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JEAN ANOUILH

TEATRO ESCOLHIDO

0 Viajante sem Bagagem


0 Baile dos Ladrões

Tradução de
LINEU DIAS

Capa de
M a r ia n n e P ereti

DIFUSÃO EUROPÉIA DO LIVRO


Rua Bento Freitas, 362 — Rua Marquês de Itu, 79
SÃO PAULO
dos Editer®® .
DO MESMO A UTO R

Nas edições de La Table Ronde

UAlouette
Antigone
Ardèle ou La Marguerite
Cécile ou UÈcole des Pères
UHurluberlu ou Le Reactionnaire Amoureux .
M idée
Ornifle ou Le Courant d’Air
Pajivre Bitos ou Le Diner de Têtes
La Valse des Toréadors
Becket ou L ’Honneur de Dieu
La Sauvage
Le Rendez-Vous de Sentis
Léocadia
Colombe

Teatro Completo:

Pièces Brillantes
Pièces Grinçantes
Pièces Nioires
Nouvelles Pièces Noires
Pièces Roses
Pièces Costumées
Títulos dos originais:
Le voyageur sans bagage
Le bal des voleurs
■k

19 6 7

Direitos exclusivos para a língua portuguesa:


Difusão Européia do Livro, São Paulo
Copyright by:
La Table Ronde, Paris

O Viajante sem Bagagem c O Baile dos Ladrões, na tradução de


Lineu Dias, só poderão ser representados, total oú parcialmente, em
teatro profissional ou amador, rádio, televisão, disco, cinema e por
qualquer outra modalidade, com licença expressa do autor por intermédio
da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, Rio de Janeiro, GB.
0 VIAJANTE SEM BAGAGEM
P E R S O N A G E N S

G a sto n — desm em oriado.


G eorges R ena u d — seu suposto irmão.

S e n h o r a R en a u d — suposta mãe de Gaston.


V a l e n t in e R ena u d — espôsa de Georges.

A D u q u e sa D u p o n t -D u fo r t — se n h o ra fila n tro p a .
M axtre H u s pa r — ad v o g a d o en carreg ad o dos interesses
de Gaston.
O M e n in o
M aítre P ic w ic k — Advogado do menino.

O mordomo
O m otorista criados
O ca m areiro da
A cozinheira família Renaud
Juliette
p r i m e i r o QUADRO
f
Sala de visitas de uma opulenta casa de província, com
uma grande vista para um jardim à francesa. Ao
levcmtar da cortina, a cena está vazia, depois o mordomo
introduz a duquesa Dupont-Dufort, o dr. Huspar e
Gaston
O M ordomo
A quem devo anunciar, senhora?
A D u q u esa
A duquesa Dupont-Dufort, o dr. Huspar, advogado, e o
senhor... (Hesita) . . . o senhor Gaston. (Para Huspar.) Não
temos outro remédio senão chamá-lo assim, por enquanto.
O M ordomo (Que parece estar a par.)
. Oh! A senhora duquesa irá desculpar ao senhor e à senhora,
mas a senhora duquesa só estava sendo esperada pelo senhor
e a senhora no trem das 11 e 50. Vou avisar imediatamente
o senhor e a senhora da chegada da senhora duquesa.
A D u q u e sa ( Olhando-o afastar-se.)
Perfeito, êsse mordomo!. . . Ah! meu pequeno Gaston, estou
louca de felicidade. Eu tinha certeza que você vinha de uma
excelente família.
H u spa r
Não se deixe levar pelo entusiasmo. Lembre-se que além
desses Renaud temos ainda cinco famílias possíveis.
A D u q u e sa
Ah! Não, doutor. . . Algo me diz que Gaston irá reco­
nhecer esses Renaud como seus; que nesta casa êle reencontrará
a atmosfera do seu passado. Algo me diz que aqui êle recuperará
a memória. É um instinto feminino que raramente me engana.
H u spa r (Inclinando-se ante o argumento.)
E n tão .. .
(Gaston pos-se a olhar os quadros, sem prestar atenção
nêles, como um menino em visita.)

A D u q u e sa (Interpelando-o.)
Então, Gaston, creio que você deve estar emocionado,
não é?

G a sto n
Não muito.
A D u q u e sa (Suspira.)
Não muito! Ah, meu caro, às vezes me pergunto se você
se dá conta de como o seu caso é comovente.
G a sto n
Mas, senhora duquesa...

A D u q u esa
Não, não, não. Nada do que você possa dizer me tirará
essa idéia da cabeça. Você não se dá conta. Vamos, confesse
que você não se dá conta.

G a st o n
Talvez não muito bem, senhora duquesa.
A D u q u e sa (Satisfeita.)
Ah, ao menos voce e um bom rapaz, sabe reconhecer os
seus erros. Isso eu não me canso de dizer. Mas nem por
isso é menos verdade que a sua despreocupação, a sua desen­
voltura sejam extremamente reprováveis. Não é mesmo, Huspar?
H u spa r
Bem, e u . . .

A D u q u esa
Mas claro. O senhor precisa me apoiar, para fazê-lo
entender que êle tem de ficar comovido. (Gaston volta a con­
templar as obras de arte). Gaston!

10
G a sto n
Senhora duquesa?
A D u q u e sa
Você é de pedra?
G a sto n
De pedra?
A D u q u e sa
Sim, será que você tem o coração mais duro que uma
rocha?
G a sto n
E u . . . eu acho que não, senhora duquesa.

A D u q u e sa
Excelente resposta! Eu também não, também não acho.
E contudo, para um observador menos avisado, a sua conduta
levaria a pensar que você é um homem de mármore.

G a sto n
Hem?
A D u q u e sa
Gaston, será que você não compreende a gravidade do que
estou lhe dizendo? Às vêzes esqueço que estou falando com um
amnésico, e que podem existir palavras que você não reaprendeu
após dezoito anos. Sabe o que quer dizer mármore?

G a sto n
É uma pedra.
A D u q u e sa
Está certo. Mas sabe que espécie de pedra? A mais dura,
Gaston. Está entendendo?

G a sto n
Sim.
11
A D u q u esa
E voce não se importa que eu compare o seu coração com
a mais dura das pedras?

G a st o n (Embaraçado.)
Bem, não. .. (Pausa.) Até acho graça.

A D u q u e sa
Você ouviu, Huspar?
H u spa r (Para arrumar as coisas.)
É uma criança.

A D u q u e sa (Peremptória.)
^Acabaram-se as crianças: êle é um ingrato. (A Gaston.)
Então voce e um dos casos mais perturbadores da psiquiatria,
um dos enigmas mais angustiantes da Grande Guerra — mas
se bem traduzo sua linguagem grosseira, isso o faz rir? Você
é, como disse muito bem um talentoso jornalista, o soldado
desconhecido vivo — e isso o faz rir? Você, então, é incapaz
de respeito, Gaston?

G a st o n
Mas se sou e u ...

A D u q u esa
a ^importa Em nome de tudo o que você representa,
você devia se proibir de rir-se de si mesmo. O que vou dizer
agora pode parecer engraçado, mas exprime o fundo do meu
pensamento: quando você se olha no espelho, Gaston, devia
tirar o chapéu.

G a sto n
E u . . . para mim?

A D u q u esa
Sim, você, para você! Nós todos fazemos isso, pensando
no que você significa. Quem você pensa que é para ser
dispensado disso?

12
G a sto n
Ninguém, senhora duquesa.

A D u q u e sa
Má resposta! Você se julga muito importante. O alarde
que os jornais têm feito em tomo do seu caso lhe subiu a
cabeça, eis tudo. {Êle quer falar.) Não responda, que vou
me zangar! (Êle abaixa a cabeça e retorna às obras de arte.)
Que acha dêle, Huspar?

H u spa r
Êle? Indiferente.
A D u q u e sa
Indiferente. É a palavra. Eu tinha essa palavra há oito
dias na ponta da língua e não podia dizê-la. Indiferente!
Ê exatamente isso. Mas, afinal de contas, é o seu destino
que está em jogo, que diabo! Acaso fomos nós que perdemos
a memória, somos nós que andamos à procura de nossa família?
Não é, Huspar?
H u spa r
Claro que não.

A D u q u e sa
Então?
H u s pa r (Dando de ombros, desiludido.)
A senhora ainda tem as ilusões de uma fe recente. Há
anos que êle vem opondo essa inércia a todas as nossas tenta­
tivas.
A D u q u e sa
Em todo o caso, é imperdoável não reconhecer o trabalho
que o meu sobrinho tem tido por causa dêle. Se soubesse
com que admirável devotamento êle o trata, ^o ^empenho que
pSe nessa tarefa! Suponho que antes de partir ele lhe contou
o sucedido?
13
H u spa r
O doutor Jibelin não estava no asilo quando passei para
apanhar os papéis de Gaston, e, infelizmente, não pude espe­
rá-lo.
A D u q u esa
O que me diz, doutor? Não chegou a ver o meu pequeno
Albert antes de partir? Então não sabe da novidade?
H u spa r
Que novidade?
A D u q u e sa
No último abscesso de fixação que lhe aplicou, conseguiu
fazê-lo falar durante o delírio. Oh! Não disse grande coisa.
Disse: “Foutriquet”.
H u spa r
Foutriquet?
A D u q u e sa
Sim, Foutriquet. O senhor dirá que não é grande coisa,
mas o interessante é que se trata de uma palavra que ninguém
jamais ouviu-o pronunciar acordado, uma palavra que ninguém
se lembra de ter pronunciado na sua frente, uma palavra,
enfim, que tem tôdas as probabilidades de pertencer ao seu
passado.
H u spa r
Foutriquet?
A D u q u esa
Foutriquet. Ê um pequeno indício, sem dúvida, mas
já é alguma coisa. Seu passado já não é mais um buraco
negro. Quem sabe se êsse Foutriquet não nos colocará na
pista certa? (Divaga.) Foutriquet. .. O sobrenome de um
amigo, talvez. Uma praga familiar, quem sabe? Agora, ao
menos, temos uma pequena base.
H u spa r (Sonhador.)
- Foutriquet...

14
A D u q u e sa (Repete, encantada.)
Foutriquet. Quando Albert veio anunciar esse resultado
inesperado, gritou-me ao entrar: “Titia, o meu doente disse
uma palavra do seu passado: uma praga!” Eu tremia, meu
caro. Pensei que fosse uma palavra suja. Um rapaz tão
encantador, eu ficaria desolada se êle fôsse de baixa extração.
Nem valería a pena o meu Albert passar noites em claro —
êle até emagreceu, o pobre menino! — interrogando-o e fa­
zendo-lhe abscessos nas nádegas, se o engraçadinho recuperasse
a memória para nos dizer que antes da guerra havia sido
pedreiro! Mas algo me diz que não. Eu sou uma romântica,
meu caro doutor. Algo me diz que o doente de meu sobrinho
era um homem extremamente famoso. Eu gostaria que fôsse
um dramaturgo. Um grande dramaturgo.
H u spa r
Um homem muito famoso é improvável. Já o teriam
reconhecido.
A D u q u e sa
As fotografias eram tão ruins. . . E depois, a guerra é
uma provação tão grande, não é mesmo?
H u spa r
Além disso, não me lembro de ter ouvido falar que um
dramaturgo de renome tivesse sido dado como desaparecido nas
fileiras inimigas durante os combates. Êsse tipo de gente
anuncia à imprensa seus menores movimentos, quanto mais a
sua desaparição.
A D u q u e sa
Ah, doutor! O senhor é cruel! Está destruindo um belo
sonho. Mas seja como fôr, é um homem de raça, disso estou
certa. Repare só que porte êle tem com êsse traje. Mandei
fazer-lhe essa roupa pelo alfaiate de Albert.
H u spa r (Pondo o “pince-7iez”.)
Com razão eu pensava: “Não estou reconhecendo o uni­
forme do a s ilo ...”

15
A D u q u esa
Não havia de pensar, meu caro, que tendo decidido
hospedá-lo no castelo, e levá-lo eu mesma para visitar as
famílias que reclamam o doente de meu sobrinho, que iria
suportar vê-lo com aquela flanela cinza.

H u sp a r
Essas confrontações a domicílio são uma excelente idéia.

A D u q u esa
Não é mesmo? Foi o que disse o meu pequeno Albert,
assim que o tomou a seu cargo. Para que recupere o passado,
é preciso submergi-lo novamente na atmosfera dêsse passado.
Daí a levá-lo até as quatro ou cinco famílias que haviam
apresentado as provas mais abaladoras não foi mais que um
passo. Mas Gaston não é seu único doente, Albert não podia
de modo algum abandonar o asilo durante o tempo das con­
frontações. Pedir uma verba ao ministério para organizar um
controle rigoroso? O senhor sabe como essa gente é mesquinha.
Que faria então em meu lugar? Eu respondí: “Presente!”
Como em 1914.

H u spa r
Que exemplo admirável!

A D u q u esa
Quando me lembro que no tempo do dr. Bonfant as
famílias vinham aos montes todas as segundas-feiras ao asilo,
viam-no durante uns poucos minutos cada uma e tomavam o
primeiro trem de volta!.. . Quem podería reencontrar seu
pai e sua mãe em tais condições, eu lhe pergunto? Oh, não,
não, o dr. Bonfant está morto, muito bem, temos a obrigação
de calar-nos, porém o mínimo que se podería dizer, se o
silêncio sobre o túmulo não fôsse sagrado, é que êle era um
incapaz e um criminoso.

H u spa r
Oh, um criminoso. . .

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A D u q u e sa
Não me faça perder a cabeça. Gostaria que êle não
estivesse morto para dizer-lhe isso na cara. Criminoso! É
por sua culpa que esse infeliz vem se arrastando pelos asilos
desde 1918. Quando penso que êle o conservou em Pont-au-
-Bronc durante quinze anos sem fazer com que dissesse nem
uma única palavra do seu passado, e que meu pequeno Albert,
que só o tem há três meses já o fêz dizer “Foutriquet”, fico
transtornada! Ah, doutor, o meu pequeno Albert é um grande
psiquiatra.
H u spa r
E um rapaz encantador.
A D u q u e sa
Ah, o meu querido menino! Com êle, felizmente, tudo
isso está mudando. Confrontações, perícias grafológicas, aná­
lises químicas, investigações policiais, nada do que é humana­
mente possível deixará de ser feito para que o seu doente
recupere os seus parentes. No lado clínico, também, Albert
está decidido a tratá-lo pelos métodos mais modernos. Ima­
gine que já lhe fêz dezessete abscessos de fixação!
H u spa r
Dezessete!... Mas é incxível!

A D u q u e s a (Encantada.)
É incrível! E é prova de extrema coragem da parte do
meu pequeno Albert. Pois é preciso que se diga: é muito
arriscado.
H u spa r
Mas, e Gaston?
A D u q u e sa
De que pode êle se queixar? É tudo pelo seu bem. Seu
traseiro vai ficar como uma escumadeira, sem dúvida, mas
êle reencontrará o seu passado. E o passado é o melhor de
nós mesmos! Que homem de valor hesitaria entre o seu
passado e a pele do seu traseiro?

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H u spa r
Nem se pergunta.
A D u q u e sa (Vendo Gaston, que passa ao seu lado.)
Não é verdade, Gaston, que você está infinitamente agra­
decido ao dr. Jibelin por ter feito todo o possível, depois de
tantos anos perdidos com o dr. Bonfant, para lhe devolver o
seu passado?
G a sto n
Muito agradecido, senhora duquesa.
A D u q u e sa (Para Huspar.)
Não sou eu que o faço dizer. (Para Gaston.) Ah!, Gaston
meu caro, não lhe parece comovente pensar que, atrás dessa
porta, existe talvez um coração de mãe que bate, um velho
pai que se prepara para lhe estender os braços!
G a sto n (Corno um menino.)
Sabe, eu já vi tantas velhinhas boas se enganarem e me
beijarem com o nariz molhado, e tantos velhinhos iludidos
me esfregarem as suas barbas. .. Imagine um homem com
quase quatrocentas famílias, senhora duquesa. Quatrocentas
famílias encarniçadas em lhe querer bem. Ê demais.
A D u q u e sa
Mas e os filhos, os bambinos! Os bambinos que esperam
o seu papai! Você teria coragem de dizer que não deseja
beijar essas crianças, fazê-las pular sôbre seus joelhos?
G a sto n
Não seria muito cômodo, senhora duquesa. Os mais jovens
devem ter uns vinte anos.
A D u q u e sa
Ah, Huspar. . . Êle sente necessidade de profanar as
coisas mais santas!
G a st o n (Subitamente sonhador.)
Filhos. .. Eu podería tê-los agora, filhos de verdade,
se tivessem me deixado viver.

18
A D u q u e sa
Você sabe muito bem que era impossível!
G a sto n
Por quê? Porque não me lembrava nada do que aconteceu
antes da primavera de 1918, quando me descobriram em um
depósito?
H ü spa r
Exatamente, a h ! ...
G a sto n
As pessoas ficam com mêdo, naturalmente, que um homem
possa viver sem ter um passado. As crianças enjeitadas já
são mal vistas. . . mas a elas, enfim, se teve tempo de inculcar
algumas noções. Mas um homem, um homem feito, que mal
possuía uma pátria, que não tinha uma cidade natal, nem
tradições, nem nome. . . Porra! Que escândalo!
A D u q u esa
Meu caro Gaston, em todo o caso, tudo indica que você
ainda tem necessidade de uma educação. Eu já o proibi de
usar essa palavra.
G a sto n
Escândalo?
A D u q u e sa
Não. . . (Hesita.) A outra. . .
( Continuando o seu sonho.)
G a st o n
Nenhum documento legal, também. . . Imagine, senhora
duquesa, a senhora me confia sua baixela de prata; meu quarto,
no castelo, está há dois passos do se u ... E se eu tivesse matado
três homens?
A D u q u e sa
Seus olhos me dizem que não.
G a sto n
A senhora tem sorte que êles lhe façam confidências.
Olho-os, às vêzes, até ficar tonto, para ver se descubro algo

19

do que viram e não querem me dizer. E não enxergo nada


neles.

A D u q u e sa (Sorrindo.)
Mesmo assim, você não matou três homens, fique tran-
qüilo. Não é preciso conhecer o seu passado, para saber
disso.

G a sto n
Encontraram-me em um trem de prisioneiros vindo da Ale­
manha. Portanto, estive na guerra. Devo ter atirado, como
os outros, essas coisas tão duras de receber em nossa pobre
pele de homens, que o espinho de uma rosa já faz sangrar.
Oh, eu me conheço, sou muito desajeitado. Mas na guerra
o Estado-Maior contava mais com o número de balas, do que
com a habilidade dos atiradores. Esperemos, contudo, que eu
não tenha atingido três homens. . .

A D u q u e sa
Mas de que você está falando? Quero crer, ao contrário,
que você tenha sido um herói. Eu falava de homens mortos
na vida civil!

G a sto n
Um herói também é uma coisa vaga em tempo de
guerra. O difamador, o avarento, o invejoso, e até mesmo o
covarde, eram condenados pelo regulamento a serem heróis,
lado a lado e quase do mesmo jeito.
A D u q u esa
Tranqüilize-se. Alguma coisa em mim que não se engana
me diz que você foi um môço muito bem educado.
G a sto n
Ê uma referência muito insuficiente para se saber se não
fiz nada de mal! Devo ter caçado... Os moços bem educados
caçam. Esperemos portanto que eu tenha sido um caçador de
quem todos riam e que nunca tenha conseguido atingir três
animais.

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A D u q u e sa
Ah, meu caro, é preciso gostar muito de você para escutá-lo
sem rir. Seus escrúpulos são exagerados.

G a sto n
Eu vivia tão tranqüilo no asilo.. . Eu me havia habituado
a mim mesmo, me conhecia bem, e agora tenho que me aban­
donar, encontrar um outro eu, e vesti-lo como uma roupa
velha. Será que me reconhecerei amanhã, eu que só bebo
água, no filho de um lampadeiro que ingere não menos de
quatro litros de vinho tinto por dia? Ou então eu, que não
tenho nenhuma paciência, descobrir que sou filho de uma
proprietária de armarinho que colecionou e classificou por fa­
mílias mil e duzentos tipos de botões?

A D u q u e sa
Se insisti em começar por êsses Renaud, é porque são
pessoas de bem.
G a sto n
Isso quer dizer que têm uma bela casa, um belo mordomo
— mas e o filho, como seria?
A D u q u e sa (Vendo entrar o mordomo.)
É o que vamos saber agora. (Detem-no com um gesto.)
Um minuto, meu amigo antes de introduzir seus patrões.
Gaston, vá um momento para o jardim, nós mandaremos
chamá-lo.
G a st o n
Muito bem, senhora duquesa.

A D u q u e sa (Chamando-o à parte.)
E, por favor, não me chame mais de senhora duquesa.
Isso ficava bem só no tempo em que você era apenas o
doente do meu sobrinho.
G a sto n
De acordo, senhora.

21
A D u q u e sa
Vá. E não tente olhar pelo buraco da fechadura!
G a st o n(Saindo.)
Não tenho pressa. Já vi trezentas e .oitenta e sete.
A D u q u e sa ( Olhando-o sair.)
Rapaz encantador. Ah, quando penso que o sr. Bonfant
o empregava para capinar a horta, chego a estremecer! (Ao
mordomo.) Pode mandar entrar seus patrões, meu amigo.
(Toma o braço de Huspar.) Estou terrivelmente emocionada,
meu caro. Tenho a impressão de estar guerreando sem quartel
contra a fatalidade, contra a morte, contra todas as forças
obscuras do mundo. . . Vesti-me de preto, pareceu-me o mais
indicado.
(Entram os Renaud. Ricos burgueses de província.)
S e n h o r a R ena u d (No umbral da porta.)
Estão vendo? Eu não tinha dito? Êle não está aqui.'
H u spa r
Pedimos simplesmente que êle saísse um pouco, minha
senhora.
G eorges
Permitam-me que me apresente. Georges Renaud. (Apre­
senta as duas mulheres que o acompanhara.) Minha mãe e mi­
nha esposa.
H u spa r
Lucien Huspar. Sou o procurador encarregado dos interesses
materiais do enfermo. A senhora duquesa Dupont-Dufort, pre­
sidente de diversas associações beneficientes de Pont-au-Bronc
que, na ausência de seu sobrinho, o dr. Jibelin, impedido de
afastar-se do asilo, teve a bondade de acompanhar o doente.
( Cumprimentos.)
A D u q u esa
Sim, associei-me, na medida de minhas poucas forças, à
obra de meu sobrinho. Êle se entregou a essa tarefa com
tanto ardor, tanta fé !...

22

í
S e n h o r a R ena ud
Ficaremos eternamente agradecidos pelos cuidados que êle
dispensou ao nosso pequeno Jacques, minha senhora. . . e nossa
maior alegria seria poder dizer-lhe isso pessoalmente.
A D u q u e sa
Muito obrigada, minha senhora.
S e n h o r a R ena ud
Mas, por favor, desculpe. . . Sentem-se. É um momento
tão comovente. ..
A D u q u e sa
Eu a compreendo tão bem, minha senhora!
S e n h o r a R ena ud
Imagine a nossa impaciência. . . Já faz mais de dois
anos que estivemos no asilo pela primeira vez. . .
G eorges
E a despeito de nossas reclamações incessantes, tivemos de
esperar até hoje para obter esta segunda entrevista.
H u spa r
Os processos eram tão numerosos, meu senhor. Pense que
houve na França quatrocentos mil desaparecidos. Quatrocentas
mil famílias, e muito poucas aceitam renunciar à esperança,
creia-me.
S e n h o r a R ena ud
Mas dois anos, meu senhor!... . E se soubesse em que
circunstâncias êle nos foi mostrado, então. . . Penso que a
senhora não tem culpa, minha senhora, nem o senhor seu
sobrinho, pois não era êle quem dirigia o asilo naquela época. . .
O doente passou por nós num atropêlo, sem que pudéssemos
sequer chegar perto. Éramos mais de quarenta pessoas juntas.
A D u q u e sa
As confrontações do dr. Bonfant eram verdadeiros escân­
dalos !

23
S e n h o r a R ena ud
Sim, escândalos!. .. Ah! Nós insistimos. . . Meu filho,
chamado por seus negócios, teve de partir; mas nós ficamos
no hotel com minha nora, na esperança de nos aproximarmos
dele. A pêso de dinheiro, um guarda nos arranjou uma entre­
vista de alguns minutos, infelizmente sem resultados. Outra
vez, minha nora conseguiu tomar o lugar de uma empregada
da rouparia, que havia adoecido. Viu-o durante tôda uma
tarde, mas sem poder lhe dizer nada, pois não teve nunca a
oportunidade de ficar a sós com êle.

A D u q u e sa (Para Valeníine.)
Gomo é romanesco! Não teve mêdo de ser desmascarada?
Sabia ao menos costurar?

V a l e n t in e
Sim, senhora.

A D u q u e sa
E não pôde nunca ficar a sós com êle?
V a l e n t in e
Não, senhora, nunca.
A D u q u e sa
Ah, esse dr. Bonfant, esse dr. Bonfant é o grande culpado!
G eorges
O que não entendo é como, com as provas que apresen­
tamos, êles ainda pudessem hesitar entre várias famílias.
H u spa r
De fato é extraordinário, mas imagine que, após nossas
últimas investigações, que foram extremamente minuciosas, res­
tam ainda — com os senhores — cinco famílias cujas possibi­
lidades são sensivelmente iguais.

S e n h o r a R ena ud
Não é possível, senhor! Cinco fam ílias!...

24
ttüSPAR
Sim, minha senhora, infelizmente. . .

A D u q u e sa (Consultando sua agenda.)


As famílias Brigaud, Bougran, Grigou, Legropâtre e Ma-
densale. Mas devo dizer sem demora que, se insisti em co­
meçar pelos senhores, é porque contam com tôda a minha
simpatia.
S e n h o r a R ena u d
Eu lhe agradeço, minha senhora.

A D u q u e sa
Não, não, não me agradeça. Digo o que penso. A sua
carta me deu a impressão, desde o começo, que os senhores
eram pessoas muito amáveis, impressão que se confirma, em
todos os pontos. . . E fora dos senhores, aliás, sabe Deus onde
iremos cair! Tem uma dona de leiteria, um lampadeiro. . .
S e n h o r a R en a u d
Um lampadeiro?
A D u q u e sa
Sim, um lampadeiro, minha senhora, um lampadeiro!
Vivemos numa época inaudita! Essa gente tem tais pretensões.^ .
Ah, mas não tenham mêdo! Enquanto eu fôr viva, não
entregarei Gaston a um lampadeiro!

H u s pa r (Para Georges.)
Sim, anunciou-se que essas, visitas seriam feitas segundo a
ordem de inscrição, o que seria logico, mas como assim os
senhores teriam sido os últimos, a senhora duquesa Dupont-
-Dufort insistiu, um pouco imprudentemente, sem dúvida, em
passar por cima dos outros e vir aos senhores em primeiro
lugar.
S e n h o r a R ena ud
Por que imprudentemente? Imagino que os responsáveis
pelo doente têm a liberdade d e ...

25
r

Mu s m r
Sim, talvez; mas a senhora não pode saber, minha
senhora, que paixões — muitas vezes interessadas, a h . .. —
se desencadeiam em torno de Gaston. Sua pensão de muti­
lado, a qual jamais pôde tocar, lhe dá direito a uma verdadeira
pequena fortuna. .. Imagine que os atrasados e os juros dessa
pensão sobem hoje a mais de duzentos e cinqüenta mil francos.
S e n h o r a R ena u d
Como é possível pensar em dinheiro numa situação tão
trágica?. . .
H uspar
Infelizmente, é possível, minha senhora. Permita-me, a
propósito, dizer uma palavra sobre a situação jurídica do
enfermo.
S e n h o r a R ena ud
Depois, meu senhor, depois, suplico-lhe. . .
A D u q u e sa
O dr. Huspar tem o código civil no lugar do coração!
Porém, como é tão gentil. . . (Belisca Huspar discretamente.) . . .
irá agora mesmo buscar Gaston para nós.
H u spa r (Sem tentar resistir.)
Em me inclino, minhas senhoras. Peço-lhes apenas que
não gritem, nem se atirem nos seus braços. Essas experiências,
que têm se repetido tantas vêzes, deixam-no num estado de
nervos extremamente penoso. (Sai.)
A D u q u esa
A senhora deve ter uma pressa imensa de tomar a vê-lo,
minha senhora.
S e n h o r a R en a u d
Que outro sentimento pode ter uma mãe, minha senhora?
A D u q u e sa
Ah!, eu me emociono pela senhora!... (Para Valentine.)
A senhora também conheceu o nosso doente. .. ou enfim,

26
aquele que a senhora crê que seja o nosso doente, não é
mesmo?
V a l e n t in e
Claro, minha senhora, pois se eu já disse que estive no
asilo.
A D u q u e sa
É verdade! Estou aturdida...

S e n h o r a R ena ud
Georges, meu filho mais velho, casou-se com Valentine
quando ela era muito jovem, e as duas crianças eram verda­
deiros camaradas. Êles gostavam tanto um do outro, não é
mesmo, Georges?
G eorges (Frio.)
É, mamãe.
A D u q u e sa
A esposa do irmão é como se fôsse uma irmã, não é
mesmo, minha senhora?
V a l e n t in e (De modo estranho.)
Certamente, minha senhora.
A D u q u e sa
Você deve estar louca de felicidade em tomar a vê-lo.
( Valentine, embaraçada, olha para Georges, que responde
por ela.)
G eorges
Sim, como uma irmã.
A D u q u e sa
Eu sou muito romântica. . . Sonhei. . . devo dizer? — que
uma mulher que o teria amado com paixão estaria aqui para
reconhecê-lo e trocar com êle um beijo de amor, o primeiro
ao sair dêsse túmulo. Vejo que isso não acontecerá.

27
G eog es (Incisivo.)
Nãüj minha senhora, não acontecerá.
A D u q u e sa
Pior para o meu sonho tão lindo! ( Vai até a janela.)
Mas como o dr. Huspar está dem orando... O parque dos
senhores é tão grande e êle é um pouco míope: aposto que se
perdeu.
V a l e n t in e (Em voz baixa, para Georges.)
Por que me olha assim? Não vai ressuscitar todas aquelas
velhas histórias?
G eorges (Sério.)
Ao perdoá-la, apaguei tudo.
V a l e n t in e
Então não me lance um olhar a cada frase dessa velha
louca!
S e n h o r a R ena u d
(Que não ouviu e que certamente não sabe nada
dessa história.)
Minha boa Valentine! Olhe, Georges, como ela está
comovida. Que bom que ela se lembre assim do nosso pe­
queno Jacques, não é mesmo, Georges?
G eorges
Sim, mamãe.
A D u q u e sa
Ah, aí vem êle! [Huspar entra só). Eu sabia, não o
encontrou!
H u spa r
Sim, mas não me atrevi a molestá-lo.
A D u q u e sa
Por quê? O que estava êle fazendo?
H u spa r
Estava parado diante de uma estátua.

28
V a l e n t in e (Num grito.)
Uma Diana caçadora com um banco circular no fundo
do parque?
H u spa r
Sim. Pode-se ver daqui.
(Todos olham.)
G eorges (Bruscamente.)
E daí, o que é que isso prova?
A D u q u e sa (Para Huspar.)
É apaixonante, meu caro!
(Docemente.)
V a l e n t in e
Não sei. Creio que me lembro que êle gostava muito da­
quela estátua, daquele banco...
A D u q u e sa (Para Huspar.)
Estamos quentes, meu caro, estamos quentes.
S e n h o r a R en a u d
Você me espanta, minha pequena Valentine. Êsse canto
do parque fazia parte da antiga propriedade do sr. Dubanton.
Nós já havíamos comprado essa parte, é verdade, no tempo
de Jacques, mas só derrubamos o muro depois da guerra.
V a l e n t in e (Perturbando-se.)
Não sei, a senhora deve ter razão.
H u spa r
Ele estava com um ar tão esquisito, parado diante dessa
estátua que não me atrevi a perturbá-lo sem vir perguntar-lhes
se êsse pormenor poderia ser significativo. Como não é, vou
chamá-lo.
(Sai.)
G eorges (Em voz baixa, para Valentine.)
Era nesse banco que vocês se encontravam?
V a l e n t in e
Não sei o que você quer dizer.
r

A D u q u e sa
Minha senhora, apesar da sua legítima emoção, rogo-lhe
que permaneça impassível.
S e n h o r a R ena ud
Pode contar comigo, minha senhora. (Huspar entra com
Gaston. A senhora Renaud murmura.) Ah, é êle, é êle. . .

A D u q u e sa
(Indo para Gaston num grande gesto teatral e ocultando-o
dos outros.)
Gaston, procure não pensar em nada, deixe-se levar sem
resistir, sem se esforçar. Olhe bem todos os rostos.. .
(Silêncio. Todos ficam imóveis. Gaston passa primeiro
diante de Georges, olha-o, depois a senhora Renaud. Diante
de Valentine, fica parado um segundo. Ela murmura imper-
ceptivelmente.)
V a l e n t in e
Meu bem. . .
(Êle olha-a surpreendido, mas passa e vira-se para a du­
quesa, gentilmente, abrindo os braços num gesto de impo­
tência.)
G a sto n (Com polidez.)
Lamento muito. . .

PANO
SEGUNDO QUADRO
r
(Uma porta em estilo Luís X V , com os dois batentes
fechados, diante da qual estão reunidos, cochichando,
os empregados da família Renaud. A cozinheira está
agachada, espiando pelo buraco da fechadura; os demais
agrupam-se em torno dela.)

A C o z in h e ir a (Para os outros.)
Esperem, esperem ... Todos olham para êle como se
fosse um bicho raro. O pobre já não sabe onde se m eter...
O Ch o fer
Deixe v e r...

A C o z in h e ir a
Espera! Se levantou de repente. Derrubou o copo. Pa­
rece farto de tantas perguntas... Agora o senhor Georges
levou-o à parte, até a janela. Segura o braço dêle gentilmente,
como se nada tivesse acontecido...
O C hofer
Bem!. . .
JULIETTE
Ah, se vocês tivessem ouvido o senhor Georges, quando
descobriu as cartas dêles depois da guerra!. .. Agora êle
parece manso como um cordeiro. Pois bem, mas eu garanto
a vocês que a coisa era de estourar!
O C amareiro
Quer saber de uma coisa? Ele bem que tinha razão.
J u l ie t t e (Furiosa.)
Razão, o quê? Acaso está direito falar mal dos mortos?
Você acha bem falar mal dos mortos?
» 33
r

O C amareiro
Os mortos não tem nada que andar pondo chifres nos
outros!
JULIETTE
Ah, desde que nos casamos, você só tem essa palavra
na boca! Não são os mortos que põem chifres em vocês.
Eles não poderíam, coitados. São os vivos! E os mortos não
têm nada que ver com as histórias dos vivos.
O C amareiro
Vejam! Seria muito cômodo. Põem os chifres num e
zás! — ninguém sabe, ninguém viu. Basta estar morto.
J u l ie t t e
E daí, o quê? Já é alguma coisa, estar morto!
O C amareiro
E ser cornudo, então!. . .
J u l ie t t e
Oh! você fala demais. Isso vai terminar lhe acontecendo.
A C o z in h e ir a (Empurrada pelo chofer.)
Espere, espere. Estão todos indo para o fundo, agora.
Mostram-lhe fotografias... (Cedendo o lugar.) Bah! Com
as fechaduras de antigamente, se podia ver alguma coisa;
mas estas fechaduras m odernas... simplesmente estragam a
vista da gente,
O C hofer (Espiando por sua vez.)
É êle! É êle! Estou reconhecendo o focinho sujo daquele
porco!
J u l ie t t e
Escuta, por que você fala assim? Feche você o seu
focinho imundo!
O C amareiro
E voce, por que o defende? Não pode ser igual aos
outros?

34
J u l ie t t e
Eu queria muito bem ao sr. Jacques. Que é que você
tem contra? Você não o conhecia. Eu queria muito bem
a êle.
O C amareiro
E daí? Era o seu patrão. Você engraxava os sapatos
dêle.
J u l ie t t e
Uma coisa não tem nada a ver com a outra! Eu gostava
muito dêle!
O C amareiro
Uai! Igual ao irmão. . . uma boa peste!
O C h o f e r (Cedendo o lugar a Juliette.)
Pior, meu velho, pior! Ah, como me fazia rodar ate
as quatro da manhã diante dos botequins. .. E de manhãzinha,
quando você já estava enregelado, êle aparecia congestionado,
fedendo a vinho a três metros de distância, e vomitava em
cima das almofadas do c arro ... o desgraçado!
A C o z in h e ir a
Pode fa la r.. . Quantas vêzes tive que limpar aquilo, eu
mesma! E êle tinha só dezoito anos!
O C hofer
E ainda por cima, cada bronca!
A C o z in h e ir a
E brutalidades! Você se lembra? Naquela época, tinha
um moleque na cozinha, Cada vez que êle via o infeliz era
só para lhe puxar as orelhas ou dar pontapés.
O C hofer
E sem motivo! Um safadinho, isso o que êle era. E
quando soubemos que êle se estrepou em 1918, não é que a
gente seja malvada, mas achamos que foi bem feito.
O M ordomo
Vamos, vamos. Agora é preciso sair daqui.

35

O C hofer
Mas, enfim, bolas!. . . O senhor não pensa o mesmo,
senhor Jules?
O M ordomo
Ora, eu podia contar muito mais que vocês!... Pre­
senciei as cenas dêles na mesa. Eu estava lá quando êle
levantou a mão contra a senhora.

A C o z in h e ir a
Contra a m ãe!. . . Aos dezoito anos!. . .
O M ordomo
E as histórias com D. Valentine, posso dizer que as
conheço com todos os pormenores...
' O C hofer
Pois permita que eu lhe diga que foi muita bondade sua
ter fechado os olhos, senhor Jules. ..
O M ordomo
Os assuntos dos patrões são assuntos dos patrões. . .
O C hofer
Sim, mas com um tipo desses. . . Deixe eu dar uma outra
olhada nêle.
J u l ie t t e (Cedendo o lugar.)
Ah, é êle, é êle, tenho certeza. . . O senhor Jacques!
Sabe, era um belo rapaz, naquela época. Realmente um
bonitão. E tão distinto!
O C amareiro
Deixe isso para lá, que há outros mais bonitos, e mais
moços!
J u l ie t t e
É mesmo. Breve farão vinte anos. É alguma coisa.
Será que êle vai me achar muito mudada?
O C amareiro
Que diferença isso faz para você?

36
J u l ie t t e
Ora, n a d a ...
O C amareiro
(Após ter refletido, enquanto os demais criados fazem
caretas às suas costas.) — Mas, diga-me uma coisa. . . Por
que você suspira desde que soube que talvez êle volte?

J u l ie t t e
Eu? Por n a d a ...
( Os outros caçoam.)
O C amareiro
Por que você se olha no espelho e pergunta se mudou
muito?
Tu l ie t t e
Eu?
O C amareiro
Que idade você tinha quando êle foi para a guerra?

J u l ie t t e
Quinze anos.
O C amareiro
O carteiro foi o primeiro?
J u l ie t t e
Mas se eu lhe disse que êle me amordaçou e me deu
pílulas para dormir.
(Os outros riem.)
O C amareiro
Você tem certeza de que foi êle o primeiro?
J u l ie t t e
Mas que pergunta! Dessas coisas a gente não esquece.
Êle até deixou cair a bolsa, aquêle estúpido, e todas as cartas
se espalharam pela cozinha...

37
O C h o f e r (Sempre na fechadura.)
Valentine não tira os olhos de cima dêle. Aposto que se
êle fica aqui, o velho Georges vai ganhar mais um par de
cornos do próprio maninho!
O M ordom o (Tomando seu lugar.)
Ê nojento.
O C hofer
Se é assim que êle gosta, senhor Jules. . .
( Riem.)
O C amareiro
Êles me dão vontade de rir com essa história de “mnésia” !
Se esse cara fosse da família, já teria reconhecido êles desde
manhã. Não há “mnésia” que agüente!
A C o z in h e ir a
Não é bem assim, meu querido, não é bem assim. Eu
mesma, tem vezes em que sou incapaz de me lembrar se já pus
sal na comida.
O C amareiro
M a s... a família!
A C o z in h e ir a
Ora, pelo o que êle se interessava pela família, êsse pi­
lantra. ..
O M ordomo (Na fechadura.)
Mas que é êle, não há dúvida! Aposto a minha cabeça.
A C o z in h e ir a
Mas se dizem que há mais cinco famílias que têm as mesmas
provas!
O C hofer
Voces querem saber a verdade? Não é bom nem para nós,
nem para ninguém que aquêle safadinho não esteja morto!
A C o z in h e ir a
Ah, claro que não.

38
JULIETTE
Eu queria ver se vocês gostariam de estar mortos. . .

O M ordomo
Isso sem dúvida não seria de desejar, nem mesmo para êle,
ora! Porque as vidas que começam do jeito da dêle, nunca
terminam bem.
O C hofer
E depois, êle se acostumou com a vida tranqüila e sem
complicações do asilo. As coisas que êle vai ter que ficar sa­
bendo! . . . O caso com o filho de Grandchamp, o caso com
Valentine, o caso dos quinhentos mil pacotes, e todos os
outros que não sabemos. . .

O M ordom o
Oh, sem dúvida. Eu não gostaria de estar no seu lugar.

O C amareiro (Espiando pela fechadura.)


Cuidado, estão se levantando! Vão sair pela porta do
corredor.
( Os criados dispersam-se.)

J u l ie t t e (Saindo.)
Mas assim mesmo, o senhor Jacques. ..

O C amareiro (Seguindo-a, desconfiando.)


O senhor Jacques o quê?

J u l ie t t e
Ora, nada.
( Saem.)

PANO

}9
T E E C E I E O Q U A D E O

O quarto de Jacques Renaud, e os longos corredores
escuros da velha mansão burguesa que levam a êle.
De um lado, um vestíbulo enladrilhado, onde vem dar
uma ampla escadaria de pedra, com corrimão de ferro
forjado. A senhora Renaud, Georges e Gaston descem
a escadaria e cruzam o vestíbulo.

S e n h o r a R ena u d
Perdão, deixem-me ir na frente. Aqui, então, como vê,
era o corredor que você tomava para ir ao seu quarto. (Ela
abre a porta.) E aqui, o seu quarto. (Os três entram no
quarto.) Oh, que negligência! E eu havia mandado abrirem
as persianas. . .
(Ela abre as persianas e o quarto é inundado de luz; ê
em puro estilo 1910.)
G a st o n ( Olhando ao seu redor.)
Meu quarto. ..
S e n h o r a R en a u d
Você insistiu que fosse decorado segundo os seus planos.
Seu gosto era tão moderno!
G a st o n
Parece que eu gostava só de volutas e ranúnculos.

G eorges
Oh, já naquela época você era muito audacioso!

G a st o n
É o que estou vendo. (Percebe um móvel ridículo.)
O que é isso? Uma árvore na ventania?

43
G eorges
Não, é uma estante de música.
G a sto n
Eu era músico?
S e n h o r a R en a u d
Nós queríamos que aprendesse violino, mas você jamais
concordou. Tinha verdadeiros ataques de fúria quando o
obrigávamos a estudar. Quebrava os instrumentos a pontapés.
Essa estante foi a única que resistiu.
G a st o n (Sorri.)
E fêz mal. (Aproxima-se de um retrato.) É êle?
S e n h o r a R en a u d
Sim, é você aos doze anos.
G a sto n
Eu me imaginava louro e tímido.
G eorges
Você era castanho muito escuro. Jogava futebol o dia
inteiro, quebrava tudo.
S e n h o r a R ena u d
(Mostrando-lhe uma grande mala.) Olhe o que mandei
trazer do sótão. . .
G a sto n
O que é? Minha velha mala? Mas vocês vão me con­
vencer que eu vivi no tempo da Restauração...
S e n h o r a R ena ud
Não, bobo. Ê a mala do tio Gustavo, com os seus
brinquedos.
G a st o n (Abrindo a mala.)
Meus brinquedos!. .. Eu também tive brinquedos? É
verdade, eu não sabia mais que havia tido brinquedos...

44
S e n h o r a R ena u d
Olhe, o seu estilingue.

G a st o n
Um estilingue... E não parece de brincadeira...

S e n h o r a R ena ud
Como você matava passarinhos com isso, meu Deus! Era
um verdadeiro monstro. .. E, sabe, você não se contentava
com os do jard im .. . Eu tinha um viveiro de pássaros pre­
miados; você entrou uma vez lá dentro e matou-os todos!

G a st o n
Os pássaros? Os passarinhos?

S e n h o r a R ena u d
Sim, sim.

G a sto n
Que idade eu tinha?

S e n h o r a R ena ud
Sete, nove anos, talvez...

G a sto n (Sacudindo a cabeça.)


Não era eu.
S e n h o r a R ena ud
Sim, era, sim.
G a sto n
Não. Pelo contrário. Aos sete anos eu ia ao jardim
com migalhas de pão e chamava os pardais para virem bicá-las
na minha mão.
G eorges
Coitados! Você teria torcido o pescoço dêles.

45
S e n h o r a R ena ud
E o cachorro de que êle quebrou uma perna com uma
pedrada?
G eorges
E o rato que êle passeava, amarrado numa corda?
S e n h o r a R ena u d
E os esquilos, depois, as doninhas, os furões. Ah, como
você matava êsses pobres bichinhos! Mandava empalhar os
mais bonitos; tem uma coleção inteira lá em cima, preciso
mandar trazê-la para você ver. (Remexe na mala.) Aqui
estão as suas facas, suas primeiras carabinas.
G a st o n (Mexendo também.)
Não tem polichinelos, arca de Noé?
S e n h o r a ' R ena ud
Quando pequeno, você só queria brinquedos científicos.
Aqui estão os seus giroscópios, seus tubos de ensaio, seus
eletroímãs, as retortas, a grua mecânica.
G eorges
Queríamos fazer de você um brilhante engenheiro.
G a sto n (Estoura de riso)
De mim?
S e n h o r a R ena ud
Porém o que mais agradava a você eram os livros de
geografia! Aliás, você tirou sempre primeiro lugar em geo­
grafia. ..

G eorges
Aos dez anos, você sabia de cor e de trás para diante o
nome de todos os departamentos da França!
G a st o n
De trás para diante. . . É verdade que eu perdi a
m em ória... Contudo, eu procurei aprendê-los de nôvo no

46
asilo. Pois bem, nem sequer na ordem. . . Deixemos essa
mala de surpresas. Creio que não vai nos ensinar nada.
Não me reconheço nesse menino aí. (Fecha a mala, vagueia
pelo quarto, tocando nos objetos, sentando-se nas poltronas.
Súbito pergunta.) Não tinha um amigo, êsse menino? Um
outro menino com quem êle andasse sempre junto, para falar
dos seus problemas e trocar selos?
(Fricoteira.)
S e n h o r a R en a u d
Mas naturalmente, naturalmente. Você tinha uma porção
de colegas. Imagine só, com o colégio e o patronato!. . .
G a st o n
Sim, m as. . . não colegas. Um amigo. . . Compreenda,
antes de perguntar que mulheres eu tive. . .
S e n h o r a R en a u d (Chocada.)
Oh, Jacques, você era tão jovem quando partiu!
G a st o n (Sorri.)
Mesmo assim, vou perguntar. .. Mas antes disso, me
parece mais urgente perguntar se eu tive um amigo.
S e n h o r a R en a u d
Bem, você poderá ver as fotografias deles todos nos grupos
do colégio. Depois, tinha aqueles com quem você saia à
n o ite ...
G a st o n
Mas aquele com quem eu preferia sair, aquêle a quem eu
contava tudo?
S e n h o r a R ena ud
Você não tinha preferências, sabe.
(Ela falou depressa, após ter lançado um olhar furtivo a
Georges. Gaston observa-a.)
G a st o n
Então o seu filho não tinha um amigo? É pena. Quero
dizer, é uma pena se descobrirmos que sou eu. Creio que não

47
%

existe nada mais consolador, quando nos tornamos homens, do


que ver um reflexo da nossa infância nos olhos de um antigo
companheiro. É pena. Vou confessar-lhes mesmo que era
dêsse amigo imaginário que eu esperava receber de volta a
minha memória — como um favor muito natural.

G eorges (Após uma hesitação.)


Oh! Quer dizer. . . um amigo, sim, você teve um amigo,
de quem você gostava muito. Chegou mesmo a conservá-lo
até os dezessete anos... Não queríamos falar sôbre êle porque
é uma história tão penosa. . .

G a st o n
Êle morreu?
G eorges
Não, não morreu, mas vocês se separaram, rom peram .. .
definitivamente.
G a sto n
Definitivamente, aos dezessete anos! {Pausa.) E vocês
souberam o motivo da briga?

G eorges
Vagamente, vagamente...

G a st o n
O seu irmão e êsse rapaz não procuraram se rever depois?

S e n h o r a R ena ud
Você se esquece que houve uma guerra. E depois, sabe...
Pois bem. Vocês brigaram por um motivo fútil, chegaram mesmo
a se bater, como os rapazes dessa idade. . . E, sem querer, está
claro, você teve um gesto brutal. . . um gesto sobretudo
infeliz. Você o empurrou do alto de uma escada. Ao cair,
êle feriu a coluna vertebral. Estêve engessado durante muito
tempo e depois ficou aleijado. Compreende agora como teria
sido difícil, até mesmo penoso, você tentar revê-lo.

48
G a st o n (Após uma pausa.)
Compreendo. E onde foi que se deu essa briga, no colégio
ou em casa?
S e n h o r a R en a u d (Rápido.)
Não, aqui. Mas não falemos mais de uma coisa tão hor­
rível, uma coisa de que teria sido melhor não recordá-lo,
Jacques.
G a sto n
Se recupero uma coisa, devo recuperar todas, a senhora
sabe. Um passado não se vende a varejo. Onde é essa
escada? Eu gostaria de vê-la.
S e n h o r a R ena u d
Aqui, perto do seu quarto, Jacques. Mas de que adianta?
G a st o n (Para Georges.)
Quer me mostrar onde é?
G eorges
Se você insiste, mas não entendo porque você há de querer
rever êsse lugar. ..
(Vão até a vestíbulo.)
S e n h o r a R ena u d
Bem, é esta.
G eorges
É aí.
G a st o n (Olha ao redor e apoia-se no corrimão.)
Onde foi que lutamos?
G eorges
Sabe, não soubemos com muita exatidão. Foi uma empre­
gada quem nos contou a cena.
G a st o n
Não é uma coisa de todos os d ias.. . Imagino que deve
ter contado com muitos pormenores. Onde foi que lutamos?
Êsse patamar é tão am plo...

49
Sen h o ra R enato
Devem ter lutado bem na beirada. Êle deu um passo em
falso. Talvez você não tenha nem chegado a empurrá-lo.
G a st o n (Virando-se para ela.)
Então, se não foi um acidente dêsse gênero, por que não
teria eu ido lhe fazer companhia todos os dias em seu quarto?
Por que não passei com êle, para que êle não sentisse por
demais a injustiça, todos os meus dias de folga, em vez de
correr ao sol?
G eorges
Você sabe, cada um tinha uma interpretação. .. O fala-
tório público interferiu.

G a st o n
Qual foi a empregada que nos viu?

S e n h o r a R ena u d
Que netíessidade tem você de saber dêsse pormenor!
Além do que, ela já não está mais conosco.

G a st o n
Com certeza deve ter outras que já estavam no serviço
naquela época. Vou interrogá-las.

S e n h o r a R ena ud
Espero que você não vá dar fé a mexericos de cozinha.
Os criados lhe dirão mentiras, certamente. Você sabe como
é essa gente. ..

G a st o n (Virando-se para Georges.)


Meu senhor, tenho certeza de que irá me compreender.
Ainda não reconhecí nada nesta casa. O que me contou sobre
a infância de seu irmão me parece estar o mais longe possível
do que eu julgo ser o meu temperamento. Mas — talvez
seja a fadiga, talvez outra coisa — pela primeira vez eu sinto
uma certa perturbação ao ouvir as pessoas falando-me desta
criança.

50
S e n h o r a R ena u d
Ah, meu pequeno Jacques, eu tinha certeza...
G a st o n
A senhora não deve se enternecer, e me chamar prema­
turamente de meu pequeno Jacques. Estamos aqui como agentes
policiais, para fazer uma investigação, com o rigor e, se possível,
a insensibilidade dos policiais. Essa tomada de contato com
um ser que me é completamente estranho e que eu me verei
talvez obrigado dentro de pouco a aceitar como uma parte
de mim mesmo, essa bizarra união com um fantasma, já é
uma coisa suficientemente penosa em si, sem que eu me veja
ainda por cima obrigado a me debater contra os senhores.
Aceitarei todas as provas, escutarei tôdas as estórias, mas algo
me diz que, antes de tudo, devo saber a verdade sobre essa
briga. A verdade, por mais cruel que ela seja.
S e n h o r a R ena u d (Começando,
hesitante.)
Pois bem, lá vai: por uma bobagem de crianças,. vocês
trocaram socos. . . Você sabe como se é impetuoso nessa
idade. . .
G a st o n (Interrompendo-a.)
Não, a senhora não. Essa empregada ainda está aqui,
não é mesmo? A senhora mentiu, há pouco?
G eorges (Repentinamente, após um silêncio.)
Sim, ela ainda está aqui.
G a st o n
Mande-a chamar, por favor, meu senhor. Por que he­
sitar agora, se vocês sabem muito bem que, mais cêdo ou
mais tarde, eu acabarei encontrando-a e interrogando-a?
G eorges
É tudo tão tôlo, tão incrivelmente tolo.
G a st o n
Não estou aqui para ouvir coisas agradáveis. E depois,
se fôr êsse o pormenor que poderia me devolver a memória,
vocês não têm o direito de ocultá-lo.
G eorges
Já que você quer, vou chamá-la. (Toca a campainha.)
S e n h o r a R en a u d
Você está tremendo, Jacques. Espero que não vá ficar
doente.
G a sto n
Eu estou tremendo?
S e n h o r a R ena ud
Quem sabe está sentindo alguma coisa se esclarecer dentro
de você neste momento?
G a st o n
Não. É tudo noite, a noite mais escura.
S e n h o r a R ena u d
Então por que você está tremendo?
G a st o n
Bobagens. Mas entre as milhares de lembranças possíveis,
a que eu desejava com mais carinho era a de um amigo.
Construí tudo sôbre a lembrança dêsse amigo imaginário.
Nossas andanças apaixonadas, os livros que teríamos descoberto
juntos, uma jovem que êle e eu tivéssemos amado ao mesmo
tempo e que eu teria sacrificado a êle, e até mesmo —
a senhora vai rir — que eu havia salvado sua vida um dia,
num barco. Ao passo que, não é mesmo, se eu fôr o seu
filho, deverei me habituar com uma verdade tão destoante do
meu sonho...
(Entra Juliette.)
JULIETTE
A senhora chamou?
S e n h o r a R ena ud
O sr. Jacques quer falar com você, Juliette.
J u l ie t t e
Comigo?

52
G eorges
Sim. Quer interrogá-la sobre aquele infeliz acidente com
Marcei Grandchamp, que você testemunhou.
S e n h o r a R ena ud
Você sabe a verdade, minha filha. Você também está
ciente de que embora o sr. Jacques pudesse ter sido violento,
êle não tinha nenhuma intenção criminosa.
G a st o n (Interrompendo-a novamente.)
Não lhe diga nada, por favor! Onde estava a senhorita
quando ocorreu o acidente?
J u l ie t t e
No patamar, com os senhores, sr. Jacques.
G a sto n
Não me chame ainda de sr. Jacques. Como foi que a
briga começou?
J u l ie t t e (Lançando um olhar aos Renaud.)
Quer dizer...
G a st o n (Dirige-se a êles.)
Querem fazer o favor de me deixar a sós com ela? Sinto
que ela fica embaraçada diante dos senhores.
S e n h o r a R en a u d
Estou pronta a fazer tudo o que você queira para tê-lo
de volta conosco, Jacques.
G a st o n (Acompanhando-os.)
Eu os chamarei mais tarde. (A Juliette, depois de ficarem
sós.) Sente-se.
J u l ie t t e
O senhor dá licença?
G a st o n (Sentando-se na frente dela.)
E pare de me chamar de senhor. Isso só nos atrapa­
lharia. Que idade tem você?

53

i
I.
JULIETTE
Trinta e três anos. O senhor sabe disso muito bem, sr.
Jacques, pois eu tinha quinze anos quando o senhor partiu
para a guerra. Por que pergunta?
G a st o n
Em primeiro lugar, porque eu não sabia; depois, porque
eu torno a lhe dizer que eu posso não ser o sr. Jacques.
J u l ie t t e
Oh, é sim, eu o reconheço muito bem, sr. Jacques.
G a st o n
Você o conhecia bem?
J u l ie t t e (Rompendo subitamente em soluços.)
Ah, não é possível esquecer tanto assim !... Mas então
o senhor não se lembra de nada, sr. Jacques?
G a sto n
Absolutamente nada.
J u l ie t t e (Berrando por entre as lágrimas.)
Ouvir essas perguntas depois de tudo o que se passou...
Ah, como isso pode ser torturante para uma m ulher...
G a sto n
(Permanece por um instante estupidificado, depois subita­
mente compreende.) A h!. . . Oh! Perdão. Peço-lhe perdão.
Quer dizer que o sr. Jacques. . .
J u l ie t t e (Fungando.)
Sim.
G a st o n
Oh! Peço-lhe perdão, nesse caso... Mas que idade tinha
você?

J u l ie t t e
Quinze anos. Foi a primeira vez.

54
G a st o n (Sorri sübi.tamente, relaxado.)
Quinze anos e êle dezessete... Mas é uma estória muito
bonita. É a primeira coisa que ouço a respeito dêle que
me parece um pouco simpática. E isso durou muito tempo?

J u l ie t t e
Até êle partir.

G a st o n
E eu que tanto queria saber como era o rosto da minha
amante! Bem, era encantador!

J u l ie t t e
Talvez fosse encantadora, mas não era a única, ora!

G a st o n (Ainda sorrindo.)
Ah! Não?

J u l ie t t e
Não, ora essa!
G a st o n
Bem, isso não é também lá muito antipático.

J u l ie t t e
É, o senhor talvez ache isso engraçado! Mas precisa
reconhecer que, para uma mulher. . .

G a sto n
Ê, claro, para uma m ulher...

J u l ie t t e
É duro para uma mulher sentir-se enganada no seu dolo­
roso amor, não é?
G a sto n (Um pouco espantado.)
No seu d o lo ...? Ah, sim, sem dúvida.

^5
JUL1ETTE
Eu não passava de uma simples empregadinha, está claro,
mas isso não me impediu de provar até a última gôta a dor
atroz da amante ultrajada. ..
G a st o n
A dor atroz?... Claro, claro.
JULIETTE
O senhor não leu: Violada na noite de núpcias?
G a sto n
Não.
JULIETTE
Pois devia ler. Tem uma situação quase igual. O infame
sedutor de Bertrande também parte (mas para a América,
chamado por um tio riquíssimo) e é então que ela lhe diz
que provou até a última gôta essa dor atroz da amante ultra­
jada.
G a st o n (Para esclarecer bem.)
Ah, era uma frase de um livro?
JULIETTE
Sim, mas ela se aplicava tanto a mim!
G a sto n
Claro. .. (Levanta-se subitamente. Pergunta de modo
estranho.) E você amava muito o sr. Jacques?
JULIETTE
Apaixonadamente. Aliás, era muito simples, êle dizia que
se mataria por mim.
G a sto n
Gomo foi que você se tornou sua amante?
J u l ie t t e
Oh! Foi no meu segundo dia nesta casa. Eu estava
arrumando o quarto, êle me derrubou em cima da cama. Eu ria

56
como uma idiota. Ê claro, nessa idade! Tudo se passou, por
assim dizer, contra a minha vontade. Mas depois êle me jurou
que me amaria para o resto da vida!
( Olha-a e sorri.)
G a st o n
Curioso, êsse senhor Jacques...

J u l ie t t e
Por que curioso?

G a sto n
Por nada. Em todo o caso, se eu vier a ser o senhor
Jacques, prometo-lhe que tornaremos a falar muito a sério sôbre
essa situação.

J u l ie t t e
Oh! O senhor sabe, eu não me interesso por reparações.
Estou casada, agora...

G a st o n
Assim m esmo... assim m esm o... (Pausa.) Mas estou
fazendo gazeta e não serei aprovado no exame. Voltemos a
essa horrível estória que seria bom eu nunca ter conhecido,
mas que preciso saber do princípio até o fim.
J u l ie t t e
Ah! Sim, a batalha com o senhor Marcei.

G a st o n
Sim. Você estava presente?
J u l ie t t e (Empertigando-se.)
Claro que eu estava presente.

G a sto n
Assistiu ao comêço da briga?

J u l ie t t e
Evidente que sim.

57
G a sto n
Então poderá me explicar por que estranha loucura êles
brigaram de modo tão selvagem?
J u l ie t t e (Tranquilamente.)
Por que uma estranha loucura? Foi por mim que êles
brigaram.
G a sto n (Levanta-se.)
Por você?
J u l ie t t e
Mas claro que foi por mim. Isso surpreende o senhor?
G a st o n (Repete, aturdido.)
Por você?
J u l ie t t e
Mas é claro. O senhor entende, eu era a amante do
senhor Jacques — digo isso porque o senhor precisa saber,
mas não vá dar um fora, hem? Não quero perder o emprego
por causa de uma estória que se passou há vinte anos! ^ Sim,
eu era amante do senhor Jacques e, é preciso que eu diga, o
sr. Marcei andava um pouco atrás de mim.
G a sto n
E então?
J u l ie t t e
Então, um dia em que êle estava tentando me ^beijar
atrás da p o rta ... Eu não deixava fazer o que quisessem
comigo, hem? Mas o senhor sabe como é um rapaz quando
põe isso na cabeça. .. Justo nesse momento o senhor Jacques
sai do seu quarto e nos vê. Saltou em cima do senhor Marcei,
que reagiu. Começaram a brigar, rolaram pelo chão. ..

G a st o n
Onde estavam?
J u l ie t t e
No patamar grande do primeiro andar, aí, ao lado.

58
G a st o n ( Grita subitamente, como louco.)
Onde? Onde? Onde? Venha, quero ver o lugar exato.
(Arrasta-a pelo pulso até o vestíbulo.)
J u l ie t t e
O senhor está me machucando!
G a st o n
Onde? Onde?
J u l ie t t e
(Liberta-se de suas mãos e esfrega o pulso.) Está bem,
aí! Caíram aí, metade no vestíbulo, metade no patamar. O
senhor Marcei ficou por baixo.

G a st o n ( Grita.)
Mas aí êles estavam longe da beira! Gomo é que êle
pôde deslizar até o pé da escada? Os dois rolaram juntos,
lutando?

J u l ie t t e
Não, o senhor Jacques conseguiu se levantar e arrastou o
sr. Marcei pela perna até os degraus. . .
G a st o n
E depois?
J u l ie t t e
E depois o empurrou, diabo! Gritando: “Toma, seu
sujo, assim você aprende a beijar a pequena dos outros!”
Foi tudo. (Um silêncio.) Ah, êsse sr. Jacques não era
sopa.
G a st o n (Surdamente.)
E era seu amigo?

J u l ie t t e
Se não! Desde a idade de seis anos iam à escola juntos.
G a st o n
Desde os seis anos.

59
JULIETTE
Ah, é horrível, sem dúvida!... Mas que quer o senhor?
O amor é mais forte do que tudo.
G a st o n (Olha-a e murmura.)
O amor, claro, o amor. Muito obrigado, senhorita.
G eorges
(Bate à porta do quarto, mas não os vendo, dirige-se
ao vestíbulo.) Tomei a liberdade de voltar. Voce! não nos
chamava mais, e mamãe estava inquieta. Bem, ficou sabendo
o que queria?
G a sto n
Sim, muito obrigado. Já sei o que queria saber.
(Juliette sai.)
G eorges
Oh, não é uma coisa bonita, com certeza... Mas quero
crer, apesar de tudo o que disseram, que não passou, no fundo,
de um acidente e — você tinha dezessete anos, é preciso não
esquecer — uma criancice, uma sinistra criancice. (Silêncio.
Êle fica sem jeito.) Gomo foi que ela lhe contou isso?
G a sto n
Sem dúvida, como ela viu.
G eorges
Disse que essa luta foi por causa de uma rivalidade de
clube? Marcei havia se demitido do seu por motivos pes­
soais; vocês faziam parte de times contrários e, apesar de
tudo, não é mesmo, levados pelo ardor esportivo.. . (Gaston
não diz nada.) Enfim, essa foi a versão que me pareceu a
mais certa. Porque, do lado dos Grandchamp, fizeram circular
uma outra versão, uma estória que eu sempre me recusei a
acreditar. Não procure conhecer essa, pois não passa de tolice
e maldade.
G a st o n (Olha-o)
O senhor gostava muito dêle?

60
G eorges
Era meu irmão caçula, apesar de tudo. Apesar de todo
o resto. Pois houve muitas outras coisas. . . Ah! Você era
terrível.

G a st o n
Enquanto eu tiver esse direito, lhe pedirei que diga:
êle era terrível.
G eorges (Sorrindo com tristeza de suas recordações.)
S im ... terrível. Oh! Você nos causou muitas preo­
cupações! E se voltar para nós, terá que ficar sabendo de
coisas mais graves ainda do que êsse gesto infeliz, a respeito
do qual você ainda pode conservar o benefício da dúvida.
G a sto n
Tenho ainda outra coisa a saber?

G eorges
Que quer, você era uma criança, uma criança entregue
a si mesma, num mundo desorganizado. Mamãe, com seus
princípios, entrava desajeitadamente em choque com você,
sem conseguir outra coisa do que torná-lo mais fechado. .Eu,
eu nao tinha autoridade suficiente. .. Você fêz uma grande
besteira, sim, para começar, que nos custou muito c a ro ...
Sabe, nós, os mais velhos, estávamos na guerra. Os rapazes
da sua idade achavam que tudo lhes era permitido. Você
quis montar um negócio. Se ao menos você tivesse acreditado
nêle! Ou teria sido um simples pretexto para executar os
seus propositos? Somente você poderá dizê-lo, se recuperar
totalmente a memória. O caso é que você enfeitiçou — êsse
é o têrmo, enfeitiçou — uma velha amiga da família. Fêz
com que ela lhe entregasse uma grande soma, cêrca de
quinhentos mil francos. Você se dizia o intermediário. Mandou
fazer um papel falso, com o timbre de uma companhia, sem
dúvida im aginária... e assinava recibos falsos. Um dia, tudo
foi descoberto. Mas já era tarde demais. Restavam apenas
alguns milhares de francos. Você havia gasto o resto, Deus sabe
em que lugares, em que bares, com mulheres e amigos. . .
Naturalmente, tivemos que reembolsar tudo.

61
G a sto n
A alegria com que o senhor se dispõe a receber de volta
seu irmão é admirável.
G eorges (Abaixando a cabeça.)
Muito mais do que você pensa, Jacques.

G a sto n
Gomo? H á ainda outra coisa?
G eorges
Falaremos disso noutra ocasião.
G a sto n
Por que noutra ocasião?
G eorges
É melhor. Vou chamar mamãe. Ela deve estar preocupada
com nosso silêncio.
G a st o n (Detendo-o.)
Pode me falar. Tenho quase certeza de que não sou seu
irmão.
G eorges (Olha-o um momento em silêncio. Depois, com voz
surda.)
Contudo, se parece muito com êle. É a mesma cara,
porém como se tivesse passado uma tormenta por ela.

G a st o n (Sorrindo.)
Dezoito anos! A sua também, sem dúvida, embora eu
não tenha a honra de recordá-la sem rugas.
G eorges
Não são só as rugas. Ê o desgaste. Porém um desgaste
que em vez de devastar, de endurecer, tivesse suavizado, polido.
É como se tivesse passado uma tormenta de doçura e bondade
sobre o seu rosto.

62
G a sto n
Sim. Há muitas possibilidades, compreendo agora, por que
o rosto de seu irmão não fôsse particularmente marcado pela
doçura.
G eorges
O senhor se engana. Era duro, sim, leviano, inconstante.. .
M a s... eu o amava muito, apesar dos seus defeitos. Era mais
bonito do que eu. Talvez não mais inteligente — do tipo
de inteligência que é preciso na escola ou nos concursos —
porém certamente mais sensível, mais brilhante... (Diz, surda­
mente.) Mais sedutor. Ele também gostava muito de mim,
o senhor sabe, a seu modo. Pelo menos ao sair da infância,
êle tinha por mim uma espécie de ternura agradecida que me
comovia muito. Por isso foi tão duro, quando fiquei sabendo.
(Baixa a cabeça como se tivesse sido êle quem errou.) Eu o
detestei, sim, detestei. E depois, logo em seguida, não pude
mais lhe guardar rancor.

G a st o n
Mas de quê?
G eorges (Que levantou a cabeça, olha-o.)
É você, Jacques? (Gaston faz um gesto.) Em vão me
digo que êle era jovem, que era fraco, no fundo, como todos
os violentos. .. Em vão me digo que tudo é fácil para uns
belos lábios, em uma noite de verão, quando se vai partir para
a guerra. Em vão me digo que eu estava longe, e c[ue ela
também não passava de uma m enina.. .
G a st o n
Não estou conseguindo acompanhá-lo. Êle lhe roubou
uma mulher? (Pausa.) A sua mulher? (Georges faz sinal
que sim. Gaston, surdamente.) Que canalha!
G eorges (Com um pequeno sorriso triste.)
Talvez seja você.

G a st o n (Após um silêncio, pergunta com a voz partida.)


O senhor se chama Georges?

63
G eorges
Sim.
G a st o n (Fita-o um momento, depois faz um gesto desajeitado
de carinho.)
Georges. . .
S e n h o r a R en a u d (Aparecendo na antecâmara.)
Você está aí, Jacques?
G eorges (Com lágrimas nos olhos, envergonhado de sua
emoção.)
Com licença, vou me retirar.
(Sai ràpidamente pela outra porta.)
S e n h o r a R en a u d (Entrando no quarto.)
Jacques. ..
G a st o n (Sem se mexer.)
Sim.
S e n h o r a R ena ud
Adivinhe quem acaba de chegar?... Ah! Mas que
audácia!
( Cansado.)
G a st o n
Se eu não me lembro de nada, como vou adivinhar?
S e n h o r a R en a u d
A tia Louise, meu querido! Sim, a tia Louise!
G a sto n
Tia Louise. E é uma audácia?...
S e n h o r a R ena ud
Ah, você não vai acreditar. . . Depois de tudo o que
se passou! Espero que você me dará o prazer de não tornar
a vê-la, se ela tentar se aproximar de você a despeito de nós.
Conduziu-se de tal maneira!. . . E depois, aliás, você não
gostava dela. Oh, mas se há alguém na família que você
detestava, meu filho, de quem você tinha um verdadeiro ódio,
aliás justificado, devo reconhecer, era o seu primo Jules.

64
G a sto n
Eu tenho então um verdadeiro ódio que eu não sabia.
S e n h o r a R ena ud
Do Jules? Mas você não sabe o que êle lhe fêz, aquele
miserável? Denunciou você no concurso geral porque você
tinha uma tábua de logaritmos. . . É verdade, preciso contar
a você todas essas estórias; não vá você, que não se lembra de
nada, tratar bem essa g ente!... E Gerard Dubuc, que virá
certamente com agradinhos. . . Para poder entrar na Com­
panhia Fillière, onde você tinha muito mais possibilidades de
ser admitido do que êle, por causa de seu tio, êle fêz com
que você fosse eliminado, caluniando-o junto à direção. Sim,
soubemos mais tarde que foi êle. Oh! Espero que você lhes
bata com a porta na cara, e também de certos outros de quem
vou lhe falar e que traíram você de uma maneira ignóbil.
G a sto n
Como um passado pode ser cheio de coisas agradáveis!

S e n h o r a R ena ud
Em compensação, você precisa dar um beijo na pobre
sra. Bouquon, embora ela tenha se tomado um pouco repugnante
depois que ficou paralitica. Ela viu você nascer.

G a sto n
Isso não me parece razão suficiente.

S e n h o r a R enaud
Depois, foi ela quem cuidou de você durante a sua pneu­
monia, quando eu também estava doente. Ela salvou você,
meu querido!
G a sto n
É verdade, existe também o reconhecimento. Eu tinha
esquecido disso. (Pausa.) Obrigações, ódios, ofensas... Mas
o que é que eu pensava que fossem as lembranças? (Pára,
reflete.) É certo, estava me esquecendo dos remorsos. Tenho
agora um passado completo. (Sorri estranhamente e vai para

3 65
eia.) Mas veja a seiihorâ como sou exigente. Êu tería prefe­
rido um modelo com algumas alegrias. Um pouco de entu­
siasmo, também, se fosse possível. A senhora não tem nada
a me oferecer?
S e n h o r a R ena ud
Não compreendo, meu querido.
G a sto n
Mas é muito simples. Gostaria que me contasse algumas
das minhas antigas alegrias. Os meus ódios, meus remorsos,
não me revelaram nada. Dê-me uma das alegrias de seu filho,
para eu ver como ela ressoa em mim.
S e n h o r a R ena ud
Oh! Isso não é difícil. Você teve muitas alegrias, sabe. . .
Foi tão mimado!
G a sto n
Pois bem, queria saber uma. . .
S e n h o r a R ena ud
Bem. É irritante ter que lembrar assim, de repente, a
gente não sabe o que escolher. . .
G a sto n
Conte qualquer uma, ao acaso.
S e n h o r a R enaud
Pois bem, quando você tinha doze anos. . .
G a sto n (Interrompe-a.)
Conte uma de homem feito. As outras estão muito
longe.
S e n h o r a R en a u d (Súbito sem jeito.)
É que. . . suas alegrias de homem feito. .. você quase
não me contava. Sabe como é, um rapaz!. . . Você saía
tanto. Como todos os rapazes. .. Vocês eram reis, naquele
tempo. Você ia aos bares, às corridas... Você se divertia
com seus amigos, não comigo. . .

66
G a sto n
A senhora nunca me viu alegre na sua frente?
S e n h o r a R ena ud
Mas claro que sim, o que é que você pensa? O dia de
seus últimos prêmios na escola, por exemplo, eu me lembro
q u e ...
G a sto n ( Inlerrompe-a.)

Não, os prêmios não! Mais tarde. Entre o momento


em que larguei os livros de escola e o momento em que me
puseram um fuzil na mão; durante êsses poucos meses que
deveríam ser, sem que eu suspeitasse, tôda a minha vida de
homem.
S e n h o r a R ena ud
Estou procurando. Mas você saía tanto, sabe. . . Tomava
tantos ares de homem. . .
G a sto n
Mas, enfim, aos dezoito anos, por mais ares de homem
que a gente se dê, continua-se sempre uma criança! Um dia
deve ter havido uma inundação no banheiro, ou a cozinheira
deve ter dito uma coisa disparatada, ou encontramos um
cobrador de bonde muito engraçado. . . Eu ri diante da
senhora. Fiquei contente por causa de um presente, de um
raio de sol. Não estou lhe pedindo uma alegria transbor-
dante. . . uma pequena alegria. Eu não era neurastênico,
era?
S e n h o r a R en a u d (Subitamente embaraçada.)
Vou lhe dizer uma coisa, meu pequeno Jacques. . . Eu
teria preferido explicar isso a você mais tarde, e com mais -
ponderação. . . Nós dois não estávamos em muito bons têrmos
naquela época. . . O h ! era uma criancice!. . . Agora, isso
vai parecer mais grave do que realmente foi. Sim,- precisa­
mente nessa época, entre o colégio e o regimento, nós não
estávamos falando um com o outro.
G a sto n
Ah!

67
S e n h o r a R ena ud
Sim, sim, por uma bobagem, sabe.
G a st o n
E essa rusga. . . durou muito tempo?
S e n h o r a R ena ud
Quase um ano.
G a st o n
Puxa! Nós dois tínhamos um bocado de resistência. E
quem foi que começou?
( Após
a uma hesitação.)
S e n h o r a R en a u d
Bem, eu, se você insiste. . . Mas a culpa foi sua. Você
foi de uma teimosia muito estúpida.
G a sto n
Que teimosia de rapaz poderia ter levado a senhora a
não falar mais com seu filho durante um ano?
S e n h o r a R enaud
Você nunca fêz nada para pôr um fim a êsse estado de
coisas. Nada!

G a sto n
Mas quando eu fui para a guerra, nos reconciliamos,
apesar de tudo, a senhora não iria me deixar partir sem me
dar um beijo de despedida?
R ena u d ( Após um silêncio, subitamente.)
Se n h o r a
Sim. (Uma pausa, depois ràpidamente.) A culpa foi sua,
naquele dia eu também esperei você em meu quarto. Você
me esperava no seu. Queria que eu desse os primeiros passos,
eu, sua mãe! . , . Quando eu é que fui gravemente ofendida.
Em vão os outros procuraram intervir. Nada o fêz ceder.
Nada. E você partia para a guerra.
G a sto n
Que idade eu tinha?

68
S e n h o r a R ena ud
Dezoito anos.
G a st o n
É possível que eu não soubesse para onde ia. Aos dezoito
anos, a guerra é uma aventura divertida. Mas já não estávamos
mais em 1914, quando as mães punham flores no cano dos
fuzis; a senhora sim devia saber para onde eu ia.
S e n h o r a R ena ud
Oh, eu pensava que a guerra ia terminar antes que você
saísse do quartel, ou que eu iria vê-lo quando você recebesse
a primeira licença antes de ir para a frente de batalha. E
depois, você era sempre tão frio, tão duro comigo.
G a sto n
Mas a senhora não podia descer para me dizer: “Você
está louco, me dê um beijo!”

S e n h o r a R ena ud
Tive mêdo dos seus olhos.. . Do ricto de orgulho que
certamente você iria ter. Você teria sido capaz de expulsar-me,
sabe...
G a sto n
Pois bem, a senhora devia ter voltado, devia ter chorado %
à minha porta, devia ter implorado, devia ter se jogado de
joelhos no chão para que não houvesse tal coisa, e que eu lhe
desse um beijo antes de partir. A senhora fêz mal em não ter
se ajoelhado.
S e n h o r a R en a u d
Mas uma mãe, Jacques!...
G a st o n
Eu tinha dezoito anos e estavam me mandando para a
morte. Tenho um pouco de vergonha de dizer isso, mas por
mais que eu tivesse sido brutal, por mais que eu me fechasse

69
no meu jovem orgulho imbecil, vocês todos deviam ter se
lançado de joelhos aos meus pés e pedido perdão.
S e n h o r a R ena ud
Perdão de quê? Mas eu não tinha feito nada!
G a sto n
E eu, que teria feito, para que se abrisse esse abismo
intransponível entre nós?
S e n h o r a R ena ud (Subitamente voltando ao tom de antiga­
mente,)
Oh! Você inventou de se casar com uma costureirinha
que havia encontrado Deus sabe onde, aos dezoito anos, e
que, sem dúvida, não queria se tornar sua amante. . . O
casamento não é uma brincadeira! Devíamos então deixar que
você comprometesse a sua vida, que introduzisse essa criatura
em nossa casa? Não me venha dizer que você a amava. . .
Acaso alguém ama aos dezoito anos, quero dizer, alguém ama
profundamente, de modo duradouro, para casar e fundar um
lar, a uma pequena costureira, encontrada em um baile três
semanas antes?

G a st o n (Após um silêncio.)
Sem dúvida, era uma tolice. . . Mas a senhora sabia
que a minha classe ia ser chamada dentro de poucos meses.
E se essa tolice fôsse a única que eu pudesse cometer; se quem
pedia êsse amor que não podia durar tinha apenas alguns
meses de vida, nem sequer o suficiente para esgotá-lo?
S e n h o r a R enaud
Mas nós não achavamos que você fôsse m orrer!... E
depois, eu ainda não lhe contei tudo. Você me gritou em
plena cara, com a boca tôda retorcida de ódio, com a mão
erguida sôbre sua própria mãe: “Eu te detesto, eu te de­
testo!” Isso, o que você me gritou. (Pausa.) Compreende
agora por que eu fiquei no meu quarto, esperando que você
subisse, âté que ouvi a porta da rua se fechando às suas
costas?

70
G a sto n (Docemente, após um silêncio.)
E eu morrí aos dezoito anos, sem ter tido a minha
pequena alegria, sob o pretexto de que era uma tolice, e sem
que a senhora tornasse a falar comigo. Fiquei deitado de
costas uma noite inteira com uma ferida no ombro, e estava
duas vêzes mais só do que os outros que gritavam por suas
mães. {Pausa, depois êle diz subitamente, convo para si mesmo.)
É verdade, eu detesto a senhora.
S e n h o r a R ena u d (Exclama horrorizada.)
Jacques, o que é que você tem?
G a sto n (Volta a si, enxerga-a.)
Gomo? Perdão. . . Peço-lhe desculpas. (Afasta-se, fe­
chado, endurecido) Eu não sou Jacques Renaud; aqui, não
reconheço nada do que pertenceu a êle. Por um momento,
é verdade, ouvindo-a falar, eu me confundi com êle. Peço-lhe
que me desculpe. Mas — que quer a senhora — para um homem
sem memória é por demais pesado receber de uma só vez a
carga de todo um passado. Se a senhora quer me fazer um
favor, mais do que um favor, um bem, deixe-me voltar para o
asilo. Eu plantava alface, encerava os assoalhos. Os dias
passavam. .. Mas mesmo depois de dezoito anos — uma outra
metade, exatamente, de minha vida — não haviam chegado
a compor, juntando-se uns aos outros, essa coisa devorante
que se chama um passado.
S e n h o r a R enaud
Mas, Jacques...
G a sto n
E depois, não me chame mais de Jacques.. . Esse Jacques
fêz coisas demais. Gaston, é melhor. Embora êle não seja
ninguém, sei quem êle é. Mas êsse Jacques cujo nome já está
cercado de cadáveres de tantos passarinhos, êsse Jacques que
traiu, machucou, que foi sozinho para a guerra, sem se despedir
de ninguém, êsse Jacques que não chegou sequer a amar, me
dá mêdo.
S e n h o r a R ena ud
Mas enfim, meu querido. . .

7t
G a sto n
Vá embora! Eu não sou o seu querido.
S e n h o r a R ena ud
Oh! Você está falando como antigamente!
G a sto n
Eu não sei nada de antigamente, estou lhe falando como
hoje. Vá embora!

S e n h o r a R en a u d (Empertiga-se também como antes.)


Está bem, Jacques! Mas quando os outros lhe provarem que
sou sua mãe, você terá que vir me pedir perdão.
(Sai sem ver Valentine que escutou do corredor as últimas
réplicas.)
V e l e n t in e (Avança depois que a outra saiu.)
O senhor disse que êle nunca amou. Como pode dizer isso,
se não sabe de nada?
G a st o n (Mede-a de cima a baixo.)
Vá embora você também!
V a l e n t in e
Por que fala assim comigo? Que tem o senhor?
G a sto n ( Gritando.)
Vá embora! Eu não sou Jacques Renaud.
V a l e n t in e
Está gritando como se tivesse mêdo de ser.
G a sto n
Isso é um pouco verdade.
V a l e n t in e
O mêdo é compreensível. A sombra da juventude de
Jacques não é fácil de carregar. Mas por que o ódio, e
contra mim?

72
G a st o n
Não me agrada que a sra. venha sorrir para mim, como
não parou de fazê-lo desde que cheguei aqui. A sra. foi
amante dêle.

V a l e n t in e
Quem se atreveu a dizer isso?

G a sto n
Seu marido.
(Um silêncio.)

V a l e n t in e
Pois bem, se o senhor foi meu amante, e eu o encontro
de novo e quero recomeçar. . . Será que é tão ridículo a
ponto de achar que isso está errado?

G a sto n
A senhora está falando com uma espécie de camponês do
Danúbio. ,Um Danúbio aliás muito esquisito, de águas negras
e margens sem nome. Sou um homem de uma certa idade,
porém recém cheguei ao mundo. Ou será que não é errado,
afinal de contas, tomar a mulher do próprio irmão, que nos
ama e só quer o nosso bem?

V a l e n t in e (Docemente.)
Quando nos conhecemos nas férias em Dinard, joguei
tênis, nadei muito mais vêzes com o senhor do que com seu
irmão. . . Passeamos muito mais vêzes juntos pelos rochedos.
Foi somente com o senhor que troquei beijos. Depois, fui
a algumas festinhas em casa de sua mãe, e aí é que seu irmão
se apaixonou por mim; mas era ao senhor que eu vinha
ver.

G a sto n
Mas foi com êle que a senhora se casou, não foi?

73
V a l e n t in e
O senhor era uma criança. Eu era menor de idade,
órfã, sem um vintém, morava com uma tia, minha benfeitora,
que me fêz pagar muito caro pelas primeiras propostas que
recusei. Por que iria eu me vender a outro e não a alguém
que me aproximasse do senhor?

G a sto n
Tem uma seção nas revistas femininas que responde a
êsse tipo de perguntas.

V a l e n t in e
Ao voltar da viagem de lua de mel, tornei-me sua
amante.

G a sto n
Ah! Pelo menos esperamos um pouco.

V a l e n t in e
Um pouco? Dois meses, dois meses horríveis. Depois
tivemos três anos só para nós, porque a guerra estourou logo
em seguida, e Georges partiu no dia 4 de agosto. . . E depois
desses dezessete anos, Jacques. . .
(Ela põe a mão em seu braço e êle recua.)

G a sto n
Eu não sou Jacques Renaud.

V a l e n t in e
Assim mesmo. . . Deixe eu contemplar o fantasma do
único homem que eu amei. . . (Esboça um sorriso.) Oh,
você enruga a bôca. . . (Ela encara-o bem de frente, êle fica
sem jeito.) Nada em mim corresponde a alguma coisa em
sua loja de acessórios, um olhar, uma inflexão de voz?

G a sto n
Nada.

74
V a l e n t in e
Não seja assim tão duro, por mais infernal que tenha
sido êsse Danúbio de onde veio! É uma coisa grave, entenda,
uma mulher que amou alguém reencontrar um dia, depois de
uma interminável ausência, se não o seu amante, ao menos,
pela reconstituição do mais imperceptível jeito de enrugar a
bôca, o seu fantasma escrupulosamente exato.

G a sto n
Sou talvez um fantasma cheio de exatidão, mas não sou
Jacques Renaud.

V a l e n t in e
Olhe bem para mim.
G a sto n
Eu estou olhando bem pai'a a senhora. A sra. é encan­
tadora, mas eu não sou Jacques Renaud!
V a l e n t in e
Não sou nada para o senhor, tem certeza?

G a sto n
Nada.

V a l e n t in e
Então, o senhor nunca irá recuperar a sua memória.

G a sto n
Às vêzes é o que chego a. desejar. [Pausa. Assim mesmo,
inquieta-se.) Por que nunca mais vou recuperar a memória?

V a l e n t in e
O senhor não se lembra nem sequer de pessoas que viu há
dois anos.

G a sto n
Há dois anos?

75
V a l e n t in e
Uma roupeira, uma roupeira substituta,. .
G a sto n
Uma roupeira substituta? (Pausa. Subitamente pergun­
ta.) Quem lhe contou isso?
V a l e n t in e
Ninguém. Fui eu quem assumiu — com a aprovação de
minha sogra, aliás — êsse papel, para poder me aproximar
livremente do senhor. Olhe bem para mim, homem sem me­
mória. ..

G a st o n ( Olha-a atraído, perturbado apesar de tudo.)


Era a senhora a roupeira que só ficou um dia?

V a l e n t in e
Sim, era eu.
G a sto n
Mas naquele dia a senhora não me falou nada?
V a l e n t in e
Eu não queria falar nada antes d e. .. Eu esperava —
veja o quanto eu acredito no amor — no seu amor — que, ao
possuir-me você recuperaria a memória.

G a sto n
E depois?
V a l e n t in e
Depois, como eu ia lhe dizer, lembra-se? Fomos surpreen­
didos.

G a sto n (Sorri dessa lembrança.)


Ah, o ecônomo!

V a l e n t in e (Também sorrí.)
É, o ecônomo.

76
G a sto n
Mas a senhora não gritou aos quatro ventos que tinha
me reconhecido?
V a l e n t in e
Gritei, mas eram cinquenta famílias fazendo o mesmo.

G a st o n (Com um riso nervoso, subitamente.)


Mas é verdade, como sou bobo, todos me reconhecem!
Isso não prova que eu seja Jacques Renaud.

V a l e n t in e
Recorda-se, em todo o caso, da roupeira com sua grande
pilha de lençóis?
G a sto n
Claro que recordo. Aparte a minha amnésia, tenho muito
boa memória.
V a l e n t in e
Gostaria de tomar de nôvo em seus braços aquela empre­
gada da rouparia?
G a st o n ( Repelindo.)
Esperemos primeiro saber se eu sou Jacques Renaud.
V a l e n t in e
E se o senhor fôr Jacques Renaud?
G a st o n
Se eu fôr Jacques Renaud, por nada deste mundo voltarei
a abraçá-la. Não quero ser o amante da esposa de meu
irmão.
V a l e n t in e
Mas se já o foi!. . .

G a sto n
Já faz tanto tempo, e desde então tenho sido tão infeliz,
que me lavei de minha juventude.

77
Com um pequeno riso triunfante.)
V a l e n t in e (

Já esqueceu sua empregada da rouparia!. . . Se o senhor


é Jacques Renaud. faz só dois anos que foi amante da esposa
de seu irmão. O senhor mesmo, e não um jovem distante!
G a sto n
Eu não sou Jacques Renaud!

V a l e n t in e
Escute, Jacques, é preciso que você renuncie à maravilhosa
simplicidade dessa vida de amnésico. Escute, Jacques, você
tem que se aceitar. Tôda a nossa vida, com a nossa bela moral
e nossa querida liberdade, consiste, afinal de contas, em nos
aceitarmos tal qual somos... Esses dezessete anos de asilo,
durante os quais você se conservou tão puro, é a duração exata
de uma adolescência, a sua segunda adolescência, que hoje
está terminando. Você vai se tornar novamente um homem,
com tudo o que isso implica de tarefas, de rasuras e também de
alegrias. Aceite-se, e me aceite, Jacques.

G a sto n

Se alguma prova me obrigar a isso, eu teria que me aceitar,


mas à senhora eu não aceitarei nunca!

V a l e n t in e
Mas se há dois anos atrás você fêz isso sem querer!

G a sto n
Eu não estava possuindo a mulher de meu irmão.

V a l e n t in e
Quando é que você vai desistir dessas grandes palavras?
Veja, de agora em diante você se tornará um homem, seus
novos problemas nunca serão tão simples que você possa
resumi-los numa fórmula. . . Você me roubou dêle, sim. Mas
antes, êle me havia roubado de você, simplesmente porque
êle se tornou um homem, senhor de seus atos, primeiro que
você.

78
G a sto n
E depois, não é só a senhora. . . Eu não faço questão
nenhuma de ter saqueado uma velha, violado empregadas.

V a l e n t in e
Que empregadas?

G a st o n
Outra coisa. . . Não faço nenhuma questão também de
ter erguido a mão contra minha mãe, ou de nenhuma das
excentricidades dêsse meu horrível sósia.

V a l e n t in e
Gomo você g rita !... Mas você chegou quase a fazer
isso agora há pouco. . .

G a sto n
Disse a uma velha senhora desumana que eu a detestava,
e essa velha senhora não era minha mãe.

V a l e n t in e
Sim, Jacques! E foi por isso que você lhe falou com
tanta veemência. E, está vendo? Bastou passar uma hora
com os personagens de seu passado, para você repetir as
atitudes que tinha antigamente com êles. Escute, Jacques,
vou para o meu quarto, porque você irá ficar furioso. Dentro
de dez minutos, você me chamará, porque as suas fúrias são
muito violentas, mas não duram mais do que dez minutos.

G a st o n
Que sabe a senhora? Isso já está me deixando irritado.
A senhora está querendo insinuar que me conhece melhor do
que eu mesmo.

V a l e n t in e
Mas claro que sim!. . . Ouça, Jacques, ouça. Há uma
prova decisiva que eu nunca pude contar a ninguém !...

79
G a sto n (Recuando.)
Não acredito.
V a l e n t in e (Sorri.)
Espere, eu ainda não disse.

( Gritando.)
G a st o n
Não quero acreditar na senhora, não quero acreditar em
ninguém. Não quero que ninguém me fale mais no meu
passado!

A D u q u e sa (Entra repentinamente, seguida pelo dr. Huspar;


Valentine oculta-se no banheiro.)
Gaston, Gaston, é espantoso! Acaba de chegar uma gente
furiosa, tonitroante, uma de suas famílias. Fui obrigada a
recebê-los. Cobriram-me de insultos. Compreendo agora que
cometi uma terrível imprudência por não ter seguido a ordem
de inscrição que anunciamos nos jornais. . . Essas pessoas se
consideram roubadas. Vão fazer um escândalo, acusar-nos
de Deus sabe o quê!

H u spa r
Estou certo que ninguém ousará suspeitar da senhora.

A D u q u e sa
Mas então o senhor não compreende que êsses duzentos
e cinqüenta mil francos os tornam cegos! Falam em favori­
tismo, injustiça. Daí a pretender que o meu pequeno Albert
receba dinheiro da família a qual êle atribuir Gaston é só
um passo!

O M ordomo (Entrando.)
Eu peço perdão à senhora duquesa, mas aqui há mais
pessoas que desejam falar com o dr. Huspar ou com a senhora
duquesa.

A D u q u esa
Como se chamam?

80
' O M ordomo
Deram-me êste cartão, que eu não quis apresentar ime­
diatamente à senhora duquesa porque é comercial. {Lê, com
muita dignidade.)
Manteiga, ovos, queijos
Casa Bougran
A D u q u e sa (Procurando na sua agenda.)
Bougran? O senhor disse Bougran? É a dona da lei-
teria!
O C am areiro (Bate e entra.)
Peço perdão à senhora; mas está aí um senhor, ou antes,
um homem, perguntando pela senhora duquesa. Em vista de
seu aspecto, devo dizer à senhora que não me atrevi a mandá-lo
entrar.
A D u q u e sa ( Olhando na agenda.)
Como se chama? Legropâtre ou Madensale?
O C amareiro
Legropâtre, senhora duquesa.
A D u q u e sa
Legropâtre é o lampadeiro! Faça-o entrar com tôda a
atenção! Chegaram todos no mesmo trem. Aposto que os
Madensale vêm logo em seguida. Telefonei para Pont-au-Bronc.
Vou pedir-lhes que tenham paciência.
(Sai rapidamente, seguida pelo advogado Huspar1.)
G a st o n (Murmura, arrasado.)
Todos vocês têm provas, fotografias parecidas, recordações
tão precisas como crimes. . . Eu ouço vocês todos e vou sen­
tindo surgir por trás de mim, pouco a pouco, um ser híbrido,
onde há um pouco de cada um dos filhos de vocês, e nada de
mim. {Repete.) Eu, eu. Eu existo, apesar de todas as
estórias de vocês.. . A senhora me falou há pouco da mara­
vilhosa simplicidade da minha vida de amnésico... Não me
faça rir. Experimente agarrar todas as virtudes e todos os
vícios e pendurá-los às costas.

81
V a l e n t in e ( Que tornou a entrar após a saída da duquesa.)
A sua sorte será bem mais simples se quiser me ouvir só
um minuto, Jacques. Ofereço a você uma alternativa um
pouco pesada, certo, mas que parecerá leve pois irá livrá-lo
de tôdas as outras. Você quer me ouvir?
G a sto n
Estou ouvindo.
V a l e n t in e
Eu nunca vi você nu, não é verdade? Pois bem, você
tem uma cicatriz, uma cicatriz muito pequena, que não foi
descoberta por nenhum dos médicos que o examinaram, tenho
certeza. Está a dois centímetros abaixo da sua omoplata es­
querda. Eu espetei em você o alfinete do meu chapéu —
ah! Gomo a gente se enfeitava em 1915! — num dia em
que pensei que você havia me traído.
(Sai. Êle permanece aturdido por um instante, depois
começa lentamente a tirar o casaco.)

PANO

82
QUARTO QUADRO
li
II
O chofer e o camareiro, trepados em uma cadeira,
num corredorzinho escuro, espiam por um ôlho-de-boi,

O C amareiro
Ei! Olha só! Está tirando a ro u p a...
O C h o f e r (Empurrando-o para tomar seu lugar.)
Não brinca; mas êsse cara é completaménte tantã! Que
é que êle está fazendo? Procurando uma pulga? Espera,
espera. Agora trepou numa cadeira para se olhar no espelho
da lareira...
O C amareiro
Você está brincando. . . Trepou numa cadeira?
O C hofer
Estou lhe dizendo.
O C amareiro (Tomando o lugar do outro.)
Deixe eu v e r... Ah! Puxa vida! E tudo isso só para
ver as costas. Te digo que êle é tantã. Bem. Agora está
descendo. Já viu o que queria. Está vestindo de nôvo a
camisa. Sentou-se. .. Ah! Veja s ó ... Não é possível!
O C h ofer
Que é que êle está fazendo?
O C am areiro (Volta-se, estarrecido.)
Está chorando. . .

PANO

S5
QUINTO QUADRO
1 \

O quarto de Jacques. As persianas estão fechadas, a


sombra avermelhada está raiada de luz. Ê de manhã.
Gaston está deitado na cama e dorme. O' mordomo
e o camareiro estão levando para o quarto animais
empalhados que vão dispondo ao redor da cama. A
duquesa e a senhora Renaud dirigem essa operação,
do corredor. Tudo ê feito com cochichos e na ponta
dos pés.

O M ordomo
Devemos colocá-los por igual ao redor do leito, sra.
duquesa?
A D u q u e sa
Sim, sim, ao redor do leito, para que, ao abrir os olhos,
êle os veja todos ao mesmo tempo.
S e n h o r a R ena ud
Ah! Se a visão desses animaizinhos pudesse fazê-lo voltar
a si!
A D u q u e sa
Isso poderá impressioná-lo bastante.
S e n h o r a R ena ud
Êle gostava tanto de persegui-los! Subia nas árvores, em
alturas vertiginosas, para passar visco nos galhos.
A D u q u e sa (A o mordomo.)
Ponha um em cima do travesseiro, bem perto dêle. Sim,
sim, em cima do travesseiro.
O M ordom o
A senhora duquesa não receia que êle se assuste quando
acordar, ao ver êsse animalzinho tão perto de seu rosto?

89
A D u q u esa
Uma coisa excelente, o mêdo, no caso dele, meu amigo.
Excelente. (Volta-se para a senhora Renaud.) Ah, não posso
lhe esconder que a inquietação me devora! Consegui acalmar
aquela gente ontem à noite dizendo-lhes que Huspar e o
meu pequeno Albert estariam hoje aqui, à primeira hora da
manhã; mas quem sabe se conseguiremos nos livrar deles sem
percalços?. ..
O C am areiro (Entra.)
As famílias presumidas do senhor Gaston acabam de chegar,
senhora duquesa.
A D u q u e sa
Está vendo! Eu lhes disse nove horas, e estão aí às nove
menos cinco. Essa gente não cederá jamais.
S e n h o r a R ena ud
Para onde os levou, Victor?
O C amareiro
Para o salão grande, senhora.
A D u q u e sa
São os mesmos de ontem? É bem idéia de campônios, virem
todos juntos para se defenderem melhor.
O C amareiro
São mais, senhora duquesa.
A D u q u e sa
Mais? Como assim?
O C amareiro
Sim, senhora duquesa, três mais, que vieram juntos. Um
senhor de boa aparência, com um menino e a governanta.
A D u q u e sa
Uma governanta? Que gênero de governanta?

90
O C amareiro
Inglêsa, minha senhora.
A D u q u e sa
Ah, são os Madensale!. . . Êles me parecem encanta­
dores. É o ramo inglês da família que reclama Gaston. . .
É comovente virem de tão longe em busca de um dos seus,
não lhe parece? Rogue a essas pessoas que esperem alguns
minutos, meu amigo.
S e n h o r a R ena ud
Mas essas pessoas não irão tirá-lo de nós antes que êle
fale, não é mesmo, minha senhora?
A D u q u e sa
Não tenha mêdo. A prova começou por vocês, e será
necessário que, queiram êles ou não, seja concluída de modo
regular. Meu pequeno Albert prometeu-me ser muito firme
nesse ponto. Mas, por outro lado, deveremos ser muito diplo­
máticos, para evitar o menor escândalo que seja.
S e n h o r a R en a u d
Tenho a impressão de que a senhora exagera um pouco
o perigo de escândalo.
A D u q u e sa
Não se engane, minha senhora! A imprensa de esquerda
está de olho no meu pequeno Albert, sei muito bem: tenho
os meus espiões. Essa gente vai se atirar sobre essa calúnia,
como urubus em carniça. E, por mais que eu deseje que
Gaston entre numa família simpática, não posso admitir isso
de modo algum. Assim como a senhora é mãe, eu sou tia —
acima de tudo. (Aperta-lhe o braço.) Mas creia-me, meu
coração está tão partido quanto o seu por tudo o que essa
provação pode ter de doloroso e torturante. (O camareiro passa
junto a ela com esquilos empalhados. Ela acompanha-o com
o olhar.) Como é lindo o pêlo de um esquilo! Como é que
ninguém pensou ainda em fazer casacos com êles?
Senhora R en a u d (Pasma.)
Não sei.

91
O C amareiro
Devem ser pequenos demais.

O M ordomo (Que está vigiando a porta.)


Cuidado! O patrão se mexeu.

A D u q u e sa
Acima de tudo, que êle não nos veja. (Para o Mordomo.)
Abra as persianas.
(O quarto enche-se de luz. Gaston abre os olhos. Vê
algo bem perto do seu rosto. Recua e senta na cama.)

G a sto n
O que é? (Vê-se rodeado de doninhas, de furões, de
esquilos empalhados, arregala os olhos e exclama.) Que querem
dizer todos esses animais? Que querem de mim?

O M ordomo (Avançando.)
São animais empalhados, senhor. São os bichinhos que
o senhor gostava tanto de matar. Então o senhor não os
reconhece?
G a sto n ( Grita com voz rouca.)
Eu jamais matei um animal! (Levanta-se, o camareiro
precipita-se com o roupão. Os dois entram no banheiro.
Porém Gastem volta logo e vai de novo até os animais.) Como
é que êle os apanhava?

O M ordomo
Lembre-se, meu senhor, das armadilhas de aço que o
senhor costumava escolher longamente no catálogo da Manu­
fatura de Armas e Aparelhos de Saint-Etienne. . . Para alguns
deles, o senhor preferia utilizar o visco.

G a sto n
Ainda não estavam mortos quando os encontrava?

92
O M ordomo
Geralmente não, senhor. O senhor terminava de matá-los
com a faca de caça. O senhor executava isso com muita
habilidade.
G a st o n (Após uma pausa.)
Que se pode fazer pelos animais mortos? (Aproxima-se
dêles com um gesto tímido, que não chega a ser uma carícia,
e divaga por um momento.) Que carícias fazer nessas peles
repuxadas, ressequidas? Irei todos os dias jogar avelãs e miolo
de pão aos outros esquilos. Proibirei, sempre que puder, que
se maltratem as doninhas. . . Porém como irei consolar estes
aqui da longa noite em que sofreram e sentiram mêdo, sem
compreender, com a pata presa na armadilha imóvel?

O M ordomo
Oh, o senhor não deve se afligir tanto. Não é muito
grave, afinal; são uns animaizinhos, e depois, agora, já passou.

G a st o n (Repete.)
Já passou! E mesmo que eu fôsse bastante poderoso para
tornar feliz para sempre a vida dos animaizinhos dos bosques. . .
O senhor disse: já passou. (Dirige-se ao banheiro dizendo.)
Por que não estou com o mesmo roupão de ontem à noite?

O M ordomo
Esse também é do senhor. A senhora disse-me para fazê-lo
experimentar todos, na esperança de que o senhor reconheça
um dêles.
G a sto n
O que tem nos bolsos dêste? Mais recordações, como
ontem?
O M ordomo (Seguindo-o.)
Não, senhor. Desta vez são bolas de naftalina.
(Assim que a porta do banheiro é fechada, a duquesa e
a sra. Renaud saem de seu esconderijo.)
O M ordomo ( C o m u m g e s t o , a n t e s d e s a i r .)
Como a senhora deve ter ouvido, não creio que o senhor
tenha reconhecido nada,
S e h n o r a R ena u d (Despeitada.)
Dir-se-ia que êle está com má vontade.
A D u q u e sa
Se fôsse só isso, creia-me que eu lhe falaria muito severa­
mente, mas receio que, infelizmente, seja algo muito mais
grave.
G eorges (Entrando.)
Então, êle já se levantou?
A D u q u e sa
Sim, mas nossa pequena conspiração não deu em nada.
S e n h o r a R ena ud
Ficou muito triste ao ver os restos desses pobres bichos
e nada mais.
G eorges
Querem deixar-me um momento a sós com êle? Eu gostaria
de tentar uma coisa.
S e n h o r a R ena ud
Desejo-lhe boa sorte, Georges! Eu já estou perdendo a
esperança.
G eorges
A senhora não deve desanimar, mamãe, não deve. Pelo
contrário, é preciso manter a esperança até o fim. Apesar de
todas as evidências.
S e n h o r a R ena u d (Um pouco desenxabida.)
A atitude dêle é realmente fatigante. Quer saber de uma
coisa? Tenho a impressão de que êle está teimando comigo,
como antes. ..
G eorges
Mas se êle nem sequer reconheceu a senhora. . .

94
S e n h o r a R enaud
Oh, êle tinha tão mau gênio! Você acha que só por
causa da amnésia êle iria mudar?
A D u q u e sa (Levando-a embora.)
Eu acho que a senhora exagera a hostilidade dêle para
consigo. Não quero lhe dar nenhum conselho, mas gostaria
de dizer-lhe que o seu modo de agir me parece um pouco
frio demais. A senhora é mãe, que diabo! Seja patética.
Atire-se aos pés dêle, chore.
S e n h o r a R ena ud
O meu maior desejo é que Jacques volte para nós, mas
eu não sabería chegar até êsse ponto, minha senhora. Princi­
palmente depois de tudo o que se passou.
A D u q u e sa
É pena. Tenho certeza de que isso o atingiría muito.
Se alguém quisesse me roubar o meu pequeno Albert, eu me
tornaria feroz como um animal selvagem. Já lhe contei que
quando o reprovaram no curso de bacharelado, eu me pendurei
nas barbas do decano da faculdade?
(As duas saem. Georges, depois de bater um pouco na
porta do quarto, entra, timidamente.)
G eorges
Posso falar com você, Jacques?
A Voz de G a sto n (D o b a n h e iro .)

Quem é, agora? Pedi que não deixassem entrar ninguém.


Será que não posso sequer me lavar sem que me acossem com
perguntas, sem que me enfiem recordações pelo nariz?
O C amareiro (Entreabrindo a porta.)
O senhor está tomando banho, meu senhor. (Para Gaston,
invisível.) É o senhor, meu senhor.
A Voz de G a st o n (Ainda amuado, porém mais suave.)
Ai, é o senhor?

95
G eorgês (P ara 0 c á íM te iro .)

Saia um momento, Victor. (Êle sai. Georges aproxima-se


da porta.) Peço-lhe perdão, Jacques... Entendo muito bem
que você termine se aborrecendo com nossas estórias. .. Mas
o que eu quero lhe dizer é muito im portante... Se não fôr
inconveniente, gostaria muito que me permitisse. . .
A Voz de G a st o n (D o b a n h e iro .)

Que sujeira a mais o senhor encontrou no passado de seu


irmão para me jogar às costas?
G eorges
Mas não se trata de sujeira, Jacques, pelo contrário, são
reflexões que eu quero lhe comunicar, reflexões, se você der
licença. (H e s i t a u m s e g u n d o e c o m e ç a . ) Você compreende,
sob o pretexto de que somos, e sempre fomos, gente honesta,
que nunca fizemos nada de mal (o que, para alguns, afinal de
contas, é coisa muito fácil), julgamos que tudo nos é permi­
tido. .. Falamos com os demais, do alto da nossa serenidade...
Fazemos acusações, nos queixamos. .. ( P e r g u n t a b r u s c a m e n t e . )
Você não ficou com raiva de mim por causa dé ontem?
(A resposta vem carrancuda como a anterior e como se
tivesse saído a contragosto, com um segundo de atraso.)
A Voz de G a sto n
Por quê?
G eorges
Mas de tudo aquilo que eu contei a você, exagerando,
me fazendo de vítima. Por essa espécie de chantagem que
fiz para você com minha estória infeliz... (Ouve-se um ruído
no banheiro. Georges, assustado, levanta-se.) Espere, espere,
não saia já do banheiro, deixe eu terminar primeiro, é melhor
para mim. Se você estiver diante de mim, eu vou retomar meu
ar de irmão mais velho, e nunca sairei disso. . . Compreenda,
Jacques, pensei muito esta noite; o que se passou foi horrível,
não há dúvida, mas você era uma criança — não é? — e ela
também. E depois, em Dinard, antes do nosso casamento, ela
gostava mais de passear com você do que comigo, vocês dois talvez
já se amassem antes, como duas crianças que não podem fazer
nada. .. e eu fui atrapalhar vocês com meu dinheiro, com minha
situação, minha idade. . . . Fiz o papel do noivo sério. .. sua
tia deve tê-la obrigado a aceitar o meu pedido... Enfim,
eu pensei essa noite que não tenho o direito de acusá-lo dessas
coisas, e, portanto, retiro tudo o que eu disse. Pronto.
(Cai sentado, sem poder mais. Gaston sai do banheiro,
uai lentamente até êle e põe a mão no ombro dêle.)
G a sto n
Gomo pôde o senhor amar tanto esse sujeitinho canalha,
êsse estúpido?
G eorges
Que quer? Era meu irmão.
G a sto n
Êle jamais agiu como irmão. Roubou, enganou. . . O
senhor odiaria seu melhor amigo se êle tivesse agido dessa
forma.
G eorges
, Um amigo não é a mesma coisa. Era meu irmão. . .
G a sto n
E como pode desejar vê-lo de volta, mesmo mais velho,
mesmo mudado, entre sua mulher e o senhor?
G eorges (Com simplicidade.)
Que é que você quer? Mesmo se fôsse um assassino,
êle faz parte da família, seu lugar é entre nós.
G a sto n (Repete, após uma pausa.)
Faz parte da família, seu lugar é entre nós! Como é
simples! {Fala para si mesmo.) Êle pensava que era bom,
mas não é; honesto também não. Sozinho no mundo e livre,
a despeito dos muros do asilo — e o mundo está povoado de
seres com os quais êle está comprometido e que o esperam —
e seus gestos mais humildes não são senão prolongamentos de
seus gestos antigos. Como é simples! (Agarra brutalmente
Georges pelo braço.) Por que o senhor ainda me vem com

97
essa estória barata? Por que vetn me jogar na cara o seu
afeto? Para que tudo seja mais simples ainda, sem dúvida?
(Cai sentado no leito, estranhamente fatigado.) Vocês ven­
ceram.
G eorges (Consternado.)
Mas, Jacques, não entendo suas queixas. . . Forcei-me a
vir aqui dizer-lhe essas coisas, ao contrário, creia-me, para
lhe dar um pouco de calor na solidão que você deve ter
descoberto em torno de si desde ontem.
G a sto n
Essa solidão não era a minha pior inimiga. . .
G eorges
Talvez você tivesse sentido no olhar dos empregados que
êles se sentem contrafeitos ao seu redor. Mas isso não deve
lhe dar a impressão de que ninguém o am ava... Mamãe. . .
(Gaston encara-o, êle se perturba.) Bem, enfim, eu principal­
mente, gostava muito de você.
G a sto n
E além do senhor?
G eorges
M a s... {Está contrafeito.) Que quer você?.. . Valentine,
evidentemente.
G a sto n
Estava apaixonada por mim, não é a mesma coisa. . .
Resta apenas o senhor.
G eorges (Abaixa a cabeça.)
Sim, talvez.
G a st o n
Por quê? Eu não consigo entender por quê.
G eorges (Docemente.)
Não sonhou nunca com um amigo que fosse de início um
menino que o senhor levasse a passear pela mão? O senhor
que ama tanto a amizade, imagine só que dádiva seria um

98
amigo tão nôvo, a quem poderia ensinar o segredo das pri­
meiras letras do alfabeto, as primeiras pedaladas de bicicleta,
as primeiras braçadas na água. Um amigo tão frágil que você
tenha necessidade de defendê-lo todo o tempo. . .
G a st o n (Depois de um tempo.)
Eu era muito pequeno quando seu pai morreu?
G eorges
Você tinha dois anos.
G a sto n
E o senhor?
G eorges
Q uatorze.. . Tive de cuidar de você. Você era muito
pequeno. (Pausa. Êle lhe diz sua verdadeira desculpa.) Você
foi sempre pequeno demais para tudo. Para o dinheiro que
lhe demos cedo demais, como imbecis, para a dureza de
mamãe, para a minha própria fraqueza, minha falta de jeito.
Aquêle orgulho, aquela violência contra os quais você se debatia
já desde os dois anos, eram monstros de que você não tinha
culpa, pois cabia a nós salvá-lo dêles. Não apenas não sou­
bemos fazê-lo, como passamos a culpa a você; deixamos que
você partisse sozinho para a g u erra... Com o seu fuzil, sua
mochila, a máscara contra gás, os dois cantis, você devia ser
um soldado tão pequenino na plataforma da estação!
G a sto n(Encolhe os ombros.)
Imagino que os que tinham grandes bigodes e um aspecto
feroz também eram pequenos soldados, aos quais foi pedido
algo acima de suas forças. . .
G eorges ( Grita quase dolorosamente.)
Sim, mas você só tinha dezoito anos! E após as línguas
mortas e a vida decorativa dos conquistadores, a próxima coisa
que os homens iriam exigir de você, é que limpasse as trin­
cheiras com um facão de cozinha.
G a st o n (Com um riso que soa falso.)
E daí? Matar me parece para um jovem uma excelente
maneira de tomar contato com a vida.

99
O M ordomo (Aparecendo.)
A senhora duquesa pede ao senhor que tenha a bondade
de vir encontrá-la no grande salão, assim que o senhor estiver
pronto.
G eorges (Levanta-se.)
Vou deixá-lo. Mas, por favor, apesar de tudo que possam
lhe ter dito, não deteste demais êsse Jacques. . . Creio que
êle era sobretudo um pobre menino.
(Sai. O mordomo permanece e ajuda Gaston a se vestir.)
G a sto n (Pergunta bruscamente.)
Mordomo?
O M ordomo
Senhor?
G a st o n
O senhor nunca matou ninguém?

O M ordom o
O senhor sem dúvida está brincando. O senhor bem
pode imaginar que se eu tivesse matado alguém, eu não estaria
servindo nesta casa.
G a sto n
Nem sequer durante a guerra? Um encontro repentino,
ao saltar num abrigo, durante uma segunda onda de ataque?
O M ordomo
Fiz a guerra como cabo do vestiário, e devo dizer ao
senhor que, na intendência, não havia ocasião para isso.

G a st o n (Imóvel, muito pálido, e suavemente.)


O senhor teve sorte, mordomo. Pois é uma sensação
terrível ter de matar alguém para poder viver.
O M ordomo (Incerto se deve rir ou ficar sério.)
O senhor disse muito bem: terrível! Sobretudo para a
vítima.

100
G a sto n
O senhor se engana, mordomo. Tudo é questão de imagi­
nação. E a vítima muitas vêzes tem menos imaginação do
que o assassino. (Pausa.) Por vêzes, ela não passa de uma
sombra sonhada pelo assassino.
O M ordomo
Nesse caso, creio que ela deve sofrer menos, meu senhor.
G a sto n
Mas o assassino, em compensação, tem o privilégio de
sofrer pelos dois. O senhor ama a vida, mordomo?
O M ordomo
Gomo todo o mundo, meu senhor.
G a sto n
Imagine que, para viver, o senhor se veja obrigado a
lançar para sempre no nada a um homem jovem. Um jovem
de dezoito anos. . . Um rapazinho orgulhoso, safado, mas
assim m esm o... um coitado. O senhor se tornaria livre,
mordomo, o homem mais livre do mundo, mas para isso é
preciso que deixe para trás o cadáver dêsse pequeno inocente.
Que faria o senhor?
O M ordomo
Eu lhe asseguro, meu senhor, que jamais me fiz essa
pergunta. Mas devo ajuntar igualmente que, se os romances
policiais forem dignos de crédito, jamais se deve deixar um
cadáver atrás de si.
G a sto n (Explode subitamente numa gargalhada.)
Mas se ninguém, a não ser o assassino, fôr capaz de
enxergar o cadáver? (Vai até êle e, gentilmente.) Pronto,
sr. mordomo, está feito. Está aí, aos seus pés. O senhor o
enxerga?
( O mordomo olha para seus pês, pula para um lado, olha
ao seu redor e foge, apavorado, tão rápido quanto o permite
a sua dignidade. Valentine aparece em seguida no corredor, e
corre até o quarto.)

101
V a l e n t in e
O que me disse Georges é verdade? Você não lhes disse
nada, ainda? Não quis ser a primeira a entrar no seu quarto
hoje cedo, mas pensei quê me chamariam logo para dar a
boa notícia. Por que você não lhes disse? (Gaston olha-a sem
falar.) Mas enfim, você vai me deixar louca! Sem dúvida
alguma você viu aquela cicatriz ontem à noite no espelho?
G a st o n (Suavemente, sem deixar de fitá-la.)
Não vi cicatriz alguma.
V a l e n t in e
Que é que você está dizendo?

G a sto n
Estou dizendo que examinei minhas costas com muita
atenção e não vi cicatriz alguma. A senhora deve ter se
enganado.
V a l e n t in e (Olha-o um instante, aturdida, depois compreende
e subitamente exclama.)
Oh, eu o detesto, eu o detesto!...

G a sto n (Muito calmo.)


Creio que assim é melhor.
V a l e n t in e
Mas será que ao menos você se dá conta do que está
fazendo?
G a sto n
Sim, Estou recusando meu passado e seus personagens
— eu inclusive. Vocês talvez sejam minha família, meus
amores, minha estória verídica. Sim, mas o problema é que. . .
vocês não me agradam. Não quero vocês.
V a l e n t in e
Mas você está louco! Você é um monstro! Não é possível
recusar o passado. Não é possível recusar a si mesmo...

102
G a sto n
Sou talvez o único homem, é verdade, a quem o destino
deüi a possibilidade de realizar esse sonho universal. .. Sou
homem feito, e posso ser, se quiser, tão nôvo quanto uma
criança! Seria um crime não aproveitar êsse privilégio. Eu
recuso vocês. De ontem para cá, já houve bastante coisa
que eu gostaria de esquecer.
V a l e n t in e
E do meu amor, o que faz você? Não tem também
curiosidade de conhecê-lo?
G a sto n
Não vejo, neste momento, senão ódio em seus olhos. ..
Deve ser uma face do amor que só deve surpreender um
amnésico! Em todo o caso, me serve. Não quero ver outra.
Sou um amante que desconhece o amor de sua amante, que
não se lembra de seu primeiro beijo, de sua primeira lágrima
•—• que não é prisioneiro de nenhuma recordação, e que amanhã
já terá esquecido tudo. Isso também é um privilégio muito
raro. Vou me aproveitar dêle.
V a l e n t in e
E se eu gritasse aos quatro ventos que reconhecí essa
cicatriz?
G a sto n
Eu já considerei essa hipótese. Do ponto de vista do
amor, parece-me que a Valentine de antes já o teria feito há
muito tempo, e é um sinal bastante consolador que a senhora
tenha se tornado prudente.. . Do ponto de vista legal, a
senhora é minha cunhada e diz que é minha amante. . . Que
tribunal tomaria uma decisão tão grave com base nesse escuso
caso de alcova, que só a senhora pode provar?
V a l e n t in e ( Polida, os dentes cerrados.)
Está bem. Você pode se orgulhar disso. Mas não pense
que, apesar de toda essa encenação de amnésia, sua conduta
seja muito surpreendente num hom em ... Tenho até certeza
de que, no fundo, você está muito satisfeito com sua atitude.

W3
Ê tão lisongeiro para um homem recusar uma mulher que
esperou por êle tanto tempo! Pois bem, desculpe se vou lhe
causar mágoa, mas fique sabendo. . . que eu tive outros amantes
desde então.
G a st o n (Sorri.)
Muito obrigado. Isso não me causa m ágoa...
(Aparecem no corredor o mordomo e o camareiro. Por
sua mímica, ficamos sabendo que lhes pareceu melhor irem os
dois juntos abordar Gaston.)
O C amareiro (Da soleira da porta.)
A senhora duquesa Dupont-Dufort pede que o senhor
ande depressa e tenha a bondade de ir encontrá-la no grande
salão, porque as famílias do senhor estão ficando impacientes.
( Gaston não se move, os criados desaparecem.)

V a l e n t in e (Estourando na gargalhada.)
As suas famílias, Jacques! Que bobagem, tenho vontade
de r i r . . . Porque você se esquece de uma coisa: é que, se
você se recusa a ficar conosco, terá que ir com elas, por bem
ou por mal. Você terá que se deitar nos lençóis de outro morto,
vestir as roupas de outro, e seus velhos chinelos piedosamente
guardados... As suas famílias estão ficando impacientes...
Vamos, venha, você que tem tanto mêdo do seu passado, venha
ver essas caras de pequenos burgueses e de camponeses, venha
se. perguntar que passados de cálculos e avareza êles têm a
propor a você.
G a sto n
Em todo o caso, vai ser difícil êles superarem vocês.

V a l e n t in e
Você acha? Aqueles quinhentos mil francos roubados e
esbanjados em risos e festas, lhe parecerão talvez pouca coisa
comparados com certas estórias de muros divisórios e pés de
m eias... Vamos, venha, já que você não nos quer, irá per­
tencer às suas outras famílias, agora.
(Ela quer arrastâ-lo, êle resiste.)

104
G a sto n
Não. Eu não vou.
V a l e n t in e
Ah, sim? E o que é que você vai fazer?
G a sto n
Vou embora.
V a l e n t in e
Para onde?
G a sto n
Que pergunta! Não importa para onde.
V a l e n t in e
Isso é conversa de desmemoriado. Nós que temos memória
sabemos que é preciso sempre escolher um rumo nas estações,
e que nunca se vai mais longe do que o preço da passagem.. .
Você pode escolher entre ir para Blois ou para Orleans. Quer
dizer que se você tivesse dinheiro, o mundo se abriría à sua
frente. Mas você não tem um vintém, como vai fazer?
G a sto n
Os seus cálculos não me interessam. Vou partir a pé,
pelos campos, em direção de Chateaudun.
V a l e n t in e
Você se sente assim tão livre por ter se livrado de nós?
Mas para a polícia você não passa de um louco que fugiu
de um asilo. Irão prendê-lo.
G a sto n
Já estarei longe. Eu caminho muito depressa.
V a l e n t in e ( Grita-lhe na cara.)
Pensa então que eu não darei o alarma quando você puser
um pé fora dêste quarto? (Êle vai subitamente até a janela.)
Você é ridículo, a janela é alta demais, não serve. (Êle vira-se
para ela como um animal acuado. Ela fita-o e lhe diz sua-
vemente.) Você poderá se ver livre de nós, talvez, mas não

105
do seu hábito de deixar transparecer todos os seus pensamentos
nos olhos... Não, Jacques, mesmo que você me matasse para
ganhar uma hora de fuga, eles apanhariam você. (Ête abaixa
a cabeça, encurralado num canto do quarto.) E depois, você
sabe que não sou só eu que quero agarrá-lo e segurá-lo, mas
tôdas as mulheres e todos os hom ens... Até os mortos bem
pensantes, que sentem obscuramente que você está querendo
fugir sem se despedir.. . Não é possível fugir de tanta gente,
Jacques. E quer você queira, ou não, você terá que pertencer
a alguém, ou retomar ao asilo.
G a sto n (Surdamente.)
Pois então eu volto para o asilo.

V a l e n t in e
Você se esquece que eu trabalhei um dia inteiro na
rouparia do seu asilo! Que eu vi você plantando bucòlica-
mente alfaces, mas também o vi esvaziando urinóis, lavando os
pratos, levando safanões dos enfermeiros quando você lhes pedia
um pouco de fumo para o cachimbo. . . Você banca o
orgulhoso conosco; nos trata mal, faz pouco de nós, mas sem
nós você não passa de um menino impotente que não tem
direito de sair sozinho e que deve esconder-se nas privadas
para fumar.

G a st o n (Faz um gesto quando ela termina.)


Pode ir, agora. Já não me resta nenhuma esperança: a
senhora já fêz o seu papel.
(Ela sai sem dizer uma palavra. Gaston fica só, passa
um olhar fatigado pelo quarto; pára diante do espelho do
guarda-roupa e olha-se durante longo tempo. Subitamente,
apanha um objeto em cima da mesa, perto dêle, sem tirar os
olhos de sua imagem, e lança-o com toda a força no espelho,
que se espatifa. Depois vai sentar-se na cama, com a
cabeça nas mãos. Um silêncio, depois começa a música, suave­
mente, de início bastante triste, depois, pouco a pouco, apesar
de Gaston, apesar de nós mesmos, cada vez mais alegre. <Após
um momento, um menino em trajes de colegial de Eton abre a
porta da antecâmara, olha inquisitivamente, depois torna a

106
fechar a porta com cuidado e aventura-se pelo corredor na
ponta dos pés. Abre todas as portas que vai encontrando no
caminho, lançando olhares interrogadores para dentro das peças.
A mesma coisa na porta do quarto. Fica diante de Gaston,
que ergue a cabeça, surpreendido com essa aparição.)
O M e n in o
Desculpe, senhor. Mas talvez possa me informar. Estou
procurando aquele lugar.

G a st o n (Saindo do seu devaneio.)


Aquele lugar? Que lugar?
O M e n in o
Aquele lugar onde a gente fica aliviado.
G a st o n (comprende, olha-o, depois subitamente explode numa
boa risada, a despeito dêle mesmo.)
Que engraçado! Imagine que eu também, neste momento,
estou procurando um lugar em que sinta alívio. . .
O M e n in o
Então eu me pergunto quem poderá nos informar.
G a st o n (Rindo novamente.)
Eu também me pergunto.
O M e n in o
Em todo o caso, se o senhor ficar aí, sem se mexer, nunca
irá encontrá-lo. (Percebe os cacos do espelho.) Oh, foi o
senhor quem quebrou o espelho?
G a sto n
Sim, fui eu.
O M e n in o
Agora compreendo porque o senhor está chateado. Mas
acredite, é melhor o senhor reconhecer logo a verdade. O
senhor é grande, não lhe podem fazer muita coisa. Mas, sabe,
dizem que isso dá azar.

207
G a sto n
É, dizem.
O M e n in o (Indo.)
Vou ver se encontro algum empregado no corredor. . .
Assim que eu souber, volto aqui para lhe dizer onde é. . .
(Gaston fita-o) . . . aquele lugar que nós dois estamos pro­
curando.
G a sto n (Lembra-se e sorri.)
Ouça, ouça. . . Aquele lugar que você está procurando
é mais fácil de encontrar do que o que eu procuro. Tem um
ali, no banheiro.
O M e n in o
Muito obrigado, senhor. (Entra no banheiro^ a música volta
ao seu temazinho zombeteiro. O menino volta após alguns
segundos. Gaston não se moveu.) Agora devo voltar ao salão,
é por ali?
G a sto n
Sim, é por ali. Você veio junto com as famílias?
O M e n in o
Sim. Está cheio de gente de todo o tipo que veio
tentar reconhecer um desmemoriado de guerra. Eu também
vim para isso. Fizemos uma viagem rápida de avião, pois
parece que tem coelho nesse mato. Enfim, o senhor sabe,
eu não entendi muito bem. Pergunte ao tio Job. O senhor
já viajou de avião?
G a sto n
De que família você faz parte?
O M e n in o
Madensale.
G a sto n
M adensale... Ah! sim !... Madensale, os ingleses...
Lembro-me muito bem da ficha. Grau de parentesco: tio. . .
Fui eu próprio quem copiou a etiqueta. Há um tio, sem
dúvida alguma, entre os Madensale.
O M e n in o
Sim, senhor. . .

108
G a sto n
O tio Job, é verdade. Pois bem, diga ao tio Job que, se
êle quiser um conselho, não alimente muitas esperanças a
respeito do seu sobrinho.
O M e n in o
Por que o senhor diz isso?
G a sto n
Porquq existem muitas probabilidades de que o sobrinho
em questão jamais reconheça o seu tio Job.
O M e n in o
Mas não há motivo algum para que êle o reconheça, meu
senhor. Não é o tio Job quem procura seu sobrinho.
G a ston
Ah, existe outro tio Madensale?
O M e n in o
Claro que sim, meu senhor. E é até mesmo um pouco
esquisito, no fundo. . . O tio Madensale sou eu.
G a sto n (Aturdido.)
Gomo você? Quer dizer o seu pai?
O M e n in o
Não, não. Eu mesmo. Ê muito chato, imagine o senhor,
uma criança ser tio de um homem grande. Levei muito tempo
para entender isso e me convencer. Mas meu avô teve filhos
até muito tarde, e daí que vem a coisa. Eu nasci vinte e
seis anos depois do meu sobrinho.
G a sto n (Explode numa risada franca e coloca o menino sôbre
seus joelhos.)
Então você é o tio Madensale?
O M e n in o
Sim, sou eu. Mas o senhor não deve rir de mim, eu não
tenho culpa.

109
G a sto n
Mas então êsse tio Job de que você fa la ...

O M e n in o
Oh, é um velho amigo de meu pai, que é meu advogado
em todas essas estórias de sucessão. E como me é muito difícil
chamá-lo de meu caro doutor, eu o chamo de tio Job.
G a st o n
Mas como se explica que você seja o único representante
dos Madensale?
O M e n in o
Foi por causa de uma terrível catástrofe. O senhor não
ouviu falar do naufrágio do “Netúnia” ?
G a sto n
Sim, há muito tempo.
O M e n in o
Pois tôda a minha família viajava nêle.
( Gaston contempla-o, maravilhado.)
G a sto n
Quer dizer que todos os seus parentes estão mortos?

O M e n in o (Gentilmente.)
Oh, mas o senhor não deve me olhar dêsse jeito. Não
é assim tão triste. Eu era um nenezinho muito pequeno na
época da catástrofe. . . Para falar a verdade, nem sequer
notei.
G a sto n (Recoloca-o no chão, considera-o, depois lhe dá uma
batidinha no ombro.)
Meu pequeno tio Madensale, você não sabe que grande
sujeito você é!
O M e n in o
Eu jogo cricket muito bem, sabe. O senhor sabe jogar?

110
G a sto n
O que eu não entendo é porque o tio Job vem do fundo
da Inglaterra à procura de um sobrinho para o seu pequeno
cliente. Um sobrinho que irá certamente complicar as coisas,
imagino.
O M e n in o
Oh, é que o senhor não está a par das sucessões. Ê
algo muito complicado, mas eu creio ter entendido que se não
encontramos o nosso sobrinho, a maior parte do meu dinheiro
me escapará das mãos. Isso me aborrece muito porque, dessa
herança faz parte uma mansão muito linda em Sussex, onde
há, pôneis maravilhosos... O senhor gosta de andar a ca­
valo?
G a st o n ( Subitamente sonhador.)
Quer dizer que o tio Job deve ter muita vontade de
reencontrar o seu sobrinho?
O M e n in o

E como! Não só por mim, mas por1 êle também. Êle


não me disse, mas a minha governanta me garante que êle
tem uma porcentagem sôbre todos os meus negócios.
G a sto n
Ah, bem! E que tipo de homem é êsse tio Job?
O M e n in o ( Com tôda a ingenuidade.)
Um senhor bastante gordo, de cabelos brancos. . .
G a sto n
Não, não é isso que eu quero dizer. Eu queria, aliás,
uma informação que você não poderá me dar. Onde é que
êle está neste momento?
O M e n in o
Está no jardim, fumando cachimbo. Não quis ficar espe­
rando com os outros no salão.
G a st o n
Bem. Você pode me levar até êle?

111
O M e n in o
Se o senhor deseja.
G a sto n (Toca a campainha. Ao camareiro, que entra.)
Quer avisar a senhora duquesa Dupont-Dufort que eu .
tenho uma comunicação fundamental, está me ouvindo? ■—
fundamental, a lhe fazer. Que ela me faça o favor de vir
até aqui.
O C amareiro
Uma comunicação fundamental. Muito bem, senhor, pode
contar comigo. (Sai muito excitado, murmurando). Funda­
mental.
G a st o n (Levando o menino até a porta oposta.)
Passemos por aqui. (Chegando à porta, pára e lhe per­
gunta.) Me diga uma coisa: você tem bem certeza que todos
da sua família estão mortos?
O M e n in o
Todos. Até os amigos íntimos, que haviam sido convidados
para êsse cruzeiro.
G a sto n
Perfeito.
(Faz o menino passar à sua frente, depois sai também. A
música recomeça, zombeteira. A cena permanece vazia por um
instante, depois entra a duquesa, seguida pelo camareiro.)
A D u q u e sa
Gomo, êle quer me ver? Mas êle sabe que eu o espero
há um quarto de hora. Uma comunicação, foi o que disse?
O C amareiro
Fundamental.
"A D u q u e sa (No quarto vazio.)
Bem, onde está êle?
( Gaston, seguido pelo tio Job e pelo menininho, entra
solenemente no quarto. Tremolo na orquestra, ou algo pa­
recido.)

112
G a st o n
. Senhora duquesa, apresento-lhe o advogado Pickwick,
procurador da família Madensale, da qual èis o único repre­
sentante. O dr. Pickwick acaba de me comunicar uma coisa
extremamente perturbadora: êle afirma que o sobrinho de seu
cliente possuía uma pequena cicatriz, ignorada por todos, a
dois centímetros abaixo de sua omoplata esquerda. Uma carta,
encontrada por acaso dentro de um livro, o fez saber da exis­
tência dessa cicatriz.
P ic k w ic k
Carta que, aliás, eu coloco à disposição das autoridades
do asilo, minha senhora, assim que eu voltar à Inglaterra.
A D u q u e sa
Mas, enfim, Gaston, você nunca viu essa cicatriz? Ninguém
jamais viu?
G a sto n
Ninguém.
P ic k w ic k
Mas como ela é muito pequena, minha senhora, pensei
que até agora pudesse ter passado despercebida.
G a sto n (Tirando o paletó.)
A experiência é simples. A senhora quer olhar?
(Tira a camisa, a duqueza apanha seu pince-nez, o dr.
Pickwick seus óculos de grossas lentes. Enquanto exibe-lhes o
dorso, Gaston inclina-se para o menino.)
O M e n in o
Tem mesmo essa cicatriz? Eu ficaria muito triste se não
fôsse o senhor.
G a sto n
Não tenha mêdo. Sou eu. . . Então é verdade que você
não se lembra nada de sua família. . . Nem sequer um rosto?
Nem uma anedota?
O M e n in o
Nada. Mas se isso o contraria, posso procurar obter algumas
informações.

113
G a sto n
Não, não faça isso.
A D u q u e sa (Que examina seu dorso, exclama subitamente.)
Aí está! Aí está! Ah, meu Deus, aí está ela!
P ic k w ic k (Que também procurava.)
É mesmo, aí está!
A D u q u e sa
Ah! Me dê um beijo, G aston... É preciso que você
me dê um beijo, é uma aventura tão maravilhosa!
P ic k w ic k (Sem rir.)
E tão inesperada. . .
A D u q u e sa (Cai sentada.)
É espantoso, acho que vou desmaiar!
G a st o n (Erguendo-a, com um sorriso.)
Não creio.
A D u q u e sa
Eu também não! Vou é telefonar para Pont-au-Bronc.
Mas diga-me, sr. Madensale, há uma coisa que eu queria muito
saber: no último abscesso de fixação, meu pequeno Albert fêz
com que o senhor dissesse “Foutriquet”, durante o delírio.
Essa palavra tem agora alguma ligação com a sua vida an­
tiga? . . .
G a sto n
Psiu! Não repita a ninguém. É a êle que eu chamava
assim.
A D u q u e sa (Horrorizada.)
Oh, o meu pequeno Albert! (Hesita um instante, depois
muda de idéia.) Mas não tem importância, eu o perdoo.. .
( Vira-se para Pickwick, dengosa.) Vejo que se trata do humor
inglês.
P ic k w ic k
Exatamente!

114
A D u q u e sa (Lembrando-se de repente.)
Mas que, golpe terrível para os Renaud! Como lhes anun­
ciar isso!
G a st o n (Alegremente.)
Encarregue-se a senhora! Eu vou deixar essa casa dentro
de cinco minutos sem tornar a vê-los.
A D u q u e sa
Não vai deixar nem sequer um recado para êles?
G a sto n
Não. Nada de recados. Bem, sim ... {Hesita.). . . Diga
a Georges Renaud que a sombra leve de seu irmão repousa,
sem dúvida, em uma fossa comum nalgum lugar da Alemanha.
Que êle sempre foi um menino digno de todo o perdão, e que
êle pode amá-lo agora sem o receio de ver algo de errado em
seu rosto de adulto. Eis tudo! E ag ora...
(Abre bem a porta, e indica-lhes gentilmente o caminho.
Abraça contra si o menino.)
Deixem-me só com minha família. Precisamos comparar
nossas recordações.
(Musica triunfante. A duqueza sai com o dr. Pickwick.)

FIM

115
0 BAILE DOS LADRÕES
PE RS ONA GE NS

P eter b o n o
G ustavo ladrões
H ector
L ord E dgard

L ady H u r f

JULIETTE í
„ \ suas sobrinhas
E va |
D u p o n t -D u fo r t pai
banqueiros
D u p o n t -D u fo r t filho
O pregoeiro
Os policiais
A ama
A menina
O músico
PRIMEIRO QUADRO
O jardim de uma estação de águas, estilo muito 1880,
com um coreto ao centro. No coreto, um só músico,
um clarinetista, representará a orquestra. Ao abrir-se
o pano estará tocando algo extremamente vivaz.
A cobradora das cadeiras vai e vem. Os veranistas
passeiam ao ritmo da música. No primeiro plano, Eva
e Hector1 unidos em um beijo muito cinematográfico.
A música pára, o beijo também. Hector separa-se,
um pouco titubeante. O fim da música é aplaudido.

H ecto r (Confundido.)
Atenção, estão nos aplaudindo.
E va (Estoura num riso.)
Mas não é a nós, é à orquestra! Decididamente, você me
agrada muito.
H ector (Levando a mão, sem querer, ao bigode e à peruca.)
O que é que lhe agrada em mim?
E va
Tudo. (Faz-lhe uma pequena reverência.) Não fiquemos
mais aqui, é perigoso. Esta noite, às oito, no bar do Fênix.
E não se esqueça, se eu estiver com minha tia, não me
reconheça.
H ector (Langoroso.)
Sua mão outra vez.
E va
Cuidado. Lord Edgard, um velho amigo de minha tia,
está lendo o jornal em frente do coreto. Êle vai nos ver.
(Estende-lhe a mão, mas se vira para observar Lorde
Edgard.)
H ecto r (Com paixão.)
Quero respirar a sua mão.
(Inclina-se sobre a mão dela, porém tira subrepticiamente
do bôlso uma lupa de joalheiro para examinar melhor seus
anéis. Eva retira a mão sem notar nada.)
E va
Até hoje à noite.
(Afasta-se.)
H ector (Desfalecente.)
Meu amor. . . (Volta à frente, guardando a lupa e
murmurando friamente.) Duzentos mil. Nada mal.
(Nesse momento, entra o pregoeiro públi.co com seu tambor.
As pessoas reunem-se em torno dêle para escutá-lo.)
O P regoeiro
Cidade de Vichy. A municipalidade, velando pela se­
gurança e o bem-estar dos doentes e dos veranistas, previne e
informa: numerosas queixas vêm sendo apresentadas tanto à
Prefeitura quanto à Delegacia Central de Polícia, na Praça
do Mercado. Uma perigosa quadrilha de “pickpockets” . ..
(Pronuncia com dificuldade essa palavra; a clarineta sublinha-a,
êle se volta furioso.) Que uma perigosa quadrilha d e ...
(Tropeça novamente com a palavra, a clarineta interpreta-a.) . . .
Está agindo atualmente em nossa cidade. A polícia municipal
foi alertada.. . Tanto em trajes civis como em uniforme, os
agentes da polícia velam pelos veranistas. .. (Com efeito,
seguindo um gracioso trajeto através da multidão, os agentes
entre cruzam em evoluções enquanto êle fala.) Entretanto,
pede-se, a todos que observem a maior prudência, particularmen­
te em logradouros públicos, em parques, e outros lugares muito
freqüentados. Um prêmio em espécie é oferecido pelo Sindi­
cato da Iniciativa a . quem fornecer um indício que permita a
prisão dos ladrões.. . Que todos fiquem sabendo!.. .
(Ruflo de tambor. Enquanto lia, Hector escamoteou-lhe
o enorme relógio de cobre e o gordo porta-moedas. A multidão
dispersa-se, ouve-se o ruflar do tambor e a arenga é repetida
mais longe. Hector vem sentar-se no primeiro plano. A
cobradora das cadeiras aproxima-se.)

A C obradora
O ticket da sua cadeira, meu senhor.

H ecto r (Magnânimo.)
■ Já que é costume.

A C obradora
São sessenta e cinco cêntimos.
(Enquanto êle procura o troco, a cobradora rouba-lhe a
carteira, depois o relógio-de-algibeira e o porta-moedas do pre­
goeiro público, que êle próprio acabara de roubar.)

H ector (Agarra-a com a mão em seu bolso.)


Êh, vamos, o que é isso!...
(A cobradora debate-se e quer fugir, mas perde a peruca.)

H ector (Exclama.)
Mas voce está louco, meu caro! (Ergue um pouco o
bigode e a peruca.) Sou eu.

A C obradora (Repondo a peruca; é Peterbono.)


Oh, perdão! Também sou eu. Boa manhã?

H ector
Êsse porta-moedas, o relógio, um isqueiro.

P eter b o n o (Examinando-os.)
É o relógio do pregoeiro, conheço-o, é de cobre. Tornei
a colocá-lo no bolso daquele pobre coitado, assim como o
porta-moedas que, como você pode verificar, contém apenas
vinte e um sous e o recibo de uma ordem de pagamento.
Quanto ao isqueiro, nós já temos cento e três, dos quais apenas
dois funcionam. Você já trabalhou melhor, Hector!

123
H ector
Tenho um encontro hoje à noite com uma garota que
logo se tomará minha amante e que, num dedo só, tem mais
de duzentos mil francos em pérolas.
P eterbo n o
Veremos. Você reparou aquela garota ali? O colar?
H ector (Examinando-a com o binóculo que traz a tiracolo.)
Ôba! As pedras são enormes.
P eterbo n o
Não se alegre demais. Seu binóculo tem lentes de aumento.
Mas vamos lá, assim mesmo. O golpe do troco. Eu banco
a insolente e você intervém. (Cruzam a cena com uma displis-
cência exageradíssima e se aproximam da môça.) Seu ticket,
senhorita. Sessenta e cinco cêntimos.
A M ôça
Tome.
P eter b o n o (Começa a gritar.)
Ah, não tenho trôco, está ouvindo, não tenho nada de
trôco! Não, não, não, não. . . Não tenho trôco!
H ector (Intervindo-.)
Gomo, não tem trôco? Senhorita, desculpe. Permita que
eu coloque essa insolente em seu devido lu g ar...
(Dá empurrões na cobradora, de modo que possa ver como
funciona o fêcho do colar da môça.)
A M ôça (Afastando-se bruscamente.)
Ah, não!
H ector (Recua, estupefato.)
Gomo, não?
P eter b o n o
Por que não?
(A môça ergue a peruca. Ê Gustave.)

124
G u sta v e
Sou eu.
H ector (Cai sentado.)
Essa é boa.
P eter b o n o (Explode.)
Eis no que dá trabalhar sem organização! Ah, ninguém
me atende, ninguém me atende... Vocês são umas nulidades!
Isso é que são! Nulidades! E se não tivessem sido confiados
a mim pela pobre mãe de vocês, para que lhes ensinasse o
ofício, eu já os teria jogado porta a fora, ouviram? Porta a
fora, sem pagar aviso prévio. E vocês que se atrevessem a me
processar, iam ver s ó !... {Para Gustave, severo.) Natural­
mente, não fêz nada, esta manhã?
G u stave
Sim, duas coisas. Primeiro, esta magnífica carteira.

P eter b o n o
Deixe ver. (Examina-a, depois subitamente inquieto, re­
vista os bolsos.) De quem você conseguiu essa carteira, e
onde?
G u stave
No bulevar Ravachol, de um velho senhor com íongas
barbas brancas. . .
P eter b o n o ( Conclui, terrível.)
Usando calças xadrez, boina, e um paletó verde-oliva, não
é, seu imbecil?
G u sta v e (Tremendo.)
Sim, sr. Peterbono... O senhor me viu?

P eter b o n o (Cai abalado por êsse último golpe.)


Era eu, imbecil, era e u !... Estou dizendo a vocês que
assim não cobrimos nem as despesas!
G u sta v e
Mas eu tenho outra coisa, Sr. Peterbono. . .

125
P eter b o n o ( Completamente desencorajado.)
Ah, se foi também de mim que você roubou, não me
interessa.
G u sta v e
Não é um objeto. . . É uma garota, e tem jeito de ser
rica.
H ector ( Salta.)

Santo Deus! Será que é a minha? Ruiva? De vinte e


cinco anos? Chama-se Eva?
G u sta v e
Não, morena, vinte anos. Chama-se Juliette.
H ector
Ah, bem.
P eter b o n o
Que foi que você tirou dela?
G u sta v e
Nada, por enquanto. Somente ajudei-a a pescar um meni­
no que caíra no tanque das Termas. Tivemos uma conversa
enquanto nos secavamos ao sol. Ela disse que eu lhe agradava.
P eter b o n o
Tinha jóias?
G u stave
Uma pérola muito linda.
P eter b o n o
Bem. Ê preciso ver isso. Hector, você não tem um tempo
livre, hoje à tarde, entre um encontro e outro?
G u sta v e
Ah, não! Dessa eu gostaria de tratar sozinho.
P eterbo n o
O quê? O quê? Você sozinho? Isso é novidade!

126
G ustave
Pois se foi de mim que ela gostou.
P eter b o n o
Por isso mesmo. Hector fará tudo num abrir e fechar
de olhos.
G u stave
Ah, não! Com essa, não!

P eter b o n o (Severo.)
Gustave, sua mãe confiou você a mim. Admiti-o em
nossa sociedade como ajudante. Você tem vinte anos. É
ambicioso. Isso está certo. Eu também era ambicioso, na
sua idade. Mas, cuidado! Em nossa profissão, como em todas
as outras profissões, é preciso seguir a hierarquia. Hector é
um dos melhores sedutores profissionais que existem na praça
de Paris. É um homem que não erra uma mulher em trê s ...
e permita-me dizer-lhe que é uma boa média. Você, um
aprendiz, não pretenderá realizar trabalho melhor, n,ão é
mesmo?
G u stave
Não me interessa. Essa fica por minha conta.

Contrariado.)
P eter b o n o (

Durante o seu tempo livre, você pode fazer o que quiser.


Eu simplesmente receberei sessenta e cinco por cento de todos
os seus ganhos.

H ector (Que durante esse diálogo observava a babá.)


Peter!. . .
P eter b o n o
Hem?
H ector
Olhe a babá. A corrente de ouro.

P eter b o n o (Desdenhoso.)
Ora! Talvez não passe de imitação.

727
H ector
Ouça, são dez para as sete. Temos dez minutos antes do
jantar.
P eterbo n o
Seja, se você insiste. Apliquemos o golpe dos três mili­
tares.
H ector
O golpe dos três militares?

P eterbo n o
É o golpe clássico para as babás. O primeiro lhe faz a
côrte, o segundo faz bilo-bilo para o bebê, e o terceiro assobia
sem parar marchas de caserna, para estonteá-la. . .
(Saem. Lady Hurf e Juliette passam.)

J u l ie t t e
É um menininho de apenas cinco anos. A água só chegava
à sua cintura, mas êle estava com medo, e não parava de
cair. Gertamente, teria se afogado.
L ady H u rf
Que horror! Você separou êsses chapèuzinhos cloche?
São ridículos.
J u l ie t t e
Felizmente, apareceu aquele rapaz. Êle agiu muito bem,
foi muito simpático.
L ady H u r f
Aos cinco anos, todos os meninos são simpáticos, mas
aos doze, e uma idade difícil. Foi por isso que eu nunca quis
ter filhos.
J u l ie t t e
Eu estava falando de um moço, titia.

L ady H u r f
De fato, é mesmo. Mais chapèuzinho cloche. É grotesco.
Você estava dizendo que o rapaz foi simpático. E depois?

128
JULIETTE
Era só isso.
L ady H u r f
Temos que convidá-lo para jantar.
J u l ie t t e
Ele se foi. Não o vi mais.
L ady H u r f
Tanto melhor. Fica-se conhecendo gente demais. Depois,
tenho horror a estórias de afogados. Seu pobre tio nadava
como um prego. Afogou-se sete vêzes. Merecia umas bofe­
tadas. Olha, lá vem E dgard.. . Edgard, você viu Eva?
L ord E dgard (Surge oculto pelo jornal que estâ lendo.)
Como vai, minha cara amiga?
L ady H u r f
Pergunto se você viu Eva.
L ord E dgard
Eva? Não. (Revista-se.) É inconcebível. Onde a terei
metido? Deixei-a talvez no banho.
L ady H u r f
Você está doido, são sete horas.
J u l ie t t e
Vamos dar uma olhada no bar do Fênix, titia, ela vai lá
freqüentemente.
L ady H u r f
Edgard, não se mexa daqui sob nenhum pretexto!
L ord E dgard (Voltando a sentar.)
Está bem, minha querida.
L ady H u r f (Indo.)
Mas se a vir passar, corra atrás dela.

s 129
L ord Ê dgârd
Está bem, minha querida.

L ady H u r f
Ou melhor —■ você não a alcançaria — não corra atrás
dela, venha simplesmente dizer-nos para que lado ela foi.

L ord E dgard
Está bem, minha querida.

L ady H urf

Ê melhor, não. Você nunca nos encontraria. Mande


alguém atrás dela, e alguém atrás de nós, e deixe mais alguém
em seu lugar para nos dizer onde você foi, caso a gente passe
de novo por aqui.
(Sai com Juliette.)

L ord E dgard (Tombando abafado atrás do Times.)


Está bem, minha querida...
(Entram os Dupont-Dufort pai e filho, acompanhados pelo
pequeno estribifho da clarineta que os caracteriza.)
D u p o n t -D u fo r t P ai
Vamos segui-las. Toparemos com elas por acaso no fim
do passeio, e daremos um jeito de levá-las para tomar um
coquetel. Didier, eu não o reconheço mais. Você era um
rapaz^ meticuloso, trabalhador, e o que é mais importante, cheio
de iniciativa. Descuidou-se da pequena Juliette.
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Ela me trata mal.

D u p o n t -D u fo r t P ai
Isso não tem a mínima importância. Para começar, você
não é qualquer um, é o filho de Dupont-Dufort. Sua tia
estima-o^ muito. Está pronta a fazer qualquer investimento
que você lhe aconselhar.

130
D u p o n t -D u f o r t F il h o
Deveriamos contentar-nos com isso.
D u p o n t -D u f o r t P ai
Em questões financeiras, não devemos nos contentar com
coisa alguma. .. Eu preferiría mil vêzes o casamento. Só
isso realmente conseguiría levantar o nosso banco. Por isso,
é preciso ser encantador, sedutor.
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Sim, papai.
D u p o n t -D u fo r t P ai
Estamos aqui em condições inesperadas. Elas se aborrecem
e não há ninguém apresentável. Sejamos amaveis, extremamente
amáveis.
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Sim, papai.
(Saem.)
(Lord Edgard, que ouviu tudo, abaixa o jornal e observa-os
saindo. Peterbono, Hector e Gustave entram vestidos de mili­
tares, enquanto o músico ataca o segundo trecho musical. No
mesmo instante, pelo outro lado do palco, entram os po­
liciais. Balé de conjunto em torno da babá, todos fazendo
gracinhas ao bebê, as evoluções dos policiais comprometendo
as dos ladrões. Por fim, a babá vai embora. Os policiais,
girando seus bastiões brancos às costas, abrem-lhe galantemente
o caminho. Durante o balé, Lady Hurf volta sozinha e sénta-se
ao lado de Lord Edgard; o trecho finaliza com a saída da
babá e dos policiais.)
P eter b o n o (Despeitado.)
Meus filhos, é a primeira vez que vejo falhar o golpe
dos três militares.

L ady H u r f (Para Lord Edgard.)


Então, meu caro Edgard, que fêz voce durante todo o
dia?

131
L ord E dgard (Surpreso e embaraçado como sempre, quando
Lady Hurf lhe dirige a palavra do modo brusco que lhe é
habitual.)
E u . . . e u. . . eu li o Times.

L ady H u r f (Severa.)
Como ontem?

(Ingênuo.)
L ord E dgard
Não o mesmo número de ontem.
H ector (Que estava observando, lança um assobio de
admiração.)
Viu só as pérolas?

P eter b o n o
Quatro milhões.
H ector
Vamos lá? Príncipe russo?

P eterbo n o
Nao. Ela parece atualizada. Espanhóis arruinados.
G ustave
Tem graça! Cada vez que vocês se disfarçam de es-
panhóis, acabam na cadeia.

P eterbo n o
Cala a boca, fedelho! Você não entende do ofício.

G ustave
Em todo o caso, vocês não me pegam mais para bancar o
secretário eclesiástico como na última vez. É insuportável andar
de batina no verão!
P eter b o n o
Gustave, pare de me exasperar! Voltemos à vila. Hector
e eu seremos grandes da Espanha, e você será o secretário
eclesiástico, quer lhe agrade a batina ou não.

132
(Saem, carregando-o seguidos de um pequeno estribilho
musical.)
L ady H u r f (Que refletia, preocupada.)
Edgard, a situação é grave. . ,

L ord E dgard
Sim, li no Times. O Im pério...

L ady H urf
Não, aqui.
L ord E dgard (Inquieto, olhando em tôrno.)
Aqui?
L ady H u r f
Compreenda. Temos almas ao nosso encargo. Ora, estão
tramando intrigas, preparando casamentos. Eu, pessoalmente,
não consigo acompanhá-las. Fico com enxaqueca. Quem irá
entendê-las, dirigi-las?
L ord E dgard
Quem?
L ady H u r f
Juliette é uma louca. Eva é outra. Eu fico sem entender
nada, e é isso o que me aborrece acima de tudo. Aliás, não
tenho mais bom senso do que essas crianças. Você está sozinho,
no meio de três loucas.
L ord E dgard
É, estou sozinho.
L ady H u r f
É o mesmo que não lhe dizer nada! Ah, estou perplexa,
extremamente perplexa. O que vai se passar nesta estação de
águas onde as intrigas nascem debaixo dos nossos pés como
flores tropicais? Me pergunto se não seria melhor partirmos
de Vichy para nos refugiarmos em algum buraco no meio do
campo. Mas diga alguma coisa, Edgard! Afinal de contas,
você é o tutor dessas duas meninas!
L ord E dgard
Talvez possamos pedir um conselho ao Dupont-Dufort.
Êle parece uma pessoa de bem.
L ady H u r f
Sim. Demais. Você é um bôbo. É precisamente a êle
que não devemos pedir conselhos. Os Dupont-Dufort querem
nos arrancar dinheiro.
L ord E dgard
Mas êles não são ricos?
L ady H u rf
É precisamente isso o que me inquieta: querem nos
arrancar muito dinheiro. Uma sociedade em comandita, ou
um casamento. Nossas duas pequenas, com seus milhões, são
prêsas tão tentadoras!
L ord E dgard
Poderiamos talvez telegrafar para a Inglaterra.
L ady H u rf
Para quê?
L ord E dgard
A agência Scottyard nos mandaria um detetive.

L ady H urf
Isso ia nos adiantar muito! Êles é que são os piores
ladrões.
L ord E dgard
Então, de fato, a situação é irremediável.

L ady H u r f
Edgard, você precisa ter energia. A sorte de nós todos
está em suas mãos.

L ord E dgard (Olha suas mãos, muito aborrecido.)


Não sei se estou qualificado para isso.

134
L ady H u r f (Severa.)
Edgard, você é um homem e um cavalheiro?
L ord E dgard
Sim.
L ady H u rf
Tome uma decisão!
L ord E dgard (Firme.)
Está bem! Então mandarei buscar um detetive da Scottyard,
mas que seja honesto.
L ady H u rf
Nunca, está me ouvindo? Se fôr honesto, terá mau cheiro
e irá namorar as empregadas. Isso não pode ser. Aliás,
nem sei por que lhe falei nisso. Não é a segurança absoluta
o que procuro. Me aborreço como um tapête velho.
L ord E dgard
Oh, minha c a ra ...
L ady H urf
É o que eu sou.
L ord E dgard
Você foi tão bela!
L ady H urf
Sim. Lá por 1900. Ah, que raiva! Mas eu quero
aproveitar os meus últimos anos de vida e me divertir um
pouco. Acreditei durante sessenta anos que se devia levar a
vida a sério. Foi demais. Sinto-me inclinada a cometer uma
grande loucura.
L ord E dgard
Nada de perigoso, espero?
L ady H u r f
Não sei. Vou ver o que me passa pela cabeça. (Inclina-se
para êle.) Tenho vontade de assassinar os Dupont-Dufort.
(Êstes entram, precedidos por seu pequeno estribilho, junto
com Eva e Juliette.)
D u p o n t -D u f o r t P ai
Como está a senhora, Milady?
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Milady.
D u p o n t -D u fo r t P ai
Meu caro Lord. ..

L ord E dgard ( Chama-o à parte.)


Cuide-se.
D u p o n t -D u fo r t P ai
Por que, meu caro Lord?
L ord E dgard
Psiu! Não posso lhe dizer nada, mas tome cuidado. Saia
de Vichy.
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Encontramos estas damas no passeio.
E va
Vichy é um lugar impossível, a gente não sabe o que
fazer para se divertir. Os homens todos são tão feios!
D u p o n t -D u fo r t F il h o
É verdade. Todos são muito feios.

D u p o n t -D u fo r t P ai
Todos. (Baixo para o filho.) Ótimo para nós.
E va
Tenho um encontro às oito, titia. Jantarei mais tarde, ou
não me esperem.

D u p o n t -D u fo r t P ai (Em voz baixa, para o filho.)


É com você?
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Não.

136
JULIETTE
Eva, não lhe contei que salvei um menino que caiu no
tanque das Termas? Fiquei conhecendo um môço muito sim­
pático que me ajudou a salvá-lo.
L ady H u rf
Juliette só fala nisso.
( Os Dupont-Dufort entreolham-se, inquietos.)
D u p o n t -D u fo r t P ai
Não foi você?
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Não.
J u l ie t t e
Ficamos conversando enquanto nos secávamos ao sol. Se
você soubesse como êle é divertido! É um moreninho. Espero
que não seja o mesmo que você conheceu, hem?
E va
Não, o meu era um ruivo grande.
J u l ie t t e
Ah, tanto melhor. ..
D u p o n t -D u fo r t P ai (Em voz baixa.)
Filhote, você precisa dar um jeito de brilhar. (Alto.)
Didier, você já foi à piscina com essas damas, para lhes mostrar
o seu crawl impecável? Você teria salvo aquêle garoto com
toda a facilidade!
J u l ie t t e
Oh, não era preciso crawl. O tanque das Termas tem
apenas quarenta centímetros de profundidade.
(Durante o fim desta cena, Peterbono, disfarçado de um
velho espanhol muito nobre — demasiado nobre —, Hector
como um Grande da Espanha, igualmente muito convincente,
e Gustave como secretário eclesiástico, vão entrando e se apro­
ximando lentamente.)

137
P et e r b o n o
Cuidado! É uma grande jogada. Vamos dar o má­
ximo.
H ector
Seu monóculo.
_______ P eter b o n o
O golpe do desprezo! Eu darei o sinal. Gustave, fique
mais atrás.
(A música começa, uma marcha ao mesmo tempo de feitip
muito heróico e muito espanhol. Subitamente, Lady Hurf, que
olhava o estranho grupo se aproximar, levanta-se, vai até êles
e precipita-se ao pescoço de Peterbono.)
L ady H u r f
Mas é o meu querido Duque de Miraflor!
(A música pára.)
P eter b o n o (Embaraçado e surpreso.)
H u m ...
L ady H u r f
Vamos, lembre-se! Biarritz, 1902. Os almoços em Pam-
plona, as touradas. Lady Hurf.
P eter b o n o
Ah! Lady H u rf... As touradas. Os almoços. Minha
cara am iga... (Aos outros.) Acho que me disfarcei de
alguém que ela conhece.
L ady H u rf
Como estou feliz! Quase morria de tédio. Mas, e a
Duquesa?
P eter b o n o
Morreu.
(Tremolo na orquestra.)
L ady H u r f
Meu Deus! E o Conde, seu primo?

138
P eter b o n o
Morto.
(Tremolo.)
L ady H u r f
Oh, Deus! E o almirante, seu amigo?
P eter b o n o
Também morreu. (A orquestra inicia uma marcha fúnebre.
Peterbono vira-se para os outros.) Salvos!
L ady H u r f
Pobre amigo! Quanto luto.. .
P eter b o n o
Ah! Mas devo apresentar-lhe meu filho, Dom Hector,
e meu secretário eclesiástico, Dom Petrus.
L ady H u r f
Lord Edgard, que o senhor conheceu. O senhor o derrotava
todas as manhãs no golfe, e êle sempre perdia as bolas.
P eter b o n o
Ah, o golfe!. . . Caro amigo. . .
L ord E dgard (Aflito, para Lady Hurf.)
Mas, minha c a ra ...
(Severa.)
L ady H u r f
Como? Você não reconhece o Duque?
L ord E dgard
É insensato! Vamos, lembre-se...
L ady H u r f
Você não tem memória alguma. Não diga mais uma
palavra senão vou me irritar. Minhas sobrinhas Eva e Juliette,
que me dão muitos cuidados, pois estão em idade de casar,
e possuem dotes excepcionalmente tentadores para os sabidos. ..
( Os Dupont-Dufort entre olham-se.)

139
D u p o n t -D u fo r t P ai
Conservemos um ar digno.
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Talvez não se refira a nós.
(Peterbono e Hector dão-se tremendas cotoveladas.)
L ady H u r f
Estou muito feliz em tomar a vê-los. Vichy é um buraco.
Lembra-se do recanto amarelo?
P eter b o n o
Ah, pois sim!
D u p o n t -D u fo r t F il h o (A seu pai.)
Fomos esquecidos.
D u p o n t -D u fo r t P ai
Apresentemo-nos. Os senhores Dupont-Dufort.
D u p o n t -D u f o r t F il h o
Pai e filho.
(Durante as saudações, Eva olha fixamente para Hector,
que finge um enorme interesse pela conversação; quanto a
Gustave, êle quase desapareceu por trás de sua pasta, procurando
desesperadamente algum papel, para evitar o olhar de Juliette
que o fita, intrigada.)
L ady H u r f
Sem dúvida, o senhor também está se aborrecendo, não?
Não lhe parece uma sorte inesperada nos termos reencon­
trado?
P eter b o n o (Dando uma cotovelada em Hector.)
Inesperada. ..

H ector (Dando uma cotovelada em Peterbono.)


Sim. Inesperada... completamente inesperada.
(Exageram a alegria, mas ninguém parece notar.)

140
L ady H u r f
O senhor seu filho é encantador. Não lhe parece. Eva?
E va
Sim.
P eter b o n o
Era o oficial mais sedutor de tôda a Espanha, antes da
revolução.
L ady H u r f
Ai! O senhor perdeu muito?
P eter b o n o
Muito.
L ady H u r f
Mas onde estão hospedados? No hotel?
P eter b o n o (Evasivo.)
S im ...
L ady H u r f
Ê inadmissível. . . Edgard? O Duque está no hotel!
L ord E dgard
Mas eu lhé asseguro, minha cara am iga.. .
L ady H u r f
Cale-se! Meu caro Duque, não é possível que fiquem
em um hotel. Faça-nos o favor de aceitar nossa hospitalidade.
Temos uma vila imensa, ficará com uma ala inteira só para
o senhor.
P eter b o n o
Com muito prazer, muito prazer, muito prazer. ..
(Enormes cotoveladas em Hector. Os Dupont-Dufort tro­
cam olhares contrariados.)
L ady H u r f
Poderá, evidentemente, trazer junto o seu séquito. (Olha
para Gustave.) O que êle procura?

141
P eter b o n o
Algum documento... Dom Petrus? (Gustave termina
por emergir detrás da pasta). Monsenhor?
(Pôs óculos escuros.)
L ady H urf
Sofre da vista?
P eter b o n o
Sim, muito. Necessita de cuidados especiais e não posso
inflingir-lhe sua presença. Dom Petrus, vamos aceitar a generosa
hospitalidade que nos oferece Lady Hurf. Passe pelo hotel
para mandar trazer nossa bagagem e permaneça lá até nova
ordem. Ficará encarregado da correspondência, e virá tôdas
as manhãs saber de nossas decisões.
G u sta v e (Furioso.)
Mas, M onsenhor...
P eter b o n o
Vá!
G ustave
Contudo, Monsenhor. . .
P eter b o n o
Vá, estou lhe dizendo!
(Hector dá um empurrão em Gustave, que se afasta a
contragosto.}
L ady H u r f (Enternecida.)
Sempre o mesmo. Que tom de voz! O tom dos Miraflor.
O de seu primo era ig u al...
P eter b o n o
Ai!
L ady H u r f
Gomo foi que êle morreu?

P eter b o n o
Gomo êle morreu?

142
L ady H u r f
Sim! Eu gostava tanto dele!
P eter b o n o
A senhora quer que eu lhe conte as circunstâncias que
cercaram a sua morte?
L ady H u r f
Sim.
(Peterbono afoba-se, olha para Hector.)
P eter b o n o
Pois bem, êle morreu. .. (Hector descreve em, mímica
um acidente de automóvel, mas êle não compreende.) Morreu
louco.
L ady H u r f
Ah, o pobre! Foi sempre tão original. Mas, e a Du­
quesa?
P eter b o n o
A Duquesa? (Olha para Hector, aflito.) Morreu.

L ady H u r f
Sei. Mas como?
(Hector leva a mão ao coração várias vezes. Peterbono
demora em compreender, porém, como é destituído de imagi­
nação, resigna-se.)
P eter b o n o
De paixão.
L ady H u r f (Embaraçada.)
Oh, perdão! E o almirante, seu amigo?

P eter b o n o
O almirante? Ah, êle. . .
(Olha para Hector, que lhe faz sinal de que não tem mais
idéias. Compreende mal também a essa mímica.) Afogado.
Mas dispense-me de continuar tocando feridas tão dolorosas...

143
L ady H u r f
P erdão... Perdão, caro amigo. (Aos outros.) Que
ra ç a !... Que nobreza no sofrimento! Não é mesmo, caro
Edgard?
L ord E dgard
Minha cara, eu insisto...
L ady H u rf
Não insista, veja como o Duque está sofrendo.
D u p o n t -D u fo r t P ai (A o filh o .)

Vamos participar da conversa.


D u p o n t -D u fo r t F il h o
Que seqüência terrível de desgraças!
D u p o n t -D u fo r t P ai
Tombando sobre cabeças tão veneráveis!
(Ninguém lhes dá atenção.)
L ady H u r f (Estourando numa gargalhada.)
Ah, como Biarritz era bela naquele tempo! O senhor se
lembra dos bailes?
P eter b o n o
Ah, os bailes. ..
L ady H u rf
E de Lina Veri?
P eterbo n o
Lina Veri? Não estou bem certo. ..
L ady H u rf
O r a ... Vocês eram íntimos! (Aos outros.) Êle enve­
lheceu muito.
P eterbo n o
Ah, Lina Veri!. . . Perfeitamente. Da alta sociedade ita­
liana.
L ady H urf
Não. Era uma dançarina.

144
P eter b o n o
Sim, mas sua mãe fazia parte da alta sociedade ita­
liana.
L ady H u r f (A os o u tr o s .)

E já não sabe mais o que diz. Está muito cansado. Meu


caro Duque, gostaria de levá-lo imediatamente aos seus apo­
sentos. A vila é bem aqui perto, no fim da alameda.
P eterbo n o
Com muito prazer.
(Todos se levantam.)

G u stave (Entra correndo, desta vez como um encantador rapaz,


magnificamente bem vestido.)
Bom dia, meu pai!
P eter b o n o (Surpreso.)
Canalha! (Apresenta-o.) Meu segundo filho, Dom Pedro,
de quem eu esquecera de lhes falar.

L ady H urf
Como, o senhor tem um segundo filho? De quem?

P eter b o n o (Aflito.)
Ah, é uma história muito comprida! (Olha para Hector
que lhe faz sinal para que seja prudente.) Mas toca também
em feridas muito dolorosas.
L ady H u rf
Venha, Edgard. . .
L ord E dgard
Mas, minha cara. . .
L ady H urf
E cale-se!
(Saem todos. Hector fazendo gracinhas para Eva, que
não cessa de olhá-lo.)

145
J u l ie t t e (Aproxima-se de Gustave.)
Afinal, o que significa isso? > • " /
G ustave
Psiu, explico depois. ..
(Também saem. Ficam apenas os Dupont-Dufort, deixados
para trás.)
D u p o n t -D u fo r t F il h o (A o p a i.)

Fomos esquecidos.
D u p o n t -D u fo r t P ai
Vamos atrás deles, assim mesmo, e redobremos as ama-
bilidades. Pode ser que esses moços já estejam apaixonados por
alguém, ou então que não gostem de mulheres. ..
(Saem.)

PANO

146
SEGUNDO QUADRO
Salão em estilo antiquado na vila de Lady Hurf,
Ê noite, após o jantar. Juliette e Gustave estão sentados
um ao lado do outro, ao longe uma musiquinha
romântica.

J u l ie t t e
Estamos bem aqui. Ninguém virá nos atrapalhar esta
noite.
G u sta v e
Sim, estamos bem.
J u l ie t t e
H á três dias que o senhor está triste. Saudades da Es­
panha, talvez?
G u stave
Oh, não!
J u l ie t t e
Lamento agora ter negligenciado o meu espanhol na
escola. Poderiamos falar. Seria divertido.
G ustave
Eu próprio não sei falar muito bem.
J u l ie t t e
Imagine! Tem g raç a ...
G ustave
Sim, é engraçado.
( Silêncio.)
J u l ie t t e
Deve ser divertido ser príncipe.

149
G ustave
A gente se habitua a tudo.
(Silêncio.)
JULIETTE
Que tem, senhor Pedro? Éramos muito mais amigos há
três dias.
G u sta v e
Não tenho nada.
(Silêncio. Lord Edgard passa com uma pilha de papéis
nos braços.)
L ord E dgard
Mesmo que eu morra fazendo isso, ficarei de coração tran-
qüilo. (Caem os papéis. Precipitam-se para ajudá-lo, mas êle
os impede.) Não toquem neles, não toquem nêles! (Juntai-os
sozinho e sai resmungando.) Para que essa importante desco­
berta possa ser feita, deve estar cercada das mais extremas
precauções.
G u sta v e
Por que êle não pára de remexer nesses velhos papéis
desde que chegamos aqui?

JULIETTE
Não sei. Êle é um pouco louco. Mas como é, ao
mesmo tempo, meticuloso, isso dá resultados extraordinários.
Deve estar procurando uma velha conta de lavanderia. (Entra
uma menina.) Ah, aí está minha amiguinha!

A M e n in a
Senhorita Juliette, eu lhe trouxe umas margaridas.

JULIETTE
Obrigada, você é muito amável.

A M e n in a
Só que elas não têm muitas pétalas. Papai me disse que
não é dessas que os namorados usam.

150
J u l ie t t e
Não faz mal.
A M e n in a
Quer que eu procure outras?
J u l ie t t e
Não. Bem, sim. Você é tão boazinha. (Dá-lhe um beijo.)
Agora, vai. (A menina sai. Juliette volta, envergonhada.)
J u l ie t t e
Acha que sou idiota?
G u sta v e
Não.
J u l ie t t e
O senhor disse que me amava, senhor Pedro, e há três
dias que nem sequer me olha.
G ustave
Eu a amo, Juliette.
J u l ie t t e
E então?
G u stave
Não posso dizer.
J u l ie t t e
Meu pai não tinha um título, é verdade, mas minha tia
é Lady, e meu avô era um Honourable.
G u sta v e
Você é engraçada. Não se trata disso.
J u l ie t t e
Acha que o Duque de Miraflor o deixaria casar co­
migo?
G u sta v e (Sorri.)
Oh, certamente!
J u l ie t t e
Mas por que fica com êsse ar triste, então, se o senhor me
ama, e ninguém se opõe?

151
G u sta v e
Não posso dizer.
JULIETTE
De qualquer forma, o senhor acredita que nossas vidas
possam um dia se reencontrar?
G u stave
Estaria mentindo se lhe dissesse que acredito.
J u l ie t t e (Vira o rosto.)
O senhor está me pondo triste.
G ustave
Cuidado, aí vem sua p rim a...
J u l ie t t e
Vamos para o jardim. Já está anoitecendo, quero que me
diga tudo.
(Saem, a música afasta-se com êles. Eva entra, seguida por
Hector. Êste já não tem o mesmo aspecto que tinha ao fim
do primeiro quadro.)
H ector
Veja, nos deixam o espaço livre. Deixam-nos a sós.
E va
O triste é que não tenho nenhuma necessidade de espaço
livre. Gostaria muito que houvesse uma multidão ao nosso
redor!
H ector
A senhorita é cruel.
E va
O senhor me desagrada. Sou assim; sou cruel com o que
me desagrada. Mas, em compensação, quando gosto de
alguém, sou capaz de tudo.

H ector (Desesperado.)
Ah, por que não posso conseguir agradá-la uma segunda
vez?

152
GtfsTÂVÊ
O senhor sabe muito bem, já não é mais o mesmo.
H ector
Que memória fraca! Mas eu já lhe disse, aquele disfarce
não passava de uma fantasia de aristocrata, cansado de sua
personalidade, que se diverte assim para fugir a si mesmo.
Não há de ser por causa daquela maldita brincadeira que
irei perder o seu amor, Eva!
E va
Conservo com prazer a lembrança de um jovem que me
abordou no parque. Ache-o de nôvo. Talvez eu volte a me
apaixonar.
H ector
Ah, que aventura ridícula! Se ao menos me desse uma
pista. Só me diga se eu estava de barba quando lhe agradei.
E va
Já lhe disse que para mim não teria mais graça se eu
contasse.
H ecto r (Q u e se v iro u para m udar de cara, e su rge c o m p le ta ­
m e n te d ife r e n te .)
Era assim?
E va (E sto u ra de rir.)
Oh, não!. . .
H ector
Mas reconhece minha voz, meus olhos?
E va
Sim, mas não é o suficiente.
H ector
Mas o tamanho é o mesmo! Sou alto, bem proporcionado.
Juro-lhe que sou bem feito.
E va
Só acredito nos rostos.

153
H ector
É horrível! Ê horrível! Nunca irei descobrir sob que
forma agradei você. Não foi disfarçado de mulher, pelo
menos?
E va
Quem pensa que eu sou?

H ector
Ou de chinês?
E va
O senhor perdeu completamente o juízo. Vou esperar até
que fique mais engraçado. (Vai sentar mais longe. Êle faz
menção de segui-la, ela se vira, zangada.) Ah, não, por favor,
não! Não fique todo o tempo atrás de mim, trocando de
b a rb a ... Vou terminar ficando com vertigens!
H ector (Prostrado.)
E dizer que o idiota do Peterbono teima em afirmar que
foi de aviador!
L ord E dgard (Passa carregado de papéis.)
Não é possível que eu não encontre essa carta, dei onde
a verdade irá saltar de forma tão curiosa. (Percebe Hector
com sua nova cara. Salta para êle, deixando cair todos os
papéis.) E nfim !... O senhor é o detetive da agência
Scottyard?
H ector
Não, senhor. (Levanta-se para sair.)
L ord E dgard
Perfeito! Excelente resposta. Recomendei muita dis­
crição. Mas eu sou Lord Edgard, o próprio, o senhor pode se
revelar sem receio.. .
H ector
Afirmo-lhe que não sou quem o senhor está esperando.
(Sai.)

154
L ord E dgard (Seguindo-o.)
Compreendí! Perfeito! Está seguindo passo a passo as
minhas instruções. Exigi prudência!
(Lady Hurf entra quando êles estão saindo; vai sentar-se
perto de Eva com uma revista na mão.)
L ady H u r f
A minha pequena Eva se aborrece.
(Eva lhe sorri, sem responder. Por trás das costas de Lady
Hurf, Hector volta com uma nova cara e mostra-a a Eva, sem
dizer nada. Ela faz sinal que não. Êle se retira, arrasado.)
(Descansa a revista com um suspiro.)
L ady H u r f
Minha pequena Eva se aborrece a mais não poder.
E va (Sorrindo.)
Sim, titia.
L ady H u r f
Eu também, minha querida.
E va
Mas quando se tem vinte e cinco anos, como eu, é um
pouco triste.
L ady H u r f
Você verá que quando tiver quase.sessenta, como eu, ainda
é mais triste, Eva. A você ainda lhe resta o amor. Como
bem pode imaginar, já fazem anos que eu renunciei oficialmente
a êle.
E va
Oh, o am or!. . .
L ady H u r f
Que suspiro! Depois que ficou viúva, não teve nenhum
amante?
E va
Não encontrei ninguém que me amasse.
L ady H u r f
Você exige demais. Se os amantes a aborrecem, case com
êles, isso os tornará interessantes.

155
Eva
Casar com quem?
L ady H u r f
Sem dúvida, os Dupont-Dufort me caceteiam tanto quanto
a você. Mas e os espanhóis?
E va
O Príncipe Hector me persegue trocando sempre de
bigodes para ver se descobre com que cara me agradou pela
primeira vez.
L ady H u r f
Agradou mesmo?
E va (Sorri.)
Já não sei mais.
L ady H u r f
São uns tipos muito estranhos.
E va
Por quê?
L ady H u r f
Por nada. Eu lhe disse que sou uma velha caixaça que
se aborrece. Tive tudo o que uma mulher pode razoàvelmente,
ou mesmo insensatamente, desejar. Dinheiro, posição, amantes.
Agora que estou velha, me vejo tão só com os meus ossos
como quando era pequena e me punham de castigo com a
cara contra a parede. E o mais grave é que me dou conta
de que entre aquela menina e esta velha só houve foi muito
barulho e uma solidão pior ainda.
E va
Pensei que a senhora fôsse feliz.
L ady H urf
Você não enxerga direito. Represento um papel. Repre-
sento-o bem, como tudo o que eu faço, nada mais. Você
representa mal o seu! (Acaricia-lhe os cabelos.) Menina,
menina, você será sempre perseguida por desejos que trocam
de barba, sem que jamais tenha coragem de dizer-lhes que
guardem uma para você amar. Mas não se julgue uma mártir!

156
Todas as mulheres são assim. A minha pequena Juliette se
salvará, porque é simples e romântica. É uma graça que
nem tôdas recebem.
E va
Existem algumas que amam.
L ady H u r f
Sim. Algumas amam um homem. Matam-no de amor,
se matam por êle. Mas raramente são milionárias. (Acaricia-lhe
outra vez os cabelos, com sorridente melancolia.) Vá, você
irá terminar como eu, uma mulher velha coberta de brilhantes,
que inventa intrigas para se divertir e esquecer o que não
viveu. E entretanto. . . Eu gostaria de rir um pouco. Brinco
com o fogo e êle nunca me queima.
E va
Que é que a senhora quer dizer, ti tia?
L ady H urf
Nada! Aí vêm as nossas marionetes.
(Precedidos pelo músico, Peterbono e Hector aparecem no
umbral, logo seguidos pelos Dupont-Dufort. Todos precipitam-se
sobre as damas, mas os ladrões chegam primeiro para lhes
beijarem as mãos.)

L ady H u r f (Lança subitamente um grito e levanta-se.)


Ah, tive uma idéia!
P eter b o n o (Assustado, para Hector.)
Essa mulher me dá mêdo. Cada vez que grita, penso que
é por causa da minha barba.
L ady H u r f
Onde está Juliette?
E va
No parque, com o Príncipe Pedro. Andam sempre
juntos.
P eter b o n o
Que crianças encantadoras!

157
L ady H u r f ( C h a m a n d o . )
Juliette!

J u l ie t t e (Volta junto com Gustave.)


A senhora me chamou, titia?

L ady H u r f (Chama-a à parte.)


Você está de olhos vermelhos, querida. Cuidado, se você
está infeliz, corto os fios das marionetes.

J u l ie t t e
Que quer dizer a senhora, titia?

L ady H urf
Se falei entredentes, foi para que você não entendesse.
Venham aqui as duas. (Enlaça Juliette e Eva pela cintura, e
leva-as em direção ao jardim.) Tenho uma idéia para alegrar
um pouco esta noitada, vocês vão me dizer o que acham.
(Saem. Os Dupont-Dufort entreolham-se.)

D u p o n t -D u fo r t P ai (Acertando o passo.)
Sigamos essas damas, filhote. E sejamos cada vez mais
amáveis: é o preço de nossa salvação.

D u p o n t -D u fo r t F il h o
Sim, papai.
( Os três ladrões ficam sozinhos. Alívio. Respiram.)

H ecto r (Estendendo a Peterbono uma caixa de charutos.)


Um charuto, meu amigo?

P eter b o n o (Servindo-se.)
Já me servi. São extraordinàriamente bons.

H ector ( Oferecendo.)
Um conhaque?

158
P eterbo n o
Obrigado.
(Bebem.)
H ector
Mais um charuto?
P eter b o n o (Apanha vários, sem cerimônia.)
Estou confuso. Sim, estou confuso. Só posso estar confuso.
[Sente remorso. Torna a pegar a caixa.) Será que posso,
por minha vez, oferecer-lhe um?
H ector (Tira uma porção do bôlso.)
Obrigado, já me servi.
(Momento de felicidade e infinita distinção. Acomodam-se
em beatitudes no sofá. Súbito, Hector mostra a Peterbono a
figura triste e sombria de Gustave, que está' a um canto sem
dizer nada.)

P eter b o n o (Levanta-se e se aproxima de Gustave.)


Então, filhote, você está triste? Você dorme num bom
quarto, come bem, tem uma bela garota para namorar, banca
o príncipe, e ainda por cima se dá o luxo de ficar triste?
G ustave
Quero ir embora daqui.
( Os outros dois saltam.)

P eter b o n o
O quê! Ir embora daqui?
G u sta v e
JÉ, sim.
P eter b o n o
Hector! Gustave ficou louco.
H ector
Por que você quer ir embora?
G üstavê
Estou apaixonado pela garota.
H ector
E daí?
G ustave
Apaixonado de verdade.
P eter b o n o
E então?
G ustave
Ela nunca vai ser minha.
P eter b o n o
Por que diz isso, filhote? Você nunca esteve em tão boas
condições. Pensam que vocé é um príncipe rico. Aproveite
a sorte.
G ustave
Não quero deitar com ela uma vez, e ter de deixá-la
depois.
P eter b o n o
Um dia você terá que deixá-la.
G ustave
Depois, tenho vergonha de representar essa comédia para
ela. Prefiro ir embora duma vez, nunca mais vê-la.
H ector
Ficou louco.
P eter b o n o
Completamente louco.

G u sta v e
Afinal, o que estamos fazendo aqui?

P eter b o n o
O quê? Veraneando, meu filho.

160
G u stave
Estamos aqui para dar um golpe. Façamos isso, e par­
tamos.

P eter b o n o
E a preparação? Esqueceu a preparação?

G u stave
Já está demorando demais, essa preparação.

P eter b o n o
Você não acha uma tristeza, Hector, ouvir um aprendiz
querendo nos dar lições?

H ector
Vamos dar o golpe, é claro, estamos aqui para isso. Mas
você sabe ao menos que golpe queremos dar?

G ustave
Saquear a sala de visitas?
P eter b o n o
Pôr tudo dentro de sacos, não é? Como ciganos! Hector,
êsse menino tem um espírito muito baixo. Fique sabendo,
fedelho, que nós ainda não decidimos que golpe vamos dar.
E se o nosso comportamento pode parecer estranho a um novato
como você, é porque estamos estudando as possibilidades desta
casa.
G u stave
Vocês se pavoneiam por aqui porque têm conhaque, cha­
rutos, e porque Hector continua acreditando que Eva irá reco­
nhecê-lo. Mas, no fundo, vocês não sabem o que querem fazer.
Posso ser um aprendiz, mas vou lhes dizer uma coisa: isso não
é trabalho!
P eter b o n o ( Corre para Hector.)
Hector, me segure!

6 161
H ector Que continua fumando em beatitude.)
(

Gustave, não seja teimoso. Compreenda.


P eter b o n o
Hector, segure-me!
H ector
Hesitamos.
P eter b o n o
Segure-me, Hector, segure-me!

H ecto r (Pega-o no braço para contentá-lo.)


Está bem, seguro.
P eter b o n o (Domado.)
Faz bem.
H ector (Para Gustave.)
Hesitamos entre várias soluções possíveis
G u stave
Quais?
H ector
Contamos para êle, Peter? Você não receia uma indis­
crição da parte dêsse jovem?

P eter b o n o (Dá de ombros.)


Conte para êle. Já que agora nós devemos lhe prestar
contas.
H ector
Está bem. Diga-lhe primeiro a sua proposta, P eter...

P eter b o n o
Não, a sua, Hector, a sua.
H ector (Constrangido.)
Pois b e m ..
G u stave
Vocês não sabem nada.

162
H ector (Salta, ultrajado.)
Não sabemos nada? Estamos hesitando entre o golpe do
cheque sem fundos dado em troca de uma jóia, num sábado,
o que nos daria dois dias para nos colocarmos fora de alcance,
ou o do cheque verdadeiro recebido em pagamento de uma
jóia falsa, nas mesmas condições. .. Pensamos também em
oferecer a Lady Hurf flores soporíferas (tomando cuidado em
não respirá-las), para lhe subtrair as pérolas enquanto dorme!
P eter b o n o (Também muito excitado.)
Poderiamos simular um duelo com os Dupont-Dufort!
Eles seriam feridos e, em meio ao tumulto, nós fugiriamos com
a prataria.
G u stave
E se fôssem vocês os feridos?
P eter b o n o
Impossível!
G u stave
Por quê?
P eter b o n o ( Gritando.)
Não sei! Mas é impossível.
H ector
Também podíamos fingir que fomos roubados e armar
uma extorsão fantástica!
P eter b o n o
Fingir que encontramos uma pérola ao comer ostras, e
trocá-la por uma das de Lady Hurf, quem sabe?
G u stave
Agora é verão, não tem ostras em Vichy.
P eter b o n o
Era só um exemplo!
G u sta v e
Em suma, vocês não resolveram nada. Quanto a mim,
quero dar o golpe hoje à noite, e ir embora.

163
P eter b o n o
Hoje à noite? Por que não já?
G u sta v e
Sim, por que não já? Eu quero ir, ir, o mais breve
possível.
P eter b o n o
~ í>£le vai nos pôr a perder! Gustave, pense na sua pobre mãe,
que o confiou aos meus cuidados.
G u stave
Não.
P eter b o n o
Vou amaldiçoar você! Naturalmente, você nem se im­
porta?
G ustave
Não.
P eter b o n o (Berra.)
Me segure, Hector! {Agarra Gustave.) Só mais quinze
dias. Nós daremos o golpe, mas estamos passando bem aqui,
isso não nos acontece coro tanta freqüência.. .
G ustave
Não. Eu me sinto infeliz demais. {Sai»)

H ector (Salta em perseguição a êle.)


Precisamos segui-lo e detê-lo, êle vai criar um escândalo.

P eter b o n o (Chama-o.)
Tenho uma idéia! E se nós fingíssemos que não o conhe­
cemos?
(Hector dá de ombros e sai, sem sequer tomar em consi­
deração uma solução dessas.)
Lord Edgard entra, precedido pelo músico, que produz
tremolos em seu instrumento, como se pressentisse algum golpe
do destino. Remexe a pilha de papéis que traz constantemente

164
consigo. Subkamânte, se endireita, solta uma exclamação, e
tomba desmaiado sobre os papéis. O músico corre para chamar
gente, tocando notas desencontradas.
J u l ie t t e (Entrando.)
Titio. .. Que tem o senhor, titio? (Iça-o até uma pol­
trona.) Suas mãos estão frias. Que participação é essa?
{Lê-a, sobressaltada, e esconde-a precipitadamente no bolso.
Sai gritando.) Titia! Depressa, titia !...
(A clarineta está em grande confusão. Multiplica os tre-
molos trágicos, todos entram atrás do músico, aos gritos;
ouve-se:)
— Um ataque. . .
— Na sua idade.
— Não, êle só desmaiou.
— Dêem-lhe ar, afastem-se!
— É preciso mandar chamar o médico.
— Não, êle está voltando a si.
— Está completamente recuperado!
-—• Foi uma emoção.
—• Quem sabe encontrou o que procurava.
(A música cessa. Um enorme silêncio.)
P eterbo n o (Para Hector, durante o silêncio.)
A ocasião que sonhávamos. ..
H ector
Sim, mas o que fazer?
P eter b o n o
Nada, é claro, mas não deixa de ser a ocasião com que
sonhávamos.
L ord E dgard (Que vai se aprumando aos poucos, começando
a falar com voz apagada.)
Meus amigos, tenho uma notícia horrível a lhes transmitir.
O Duque de Miraflor morreu em Biarritz em 1904.

165
(Todos olham Peterbono, que fica muito sem jeito. Pe­
queno estribilho zombeteiro.)
P eter b o n o
É ridículo.
H ector (Em voz baixa.)
Era essa a ocasião com que sonhávamos?. . .
P eter b o n o (Também em voz baixa.)
Não é hora para gracejos. Aproxime-se da janela.
L ady H urf
Você enlouqueceu, Edgard?
L ord E dgard
Não, não. Encontrei a participação. Eu sabia que iria
encontrá-la. Desde o primeiro d ia .. . (Procura em seus bolsos.)
Onde está? Ah, essa agora, mas onde está? Eu tinha agora
mesmo! Oh, meu Deus, já a perdi!
D u p o n t -D u fo r t P ai
Tudo se descobre!
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Estamos salvos. (A Peterbono que se dirige impercepti-
velmente para a janela.) Não quer ficar para saber as notícias
do nosso anfitrião?
P eterbo n o
Claro, claro.
L ady H u rf
Edgard, você está fazendo uma brincadeira ridícula com
o nosso querido Duque.
L ord E dgard
Mas, minha cara, eu lhe garanto. . .
L ady H u r f
Venha mostrar-lhe, meu caro Duque, que não está morto.

166
P eter b o n o (Empurrado a contragosto.)
Mas claro, eu não estou morto.
L ord E dgard
No entanto, encontrei a participação de sua morte.
L ady H u r f (Belisca-o por trás.)
Edgard, tenho certeza de que você se enganou. Peça
desculpas.
L ord E dgard
1 Mas afinal, minha c a ra ...
L ady H u r f (Beliscando-o com mais força.)
Tenho certeza, está entendendo, que você se enganou.
L ord E dgard (Esfrega o braço, furioso.)
Ai! Com efeito, agora que você disse, acho que o con­
fundi com o Duque d’Orléans.
L ady H u r f
Perfeito. O incidente está, pois, encerrado?
P eter b o n o (Aliviado.)
Gompletamente encerrado.
L ady H urf
Então, passemos para o terraço, mandei servir o café ali.
Vou contar-lhes a minha idéia.
D u p o n t -D u fo r t (Acertando o passo.)
Parece-me uma idéia excelente!
L ady H u r f (Exasperada com êle.)
Espere um pouco, meu amigo, eu ainda não disse. . . É
o seguinte: hoje há um Baile dos Ladrões no Cassino. Vamos
todos disfarçar-nos de ladrões e iremos lá. . .
D u p o n t -D u fo r t P ai e F il h o (Começam imediatamente a rir.)
Ih, ih, ih! Meu Deus, que engraçado!
P eterbo n o (Furioso, saindo com Hector.)
Eu acho isso de muito mau gosto. Você não?
(Júliette, que ficou sozinha, não se move. A música começa
docemente o tema romântico, nalgum lugar distante. Então
Júliette retira lentamente a participação do peito, e lê.)
J ú l ie t t e
“Temos a dor de lhe participar a morte de Sua Alteza
Sereníssima, o Duque de Miraflor y Grandes, Marquês de
Priola, Conde de Zeste, de Galbe. . . O féretro s a ir á ...”
(Ela divaga, um momento.) Se o pai dêle não é o Duque de
Miraflor, quem será êle então? Por que tirou o automóvel da
garagem? Por que se esconde?
A M e n in a (Entrando.)
Senhorita Júliette, encontrei margaridas com muitas pé­
talas.
J ú l ie t t e
Como, você ainda não foi dormir?
A M e n in a
Estava procurando margaridas para a senhorita.
J ú l ie t t e
Obrigada, você é um amor. (Beija-a na face.) Você
compreende, filhinha, o pai dêle é um aventureiro, mas êle
me ama, não é mesmo? Êle me ama, com certeza?
A M e n in a
Sim, senhorita Júliette.
J ú l ie t t e
Que importância pode ter para nós que êle seja um
aventureiro, ou mesmo pior? Em meu lugar, você o amaria do
mesmo jeito, não é mesmo? Mas por que seus olhos ficam tão
duros quando quero falar a seu respeito? Se quisesse me
seduzir, o que seria muito bom para êle, pois sou bastante
rica, deveria ser, ao contrário, sempre amável. . . Você acha
que êle prefere Eva? Isso seria terrível. . .

168
A M e n in a
Não sei.
J ú l ie t t e (Torna a beijá-la.)
Claro, você não pode saber. Venha. Vou levá-la de volta
ao seu pai. Você não tem mêdo, à noite?
A M e n in a
Não.
J ú l ie t t e
Isso é muito bom. Eu também não. Sabe, a gente não
deve ter mêdo de ladrões. . .
(Saem.)

PANO

169
TERCEIRO QUADRO
O mesmo cenário. Ao subir o pano, a peça está na
obscuridade. Vê-se uma sombra, é Gustave com uma
lanterna. Está com roupa escura, de boné. Examina
em silêncio os objetos da sala. Súbito, ouve um ruído,
apaga a lanterna. Pequeno assobio. Surgem mais duas
sombras. Duas lanternas acendem-se, cruzam-se e fi­
xam Gustave.

G ustave
Quem é?
S ombra
Viemos dar o golpe.
G u sta v e
É Peterbono?
S ombra
Não. Somos os novos.
S egu nda S ombra
Os novos bandidos.
G ustave
Mas, afinal, quem são vocês? (Tira um revólver.) Mãos
ao alto!
D u p o n t -D u fo r t P ai (Pois é êle.)
Ah, essa é muito boa! Onde encontrou êsse revolver?
Magnífico!
G ustave
Não se aproximem ou eu atiro!
D u p o n t -D u fo r t P ai
Pare de resistir, você está frito!
G u stave
Não se aproximem, que diabo! (Atira.)

173
D u p o n t -D u fo r t P ai (Ri, inconsciente do perigo.)
Ah! Ah!, bravos!
G ustave
Gomo, bravos? (Atira de novo.)
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Mas está formidável de bem imitado! Onde comprou
êsse petardoP-f^vv-,
1 G ustave
Estou dizendo que não se aproximem! (Atira novamente,
cai um vaso e se espatifa com um estrondo horrível.)
D u p o n t -D u fo r t P ai (Severo, ao filho.)
Didier, você é sempre tão desajeitado!
D u p o n t -D u fo r t F il h o (Protestando no escuro.)
Mas não fui eu, papai!
D u p o n t -D u fo r t P ai
Eu não fui, estou no meio da sala,
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Eu também não, papai!
D u p o n t -D u fo r t P ai (Subitamente inquieto.)
Mas então quem foi que quebrou o vaso?
L ord E dgard (Entra e acende a luz; está de casaca e capacete
de policial.)
Cuidado! cuidado! vocês estão fazendo muito barulho.
Que tal lhes parece o meu capacete?
D u p o n t -D u fo r t P ai (Que, como seu filho, está disfarçado
de feroz apache.)
Magnífico, meu caro lo rd !... (Lord Edgard sai. Vai
até Gustave pasmo.) O senhor, por exemplo, não se saiu
muito bem. Um pouco simples demais. . . É uma questão
de detalhes... O lh e ... Essa pequena cicatriz.

174
D u p o n t -D u fo r t F il h o
A faixa preta no ôlho.
D u p o n t -D u fo r t P ai
Fomos fantasiados assim com uns amigos americanos nos
bailes populares. Ninguém nos reconheceu.

D u p o n t -D u fo r t F il h o
Acredite se quiser!
G ustave
Mas onde vão com essas fantasias?

D u p o n t -D u fo r t P ai
Ao Cassino.
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Sim! Ao Baile dos Ladrões! E o senhor também!

G u stave
Ah, sim? Naturalmente. . . eu também vou.

D u p o n t -D u fo r t P ai
Só que você precisa ajeitar melhor a sua fantasia, ami-
guinho. Ê simples demais. Você não parece um ladrão de
verdade.
G ustave
O senhor tem razão. Vou fazer isso já. (Vai sair, pára.)
Diga-me uma coisa. Todos vão a êsse Baile dos Ladrões?

D u p o n t -D u fo r t P ai
Claro, todos!
G u stave
Perfeito, já volto. (Sai.)
D u p o n t -D u fo r t P ai
Êsse rapaz não tem nenhuma imaginação!

175
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Se os outros, como é bem possível, tiverem preparado
fantasias tão ridículas como essa, faremos um sucessão! Só
nós seremos notados!
D u p o n t -D u fo r t P ai
Você leu os últimos telegramas?
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Sim.
D u p o n t -D u fo r t P ai
Se não conseguirmos dinheiro nesta casa, iremos para a
Bélgica. Seja sedutor.
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Faço o que posso.
D u p o n t -D u fo r t P ai
Eu sei. Você é um rapaz honesto e trabalhador; mas não
se descuide nem por um instante. Esta noite é muito impor­
tante para nós. Depois, nossos rivais estão cercados por uma
atmosfera turva, de onde irá nascer um escândalo qualquer
dia desses. É evidente que Lady Hurf obrigou o velho idiota
a se calar, ainda há pouco, quando êle pretendia que o Duque
de Miraflor tivesse morrido em 1904. Fiquemos de olho aberto,
prontos para qualquer eventualidade.
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Precisamos nos livrar desses tipos. É uma questão de vida
ou de morte.
D u p o n t -D u fo r t P ai
Deixemos que êles se estrepem e sejamos cada vez mais
amáveis. Atenção, aí vem Lady Hurf!
(Entram Lady Hurf e Eva, disfarçadas de ladras.)
L ady H u r f (Percebe os Dupont-Dufort, que tossem desespe­
radamente para chamar a atenção delas.)
Oh! Surpreendentes! Êles estão surpreendentes! Eu não
esperava isso dêles. Eva, que lhe parecem nossos hóspedes?

176
Eva
Gomo é que vocês conseguiram se fantasiar dêsse jeito?
D u p o n t -D u fo r t P ai ( Com afetação.)
Ficamos muito contentes...

D u p o n t -D u fo r t F il h o
. . .que as senhoras fiquem contentes.
L ady H u r f
Êles parecem que estão sempre esperando gorjetas.
E va
Isso mesmo.
L ady H u rf
O Duque e o filho estão demorando.
E va
Chamei-os ao passar. Disseram que não sabem como se
fantasiar de ladrões.
L ady H u r f (Saindo.)
Por favor, senhores, subam para buscá-los, e lhes dêem
alguns bons conselhos.
D u p o n t -D u f o r t P ai
Gertamente, certamente. (Para o filho.) Sejamos
amáveis.. .
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Muito amáveis.
(Saem fazendo reverências. Juliette passa furtivamente.)

E va
Você ainda não está pronta?
J u l ie t t e
Vou me arrumar.

177
E va
Você vai nos atrasar a todos.

JULIETTE
Vão na frente. Eu vou sozinha, no carro pequeno.

E va (De repente.)
Você está apaixonada por aquêle rapaz?

JULIETTE
Por que me pergunta isso?
E va
É mesmo. Por que perguntar aos outros se estão apai­
xonados, quando isso se vê na cara?
JULIETTE
Dá para ver?
E va
Sim.
JULIETTE
Pois bem, você está enganada. Não estou apaixonada por
ninguém.
(Vai sair. Eva chama-a de volta.)
E va
Juliette! Por que me considera sua inimiga?
J u l ie t t e (Pára.)
Você é minha inimiga.

E va
Não. Eu a quero bem. Sente-se.

J u l ie t t e (Vai subitamente a ela.)


Você está apaixonada por êle, não é? Quer tirá-lo de
mim, mas avisando antes, para que eu não sofra demais?

178
Quem sabe até mesmo vocês combinaram isso entre si? É
isso, não é? Não é? Mas vamos, fale! Por que está rindo?
E va
Que sorte você tem de estar apaixonada a êsse ponto!
J u l ie t t e
Você é mais bonita do que eu, eu sei, e consegue todos
os homens que deseja.
E va
Ah, se eu pudesse desejá-los...
J u l ie t t e
Você não o deseja, então?
E va
Não, sua bobinha.
J u l ie t t e
Você nunca falou com êle sem que eu visse?
E va
Mesmo que eu tivesse vontade, isso me teria sido muito
difícil. Basta que êle se aproxime por acaso de mim para que
você não o largue dos olhos.
J u l ie t t e
Tenho desconfianças. Eu o amo de verdade, sabe.
E va
Você tem sorte. . .
J u l ie t t e
Jura que nunca tentou atraí-lo?
E va
Juro.
J u l ie t t e
Mesmo no dia em que dançaram duas danças seguidas
juntos?

179
Eva
Foi a orquestra que repetiu o tango.
J u l ie t t e
Mesmo no dia em que foram passear de canoa enquanto
os Dupont-Dufort insistiam em me ensinar a jogar bacará?
E va
Mesmo nesse dia. Ele estava com um ar tão triste que eu
lhe propus para voltarmos imediatamente, mas não encontramos
você.
J u l ie t t e
Isso me surpreende, naquele dia. Seus olhos estavam dife­
rentes, à noite.
E va
É porque êle me perguntou se você gostava dele, e eu
respondi que você era uma menina muito imprevisível e que
era impossível saber.
J u l ie t t e
Foi por isso? (Pequena pausa.) Você não podia ter lhe
respondido outra coisa, afinal?
E va
Agora, está contente?
J u l ie t t e
Você não tentou conquistá-lo nem mesmo no princípio,
no primeiro dia?
E va
Nem mesmo no primeiro dia.
J u l ie t t e
Então, estou satisfeita.
E va
Por que você não confia nunca em mim? Tenho impressão
que sou uma velha perto de você.
J u l ie t t e
Você é tão melhor. Tão mais mulher.

180
Eva
Você acha?
J u l ie t t e
De qualquer modo, me surpreende o que você me disse.
Confesse que êle é mais atraente do que Hector, por quem
você se deixa cortejar...
E va
Não acha que, vendo-a tão apaixonada por êle, isso me
impediría de levar adiante um pequeno flêrte?

J u l ie t t e
Você é boazinha.
E va
Oh, não! Eu gostaria de desejá-lo tanto a ponto de
sacrificar você por êle sem pensar nisso sequer um segundo.

J u l ie t t e
Quando você começa a morder suas pérolas, a coisa vai
mal.
E va
É, vai mal.
J u l ie t t e
Mas você está muito linda esta noite. . . Vai conquistar
todos os homens da festa.
E va
Todos.
J u l ie t t e
Não estou brincando.
E va
Eu também não. Vou conquistá-los todos, tenho certeza.
Mas isso é muito triste.
J u l ie t t e
Você não é feliz?
E va
Não.

181
JULIETTE
No entanto, sabe, não é difícil. É só deixar-se ir. Não
passa um minuto sem que não sejamos infelizes, mas eu acho
que é isso ser feliz.
E va
Você sempre achou que eu era a maior, a mais bela, a
mais forte, porque eu sempre tinha mais homens em volta de
mim. Mas agora percebeu que só você vive por aqui. Talvez
você seja a única pessoa viva em Vichy, no mundo inteiro...
J u l ie t t e (Em pé, sorrindo para o seu sonho.)
Sim, eu estou viva. . .
E va
E está toda intata, pronta para crer. . .
J u l ie t t e
Para crer em tu d o ...
E va
Você nunca teve, como eu, um homem em seu leito, sem
amá-lo. Não tem sequer pérolas no pescoço, anéis nos dedos.
Tenho certeza de que está completamente nua sob o seu vestido
branco, e tem vinte anos e está amando.
(Juliette não se move, oferecendo-se ao invisível com um
semi-sorriso.)
E va (Encara-a bruscamente.)
Juliette, por que não se fantasiou de ladra, como nós?
J u l ie t t e (Explodindo em súbita alegria.)
Oh! Sinto-me feliz demais! Não me atrevo a ficar perto
de gente triste como você. Quando eu me sentir um pouco
menos feliz, me lembrarei de você, juro. (Beija-a e foge.)
Psiu!
E va
Que mistério? Que quer você dizer?
(Lady Hurf entra com os Dupont-Dufort.)
L ady H u r f
Faremos uma entrada magnífica.

182
D u f o n t -D u f o r t P ai
Aqueles senhores já estão prontos.

L ady H u rf
Ficaram bem?
D u p o n t -D u f o r t P ai
É questão de gosto.
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Aliás, ei-los aí.
(Entram Peterbono e Hector. Fantasiaram-se de bandidos
de opereta totalmente ridículos. Todos caem na gargalhada.)
H ector
De que estão rindo?
P eter b o n o
Como imaginam que sejam os ladrões? Será que nunca
foram ao teatro?
L ady H u r f
Mas de que se fantasiou, meu caro Duque?

P eter b o n o
De ladrão.
H ecto r (Para Eva.)
Será que não foi assim, pelo menos?

E va
Oh, não!
P eter b o n o (A Lady Hurf.)
A senhora não gostou de nós?

L ady H u r f
Demais!
P eter b o n o
Confesse que não estamos bem.

183
L ady H u r f
Meu caro, não é possível exigir que um nobre espanhol
saiba se fantasiar de ladrão.
P eter b o n o
Muito certo. Não é, Hector?
(Enormes cotoveladas.)

L ady H u r f
A caminho. O automóvel já está aí. Onde se meteu
Lord Edgard? Não consigo arrancá-lo do espelho. {Chama.)
Edgard!
(Êle aparece, sempre de casaca, com seu capacete de
policial, mas raspou o bigode.)
L ord E dgard
Vocês não acham que fiz bem em tirar o bigode?
L ady H u r f (Sem sequer o ter olhado.)
Que sei eu! Vamos ao baile! Ao baile!
(A música ataca imediatamente uma quadrilha muito ani­
mada, que os ladrões dançam com as damas, sem que os
Dupont-Dufort consigam tomar parte nela — depois uma
java muito acanalhada, que os Dupont-Dufort terminam, em
desespero de causa, dançando um com o outro, com muito
brilho. . . Todos saem dançando.)
D u p o n t -D u fo r t P ai (Saindo por último, de par com o filho.)
Nossos negócios estão cada vez melhores.
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Sejamos engraçados ao máximo.
D u p o n t -D u fo r t P ai
E redobremos as amabilidades.
(O palco fica vazio por um instante. Um criado passa
e apaga o lustre central. Fecha as janelas. Passa outro instante,

184
e Gustave aparece. Escuta. Úuve-se o Cãrro partir. Gira pela
sala, observando os objetos um a um. Subitamente, encosta-se
na parede.)
J u l ie t t e (Entra em roupa de viagem.)
Aqui estou.
G ustave
Que veio fazer aqui?
J u l ie t t e
Eu vim.
G u stave
Por que não foi junto com os outros?
J u l ie t t e
Vim ao seu encontro.
G ustave
Dê o fora, vamos!
J u l ie t t e
Por que me fala com tanta dureza?
G ustave
Dê o fora.
J u l ie t t e
Eu partirei, sim, se não me quiser. Pensei que me quisesse.
Que tem o senhor?
G u stave
Estou com dor de cabeça. Quero ficar aqui.
J u l ie t t e
Por que vem contar essa estória, logo a mim?
G u sta v e
Não estou lhe contando nenhuma estória. Vamos, dê o
fora, menina! Já!
J u l ie t t e
Mas o senhor nunca falou assim comigo!

185
G ustave
Uma vez sempre é a primeira.
J u l ie t t e
Que foi que eu lhe fiz?
G u stave
Nada de especial. É complicado demais para explicar e
você nem ia compreender.
J u l ie t t e

Mas, senhor P edro...


G ustave
Primeiro: não existe nenhum senhor Pedro, meu nome
é Gustave; segundo: faça o favor de ir embora.
J u l ie t t e
E eu que pensava que você me amava. . .
G ustave
Às vêzes a gente se engana.
J u l ie t t e
Mas você mesmo disse!
G ustave
Eu estava mentindo.
J u l ie t t e
Oh, não pode s e r.. .
G u sta v e (Vai até ela, decidido.)
Escute aqui, velhinha, preciso que você dê o fora imedia­
tamente.
J u l ie t t e
Por quê?
G u sta v e
Já vai compreender. Por enquanto, vá para o seu quarto
e chore por suas ilusões perdidas. (Toma-a pelo braço para

186
levá-la à porta.) Mas que está fazendo com êsse casacão?
De que você se disfarçou?
J u l ie t t e
De viajante.
G ustave
De viajante? Que foi que lhe deu?
J u l ie t t e
Oh, não precisa se zangar. Ia partir com você. Não
me disse uma vez que partiriamos juntos?

G u sta v e
É. Mas estava brincando. Depois, como é que você
sabe que eu vou partir?
J u l ie t t e
Eu sei.
G ustave
Você parece que sabe muitas coisas. Venha comigo.
J u l ie t t e
É quase certo que encontremos algum empregado no cor­
redor. (Êle olha para ela.) É melhor não sair daqui; aqui
não corremos perigo nenhum.
G ustave
Os Dupont-Dufort pai e filho devem estar esperando-a.
Vá se vestir de ladra como as outras.
J u l ie t t e
As ladras não usam nunca roupa de viagem?
G u stave
Você não vai viajar. Vai ao baile.
J u l ie t t e
Uma vez feito o roubo, os ladrões geralmente se vão.
Por que não quer que eu vá junto com você, se já vai
embora?

187
G u sta v e (Agarrando-a.)

Ei, você, pequena, você sabe demais!


JULIETTE
Ai! Não me machuque!
G u sta v e
Não tenha mêdo. Simples medida de precaução.
(Amarra-a numa cadeira e revista sua bolsa.)
JULIETTE
Oh, não roube minha bolsa, não tem nada dentro. Aliás,
faço-lhe presente dela.
G u stave
Muito obrigado. Estou só procurando um lenço.
J u l ie t t e
Para quê?
G ustave
Para amordaçá-la. (Encontra um lencinho minúsculo.)
Como é possível um lencinho assim tão pequeno? Tanto pior,
o meu está limpo. (Joga-o fora.)
J u l ie t t e
Oh, mas eu não vou gritar! Não vou gritar, juro. . .
senhor Pedro! Gustave, Gusta. . .
(Êle a amordaça.)
G ustave
Pronto, minha pequena. Se pensa que está no baile dos
ladrões, engana-se; eu sou um ladrão de verdade. Hector e
o Duque de Miraflor também. Mas êles, além disso, são uns
imbecis. Você se iludiu a si mesma, nada mais, e sua tia,
que é uma velha biruta, se iludiu ainda mais. Eu estou
aqui para dar um golpe, e é o que vou fazer. (Ela se agita.)
V am os... vam os... Não tente me comover. Já conheço

188
esse truque. (Começa a encher os sacos com os objetos mais
inverossímeis que vai encontrando na sala. Depois de um
tempo, olha-a e sente remorsos.) Está muito apertado? (Ela
faz que não com a cabeça.) Bem. Você é boa moça. Entende,
minha filha, eu lhe dei umas cantadas, mas, no fundo, era
por nada. Só pensava no golpe. (Ela se agita.) Não se
aborreça... Sim, eu sei, não foi muito decente. Que quer
você? Em tudo que é ofício há uma pequena parte que não
é muito decente. Fora isso, sou honesto, à minha moda.
Exerço meu ofício com simplicidade. Sem floreios. Não sou
como Peterbono nem Hector, Peterbono é o Duque de Miraflor.
A gente tem que fazer com limpeza o que faz, ou senão não é
possível viver. (Olha-a com o canto do olho.) Não está
apertando mesmo? (Sorri para ela.) Fico um pouco chateado
de fazer isso com você, porque, no fundo, eu lhe menti há
pouco. Eu gosto um bocado de você. (Recomeça a trabalhar.)
Mas, afinal, que quer? Quando Deus inventou os ladrões,
de alguma coisa teve de privá-los. Privou-os da estima da
gente honesta. No fundo, não é tão mau assim. Podia ter sido
pior. {Dá de ombros, dá uma risadinha, sem se atrever a
olhá-la.) Daqui há pouco, você vai ver, ninguém mais sequer
se lembrará disso. {Continua a empilhar objetos. Ela se
agita. Êle a observa.) Se estou levando algo de que gosta,
pode dizer. Deixarei para você, como lembrança. Tenho
muito gôsto em lhe fazer um presentinho, ora! {Ela olha para
êle, êle fica embaraçado, p á r a ...) Oh, não me olhe dêsse
jeito. Me parte o coração. Você pode ver muito bem que
eu estou fazendo isso só porque não tenho outra coisa a
fazer. E então? Deixe-me fazer o meu trabalho em paz.
{Ela se mexe.) Está se sentindo mal? Ao menos, não está
se sufocando? Juliette, se você jura que não vai gritar, lhe tiro
a mordaça. Jura? {Ela faz que sim.) Está bem, vou confiar
em você. {Tira-lhe a mordaça.) Que é que você vai me
dizer agora? Que eu sou um verdadeiro ladrão? (Senta-se,
resignado.)

J u l ie t t e (Assim que êle tira a mordaça.)

É absurdo! Completamente absurdo! Desamarre essas


cordas.

189
G u stave
Ah, isso não! Sou bom, mas levo a sério o meu tra-
balho.
JULIETTE
Mas pelo menos me ouça!
G ustave
Que é que você quer dizer?
J u l ie t t e
Se pus meu casacão de viagem, se vim encontrá-lo aqui,
não foi para bancar a idiota amarrada numa cadeira. Sei
muito bem que você é um ladrão. Se você não fôsse um
ladrão de verdade, eu nunca pensaria que você fôsse partir
no meio da noite, sendo um convidado de minha tia.
G u stave
O que foi que deu em você?
J u l ie t t e
Estou lhe dizendo há mais de uma hora que o amo! Vi
tirar um carro da garagem, imaginei que fôsse um ladrão de
verdade e que hoje à noite você daria o golpe. Como achei
que assim que tivesse dado o golpe, você partiría em viagem,
me vesti para ir junto. Você não pretende ficar?
G u stave
Isso é pergunta que se faça a um ladrão?
J u l ie t t e
Então me leve junto, estou lhe pedindo...
G ustave
Mas eu sou ladrão. ..
J u l ie t t e ( Exclama, exasperada.)
Eu sei que você é ladrão! Você não pára de repetir
isso. Eu me pergunto como é que todo o mundo não percebe.
Vamos, desamarre minhas mãos.

190
G ustave
Mas Juliette...
J u l ie t t e
Desamarre-me as mãos. Está me doendo muito.
G ustave
Você jura que não vai fugir para avisar sua tia?
J u l ie t t e
Claro que juro. Ah, como você é bobo!
G u sta v e
Confio em você, mas não estou entendendo nada.
(Desamarra-lhe as mãos. Ela imediatamente empoa-se.
Depois levanta-se, decidida.)

J u l ie t t e

Já perdemos um quarto de hora. Ande depressa. Não


devemos ser apanhados agora. Você já tem o suficiente aí?
(Indica os sacos com o pé.)
G ustave
Que está fazendo?
J u l ie t t e
Oh, realmente, você me faz duvidar de sua presença de
espírito. É preciso lhe repetir tudo. Afinal, você gosta de
mim, ou não?
G u sta v e
Oh, sim. . . mas. . .
J u l ie t t e
Bem. É o essencial. Agora, deixe-me falar. Gustave,
se você me acha agradável, eu amo você, e quero ser sua
mulher. Oh, tranqüilize-se. . . Se o estado civil o assusta,
não precisamos casar de fato! Pronto. A gora... (Apanha
um dos sacos.) Só vamos levar isso?

197
G u stave (Arranca-lhe o saco das mãos.)
Não, Juliette! Você não sabe o que está fazendo. Eu
não quero isso. Você não pode fugir comigo. Que iria
fazer?
J u l ie t t e
Eu o ajudaria. Ficarei de guarda. Assobiarei quando
alguém se aproximar. Sei assobiar muito bem. Ouça.
(Assobia incrivelmente alto.)
G u sta v e (Espavorido.)
Psiu! C uidado!...
(Silêncio. Êles escutam.)
J u l ie t t e (Humildemente.)
Perdão. . . Sou uma idiota. Me leve com você. Juro que
assobiarei mais baixo, e só quando fôr necessário.
G u stave
Juliette, isso é um capricho seu, você está zombando de
mim, é errado.
J u l ie t t e
Oh, não! Não creia nisso. De modo algum! Eu amo
você.
G ustave
Mas sabe a que vida você está se expondo?
J u l ie t t e
Sim. Me abrace.
G ustave
Juliette, é o fim da sua tranqüilidade.
J u l ie t t e
A minha tranqüilidade estava me matando. Me beije.
G u sta v e
Juliette, afinal de contas, você não deixava de ser feliz
aqui. Você não sabe o que significa fugir e sentir mêdo.
Está habituada ao luxo.

J 92
J u l ie t t e
Mas nós seremos ricos com tudo isso que estamos levando.
Se lhe desagrada tanto que eu seja perseguida pela polícia,
abandonaremos o roubo.
G ustave
Os ladrões não são ricos. É muito difícil vender o que se
rouba.
J u l ie t t e
Então seremos pobres. Me beije.
G u stave
Tenho vergonha, Juliette.
J u l ie t t e
Você é um bobinho, meu querido. Me beije.
G u sta v e
Tenho vergonha, Juliette, tenho. vergonha.
J u l ie t t e
Não faz mal. Me beije.
(Beijam-se longamente.)
J u l ie t t e (Sai de seus braços, radiante.)
Eu sou feliz. Depressa, depressa, agora. . . (Pára.) Oh,
mas não está levando os pequenos esmaltes? Você é um bobo,
meu querido, é o que tem de mais valor. (Corre para despen-
durá-los.) E os pequenos Fragonards!. . . (Procura algo em
sua bolsa.) Deixa os candelabros, são falsos. . . Está vendo
como precisa de mim? Vou ajudá-lo, você vai ver. Me.
beije.
G u stave
Minha ladrazinha.
(Beijam-se, depois saem.)

PANO
7
193
QUARTO QUADRO
Uma hora mais tarde, no jardim de inverno.
A clarineta, que acaba de tocar o tema do baile,
retoma-o de forma nostálgica. .. Os personagens vol­
tam, um a um, de cabeça baixa, e sentam-se, deprimidos
e desanimados.

L ady H u r f
Evidentemente, é ridículo.

H ector
Seja como fôr, podiam ter nos deixado entrar.

L ady H u r f
É ridículo. Que idéia escrever o nome dos bailes em
letras tão minúsculas. Os franceses são maníacos pela eco­
nomia!
L ord E dgard
Mandaram-nos embora da maneira mais lamentável pos­
sível.
E va
Que quer o senhor, titio, êles haviam organizado um
Baile das Flores. Entende-se que nossas fantasias os tenham
assustado.
L ady H u r f
Um Baile das Flores! Que asneira! Baile das Flores!...

D u p o n t -D u fo r t P ai
O que me surpreende é que a senhora tenha podido
confundir Baile das Flores com Baile dos Ladrões.

197
L ady H u r f
O senhor, meu caro amigo, que tem tão boa vista, é
que devia ter lido os anúncios.
D u p o n t -D u fo r t P ai
Mas, que diabo. . .
D u p o n t -D u fo r t F il h o (Em voz baixa.)
Não seja imprudente, papai.
L ady H urf
Foi aliás por causa das fantasias dos senhores que o
nosso grupo não pôde entrar.
P eterbo n o
A mim, certamente teriam deixado entrar. Não sei por que,
pensaram que eu estava disfarçado de papoula.
L ady H u r f
Naturalmente! Nós todos poderiamos ter entrado. Foi
por causa deles... Mas que falta de gôsto! Olhem só para
êles! Parecem apaches!
D u p o n t -D u fo r t P ai
Mas, para um Baile de Ladrões, eu acho que. . .
L ady H u r f
De Flores! De Flores! O senhor não vai continuar falando
nesse Baile dos Ladrões o resto da noite!
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Não se excite, p a p a i... (Para Lady Hurf.) Estamos
desolados.
D u p o n t -D u fo r t P ai (Infetiz.)
Nunca mais faremos isso.
L ady H u r f
Já era tempo!

198
L ord E dgard
Quem sabe poderiamos passar a noite assim, entre nós,
ao menos para que o nosso esforço não fique completamente
perdido?
L ady H u r f
Você está doido, Edgard. Vamos trocar de roupa. Jo­
garemos bri.dge, como sempre.
(Suspira. Todos imitam-na.)
L ord E dgard
Ora, se fosse para jogar bridge. . . eu preferia ter ficado
com o meu bigode!
L ady H u r f (Aérea.)
Eu também! (Vai saindo. Para Peterbono.) Meu caro
Duque, perdoa-me esta noite perdida?
P eter b o n o (Dá uma cotovelada em Hector.)
A noite não foi totalmente perdida.
L ady H u r f
Na próxima vez, lerei melhor os cartazes, e iremos com
gente de mais bom gosto.
(Sai junto com Eva e Lord Edgard.)
P eterbo n o (Saindo pelo outro lado, para Hector.)
O anel. As pérolas.
H ector
Carteira.
P eterbo n o
Perfeito.
( Os Dupont-Dufort ficam sós.)
D u p o n t -D u fo r t P ai
A coisa vai mal.
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Muito mal.

799
D u p o n t -D u f o r t P ai
Esses sujeitos estão aqui com a mesma finalidade que
nós, é evidente, mas tudo os favorece e nós não temos vez.
D u p o n t -D u fo r t F il h o (Ante um espelho.)
E dizer que nos fantasiamos tão bem!
D u p o n t -D u fo r t P ai
Não para um Baile de Flores.
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Quem foi que teve a idéia de organizar um Baile de
Flores!
D u p o n t -D u fo r t P ai
Pior ainda é ler Baile de Ladrões num cartaz onde está
escrito Baile das Flores. Que velha estúpida!
D u p o n t -D u f o r t F il h o (Mostrando a sala, através do janelão
aberto, exclama.)
Papai!
D u p o n t -D u fo r t P ai
Que foi?
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Olhe a parede!
D u p o n t -D u fo r t P ai
Sim, e daí?
D u p o n t -D u f o r t F il h o
Os Fragonards!
D u p o n t -D u fo r t P ai
Você há de convir que num momento desses não sinto
nenhuma vontade de me extasiar ante a pintura.
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Papai! Os Fragonards não estão mais na parede!
(Precipita-se na sala.)

200
D u p o n t -D u fo r t P ai
E daí?
D u p o n t -D u fo r t F il h o (Dentro da sala.)
Nem os esmaltes! Levaram os candelabros de bronze,
as tabaqueiras; as gavetas estão abertas. {Volta.) Papai, houve
roubo aqui.

D u p o n t -D u fo r t P ai (Levantando-se.)
Saiamos daqui. Dirão que fomos nós.

D u p o n t -D u fo r t F il h o
O senhor enlouqueceu? Nós estávamos no baile, junto com
os outros. Papai, a casa foi assaltada!

D u p o n t -D u fo r t P ai (Que foi ver.)


É evidente, a casa foi assaltada. Mas por que essa
alegria? Isso não vai nos ajudar em nada.

D u p o n t -D u fo r t F il h o
O senhor não compreende que, se assaltaram a casa en­
quanto estávamos no Cassino, as suspeitas só poderão cair
sobre alguém cuja ausência inesperada todo o mundo notou?
Quem foi a pessoa cuja ausência todos comentaram?

D u p o n t -D u fo r t P ai
O jovem Pedro?

D u p o n t -D u fo r t F il h o
Claro! O jovem Pedro!

D u p o n t -D u f o r t P ai
Então, nesse caso, os outros eram os seus cúmplices?
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Eles são cúmplices. Foram conosco, sem dúvida, para não
despertar suspeitas, mas agora já devem ter fugido, ou irão
partir a qualquer momento.

201
D u p o n t -D u fo r t P ai
Ah, Didier, você é magnífico! Você dá novas forças a
seu velho pai. Me dê um abraço! Finalmente, êles foram
desmascarados. Estão liquidados, filhote, e nossos negócios
nunca estiveram em melhor pé.
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Isso tem de ser definitivo. Eles não poderão negar nem
fugir. Telefonemos imediatamente para a Delegacia de Polícia.
( Vai ao telefone.) Alô. Senhorita, me ligue com a Delegacia
de Polícia, rápido. . .
D u p o n t -D u f o r t P ai (Que anda de um lado para o outro na
sala ao lado, urrando.)
Os Fragonard! Os esmaltes! Os candelabros, as taba-
queiras! Duas gavetas arrombadas! Magnífico!
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Alô? É da Polícia? Aqui, é da vila dos^Boyards) Um
roubo de importância acaba de ser cometido. Sim,-os ladrões
ainda estão aqui. Poderão apanhá-los em flagrante. Venham
depressa. Muito depressa.
D u p o n t -D u fo r t P ai (Volta radiante.)
Um abraço, filhote.
(Os dois se abraçam.)
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Chamemos a todos e vamos pô-los em confusão. (Vai até
aporta.) Olá! Pessoal!... V enham !... Olá!
D u p o n t -D u fo r t P ai
Olá, olá!
L ord E dgard (Entra sem fantasia, como o farão todos os
demais.)
Que foi que houve?
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Acaba de ser cometido um roubo.

202
L ord E dgard
Hoje em dia isso não surpreende a mais ninguém. Onde
foi?
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Ora, aqui. . .
L ord E dgard
Aqui?
D u p o n t -D u fo r t P ai (Muito excitado.)
Aqui, aqui mesmo, naquela sala!
L ord E dgard
Naquela sala? O que foi que roubaram?
D u p o n t -D u fo r t P ai ( Como um camelô.)
Os Fragonards! Os esmaltes! Os candelabros! As taba-
queiras! As gavetas! Entre! Entre!
(Lord Edgard entra na sala, e volta para despencar ern
uma cadeira.)
L ord E dgard
Ê horrível, eu já desconfiava.
D u p o n t -D u f o r t P ai e F il h o (Juntos.)
Nós também!
L ord E dgard
Vocês sabem quem foi?
D u p o n t -D u fo r t P ai
Suspeitamos!
L ord E dgard
Eu também, (Entra Eva.) Minha filha, fomos rou-
bados.
E va
Gomo assim?
D u p o n t -D u fo r t P ai (Recomeçando.)
Os Fragonards! Os esmaltes! Os candelabros! As taba-
queiras!

203
E va
Alegro-me pelos candelabros, eram medonhos. Mas é uma
pena por causa dos Fragonards.
H ector (Entrando triunfante, com um nôvo disfarce.)
Eva, desta vez acertei!
E va
Não.
L ord E dgard (Salta sobre êle.)
Finalmente! É êle! Ah, meu caro detetive, o senhor não
imagina como chegou bem na hora. Um roubo de importância
acaba de ser cometido. Suspeitamos de uns impostores que
estão hospedados aqui por um estranho capricho de minha
prima. O senhor deverá prendê-los imediatamente, meu caro
detetive.
E va
Mas o que deu no senhor, titio? Êsse é o príncipe Hector.
Tire essa barba de uma vez, Hector!
H ector (Tirando a barba, com modéstia.)
Sim, sou eu, meu caro Lord.
L ord E dgard (subitamente furioso.)
Vai continuar zombando de mim por muito tempo ainda,
meu rapaz?
H ector (Que recua imperceptivehnente rumo à porta.)
Mas eu não estou zombando do senhor, meu caro Lord. . .
L ord E dgard
Admito que brinquem comigo, embora não fique muito
bem fazer essas coisas com um homem de minha idade. Mas
repetir isso três vezes por dia, é demais.. .
H ector
Mas eu não estou zombando de. . .
(Está junto à porta. Choca-se com os Dupont-Dufort,
pai e filho, que o seguiram.)

204
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Não.
D u p o n t -D u fo r t P ai
Não. O senhor não está zombando dêle. Fique, então.
Tudo vai se arranjar.
H ector
Enfim, que quer dizer isso? Desconfiam de mim?
E va
Senhores, peço-lhes que soltem o príncipe Hector!
H ector
Não é mesmo, Eva? Que insensatez!
L ady H u r f (Entra com Peterbono.)
Por que estão todos gritando? Fazem um barulho hor­
rível!
P eter b o n o
Positivamente, ninguém se entende mais.
L ord E dgard
Ê terrível! Um roubo monstruoso! Eu já desconfiava.
Eu lhe disse que êle morreu em 1904 e que esses são uns
impostores.
D u p o n t -D u fo r t P ai (A o m esm o te m p o .)

Os Fragonards! Os esmaltes! As tabaqueiras! Os cande­


labros! As gavetas!
L ady H urf
Por favor, fale um de cada vez. Não compreendi nada.
Primeiro, deixem-me sentar. Estou exausta.
(Durante os gritos dos outros dois e o silêncio que se
segue, Hector faz sinais desesperados a Peterbono para que
fujam. Peterbono pensa que está com a manga dobrada, que
tem uma mancha nas costas, ou alguma coisa pendurada atráA.
Esfrega-se, olha-se nos espelhos, sempre sem compreender. Por
fim, desiste de procurar, e dá de ombros.)

205
L ady H u r f ( Sentada.)

Vamos. Conte-me isso.


Peterbono (Muito simpático, sentando também.)
Excelente idéia! Conte-nos tudo.
L ord E dgard (Muito depressa.)
Eu já lhe tinha dito que êle morreu em. . .
D u p o n t -D u fo r t P ai (Junto com êle.)
Tudo! Tudo! Tudo! T u d o !... Os Fragonards...
(Param ao mesmo tempo e se olham.)

E va
Foi um roubo, titia.
L ady H u r f
Um roubo?
E va
Sim. Durante nossa ausência, levaram os pequenos esmaltes,
os Fragonards e, creio eu, também os candelabros.
L ady H urf
Tanto melhor, eram de bronze falsificado.
L ord E dgard
Eu tinha dito! Eu tinha dito!

L ady H u r f
Algum empregado, sem dúvida. Não falta nenhum?
E va
Não sei.
D u p o n t -D u fo r t P ai
É preciso chamar a polícia.
L ady H u r f
Não.

206
D u p o n t -D u fo r t P ai
Gomo não?
L ady H urf
Eu disse não. Não quero saber de polícia em minha
casa.
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Mas nós já telefonamos, Milady.
L ady H u r f
Mas, enfim, senhores, que modos são êsses? Quem manda
nesta casa? Os senhores me parecem muito sem-cerimônia,
últimamente.
D u p o n t -D u fo r t F il h o
Contudo, nós. . .
D u p o n t -D u fo r t P ai
Nós. ..
L ady H u r f
Eva. Telefone para que não venha ninguém.
D u p o n t -D u fo r t P ai
Tarde demais. Já devem estar a caminho.
(Hector e Peterbono haviam se dirigido suavemente até
a porta. Quando Lady Hurf proibiu que se chamasse a polícia,
pararam, na expectativa. Com essas últimas palavras, tentam
bruscamente escapar.)
D u p o n t -D u fo r t P ai
Olhem só. Estão fugindo!
D u p o n t -D u f o r t F il h o
Oh, é demais! Nós a salvaremos, mesmo contra a sua
vontade. Mãos ao alto!
D u p o n t -D u fo r t P ai
Mãos ao alto!
(Apontam-lhes revólveres.)

207
L ady H u r f
Senhores, estão em minha casa! Peço-lhes que guardem
essas armas |
, D u p o n t -D u fo r t F il h o
Não!
D u p o n t -D u fo r t P ai
Não! A senhora nos agradecerá mais tard e ...
L ady H urf
Eva, eu vou ter uma crise de nervos! Chame os criados.
Emile! Alguém, depressa! joseph! Qualquer um!
Os P oliciais (Entram ouvindo esses chamados.)
Aqui estamos! Sosthene, você agarre o gordo! (Viram
aquelas terríveis caras de bandidos, ameaçando aqueles nobres
com armas. Não hesitam. Precipitam-se sobre os Dupont-
-Dufort.) Ah, bandidos! Estão presos!
D u p o n t -D u fo r t P ai e F il h o (Recuam.)
Mas. . . mas. . . não somos nós. . . Não somos nós! Pelo
contrário. . . Fomos nós que telefonamos. É absurdo! São
êles!
( Chocam-se um no outro ao recuar, depois tomam a se
chocar querendo fugir, durante um pequeno balé bufo, cuja
figura final é a captura deles pelos policiais.)
Os P o liciais (Qjue os carregam nos ombros, com movimentos
de acrobatas de circo.) .
Pronto! (Para Hector.) Quer nos dar uma mãozinha,
abrindo a porta? Seria muito bom!
H ector
Com muito gosto! Com muitíssimo gôsto!
( Os policiais levam os Dupont-Dufort, a despeito de seus
protestos lancinantes.
L ord E dgard (Desesperado.)
Mas, minha cara amiga. ..

208
L ady H u r f (S evera .)
Edgard, cale-se.
D u p o n t -D u fo r t P ai ( Carregado, urrando em vão.)
Mas digam-lhes alguma coisa, vamos! Digam-lhes alguma
coisa...
D u p o n t -D u fo r t F il h o (A o passar perto de Eva.)
Senhorita Eva!. . .
Os Dupont-Dufort são levados, nos ombros dos policiais,
saudados por seu pequeno estribilho.)
L ady H u r f (Tranquilamente.)
Muito bem, estou satisfeita! Há três semanas que essa
gente estava aqui e eu não sabia como me livrar deles.
L ord E dgard (Vencido por essas emoções, tomba, semides-
maiado, em uma poltrona.)
E dizer que vim aqui tratar do fígado!
L ady H u r f
Eva, vá depressa buscar os sais para o seu tio.
(Eva sai. Lady Hurf olha Peterbono que, após a prisão
dos outros, sufoca tomado de um ataque de riso incontrolável.)
L ady H urf
Meu caro, não vale a pena rir tanto assim, sei perfeita-
mente que o senhor é o verdadeiro ladrão. (Êle p&ra, de
repente. Ela procura algo em seu bôlso.) Devolva-me as
pérolas. O senhor não é tão sabido assim.
P eter b o n o
Como se explica isso?
L ady H urf
O senhores têm muita bagagem? Demora muito para
arrumá-la?
P eter b o n o ( Infeliz.)
Oh, não.

209
L ady H u rf
Então aconselho-os a fazer as malas depressa.
P eter b o n o
Oh, sim !...
H ector (Entra, soberbo.)
Pronto, Milady, os malandros estão agora em boas mãos.
(Peterbono tosse.)
H ector
Não está se sentindo bem, meu querido pai?
L ady LIu r f
Não. Ele não está muito bem. Leve-o depressa aos
seus aposentos.
H ector
Realmente, mas o que está sentindo o senhor?
L ord E dgard (Q,ue voltou a si.)
Você está vendo agora que o Duque de Miraflor morreu
em 1904.
L ady H u r f
Eu já sabia disso há muito tempo, meu caro.
H ecto r (Sempre sem compreender os sinais de Peterbono,
brincando.)
Ah, ah. . . É aquela velha brincadeira!
L ady H u r f
O Duque morreu em meus braços, ou quase. Portanto,
eu sabia perfeitamente com quem estava tratando. Mas eu
estava me aborrecendo tanto, meu caro Edgard!
H ector ( Conseguindo enfim aproximar-se de Peterbono.)
Mas, afinal, o que houve?
P eter b o n o
Imbecil, há uma hora que estou tentando lhe dizer: fomos
descobertos, mas ela nos deixa dar o fora daqui.

210
H ector
Como? Mas se acabam de prendei- os .outros?
L ady H u r f (Indo até eles, sorridente.)
Eu penso que os senhores não desejam esperar a visita
do delegado de Polícia.
H ector
Mas isso é inadmissível! De que somos acusados? Pas­
samos tôda a noite ao seu lado.
P eter b o n o
Não queira bancar o esperto. Vamos!
H ector
Eu não o entendo, meu caro pai! Somos seus convidados,
minha senhora, e êsse roubo não é motivo para tratar-nos
assim, a nós, uns Miraflor y Grandes!
P eterbo n o (Não pode conter uma risadinha, apesar da
gravidade da situação.)
Miraflor y Grandes! Ah! ah! Você está louco. Vamos.
L ady PI u r f
Vá de uma vez, meu senhor, é o conselho de todos!
H ector
Não admito êsse tom! (Para Peterbono.) Não nos deixemos
rebaixar.
E va (Entrando.)
Aqui estão os sais.
H ector
Não admito êsse tom! Porque se a senhora considera a
nossa presença indesejável, eu me rio — entendeu? — de
suas suposições absolutamente errôneas e injuriosas. Sei de
alguém que não depende da senhora, e que deseja a minha
presença! Eva, Eva, meu amor, finalmente encontrei minha
cara!

211
( Vira-se, e disfarça-se ràpidamente como estava na primeira
cena.)
P eter b o n o
Hector, pare com essas bobagens! O delegado está para
chegar.
H ector (Que está se disfarçando.)
Deixe-me. Estamos salvos.

L ady H u r f (Sentando-se, abatida.)


Edgard, se essa menina, que é extremamente voluntariosa,
tornar a apaixonar-se por êle, o caso é sem solução.

L ord E dgard
Não compreendo absolutamente nada. Que é que êle
está fazendo? Mais uma brincadeira? Êsse moço brinca
demais.
H ector ( Voltando-se, triunfante.)
Eva, meu amor! Eva! Não era assim?
(Silêncio. Eva olha-o, todos contêm a respiração.)

E va (Tranquilamente, no silêncio.)
Ê verdade. Era assim. Mas eu devo ter olhado muito
depressa para o senhor. . . Agora, não me agrada, de modo
algum.
L ady H u r f (Salta.)
Deus seja louvado! Rua! Rua!

H ector
Mas, vejamos, Eva. . . É inconcebível. . .

P eter b o n o (Em voz baixa.)


Dê o fora depressa, seu idiota. Ela me tomou de volta
o colar, mas fiquei com o anel.
(Saem, muito dignos. Uma musiquinha alegre saúda a
saída dêles.)

212
L ady H u r f ( Os vê partir com um sorriso enternecido.)
Pobres coitados! Deixei que levassem meu anel. Afina),
ficaram quinze dias aqui por minha causa. E não temos o
direito de fazê-los perder seu tempo. O ofício deles não deve
ser muito lucrativo.
. L ord E dgard
O que eu não entendo é que função tinha o mais môço.
(As duas mulheres olham-no, subitamente angustiadas.)
L ord E dgard
O mais môço. . . Vocês sabem, que era tão simpático?
E va
Juliette? Onde está Juliette?
L ady H u r f
Juliette? Não foi ao baile. Não está no seu quarto? Ou
numa sala lá em cima? No jardim?
E va
Vou ver. Oh, é uma suposição absurda!
L ord E dgard
Não estou compreendendo bem. De que suposição se trata?
(Lady Hurf cai sentada no sofá, brinca nervosamente com
suas pérolas.) Por que êsse ar trágico, agora que tudo ter­
minou?
L ady H u r f
Mas não, tudo ainda, não terminou, imbecil! Esse rapaz
roubou Juliette, junto com os quadros do salão. Eu bem lhe
disse para ser enérgico e tomar precauções, senão ia nos acon­
tecer uma desgraça!
E va (Retornando.)
Não está lá em cima. Os criados estão procurando no
jardim.
L ady H u r f
É horrível.

213
L ord E dgard
Juliette, nossa pequena Juliette teria sido roubada?
E va
Sim,
L ord E dgard
Mas ela é grande! Pode se defender. Gritar por socorro.
A casa está cheia de criados.
L ady H urf
Você então não compreende que êle a seduziu? Irá
obrigá-la a roubar, ou a fazer a vida.
L ord E dgard (Sem compreender.)
Fazer a vida? ( Compreendendo subitamente.) Fazer a
vida!
(Despenca. A clarineta toca uma música que julga ser
trágica. Silêncio. Os três meditam dolorosamente. A música
retoma o tema trágico, porém zombando dêle, passando a seguir
a tema romântico, muito adequado ao momento. Com efeito
Gustave entra lentamente, na ponta dos pês. Carrega tanta
coisa nos braços que não enxerga bem por ande anda. Traz
Juliette adormecida e os sacos. Atravessa o salão no tempa da
música, sem que os demais, contra todas as evidências, os
vejam. Subitamente, choca-se com uma cadeira. Os sacos
tombam com grande ruído. Os outros sobressaltam-se, os veem,
e lançam exclamações.)
L ady H urf
Êle a matou!
(Tremolo na orquestra. Gustave fica com mêdo. Quer
depositar a môça adormecida sôbre um sofá, mas, com os gritos,
ela abriu os olhos, e agarra-se a êle.)
J u l ie t t e

Não! Não! Não! Por que você me trouxe de volta?. . .


Não. Êle não deve ir embora, ou eu irei junto com êle!

L ady H urf
Juliette...

214
L ord E dgard
Minha criança. . .

J u l ie t t e ( Grita-lhes com todas as forças, o rosto coberto de


lágrimas.)
Sim. Vocês o desprezam, eu sei, mas eu o amo! Não
tentem me convencer, vou partir com êle porque o amo.
Não procurem me dizer nada, eu só ficaria detestando vocês.
Gustave... Gustave.. . Por que você me trouxe de volta?
{Êle se debate. Quer escapar, mas ela o retém.) Não, fique,
ou me deixe ir com você. Por que me trouxe de volta, Gustave?
Achou-me muito bôba, muito ingênua? Foi porque eu caí no
sono ao seu lado no automóvel que você não me quis mais?
Sim, é verdade, geralmente as pessoas não caem no sono na noite
de sua aventura. .. Mas eu estava cansada, meu amor, e estou
acostumada a me deitar cedo.
( Oculta a cabeça nêle.)

L ord E dgard
O que foi que ela disse?

L ady H u r f ( Comovida.)
Vamos, cale a bôca. Foi tão bonito o que ela disse!

J u l ie t t e (Liberta-se como- uma pequena fúria e se vira para


eles, sem soltar Gustave.)
Não, não me envergonho! Não, não me envergonho!...
Vocês podem dizer tudo o que quiserem, jamais sentirei ver­
gonha. .. Eu o amo, quero que êle seja meu amante, uma
vez que vocês não o aceitarão nunca como meu marido.
Olhem, vou beijá-lo na frente de vocês.
(Atira-se ao pescoço dêle. Êle hesita, de início, depois a
vê despenteada, o rosto desfeito em lágrimas e sério, e termina
também por esquecer os outros.)

G ustave
Eu a amo, Juliette.

215
JULIETTE
Está vendo, nos beijamos na frente deles,
(Beijam-se.)
L ord E dgard (Que pôs seu lornhão.)
Mas. . . estão se beijando!
L ady H u r f
Pois bem! Sim. Estão se beijando. E d a í? ... Isso
nunca lhe aconteceu? (Contempla-os encantada.) Eles são
encantadores. . .
L ord E dgard ( Comovido.)
É verdade. Você se lembra, Emily?
L ady H u r f
Fazem um par tão bonito.
L ord E dgard (Entregue às suas lembranças.)
Muito bonito! Você se lembra. . . O Palácio de Cristal?
L ady H u r f
Os dois são da mesma altura. Êle é belo. Olhe só que
perfil de classe. Tôda essa timidez delicada, e ao mesmo tempo,
essa fôrça. Será o marido ideal para a nossa e terrível doce
Ju liette... {Pára.) Mas o que é que você está dizendo,
Edgard? É um ladrão.
L ord E dgard (Sorrindo.)
É, sim! Um ladrão. . .
L ady H urf
Mas então, é impossível. Perdemos o senso. Será preciso
pô-lo no ôlho da rua.
(A música cessa de inopino, chocada.)
L ord E dgard ( Contrariado.)
O h !. . . Mas êles se am am . ..

216
L ady H u r f
Sei disso, mas é absolutamente necessário. É um dever.
Ela não pode casar com um rapaz que não tem pai nem
mãe.
L ord E dgard
O h ! ... (Procura violentamente alguma coisa. Súbito
exclama.) Esperem! Esperem!
( Gustave e Juliette, surpresos com seu grito, param de se
beijar. Êle atravessa o palco correndo como um louco e
sai.)
L ady H urf
Onde vai o seu tio, Eva?
J u l ie t t e
Eu não o deixarei jamais! Não o deixarei jamais! Não
o deixarei jamais!
G ustave (Apertando-a contra êle, em tom de explicação.)
Nós nos amamos.
(A clarineta lança uma pequena súplica.)
L ady H u r f
Eu percebo, mas que querem que eu faça? Você não tem
ninguém ■
—• ou pior ainda. Terá que ir-se.
(A clarineta torna a suplicar.)
J u l ie t t e
Se êle se fôr, eu vou junto!
L ady H urf
Desta vez, nós a impediremos. (A clarineta torna-se lanci­
nante para implorar. Lady Hurf dirige-se furiosa ao instru­
mentista.) E para começar, meu amigo, o senhor já está me
aborrecendo. Dê o fora! (A clarineta tenta protestar.) Saia
daqui imediatamente!
(Corre com êle. O músico se vai, patético, exprimindo seu
desespêro com seu instrumento.)

217
L ord E dgard (Entra como um bòlido, trazendo uma fotografia,
fitas, medalhas. Avança ameaçadoramente para Gustave.)
Você tem vinte anos, não tem?
G u sta v e
Sim.
L ord E dgard
Bem. (Olha várias vêzes a fotografia, recua fechando um
ôlho, como um pintor ante um quadro.) Levante a cabeça. ..
Perfeito. Abra o paletó, a camisa. Mais acima. Perfeito.
Agora, o sinal da orelha. (Ergue o lóbulo.) Bem! (Mostra-lhe
uma medalha.) Reconhece esta medalha?
G ustave
Não.
L ord E dgard (Joga-a.)
Não tem importância. Você é meu filho! Meu filho
roubado em tenra idade!
( Cai em seus braços■)
L ady H urf
Mas Edgard, você está louco?
G u sta v e (Soltando-se, furioso.)
Deixe-me, senhor, eu não entendo o que foi que lhe deu.
(Para Juliette.) O que tem êle?
L ord E dgard (Para Lady Hurf.)
Você seria capaz de negar que me foi roubado um filho
natural, em tenra idade? (Para Gustave.) Atreve-se a negar
que não sabe quem são os seus pais? Não. Não. Você é meu
filho, meu filho querido. Meu filho!
(Cai novamente em seus braços.)
J u l ie t t e (Pulando de alegria.)
Oh, que bom, que bom, G ustave!...
G u sta v e (Libertando-se bruscamente.)
Não! Isso não funciona.

?1 H
L ord E dgard
O que é que não funciona?
G ustave
Eu tenho certeza de que não sou seu filho.
L ord E dgard
Quer dizer então que esperei vinte anos para que o Céu
me desse de volta êsse menino, e agora que o Céu dignou-se
a devolvê-lo, êle se recusa a me reconhecer como pai?
G u sta v e
Não. Tudo isso são truques porque o senhor viu que a
pequena está apaixonada por mim, mas eu não posso aceitar.
L ady H urf
Êle é honesto.
L ord E dgard
Isso é horrível! Horrível! Meu filho me renega. {Bate
o pé.)
G ustave
Não, não posso aceitar. É muito amável, o que o senhor está
fazendo por mim, muito amável. Mas não posso aceitar. Não
sou um tipo da classe de vocês.
L ady H u rf

Não deixa de ser uma pena que êsse menino seja o


único de nós que tem um senso de casta.
L ord E dgard
Sinto-me horrivelmente humilhado pelo desprezo de meu
filho. É doloroso demais. (Afunda-se de dor na poltrona mais
próxima.) Pronto, estou sofrendo. Você irá me deixar so­
frendo muito tempo?
L ady H u rf
Poderia talvez aceitá-lo, meu senhor. Veja como sofre
o seu pai.

219
G ustave
Mas não, vejamos. Não tenho motivo algum.
JULIETTE
Oh! sim. .. Venha comigo ao jardim, como antes. Vou
lhe explicar todos os motivos que você tem. Vamos. Venha
de qualquer jeito. . . Você não se compromete vindo comigo
ao jard im ...
(Puxa-a.)
L ady H u r f (Assim que eles saem.)
Edgard, isso não é verdade! Você nunca teve um filho
roubado em tenra idade.
L ord E dgard
Não. Não é verdade. Era uma fotografia recortada de
uma revista.
L ady H u rf
De modo que você se fêz de bôbo durante cinqüenta
anos, e foi capaz de inventar sozinho tudo isso!
E va ( Que- assistiu toda a cena sem dizer nada.)
Como ela vai ser feliz!
L ady H u r f ( Olhando-os se -afastarem, sonhadora.)
Sim.
E va
E eu continuarei interpretando o meu papel de môça bonita
que faz muito sucesso.
L ady H u r f
Minha pobre Eva! Que quer você? Crer não é coisa
que se aprenda. Acabou, a nossa bela aventura. Estamos
sós, novamente, como rolhas. Só para os que interpretaram
com tôda a sua juventude a comédia saiu boa, e isso porque
estavam interpretando sua própria juventude, o que sempre dá
certo. Nem sequer perceberam que se tratava de uma co­
média!

220
U m Se n h o r de B arbas (Entrando.)
Sou o detetive da agência Scottyard.
L ord E dgard (Lança um rugido, atira-se contra êle e puxa-lhe a
barba.)
Ah, não, meu caro senhor! Isso não pega mais!

O D etetiv e
Pare! O senhor enlouqueceu! Está me machucando!
L ord E dgard (Muito surpreendido.)
Gomo, a barba é sua?

O D etetiv e
Claro que sim!
L ord E dgard
O senhor é realmente o detetive que encomendei à agência
Scottyard?
O D etetiv e
Pois não foi o que eu lhe disse?
L ord E dgard
Então, não precisamos mais do senhor: *a peça terminou.
O D etetiv e (Galante.)
Neste caso...
( Tira a clarineta do bolso — pois êle também era o
músico — e começa a tocar um andante animado, que serve
de final à peça, e que todos os personagens, entrando por tãdas
as entradas, dançam trocando de barbas.)

FIM

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