, vantagem
indevida, mediante negociação, em nome próprio ou de terceiro, com valores mobiliários:

Pena – reclusão, de 1 (um) a 5 (cinco) anos, e multa de até 3 (três) vezes o montante da
vantagem ilícita obtida em decorrência do crime.

“No tipo penal em estudo, o objeto jurídico tutelado é o mercado financeiro, visando coibir
condutas que apresentem um risco real de dano contra o Sistema Financeiro Nacional. Portanto,
apenas as condutas que possam, de fato, alterar os pregões em bolsa ou efetivamente causar
uma vantagem indevida na negociação de valores mobiliários é que estarão sujeitas a persecução
penal, com as garantias previstas no art. 5º, LV, da Constituição Federal”. – CAPANO, Evandro
Fabiani. O insider trading no direito penal econômico. Revista Criminal: ensaios sobre a atividade
policial, São Paulo, v. 3, n. 6, p. 130., jan./mar. 2009.

Marcos – Insider Administrativo

Edição da Lei de Mercado de Capitais (6.385/76) e Lei das S.A (6.404/76) –

“Neste ponto, houve grande avanço com a Lei nº 6.404/1976 (Lei de S.A.) e Lei nº 6.385/1976 (Lei
de Mercado de Capitais). A nova lei acionária exigiu a padronização das demonstrações
financeiras, estabeleceu a necessidade de serem auditadas e determinou a sua divulgação pela
imprensa. A Lei de Mercado de Capitais também prestigiou o regime informacional, ao
determinar ampla divulgação das informações pela companhia emissora de valores mobiliários.
Quanto ao uso de informação privilegiada, temos delimitados dois marcos fundamentais na
legislação brasileira sobre a matéria: um, já mencionado, com a edição da Lei de Mercado de
Capitais e da Lei de S.A, em dezembro de 1976, e outro, pouco mais de sete anos depois, em 08
de fevereiro de 1984, com a edição da Instrução CVM nº 31.36

O ponto de partida do sistema brasileiro foi alocar exclusivamente nos administradores37 os


deveres de informação e de sigilo, o primeiro, para garantir ao mercado a informação adequada
à decisão de investimento, e o segundo, para não permitir sua apropriação para benefícios
próprios. Além de criar um sistema informacional essencial para a formação de preços
negociados no mercado de valores mobiliários, a lei acionária de 1976 trouxe, pela primeira vez,
norma vedando o uso de informação privilegiada. No ordenamento societário, praticamente
transcreveu-se o dever de lealdade (standard of loyalty) do direito norte-americano, que consiste
na obrigação do administrador em servir a companhia com lealdade, representando uma norma
de conduta que confirma o caráter fiduciário de sua função, e que proíbe ao administrador a
satisfação, em primeiro lugar, de seus interesses pessoais. O dispositivo legal especificamente
determina a obrigação de manter em sigilo a informação relevante ainda não divulgada e a
vedação de obter vantagem com a mesma, mediante a compra ou venda de valores mobiliários.

Como norma preventiva ao insider trading, aos administradores foi imposto do dever de informar
a sua titularidade de valores mobiliários de emissão da companhia. E, adicionalmente, impôs-se,
também aos administradores o dever de divulgar ao mercado quaisquer decisões da companhia,
ato ou fato relevante “que possa influir, de modo ponderável, na decisão dos investidores do
mercado de vender ou comprar valores mobiliários emitidos pela companhia”.

(...)

Como num tripé, o marco regulatório apoiava-se no dever de informar (as participações
societárias e as informações relevantes); no estabelecimento de normas de conduta (manter
sigilo, não negociar, zelar atividades de subordinados); e, por fim, como terceiro pilar, a previsão
expressa de ferramental para o investidor buscar o ressarcimento de prejuízos.

Muito embora fossem apontados os riscos de importar conceitos e dispositivos legais


estrangeiros,43 observa-se que o conceito de insider trading constante da legislação brasileira foi
inspirado naquele desenvolvido no direito norte-americano. Desde 1934, este sistema adota o
dever de informar as participações societárias dos administradores na companhia e o dever de
divulgar quaisquer informações relevantes ou, em caso de manter-se sigilo a seu respeito, a
vedação de negociar com os valores de emissão da companhia. No jargão, estas regras são
conhecidas como disclose or abstain from trading.

(...)

Uma das novidades desse regramento, a Instrução CVM nº 31/1984, foi a extensão da vedação
da prática de insider trading, pois expressamente estabeleceu-se o dever de não negociação com
informação privilegiada para pessoas diversas dos administradores. Neste campo, a norma impôs
aos acionistas controladores a vedação de uso de informações privilegiadas e ampliou ainda mais
as pessoas sujeitas a tal proibição, incluindo todos aqueles que tivessem acessado as informações
diretamente, em virtude do cargo, função ou posição na companhia, ou mesmo indiretamente.
Também determinou a imediata divulgação de informação guardada em sigilo, caso houvesse o
seu vazamento ou oscilação atípica dos preços de negociação dos valores mobiliários”

Prado, Viviane Muller. Insider trading : normas, instituições e mecanismos de combate no Brasil
[recurso eletrônico] / Viviane Muller Prado, Nora Rachman, Renato Vilela. – São Paulo : FGV
Direito SP, 2016, p. 23-24.

“Em termos objetivos, as informações que ficaram sujeitas às normas repressivas do insider
trading incluíram os chamados atos ou fatos relevantes, assim considerados todos aqueles que
pudessem ter influência ponderável na cotação dos valores mobiliários e na tomada de decisão
por parte dos investidores.

Dessa forma, nem os administradores, nem os intermediários, nem qualquer participante do


mercado possuía obrigação de revelar informações cuja fonte tivesse sido outra que não a
companhia (market information), obtidas, por exemplo, por meio de pesquisas, projeções de
mercado realizadas por instituições especializadas, ou ainda, se as informações dissessem
respeito a medidas que podiam ser adotadas pelo governo e afetar a companhia. Tampouco
existia (e nem existe) qualquer obrigação legal para que tais pessoas estejam impedidas de
negociar com base nessas informações.”

Prado, Viviane Muller. Insider trading : normas, instituições e mecanismos de combate no Brasil
[recurso eletrônico] / Viviane Muller Prado, Nora Rachman, Renato Vilela. – São Paulo : FGV
Direito SP, 2016, p. 27.

“A Lei nº 10.303/2001 também trouxe mais duas novas normas sobre uso de informação
privilegiada fora do âmbito criminal. A primeira deu ênfase ao mandato legal da CVM de proteger
os investidores contra o uso de informações privilegiadas, quando acrescentou a letra c, no item
IV do artigo 4 da Lei nº 6.385/76, determinando expressamente que cabe à CVM:

Art. 4. [...]

IV. proteger os titulares de valores mobiliários e os investidores de mercado contra:

[...] c) uso de informação relevante não divulgada no mercado de valores mobiliários.

Houve também alteração da Lei de S.A., por meio da Lei nº 10.303/2001, para deixar claro que o
ilícito de utilização de informação privilegiada seria aplicável a qualquer pessoa que a ela tivesse
acesso e não apenas às pessoas internas, ligadas à companhia. Isso ocorreu com o acréscimo do

parágrafo 4º ao artigo 155:

Art. 155, parágrafo 4º. É vedada a utilização de informação relevante ainda não divulgada, por
qualquer pessoa que a ela tenha tido acesso, com a finalidade de auferir vantagem, para si ou
para outrem, no mercado de valores mobiliários.

Esta regra reforçou a norma administrativa da CVM, que se encontrava prevista na Instrução
CVM nº 31/1984. No ano seguinte, em 2002, a CVM aprovou nova regulamentação sobre atos e
fatos relevantes, acrescentando disposições que estabeleceram a proibição de negociação para
os insiders em período anterior e posterior à sua ocorrência, com a edição da Instrução CVM nº
358/2002:

Art. 13. Antes da divulgação ao mercado de ato ou fato relevante ocorrido nos negócios da
companhia, é vedada a negociação com valores mobiliários da sua emissão, ou a eles
referenciados.”

Em suma, a reforma de 2001 criminalizou a conduta do uso de informação privilegiada para as


pessoas obrigadas a guardar sigilo da informação. Ficou, ainda, expresso que a CVM tinha
competência e mandato legal para o ilícito de insider como forma de proteção do investidor.
Adicionalmente, a reforma trouxe para o foro legal a amplitude do ilícito não só para os insiders
primários, mas também para os secundários, o que já constava de norma administrativa e
aparecia nas decisões de processos administrativos sancionadores da CVM.
Prado, Viviane Muller. Insider trading : normas, instituições e mecanismos de combate no Brasil
[recurso eletrônico] / Viviane Muller Prado, Nora Rachman, Renato Vilela. – São Paulo : FGV
Direito SP, 2016, p. 39-41.

“Embora a criminalização da conduta de uso de informação privilegiada tenha ocorrido em 2001,


com a reforma da Lei nº 6.385/1976 pela Lei nº 10.303/2001 para acrescentar o art. 27-D, foi
apenas em 2009 que houve a primeira denúncia, pelo Ministério Público Federal de São Paulo,
tratando dessa conduta criminosa. A iniciativa pode ser explicada como fruto da cooperação
decorrente de convênio firmado entre a CVM e o MPF para troca de informações em 2008.121
São três os casos em que o foro criminal foi acessado após a alteração legislativa de 2001, e mais
uma denúncia que se encontra em fase inicial.

O primeiro caso criminal refere-se à operação na qual a Sadia fez uma oferta pública para
aquisição voluntária das ações da Perdigão em circulação no mercado. Trata-se de caso que
movimentou reguladores de dois países – Securities and Exchange Commission – SEC, dos
Estados Unidos e CVM, bem como a estrutura institucional penal brasileira.

(...)

O segundo caso na esfera criminal envolveu a Randon S.A., empresa que atua no setor de
transportes de cargas com sede em Caxias do Sul, Rio Grande do Sul. O acionista controlador,
seus familiares (esposa e filho) e alguns administradores adquiriram ações anteriormente (dois
meses antes) ao anúncio sobre a entrada, como sócia da companhia, da empresa norte-
americana ArvinMerit, que foi formalizada em agosto de 2002. No período, a cotação da ação da
companhia teria valorizado 120%. A denúncia pelo Ministério Público do Rio Grande de Sul
contra seis acusados foi realizada no início de 2010 e, após longa discussão sobre competência, o
processo foi parar na Vara Federal Criminal de São Paulo, especializada em crimes financeiros e
de lavagem de dinheiro. Em 2011, foi houve absolvição sumária de dois réus em virtude de
prescrição por idade (mais de setenta anos) e, no final de 2012, foi extinta a punibilidade de
outro réu também por motivos de prescrição. Ainda em 2012 houve suspensão do processo
(artigo 89 da Lei nº 9.099/1995), em razão da aceitação da proposta pelo Ministério Público
Federal de que os réus pagassem multas individuais destinadas à CVM, mais prestação de
serviços à comunidade e comparecimento à justiça.124 Somente em 2014, houve extinção da
punibilidade dos demais réus.

Há ainda uma terceira denúncia, datada de 30 de dezembro de 2012, feita pelo Ministério
Público do Rio Grande do Sul, no caso Mundial, na qual dez pessoas foram indiciadas por
formação de quadrilha e manipulação de mercado, sendo que duas delas também são acusadas
por insider trading.126 Sobre este caso, o STJ se pronunciou no sentido de não excluir de pronto
pessoas que não tinham o dever se sigilo, mas negociaram de forma muito próxima ao acionista
controlador da companhia.12

Por fim, há ainda a denúncia de insider trading e manipulação de mercado na negociação de


ações da companhia OGX pelo seu acionista controlador, que atualmente tramita na Justiça
Federal do Rio de Janeiro.
Prado, Viviane Muller. Insider trading : normas, instituições e mecanismos de combate no Brasil
[recurso eletrônico] / Viviane Muller Prado, Nora Rachman, Renato Vilela. – São Paulo : FGV
Direito SP, 2016, p. 77-79.

http://www.conjur.com.br/2017-mai-18/jbs-nao-cometeu-crime-comprar-dolares-antes-
denuncias

Informação Relevante – Norma Penal em branco -> art. 2º da Instrução Normativa n.º 358/2002

BANDEIRA, Gonçalo Nicolau Cerqueira Sopas de Melo. Abuso de informação, manipulação do


mercado e responsabilidade penal das "pessoas colectivas": "tipos cumulativos" e bens
jurídicos colectivos na "globalização". Lisboa: Juruá, 2011. 776 p., 22 cm. ISBN 978-989-8312-93-8.

ALONSO, Leonardo. Crimes contra o Mercado de Capitais. São Paulo. 2009. Dissertação de
Mestrado defendida na Faculdade de Direito de São Paulo, sob orientação do Prof. Renato de
Mello Jorge Silveira

De acordo com a CVM, os processos buscam esclarecer: se houve uso de informação privilegiada
para negociação (insider trading) de ações e dólar no mercado futuro; a negociação de ações
entre a JBS e seu acionista controlador (FB Participações S.A, que tem entre seus sócios os irmãos
Joesley e Wesley Batista); a atuação do Banco Original (que é da J&F, dona da JBS) no mercado de
derivativos (um tipo de ativo financeiro); a atuação da JBS no mercado de dólar futuro; detalhes
sobre a delação do Joesley Batista.

De acordo com os rumores do mercado, a JBS teria comprado uma enorme quantia de dólares
antes da moeda se valorizar após as delações. A valorização teria sido suficiente para cobrir o
valor da multa imposta à empresa pelo envolvimento no esquema de corrupção. A CVM teria
sido notificada que o montante comprado na véspera da notícia da delação seria superior a 1
bilhão de reais, segundo informações do jornal Valor Econômico.

A agência de notícias Reuters também publicou que o grupo de controle da JBS vendeu 329
milhões de reais em ações da companhia em abril, operação que foi acompanhada pela compra
de 200 milhões de reais em ações da empresa pela tesouraria da própria JBS no mês passado,
segundo documentos enviados ao mercado.

(http://veja.abril.com.br/economia/cvm-investiga-jbs-por-insider-trading-dolar-e-banco/)

“De acordo com a Polícia Federal, em ação cooperada com a CVM na operação tendão de
aquiles, deflagrada em 9 de junho, estão sendo apurados dois eventos[4]:
a) a venda de ações de emissão da JBS S.A. na bolsa de valores, por sua controladora, a empresa
FB Participações S.A., no final do mês de abril, em período concomitante ao programa de
recompra de ações da companhia, reiniciado em fevereiro de 2017, e;

b) as compras de contratos futuros de dólar na bolsa de futuros, e de contratos a termo de dólar


no mercado de balcão organizado, entre o final de abril e meados de maio de 2017.

Todas as referidas transações aconteceram pouco tempo antes da divulgação formalizada em 18


de maio, sobre a celebração do acordo de colaboração premiada firmado por sete executivos da
JBS e de sua controladora, J&F Investimentos, com o Ministério Público Federal e homologado
pelo Supremo Tribunal Federal[5].”

(http://www.conjur.com.br/2017-jul-10/casos-cvm-mostram-indicios-insider-trading-cambial-jbs)
São Paulo/SP – A Polícia Federal, em ação coordenada com a Comissão de Valores Mobiliários –
CVM, deflagrou nesta manhã (9) a operação Tendão de Aquiles para apurar se houve uso
indevido de informações privilegiadas por parte das empresas JBS S/A/ e FB Participações S/A em
transações de mercado financeiro ocorridas entre abril e maio de 2017.

A PF cumpre três mandados de busca e apreensão e nas empresas do grupo JBS S/A e quatro
mandados de condução coercitiva, expedidos, a pedido da PF, pela 6ª Vara Criminal Federal de
São Paulo.

O inquérito policial foi instaurado em 19 de maio, após a PF ter conhecimento do Comunicado ao


Mercado nº 02/2017 da CVM, que tornou pública a instauração de cinco processos
administrativos para apuração desses fatos.

A investigação apura dois eventos: a venda de ações de emissão da JBS S/A na bolsa de valores,
por sua controladora, a empresa FB Participações S/A, no final do mês de abril, em período
concomitante ao programa de recompra de ações da empresa, reiniciado em fevereiro de 2017;
e a compra de contratos futuros de dólar na bolsa de futuros e a termo de dólar no mercado de
balcão, entre o final de abril e meados de maio de 2017.

Há indícios de que essas operações ocorreram com o uso de informações privilegiadas, gerando
vantagens indevidas no mercado de capitais num contexto em quase todos os investidores
tiveram prejuízos financeiros.

http://www.pf.gov.br/agencia/noticias/2017/06/pf-apura-uso-indevido-de-informacoes-
privilegiadas-no-mercado-financeiro

Em linha com o comunicado divulgado ontem, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM)


considera relevante informar ao mercado e ao público em geral que foram instaurados por suas
áreas técnicas os seguintes procedimentos investigativos em decorrência das notícias veiculadas
a partir de 17/5:

(i) Processo Administrativo 19957.004476/2017-03: Aberto em 18/5/2017, busca


esclarecimentos adicionais relativos às notícias e especulações envolvendo delação de acionistas
controladores da JBS S.A.
(ii) Processo Administrativo 19957.004543/2017-81: Aberto em 19/5/2017, trata da comunicação
de indícios de eventual prática do crime de insider trading ao Ministério Público Federal,
detectados em operações realizadas no mercado de dólar futuro e em negócios com ações de
emissão da JBS S.A. realizados no mercado à vista.

(iii) Processo Administrativo 19957.004545/2017-71: Aberto em 19/5/2017, analisa a atuação


da JBS S.A. no mercado de dólar futuro.

(iv) Processo Administrativo 19957.004547/2017-60: Aberto em 19/5/2017, analisa a atuação


do Banco Original S.A., controlada pela J&F Participações Ltda., no mercado de derivativos.

(v) Processo Administrativo 19957.004548/2017-12: Aberto em 19/5/2017, analisa


negociações do acionista controlador da JBS S.A. (a FB Participações S.A.) com ações de emissão
da companhia.

O escândalo JBS foi tornado público em 18 de maio, quando a Polícia


Federal e a Procuradoria-Geral da República deflagraram a Operação
Patmos, que mira Temer, seu ex-assessor especial Rodrigo Rocha Loures
e o senador Aécio Neves (PSDB/MG).- o tucano por suposta propina
de R$ 2 milhões da JBS

CRONOLOGIA

Joesley Batista, um dos donos da JBS, gravou uma conversa com o presidente Michel Temer em 7
de março. Em seguida, ele e seu irmão, Wesley Batista, firmaram acordo de delação com a
Procuradoria-Geral da República.

Em 24 de abril, a FB Participações começou a vender ações da JBS, o que durou até o dia 27
daquele mês. Em 28 de abril, funcionários da JBS e da J&F (holding dos Batista) ordenaram
operações no mercado de câmbio, indicam elementos reunidos pela CVM. Tais operações
cessariam em 17 de maio, quando foi noticiada a existência da delação.
Segundo a PF, há indícios de uso de informação privilegiada, "gerando vantagens indevidas no
mercado de capitais num contexto em quase todos os investidores tiveram prejuízos
financeiros".

No dia seguinte à notícia sobre o acordo, que jogou o governo Michel Temer numa profunda
crise, as ações da JBS na Bovespa despencaram e a cotação do dólar disparou.

O inquérito foi instaurado pela Polícia Federal no dia 19 de maio, depois que tomou
conhecimento de que a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) havia instaurado cinco processos
administrativos para apurar uso de informação privilegiada pela empresa e seus controladores.

Os investigados, caso venham a ser condenados, podem responder por crimes cujas penas
variam de 1 a 5 anos de reclusão e multa de até três vezes o valor ilícito obtido, de acordo com a
PF.

http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/06/1891611-pf-faz-operacao-na-sede-da-jbs-para-
apurar-atuacao-no-mercado-financeiro.shtml

Os controladores da companhia venderam, nos dias 20, 24, 25, 26, 27 e 28 de abril deste ano o
equivalente a 31.777,500 ações ordinárias da JBS, operação que resultou na movimentação de
um volume financeiro de aproximadamente R$ 328, 5 milhões pelos acionistas controladores da
companhia.

Durante este período, o dono da JBS, Joesley Batista, negociava um acordo de colaboração
premiada com a Procuradoria Geral da República no âmbito da operação Lava Jato. A informação
é vital para quem negocia ações da companhia e era desconhecida do público até o dia 17 de
maio, quando trechos do acordo vieram à público divulgados pelo jornal O Globo.

Os dados estão disponíveis no Formulário Consolidado de Negociação de Administradores e


Pessoas Ligadas à companhia, conforme determinação do art. 11 da Instrução CVM nº 358/02.

O art. 27-D da Lei n.º 6.385/76 (Lei da CVM) estabelece que, “utilizar informação relevante ainda
não divulgada ao mercado, de que tenha conhecimento e da qual deva manter sigilo, capaz de
propiciar, para si ou para outrem, vantagem indevida, mediante negociação, em nome próprio ou
de terceiro, com valores mobiliários”, pode gerar uma punição de “reclusão, de um a cinco anos,
e multa de até 3 (três) vezes o montante da vantagem ilícita obtida em decorrência do crime”.
A CVM já abriu inquérito para investigar a suposta prática de insider trading da FB Participações
S.A, controladora da JBS, responsável pela venda das ações. O Ministério Público Federal também
investiga o caso na esfera criminal.

(...)

O caso da JBS servirá como mais um teste para a CVM. Não há jurisprudência na autarquia de
insider trading por fatos alheios à companhia, que, neste caso, é a delação premiada que estava
sendo negociada entre a JBS com a Procuradoria-Geral da República (PGR).

“Apesar não existir precedentes em relação a utilização indevida de informação externa a


companhia, o tipo do art. 27-D da Lei 6.385/76 não se limita a esta lógica, mas trata de
informação relevante, desconhecida pelo mercado e que o sujeito deva manter sigilo, sob a
finalidade de cuidar da homogeneidade das informações disponíveis aos investidores”, avaliou
Renato Vilela, professor do GVlaw e advogado especialista em direito societário.

Segundo Vilela, “se o controlador/delator gerou a informação (ainda que externa a companhia),
conhecia o efeito dela sobre o preço dos papeis e deu a ordem de venda deles, ele se colocou em
posição privilegiada em relação aos demais obtendo a vantagem indevida quando evitou a
perda”.

https://jota.info/justica/suposto-insider-trading-da-jbs-pode-custar-r-254-mi-23052017

O caso concreto

Após a revelação do conteúdo da delação premiada na JBS, alguns veículos de mídia noticiaram
que “os irmãos Joesley e Wesley Batista venderam quase 32 milhões de ações da companhia, um
total de R$ 328 milhões. Do outro lado do negócio, sem a menor ideia da bomba que viria, o
maior comprador do lote dos irmãos era — você acertou — a própria JBS, isto é, o dinheiro de
todos os seus acionistas, incluindo o BNDES. A empresa comprou 19,3 milhões de suas ações no
mês em que os irmãos venderam.”[1]

O Jornal Valor Econômico publicou a informação com o mesmo teor:

“Já a venda de ações da JBS pelos controladores aconteceu em abril, quando a delação já estava
em andamento. Na ponta compradora, estava a própria companhia. Os controladores da JBS
venderam o equivalente a R$ 327,4 milhões em ações da empresa durante o mês de abril, nos
dias 20, 24, 25, 26, 27 e 28 – um total de 31,8 milhões de papéis. De 24 a 27 de abril, a tesouraria
da JBS comprou 19,3 milhões de ações da própria empresa – perto de R$ 200 milhões”[2].
Após a divulgação da delação, que aconteceu no início da noite de quarta-feira (17.05.17), as
ações da JBS S.A caíram 9,68% no pregão de 18.05.17. O ativo JBSS3 (ações ON da JBS S.A.)
fecharam no valor de R$ 9,50 em 17.05 e abriram, em 18.05, no valor de R$ 8,10 (variação
negativa de 14,7%). Na mínima do dia, a ação chegou a valer R$ 7,63, ou seja, apresentou
variação negativa de aproximadamente 20%.

Fazendo uma conta de “papel de pão“ pelo valor médio da ação da JBS em 18.05 (R$ 8,26), é
possível inferir que uma perda de aproximadamente R$ 64,7 milhões foi evitada como estes
negócios, da forma em que foram divulgados pela mídia. O racicínio é simples: na expectativa de
uma queda acentuada no valor de mercado da Companhia, os irmãos Batista venderam uma
parcela de ações que detinham antes do valor da ações cair.

https://www.estrategiaconcursos.com.br/blog/delacao-premiada-da-jbs-e-o-crime-de-insider-
trading/

Segundo fonte qualificada, os órgãos reguladores do mercado financeiro tomaram conhecimento


de que pode ter havido um grande volume de compra de dólares pelo grupo. De acordo com
essas informações, uma posição comprada na moeda americana que pode superar o US$ 1 bilhão
teria sido montada por volta entre as 17h e as 18h horas (na negociação estendid

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É difícil fazer uma afirmação conclusiva. Primeiro, porque o tipo penal é vago – e essa é
justamente uma das críticas que fazemos a ele –, permitindo interpretações diversas sobre os
conceitos nele contidos. Segundo, porque a operação em questão foi feita com dólares, e o art.
27-D da Lei 6.385/1976 fala em “negociação (…) com valores mobiliários”, os quais, de acordo
com a mesma lei, são:

Art. 2o São valores mobiliários sujeitos ao regime desta Lei:


I – as ações, debêntures e bônus de subscrição;

II – os cupons, direitos, recibos de subscrição e certificados de desdobramento relativos aos


valores mobiliários referidos no inciso II;

III – os certificados de depósito de valores mobiliários;

IV – as cédulas de debêntures;

V – as cotas de fundos de investimento em valores mobiliários ou de clubes de investimento em


quaisquer ativos;

VI – as notas comerciais;

VII – os contratos futuros, de opções e outros derivativos, cujos ativos subjacentes sejam valores
mobiliários;

VIII – outros contratos derivativos, independentemente dos ativos subjacentes;

IX – quando ofertados publicamente, quaisquer outros títulos ou contratos de investimento


coletivo, que gerem direito de participação, de parceria ou de remuneração, inclusive resultante
de prestação de serviços, cujos rendimentos advêm do esforço do empreendedor ou de terceiros

Como se vê, o dólar (moeda estrangeira) não se encaixa perfeitamente em nenhuma das
definições acima, sendo temerário, em princípio, fazer-se uma interpretação extensiva nesse
sentido, sobretudo por se tratar de uma norma penal incriminadora (essa questão específica,
porém, pode ser mais bem respondida pelos penalistas, que há tempos debatem sobre os limites
da interpretação extensiva em prejuízo do réu). Enfim, não deve demorar para que tenhamos
uma resposta a essa polêmica, uma vez que a CVM, segundo afirma a imprensa especializada, já
está apurando o fato (http://www.valor.com.br/agro/4973756/cvm-investiga-compra-de-
dolares-e-venda-de-acoes-pelo-frigorifico). Resta-nos aguardar as cenas dos próximos capítulos.
http://genjuridico.com.br/2017/05/22/o-que-e-insider-trading-teria-jbs-cometido-esse-ilicito-ao-
comprar-dolares-antes-da-divulgacao-das-denuncias-contra-o-atual-governo/

A CVM investiga a JBS por uso de informação privilegiada em negociações de dólar


no mercado futuro. A empresa teria comprado dólares horas antes do vazamento da
informação de que executivos da empresa teriam fechado um acordo de delação
premiada. No dia seguinte a cotação do dólar disparou 8,15% na maior alta diária em
18 anos. Levando-se em conta o fechamento do dia de compra, a moeda disparou
R$ 0,27 frente ao fechamento da véspera. Considerando-se a operação no valor de
cerca de US$ 1 bilhão - em contrapartida ao valor de multa de R$ 225 milhões - a
prática de eventual crime de “insider trading” teria propiciado um ganho amplamente
superior ao montante que a JBS teria de pagar. Some-se a isso que Joesley Batista
intensificou operações de “hedge” e vendeu ações na alta, compradas pelos
acionistas minoritários da JBS – entre eles BNDES e CEF – antes de ser detonada a
crise institucional que monopolizou o noticiário brasileiro.

https://www.nelsonrosenvald.info/single-post/2017/05/23/A-JBS-o-%E2%80%9CInsider-
Trading%E2%80%9D-e-os-ganhos-il%C3%ADcitos

http://www.conjur.com.br/2017-mai-21/benedito-villela-usar-fato-privilegiado-negociar-moeda-
crime

https://www.ibccrim.org.br/boletim_artigo/5798-Informacao-relevante-e-o-crime-de-insider-
trading-limites-para-interpretacao-do-tipo-penal